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Catarinense de 19 anos se destaca com texto montado pelo Club Noir – curitiba.pr

“A obra de Martina Sohn Fischer avança em direções até agora não trilhadas pela dramaturgia, ampliando a experiência estética do nosso tempo, através da invenção de outras linguagens, isto é: de outras formas de vida.”

Crítica: “Aqui” é um acontecimento extraordinário na dramaturgia

Receber um elogio desses de um dos mais importantes diretores teatrais do Brasil atualmente, Roberto Alvim, não é pouca coisa. Ainda mais para quem tem apenas 19 anos e, até um ano e meio atrás, levava uma vida tranquila em uma cidade do interior de Santa Catarina.

Nascida em Porto União, descendente de família alemã, Fischer viu muita coisa mudar em sua vida após se transferir para Curitiba em 2011 e, principalmente, ter sua peça “Aqui” montada neste ano pelo Club Noir (grupo de Alvim e Juliana Galdino) –como parte da Mostra Brasileira de Dramaturgia Contemporânea.

“Bah, foi lindo demais. Tudo isso aconteceu muito rápido e, quando o Roberto me deu a notícia de que tinham selecionado o meu texto, foi realmente uma surpresa!”, escreve ela em entrevista feita através do Facebook, ao qual está sempre conectada.

Guilherme Pupo/Folhapress
A dramaturga Martina Sohn Fischer em sua casa em Curitiba
A dramaturga Martina Sohn Fischer em sua casa em Curitiba

INFÂNCIA

Revezando seu tempo entre a vida em casa, a escola, as brincadeiras nas ruas e as leituras por todos os cantos, Fischer conta que cresceu tomando gosto por manipular as palavras, o que relaciona com o próprio modo de vida que levava no interior.

“Sempre fui uma criança muito livre. Lembro que, desde que comecei a escrever, o que eu mais gostava era de ter essa liberdade. Essa mesma liberdade infantil, de inventar coisas e viver nelas.”

A escrita, naquele momento, surgiu ainda sem relação direta com a dramaturgia, já que a maior escola era a literatura, não o teatro. “Eu até frequentei algumas aulas de atuação, mas nunca levei jeito para a coisa”, conta.

Na leitura, por outro lado, Fischer partiu logo cedo dos livros de Júlio Verne e dos romances policiais para seguir pelos mundos de Bukowski, Jack Kerouac, John Fante, Faulkner e Kafka.

Foi em 2010, através de um projeto oferecido por sua escola, que acabou caindo “por total acaso” em um núcleo de dramaturgia desenvolvido na cidade vizinha (União da Vitória), onde assistiu a uma palestra de Roberto Alvim.

Quando se mudou para Curitiba, em 2011, Fischer passou a frequentar o curso quinzenal que o diretor ministra na cidade. Em contato cada vez maior com o mundo teatral –e com as obras de Heiner Müller, Strindberg, Sarah Kane, Beckett etc.–, a nova dramaturga começou a “parir” suas primeiras peças, entre elas “Aqui”.

PERDER O CONTROLE

“Eu sentava para escrever e eu era mil coisas, menos a Martina”, conta. “Começo a escrever por pulsões desconhecidas e, quando vejo, sinto que sou parasita da obra. Eu peço mais a ela e ela me dá. Esse tipo de relação é uma loucura, perder o controle da própria obra é uma experiência que também está ligada com a liberdade.”

Questionada sobre o temor de perder algo dessa liberdade após o reconhecimento precoce e com a expectativa que pode se criar em torno de seu nome, Fischer responde:

“A responsabilidade é da obra, então, depois de terminada, eu só tenho que continuar escrevendo. E as obras se criam sozinhas, só preciso parir. Não que seja fácil! Mas esse ‘fazimento’ acontece em um lugar desconhecido, onde não é nem possível pensar na recepção que a obra vai ter, ela simplesmente se dá, é imprevisível e instável.”

Preocupação maior, por enquanto, é se preparar para prestar o vestibular no fim do ano, para entrar no curso de filosofia na Universidade Federal do Paraná.

 

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MARCOS GRINSPUM FERRAZ
COLABORAÇÃO DE

BBB 12 ENCOLHE: dois brasileiros se deram conta da patifaria cultural alienante que a GLOBO produz e SAÍRAM FORA DA LAMA!

…”o ambiente pré casa, ainda no hotel, já era insuportável tamanha a baixaria e as exigências”…

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Empresária carioca desiste de participar do BBB 12 antes da estreia

Fernanda foi a segunda participante a desistir antes do início do programa.
Reality show começa na próxima terça-feira (10).

Fernanda (Foto: Divulgação/TV Globo)Fernanda (Foto: Divulgação/TV Globo)

O a produção do BBB 12 anunciou que a empresária Fernanda Girão, de 29 anos, desistiu de participar do programa antes mesmo de sua estreia. Segundo a produção, “ainda em confinamento no hotel, a empresária carioca pediu para sair antes do início do programa”. O nome do participante que vai substituída ainda será anunciado pela produção do ‘BBB 12’. A 12ª edição do reality show estreia na próxima terça-feira (10).

Fernanda é a segunda participante a desistir antes de o programa começar.

Netinho (Foto: Divulgação/TV Globo)
Netinho foi o primeiro a desistir (Foto: Divulgação/
TV Globo)

Na quinta-feira, o participante Netinho também desistiu de participar do programa um dia após o anúncio do elenco do BBB 12. Advogado de 28 anos, Netinho era um dos quatro mineiros do elenco de doze pessoas anunciado e em confinamento desde na quarta (4) .

g1.

JORGE LUIZ BALBYNS e JORGE LESCANO conviadam: em São Paulo

 

O   C A N T O   D O   C I S N E

 

 

O canto do cisne é uma das peças curtas de Anton Tchekhov escrita em 1897.

 

No desenrolar do texto, surgem os dois únicos personagens: Vânia e Nikita, ator e o ponto do teatro, respectivamente. Vânia, ator-personagem de 68 anos, traz em si questionamentos que revelam profunda solidão e angústia humanas. Por outro lado, como uma visão “sobrenatural”, surge o ponto, personagem esse que reforça a metalinguagem teatral, servindo de apoio para os devaneios histriônicos e autobiográficos da personagem central, Vânia.

 

Do camarim, embriagado, surge o personagem Vânia, em conflito com sua própria história de ator de 68 anos, mergulhado na sua realidade decadente e vil. A chegada de Nikita (o ponto) instiga (o ator) Vânia, carente e desiludido, abandonado a sua própria sorte, a representar, de maneira eloquente sua vida através de trechos de espetáculos e personagens supostamente vividos por ele em sua trajetória, tais como Rei Lear, Hamlet e Otelo e recita trechos de poesia de Boris Godunov, obra prima do maior poeta romântico russo, Alexander Puchkin. Esses momentos se confundem e tornam o texto cada vez mais denso e intrigante.

 

“Testar” a atualidade do teatro de Tchekhov através da leitura segundo Brecht e Beckett. O distanciamento do alemão e a identificação da decrepitude, característica dos personagens do irlandês. Seria possível esta leitura? Tal o desafio proposto.

 

A pesquisa sobre o texto incluiu o reconhecimento do momento histórico em que a obra foi escrita. Tratava-se de um momento de transição tanto estética quanto política na Rússia tzarista. Em verdade, a mudança estética retratava o momento político. Nesse contexto surgem os personagens decadentes, niilistas, anarquistas, e também os humilhados e ofendidos, os marginados, os esquecidos, retratados tanto por Tchekhov quanto por Turgueniev, Dostoievski, Tolstoi e Máximo Gorki, último escritor russo e primeiro soviético. Todos eles, nas palavras de Dostoievski, surgidos do Capote de Gógol, texto fundador da literatura russa associada ao realismo.

 

Talvez a característica que diferencie Tchekhov dos seus contemporâneos seja o humor particular, irônico e melancólico a um só tempo. Esta característica o aproxima dos vagabundos e despojados de Beckett, espécie de clowns sem circo. Seres exilados da vida sem sair do palco da realidade cotidiana. Também a permanência dos seus problemas permite que sejam representados e assimilados pelo público com a mesma atualidade de sua estréia no século XIX.

 

Parece não haver contradição ou traição ao autor ao relacioná-lo com as atuais poéticas teatrais. Antes, trata-se de atualizar também a pesquisa, que no momento da estréia obrigava Stanislavski a criar novos métodos de atuação. A pertinência desta escolha fica clara pelo resultado obtido.

gilmar mendes, ministro do stf, QUE ONTEM, 29/09/2010 PEDIU VISTAS DO PROCESSO QUANDO A VOTAÇÃO PARA NÃO EXIGÊNCIA DE DOIS DOCUMENTOS PARA VOTAR JÁ ESTAVA 7X0 , PORTANTO, MATÉRIA ENCERRADA, GILMAR MENDES TOMOU ESSA ATITUDE APÓS RECEBER TELEFONEMA PESSOAL DE JOSÉ SERRA.

REPUGNANTE.

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Quinta, 30 de setembro de 2010, 11h12  Atualizada às 12h01

Líder do PT: Espero que Mendes não tenha atendido Serra

Eliano Jorge


Serra, no momento em que teria telefonado para Gilmar Mendes
(foto: Rodrigo Coca/ Fotoarena/ Especial para Terra)

Líder do PT na Câmara, Cândido Vaccarezza prefere acreditar que não foi por interferência do presidenciável tucano José Serra que o ministro Gilmar Mendes interrompeu julgamento do Supremo Tribunal Federal (STF), nesta quarta-feira (29), sobre a necessidade de apresentação de dois documentos para votar em 2010.

Ele mede as palavras para não criar problemas com o STF:
– Temos muito cuidado em fazer uma guerra contra o Supremo. A esperança que tenho é que o ministro Gilmar Mendes não tenha tomado esta decisão por conta de um pedido do candidato Serra – afirmou, em conversa com
Terra Magazine.

Afirmando que aguarda a conclusão do julgamento nesta quinta-feira, Vaccarezza imagina que será confirmada a permissão para se votar apenas apresentando um documento com foto, algo visto como favorável ao PT, por incluir a participação de pessoas mais pobres.

Leia a entrevista.

Terra Magazine – Como o PT reagiu à notícia de que o ministro Gilmar Mendes interrompeu o julgamento do Supremo Tribunal Federal após telefonema do candidato do PSDB, José Serra? O partido tomará algum providência sobre isso?
Cândido Vaccarezza –
Nós temos muito cuidado em fazer uma guerra contra o Supremo. A esperança que eu tenho é que o ministro Gilmar Mendes não tenha tomado esta decisão por conta de um pedido do candidato Serra. Acho que o ministro Gilmar Mendes vai devolver o voto dele hoje (quinta-feira, 30) e está resolvido o problema.

Há possibilidade de a votação, que estava em 7 a 0, ser modificada. Os ministros podem mudar seus votos.
Não, os votos podem ser modificados, mas vamos aguardar o voto hoje do ministro Gilmar

O senhor acredita que a votação seguirá do jeito que estava, sem interferência?
Eu acho que seguirá do jeito que estava porque o fundamental que a Constituição garante é o direito do eleitor votar.

P R E C E de jorge lescano / são paulo



Oratório para Gerente (solo recitativo) e Balconistas (coreto gregoriano)

SOLO

Nós te louvamos, ó, Grande Deus dos Homens de Comércio!

CORO

Nós te louvamos e Te imploramos

SOLO

que neste dia que começa, nos envies fregueses complacentes e cheios de boa vontade para estes

CORO

os últimos dos Teus servos!

SOLO

E que nossos patrões

CORO

digníssimos filhos Teus

SOLO

fiquem satisfeitos com a profissão que escolheram. Se assim fizeres, nós

CORO

humildemente

SOLO

derramaremos, sobre Teus alvos pés de mármore, lágrimas de gratidão sincera. A Ti

CORO

ó, Grande Pai do Lucro!

SOLO

que jogas voluptuosamente em nossas mãos uma cascata de papel moeda

CORO

que nunca é nosso e não é como se fosse

SOLO

a Ti, que tens o tato certo e indicas certeiramente aos fregueses o que devem comprar e pagar, sem reclamar, em cada dia de suas existências

CORO

remetemos nossa humilde prece.

SOLO

Tu, que distribuis singelamente o valor das prestações

CORO

que a Tua Graça devemos

SOLO

Tu, que a ninguém negas a ilusão colorida dos cartazes de propaganda

CORO

estampas milagrosas

SOLO

TU!

CORO

A quem nós todos

SOLO

igualados pelo consumo

CORO

pagamos!

SOLO

Direta

CORO

e indiretamente

SOLO

o tributo por Ti designado e codificado com a claríssima sigla ICM

CORO

impressas em nossas testas com letras de fogo!

SOLO

Tu, Todo Poderoso Rei das Caixas Registradoras

CORO

Plin, plin, TRAC!

SOLO

Música de Tua Igreja, não deves, no dia de hoje, negar Tua infinita bondade a estes

CORO

Teus servos incondicionais

SOLO

sempre dispostos a render-Te culto

CORO

dando cada vez menos e pedindo cada vez mais

SOLO

e não guardando para nós nada além do que Teus sacerdotes

CORO

nossos patrões!

SOLO

achem por bem nos conceder como preço de nossa honestidade.

CORO

Nós te imploramos, ó, Grande Deus!

SOLO

um dia de bem-aventurança nas transações que faremos

CORO

de-sin-te-re-sa-da-men-te

SOLO

para Tua maior glória e sublime satisfação. E que Teus sacerdotes, sempre alegres e esfregando as mãos, não menosprezem

CORO

a nossa mísera função de escravos!

SOLO

E que os fregueses

CORO

esse mal necessário de Tua liturgia

SOLO

Não nos compliquem a vida com exigências além do que humanamente poderemos lhes oferecer. Esclarecei-os, também

CORO

só isso te pedimos!

SOLO

Sobre as verdadeiras intenções dos out-doors e displays.

CORO

Enfia-lhes

SOLO

em suas cabeças ocas, o senso de percepção correto dos reclames, para que não cheguem, depois, dizendo que os produtos por nós vendidos em Tua Honra, não são os mesmos anunciados nos jornais. E por último

CORO

Ó, Grande Deus das Vitrines! Dono do Rádio e da Televisão! Pai das Revistas e Jornais

SOLO

sem descartar, é claro, os folhetos e similares

CORO

Espírito da Casa da Moeda! Suprema Divindade dos Bancos e Financiadoras

SOLO

esses templos subsidiários

CORO

Rei dos céus vastos e poluídos das megalópoles, Príncipe das Plantações e das manadas, Padroeiro de festejos familiares

SOLO

do Dia das Mães, e das Vovós, e das Criancinhas

CORO

tão bonitinhas!

SOLO

e de todo relacionamento comerciável, nós te suplicamos

CORO

de joelhos

SOLO

que não nos deixes cair em tentação e que afastes

CORO

de nossas ingratas mãos

SOLO

todo e qualquer contato herético com a doutrina de Carlos Marx

CORO

aquele alemão

SOLO

anticristo de Tua Igreja, se assim fizeres

CORO

Ó, Grande e Poderoso Mercúrio!

SOLO

não teremos mais nada a te implorar e trabalharemos, séria e servilmente

CORO

para maior glória de Tua raça Divina

SOLO

e para maior Lucro dos teus ministros seculares

CORO

nossos patrões

SOLO

sairemos daqui para te oferecer nossos salários na primeira loja que encontremos

TODOS

MONEY!!!

TEMA PARA UM DRAMA NÔ – por jorge lescano / são paulo

Para a Mestra Eico Suzuki

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Ah! Viracocha,

Senhor de toda luz nascente,

Criador,

Quem és Tu? Onde estás?

Oração Inca

Paul Claudel deu uma definição, hoje famosa, sobre a Arte (esta a denominação correta, pois a tradução literal do japonês é atuação). Diz ele que no teatro ocidental algo acontece, no teatro, alguém chega. Discordo desta opinião. Em um palco vazio, desprovido de qualquer cenografia, o fato de alguém chegar é um grande acontecimento, especialmente quando esta chegada é parte estrutural da obra. De fato, a peça se inicia quando o waki (personagem que introduz os temas da obra, narra os antecedentes e situa o espectador no tempo e lugar da mesma) entra pela passarela localizada ao fundo, à esquerda do palco propriamente dito. A diferença, então, é outra. Parafraseando, diria que se no teatro europeu, dito ocidental, algo acontece, na Arte algo é narrado. Creio que o relato a seguir se presta a uma encenação dentro dos padrões da estética da Arte Nô, por se tratar de um teatro narrativo, de pouquíssima e codificada movimentação. Os fatos apresentados são reais, registrados nos anais da conquista da América; com os devidos ajustes corresponderia ao tipo de peça masculina ou guerreira – não há equivalência ou semelhança de gêneros entre o teatro europeu e a Arte Nô. O termo drama do título tem o sentido genérico de ação teatral.

Numa tarde de 1550 agoniza o último grande sacerdote do culto de Viracocha, deus supremo do panteão inca, ao seu lado vela o humilde padre Cristóbal Molina, o Cuzquenho, – filho do conquistador Francisco Molina e de uma princesa inca –, pregador do evangelho entre os índios do hospital de Cuzco. O moribundo, índio de estirpe nobre, sabe que com ele morrerão os deuses de sua nação. Cabe a ele salvar o cosmo dos seus ancestrais. Com um gesto convoca o pároco, este aproxima o ouvido da boca do velho. A voz fraca, pausada, chega como de outro mundo. Na sala miserável revela segredos do céu e do inferno de um povo do qual o outro – podemos supor – se sente distante, estranho, no entanto, apressadamente, anota as palavras sagradas.

O índio morreu deixando frases inconclusas, talvez promessas de redenção. Dezessete anos antes Atahualpa, último Imperador Inca, estava certo de que seus deuses lutavam por ele, porém, morreria no inicio da catequização na América e nas mãos dos estrangeiros que chegavam para salvar os bárbaros e lhes ensinar a verdadeira religião. Na mística inca o retorno era certo, sempre que o corpo não fosse consumido pelo fogo.

No momento da chegada dos espanhóis, Atahualpa, filho bastardo do recentemente falecido Senhor Huaina Cápac, acabava de vencer seu meio-irmão Huáscar na luta pelo poder supremo do Império. Não por outro motivo se encontrava o novo Imperador em Cajamarca, descansando. Mais tarde, já prisioneiro nessa mesma localidade, manda matar Huáscar, que até ali havia sido preservado do extermínio do seu clã graças a sua origem divina. As desavenças e a morte de um dos adversários determinaram a sorte do Império Inca. Tivessem desembarcado os estrangeiros um ano mais tarde e Atahualpa estaria em Quito, nova sede do Império, e a história do continente seria outra. A distância entre Túmbez, local do desembarque espanhol, e a nova capital, seria intransponível para o pequeno grupo de invasores que desconhecia os obstáculos dessa terra. Os planos dos estrangeiros pareciam favorecidos pelas circunstâncias políticas do país. E podem ter sido interpretadas por eles, mais tarde, pois as ignoravam ao chegar, prova da determinação divina, aumentando a sua confiança.

Segundo alguns autores, o Inca foi condenado à morte por uma questão de dinheiro.

Capturado Atahualpa durante a visita de cortesia que fazia aos espanhóis acampados nos banhos de Cajamarca, todo o ouro e a prata que chegassem serviriam para pagar seu resgate: havia prometido encher de prata duas salas, e de ouro outra sala até a altura de um homem com os braços levantados (o próprio Imperador serviu de padrão e ali se traçou uma linha vermelha). Diego de Almagro, sócio do seu capturador Francisco Pizarro, ausentara-se na hora do seqüestro procurando novos territórios a ser explorados, por tal razão ele e os seus homens não teriam direito ao butim. Ao seu regresso, Almagro sentiu-se traído. Concluiu que era necessário que desaparecesse a causa do acordo entre o Imperador e seu conterrâneo, só assim se poderia voltar às relações no ponto em que se encontravam antes de sua partida e da captura do Inca. Atahualpa devia morrer para que os negócios na Nova Castela não se deteriorassem. Esta reles questão financeira selou o destino de um dos homens mais poderosos do mundo.

(É possível que os acontecimentos não se dessem exatamente assim. Houve partilha antes da morte de Atahualpa, da qual Almagro e seus homens não foram excluídos. Creio que a minha memória arranja os acontecimentos segundo a conveniência ficcional, é o que diferencia a literatura da história.)

Condenado Atahualpa, os generosos conquistadores ofereceram ao prisioneiro os benefícios da religião do verdadeiro Deus, caso não os aceitasse iria para a fogueira como herege. No patíbulo o Imperador abjurou de suas crenças e beijou a cruz para não perder a alma, ganhou então o direito de ser submetido ao torniquete dos malfeitores. Há quem diga que no batismo assumiu o nome do seu algoz: Francisco. Antes de morrer pediu a Pizarro que tomasse conta dos seus filhos, o espanhol teria aceitado o encargo enviando os príncipes para a matriz, não há notícias do destino deles na Espanha.

Mais importante que as conjeturas sobre a execução de Atahualpa são as conseqüências do ato arbitrário.

Após a execução, durante o ofício religioso oferecido ao corpo do Imperador, chegaram à igreja algumas mulheres de Atahualpa solicitando aos espanhóis que os funerais fossem realizados em local maior, pois era costume que quando um grande senhor morria, todos aqueles que o queriam bem fossem enterrados vivos com ele. Os estrangeiros responderam que ele havia morrido como cristão, o que proibia o cumprimento daquele costume bárbaro. As solicitantes se retiraram aos seus lares e ali se enforcaram. Apenas duas delas sobreviveram e percorriam o lugar com brados lamentosos ao som de tambores, contavam as façanhas do seu marido.

Quando os espanhóis deixaram Cajamarca, os súditos do Inca penetraram na capela em que fora depositado o cadáver do seu Senhor, embalsamaram-no segundo o costume e o sepultaram, porém o túmulo jamais foi encontrado. É provável que o corpo do Inca tenha sido transportado para Quito, sua cidade natal.

A morte do Imperador não acalmou os ânimos dos invasores. Os desentendimentos entre os espanhóis se agravaram e Almagro e Pizarro, que haviam assinado a sentença contra Atahualpa, receberam o castigo imposto pelos seus compatriotas. Vencido em combate pelas forças de Pizarro, Almagro foi julgado, condenado e decapitado. Pizarro era acompanhado por quatro dos seus irmãos, todos eles tiveram morte violenta nos anos que se seguiram, oito anos depois da execução do Inca, Francisco Pizarro é assassinado e sepultado às escondidas, feito um criminoso. Se os dois capitães da conquista estavam mortos, não suas ambições, provocando novas lutas entre seus partidários. É de notar que durante o ano em que Atahualpa esteve preso apenas um espanhol morreu, vitimado numa partida de baralho, ou dados, entre patrícios.

Naquele crepúsculo de 1550 em Cuzco, o último sacerdote de Viracocha transmitiu ao representante de outra crença os segredos de sua doutrina para que o mundo não acabasse com ele. (Mais de quatrocentos anos mais tarde um erudito, Dr. Rafael Aguilar, transcreverá no dialeto de Castela as palavras sagradas ditadas em língua quíchua.) Em 1566, em Madri, frei Bartolomé de las Casas morre pedindo clemência por ter estimulado a escravidão, acreditou por algum tempo que a importação de negros teria aliviado o sofrimento dos índios. Apesar dos seus pecados sorri e agradece a ventura de ter vivido.

Estes são, resumidos, alguns dos lances do enredo. O verdadeiramente importante, todavia, não pode nem deve ser revelado, a Arte Nô é feita de sugestão, não de afirmações. Contudo, eu me pergunto quê sentiu o cristão naquele momento em que a cosmogonia dos seus ancestrais desmoronava. Que abismos terá vislumbrado? Se a transcrição das palavras sagradas não era compaixão, vã curiosidade ou mero exercício literário, que mistérios acrescentaram à sua alma dividida? Eu, por demais ocupado com a sobrevivência cotidiana, sou incapaz de embrenhar-me em tais segredos.

SENHORES CORRETAMENTE VESTIDOS por jorge lescano / são paulo

SENHORES CORRETAMENTE VESTIDOS

(Fila de um homem só)

Projeto Descritivo da Coreografia

Duração do espetáculo: 30 minutos.

Técnica utilizada: Klaus Viana.

Música: Som ambiente das ruas e texto anexo em off.

Cenário: Rua(s) do centro da cidade.

Figurino: Roupas de passeio.

Adereços: Nenhum.

Senhores Corretamente Vestidos é uma pesquisa de aplicação da técnica Klaus Viana de Consciência Corporal à representação de situações dramáticas.

O corpo do bailarino-ator desenvolve, em momentos sucessivos, os movimentos básicos da dança: Projeção e Translação. O tema da obra foi retirado do cotidiano da cidade de São Paulo: uma fila, espécie de instituição informal brasileira. A expressão corporal dramatiza os personagens representando o figurino (ausente) mencionado no título, que vai se modificando a medida em que chegam outras personagens para se integrarem à fila-dança.

Do ponto de vista da seqüência de movimentos (coreografia), o projeto inova o conceito de dança. Aqui, o movimento não é “ilustrativo” da música, antes, contracena com o ruído das ruas – gravado quando apresentado em teatro –  e obedece às indicações do texto, que funciona como rubrica .

O bailarino constrói a figura indicada pelo texto, permanece estático por alguns instantes, permitindo que o espectador tome consciência da presença do personagem. Depois constrói a personagem seguinte deslocando-se para o lugar que lhe é designado. O vidro no qual se reflete a figura integra o ambiente – urbano: pedestres e veículos se encenado na rua; no caso de apresentação em teatro, o fundo do palco terá como cobertura espelhos ou outro material que permita a reprodução visual do intérprete e a inclusão da platéia no espetáculo. O efeito final da obra deverá sugerir uma seqüência de fotogramas, ou um friso em alto-relevo, observados da esquerda para a direita, segundo a ordem de nossa leitura. Na seqüência, sem interrupção, a “fila” é desfeita. O bailarino desconstrói as figuras em sentido inverso, da direita para a esquerda, como num espelho, retornando ao local da partida (princípio da fila) representando o personagem inicial.

Para a Ficha técnica

Texto: Jorge Lescano

Intérprete (Voz e dança): Jorge Balbyns

(sem título I)

señora primera la de lado al posta se ,vestida correctamente tan no ,señora otra ,señor primer del ,mire se según, atrás o lado al posta se ,vestida correctamente ,señora uma ;vidrio de puerta de la delante posta se vestido correctamente señor un:um senhor corretamente vestido se posta diante da porta de vidro; uma senhora, corretamente vestida, se posta ao lado ou atrás, segundo se olhe, do primeiro senhor; outra senhora, não tão corretamente vestida, se posta ao lado da primeira senhora; outro senhor, não tão corretamente vestido quanto o primeiro, se posta atrás ou ao lado, depende da escolha do observador, da segunda senhora; um jovem, meticulosamente desalinhado, se posta ao lado do segundo senhor, não tão corretamente vestido quanto o primeiro, como já foi dito; uma jovem, ligeiramente desalinhada, se posta atrás do jovem meticulosamente desalinhado, um cavalheiro, ao qual não é possível chamar de desalinhado, porém tampouco de corretamente vestido, se posta ao lado da jovem ligeiramente desalinhada; uma dama, sobriamente vestida, se posta atrás do cavalheiro ao qual não é possível chamar de desalinhado nem de corretamente vestido; um ancião aparentemente ébrio e mal-trajado e surdo, a julgar pelo modo de inclinar a cabeça, se posta ao lado da dama sobriamente vestida, a qual, por contraste simultâneo, começa a parecer  elegante e fora de lugar, o que provoca os protestos de algumas das figuras mencionada, que pretendem ter postergadas suas prerrogativas. No vidro fumê se reflete o tênue estremecimento dos presentes: os primeiros senhores corretamente vestidos cedem suas vagas às senhoras corretamente vestidas, ficando eles em segundo lugar; por motivos de equilíbrio, as damas sobriamente vestidas ocupam a terceira vaga, que antes pertencia às senhoras não tão corretamente vestidas e estas passam a ocupar o lugar que ocupavam os senhores não tão corretamente vestidos; para variar, o espaço que era ocupado pelos senhores não tão corretamente vestidos, agora pertence aos jovens meticulosamente desalinhados, e a seguir, por razões de coerência interna, as jovens ligeiramente desalinhadas continuam próximas dos jovens meticulosamente desalinhados. Aqui, porém, surge um garoto desacompanhado e ligeiramente desalinhado à par de uma garota desacompanhada e meticulosamente desalinhada. Ambos duvidam do lugar que lhes cabe. Se o garoto estivesse corretamente vestido, poderia ficar depois do jovem meticulosamente desalinhado, servir-lhe-ia de apoio ou contraste, ainda que pertencendo ao mesmo gênero, deste modo, a garota meticulosamente desalinhada, apesar de reiterar o sexo, deveria ficar antes da jovem ligeiramente desalinhada, de quem seria uma espécie de amostra ou redução, no que diz respeito à idade, e, simultaneamente, sua proto-síntese, do ponto de vista da indumentária. No entanto, também poder-se-ia trocar este arranjo e, entre outras alternativas, o garoto ligeiramente desalinhado ficaria depois da jovem ligeiramente desalinhada, a diferença de sexos compensaria a identidade do atributo; então a garota meticulosamente desalinhada deveria ficar antes do jovem em igualdade adverbial e adjetiva, ganhando ambos o contraste de gêneros. Trata-se de uma questão que deve ser sanada imediatamente, pois os cavalheiros aos quais não é possível chamar de desalinhados porém tampouco de corretamente vestidos, sentem-se como perdidos ao ignorarem os valores da nova escala, enquanto os senhores não tão corretamente vestidos continuam esperando, e a esta altura quase não é possível diferenciá-los dos cavalheiros aos quais não se pode chamar de desalinhados porém tampouco de corretamente vestidos, e mais além, quase avulsos, vê-se os anciães surdos e presumivelmente ébrios e mal-trajados. Instintivamente, a garota desacompanhada e meticulosamente desalinhada, se posta entre o jovem meticulosamente desalinhado e a jovem ligeiramente idem, criando assim a

ilusão de não mais estar desacompanhada. Como o observador poderia prever, o garoto desacompanhado se

posta entre a garota acompanhada e meticulosamente desalinhada e a jovem ligeiramente desalinhada, resolvendo o impasse da seguinte forma: um jovem meticulosamente desalinhado, uma garota meticulosamente desalinhada, um garoto ligeiramente desalinhado, uma jovem ligeiramente desalinhada. A reciprocidade do advérbio dá um certo ar de família aos quatro elementos em foco e decide aos cavalheiros aos quais não é possível chamar de desalinhados, porém tampouco de corretamente vestidos, a se postarem ao lado das jovens ligeiramente desalinhadas; a seguir, os senhores não tão corretamente vestidos deslocam os anciães surdos e presumivelmente ébrios e positivamente mal-trajados para a curva, fora do alcance deste vidro. Ainda assim, os supracitados anciãos, atraindo o olhar do observador, se postam ao lado dos senhores não tão corretamente vestidos, fazendo com que este pareça corretamente vestido do seu lado e ambiguamente vestidos na transversal, uma vez que vizinhos dos cavalheiros aos quais, o que significa, para o observador, outra evidente violação da norma pré-estabelecida e que exige uma reordenação imediata. Para que as violações apontadas não fossem incorporadas à rotina pelos participantes do evento, tornar-se-ia necessário, em prol da simetria original, que o observador se postasse no vértice do ângulo formado pelos senhores não tão corretamente vestidos e o ancião surdo e presumivelmente e positivamente, e que uma senhora idosa e de figurino oposto ao do ancião, para compensar a ausência de reflexo, se postasse ao seu lado, antes do sol reproduzir a imagem dele no vidro fumê da lateral. Contudo, a anciã corretamente vestida não pode surgir pelo simples desejo do observador. Assim sendo, este, na impossibilidade de esperar, sob pena de que um senhor portador de guarda-chuva ou uma senhora de xale bordado, corretamente vestido ou mal-trajada (os), entravem o andamento, e para não interromper a seqüência, opta por  iniciar a série seguinte:  seguinte série a iniciar para opta ,seqüência a interromper não para e ,andamento o entravem ,(os) mal-trajada ou vestido corretamente ,bordado xale de  senhora uma ou chuva-guarda de portador  senhor um que de pena sob ,esperar de  impossibilidade na ,este ,se