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NATUREZAS MORTAS – por jorge lescano / são paulo.sp

N A T U R E Z A S   M O R T A S

© Lescano

Com dezessete anos descobri a pintura surrealista e acreditei que o mundo tinha me dado todas as respostas de uma vez; o surrealismo era o fim de todas as incógnitas surgidas com o aparecimento do homem no planeta. Tal ilusão é perfeitamente compreensível num rapaz tão novo, sem experiência de vida e de artista.

Uma das soluções fáceis era apelar para o aspecto literário da obra visual, e isto se conseguia dando títulos paradoxais ou simplesmente obscuros.

Vem-me à mente o Nu esotérico, quadro nunca pintado pelo meu amigo, o artista colombiano Rodrigo Barrientos, que não era surrealista, mas gostava de brincar com as palavras associadas aleatoriamente às imagens virtuais.

Naquela época longínqua pintei uma mulher sentada numa cadeira em atitude de abandono, como se estivesse muito cansada e/ou angustiada, pois o rosto não era visível e as mãos descansavam lassas sobre as coxas. O resto do quadro – em tons de cinza, como correspondia ao tema – era um ambiente indefinido, sem móveis ou utensílios que permitissem identificá-lo. Poderia ser um quarto de hospital ou uma paisagem desolada, sem linha do horizonte. O título: Natureza morta.

Isto intrigou alguns amigos. Para eles a natureza morta era um gênero tradicional que apresentava a reunião de objetos inanimados. A minha obra era do gênero nu, alegavam. Tive então a oportunidade de exibir o meu recente conhecimento das teorias expostas por André Breton e companhia. Atividade cansativa, porém satisfatória para a vaidade do projeto de artista.

Anos mais tarde, curado da soberba do neófito, conheci a pintura expressionista e a obra de Edward Hopper.

Identifiquei no norte-americano algo do sentimento de minha obra juvenil. Suas mulheres solitárias enclausuradas em ambientes domésticos, em roupas de dormir ou nuas, sentadas, reclinadas, de pé, de frente ou de costas a janelas de luz crua, fazem-me pensar em naturezas mortas: seres de vida suspensa pelo pincel do artista. Algumas parecem esperar algo que as transforme, outras já nada esperam. Estas mulheres são a crônica de vidas frustradas em algo que nunca saberemos, mas que retorna toda vez que contemplamos o quadro. Este fascínio paradoxal se repete nas suas pinturas de casarões solitários em paisagens desoladas. Seus quadros param no limiar da revelação, como todas as grandes obras; exatamente o sentimento procurado pelo surrealismo. Sem a parafernália espalhafatosa de um Salvador Dali, estas obras não pretendem desvelar os mistérios da vida, mas os trazem a tona.

Arnaldo Jabor : Um Magnífico Vendilhão – por miguel dias

 
Sim, o cara escreve muito bem, do alto de seu pedestal, sabe escrachar como poucos, ou seja, é expert na arte de ridicularizar a quem lhe convier. Escreveu uma quase pomposa crônica criticando o que redundou na tragédia da Boate Kiss. Pra melhorar sua imagem, fez uns floreios culturais a cerca do que seriam as baladas. O homem tem cultura, reconheço.
Volteou, foi, voltou; como esperto jogador, preparando o blefe escreveu algumas verdades e, no fim, ficou com uma meia acusação aos jovens que rotineiramente frequentam tais ambientes; refiro-me a quando ele pergunta o que leva tais jovens àqueles ambientes. Inteligente e ardilosamente, ele não responde, por exemplo, que a Rede Globo, sua empregadora, é uma das principais responsáveis por tal comportamento. Com sua programação intencionalmente voltada para estupidificar o povo brasileiro, é talvez a maior produtora desse aculturamento musical a que ele se refere.
Após este “fechamento” manhoso, onde leva os trouxas a achar que ele está falando de forma magnífica, aproveita o ápice emocional atingido para, lá de cima de sua tribuna privilegiada – sim, ele tem acesso a toda imprensa, a tal imprensa que acusa nossa presidente de censura e que, no entanto… mas vejamos o que ele aprontou – lá decima de sua excelsa tribuna aproveita que todos já quase o estão aplaudindo seu brilhante discurso e descarrega sua fuzilaria na Presidente Dilma, como se o problema que redundou em tantas mortes fosse coisa desses últimos dez anos. Vá ser hipócrita na PQP!
O aculturamento do brasileiro já vem de décadas, será que nosso magnífico vendilhão não sabe? Sabe e até melhor do que eu, só que não lhe convém admitir, pois é comprometido com essa TV corrupta. Joga uma “tirada” e sai fazendo pose. Acusa a presidente de estar faturando com a tragédia… Ora, quem mais do que a imprensa, da qual este engraçadinho faz parte, está tirando proveito? Só mesmo um tolo não vê: é um prato cheio para estes oportunistas de redação.
Inteligente o cara é, já quanto ao caráter, é lamentável dizer, fede. Fede a jogo sujo, corrupção: não necessariamente corrupção de suborno – esta é apenas a mais conhecida – a corrupção da palavra, o uso pernicioso desta com a finalidade de tentar perpetuar no poder uma elite – esta sim – sabidamente corrupta na acepção mais comum; uma elite que se locupletou com a miséria de milhões de brasileiros, que, agora, estão saindo desse patamar humilhante, e pondo em cheque a estabilidade de um sistema que começa a desmoronar a olhos vistos. Isto assusta os confortavelmente instalados nas tetas da grana pública.
Cristo teria dito “Amai-vos uns aos outros!” Um canalha destes ama alguém? Duvido!
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O sorriso de Mona Lisa – por jorge lescano / são paulo.sp

© Lescano

 

Mona Lisa deixou de ser apenas o quadro mais famoso do mundo para ser tema de escritos e pesquisas as mais disparatadas.

Na década de 1970 um médico japonês, utilizando os mais recentes recursos tecnológicos detectou na esclerótica do olho esquerdo da matrona – talvez fosse nos dois olhos – uma tonalidade esverdeada que denunciaria alguma afecção biliar. Concluía com seriedade científica: Algo muito perigoso numa mulher de sua idade.

Além de não se ter certeza se a obra retrata alguém – alguns a consideram uma espécie de equação matemática – o quadro foi pintado entre 1503-1506, uns 470 anos antes de este arguto médico ter nascido.

O interessante é que por um dia – e nisto refutava Andy Warhol – sua descoberta circulou por todo o mundo.

 

Já no início do século XXI, ou seja, 500 anos depois da feitura do quadro, dois pesquisadores italianos “descobriram” onde se localiza a paisagem que aparece no fundo da obra. O nome do lugar já esqueci. Grande erro de minha parte!

 

Em 2012 veio à luz outra Mona Lisa pintada por Leonardo. Qual é a réplica? Parece que os mistérios se acumulam à medida que vão sendo desvendados. Paradoxos das grandes obras.

 

Há também duas Mona Lisa “de Duchamp”. São reproduções em ofsete adquiridas em papelarias, uma delas mostra a matrona italiana com bigode, a outra, barbeada, isto é, como saiu da gráfica.

 

Nos últimos séculos por várias vezes o quadro ocupou as páginas policiais, fosse por agressões ou roubo, mas como boa filha adotiva sempre voltou ao Museu do Louvre, sua residência oficial, virgo intacta.

 

O romancista francês Pierre La Mure, que cultivava o subgênero histórico, publicou nos Estados Unidos, em 1975, A vida Privada de Mona Lisa, no qual a personagem título não é a mais interessante. Pessoalmente prefiro seu retrato do fanático monge dominicano Girolamo Savonarola:

Savonarola era realmente feio e fraco do peito, com uma testa baixa e um nariz enorme, curvado, que mergulhava sobre lábios grossos e úmidos. Sua feiúra era espantosa, inesquecível, e se tornava ainda mais impressionante por causa dos olhos brilhantes, profundamente recuados, que podiam ser os de um louco ou de um santo.

A descrição sugere um personagem dos Caprichos de Goya, se não um de Arcimboldo, ou mesmo uma das figuras grotescas dos cadernos de esboços do próprio Leonardo.

 

Em 1961 o pintor colombiano Fernando Botero vendeu ao Museu de Arte Contemporânea de Nova Iorque sua obra Mona Lisa aos doze anos. Na época o mundo não vivia ainda a psicose da obesidade – quem escreve isto segue todas as dicas de alimentação, usos e costumes errados porque teoricamente engordam, e não consegue aumentar 100 gr. à sua esquálida figura de cavaleiro sedentário. A pintura de Botero foi vista com condescendência bem humorada e em conseqüência deu ao artista excessiva fama internacional. Dentre suas figuras infláveis, a mais conhecida é a caricatura da obra de Leonardo da Vinci.

 

Alguém batizou o quadro de La Gioconda – a sorridente, em italiano – e aditou ao sorriso o epíteto de misterioso. Os séculos não passam em vão. Quem se atreveria, hoje, a negar-lhe tal qualidade?

Circulam diversas versões sobre o significado do sorriso de Mona Lisa – se pressupõe que o sorriso não signifique apenas sorriso.  Especula-se que o artista teria contratado bufões para entreter a modelo e lhe fixar os músculos faciais na posição exibida no quadro. Também se diz que a ela faltariam alguns dentes.

Em 2006, cientistas canadenses utilizaram alta tecnologia para descobrir que a modelo vestia roupas usadas unicamente por mães renascentistas e italianas. Segundo estes pesquisadores o mistério do sorriso se deve à gravidez de Lisa Gherardini, esposa de um abastado comerciante de Florença e provável modelo do quadro. Se ela não estava prenhe, diz a pesquisa, teria acabado de dar a luz o seu segundo filho. Neste caso a obra poderia ter sido encomendada para comemorar a efeméride familiar.

A Comunidade Internacional, com sua autoridade imanente, opina que nem a família Gherardini nem o próprio Leonardo podem ser responsabilizados pelo estardalhaço do retrato nos séculos seguintes. Não cabe a eles o mérito nem a culpa, conclui o relatório sobre o assunto.

Os Teóricos dos Astronautas do Passado suspeitam que o sorriso de la gioconda oculte sorrateiramente conhecimentos interplanetários confiados em sigilo ao pintor. Isto explicaria o ricto levemente irônico da matrona.

Talvez Mona Lisa, premonitoriamente, sorria da ingenuidade das massas que se aglomeram na sua frente em postura ritual de contemplação devota, alheias ao fato de estarem cumprindo um ato regido pela alma do negócio. De qualquer modo ela faz tanto sucesso quanto Madonna.

 

Na última exposição de Mona Lisa nos Estados Unidos, o número de visitantes foi extremamente alto. Alguém dividiu este número pelo tempo de exibição. O resultado é alarmante: cada espectador ficou diante do quadro – separado por um cordão de isolamento a mais de um metro de distância, com a obra protegida por um vidro a prova de balas que, previsivelmente, devia refletir as luzes da sala – entre seis e sete segundos. Cabe a pergunta:

— O quê foi que viram estas pessoas?

 

De Washington, DC, recebo este e-mail de um leitor:

hehe, exatamente isso… eu tive oportunidade de ir até o Louvre, e na sala da Mona Lisa tinha tanto, mas tanto coreano louco tirando fotos que eu resolvi ir comer uma baguete…

Um abraço, Manuel.   

 

Não quero finalizar a minha crônica – almejo que ela tenha divertido o meu leitor sequer secretamente, como a Mona Lisa se diverte – sem aportar ao tema o meu modesto descobrimento: O sorrir, como todas as coisas do universo, é tudo aquilo que não é outra coisa.

ARTISTAS E VACAS – por jorge lescano / são paulo.sp

O analista revelara à paciente que ela sofria de falsa identidade – ou como esses profissionais da escuta esotérica chamem esta perturbação da personalidade –: era uma vaca presa num corpo de mulher. Ela decidiu assumir seu verdadeiro EU. Começou a mugir e se fazer tatuar grandes manchas negras na pele branca.

Sem que se conhecessem, ela vivia a metamorfose almejada pelo poeta. Este, em protesto pelo descaso da plebe ignara com a ninfa Eco, sonhava ser uma vaca, malhada, de nome Gertrudes, como os irlandeses chamam as fêmeas do seu gado bovino, segundo James Joyce num romance do argentino Ricardo Piglia

 

O pintor Paul Klee, nascido na Suíça, herdou do pai a nacionalidade alemã e só recebeu a cidadania do seu país natal, solicitada sete anos antes, um dia depois de sua morte.

Alguém comentou – talvez seja apenas uma boutade, com esta ressalva figura numa biografia do artista – que a demora teve origem em um quadro no qual o pintor retratou um rebanho de vacas empilhadas, sugerindo que o país não tinha espaço suficiente para sua pecuária. Isto numa nação que se orgulha da qualidade do seu queijo e criou um gênero de canções dedicadas a este ruminante.

 

O romancista acordou e deu pela falta do seu manuscrito. O jornal não fornecia o título do romance. Um pouco afastada da árvore sob a qual o escritor dormira sua sesta de verão, uma vaca ruiva ruminava a sua merenda.

Tarde demais ele ficou sabendo que os nutrientes que este animal encontra no capim também estão no papel.

 

Com o passar das gerações a anedota ficou mais ou menos assim:

A senhora interrogava Claude Debussy sobre o método utilizado para suas composições.

– É muito fácil, eu pego todos os sons e retiro aqueles que não desejo usar – teria respondido o músico.

– Confesso que não entendo as suas melodias – disse a dama. – Eu apenas sei do que gosto e do que não gosto.

E o compositor:

– Como as vacas, minha senhora!

 

 

O ator dirigia a sua motocicleta em alta velocidade quando o ruminante estacionou no meio da estrada. Não houve tempo para desviar ou frear. O veículo bateu em cheio na massa de carne que na hora do impacto ganhou solidez de concreto.

A polícia rodoviária contou com a serra e a habilidade de um magarefe para extrair a cabeça e os ombros do motoqueiro do flanco da vaca.

Aquela noite foi de consagração do ator substituto. Em turnê pelo interior do estado, a companhia representava Androcles e o leão, de George Bernard Shaw.

 

Como descrever o assombro da vaca solitária ao contemplar com seu olhar bovino o jovem negro atravessar a cerca, armar seu saxofone e totalmente concentrado improvisar alguns compassos na sua frente e para seu exclusivo prazer, enquanto seus colegas, não menos surpresos que ela, esperavam o final do breve concerto à beira da estrada?

Quem disse que as vacas gostam de música?, deve ter pensado o animal ao ver o carro se afastar levantando uma nuvem de poeira.

A cena foi narrada por um integrante da banda de Charlie Parker presente na ocasião.

O SONHO DE BORGES – por jorge lescano / são paulo.sp

 

Si un hombre atravesara el Paraíso en un sueño,

y le dieran una flor como prueba de que había estado allí,

y si al despertar encontrara esa flor en su mano…

¿entonces, qué?

Samuel Taylor Coleridge,

 apud Jorge Luís Borges,

La flor de Coleridge

 

Eu tinha a certeza de que os misteriosos personagens eram anunciados durante uma entrevista das que Jorge Luís Borges concedeu a Osvaldo Ferrari e foram publicadas com o título de Diálogos pela editora Seix Barral, da Espanha. Com esta convicção fui à prateleira e com mão segura retirei o volume. Devia encontrar as páginas nas que apareciam o senhor ou a família Campbell; sabia que uma empregada ou secretária prestimosa os anunciava e reiterava sua presença em algum lugar da casa, na ante-sala, talvez na biblioteca. Nesta não, provavelmente é onde se davam os encontros entre o mestre e o entrevistador, gravador por meio.

Comecei a procurá-los no índice. Ingenuamente acreditava que os títulos poderiam me dar alguma orientação. Eu não lembrava qual era o tema tratado no caso. Confiando na intuição, pensei que relendo os títulos poderia ativar a memória e assim apressar meu encontro com o assunto procurado. Este tipo de pesquisa deu em nada, como é fácil prever. Apelei então para a memória visual.

Não é incomum reencontrar passagens de leitura ao percorrer as páginas de forma aleatória e vista panorâmica, guiado apenas pela lembrança da altura da linha e da posição da página na ordem das coisas, isto é páginas à destra ou sinistra. Novamente o resultado foi nulo. Então, já resignado a um trabalho mais minucioso, decidi encarar as 383 páginas do livro realizando algo que alguns chamam de leitura visual e que consiste em procurar palavras em negrito, em itálico ou simplesmente palavras que comecem com maiúscula. Não é necessário ser um Dupin para concluir que a letra impressa teimava em me ludibriar apesar de ter realizado a tarefa de trás para frente e em sentido inverso, e mais de uma vez, pois sabia que a citação estava ali, acaçapada mas não oculta na floresta de letras como a própria família Campbell em algum cômodo da casa. Após diversas tentativas de surpreender distraídos os escorregadios personagens, devolvi o livro à prateleira. Vi-me literalmente de mãos vazias e olhos em áscuas.

Sem dúvidas era em um livro de entrevistas e não em revista ou jornal onde havia lido o famoso nome dos Campbell. Existe na desordem de minha biblioteca algum outro volume de entrevistas?

Os djins que moram nas minhas prateleiras não só trocam os livros de lugar como, familiarizados com o ambiente e aproveitando meus lapsos de memória, vez por outra mudam a ordem dos assuntos dentro do volume e mais, transferem matérias e capítulos de um livro para outro.

Resmungando e de olhos fechados rememorei a sequência de obras que tratam de escritores: romances, contos, ensaios críticos, biografias, entrevistas. E eis que a minha memória, que já causou espanto nos amigos, mais uma vez serviu de trampolim para mergulhar no mar das belas letras.

Há na fileira de lombadas –a esta altura da crônica novamente estou de pé diante do vasto mundo do alfabeto– duas que prometem satisfazer a fome e a sede –a situação é deveras melodramática– se não do reencontro com a família Campbell, pelo menos a certeza de que a minha memória continua fiel ao seu desígnio.

Possuo os dois volumes de Os escritores, as históricas entrevistas da Paris Review, publicados pela Companhia das Letras em 1988. Peguei o primeiro volume com sofreguidão, ávido de verificar o índice dos entrevistados e ali estava ele. De pura satisfação dei um tapa na capa do livro. Devo dizer que a poeira me fez espirrar? Vá lá!, a narrativa é verídica.

Entre as páginas, uma anotação a respeito dos Campbell feita há quinze anos prova que estou no caminho certo. Mais calmo retomei –gostaria de escrever na minha poltrona preferida, infelizmente só tenho um sofá-cama e duas cadeiras desemparelhadas em minha mansarda que nem sequer foi projetada por Mansart, mas por Niemeyer e na Paulicéia desvairada–  a leitura da matéria procurando o famigerado sobrenome. E porque este relato estava no horizonte de minha procura, era imprescindível que relesse toda a entrevista para contextualizar motivo e tema, expressões com que gosto de confundir peritos em letra impressa.

O encontro acontece em julho de 1966. Partcipam da cena na sala da Direção da Biblioteca Nacional, em Buenos Aires, Jorge Luís Borges, diretor da instituição, a senhorita Susana Quinteros, secretária do diretor e o entrevistador Ronald Christ

A pequena figura do escritor apoiado na bengala, de boina e com um terno cinza pendurado no seu corpo parece ainda menor devido ao pé-direito alto da sala, típico das construções antigas. Decoram as paredes diversas águas-fortes de Piranesi. Acima da lareira há um retrato.

— Não importa. É uma reprodução de outra pintura –responde a secretária quando interrogada sobre a identidade do personagem retratado.

A ação sugere enredo teatral de sucesso, clássico e interessante triângulo amoroso: escritor célebre e idoso, secretária que por hábito cinematográfico imaginamos jovem, bela e loira, visitante alienígena que suspeitamos elegante e erudito. Contudo, o mundo nunca satisfaz todas as nossas esperanças. Milhões de pessoas jogam na mega-sena, apenas alguns felizardos levam a bolada.

No desconcerto do mundo não se deve esperar muito das personagens femininas. A senhorita Quinteros não ultrapassou as minhas expectativas.

 

Na página 207 de Diálogos lê-se:

SUSANA QUINTEROS (entrando): Desculpem-me. O sr. Campbell está esperando.

BORGES: Ah, por favor, peça-lhe que espere um momento. Bem, há um certo sr. Campbell esperando; os Campbell estão vindo.

PERGUNTA: Quando escrevia as suas histórias, o senhor as revisava muito?

            Na página 219 temos:

SUSANA QUINTEROS (interrompendo): Desculpe. Está esperando el señor  Campbell.

BORGES: Ah, por favor, peça-lhe que espere só um momento mais. Esses Campbell continuam a chegar.  

Na página 223:

PERGUNTA: E qual dos dois o senhor é?

BORGES: Penso que sou aristotélico, mas gostaria que fosse o contrário. Acho que é o sangue inglês que me faz pensar em determinadas coisas e pessoas como sendo reais, em vez das idéias gerais serem reais. Mas agora receio que os Campbell estejam vindo.

PERGUNTA: Antes que eu vá, o senhor se importaria de assinar o meu exemplar de Labyrintes?

Na página seguinte, última da entrevista, o escritor argentino comenta a pouca freqüência dos leitores norte-americanos a certos autores do seu próprio país:

PERGUNTA: Eles são lidos, mas mais nas escolas secundárias.

BORGES: E O. Henry?

PERGUNTA: Também, sobretudo nas escolas.

BORGES: E suponho que sobretudo por causa da técnica, do desfecho surpreendente. Não gosto desse truque, você gosta? Ah, funciona bem na teoria; na prática, é uma outra coisa. Você só pode lê-los uma vez, se houver apenas a surpresa. […] Agora, nas histórias de detetives, é diferente. A surpresa está lá, sim, mas há também as personagens, o cenário ou a paisagem para nos satisfazer. Mas agora me lembro de que os Campbell estão vindo. Supõe-se que sejam uma tribo muito feroz. Onde estão eles?

Expectante, Ronald Christ se empina sobre seu cóccix. A porta abre-se lentamente. Aproveitando a brecha o entrevistador se esgueira pelo sul de Buenos Aires, Labyrintes autografado no sovaco.

Borges, como se soubesse do que se trata, ou quiçá totalmente inocente pela cegueira, relaxa-se na poltrona como quem se dispõe a tirar uma soneca. Após alguns segundos irrompe na sala Andy Warhol vestido de caubói. O rosto sarapintado torna-o parecido com um dos seus múltiplos auto-retratos em serigrafia; ostenta um enorme cocar na cabeça, as abas de plumas são tão longas que alguém fora da vista sustenta-as para que não arrastem no chão.

Quando Andy Warhol chega perto da lareira, os Campbell aparecem. São latas de sopa de vários sabores, têm o tamanho de um homem e marcham em fila indiana, séquito do artista pop. Batem na barriga com grandes colheres de metal. –Em alguma página transtrocada pelos meus djins familiares Estela Canto afirma que Georgie, nos restaurantes, só tomava sopa de arroz e bebia grandes quantidades d’água.– Enquanto Andy Warhol gargareja um som contínuo, sincopado, cobrindo e descobrindo a boca com a mão, Borges, de olhos fechados, a cabeça inclinada para trás no espaldar da poltrona, sorri beatificamente. Os Campbell dançam em círculo em volta dele como se rodeassem um grande caldeirão de água fervendo. Andy Warhol faz gestos rituais sobre o cocuruto do bibliotecário e o seu próprio. Borges balança a cabeça ritmicamente. Sob os auspícios de Coleridge, banqueteia-se com sopa de letras.

TÔ NEM AÍ PRO PORTUGUÊS ! – por renoir pereira da silva

Aquela Feijoada Baiana estava cheirosa, aquele feijão estava gostoso, aquele feijão estava charmoso, aquele feijão estava uma uva. Não era qualquer feijão. Aquele feijão tinha cheiro de quê? Aquele feijão é para quem gostava de feijão, é para convencer quem não gostava. A feijoada passou, mas na memória ficou. Só 1 kg de Feijão Mulatinho? Um bocadinho mais. Não coma quaisquer feijões, coma com folhas de coroas olímpicas. O Manuel pôs só cinco folhinhas? Um bocadinho mais. Aquele feijão estava um arco-íris, em cores, aquele feijão estava a cores. O pessoal comeu bem, à custa do trabalho do Manuel, que além de cozinheiro é um belo advogado, que ganhou um bom dinheiro com as custas de um processo e pagou a bebida. Só 700g de charque? Eu disse “um bocadinho mais”. Ai! Que saudade da feijoada, saudades da cenoura e da linguiça e do último prato. 200g de toucinho salgado? Hum! Um bocadinho mais. Eu, que voltei a estudar, pedi um prato de Phaseolus vulgaris, Manuel se confundiu, depois de eu explicar, todo mundo riu. 500g de carne bovina? Um bocadinho mais. Em vez de uma cabeça de alho amassado, foi posta inteira, ele disse que é melhor. Mas só uma cabeça? Ao invés de cair os preços, com a chegada da safra, os preços aumentaram. Bela desculpa para o pão duro, que é o Manuel. Manuel escreveu para mim: “Minha namorada, que mora em Joinville, virá amanhã”. Sábio Manuel, que pôs “que mora em Joinville” entre vírgulas, caso ao contrário ele teria várias namoradas, e só viria aquela que mora em Joinville, ai ele se complicaria. Só 1 kg de Feijão Mulatinho? Depois não reclama. Perguntei: Posso vir aqui pegar mais, Manuel? E ele disse: se eu vir tu não pagarás. Sem ele ver… mais do mesmo. 400g de rabo de porco? Olha! 300g de orelha de porco? Mais pares. 600g de pernil de porco? Logo pernil. 600g pé de porco? Mais pares. 600g de costela de porco defumada? Logo costela. Vai faltar porco. Numa provável sobra fiquei rodeando. Numa eventual mudança do mau humor do cozinheiro, eu pensava em pegar mais. Que feijão! Manuel prefere fazê-lo a comê-lo. Vai entendê-lo. Eu, já prefiro comê-lo que fazê-lo. Manuel pediu-me para ser discreto, agir com discreção, ir devagar, mas sou indiscreto, agi naturalmente, com discrição. Era um prato atrás do outro. Nem dei bola para o Manuel. A bagunça? Não foi culpa minha. Foram eles quem fez. Eu nem havia saído da mesa, ainda. 400g de paio? Um bocadinho mais. 200g de tomate picado? Depois não reclama. 250g de cebola picada? Põe 500g. São indescritíveis os cheiros por que tive de cheirar. Por que aquele feijão é tão cheiroso? Aquele feijão é tão gostoso por quê? Até ali, ninguém sabia o porquê daquele gosto. Eu fui perguntar àquele homem o motivo do feijão ser tão gostoso. Manuel não revelou o porquê. Ninguém sabia por que ele não explicou. Ninguém sabia porque ele não explicou. Chamaram-me. Hum! Não fui porque estava comendo. A minha tia não veio, porque estava doente, e, como ela come três pratos, mas três sobraram, e sobraram para mim. Eu toda hora ia aonde a feijoada estava e ficava ali onde a feijoada estava. E ficava ali à-toa. Dito assim parece à toa. 5 ramos de hortelã? Um bocadinho mais. 2 colheres de coentro picado? Põe três. Aquele era o feijão ao qual me refiro. A feijoada do Manuel. A todo poderosa feijoada dele tem feitiço, aquilo não era panela, era um caldeirão. Aquele é o feijão que eu gosto. Manuel é o cozinheiro de quem lhes falo. Ele é brabo, pois tem brabeza. Ele é bravo, pois tem bravura. Manuel, quem faz um ótimo feijão. 10g de pimenta do reino moída? Põe 15g. A féria do final do dia, ou seja, o acumulado no final do dia foi um cansaço enorme do Manuel. Ele já estava pensando nas férias. 4 colheres de extrato de tomate? Que estranho!Mas põe seis. O sal é a gosto. Há bastantes razões para se comer mais de um prato, tais como, o cheiro, a textura, o segredo principal. Há razões bastante irresistíveis para se comer mais de um prato, tais como, o cheiro, a textura, o segredo principal. Meu caro leitor, a feijoada de sua mãe não chega perto da feijoada daquele cara. A dele seguem anexas linguiças temperadas, seguem anexos segredos, seguem, em axexo, as especiarias do gajo. Após muita insistência, Manuel explicou como se faz: deixe as carnes de molho de um dia para o outro, trocando a água para retirar o sal. Refogue as carnes no toucinho, acrescentando o feijão e a água necessária. Tempere com tomate, cebola, alho, hortelã, pimenta do reino, extrato de tomate e louro. Retire as carnes que forem amolecendo até que o feijão fique cozido. Faltou feijoada, eu bem disse. Comi tanto, que fui processado por Manuel a limpar as panelas. Limpei só uma e fui embora. Tô nem ai pro português.

“NOITES ANTIGAS” de NORMAN MAILER. 3ª EDIÇÃO, 950 PÁGINAS – resenha de arnaldo brandão

 

É óbvio que os dois competiam, Criação é de 1981, Noites Antigas é de 83, a temática é semelhante. O Mailer entrou em Harvard aos 16 pra fazer engenharia, depois abandonou. Foi boxeur, entre outras coisas. Descendia de outro macaco. Escrevia livros enormes, este, “Noites Antigas” bate de longe “Criação” do Gore Vidal. Não bate só em tamanho, mas também, em qualidade. Os caras trabalhavam duro e subiam o morro até os píncaros, mas as editoras americanas bancavam. É uma boa oportunidade pra se observar como o mundo mudou. Outro dia me vem o Paulo Coelho, aquele escritorzinho bem ruinzinho, que pertence a Academia Brasileira de Letras só porque vende livros, e propõe botar o “Ulisses” em 14 caracteres no twiter, ele queria nos lembrar que estamos na era do quanto menor o biquíni, melhor, isso já sabemos desde que o Gabeira voltou com sua tanga, mas com um livro interessante debaixo do braço.

E o Paulo Coelho escreve o que: umas bobagens que misturam auto-ajuda com misticismo barato. É por essas e outras que a literatura no Brasil chegou onde chegou, e um autor como o Jonhatan Frazen, que não se pode dizer que seja um bam-bam-bam, fica esnobando os brasileiros na Feira de Paraty, é claro que ele percebeu de cara que não se tratava propriamente de um evento literário, tinha virado um mafuá, por essas e outras não fui lá receber meu prêmio. Como ele pretende ser levado a sério, assim como eu, pulamos fora. A entrevista do pessoal da Veja com o Gore em 1987 foi a mesma coisa, o cara ficava fazendo gozações. Ainda bem que existem os leitores do Facebook e dos Torpedos que leem estas resenhas e ficam sabendo das coisas. Quer dizer, só uma meia-dúzia de contar nos dedos, mas como diz o ditado: “de grão em grão a galinha enche o papo” e depois que estiver bem gordinha vai pra panela, ou então vai ser exposta naquelas televisões de cachorros de porta de padaria.  É claro que o cara não precisa escrever um livrão enorme pra produzir uma obra-prima, vide meu texto favorito: “O Coração das Trevas”, se quiserem um brasileiro, tem o Raduan Nassar, que abandonou o ringue e foi criar coelhos. Às vezes, o cara precisa de 1.000 páginas pra dar seu recado, é o caso do Mailer, talvez o melhor escritor da segunda metade do século XX.  Ele não era tão famoso quanto o Gore Vidal, embora tão polêmico quanto. Nasceu pobre, morava no Brooklin. Os dois disputavam o título de maiores escritores do EUA e certamente do mundo. Se eu puder opinar diria que ele é o melhor. Com este livro ganhou mais uma vez o Premio Pulitzer, isto foi em 1980. O que tenho em mãos é a terceira edição brasileira, tradução de Aulide  Rodrigues. É um livro que pode até ser colocado na estante de “romances históricos”, o que não significa absolutamente nada. Segundo Mailer, falando dos livros de história, mas dando um “jab”, (tipo aqueles que o Muhamad Ali dava) no queixo do Gore: “o que circula por aí não é história, é uma série de romances extremamente sóbrios, escritos por homens que geralmente não tem vastos talentos literários, tem muito menos a dizer sobre o mundo real que os romancistas”. Assino embaixo, embora ele tenha lido dezenas de livros de história para escrever este. O Mailer não escreveu apenas um livro sobre o Egito Antigo, no fundo a obsessão dele é, como sempre foi, os EUA e o totalitarismo, que ele analisa através de um olhar prolongado sobre a superfície irregular das vidas de um tal Manhenhetet. Ele certamente é da estirpe do Gorvaidal, Guimarães Rosa e outros, que viveram várias vidas, uma só não seria suficiente para entenderem o que queriam entender.

O livro começa com um prólogo do W.B. Yeats, grande poeta irlandês: “creio na pratica e na filosofia do que se convencionou chamar de magia e no que devo chamar de invocação dos espíritos…”. Se Yeats e Mailer acreditavam, porque eu não acreditaria. O texto se divide em 7 livros, ou melhor, 7 capítulos. E estes capítulos são subdivididos em subcapítulos, como se quisesse dar, a nós leitores, um tempo para respirar. O livro se passa entre a 19ª e 20ªdinastias, 1290 a 1100 aC. O narrador é um tal Manhenhetet que durante as suas vidas encarna e reencarna várias vezes e passa a se chamar Manhehetet I, II e assim sucessivamente. Neste périplo ele convive com deuses, faraós e principalmente com Nefertiti, e como vocês podem imaginar, toda vez que ela aparece, eu não durmo direito, situação muito parecida quando o Gore Vidal falava de Babilônia. Ela costumava usar uma espécie de blusa que deixava um dos seios de fora. Era lindíssima, nada a ver com Cleópatra, que não era essas coisas que Roliude disse. Vamos ao que interessa, o texto do Mailer.

“A escuridão era profunda. No entanto agora eu sabia. Estava em uma câmara subterrânea de dez passos de comprimento por cinco de largura, e percebi (com a rapidez de um morcego) que o compartimento estava vazio…No escuro meus dedos encontraram um nicho entre dois blocos de pedras, não maior que uma  cabeça humana. Pelo hálito fresco devia conduzir à noite lá fora.” Pelo texto já devem ter percebido, que o estilo é muito diferente do Gore, muito mais poético, mais dentro da tradição inglesa e eventualmente americana, mais caprichado, mais tudo. Notem que a descrição alude a um morcego, só pra criar um ambiente mais assustador. O personagem acaba de reencarnar e começa a entender que tinha um corpo, e ele tinha a memória do que havia vivido, e então vai andando pelo que se chama hoje de “Vale dos Mortos”. Então ele se lembra do pai dele, que era ”superintendente do estojo de cosméticos” diz ele, o Manhenhetet, que preferia morrer de novo a ambicionar um título como aquele. Estão rindo, vocês não fazem ideia, mas tive um grande amigo que era uma figura lendária (participou diretamente da construção do Alvorada e era amigo do Plínio Salgado) e por acaso, meu ex-sogro. Ele me contou que mesmo os militares tinham a disposição uma maquiadora 24 horas por dia. Jango e a Maria Teresa eram clientes constantes, assim como JK. Daí podem fazer ideia da importância da coisa, para os egípcios a maquiagem era tão importante quanto a alimentação. Por falar em JK, quando comecei a escrever o romance “Encaixotando Brasília”, cogitei seriamente em contar a história de Brasília a partir da tumba de JK, que seria o protagonista (Benício registra a ideia, por favor). Não desisti ainda. Para concluir, vamos ao texto altamente poético do Mailer e vejam se ele não é muito melhor que o Gore: “…pois agora um cometa se aproxima. Sou açoitado por um vento terrível…Navegamos através de domínios vagamente avistados, afagados pelas ondas do tempo. Aramos campos de magnetismo. Passado e futuro se unem em tempestades e nossos corações mortos vivem como o relâmpago nos ferimentos dos deuses.”

 

O mestre e os aprendizes do terror ( herança da ditadura militar) – por luiz claudio cunha / rio de janeiro.rj

O mestre e os aprendizes do terror

O grupo de jovens corria pelas ruas do bairro carioca da Tijuca, em marcha sincronizada, cantando: “Bate, espanca/ Quebra os ossos/ Bate até morrer”. O chefe do bando perguntava: “E a cabeça?”.

A resposta vinha em coro: “Arranca a cabeça e joga no mar!”. O chefe, de novo: “E quem faz isso?”. A resposta afinada não deixava dúvidas: “É o Esquadrão Caveira!”.

A história foi revelada, em julho, pelo colunista Ilimar Franco, de O Globo. Não era um bando de marginais descendo o morro. Era um animado pelotão do I Batalhão da Polícia do Exército berrando a plenos pulmões o ideário truculento que devem ter contraído em seu local de trabalho.

Como lembrou o advogado Wadih Damous, presidente da OAB do Rio de Janeiro, a malta de potenciais assassinos serve no mesmo quartel da rua Barão de Mesquita, 425, no Andaraí, onde operou na década de 70 o notório DOI-CODI do I Exército, um dos maiores centros de tortura do regime militar.

Só a memória insana da ditadura pode explicar o treinamento idiota aplicado aos recrutas do batalhão marcado pelo estigma da violência. E só o paraíso da impunidade pode explicar a falta de indignação dos comandantes que admitem e se omitem diante de uma demonstração pública de desrespeito ao ser humano.

Nada estranho para comandantes militares que, num documento enviado no final de 2010 ao então ministro da Defesa, Nelson Jobim, reclamavam contra a criação da Comissão Nacional da Verdade, alegando que, afinal, “passaram-se quase 30 anos do fim do chamado governo militar…”

Os chefes das Forças Armadas que impuseram uma ditadura de 21 anos ao país, fechando o Parlamento, censurando, cassando, prendendo, torturando e matando dissidentes políticos, ainda têm dúvidas se tudo aquilo pode ser chamado de “governo militar”.

É por isso que garotos saudáveis da tropa ainda hoje fazem exercício físico na rua ecoando sua explícita disposição de espancar, quebrar os ossos, bater até morrer, arrancar a cabeça e jogar no mar…

Em julho do ano passado, o site SUL21 revelou uma descoberta da Associação Nacional de História (Anpuh): os alunos das escolas militares do país continuam ensinando aos recrutas que o golpe de 1964 que derrubou o governo constitucional de João Goulart foi “uma revolução democrática”.

O disparate está publicado no livro História do Brasil: Império de República, de Aldo Fernandes, Maurício Soares e Neide Annarumma, aplicado no 7º ano do Ensino Fundamental das escolas militares. Um mês depois, a Anpuh perguntou ao ministro Jobim: “Que cidadãos estão sendo formados por uma literatura que justifica, legitima e esconde o arbítrio, a tortura e a violência?”.

Só no início de 2011, já no governo de Dilma Rousseff, o Comando do Exército respondeu, dizendo que o livro “atende adequadamente às necessidades do ensino da História”. É bom lembrar que, 30 anos atrás, o Colégio Militar de Brasília admitiu no seu corpo docente o coronel Wilson Machado.

Meses antes, em abril de 1981, ele sobrevivera à bomba do frustrado atentado ao Riocentro. O futuro educador de Brasília, então capitão, era o terrorista de Estado que carregava a bomba que explodiu antes da hora no seu Puma, matando na hora seu comparsa, o sargento Guilherme Rosário.

O capitão Machado, como o sargento, servia no DOI-CODI da rua Barão de Mesquita.

É o mesmo quartel da gurizada que hoje ecoa a lição do camarada terrorista que virou professor.

Todos eles, mestres e aprendizes, seguem intocáveis na marcha sincronizada da impunidade.

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Luiz Cláudio Cunha é jornalista
cunha.luizclaudio@gmail.com

O MUNDO COMO ESTUPRO – por zuleika dos reis / são paulo.sp

O MUNDO COMO ESTUPRO 

 

 

Somos, eu e tu, seres de sonho. Pelo sonho nossos átomos se agruparam, em moléculas de sonho, em tecidos de sonho, em órgãos de sonho. O sonho nos compõe o sangue, os ossos, a pele. O sonho compõe nossa alma.

Na Índia, tradições antigas dizem que o mundo é Maya, isto é: Ilusão. Calderón De La Barca escreve “A Vida é Sonho”. Shakespeare o afirma, categórico. O Budismo assim o diz, como também do compromisso que nos cabe para com este sonho-vida. Os místicos do Oriente e do Ocidente viveram e vivem, desde o sangue, tal certeza.

A se crer nesta afirmação como verdade universal, por que afirmar, como o fiz na primeira linha do texto que ”somos, eu e tu, seres de sonho?” Se todos o somos, eu e tu, eles, nós e vós, todos compostos por átomos e moléculas de sonho, não há como particularizar tal condição, torná-la privilégio de poucos.

Entanto, reafirmo: “Somos, eu e tu, seres de sonho.” Pertencemos a uma estirpe que sente o viver dentro da realidade como uma violentação, uma espécie de estupro a sofrer todos os dias. Nós nos sentimos como eternos estranhos, estrangeiros, aportados nesta Terra por algum engano.

Ora, muitos dirão: “Do jeito em que está a realidade, que privilégio há nisso? Todos nós nos sentimos, tanto quanto vocês, violentados pelo real.”  Outros dirão: “Vocês se encontram em pleno processo dissociativo. Urge a procura de um ajuste, de um reajuste entre a psique e o real. “Ainda, terceiros: “Poetas são assim mesmo; não importa a realidade em que vivam, precisam a ela se contrapor.”  Outras tantas falas se multiplicam, pode-se ouvi-las na imaginação.

Sem discordar de ninguém que, como diz um amigo querido “Tudo é Vida.” e reiterando, novamente, o “somos, eu e tu, seres de sonho” quero acrescentar que nos sabemos assim não por filiação a algum Princípio religioso, ou não religioso, ou por alguma vivência mística no seu sentido específico, mas, porque vivemos isso, respiramos isso, nos alimentamos do pão de ser sonho desde a medula dos ossos, desde a raiz do sangue, desde a raiz da alma. Eu, no recesso deste lar ao avesso do mundo; tu a te digladiares no circo de horrores cotidianos. Para nós ambos, para os tantos e tantos da mesma estirpe, o mundo vivido como estupro.

Tu és como um médico-cirurgião que tenha horror à visão do sangue dos doentes e que, apesar desta condição, é capaz de domar o horror em seu âmago, no durante das cirurgias, o horror que, embora sofreado, em momento algum deixa de pulsar, de gritar no seu próprio sangue, no sangue dele, médico-cirurgião. És assim, exatamente assim. Por isso, incomensurável a tua dor de ser. Também eu, a meu modo, por outras vertentes, veredas, caminhos, sou assim, como também assim outros tantos e tantos, infinitos.

O mundo como estupro, o mundo ao avesso do sonho, ao avesso de todos os sonhos. Neste contexto, se mantivermos como verdadeiro que a vida é sonho, urge dizê-lo de outro modo: “A vida, sonho dantesco, o pior de todos os pesadelos.”

E, no entanto, no entanto, presentes desde sempre no mundo, de todos os modos e em múltiplos lugares (muitos ocultos ao mundo) permanecem e agem os seres que guardam a Esperança, os seus guardiães, aqueles entre os quais se alinham os que guardam, por enquanto no interior da Arca, outro “sonho do real”.

 

TRES MESAS – por jorge lescano / são paulo.sp

T R Ê S   M E S A S

 

Para J B  Vidal

Objeto de nosso cotidiano, corriqueiro, insignificante pode-se dizer, se ausente, perturba a nossa vida. Acreditamos que seja dos primeiros criados pelo homem e somos tentados a afirmar que é prévio à sua fabricação. O troglodita utilizou-o – ab ovo! – antes que lhe dessem forma e nome, pois a função faz o objeto. A pedra achada no caminho, um tronco atingido pelo raio, o próprio chão, cumpriram a função de mesa antes do artefato. Este móvel está presente nos mais diversos ambientes da civilização, tão presente que, como já dissemos, só o notamos quando falta. Mesa, a secas, sem atributos funcionais, espirituais, ou quaisquer outros que lhe foram agregados pela insuficiência de nossa língua: mesa de trabalho, mesa redonda, mesa branca, mesa de vivissecção, mesa de negociações, mesa de jogo…

Deste modesto produto da marcenaria se ocuparam um pintor, um poeta e um romancista. Presente como objeto em Jean Dubuffet (Le Havre, 1901-Paris, 1985), canteiro de obras em Francis Ponge (Montpellier, 1899 – Bar-sur-Loup, 1988), apoio do discurso narrativo em Ramón Bonavena (Escritor argentino, sem outros dados biográficos), evocado pelo seu compatriota e sempre bem informado em questões de estéticaBustos Domecq.

Curiosidade à margem: os três personagens têm prosápia francesa, o último apenas intermediário entre oconhecido ainda que não famoso escritor Bonavena, autor do suposto romance Nor-noroeste – a obra trataria deste setor limitado do tampo da mesa – e o leitor de sua entrevista. (Borges, Jorge Luís, Casares, Adolfo Bioy, Uma tarde com Ramón Bonavena in Crônicas de Bustos Domecq– (1967); São Paulo, Alfa Omega, s.d.)

Ensaios eruditos abordam os diversos aspectos da construção da mesa de Ponge(Ponge, Francis, A Mesa; (1981); São Paulo, Iluminuras, 2002 – edição bilingue). Árdua tarefa é desvendar os meandros lingüísticos e estéticos da obra; serve-nos aqui apenas como contraponto de referência de nosso assunto. Da fluída mesa de trabalho de Bonavena, mestre do descricionismo, ele e o cronista Bustos Domecq fornecem elementos suficientes para situar o leitor comum, o homem massa, em um plano de relativa compreensão.Sobra-me (abandono o plural do pronome ao mesmo tempo em que descarto as mesas narradas para assumir, só e desarmado – correlação coerente do ponto de vista óptico e narrativo – o objeto proposto por Dubuffet) a obra em questão: Móveis e objectos, 1952 (sic) reproduzida em livro editado em Portugal, como a grafia deixa evidente (Grandes pintores do século XX, Globus, 1996), mas impresso em Barcelona.

O quadro (óleo sobre Isorel, 92 x 122 cm. Fundação Jean Dubuffet, Périgni–sur-Yerres.) apresenta três figuras da mesma cor sobre fundo escuro As cores variam segundo estejam impressas em papel ou reproduzidas pela luz do computador. A figura maior ocupa o centro da obra e sobre ela – dentro dela – objetos menores – “copo” e “despertador” (o título nos obriga a vislumbrar objetos familiares) – denunciam sua função de mesa. À esquerda do espectador uma superfície mais estreita na mesma tonalidade sugere um cavalete de pintor e algo que poderia ser a tela “em branco”, embora onde se deveriam ver as hastes do tripé uma inesperada transformação do design sugira pernas humanas. Do lado direito outra forma – quadrúpede – indica que deve ser uma cadeira, o respaldo torto e a vizinhança com a mesa sugere esta identidade, caso contrário poderia ver-se outra mesa: criado mudo ou mesa de sala.

O objeto maior – a mesa – pela violação da perspectiva descricionista ganha características zoológicas. Intuo bovino decapitado, a cabeça decepada pela margem do suporte. Vista deste modo a cadeira é seu filhote e o copo e o relógio selo com que se marca o gado, a própria disposição deles – no “quarto traseiro” – reforça a idéia. Continuando a observação por este corte, a figura da esquerda – cavalete – adquire dimensão e densidade humanas – também decapitada, pois se tem pescoço e até gola (nesta espécie de grampo que segura a tela por cima aparece a enigmática inscrição ENCRA: tinta de escrever ou imprimir. – S. Burtin-Vinholes: Dicionário francês-português/portugês-francês, Globo, 1951), falta-lhe a cabeça que as justifique. Neste contexto o quadro tem novo significado: cena bucólica: recolhimento do gado em fim de tarde. Camponês e reses rumo ao curral da fazenda poderia ser o título, caso o autor fosse Corot (Jean Baptiste Camille; Paris, 1796 – Ville d’Avrey, 1875) ou Courbet (Gustave; Ornans, 1819 – La Tour-de-Peliz, 1877).

A presença viva do tampo da mesa – corpo de rês – é tão forte que não sinto a ausência das cabeças das três figuras/personagens. A forma menor – cadeira/ filhote – também partilha desta circunstância. Sendo francesa a obra, posso imaginar que se trate de uma cena de fins do século XVIII: Retrato de família?

 

Os três pintores mencionados neste artigo têm nacionalidade francesa, escolha que revela o desejo do autor de não invadir outras geografias, a menos que oculte (três?) intenções diversas.

A tríade é um Meio e Analogia porque todas as comparações consistem em três termos, pelo menos, e as analogias eram chamadas de meios pelos antigos.

             O cão de Plutão, Cérbero, tinha três cabeças.

            Três coisas melhoram o homem: uma boa casa, uma esposa bonita e uma boa mobília. (Sublinhados nossos.)

(Por se tratar de citação de obra esotérica, o autor declina, excepcionalmente, seu saudável hábito de fornecer a fonte. Nota do compilador.) (1)

Dubuffet disse a respeito da série Mesas-paisagens […] uma mesa não é só um pedaço de terreno, mas está povoado de factos: não são os que pertencem à vida da própria mesa como outros que, misturados com estes, ocupam o pensamento do homem e que este projecta sobre a sua mesa no momento em que a olha. (op.cit.)

O pintor reconhece que sua obra é ambígua, mas já foi dito que em arte a ambigüidade é uma riqueza. Acredito que o meu olhar não distorce nem deturpa a proposta do artista, antes a confirma. Se ele vê paisagem, o olhar-pensamento que projeto sobre a imagem sugere gado; em todo o caso ver Mesa e outros objectos neste quadro é tão subjetivo quanto ver gado/paisagem. A obra – que não depende do título – é um convite à imaginação, não reprodução do cotidiano (a observação cotidiana dos objetos). A rica, porém discreta textura de toda a superfície desta pintura prende o meu olhar com o mesmo poder hipnótico do fogo, da água e das nuvens, revelando sua raison d’étre.

A Mesa de Francis Ponge – sessenta e sete páginas. Nas páginas 33 e 48 v. do original, 243 e 275 respectivamente, da edição brasileira, há apenas uma linha, várias outras são quase tão ermas quanto elas – e os improváveis seis volumes sobre o ângulo Nor-noroeste da escrivaninha de Ramón Bonavena documentam estas viagens ao centro – essência – da imaginação intelectual. Quanta documentação seria necessária para comprimir, com o dom da síntese, um lápis Goldfaber 873 em vinte e nove páginas in octavo (sic)!

 

A mesa é dos objetos mais afáveis, maternal, poder-se-ia dizer, sobre o qual convêm não repisar muito.

É provável que esta obra de Jean Dubuffet não precise do meu comentário (redutor, como todo comentário de uma imagem), contudo, creio que nada impede a um observador o registro de suas ambíguas impressões dela.

 

 

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1 – Com o intuito de oferecermos aos leitores que prestigiam nossa casa editorial obras de envergadura duradoura in totum, não aquiescemos a publicar este ensaio antes de verificarmos todas as suas instâncias. Nossas pesquisas nos levaram ao título sonegado. Trata-se de Os poderes ocultos dos números; RJ, Ediouro, 1987, de autoria de W. Wynn Westcott (o três W), Supremo Mago da Ordem Rosa-Cruz da Inglaterra. Pelo que nos consta e apesar da analogia, este(s) três W nada tem a ver com a mesma tríade da internet cujo significado desconhecemos visto sermos profissionais à respeitável maneira de Gutenberg. (Nota do Editor à guisa de epílogo)(2)

2 – Alguém chamou o autor anônimo de Três Mesas de contador de piadas bibliográficas. Pela nota precedente parece que não é bem assim. PALAVRAS, TODAS PALAVRAS estampou a pequena jóia sem qualquer ressalva, e é bem conhecida a responsabilidade que norteia este site. Enfim, prefiro deixar nas mãos da posteridade e do ilustre leitor a solução final deste nó górdio, para não dizer a última palavra. (Comentário no site mencionado de Jorge Lescano, remetente da miniatura literária em questão.)

Medicina em rota de colisão – por stephen doral stefani / new york.eua

Eu costumo visualizar os avanços em Medicina como um grande transatlântico, em velocidade de cruzeiro, em alto mar. Impressiona pela tecnologia. Já os custos em medicina são facilmente representados como um iceberg. Dá para ver a ponta, mas a maioria dos gastos são uma incógnita. Seja porque são custos indiretos (como, por exemplo, do absenteísmo) ou porque são resultados de desvios e desperdícios. Não precisa ser muito criativo para ver onde isso vai dar. Transatlântico e iceberg: inevitável lembrar do Titanic.

Em 1995, foi publicado interessante ensaio sobre os dados estatísticos do desastre marítimo no Journal of Statistics Education. A taxa de mortalidade em passageiros de classes econômicas menores foi quase o dobro comparados as classes mais abastadas. Outro paralelo fácil de traçar com saúde. Há alguns dias a Organização Mundial de Saúde publicou dados que mostram que, apesar de ter aumentado em uma década, o Brasil gasta pouco com o setor em comparação com a média mundial. Enquanto o mundo gasta em média 14,5% do produto interno bruto (PIB) em saúde, o Brasil não chega a 6%. Países ricos chegam a 17% e países africanos 9,6%.

Cabe mencionar que aproximadamente 50% gastos em saúde no país são concentrados nos 20% de brasileiros que tem planos de saúde. Os outros 80% que só tem acesso ao Sistema Único de Saúde (SUS) utilizam a outra metade. A iniquidade impressiona. O número de leitos merece um capítulo. Enquanto os europeus tem 68 leitos para cada 10 mil habitantes, o Brasil tem 26. É certo que a população européia é mais velha e pode demandar mais utilização, mas a saúde no velho continente é praticamente socializada. No Brasil, a dificuldade de leitos é sistêmica mas muito mais grave no sistema público. Bom, feito o diagnóstico, o que pode ser feito? Definitivamente, não podemos nos dar ao luxo de usar energia e tempo arrumando as cadeiras no convés. A meta deve ser modificar curvas de aumento de custo e as diferenças entre o sistema público e privado, para que não tomem proporções oceânicas.

Análises de custo-efetividade e políticas de saúde devem refutar tecnologias que não agregam valor relevante. Reengenharia tributária a fim de desonerar a área médica deve ser considerada. Sofisticação e criatividade — feita por profissionais e não apadrinhados políticos — no controle de fluxos gerenciais são importante. E, principalmente — não só pelos recursos que se perdem, mas também pela indignação que gera — crimes e desvios devem ser punidos rigorosamente. Lutamos para evitar catástrofes e perdas de vidas mas, sem mudanças de rumo, a colisão é uma questão de tempo.

*Médico oncologista

E se os DEMOSTUCANOS estivessem no comando da nação? o terror estaria implantado na economia!

E SE ELES AINDA ESTIVESSEM NO COMANDO?

Em 31 de agosto do ano passado, o governo Dilma, ancorado numa percepção correta de agravamento do quadro mundial, cortou a taxa de juro pela primeira vez em seu mandato. O dispositivo midiático-tucano reagiu entre ‘indignado e estupefato’, como disse então o economista Luiz Gonzaga Belluzzo em debate promovido por Carta Maior. Um mês depois, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso ecoava as avaliações dos think tanks demotucanos, a exemplo da Casa das Garças, e dizia ao jornal Valor Econômico que considerava a decisão do BC ‘precipitada’. Expoentes menores mas igualmente aplicados na defesa dos mercados autorreguláveis, como o economista de banco Alexandre Schwartzman, já haviam se manifestado na mesma linha da abalizada percepção tucana das coisas. Em sua douta análise dos fatos, veiculada em 4-09-2011, Alexandre Schwartzman, também conhecido como ‘o professor de Deus’ pontificava em pedra e cal:” não há indícios de que a crise econômica global de 2011 seja tão grave quanto a de 2008″. Outros sábios de bico longo e o mesmo olhar de lince, como Luis Carlos Mendonça de Barros, o Mendonção, ex-presidente do BNDES e expoente das privatizações no sistema de comunicações, advertiam então que o BC brasileiro ficara refém de um agravamento da crise mundial que justificasse a sua decisão.” “O BC passou a torcer pela crise”, diziam, argüindo a estratégia brasileira de priorizar o enfrentamento da crise ao combate à inflação. As linhas acima recuperam uma nota publicada em Carta Maior em 11-11-2011. Seis meses depois, alguns milhares de desempregados à mais e quase uma Grécia a menos no euro, o governo brasileiro –corretamente– anuncia nesta 2ª feira novas medidas contracíclicas para afrontar a  caleidoscópica reprodução da crise financeira mundial  –que a sapiência demotucana avaliava como miragem heterodoxa. É forçoso arguir: e se eles ainda estivessem no comando da Nação?

(Carta Maior; 2ª feira/21/05/2012)

números escritos ( I ) – por omar de la roca / são paulo.sp

Pus me a cismar…
Quer dizer,estava pensando na geometria das letras.Redondas como
círculos,angulosas como triangulos,retas como retas.E na aritmética
das palavras que vão somando as letras,os sentidos,eta palavrinha
dificil, sentidos.
Na matemática das sentenças, em sua densidade fluída,escorrendo para
dentro de nós, devagar ou rápido,de acordo com nosso entendimento,com
nossa vontade,com
nossa sede.
Na inexata exatidão das palavras,na precisão,necessidade,premência,com que
vem forçando passagem para se exprimir,nas expressões que vão se
formando e a gente nem sabe de onde vem.Só sabe que vem.
Como arteiras gotas de chuva,que vão se acumulando na calha esperando
alguem passar,para brincar de pega pega.E elas sempre pegam.
Assim como as palavras,que vão se acumulando na calha do pensamento
esperando para despencar sobre algum incauto.Que possa lhes mostrar o
brilho.Ou melhor,para mostrarem a ele o seu brilho.
Ou como as palavras,suspensas em galhos pesados,como frutas
aduras,esperando a brisa para cantarem com ela,enquanto aguardam
redondas pela colheita.Algumas na certa irão passar do ponto e
cairão.Quase sempre aquelas que não valhem a pena a colheita.Mas
sempre é bom dar uma olhada no conjunto que fica no chão.As vezes
formam figuras geometricas assimétricas,que valem um segundo olhar.As
vezes deixamos que os insetos as comam por serem indigestas ou
assustadoras.As vezes precisamos delas e as pegamos do chão,passamos
um paninho e colamos aqui ou ali para dar um sentido ou para esconder
outros.
Difícil esta profissão de matemático.Dar sentido a palavras sem
sentido algum.Ou lhes dar um sentido oculto,que revele tudo mas
esconda tudo também.Ou fazer apenas somas simples,que a todos
agradem,sem compromisso.  Ou então subir ate o alto da escada e ir
forçando pela garganta abaixo ( dos outros ) seus pensamentos
obtusos.( É, voce acertou,peguei obtuso do chão ha dois minutos
atrás).E me ocorreu mais uma soma.Uma soma ética como Aritmética,exata
como Humana.Somos todos produtos de somas diversas,multiplicações
complexas,divisões internas ( ate a sétima casa decimal ),e subtrações
frequentes.Normalmente a favor dos outros.Esquecendo do numero Pi
primordial que somos nos mesmos.Pares ou primos,seguimos a linha do
caderno,singulares ou plurais,vamos escrevendo para a frente.Ou para
trás.Ou de cima para baixo.Ou de tras pra frente.Mas sempre nos
expressando,calculando,acertando,errando. Com a borracha bem a mão,
para quando for necessário e possível.Para quando valer a pena.

EM TORNO DAS 1001 NOITES – por jorge lescano / são paulo.sp

Em torno das 1001 Noites

© Jorge Lescano

 

 

 

Dahlmann había conseguido, esa tarde,

un ejemplar descabalado de las Mil y Una

Noches de Weil […] algo en la oscuridad

le rozó la frente, ¿un murciélago, un pájaro?

[…] la mano que se pasó por la frente salió

roja de sangre.

Jorge Luís Borges: El Sur

Em aula sobre as 1001 Noites transmitida pela televisão, o professor de língua e literatura árabe Mamede Mustafá Jarouche, recontou um episódio narrado por Jorge Luís Borges em vários dos seus textos. Trata-se de um acidente pessoal que ele relacionará com aquele livro. O episódio teria acontecido na infância de Borges. Nesta versão Georgie, como era chamado em família, havia corrido dentro de casa para receber uma nova edição das 1001 Noites que acabava de chegar pelo correio; na sua afobação não teria visto o batente de uma janela recém pintada, chocando a testa contra ela. O acidente teria acelerado o processo de cegueira que, nas palavras do próprio Borges, foi um lento crepúsculo que durou mais de meio século.

O fato é verídico, porém ocorreu de modo diverso.

 

Foi na véspera do Natal de 1938 – o mesmo ano em que meu pai morreu – que tive um grave acidente. Subia correndo uma escada e de repente senti alguma coisa roçar meu couro cabeludo. Eu me esfolara no batente de uma janela aberta, recém pintada. Apesar do tratamento de urgência a ferida ficou infeccionada e por um período de mais ou menos uma semana passei as noites desperto e tive alucinações e febre alta. Uma noite perdi a capacidade de falar e fui levado às pressas ao hospital para uma operação imediata, declarara-se uma septicemia e por um mês eu vacilei, completamente sem o saber, entre a vida e a morte. (Muito depois iria escrever sobre isso no meu conto O Sul.) –  (Jorge Luís Borges: Perfis, Um ensaio autobiográfico; Porto Alegre, Globo, 1971; p. 106.)

Naquela data, Borges contava 39 anos e já havia sofrido várias cirurgias nos olhos; em algum lugar fala de oito operações. Se o fato não acelerou a cegueira, propiciou a Borges o início definitivo de sua carreira de ficcionista. O acidente fez com que ele temesse pela sua capacidade mental. Pierre Menard, Autor do Quixote, foi o desafio que se propôs para testar esta capacidade. Não devemos confiar demais no seu depoimento, que não inclui Aproximação a Almotásim, nem o as 1001 Noites; o livro é acréscimo posterior, um modo de aproximar a experiência à sua poética do fantástico. Sintomaticamente, no entanto, aqueles dois textos serão publicados no mesmo volume, Jardín de senderos que se bifurcan, em 1941. Já conhecemos os resultados do Pierre Menard: una técnica nueva (d)el arte detenido y rudimentario de la lectura.

Jorge Luís Borges, em hoje célebre citação, afirmou que há uma noite em que o rei Shahriar ouve da boca da rainha sua própria história, dessa forma chegará a vez em que outra Shahrazad narrará a história de uma Shahrazad que narra a história do rei Shahriar, e assim indefinidamente, à maneira das bonecas russas. O original diz assim:

 

¿No es portentoso que en la noche 602 el rey Shahriar oiga de boca de la reina su propia historia? A imitación del marco general, un cuento suele contener otros cuentos, de extensión no menor: escenas dentro de la escena como en la tragedia de Hamlet, elevaciones a potencia del sueño. (Jorge Luís Borges: Prosa Completa; vol. 1; Barcelona, Bruguera, 1980; p. 390)

 

Eu, como todos os leitores, fui buscar a tal noite, que, naturalmente, não encontrei. Repito as palavras do Professor Jarouche porque já antes havia realizado seu gesto. Durante algum tempo atribui minha frustração à qualidade das traduções consultadas, soube depois que a tal noite seria uma “invenção” de Borges. Interpretei o fato como sua contribuição ao livro, à maneira de Galland, Burton e outros tradutores, segundo ele mesmo aponta no artigo Os Tradutores das 1001 Noites. A respeito desta investigação sou menos otimista que o Prof. Jarouche: não acredito que todos os leitores fossem tão minuciosos. No conto El Jardín de senderos que se bifurcan, o sinólogo Albert  diz:

 

Recordé también esa noche que está en el centro de las 1001 Noches, cuando la reina Shahrazad (por una mágica distracción del copista) se pone a referir textualmente la historia de las 1001 Noches, con riesgo de llegar otra vez a la noche en que la refiere, y así hasta lo infinito. (op. cit. p.470)

Sendo um personagem de ficção, Albert tem o direito de lembrar um fato que não se encontra na obra real. Ou como Tzvetan Todorov, segundo Mariza Werneck, citada por Júlio P. Pinto (Uma Memória do Mundo, S.P. Estação Liberdade, 1998), estaria legitimando a criação borgiana sem desconfiar da armadilha?

A este respeito, o Professor Jarouche revela que essa noite, aceita, como vimos, por alguns críticos como real e não criação ou acréscimo do autor argentino – e simultaneamente  questionada por outros críticos -, existe. Afirmou que na edição Breslau, que ninguém lê e provavelmente nem Borges conhecia, essa noite tem o número 999. Borges adivinhou essa noite? Não. No artigo já citado, tratando de uma versão alemã de 1895-1897, fornecida por Max Henning, arabista de Leipzig e tradutor do Curán (sic), à Universalbibliothek de Philipp Reclam, ele escreve:

Las ediciones de Bulak  y Breslau están representadas, amén de los manuscritos de Zotenberg y de las Noches Suplementarias de Burton. (op. cit., p. 388)

Portanto, Borges conhecia a edição de Breslau. Sua contribuição estaria então no deslocamento do episódio, situando-o no entremeio do livro, alterando, assim, a arte estática da leitura.

A história pessoal de Jean Antoine Galland, leitor de línguas orientais de Luis XIV, a vida venturosa do capitão Sir Richard Burton, e especialmente a participação criativa do famigerado Hanna (pois ele foi atingido pela fama através de sua colaboração com Galland), deveriam ser acrescidas ao corpo da narrativa de Shahrazad. De algum modo quer me parecer que isto já aconteceu, de forma não oficial. De fato, com cada tradução estas histórias vêm à tona.

O sírio Hanna “inventa” contos que não constavam no livro “original” (o manuscrito árabe que Galland havia adquirido em Istambul). Isto não invalida sua versão, antes, deveria legitimá-la. Hanna é uma espécie de rawi (rapsodo) que, pela sua função, tem o dever de interessar seus ouvintes, e para tal utiliza repertório próprio.

A controvérsia faz sentido no contexto do século XIX. A imprensa diária (a letra impressa) começa a impor sua autoridade sobre a expressão oral, a verdade tem que passar pela gráfica. O jornalismo inicia seu pontificado. A partir de então esta nova força, “independente”, será um divisor de águas. O jornalista passa a ser o árbitro do que seja verdade histórica, descartando os fatos que não se enquadrem no seu programa pré-estabelecido. É verdade que se as discussões transcorrem entre especialistas, a publicidade dos confrontos fica por conta da imprensa, que cada vez mais se arroga o direito de julgar os fatos, quando deveria limitar-se a noticiá-los.

Galland-Hanna serão acusados de falsificar um original desconhecido até aquele momento, e mais tarde questionado por diversos leitores. Este enredo secular não mereceria fazer parte da leitura das 1001 Noites?

A respeito do título, alguém sugeriu outra leitura. Livro das mil noites e uma noite: as mil noites em que Shahrazad narra suas histórias (os árabes preferem contar histórias à noite) mais a noite 999, que corresponderia à noite do leitor (com cada leitor o livro recomeça). Admitindo tal hipótese, o título poderia ser interpretado assim: Livro das mil noites e esta noite.

Para finalizar, o Professor Jarouche confessou que há vários anos vinha postergando a tradução do livro. A superstição rege sua atitude, solidária com a tradição da obra. Narrou os casos de editores e tradutores que não chegaram a completar a tarefa, interrompida pela morte ou por algum acidente, como o de Borges. Haveria uma espécie de fatalidade relacionando estreitamente a vida do livro à daqueles que se ocupam de sua divulgação. O Professor Jarouche, então, compreende que o livro é um talismã. Isto eu deduzo do seu comportamento: como Shahrazad, o tradutor não evita o trabalho para esquivar a morte, antes o assume, postergando-o, porém. A equação é digna do livro: adiar a tradução é adiar a morte.

Nota carnavalesca do Professor Mamede Mustafá Jarouche:

Caro Jorge:

Somente hoje, com muitíssimo atraso, pude ler o seu texto, do qual gostei muito. As aulas na Cultura são de 2002 — e, na época, eu citava de oitiva a história do acidente com Borges. Foi somente depois que li o texto de Perfis. Quanto à “troca” que Borges operou na localização da noite, não tinha me ocorrido que ele tivesse consultado a tradução de Burton, da qual só tenho o primeiro volume. Não sei se nos volumes suplementares de sua tradução ele inclui a versão final da edição de Breslau. É possível.

Enfim, é isso. Agradeço-lhe o envio de seu excelente e arguto texto, e mais uma vez me desculpo por somente ter podido ler hoje, nesta terça de carnaval.

Grande abraço,

Mamede.

(28/02/2006)

P.S.: A nota inclui um mal-entendido que poderia ser acrescentado à história paralela à narrativa de Shahrazad. Deixo ao meu leitor, mezcla rara de Museta y de  Schaunard (cf. José González Castillo: Griseta, tango, 1924) a tarefa de corrigi-lo.

“ For the world is more full of weeping than you can understand “ – por omar de la roca / são paulo.sp

 

Se quebraram meus vasos de porcelana rara. Eu peguei os cacos e vi que não eram nada além de barro comum. Estalaram as cordas da harpa que se cansou da conhecida música. A ultima rosa de verão, tão acalentada, mirrou e suas pétalas se transformaram em pó. Nada mais resta de meus sonhos exaustos. Só o cansaço me acompanha fiel. Este cansaço “de todas as coisas”, ancestral,velho de milênios. Cansado de si mesmo, arrastando-se pelo sol em cega caminhada. De um lado a água profunda e escura do outro o deserto escaldante. A trilha estreita que me empurra ora para um lado ora para outro. Sem me dar chance de escolher, de dizer, é este que eu quero e não aquele. Meu coração, como o espelho, partiu-se de lado a lado. E cada lado se partiu em outros dois pedaços numa seqüência fractal indefinida. Espero com os pés na areia,mas a estrela não cai mais.A primavera congelou no tempo.Me cortaram as asas.Só eu continuo por aqui. Mas não sei como. Não sei como sou. Não sei quem sou nem o que importo. Nem se importo. Eu quem ? Mas a impossível continuidade segue em frente, e me carrega com ela. Como uma onda que varre tudo pelo caminho e vai levando, vai levando. Sem dizer para onde e nem se vai parar. A canoa  solta das amarras, insiste em ficar no mesmo lugar. Só vai balançando de um lado para o outro. Não vira e nem segue em frente. Não segue a corrente de água (límpida? turva? não sei ). Os dedos do salgueiro continuam tocando de leve a água do lago. Mas eles não escrevem mais, apenas observam as gotas escorrendo deles como as lágrimas que não chora. Nada mais me importa. Nem me interessa mais agradar a ninguém. Nem me interessa me dar bem com ninguém. Será apenas um momento? Será apenas este infinito, irremediável cansaço? Serei capaz de suportar este azul que insiste em se mostrar? Mas o azul não esta mais dentro de mim.  O falcão refugiou-se na gaiola e não quer mais voar pelas campinas amarelas. As borboletas, as flores de cerejeira, o beija flor, ficaram só na fotografia. Nada restou. Algo virá para ocupar o vazio? Há bastante espaço. Mas o vazio não quer ser incomodado com mágoas e sonhos destruídos. Nem as minhas. O vazio quer apenas o vazio e nada mais. Quer ficar vazio para sobreviver. Quer sobreviver?  Não sei.

Come away, O human child!
To the waters and the wild
With a faery hand in hand,
For the world’s more full of weeping than you can understand

Vá embora, criança,                                                                                                                                   Vá para os lagos e floresta                                                                                                                   com uma fada em cada mão,                                                                                                                deste mundo cheio de tristeza e choro,                                                                                             além de sua compreensão.

E este interminável cansaço. Cansado de si mesmo e dos outros.. A última fibra de rompeu. Cansaço, companheiro inseparável de todas as horas. E eu, que pensava ser forte, cai em mim e percebi que não sou nada além de apenas mais um .Sem direito a nada mais do que meu cansaço me impele a conseguir. Será que vai ser só isso? Sem esperança de ir mais além? Só sei que cada vez estou mais triste, com menos esperanças. Era mais fácil quando eu acreditava que algo mais viria. Agora, não sei. Será só esta inexistência insossa? Só me resta esperar que meu cansaço me responda. Dá me tua mão cansaço,vamos seguir mais um pouco.

D O B A I L E – por jorge lescano / são paulo.sp

A primeira dama havia lido a resenha de um grande baile de gala […]

a leitura propunha o questionamento e solução das sete seguintes fases:

Primeira: o baile como foi realmente oferecido há um século.

Segunda: o baile resenhado pelo cronista da época.

Terceira: o baile como a primeira dama imagina que foi,

com a resenha do cronista.

Quarta: o baile como a primeira dama imagina que foi,

sem a resenha do cronista.

Quinta: o baile como ela imagina dar.

Sexta: o baile como é realmente dado.

Sétima: o baile que pode ser levado a cabo,

utilizando a lembrança do baile como é realmente dado.

 

Virgilio Piñera, O baile, 1944

 

Segundo o encarregado do cotillon – a escolha do termo franco em detrimento do ianques coloquial, denotava o anacronismo do decorador e o habilitava para o cargo – , dever-se-ia respeitar as premissas do baile original se bem que acrescidas da técnica de última geração. A grande sala receberia iluminação indireta, porém, conservar-se-ia o grande lustre central, apagado. As fontes luminosas seriam arandelas douradas, devidamente guarnecidas de lâmpadas fluorescentes. O resto da ambientação não poderia violar este princípio. Por que a luz em primeiro lugar? O sorriso enigmático sugeria alguma causa mística – e nisto ele era perfeitamente contemporâneo – imaginasse a primeira dama os adereços correspondentes a partir desta causa não revelada.

O fashionista de moda (sic) sustentava opinião diversa. Para ele, a autenticidade da reprodução (sic) residia precisamente no uso do design e materiais pós-modernos – o itálico dava caráter de citação ao termo e habilitava o usuário para o cargo –, visto o idealizador do baile que se pretendia reeditar haver tido como referência um look prévio (vide V.Sa. o book & folderzinho anexos). De acordo com o cronista do baile (segundo nesta cronologia), os kits dos convivas eram exclusivos, criados especialmente para a ocasião, não streetwear nem week-end, com apenas um flashback da fashion do século retrô. Por tal motivo estavam, ele e seu competente team de fashionistas, ao inteiro dispor da primeira dama e seu wonderful catálogo de partners.

O músico da corte, tentando um caminho conciliatório – evitou a palavra alternativa por estar muito em voga –, sugeriu a inclusão de ritmos dançantes que remetessem aos bailes originais, melodias lights e um toque leve de música animal (sic). Acreditava que deste modo permitiria aos presentes a leitura simultânea do baile atual, devidamente justaposto à(s) lembrança(s) do(s) baile(s) original(is). Apreciasse a primeira dama o Song Book de artistas nacionais que acompanhava o parecer. Uma forte tendência para a simetria deu-lhe fama de espírito equilibrado, o qual o habilitava para o cargo.

Inúmeras objeções e conjeturas nutriram as tertúlias dos eruditos locais. Algum ficcionista cubano, de passagem por K, registrou as sete versões do baile, ou sete bailes possíveis, e as peripécias metafísicas e antropológicas vividas pela primeira dama e sua corte de senhoras bem nascidas. Seria cansativo referi-las neste parco resumo. Recorreu-se então à iconografia da(s) época(s)em questão. Saiu-seà caça de depoimentos de cidadãos provectos e de partituras mais ou menos consumidas pelas traças, uma vez que o Museu do Homem, em Paris, pegou fogo naqueles dias.

O patchwork party de ontem à noite nos Gardens de Calcutá City foi badaladíssimo. A iluminação light empolgou quem esteve lá. As teens vibraram com os mega insight do Luto Gacaz, que instalou spots Luiz XV munidos de psicodélicos pisca-pisca. O efeito alinear só foi superado pelo som, que circunviajou do hit Jesus Alegria dos Homens à oldfashioned tecno com paradas no country-rock& música étnica. A wearable Lulu Fueda Sertã estava diafânica. Vestiu saiote rodado, chapéu de plumas & peruca empoada à Maria Antonieta, com direito a fita de veludo blood no pescoço & franja irregular escorrendo para o decote free. Quem esteve animal foi Roland Small Pinto, 12. Seu black-tie, as polainas de verniz & hat a La Jack, o Stripper, compuseram um look zen. Arrasou! A promoter do evento passou a velada à margem esquerda de Sua Excelência. Digno de nota seu coque retrô. Vez por outra o sorriso spleen surgia por trás do leque de plástico made in Taiwan, decorado com graciosas figurinhas de Watteau. Sua Excelência vestia bermuda verde, óculos escuros, camiseta regata amarelo sorriso, tênis grunterssauro azuis, meias brancas com estampas de coqueiros & bonezinho Mickey Mouse. Spirit vídeo-clip, seu travel is do planalto to baía. Era-lhe impossível conservar a dignidade oficial, sempre identificada com a pose ice da pintura careta.

            O agito foi antológico, Yeah! Todos pediram bis. Uau!

Assim resenhou o baile um jornalista creditado no Palácio de Governo.*

*cf. Niu’s (Jornal Nacionalista) de 29/07/1997 (Nota de JL)

“AO MENINO QUE BRINCAVA DE AVIÃO” – por omar de la roca / são paulo

 

Kevin então pigarreou, ajeitou as jóias da coroa para reunir coragem. Queria contar uma história mais leve.Mas o que vinha a cabeça dele agora eram os antigos e sempre presentes relatos sobre a grande fome , sobre os gigantes , “ banshees” que passavam voando baixo aos gritos.Humilhação e sofrimento. Corpos abandonados,sexo atrás dos muros da igreja quando ninguém estava olhando,ou nas praias durante os curtos verões.Longas viagens de navio para a América,das quais muitos não sobreviviam. Levantou a mão para persignar-se mas parou a mão no meio do caminho . A boa e velha culpa católica,incutida pelos padres de sua cidadezinha num recanto perdido da Hibérnia. Para disfarçar, abanou o rosto com a mão dizendo que estava com calor e só iria conseguir falar alguma coisa depois de mais uma cerveja. Pediu para que Sergio tomasse sua vez.

Sergio pediu um minuto,já que a cerveja fazia efeito rápido. “ Cambiare l’acqua de l’olive “, ele disse e retornou em poucos minutos. Jogou o chiclete que mascava para tirar o amargor da cerveja,era o que ele dizia, mas era dependente de açúcar e por isso comprava chiclete diet para enganar. Tossiu um pouco para chamar a atenção e começou a história, jurando que não era autobiográfica.

Já há alguns anos ele  elegeu como sua primeira memória de infância,ele mesmo saindo correndo pelo portão de casa na antiga Rua da Consolação com os braços abertos querendo ganhar o ar. E se maravilhava ao ouvir histórias de quem já havia voado. Naquela época, fim dos anos 50 as coisas eram mais difíceis. Ia-se a biblioteca para pesquisar biografias e, pasmem, havia um campeonato de carrinhos de rolimã que desciam a Av. Rebouças aos domingos.A pegadinha era que só ganhava o menino que trouxesse o carrinho até o ponto de partida, subindo a avenida. Mas ele só foi uma ou duas vezes.Naquela época,havia uma sessão de cinema matinal aos domingos com o Pica Pau,que ele raramente ia.É, as coisas eram mais difíceis. E não só para ele.” Mas não quero transformar este conto em livro, disse Sergio,até poderia mas ia ser difícil de contar .Para que colocar no papel todas as agressões sofridas? Todos nós tivemos más experiências na infância.”  Mas aquele episódio de violência sexual o marcou tão fundo que lhe perseguia através dos anos. Anos e anos querendo ser “ normal” mas sempre com aquela sombra,estigma e a inevitável depressão. A primeira namorada,que durou um dia, a segunda, que lhe  deu o fora no dia de seu aniversário , deixando-o arrasado.O retraimento. A introspecção. A miopia a falta de recursos para o óculos,a repetência na segunda série ,aquela sombra pesando cada vez mais.Agressões,auto agressões.O quanto não fez para sobreviver ? Foi como uma árvore criada entre muros, que o protegiam mas não lhe deixavam ver nada. E  não lhe protegiam deles mesmos. E sempre o peso ,o medo , a falta de orientação.A falta de alguém para conversar. Amigos poucos, quase nenhum. Um primo,que tinha que ter sempre razão e ia bem na escola.Mas ele não . Fez amizade com um rapaz e começou a freqüentar a casa dele que morava com a irmã e os pais. E para ele, era como um refúgio estar lá. E para ele eram todos amigos. Viajavam juntos, tinham coisas em comum, foi uma época bem legal. Estava tão escaldado do peso de tantas coisas que vivia meio desligado, com a cabeça na lua . As namoradas que nunca davam certo. Os amores platônicos sem continuidade. Para ele,  era apenas uma sólida amizade. Mas  faltou percepção para ver que para a irmã dele, as coisas não eram bem assim. Jurou que não foi por maldade,que não fazia a menor idéia. Um dia, estava na casa deles quando receberam visitas.Uma amiga de anos com o namorado. E uma voz falou ao  ouvido dele, “ Olha ai a tua mulher. “ .Estas coisas as vezes  acontecem a ele. Achar uma pessoa que o estava  esperando em um lugar que ele  não esperava encontrá-la. E muitos outros acasos os quais agora não cabem aqui. Passou algum tempo, voltou a encontrar aquela amiga,que já estava sozinha. E foi como se dois pólos opostos se atraíssem com força. Foi ela que o fez pensar que  poderia ser “ normal”,após tantos anos de sofrimento. Dali a uns anos se casaram e foi só ali que ele  percebeu que seus problemas haviam apenas começado.  “ Sergio fechou os olhos e roçou o dedo de leve por debaixo dos óculos.E nestes breves segundos passearam pela sua memória anos de rejeição, repressão e auto agressão.De depressão e auto controle. De fogo e gelo. “ Tossiu de leve e voltou a narrativa :  E sempre aquela ânsia pela normalidade,pela tranqüilidade.” Resolveu deixar de lado o relato de muitos anos,mesmo que o psicoterapeuta dissesse que conversar era uma forma de terapia e de compreender que muitas vezes não somos os únicos com aquele problema.Não ia interessar aos seus amigos ouvir as dificuldades de um terceiro.” Passados tantos e tantos anos assistiu ao filme “ O menino do pijama listrado “,e adaptou a música de início, quando o menino “ voa “ pelas ruas de Berlin  ( que na verdade era Budapeste ou Praga na versão do filme , ele não se lembrava bem) a sua primeira memória elegida, e quando não está bem retorna a ela   “ ouvindo “ a música junto . Fica se pegando em mínimas alegrias para manter a sanidade .Apega-se a pessoas , uma pessoa no escritório ( uma loura que não aquela da contabilidade ) a um amigo inglês que pescou na Internet há muitos anos atrás e que por coincidência tinha o mesmo problema de relacionamento com a mulher ( coisas do inconsciente coletivo )que ele tem. Sergio achou que devia explicar e o fez  dizendo que  o amigo,na época, entrou em um site que relacionava pessoas interessadas em trocar correspondências e enviou quase 20 e mails pedindo por amigos para escrever. Alguns poucos retornaram inclusive Trawets , que continua até hoje e se tratavam como Bro ( irmãos ). Então voltou a história .Perto do fim do ano recebeu um texto que falava sobre  Fênix   e renascimento e percebeu que na verdade tudo dependia dele. “ Sergio parou por um segundo e lembrou-se de um trecho do  conto de Omar que dizia ‘ vivi muito tempo em minha própria sombra,agora quero um pouco de luz.’ “E continuando o conto ,não quero mais arrastar minhas correntes, ninguém quer ouvir o barulho delas. Quero que elas se partam e caiam ao chão . Lembrou-se dos  quadros inacabados no alto da prateleira da cozinha. Não era um bom pintor,mas gostava da arte,do cheiro da terebintina e da mística que envolvia os pintores.Pintar o que conseguia era sua maneira de se vingar pela falta de oportunidade de estudar arte.Tinha adorado “ Meia Noite em Paris “.Gostaria de ter suas esculturas em bronze,mas o preço era proibitivo. A menos que conseguisse um mecenas que o patrocinasse.Mas também não era bom nisso. Mas para se vingar fazia as esculturas em argila e revestia com epóxi para criar resistência,e as cobria com folha de ouro para melhorar a apresentação . Deu-se conta de que as quedas se sucederiam, mas que teria que resistir a elas e ,a cada uma, ele iria se levantar mais rápido e mais sábio. Não deixaria mais de aprender algo com cada situação que a ele se apresentasse.  ‘” Sergio viu que os outros dois esboçavam uma cara de sono, tirou os óculos, fingiu que os limpava na gravata meio solta e disse que por enquanto era só.”

DE POEMAS E DA POESIA – por zuleika dos reis / são paulo

            

Se meus poemas são poesia, não o sei com certeza, que nem todo poema é poesia, assim como muita prosa é poesia, tal qual a prosa de Guimarães Rosa, que já a tem desde o próprio nome. Gostaria de ter sobre minha escrita “poética” a mesma lucidez que me ocorre diante da escrita poética das outras pessoas.

Talvez eu seja apenas portadora de uma boa antena poética, que me garante a percepção de muita da poesia que flui das coisas e isto já é cota razoável de bem em um mundo de infinitas miserabilidades, criadas pela nossa Espécie.

Vejo a poesia como um bem de vocação comunitária, ao menos se avançarmos rastro atrás até a sua origem, vocação que se manteve, sob formas diversas, até ainda a Idade Moderna – falo de Ocidente – e que foi, a partir daí, se afastando cada vez mais celeremente dessa vocação e se tornando um exercício mais e mais solitário, para leitura de leitores apenas em seus espaços particulares. A Internet parece-me estar a trazer de volta, em novos moldes, a partilha da poesia, recuperando a sua dimensão social. Se ainda não é um bem para todos – nunca o foi, em verdade, em tempo histórico algum, este sonho é uma Utopia – é pão necessário para muitos, tão necessário para a vida como o são os pães feitos de trigo; água tão imprescindível como a água que permite a sobrevivência do corpo.

Se sou efetivamente poeta, não o sei; com certeza, nutro-me de poesia, da poesia que não se encontra só nos poemas, mas, em outras manifestações da arte. Sem a poesia, neste sentido mais amplo, eu seria um ser deveras miserável, digno de muitíssima pena. Sem a bênção da poesia eu seria, apenas, uma completa e irremediável mendiga, mendiga de mim mesma a me pedir esmolas ao real, ao que chamamos real imediato, com o qual temos os compromissos necessários e obrigatórios, no centro do qual, sem a poesia e o sentimento poético do mundo, segundo a expressão de Drummond, eu – só posso  dar meu testemunho pessoal – morreria por falta de oxigênio.

DA UTOPIA E DO CRIME – por jorge lescano / são paulo


 

Para Urda Klueger

 

Não há nada de quixotesco nem romântico em querer mudar o mundo.

É possível. É o ofício ao qual a humanidade se dedicou desde sempre.

 Não concebo melhor vida que uma dedicada à efervescência, às ilusões,

à teimosia que nega a inevitabilidade do caos e à esperança.

Gioconda Belli

Em termos gerais concordo com o pensamento da escritora nicaragüense, de quem conheço apenas esta frase, remetida por uma companheira de utopia. O que me motivou a escrever a nota são os conceitos quixotesco e romântico, citados por ela como pejorativos, ao gosto da mentalidade liberal burguesa.

Nada mais humano que o homicídio premeditado, o matricídio, o parricídio, o fratricídio, o latrocínio e a tortura. Nenhuma outra espécie comete estes crimes em sã consciência, eles são atributos exclusivamente humanos. O que um homem fez, a espécie faz. Nenhum indivíduo pode se declarar isento das características da manada humana. Nada mais humano, também, que o anseio de conhecimento, de liberdade, de justiça, de felicidade.

A sombra de Hitler nunca ofuscará a luminosidade de Mozart, a inquietante clarividência de Kafka. A prepotência de Mussolini não apagou a alegria de Vivaldi. Os crimes de Stalin só ressaltam a verdade da obra de Dostoievski que denuncia o absurdo da violência dos homens. O obscurantismo de Franco nunca empanou a lucidez de Cervantes. A desfaçatez de Obama que pretende justificar guerras injustificáveis, não perturba o reconhecimento das românticas viagens de Poe à região nebulosa da mente, não pode ocultar a melancolia dos quadros de Hopper nem o bom humor da música de Cage. É óbvio que tais nomes não esgotam o elenco de protagonistas da eterna luta entre a luz e as trevas. Eles perambulam anônimos ao nosso redor.

Toda revolução é romântica porque pretende mudar o mundo, realizar a utopia.

É revolucionário – não importa qual seja o teor da atividade nem o volume de sua tarefa – todo aquele que sonha com a justiça plena, isto é: os mesmos direitos para todas as diferenças. Muda-se o mundo menos pela gestão política que pela consciência individual que obrigará o político a obedecer.

Descreio de instituições cuja única função é disputar cargos públicos. A diferença entre um partido político e o movimento político é que aquele concorre ao governo do Estado (entidade semidivina na atualidade) e este educa, forma as pessoas para a autogestão. Em geral é trabalho realizado individualmente porque o poder político sempre acaba institucionalizando (entenda-se encampando, neutralizando e manipulando) os frutos da tarefa coletiva.

Se não podemos mudar de mundo, mudar o mundo é a única alternativa, única utopia válida. Deve-se pretender o máximo para conseguir o mínimo. Assim funciona a sociedade humana.

O Quixote era uma sátira na época de Cervantes, tornou-se paradigma moral e moralista por algum tempo, volta a ser exemplo de estupidez, de ingenuidade e loucura (?) nos tempos que correm porque não produz lucros monetários, valor máximo da comunidade ocidental e cristã.

A arte, por revolucionária que seja, não muda o mundo, apenas ilustra a doutrina de que a pensamento não deve ficar preso a preceitos estabelecidos pela “autoridade”. Isto é válido em todos os ramos, para todas as categorias. O conhecimento científico também caminha assim, desrespeitando a autoridade estabelecida pelo poder político das academias. O pensamento deve ser campo aberto para o cultivo. Somente os dogmas afirmam possuir verdades imutáveis.

Reivindico para mim os motes de romântico e quixotesco pelo que eles têm de inconformismo, e não é preciso que ninguém aprove ou adira à minha escolha. Tenho o mau costume de ver a realidade pelo avesso. Não fosse assim e teria me dedicado a vender apólices de seguros de vida e estaria em paz com os deuses (todos eles!) e com o mundo.

Atribuem-me a (má?) fama de iconoclasta. Não sei se isto é verdadeiro, sei sim que nunca pactuei com o culto à personalidade de nenhum ídolo, que sempre acaba servindo ou criando seitas, clubes, partidos apenas diferentes nas cores e tamanhos. Isto não impede que reconheça o valor de pessoas e obras sem que, necessariamente, deva render-lhes culto.

Em meus rascunhos abundam nomes de artistas. Suas obras, de diversos modos, moldaram a minha escrita. Também Natividad Cardozo, minha mãe e lavadeira analfabeta, colaborou com ela; e se não deixou frase memorável para ser citada formou o homem que sou hoje, com todos meus defeitos.

Talvez o sentido da vida de cada um seja procurar a perfeição (?), esta a utopia individual. Nisto acreditam diversas seitas de todas as latitudes. Eu me reservo o direito à dúvida.

Chefe do FMI alerta que economia global está em perigo / paris.fr

25/12/2011 – 13h55

 DA REUTERS, EM PARIS

A diretora-gerente do FMI (Fundo Monetário Internacional), Christine Lagarde, afirmou que a economia mundial está em perigo e pediu a união dos europeus diante da crise da dívida que tem ameaçado o sistema financeiro global.

Na Nigéria, na semana passada, a diretora do FMI disse que a previsão do Fundo de 4% de crescimento mundial em 2012 poderia ser revista para baixo, mas não deu nenhum novo número.

“A economia mundial está numa situação perigosa”, afirmou ela a um jornal francês, em entrevista publicada neste domingo.

A crise da dívida, que entra em 2012 depois que uma cúpula europeia no início do mês acalmou apenas temporariamente os mercados, “é uma crise de confiança na dívida pública e na solidez do sistema financeiro”, declarou Lagarde.

Líderes europeus planejam um novo tratado para aprofundar a integração econômica na zona do euro, mas não é certo que o novo acordo irá conter a crise, que começou em 2009 na Grécia e agora ameaça a França e mesmo a poderosa Alemanha.

“A cúpula de 9 de dezembro não alcançou termos financeiros detalhados o suficiente e foi muito complicada nos princípios fundamentais”, afirmou Lagarde.

“Seria bom se os europeus falassem como uma só voz e anunciassem um cronograma simples e detalhado”, completou. “Os investidores estão esperando. Grandes princípios não impressionam”.

Parte do problema, segundo ela, têm sido as reivindicações protecionistas nos países, tornando “difícil formar uma estratégia internacional contra isso”.

De acordo com Lagarde, “os parlamentos reclamam de usar dinheiro público ou garantir o apoio do seu Estado para outros países. O protecionismo está sendo debatido, e o cada um por si está ganhando terreno.” Ela não especificou a que países se referia.

Países emergentes, que tinham sido os motores da economia mundial antes da crise, também estão sendo afetados, disse Lagarde, citando China, Brasil e Rússia. “Esses países vão sofrer com a instabilidade”.

O SIGNIFICADO DO NATAL – por manoel de andrade / curitiba.pr

 

          Nestes dias que precedem o Natal, ocorre-me pensar nas tantas portas que se fecham para o seu real significado, mascarado por estranhas personagens natalinas e maculado por poderosos interesses mercadológicos. Ocorre-me também pensar que se o Cristianismo fosse verdadeiramente interpretado não haveria tantos sectarismos e o simbolismo da manjedoura de Belém seria fraternalmente reverenciado no mundo inteiro, além da barreira das religiões.

 

Jesus não fundou nenhuma igreja, nem dogmatizou nenhuma religião. Trouxe-nos a imagem de Deus como um pai, mostrou a importância da religiosidade e nos revelou o significado incondicional do amor. Não escreveu nada, mas deixou, na memória de seus discípulos, a sabedoria de suas parábolas e, no Sermão da Montanha, toda a essência do cristianismo, falando do amor aos inimigos, do perdão das ofensas e da importância de dar a outra face como um caminho aberto para a reconciliação. Resumindo, quis dizer-nos que ser cristão é saber transformar o orgulho em humildade e o egoísmo em amor.

 

A ênfase de sua filosofia propunha a redenção humana pela educação e não pelo constrangimento. Embora abominasse o pecado, Ele amava o pecador e acreditava que educar é despertar o senso da justiça, do amor e da beleza moral que existe, potencialmente, em cada ser humano. Nesse sentido, entre tantos fatos de sua vida pública, exemplificou sua tolerância e sua caridade diante da mulher adúltera e do bom ladrão, no alto do Calvário.

 

Passados vinte séculos hoje perguntamos qual o significado do seu nascimento para cada um de nós. Sobretudo perguntamos quantos já leram e estudaram o seu Evangelho. Nesse singelo banco escolar que é o planeta,  — onde ainda somos espiritualmente crianças  — seu conteúdo é uma cartilha insubstituível para soletrarmos o beabá do amor, da paciência e do perdão. Diante das sabatinas diárias da vida é imprescindível aprendermos o que significa “orar e vigiar” e não fazer a ninguém o que não queremos que nos façam. Quantos são capazes de vivenciar suas lições e seus exemplos, ante as provas e os embates do dia a dia, oferecendo a outra face ante o agressor e perdoando sempre? Se já começamos a ensaiar essa difícil conduta então Jesus já nasceu para nós e temos um Natal para comemorar. Mas muitos ainda trazemos o coração fechado a essa realidade, tais como as estalagens de Belém, cujas portas se fecharam ao seu nascimento.

 

Se perguntássemos a Paulo de Tarso onde nasceu Jesus, ele certamente diria que foi diante das Portas de Damasco, onde chegou para aprisionar alguns cristãos da cidade. Se perguntássemos a Maria Madalena onde Ele nasceu, com certeza, responderia que Jesus nasceu para ela na casa de Simão, o fariseu. Foi ali que depois de lavar e enxugar seus pés ela ouviu sua voz compassiva perdoando-lhe os pecados.

Onde predomina o orgulho e o egoísmo — essas patologias crônicas da alma humana — Ele não poderá renascer, ainda que invocado em rituais e ladainhas. É imprescindível que façamos do coração uma manjedoura humilde para que Jesus possa renascer em nossas vidas. Caso contrário, além da beleza sentimental da fraternidade e o significado envolvente do Natal no seio da família, temos apenas uma data histórica para comemorar, com muitos presentes, a figura patética de um Papai Noel, um banquete de sabores e aparências e o apego às ilusões do mundo.

 

 

 

NATAL – por zuleika dos reis / são paulo


O Natal nos liga à origem do Tempo Sagrado, onde está o Ser a Quem pertencemos, o Ser de Quem somos parte, independente do fato de termos clara em nós tal Ciência.

A manifestação da Criança Sagrada nos vem todo ano como Recordação e Presença; vem para nos lembrar que a Vida não tem fronteiras, nem de espaço, nem de tempo.

A manifestação da Criança Sagrada nos vem todo ano para nos mostrar que a Vida apenas É, a iluminar-nos desde Sempre, desde o Âmago, desde o Centro.

A manifestação da Criança Sagrada nos vem todo ano para nos incinerar das nossas misérias, por segundos que seja; para nos Iluminar, por segundos que seja; é preciso Coragem Desmedida para nos deixarmos incinerar, por segundos que seja, para nos deixarmos Iluminar, por segundos que seja; é preciso Desmedida Coragem, para que ousemos duvidar do brilho mais do que nunca ofuscante do Imediato Real, dos presentes sem Presença, do brilho que, se descuidarmos, nos fará passar totalmente em branco este Tempo de Recordação e de Presença da Criança Sagrada, que vem para nos Lembrar. Que vem para nos Lembrar, para nos lembrar de Nós.

 

 

Morre a cantora africana Cesária Évora: calou-se “a grande voz” de Cabo Verde. – por regina bostulim / coimbra.pt


 

Portugal chora a morte da “Diva dos Pés Descalços”.


 

A cantora cabo-verdiana Cesária Évora, conhecida como Rainha da Morna, tipo de música que a popularizou, faleceu no dia 17 de Dezembro, aos 70 anos. Os telejornais portugueses já vinham dedicando várias reportagens à cantora desde que se ausentou dos palcos em 22 de Outubro. Na ocasião a cantora anunciou ao jornal francês Le Monde o fim da carreira devido a problemas de saúde, e retornou à sua ilha natal, São Vicente, para morrer.

Radicada na França há cerca de 20 anos, Cesária havia recebido em 2009 do presidente Nicolas Sarkozy a medalha da Legião de Honra. Mas amava o Brasil: em 1999 gravou em duo com Marisa Monte a canção É Doce Morrer no Mar, de Dorival Caymmi.

                                                 Pés descalços

A pior fase da vida da cantora no ano de 1975, ano da independência de Cabo Verde. As tremendas dificuldades econômicas  por que passava o país a forçaram a parar de cantar para dedicar-se ao sustento da família. Frustrada, a cantora caiu no alcoolismo, prolongando seus anos de inferno por 10 anos, a que chamou  dark years (anos negros).

Sua volta triunfal aconteceu em Portugal, incentivada por Bana, cantor e empresário cabo-verdiano radicado no país. Um francês chamado José da Silva a persuadiu a ir a Paris, onde grava em 1988 o álbum La diva aux pied nus (a diva de pés nus), forma como se apresentava nos palcos.

O álbum foi aclamado pela crítica, e em 1992 gravou Miss Perfumado, e passou a morar na França. Tornou-se uma estrela internacional aos 47 anos. Em 2004 recebeu um Grammy, de melhor álbum de world music contemporânea. Foi a cantora que recebeu maior reconhecimento internacional na história da música cabo-verdiana.

Morre o líder ditador da Coreia do Norte, Kim Jong-il

Comentário:

Morre mais um ditador. Que lembranças leva? Que recordações deixa? Não ter alcançado os seus ideais de socialismo? Ter deixado a Coréia do Norte afastada do mundo, durante 17 anos, em continuidade ao período também ditatorial de seu pai, por 46 anos? Kim Jong-il governou a chama República Democrática Popular da Coréia com a mesma mentalidade autocrática de seu antecessor e foi mais longe ainda: tornou-se conhecido em todo o mundo como o mais totalitário chefe de estado do planeta. Governou o país sem liberdade de imprensa ou religião, sem liberdades políticas (como todo ditador, detestava a oposição – consta que manteve nada menos que 200 mil prisioneiros políticos durante seu governo) e com baixos índices de educação e de proteção à saúde, em contraste com sua eterna inimiga-irmã, a Coréia do Sul. Mas sempre preocupado em continuar com a mesma linha ideológica de culto à personalidade criada por seu pai (seus epítetos preferidos eram “Líder Supremo”, “Querido Líder”, “Camarada Comandante Supremo” e “Nosso Pai”), característica narcisista também própria aos ditadores.  Deixa sue filho Kim Jong-nam como sucessor. Também se fala de um cunhado seu, Kim Jong-nam, como outro possível sucessor. Tudo em família, numa nação que se diz república, democrática e popular. Mas lembremos de outro líder, também falecido no último domingo: Václav Havel, ex-presidente da República Tcheca, antípoda político do líder coreano. Dramaturgo, escritor, ensaísta, poeta e dissidente político, lutou, com suas peças teatrais, contra o regime totalitário que então Tchecoslováquia, o que lhe valeu bons anos de prisão, com a debilitação de sua saúde, o que colaborou para apressar sua morte. Este, sim, deixa uma obra digna de ser chamada de humana. Em 75 anos de vida, publicou seis livros de poemas, 22 peças teatrais, um livro de ficção e nove não ficcionais, além de um filme. Havel será sempre lembrado como o bardo que devolveu a liberdade a seu povo, num ato histórico chamado de Revolução de Veludo. Mas ele tinha os pés no chão. Dizia que não havia nada mais significativo, durante os acidentes da história, do que as vozes dos poetas que se opõe a impérios e regimes militares. “As vozes de aviso de poetas – dizia ele –  devem ser cuidadosamente ouvidas e levadas muito a sério, talvez até mais sério do que as vozes dos banqueiros ou dos corretores bolsas. Mas, ao mesmo tempo, não podemos esperar que o mundo nas mãos dos poetas possa, repentinamente, ser transformado em um poema.” Cleto de Assis

Cultura: do pensamento para o entretenimento – por almandrade / salvador.ba

Nada mais desprezível e repetitivo do que certas falas sobre cultura que jorram nos congressos, seminários, na mídia, hoje em dia. A impressão é que houve uma perda da capacidade de produzir pensamento e a ausência de platéias seduzidas pela reflexão. Não se interroga a produção simbólica, faz-se reivindicações, relatos, comentários para animar um auditório acostumado ao olhar da televisão. Se algum dia na história, o filósofo, o intelectual, o crítico, o artista, o poeta ocupavam o lugar privilegiado de formar opinião, hoje, esse lugar é ocupado pelo produtor, o empresário cultural, o profissional de marketing. E a cultura é vista apenas como um agente de estímulo da economia de uma sociedade em declínio.

 

O discurso fica na superficialidade. Que a cultura é um bem de consumo, ninguém duvida, gera emprego, garante retornos significativos para a economia de uma cidade. Mas os profissionais do marketing, os políticos e os empresários ignoram na cultura a sua lógica: a do sentido, que ela é uma dimensão da existência do homem. “O que chamamos ‘cultura’, portanto é a ciência e a consciência com que o homem ocupa o espaço e o tempo de sua morada histórica. E o homem culto é aquele que cultiva essa ciência e essa consciência.” (Gerardo Mello Mourão). A cultura é um conjunto de práticas por onde transitam uma autonomia, a experiência de uma saber e uma política específica. O patrocínio, que substituiu o antigo mecenato, reduziu os problemas da cultura às leis da economia e o poder do patrocinador acabou decidindo sobre padrões estéticos ou linguagens. Há uma valorização arbitrária de um produto cultural em detrimento de outro e a divulgação fica submetida a um jogo de poder de quem manipula direta ou indiretamente com os mídias e o mercado.

 

Somente com talento e invenção é difícil competir no mercado. Os profissionais que ganharam celebridade através do marketing cultural animam o espetáculo que faz da cultura um supermercado de entretenimentos. “Nos meios de comunicação, a confusão que se estabelece entre o princípio tradicional de celebridade baseado nas obras, e o princípio midiático baseado na visibilidade da mídia é cada vez maior.” (Pierre Bourdieu). A cultura passa a ser apenas o que ela representa no campo da economia e da diversão. Enquanto se discute as leis de incentivo à cultura, não se discute a idéia de cultura e as instituições culturais não cumprem o papel de difundir um princípio de cidadania cultural. Uma política cultural indecisa, calcada em princípios pouco profissionais que desprezam ou desconhecem o fazer e suas materialidades específicas. E sem trabalhos, sem críticas, sem um suporte que sustente a formação e a divulgação da informação não vamos construir nenhuma credibilidade cultural. “A arte age e continuará a agir sobre nós enquanto houver obras de arte” (Merleau-Ponty). E não discursos sobre as obras.

 

Uma cidade, um Estado, um País passam a ter uma existência cultural e conquistam um reconhecimento no futuro quando aprendem a respeitar seus artistas e intelectuais, quando aprendem a conviver e garantir as disparidades culturais. Entendemos que as instituições culturais como fundações, universidades, museus etc. têm um papel importante a cumprir na produção e divulgação da informação dos produtos artísticos acima de compromissos pessoais e políticos que ignoram a natureza das linguagens artísticas. “No curso de grandes períodos históricos, juntamente com o modo de existência das comunidades humanas, modifica-se também seu modo de existir e perceber” (Walter Benjamin). A produção cultural participa dessas mudanças com a tarefa de transformar a realidade dentro de um território determinado da sociedade e do pensar onde a cultura age.

 

 

Almandrade

(artista plástico, poeta e arquiteto)

A LEITURA NÃO É UM HÁBITO – por jorge lescano / são paulo


 

 

Hábito, subs. Masc: disposição duradoura adquirida

pela repetição freqüente de um ato; uso; costume.

Novo Dicionário Aurélio.

 

Eu sou afeiçoado a ler até os papéis rasgados das ruas

Miguel de Cervantes: Don Quixote

 

Hábito é enfiar o dedo no nariz,

a leitura é um trabalho intelectual.

Livro das cinzas e do vento

Sem pretensões de escrever uma tese acadêmica, uma vez que estas estão viciadas pelas normas do discurso universitário, das quais afortunadamente estou livre, gostaria de expor a minha visão do ato da leitura.

Atualmente conto mais de meio século de leituras anárquicas, isto é, livres de qualquer controle e direção a não ser o meu interesse e o meu gosto. Assim que fui alfabetizado descobri a leitura e o livro que se tornaram meus companheiros pela vida afora. Se a escrita-leitura está condicionada pelo entorno social, não se pode negar que também o indivíduo leitor, com todas as suas particularidades, físicas inclusive, faz parte do processo que denominamos leitura e que vai muito além da decodificação de signos gráficos.

Através do texto dois sujeitos se defrontam. O autor, que também é um leitor, e o leitor-autor de novos e imprevistos significados. Duvido que exista leitura errada, no máximo poderá haver leitura deficiente, leitura que não atinge todo o conteúdo do texto.

Ler é como andar, como falar. Quando a criança começa a falar e não consegue pronunciar como os adultos, se diz que fala errado. Grande injustiça! Quando anda feito um palmípede porque o tamanho do pé não permite a flexão e ainda estende os braços como asas para manter o equilíbrio, ninguém diz que anda errado. Todos reconhecem que anda segundo as suas possibilidades e até festejam cada nova conquista de terreno.

O meu campo de experimentação, por assim dizer, é o texto ficcional. A arte é de um modo geral um campo de experimentação. Nela podemos vivenciar idéias sentimentos e sensações de forma explícita sem correr qualquer risco. Interpretar “mal” uma situação ou um personagem literário não põe em risco a vida de ninguém, já ler deficientemente uma fórmula de química pode fazer a casa voar. A releitura do bom texto literário sempre acrescerá novas informações, interpretações e sentidos.

Confunde-se muitas vezes a quantidade com a qualidade. Um bom leitor é, para a maioria das pessoas, alguém que lê muito (?), que possui vasta biblioteca, real ou virtual em tempos de internet. Creio que um grande leitor pode ser o leitor de um único livro durante toda a vida. Alguns exemplos literários podem ilustrar esta idéia.

No romance L’Étranger, de Albert Camus, traduzido como O estrangeiro (deveria se chamar O estranho: a obra trata do estranhamento do protagonista em relação a si mesmo e não há qualquer estrangeiro na história, mas isto é tema para outra nota), Meusrault, seu protagonista, preso por haver matado um homem, encontra na cela uma folha de jornal na qual se narra a morte de um homem por sua mãe e irmã. Devo ter lido esta história milhares de vezes, diz. O caso o leva a refletir profundamente sobre a falta de sentido da vida e chega à conclusão de que bastaria viver um dia para ocupar o resto da vida com as lembranças. O próprio Camus deve ter pensado muito nisso, a notícia deu origem a sua peça dramática O mal entendido. Se Meusrault tivesse mais material de leitura talvez se distraísse e o seu pensamento poderia vagar sem rumo; nunca saberemos, a obra não nos dá qualquer pista a respeito.

Yannes, garimpeiro grego na Amazônia venezuelana, carrega como único pertence um exemplar da Odisséia, este é suficiente para preencher suas necessidades intelectuais. Isto acontece em Os passos perdidos, romance do cubano Alejo Carpentier. O autor não dá informações sobre o resultado dessas leituras e garante que o personagem é real. Real também é o fato mencionado por Camus.

Pierre Menard, autor do Quixote, de Jorge Luis Borges, é obra exemplar sobre a leitura. O personagem, leitor de Cervantes e poeta simbolista, decide escrever (não reescrever) o Don Quixote. Não queria compor outro Quixote – o que é fácil – mas o Quixote. Borges ilustra a idéia de que o leitor pode (talvez deva) ser o verdadeiro autor da obra. A leitura, diz, é um trabalho mais demorado, mais intelectual que a escrita.

Costumo dividir a leitura em três estágios básicos: o informativo, no qual o texto revela seu conteúdo imediato, seu significado semântico; o estrutural ou crítico, onde o leitor lê o corpo do texto, não apenas o nível gramatical ou sintático, mas onde reconhece outros elementos, tais como a ação, tempo, lugar e personagem, elementos básicos de qualquer narração e sem os quais nada pode ser narrado; finalmente o nível criativo, aqui o leitor mudou a sua natureza, ele é co-autor do texto. Ler é recriar o texto. É lugar comum dizer que um livro sem leitura é letra morta. Nada mais verdadeiro. Cada leitor recria o texto com suas próprias experiências, projeta sobre a obra o seu repertório único, intransferível, neste sentido ele já está escrevendo, já é um escritor. Pierre Menard é o paradigma deste estágio.

Mais de uma vez vi andarilhos parando para ler uma folha de papel jogada na rua. (Não devia haver muitas na época de Cervantes.) O caso é intrigante: o que procura esse leitor? Creio que não seja informação. Provavelmente não se importou em verificar a data de publicação. Penso que está exercendo o famigerado hábito da leitura preconizado por editores, críticos, professores, livreiros, jornalistas, curadores de feiras de livros e eventos afins e até escritores. Sim, uma vez superado o estágio de leitura com os lábios, surge o hábito de leitura, isto é, um reconhecimento compulsório do texto. Nos grandes centros urbanos é fácil verificar que lemos de forma impensada, contínua, quando andamos pela rua. Todo texto é reconhecido automaticamente, sem crítica e dificilmente fica registrado na memória. Isto é um hábito, será uma leitura?

Incentivar o hábito da leitura não será reforçar o hábito de consumo, substituir a qualidade pela quantidade? Se assim for, pode-se dizer que o hábito da leitura é bom para os negócios.

Estas são observações avulsas de um autodidata sem qualquer repertório epistemológico, como o leitor atento pode perceber, mas que não se considera vítima do hábito da leitura.

CURITIBA, pastelão e chuva – por wagner de oliveira mello / curitiba.pr

Mentira é tudo mentira! Nunca tive uma estante, cama, mesa ou quarto; desde que fralda era um pedaço de pano que segurava minha merda presa à bunda eu divago por ai, sem burro, sem alça, às vezes um tênis, em outras uma calça. À merda com essa rima estúpida, ta pensando que tua vida é a Odisséia rapá.
• Acordei atrasado como sempre, sai apressado sem nem escovar os dentes ou dizer bom dia pro espelho; chegando à portaria fui invadido pela mesma duvida que me assombra todas as manhãs, então voltei tropeçando escada acima conferir se tinha trancado a porta,  -É claro que trancou, complexado idiota -. Tomei um cafezinho com pastel podre no china koreano e corri pra estação tubo porque além de tudo chovia pra caralho naquela hora. Incrível como todo usuário de guarda-chuva insiste em andar embaixo das marquises obrigando quem esta sem a desviar? Gente ignorante! Bem curitibana mesmo. Prefiro andar na sarjeta, até porque na calçada tem aquelas pedras soltas que quando você pisa jogam lama nos calçados, nas calças, podendo subir até a camiseta dependendo da intensidade da pisada e como eu sou azarado é melhor prevenir. Mas enfim, chegando semi ensopado no tubo, advinha? “O palerma aqui esqueceu o cartão de transporte e obvio que estava duro. O cobrador que já me conhece bem olhou pros dois lados antes de liberar.” Entra pela portinha lateral, da nada não, você ta sempre ai, outro dia me paga um café e ta tudo certo. “Porra cara, valeu, valeu mesmo.” Às vezes encontramos gente santa, e geralmente são as mais simples. Eu no seu lugar teria mandado o sujeito passear. O mundo não é bom, as pessoas não são boas e quando são acabam se fudendo, ou acha que se o fiscal da URBS, escondido atrás de um poste lá do outro lado da rua visse essa ação não teria delatado o pobre coitado; ai já era rapá! Não faz dessas coisas não filho, que Deus não abençoa!
Transito parado, ônibus lotado, cheio de gente encasacada, molhada, empunhando guarda chuva com olhar ameaçador como quem diz: esse canto é meu, não chega perto que te bato com isso na cabeça! E eu numa ressaca infernal, sonhando com minha cama, uma garrafa de água com gás e possíveis falecimentos que impedissem o expediente. Nada! A porta se abriu e, com muito custo consegui sair do coletivo, na verdade não sai, fui expelido porta a fora com a pressão dos que entravam pela outra. Alivio e desconcerto juntos. Mal desci do ônibus, um carro buzina ao meu lado, haha advinha quem era? Meu chefe é claro, e nem pra me dar carona o maldito, jamais daria, esporro sem platéia não é esporro.

 

 

ESTOU APRENDENDO – de delinar pedrinho matuczak / quedas do iguaçu.pr


 

Eu pensei que a idade me trouxesse experiência.

Lembraram-me que na vida devesse pedir sapiência

Labutei pedindo experiência

Entendi depois de muito penar

Necessito sapiência, espero que esteja em tempo de aprender a ser sábio e a tentar ensinar isso a alguém.

cognita sum

Putabam me aetate usus.
Admonuit me sapientia vitam peterent
Vocatio experientiam laboraverunt
EGO animadverto multum laborem
Ut sapientiae sapere et spes discite tempus tellus sed do eiusmod aliqua.

O NOME DA DEUSA – por jorge lescano / são paulo.sp


Não há provas de que esta criatura constitua uma espécie. O exemplara que registramos é, conforme declaração textual, o único avistado pelo autor do manuscrito compilado e comentado, provavelmente, pelo ilustre bibliotecário cego; versão esta que ora apresentamos em tradução livre. Acreditamos que o leitor, por pouco erudito que seja, poderá identificá-la entre suas lembranças de juventude.

 

“Lucádia ou Dulcáia, a Princesinha, tal a estirpe, e a alcunha, pelas quais é conhecida entre os tcharooas, na terceira margem do rio Cunaimama. Todavia, por motivos que a história omite, os francos e certo autor hebreu-germano-sueco, a denominam Charlotte, a Coxa.

“Presume-se que seu nome, como o da América (Amerik: elevação de terreno não vulcânico na atual província de Chontales, Nicarágua), foi transferido para solo europeu por navegadores espanhóis do século XVI. Como Amerik, foi rebatizada e devolvida ao Novo Mundo com a função de vestal.

“Eis a descrição suscinta legada pela tradição:

Cor: mourisca; cheiro: de felino silvestre de pequeno porte; cabelos: liga de cobre e ouro velhos; nariz: cleopátrico; olhos: sarracenos; voz: damasco em salva de cobre.

“Dadas as referências orientais, é-nos lícito suspeitar que o Império Otomano não esteve ausente na sua reconstituição. Há quem insista no caráter esotérico (alquímico, cabalístico) da passagem citada. conjeturou-se que era uma versão abreviada do simurg proposto pelo persa Farid ud-Din Attar. Talvez fosse previsível que alguém associasse a Princesinha à Zoraida do capítulo XL, da primeira parte do Quixote.

“A antiguidade clássica guarda silêncio ao seu respeito. Platão não a menciona em suas obras, o que induz a não poucos helenistas apressados a adjudicá-la, de forma pueril, ao culto de Eros. Outros, não menos anacrônicos, optam por oferenda-la a Dionísio. Deve atribuir-se isto à sua tendência a pousar sobre as mesas na posição de flor de lótus? A imobilidade, contudo, não é sua característica principal.

“Um velho mendigo a quem consultamos, interrompe seu zazen para sussurrar,  olhando para os lados, que, ‘devido às suas minúsculas proporções e aos seus passos miúdos, quando surge no crepúsculo dos corredores dos teatros pode ser confundida com um castorzinho assustado. E ainda: ‘Recomenda-se ceder-lhe a passagem desviando os olhos, sua mirada tem poderes ígneos’.

“Os chineses a admitem como justa equivalência do atroz monstro Aqueronte, avistado apenas uma vez, no século XII, por Túndalo, jovem e dissoluto cavaleiro irlandês.

“Para os tcharooas personifica Oolan-Naooëv, a lua nova de sirënev (sexta-feira). Nessas ocasiões, genuflexos, entoam poemas para sua natureza úmida no leito do Cunaimama, pois o que está acima está embaixo, acreditam. Porém, se a divindade mostra a face na sétima noite (Oolan-Naël, a jornada vermelha das semanas de treze dias), seu sacerdote empreende o Caminho do Norte pela margem direita do rio. Solitário, chora ou canta em silêncio.”

ENQUANTO OUÇO SEGÓVIA – por zuleika dos reis / são paulo.sp

       

O tempo em que todas as coisas já não são. O tempo em que todas as coisas estão fechadas dentro de si mesmas, elas próprias conteúdo e continente. O baú trancado do qual se perdeu a chave.

                Segóvia toca e a musica é perfume que entra pelas frestas do que fui. O tempo flor de metal mais que cristal ou sopro de vento. O tempo um calafrio entre os dedos.

                Alguns antigos sabiam de coisas que quase todos de nós perdemos há muito. Os dedos de Segóvia vão recuperando o possível disso, mas a hora é velha demais para qualquer descobrimento.

O gato tem sete fôlegos, sete vidas. Eu tenho só uma vida e nem esta é minha. O gato pisa manso, não desperdiça nada de suas sete vidas. Eu piso denso e vou perdendo cada passo da única que tenho.

Segóvia toca e o gato não compreende. Os pensamentos são as ondas de um mar inútil. A tarde também passa e desaparece todos os dias sem decifrar nada, porque não há nada a decifrar: não há qualquer fratura no cristal do tempo.

O tempo de uma vida… o que é o tempo de uma vida? Sabemos do mundo o universo de fantasmagorias chamado palavras. Nele matamos, morremos, nos perdemos do que julgamos nós mesmos, como se significasse alguma coisa perdermos isso.

Há os que meditam, há os que sempre buscaram e buscam e em todos os vindouros tempos continuarão a busca de escapatórias desta casca, desta crosta a que chamamos eu, este eu que é nada. Nomes e nomes e nomes para dizer algo desse OUTRO que buscam. Nomes e nomes e nomes para que algo deste OUTRO INDIZÍVEL INCOMUNICÁVEL seja o MESMO para os demais homens ou, pelo menos, a aspiração de cada um deles.

Segóvia para de tocar, a noite caiu há tempo, nada se quebrou nem se partiu. Tudo parece coeso onde o mundo é apenas uma infinita saudade do mundo; uma infinita e sem saída saudade de mim.

VIDA BREVE… – por joão bosco leal / são paulo

 

Ainda outro dia, depois das aulas e das tarefas feitas, jogava bolinhas de gude com amigos na calçada de casa…

No mês de agosto, os meninos faziam seus papagaios de papel de seda e goma arábica, tentando que fossem mais coloridos e com o rabo maior que o dos outros…

Ao anoitecer, os pais já cansados e querendo um pouco de sossego, nos davam algumas moedas para apanharmos vagalumes…

As brincadeiras mais comuns eram as de pega-pega, esconde-esconde, cabra cega, amarelinha e queimada…

Depois vieram os jogos de futebol e para meninas, outros tipos de brincadeiras, considerados mais apropriados…

Os pais que podiam, colocavam seus filhos no judô e na natação, as meninas no balé e piano, e ambos no inglês…

Como diversão, a grande novidade eram os patins, antecessor do skate…

As fanfarras treinavam o ano todo para raríssimas apresentações, no sete de setembro ou nos concursos estaduais, quando, as meninas faziam belíssimas apresentações de malabarismos…

Vieram as aulas de datilografia, que os mais novos sequer sabem do que se trata…

As brincadeiras dançantes em clubes eram destinadas aos menores de idade e animados com música ao vivo…

O limite de horário era sempre muito rígido, 22 horas, e queríamos envelhecer mais rapidamente…

Vieram os bailes, os carnavais, os cinemas e os namoros, todos muito diferentes dos atuais…

A cuba libre era a bebida da moda e alguns se embebedaram pela primeira vez…

Ouvíamos os Beatles, Creedence CR, Carpenters, Ray Charles, Cat Stevens, Aretha Franklin, Tina Turner e centenas de outros de elevado padrão musical, com músicas também muito diferentes das atuais…

Veio a faculdade, muitos estudos, músicas, namoradas e bailes, mas a sonhada formatura, só para a minoria…

Começou a vida de responsabilidades, trabalho, busca de renda, casamento, filhos…

A tensão era ser enorme, com muitas preocupações com a educação e saúde dos pequenos, seu futuro…

Agora são os filhos que passam pelas mesmas situações, nos alegrando ou preocupando…

Apareceram rugas e cicatrizes, muitas no corpo outras na alma…

Muitos cabelos caíram e outros ficaram brancos, os sonhos diminuíram e fiquei mais realista…

Os netos começam a crescer e de um modo ou de outro a viver tudo o que eu e seus pais vivemos…

Aos 60 anos, muitos nos acham quadrados, ultrapassados, com poucas idéias úteis, mas na sua idade, eu achava que uma pessoa com 35, 40 anos já era velha…

Realmente diminuíram minhas destrezas, estou cada vez mais lento, física e mentalmente, mas é uma fase maravilhosa, pois já aprendi e senti bastante, mas tenho fome de novos aprendizados e sentimentos…

Foi tudo muito rápido e o que mais quero agora, é que tudo demore muito…

Gilberto Dimenstein (pig) e o sentimento da minoria – por paulo teixeira / são paulo.sp

Dimenstein (pig) e o sentimento da minoria


O jornalista Gilberto Dimenstein quis solidarizar-se com o ex-presidente Lula, mas não conseguiu. Em sua coluna “O câncer de Lula me envergonhou”, publicado pela Folha Online deste domingo (30/10), ele condena o preconceito de uma minoria que, neste momento, diz que Lula deveria se tratar no SUS, o Sistema Único de Saúde.

Em seu texto, Dimenstein faz alguns elogios a Lula e diz que o ex-presidente foi conivente com a corrupção. Baseado em quê?

Lula tomou uma série de providências no combate à corrupção durante o seu governo. Se não, vejamos.

Os procuradores gerais indicados pelo então presidente foram indicados sem o compromisso de aliviar a vida do governo, diferentemente do que ocorreu no governo FHC, quando o procurador geral era chamado de “engavetador geral da república”.

A Polícia Federal atuou com independência e autonomia funcional, prendendo inclusive um irmão do então presidente, que sequer foi indiciado depois.

A Controladoria Geral da República (CGU) foi instalada em todos ministérios, atuando como órgão de controle interno com mãos fortes.

Lula enviou para o Congresso Nacional duas legislações importantes de combate à corrupção: a legislação de acesso aos dados públicos, recentemente aprovada, e que exigirá a máxima transparência do Estado brasileiro; e a outra legislação importante, tramitando na Câmara Federal, pune o corruptor.

O texto do jornalista é paradoxal na medida em que, ao condenar tal minoria, a acompanha nos seus preconceitos.

Paulo Teixeira é Deputado Federal do PT.

Kadafi – por philomena gebran / rio de janeiro

 

Acabo de ver transmitida pela Globonews,  parte da história do mais terrível ditador de todos, os tempos, se é que é que é possível dizer “o mais terrível “ quando todos os ditadores, são sinônimos de terror, sem exceções. Mas o que mais me impressionou, foi como todos os chefes de estado do Ocidente há seu tempo, se curvaram diante desse ditador prestando-lhe honras de grande estadista, preocupando-se, inclusive em achar lugares aprazíveis para a montagem de suas tendas. Eram os interesses econômicos falando mais alto, que as atrocidades muito bem conhecidas de todos, que Kadafi praticava com seu povo. Mas para os políticos em ação, o que é o povo diante dos interesses capitalistas e do petróleo que poderiam obter da Líbia, bajulando seu ditador; os interesses falam mais alto; o povo que se dane. O que me deixa ainda perplexa é que todos agora criticam as comemorações do povo, nas ruas da Líbia pela captura e morte do seu algoz; sem estabelecer nenhum  juízo de valor, me solidarizo com o povo líbio pela sua vitória e vida longa a esse bravo povo revolucionário, que lutou e resistiu até conseguir sua Vitória.

A FELICIDADE NÃO MORREU! – por mhario lincoln / curitiba

Quem conheceu Flor de Lys de perto, sabe muito bem como ela encarava a vida. Foi uma vitoriosa, antes de tudo. Conseguiu feitos inacreditáveis para a época em que São Luís, capital do Estado do Maranhão, mergulhava em total escuridão pertinente aos direitos humanos, direitos da mulher e respeito público às senhoras desquitadas. Foi exatamente nessa plenitude da escuridão que Flor de Lys apareceu e iluminou os novos rumos socioculturais da capital do Maranhão.
Suas vitórias são incontestes. Rompeu as barreiras do machismo ao integrar, pela primeira vez, uma banda masculina de ginásio (Liceu e Escola Normal) tocando corneta no desfile de Sete de Setembro. Foi a segunda mulher a dirigir um carro de passeio nas ruas de São Luís. Lembro-me (eu tinha de 11 para 12 anos): quando Flor de Lys parava sua Rural Willys na praça João Lisboa, em frente aos Correios, quem estava lá, se aproximava para ver se era realmente verdade uma mulher dirigir uma camionete/rural.
E foi nessa mesma rural que num dia chuvoso, ao levar minha irmã Orquídea para o curso primário do Colégio São Luís Gonzaga, na rua do Sol, da fantástica Zuleide Bogea, a camionete derrapou numa curva, na rua dos Afogados, subiu na calçada e entrou no quarto do então Delegado do Trabalho, pela janela da frente, derrubando a parede frontal. Um bafafá daqueles, logo às sete da manhã…e o delegado acabara de levantar de sua rede armada à beira da janela, rede essa que acabou servindo de freio para o avanço, quarto adentro, da camionete de seis cilindros.
Praticamente tudo aconteceu durante a vida de nossa mãe. Mas ela sempre se saiu vitoriosa, não só por sua força interior, mas por sua qualidade indisfarçável de nunca desistir de seus objetivos. Por exemplo, um dos mais importantes para nós foi diante da Justiça, quando conseguiu a nossa guarda; dos dois primeiros filhos, após a separação de nosso pai, advogado José Santos. (Ah, sim! Flor teve mais dois maridos – Humberto Marão e Eloy Cutrim – e mais duas filhas, Cristina e Dalvinha, respectivamente, rompendo mais essa barreira social).
Toda a vida de Flor de Lys foi marcada por muita luta. Desde o começo, pela sobrevivência, quando trabalhava pela manhã no Jornal Pequeno, à tarde no TRE-MA e à noite nas recepções sociais. Antes, no começo, ela eracrooner de um trio de músicos do Hotel Araçagy, do saudoso Moacir Neves.
Nessa época lançou “Tudo que eu tinha na Vida”, música que rodou o Brasil e fez muito sucesso. Por pouco, Maysa Matarazzo não gravou. Como era difícil gravação e envio para o Rio de Janeiro, a letra e música de Flor de Lys não chegou à tempo, a fim de que o estúdio pudesse aprovar a composição e incluí-la no novo long play que a cantora estava finalizando.
Uma coisa, porém, no meio desse furacão de acontecimentos prós e contras, Flor de Lys sustentou algo que passou para os filhos: liberdade e persistência. Ela me disse várias vezes quando eu me sentia chateado com alguma coisa: “Nem que o Céu lhe caia na cabeça, nunca desista”. Esse era seu lema, repito: Liberdade e Persistência. Isso, todos os quatro filhos conseguiram absorver nitidamente.
Por isso, neste 03 de novembro, quando mamãe Flor de Lys completaria 83 anos e 7 meses dessa viagem ao Universo, voando nas asas de anjos de luz do Senhor, não teremos dúvida. Vamos comemorar a vida. Vamos festejar a vida. Vamos cultuá-la como em vida na Terra estivesse. Esse era seu desejo. E será literalmente cumprido. (Benção minha mãe). De teus filhos Mhario Lincoln, Orquídea Santos, Cristina Martins e Dalva Lima.
Obs: Em 2009 minha mãe veio  visitar-me em Curitiba para continuar seu tratamento da vista. Aqui, brincando, eu e Mariana, minha filha mais nova, fizemos um vídeo (gravado em máquina digital). De repente, esse simples vídeo marcou a última entrevista de Flor de forma espontanea, como ela sempre foi em vida. A seguir, a entrevista escrita:http://www.mhariolincoln.com/noticias/ver/neste-sabado-poetico-a-ultima-entrevista-de-flor-de-lys

Ciranda de mãos soltas no aniversário de Zuzu – por omar de la roca / são paulo

Primeira volta ( 10/10/11)

Queria estar naqueles dias inspirados para escrever alguma coisa muito especial para o seu aniversário.Que falasse de portas e janelas abertas para o céu para o mar, que falasse de gaivotas ao vento de terras distantes. De temperos, sabores, cores e perfumes exóticos. De risos soltos,pés na areia, correndo da onda que vem branquinha.De caminhos que se cruzam ao entardecer,ao por de sol descansado. De mesas postas , de horas cheias, de liberdades poéticas, pelos menos. Da chuva caindo mansa, ah a chuva.Da agua santa do coco verde, do peixe fresco pulando.De olhos brilhando na tranquilidade da solidão.De mentes libertas pensando nas flores, fontes, folhas, pedras e palavras tardias.De mãos estendidas para o giro e para o sol,de corpos dançando nus na lua cheia. De cabeças frescas , de problemas resolvidos .
Infelizmente me falta a inspiração.  Mas não para desejar que este ano que se inicia possa te trazer muita paz,muita luz e a tão sonhada liberdade.

Segunda volta (11/11/10 )

Acho que acordei encontado hoje.
Vim pensando em falar sobre flores de cerejeira espreguiçando e alisando as roupas para bem receber o beija flor que vem de mansinho contar seus segredos ( que elas já sabem). Ou o som da harpa distante do bardo improvável.Do espelho que reflete as cores outonais da floresta. Ou do sol dourado cochichando para as montanhas azuis. De flores se abrindo no jardim para as borboletas coloridas. Da brisa suave carregando o polén e o perfume. De meus sonhos pendurados em cabides num canto, onde vou de vez em quando só para tirar o pó deles. De minhas palavras, que só são minhas porque eu as disponho a minha vontade. Ou, coloco minhas palavras a teus pés, ( e não meus sonhos ,pois só elas tenho ) , pisa com cuidado pois estás pisando em minhas palavras. Da comédia de todos os dias,que as vezes fazemos de drama talvez para chorar um pouco e nos sentirmos melhor. Mas escolho a comédia, mesmo que chore com ela.Pensei em conchas brincando com as marés,se enrolando nas algas. Gaivotas de origami pousando em páginas de livros. Haicais perfeitos declamados pelo mestre adormecido. Místicos avatares rodando enquanto rezam . Uma folha verde que cai em minha mão quando passo pela árvore do bosque imaginário. De todas as minhas invenções , delírios inofensivos , viagens imaginárias. De todas as palavras tolas , imaturas . De todo sentimento guardado como uma poesia escondida num livro antigo no fundo de um armário. De coisas que vem a tona quando menos esperamos e nos ferem e nos fazem querer esquecer. Da memória que,como a fotografia que não foi tirada , se amolda a paisagem ideal de nossos sonhos . De águas límpidas , pouco exploradas, que a cada um só interessa a própria margem .
Mas é apenas um conto, que já parece mais um capítulo.Como este que se inicia hoje. Apenas mais um capítulo. Que a comédia seja o tom dele. Que a tranquilidade esteja presente em todas as páginas.Que passe rápido se você assim o quiser. E que a imaginação ( esse grande desafio ) possa impregnar cada linha , libertando a mente de todas as âncoras as quais insistimos em segurar .

Não poema – de omar de la roca / são paulo

Não poema

Fechei meus olhos,para que não te visses neles e recebi com carinho teus beijos não dados.
Abri meus olhos, os teus já fechados,pousei um beijo em cada um com a delicadeza de uma borboleta numa folha, para não te acordar.
Encostei minha mão no teu rosto e não acordastes.
Recolhi a mão,fechei os olhos, senti a mão que voce não colocara em meu rosto e curvei a cabeça para receber o carinho não dado,prendendo tua mão não estendida entre o rosto e o ombro.
Segurei com cuidado tua cabeça,para que não batesse no vidro do ônibus,mas tirei a mão já que abrias os olhos.
E fiquei vendo o teu reflexo bo espelho, enquanto mantinhas os olhos vigilantes, e olhei direto para teu rosto enquanto mantinhas teus olhos fechados.Não, não os abra,quero decorar teu rosto.Sim, abra-os,quero ver de relance a cor de teus olhos enquanto desvio o olhar.São claros ? Não se i.
Tens sono.Fecho meus olhos e te vejo em meus sonhos despertos.Espero estar nos seus,mesmo que misturados com tua vigília.Abro meus olhos.Em tua boca o contorno de um sorriso.Do que te lembrastes? O que fizestes ? Fecho meus olhos e sorrio também.Me lembrei do que fiz? Não.Gravei teu rosto.
Estamos chegando.Sussurro ao teu ouvido,está na hora.Não te dás conta.Espero-te ? Não respondes.Te olho mais uma vez quando chegamos ao ponto final.
Respondo com um sorriso ao até amanhã que não me destes.Até amanhã.Espero te ver de novo.Mesmo que seja durante os quinze minutos que a viagem dura.
Te abraço forte,mas pareces não sentir.Eu, entretanto, quase não respiro com a força do teu abraço não dado.
Te levantas rápido. E finges não perceber que te deixo descer na minha frente.Aguardas na calçada e não me estendes a mão, que pego com avidez.
Agradeço a gentileza não feita,enquanto amarras o tênis.Sigo até a escada rolante.Vo cê vai pela fixa.Mas ainda nos vemos no andar de cima em lados opostos.Te procuro e te acho.Dou um sorriso de satisfação pelo teu sorriso não dado.Aceno de volta para o teu aceno não dado.Viras a tua esquerda e eu viro a minha esquerda.
Quem sabe amanhã.Quem sabe amanhã tocarei teu corpo com o meu sem querer,perto da porta de saída,descendo as escadas.
Quem sabe amanhã um motorista descuidado não freia rápido,jogando tua cabeça para perto da minha.Quem sabe irei pisar em teu pé,meio que por acidente,só pra te olhar bem, me desculpar,e ver teus olhos verdes olhando para mim.

CASO E DESCASO – de jorge lescano / são paulo


 

CASO

Uma dupla de HOMOSSEXUAIS foi agredida na Avenida Paulista no último fim de semana. O fato está na moda. Os repórteres acompanham o movimento da investigação. Os jornalistas esperam que este não seja mais um caso de DISCRIMINAÇÃO impune. Ótimo! Ninguém gosta de ser agredido gratuitamente.

 

DESCASO

No interior de São Paulo (não guardei o nome da cidade porque a notícia não foi reprisada) o FILHO de um VEREADOR agrediu e ameaçou verbalmente um CAMINHONEIRO NEGRO. Este, na sua santa inocência pediu a intervenção policial. A polícia chegou e ELE (só ele) foi levado para a delegacia. O CIDADÃO perguntou por que só ele estava sendo conduzido ao distrito policial. Resposta: cumprimos ORDENS SUPERIORES (!?). O VEREADOR, seu FILHO e sua NAMORADA ou esposa foram embora tranquilamente, não sem antes entrar numa loja de conveniências e comprar cigarros e uma lata de cerveja.

           

CONCLUSÃO (?)

No Caso se procuram os agressores e se supõe ou espera que sejam punidos. No Descaso se tem o agressor e não se espera que haja punição por “Ordens Superiores”. À discriminação social e racial do Caminhoneiro se soma a Discriminação Jornalística, que noticiou uma vez e esqueceu o assunto. Coisa de somenos que não merece manchete, especialmente quando no interior se produz uma tragédia por questões financeiras em família tradicional.

            Assim marcha a Democracia Compulsiva. VIVA! 

CAMPECHE: passarela da arrogância VAI AO CHÃO / ilha de santa catarina

Comunidade do Campeche faz ouvir sua voz: cai a passarela

Por Elaine Tavares – jornalista

De repente, no meio das dunas, entre o verde da mata e o amarelo da areia começou a crescer um monstro de pau. Misteriosamente vinha de um condomínio de luxo, construído na beira da praia. Por dias, o que se via da areia era uma profusão de madeiras, pregos e homens. A comunidade espiava, no seu jeito ilhéu, cismando. E o monstro vindo.
Então, numa manhã, aquela língua de madeira chegou à praia, destacando-se nas dunas como uma ferida aberta, uma grotesca chaga, um manifesto separatista. Desembocava cinicamente, e sem pudor, no exato lugar onde por anos vicejou o bar do Chico, espaço solidário da comunidade do Campeche, lugar das conspirações, das lutas e das festas populares.  O bar que foi derrubado numa manhã chuvosa e gris, sem que as gentes do lugar pudessem fazer nada, depois de levar anos em luta para mantê-lo onde estava. Vieram as máquinas e os homens do poder. “Está sobre as dunas, tem que cair”, diziam.
Agora, o Condomínio Essence, um pequeno monstrengo moderno, de dezenas de apartamentos espremidos entre si, mas de alto padrão, reafirmava seu poder, tripudiando da comunidade na qual pretende incluir mais de mil moradores. O monstro de madeira era uma passarela que ia desde a saída dos prédios até a beira da praia, serpenteando por entre as dunas. Um refúgio seguro para os privilegiados moradores. Uma caminhada de 300 metros sem colocar o pé no chão. A natureza servindo utilitariamente apenas como paisagem.
A comunidade que cismava, decidiu agir. Vieram reuniões, idas aos órgãos ambientais, prefeitura, secretarias. Se o bar do Chico caíra, porque a passarela haveria de ficar nas dunas? “Vai proteger”, alardeavam alguns defensores da natureza. Mas, quem vive no Campeche sabe muito bem o que é que protege as dunas e a natureza. É a gente do Campeche, pessoas que amam o lugar e que amam viver num bairro jardim, onde a natureza não é coisa, é parte de cada um. Esse povo não protege a natureza porque é bonito ver o verde, as dunas e a praia. Protege porque o verde, as dunas, a praia estão entranhados no modo de ser de quem vive nesse lugar, nativo ou não.
Todos os caminhos institucionais foram trilhados, mas ninguém ouviu o clamor. O secretário do “desenvolvimento” ainda ameaçou: “Isso é o futuro. Virão outras”. Isso porque o projeto dessa gente que administra a cidade é fazer uma Florianópolis só para quem pode pagar bem caro por ela. E isso inclui a natureza. Nos enormes cartazes das construtoras, a praia, a areia, o sol, tudo está à venda, incluído no preço. E com um sabor a mais. A pessoa ainda não precisará viver o incômodo de sujar o pé. Pode pegar sua cadeirinha na porta de casa e ir até a beira do mar protegida pela passarela. Haverão de banhar-se?
Na última sexta-feira (30) o povo protestou. Nada aconteceu. No dia seguinte, voltaram as gentes. Desta vem em maior número. Sábado de sol. Praia bonita. Passarela terminada, bem nos destroços do bar do Chico. Era coisa demais. Uma instalação artística re-construiu o velho bar, com uma foto do seu Chico.  Alguns choravam. Outros reclamavam, indignados. Então alguém gritou: “ao chão”. O mesmo grito dos homens do poder ao histórico bar numa manhã chuvosa. Mas, nesse sábado, não teve máquina. Teve gente. Teve comunidade. Uma a uma, unidas em pequenos grupos, as pessoas foram arrancando os paus, na mão mesmo, puxando,  quebrando, libertando a duna do monstro de pau. Em pouco tempo já havia uma montanha de madeira e o malfadado “deck” já era. Ouvia-se o riso, corriam as lágrimas, palmas. “Foi um dia histórico. A comunidade mostrou que, unida, pode fazer valer a sua voz”.
A passarela foi arrancada da duna, mas a luta não acabou. Essa é uma queda de braço entre dois projetos muito claros: um deles prega o desenvolvimento predador, ainda que só de alguns, os clientes. O outro insiste em manter um modo de vida que avança com o tempo, mas que não destrói. Que preserva cultura, jeito de ser, simplicidade e harmonia com a natureza. É uma batalha titânica que cabe agora ao sul da ilha. O norte já passou por isso e perdeu. Aqui no Campeche, agora que é noite e cai uma chuva fina, as pessoas estão em casa, cismando e fazendo planos. Conheço meus vizinhos e sei: se depender de cada um, a passarela não volta mais.

BRINQUEDOS FURIOSOS – por jorge lescano /são paulo

BRINQUEDOS FURIOSOS

 

Juanito foi assassinado aos onze anos por policiais, este crime pretendia esconder outros crimes. Davi provavelmente ficou apavorado ante o tamanho de sua agressão e para fugir dá um tiro na cabeça. Alguns depoimentos sugerem que ele havia premeditado o suicídio, aos dez anos de idade!

Não tenho provas além daquelas fornecidas pelos noticiários, especialmente os sensacionalistas, que se alimentam da truculência de nosso cotidiano.

Os dois fatos parecem surgidos de um roteiro de vídeo game ou de seriado de televisão. Lamentavelmente, para fugir da violência das ruas, muitas crianças devem ficar trancadas dentro de casa a mercê da “estética” da porrada, da lei do inescrupuloso, da pena de morte aplicada por aquele que tem a arma.

Dois casos extremos da violência diária que se pratica a revelia da lógica e do simples bom senso, às vezes pelas mãos dos pais contra filhos pequenos e que vão do castigo corporal ao estupro e o esquartejamento.

Sem nenhuma pose de moralismo, registro estes fatos na esperança de encontrar alguém que me ajude a compreendê-los. Isto é possível? São conseqüências do estágio de desenvolvimento das sociedades ou uma prova de que a nossa espécie tem origem no assassinato? Talvez seja o começo do fim da espécie. Se assim for, é melhor fornecer logo a toda população um destes brinquedos para que cada um tome seu destino nas mãos e decida a hora e local do suplício.

Até quando vai vigorar a hipocrisia do terrorismo de estado para combater o terrorismo e as “políticas” de desarmamento, do individual ao nuclear?

Somos reféns do “poder público”, cada vez mais poderoso e menos público graças à falácia da Democracia Compulsória (sic).

Quantas crianças deverão ser imoladas para despertar as consciências adormecidas?


ENOMIS – por jorge lescano / são paulo

Era uma vez um príncipe almejado por todas as donzelas, porém seu grande e verdadeiro amor chamava-se Enomis, e tanto amor lhe vinha não apenas do nome, que significa “a de olhar gentil”, mas também do ouro, um dos seus muitos atributos.

Engana-se quem pense que o metal deslumbrava a mente do mancebo e não a sua beleza ebúrnea.

Erra quem acredite que o amor ao ouro é indignidade. Os que cobiçam ouro para com ele comprar prazeres e poder, não amam em verdade o ouro e sim aqueles prazeres e o poder. O fascínio do ouro não os toca, esbanjam-no qual tagarela as palavras.

Não estava neste caso o príncipe, que com ele se engalanava cada manhã, após as abluções e até na cabeleira espargia uma fina camada do metal precioso. Cintilava o ouro sobre a testa régia, dir-se-ia, do sol, um suave orvalho.

Tal hábito sagrado diferenciava os seres de alta estirpe do resto dos mortais, distinguia-se deste modo o jovem cavalheiro, tanto do campônio rude, quanto do mais erudito cortesão.

Como vedes, de Enomis não poderia desejar o ouro e sim seu puro encanto.

Enomis era, contudo, uma vestal. Sacerdotisa devotada a um vasto culto no qual, após a iniciática cerimônia, onde confluíam duas primaveras, aos astros nunca mais mostrar-se-ia. Viveria, daí por diante, vestida somente pela longa cabeleira. Nada decorava o aposento da reclusa. Imaginava-se, no entanto, que tênues esculturas de vapor perfumavam devagar a cela, por cujo chão marmóreo deslizavam os pés nus.

Existia invisível. Do claustro não vazava sequer a voz de brisa, de castidade era o voto, e de silêncio, e de nunca elevar os olhos para o altar.

Definhava o mancebo em meio a riquezas incontáveis. Ocultava-se na alcova, submerso em melancólica penumbra, pois nem o supremo bem da liberdade o atraia.

Da harpa, as mãos, languidesciam. Temendo ecos de uma voz perdida, as cordas não mais ousava dedilhar. Pesadas cortinas o isolavam da campina circundante. Morriam nas pregas do veludo os trinados e o brilhar do sol, e a lua, menos sutil que Enomis, da presença do amoroso foi banida.

Estórias como esta não tem fim, e mesmo seu final parece incerto.

 

  (Cala-se o venerável bardo e empunha seu cajado. Vá-se.)

 

A ALEGRIA na TRISTEZA – por martha medeiros / porto alegre

 
O título desse texto na verdade não é meu, e sim de um poema do uruguaio Mario Benedetti. No original, chama-se “Alegría de la tristeza” e está no livro “La vida ese paréntesis” que, até onde sei, permanece inédito no Brasil.

O poema diz que a gente pode entristecer-se por vários motivos ou por nenhum motivo aparente, a tristeza pode ser por nós mesmos ou pelas dores do mundo, pode advir de uma palavra ou de um gesto, mas que ela sempre aparece e devemos nos aprontar para recebê-la, porque existe uma alegria inesperada na tristeza, que vem do fato de ainda conseguirmos senti-la.

Pode parecer confuso mas é um alento. Olhe para o lado: estamos vivendo numa era em que pessoas matam em briga de trânsito, matam por um boné, matam para se divertir. Além disso, as pessoas estão sem dinheiro. Quem tem emprego, segura. Quem não tem, procura. Os que possuem um amor desconfiam até da própria sombra, já que há muita oferta de sexo no mercado. E a gente corre pra caramba, é escravo do relógio, não consegue mais ficar deitado numa rede, lendo um livro, ouvindo música. Há tanta coisa pra fazer que resta pouco tempo pra sentir.

Por isso, qualquer sentimento é bem-vindo, mesmo que não seja uma euforia, um gozo, um entusiasmo, mesmo que seja uma melancolia. Sentir é um verbo que se conjuga para dentro, ao contrário do fazer, que é conjugado pra fora.

Sentir alimenta, sentir ensina, sentir aquieta. Fazer é muito barulhento.

Sentir é um retiro, fazer é uma festa. O sentir não pode ser escutado, apenas auscultado. Sentir e fazer, ambos são necessários, mas só o fazer rende grana, contatos, diplomas, convites, aquisições. Até parece que sentir não serve para subir na vida.

Uma pessoa triste é evitada. Não cabe no mundo da propaganda dos cremes dentais, dos pagodes, dos carnavais. Tristeza parece praga, lepra, doença contagiosa, um estacionamento proibido. Ok, tristeza não faz realmente bem pra saúde, mas a introspecção é um recuo providencial, pois é quando silenciamos que melhor conversamos com nossos botões. E dessa conversa sai luz, lições, sinais, e a tristeza acaba saindo também, dando espaço para uma alegria nova e revitalizada. Triste é não sentir nada.

Milhares saem às ruas na Europa e EUA em protesto contra mercados financeiros

Na manhã deste sábado (17/09), centenas de pessoas se concentraram nas imediações da Bolsa de Valores de Madrid para protestar contra o mercado financeiro do país. A reivindicação faz parte da iniciativa conhecida como “Occupy Wall Street” (Ocupar Wall Street, em tradução livre) que mobilizou protestos semelhantes em frentes às bolsas de valores de 74 cidades pelo mundo. 

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Como o nome indica, a ação foi iniciada nos Estados Unidos, onde um protesto deverá tomar a Wall Street, símbolo do mercado financeiro do país, na noite deste sábado. O ponto de encontro entre os manifestantes é a estátua do Touro da Wall Street, que simboliza a agressividade do mercado financeiro norte-americano.

Embora semelhantes, cada cidade impõe suas demandas em protestos que deverão durar, pelo menos, até o próximo domingo (18/09). Em Nova York, os manifestantes demandam uma economia a serviço das pessoas, a regulação dos mercados financeiros, a limitação da influência desses mercados na vida política, a criação de um banco público e uma partilha justa e equitativa da riqueza.

Em Madrid, a manifestação foi convidada pelo movimento 15-M, conhecidos como “indignados”, que foram às ruas do país nos últimos meses para exigir reformas políticas, econômicas e sociais.

No protesto, iniciado às 12 de Madrid (07h no horário de Brasília), os manifestantes trazem faixas com dizeres como “FMI, deixe-nos viver”, “Ditadura dos mercados”; “A Bolsa ou a vida”, “Cuidado com a carteira, você está na Bolsa”, “Bancos sim; públicos e para sentar-se”, entre outras em protesto com o sistema financeiro do país.

Vídeo divulgado na Espanha para convocar o protesto

Em meio à crise econômica que afeta países europeus e também os Estados Unidos, diversas manifestações ainda deverão ocorrer neste final de semana em nações como Alemanha, Holanda, Portugal, Grécia, França, entre outras, reunindo milhares de pessoas.

*Com informações do jornal El Mundo e da emissora CNN

TEXTO 3 – por wagner de oliveira melo / curitiba

Corrompi todo o Código Penal Padre; deus sabe que tentei ficar em casa rezando. Mas elas estavam ali o dia inteiro, perdidas, sem nada fazer. Tentei ficar em casa, mas o diabo me corrompeu. Se falar do mal, a igreja tem algo a dizer: “de boas intenções o inferno está cheio, meu filho”; “ótimo!, então não há mais lugar para mim; parto sem fim, padre”. Quero viver, fazer o bem, remunerar o jovem trabalhador, forjar uma nação e contribuir para o espetáculo do crescimento. Uns gostaram, outras nem tanto, outros ainda… Nada. Peixinhos. A maioria nunca tem opinião; é apenas movida de lá para cá ao sabor do poder, delícia dos anos 30: uma fotografia de mulher seminua da cintura pra cima. Ainda mais com toda a ofensa aos bons costumes… Nada. Peixinhos. Somos todos cordeirinhos, “meu pai não me levou à zona, foi tudo sem crase, mamãe foi junto, ela trabalhava lá, tenho orgulho, foi o que pagou meu estudo, hoje, quando derramo a última lágrima do funeral, imploro por seu perdão, mamãe, as leis eram mais fortes, não pude ser o contador do bordel”. Não há mães e pais no mundo, somos todos nós abusadores de criancinhas, elas gostam, serão nós, seremos elas, juntas elas fazem a pressão subir, uma com o dedinho na outra, até que o casamento acabe com tudo. Sou pra casar, cada vez que cometo uma atrocidade penso, Maria, me salve, case comigo, por favor. Tudo é saudade, quando não está aqui, quem sou se não o mal, o mal que posso fazer, pensando no meu bem. Vice-versa. Melhor dizer o mal, sei que elas queriam mais que eu, mas eu sei, li, não fui assassinado quando o exército vermelho exterminou todos aqueles que usavam lentes, suspeitos de serem leitores, – crime capital, pena: eu agora querendo mais, elas lá fora, esperando o dia inteiro, uma apóia na outra, “eu gosto assim, faz pra mim”. Queria poder me culpar mais, queria o suplício; mas confesso e não blasfemo: a culpa é sua, por que não está aqui comigo? Vergonha? Deve ser, eu também teria, jamais me encararia, esses olhos negros não têm fim, a gente se perde neles; tenta-se fixar o olhar, impossível, os olhos negros não têm pupilas, é preto e branco, um na cozinha, outro comendo, sendo servido. Bocejando há horas, Maria, José, João, qual é mesmo o nome da insônia? Insônia é simplesmente desistir de dormir. Tomar remédios, desabar, insônia só amanhã de manhã. Cada qual em sua realidade; cada qual pensando em fazer o bem; cada qual submerso em seus pecados – os olhos talvez os escondam, talvez queiram mais, mais bem, mais bem, mais bondade. Incrédulos, gentes, nações e organizações acreditam que o bem resta estático, pontual, – amantes do pragmatismo, “vamos distribuir remédios na áfrica”, “cotas raciais”, “o meu bem deve prosperar, afinal é o bem, é a bondade, é a minha religião: o bem”. – Te sento a mão na cara moleque, mas é para o seu próprio bem. – Aprenda de uma vez por todas que não se pode falar palavrões à mesa, sem crase, toma, toma, mais essa, toma e fica quieto, já pro seu quarto, que hoje não te quero ver nem pintado nem crucificado: Jesus botava tanto medo em José que, quando este lhe deu a primeira porrada, um milagre aconteceu. Nomes bíblicos dão tesão; para uns a religião é o próprio pecado, para outros é apenas destruir imagens de gesso em cadeia nacional, há aqueles ainda que juram não a ter – (tome cuidado) a natureza não reage, mas se vinga, preserve-a.

PRONTOFALEI – por pero vaz de caminha / do além

Quando fui convidado a assumir o cargo de escrivão oficial da Armada de Cabral, fiquei deveras honrado. Pareceu-me uma tarefa gloriosa: relatar às Cortes de Lisboa o que encontraríamos no caminho para as novas índias. Não confundir com o novo caminho para as Índias. Era razoável vislumbrar que eu me candidatara, naquele momento, a ser o escritor de uma das páginas mais importantes da história da humanidade. Não achei desmedido sonhar com o Pulitzer.

Foi-me entregue a estrutura que pedi, me deram boas condições de trabalho. Não tenho do que me queixar.  Mas as coisas não saíram como planejadas. Pelo menos não na cobertura da expedição. Logo depois da nau recolher a âncora, vazaram alguns tuítes que quase comprometeram a empreitada. Num deles, um tripulante perguntava se em Pindorama a voltagem era 110 ou 220. O que fez muita gente duvidar do real coeficiente de aventura que envolvia nossa expedição.

Vi que ia ser difícil tomar conta da situação. Todos que estavam a bordo eram potenciais concorrentes, senão à glória jornalística, à atenção da corte e do povo. Munidos de telefones com câmeras, cada marujo começou a emitir sua versão da expedição. Não deu outra. Em pouco tempo, alguns ganharam fama repentina escrevendo como um Cabral gago. Vai entender as coisas que funcionam nas redes sociais. Outros arrastaram hordas de seguidores simplesmente sacaneando os meus posts. Um engraçadinho propôs a rashtag #lugaresparaprimeiramissa e a partir dali as timelines foram tomadas de todo tipo de sugestão. A que mais me causou graça foi: na Igreja Universal.

Enquanto isso, eu tentava impressionar a corte e a plebe com posts longos, rebuscados e de pífia repercussão. É duro ser oficial. Antes de publicar qualquer coisa, é preciso apurar, conferir as fontes, passar pelo crivo do editor e depois pela revisão. Vocês não imaginam o trabalho que dá publicar uma simples informação objetiva como esta: quarta-feira, 22 de abril: Neste dia, a horas de vésperas, houvemos vista de terra! Primeiramente dum grande monte, mui alto e redondo; e doutras serras mais baixas ao sul dele: e de terra chá, com grandes arvoredos: ao monte alto o capitão pôs nome:O MONTE PASCOAL e à terra: a TERRA DA VERA CRUZ. Até esse processo todo se concluir, alguém já te fura dando umcheck-in no foursquare.

Quando fui abrir minha conta no Twitter, o @caminha não estava disponível. Tive de me contentar com o @caminharealmesmodeverdade. Ficou claro que não seria fácil arregimentar seguidores. O Caminha fake era muito mais divertido e sem compromissos. Propus à Corte promover o sorteio de alguns iPads para mantermos o interesse do público pelo relato oficial nas redes sociais. Mas o rei falou que o momento português não recomenda esse tipo de investimento e que para comprar tais artefatos teria de pedir dinheiro emprestado aos bancos europeus.

De qualquer forma, não tenho muito a lamentar. Um ano que já teve Primavera árabe, tsunami no Japão, morte do Bin Laden, falecimento da Amy, massacre de Oslo, chacina no Realengo, enchentes na Serra Fluminense, crise dos mercados financeiros, rebaixamento da nota da dívida americana, queda do Kaddafi e assassinato da Norma, os relatos da descoberta de uma nova sede para eventos esportivos mundiais não permaneceriam nem 15 minutos nos Trending Topics.

 blogdoalém.

Da biblioteca de papel – por jorge lescano / são paulo

O jogo do hircocervo nasceu, como tantas outras brincadeiras, à mesa com os amigos costumeiros. Originou-se de uma pergunta: e se Giordano Bruno fosse um músico que, obcecado pela infinidade dos mundos, jamais tivesse composto uma obra completa? Conclui-se depois que a solução ideal seria fundir os nomes de dois personagens conhecidos de modo a que se pudesse atribuir ao novo personagem uma obra inédita que recordasse algumas das características dos dois personagens originais; e melhor ainda, se contivesse algum outro apelo ambíguo. […]  convencionou-se que seria possível fundir também personagens com instituições ou objetos.

Umberto Eco: O segundo diário mínimo.

 

Eu, infinitamente menos enciclopédico que a turma do erudito italiano, faço-me eco de Umberto e publico aqui a minha contribuição mínima ao jogo, limitando-me à literatura.

 

 

 

ALGUNS AUTORES E LIVROS  DA BIBLIOTECA DE PAPEL

 

Mínima contribuição diária ao Hircocervos, segundo Umberto Eco.

 

 

ADRIANO YOURCENAR = Memórias de Ronaldo.

ALEXANDRE SARTRE = Os três mosquiteiros.

ANA TOLSTÓI = O diário de Anna Karênina.

ANTON NABOKOV = A verdadeira vida das três irmãs.

CELINE BORGES = Norte-Sul.

DUQUESA GEORGETTE LOUISE DE DURAS = Oulrika.

EDGAR ALLAN CORTÁZAR = Orientação dos gatos pretos.

EDGAR ALLAN NABOKOV = Arthur Gordon Pnin.

EDGAR ALLAN TWAIN = As aventuras de Arthur Gordon Finn.

EDGAR POECO = O poço e o pêndulo de Foucault.

EÇA DE SCORZA = Os incas.

EÇA CALVINO = As serras invisíveis.

FIÓDOR KAFKA = O possesso.

FRANZ KAFESCO = Josefina, a careca.

FRANZ HITCHCOCK = A metapsicose.

FRIEDRICH DÜRENMANN = Os tísicos.

FRIEDRICH WOOLF = A  visita da velha senhora ao farol.

GABRIEL GARCIA DE CARVALHO = Ninguém escreve ao lobisomem.

GERTRUD STEINER = Antroposofia de todo mundo.

GIACOMO LAWRENCE = O  amante de lady Buterfly.

GOLIARDO MERIMÉE = Carmen Burana.

GRACILIANO LORCA = A casa de São Bernardo.

HANS CHRISTIAN IBSEN = O patinho selvagem.

HENRIK DOSTOIEVSKI = Recordações da casa de bonecas.

HONORÉ DE BALCKETT = O  pai Godot.

IGOR DE QUEIRÓS = A sagração do primo Basílio.

ISAAC GAUGUIN = A festa de Papeete.

ÍTALO PÍGLIA = As cidades ausentes.

JACQUES PAVLOVICH TATIKHOV = Meu tio Vânia.

JORGE LUIS BECKETT = Funes, o inominável.

JORGE LUIS DURAS = O outro amante.

JORGE LUIS PROUST = Em busca do tempo refutado.

LEÔNIDAS HAWTHORNE = A casa dos sete enforcados.

MARCEL BORGES = Em busca de Averróis.

MARCEL BUTOR = O  emprego do tempo perdido.

 

MARGUERITE AMADO = Os velhos marinheiros de Gibraltar.

MARGUERITE BORGES = O amante de Tlön, Uqbar, Orbis Tertius.

MARGUERITE CALVINO = O vice-cônsul partido ao meio.

MARGUERITE DONADIEU = Barragem contra o Atlântico.

MARGUERITE NABOKOV = O deslumbramento de Lolita V. Stein.

MARGUERITE STEIN = O  deslumbramento de Gertrude.

MARGUERITE PESSOA = O marinheiro de Tarqüínia.

MÁXIMO STRINDBERG = A mãe e o pai.

MIGUEL DE BABENCO = Dom Pixote.

NOEL TENNESSEE = O desejo do motorneiro do bonde.

PIERRE MENARD = Héctor Borgenco, autor do Pixote.

ROBERTO NICOLAI ARLTOL = Diário dos sete loucos.

RUDYARD CONRAD = Lord Tim.

SAMUEL DE BALZAC = Esperando Goriot.

SAMUEL BORGES = Beckett e eu.

SAMUEL JOYCE = Molloy Bloom.

TENNESSEE ECO = O nome da rosa tatuada.

TIMOCHENCO DUMAS = A dama das camélias e o rei de Cuba.

UMBERTO STEIN = O nome da rosa, da rosa, da rosa, da rosa.

VLADIMIR CORTÁZAR = Todos os fogos pálidos.

WILDE GUEVARA = O  retrato de Che Ernesto.

WILLIAM STRINDBERG = Senhorita Julieta.

 

(continua)

 

A SEREIAZINHA: MEU CONTO DE FADAS PREDILETO – INTERPRETAÇÃO DE UM ADULTO – por zuleika dos reis / são paulo


 

Desde quando aos oito anos o li pela primeira vez, A SEREIAZINHA tornou-se meu conto de fadas predileto. Calou-me tão fundo e tão misterioso como o signo de um destino, hoje o sei: um dos signos simbólicos, precocemente dados, do meu próprio destino. Eis minha versão – lembrança deste conto magnífico.

A SEREIAZINHA, história “infantil”, já de início subverte a noção clássica das sereias como seres perigosos, aquelas que, com seu canto, levam os homens à perdição, à morte. A heroína de Hans Christian Andersen, não.

A pequena sereia vive no reino subaquático, com a avó, com as irmãs, com as demais companheiras de mesma dupla natureza. Sabe-se destinada a uma vida de trezentos anos, findos os quais seu corpo, como o de todas, se verá transformado em espuma do mar.

Sereiazinha não se conforma com tal destino: sonha com uma alma imortal, como a que possuem os humanos. A avó lhe diz que só há uma forma de obtê-la: conseguir o amor de um desses seres humanos. A fala da avó cria uma fusão, na jovem, do sonho da realização amorosa com o sonho de adquirir a alma imortal.

A princesinha do mar sobe, pela primeira vez, à superfície. As águas estão mansas; ao longe um navio. Aproxima-se e vê, no interior da embarcação, o rosto do mais belo dos príncipes humanos, rosto pelo qual se apaixona, instantaneamente. Queda-se a olhá-lo, as horas passam. Uma borrasca toma conta do céu e do mar, faz soçobrar o navio. Sereiazinha salva o príncipe, leva-o para a praia; ele abre os olhos, olha-a, novamente perde os sentidos. A jovem se oculta quando vê a comitiva real aproximar-se, tomar do príncipe, levá-lo para o palácio.

No reino subaquático, Sereiazinha almeja, fundidos, o sonho do amor humano e o sonho da alma humana. A feiticeira do reino lhe diz que só poderia conquistar o príncipe se tivesse duas pernas e lhe propõe metamorfosear-lhe a cauda, se lhe der em troca a sua voz maviosa, a voz mais maviosa do reino do fundo do mar, quiçá, de todos os reinos. A princesinha cede, torna-se muda e, junto com as perdas ganha, também, atroz sofrimento: ao andar é como se espadas a penetrassem desde a raiz dos pés.

Sereiazinha abandona o reino dos seus ancestrais. No reino dos humanos é admirada por sua beleza, pelo corpo perfeito, pelas pernas belíssimas que todos adivinham por baixo das castas vestes. Ninguém sabe de onde ela veio, não há como sabê-lo. Também o príncipe, por ela amado, queda-se seduzido.

O destino, caprichoso, trama destino diverso do que o deseja a leitora de oito anos (diverso também do que o viria a desejar a leitora adulta): o rei determina uma esposa para o príncipe; quando este conhece a escolhida por seu pai, julga reconhecê-la como aquela que o salvara do naufrágio.

Na festa de núpcias Sereiazinha dança, leve como uma fada. Dança… dança… dança… sufocando na garganta a terrível dor dos pés, sufocando no peito a dor da perda do amor e da perda da esperança por uma alma imortal. Como no início, as cenas finais se passam em um navio. A ex-princesinha do mar sabe que, ao amanhecer, deverá jogar-se ao mar, virar espuma, para todo o sempre. Olha pela janela do convés e vê suas irmãs se aproximarem, aflitas. Portam um punhal, entregam-no a ela, pedem-lhe que o enterrem no peito do príncipe: isto a salvará da morte tão precoce; isto a livrará do precoce destino de espuma.

Sereiazinha, com o punhal nas mãos, entra no quarto onde os noivos dormem, serenos; queda-se por longo tempo a olhá-los, chega mais perto, beija o príncipe amado na fronte.

O dia amanhece. A jovem sereia dirige-se à proa, lança o límpido e intacto punhal ao mar e, em seguida, joga-se também.  Sente-se dissolver; sabe-se, agora, espuma do mar. Em seguida, sente que se eleva e se percebe em presença de seres, estes sim alados, que lhe dizem: “Estavas entre dois caminhos, poderias ter escolhido o mais fácil: não o fizeste. Viemos para dizer-te que foi dado o passo inicial para a obtenção da alma imortal a que tanto aspiras. Teu amor pelo príncipe foi maior do que teu amor pela própria preservação. Tal renúncia suprema te confere o direito de ir em busca de tua alma, por mérito, por tuas ações. Já não dependes, como nós também não mais dependemos, dos seres do reino humano para nos tornarmos imortais.”

Esperando Solon – por amilcar neves / ilha de santa catarina

Ligaram várias vezes. Vezes sem parar, quase se poderia dizer. A primeira vez foi mais ou menos assim:

– Solon B. S.! – a voz da moça do televendas é impositiva, imperativa, revestida da autoridade típica das pessoas que têm muita pressa, muitos objetivos a atingir e não podem, portanto, ficar perdendo tempo com conversa fiada, não estão aí para jogar conversa fora, pois, como se diz, tempo é dinheiro; a identificação da circunstância de ser uma ligação de televendas, mais do que pelo tom de voz contrariado, se faz pelo som ambiente do local de onde parte a chamada telefônica, altamente ruidoso e agitado, além do fato característico de o telefone tocar e a pessoa, ao atender, ver-se pendurada na linha por longos segundos até que, do outro lado, a moça (sempre botam uma mulher para te ligar) se digne a falar. E, quando fala, ela o faz dando-te ordens.

– Ah, Solon B. S., claro! – o homem responde. – Que que tem? O que houve com ele? E quem quer saber, por favor?

– É da Cartão de Crédi. Ele se encontra?

– Olhe, pelo tom da sua voz, diria que ele se perdeu. Acho que se trata, o dele, de um caso perdido.

– A que horas ele chega?

– Parece que não chega, meu amor. E não tenho a menor ideia de quem seja a figura, sinto muito – e ouve baterem o telefone em seu ouvido.

Cinco vezes, todo dia, aconteceu assim. No sexto:

– Solon B. S.!

– Olha, moça, já cansei da brincadeira. Não existe nem nunca existiu qualquer Solon B. S. neste número – eles sempre falam o nome completo do sujeito, com sobrenome e tudo, mas aqui, de público, não podemos fazer o mesmo, ou seja, citá-lo nominalmente com todas as letras, sob pena de processos judiciais – geralmente acatados pelos juízes e bem sucedidos nos tribunais – pedindo polpudas indenizações por danos morais e à honra dos nominados. – Peço que tirem meu número dessa lista e não me liguem mais.

– Impossível, senhor. O número está no banco de dados da empresa, não tem como ser removido e nos será apresentado sem parar até que o Solon B. S. Atenda.

– Mas já disse que não há Solon algum por aqui! Vocês têm que tirar o meu telefone da lista.

– Impossível, senhor, já lhe disse.

– Muito bem. Então chame o seu supervisor, quero falar com ele.

– Nossos supervisores não falam ao telefone.

– Perfeito. Então diga-lhe que farei um boletim de ocorrências na delegacia do bairro se vocês me perturbarem de novo. Aí é a Cartão de Crédito mesmo ou alguma terceirizada?

– Não, senhor, a Cartão de Crédi não terceiriza serviços – e desliga.

Continuaram ligando, óbvio. Um bom profissional não se abate com um mísero não, não se intimida com uma vaga ameaça. O bom profissional persiste até o fim.

– Solon B. S.!

– Ele não está no momento. Pode ser com Soloff B. S., o russo?

Duas horas depois:

– Solon B. S.!

– Vou chamar. Solonzinho, telefone pra ti! – e o telefone dorme, ligado, em frente ao aparelho de som, ligado, até a moça desistir.

Passaram a ligar literalmente a toda hora. Só no sábado foram seis ligações, tarde a dentro, a última às 16h15, meia hora depois da penúltima.

– Solon B. S.!

– Claro, espera um pouquinho só. Sol! Solzinho, vem cá!

Nunca, talvez, o pessoal do televendas tenha escutado tanta música, embora não mais do que escutamos quando precisamos falar com uma empresa. Agora, na casa, sempre existe um som ligado para receber a chamada urgente e irremovível para um certo Solon B. S., o procurado.


S E L E N E – por jorge lescano / são paulo

Navegamos o dia todo. No crepúsculo fomos sobressaltados por vozes que pareciam surgir do fundo do rio. Luzes ao longe: festa em algum clube à beira do Tigre. Nosso destino era outro.

Juanito, meu guia, cansado de remar, dormia na barraca no limite da floresta. Ele confiava em mim, que optara por fazer a primeira guarda, eu confiava na minha arma.

Noite clara; céu liso; estrelas nítidas, distantes.

A água batia na costa embalando o bote. Para um peixe pequeno, a ribanceira seria uma falésia. Meus olhos acompanharam (por quanto tempo?) o vaivém do rio, compreendi que fogo e água são duas faces do mesmo sentimento de nossa espécie.

O vazio.

Esfericidade do planeta na cavidade do espaço. Cada coisa existe isolada sem ofuscar o conjunto. Ausência do tempo: vida quieta em sua essência. Mesmo o  balanço das ondas era (foi) algo estático: moto perpetuo. Sensação brevíssima. Senti o universo sem desviar os olhos da água aos meus pés. Não foi a enumeração sucessiva do inventário, mas o viver a quantidade e a qualidade do todo sem antes nem depois. Apesar dos meus vinte anos poderia ter morrido naquele instante de plenitude. Senti o peso e o volume do revólver na cintura; soube que seria fácil apontá-lo ao coração e soube também que agora (então) teria sido inútil, o tempo havia retornado.

Monotonia das ondas, silêncio da noite.

Solitário nesta ilha ignorada pelos mapas contemplo teu corpo branco no escuro lençol d’água.

Manifesto cultural para o Senhor Prefeito Luciano Ducci – por ana cláudia decker / curitiba

Caríssimo Senhor Prefeito Luciano Ducci:

É com muita tristeza em meu coração que venho pedir um pouco mais de cuidado e atenção com os artistas, músicos curitibanos.

É absolutamente revoltante a forma como somos tratados na “cidade modelo”, acredito que a propaganda que a prefeitura faz em Curitiba seja no mínimo hipócrita.

Uma cidade cujas estatísticas de violência, poluição e abuso de poder estão entre as mais altas no país, não vai ser nunca uma capital modelo para ninguém. Acredito que para ser considerada uma cidade civilizada e moderna a Cultura e a Educação devem vir em primeiríssimo lugar, o que não é ocaso de Curitiba.

Como curitibana, cidadã que paga em dia seus impostos e leva multa no trânsito sem ao menos sair de casa, acho que tenho mais do que direito de questionar a conduta da prefeitura da capital paranaense e me manifesto contra sua atitude, seu abuso de poder em relação a todos os artistas dessa cidade fria e violenta.

Como pode a Guarda Municipal, o DIRETRAN, a Polícia Militar, a Polícia Civil entre outros oficiais, serem tão eficazes no fechamento dos bares e casas de cultura da “cidade modelo?”

É realmente um absurdo ver existe tanta eficiência na interdição de uma casa de tradição como a Sociedade 13 de Maio em pleno domingo, às 3h da manhã, privando os cidadãos curitibanos de se divertirem com música, dança e alegria, tirando, com essa atitude, o emprego de inúmeros e bons músicos. Já não basta o que foi feito com o Beto Batata? Quem mais vocês vão “pegar”??!!

Senhor prefeito, Curitiba é uma vergonha para nós curitibanos, pois enganar aos que estão de fora dizendo-lhes  que esta é uma cidade de primeiro mundo, é fácil, mas só nós que moramos aqui sabemos que tudo isso é uma grande mentira, e isso me faz sentir muita vergonha de ser filha de uma cidade tão bela,  mas com governantes que não passam de “mãe  desnaturada”  para com seus filhos.

Sim, senhor prefeito, somos órfãos, pois mais importante do que fechar as casas noturnas de Curitiba e tirar o emprego de tantos músicos, é olhar para o consumo absurdo de craque no centro da cidade, é arrumar ruas importantes da Capital e completamente esburacadas, símbolos de vergonha para quem mora aqui. Exemplos? R. Visconde do Rio Branco, R. Engenheiro Rebouças, R. Brigadeiro Franco, sem contar as ruas dos bairros mais afastados como o Tarumã,  Parolim, Boqueirão, Mossunguê, além das inúmeras ruas da periferia.

Acho também que é mais do que necessário usar de toda essa eficiência para a violência em nossa cidade que a cada dia cresce mais, as pessoas são assaltadas e agredidas o tempo todo. O trânsito está cada vez pior. E o trem, no meio da cidade modelo, produzindo poluição sonora e ambiental,  infernizando a vida das pessoas que moram próximas à linha férrea, além de atrapalhar mais ainda esse trânsito caótico…

Outro aspecto importante é que quando somos assaltados, agredidos ou algo parecido: não temos nenhuma proteção, às vezes a polícia nem chega ou chega quando a tragédia já aconteceu.

Senhor prefeito, não adianta nada organizar uma “Virada Cultural” uma vez ao ano ou arquitetar projetos pela Fundação Cultural, onde só entra quem faz parte da “panela”.

Nós, músicos, precisamos comer, pagar as contas, cuidar de nossos filhos e necessitamos trabalhar nos bares dessa cidade. Somos nós que levamos um pouco de alegria e diversão para os curitibanos, para os que vem de fora, para os turistas. São os curitibanos que se matam de trabalhar, pagar contas, impostos e tudo o mais para manter essa “cidade modelo” de que tanto o senhor se orgulha.

Por favor, senhor prefeito, chega de hipocrisia, chega de mentira e de tanta falação. Aja de verdade e como político sério nas questões que realmente são fundamentais para nossa civilização. A atitude da Prefeitura é feia, incoerente, vergonhosa para uma cidade que se diz  modelo, capital de primeiro mundo, entre tantas outras mentiras.

O senhor e toda a sua equipe estão tirando o emprego de muitos músicos. E com isso estão tirando a comida das mesas de muitas pessoas, dentre as quais, crianças. Vossa excelência está acabando com a vida cultural da cidade. Nós, músicos, estudamos muito, trabalhamos muito para levar um pouco de Arte às pessoas e em pleno século XXI ainda existem políticos que não nos valorizam.

Curitiba só valoriza seus artistas quando eles saem daqui e vão para outras cidades e lá são reconhecidos e isso, senhor prefeito, é uma VERGONHA para uma cidade que se denomina cultural, moderna, modelo de primeiro mundo. Em cidade de primeiro mundo, senhor prefeito, os artistas são realmente respeitados, principalmente por seus governantes.

Agindo dessa forma, senhor prefeito, o senhor pode até tirar nosso emprego, mas não pode nos calar, pois nós, da classe artística, somos muitos e temos vozes e, mais do que isso:  temos um público imenso ao nosso lado!

Por favor, Senhor Prefeito, faça jus ao nome e à fama que Curitiba tem lá fora, agindo com justiça com os filhos dela, aqui de dentro!!!!!!!!!!

Lamentavelmente,

Ana Cláudia Decker.

Z – por wagner oliveira mello / curitiba

Z

 

Z senta no banco da praça, à distância uma trupe de teatro de rua representa uma comédia num italiano tosco, o povo gargalhante não tem tempo de reparar o seu sapato roto, nem suas roupas desbotadas ou a cicatriz que o faz lembrar-se de tudo aquilo que esqueceu outro dia. Sente fome, Pensa no sanduiche de mortadela com tomate que carrega na mochila, mas prefere fumar um cigarro, embora não faça nem dez minutos que tenha apagado o último. Logo o maço estará vazio mesmo, assim como o seu estomago. Decide alimentar os pombos com suas migalhas. Retira o sanduiche da mochila e lentamente vai esfarelando o pão para em seguida jogá-lo em pequenas quantias no chão.  Sabe-se lá de onde, pouco a pouco vão surgindo mais e mais pombos para a disputa, em instantes Z forma sua própria platéia, que ávida de pão acotovela-se para garantir o melhor lugar. Um verdadeiro espetáculo! Ele se diverte com a disputa instintiva das aves enquanto rumina sua comédia interior. O pão nunca é de graça! “é tudo que eu sempre quis: O direito de peidar, cagar e mijar, um lugar pra dormir e ter dinheiro pra comer. O pão nunca é de graça! Quem somos nós além do por que somos nós?”  Assim a comédia começa, assim ela termina…  E não há milagre nenhum nisso. Milagre? Milagre é o que Z terá de operar amanhã! Ele joga a ultima migalha do seu pão aos pássaros e se levanta; ao fundo as pessoas aplaudem o elenco da comédia enquanto um deles passa o seu chapéu pra receber as ofertas. A noite era fria e granulada de estrelas quando Z entrou no albergue do FAS.

 

JORGE LESCANO em “Sem Título e Sem Título II” / são paulo

(Sem título)

 Vi a entrevista de um ator que, ao falar, lembrava filmes dublados. Seu rosto “original” também parecia estrangeiro.Todo ele dava a sensação de não ser real, antes, um personagem de seriado de televisão.

A segunda vez que o vi, ele andava pela rua como qualquer cidadão. Contudo, eu, que conhecia sua voz, sabia que era diferente das outras pessoas. Tratava-se de um dublador fora do serviço andando como “ele mesmo” (no sentido pessoano).

Depois de alguns anos, passei a vê-lo com bastante freqüência. Ele havia mudado, estava mais magro e mais velho, naturalmente, porém, aquela primeira imagem persistia. Este indivíduo era, de algum modo, o duplo de outros graças à voz que eu guardava na memória.

Somente ao vê-los simultaneamente, um passando ao lado do outro sem se olhar (não se conheciam), entendi que se tratava de duas pessoas diferentes. Por alguma razão desconhecida eu havia incorporado um ao outro, criara uma terceira personagem.

Há décadas não vejo o dublador, embora sua voz continue presente na televisão. O segundo atravessa de vez em quando o meu caminho. Sua presença enganosa me incomoda: cada vez que o vejo sinto a ausência do outro como vítima de um homicídio.

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(Sem título II)

 A minha memória é fotográfica. Ela ficou mais apurada pelos estudos de pintura que realizei na juventude. Boa memória é qualidade desejável, no entanto, com o passar dos anos, pode nos provocar incômodo.

É comum hoje “reconhecer” na rua pessoas que devo ter visto antes num lugar indefinido. De fato, sei que “conheço” a pessoa, mas sem conseguir situá-la no seu ambiente a sensação é estranha, quase onírica. Conheci quando? Onde?

O “arquivo” mental guarda tais imagens intactas, sem situações adjacentes que ajudem a incorporá-las à memória rotineira, cotidiana.

Conversei com muitas destas pessoas. Guardo delas inclusive a lembrança da voz, o timbre, ritmo, volume. Se conseguisse trazer à tona o assunto conversado certamente completaria o reconhecimento.

Já aconteceu: esta pessoa que me parece lembrança de outra, acaba se revelando lembrança de si mesma. O que tomava por referência ou reprodução era o próprio original.

A esta altura da vida, cada indivíduo é réplica de outro com quem tratei em algum tempo e lugar. Vivo num mundo de simulacros.

Serei eu, também, o duplo de alguém que não conheço?

Carlos Eduardo Novaes e o “Minestério da Educassão”

Confeço qui to morrendo de enveja da fessora Heloisa Ramos que escrevinhou um livro cheio de erros de Português e vendeu 485 mil ezemplares para o Minestério da Educassão. Eu dou um duro danado para não tropesssar na Gramática e nunca tive nenhum dos meus 42 livros comprados pelo Pograma Naçional do Livro Didáctico. Vai ver que é por isso: escrevo para quem sabe Portugues!

A fessora se ex-plica dizendo que previlegiou a linguagem horal sobre a escrevida. Só qui no meu modexto entender a linguajem horal é para sair pela boca e não para ser botada no papel. A palavra impreça deve obedecer o que manda a Gramática. Ou então a nossa língua vai virar um vale-tudo sem normas nem regras e agente nem precisamos ir a escola para aprender Português.
A fessora dice também que escreveu desse jeito para subestituir a nossão de “certo e errado” pela de “adequado e inadequado”. Vai ver que quis livrar a cara do Lula que agora vive dando palestas e fala muita coisa inadequada. Só que a Gramatica eziste para encinar agente como falar e escrever corretamente no idioma portugues. A Gramática é uma espéce de Constituissão do edioma pátrio e para ela não existe essa coisa de adequado e inadequado. Ou você segue direitinho a Constituição ou você está fora da lei – como se diz? – magna.
Diante do pobrema um acessor do Minestério declarou que “o ministro Fernando Adade não faz análise dos livros didáticos”. E quem pediu a ele pra fazer? Ele é um homem muito ocupado, mas deve ter alguém que fassa por ele e esse alguém com certesa só conhece a linguajem horal. O asceçor afirmou ainda que o Minestério não é dono da Verdade e o ministro seria um tirano se disseçe o que está certo e o que está errado. Que arjumento absurdo! Ele não tem que dizer nada. Tem é que ficar caladinho por causa que quem dis o que está certo é a Gramática. Até segunda ordem a Gramática é que é a dona da verdade e o Minestério que é da Educassão deve ser o primeiro a respeitar.

Todo Mundo devia escrever!* – por joca oeiras / teresina

Com este título, acrescido do esclarecedor subtítulo “a escrita como disciplina do pensamento” adquiri, em Teresina, um livro em formato de bolso e contendo 151 páginas, escrito pelo jornalista e escritor parisiense, de formação filosófica, Georges Picard.
O impulso que me levou a adquirí-lo veio, basicamente, de reflexões que, já há algum tempo, venho fazendo e que, grosso modo, se resumem na constatação de que a escolaridade básica, pelo menos a brasileira, embora afirmem o contrário – isto é, embora digam que almeja ensinar os estudantes a ler e escrever – não contempla, minimamente, a intenção de ensinar a escritura. Impossível esquecer, nesta questão, o exemplo da escrava Esperança Garcia que entrou para a História por ter “sabido escrever” em 1770. uma carta narrando os sofrimentos porque passava nas mãos do feitor da Fazenda Algodões.
Os mais realistas, diante da precariedade do ensino fundamental como um todo, dirão: –Não se trata da escrita, apenas,  mas do ensino como um todo”. Em certo sentido é verdade, mas, não falo, aqui, de resultados,e sim de intenções.  E reafirmo: o Ensino Fundamental brasileiro é estruturalmente não vocacionadopara o aprendizado da escrita, embora afirmem o contrário os documentos oficiais.
Fala-se em “analfabetos funcionais”, isto é, daquelas pessoas que conseguem ler as palavras mas não captar-lhes o sentido. Estes existem, sim, e não são poucos. Mas não é deles que falo e, sim, daqueles que, terminado o ensino fundamental são capazes de ler e entender um texto simples. Mesmo para esta parcela privilegiada do estudantado pergunte quantos escrevem, melhor, quantos consideram que “sabem escrever”.
Claro que não se trata, aqui, de uma tese acadêmica, mas acho, embora possa estar enganado, que os pedagogos quase nada produzem a respeito desta questão. Parece correto, mas não é, absolutamente, colocar no mesmo saco o aprendizado da  leitura  e o da escritura. É significativo: são feitas, anualmente, dezenas de campanhas cujo escopo é “Leia Mais” o tal “incentivo ao hábito da leitura”. Alguém sabe de alguma campanha propondo que se “Escreva mais”. No entanto eu posso afirmar, sem medo de errar: numa sociedade de “escritores”, isto é, numa sociedade que incentive a escrita, a leitura será colocada num patamar privilegiado. É socialmente vergonhoso não saber ler. Já viu alguém envergonhar-se de “não saber” escrever? Já ouvi esta alegação até por parte de professores universitários.
Cria-se, desta forma, uma casta elitista constituída pelos que escrevem (ou “sabem escrever”) enquanto os demais, pobres mortais, não escrevem (ou não “sabem escrever”). E esse fosso, desculpem dizer, é reforçado pelas atitudes dos que “pensam” a educação no país, e, inclusive por isso, só tende a aumentar. Não sou pedagogo mas gostarei muito de ouvir de algum deles uma resposta convincente  a estas minhas inquietações.
Para mim, a gente só aprende a escrever, escrevendo, isto é, colocando no papel, da forma a mais coerente possível, o que se passa em nossa mente.  Não consigo encontrar nos currículos escolares nenhuma estratégia articulada de real incentivo pedagógico ao exercício da escrita.
Quanto ao livro citado no primeiro parágrafo, não é verdade que ele me tenha decepcionado. Ele trata do assunto por outro viés, bastante interessante, até, mas que foge  do objeto das preocupações que externei.
Alguém pode achar que ele é a pedra da minha sopa. Não lhe tiro a razão.
*PICARD, Georges. Todo mundo devia escrever- a escrita como disciplina do pensamento. Trad. MARCIONILO, Marcos. São Paulo. Parábola.

“MEIA NOITE EM PARIS” – por monica benavides / curitiba

 minhas sensações depois de uma dose de Woody Allen na veia (cuidado esse homem vicia…rs)…

 

Cheguei outro dia e havia recebido pelo correio ingressos de cortesia da Livraria Cultura para assistir Meia-noite em Paris (já é a quarta vez que ganho, e continuo afirmando, essa é a melhor livraria do país com o melhor programa de fidelidade), bem mas não é sobre isso que quero comentar, quero expressar o prazer que o filme me proporcionou.

Woody Allen dessa vez leva o público para uma viagem na cidade luz (que clichê adequado), mas não uma viagem no sentido figurado apenas. Quem já foi a Paris, sentirá nos primeiros 5 minutos de filme uma sensação incrível de reconhecimento. Para os que não foram… considerem o ingresso um carimbo no passaporte. A Paris de Allen é realmente uma viagem real e proporciona a sensação da visita.

Eu na minha ignorância de apreciadora e não de crítica formada em Cinema, divido os filmes de Allen em dois tipos: aqueles onde existe uma trama genial com desfecho memorável ( aqui Sofia Getê coloco, como vc bem lembrou, o Match Point, o Scoop, O Sonho de Cassandra, enfim….) e os filmes escritos para expressar e servir de catalisador a neurose de Woody Allen.

Pois bem, se vc gosta, esse filme se enquadra na minha segunda categoria. É um filme escrito pelo Woody Allen onde o protagonista é ou deveria ser o próprio. Como ele não teria idade para o papel, escalou Owen Wilson, que sinceramente me surpreendeu. Não é o próprio Allen mas chegou bem perto e deve ser parabenizado pela excelente imitação do original.

Aqui começam os spoilers, quem não assistiu leia por sua conta e risco. (rs)

O filme antes de mais nada, exige uma cultura ou um conhecimento mínimo sobre o que era a vida artística e cultural da chamada Idade do Ouro, a famosa Paris dos anos 20.

Por exemplo, quem não sabe que a Alice que abre a porta da casa de Gertrude Stein é na verdade sua amante, e que Stein é a maior crítica de arte da época e talvez a maior crítica de arte que já existiu; que Dalí casa com a Gala em Paris e que ele era um grande Surrealista; que Picasso odiava Hemingway, Modigliani, Braque, enfim todo mundo (rs); ou que Buñuel fez um filme chamado “O discreto charme da burguesia”, que ganhou com ele, já no fim da carreira, um Oscar e que no roteiro três amigos se reúnem para jantar e não conseguem mais ir embora pela porta, (a idéia dada pelo protagonista para Buñuel em uma das suas andanças ao passado), perderá alguns insights geniais de Allen. Lógico que entenderá o filme mas não terá o mesmo sabor.

Para mim, o que ficou foi a vontade de chegar em casa e passar essa noite em claro, lendo um conto de Fitzgerald e ouvindo um disco de Cole Porter…

Que sonho, que vertigem… maravilhosa!!! Poder conversar, namorar passar uma noite com o viril e obcecado Hemingway… rs…

Mas como tudo na vida, nada é perfeito. Para mim dois pecados foram cometidos por Titio Allen: o primeiro foi a escolha da Rachel Adams. Gosto muito dela mas, diferente de Wilson, não conseguiu estar a altura de Mia Farrow ou Diane Keaton, mulheres icônicas para um filme do mestre. A outra foi a concessão feita a beleza de Carla Bruni e a facilidade que colocar a namoradinha da França, daria a alguém tão novaiorquino como Allen, ao querer filmar um longa em Paris. Acho que ele não precisava ter se prestado a esse papel nessa altura da carreira. Diria que ela está linda mas… no mínimo medíocre…

De qualquer forma o filme é brilhante e prova que Paris ainda é e sempre será UMA FESTA!!!!! Assistam e me digam o que acharam…

Bjs… até uma próxima….e já fui que o Hemingway me espera nos meus sonhos ou dentro de um carro da década de 20….

FOI NECESSÁRIO PARA QUE COUBESSE – de jorge lescano / são paulo


folga na repartição e O Poeta folhe

ava seu jornal cotidiano ligeiramen

te enfastiado, como era praxe entr

e os Poetas fin de siècle e de mille

naire, quando nada mais poderia a

contecer e no entanto os encargos soci

ais obrigavam as personalidad

es a. E naquele sofisticado estado

de espírito chegou ao Caderno de V

ariedades. Sentiu um soco no peit

o e o rosto afogueado e tremores n

as pernas e uma repentina dilataçã

o das pupilas e do espaço circunda

nte e que o chão fugia sob seus pé

s, expressões estas caras aO. Ali n

aquele momento prosaico, preto no

branco: seu nome literário, a capa d

o seu livro, o logotipo da editora e u

ma resenha. E no primeiro instante n

ao acertou a. O impacto foi mais con

tundente ao perceber que a assinatu

ra não era a do seu compadre jornali

sta, mas a de um crítico renomado, d

o qual todos queriam uma. E passad

a a surpresa, admitiu que aquilo era

O. E abandonou a mesa da cozinha e foi até a sala e se espalhou no sofá d

e três lugares. Apanhou o Cachimbo d

as Grandes   Cerimônias e o  encheu com seu melhor tabaco e de esguelha contemplava-se no espelho. Foi c

om voz grave que solicitou à esposa que lhe trouxesse os sapatos, pois o

s chinelos. A mulher disse que as sol as dos pés no cocuruto lembravam uma postura ioga, mas ela estava ca

n sada  de saber  que O  Poeta nu

nca. (Amava a Tradição, a Forma, a Pureza e a Higiene na Poesia, dir

ia seu epitáfio.) E disse que seu olhar expressava textualmente (sic) a vontade de ficar de pé sobre aqu

ele pedestal. A fratura o pescoço, co

m seqüelas anatômico-lingüísticas, teria sido a causa mortis, segundo d

eu a entender o. Foi necessário r

etalhá-lo para que coub

Hoje não acordei encontado – por omar de la roca / são paulo

 

O despertador me acordou  perverso e pontual as 6 em ponto.”Esta chovendo”.Eu quis ficar mais um pouco.Mas era hora.Levantei,tirei a camiseta fui ao banheiro e voltei ao quarto.A cama piscou um olho para mim e eu cedi.E me estirei seminu sobre ela.Olhei o relógio.Seis e doze.Só mais um minuto.E fechei os olhos.Que que é isso?Pelo menos mais três minutos , penso.E a vida corre pelos meus olhos.De que falarei hoje ? Que palavras irão transbordar sem que eu pense nelas ?Hoje não acordei encontado.Se quiseres vire a folha.Vou te enrolar pelas próximas linhas até chegar ao fim da página.Seis e treze,nem um minuto passou e já estou de pé.Roupa,café,guarda chuva ( com ou sem hífen).Rua.Chuva que insiste em cair mas agora mais fraca.Vou caminhando e pensando.Pena que o Wilson não respondeu ao e mail que enviei.Tentei um caminho engraçado,como eu sou.Como se uma piada pudesse encobrir uma multidão de anos passados em silêncio.Devia ter ido por um caminho mais normal.Perguntar da vida dele, casamento, emprego,filha.Mas sou assim mesmo,precipitado.As vezes tenho ataques de “ como teria sido se…”.Como teria sido se eu escolhesse o azul em vez do vermelho? Na certa não muito diferente,já que descobri que os dois nos decepcionam com a mesma intensidade,de maneiras diferentes.Como teria sido de eu optasse por estudar um pouco mais as cores e percebesse que a cor escolhida tem nuances mais escuras e sombrias do que a cor original? Alias,por que somos forçados a colocar um fatídico X nas opções que fazemos e entregamos ao professor para obter boas notas,sem chance de muda-las depois? Porque não podemos simplesmente marcar com X “todas as opções anteriores estão corretas”?Mas hoje não acordei  encontado.Acordei cheio de interrogações,que vão desfilando elegantes mostrando suas roupas de moda.Algum dia terei as respostas?”Mas isso acontece comigo  todos os dias” você dirá. Na verdade acontece com todos nós,mas não sabemos ou não nos damos conta ou não aceitamos.A dúvida bate na porta e nos mostra o catálogo da vida como poderia ter sido,como uma vendedora da Avon.Se vivi ? “ Confesso que…” Mas não que este é outro conto,outro livro que ainda não li.Mas não acordei encontado.Que bom que a chuva não está forte,tenho o que fazer na rua hoje.Não vou precisar nadar até o metro.E me parece que ,como sempre digo, as lições estão em todos os lugares,basta ter olhos para ver, ao sentar no vagão do metro me vem brilhante a lição do sabão em pó,no quadro a minha frente.” Sua vida não é feita de uma cor só.” Eu que brinco com cores até ter as mãos sujas delas e vou limpando na cortina,no sofá,na calça,aonde der.Não me lembro a marca do sabão.Nem diria se lembrasse.A lição é meio emblemática e extremamente clara.Como o branco.Com uma sacudida o metro sai.Com uma sacudida inicio minha meditação diária.Empurro para o fundo da memória a lição do sabão em pó e a lição da vendedora da Avon.E esqueço tudo.Já tinha pensado em dois contos,que acabaram se fundindo num só.Com a meditação esqueci muita coisa que pensara.Mas precisava ordenar as idéias.Que hoje não acordei encontado.Voltando a cama,que importância tem um minuto,porque não fiquei pelo menos um minuto inteiro ? Num minuto penso num conto.E tenho que correr para segurar seus bracinhos enquanto ensaia uns passos incertos sobre o papel.Um conto.Mas hoje não quero saber de contos,crônicas ou crontos ou formas geométricas.Que hoje não acordei.E não precisa contar que eu te conto,não acordei encontado hoje  cinco vezes.Mas se contares serão seis.Ou sete,que hoje…

Sampa é uma festa (auto)móvel. Sumpa, uma festa junina. – ewaldo schleder / ilha de santa catarina

Sampa é uma festa (auto)móvel.

Sumpa, uma festa junina.

 

Presente célere: passado. Instala-se o inverno, 24 de junho, dia de São João.

Mas faz calor de primavera em São Paulo – posso ficar em casa

de camiseta e bermudas (acostumado com Florianópolis).

Na rua venta um pouco e deixa o sábado especialmente agradável.

Tati descansa de nosso percurso solo: ônibus urbano e demorada espera

pós-aeroporto, depois da viagem tranquila desde Curitiba.

Incongruências no transporte, na interação entre ar e terra =

uma hora de avião + 40 minutos no desembarque e bagagens

+ uma hora e dez de espera do ônibus urbano + 35 minutos

entre aeroporto e Tatuapé + 15 minutos de táxi até a Mooca.

Sampa, sumpa – o que vim fazer aqui?, além de acompanhar a Tati

em sua transição de trabalho daqui a curita.

Moro em floripa e lá eu deveria estar, em minha casa, sossegado.

Arrependimento não se aprende, ouso concluir.

Noutro dia faz frio e chove. Gelam os pés, a alma, as cobertas.

Só Tati, minha namorada, é preciso, somos precisos.

As atrações culturais e boêmias da metrópole não compensam

as aberrações da sub-urbe densa de gente. Os apelos da famosa

movida paulista não valem o impacto poluente

(som, imagem, movimento, detritos) de lata e borracha, do ar chumbado,

proporcional à escala automobilística: e o consumo estimulado

nas classes sócio-econômicas ascendentes, sofisticado nas elites,

consagrado nas camadas compactadas pela vox media, vox populi.

Emergente realidade no País novo-rico e mal-educado;

grande por fora e pequeno por dentro – como a Casa Feres, lá dos pinheirais.

Domingo na paulicéia – a desvairada, a airosa. Garoa. Mudo de assunto, mas nem tanto.

Penso nos brasis: dos pinheiros, das palmeiras, da soja, das matas,

das águas doces e salgadas. A fartura natural incomoda a tecnologia e o capital;

ainda que, respectivamente, a sirva e o sustente. Escassez, finitude, nem pensar.

Aceleramos a demolição: tijolos partidos, madeira aos retalhos, vidros trincados,

 ferros retorcidos, cimento rachado, pedras lascadas, entulhos;

a energia motriz da industrialização a recortar a natureza, a extinguir espécies;

os cálculos estruturais superam a sensibilidade, a sabedoria popular,

o instinto animal dos trópicos. Nada de novo debaixo do sol.

De janeiro a janeiro corre o rio Tietê.

Repartimos o que há no horizonte mais próximo. Buscamos e nos acomodamos,

enfim, aos nossos dois metros quadrados de felicidade. Ou de possibilidade.

De segurança? Locamos e assistimos filmes, lemos livros, revistas e jornais,

Ouvimos músicas. Bebemos. Mastigamos. Ruminamos. Mergulhamos na internet.

Bate o pânico, síndrome planetária.

Tati, paixão hibernal, colo! Teu colo. Sou hóspede da centenária

Mooca (tupi: fazer oca), bairro do clube ítalo-brasileiro Juventus.

Vila adotada por imigrantes lituanos e iuguslavos. Espaço histórico,

do Cine Santo Antonio, anarquista e comunista, berço da pizza tropical.

Pedimos uma de 2 sabores: nota dez. Durmo até achando que aqui mesmo

terminam os descasos brasileiros: a velha, a boa, a cúmplice pizza.

Nostalgia do futuro: – éramos cordiais aqui, Tati, minha paixão transcendental!

Cadê o pronunciamento de Myrian Rios sobre pedofilia clerical? – por fátima oliveira / são paulo

Missionária da Canção Nova, comunidade católica de renovação
carismática, a atriz e deputada estadual Myrian Rios (PDT-RJ), que é mineira,
primou pela carolice exacerbada. Com seus melhores trejeitos de atriz,
verbalizou: “Não poder discriminar homossexuais é abrir uma porta para a pedofilia” (23.6.2011).

Ela tem todo o direito de professar a sua fé como desejar, desde que não cause danos a outrem e sem esquecer que as experiências do sagrado são diversas – nem todas atentam contra os direitos humanos – e que, em território
brasileiro, nenhuma religião está acima da lei.

A homofóbica deputada propala inverdades e ousa reclamar pelo direito de
discriminar a condição homossexual! Sendo ela de uma facção católica, se
tivesse intenção de combater o crime de pedofilia, seu mandato denunciaria a
pedofilia clerical de sua igreja. Lamento que o partido de Brizola, o PDT,
acolha gente de tal naipe.

É inegável que são ideias incompatíveis com inúmeros estudos
sociológicos, com os saberes das biociências e com a própria vida, que já
demonstraram que homossexualidade é uma coisa e pedofilia é outra e uma não
leva necessariamente à outra! Por que ela tenta embolar o meio de campo?

Não o faz por ignorância, mas por omissão e desfaçatez políticas,
esquecendo-se de que integra um ramo do cristianismo que há séculos imola
sexualmente crianças, jovens e mulheres; e que santifica a maternidade e
sataniza as mulheres. É público que, diante da pedofilia clerical, a omissão do
Vaticano tem sido a regra, pois compactua e dá guarida a um signo maldito da
dupla moral sexual – crimes clericais de natureza sexual, como registrei em “O
Vaticano arde nas labaredas do inferno por causa da pedofilia”: “O furacão da
pedofilia, depois dos Estados Unidos e da Europa, chegou à Alemanha, pátria do
papa, depois na diocese do papa, agora dentro do Vaticano, na Congregação da
Doutrina da Fé, onde o cardeal Joseph Ratzinger foi prefeito – por 24 anos, de
1981 a 2005 -, apontando para a sua responsabilidade direta” (O TEMPO,
30.3.2010).

Em março de 2010, um irmão de Bento XVI, Georg Ratzinger (87 anos),
apareceu como um dos envolvidos no escândalo de pedofilia quando era diretor
musical do colégio interno de Ratisbona (1963-1994). Ele tem negado. Em seu
papado, Bento XVI só se mexeu quando a Igreja Católica começou a perder
patrimônio, vendendo igrejas para pagar indenizações das vítimas, o que o
obrigou, no encontro com bispos irlandeses, a declarar que a pedofilia era
crime hediondo e pecado grave – até então, nem pecado era!

Em 2011, no rastro da notícia de que vítimas belgas de padres pedófilos
processariam o papa, o Vaticano, em carta aos bispos, resume as práticas
adotadas na Alemanha, na Áustria, na Bélgica, nos EUA, na Holanda, na Irlanda,
na Itália e em vários países da América Latina para enfrentar o sangradouro de
dinheiro nos tribunais e recomenda que “os membros do clero suspeitos de
pedofilia sejam entregues às autoridades civis competentes” (15.5.2011).

A assessoria de imprensa do Vaticano anunciou para fevereiro de 2012, em
Roma, uma reunião de bispos e chefes de congregações religiosas para dar uma
“resposta global aos problemas de pedofilia”, segundo as diretrizes de luta
contra a pedofilia formuladas em maio passado pela Congregação da Doutrina da
Fé (13.6.2011). Ou seja, enquanto não meteu a mão no bolso, a Santa Sé não
tomou providências.

Desconheço pronunciamento da deputada a respeito da pedofilia clerical.
Está passando da hora de fazê-lo!

Fátima Oliveira é médica. 

DIANTE DA TESTEMUNHA – por zuleika dos reis / são paulo


 

 

É verdade que, todos os dias, Ana fica em frente dele alguns minutos, mas, o tempo urge para o feijão no fogo, o preparo das misturas, o rearranjo dos desarranjos diários, a lavagem das sujeiras que intrépidas se renovam, a supervisão dos exercícios dos filhos, o preparo de suas mochilas, o embarque dos meninos na perua escolar, o elevador que demora, a ladeira para os passos já cansados desde a planície, o ônibus, as esperas no Banco, o pagamento das contas, as compras no supermercado, as multidões nas calçadas, o suor, os faróis sempre muito vermelhos, as buzinas sempre mais barulhentas, as palavras por dentro gastas como as solas dos sapatos, o silêncio cada vez maior diante da TV, das músicas, dos retratos, dos livros, das ideias, do futuro. O silêncio, à mesa, na sala, na cama.

É verdade que Ana jamais fica diante dele o tempo suficiente, mas nem se dá mais conta. Os minutos galopam, a noite todas as noites chega. As novelas sempre adiam para a noite seguinte a cena decisiva na qual a personagem revela ao marido que há outro homem, a cena em que o marido a expulsará de casa ou a perdoará, desde que ela abandone o outro. Depois do jantar, a louça é lavada e os utensílios guardados cada qual em seu respectivo lugar.

A água corre pelo corpo, o corpo se enxuga, veste o roupão. Planejam-se as sequências do dia seguinte. Os corpos se envolvem nos lençóis, as crianças dormem, o sono chega para todos, com os sonhos dos quais Ana jamais se lembra na manhã seguinte.

É verdade que quando Ana olha para ele, os gestos são sempre meio inconscientes, o olhar não se detém e já se lança para o corredor, a mão abre a mesma porta com a mesma chave de todos os dias, os pés repetem os mesmos passos para o sol lá fora, que também caminha com a regularidade cotidiana, assim como a lua e as estrelas. Nenhum cataclismo à vista.

É verdade que houve um tempo em que Ana olhava para ele e havia muito o que ver. Os olhos vivenciavam a transparência, as mãos se erguiam para lhe acariciarem os cabelos, a curva do queixo, a suavidade dos ombros, a sensualidade ereta dos seios. Os sorrisos brilhavam como um Sol. Nesse tempo a vida era um Novo Continente à espera dos navios de sonho que aportavam todas as noites, no eterno presente de palavras sempre renovadas, recém-emergidas do Jardim Primordial.

Ana não se lembra bem da vez primeira em que,  olhando para ele, percebeu a pequenina fenda, quase imperceptível fenda, alteração levíssima a modificar algo na forma e na expressão do olhar, culminando neste rosto de hoje. Irreversível.

Você usa óculos? Eu às vezes uso Ritalina e Rivotril – por carolina mendes / são paulo

É um descolamento de si. Como uma experiência extra corpórea em que você se desprende do seu corpo e observa o mundo de uma distância estéril. Nem é distância na verdade, é de fora. As conversas não te interessam, as pessoas não te interessam e você sofre se obrigando a ter uma vida normal. Mesmo que dentro da sua cabeça exista uma sirene avisando que um tsunami está vindo, você teima e o volume da sirene vai crescendo até ficar ensurdecedor. E aí para.

Começa com uma sensação de inadequação, de incompetência ou inabilidade para lidar com as coisas que aparentemente as outras pessoas tiram de letra. Um incômodo, mas ainda não é nada de grave. E você fica distraído, e negligente. Começa a esquecer compromissos, portas destrancadas, gavetas abertas. Fica desastrado e começa a quebrar mais copos do que jamais quebrou. E esquece as senhas do Gmail que você usa faz anos, todos os dias.

Essas falhas vão minando o dia a dia. Depois vem a sensação de solidão, e a tristeza de não pertencer. Note que isso independe da paciência ou sensibilidade daqueles que te cercam. E você percebe a preocupação, ou irritação ou os transtornos que está causando mas não vê modo de sair disto. Passa a achar que é um traço da sua personalidade, não percebe que você não necessariamente seja assim, mas esteja assim.

Aí a sensibilidade vai ficando mais e mais aguçada, e conforme você se distancia da realidade, vai criando sua percepção pessoal e fragilizada de tudo, passa a interpretar o mundo de acordo com a sua óptica distorcida, e parece que tudo conspira contra você. E nada dá certo e ninguém te entende.

Uma vez dentro da espiral paranoica, o descolamento piora e você perde entre outras coisas a noção temporal. As horas se arrastam, ou escorrem pelos dedos numa velocidade que te deixa ainda mais isolado. Como se você estivesse caindo e ao mesmo tempo que a velocidade da queda faz o ar te sufocar, cada segundo de pensamento parece durar horas. E cada coisa que acontece desencadeia uma montanha de sentimentos. E você fica exausto. Tudo passa a ser uma batalha.

Outra questão temporal é que você perde a noção pontual do momento. Seu passado e seu futuro não existem mais, vira tudo um filme daqueles que você lembra que viu, mas não lembra exatamente quando ou como termina. Tudo que você tem nesse momento da doença, é a sensação de ser um balão solto numa tempestade tropical. Você sabe que não quer cair, mas que não tem mais muito tempo.

Quando eu tinha 22 anos eu fui diagnosticada com TAG — transtorno de ansiedade generalizada. Eu sei que parece algo inventado, mas não é.

Sabe quando você está vivendo um período de estresse? No trabalho ou na vida pessoal, e isso afeta seu sono, seu apetite, sua sensibilidade? E parece que seus instintos ficam aguçados e seu corpo pronto para briga? Como se você estivesse numa selva e visse um leão, seu corpo e sua mente te colocam num estado de atenção redobrado, e potencializa sua percepção. Então, eu estou assim faz 30 anos.

Uma das manifestações do tal TAG é a depressão. Descrevi como a minha depressão começa e evolui. Existe ainda no pacote fobia social, síndrome do pânico, insônia, compulsão por comida, compulsão por sexo, compulsão por álcool. Eu não tive todos esses sintomas, mas vivo com a possibilidade de um dia ter. Porque eu fui diagnosticada. Eu cogito a possibilidade de fraquejar, ou ter uma crise porque eu fui diagnosticada. Mais que uma fraqueza, eu considero uma libertação. Sair do quadradinho de pessoas que bradam: “comigo não”. Comigo tomara que não aconteça de novo, mas pode acontecer.

Tomei uma infinidade de remédios durante alguns anos. Para frear a espiral descendente, ou tirar o nariz da poça de merda em que a doença me enfiou. Invariavelmente, depois de algum tempo os sintomas voltavam, a dose era modificada até que o remédio parava de funcionar. Next! Um comprimido mágico atrás do outro, até eu aprender a perceber a coisa desandando antes de ficar insuportável e gritar por socorro antes de começar a cair.

Uma vez que essa dinâmica pré crise se estabeleceu, eu consegui encontrar estabilidade suficiente para parar com os remédios. É verdade que a insônia aparece de vez em quando, mas tenho autorização e remedinhos para domar a danada quando passa da terceira noite.

Me considero assim, uma doente mental estabilizada e em observação. Hoje eu conheço meus demônios, e vigio eles bem de perto. Convivemos em harmonia, e quando eles falam alto, eu grito mais alto e eles voltam pro cantinho deles.

Tenho visto ultimamente uma onda de opiniões equivocadas a respeito dos chamados tarja preta, de comentários babacas e antagônicos. O povo que acha lindo estar sendo medicado, e o povo que acha que é tudo falta de um tanque de roupa para lavar. Me desculpem mas se você se encaixa em um destes grupos, você é um idiota. Pior: um idiota que deveria ser, mas não está medicado. Ou mal é cuidado, que seja.

E se de fato todo mundo precisa de uma ajuda pontual para lidar com a vida e as pessoas? Muita coisa mudou, os remédios melhoraram e a vida passou a ter um ritmo humanamente insuportável. Não é fácil para ninguém, e toda ajuda é bem vinda. Ajuda, pontual e precisa. Drogas para tratar de um pé quebrado, não uma bengala para vida. A menos que seu caso seja realmente de bengala, aí compre uma bem bonita e use sem vergonha.

Sem alarde e sem coitadismo. Não é bonito ser do clube tarja preta, mas não é nada além ou aquém de ser humano. De ainda sentir e sofrer e reagir e chorar e brigar. Você usa óculos? Eu às vezes uso Ritalina e Rivotril. Tenho bronquite também, e uso Aerolin. A dificuldade é encontrar um médico que tenha competência e sensibilidade para te tratar, da forma que for melhor para você.

Eu sei o eterno nó no peito que eu tinha antes de encontrar um médico que entendesse o que eu tinha, e principalmente me ajudasse a compreender e viver com isso. Nó era no peito e não na garganta. Não chegava na garganta. O mal estar subia do estômago e parava no peito. E a voz não saía e as explicações não eram convincentes para mim ou para os que me cercavam. E eu não conseguia nem chorar mais.

A psiquiatria, que hoje é vista como indústria da depressão, salvou minha vida. Não que eu estivesse a beira da morte, mas me fez voltar a postar os dois pezinhos no chão.

Prazer, meu nome é Carolina e meu diagnóstico final é: sou humana. Tenho angústias, incertezas, inseguranças e uma montanha de emoções intensas. E eu posso cair. Tá no meu diagnóstico: eu posso fraquejar.

Auto retrato – de omar de la roca /são paulo

 

Certa fim de tarde,quando o vento já havia feito a curva e o sol bocejava de sono, reuniram-se no barzinho da esquina. O Sergio, o Omar e o Kevin. Só para facilitar a visualização, o Sergio era alto, com olhos da cor do mar do Nordeste e cabelos já grisalhos. O Kevin tinha cabelos de fogo e olhos da cor do mar da Irlanda,era tão alto quanto o Omar.O Omar tinha olhos escuros e insondáveis como o Mar da Tranquilidade e por pouco não batia a cabeça ao passar pela porta.O Sergio pediu leite já que seu estomago não estava bom. Imaginem a risada dos outros. O Omar queria uma bebida exótica, que não havia no local. Mas ele era assim mesmo, gostava de coisas diferentes e não hesitava em mostrar suas vontades e querer que elas prevalecessem. Mas se contentou com uma dose de arak com água e bastante gelo. Já o Kevin , brincalhão e sacana como ele só, seguia fiel a suas origens e pediu logo uma dose dupla de licor Baileys e uma cerveja Guinness. Pobre dele, se sentia na Irlanda mesmo. Era a defesa dele querer se cercar de coisas da velha Erin. Acabou tomando Caracú e dispensou o licor de ovos que o garçom achou escondido no fundo da estante. Mas riram todos  das escolhas uns dos outros. O Omar começou a falar umas coisas difíceis, com palavras que poucos conheciam. O Sergio quis falar sobre os livros que lia ( de preferência em Inglês,para manter contato com a língua ele dizia, e sempre aprendia alguma palavra ou expressão nova).Mas o Kevin interrompeu para mostrar um par de pernas que passava. Ele não perdia a piada.Na verdade era uma outra defesa dele. Na verdade ele gostava das duas pernas. O Sergio, em voz baixa, quis protestar,mas o Kevin continuava rindo. O Omar achou mais prudente ficar só olhando. O garçom veio perguntar se iriam comer alguma coisa ou se iam ficar só na conversa mole. Kevin parou de rir por um momento e caiu na gargalhada.O Sergio sorriu discreto e o Omar disse que estava com fome. Pediu um kebab,que o bar não tinha e acabou se agradando de um churrasquinho de gato que girava solitário na porta. Sergio pediu uma salada (só tinha alface ), já era de noite e se ele comesse algo pesado iria roncar ainda mais a noite toda. O Kevin queria um frango tandoori com bastante curry,que vira numa revista e achara chique. Mas o bar não tinha e ele pediu frango a passarinho mesmo. Não importava a ninguém se ele roncasse a noite toda com bafo de alho. Bom, com todas as diferenças, se davam bem. Concordavam que a loira da contabilidade era uma gostosa. Que o sistema estava melhor depois da mudança para um escritório na Paulista. O Omar fazia visitas constantes, com sua simpatia inata. O Kevin, se pudesse, encostava o corpo e ficava na Internet o dia todo,com duas paginas abertas no computador, abrindo a página da tabela de Excell assim que alguém se aproximasse.O Sergio mantinha seus registros na mais estrita ordem ,o que ocasionava comentários sobre sua organização.Achavam até estranho.Torciam para  o Timão , que ia ser campeão este ano           ( como sempre ). E combinavam em muitas coisas. Mas tinham também suas diferenças. O Sergio era caladão e sua voz era muito baixa.O Omar falava alto como um italiano e gesticulava também. Já o Kevin falava arrastado, simulando um sotaque inglês que não tinha,mas que só desaparecia quando ele estava nervoso. E todos riam. O Sergio vinha trabalhar de ônibus e metro ( o que exigia uma tremenda condição física ) , o Kevin de moto ( que dirigia como um cachorro louco ) e o Omar morava perto e, ora vinha caminhando ( quando não chovia) ora pegava um ônibus que subia a Consolação ( e pegava um trânsito danado). Um dia, apesar de toda a amizade, brigaram feio. Até hoje não sabem exatamente porque. O Sergio achava que era sobre uma borboleta amarela que passara voando rente e só ele tinha visto.O Kevin achava que era sobre uma diferença de opinião sobre o valor artístico da Spire de Dublin.O Omar achava que era sobre a interpretação de uma pintura renascentista,que haviam visto no MASP numa terça feira que a entrada é grátis. Mas continuavam a se respeitar. Se cumprimentavam, marcavam um almoço ao qual não iam dando as desculpas mais inverossímeis ( palavra que o Omar adorava ), ou esfarrapadas ( coisas do Kevin ) ou a verdade ( que o Sergio cultivava, embora o prejudicasse as vezes). Mas estavam sempre atentos um com o outro. Sempre ouviam a opinião do outro.Mesmo que não seguissem o conselho.Mesmo que achassem ridículo. Mesmo que o fizessem em segredo. O Sergio sentia falta dos dois enquanto ajeitava os óculos e os olhava de esguelha, o Omar só deixava transparecer quando coçava a orelha,num sintoma de Tourette,mas era o mais sensível deles. Já o Kevin era extremamente carente, o que procurava disfarçar fazendo os outros rirem , as vezes com piadas que só ele entendia.As vezes o Sergio e o Omar conversavam sobre o Kevin.Mesmo achando que ele jogava nos dois times, gostavam dele, e o defendiam junto aos outros que queriam tirar sarro.As vezes o Omar e o Kevin conversavam sobre o Sergio,procurando saber o motivo de tanta mutez,mas o defendiam junto aos outros quando queriam chama-lo de gramofone. As vezes o Kevin e o Sergio conversavam, quer dizer, o Kevin falava quase o tempo todo sobre o Omar e seus gostos estranhos.Mas sempre o defendiam junto a aqueles que o chamavam de gringo.Kevin sempre brincava ao passarem por um restaurante japonês dizendo “ Será que o sashimi já esta bem cozido ? E o Omar dizia que peixe cru é coisa de japonês “ E o Sergio, que já experimentara e gostara ria e se perguntava se algum dia eles iriam concordar em comer num restaurante melhorzinho ,aprendendo a experimentar coisas novas. Kevin comia qualquer porcaria. Sergio detestava gordura. Omar preferia assados. Passaram algumas semanas de cara virada. Acharam que deveriam fazer as pazes, afinal nem sabiam o porque da briga. E, por coincidência se encontraram na sala de café.Sergio tomava sem açúcar nem adoçante. Kevin tomava chá bem doce. Omar tomava café com leite e açúcar. E começaram a conversar sobre a loira, pra quebrar o gelo.Marcaram de tomar alguma coisa no barzinho da esquina.A gerência mudara e eles estavam animados para saber se as coisas haviam mesmo mudado. Lá pelas seis e pouco saíram para o bar. O Sergio, com sua mania de organização atrasou um pouco.O Kevin já estava de pasta na mão as cinco e cinquenta e cinco. O Omar não podia sair antes de ir ao banheiro. A chuva tinha passado. Entraram no bar. O garçom era o mesmo. E os recebeu rindo. Mostrou a mesma mesa e eles se sentaram. Ele trouxe a Guinness do Kevin. E a bebida do Omar ( de nome impronunciável ). E o leite de cabra para o Sergio ( que era mais forte ).Os pratos vieram do jeitinho que queriam,sem mesmo terem pedido.A salada do Sergio tinha até endívias que ele adorava.O frango do Kevin veio fervendo e picante de temperos indianos.O Kebab do Omar era de carne de carneiro com tempero suave de hortelã. Estranharam, mas sorriram satisfeitos. Outros pares de pernas, outras músicas, outros perfumes. De repente sorriram e entenderam. E deram as mãos como se fossem os três mosqueteiros separados desde a infância e reunidos como por magia, no bar da esquina.Juraram amizade eterna. Nunca iriam se separar. E nunca mesmo. As vezes os três tinham tonturas, ao mesmo tempo ou dores de cabeça memoráveis ou ficavam resfriados juntos. Como trigêmeos que compartilhassem o mesmo destino.  Sergio sempre oferecia os lenços que comprava. Omar carregava um lenço de tecido perfumado. Kevin assoava num pedaço de papel toalha que surrupiava de todos os banheiros que visitava. E riam. E por muitos anos seguiram com uma amizade de dar inveja aos outros que se aproximavam e queriam participar da sociedade. Sergio dizia que era a sociedade do Trio de um só. Kevin brincava  e chamava de Sociedade do Anel ( com uma dupla referência ao Sr dos anéis e a um Anel que tinha conotações eróticas e os outros dois não gostavam ).Já o Omar referia-se  a uma antiga e inquebrantável  relação cármica ( ele estava lendo Comer Rezar e Amar e , já na parte de Bali tinha ficado influenciado pela sabedoria do guru ) .De qualquer maneira,eram laços que nunca se romperiam. Amigos para sempre. Até que um dia estivessem caminhando juntos pela rua,se apoiando um no outro e um raio de luz os levasse para : o céu , confirmava  Sergio, a Tirnanog pensava Kevin, ao paraíso cogitava Omar.

 

N O T A S D E C O M P I L A D O R – por jorge lescano / são paulo


¿Cómo explicar la existencia de obras en colaboración?

  Borges afirma que se trata de un prodigio inverso

 al de Jeckyll y Mr. Hyde: dos se convierten en uno.

 El resultado artístico expresa una tercera entidad.

 

El último colaborador, tal vez el decisivo, es el lector. 

Alejandro Dolina

 

 

[…] numa esquina do bairro de Flores, espaço quase mítico apesar de adjacente, no sentido leste-oeste, do meu Floresta.

 

Primeira nota: escrevi a frase de cima antes de ler Crónicas del Angel Gris. Alejandro Dolina, seu autor (vide Nota à nota), era o meu colaborador secreto, presumivelmente anterior e a longa distância. Alternativa mais interessante a meu ver é a de que eu fosse o seu colaborador, deste modo ficaria na posição de duplo, não de original, satisfazendo a minha vocação de Eminência Parda. De todo o caso sobra um aporte à sua Arte en Colaboración: nenhum dos dois sabia nada de nossa parceria.

Na minha história recente (de leitor) a mais notória colaboração deste tipo foi protagonizada – a revelia, poderíamos dizer – pelo escritor argentino Jorge Luis Borges, falecido em 18 de junho de 1986 na terra do lendário Guilherme Tell e seus despojos descansam no cemitério de Painpalais, em Genebra.

 No início da década de 1990 entrou em circulação Instantes, um poema, digamos assim, com a assinatura de Borges. O texto percorreu o mundo com sucesso inédito. O nome deste escritor considerado difícil atingiu todas as camadas sociais dos cinco continentes. Sei de pessoas que diligente e impensadamente dilapidaram seus tostões xerocando o texto e o distribuindo por ruas e vielas dos mais distantes vilarejos deste novo mundo, para não falar das praças e avenidas das grandes metrópoles do velho mundo. Fontes fidedignas noticiam que foi impresso em toalhas de mesa, guardanapos, lenços e outras superfícies portáteis além de ser pregado em cardápios e vitrines para o seu melhor e maior consumo.

 O monstrinho chegou-me às mãos por um conhecido, consuetudinário leitor de poesia. Foram inúteis as minhas arrazoadas argumentações visando demonstrar que a obra não era de autoria do consagrado vate cisplatino, Instantes já se havia incorporado ao repertório das massas. Tal popularidade, aliás, valeu-lhe inclusão na Antologia Apologética do Apócrifo, inédito de minha modesta autoria.  

Das mãos de um poeta de cordel, réu confesso de haver xerocado e distribuído Instantes e conhecedor dos meus pendores de resenhista (valha o neologismo), recebi um recorte do jornal Folha de São Paulo do domingo 17 de dezembro de 1995. O escritor brasileiro Moacyr Scliar, recentemente falecido, retornando do México e baseado em confidências de Maria Kodama, viúva do escritor argentino, revelava a autora do pasticho. Trata-se da norte-americana Nadine Stair. Estampamos-lhe o nome para escárnio público e regozijo dos colecionadores de fiascos literários, antes que para lhe fornecer subsídios para os quinze minutos de fama vaticinados pelo seu compatriota Andy Warhol, fama à qual todo habitante deste planeta em extinção tem direito. Com a melhor boa vontade quero acreditar que a autora teve a generosa intenção de aumentar, se não enriquecer, a obra do festejado bardo portenho doando-lhe fruto de sua seara.

Pareceu-me suspeito tal desprendimento. Acostumados que estamos ao lucro pessoal em toda atividade, como o santo do ditado desconfiamos quando a dádiva é abundosa em demasia. Por que alguém formado na cultura que cunhou a sentença Tempo é dinheiro cederia gratuitamente o árduo produto dos seus neurônios, se não da sua emoção candente, à memória de outrem? Confesso: não via no ato propósito legível.

O surgimento de páginas póstumas sempre me deixa perplexo. Penso no mágico baú de Fernando Pessoa, cornucópia literária que não deixa de expelir textos. O português, ao dotar de vida, pela obra, os heterônimos, povoou o universo com poetas tão reais quanto Ele Mesmo. Se a importância de um escritor é sua obra, eles têm essa consistência acrescida dos dados biográficos fornecidos pelo seu criador; desse modo, hoje que Fernando Pessoa não figura mais entre os vivos, tornou-se igual às suas criaturas. Existem fotografias e documentos escritos que atestam a existência de Fernando Pessoa, dirão os adeptos do inquérito policial, tais documentos apenas se autenticam reciprocamente, respondo. O universo ficcional criado por ele autoriza a dúvida. Como dramaturgo, Pessoa incrustou seus apócrifos na realidade a ponto de competir com Ele Mesmo e nos fazer duvidar de nossa existência. Não custa muito imaginar Fernando Pessoa Ele Mesmo como criação de Álvaro de Campos ou qualquer outra de suas criaturas, ou ainda de um colaborador que por astúcia ou ironia preferiu não deixar rastro. O próprio sobrenome estimula a incredulidade, é sorte grande que ele derive da máscara latina. Se Pessoa for pseudônimo, ele sugeriu os duplos ou estes originaram o pseudônimo? Estas especulações serão ociosas para os que confundem a história com o jornalismo e a chamada ciência histórica, categoria literária enriquecida pelo gênero biografia, porém, Fernando Pessoa era adepto de diversos esoterismos que permitem estas conjecturas. O assunto é tentador, mas excede nosso tema.     

Em agosto de 1999, para comemorar o centenário de nascimento do suposto autor de Instantes, realizaram-se em São Paulo variados eventos. Foi então que tive a oportunidade de conversar rapidamente sobre o assunto com a senhora Maria Kodama. No breve colóquio, a ilustre dama participou-me que no início do infausto acontecimento – a publicação, distribuição e reprodução de Instantes –, ela optou por ignorá-lo. Porém, o jurista que trata dos seus negócios bem como do memorial que eterniza o nome do vate de quem estamos a falar, advertiu-a que a autora da obra aqui focada estaria habilitada, se assim o desejasse, a reivindicar a autoria do poema, por assim dizer, cabendo processo judicial por apropriação indébita de direitos autorais, visto a citada senhora, herdeira do espólio do supracitado Jorge Luis Borges, haver permitido a circulação da referida obra como se de autoria do seu cônjuge fosse, alternativa de todo deplorável para vossa senhoria, como é fácil coligir. Tal o motivo que a decidiu a tornar pública a falácia, esclarecendo-me, de lambuja, sobre o provável objetivo da empreitada.

 Tenho para mim que a colaboradora (ora) explícita enriquece a biografia do autor argentino. Moto-próprio resolveu acrescer menos a obra que o fato à(s) biografia(s) póstuma(s) (como deveria ser toda biografia), tanto as autorizadas quanto as outras. De algum modo este plágio por movimento contrário ilustra a teoria literária de Borges segundo a qual é o leitor quem faz a obra. Opinião mais severa ou mordaz diz que ele foi vítima póstuma do apócrifo, modalidade literária por ele mesmo praticada durante toda a vida. Se não, vejamos um exemplo, apenas um, para não fatigar nosso leitor.

Em ensaio fartamente documentado, como é do seu feitio, o autor de Evaristo Carriego, biografia dúbia deste poeta popular (no sentido político, não comercial, do epíteto) aponta os avatares sofridos pelo livro d’As mil e uma noites, obra mágica para os europeus (não para os árabes, acostumados aos prodígios) mesmo à custa de omissões e acréscimos de relatos dos tradutores (aos quais aplica, com ressalvas, o famigerado trocadilho italiano), circunstância esta que não deixa de aproveitar para impingir ao leitor displicente (categoria que incluiria Tzvetan Todorov, segundo Mariza Werneck in O livro das Noites, apud Júlio Pimentel Pinto: Uma memória do mundo) a portentosa noite 602 em que o rei Shahriar ouve da boca da rainha sua própria história (in Os tradutores d’As Mil e uma noites).

Sempre atribuí o fracasso das minhas pesquisas a respeito à deficiência das edições consultadas, mas não havia tal, Borges inventa sutilmente uma noite a mais, nos revela a mesma Mariza Werneck, ibidem. Se Kafka funda uma Novayorque pelo grafismo em sua Amérika (ortografia mais próxima do som original pré-colombiano: amerik, segundo os estudiosos) e O Marinheiro de Pessoa cria todo um país para sua origem, a noite 602 só passa a existir depois da “citação” de Borges. Deveríamos falar d’ As mil e duas noites? Deixo a solução deste enigma literário aos mestrandos de plantão.

O insigne cego revelava em entrevistas que seus últimos poemas eram escritos em colaboração, se ele os inventava (e voltava à rima para melhor lembrá-los), outro devia redigi-los. Creio que assim deveriam agir os antigos rapsodos. É de se supor que embora clássico, Homero (cego, na língua da Trácia, afirma algum acadêmico) fosse iletrado. Antes de perder totalmente a visão o argentino já havia cometido várias obras em parceria. Três colaboradores vêm-me à memória, sem que esgotem o elenco de parceiros nem a lista de obras: María Esther Vázquez (Literaturas Germánicas Medievales), Margarita Guerrero (El Martín Fierro) e o mais conhecido, Adolfo Bioy Casares (Crônicas de Bustos Domecq). 

Colaboração involuntária notória é Kafka, de Max Brod. Nesta obra, o autor de Os falsários (teatro) narra que só depois de oito anos de convivência e amizade cotidiana o autor da sátira O processo atreveu-se a revelar que escrevia. Na época Max Brod já era um escritor conhecido em Praga, Kafka apenas seu amigo. A celebridade internacional, contudo, só lhe adveio precisamente pela publicação da obra e da biografia daquele escritor oculto por modéstia ou respeito às letras (bem diverso de nós, verbi gratia). Como é de domínio público graças ao biógrafo, o autor d’ O castelo teria escrito dois bilhetes nos quais delegava ao amigo a ingrata tarefa de confiar ao fogo (mais radical que Virgílio, que Gógol, que Artaud, êmulos de Eróstrato) sua Obra (hoje) Completa. Segundo a versão de Brod é possível afirmar que a colaboração do biografado foi totalmente aleatória. Por toda sua vida Kafka teria se limitado a ser somente Franz Kafka.

Não falta quem aventure a hipótese de que Franz Kafka seja heterônimo de Max Brod. Como no caso de Fernando Pessoa, a iconografia de Kafka apenas ilustra a existência de um senhor com certas características atribuídas ao personagem em questão. Acreditamos tratar-se do autor do Informe para uma academia porque a legenda que acompanha a fotografia afirma isto. Não é impossível que o nome corresponda ao do original retratado. Ainda assim, como saber que ele é o autor da obra de Franz Kafka? Talvez não seja excessivo afirmar que Max Brod obteve a permanência nas letras pelo registro explícito da ausência do seu (suposto?) biografado.  

Gustav Janouch, filho de um colega de escritório de Kafka, escreveu o ameno Conversas com Kafka com a colaboração direta do autor de Cartas a Milena, primeira colaboradora do seu correspondente ao traduzir para o tcheco algumas de suas narrativas.

Caso pitoresco do gênero biografia é o do crítico uruguaio Emir Rodriguez Monegal, primeiro biógrafo de Jorge Luís Borges. Monegal faleceu antes de Borges, este paradoxo extra literário remata com humor macabro a biografia do argentino.

Em tempo: a colaboração do personagem tema da biografia é devidamente apontada pelo escritor de Flores.

Citei três autores sobre os quais existe vasta bibliografia que, como a poluição nas cidades, não deixará de crescer enquanto houver mundo. São três colaboradores de multidão de ensaístas, ficcionistas, cronistas e jornalistas dos mais diversos calibres e pontaria, com os quais pego carona para não perder a viagem.

No Brasil, o divertimento policial O mistério dos três MMM foi escrito por dez autores, dentre os quais, salvo lapso de minha memória, Guimarães Rosa, Graciliano Ramos e Jorge Amado. Constata-se aqui que o anonimato nem sempre quer ser preservado.

Creio que estes exemplos ilustram o meu ponto de vista sobre a colaboração narrativa. Deixo de fora a “colaboração” dos editores para melhorar os originais a ser publicados, uma vez que esta participação diz menos à estética que à embalagem. Adequação do produto ao mercado desculpam-se os autores.

 

Nota à nota: Alejandro Dolina, escritor argentino inédito no Brasil (re)criou o bairro portenho de Flores como nação autônoma que cumpre a função narrativa e mítica da aldeia de Tolstoi. Em Arte en Colaboración, Dolina trata, sempre de forma bem humorada, da quase impossibilidade da criação literária em duplas. O texto também aconselha que se pratique a amizade por alguns anos antes de iniciar a colaboração. Isto vale especialmente para a biografia. Kafka, numa espécie de colaboração antecipada com Dolina, que não se esqueceu de relacionar esta categoria, valeu-se cautelosamente do conselho.

 

Nota às duas notas supra: Deseja-se constar que a publicação deste texto, sem pretender criar gêneros literários (nota ao texto inédito, colaboração involuntária), ora que os gêneros agonizam, se não estiverem mortos (tudo acontece tão rápido, sêo Aquiles, é algo que nunca diria o eleata) almeja sim o objetivo de ser auto-suficiente.

 

Nota final: saiba o prezado leitor que a crônica de nossa lavra na qual aproximamos o bairro de Flores, pelo uso poético, aos paulistanos Brás, Bexiga e Barra Funda, permanecerá inédita, trata de fatos excessivamente locais de difícil acesso ao leitor estrangeiro. O texto tem razões que nem Tolstoi compreenderia. E por ser verdade quase tudo o aqui narrado, assino embaixo.

 

Roberto Sosa: a poesia como arma de resistência em Honduras – giorgio trucchi / tegucigalpa

Os desprovidos, os excluídos e a injustiça social que reina em Honduras foram os elementos fundamentais de sua obra. Na madrugada de 23 de maio, aos 81 anos, faleceu o grande poeta hondurenho Roberto Sosa, o primeiro latino-americano a receber o Prêmio Adonáis de Poesia, concedido anualmente na Espanha, em 1968. Três anos depois, ganhou o Prêmio Casa de las Américas, de Cuba, por sua obra Un mundo para todos dividido. Três dias antes de fechar os olhos para sempre, Sosa soube que receberia mais um reconhecimento: o prêmio espanhol Rafael Alberti pelo conjunto de sua obra.

Wikicommons

“Os pobres são muitos e por isso é impossível esquecê-los”, diz um dos poemas de Sosa 

Foi um dos intelectuais mais importantes dos últimos 60 anos de seu país e da América Latina. “Sosa sempre teve uma visão muito crítica a respeito da impressionante desigualdade de nossa sociedade hondurenha, onde a imensa maioria da população se encontra desprovida e um setor minoritário é proprietário da maior parte da riqueza”, disse ao Opera Mundi a catedrática universitária e ativista das Mujeres en Resistencia de Honduras, Anarella Vélez Osejo.

Uma desigualdade que o poeta viveu na própria carne. Natural de Yoro, norte de Honduras, vindo de uma família de recursos muito escassos, Sosa se manteve a vida inteira com o que ganhava com o trabalho literário. “Sempre esteve ao lado das pessoas à margem da sociedade e esta posição é vista em sua literatura. Entre sua vida e sua obra, nunca houve contradição. Foi uma pessoa coerente com seu afazer literário e seu posicionamento político e social”, afirmou Vélez Osejo.

O S P A P É I S D E A S P E R N – por jorge lescano / são paulo

Há semanas procuro, já sem esperanças, alguns recortes de jornais com entrevistas de Ricardo Piglia. Eles estavam guardados num exemplar de O Laboratório do escritor que emprestei a Lucas Paolo, leitor cuidadoso ao ponto de preferir não levar os recortes por temor a perdê-los. Por algum tempo eles circularam sobre o sofá-cama, o toca-discos quebrado, a escrivaninha lotada de papéis, fitas de vídeo, pacotes de bolachas. Em algum momento devo tê-los guardado para evitar que se extraviassem na confusão de minha mansarda. Eis que é justamente então que os perco de vista. Provavelmente os guardei de forma distraída, sem gravar convenientemente o local que virou esconderijo. Sei que eles se encontram aqui, mas vivo a experiência de procurar uma agulha num monte de feno, e não precisamente parecido aos pintados por Monet.    

O título desta nota reproduz o de um romance de Henry James. A ação do romance se desenrola em Veneza, num palácio mais ou menos decrépito, residência de duas velhas senhoras norte-americanas possuidoras de antigas cartas amorosas do escritor inglês Jeffrey Aspern endereçadas à atual residente do castelo, com quem teria mantido uma relação amorosa em sua longínqua juventude.

O personagem narrador é um editor interessado profissionalmente nesses despojos. Para consegui-los urde o enredo desta obra de James, começando por se estabelecer em alguns cômodos do palácio. A senhorita Bordereau não perde a oportunidade de saquear o bolso do seu hóspede. Após várias tentativas para conseguir informações sobre o paradeiro dos papéis, que incluem a sedução da senhorita Tina, a menos velha das moradoras e sobrinha da antiga (suposta) amante de Aspern, pois segundo confessa não há baixeza que eu não seria capaz de cometer por Jeffrey Aspern, decide apelar para o furto.

Na página 125 o protagonista é surpreendido na alta madrugada pela velha senhorita Bordereau no momento em que vasculha gavetas de um móvel.

– Ah, seu escritor canalha!, diz o texto.

Escritorzinho ditava a minha memória, sem o adjetivo.

Sem o risco nem a humilhação de ser surpreendido como um larápio eu, ao contrário de subtrair cartas, pretendia devolver um livro à prateleira quando senti se abrir uma pequena fenda entre os volumes. Algo bloqueava a penetração do livro que tinha em mãos na fileira excessivamente apertada. Desisti de forçar, afinal um livro é apenas um pequeno volume de folhas de papel, material frágil e sensível

Com algum esforço passei a mão por cima da fileira de livros – a prateleira estava acima da linha dos meus olhos – e senti na ponta dos dedos o corpo mole e previsivelmente retorcido de um volume. Puxeio com cuidado em direção do fundo da estante. Livre da pressão dos outros livros, como alguém que é liberado das águas quando estava prestes a se afogar, senti no pulso a vontade do pequeno objeto de retornar à superfície. Ainda atrás da fileira de livros, nas pontas dos meus dedos, compacto e eu diria com ar triunfal, como um garoto resgatado de um terremoto depois de dias soterrado sob toneladas de entulho, as letras brancas em campo verde, são e salvo, retorna à vida Os papéis de Aspern. Livre da pressão dos outros volumes, as folhas se espreguiçam como um garoto abrindo os braços em gesto de vitória.

Às vezes penso que o djim da minha mansarda troca as coisas de lugar menos por divertimento que para me obrigar a reconhecer a confusão deste espaço. Admito: sua presença não é a causa da desordem. O livro estava numa região de todo inesperada, mesmo num ambiente onde nada tem lugar definido. Por que motivo eu o havia colocado ali? O fato de estar junto com uma obra que trata de vários autores, entre eles Henry James, não me parece satisfatório. Estaria justificado se algum livro dos outros autores estudados nessa obra também estivesse ali, criando assim uma espécie de sistema, não era esta a situação.  

O acaso, ou como se chame tal coincidência de circunstancias, havia-me levado a mexer naquela região densamente povoada e ao mesmo tempo adormecida, pois pouco freqüentada nos últimos tempos.

 

Em Formas breves, outro livro de Piglia, reencontro as reportagens que já considerava perdidas. O caso se resolveu pelo óbvio, pode-se dizer. Também de maneira fortuita e em outra zona do caótico território ressuscita O papagaio de Flaubert, de Julian Barnes. Tais acontecimentos renovam a minha esperança de rever Formas simples, de autor esquecido e que como Os papéis de Aspern teima em brincar de esconde-esconde no desalinho da biblioteca.

 

Devaneios de Luz – de wagner de oliveira melo / curitiba

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Ainda era cedo e, preguiçosa, Luz estendia por mais alguns minutos sua permanência na cama. Os primeiros raios de sol invadiam o quarto através de um pequeno espaço entre as cortinas, onde todas as noites ela costuma observar furtivamente as pessoas lá embaixo, imaginando vidas e destinos, enquanto toma sua caneca de chá verde; anúncio de que logo vai pra cama.
Intrigada pelos solitários raios de sol que transpunham entrecortados pela fumaça do cigarro seu observatório secreto, ela se levanta e vai até a janela – está nua – com a mão direita afasta um pouco a cortina e com a esquerda fuma. Lá fora a aurora anuncia a cidade em frenesi: Pessoas chegando e partindo transbordam de ônibus abarrotados. Apressadas, se esbarram nas calçadas e nas ruas onde os carros atropelam-se, disputando seus poucos metros quadrados num buzinar, acelerar e frear caóticos. No entanto a janela está fechada. Ela está fechada, como se o silêncio da casa, seu silêncio e a distância dela para com seu próprio corpo, fosse pouco a pouco inundando as ruas as pessoas e as coisas. De repente, como num passe de mágica tudo ficou em câmera lenta, e dentre tantas coisas, entre os invisíveis e anônimos, ela viu o olhar cuidadoso do velhinho de chapéu antes de atravessar a rua. Um grupo de pombos alçando vôo a fugir de um cachorro que os persegue, alegremente latindo para seus amigos alados e uma folha frágil e amarelada se desprender do seu galho e partir, suavemente flutuando ao sabor da brisa, para pousar com toda a delicadeza e carinho que a natureza lhe emprestou, num pequeno espelho d’água que ainda vão construir na Praça Osório. Então, ela acordou. Era segunda-feira e faltavam alguns minutos para o despertador tocar.

 

 

Nada há além da Arte e do belo – por tonicato miranda / curitiba

Chega um momento na vida que nada mais importa. Não faz mais sentido conquistar o amor das pessoas. Muito menos conquistar territórios que jamais nos pertencerão mesmo, a Terra no tempo será dos vulcões e do Sol. Nada faz sentido além da Arte durante nossa permanência planetária. Mas alguns perguntariam, o que vem a ser exatamente Arte? Onde ela se apresenta em sua plenitude? Qual Arte importa construir ou buscar ao nos dedicarmos a alguma forma de representação da estética? Não tenho, tu não terás, ele ou ela não terá, nem todos os plurais terão respostas para tal indagação. Mas é certo de que cada um buscará alcançar alguma forma de Arte, mesmo sendo no empréstimo do olhar, na palavra pronunciada, ou no torcer de narizes.

A Política o que é se não a forma como os homens tentam impor seus conceitos próprios e suas formulações sobre a maneira como deva se dar a organização social dos povos, dos agrupamentos humanos, do gentio. Nos tempos atuais, em especial em países onde as classes populares e médias ainda não atingiram grau cultural medianamente aceitável, o povo ainda elege para se ocupar da Política indivíduos que apenas querem se locupletar das benesses ofertadas pelo poder. Poder este cujos cargos e remunerações os próprios políticos definiram para si. Por isto mesmo a Política foi diminuída ao longo do tempo pelas relações exclusivas do poder pelo poder, não mais pelas ideias e por sua intenção transformadora do coletivo e do indivíduo.

Mas se a Política não é o caminho, o que dizer da Filosofia? Ora, a Filosofia é a forma como o indivíduo se coloca no mundo e no sistema de organização social, refletindo sobre sua participação no seu interior. Ou seja, é a individualidade adaptada à formatação gestada pela política praticada pelos coletivos de todos agrupamentos. Portanto, não há Filosofia sem vinculação a um momento histórico. Embora possa se abster dos fatos históricos isoladamente, não pode prescindir do tempo no qual está inserida. Assim, a Filosofia estará sempre prisioneira da atualidade na qual se reflete, ainda que possa atravessar seus conceitos em tempos passados. Ela sempre será presente e passado, muito pouco a reflexão em direção ao futuro.

Então a História poderia ser a grande motivação humana? Não. Definitivamente, não. A História como a grande tábua das marcas do tempo, contendo a cronologia humana no planeta, prima irmã da Geografia e de outras ciências correlatas, estas capazes de explicar a História do passado da Terra, pouco pode explicar sobre nosso avanço em direção ao futuro. Nada se repete, assim como o tempo não se repete. O homem avança inexoravelmente ao desconhecido. A História, com seu foco para o retrovisor dos fatos, nem mesmo o presente consegue aprisionar. Isto porque passadas algumas décadas, logo parece faltar-lhe algum parafuso na engrenagem e na memória, principiando ela mesma a duvidar do que a alimenta. Assim, a História passa após algum tempo a ser a ciência da dúvida, ou se contenta com uma das versões mais fantasiosa.

Mas então, se não é a Política, nem a Filosofia, nem a História ou a Geografia, o que poderia impulsionar a Humanidade? A Ciência? Não, também não é ela aquela capaz de agrupar os sentimentos dos humanos, transformando-os em raptores ou pitonisas do futuro. Não, a Ciência ainda que cumpra papel de destaque na busca do conhecimento sobre o desconhecido, estaca-se quando visa a aplicabilidade da descoberta, dando ao descobrimento função prática imediata. A única vantagem que leva sobre a Religião é que se apresenta sempre como curiosa, com desconfiança permanente sobre aquilo ainda não revelado. Enquanto a Religião, formadora de dogmas e de conceitos não comprovados, coloca todos numa unidade coletiva emburrecedora, sem questionamentos, totalmente anuladora das virtudes para qual fomos gerados.

Mas depois de tudo isto o que nos sobra? Ora, diria com toda sonoridade das três ou quatro letras onde ela se abriga na maioria das línguas planetária: somente existe a Arte. A Arte é a única entre todas as formulações humanas que tende a perpetuar todos pensamentos e virtudes dos seres. Não fora ela, não haveriam os próprios mitos. Ou alguém duvida que foi graças a ela que as figuras míticas de todas as Religiões se propagaram em todos os cantos da Terra? Desde Buda a Jesus; desde o Vaticano até os templos Hindus no Vietnam, na Índia, no Japão. Pela força das obras de Miguel Ângelo, de Da Vinci, pela grandiosidade das esculturas dos elefantes deuses em Bangkoc; no gigantismo presente nas dezenas de cristos espalhados em muitas cidades mundiais; ou ainda, na força da obra de Dante Alighieri. A Arte sempre emprestou seus virtuoses e seu virtuosismo às causas da Religião. E jamais disto se arrependeu.

A Arte sempre foi a tentativa humana da busca da comparação com o criador. Mesmo nele não acreditando. Mesmo nada tendo para por no lugar de Deus. Mesmo duvidando da própria existência dele. Apesar de todas estas desconfianças, o artista sempre buscou criar imagem assemelhada com sua pretensa virtude. Sempre experimentou o poder de criar. Não é à toa que muitos mais homens há e houve na produção da Arte do que mulheres. Isto porque elas podem, e muitas já experimentaram criar um ser no seu próprio ventre. Assim, ao longo da História é pequena a contribuição da mulher na produção das Obras de Arte, em especial nas Artes Plásticas. Mas existem algumas de alta gramatura na lavra do ouro produzido.

A Arte é de fato a mola propulsora a embalar o desejo de permanência dos seres sobre a pele do planeta. Quando todas as outras motivações já foram experimentadas e não mais sobra entusiasmo para qualquer outra tarefa, eis que aparece a Arte para ser a grande incentivadora dos permanecidos. Está claro que também faz uso da palavra Arte um monte do lixo produzido por cabeças vazias, por pessoas desprovidas de habilidade, de técnica e de talento. E eles, os obtusos, são capazes de gestar experiências formais e não formais, muitas delas consumidas em grande escala na sociedade consumista dos tempos hodiernos.

Mas como toda produção humana, o lixo não sobrevive ao tempo. Este imenso lixo não chega aos museus, não resiste a duas gerações, sendo logo descartado, sobram as sobras dos instrumentos ou bases para a produção da arte besta, da arte menor, da arte um destarte. Assim ocorre com a música pobre, de rápido consumo popular; assim acontece com a literatura produzida na forma de folhetim, transformada a produção de tempos em tempos em papel reciclável no rumo do papelão; ou mesmo nas aquarelas amarelecidas pelo tempo, passando à condição de água em processo de envelhecimento.

A Arte da qual falo é aquela imorredoura enquanto durar a vida planetária e o homem nela. Ela é e sempre será a grande motivação humana. Falo da arte buscada nos museus; nos compêndios das bibliotecas; nas edições especiais das grandes músicas trazidas de tempos em tempos aos nossos ouvidos pelos grandes veículos editoriais; ou presente nos acervos especiais disponibilizados aos nossos sentidos de quando em quando por um grande produtor.

Mas se esta é uma Arte especialíssima, o que a move? Diria que a grande Arte é aquela que busca o belo. Sim, mas o que é o belo em sua concepção plena? O seu belo não é o belo de outro, nem será do seu vizinho, nem da diarista do seu imóvel, nem tampouco do gerente da sua conta bancária; ou do seu filho; do seu pai; e de quem mais quiser individualizar. É verdade. O belo é o intangível. Mas o belo é também o que medianamente fascina a maioria. Quem de pé diante das meninas de Renoir, no MASP,em São Paulo, não se encanta ou não irá ser encantado? Pode ser o mais underground dos sujeitos. Pode ser o mais roqueiro dos indivíduos, ou mesmo cantor de música sertaneja, vai se emocionar. Vai perceber pairando por ali, naquelas luzes e nos vestidos diáfanos, um quê de encantamento impossível de não levá-lo a contrair sua pele, abrir seus poros.

A Arte dita maior é capaz disto. Quem ouvindo Garota de Ipanema, Carinhoso, Samba de Verão, tocadas com flauta doce, não irá se emocionar? Ou quem ouvindo Bach, ou as Bachianas de Vila Lobos, não irá se aperceber de estar diante de uma Arte que transcende? Todas capazes de elevar o espírito. Será não entenderá a luta do artista em busca da sua própria divindade? Assim é a Arte. Assim espera-se seja ela: sublimando o belo. Não há e jamais haverá algo adiante do belo. O belo é assim como o alvo ao qual nosso dardo fura o tempo em busca da ancoragem para nele se cravar. Mas a cada aproximação percebemos faltam-nos mais espaços a percorrer. O alvo parece viajar na mesma velocidade da nossa ânsia em furar o imaginário muro onde ele está. Assim é também a constante insatisfação do artista com a sua própria arte, onde mais um retoque é sempre possível, menos uma palavra ou menos uma pincelada pode aproximá-lo do belo.

Não há saída para a Humanidade. Temos de continuar a buscar o belo. Pelo menos alguns devem continuar nesta corrida, infelizmente apenas a poucos com reta de chegada. Muitos certamente se verterão à Política, à Filosofia, à História, às Ciências e mesmo a arte pela arte. Mas aqueles capazes de se entregar ao belo, à busca da perfeição, depurando textos; pincelando telas; esculpindo um osso, uma madeira ou uma pedra; ou regravando vezes seguidas uma música; repaginando a letra de uma canção; poderá certamente beber da água da fonte do oásis, encontrar uma cacimba no meio do cerrado, ou voar qual Ícaro e Dédalo sem que o Sol queime suas asas. O belo deve ser a meta da Arte e do artista. Aquele que o procurar estará sempre acima de si mesmo, sem cair nas tentações de Santo Antonio ou nas tentações do capitalismo humano. Brincar de ser Deus muitos tentam, mas levar adiante a tarefa de com ele jogar uma partida inteira de damas, estes são poucos. E Deus sempre premia seus opositores. Que o digam os museus e a eternidade dos nossos olhares e ouvidos.

A PALAVRA – por paulo madeira / são paulo

“Da Bíblia (e de outras “escrituras sagradas”), todas ditas “de Deus”, mas com um indisfarçável sotaque de falas míticas e mágicas.   Revelações de Javéh a Abraão, a Moisés, de Alá a Maomé, do “Senhor Jesus” aos “mensageiros” que pontificam por aí, nas TVs e templos-hospitais-shopings, garantindo tudo curar e sempre atender a todos os exagerados desejos de enriquecer…  (Matematicamente, em detrimento dos que continuarem pobres).

É intrigante de se ver (embora a Psicologia explique) como tantas pessoas acreditam tratar-se mesmo de “palavras de Deus” e, não, apenas de sapiências oriundas dos repositórios culturais sedimentados ao longo dos tempos e lugares,  carregados de mitos e crenças, ambos advindos da imaginação.

Mas será que não há revelações divinas “autênticas”?   Bom, quem jura que a “Palavra” é autêntica é a própria Palavra…  Sendo isto tautológico, para os desconfiados, não vale…  Ainda assim, não negamos que muitas dessas palavras sejam portadoras de sabedorias (em meio a ingenuidades compreensíveis).   Estas, porém, não são os pontos a analisar aqui:  nem as sabedorias nem as ingenuidades. O ponto que não podemos deixar de considerar é a AUTENTICIDADE das ditas “Palavras de Deus”.

Mesmo com esta justa dúvida, as “Palavras” eram e são apresentadas como os pilares das doutrinas.   A rigor, isto é, filosoficamente, não poderiam ostentar o status de FUNDAMENTOS.   Pra começar, há divergências entre elas, o que sugere não serem oriundas de uma mesma e única “Fonte Divina”, como já aventamos.   Ainda assim, continuam eficazes como instrumentos de indução e submissão às fés.   Quaisquer fés, mesmo que notoriamente “psicológicas”, subjetivas.

E elas induzem a atitudes de que até Deus duvida, como ditaduras teocráticas, “guerras santas”, homens-bomba, imposições econômicas, de classe, racistas, de costumes, de preferências e outras.   Serão elas autenticamente divinas?   Que falta que Sócrates nos faz…   Ah, se as instituições religiosas tivessem a humildade que pregam aos fiéis e adotassem, contra si mesmas, sistemas socráticos, maiêuticos, de controle de qualidade.   Auditorias internas.   Teriam produzido menos fés e mais sabedorias  –  alicerçadas em verdades naturais, não nas ditas “palavras de Deus”, as quais, por serem assim acreditadas, ficam engessadas, mesmo quando se tornam incoerentes, impossíveis, absurdas, carregadas de preconceitos, intolerâncias etc.   No entanto, teria Moisés alguma chance sem afirmar que “Os Dez Mandamentos da Lei de Deus” foram ditados por Deus?   O que você acha?   Filósofos independentes, munidos com bons instrumentais racionais, são rejeitados para seremauditores fiscais externos dela, da Palavra…  Mas, pudera!   Que audácia!    Auditar e fazer controle externo sobre palavras  “de Deus”…?!

Não!   Não é isso!   Sobre as “de Deus”, se elas fossem Dele, claro que não.    Mas, sobre as palavras dos ditos “Livros Sagrados” e falas dos ditos “profetas iluminados”, sobre estas queandam por aí, em todos os púlpitos e auditórios, sim!    Você sabe como nascem os porta-vozes faladores…?   Aquelas “vocações”?   E quanto aos Livros Sagrados, você sabe como eles forameditados?   Bom, o chanceler alemão Bismark dizia que o povo ficaria muito preocupado se soubesse como são feitas as salsichas e as leis…  Dá para extrapolar essas preocupações para os Livros Sagrados e seus porta-vozes, com todo o respeito…   Mas os religiosos não dispõem de humildade para uma tal análise crítica, de jeito nenhum…”

do livro  Crenças Incríveis de Paulo Madeira.

SILPHIS, UM HÍBRIDO ENTRE NÓS – por jairo pereira / quedas do iguaçu.pr

Híbrido, demiurgo, espacial… o ser viveu anos entre nós. Nunca deu pra conhece-lo completamente. Onde nasceu, viveu, cresceu, formou-se.  Sabia de pesca, caça, poesia, artesem geral. Em filosofia, avançava muito. Nós o tratávamos por Silphis, quase carinhosamente.

Não haviam trevas para ele, nós, enliados do tempo. Só desvelo, luz, clareanças do pensamento. As pedras silenciam, as águas cantam, os céus estalam sagrações novas.

Numa pescaria no rio Iguaçu. Noite alta. A luz por trás da mata, aureolada, previa chuva intensa. Meu amigo Sete. O sete varas (Sr. Orlando) pediu que Silphis cuidasse do acampamento, enquanto armávamos uns anzóis de galho pra pegar traíra. Silphis, subiu numa árvore e lá ficou horas a fio. Não quis falar nada, mas vi que uma luz tênue, contornava o rapazinho. A velha canafístula, balançava ao vento e ele lá trepado, como um macaco prego. Horas mortas. A urutu em que quase pisamos encima. A carpa grande que saltou sob os sarandis. O grito do urutago no pau podre. Urutago. Urutau. Preguiça. Mão da lua. Manda lua. Abijaí-guaçu… Alguns peixes pescados e o retorno ao acampamento. Silphis ainda pairava na meia altura da árvore centenária. Ao nos ver chegar ao barraco, desceu, esgueirando-se por entre os cipós. Não sei, se o Sr. Orlando via, mas eu nitidamente enxergava o contorno de luz no garoto esguio, de aproximadamente 13 anos. Nos deixaram mais de ano a criança, com a alegação de que seus pais foram trabalhar numa barragem ou parque de diversões em Goiás. Oguri. Limpava peixe, capinava, lavava cavalo, cortava lenha, ajudava matar e pelar porcos. Sempre solícito, não negava mando. Nunca procuramos saber de seus pais, mais do que o necessário a justificar sua estada entre nós. Um pouco lá em casa, outro tanto com meu companheirão Sete, o guri foi luzindo e vivendo entre nós. Por mais de ano, ou dois, ou três… Tudo se confunde em nossa mente quando lembramos de Silphis e seus mergulhos longos no Iguaçu. Nadava, entrava em toca de tateto, subia em árvores altas. Esculturava com cipós, as mais lindas mulheres. Tinha conhecimento profundo das coisas terrenas, muito além do que se podia esperar de um garoto de 13 anos. Fazia flautas de taquarinha do mato e chamava pássaros. O sobrevivente surucuá, era sua companhia predileta. No rio, mergulhava fundo entre os peixes maiores e custava emergir. No espaço, elevava-se a mais de quatro metros de altura, num simples pular de cerca. A gente via, aquilo, só nós (eu e o Sr. Orlando, o Sete) e ficávamos quietos, só pra nós. Abestalhados. Com o tempo algumas pessoas mais observadoras, notavam algo diferente no guri. Disfarçávamos, o talento da criança, com uma história de circo. De que era egresso dum circo que há tempos atrás o esqueceu com os pais em Guarapuava. Ea vida ia correndo e Silphis, conosco aventurando pescarias, cavalgadas, construções artísticas e pensamentos filosóficos. Certa vez me disse que o espaço é um só, a substância universal a mesma, o sonho, o mesmo terreno e de todas as tribos do Cosmo. Num grão de areia da beira do rio, via o transfinito. Sinalizava aos orbes, estrelas… e parece recebia respostas. Em cavalos, tanto os adorava, andava quase deitado em cima, em galopes cancha reta. A luz em noites, de longas andadas tomava todo o dorso do animal e elevava-se também um pouco acima da cabeça. Eu só ficava vendo aquilo, abduzido, no lombo do meu Tigre paint. Minhas crianças, observavam que o piá era esquisitinho, dormia em qualquer lugar, a qualquer hora do dia ou da noite. Bastava, afastar-se um pouco das companhias e no encosto de um móvel, sobre um soalho, ou mesmo embaixo de uma cama, dormia. Uma noite o peguei, mentalizando algo, olhar fixo pela janela do sobrado de minha casa. A luz transpassava as árvores exóticas lá fora, e perdia-se no espaço. Percebi que havia um retorno de focos luminosos. Estabelecia-se ali comunicação entre seres de espaços diversos. Silphis jamais tocou no assunto de ter qualquer comunicação com o desconhecido. Seres cósmicos, ele mesmo podendo ser um híbrido, coisas assim… nunca fora sequer cogitado. Apenas eu e Sr. Orlando (o Sete) admitíamos, no nosso pobre entendimento dos transmundos a possibilidade do guri ser extraterreno, ou meio. Contava milhões de estrelas de cabeça, conjugava palavras novas, signos, símbolos. Eram vários guris num só. Várias cabeças pensantes. A gente via um e falava com outro, outro ser, outra psique na dialética cotidiana de horaem hora. Acostumamos assim na sadia relação. Aquela vez que trepou no jaracatiá, ficou três dias, no encosto com o monjoleiro vermelho. A boca amarela da polpa do fruto carnudo. Só desceu da árvore quando uma tempestade estalou madeira na mata.

Os cavalos quando Silphis chegava na Fazenda Poema relinchavam, abusivamente. Os cachorros latiam, os gansos, os patos, alariam. As ovelhas baliam. Uma égua prenha, o seguia pelos aramados por longas distâncias. Parece mantinha comunicação telepática com os bichos. Tinha alto poder de cura. Noutra vez em que um ferrão de mandiguaçu me acertou o peito do pé, num toque Silphis tirou a dor. Noutra, a inflamação na garganta passou, quando ele tocou-me o pescoço, com um ramo de gervão. Quando as abelhas africanas invadiram a casa na fazenda e todos puseram-se a correr, Silphis ergueu a mão (pude ver uma luz nas pontas dos dedos) e as pequenas asadas retornaram à colméia, sem ferir ninguém. Silphis fez muita falta quando partiu. Partiu, desapareceu, saiu pra comprar umas coisas na mercearia da esquina da Guajuvira com a Pinheirais na nossa Kedas do Iguaçu, e nunca mais retornou. Como não tinha família presente, sendo só nós os seus de vida e presença, nada aconteceu, além da imensa saudade que quase nos mata. Olho os céus detidamente, todas as noites. Estrelas sinalizam Silphis, em alguma via intergaláctica, mentalizando seus pobres amigos do Iguaçu. Cipós de pensamentos costuram tecidos de significação, sonhos, amizade. Uma vez Silphis acelerou minha mente, num processo telepático. Alguma coisa travou no desvelo de equações perigosas. Um caso de amor irresolvido!? Ou eram, sonhos sem finalização!? Sei que a solução ocorreu nathuralmente… Gostava de bifes de fígado e cáquis de sobremesa. Ensinou meus filhos a concentrar o tempo, atenção, mentalizar para o bem e o certo. Ensinou-os a expandir o conhecimento das coisas, em observando-as atentamente. Cresceu em nós como ser híbrido, espacial, deixando grandes lições. Há poucos dias um estranho homem, alto e forte, chegou em nossa casa e pediu pra mulher sobre Silphis. Disse que tinha uma mensagem de seus pais pro garoto. Em síntese: que era pro pequeno ir à Porto Alegre, perto de Praia de Belas, que seria encontrado pela família. Havia um brilho diferente nos olhos do homem. Um brilho, uma cor radiante na tez morena. A Mari, disfarçou que não sabia mais do garoto… que eu e o Sr. Orlando já o tínhamos encaminhado aos pais em Goiás… parece que a algum circo. Mal sabia ela, que Silphis partiu quando e como quis, sem nos dizer nada. É (sua passagem) uma fábula que se realizou, uma lenda em ser, que não tem fim e projeta aos tempos futuros. Silphis gostava de me ver escrevendo coisas. Ficava perdido, em noites altas, atento as minhas elaborações do pensamento. Poesia, arte, filosofia, direito, lógica, linguística, semiótica e misticismo. Tudo lhe chamava a atenção. Palavras não dizem tudo. Sentidos podem… mas nem sempre alcançam. Dizia. Senti, que nunca mais fui o mesmo como poeta e escritor, depois que Silphis se foi. Aquela luz, emanada do guri, o olhar atento, a sã comunicação interespacial que operava, deixaram em mim solitude, isolamento involuntário. A essa estrela nova que aqui passou consagro este texto de vento e brasa, saudade, conhecimento, além do terreno e do carnal. mvcxzn,mvn,mnv,mc1v euiondhSHdjjlkjdncxxvczzczcvzzsgzrk Expanda-se essa luz juvenil nos amplos espaços do Cosmo, vivendo e ensinando, o simples de pés no chão, que todos devemos ser. SIMPLES. Fui, sou, serei, à revelia do complexo. JARACATIÁ!

Comissão Nacional da Verdade: mais uma farsa?

Grupo Tortura Nunca Mais-RJ

O Grupo Tortura Nunca Mais/RJ, mais uma vez, vem a público mostrar sua preocupação e, mesmo, indignação com as desinformações e manipulações que vêm ocorrendo em torno da instalação de uma Comissão Nacional da Verdade a ser votada em breve pelo Congresso Nacional. Importante lembrar que esta 2ª versão da Comissão da Verdade — contida nas reformulações conservadoras do 3º Plano Nacional de Direitos Humanos (PNDH-3), em maio de 2010 — apresenta graves e comprometedoras mudanças que mutilam a 1ª versão, anunciada à Nação, em dezembro de 2009, em grande mis-em-scène midiática.

Já havíamos questionado o caráter antidemocrático daquela 1ª versão da Comissão Nacional da Verdade no que dizia respeito à criação de um grupo de trabalho para elaborar o projeto de lei que instituiria esta Comissão. Dentre os 06 membros que formariam este grupo de trabalho, 05 seriam autoridades governamentais e somente 01 “representante da sociedade civil”, escolhido por uma dessas autoridades.

Entretanto, há nesta 2ª versão mudanças muito sérias e graves que mostram um profundo desprezo por nossa história em nome da “conciliação nacional” e da governabilidade. São elas:

• retira-se qualquer tipo de responsabilização em relação àqueles que cometeram crimes contra a humanidade naquele período de terror.

• retiram-se as expressões “repressão ditatorial”, “regime de 1964-1985” e “resistência popular à repressão”, substituindo-as por “prática de violações de direitos humanos no período de 18 de setembro de 1946 até a data da promulgação da Constituição (1988).” Ou seja, retira-se da história do Brasil o período de ditadura civil-militar.

• acrescenta-se ao trabalho de “localização e identificação de corpos e restos mortais de desaparecidos políticos’ a expressão “com base no acesso às informações”. Ou seja, o Estado brasileiro não se compromete nestas buscas e identificações a não ser que ocorram informações. E quem daria essas informações? Como sempre o Estado brasileiro, mandante e responsável por esses crimes, se omite e coloca o ônus das provas nas mãos de entidades de direitos humanos e dos familiares de desaparecidos, sendo que os arquivos ditos secretos da ditadura continuam inacessíveis.

Sabemos que a memória é um campo de lutas e que estas modificações no PNDH-3 com relação à Comissão da Verdade está fortalecendo uma certa história oficial: como se fosse a história única e verdadeira, possivelmente com o apoio das próprias forças que respaldaram o terror em nosso país.

Cabe, ainda, lembrar que este debate para implantação de uma Comissão Nacional da Verdade — mesmo que mutilada e somente “para inglês ver” como forma de aplacar os clamores nacionais e internacionais — fortalece-se logo após a sentença dada pela Corte Interamericana de Direitos Humanos da OEA que condenou o Estado brasileiro em relação à Guerrilha do Araguaia. Por esta sentença, exarada em dezembro de 2010, o Brasil tem até o final do ano para remover todos os obstáculos práticos e jurídicos para a investigação dos crimes, esclarecimento da verdade e responsabilização dos envolvidos. Também, o Tribunal reafirmou o alcance geral de sua decisão, exigindo que as disposições da Lei de Anistia, que impedem as investigações penais, não possam representar um obstáculo a respeito de todos os outros casos de mortos e desaparecidos políticos no Brasil.

Por tudo isto, reafirmamos nosso repúdio a esta encenação de Comissão da Verdade. Continuamos nossa luta por:

• Uma outra Comissão Nacional da Verdade e Justiça.

• Pelo cumprimento integral da Sentença da OEA.

• Pela abertura ampla, geral e irrestrita de todos os arquivos da ditadura.

Rio de Janeiro, 03 de maio de 2011

Pela Vida, Pela Paz

Menino e Cão – por jorge lescano / são paulo


In memoriam Dimitri Lescano

 

–    Pai, paiê, papaiê! Dimitri gritava e Pancho I latia e pulava em

torno  dele, a boca  procurando uma  bolacha na mãozinha que

que se abria e fechava no chamado.

Eu fingia não ouvir forçando minha atenção na leitura.

–    Papaiêêêêêêê!!!

–          O que é que você quer? – voz de baixo e carranca que  não

impressionavam  nem  o  cachorro  que  ladrava-pulava-latia e

pensava: é festa!

–          Vem  cá – disse  Dimitri  soltando  um  pontapé.  Pancho I

soube evitá-lo.

–          Estou ocupado – tinha a vã esperança de que me deixasse

em paz.

–          Vem cá, paiê!

Eu fui. Que outra coisa poderia fazer?

Dimitri colocou sua mãozinha dentro da minha. Com o dedo in-

dicador da mão livre  mostrou o céu  vermelho  de  crepúsculo.

Enquanto  Pancho I abanava  o rabinho  olhando para cima, Di-

mitri me encarou sorrindo e, maravilhado, disse:

– A lua, paiê.

Facebook, a mais apavorante máquina de espionagem já inventada, quem afirma é ASSANGE, do WikiLeaks

Assange chama Facebook de ‘máquina de espionagem’

Publicada em 03/05/2011 às 14h04m

O Globo

RIO – Em entrevista ao programa de TV Russia Today, Julian Assange, a face pública do WikiLeaks, classificou o Facebook de “a mais apavorante máquina de espionagem já inventada.”

– (Em sites como o Facebook) nós temos o banco de dados mais abrangente sobre as pessoas, seus relacionamentos, nomes, endereços, localização e as conversas entre elas, seus parentes, tudo à disposição dos serviços de inteligência americanos – afirmou Assange, que aguarda extradição para Suécia. – Quando as pessoas adicionam seus amigos no Facebook, eles estão trabalhando de graça para as agências dos Estados Unidos.

Assange cita ainda Google e Yahoo como exemplos de páginas que ajudam os EUA a espionar os cidadãos. Ele não chegou a dizer que os sites são gerenciados pelo governo – como críticos radicais das redes sociais e afins já disseram -, mas disse que as agências podem pressionar legal e politicamente as empresas de internet.

TORTURA é um CRIME que não prescreve: “decisão inédita no rio grande do sul” / porto alegre

Tribunal de Justiça gaúcho condenou Estado do RS ao pagamento de R$ 200 mil a torturado durante a ditadura militar. Desembargador Jorge Luiz Lopes do Canto considerou que crime de tortura não prescreve. “A dignidade da pessoa humana é um dos fundamentos da República Federativa do Brasil, e a tortura o mais expressivo atentado a esse pilar da República, de sorte que reconhecer imprescritibilidade dessa lesão é uma das formas de dar efetividade à missão de um Estado Democrático de Direito, reparando odiosas desumanidades praticadas na época em que o país convivia com um governo autoritário e a supressão de liberdades individuais consagradas”, disse ele em sua decisão.

A 5ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça gaúcho condenou o Estado do Rio Grande do Sul ao pagamento de R$ 200 mil, por danos morais, a torturado durante o regime militar. Então com 16 anos, Airton Joel Frigeri foi buscado em casa em 9/4/1970 e levado algemado à Delegacia Regional da Polícia Civil de Caxias do Sul, depois ao Palácio da Polícia em Porto Alegre e detido na Ilha do Presídio, situado no rio Guaíba em frente a capital. Foi posto em liberdade em agosto do mesmo ano.

O autor da ação narrou que, com o objetivo de conseguir informações sobre outros participantes da VAR-Palmares, foi interrogado várias vezes por meio de tortura por choques elétricos nas orelhas, mãos e pés, por meio de um telefone de campanha, chamado Maricota. Permaneceu longos períodos com algemas nos braços. Recebeu golpes com o Papaléguas, pedaço de madeira preso a uma tira de borracha de pneu com cerca de 40 cm de comprimento por 4 cm de largura. No Palácio da Polícia, escutava a tortura sendo aplicada a outras pessoas.

Na Ilha do Presídio, ´Pedras Brancas´, descreve o autor: (…) não havia chuveiro elétrico, os banhos eram tomados em uma lata de tinta furada, de onde escorria a água de um cano. Os banheiros eram abertos sem paredes e com uma abertura gradeada dando direto para as águas do rio. As celas não possuíam janelas e as grades davam para um corredor, sem porta ou vidro algum, onde o vento gelado do inverno gaúcho soprava diuturnamente. O chão era de puro concreto. 

Saindo da prisão, foi proibido de voltar a estudar tanto em escolas públicas como em particulares. Continuou sendo visitado por elementos do SNI, DOPS e Polícia Civil, que o procuravam no local de trabalho, em casa, ou até mesmo na rua. A última visita ocorreu no final de 1978, mais de um ano depois de ser absolvido pelo Superior Tribunal Militar. Afirmou também que passou os anos posteriores se tratando de uma gastrite de fundo emocional, com crises de depressão e insônia, utilizando tranquilizantes e outros remédios.

Na época da detenção, Airton estudava no Ginásio Noturno para Trabalhadores, no prédio do Colégio Presidente Vargas, e trabalhava de dia como auxiliar de escritório no Sindicato dos Trabalhadores Metalúrgicos de Caxias do Sul.

Em dezembro de 1974, o Conselho Permanente de Justiça do Exército absolveu Airton por falta de provas de acusações com base na Lei de Segurança Nacional, decisão confirmada em Brasília pelo Superior Tribunal Militar.

Em outubro de 1998, a Comissão Especial criada pelo Estado do RS acolheu o pedido de indenização realizado com base na Lei Estadual RS nº 11.042/97 e fixou o seu valor em R$ 30 mil, quantia entregue a Airton em dezembro do mesmo ano. A Lei prevê a concessão de indenizações a pessoas presas ou detidas, legal ou ilegalmente, por motivos políticos entre os dias 2 de setembro de 1961 e 15 de agosto de 1979, que tenham sofrido sevícias ou maus tratos que acarretaram danos físicos ou psicológicos, quando se encontravam sob guarda e responsabilidade ou sob poder de coação de órgãos ou agentes públicos estaduais.

Em 2008, considerando que a indenização já deferida foi insignificante frente aos danos causados, requereu na Justiça do valor, em cifra significativamente maior. Em setembro de 2009, o Juízo da 2ª Vara Cível Especializada em Fazenda Pública de Caxias do Sul julgou extinta a ação. Dessa sentença, o autor recorreu ao Tribunal de Justiça.

Decisão
Para o Desembargador Jorge Luiz Lopes do Canto, relator, não há dúvidas quanto à ilicitude dos atos praticados pelos agentes públicos, nem quanto ao nexo causal ou dever de reparar, insculpidos no art. 186 do Código Civil, nem ao menos da responsabilidade objetiva que cabe ao Estado em função da prática de tortura comprovada no feito e realizada por aqueles.

Ele avaliou que a dignidade da pessoa humana é um dos fundamentos da República Federativa do Brasil, e a tortura o mais expressivo atentado a esse pilar da República, de sorte que reconhecer imprescritibilidade dessa lesão é uma das formas de dar efetividade à missão de um Estado Democrático de Direito, reparando odiosas desumanidades praticadas na época em que o país convivia com um governo autoritário e a supressão de liberdades individuais consagradas.

O juiz considerou ainda que é inaplicável o prazo prescricional previsto no Decreto nº 20.910/32 e reconheceu a imprescritibilidade da ação de indenização referente a danos ocasionados pela tortura durante a ditadura militar. A respeito da indenização já deferida com base em Lei estadual, afirmou o julgador, o autor foi contemplado com o valor máximo estabelecido na Lei.

No entanto, entendeu que foi comprovado durante o processo que o martírio experimentado pelo autor foi em muito superior à ínfima reparação deferida. O desembargador afirmou que causa repugnância a forma covarde com que o autor foi tratado, um adolescente que pouca ou nenhuma ameaça poderia produzir ao regime antidemocrático instaurado, denotando-se que as agressões mais se prestaram a satisfazer o caráter vil dos agressores, do que assegurar a perpetuação do regime, atitudes que eram incentivadas – ou ao menos toleradas – pelas autoridades competentes.

Assim, votou no sentido de fixar a indenização por danos morais no valor de R$ 200 mil, quantia que não se mostra nem tão baixa – assegurando o caráter repressivo-pedagógico próprio da indenização por danos morais – e nem tão elevada a ponto de caracterizar um enriquecimento sem causa. O valor deverá ser corrigido monetariamente pelo IGP-M, a partir da decisão, e aplicados juros moratórios a partir do pedido administrativo dirigido à Administração Pública.

O Estado do RS ainda foi condenado ao pagamento das custas processuais e dos honorários dos Advogados do autor, fixado em 20% do valor da condenação.

O Desembargador Romeu Marques Ribeiro Filho e a Desembargadora Isabel Dias de Almeida acompanharam as conclusões do voto do relator.

(*) As informações são do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul.


Slow Food ? Slow Life ? – por omar de la roca / são paulo

In every colour there’s the light.

In every stone sleeps a crystal.

Remember the Shaman, when he used to say:

“Man is the dream of the dolphin” .

Existe luz em cada cor.

Em cada pedra existe um cristal adormecido.

Lembrem-se das palavras do Shaman que dizia :

“ O homem é o sonho do golfinho” .

Li a poesia acima ontem em um CD. Só a poesia já valeu. E ai pensei, pobre golfinho, só nos conhece de passagem ao brincar conosco nas praias distantes. Se pudesse nos conhecer melhor,certamente mudaria de idéia. Hoje em dia estamos tão acostumados com as facilidades, que passaram a fazer parte de nosso corpo . Alguém ainda se lembra de nossa vida sem o celular ? Tudo bem. É uma invenção recente. E do telefone fixo. Alguém ainda se dá conta da importância que foi o seu surgimento nos idos de … , bom deixa pra lá. Acho que estamos nos esquecendo de valorizar as pequenas coisas do dia a dia. Hoje é tudo cada vez mais rápido . São os Blue Rays,Androids, Facebooks, I-Pads e Pods , Terabites e Gingabites ( como diz a mãe de uma amiga). Nada contra tudo isso.É o caminho da evolução mesmo.Mas não podemos nos esquecer do básico. Hoje em dia cometemos gentilezas. Isso mesmo, num movimento reverso de valores distorcidos as gentilezas são cometidas. Não queria falar de novo sobre o metro de SP,mas lá vai. Já reparou que as pessoas que estão atrás da outras,querem sair ( ou entrar )no vagão antes de quem esta na frente? Cada um só quer saber de si. Poucos cedem o lugar.E alguns só porque viram a briga na televisão. É um tal de pisar nos pés, empurrar, passar a perna e por ai vai. Li que há ordem no caos. Então não podemos chamar isto que acontece de caos. Hoje vim me preparando no ônibus. Coloquei o Canon e vim, com o sol nos olhos, relaxando. Mas por mais preparados que estejamos, relaxados, as situações quase sempre nos tiram do sério.Nos fazem balançar e nos juntar a turba ( que palavrão! ).  Acabamos por ceder e entrar no remoinho. Fazendo o que todo o mundo faz.Mas tudo bem.É o caminho da evolução.Recebi um e mail sobre Slow Food.Acho que ainda não é para nós.O que queremos é a ultramegahiperblastersupersonicspeed food. And life too( e vida também ).Trabalho ao lado do “ponto” dos médicos sem fronteiras. E todos os dias me abordam,Tem um minuto ? E acabo parando e explicando que trabalho no edifício ao lado e que já ouvi a proposta deles semanas atrás  ( mentira,nunca parei). Ontem, após remar por entre eles, vi um rapaz que vinha com uma câmera fotográfica na mão.Uma Canon de 14 Megapixels. Num relance, ao chegar mais perto, apontou-a para mim, que ensaiei uma sida pela lateral esquerda, e só vi o flash me cegando. Olhei para ele sem entender, e ele já apontava de novo .O flash era de mão e demorou para carregar.Consegui passar sem que um segundo projétil de luz me atingisse.E só ouvi os comentário atrás de mim : O que é isso ? Alguém pensando que eu era uma celebridade.Tudo bem que eu parecia mais um mafioso italiano, com um terno azul noite, uma camisa listrada azul noite escura sem estrelas e uma gravata também listrada de azul meia luz.  ( Desculpe me Yeats mas não resisti a colocar aqui idéias de sua poesia  He wished for the cloths of heavens – algo como – Ele deseja os tecidos  dos céus  que incluo abaixo,com perdão pela tradução,que foge um pouco a idéia original ). Lembrei me do rapaz atingido pela lâmpada fluorescente,bem perto daqui.Deve ter sentido alguma coisa parecida.Segui até o metro sem olhar para trás. Não ia parar e discutir com ele e exigir que deletasse a foto. Agarrá-lo pelo colarinho ( perdão ele estava de camiseta ) e perguntar o por que ? Nem pensar. Dar maior atenção a ele ? Mais do que ele merece? Lembrei me do golfinho saltando .Não seria da natureza e ingenuidade dele  agradar aos homens ? E se chegar bem próximo,para que o acariciemos ? Quem ganha mais com aquele contato,nós ou eles? Só podemos mesmo ser  o sonho deles. O mais certo seria dizer, o pesadelo deles. Alguém que se aproxima querendo brincar, mas que com a outra mão é capaz de agredir, esfolar, matar. Apenas para servir ao seu propósito. Seja ele qual for. Acho que preciso fazer mais dias de abraço grátis aqui no escritório.Quem sabe a idéia de propaga e valorizemos mais o contato humano como forma de prazer não obrigatóriamente orgástico. Mas sim ainda bastante satisfatório nos breves segundos que dura.

He wishes for the cloths of heavens

Had I the heavens’ embroidered cloths,
Enwrought with golden and silver light,
The blue and the dim and the dark cloths
Of night and light and the half-light,
I would spread the cloths under your feet:
But I, being poor, have only my dreams;
I have spread my dreams under your feet;
Tread softly because you tread on my dreams.

Ele deseja os tecidos dos céus

Se eu tivesse os tecidos bordados dos céus,
Entremeados com luz dourada e  prateada,
O azul dos tecidos suaves e escuros
Da noite, e da luz e da meia-luz,
Eu espalharia os tecidos aos teus pés:
Mas eu, sendo pobre, tenho somente os meus sonhos;
E espalhei os meus sonhos aos teus pés;
Pisa com cuidado,pois pisas em meus sonhos.

JAIRO PEREIRA: “DA GUSTO VIVER COMO UNO SELVAGEM POETA DESNUDO POR ESTA TERRA BRASILIS” / quedas do iguaçu.pr

Desfiar o cordão dos signos, reflexo de sua indignação, aliado a talento e força de investimento no estético, isso é o que faz Douglas Diegues. Arremeter, o poeta, sem piedade (esse sentimento pífio) contra os fantasmas de suas noites indormidas. A poesia como instrumento de aceleração do processo de discórdia com a época e a vida que a época impõe.

De todos os ímpetos, o mais sublime é o poético. Um estar no mundo das coisas :coisa: sujeito a tudo. Um objeto no objetário-vida. Uma coisa no coisário. Sujeito e objeto da mesma relação. Viver e apreender é mesmo com o agente poético. Senhor de si e de seu ofício. Claro que para haver resultado e boa poesia, é de se ter linguagem. Linguagens, em estado de ossos, esperma, suor, espinhos, esporos espalhados pelo chão. Desse quase-nada, soprado de ventos intrafluxos, é que a poesia se constrói. Viver e aprender, viver e ensinar. Explorar os sistemas de se conduzir, criar, amar, num mundo doido que se recusa ao pensamento/conhecimento, e mais ainda, se recusa à experiência da poesia. No hay de haver poesia sem imaginacion i ato. Explorar os símbolos brutos, repentinos, da verve do artista insurreto. O poeta Douglas Diegues sabe como ninguém o que é andar desnudo por essa imensa geografia da terra brasilis. São trinta sonetos pérfido-encantatórios, a começar com a ciudade morena Campo Grande, num Mato Grosso do Sul de divérsicas associações: inteligência e degredo, indiferença e paixão poética, beleza femilúnica e idiotia político-culturale.

falsa virgem ciudade morena

vas a aprender ahora com quanto esperma se faz um bom

poema

Aproveitar bem as falhas do sistema, um norte a seguir, como reza a sentença do bardo blasfemo em sua quixotesca e solitária luta, numa postura de quem não deve nada e cobra pouco. Cobra só um mínimo espaço pra poesia. Um mínimo espaço para o homem e sua liberdade. É de se cobrar e cobra o bardo alucinado, um lugar no antilugar (os poetas sempre quiseram isso) do aquáriovida. Pôr um pouco de esperma, bosta e algodão-doce no status quo do capital especulativo. Adicionar mais significante e significado nas sentenças que os sonetos transgridem. Dá gusto de ver os golpes pela língua fítria, a espada penetrante na carne da mediocridade oficialesca.

resiste, mano, em la región más desejada

confia en el fogo de la palabra

escribe com tu berga um bom poema

 

Antropológica, antropocênica e visceral a poesia de Dá gusto andar desnudo por estas selvas – Sonetos Salvajes. Construída em empírico terreno, a força das palavras transcende os domínios que o poeta possa ter da língua, seja o português do Brasil ou o Portunhol propriamente. É voz de autor, acelerada, reverberante, plena de intenções transgressoras.

donde mora lo perigo y la loucura

no basta llegar allá – entre los primeros

cuidado com los golpes rasteros

 

A poesia contemporânea, com raríssimas exceções, navega na releitura, conformação lingüística e desapego à vida. Este talvez, o seu maior erro. Douglas ousa, em ser originalíssimo. Bibidor e blasfemo. Sua lira de escárnio e tentações indominadas, aflora tensa e mal-humorada. O poeta não se trai, no que é, e expõe (como mercadoria na feira das intenções) sua indignação existencial. Esses ditos, tempestuosos sobre nossa imensa geografia de conformação i covardia, são fogos cuspidos do céu.

corro el risco de ser diferente

antecipo la invenção del futuro hoje

olvido tudo lo que ouvi sobre la palabra

 

O olhar do poeta filtra a realidade, mas filtra com outra qualidade. Filtra e suja, filtra e mistura. Filtra e desafina o coro dos contentes. Põe bruma no céu azul. Põe sal e esperma na paisagem, com os sujos da alma antropomística de selvagem inspirado. Uno raivoso cão errando pelos chacos das linguagens. Porque não escrever sonetos-sonetos, sonetos corretos, poesia de razão e fineza!? Por que não se faz a vida do poema com uma vida outra do poeta. Vida que nem ele mesmo conhece. Em Douglas Diegues a vida do poema e a vida do poeta são as mesmas, e o verbo vem furioso (selvagem) e nos assalta com as razões inexplicáveis de sua des-razão.

em las brumas de este film real como tu olho

bocê se cree gran cosa mas no passa de um piolho

A revolução da poesia se dá por ação e golpes baixos. O prazer da ofensa tem grande valor. A revolução da poesia ocorre na consciência do poeta. Anti-solipsista, quer se dar a conhecer a todos, ganha a rua, e conquista um leitor aqui outro lá.

Da leitura destes sonetos thurvos e mal-educados, rancorosos até, & de ira-santa, brota uma lição grandiosa, como flor no esterco dos vacuns: poesia é de dizer com sua própria boca, ancha de impurezas do pensar e sentir. De nada nos servem os belos discursos, isentos de vida. Uma flor na lapela da miséria espelha muito mais esses tempos bicudos. Uma flor-matriz pra muitos cantos desesperados, como são os deste livro.

Holístico o entendimento do poeta, concentra numa mônada, extensões de espaço e pensar, como demonstra excerto do soneto 16, pg. 23.:

em los jardins de la mudanza

aprende com la simplicidad del vento

sin que se le pueda notar el movimento

el universo danza

 

A lógica do sistema e a lógica transdeliriológica do poeta, em embate cósmico: dois sistemas contrários, dialéticos, de propulsão da arte e da poesia. Dois comportamentos diametralmente opostos. O poeta não compartilha dos delírios coletivos, mas sim do seu grande e autoideológico transdelírio, que não é só verbal, mas imagético, comportamental & de insurgência no social:

de nada me serve o conforto da lógica aristotélica – penso

lo que digo – corro el risco quando estou em paz comigo

duermo legal até em colchón de vidrio

 

 

Poesia, não é mais espelho da alma romântica. Em nosso tempo é catana, apta aos grandes embates. Política, resistente, imprecativa, transgressora, revolucinária de linguagem. Douglas Diegues sabe disso, e impõe o gesto bruto.

Como um chinês amigo que nos brinda com uma orquídea, Douglas Diegues na sua loucura de criação, nos joga estes Sonetos Salvajes, cuspidos de afetosa. Mostra que a poesia é suja, insubserviente, malvivida, atentatória aos costumes e às tradições do belo pelo belo. Ganha a lira contemporânea, em muitas medidas, ganham os leitores devotados da poesia, os mesmos quinhentos e poucos que erram por aí no inutiliartismo das relações. Para os poetas, fica outra lição mais que singela, selvagem até, como os graxains enfadados de Ponta Porã, non atirar antes de vier la caça.

com esa mescla de bosta e algodon doce este soneto ahora

finda para que estes dias banais no fiquem

mais banales ainda.

 

 

OPOSIÇÃO no Brasil: “O DELÍRIO DELES É UM DESBUNDE” – por jussara seixas / são paulo

Eles estão malucos, doidos, alucinados. Estou falando da oposição, de abestalhados, de gente sem noção. O delírio deles é um desbunde. Eles estão revoltados desde que o Brasil foi escolhido para sediar a Copa 2014 e as Olimpíadas 2016. Tinha abestalhado torcendo para o Brasil não ser escolhido, torcendo para qualquer outro país, EUA, Espanha, menos o Brasil. A ira deles tem fundo político: o prestigio ainda maior que a Copa e as Olimpíadas atribuirão ao ex-presidente Lula, à presidenta Dilma, ao governo do PT. Agora, além de torcer para que tudo dê errado, eles querem que o governo Dilma, o governo brasileiro, renuncie a sediar a Copa no Brasil e entregue a Copa para outro país – são palavras de um senador do PSDB. A que ponto chega o desespero, a loucura, a insanidade da oposição e de seus seguidores abestalhados. A importância da Copa e das Olimpíadas estendem-se muito além do eventual prestígio de nossos presidentes Lula e Dilma: atrairão a atenção do mundo para o Brasil e as coisas brasileiras, gerarão milhões de empregos diretos e indiretos. As reformas dos estádios, as melhoria nos aeroportos, a criação de infra-estruturas em todos os estados que terão jogos da Copa, isso tudo está arrasando com a oposição. Isso sem contar os milhares de turistas estrangeiros que vão lotar os hotéis do Brasil, os restaurantes, as praias, as lojas, e deixarão aqui bilhões de dólares. É para deixar os abestalhados da oposição malucos, a ponto de um senador falar tamanha besteira. A torcida deles é para que tudo dê errado, para que tudo atrase, para que seja um fiasco. Tem mais: eles vão torcer contra o Brasil nos jogos, para que a presidenta Dilma e o ex-presidente Lula não tenham a chance de prestigiar e homenagear os nossos jogadores. Essa gente sem noção, abestalhada, tem a cara de pau de dizer que são brasileiros, que amam o Brasil. São traidores da nação. O que é motivo de orgulho para milhões de brasileiros, para essa gentinha sem noção é dinheiro jogado fora, é um desperdício inútil. Dizem isso justamente porque tudo vai dar certo e o prestígio da presidenta Dilma, de Lula e do Brasil serão imensos. E a Copa de 2014 ocorre em ano de eleição para presidente – será o sepultamento da oposição raivosa, virulenta e sem noção, de novo!

PÁSCOA – por emanuel medeiros vieira / salvador

Em memória dos meus pais.

Como observou Mauro Santayana, o Cristianismo é uma ideia que sai dos limites dos dogmas estabelecidos e ultrapassa o limite das igrejas que o adotam.

Ele está enraizado no coração dos homens.

Um dia, um repórter falou ao cineasta Federico Fellini (1920-1993), sobre o seu filme “Satiricon”:

“Sua obra é pré-cristã, pagã, mas nela percebe-se a presença do Cristianismo.”

E ele respondeu de bate-pronto:   “Tenho dois mil  anos  de Cristianismo.”

Quando digo que ele está “enraizado” no coração humano, não estou afirmando que todos os seres nele acreditam em suas crenças, mas que ele permanece no nosso inconsciente e no nosso imaginário, além de nossas convicções.

A Encarnação em Cristo, para muitos pensadores, é a assunção da grandeza do homem enquanto homem.

Ele sobrevive, porque é o sumo da consciência humana, o compromisso da vida consigo mesma.

O jovem Cristo, na interpretação de muitos humanistas, foi um dos muitos judeus daquele tempo que,  inquietos com a situação política de seu povo, procuraram uma saída para a liberdade.

A Palestina estava sob o domínio do Império Romano e era tempo de Tibério, representado ali por Pilatos.

Os homens têm necessidade de transcendência – somos pós e voltaremos ao pó –, e necessitam  de algo que ultrapasse as misérias do cotidiano.

Alienação? Não creio. Mas sim, a busca de inserção numa vida mais plena, generosa, menos individualista, que respeite o próximo, e que tenha sede de Justiça.

A Ele se atribui origem divina.

“Era necessária a reafirmação da antiga aliança, com a Encarnação, a renovação da promessa mediante um homem de carne e osso, enviado do Absoluto para pregar o amor – ou seja, a solidariedade essencial entre os homens como pressuposto de sua salvação.”

Cristo era um homem, como lembra Santayana, capaz de amar, de se irritar, como no episódio dos mercadores do templo.

Segundo o articulista, muitas igrejas tentam reduzir a condição humana de Cristo, ao exaltar a ideia de que Ele é o Unigênito de Deus.

Mas, na visão de alguns teólogos, Ele é tão maior e mais necessário quando se reconhece a sua condição humana.

Não, não se está reduzindo a sua condição de Absoluto, mas buscando que se aproxime ainda mais do coração humano.

Como alguém salientou, Ele é tanto mais o filho de Deus quanto é irmão e amigo de todos os homens.

“O irmão e amigo a que recorremos nos rincões de nossa alma, onde se recolhe o sofrimento,  porque n’Ele – que é parte de nós mesmos – podemos confessar as humilhações  sofridas, o nosso desespero, nossa desesperança do futuro, e contar com o seu consolo e perdão.”

Sim: consolo e perdão.

E em quantas situações da vida, não precisamos de consolo?

E em quantas, não pedimos para ser perdoados?

“Aquele que não poupou o próprio Filho, mas o entregou por todos nós, como não vos dará também com Ele todas as coisas?” (Rm, 8/32).

Sim, a Igreja cometeu erros desde Constantino.

Mas, hoje, quando celebramos a Páscoa (Ressurreição), não preciso falar sobre isso.

E como salientou o jornalista citado, neste momento também não quero lembrar que dirigentes de outras confissões religiosas que se dizem  cristãs explorem impiedosamente a credulidade pública, arrecadando bilhões  e construindo vastos impérios econômicos.

É Páscoa.

Repito: é Páscoa.

Que o sentimento de Ressurreição permanecesse em nossos corações: era a minha aspiração que eu desejava.

(Um anseio que vai do menino ao homem sessentão. E que seguirá comigo.)

Não tenho ilusões: os tempos são ásperos, de exploração, de matança, do império do tráfico,  um mundo no qual o homem vale pelo número do seu cartão de crédito.

Quer dizer: vale pelo que tem e não pelo que é.

Tempo de desagregação de um valor maior (a família).

Mas poderemos ser maiores que isso.

Nós podemos contar com Cristo em qualquer capelinha de estrada, em todos os corações que sofrem.

(Dedico este texto – além de Alfredo e Nenê, meus pais – a todos os amigos, ex-amigos, aos que padecem de enfermidades físicas e mentais, aos que aqui permanecem e àqueles que já partiram: não estão mais onde estamos, mas estarão sempre onde estivermos).

(Salvador, Semana da Páscoa – abril de 2011)

ENTÃO… – de woody allen / eua

“Em  minha próxima vida quero vivê-la de trás pra frente.

Começar morto para despachar logo esse assunto.

Depois, acordar num lar de idosos e ir-me sentindo melhor a cada dia que passa.

Ser expulso porque estou demasiado saudável, ir receber a aposentadoria e começar a trabalhar, recebendo logo um relógio de ouro no primeiro dia.

Trabalhar por 40 anos, cada vez mais desenvolto e saudável,  até ser jovem o suficiente para entrar na faculdade, embebedar-me diariamente e ser bastante promíscuo; e depois estar pronto para o secundário e para o primário, antes de virar criança e só brincar, sem responsabilidades.

Aí, viro um bebê inocente até nascer.

Por fim, passo 9 meses flutuando num spa de luxo com aquecimento central, serviço de quarto à disposição e espaço maior dia a dia, e depois –  desapareço num orgasmo.”

ÉTICA EM EDUCAÇÃO – por mônica caetano / curitiba


O trabalho no campo da ética é de singular importância para a esfera educacional. Em seu desenvolvimento, certamente a comunidade escolar, como um todo, absorverá os resultados de tal intervenção podendo com isso beneficiar-se individualmente e coletivamente das reflexões que alçarem gerar durante os trabalhos. Todavia, há que se ressaltar que, a intenção em promover um trabalho de base ética é um desafio e poderá alcançar resultados a médio e longo prazos, o que requer, permanente avaliação e acompanhamento e, com esforço coletivo dos envolvidos, permanecer com implementações e exercício contínuo de tais reflexões a fim de alcançar as ações éticas tão necessárias ao desenvolvimento estrutural do ser humano.

A importância do trabalho nessa esfera, para os processos de ensino e de aprendizagem está, dentre outras, em possibilitar a todos os sujeitos implicados no processo ,desenvolverem um coletivo que oportuniza considerar cada sujeito como parte deste e que respeita a subjetividade dos mesmos, disseminando o exercício real de respeito por si e pelo outro, tendo a possibilidade de significar o respeito por si e o respeito pelos outros, considerando o que é comum e o que é individual, possibilitando assim a auto regulagem e o domínio próprio, por todos os envolvidos, ou seja, alunos,professores e demais membros da comunidade escolar.

Considero a questão da ética como princípio implícito em toda e qualquer ação educacional, pois é condição primária para que se possa estabelecer relações entre sujeitos de ação. Sendo assim, todo dia e em todas as formas de trabalho pedagógico há que se ter, por base interna, a postura ética para consigo e para com o outro, afim de que se possa fazer conhecer a essência ética como princípio de reflexão e ação.

Há que se fazer primeiramente, a apreensão e significação interna de sua dimensão, para então, através do exercício cotidiano, devido sua incorporação interna como parte do todo, refletir através dela já integrada e assim, promover a real experiência ética nas ações subjetivadas.

Só então, tendo internalizado tal conhecimento e apropriando-se dele como seu, cada sujeito terá a real possibilidade de realizar o seu processo contínuo de ensino e de aprendizagem, ratificando seu DIREITO DE APRENDER.

 

Nada há além da Arte e do belo – por tonicato miranda / curitiba


 

Chega um momento na vida que nada mais importa. Não faz mais sentido conquistar o amor das pessoas. Muito menos conquistar territórios que jamais nos pertencerão mesmo, a Terra no tempo será dos vulcões e do Sol. Nada faz sentido além da Arte durante nossa permanência planetária. Mas alguns perguntariam, o que vem a ser exatamente Arte? Onde ela se apresenta em sua plenitude? Qual Arte importa construir ou buscar ao nos dedicarmos a alguma forma de representação da estética? Não tenho, tu não terás, ele ou ela não terá, nem todos os plurais terão respostas para tal indagação. Mas é certo de que cada um buscará alcançar alguma forma de Arte, mesmo sendo no empréstimo do olhar, na palavra pronunciada, ou no torcer de narizes.

A Política o que é se não a forma como os homens tentam impor seus conceitos próprios e suas formulações sobre a maneira como deva se dar a organização social dos povos, dos agrupamentos humanos, do gentio. Nos tempos atuais, em especial em países onde as classes populares e médias ainda não atingiram grau cultural medianamente aceitável, o povo ainda elege para se ocupar da Política indivíduos que apenas querem se locupletar das benesses ofertadas pelo poder. Poder este cujos cargos e remunerações os próprios políticos definiram para si. Por isto mesmo a Política foi diminuída ao longo do tempo pelas relações exclusivas do poder pelo poder, não mais pelas ideias e por sua intenção transformadora do coletivo e do indivíduo.

Mas se a Política não é o caminho, o que dizer da Filosofia? Ora, a Filosofia é a forma como o indivíduo se coloca no mundo e no sistema de organização social, refletindo sobre sua participação no seu interior. Ou seja, é a individualidade adaptada à formatação gestada pela política praticada pelos coletivos de todos agrupamentos. Portanto, não há Filosofia sem vinculação a um momento histórico. Embora possa se abster dos fatos históricos isoladamente, não pode prescindir do tempo no qual está inserida. Assim, a Filosofia estará sempre prisioneira da atualidade na qual se reflete, ainda que possa atravessar seus conceitos em tempos passados. Ela sempre será presente e passado, muito pouco a reflexão em direção ao futuro.

Então a História poderia ser a grande motivação humana? Não. Definitivamente, não. A História como a grande tábua das marcas do tempo, contendo a cronologia humana no planeta, prima irmã da Geografia e de outras ciências correlatas, estas capazes de explicar a História do passado da Terra, pouco pode explicar sobre nosso avanço em direção ao futuro. Nada se repete, assim como o tempo não se repete. O homem avança inexoravelmente ao desconhecido. A História, com seu foco para o retrovisor dos fatos, nem mesmo o presente consegue aprisionar. Isto porque passadas algumas décadas, logo parece faltar-lhe algum parafuso na engrenagem e na memória, principiando ela mesma a duvidar do que a alimenta. Assim, a História passa após algum tempo a ser a ciência da dúvida, ou se contenta com uma das versões mais fantasiosa.

Mas então, se não é a Política, nem a Filosofia, nem a História ou a Geografia, o que poderia impulsionar a Humanidade? A Ciência? Não, também não é ela aquela capaz de agrupar os sentimentos dos humanos, transformando-os em raptores ou pitonisas do futuro. Não, a Ciência ainda que cumpra papel de destaque na busca do conhecimento sobre o desconhecido, estaca-se quando visa a aplicabilidade da descoberta, dando ao descobrimento função prática imediata. A única vantagem que leva sobre a Religião é que se apresenta sempre como curiosa, com desconfiança permanente sobre aquilo ainda não revelado. Enquanto a Religião, formadora de dogmas e de conceitos não comprovados, coloca todos numa unidade coletiva emburrecedora, sem questionamentos, totalmente anuladora das virtudes para qual fomos gerados.

Mas depois de tudo isto o que nos sobra? Ora, diria com toda sonoridade das três ou quatro letras onde ela se abriga na maioria das línguas planetária: somente existe a Arte. A Arte é a única entre todas as formulações humanas que tende a perpetuar todos pensamentos e virtudes dos seres. Não fora ela, não haveriam os próprios mitos. Ou alguém duvida que foi graças a ela que as figuras míticas de todas as Religiões se propagaram em todos os cantos da Terra? Desde Buda a Jesus; desde o Vaticano até os templos Hindus no Vietnam, na Índia, no Japão. Pela força das obras de Miguel Ângelo, de Da Vinci, pela grandiosidade das esculturas dos elefantes deuses em Bangkoc; no gigantismo presente nas dezenas de cristos espalhados em muitas cidades mundiais; ou ainda, na força da obra de Dante Alighieri. A Arte sempre emprestou seus virtuoses e seu virtuosismo às causas da Religião. E jamais disto se arrependeu.

A Arte sempre foi a tentativa humana da busca da comparação com o criador. Mesmo nele não acreditando. Mesmo nada tendo para por no lugar de Deus. Mesmo duvidando da própria existência dele. Apesar de todas estas desconfianças, o artista sempre buscou criar imagem assemelhada com sua pretensa virtude. Sempre experimentou o poder de criar. Não é à toa que muitos mais homens há e houve na produção da Arte do que mulheres. Isto porque elas podem, e muitas já experimentaram criar um ser no seu próprio ventre. Assim, ao longo da História é pequena a contribuição da mulher na produção das Obras de Arte, em especial nas Artes Plásticas. Mas existem algumas de alta gramatura na lavra do ouro produzido.

A Arte é de fato a mola propulsora a embalar o desejo de permanência dos seres sobre a pele do planeta. Quando todas as outras motivações já foram experimentadas e não mais sobra entusiasmo para qualquer outra tarefa, eis que aparece a Arte para ser a grande incentivadora dos permanecidos. Está claro que também faz uso da palavra Arte um monte do lixo produzido por cabeças vazias, por pessoas desprovidas de habilidade, de técnica e de talento. E eles, os obtusos, são capazes de gestar experiências formais e não formais, muitas delas consumidas em grande escala na sociedade consumista dos tempos hodiernos.

Mas como toda produção humana, o lixo não sobrevive ao tempo. Este imenso lixo não chega aos museus, não resiste a duas gerações, sendo logo descartado, sobram as sobras dos instrumentos ou bases para a produção da arte besta, da arte menor, da arte um destarte. Assim ocorre com a música pobre, de rápido consumo popular; assim acontece com a literatura produzida na forma de folhetim, transformada a produção de tempos em tempos em papel reciclável no rumo do papelão; ou mesmo nas aquarelas amarelecidas pelo tempo, passando à condição de água em processo de envelhecimento.

A Arte da qual falo é aquela imorredoura enquanto durar a vida planetária e o homem nela. Ela é e sempre será a grande motivação humana. Falo da arte buscada nos museus; nos compêndios das bibliotecas; nas edições especiais das grandes músicas trazidas de tempos em tempos aos nossos ouvidos pelos grandes veículos editoriais; ou presente nos acervos especiais disponibilizados aos nossos sentidos de quando em quando por um grande produtor.

Mas se esta é uma Arte especialíssima, o que a move? Diria que a grande Arte é aquela que busca o belo. Sim, mas o que é o belo em sua concepção plena? O seu belo não é o belo de outro, nem será do seu vizinho, nem da diarista do seu imóvel, nem tampouco do gerente da sua conta bancária; ou do seu filho; do seu pai; e de quem mais quiser individualizar. É verdade. O belo é o intangível. Mas o belo é também o que medianamente fascina a maioria. Quem de pé diante das meninas de Renoir, no MASP, em São Paulo, não se encanta ou não irá ser encantado? Pode ser o mais underground dos sujeitos. Pode ser o mais roqueiro dos indivíduos, ou mesmo cantor de música sertaneja, vai se emocionar. Vai perceber pairando por ali, naquelas luzes e nos vestidos diáfanos, um quê de encantamento impossível de não levá-lo a contrair sua pele, abrir seus poros.

A Arte dita maior é capaz disto. Quem ouvindo Garota de Ipanema, Carinhoso, Samba de Verão, tocadas com flauta doce, não irá se emocionar? Ou quem ouvindo Bach, ou as Bachianas de Vila Lobos, não irá se aperceber de estar diante de uma Arte que transcende? Todas capazes de elevar o espírito. Será não entenderá a luta do artista em busca da sua própria divindade? Assim é a Arte. Assim espera-se seja ela: sublimando o belo. Não há e jamais haverá algo adiante do belo. O belo é assim como o alvo ao qual nosso dardo fura o tempo em busca da ancoragem para nele se cravar. Mas a cada aproximação percebemos faltam-nos mais espaços a percorrer. O alvo parece viajar na mesma velocidade da nossa ânsia em furar o imaginário muro onde ele está. Assim é também a constante insatisfação do artista com a sua própria arte, onde mais um retoque é sempre possível, menos uma palavra ou menos uma pincelada pode aproximá-lo do belo.

Não há saída para a Humanidade. Temos de continuar a buscar o belo. Pelo menos alguns devem continuar nesta corrida, infelizmente apenas a poucos com reta de chegada. Muitos certamente se verterão à Política, à Filosofia, à História, às Ciências e mesmo a arte pela arte. Mas aqueles capazes de se entregar ao belo, à busca da perfeição, depurando textos; pincelando telas; esculpindo um osso, uma madeira ou uma pedra; ou regravando vezes seguidas uma música; repaginando a letra de uma canção; poderá certamente beber da água da fonte do oásis, encontrar uma cacimba no meio do cerrado, ou voar qual Ícaro e Dédalo sem que o Sol queime suas asas. O belo deve ser a meta da Arte e do artista. Aquele que o procurar estará sempre acima de si mesmo, sem cair nas tentações de Santo Antonio ou nas tentações do capitalismo humano. Brincar de ser Deus muitos tentam, mas levar adiante a tarefa de com ele jogar uma partida inteira de damas, estes são poucos. E Deus sempre premia seus opositores. Que o digam os museus e a eternidade dos nossos olhares e ouvidos.

 

COLECIONADOR – por jorge lescano / são paulo

 

Para Carminha Favero Gongora

Às vezes, esquecendo sua origem tcharrua e seu aspecto de contrabandista turco, assume o ar de quem tem o direito de entrar numa loja de antigüidades e perguntar o preço de um (auto?) retrato anônimo do século XIX, ou de um estojo para escrita japonês laqueado, e ouvir impassível o valor e balançar a cabeça aprobativamente e passar ao exame de outro objeto sem que isso provoque o sorriso do vendedor.

No mundo de reflexos que são estes locais, o homem balança a cabeça. Aprova, talvez, o gosto do senhor de estranho sotaque – nessas oportunidades veste seu norueguês básico, casaco de veludo marrom e bigode fin de siècle –, que com dedos finos manuseia um álbum de litografias antes de cumprimentar discretamente e sair em silêncio.

Às vezes finge olhar algo na vitrina para observar o lojista. Trata-se de um connaiseur, deve estar pensando na língua dos antiquários, e a satisfação de tratar com tais indivíduos compensará um pouco a magreza dos lucros provenientes dos compradores de sua mercadoria.

A prodigiosa memória permite-lhe que, ao chegar a casa, faça o inventário detalhado de tudo o que viu, lançando na coluna do crédito o total das compras não efetuadas. Agrada-lhe este tipo de poupança e a recomenda aos seus amigos.

Não poderia dizer se seria mais feliz possuindo os objetos. Apropria-se de suas texturas, volumes, proporções, cores, brilhos, e este prazer terá toda vez que torne a visitar a loja. E se as peças tiverem sido vendidas, outras, imprevisíveis, ocuparão sua atenção.

Não é raro que saia para tais excursões estimulado pela curiosidade do que irá encontrar. Um códice asteca? Uma fíbula de prata? Uma teorba? A sentença de morte de uma figura histórica?

Uns juntam objetos, ele possui o uso dos objetos. Entre outras preciosidades, seu acervo contém: um entardecer na Praça Venceslau, em Praga; Solveig na voz de Elly Ameling; a cor e a forma e o aroma da flor de manacá; figuras eróticas da cerâmica mochica; os arabescos de um manuscrito súfi; o rosto de Leonardo da Vinci recriado pela umidade num muro branco; o sabor áspero do caqui verde; um sonho de certo mestre taoísta; o olhar provocante de uma duquesa granadina.

Às vezes lembra um personagem de Daumier. A gravura antecipara a curvatura de sua espinha e a atmosfera – não há termo mais apropriado – de sua personalidade, que aos jovens sugere “coisa de museu”. A seu modo, ele também é uma reprodução ou um esboço. Sente-se então algo a ser esquecido entre o riso mudo de uma capa de revista e comida sem sal e a pele do pêssego e o silêncio entre dois movimentos de um concerto.

 

 

DESCONHECIDOS

 

 

Os senhores Fulano e Sicrano tinham-se desconhecido acidentalmente: um não existia para o outro.

Aquele dia era, para o senhor Fulano, um dia exatamente igual a outro. Como todos os dias, pegou seu boné abandonado em cima de um móvel e saiu, corretamente vestido.

O senhor Sicrano, corretamente vestido, entrou no carro. Acendeu um cigarro. Pôs o motor em marcha e se preparou para voltar a sua casa pelo caminho de sempre.

O senhor Fulano passeava diariamente pelas mesmas ruas. Conhecia cada calçada ao ponto de saber onde havia uma laje solta ou de cor diferente. Costumava dizer que conhecia o bairro melhor que as palmas de suas mãos. Não se veja nisto qualquer singularidade de caráter. O senhor Fulano era um homem igual a outros milhares, como eles, desconhecia as palmas de suas mãos.

O senhor Sicrano era capaz de descrever todos os buracos do asfalto, as esquinas e os faróis que existiam no percurso de sua loja até sua casa.

Foi um segundo, talvez menos.

Algumas testemunhas disseram que o motorista ia distraído. Outras, pelo contrário, garantiam que o distraído fora o pedestre. Vozes anônimas afirmam que o senhor Beltrano, a quem eu, Lescano, não conheço, tirou o chapéu respeitosamente e disse: descanse em paz.

 

 

 

Brasil, Estados Unidos e a agenda comercial necessária – por carlos a. cavalcanti / são paulo

A participação dos produtos básicos saltou de 6% em 2001 para 31% em 2010.

Brasil e EUA vivem um paradoxo: consolidaram relações políticas em patamar elevado, mas permitiram que seu fluxo comercial se deteriorasse. Diante desse cenário, que fazer?

No campo político, a relação evoluiu rapidamente. Na última década, foram realizadas diversas cúpulas presidenciais e visitas de funcionários de primeiro escalão; e criadas mais de duas dezenas de diálogos bilaterais. Além disso, os governos prestigiaram-se: Tom Shannon veio representar os EUA em Brasília; e Antonio Patriota representou o Brasil em Washington. Apesar das naturais fricções, a relação política demonstra-se sólida, como atestará a vinda do presidente Obama ao país.

Já no campo comercial, a qualidade da relação deteriorou-se, sobretudo da perspectiva brasileira. O pior déficit do Brasil é com os EUA, embora o quinto melhor superávit dos EUA seja conosco. Em 2010, as exportações americanas atingiram mais de US$ 27 bilhões – o maior valor registrado na série histórica bilateral. Já as exportações brasileiras, de cerca de US$ 19 bilhões, mantém-se em nível pré-2004. Além disso, a pauta exportadora do Brasil para os EUA se reprimarizou: a participação dos produtos básicos saltou de 6% em 2001 para 31% em 2010.

No passado, os dois países buscaram soluções distintas para aprofundar sua relação comercial, todas sem grande sucesso.

Do lado americano, foram propostos grandes projetos para o continente, seja na forma de uma rede de acordos de livre comércio, seja por meio da criação da Área de Livre Comércio das Américas (Alca). Ambos foram rejeitados pelo Brasil, pois, corretamente, enxergamos neles a consolidação da assimetria de poder vis-à-vis os EUA, além de ameaça à nossa indústria, que ainda digeria os efeitos da abertura unilateral e das crises financeiras dos anos 1990.

Já do lado brasileiro, propôs-se a multilateralização da relação comercial por meio do tratamento dos principais temas no âmbito da Rodada Doha da Organização Mundial do Comércio (OMC). Em paralelo, contudo, Brasil e EUA criaram suas próprias redes de acordos de livre comércio com os demais países do continente – sem, no entanto, conseguirem isolar um ao outro. Desde então, os dois países estabeleceram agenda de baixa intensidade centrada na facilitação de comércio.

Agora, estamos diante de duas únicas opções: planejar o futuro ou lamentar o passado. Se optarem por enfrentar os desafios da relação bilateral, Brasil e EUA deverão iniciar negociações comerciais em dois trilhos, com barganhas cruzadas entre eles.

O primeiro é o trilho multilateral. Nele, devem liderar a conclusão da Rodada Doha. Aos EUA cabem tanto aceitar redução ambiciosa de seus subsídios agrícolas e reformas nas regras antidumping, concessões só possíveis na OMC; quanto diminuir seu apetite por acordos setoriais na área industrial. Além disso, o país deve, junto com o Brasil, buscar a redução das elevadas tarifas agrícolas de europeus e asiáticos.

Ambos deverão, ainda, impulsionar negociação para ampla liberalização do comércio de bens ambientais, com ênfase na abertura de mercado tanto de equipamentos para geração de energia elétrica a partir de fontes renováveis ou de baixa intensidade de emissão de CO2 (eólica, solar, hidrelétrica, nuclear, geotérmica e biomassa); quanto de biocombustíveis, como etanol. Esse é o único caminho à disposição da administração Obama para recolocar os EUA no centro da negociação sobre mudança do clima – e, ao mesmo tempo, criar maior coerência entre os compromissos no âmbito da OMC e da Convenção das Nações Unidas sobre Mudança do Clima.

O segundo é o trilho bilateral. Nele, devem relançar-se à negociação de acordo de livre comércio no formato 4+1 Mercosul-EUA. Por meio dele, o Brasil poderá oferecer maior acesso ao seu mercado industrial (e compensar os EUA pela diminuição da ambição por setoriais na Rodada Doha) sem temer abertura para importações da China. Poderá assegurar, também, acesso preferencial ao mercado americano para seus produtos industriais, além de reduzir tarifas, ampliar quotas e eliminar barreiras sanitárias e fitossanitárias na área agrícola. Por fim, o acordo deve refletir novo formato, incorporando compromissos em acesso a mercados (bens, serviços e investimentos), regras (propriedade intelectual, concorrência, barreiras técnicas e medidas sanitárias e fitossanitárias) e novos temas (clima, energia e infraestrutura).

Quando o então ministro Celso Amorim propôs o 4+1 como alternativa à paralisação da negociação da Alca, não se previa a crise de 2008-2009 e a China não era ainda essa potência comercial. Como se percebe, o cenário econômico mundial mudou de forma radical.

Ao Brasil e aos EUA essa estratégia pode interessar, porque reúne virtudes ao criar, simultaneamente, solução para ampliar a relação comercial bilateral e alternativa para lidar com a concorrência chinesa. Tarifas altas, subsídios e defesa comercial não são instrumentos perenes para lidar com a China. O único caminho é a cooperação multilateral para pressionar pelo fim da manipulação cambial chinesa aliada ao aprofundamento da relação comercial bilateral.

Aos EUA, o modelo interessa porque o Brasil é peça-chave no esforço de transformação da economia norte-americana, tanto no que diz respeito a sua reorientação exportadora, quanto à adaptação da matriz energética e do parque produtivo para cenário de baixo carbono.

Ao Brasil, o modelo também interessa porque os EUA são, entre as grandes economias, a única que apresenta alto grau de complementariedade com a brasileira. Para nós, a solução para a questão chinesa requer reformas domésticas e aumento da produtividade – que, no nível internacional, exige maior integração com as economias norte-americana e continental.

Para além do valor político da próxima cúpula presidencial, seria fundamental que, como resultado da visita, os dois governos relançassem as bases da agenda comercial comum. Não a possível, mas a necessária.

Carlos A. Cavalcanti é vice-presidente do Conselho Superior de Comércio Exterior e diretor do departamento de Infraestrutura da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).

itamaraty.

JAVIER HERAUD: a poesia e a vida por um sonho. [1] – por manoel de andrade/ curitiba




 

“La poesía es

un relánpago maravilloso,

una lluvia de palabras silenciosas,

un bosque de latidos y esperanza,

el canto de los pueblos oprimidos,

el nuevo canto de los pueblos liberados”.

J.H.

1. Os poetas revolucionários.

Que sublime herança, ter vivido num tempo semeado de esperanças, de ideais que prometiam a redenção dos oprimidos e a solidariedade entre os povos do mundo!

Vivíamos, na América Latina, durante um período em que as contradições entre o sonho libertário e a realidade opressiva geraram os grandes impasses da nossa história. Nas décadas de 60/70 as utopias anunciavam, pelas trincheiras de luta e pelos versos dos poetas, uma pátria de homens livres, uma aldeia global onde em cada coração palpitaria o amor, a liberdade e a justiça. Livros, revistas, cartazes, poemas panfletados, recitais e debates compartilhados, encontros clandestinos, reuniões secretas, diálogos luminosos… quantos nomes, quantos abraços, chegadas e despedidas, quantas cartas e quantas vozes ecoam ainda em minhas lembranças de poeta e viandante.

Contudo, neste trecho de minhas memórias, não contarei dos tantos poetas que estreitei em meus braços. Evoco aqui apenas a imagem dos caídos, daqueles que ficaram na saudade do seu povo e, como os poetas não morrem, por certo, continuarão vivos nos versos que escreveram, ou cantando em outras possíveis dimensões da vida. Alguns, como Otto René Castillo, — martirizado até a morte no suplício mais cruel — caíram no campo de batalha e tiveram seus cantos libertários escritos na história da pátria agradecida. Outros foram sepultados nos arquivos do silêncio oficial, mas um dia terão seus nomes ressuscitados pelo tempo, num tempo muito além deste tempo cruel em que a poesia já não palpita no coração dos homens. Seus poemas não puderam mudar o mundo, mas anunciaram um amanhecer. Seus versos deram nomes aos tiranos e convocaram os homens para o bom combate.

E por isso volto a falar de ti, Ariel Santibañez, meu irmão chileno no sonho e na poesia e são para ti essa memória e essa saudade. Ficou de ti a lembrança do nosso primeiro encontro numa manhã ensolarada de Arica. Da carta fraterna que te trazia de Santiago. De tua porta e teu sorriso se abrindo ao te falar do nosso querido Arimatéia. Atrás desses quarenta anos ainda ecoam as palavras e os versos que acompanharam nossos poucos dias e as cartas trocadas da Bolívia. E depois…, depois o teu tempo clandestino, tua visita a Cuba, tua volta a uma pátria que seria banhada em sangue, a tua militância e teu trágico silêncio. E agora, que teu nome ressurge depois da imensa noite dos terrores, agora que teu carrasco é levado ao patíbulo dos culpados, só agora venho escrever teu nome nas memórias tardias dos meus passos, relendo teus poemas, folheando teu talento de editor nas páginas de Tebaida, lembrando da tua imagem lúcida e fraterna, imaginando a extensão do teu martírio nos porões assassinos de Villa Grimaldi e sentindo-te na perene saudade de minhas lágrimas.

Quanto a ti, Javier, no tempo em que cheguei, tu já não estavas. Falaram-me de ti, não só pela candura dos teus versos, mas porque foram em busca do teu rastro sobre as águas, “entre pássaros e árvores” e sobre as folhas do outono. Eram três estudantes de Arequipa e durante algumas noites eles estiveram na “Rosa de los ventos”, naquela pracinha tão íntima chamada “Las Nazarenas”, na quadra posterior à Catedral de Cusco. Eu trabalhava ali, no número 199, naquele Café romântico que se abria ao entardecer e onde a poesia, a música e a história recebiam os caminhantes de tantas pátrias. Uma noite eles me contaram a história do teu sonho, das balas que cruzaram teu destino e das águas que levaram o teu sangue para a imensidão do mar. Na noite seguinte eu voltei a perguntar por ti e no terceiro dia eles me trouxeram a primeira edição de El Rio. Naquelas páginas eu bebi os teus primeiros versos e em Lima tu nasceste em minha poesia.

2. O poeta de Miraflores.

Eu conheci Miraflores, o bairro onde nasceu e viveu o poeta Javier Heraud. Como eram lindas suas ruas, praças e parques naquela primavera de 1969, e muitas vezes misturei meus passos com os elegantes transeuntes da Avenida Larco. No número 656 moravam Francisco e Mario Rojas, meus amigos costarriquenses, e lá nos reuníamos toda semana, com seus colegas de arquitetura da Universidade de São Marcos. Também era ali, nas mesas dos bares, que eu trocava idéias com tantos jovens intelectuais latinoamericanos. Tínhamos a mesma faixa de idade e os mesmos sonhos libertários. Lembro-me, sobretudo, do equatoriano Simón Pachano, saudoso amigo desde Cusco, hoje respeitado sociólogo, escritor fecundo, professor da FLACSO e da Universidade de Salamanca. Miraflores era um encantamento.

Quantas vezes vi o sol despedir-se atrás das águas do Pacífico, naqueles crepúsculos deslumbrantes que iluminavam as praças e as calçadas no “Malecón de Miraflores”. Havia um mágico suspiro naquelas ruínas do passado pré-incaico. Eu frequentava suas livrarias, galerias de arte e respirava aquele romantismo no esnobe vozerio dos bares e — com exceção da “Zona Rosa”, na Cidade do México, também daqueles anos — não creio que tenha conhecido, nos meus caminhos pela América, uma região urbana tão atraente, embora socialmente tão exclusiva. Árvores frondosamente grandes, jardins tão bem cuidados, as pétalas multicores desenhando-se nos canteiros, o aroma das flores e os botões desabrochando. – “En Europa no hay nada más bello que Miraflores”, escreve Javier de Paris ao seu pai. — Cafés literários, estrangeiros exóticos, latinoamericanos do sul, franceses e estadunidenses, as melodias dedilhadas no charango e a voz telúrica das zampoñas, o desenho policrômico dos ponchos indígenas rivalizando com as mais variadas grifes europeias. Crianças graciosas, peruanas lindas, uma pequena aldeia de seduções no coração da orgulhosa Lima, marcada em parte por sua legítima beleza, histórica e cultural e em parte por um desfile de aparências que somente a vaidade e o desperdício proporcionam.

Foi nessa passarela de encantos que o poeta passou a infância e a juventude, filho de uma família de classe média, que marcou sua vida e sua poesia com um imenso e reconhecido carinho. Começa a escrever aos quinze anos e em 1960, aos dezoito, publica sua primeira obra: “El Rio”. Nesse mesmo ano, com seu segundo livro “El viaje” participa do concurso “El Joven Poeta del Peru”, dividindo o primeiro prêmio com aquele que seria o grande poeta e revolucionário César Calvo. Em 1963, seu livro Estación Reunida, recebe o primeiro prêmio de poesia nos Jogos Florais da Universidade de San Marcos, chamando a atenção da comissão julgadora pela beleza dos seus versos, apresentados com o pseudônimo de O Lenhador. Mas naqueles dias o poeta já estava morto.

Os vinte e um anos da vida de Javier Heraud Pérez é parte da história da literatura política da América Latina nas décadas de 60-70, e que ainda está por ser escrita. Nessa memória, a poesia rebelde ocupa uma mágica galeria de mártires e sobreviventes, lembrando dezenas de poetas que empenharam suas vidas, seus sonhos e o encanto de suas metáforas para cantar a mística revolucionária pela lírica dimensão da poesia.

Javier Heraud foi a poética expressão do espanto ao testemunhar sua esperança e sua angústia numa sociedade cruel. O Peru era um país marcado pela mais descarada opressão e o desprezo por um povo indígena com o mais belo passado de glória do continente americano e que desde a conquista galga um longo calvário em seu destino.

Nascido em Lima, em 19 de janeiro de 1942, conheceu na juventude uma pátria convulsionada pelo domínio estrangeiro sobre as comunidades quéchuas dos Andes Centrais, pelas mais perversas práticas de servidão no trabalho agrícola, e por uma infindável injustiça, cuja impunidade precipitava a nação num perigoso abismo social. Começava a década de 60 e, pelo país inteiro os trabalhadores, há anos sugados pelo trabalho das minas e do campo, faziam suas primeiras marchas, sangrados pela repressão. Os camponeses, literalmente, para não morrer de fome, preferiam cair lutando para retomar as terras que lhes foram usurpadas. Nas grandes fazendas de açúcar, os trabalhadores estavam na vanguarda dessa luta. As grandes empresas norteamericanas ditavam suas ordens e o governo peruano as cumpria com o dedo no gatilho e lotando as prisões.

Os primeiros contatos com a vida acadêmica em San Marcos trouxeram a Heraud novas concepções sociais e políticas e houve um dia, um momento, em que ele começou a trocar os encantos de Miraflores pelas solitárias trilhas andinas de seu país, e as paisagens humanas que encontrou encheram-lhe a alma de assombro e amargura:

(…)”E lembrei de minha pátria triste

meu povo amordaçado

suas crianças tristes, suas ruas

despovoadas de alegria.

Lembrei, pensei, entrevi suas

praças vazias, sua fome,

sua miséria em cada porta.

Todos recordamos o mesmo

triste Peru, dissemos, ainda é tempo

de recuperar a primavera,

de semear de novo os campos, (…)

Triste Peru, aguarda,

nascerão de novos rios,

novas primaveras serão

devastadas por novos outonos,

e em cada face brilhará

uma alegria transbordante

e no povo, com sua força,

reunido e santo ” [2]

3. O engajamento político, as viagens pelo mundo e a Cuba.

Em 1961, vários fatos irão marcar sua vida política. Filia-se ao Movimento Social Progressista (MSP), de tendência social democrata, integra uma ampla manifestação de repúdio à visita de Richard Nixon ao Peru e participa de um confronto entre simpatizantes da Revolução Cubana e exilados anti-castristas. Ainda em 1961 é nomeado professor de Literatura em importante colégio de Lima e, em julho daquele ano, a convite do Fórum Mundial da Juventude, viaja à União Soviética. Em Moscou visita a tumba de Lênin e escreve os poemas “Plaza Roja 1961” e “En La Plaza Roja”. Viaja por alguns países da Ásia e depois para a França, onde conhece o túmulo do poeta peruano Cesar Vallejo, dedicando-lhe o poema “En Montrouge”. Na capital francesa encontra-se com vários artistas e intelectuais peruanos, entre eles o jovem escritor Mario Vargas Llosa. E antes de deixar Paris, foi conhecer o povoado de Illers onde vivera Marcel Proust, a quem admirava e a quem dedicou, na época, um poema. Depois de cogitar ficar em Paris para estudar cinema, resolve voltar ao Peru e passa, em outubro, pela Espanha:

(…) Esta é Madrid,

este é o meu coração

sangrando,

este é o nosso caminho,

e seguirei gritando a

verdade dos

bosques apagados,

A verdade das rosas

caídas,

a verdade de Espanha

e suas histórias.[3]

Em princípios de 1962 renuncia ao MSP com uma carta, onde expressa:

(…) “É uma posição falsa este chamado “socialismo humanista” que condiciona toda a marcha do Movimento e o leva a uma práxis equivocada. Eu não creio que seja suficiente chamar-se revolucionário para sê-lo…” Logo depois dirá: “De agora em diante, rumarei pela rota definitiva onde brilha esplendorosa a aurora da humanidade”.[4]

Em março recebe uma bolsa para estudar cinema em Cuba e parte, com escala de cinco dias em Arica, onde encontra militantes do Partido Comunista Chileno e Salvador Allende, embarcando num avião da Cubana de Aviación e, junto com outros bolsistas, chega a Havana em 4 de abril. Dias depois, com outros companheiros, tem um encontro com Fidel Castro:

(…)“Vi a Fidel de piedra movediza,

escuché su voz de furia incontenible

hacia los enemigos.” (…)

Percorre as cidades cubanas e conhece Santa Clara, a legendária cidade onde o Che Guevara definiu a vitória da Revolução. Já se encontravam na ilha os peruanos Guillermo Lobatón e Fernández Gasco, que iriam liderar dois importantes grupos guerrilheiros em 1965, na região central do Peru. Encontrava-se também em Havana um grupo de 300 peruanos, operários e camponeses. Eram os quadros dissidentes do APRA (Aliança Popular Revolucionária Americana), integrantes do APRA Rebelde, comandada por Luiz de La Puente Uceda. Lá chegaram outros militantes da esquerda peruana e entre eles Héctor Béjar. Atraídos pelo recente sucesso da Revolução Socialista, ali estavam para preparar-se militarmente, trazer ao Peru a experiência guerrilheira cubana e a esperança de mais uma pátria socialista no Continente. O poeta integra o grupo de 40 bolsistas que por três semanas percorrem em Sierra Maestra os lugares por onde transitaram os heróis da Revolução Cubana e, num rápido processo de transformação todos optam por preparar-se militarmente, lutar pela justiça e redenção social do Peru. Integrado ao grupo dos 40 bolsistas, Javier , em novembro volta ao Peru para dar apoio armado a Hugo Blanco, que à frente das massas camponeses do Valle de La Convención, lutava pela implantação da Reforma Agrária na província de Cusco.

4. A opção pela luta armada

Ser jovem, naqueles anos, significava fazer uma opção. O mundo na década de 60 passava por grandes transformações e novos paradigmas comandavam o comportamento da juventude. No campo ideológico tínhamos que fazer uma escolha: engajar-se na luta a favor dos oprimidos e contra a repressão e o imperialismo ou permanecer na contramão da história, defendendo os interesses inconfessáveis do poder ou, pior ainda, manter-se inconsciente da sua própria inconsciência, um espectador alienado ao que estava acontecendo no seu país, na América Latina e no mundo.

Caminhando pelo continente naqueles anos, convivi com intelectuais de várias vertentes de esquerda e me contagiei com a paixão revolucionária que caldeava a história recrutando o coração da juventude. A leitura e a discussão dos importantes pensadores de esquerda disseminavam-se na cultura estudantil de todas as grandes universidades. O marxismo, com seu caráter científico e analítico da sociedade, sua mística ideológica, sua dimensão moral do “homem novo”, seu legítimo romantismo semeado pela aventura da Sierra Maestra e a saga de Che Guevara, transformou-se numa mágica convocação, numa cartilha de sonhos que, iluminada pela imagem da justiça social e da solidariedade com os pobres e oprimidos, unia, num gesto plural e despojado, intelectuais, estudantes e trabalhadores. Javier Heraud foi um exemplo eloquente dessa opção. Consciente de que somente a insurreição armada poderia banir a dominação oligárquica e o indisfarçável colonialismo que ainda predominava no Peru, escolheu colocar sua vida na balança do destino, embora sabendo que poderia encontrar a morte na travessia do seu sonho. Renunciando a uma grandeza literária que já se anunciava nas letras peruanas como um provável sucessor do grande Cesar Vallejo, não vacilou em despedir-se de si mesmo e assumir, com o codinome de Rodrigo Machado, a sublime missão de defender os oprimidos.

No início de 1963, o grupo, chefiado por Héctor Béjar, deixa Havana e, em vista do bloqueio continental e o controle imperial contra Cuba, seguem para Praga e, através de Paris, chegam ao Rio de Janeiro para atravessar clandestinamente o Brasil. Em 19 de janeiro, o poeta-guerrilheiro celebra seus 21 anos, na passagem por São Paulo rumo à Bolívia. Armados e guiados por esquerdistas bolivianos, os 40 quadros militares entram no Peru por Riberalta, tendo pela frente 300 quilômetros de selva, numa caminhada de cinco meses até Porto Maldonado, onde o grupo deveria dividir-se em duas colunas, sendo que a integrada por Heraud, seguiria para o Vale de La Convención, para unir-se às forças de Hugo Blanco.

Durante todo esse trajeto, contam os depoimentos dos que sobreviveram, que Heraud escrevia muito e que falava da sua entrega incondicional em favor dos camponeses explorados, dos expulsos de suas terras e dos anos que os esperavam nos longos caminhos da luta. Em seu poema Palavras de Guerrilheiro, ele fala do seu amor à pátria e à natureza:

Porque minha pátria é formosa

como uma espada no ar

e tão grande agora e ainda

mais bela

eu canto e a defendo

com minha vida.

II

Não me importa o que digam

os traidores

nós fechamos o passado

com grossas lágrimas de aço.

III

O céu é nosso

nosso é o pão de cada dia

temos semeado e colhido

o trigo e a terra

são nossos

e para sempre nos pertencem

o mar

as montanhas e os pássaros.[5]

Esses versos dizem de sua abnegada entrega, testemunhando que trazia na alma o estandarte veemente da justiça, quem sabe esperando um dia entregá-lo à pátria na forma poética de um epinício, celebrando em versos a vitória dos vencidos. Que maior pendão pode existir para um poeta do que cantar e lutar pelos humilhados e esquecidos? Que caminhos são mais belos que os caminhos da liberdade quando são balizados entre o sonho de um combatente e a esperança dos oprimidos?

5. A marcha na selva, a escaramuça e a travessia para a morte.

Nos primeiros dias de maio a coluna expedicionária, já em marcha pela selva oriental do território peruano, destaca seis combatentes que são enviados como batedores para avaliar a segurança da rota que levariam os outros até as zonas de conflito. Em 14 de maio, depois de vários dias por trilhas amazônicas, essa vanguarda tática, da qual fazia parte Javier Heraud, chega a Porto Maldonado, uma pequena cidade, capital do departamento de Madre de Dios, a uns 40 quilômetros da fronteira boliviana, onde ficaram os demais. Entram na cidade, e o chefe do grupo, Alaín Elías, com 24 anos, é confundido com o guerrilheiro Hugo Blanco. Ao anoitecer daquele dia, buscavam se hospedar no Hotel Chávez, quando são abordados por um grupo de policiais que os intimam a apresentar-se na delegacia local. No caminho os guerrilheiros resolvem reagir, há um enfrentamento com tiros, um sargento cai morto e os guerrilheiros se dispersam em várias direções. Alaín e Javier passam a noite escondidos na floresta, mas no dia seguinte são vistos por um camponês que os denuncia, passando a ser perseguidos por policiais e pelos fazendeiros da região, munidos com armas de caça. Fogem para o rio Madre de Dios e tentam escapar em uma canoa, contudo a polícia chega nas margens e começa a atirar. Elías atira primeiro, mas depois ambos decidem entregar-se. Neste momento aproxima-se uma lancha cheia de policiais e civis que chegam atirando. Os dois jovens pedem que não atirem e agitam uma camiseta acenando a rendição, mas os tiros continuam. Alaín é ferido e se deita. Javier de pé grita que não disparem mais, mas recebe um tiro na clavícula e volta a gritar que não atirem. Alain embora baleado agita a pequena “bandeira” numa desesperada súplica de paz e compaixão. Javier ferido se recosta e todos os tiros concentram-se no seu corpo. Os estampidos se sucederam das onze e meia à uma da tarde como um sádico tiro ao alvo. É um tempo irreal, apavorante para duas vítimas indefesas, porque marca o supremo desespero da sobrevivência. As explosões ecoavam como mágicos relâmpagos explodindo o sacrário da esperança de dois jovens sonhadores. De repente, o silêncio. Uma canoa que se mantém imóvel sobre as águas. A missão estava cumprida, a dignidade humana ultrajada, o massacre consumado por militares treinados para matar e por fazendeiros treinados pela ambição e pelo ódio. Estirado sobre o tronco flutuante, os olhos do poeta buscam ainda o azul, despedindo-se do querido céu da pátria. Quem sabe, no derradeiro alento, Javier Heraud tenha-se lembrado das palavras que alguma vez escreveu àquela que lhe embalou a infância:

“Recorda tu, recordem todos que meu carinho e meu amor crescerão sempre, que nada nem ninguém nos poderão separar, ainda que estejamos distantes, e que algum dia nos reuniremos para cantar e chorar juntos, para abraçar-nos e querer-nos mais. E que eu sempre serei o menino a quem tu tiveste nos braços ainda que haja crescido por este tempo que avança e destroça os anos, mas não as recordações.”[6]

6. Javier Heraud: a vida e a poesia por um ideal

No momento em que escrevo estes relatos, 47 anos depois de sua morte, sua obra poética, reeditada muitas vezes tanto no Peru como em Cuba, é uma das mais estudadas em seu país, tanto pelo seu significado histórico na saga guerrilheira daqueles anos, como por sua precocidade literária marcada por refinado lirismo, concisão e transparência. Muitos perguntarão: o que leva um jovem intelectual de 20 anos, privilegiado por uma invejável estruturação familiar, a alistar-se numa missão tão imprevisível para defender uma causa sem interesses pessoais e onde a morte o espreitaria a cada passo? José Ingenieros ao expressar a emoção do ideal nos fala de sua ‘força misteriosa qual uma áscua sagrada capaz de nos preparar para as grandes ações e que se a deixarmos apagar, jamais se reacenderá em nós e uma vez morta nada mais seremos que fria bazófia humana’. [7] Foi essa “força misteriosa”, esse gesto de renúncia e de coragem que fez de sua vida uma paixão constante marcada em seus versos pelo persistente tema da morte, uma presença imanente em sua poesia:

“Não desejo a vitória nem a morte,

não desejo a derrota nem a vida,

somente desejo a árvore e sua sombra,

a vida com sua morte.”[8]

Em seus poemas, o rio é, também, sempre uma ideia forte e recorrente, como uma metáfora da vida. O rio, na poesia de Heraud, é o rio da própria vida, expressa em seu longo e belíssimo poema El Rio. O poeta desnuda-se em emoção e lirismo nos seus versos, semelhante ao místico significado do rio de Sidarta, no romance de Hermann Hesse. Para o poeta peruano o rio é sua própria imagem, um corpo que caminha angustiosamente em busca do destino. É o movimento incessante por onde escorre o tempo e navega o seu espírito de poeta, fluindo às vezes em desatada emoção e envolvendo a natureza em todo o seu entorno. Mas é também e, paradoxalmente, em muitos versos, como uma premonição do lugar onde ocorreria sua morte.

Eu sou um rio,

vou descendo

pelas largas pedras,

vou descendo

pelas rochas duras,

pelo caminho

desenhado pelo

vento.

Há árvores em minha

volta, sombreadas

pela chuva.

Eu sou um rio,

desço sempre mais

furiosamente,

mais violentamente

eu desço

cada vez que

uma ponte me reflete

em seus arcos.

Eu sou um rio

um rio

um rio

cristalino no

amanhecer.

Às vezes sou

terno e

bondoso.

Deslizo suavemente

pelos vales férteis,

dou de beber mil vezes

ao gado, à gente dócil.

As crianças se acercam de mim

de dia

e

de noite trêmulos amantes

apoiam seus olhos nos meus

e fundem seus braços

na escura claridade

de minhas águas fantasmagóricas.(…) [9]

7. O intelectual brilhante

Aos 16 anos Javier Heraud ingressa, em primeiro lugar, no curso de Letras na Universidade Católica do Peru e começa a dar aulas de espanhol e inglês em colégios secundários. Aos 19 anos entra na Faculdade de Direito da Universidade de San Marcos em cujo ambiente oferece seus primeiros recitais e relaciona-se com os principais poetas da época: Washing¬ton Del¬gado, Cesar Calvo, Javier Sologuren, Arturo Corcuera entre outros. José Miguel Oviedo, considerado um dos maiores críticos literários peruanos, ao resenhar seu livro El viaje, em 1960, afirma sobre o poeta que ainda não completara 20 anos:

“Javier Heraud — ya no cabe duda — es la mejor esperanza que la poesia peruana tiene dentro de las novísimas generaciones”[10]

Nessa idade, já com uma grande cultura literária, estuda Marx e Lênin, penetra na historicidade do Peru, estudando suas profundas contradições sociais na década de 60 e transforma todo esse conhecimento em consciência revolucionária. Tudo, na pessoa de Javier Heraud era uma luminosa promessa. Quer como poeta, quer como revolucionário. Em Heraud projetava-se, potencialmente, a imagem do grande intelectual engajado, assim como foi José Carlos Mariátegui (1895-1930) como homem de ideias e tido como o maior e mais original pensador marxista latinoamericano. Semelhante a Mariátegui, pela precocidade e pela abrangência de sua intelectualidade, Javier Heraud era, relativamente, aos 21 anos, um intelectual completo, orgânico, poeticamente voltado para o profundo significado da vida (e da morte) e politicamente comprometido com os movimentos sociais do seu tempo. Isso para fazermos um paralelo apenas com intelectuais marxistas, como eram também, pela sua abrangência, Neruda e Vallejo.

Quando esteve em Paris, de volta da União Soviética, em julho de 1961, seu período na capital francesa foi aproveitado ao máximo. Em carta à família ele escreve:

(…) “Aqui não posso desperdiçar uma hora. Há muitas coisas, insisto, que tenho que aprender. Música, pintura, teatro, museus, ciências, livros, etc. Quero formar-me bem para depois ser útil à revolução e ao meu país.”(…) [11]

Em Paris, teve um curto período de convivência com Mario Vargas Llosa, na época com 25 anos. Em um longo depoimento em 1981 para Cecília Heraud Perez, irmã do poeta, o laureado escritor peruano relata:

(…) Nesses dias, nos víamos muito, praticamente todos os dias, conversávamos por longo tempo e muito identificados. Nasceu uma relação muito cordial, muito próxima, porque ele era uma pessoa sumamente afetuosa, sumamente simples, com uma coisa muito pura, ingênua, uma imensa candura no melhor sentido da palavra.

(…) A viagem tinha sido um fator de radicalização para ele. Creio que naqueles momentos militava no Social Progressismo e no retorno da União Soviética, já em Paris, todos vivíamos nesse momento uma radicalização. Eu também estava bastante radicalizado, sobretudo com o entusiasmo que despertou em todos nós a revolução cubana.

Javier participava absolutamente desse sentimento, dessa atividade e esse foi um dos longos temas de nossas conversações. Falamos muito de política, da impressão que lhe causara a viagem, de sua radicalização, da problemática peruana, mas também muito de literatura, porque a vocação literária de Javier era enorme, uma vocação realmente muito forte, evidente, ou seja, era algo que ele sentia à flor da pele. Ele me falou de um projeto de escrever baladas, uma série de baladas sobre temas despojados, muito simples, uma poesia narrativa, quase didática. (…) uma poesia para o povo, no melhor sentido da palavra, mas escrita com qualidade literária.

(…) Ele tinha 19 anos, era grande, alto, bastante forte, com olhos claros, ao mesmo tempo com uma transparência que imediatamente seduzia. A mim me seduziu fortemente sua personalidade e realmente tive com ele uma comunicação muito próxima, uma boa amizade, apesar de um contato rápido e passageiro.

Depois ele foi passar alguns dias em Madrid, onde recebi um cartão postal. Retornou ao Peru, e me escreveu uma carta bastante atormentada onde me fala de uma crise muito profunda, que por um lado é uma crise política, a crise em que vivia o país, num clima de repressão e bastante desesperançada politicamente (…)

(…) Quando Javier esteve em Paris eu acabava de escrever La ciudade e los perros. Eu li para ele alguns capítulos do romance, a descrição de La Victoria, de um personagem que vai à rua Huatica frequentada pelas prostitutas , lembro de ter-lhe lido sobre isso e lhe perguntado se sua geração ainda tinha aqueles costumes, como a minha, ou foi uma geração que mudou seus ritos.. “Essa descrição – disse-me – incomoda-me um pouco.”. [12]

O que certamente Javier Heraud jamais poderia imaginar é que, como um jovem poeta de 19 anos, pudesse ser entrevistado, em Paris, por um peruano que um dia seria distinguido com o Prêmio Nobel de Literatura? É que Vargas Llosa naqueles anos trabalhava na Radiodifusão-Televisão Francesa onde tinha um programa cultural emitido para toda a América Latina. No dia 1º de setembro de 1961 ele entrevistou o poeta Javier Heraud transmitindo suas opiniões e seus versos para o continente, causando profunda emoção à família e aos muitos amigos que o ouviram em Lima. Javier falou sobre a poesia peruana e citou os poetas que influenciaram sua formação nomeando Vallejo, Neruda, os espanhóis Antonio Machado, García Lorca, Miguel Hernandez e o inglês Dylan Thomas. É um diálogo rico e inteligente entre dois jovens escritores cujos passos seriam marcados por destinos radicalmente diferentes. Javier morreria como guerrilheiro dali há dois anos nas selvas peruanas e Vargas Llosa seguiria sua grande carreira de escritor, recebendo em Estocolmo, quase que exatamente 49 anos depois, o mais cobiçado prêmio literário do planeta.

Este pequeno convívio de Javier com Vargas Llosa deixou em ambos fortes sentimentos de amizade. Cerca de um ano depois do encontro em Paris, Vargas Llosa foi a Cuba e procurou por Javier. O ex-guerrilheiro peruano Alfonso Imaña, na época em Havana, relata o fato:

“Eu saí alguns dias de Havana, para cumprir um encargo e um membro do Governo cubano, das Relações Exteriores, me disse:

– Há um peruano, um amigo de vocês procurando por Javier, já faz alguns dias que deseja falar com ele. É um escritor que vem da Europa.

Cheguei a falar com ele, era Vargas Llosa, e conversando com ele no hotel Riviera perguntei-lhe por que queria ver Javier .(…)

Acontece que Javier estava em treinamento militar, longe de Havana e isso não podia ser revelado a Vargas Llosa, que não ficou satisfeito com a explicação evasiva de Alfonso. Mas alguns dias depois Javier retorna à capital e recebe o recado.

(…) Eu me lembro claramente que estava no lobby do Hotel Riviera, em Havana, onde fomos à procura de algumas pessoas, e também de Mario Vargas Llosa pois haviam dito a Javier que ele o estava procurando. Chamam-no e Vargas Llosa aparece, cumprimenta-me rapidamente e se abraça com ele, lembro-me perfeitamente. “(…)[13]

Muitos depoimentos creditam o precoce brilhantismo intelectual de Javier Heraud. Julio Dagnino, jornalista e educador peruano, que participou do mesmo grupo de Javier que voltou de Cuba para o Peru, comenta a precocidade intelectual do poeta: [14]

“De Havana para a Bolívia tínhamos viajado por rotas diferentes para alcançar nosso objetivo de entrar armados no país. Com Javier Heraud me avistei novamente em La Paz. Nos cruzamos sem falar pois viajávamos clandestinos. Quando sulcávamos o rio Chapare, em Cochabamba, nos voltamos a ver; a propósito do círculo que se formou com ele, Héctor Béjar, Abraham Lama (Junco) e eu. Nas margens do rio, entre outras coisas, discutimos sobre o realismo socialista e a presença “canônica” de Joyce e Proust. Nesse debate Javier, que era muitos anos mais jovem do que nós, se destacou. A maneira de colocar o problema e o desenvolvimento não esquemático que deu ao papel da literatura no processo da revolução socialista foi convincente no círculo que era conhecido, por suas críticas ao rumo que então vinha tomando o realismo socialista “.[15]

Nas três semanas em que o poeta percorreu Sierra Maestra, em meados de 1962, junto com o grupo de bolsistas peruanos, estava Ricardo Gadea — irmão da peruana Hilda Gadea, primeira esposa de Ernesto Che Guevara –. Conta Ricardo:

(…) “Conversei muito com Heraud. Um jovem com uma procedência diferente da média. Um verdadeiro intelectual, apesar de sua juventude. Uma promessa. Tinha a possibilidade de ir para a Europa, mas estava ali, na Sierra Maestra. Hesitava. Tinha dúvidas”. Quando de retorno a Havana, no entanto, Fidel confrontou o grupo com a escolha final – profissão ou revolução? – O poeta cruzou o Rubicão para a luta armada. Havia nascido Rodrigo Machado. Ninguém como ele expressaria o espírito com que aquele compromisso era assumido:”

“Rodrigo Machado nasceu num dia de julho, em Havana, no ano de 1962. (Sua idade não se sabe ainda, pois tem a idade da luta de seu povo.) A guerra contra o imperialismo, à que irá junto com 40 companheiros, vai dizer ou calar os anos que ele haverá de cumprir. Cairá em alguma montanha perfurado com uma bala no corpo? Seguirá na viagem da esperança ou será enterrado no leito de um rio, então completamente seco? Não, os rios da vida, da esperança, continuarão fluindo em torrentes cristalinas. Porque no rio está a vida de um homem de muitos homens, de um povo de muitos povos. E Rodrigo Machado, de pé ou deitado, seguirá cantando ao homem, com um fuzil, porque o fuzil será um dos meios para alcançar a liberdade. E uma vez livres, os homens dignos e honrados dirão ao mundo a verdade sobre o nosso povo, sobre suas lutas e a vida futura. Só então, Rodrigo Machado e com ele os 40 que partiram para a vida (de pé ou debaixo da terra) se sentirão felizes e ditosos.”[16]

8. O herói de sua geração

Em dezembro de 69 escrevi em Lima três poemas em espanhol: “El marinero y su barco”, “El caminante y su tiempo” e “Réquiem para un poeta guerrillero”,[17] este dedicado à memória de Javier Heraud:

Com trinta balaços de ódio

seus doces olhos tombaram

crime tão grande, senhores

árvores e pássaros choraram.

E caiu morto o poeta

alma imensa, iluminada

como ele caíram outros

Lord Byron caiu na Grécia

Garcia Lorca em Granada.

– Diga-me, irmão camponês…

por quem morreu Javier?

– Por seu sonho, viajante!

porque há homens que nascem

com o sangue predestinado;

Javier morreu de justo

pelo pão de cada dia,

morreu pela gente pobre

por sua fome e agonia.

Ai poeta, hermano mio

verde cigarra de espanto

em teu corpo metralhado

o sangue escorreu teu canto.

E a noite comemorou

a vitória dos generais.

O povo amanhã virá

com sua voz de mil punhais.

Me contaram de um lugar

onde um rio canta dolente

e que suas águas choram

pela morte de um valente.

Quando em janeiro de 1970 os estudantes de Arequipa publicaram uma coletânea de meus versos com o nome de Poemas de América Latina, — onde constava este poema a Heraud — um trecho, com uma referência ao poeta, colocado na contracapa do livreto, atestava, há menos de seis anos de sua morte, que seu nome já era uma legenda entre a combativa classe dos estudantes peruanos. O texto, com a característica linguagem política da época, expressava que:

“A revolução não é uma palavra. É uma tarefa heroica que deve ser iniciada sem demora, aqui e agora. Isso deverá ser compreendido por todos nós. Também deveríamos compreender que a revolução é modelo de conduta a seguir, para que depois possamos dizer com plenitude como Javier Heraud: “Soube viver e soube morrer como homem digno”. [18]

Javier foi o herói poético de sua geração. Para mim, um estrangeiro recém-chegado no país, todo aquele reconhecimento pela imagem de um poeta — morto entre tantos outros jovens combatentes naqueles anos de grandes confrontos guerrilheiros no Peru — era um fato novo no solitário mundo dos poetas, esses seres tão desgarrados do mundo. Muitos relatos da época mostram que não se dava importância à poesia e aos poetas nos meios políticos e guerrilheiros das organizações que lutavam no Peru e em outras partes do continente. Eu senti tantas vezes este desprezo pelos poetas por parte dos revolucionários, em parte justificada pelo excessivo intelectualismo com que a maioria dos poetas escreve seus poemas, sem aquela linguagem simples e sincera com que Javier escreveu seus versos. Em 1960 ele renuncia à influência surrealista, predominante no ambiente de elitismo literário que predominava nos meios universitários da Universidade de San Marcus e quando em janeiro de 1961 é convidado a participar do ciclo de eventos culturais “El Artista y La Época” no Instituto José Carlos Mariátegui, ao oferecer um recital com poemas de seu livro “El viaje”, declara :

“(…) que a poesia, longe de ser uma isolada e solitária criação do artista,”é um testemunho da grandeza e da miséria dos homens, uma voz que denuncia o horror e clama por solidariedade e por justiça;”(…) [19]

Estranhamente, nós, os poetas engajados, também éramos vistos com indiferença e até desprezo pelos próprios poetas não comprometidos com a história do seu tempo, um pouco semelhantes àqueles “poetas celestes” ironizados por Neruda em seu “Canto Geral”:

(…) “que fizeste

ante o reinado da angústia,

frente a este escuro ser humano,

a esta escarnecida compostura,

a esta cabeça submersa

no esterco, a esta essência

de ásperas vidas pisoteadas?” (…) [20]

Eu, contudo, considero todos os poetas meus irmãos nesta busca pelos tantos caminhos que levam ao encanto, à “beleza pura”, mas também à justiça e à liberdade. Em outubro de 1969, em Cochabamba, participando de um Congresso Nacional de Poetas, embora tenha sentido essa frieza por parte de alguns poetas participantes, — quem sabe “maculados” com o caráter político dos meus versos — resolvi “convocá-los”, e a todos os poetas da América, escrevendo, naqueles dias, o poema “ O sonho do semeador” :

(…) Poetas da América…

mais que nunca é preciso cantar

é preciso fazer com que as palavras sejam uvas

é preciso embriagar os homens

para que todos conheçam o sabor da vida.

É preciso alistar nosso lirismo

desertado das fileiras dessa luta.

Desertado pelos que não comprometem a estesia do seu canto…

que falam de flores

indiferentes aos campos calcinados da pátria,

que declamam seus versos de amor

cegos aos transeuntes da fome e do abandono

e é missão dos poetas cantar seus olhos de súplica

denunciar que a morte ronda seus ventres

e que eles são milhares nas barriadas

tugúrios e calhampas das vossas cidades

nas favelas do meu país

na verdade eles são milhares em todas as nacionalidades

e é preciso que eles sejam celebrados na beleza da poesia

é preciso decantar seu desencanto

e reconstruir, para eles, a esperança.

E por isso,

quando me perguntam de que vale um poeta no mundo

eu respondo com meu canto de filho proletário

com minha infância descalça e sem brinquedos

com todas as crianças do mundo que fui em meu estômago de água…

e só assim posso ouvir meu coração de povo

sentir meu canto nascer como um grito de combate

e eis porque deve nascer uma canção na América

para que possamos semear o sonho no coração dos homens

para que possamos metralhar com um punhado de palavras.(…)[21]

Javier Heraud sentiu também essa estranheza por parte de alguns militantes com quem compartilhou as fileiras guerrilheiras, já que ele sempre escrevia e falava de poesia durante suas atividades como combatente. Muitos de seus companheiros somente compreenderam a sua dimensão como poeta depois de sua morte. Alguns deles deram depoimentos nesse sentido, relembrando seu desprezo pela poesia e penitenciando-se, posteriormente, com uma sincera “mea culpa”. Muitos revolucionários latinoamericanos e brasileiros achavam muito estranho que eu tivesse que fugir do Brasil em função da minha poesia. Contudo o caso de Heraud era um fato isolado, porque pude constatar pelos caminhos que, depois de sua morte, tudo mudou e sua imagem de poeta renascia a cada dia. Renascia na voz e nas tantas canções que lhe fez a extraordinária cantora peruana Chabuca Granda. Renasceu nos monumentos que se erguem em seu nome, nas tantas edições de sua obra reunida e, projetando-se na história literária do continente. O escritor italiano Giuseppe Bellini, considerado o principal crítico e estudioso da literatura hispanoamericana na Europa, cita duas vezes Javier Heraud em sua abrangente Historia de la literatura hispanoamericana. Numa delas, ao referir-se ao grande poeta salvadorenho Roque Dalton García (1935-1975), comenta seu assassinato dentro da própria organização em que militava, afirmando que:

“se converteu em símbolo — como o peruano Heraud e o argentino Urondo — do compromisso da poesia latinoamericana ante a história” [22].

A poesia de Heraud tem aparecido em importantes antologias poéticas latinoamericanas, e já desde aqueles anos, como na “Poesia Rebelde de América” organizada pelo escritor equatoriano Miguel Donoso Pareja e lançada em 1971 na Cidade do México, [23] onde aparece publicado seu conhecido poema Yo no me rio de la muerte :[24]

Eu nunca rio

da morte.

Simplesmente

acontece que

não tenho

medo

de

morrer

entre

pássaros e árvores.

Eu não rio da morte.

Mas às vezes tenho sede

e peço um pouco de vida,

às vezes tenho sede e pergunto

diariamente e, como sempre

acontece, não encontro respostas

mas sim uma gargalhada profunda

e negra. Já disse que nunca

costumo rir da morte

mas conheço sua branca

face, sua tétrica vestimenta.

Eu não rio da morte.

Contudo, conheço sua

branca casa, conheço sua

branca vestimenta , conheço

sua umidade e seu silêncio.

É claro, a morte não

me visitou ainda,

e voces perguntarão: o que

sabes dela? Eu não sei nada.

Também isso é verdade.

Mas sei que quando ela chegar

eu a estarei esperando

eu a estarei esperando de pé

ou talvez tomando o café da manhã.

Eu a olharei brandamente

(Não irei me assustar!)

e como eu nunca ri

de seu manto, eu a acompanharei,

sozinho e solitário.

9. Nos passos da posteridade

Depois de sua morte o Exército de Liberacão Nacional do Peru (ELN), em que militava, retomou a luta, em 1965, sob o comando de Héctor Béjar, e em sua memória a Organização passou a chamar-se Guerrilha Javier Heraud. Béjar, seu companheiro de armas desde os treinamentos militares no quartel Camilo Cienfuegos, em Cuba, — um dos poucos comandantes da guerrilha peruana que sobreviveu e posteriormente laureado com o Prêmio Literário Casa de Las Américas — referindo-se anos mais tarde ao poeta, testemunhou:

(…)”Creio que Javier é um caso extraordinário em que a poesia e a revolução se entrelaçam com uma força sem precedentes na nossa história. Javier continuou a escrever até mesmo na guerrilha (…) É evidente que também sua poesia mostra um desenvolvimento que infelizmente não é muito conhecido, porque grande parte de seus poemas foram perdidos com a sua morte. Mas, acredito que ele, embora seja difícil dizer isso, e sempre é muito arriscado dizer o que se possa pensar — de alguém que morreu –, que tenha decidido ser sobretudo um combatente, um revolucionário. Essa era a sua atitude” (…)[25]

Um mês depois do seu assassinato em Puerto Maldonado, realizou-se em Lima, na Universidade Nacional de Engenharia, uma homenagem à sua memória, na qual estava presente uma das maiores expressões da literatura peruana da época: José Maria Arguedas. O autor de Rios Profundos, entre outras verdades, disse:

(…) “E agora me permitam dizer algumas palavras sobre o puríssimo poeta Javier Heraud cuja afeição ganhei honestamente.

Tendo em conta a personalidade de Javier Heraud, apenas duas possibilidades lhe foram oferecidas no Peru: a glória literária, ou o martírio. Preferiu a mais árdua, a que não oferece as recompensas a que humanamente aspiram quase todos os homens. É raro que num país como o nosso se apresentem exemplos como este.

Até o dia de hoje, os que têm a responsabilidade do governo e do destino do Peru, não permitiram um único campo de ação sequer para aqueles que anseiam a verdadeira justiça, ou seja, o caminho aberto para a igualdade econômica e social que corresponda à igualdade da natureza humana; esse caminho é o da rebelião, do assédio e o da morte. Javier o escolheu, mas não nos esqueçamos que ele foi forçado a escolher. Talvez tivesse agido de forma diferente em um país sem tanta crueldade para os despossuídos, sem a crueldade que se requer para manter as crianças escravas, “colonos” escravos e “barriadas” onde o cão sem dono e a criança abandonada comem o lixo, juntos.

Para aqueles que estão cegos pelo egoísmo e furiosos contra os que clamam por um pouco de justiça, a morte de Javier, por mais que pretendam desfigurá-la, é uma advertência suficientemente eloquente, talvez a única eficaz, para os outros egoístas de todo tipo; estudantes ou não, escritores que tratam apenas de lavrar sua “glória” e não expressam a vida com maior pureza, o caso de Heraud é também uma advertência. Acho que Javier encontrou a imortalidade verdadeira, aquela que a poesia, por si só, quem sabe não lhe teria dado. Não o esqueçamos.” (…) [26]

Quando em 1989, Cecilia Heraud Perez , irmã do poeta, editou, em Lima, seu livro Vida y muerte de Javier Heraud (Recuerdos, testimonios y documentos), revelou cartas e poemas inéditos, bem como muitos depoimentos de poetas, amigos e sobreviventes das guerrilhas. Há relatos emocionantes sobre o caráter cristalino de Javier e os sentimentos de solidariedade e a imensa compaixão que ele tinha pelos que sofriam necessidades e injustiças. Numa passagem, na página 198, o ex-guerrilheiro Manuel Cabrera conta que chegando a La Paz, a caminho do Peru, estavam ambos hospedados no hotel Ferrocarril, quando numa noite ouviram os gritos desesperados de uma mulher sendo agredida. — Vamos interverir –disse ele. Cabrera respondeu que não, já que poderiam ter problemas com a polícia. – Mas como, — respondeu ele indignado –vamos deixar que matem essa mulher? Não podemos pôr a missão em risco, respondeu Cabrera. Na manhã seguinte, viram o sangue no corredor e souberam que quem estava espancando a mulher era um agente da PIP, a Policia de Investigações. Cabrera conclui o episódio expressando: “Así era Javier de sensible”. O livro traz outros depoimentos destacando seu caráter fraterno e compassivo, mas nosso espaço não comporta tantas informações. Cecilia Heraud revelou também, entre os versos inéditos do Javier, um de seus mais belos e longos poemas: Oda a Pablo Neruda. São 20 cantos, onde ao longo de 265 versos ele evoca, com refinado lirismo, partes da temática do Canto Geral e outras obras de Neruda. Reproduzimos aqui, pelas mesmas limitações de espaço, apenas os três primeiros cantos:

I

Vieste a mim como um

rápido corcel. Me trazias

unhas duras e douradas

e uvas secas e

invisíveis.

Eras erva enredada em

teu cabelo, entrelaçada

árvore, te fizeste

ouro, alma te tornaste

em minha alma.

II

Agora és a rosa

que hoje se anuncia.

E então foste a voz

seca do carvalho

endurecido.

E novamente és

a luz e a luz

iluminada.

III

Tu eras canto

num mundo de oferendas.

Eras pão e pedra

perfurada. Eras

frescor, inumerável,

escrevendo no

coração, no

pássaro, na

água enrugada.” (…)[27]

No mês seguinte da morte do poeta, Neruda enviou esta carta à familia Heraud:

Universidade do Chile

Ilha Negra, junho de 1963

Li com grande emoção as palavras de Alejandro Romualdo sobre Javier Heraud. Também o valioso exame de Washigton Delgado, os protestos de Cesar Calvo, de Reinaldo Naranjo, de Arturo Corcuera, de Gustavo Valcárcel. Também li o comovente relato de Jorge A. Heraud, pai do poeta Javier.

Sinto que uma grande ferida foi aberta no coração do Peru e que a poesia e o sangue do jovem caído seguem resplandecentes, inesquecíveis.

Morrer aos vinte anos crivado de balas “desnudos e sem armas no meio do rio Madre de Dios, quando estava à deriva sem remos …” o jovem poeta morto ali, esmagado ali naquelas solidões pelas forças das trevas. Nossa América escura, nosso tempo escuro.

Não tive a ventura de conhecê-lo. Pelo que vocês contam, pelo que choram, pelo que recordam, sua curta vida foi um deslumbrante relâmpago de energia e de alegria.

Honra à sua memória luminosa. Guardaremos seu nome bem escrito. Bem gravado no mais alto e no mais profundo para que continue resplandecendo. Todos o verão, todos o amarão no amanhã, na hora da luz.

Pablo Neruda [28]

Além da mensagem de Neruda chegou de Havana, em Julho de 1963, uma carta do premiado poeta cubano Nicolás Guillén, dirigida ao poeta Gustavo Valcárcel, lamentando a morte de Heraud e comentando que os (…)“jóvenes cubanos que hoy lo lloran,  lo quisieron como hermano, pues fraternal era su corazón tanto como lúcida su inteligencia.”(…)

E entre os documentos inéditos, o livro de Cecília Heraud revelou também esta carta:

Nov. 62. Havana, Cuba

Querida mãe:

“Não sei quando poderás ler esta carta. Se a leres significa que algo aconteceu na Serra e que já não poderei saudar-te e abraçar-te como sempre. Se soubesses quanto te amo! Se soubesses que agora que me disponho a sair de Cuba para entrar em minha pátria e abrir uma frente guerrilheira penso mais que nunca em ti, em meu pai, em meus irmãos tão queridos!

Vou à guerra pela alegria, por minha pátria, pelo amor que tenho, por tudo enfim. Não me guardes mágoa se algo me acontecer. Eu quisera viver para agradecer o que fizeste por mim, mas não poderia viver sem servir ao meu povo e a minha pátria. Isso tu bem sabes, pois me criaste honrado e justo, amante da verdade e da justiça.

Porque sei que minha pátria mudará, sei que tu também te acharás ditosa e feliz, em companhia de meu pai amado e de meus irmãos. E que minha ausência logo será preenchida com a alegria e a esperança da pátria.

Te beija, teu filho,

Javier.” [29]

No dia 2 de maio de 2008 os restos mortais de Javier Heraud são trasladados de Puerto Maldonado para Lima. A cada ano, no dia 15 de maio, crescem as manifestações em sua homenagem por todo o Peru. Poetas declamam seus versos, conferências e palestras são proferidas por escritores, intelectuais e ex-guerrilheiros. Cantores entoam as tantas canções feitas em sua memória e novos artigos e ensaios são publicados sobre sua poesia. As organizações de esquerda relembram a bandeira que empunhou, seu heroísmo e seu martírio e o Governo peruano, através da Secretaria Nacional da Juventude, promove nacionalmente o Prêmio Juvenil de Poesia “Javier Heraud”, para jovens poetas entre 15 e 28 anos. Além dos três livros já citados, sua produção sempre foi incessante seguindo-se as obras Poemas de la tierra, Viajes Imaginários e Ensayo a dos voces (Escrito com César Calvo). Postumamente foram publicados seus Poemas de Rodrigo Machado e Otros poemas dispersos de Javier Heraud.

Quantos sonhos se aninharam em seus breves anos! Quanta beleza ansiava florescer na aldeia de sua alma! Morrer aos 21 anos quando se é poeta!!! — Temos célebres exemplos em nosso Romantismo: Álvares de Azevedo, aos 20, Casimiro de Abreu, aos 21 e Castro Alves, aos 24. — Deixar, com tão poucos anos, oito livros e quando os mais belos versos certamente ainda moravam no amanhã. Morrer infante, quando todas as flores e frutos ainda são promessas e a vida transita entre a seiva e a semente. Morrer poeta com uma lira apenas dedilhada, quando suas palavras cantavam novos hinos libertários. Morrer guerrilheiro, com uma trincheira apenas entreaberta nos seus passos, e morrer assim, abatido no primeiro embate, interrompendo uma alvorada, abortando a esperança. Mas, se a morte surge como um gesto de resistência e de renúncia, na encruzilhada dessa luta milenar entre opressores e oprimidos, o guerreiro cai para erguer-se na memória luminosa da posteridade, na saudade imperecível dos amores e nos anais da história e da pátria agradecida.

Leitor amigo, se um dia fores a Lima, visite o túmulo do poeta peruano Javier Heraud no Cemitério Los Jardines de La Paz. Ali jaz o que de mortal ficou de um coração nobre, valente e compassivo. Um ser humano que deu tudo sem nada pedir. Deu sua imensa pureza no lírico sabor de sua poesia e deu sua vida, ainda em botão, por um sonho de amor e de justiça. Pediu apenas que, sobre seus restos, a vida continuasse a florescer:

Quero que saiam dois gerânios dos meus olhos,

de minha fronte duas rosas brancas,

e de minha boca, (por onde saem minhas palavras)

um cedro forte e perene

que me dê sombra

quando arder dentro e fora,

que me dê vento

quando a chuva dispersar meus ossos.

Jogem-me água, todas as manhãs,

fresca e de um rio próximo

que eu serei o adubo

das minhas próprias plantas.[30]

Referências, notas e traduções:

[1] Esse artigo integra o texto de um livro que o autor está escrevendo sobre os anos que passou na América Latina , nas décadas de 60/70. As notas e traduções são do autor.

[2] HERAUD,.Javier. Poesías Completas, in: “Vida y muerte en la poesía de Javier Heraud” Lima, Campodónico Ediciones, 1975.

(…) “Y recordé mi triste pátria /mi pueblo amordazado /sus tristes niños, sus calles /desplobadas de alegría. /Recordé, pensé, entreví sus /plazas vacías, su hambre /su miseria en cada puerta. /Todos recordamos lo mismo /triste Peru, dijimos, aún es tiempo /de recuperar la primavera”,/ de sembrar de nuevo los campos, // Triste Peru, aguarda, /nacerán nuevos ríos, / primaveras nuevas serán / devastadas por nuevos otoños / y en cada rostro brillará /la alegría rebosante /y la fortaleza del pueblo /reunido y santo.”

[3] HERAUD, Javier. Obra citada..

(…) Esta es Madrid, /éste es mi corazón /sangrando, /éste es nuestro camino, /y seguiré gritando la /verdad de los /bosques apagados, /La verdad de las rosas /caídas,/la verdad de Espana / y sus historias.”

[4] PEREZ, Cecília Heraud. Vida y muerte de Javier Heraud. Lima, Mosca Azul Editores, 1989, p.142.

(…) “Es el planteamiento falso de este llamado “socialismo humanista” lo que esta condicionando toda la marcha del Movimiento y que lo lleva a una praxis equivocada. Yo no creo que sea suficiente llamarse revolucionario para serlo…”. Luego diría: “De ahora en adelante , me enrumbaré por la ruta definitiva donde brilla esplendorosa el alba de la humanidad.”

[5] HERAUD, Javier. Op. Cit.

Porque mi patria es hermosa / como una espada en el aire / y mas grande ahora y aún mas hermosa todavía / yo hablo y la defiendo / con mi vida. // No me importa lo que digan /los traidores, / hemos cerrado el pasado. / Con gruesas lagrimas de acero. //El cielo es nuestro, /nuestro el pan de cada día, / hemos sembrado y cosechado / el trigo y la tierra /son nuestros /y para siempre nos pertenecen / el mar /las montañas y los pajaros.

[6] Idem.

“Recuerda tú, recuerden todos que mi cariño y mi amor crecerán siempre, que nada ni nadie nos podrá separar aunque estemos lejos, y que algún día nos reuniremos para cantar y llorar juntos, para abrazarnos y querernos más. Y que yo siempre seré el niño a quien tú tuviste en brazos aunque haya crecido por este tiempo que avanza y destroza los años, pero no los recuerdos”.

[7] INGENIEROS, José. O homem medíocre. Rio de Janeiro. Tupã Editora. 9ª ed., s/d

[8] HERAUD, Javier. Op. cit., in “Vida y muerte en la poesía de Javier Heraud”

“No deseo la victoria ni la muerte, / no deseo la derrota ni la vida, /sólo deseo el árbol y su sombra,

la vida con su muerte”.

[9] .HERAUD, Javier, El Río. Colección Cuadernos del Hontanar, Lima, 1960

Yo soy un río, /voy bajando por /las piedras anchas,/ voy bajando por /las rocas duras, /por el sendero /

dibujado por el /viento./ Hay árboles a mi /alrededor sombreados /por la lluvia./Yo soy un río, /bajo cada vez más / furiosamente, /más violentamente /bajo /cada vez que /un puente me refleja / en sus arcos.// Yo soy un rio / un rio / un rio / cristalino en la /mañana. / A veces soy / tierno y / bondadoso. Me / deslizo suavemente / por los valles fértiles, / doy de beber miles de veces / al ganado, a la gente dócil. Los niños se me acercan de / día, / y / de noche trémulos amantes / apoyan sus ojos en los míos, / y hunden sus brazos / en la oscura claridad / de mis aguas fantasmales.

[10] PEREZ, Cecília Heraud. Opus cit., p.84.

[11] Idem, p. 98.

(…) “Aqui no puedo desperdiciar una hora. Hay muchas cosas, insisto, que tengo que aprender: Música, pintura, teatro, museos, ciencias, libros, etc. Quiero formarme bien para después ser útil a mi revolución y a mi país.” (…)

[12] Idem, p. 96-97.

(…) En esos días nos vimos mucho, prácticamente todos los días, conversamos largo y parejo. Se estableció una relación muy cordial, muy estrecha porque él era una persona sumamente afectuosa, sumamente sencilla, con una cosa muy pura, ingenua, tenía algo candoroso en el mejor sentido de la palabra.

(…) El viaje había sido un factor de radicalización para él. Estava en esos momentos creo, militando en el Social Progresismo y al regreso de la Unión Soviética, ya en París, todos vivíamos en esse momento una radicalización. Yo también estaba bastante redicalizado, sobre todo con el entusiasmo que había despertado en todos nosotros la revolución cubana.

Javier participaba absolutamente de esse sentimiento, de esa actividad y esse fue uno de los temas largos de conversasión. Hablamos mucho de política, de esta impresión que le había hecho el viaje, de esa radicalización suya, de la problemática peruana, pero también mucho de literatura, porque la vocación literária de Javier era enorme, una vocación realmente muy fuerte, evidente, es decir, era una cosa que estaba en él a flor de piel. Me habló de un proyeto de escribir baladas, una serie de baladas sobre temas muy sencillos, muy simples, una poesia narrativa, casi didáctica. (…) una poesia popular en el buen sentido de la palabra, acompañada de una exigencia literaria .

(…) Tenía 19 años, era grande, alto, más bien fuerte, con unos ojos claros y al mismo tiempo con una transparencia que inmediatamente seducía. A mí me sedujo muchísimo la personalidad de él y me senti realmente en una comunicación muy estrecha, en una buena amistad con él, a pesar de que fue un contacto rápido y pasajero.

Después, él se fue a Madrid por unos dias, de donde recibí una postal. Regresó al Peru y me escribió, carta bastante atormentada donde me habla de una crisis muy profunda que por una parte es una crisis política, por la crisis que vivía el país, por la atmósfera represiva, bastante desesperanzada politicamente (…)

Quando Javier estuvo en Paris, acabava de escribir La ciudad y los perros. Yo le leí a Javier capítulos de la novela, la descripción de La Victoria, de un personaje que va al jirón Huatica donde andan las prostitutas, recuerdo haberle leído eso y haberle preguntado si su generación todavía tenía esos ritos, como la mía, o era una generación que ya cambió de ritos. “Esa descripción — me dijo — me molesta um poco”.

[13] Idem.,. p. 177-178

“Yo salí unos días a La Habana por un encargo que tenía que cumplir y un miembro del Gobierno Cubano, de Relaciones Exteriores me dijo:

– Hay un peruano, un amigo de ustedes que busca a Javier, hace varios días que quiere hablar con él. Es un escritor que viene de Europa.

Llegué a hablar con él, era Vargas Llosa, y he conversado con él en el hotel Riviera preguntádole el motivo por el que queria ver Javier.(…)

(…) Yo recuerdo claramente, estoy en el hall del hotel Riviera de La Habana a donde hemos ido buscar a algunas personas y también a Mario Vargas Llosa pues le habían dicho a Javier que lo estaba buscando. Lo llaman y Vargas Llosa sale, me saluda brevemente a mí y se abraza con él, lo recuerdo perfectamente.” (…).

[14] http://elgatodescalzo.wordpress.com/2009/11/12/rosina-valcarcel-aun-es-tiempo-de-recuperar-la-primavera/

“De La Habana a Bolivia habíamos viajado por diferentes rutas para lograr nuestra finalidad de entrar armados al país. Con Javier Heraud me vi nuevamente en La Paz. “Nos cruzamos sin dirigirnos la palabra pues viajábamos clandestinos. Cuando surcábamos el río Chapare, en Cochabamba, nos volvimos a ver; a propósito de un círculo que se organizó con él, Héctor Béjar, Abraham Lama (Junco) y yo. En las orillas del río, entre otros puntos, tratamos sobre el realismo socialista y la presencia canónica de Joyce y Proust. En ese debate Javier, que era muchos años menor que nosotros, destacó. La forma de plantear el problema y el desarrollo no esquemático que le dio al papel de la literatura en el proceso de la revolución socialista fue convincente en el círculo que se caracterizaba por su posición crítica a los sesgos que entonces iba tomando el realismo socialista.” (Tradução e nota do autor)

[15] Certamente a visão crítica que Javier Heraud tinha do realismo socialista, que ainda vigorava naqueles anos, referia-se, não a legítima opção política que a arte poderia (ou deveria) ter, retratando o papel cultural e singelo das classes operária e camponesa numa sociedade socialista em construção, como propôs Máximo Gorki em 1934 — e como foi notavelmente colocada por Georg Lukács, enfatizando a importância do realismo socialista na arte e literatura e repudiando as abstrações do modernismo — mas ao papel castrador que o stalinismo vinha tomando em relação à liberdade da arte, no endeusamento pessoal do próprio Stalin, na glorificação do regime soviético, e na dependência política da arte e da literatura ao partido e ao poder.

[16] http://www.cedema.org/uploads/JosLuisRnique.doc

(…) “Conversé mucho con Heraud. Un joven de extracción distinta a la del promedio. Un verdadero intelectual a pesar de su juventud. Una promesa. Tenía posibilidad de ir a Europa pero estaba ahí, en la Sierra Maestra. Vacilaba. Tenía dudas.” Cuando, de retorno a La Habana, sin embargo, Fidel confrontó al grupo con la opción definitiva –¿profesión o revolución?— el poeta cruzó el Rubicón hacia la lucha armada. Había nacido Rodrigo Machado. Nadie como él expresaría el ánimo con que dicho compromiso se asumía:

“Rodrigo Machado nació un día del mes de julio en La Habana, el año de 1962. (Su edad no se sabe aún pues tiene la edad de la lucha de su pueblo). La guerra contra el imperialismo a la que irá conjuntamente con 40 camaradas, dirá o callará los años que él ha de cumplir. ¿Se quedará en algún monte regado con una bala en el cuerpo? ¿Seguirá de viaje a la esperanza o lo enterrarán en el lecho de algún río, entonces enteramente seco? No, pero los ríos de la vida, de la esperanza, seguirán afluyendo con torrentes cristalinos. Porque en el río está la vida de un hombre de muchos hombres, de un pueblo de muchos pueblos. Y Rodrigo Machado, de pie o acostado, seguirá cantando con un fusil al hombre, porque el fusil será uno de los medios para lograr la liberación. Y una vez liberados, los hombres dignos y honrados dirán la verdad a todo el mundo sobre nuestro pueblo, sobre sus luchas y su futura vida. Sólo entonces, Rodrigo Machado y con él los 40 que partieron hacia la vida (de pie o debajo de la tierra) se sentirán felices y dichosos.”

[17] . ANDRADE, Manoel de. Poemas para a liberdade. Escrituras, São Paulo, ed. Bilíngue, 2009, p .96-99.

Con treinta balazos de ódio / sus dulces ojos temblaron /crimen tan grande señores /árboles y pájaros lloraron. // Y cayó muerto el poeta /inmensa alma alumbrada. / Como él cayeron otros / Byron cayó en la Grecia / García Lorca en Granada. // — Díme hermano campesino…/ ¿por qué murió Javier?— ¡/Por su sueño, viajero! / porque hay hombres que nacen / con sangre predestinada. / Javier murió de justo / por el pan de cada dia / murió por la gente pobre / por su hambre y su agonía. // Ay poeta, hermano mio /verde cigarra de espanto / en tu cuerpo acribillado / la sangre escurrió tu canto. // Y la noche conmemoró // la victoria de los generales /el pueblo vendrá mañana /con su voz de mil puñales. //Me contaron que hay un sitio /donde un río canta doliente /dicen que sus aguas lloran /por la muerte de un valiente.

[18] ANDRADE, Manoel de. Poemas de América Latina. Arequipa, Centro Federado de Letras e Federación Universitária de Arequipa, 1970.

“La revolución no es una palabra. Es una tarea heroica que deve ser iniciada sin demora, aqui y ahora. Esto debiera ser comprendido por todos nosotros. También debieramos comprender que la revolución es modelo de conducta a seguir, para que después podamos decir con plenitud como Javier Heraud: “Supe vivir y supe morir como hombre digno”.

[19] PEREZ, Cecília Heraud. Op. cit., p. 121.

“(…) que la poesia, lejos de ser una aislada y solitária creación del artista, es un testimonio de la grandeza y la miséria de los hombres, una voz que denuncia el horror y clama la solidariedad e la justicia; (…)

[20] NERUDA,Pablo. Canto Geral. Trad. Paulo Mendes Campos. São Paulo: Difel, 1979, p. 180.

[21] ANDRADE, Manoel de. Poemas para a liberdade. p. 73.

[22] BELLINI,Giuseppe. Historia de la literatura hispanoamericana. Madrid, Editorial Castalia, 1986, p. 443.

“se ha convertido en símbolo — como el peruano Heraud y el argentino Urondo –del compromiso de la poesía latinoamericana frente a la historia”

[23] Donoso Pareja, na época exilado na capital mexicana, presenteou-me a excelente antologia que selecionou e prefaciou, num dos encontros que lá tivemos em meados de 1971. Apesar de Javier Heraud ainda não ser conhecido fora de seu próprio país, seus versos já partilhavam aquelas páginas com grandes poetas latinoamericanos como Neruda, Vallejo, Gelman, Guillén, Adoum, Cardenal, Benedetti, e os brasileiros Drummond, Bandeira, Vinicius, Gullar, Romano e outros.

[24] PAREJA, Miguel Donoso. Poesia Rebelde de América, Ciudad de México, Extemporáneos, 1971, p. 345.

Yo nunca me rio /de la muerte. / Simplemente / sucede que / no tengo / miedo /de /morir /entre /pájaros y arboles //Yo no me río de la muerte. /Pero a veces tengo sed /y pido un poco de vida, /a veces tengo sed y pregunto/ diariamente, y como siempre /sucede que no hallo respuestas / sino una carcajada profunda /y negra. Ya lo dije, nunca / suelo reir de la muerte, / pero sí conozco su blanco /rostro, su tétrica vestimenta. // Yo no me río de la muerte. / Sin embargo, conozco su / blanca casa, conozco su / blanca vestimenta, conozco / su humedad y su silencio. // Claro está, la muerte no //me ha visitado todavía, //y Uds. preguntarán: ¿qué // conoces? No conozco nada. // Es cierto también eso. /Empero, sé que al llegar /ella yo estaré esperando, / yo estaré esperando de pie /o tal vez desayunando. /La miraré blandamente/ (no se vaya a asustar) / y como jamás he reído / de su túnica, la acompañaré, / solitario y solitario.

[25] BÉJAR, Héctor.Rivera. Perú 1965: apuntes sobre una experiencia guerrillera. La Habana: Casa de las Américas, 1969.

(…) “Yo creo que Javier es un caso extraordinario en el que la poesía y la revolución se entrecruzan con una fuerza inédita en nuestra historia. Javier siguió escribiendo incluso en la guerrilla (…) Es evidente que también su poesía, acusa una evolución que desgraciadamente no es muy conocida porque gran número de sus poemas se perdieron con su muerte. Pero, creo que él, aunque sea difícil decir esto, y siempre es tan riesgoso decir lo que ha podido pensar –de alguien que ha muerto – había decidido ser sobre todo un combatiente, un revolucionario. Esa era su actitud (…)”

[26] PEREZ, Cecília Heraud. Op. cit., p. 130-1.

(…) Y ahora permítanme decir unas palabras sobre el purísimo poeta Javier Heraud cuyo afecto gané honestamente.

Dada la personalidad de Javier Heraud, sólo dos posibilidades se le ofrecían en el Perú: la gloria literaria o el martirio. Prefirió la más ardua, la que no ofrece recompensas a las que humanamente aspiran casi todos los hombres. Es raro que en un país como el nuestro se presenten ejemplos como éste.

Hasta el día de hoy, quienes tienen la responsabilidad del gobierno y del destino del Perú no han permitido sino un solo campo de acción para quienes anhelan la justicia verdadera, es decir, el camino abierto hacia la igualdad económica y social que a la igualdad de la naturaleza humana corresponde; ese camino es el de la rebelión, el de acoso y el de la muerte. Javier lo eligió; pero no olvidemos que lo obligaron a elegir. Quizá habría procedido de otro modo en un país sin tanta crueldad para los desposeídos, sin la crueldad que se requiere para mantener niños esclavos, “colonos” esclavos y barriadas en que el perro vagabundo y el niño sin padre comen la basura, juntos.

Para los que están ciegos de egoismo y de furor contra los que claman por un poco de justicia, la muerte de Javier, por mucho que pretendan desfigurarla, es una advertencia suficientemente elocuente, quizá la única eficaz, para los otros egoístas de todo tipo; estudiantes o no, escritores que únicamente se ocupan de lavrar “su gloria” y no de expresar la vida con la mayor pureza, el caso de Heraud es también una advertencia. Creo que Javier ha encontrado la inmortalidad verdadera que la poesía por sí sola acaso no le habría dado. No lo olvidemos.” (…)

[27] Idem., p. 125-6

I- Viniste a mí como un/ rápido corcel. Me traías/ uñas duras y doradas,/ uvas secas e/ invisibles./ Eras enredadera en/ tu pelo, te mezclaste/ árbol, te volviste/ oro, alma te tornaste/ en mi alma. // II- Ahora eres la rosa/ de hoy en el anuncio./ Luego fuiste la voz/ seca del roble/ endurecido./De nuevo eres la/ luz y la luz/ esclarecida. // III- Tú eras canto en el/ mundo ofrendado. Tu/ eras pan y piedra/ agujereado. Eras/ fresco, innumerable,/ escribiendo en el/ corazón, en el/ pájaro, en el/ agua rugosa.(…)

[28]http://www.muladarnews.com/2011/01/correspondencia-sobre-el-poeta-javier-heraud/

Uni¬ver¬si¬dad de Chile

ISLA NEGRA, Julio de 1963

He leído con gran emo¬ción las pala¬bras de Ale¬jan¬dro Romualdo sobre Javier Haraud. Tam¬bién el vale¬roso exa¬men de Washig¬ton Del¬gado, las pro¬tes¬tas de Cesar Calvo, de Reinaldo Naranjo, de Arturo Cor¬cuera, de Gus¬tavo Val¬cár¬cel. Tam¬bién leí la des¬ga¬rra¬dora rela¬ción de Jorge A. Heraud, padre del poeta Javier.

Me doy cuenta de que una gran herida ha que¬dado abierta en el cora¬zón del Perú y que la poe¬sía y la san¬gre del joven caído siguen res¬plan¬de¬cien¬tes, inolvidables.

Morir a los veinte años acri¬bi¬llado a bala¬zos “des¬nudo y sin armas en medio del río Madre de Dios, cuando iba a la deriva, sin remos…” el joven poeta muerto allí, aplas¬tado allí en aque¬llas sole¬da¬des por las fuer¬zas oscu¬ras. Nues¬tra Amé¬rica oscura, nues¬tra edad oscura.

No tuve la dicha de cono¬cerlo. Por cuando uste¬des lo cuen¬tan, lo llo¬ran, lo recuer¬dan, su corta vida fue un des¬lum-brante relám¬pago de ener¬gía y de alegría.

Honor a su memo¬ria lumi¬nosa. Guar¬da¬re¬mos su nom¬bre bien escrito. Bien gra¬bado en lo más alto y en los más pro-fundo para que siga res¬plan¬de¬ciendo. Todos lo verán, todos lo ama¬rán mañana, en la hora de la luz.

Pablo Neruda

[29] PEREZ, Cecília Heraud. Op. Cit., p. 220.

Nov 62. La Habana. Cuba./

Que¬rida madre: /No sé cuándo podrás leer esta carta. Si la lees quiere decir que algo ha suce¬dido en la Sie¬rra y que ya no podré salu¬darte y abra¬zarte como siem¬pre. ¡si supie¬ras cuánto te amo!, ¡si supie¬ras que ahora que me dis¬pongo a salir de Cuba para entrar en mi patria y ab¬rir un frente gue¬rri¬llero pienso más que nunca en ti, en mi padre, en mis her-mano tan queridos!

Voy a la gue¬rra por la ale¬gría, por mi patria, por el amor que te tengo, por todo en fin. No me guar¬des ren¬cor si algo me pasa. Yo hubiese que¬rido vivir para agra¬de¬certe lo que has hecho por mí, pero no podría vivir sin ser¬vir a mi pue¬blo y a mi patria. Eso tú bien lo sabes, y tu me criaste hon¬rado y justo, amante de la ver¬dad, de la justicia.

Por¬que sé que mi patria cam¬biará, sé que tú tam¬bién te halla¬rás dichosa y feliz, en com¬pa¬ñía de mi padre amado y de mis her¬ma¬nos. Y que mi vacío se lle¬nará pronto con la ale¬gría y la espe¬ranza de la patria.

Te besa/ Tu hijo/ Javier

[30] Idem, p. 218.

Quiero que salgan dos/ geranios de mis ojos, de/ mi frente dos rosas blancas, /y de mi boca,/ (por donde salen mis palabras)/ un cedro fuerte y peremne,/ que me dé sombra cuando/ arda por dentro y por fuera,/ que me dé viento cuando la lluvia/ desparrame mis huesos./Echadme agua, todas las/ mañanas,fresca y del rio/ cercano, que yo seré el abono de/ mis propios vegetales.

 

HOMEM SENTADO – por ronie von martins / pedro osório.rs


 

 

Engolia todas as dores. E já se acostumara. Não havia dor que não estivesse acostumado a engolir. Todas. Friamente às engolia. Às vezes mastigava-as. Lentamente. Tudo ao seu redor era lento. Denso. Tudo era denso. Densidades estratificantes que lhe cobriam, envolviam em camadas. Como uma cebola. Não comia cebolas.

Os movimentos eram raros, da cama ao assento frente a parede que não se abria em janela, mas que se fechava em parede. E mesmo assim, seus olhos paravam ali. No espaço que só o olho do homem sentado conseguia ver. Ver? Seria uma frincha? Existiria a possibilidade de o olho buscar e se esgueirar pelos interstícios invisíveis e “impossíveis” da parede?

Comia dores e bebia chimarrão. Amargo e quente. E não escuta o rádio. Mas sempre ligava o aparelho. Uma estação além das vozes chiava dialetos singulares e vetustos. E seus olhos por breves instantes pareciam brilhar.

O tempo era impreciso, já não era possível determinar se era presa de Kronos ou Aion, ou se decidira deixar o corpo para um e o resto para o outro. Mas parecia que já havia preenchido seu quinhão de real com várias toneladas de memória e delírio.

Pelo substantivo louco, era definido pela família. Nunca apareciam, mas pagavam uma funcionária para limpara o pequeno apartamento. Ela chegava lépida, faceira, pequenas e infames piadinhas nos lábios, barriga volumosa e satisfeita, espantando fantasmas e poeira com seu espanador encantado.

Ele ordenava a sua máscara que forçasse um sorriso. Cordialidade. E o que saia era uma careta engraçada que fazia a mulher sorrir e dizer mais besteiras.

A funcionária era um vento. E soprava  com força todo o silêncio e a solidão do espaço do homem, mas quando saia, a gravidade puxava-os para baixo. E ele realmente não sabia se gostava do agora ou do antes.

“O que estás vendo?” às vezes a mulher perguntava e ele respondia que via a cidade da memória. E ela ria. Aquecia mais água para a térmica, perguntava se ele não queria trocar a erva. “Uma carteira de cigarro” ele dizia, mais que pedia. “Eles disseram que você não pode fumar” e ele sorria. E ela trazia a carteira e ele incendiava o lugar. O fósforo incandescente por segundos frente aos olhos e em seguida a fumaça se esvaindo e abraçando o ar em valsa erótica. Lascívia. “Eles se amam.” Ele dizia. “Quem?” perguntava a mulher. “A fumaça e o ar.” A gargalhada era dela, o silêncio dele. “Você é esquisito mesmo, hein?” “É.”, dizia o verbo pensando na conjunção “e”. Este era o problema. A finitude das coisas e de si mesmo começavam a lhe causar estranhamentos. Gostaria de se ligar a outra oração, acrescentar eternamente. O meio das coisas. O verbo ser. A palavra “é” definia, estagnava e prendia tudo que não deveria ser nas estruturas  sedimentares do “é”. O ser.

Ria desta suposta unidade. E se esvaia em fumaça. E dissolvido em nevoa, qual vampiro, perdia-se inteiramente pelas frestas do seu corpo real e organizado.

 

À toa na vida – por martha Medeiros / porto alegre

Tudo é mais fácil quando a gente não se sente responsável por ninguém, quando levamos a vida na flauta, curtindo o momento, em total carpe diem. Uma conhecida minha é assim, passou a vida sem levar nada a sério, sem assumir coisa alguma, só reverenciando o próprio prazer. Aí teve câncer. Este seu temperamento desencanado ajudou-a a passar pela crise. Ela encarou o câncer como uma chateação, como se fosse uma dor-de-dente, não fez drama, sofreu com muito comedimento.

Por outro lado, agora curada, ela segue no oba-oba, não aprendeu nada, não amadureceu, não está dando maior valor à vida, continua naquele clima easy going. Tirou lição nenhuma.

Existem pessoas que passam batido por tudo, sem esquentar com nada. E existem pessoas extremamente sensíveis que a tudo dão atenção, que se envolvem profundamente com o que lhes acontece, seja uma doença, seja uma paixão. No fundo, elas desejariam ser menos compenetradas, mais leves, porém, quando tentam, metem os pés pelas mãos, fazem besteira. Por que? Porque é muito difícil mudar nossa própria natureza. É preciso aceitá-la e respeitá-la. E tentar ser feliz do jeito que se é.

Muitas vezes dizemos “eu queria ser mais solta” ou “eu queria ser mais maluco”, pois tudo isso sugere uma certa modernidade, ao contrário da introspecção, do conservadorismo e de outros comportamentos que se desenvolvem mais para dentro do que para fora. Moderno é liberar. Careta é reter. E é tanta pressão para sermos menos claustrofóbicos com nossa própria vida que acabamos nos confundindo e não raro inventando um personagem que nada tem a ver com a gente.

Ou se é naturalmente easy going, ou seja, alguém que se deixa levar pela vida, ou se faz parte do time dos conectados com as ansiedades, desejos e traumas. Eu sou assim, ligada na tomada. Sempre querendo encontrar uma razão pra tudo. Pessoas como eu sofrem mais. Se decepcionam mais. Por outro lado, crescemos. Evoluimos. Amadurecemos. Nada é estático em nossas vidas. Nada é à toa. Tudo ganha uma compreensão, tudo é degrau, tudo eleva.

É ótimo ser relax, mas é preciso ter vocação. Não tendo, melhor aceitar que somos estressadinhos por natureza. Mas há suas compensações.

A MORTE DE PLATÃO – por jorge lescano / são paulo


“Platão, pai dos filósofos, morreu com a idade de 81 anos em 7 de novembro, dia do aniversário do seu nascimento, na saída de um banquete do qual ele havia participado. Esse banquete, comemorativo de seu nascimento e de sua morte, foi cada ano repetido pelos primeiros discípulos de Platão até a época de Plotino e de Porfírio. Mas depois que Porfírio morreu, esses ágapes solenes foram esquecidos durante mil e duzentos anos, e foi somente em nosso tempo que o famoso Lorenzo de Médici, querendo restabelecer esse costume, designou como anfitrião Francesco Bandini que, para celebrar esse 7 de…”.

Assim começa a quarta parte da palestra do Professor Benedito Nunes reproduzida neste volume. Longe de mim a intenção de imitar Ficino e replicar o ilustre palestrante, antes, desejo reverenciá-lo. Porém (sempre há um porém, diz o ditado popular), quero registrar algumas dúvidas a fim de ocupar meu ócio.

Eis a primeira: diferentemente de Ficino, Will Durant (A história da Filosofia; Nova Cultural, 1996; pág. 68) diz:

Um de seus discípulos, enfrentando esse grande abismo chamado casamento, convidou o Mestre para a festa de suas bodas, Platão foi, rico com seus oitenta anos, e uniu-se prazerosamente aos foliões. Mas à medida que as horas passavam em meio à alegria, o velho filósofo retirou-se para um canto tranqüilo da casa e sentou-se numa cadeira para tirar uma soneca. Pela manhã, quando a festa havia terminado, os exaustos convivas foram acordá-lo. Verificaram que, durante a noite, tranquilamente, sem agitação, ele passara de um sono curto para um sono interminável.

A quem dar crédito?Se a versão de Durant é a correta (?), os banquetes realizados pelos primeiros discípulos de Platão, até o século III d.C., perdem a dramaticidade, e a reedição proposta por Lorenzo, o Magnífico, assume o tom de paródia, enquanto o jogo de reflexos sugerido pelo Prof. Nunes se assemelha a uma miragem.

A segunda dúvida: 80 ou 81 anos? Depois de 25 séculos, um ano a mais ou a menos não altera grande coisa, pode disser o leitor apressado, mas se se menciona a idade é porque se pressupõe que faz diferença, ou não? Em todo caso, o texto não é mais o mesmo.

A terceira questão diz respeito à data de nascimento. 7 de novembro, precisa Ficino. Estranha precisão! No verão da 87º Olimpíada (cinco anos antes do nascimento de Platão, aproximadamente), baseados em estudos do matemático Metão (432 a.C.), que procurava adaptar os meses lunares ao ano solar, os helênicos adotaram um novo calendário, apesar da opinião de Sólon, um dos sete sábios da Grécia (640-558 a.C.) que no dizer de Diógenes Laércio (séc. III d.C.), recomendava se contassem os dias segundo o calendário lunar. É de crer que ao tempo da morte de Platão (108º, 2 Olimpíada, aproximadamente), esta diferença tivesse sido dirimida, prevalecendo o calendário solar. (Já veremos que os gregos são lerdos na adoção de reformas)

Jota César, Imperador Romano, em cuja homenagem o calendário patrocinado por ele recebeu o nome de Juliano, ordenou, em 708 ab Urbe condita (“desde a fundação da cidade”), que a partir do ano seguinte (45 a.C.; e ele nada sabia deste a.C., como nada sabia do idus de março de 710 a.U.c. –  44 a.C.), o dia 1º de janeiro marcasse o inicio dos anos.

O monge cita Dionysius Exiguus, “que vivia em Roma e era amigo de Cassiodor” (Flávio Magno ou Magno Aurélio Cassiodoro Senador, 477 ou 490-562 ou 580; ou mais ou menos 580; Jota van den Basselaar; Introdução aos Estudos Históricos, São Paulo, EPU; EDUSP, 1974; pág. 18, 209; e outras fontes), e que, ironicamente (?), não é citado no filme A Vida de Bryant (é assim que se escreve?), estabelece, no século VI d.C., a cronologia cristã, a partir de uma provável data de nascimento do famigerado Jota Cristo. Contudo, esta mesma data é imprecisa, pois entre a.C. e d.C., falta o Ano Zero (A.C. ou A.Z.), correspondente ao nascimento do titular. Inda mais: o exíguo Dionísio se entrega à magna tarefa de situar a Era Cristã no tempo histórico, no entanto, seu próprio feito flutua no interior de um lustro (alguma data entre os anos 527-532 de sua –nossa- cronologia; 1100 anos após o nascimento de Platão, aproximadamente).

O livro de Marsilio Ficino foi publicado em 1469, A.D., ou seja: 113 anos antes de entrar em vigor o calendário gregoriano, fato este que se deu em outubro de 1582, numa noite na qual, no decorrer de algumas horas, passou-se de 4 para 15 de outubro, ou, para atualizar os dados, de 25 de outubro para 7 de novembro (datas que serão um marco no século XX). Quando Ficino diz 7 de novembro, alude a essa data no calendário Juliano (25 de outubro), que não foi abolido simultaneamente por toda a cristandade. Os russos adotaram o calendário gregoriano após a Revolução de (25) de Outubro (7 de novembro a partir de então.Não me escapa a diferença de 3 (três) dias entre aquela noite de 1582 e as datas de 1917, porém, esta a cronologia  vigente). Os gregos só admitiram este calendário entre as duas guerras mundiais (1923, A.D.).

Depois de toda esta prestidigitação numérica, como estabelecer com precisão a data de 7 de novembro de 427-346 a.C., como aniversário de nascimento e morte, respectivamente, do inventor do Amor Platônico? Contudo, se esta for confirmada, teremos que, no decorrer de 2500 anos, na mesma data, primeiro morre o Pai dos Filósofos Idealistas e, depois, a plebe ignara, tão detestada pelo autor d’A República, toma o lugar da aristocracia (ainda que russa, não importa, o que vale é o conceito).

Isto não é fundamental, desde logo. Mera coincidência (?), poderá dizer um ficcionista pouco rigoroso, não fosse a pretendida exatidão histórica de Ficino e seus asseclas, vítimas da superstição documental.

O século XX é o século da revisão, da releitura, da documentação e da informação. A fotografia, o rádio, a televisão, o cinema, o computador, são os atuais instrumentos do oráculo. A fé cega na tecnologia áudio-visual não permite ver que a democratização do (pelo) consumo, faz com que toda pessoa que tenha acesso àquela está apta para forjar qualquer “documento”. Deste modo, a precisão histórica poderia ser uma questão de oportunidade. Ou então ela não é a confluência de datas, locais, personagens e circunstâncias.

No caso de Ficino há atenuantes. Se pensarmos que a renascença entende por humanizar criar e aplicar medidas a todos os fenômenos, a cultura grega, redescoberta – inventada? – pelo renascimento italiano, não podia – nem devia – ficar imune à nova corrente do pensamento. Tudo devia se ajustar à Divina Proporção e ter uma aparência cientifica, sugere a historiografia atual. Se não existem provas, tanto pior, urge criá-las. Também é conhecida a atitude bajuladora dos poetas em relação aos seus patrocinadores, e nada podia ser mais agradável ao espírito maneirista do que esse espelhamento proposto por Lorenzo, encenado por Bandini, registrado por Ficinoi e festejado pelo professor Nunes.

A precisão deste consiste em reproduzir, ipsis verbis, o trecho correspondente do florentino. Um jeito de lavar as mãos com sabonete de luxe numa bacia de prata de Benvenuto Cellini poderíamos dizer se fôssemos dados a preciosismos. Não dizê-lo demonstra nosso extremado bom gosto e imensa modéstia. Prova, outrossim, a enorme distância que medeia entre o ismo renascentista e nosso sóbrio credo estético.

No que diz respeito às circunstâncias da morte do filósofo, devemos acreditar mais na segunda versão do que na primeira? Nada o impede, mas tampouco nada o autoriza. A troca de uma data, do motivo do banquete, não faz diferença a esta altura das olimpíadas. É como trocar a letra inicial ou esquecer o acento de um nome, quando o portador deste é conhecido: uma questão de somenos importância, em suma.

A exígua superfície do guardanapo foi preenchida, interrompendo o fluxo destas digressões pra lá de acadêmicas.

(Jota L. – jan. ’97)

Jota L., que comete o mesmo pecado que condena (a menos que seja uma armadilha), incorporou a anotação acima ao livro O Renascimento (R.J., Agir Editora, 1978; vol. Nº 3072) respeitando a paginação e o colofão, como se desejasse deixar constância de sua leitura. O fato tem algo de Trem Fantasma (brinquedo maneirista?).

Parece-me que o discurso que se inicia no último banquete de Platão, interrompido pela morte de Porfírio, recuperado por Lorenzo, reproduzido por Bandini, citado por Ficino e mencionado pelo professor Nunes na palestra comentada por Jota L. vinte anos mais tarde, ilustra um mecanismo que alguém já atribuiu ao Espírito. Nos espelhos não é a superfície do vidro a que produz o reflexo, mas uma virtude do azougue do reverso.

Penso em Jota L. a partir de sua nota: como se (me) acenasse do espelho; e há algo de inquietante em seu gesto “anônimo”. Este gesto é realizado do vazio para o vazio. Jota L. não podia ter certeza de que seu texto fosse recolhido por alguém (talvez seja esta incerteza o verdadeiro motivo do meu próprio texto. Também, talvez, algo como solidariedade com a voz solitária. Seu discurso, que tem prefácio preâmbulo prólogo prelúdio polifônico, termina num solilóquio.).

Duvido quanto à inclusão numa certa pasta vermelha (futuro “livro” xerocado). Não deveria anexá-lo a outro volume do livro em questão, em continuidade ao enxerto de Jota L., individualizando-o, como o meu volume foi individualizado pelo texto dele? E depois? Sub-repticiamente deveria abandonar o livro numa prateleira poeirenta de algum sebo crepuscular, para que outro leitor…

Embora pudesse – por que não? – citar o fato no meu “livro” (que não terá circulação comercial) e que talvez, por uma desejável e imprevisível confluência de circunstâncias, chegue às mãos desse outro leitor (ou às mãos de Jota L.), e este, apenas este…

Cada vez há menos material disponível para os arqueólogos uma vez que diariamente há novas descobertas arqueológicas. Vivemos a era da Realidade Virtual, em outras palavras: do simulacro, então, por que não contribuir para a manutenção daquela sadia atividade esportivo-cultural?

Naturalmente, não poderá ser meu exemplar o achado arqueológico. Ele já está identificado pelo meu ex-libris (e pelo texto de Jota L.).

Procurar outro volume de O Renascimento, tal a tarefa que me impõe o texto. Tarefa difícil para quem sempre alimentou sua leitura com refugos dos alfarrabistas – o que alguma vez lhe deparou o raro prazer de adquirir um livro fora de circulação há muito tempo –, porém imprescindível, e sem cuja execução todo o precedente é letra morta. (J. Ele – fev. ’97)

Missão cumprida, o volume Nº 1479 já está novamente em circulação. Fim das peripécias de um leitor de raridades bibliográficas (que fatigados e vulgares os conceitos “livro inédito”, “livro encalhado”!).*

*Esta nota não figura no livro-objeto. Encontrei o exemplar citado num sebo de São Paulo, todavia, para não interromper o fluxo de leitura proposto pelos textos, deixei-o na prateleira crepuscular de outro sebo depois de xerocado, segundo o ilustre leitor pode conferir (esta é uma versão gráfica atualizada do texto xerocado.).

Como tomei conhecimento da nota? É uma longa história que contarei em outra ocasião. (J.L.)

ORAÇÃO DOS QUE SOFREM DE MEDO – de liberato vieira da cunha / porto alegre



Da sombra incerta que nos ronda, livrai-nos, Senhor.
Do vulto que nos espreita, um brilho de aço na mão, livrai-nos, Senhor.
Do cano frio da arma, dos dedos trêmulos no gatilho, livrai-nos, Senhor.

Das trevas dessa antecipação do túmulo que é a cela acanhada e funda do seqüestro, livrai-nos, Senhor.
Do invasor que rompe as grades de nosso voluntário cárcere e nos arranca do sonho para arrojar-nos no pesadelo, livrai-nos, Senhor.

Do assaltante oculto que nos embarga o caminho de troncos e de pedras, livrai-nos, Senhor.
Do foragido errante, a quem não deram ofício nem emenda,
livrai-nos, Senhor.
Do salteador homicida, clandestino passageiro do ônibus, livrai-nos, Senhor.

Do que devia guardar-nos, mas não se guarda de si mesmo, livrai-nos, Senhor.
Do violador, escravo e cúmplice de sua torpeza, livrai-nos, Senhor.
Do transtornado pela droga, do refém de sua própria, alerta inconsciência, livrai-nos, Senhor.
Do que nos detém no semáforo, do que surge intruso no parque de estacionamento, do que emerge da escuridão da garagem, livrai-nos, Senhor.

Do que semeia ao acaso balas perdidas, livrai-nos, Senhor.
Dos celerados, dos assassinos, dos que cultuam a violência e a crueldade e o ódio, livrai-nos, Senhor.

E dai, Senhor, infância a quem a perdeu;
e pão a quem padece de fome;
e água aos sedentos;
e amor aos que jamais dele provaram;
e um lar aos enjeitados;
e esperança aos deserdados;
e fé aos que penam de dúvida;
e reparação aos injustiçados;
e um norte aos extraviados;
e alívio aos enfermos;
e consolação aos angustiados;
e lenimento aos feridos na carne;
e conforto aos atingidos na alma;

Para que o mundo seja não o Jardim do Éden que talvez não mereçamos; mas para que se converta, Senhor, no sereno abrigo de criaturas que se ousaram crer concebidas à Vossa imagem e semelhança.

Amém.

 

 

DIANTE DA TESTEMUNHA – por zuleika dos reis / são paulo


 

 

É verdade que, todos os dias, Ana fica em frente dele alguns minutos, mas, o tempo urge para o feijão no fogo, o preparo das misturas, o rearranjo dos desarranjos diários, a lavagem das sujeiras que intrépidas se renovam, a supervisão dos exercícios dos filhos, o preparo de suas mochilas, o embarque dos meninos na perua escolar, o elevador que demora, a ladeira para os passos já cansados desde a planície, o ônibus, as esperas no Banco, o pagamento das contas, as compras no supermercado, as multidões nas calçadas, o suor, os faróis sempre muito vermelhos, as buzinas sempre mais barulhentas, as palavras por dentro gastas como as solas dos sapatos, o silêncio cada vez maior diante da TV, das músicas, dos retratos, dos livros, das ideias, do futuro. O silêncio, à mesa, na sala, na cama.

É verdade que Ana jamais fica diante dele o tempo suficiente, mas nem se dá mais conta. Os minutos galopam, a noite todas as noites chega. As novelas sempre adiam para a noite seguinte a cena decisiva na qual a personagem revela ao marido que há outro homem, a cena em que o marido a expulsará de casa ou a perdoará, desde que ela abandone o outro. Depois do jantar, a louça é lavada e os utensílios guardados cada qual em seu respectivo lugar.

A água corre pelo corpo, o corpo se enxuga, veste o roupão. Planejam-se as sequências do dia seguinte. Os corpos se envolvem nos lençóis, as crianças dormem, o sono chega para todos, com os sonhos dos quais Ana jamais se lembra na manhã seguinte.

É verdade que quando Ana olha para ele, os gestos são sempre meio inconscientes, o olhar não se detém e já se lança para o corredor, a mão abre a mesma porta com a mesma chave de todos os dias, os pés repetem os mesmos passos para o sol lá fora, que também caminha com a regularidade cotidiana, assim como a lua e as estrelas. Nenhum cataclismo à vista.

É verdade que houve um tempo em que Ana olhava para ele e havia muito o que ver. Os olhos vivenciavam a transparência, as mãos se erguiam para lhe acariciarem os cabelos, a curva do queixo, a suavidade dos ombros, a sensualidade ereta dos seios. Os sorrisos brilhavam como um Sol. Nesse tempo a vida era um Novo Continente à espera dos navios de sonho que aportavam todas as noites, no eterno presente de palavras sempre renovadas, recém-emergidas do Jardim Primordial.

Ana não se lembra bem da vez primeira em que,  olhando para ele, percebeu a pequenina fenda, quase imperceptível fenda, alteração levíssima a modificar algo na forma e na expressão do olhar, culminando neste rosto de hoje. Irreversível.

 

TROPILUZ de jairo pereira / quedas do iguaçu.pr


 

(Ensaio de relação entre o cavalo e o poeta)

 

Esse cavalo continuará correndo pelos caminhos de meus caminhos suas ventas quentes a inalar o cheiro do capim verde da Fazenda Poema na saída das primaveras meu cavalo que já faz parte de mim um equus hígido de luz continuará pastando o pasto fino de minhas visões o ritmo dos poemas longos pousados nos livros inéditos as pernas longas no arremesso do bólido no espaço o bólido muscular em seu  primeiro galope acima do vento a manter o sonho vivo o sonho do sonhar a grande poesia no pasto da campina!? Eu um boi agora a sonhar a grande poesia no pasto da campina um cavalo nunca poderá correr na frente do vento um cavalo nunca poderá correr na frente do pensamento um cavalo correr quando seu pai o homem estiver morto sou pai desse potro exuberante sobre as planícies um potro pasta minhas palavras de aluguel nessas planícies que imagino vertidas de luzes espectros de pensamentos mal conduzidos é de se ficar envolto numa filosofia que não se pode solucionar expor como água na palma da mão aos pobres de espírito aos lerdos aos letargidos um cavalo é de ficar com o homem morto o homem que morre em pé e seu cavalo ao lado do seu pai o cavalo hirto e resolvido do lado do dono que vai o dono que se ausenta um cavalo correndo do outro lado da vida com seu dono sedento de tempo… não! Essa amizade não poderia terminar assim como terminam as amizades entre os homens um cavalo é de ficar sempre com seu dono aprendendo o tempo lendo nos porões da antiga Biblioteca de Alexandria com um louco um poeta e uma criança

era um homem e era um cavalo e era um louco e era uma criancinha e era uma biblioteca crescida pra fora das cavernas e era outra biblioteca edificada dentro da terra e ambos liam e reliam a história da humanidade sobre quatro patas um equus refulgia na noite fúrnica relinchos ecoados no ciberespaço relinchos no temporal relinchos de éguas no cio cavalos crescidos nos embates das idéias cavalos cavalos colagens de equuos nas páginas dos dias ensolarados do futuro projeções de um homem um poeta louco e seu cavalo nas home pages como um hacker dilacerador um hacker que destrói o tempo do mundo do sem-cavalo éguas parindo para o porvir éguas silentes de segredos antigos cavaleiros mortos espadados nos campos do Senhor silêncio de segredos antigos dos mandatários déspotas meu cavalo ergoluz refulge as verdades encobertas quando o conduzo para o sem caminho da criação meu criatório de almas signos a protonathuralização do ímpeto nefertímoro anímoro germe um poema cavalo me desafia a reconstruir o mundo do com-cavalo um poema larva na folha de couve verde clorofilado no desafio das cores recrescidas para dentro tive ímpetos de cavalgar sobre os mares cavalgar sobre chãos de águas cavalgar no espaço sideral tive ímpetos de adentrar nos Tribunais com meu cavalo ébrio de poesia tive ímpetos de freqüentar o Congresso Nacional a Assembléia dos Sábios Consagrados pelo Governo com meu cavalo de óculos lendo poemas de loucura-boa e convicta que toda loucura deve ser convicta e boa no mundo dos com-cavalos meu cavalo lendo para os ignaros legisladores a razão que se desmancha sobre as quatro patas de um loz cavalgado de ventos meu cavalo sábio na tribuna com sua verve cavalar hipocêntrica cancheira com gosto de capim e calor de ventas meu cavalo ébrio de embates no mundo dos com-palavras um cavalo meu cavalo ébrio de poesia pós-graduado em philosophia preleciona verdades

na noite assombrante que virá meu mundo por um cavalo que carregue meus poemas junto às ancas cestos invisíveis de poemas sobre as ancas do loz tropiloz triloz na veloz cavalgada do vento não é preciso te dizer que essa coisa de amor muito amor a cavalos é coisa de poeta que se descobre em um mundo sobre quatro patas meu mundo por um cavalo Dario meu mundo Birão meu mundo Ivanê por um cavalo um loz atirado no tempo quantos povoados por passar?! Estradas além estradas no deserto sobre as montanhas nos vales nos baixos pântanos meu cavalo hígido de sóis e luas transfixado pelas setas espinhos das mais diversas nathuras meu pai deveria estar comigo com seu cavalo eu e meu pai cada qual com seu cavalo atropelado de tempo caças por abater de cima dos cavalos perdizes atiradas nos campos do velho Rio Grande do Sul de onde viemos e nunca mais voltamos o pai arroja o loz branco andaluz triluz de ventos contidos redemoinhos no baixo-ventre arroja sobre os cercados assimétricos dos campos ali deixei poemas espalhados pelos caminhos poemas que nunca foram escritos mas vi deixei-os pendurados como enroscos nativos na paisagem sob as cruzes de cemitérios campeiros abandonados ali a raiz da raça naqueles campos onde o loz triluz na veloz cavalgada do vento um cavalo Birão um cavalo Dario para um poeta abduzido de tudo e todos um cavalo a me levar para o outro lado da razão

visionário meu cavalo antropocênico no espaço verde da campina um cavalo testa sua imagem na tez cristalina das águas do açude um cavalo narcísico mira-se no esplendor da água parada com gosto de limo também já tive horas de ficar olhando no espelho da superfície de poços parados meu destino enliado de pequenos nós que a vida vai desamarrando

um cavalo um poema uma verve uma montanha uma lagoa um pântano tudo encrestado de finos cipós do tempo minha mãe lia todos os livros inescritos nas folhas de ervas do campo minha mãe analfabeta lia nas folhas das ervas meu destino cego doido pra tudo quanto é lado um dia um cavalo me levará pra bem longe daqui um cavalo no mundo do sem-cavalo um cavalo álgido florescente na noite fúrnica com seu cavaleiro poeta tropiprolixo atirado de poemas pelos caminhos um poeta e um cavalo um cavalo e um poeta um loz e um poeta tropiprolixo na noite infinda do sem fim a esmo um cavaleiro e seu cavalo por todos os caminhos sem dor de dentes inchaços nas virilhas um cavalo e seu cavaleiro amplos de céus e ventos soprados ao deus dará tinha que carregar meus livros no dorso do meu cavalo meus livros simples que o tempo foi fazendo e fez para mim com seus signos calculados previsíveis que qualquer um entende e critica

quem quiser se habilitar a Homero que o faça neste mundo do sem-cavalo um cavalo e um cavalo e um cavalo e muitos poemas cavalgados de noite fria cavalgados de estrelas guias cavalgados de pós dos tempos transtempos finistempos um cavalo sou eu a vagar na noite azeviche a noite que faz a poesia dos outros invadir minha morada e a minha saltar em galope para rumos desconhecidos um poeta galopa com seu cavalo as estações irresolvidas um cavalo busca solução no tempo um cavalo e seu poeta vertidos de luz no vento cuidavam cavalo e cavaleiro os vagalumes atirados no chão haviam pedras que brilhavam à noite lêmptas esferas cintilantes estremecidas com o vento nos barrancos onde o loz passava na veloz cavalgada

um loz branco andaluz na noite fúrnica línguas de muitas palavras jogadas no vento do meio daquelas palavras que envolviam o loz tropiloz na veloz cavalgada do vento pude aferir do tempo da poesia perdida na nathureza das coisas uma coisa que se sobressai sobre outra coisa e outra coisa e outras coisas e tudo retertrançado de outras coisas é assim que o olho que vê revê desvê entrevê tropivê deve saltar de cima do cavalo e adentrar as matérias agora um poeta penetra o vegético depois o minérico matéria sobre matéria ali dentro de átomos comprimidos a transforça energética do vento vento dentro da madeira viva em árvore vento dentro dos minérios atirados na terra vento dentro das pedras dos protopólipos das cartilagens escondidas vento redemoinhos força sobre força energia trúsbita de veios subterrâneos meu cavalo loz luz ergoluz tropiluz calçado de matérias aderentes metempsicado dos pós dos tempos meu cavalo aéreo na ventania meu cavalo e um poeta corrido de ventos soprado pra longe do tempo era de se possuir muitos cavalos neste tempo do sem-cavalo muitos cavalos lâmptos ergoluzes retemperados nas tempestades era de se ter cavalos muitos cavalos em frente à casa cavalos prontos para ergofulgir pelos caminhos um cavalo pronto me aguarda para a futuridade um cavalo lâmpio experimentado nas canchas do indecifrável tempo um cavalo ferrado de ventos libertinos um cavalo convidativo na frente da casa pronto para o serviço do sem-serviço

me oprime uma palavra vertida de voz uma palavra que fala na noite que me sopra conceitos no dia uma palavra espiritada de poesia só com meu cavalo devo correr na noite o meu tempo do sem-cavalo quando fulgurava só pra dentro as coisas guardadas que a poesia palavra vertente de sons significantes significados não dizia não era pra dizer mas tenho que dizer e digo um cavalo me leva pra fora de mim um cavalo álgido como uma bola de neve no tempo um cavalo descido das montanhas um cavalo vaticinado nos porões por bruxos desconhecidos um cavalo alçado no vento um cavalo e um poeta um cavalo e a irresponsabilidade do gesto um cavalo e a insensatez do espírito que conhece um cavalo e um poeta um cavalo e a palavra marginal corrida na frente do pensamento eu um cavalo repercutido no tempo um cavalo andaluzirano rústico espectral na noite brasantina eu um cavalo sob os próprios pés de cavalos repentidos um cavalo com o mundo virado pra baixo nas patas irresolvidas um cavalo sem-mundo

no mundo do sem-cavalo ¿∑Ψθ∏߀ÕΔ o poeta.

 

 

 

A história de um crime de 20 trilhões de dólares – por marco aurélio weissheimer / são paulo

  • Documentário que será lançado em fevereiro no Brasil mostra o comportamento criminoso de agentes políticos e econômicos que conduziu à crise mundial de 2008. Essa conduta criminosa provocou a perda do emprego e da moradia para milhões de pessoas. “Inside Job” (que ganhou o título de “Trabalho interno” em português) conta um pouco da história que Wall Street e seus agentes pelo mundo querem que seja esquecida o mais rápido possível. Documentário resultou de uma extensa pesquisa e de uma série de entrevistas com políticos e jornalistas, revelando relações corrosivas e promíscuas entre autoridades, agentes reguladores e a Academia.

Como causar uma quebradeira de 20 trilhões de dólares, por meio de uma farra de negócios especulativos, e cobrar a conta de milhões de pobres mortais que não participaram da festa? O documentário Inside Job (“Trabalho interno”, em português) responde essa pergunta mostrando o comportamento criminoso de agentes políticos e econômicos que conduziu à crise econômica mundial de 2008. Essa conduta criminosa provocou a perda do emprego e da moradia para milhões de pessoas.
Dirigido por Charles Ferguson (mesmo diretor de No End in Sight) e narrado por Matt Damon, o documentário conta um pouco da história que Wall Street e seus agentes pelo mundo querem que seja esquecida o mais rápido possível. Para repeti-la, provavelmente.

O documentário resultou de uma extensa pesquisa e de uma série de entrevistas com políticos e jornalistas, revelando relações corrosivas e promíscuas entre autoridades, agentes reguladores e a Academia.

Em No End in Sight, Ferguson faz uma análise sobre o governo de George W, Bush e sua conduta em relação à Guerra do Iraque e a ocupação do país, questionando as mentiras utilizadas pelas autoridades norte-americanas para sustentar a ocupação. Agora, em Inside Job, mais uma vez o diretor expõe uma teia de mentiras e condutas criminosas que prejudicaram seriamente (e seguem prejudicando) a vida de milhões de pessoas. Agende-se: a estreia do documentário no Brasil está prevista para o dia 18 de fevereiro.

“Se você não ficar revoltado ao final do filme, você não estava prestando atenção” – diz uma das frases promocionais do documentário. Uma revolta necessária, pois, neste exato momento, muitos dos agentes causadores da crise (do roubo, seria melhor dizer) voltaram a dar “conselhos” para governos e sociedades. Algumas das mais novas vítimas são gregos, irlandeses, espanhóis, portugueses e outros povos europeus que estão sendo “convidados” a “aceitar a ajuda do FMI”.

Os arautos das privatizações e da desregulamentação seguem soltos como se nada tivesse ocorrido. Inside Job mostra as entranhas deste mundo de cobiça, cinismo e mentira. São estes criminosos, no frigir dos ovos, que seguem dando as cartas no planeta. Preparem o estômago, abram os olhos e ouvidos e não deixem de ver esse filme.

P Á S S A R O S – por jorge lescano / são paulo


 

Brisa de abril

como flechas de sombras

os pássaros voltam.

 

água dos pássaros. Frase vinda de outro lugar ou tempo, palavras cujo eco chega sem antes nem depois. Palavras sem destino à procura de suas origens? Às vezes Suécia, Noruega ou Dinamarca, às vezes nada. E cada palavra é um fato: palavra pássaro ou nós. Anoto a frase quando possível, ou as circunstâncias em que aparece. Em algumas ocasiões – nem sempre: o vôo é rápido -, ponto de partida para frases impensadas se aninhando em torno dela, ou prolongando seu vôo, mesmo quando em direção oposta: cada pássaro é um universo de plumas e cores e vôos e gritos alheios ao virtual ouvinte, livres por tanto. Talvez a frase tenha algum sentido antigo oculto na memória ou na tensão dos nervos, significado a ser desvendado pelo desenrolar do texto que origina. Percebo o vôo como a porta de um labirinto imaginário e cuja construção só poderá ter a finalidade de justificar a porta. Talvez a migração destas palavras seja apenas um pretexto para o vôo solitário (meu e talvez teu), ou este seja uma forma de nos fazer ver o espaço circundante: sombra na página em branco e pote de água para pássaros mas sem pássaros à vista, porém sempre possíveis: palavras em vôo dispersas na superfície do papel: grafismos sem outra função que a de existirem, como quem as anota e/ou lê rapidamente, antes de fugirem: pássaro nunca imóvel. Depois do eco, a contemplação e a procura de outro significado: outras palavras?, pois o vôo não fica gravado no espaço. E se fica, o que desenha? Palavras manuscritas: garras na neve do pensamento: lago virgem antes do pouso. Adejar de palavras: sons, grafismos, conceitos relativos: vôos incompletos e ao mesmo tempo auto-suficientes. Por isso: deixar agora que o texto seja um vôo anárquico apenas para nós por uma vez deixá-lo debandar sobre a rigidez geométrica do plano e ainda que só encontre sentido entre nossos iguais que seu vôo adquira forma no barro de nossos pensamentos sabendo que seu pouso é uma escolha e não a razão do seu ser-pássaro sempre aquém e/ou além da mirada à margem do silêncio inapreensível forma em branco que não se diz e que talvez voe rasante sobre a tua e a minha pele

 

 

O pé de rosadá – por débora guedes / coruripe.alagoas


Sempre fui uma pessoa apegada a sons, aromas e sabores. Bem, observando minha forma física, muito mais em sabores do que em aromas e sons. Quando cheguei à emissora de rádio para editar um material de áudio da prefeitura em que trabalho, vi uma plantinha bastante familiar… Era um arbusto filhote ainda, quase imperceptível, meio sem graça, visto que suas folhas estavam maltratadas e seus frutos escassos. Era um pé de rosadá. Imediatamente, fui transportada para a infância vivida no sítio do meu avô, no povoado Estiva, na cidade de Coruripe.
Viajei até aquela casa, situada no alto de um morro, ladeada pelo alpendre onde redes e cadeiras de balanço convidavam para o descanso – se bem que a última coisa que uma criança queria, naquele paraíso, era descansar. Os quatro quartos eram simples, de piso grosso, com camas de madeira firme e lençóis caprichosamente lavados exalando cheiro de sabão em pó. O quarto de meus avós era um caso a parte: tinha guarda-roupa grande, penteadeira com muitos perfumes, talco, pó de arroz, cremes e muitas imagens de santos e terços. As marcas dos cosméticos eram populares, mas faziam a nossa festa. Todos tinham janelas enormes que permitiam a ampla entrada do sol e do vento. Fui levada pelo cheiro da lembrança àquelas salas de jantar e TV, onde religiosamente, todos os domingos, eu assistia a um programa de música regional, na companhia do meu avô, ouvindo a música tema de Renato Teixeira “Amanheceu, peguei a viola” e via a abertura linda que a emissora do plin-plin deixou de exibir.
A cozinha, que além do fogão a gás trazido pela modernidade, tinha um típico fogão à lenha, que era utilizado para cozinhar o feijão de arranca, temperado apenas com sal. Não que faltassem condimentos na casa de meus avós. Mas ele, o feijão, era preparado dessa forma, e confesso que jamais provei algo tão gostoso. Tentei prepará-lo igual em casa, mas não surtiu o mesmo efeito. Acho que a mágica estavam naquelas panelas sujas de cinza, nas lenhas do fogão e principalmente nas mãos calejadas de minha avó.
O quintal parecia um planeta colorido, saboroso com cajueiros, jaqueiras, bananeiras, goiabeiras, saputis, mangueiras, jabuticabeiras, limoeiros, laranjeiras, pitombeira, pés de café… Não que meu avô tivesse sido barão de café, porque com o escasso dinheiro, ele seria, na brincadeira, um café com leite. Mas tínhamos um pé e provávamos da fruta que por incrível que pareça, tem um sabor doce, meio enjoativo.
A oficina onde o caminhão e a saveiro eram consertadas, também era a montadora dos carros de rolimã, e carrinhos feitos de lata de óleo com os quais meus primos costumavam brincar.
Havia do outro lado da estrada de barro, um sítio de manga, com campo de várzea, para os famosos rachas, um cercado com algumas vacas que supriam nossa necessidade de leite fresco e o limite entre a terra vizinha, era o Rio Coruripe. Existia também uma casa de farinha onde descascávamos mandioca, colocávamos em sacas e meus tios colocavam sob a prensa, para retirar o líquido tóxico da raiz. Depois desse processo, a massa crua era peneirada por nós, em uma folia contagiante e levada ao forno de lenha, grande, redondo onde meus tios mexiam a melhor farinha que já comi. Lá, na casa de farinha, as risadas eram soltas, sem pudores e nós, as crianças, sempre a enlouquecer o juízo dos mais velhos – Eu mais que os outros, já que vivia às turras com meus primos e às quedas, porque falta de equilíbrio e coordenação me acompanha desde sempre. Qualquer semelhança com o fato de eu ser acadêmica de fisioterapia, não é mera coincidência.
Nas refeições, a mesa era farta de comida e principalmente de gente. Meu avô como típico patriarca do interior nordestino, não permitia que viva alma saísse de sua casa de estômago vazio. Tinha que estufar! “Coma!” Ordenava. “Tem feijão, arroz, macarrão, charque, carne guizada, peixe frito e salada. Se ‘silva’”, dizia ele em sua ingênua falta de traquejo na pronúncia da língua portuguesa.
Perto da casa de farinha, tinha uma mangueira e abaixo dela, um tronco quase sexagenário onde sentávamos as tardes para prosear e as noites para cantar ao som extraído das cordas surradas, porém afinadas do violão de meu tio.
Nas férias, ao chegar naquela casa, na subida do pequeno morro, o cheiro daquela planta sinalizava que minha festa estava apenas começando. Quando vejo o arbusto florido lembro-me daquele lugar, da minha infância muito bem vivida.
Confesso que antes de escrever esse post, liguei para minha prima e perguntei: “Kássia, como é mesmo o nome daquela planta que tem o cheiro da casa da vovó?” E sem pestanejar, ela respondeu: “Ah! É o pé de rosadá”.

PORQUE AS PESSOAS GRITAM? – por mahatma gandhi

Um dia, um pensador indiano fez a seguinte pergunta a seus discípulos:

– Por que as pessoas gritam quando estão aborrecidas?
– Gritamos porque perdemos a calma, disse um deles.
– Mas, por que gritar quando a outra pessoa está ao seu lado? – Questionou novamente o pensador.
– Bem, gritamos porque desejamos que a outra pessoa nos ouça, retrucou outro discípulo.

E o mestre volta a perguntar:

– Então não é possível falar-lhe em voz baixa?
Várias outras respostas surgiram, mas nenhuma convenceu o pensador. Então ele esclareceu:
– Vocês sabem  porque se grita com uma pessoa quando se está aborrecida? O fato é que, quando duas pessoas estão aborrecidas, seus corações se afastam muito.
Para cobrir esta distância precisam gritar para poderem escutar-se mutuamente.

Quanto mais aborrecidas estiverem, mais forte terão que gritar para ouvir um ao outro, através da grande distância.
Por outro lado, o que sucede quando duas pessoas estão enamoradas?
Elas não gritam.
Falam suavemente.
E por quê?
Porque seus corações estão muito perto.
A distância entre elas é pequena.
Às vezes estão tão próximos seus corações, que nem falam, somente sussurram.
E quando o amor é mais intenso, não necessitam sequer sussurrar, apenas se olham, e basta.
Seus corações se entendem.

É isso que acontece quando duas pessoas que se amam estão próximas.
Por fim, o pensador conclui, dizendo:
“Quando vocês discutirem, não deixem que seus corações se afastem, não digam palavras que os distanciem mais, pois chegará um dia em que a distância será tanta que não mais encontrarão o caminho de volta”

A MANIFESTAÇÃO DA CRIANÇA SAGRADA de zuleika dos reis / são paulo

A MANIFESTAÇÃO DA CRIANÇA SAGRADA

 

 

O Natal nos liga à origem do Tempo Sagrado, onde está o Ser a Quem pertencemos, o Ser de Quem somos parte, independente do fato de termos clara em nós tal Ciência.

A manifestação da Criança Sagrada nos vem todo ano como Recordação e Presença; vem para nos lembrar de que a Vida não tem fronteiras, nem de espaço, nem de tempo.

A manifestação da Criança Sagrada nos vem todo ano para nos mostrar que a Vida apenas É, a iluminar-nos desde Sempre, desde o Âmago, desde o Centro.

A manifestação da Criança Sagrada nos vem todo ano para nos incinerar das nossas misérias, por segundos que seja; para nos Iluminar, por segundos que seja; é preciso Coragem Desmedida para nos deixarmos incinerar, por segundos que seja, para nos deixarmos Iluminar, por segundos que seja; é preciso Desmedida Coragem, para que ousemos duvidar do brilho mais do que nunca ofuscante do Imediato Real, do brilho que, se descuidarmos, nos fará passar totalmente em branco este Tempo de Recordação e de Presença da Criança Sagrada, que vem para nos Lembrar. Que vem para nos Lembrar, para nos lembrar de Nós.

 

Ainda na manhã de 22 de dezembro de 2010.

 

ZULEIKA DOS REIS comenta “DIAS CONTADOS” livro de contos da poeta EUNICE ARRUDA / são paulo

Após muitos anos de trabalho consagrado como poeta, Eunice Arruda publica, em 2009,  Dias Contados, seu primeiro livro de contos.

Dias Contados: dias narrados;  Dias Contados: dias de seres sentenciados, a caminho da própria extinção.

Já no título, um dos eixos do livro: A morte. O outro eixo: A perda da identidade. Eixos entrelaçados, indissoluvelmente.

Doze contos e me parece que não por acaso. Vejamos algo da simbologia do número 12:

– 12 são os meses do ano.

– 12 são os Apóstolos.

– 12 são os signos do Zodíaco.

– Do número 3, símbolo da Trindade, multiplicado pelo número 4, símbolo da      Manifestação, surge o número 12.

– O 12, muitas vezes, indica o ciclo completo de um acontecimento.

Dos doze contos, cinco narrados por personagens mortos, sete por personagens vivos, vivos em permanente condição de perda, de um braço amputado à perda da imagem física de si mesmo para si mesmo e para os outros; da perda da liberdade à cisão permanente entre corpo e alma, sendo que o traço comum entre todos é a percepção da perda da própria identidade.

Lendo os contos de Eunice Arruda me veio a expressão ser-para-a-morte, de Heidegger, já que a morte é o denominador comum, a sempre presença no universo de cada um dos personagens.

O outro nome que me veio à mente foi Golem, vindo da tradição judaica, da Kábala, durante a leitura de Nem as gotas de chuva para mim, de todos, o conto mais instigante e enigmático. Nele, um homem volta do reino dos mortos com o próprio nome apagado da testa, o que me levou imediatamente ao mito do Golem.

No mito, o Golem inicial teria sido o próprio primeiro Adão, quando ainda recém-criado da terra, antes da alma lhe ter sido soprada pelo Deus. O Golem posterior seria um simulacro de ser humano, criado pelo homem, simulacro a quem é dado vida ao lhe ser escrita na testa a palavra Emeth, que significa Verdade. Se for retirada desta palavra a primeira letra surge Meth, que significa Está Morto, o que faz o Golem cair por terra. Segundo a Kábala, a letra é emanação do poder divino, é também a “assinatura” das coisas.

No conto Nem as gotas de chuva, o homem que volta do reino dos mortos sem nome na testa é um morto-vivo, um ser sem qualquer identidade.

 

Contos estáticos, em sua maioria; contos de atmosfera, não de ação. As ações são mostradas de forma embrionária; o que realmente importa são os estados do ser.

Em grande parte do tempo, presentes a estranheza, o insólito, o fantástico, talvez alguns elementos surrealistas, tudo através de uma linguagem clara e límpida como a da própria Eunice em seus poemas e a linguagem de Kafka.A se falar em surrealismo, diria que muito mais à Magritte do que à Salvador Dali. Há um quadro de Magritte chamado As afinidades eletivas que pode, a meu ver, ilustrar com muita propriedade tal afirmação: Uma  gaiola e dentro dela ovo que lhe ocupa todo o interior. Uma interpretação possível dirá que os pássaros já estão predestinados à escravidão, à ausência de liberdade, desde antes do nascimento. Voltando aos contos, penso que não se pode defini-los como fantásticos, ou surrealistas, ou de realismo mágico, ou kafkianos, ainda que apresentem várias de suas características.

A autora é grande poeta; segundo ela mesma, é essencialmente poeta, e tal condição vem inscrita também nos seus contos, da linguagem à estrutura circular, uma das características fundamentais da poesia. Contos via de regra alineares, que não seguem linha temporal, de um ponto definido no presente em direção ao futuro, do futuro a um ponto no passado, ou ambos. Como na poesia, o centro dos contos de Eunice Arruda está em todos os pontos, imantando tudo, todo o círculo, tornando tudo ponto de partida e ponto de chegada. O círculo: a poesia mágico-agônica da  roda onde gira a vida-morte,  em incessante intercâmbio.

 

Zuleika dos Reis

 

 

 

ELOGIO DE JACK por jorge lescano / são paulo

 

 

para Sandra Esteves

 

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Era uma vez um menino chamado Daniel.

A bem da verdade, em sua certidão de nascimento constava Pedro Daniel Nananá Nananá de Nonô, mas toda a aldeia o conhecia pelo clássico e híbrido apelido de Chapeuzinho Vermelho.

Em tempo, era uma época em que Lenhadores Corajosos e Alfaiates Vivaldinos perambulavam por aqui e acolá. Não esquentavam cadeira na França nem na Alemanha, sequer na Dinamarca. Parecia até que não tivessem o que fazer em prol da comunidade ou em proveito próprio, a menos que suas funções se limitassem às de coadjuvantes em histórias de Princesas Dorminhocas e Sapos Espertinhos, ou a costurar vestes sutis para o Imperador, se acreditarmos no filho de Anders. Época aquela deveras prazerosa, digam o que quiser os defensores do sindicalismo e da industrialização e da aposentadoria ao completar o segurado meio século de existência. Época, também, em que a especulação imobiliária ainda não atingira o interior do reino. Destarte, cada Ogro possuía seu Castelo Branco no planalto, mor de avistar o que corria pelo Gigante Adormecido, toda Fada tinha uma aldeiazinha para exercer sua profissão e, poderíamos dizer, não havia vilarejo cadastrado que não contasse com seu timinho de anões. Época feliz e eu não sabia!

Secundus, por que Diabos um garoto que tem dois nomes tão singelos como Pedro e Daniel, é reduzido à condição de chapéu, e ainda por cima, VER-ME-LHO!, sabendo-se das emoções negativas que tal cor provoca em todos aqueles que não estão apaixonados, hein?

Eu vos direi já já. Acontece que o garoto, traquinas que era, feito todos os garotos na puberdade, em certa ocasião, na qual tinha saído com seu avô paterno para caçar um Lobo Mau, animal de estimação que o velho compositor desejava conservar numa partitura, achou por bem surrupiar a mencionada peça de guarda-roupa, ou figurino, como quiserdes, de uma meninazinha não muito chegada a ouvir conselhos maternos, meninazinha esta que atinou a passar pelas imediações da trilha palmilhada por nossos músicos no interior úmido da Floresta Encantada. Ela, a meninazinha do período, ia ao encalço da moradia da genitora de sua própria genitora. Levava-lhe na cesta bolo, esfiha, chá de boldo e uma manguacinha de alambique muito apreciada pelas três. Há quem considere isto uma compensação, pois terão notado, sem dúvidas, a ausência de homens na família.

O reprovável comportamento do garoto foi bem feito para a mãe dele, deixem-me que lhes diga antes que me esqueça. Ela, como muitas outras mães, acreditava que por denominar o herdeiro de suas dívidas com dois nomes sérios, o de um profeta semítico, e o de um dos apóstolos de Nosso Senhor Jota Cristo, garantem-se contra as dores de cabeça próprias de sua função de parentesco, o que cunhou a famigerada expressão Ser Mãe é sofrer no Paraíso, e fazem como Pilatos, para não perdermos o tom bíblico do parágrafo.

O fato de o menino ter-se apropriado indevidamente do chapéu, que aliás não era chapéu e sim capuz, segundo o ilustrador, não seria coisa de muita monta. Porém, eis que um tio da pirralha, de nome Charles, o tio, claro, se bem me recordo, acabou levando o assunto ao conhecimento da autoridade policial da comarca.

Um jornalista presente na delegacia tornou-o famoso. Ao evento em pauta, não ao tio, após alguns retoques sensacionalistas bem ao gosto dos leitores do seu pasquim. Agora que me lembro, acho que era o jornalista que se chamava Charles, não o tio. Sim!

No B.O consta apenas que na tarde ensolarada do domingo próximo passado, isto escreveu o jornalista, que dizia ter pendores de poeta, o meliante, suspeito que a deixa é do escrivão, com o intuito de, desde o início, incriminar o réu, e/ou predispor o rábula desavisado contra a indefesa criatura, o meliante, prossegue o texto cruel, cognominado Pedro Daniel Nananá Nananá de Nonô, filho de Fulana e Sicrano, residentes todos os três mais o avô paterno do indiciado, dito Perengano, residente, digo, por enquanto, na rua Taletal desta megalópole, furtou a peça de vestuário supracitada, sem atenuante, o ato, não o chapéu, digo, diz o auto, sem nenhuma atenuante de ordem prática que justifique seu ato.

Com efeito, na ocasião, o larápio gozava de invejável posição social na aldeia, filho que era do Pizzaiolo-mór do Rei. Esta circunstância arredondará nossa narrativa, podeis crer.

Pedro Daniel gostava pouco de tomar banho. Achava o ritual extravagante, alheio aos seus costumes, com um quê de libertino, além de úmido, imaginai Vossas Mercês o que desejardes.

Não!, o jornalista era Jacob ou Wilhelm, e era irmão do delegado de plantão ou do tio, ou este e o delegado eram irmãos entre si e ele era  irmão do grego, não tenho certeza. É, havia um cego no princípio. Esqueci o nome do mero grego do início da história, graças a Zeus! Não podem querer que lembre de tudo, não é?

Então, pela sua atitude, de todo contrária à higiene pessoal, um modo sutil de desforra às pressões sociais, sugeriu o pediatra local, ou a forma de partilhar seu corpo, na visão de um  psicanalista, Pedro Daniel somente acedia a tomar banho se sua mãe, sentada à beira da tina, se penitenciasse lendo em voz alta, para que a vizinhança ouvisse, histórias infantis, ou as assim classificadas pela industria editorial emergente. Se a boa mulher não cumprisse a tarefa a gosto do mandrião, este chorava à portuguesa.

Tal estilo de lamúria era a preferida não apenas pelo facto do miúdo, de forma subliminar, certamente, haver sido condicionado pela família, pela história da literatura, pelo contexto social, que sei eu!, condicionado, diz o relatório, para reproduzir ipsis líteris, os traços marcantes de sua cultura, como pela instância, não menos profícua e familiar, dele apreciar superlativamente a iguaria itálica da qual, como foi apontado algures, o autor dos seus dias era exímio fabricante. Sim, senhoras e senhores, o delinqüente juvenil amava a pizza à lusitana! É de conhecimento público que tal modalidade prima pelo abuso de cebola em detrimento de outros pertences mais apetitosos para o paladar infantil, os quais sejam, ovo cozido, presunto e azeitonas pretas graúdas, cujo caroço, se bem aproveitado no estilingue, pode fazer misérias nas janelas da vizinhança, como Vossas Mercês estão fartas de saber.

O caso do jurista ou jornalista, não sei bem, talvez exija investigação mais demorada, pois não seria negócio de somenos.

Então, toda tarde de domingo ensolarado, estabelecia-se entre as duas gerações um tácito combate naval. Isto poderia explicar, por vias tortas, aquele primeiro ato delituoso de quem, com o passar dos anos, e após breve carreira de instrutor de lobos na requintada arte da literatura, segundo constata a vasta resenha policial concernente, viria a ser o tristemente célebre Jack, o Estripador.

Nada mal para um franzino garoto de aldeia, pelo qual ninguém dava uma rúpia furada, hein?

 

Há quem diga que Pedro (Daniel) era o próprio Lobo, e que seu sobrenome era Prokofiev. Todavia, nós não acreditamos em  Lobisomem, ainda que exista, anotou à socapa o escrivão de polícia. Algum cronista apresenta Pedro Daniel arrependido. Nesse relato, o facínora teria reencontrado, em suas andanças pelas estepes do Velho Mundo, a Meninazinha do Capuz Vermelho, agora uma starlet de grande sucesso no show-business. Desposou-a imediatamente para agradar Propp e foram morar no Castelo Branco do Rei Bonachão. Acredita-se que ambos foram felizes para Todo-o-Sempre. Contudo, o diretor de teatro Serguéi Korrêa (para manter o clima russo), continuou a escrever o escrivão, afirmava que a versão anterior é mentirosa e foi divulgada pelo indiciado Jack, o Estripador, mor de ocultar seu assassinato de Lulu. Fato este, aliás, já denunciado pelo dramaturgo alemão Frank Wedekind (1864-1918).

Com gesto discreto mergulhou a caderneta no mais profundo dos bolsos internos de sua japona, sorrateiramente saiu do recinto.

 

 

 

PROF. ALFREDO BOSI faz Declaração de Voto (eleições 2010)

Declaração de voto de Alfredo Bosi

 

 

 

Colegas, Alunos, Amigos, Companheiros de opção política,

Sinto-me muito honrado em participar desta manifestação em prol da candidatura de Dilma Rousseff à Presidência da República. Minha intervenção não se fará em nome de uma militância partidária particular , mas em nome de causas públicas suprapartidárias que seguramente todos os presentes partilham, causas públicas nacionais e internacionais que estão animando esta campanha eleitoral.

Convém lembrar, em tempos de desmemoria, que estas causas vêm de longe e felizmente nunca arrefeceram em nossa consciência de cidadãos. Vêm do extraordinário mutirão progressista que foi a luta pelas reformas de base, no começo
dos anos 60, projeto coletivo sufocado pelo golpe de 64. Vêm da resistência à opressão e à repressão dos anos de chumbo, resistência à qual a hoje candidata Dilma ofereceu o idealismo temerário de seus anos juvenis, pagando por isso duas vezes o seu preço. Duas vezes, pagou: na primeira vez os seus cobradores foram esbirros da ditadura militar, a segunda agora, são os marqueteiros venais (com perdão do pleonasmo) e a imprensa marrom, a soldo das forças mais reacionárias deste país, que querem punir, de novo, aqueles que ousaram dizer não à tirania. Estranhos paladinos da democracia!

Esta causa democrática é fundamental, mas não é a única. A campanha em prol de Dilma está penetrada de um sentido social forte e dinâmico. Ela encarna uma tendência distributivista e popular que começou a ganhar consistência visível nos últimos anos do governo Lula. Emprego maciço e entrada maciça para a classe média são resultados de um programa bem sucedido de inclusão econômica e social. Taxas promissoras de diminuição da mortalidade infantil, de redução do desemprego e de aumento da escolaridade básica elevaram o nosso Índice de Desenvolvimento Humano para um patamar próximo da média das nações desenvolvidas. O famigerado e eterno “atraso estrutural” e a batidíssiima tecla da divisão das nações em centrais e periféricas começam a exigir um sério trabalho de revisão conceitual. E mais ainda, aquela deprimente teoria do “país dependente associado”, fruto de uma sociologia demissionária, está sendo desmentida por uma política internacional de paz, aberta, lúcida e independente, que é um maiores méritos deste governo e continuará sendo um dos pontos de honra do governo de Dilma, se…. (Já ia me escapado um “se Deus Quiser”, quando me dei conta dessa indignidade que a direita está cometendo ao abusar das crenças religiosas do nosso povo, convertendo-as em moeda de troca eleitoral, o que é uma tática ignóbil para quem respeita o sentimento do sagrado além de envolver um desprezo das práticas republicanas, que devem manter-se leigas e eqüidistantes das profissões de fé. Algum ouvinte preocupado com distinções nominais poderá argüir-me de inexato, e dirá: Mas o que está sendo chamado de direita não é direita,é apenas o puro Centrão Liberal. Respondo a este incauto analista: o liberal mantém-se no centro apenas enquanto não se sente em risco de perder posições ou não obtê-las; mas, chegando a hora do confronto, desliza para posições reacionárias. Desliza, disse eu? O verbo é muito diplomático. O certo será dizer que ele derrapa para a direita. Mas, pensando bem, derrapa ainda é ameno. O liberal precipita-se estrepitosamente/ pelos abismos da reação. É o que está acontecendo a olhos vistos nesta campanha eleitoral. )

Por isso, entendo este ato público como um não! ao retrocesso. Não! a uma política econômica toda centrada no capital, ciosa exclusivamente do equilíbrio monetário, mas negligente quando não avarenta em face dos terríveis desequilíbrios econômicos e regionais que infelicitavam o povo brasileiro nos anos 90 e que foram sendo lenta, parcialmente, mas honestamente encarados neste último decênio. Estamos apenas no começo do caminho, que é cheio de pedras, buracos e armadilhas. Alguns dentre nós não renunciamos a entrever no horizonte a imagem indelével de uma revolução, e talvez tenha sido este o sentido de nosso voto no primeiro turno. Na conjuntura atual, porém, que é a de um jogo de forças inovadoras versus mais um surto de modernização conservadora, escolhemos a consolidação de um projeto aberto que abrace desenvolvimento e respeito ao trabalho e à natureza. E aspiramos principalmente ao mais difícil de todos os alvos: a diminuição da iniqüidade que significa a distribuição de renda no Brasil.

Este ato público, promovido por estudantes de uma Universidade pública, exprime confiança e esperança, sem que estes sentimentos altamente positivos nos isentem de continuar lutando para que o processo iniciado nos últimos anos se aprofunde em uma linha democrática e verdadeiramente solidária. O nosso voto não é cego: é crítico,e por isso mesmo, é firme e é responsável.

Alfredo Bosi

São Paulo, 25/10/2010

Alfredo Bosi é professor na USP.

 

 

DE VOLTA AO JARDIM – por omar de la roca / são paulo


Tive que voltar ao jardim antes do que esperava.Havia esquecido o livro que lia em cima de um tronco cortado em forma de banco. Num canto quieto onde me sentava as vezes para ler ou descansar as pernas.Estava um pouco bambo,não sei se fora cortado torto ou se o chão cedera devido a chuva.Dei uma corrida e virei me a tempo,com o braço esticado pegando  o chapéu.Sabia que o vento não havia desistido de brincar com ele.O vento riu e eu ri com ele.Entrei no jardim, tirei o chapéu e fui ate o banco.Percebi que durante as poucas horas que me afastara, o vento havia soprado forte. Eu podia até vê-lo levantando a capa do livro, como alguém que procurasse uma informação na orelha dele, fechando em seguida.De novo levantou a capa e folheou as primeiras folhas a procura da editora e do tradutor. Depois,curioso,folheara o livro com violência soprando de lá pra cá e de novo.Ate se fartar dele e fecha-lo com estrondo. O jardim não estava mais como o deixei. Pelo menos naquele canto as coisas estavam confusas. Vi pequenas pedras brancas fora do lugar que as deixara.Mas o vento não poderia te-las movido.Peguei o livro.Paginas em branco.As letras e os personagens haviam fugido para todos os lados pela força do vento.Por isso a desordem.Encontrei uns rastros de letras acho que um M e um S,mas poderia ser um W ( ou um V)  e um Z  não dava para ter certeza,a impressão era imprecisa e poderia estar invertida.Um movimento rápido me chamou atenção para um canto escondido do jardim onde eu so ia de vez em quando.Ouvi choro e sussurros.Um vento mais forte trouxe restos de folhas escritas.Peguei uma delas e li:

“ sinto falta de ti minh’alma, quando o choro preso bate a porta e não escuto.Ou quando a manhã nasce mais cedo e estou cego.Quando tateio no escuro procurando a porta que não esta lá.Sinto falta de ti minh’alma.Quando a ferida aberta dói e nela coloco sal.Sinto fal “

Aqui o papel estava rasgado, sem nenhuma referência, nem autor.

Prestando mais atenção, um outro papelzinho estava preso ao primeiro,dizia assim:

“… e a água lavou-se em seu próprio pranto. Secou-se ao vento solar e se cobriu de folhas.Deitou-se no riacho a flutuar, deixando a brisa leva-la por correntes distantes que levavam ao…”

Mar pensei, ao mar.

Havia muitos pedaços voando ao meu redor agora.Acho que já estavam antes, mas eu não havia percebido.Eram gaivotas famintas e eu era o peixe na coberta do barco. Todas queriam cair em minhas mãos para serem lidas.Em voz alta de preferência.

Um pedaço conseguiu se agarrar aos meus óculos e eu tive que ler:

“…Somos do tamanho de nossos sonhos…Feliz…”

No olho do redemoinho sentei e fiquei observando o movimento ascendente em espiral.

Fiquei pensando nos personagens perdidos. Alguns se agarravam a sonhos antigos. Outros a pessoas perdidas. Outros simplesmente não sabiam. Outros…

Uns pedaços me entram pela boca e insistiram em gritar.

“ Teoria sobre a necessidade de se conscientizar…( borrado ) … e só nos poderemos fazer alguma coisa por nós mesmos.”

“ Homenagem atroz” dizia outro.

E eu ri…

Preso ao meu pé esquerdo uma folha amarelada. Dizia assim:

“ Também amei,mas foi amor de teimosia,de refúgio.

Amor solitário , posto de lado.

Amor calado.

( Hoje me refugio na poesia. )

Amor de presságio, de calmaria .

Amor de fuga de outra agonia.

Me confundindo me deixando assim sem rumo.

Meio pendente, meio sem prumo.

Amor de heresia, de verdade, de mentira

Como tudo,

“ segun el color del cristal com que se mira “.

Amor ora de simetria, ora de paralelas.

De congruências , de delicadas cores ,

De rimas perfeitas e prosas podres,

Por fim, amei esses amores ?

Era o fragmento mais extenso que eu havia encontrado. Não tinha certeza de que estava inteiro, me parecia estar , em sua solidão. E me dizia muito.

O vento parou de repente. Os pedacinhos assentaram sobre a relva e derreteram. Tentei segurar alguns, mas  viraram pó. Ainda ouvia os personagens e pensei em gritar a eles que a solução de seus problemas estavam dentro deles mesmos. Mas me lembrei do vento. Eu não tinha culpa se o vento soprara forte. Mas ainda queria abraçar todos os personagens,  refugia-los em meus braços e murmurar em seus ouvidos um acalanto, até que dormissem. Mas meus braços não seriam suficientes. Seria melhor escrever alguma coisa e esperar que um dia eles lessem. Que entendessem.” Somos muito parecidos todos. Todos queremos amar e ser amados. Somos mais parecidos do que diferentes. No fim todos queremos as mesmas coisas.Somos mais feitos de semelhanças do que de diferenças”. Seja por inteiro, seja uma metade. Ou duas metades inteiras. Ainda ouvia os personagens, me pareciam mais calmos, ou talvez eu é que estivesse.

Sacudi a poeira das roupas, do chapéu.Limpei os óculos na ponta da camisa azul. Agora o silêncio. O silêncio do bosque.

Sai do jardim com os olhos baixos, não tinha conseguido falar nada. Apenas deixara uns rabiscos no livro que deixei aberto com duas pedras segurando. Uma branca e outra preta. Como se isso servisse para mostrar meu equilíbrio inexistente. E, como uma alma penitente segui o caminho. De novo só. Eu e meu chapéu ( risos ). Com a cabeça cheia de porcelanas finas que quebravam e se tornavam apenas cacos . Preciso criar paciência de novo e voltar a remontar os vasos. Olhei para o horizonte sempre fugidio. Segui distraído sem ver os pássaros coloridos, as flores de cerejeira, as borboletas amarelas . Sem perceber que  na úmida e macia argila daquela trilha, meus pés não deixavam pegadas .

CNBB – COMISSÃO BRASILEIRA JUSTIÇA E PAZ divulga nota oficial

“Nota da Comissão Brasileira Justiça e Paz”

 

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O MOMENTO POLÍTICO E A RELIGIÃO

“Amor e Verdade se encontrarão. Justiça e Paz se abraçarão” (Salmo 85)

A Comissão Brasileira Justiça e Paz (CBJP) está preocupada com o momento político na sua relação com a religião. Muitos grupos, em nome da fé cristã, têm criado dificuldades para o voto livre e consciente. Desconsideram a manifestação da presidência da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil de 16 de setembro, “Na proximidade das eleições”, quando reiterou a posição da 48ª Assembléia Geral da entidade, realizada neste ano em Brasília. Esses grupos continuaram, inclusive, usando o nome da CNBB, induzindo erroneamente os fiéis a acreditarem que ela tivesse imposto veto a candidatos nestas eleições.

Continua sendo instrumentalizada eleitoralmente a nota da presidência do Regional Sul 1 da CNBB, fato que consideramos lamentável, porque tem levado muitos católicos a se afastarem de nossas comunidades e paróquias.

Constrangem nossa conciência cidadã, como cristãos, atos, gestos e discursos que ferem a maturidade da democracia, desrespeitam o direito de livre decisão, confundindo os cristãos e comprometendo a comunhão eclesial.

Os eleitores têm o direito de optar pela candidatura à Presidência da República que sua consciência lhe indicar, como livre escolha, tendo como referencial valores éticos e os princípios da Doutrina Social da Igreja, como promoção e defesa da dignidade da pessoa humana, com a inclusão social de todos os cidadãos e cidadãs, principalmente dos empobrecidos.

Nesse sentido, a CBJP, em parceria com outras entidades, realizou debate, transmitido por emissoras de inspiração cristã, entre as candidaturas à Presidência da Republica no intento de refletir os desafios postos ao Brasil na perspectiva de favorecer o voto consciente e livre. Igualmente, co-patrocinou um subsídio para formação da cidadania, sob o título: “Eleições 2010: chão e horizonte”.

A Comissão Brasileira Justiça e Paz, nesse tempo de inquietudes, reafirma os valores e princípios que norteiam seus passos e a herança de pessoas como Dom Helder Câmara, Dom Luciano Mendes, Margarida Alves, Madre Cristina, Tristão de Athayde, Ir. Dorothy, entre tantos outros. Estes, motivados pela fé, defenderam a liberdade, quando vigorava o arbítrio; a defesa e o anúncio da liberdade de expressão, em tempos de censura; a anistia, ampla, geral e irrestrita, quando havia exílios; a defesa da dignidade da pessoa humana, quando se trucidavam e aviltavam pessoas.

Compartilhamos a alegria da luz, em meio a sombras, com os frutos da Lei da Ficha Limpa como aprimoraramento da democracia. Esta Lei de Iniciativa Popular uniu a sociedade e sintonizou toda a igreja com os reclamos de uma política a serviço do bem comum e o zelo pela justiça e paz.

Brasília, 06 de Outubro de 2010

Comissão Brasileira Justiça e Paz, Organismo da CNBB