ESCOLA NACIONAL FLORESTAN FERNANDES convida :

Romero Britto celebra vitória de Dilma com anúncio no ‘NYT’ – editoria

Por achar a presidente Dilma Rousseff “uma coisa maravilhosa”, o artista plástico Romero Britto decidiu homenageá-la.

Publicou, na edição desta semana da “The New York Times Magazine”, a revista dominical do “The New York Times”, um anúncio de página inteira.

Para tanto, calcula ter gasto US$ 20 mil (cerca de R$ 33,5 mil). Aos domingos, a tiragem da revista fica em torno de 400 mil exemplares.

Pernambucano com galeria em Miami, autor de murais ultracoloridos, Britto usou a peça publicitária para apresentar sua versão de Dilma ao público americano.

A presidente é retratada com as cores fortes que caracterizam a obra do artista, com pinturas nas bochechas que lembram o personagem Pablo do programa “Qual é a Música?”, do SBT.

Acima da imagem, lê-se “parabéns, minha querida, a nova presidente do Brasil”.
Na sequência, o artista parabeniza “todas as mulheres da América Latina”.

Britto diz que, dos amigos americanos, só ouve “comentários positivos” sobre a sucessora de Lula.

A empolgação pela “primeira mulher presidente”, segundo ele, foi contagiante. Nos Estados Unidos durante as eleições, afirma ter feito questão de votar na petista lá mesmo.

Ele não sabe se Dilma já ficou a par da homenagem, mas disse que pretende presenteá-la com a arte em sua próxima visita ao Brasil. Espera que seja no Carnaval.

No anúncio da revista, abaixo da reprodução da pintura com o rosto da petista, há seis fotos da inauguração do Hospital da Mulher, em São João de Meriti (RJ), em março passado –quando a campanha eleitoral estava a pleno vapor.

Aparecem nos retratos Dilma, Britto, o governador do Rio, Sérgio Cabral (PMDB), e seu secretário de Saúde, Sérgio Côrtes.

 

A presidente ou a presidenta? – por prof. pasquale cipro neto / são paulo

O professor PASQUALE CIPRO NETO tira a dúvida.
Que têm em comum palavras como “pedinte”, “agente”, “fluente”, “gerente”, “caminhante”, “dirigente” etc.? Não é difícil, é? O ponto em comum é a terminação “-nte”, de origem latina. Essa terminação ocorre no particípio presente de verbos portugueses, italianos, espanhóis…
Termos como “presidente”, “dirigente”, “gerente”, entre inúmeros outros, são iguaizinhos nas três línguas, que, é sempre bom lembrar, nasceram do mesmo ventre. E que noção indica a terminação “-nte”? A de “agente”: gerente é quem gere, presidente é quem preside, dirigente é quem dirige e assim por diante.
Normalmente essas palavras têm forma fixa, isto é, são iguais para o masculino e para o feminino; o que muda é o artigo (o/a gerente, o/a dirigente, o/a pagante, o/a pedinte). Em alguns (raros) casos, o uso fixa como alternativas as formas exclusivamente femininas, em que o “e” final dá lugar a um “a”. Um desses casos é o de “parenta”, forma exclusivamente feminina e não obrigatória (pode-se dizer “minha parente” ou “minha parenta”, por exemplo). Outro desses casos é justamente o de “presidenta”: pode-se dizer “a presidente” ou “a presidenta”.
A esta altura alguém talvez já esteja dizendo que, por ser a primeira presidente/a do Brasil, Dilma Rousseff tem o direito de escolher. Sem dúvida nenhuma, ela tem esse e outros direitos. Se ela disser que quer ser chamada de “presidenta”, que seja feita a sua vontade -por que não?

 

O Poder Judiciário na mira da sociedade – por dora martins /são paulo




Votamos a cada quatro anos, e todo ano sofremos a tristeza de ver brasileiros e brasileiras perderem a vida por descura do poder público. Desastres das chuvas de janeiro se repetem há décadas e ficamos, no fundo, todos impotentes, tristes, revoltados, e à espera que tudo, de novo, aconteça. Falta-nos lembrar de todas essas desgraças na hora do voto, na hora de exigir o que é devido daqueles que colocamos no Poder, para que façam por nós o que sabemos que deve ser feito.

A participação da sociedade na condução das políticas implementadas pelo Estado deve ser estendida e cada vez maior, pois é o único modo de se avançar com a democracia.

O Poder Judiciário foi alvo de uma larga pesquisa feito pelo IPEA, em 2010, e dela obteve a baixa nota 4,55. Com isso, está dado o recado: o Poder Judiciário precisa ofertar ao povo brasileiro um novo formato de justiça, e que a prestação dela se dê de forma correta, eficiente e no tempo certo. Faz-se necessária a urgente reforma política ampla, que abranja todos os poderes do Estado e que cada Poder atue de modo a garantir o bem estar dos cidadãos.

No foco das reformas políticas que abrangem o Judiciário, está o Supremo Tribunal Federal.  Hoje, ele que é órgão máximo do Poder Judiciário, cuida de questões várias, advindas dos demais tribunais estaduais e federais.

Um dos pontos da reforma que se espera é que o STF cumpra apenas seu papel maior, qual seja um tribunal constitucional, que cuide de nossa Constituição com exclusividade e profundidade, pois está ela repleta de nossos mais caros princípios que devem defendidos quando atacados e garantidos quando postos em risco.

A presidenta Dilma nomeará, durante seu mandato, pelo menos três ministros do STF. Para poder disputar uma vaga de ministro do STF, o candidato ou candidata deve ter “mais de 35 e menos de 65 anos, ter notável saber jurídico e reputação ilibada” (art. 101 da CF). Assim sendo, a nossa Presidenta pode contribuir com a reforma política, desde já, sem muito esforço, e sem vulnerar seu poder no processo de nomeação do novo ministro ou ministra.  Basta que ela dê transparência e democratize esse processo de nomeação. Para tanto pode a Presidenta Dilma divulgar e dar publicidade dos nomes dos candidatos e candidatas ao cargo do STF. Com isso, será possível ao cidadão brasileiro, suas entidades de classe, suas associações debaterem e se manifestarem, formalmente, sobre os candidatos e candidatas ao cargo de ministro. Afinal, o que almejam esses candidatos e candidatas é, nada mais nada menos, ser a voz da Justiça brasileira, em seu mais alto patamar.

Com tal proceder, a nossa Presidenta estará prestigiando a participação social na construção da democracia brasileira. Permitir que o povo conheça, discuta, opine e seja ouvido é valorizar a cidadania em seu grau mais relevante.

É direito do cidadão saber o que o candidato ou candidata a ministro do STF pensa, como agiu e age ele ou ela na defesa dos princípios constitucionais e quais são seus compromissos com a construção de uma sociedade menos desigual e mais garantidora da dignidade humana.

É hora, pois, de nossa presidenta fazer a história. E, você, cidadão ou cidadã, faça sua parte. Mande mensagens para a Presidente Dilma, e peça essa transparência no trato com questões tão fundamentais.

Dora Martins é Integrante da Associação Juízes para a Democracia.


SÃO PAULO, PORQUE TE AMO – por zuleika dos reis / são paulo


Embora seja hoje o dia do teu aniversário, talvez eu devesse me deter na enunciação dos desmandos de que és vítima todo o tempo, desmandos das autoridades, desmandos de boa parte do povo que te habita, povo vítima, por sua vez, da falta de Educação, da falta do sentimento de cidadania, desmandos pelos quais tu, São Paulo, pagas, na tua gente mais pobre, mas também nas tuas gentes das várias classes sociais, pagamentos mais dramáticos ainda do que  ao longo do ano nestes tempos de chuvas, quando vem à tona o lixo acumulado no fundo dos teus rios, quando tantos perdem as suas já precaríssimas moradias, quando  carros boiam e outros afundam sob o peso das águas (…); como dizia, talvez eu me devesse deter na enunciação desses e de outros tantos horrores que marcam a trajetória das tuas ruas, dos teus dias. Não, eu não quero deter minhas palavras em tais horrores.

Poderia, pelo contrário, deter-me na enunciação do que tens de belo, na amplidão da tua vida cultural, na beleza dos teus parques, na variedade dos teus povos, na procura de caminhos de resgate para teus problemas por muitos dos seres que verdadeiramente te amam (…); no entanto, quero apenas fazer-te uma declaração de amor:

Tu, São Paulo, és como tem sido em mim o amor pelos homens da minha vida, pela poesia, pela música (…): amor difícil, contraditório, miserável e opulento, todo o tempo a oscilar entre o inferno e o céu. Assim, já que partilhas da tônica sempre presente nos meus modos de amar, não me resta outra escolha (até por coerência) senão continuar a amar-te também assim, com a volúpia do meu corpo, com o sentimento do meu coração e da minha alma, exatamente como tenho amado, ao longo da vida, os outros amores todos da minha vida.

 

A ESMOLA DE DULCE – de augusto dos anjos / sapé.pb

 

Ao Alfredo A.

E todo o dia eu vou como um perdido
De dor, por entre a dolorosa estrada,
Pedir a Dulce, a minha bem amada
A esmola dum carinho apetecido.

E ela fita-me, o olhar enlanguescido,
E eu balbucio trêmula balada:
– Senhora dai-me u’a esmola – e estertorada
A minha voz soluça num gemido.

Morre-me a voz, e eu gemo o último harpejo,
Estendendo à Dulce a mão, a fé perdida,
E dos lábios de Dulce cai um beijo.

Depois, como este beijo me consola!
Bendita seja a Dulce! A minha vida
Estava unicamente nessa esmola.

 

Tentativa número 3 – de “sofista pirateado”


Tentem os homens de forte fé

Ou tantos incrédulos da ciência

Explicarem a mim isso o que é

Desculpa para tédio ou doença:

 

Já não sou mais o mesmo menino

Se sou pensei ter crescido homem

Enganou me o tempo e o destino

E à noite os meus sonhos somem

Como tivesse todas as moléstias

Fraco dos nervos, até da cabeça

Coitado que não vai mais às festas

Quer mais que o mundo o esqueça

Como, com que força, que vontade

Meus sentidos transmudam, tremem

Vou falar, frases saem pela metade

Mudo minha cara, não me entendem

Como entenderiam minhas lágrimas

Esse tormento que aflige meu estar

Essa febre que não passa, trágicas

Sinfonias frias que teimo em escutar

Perdi a fome mesmo, pareço fraco,

Pareço pedaços, sou feito de vidro

Feito cacos do velho espelho opaco

Que os meus sonhos têm refletido.

Ainda te amo mesmo partindo

Esta estrada não tem distância

Amarei-te longe por lembrança

E será meu lembrar mais lindo.

 

 

Cidade na Índia realiza competição de pintura facial / ahmedabad

22/01/2011 11h42 – Atualizado em 22/01/2011 11h58

Concurso foi realizado na cidade de Ahmedabad, no oeste do país.
Campeonato ocorreu neste sábado (22).

 

Competição de pitura de rosto na ÍndiaParticipante pinta o rosto para competição de pintura facial realizada na cidade de Ahmedabad, no oeste da Índia. (Foto: Amit Dave/Reuters)
Competição de pitura de rosto na ÍndiaHomem se prepara para competição de pintura facial na Índia. (Foto: Amit Dave/Reuters)
Competição de pitura de rosto na ÍndiaCompetidora mostra sua pintura facial artística usada em campeonato. (Foto: Amit Dave/Reuters)

Do G1, em São Paulo

EUA criam projeto para grampear internet – por altamiro borges / são paulo



Onda tende a ganhar maior impulso devido ao impacto dos vazamentos pelo Wikileaks de memorandos da diplomacia estadunidense

Na edição de dezembro último, a revista Superinteressante trouxe uma notícia que deve preocupar os defensores da liberdade na internet. Ela reforça o temor de que está em curso uma ofensiva mundial para controlar e restringir o uso da rede. Esta onda tende a ganhar maior impulso devido ao impacto dos vazamentos pelo Wikileaks de memorados da diplomacia estadunidense.

“Um novo projeto de lei, que será apresentado ao Congresso dos EUA nas próximas semanas, pode representar o mais duro golpe já visto contra a liberdade na internet. Proposta pelo governo Obama, a lei determina que todas as empresas de internet sejam obrigadas a instalar sistemas de grampo para capturar os dados enviados e recebidos por seus usuários”, descreve a revista.

Vigilância das agências de espionagem

Ainda segundo a reportagem, “isso significa que todos os meios de comunicação existentes na web (de serviços de e-mail, como o Gmail, até programas de telefonia, como Skype) teriam de abrir brechas para as agências de espionagem do governo. A medida afetaria inclusive empresas sediadas fora dos EUA (como a Skype Inc., por exemplo, cujo escritório fica em Luxemburgo), que seriam obrigadas a manter computadores em território americano para instalação dos grampos”.

O governo ianque garante que a medida visa investigar as ações terroristas e que os grampos serão feitos com mandado judicial. Mas a desculpa é esfarrapada. Em 2006, por exemplo, a Agência de Segurança Nacional (NSA) manteve um grampo ilegal na operadora AT&T- cujo tráfego era automaticamente desviado, sem autorização judicial, para os espiões do governo ianque.

Restrições na Itália de Berlusconi

Nesta ofensiva mundial contra a liberdade na internet, cada país usa um pretexto. Na Itália, segundo artigo do Portal Imprensa, o governo de Silvio Berlusconi já impôs uma resolução que regula sítios como Youtube e Vimeo com as mesmas regras da televisão. A desculpa, no caso, é o da proteção da propriedade intelectual e do controle da produção de conteúdo.

A medida torna estas páginas “suscetíveis às mesmas punições das emissoras do país… A pasta das comunicações argumenta que se um site é curador do conteúdo gerado pelos usuários, ainda que por meio de algoritmos automáticos, significa que ele exerce controle editorial. Logo, deve ser submetido às regras aplicadas às estações de TV. Agora, responsáveis legalmente pelo conteúdo, os sites serão obrigados, assim como as TVs, a retirar um vídeo do ar no prazo de 48 horas”.


O AI-5 Digital do tucano Azeredo

Como se observa, as medidas de restrição à liberdade na internet fazem parte de uma onda mundial, orquestrada e pró-ativa. O senador Eduardo Azeredo, do PSDB/MG, apenas pegou carona nesta cruzada de “vigilantismo” – o tucano mais se parece com um papagaio repetitivo. O projeto de lei 84/99, aprovado em duas comissões da Câmara Federal em outubro passado, também criminaliza várias práticas cotidianas da rede e coloca em risco a própria privacidade dos internautas.

A desculpa, no Brasil, é ainda mais cômica. O senador tucano afirma que projeto visa impedir a pedofilia na rede. Mas tais crimes não ocorrem devido à internet e o próprio sistema disponibiliza os endereços dos criminosos. Na prática, sua proposta representa um duro golpe à liberdade de expressão. Não é para menos que o projeto foi apelidado de AI-5 Digital, numa referência irônica ao ato institucional da ditadura militar, de 1968, que recrudesceu ainda mais o autoritarismo no Brasil.

ARIJO – de jairo pereira / quedas do iguaçu.pr

ARIJO

 

Nasci Arijo Jairo Oriaj

filho de Dinarte e Lucilla

na tela em amarelo de março

três da tarde de 56

Um anjo anêmico me tocou a face

A casa velha, dourada de periferia

Signos ludindo no porão

O pai operário, a mãe do lar

Operária de pães enormes

Um forno pra sete filhos

Tudo em amarelo

Todas as telas, as vias

as abóboras, as significâncias

Rua Goytacás esquina com

Carijós, Vila Fátima de um

Passo Fundo perdido no tempo.

Feitiços na esquina. Linhas, laços

vermelhos, trançagens.

Minha identidade firmada

nas folhas da mata sobrevivida

que sobrevivi.

Em Arijo, li, reli o livro enterrado

no eucaliptal da infância

li, reli a fábula do poeta

Lagartixas e borboletas

no bosque da caça permitida

do futuro

E havia uma floresta permitida do

futuro

onde um ser de luz (o anjo

anêmico) da primeira visita

mostrava o caminho.

 

SENADOR ÁLVARO DIAS/PR quer receber R$1.600.000,00 de aposentadoria “atrasada” como ex-governador! claro, é da turma do Serra e líder da oposição ao BRASIL!

Vocês pensam que é barato aplicação de botox

janeiro 20th, 2011 |  Autor: CelsoJardim
O senador paranaense Alvaro Dias (PSDB), que recebe aposentadoria como ex-governador desde outubro do ano passado, solicitou à Secretaria de Estado da Administração o pagamento retroativo de cinco anos do benefício.
Se o pedido for aceito pelo governo estadual, o senador poderá receber R$ 1,6 milhão dos cofres públicos.
Pela legislação vigente no Paraná, Alvaro teria direito à pensão vitalícia desde que deixou o governo do estado, em 1991. Como só fez o pedido no ano passado, decidiu solicitar os valores retroativos.
De acordo com o governo do estado, a solicitação de Alvaro foi encaminhada para a Procurado ria-Geral do Estado na última sexta-feira para análise jurídica.
Só depois do parecer vai ser anunciado se o pagamento ocorrerá e como será feito.
A aposentadoria dos ex-governadores no Paraná hoje é de R$ 24,8 mil, com direito a 13 pagamentos por ano. Caso o senador conseguisse receber as 65 mensalidades que solicitou pelo valor atual, receberia R$ 1,6 milhão.
Isso seria suficiente para quase dobrar o seu patrimônio pessoal. Na última eleição que disputou, em 2006, Alvaro afirmou, à Jus tiça Eleitoral, possuir um patrimônio de R$ 1,9 milhão.
*Celso Jardim com Gazeta do Povo

CRUCIFIXÃO – de joão batista do lago / são luis



Lavo, pois, minhas mãos,

Ieshua Ha-Nozri.

Tu és o único culpado.

Tua muda palavra

Caluda no palco das

Crucificações não te liberam do

Veredito que me impões tomá-lo.

Aceito, pois, tua condenação eterna:

Teu algoz não o sou…

Teu algoz – o povo que hoje te adora e me condena! –

Deblatera orações nas igrejas dos miseráveis e

Libera, como loucos insaciáveis,

Suas dores em terços de rosários,

Onde cultivam pedaços de céus nas litanias dos falsários.

Em meu favor, apenas a água benta e santa!

Somente ela é sabedora da minha eterna dor:

Carrego nos ombros o peso de condenar-Te.

Mas preferiram-Te – a Ti – que ao ladrão…

Eu, sim, sou o crucificado, não o condenador.

E no dia do Teu retorno presta um favor a toda essa multidão:

Desfaz toda essa confusão sobre tua condenação.

P Á S S A R O S – por jorge lescano / são paulo


 

Brisa de abril

como flechas de sombras

os pássaros voltam.

 

água dos pássaros. Frase vinda de outro lugar ou tempo, palavras cujo eco chega sem antes nem depois. Palavras sem destino à procura de suas origens? Às vezes Suécia, Noruega ou Dinamarca, às vezes nada. E cada palavra é um fato: palavra pássaro ou nós. Anoto a frase quando possível, ou as circunstâncias em que aparece. Em algumas ocasiões – nem sempre: o vôo é rápido -, ponto de partida para frases impensadas se aninhando em torno dela, ou prolongando seu vôo, mesmo quando em direção oposta: cada pássaro é um universo de plumas e cores e vôos e gritos alheios ao virtual ouvinte, livres por tanto. Talvez a frase tenha algum sentido antigo oculto na memória ou na tensão dos nervos, significado a ser desvendado pelo desenrolar do texto que origina. Percebo o vôo como a porta de um labirinto imaginário e cuja construção só poderá ter a finalidade de justificar a porta. Talvez a migração destas palavras seja apenas um pretexto para o vôo solitário (meu e talvez teu), ou este seja uma forma de nos fazer ver o espaço circundante: sombra na página em branco e pote de água para pássaros mas sem pássaros à vista, porém sempre possíveis: palavras em vôo dispersas na superfície do papel: grafismos sem outra função que a de existirem, como quem as anota e/ou lê rapidamente, antes de fugirem: pássaro nunca imóvel. Depois do eco, a contemplação e a procura de outro significado: outras palavras?, pois o vôo não fica gravado no espaço. E se fica, o que desenha? Palavras manuscritas: garras na neve do pensamento: lago virgem antes do pouso. Adejar de palavras: sons, grafismos, conceitos relativos: vôos incompletos e ao mesmo tempo auto-suficientes. Por isso: deixar agora que o texto seja um vôo anárquico apenas para nós por uma vez deixá-lo debandar sobre a rigidez geométrica do plano e ainda que só encontre sentido entre nossos iguais que seu vôo adquira forma no barro de nossos pensamentos sabendo que seu pouso é uma escolha e não a razão do seu ser-pássaro sempre aquém e/ou além da mirada à margem do silêncio inapreensível forma em branco que não se diz e que talvez voe rasante sobre a tua e a minha pele

 

 

Deus ‘quer’ wi-fi grátis, onipresente e sem senha, diz ícone do software livre

 

John Hall, da Linux International, participou de evento na Campus Party.
Segundo ele, é possível fazer dinheiro usando hardware e software livres.


Jon 'Maddog' Hall, durante palestra na Campus PartyJon ‘Maddog’ Hall, durante palestra na Campus Party 2011 (Foto: Daigo Oliva/G1)

Uma das figuras mais importantes do movimento que defende o uso de software livre participou da Campus Party 2011 nesta quarta-feira (19) para convencer as pessoas loucas por tecnologia a usarem seu conhecimento para ajudar os outros. Jon Hall, que há anos luta para se livrar do apelido “Maddog” (em inglês, “cachorro louco”), defendeu ainda a distribuição gratuita de internet via wi-fi nos grandes centros urbanos.

“Internet sem fio livre, que não precisa de senha e de termos. Foi assim que Deus entendeu que a internet deveria ser”, afirmou o atual diretor-executivo da Linux International. No evento, Hall voltou a falar no Projeto Cauã, apresentado em julho de 2010 na última Feira Internacional do Software Livre (fisl) em Porto Alegre. O projeto tem como objetivo criar computadores simples e baratos, conhecidos com “thin clients”, para democratizar o acesso à informação.

“Eu fui vendedor de sistema de computação para levar os computadores para as pessoas. Mas vocês são muito ‘geek’. Vocês ficam tão focados na tecnologia que se esquecem de algumas coisas, como tomar banho”, brincou Maddog.

Durante a palestra, ele explicou como é possível ser um empreendedor e fazer dinheiro usando hardware e software livres. “No Brasil, a internet não está tão longe das pessoas que não tem acesso. Eu quero mostrar como todo mundo pode ter internet”, disse.

Segundo “Maddog”, essas pessoas poderiam usar dispositivos de acesso baratos e buscar informação e treinamento para conseguir um novo emprego. “Eu quero criar milhões de empregos, criar computadores mais sustentáveis e fáceis de usar. Nós achamos fáceis porque somos ‘geeks’ e gostamos se sofrer”.

Laura BrentanoDo G1, em São Paulo.

19/01/2011 15h15 – Atualizado em 19/01/2011 15h15

MINISTRO GILMAR MENDES cria confusão desnecessária ou com objetivos “ocultos” com os suplentes da Câmara Federal

19/01/2011 – 07h00

STF provoca confusão com suplentes

Uma decisão tomada no ano passado abre dúvida sobre quem assumirá como deputado no lugar daqueles que saíram para ser secretários ou ministros. A decisão do Supremo pode modificar um critério que é usado há décadas

 

Para David Fleischer, Gilmar Mendes não entendeu como funciona o sistema de eleição dos deputados no país

 

Em dezembro do ano passado, os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) determinaram que a Câmara dos Deputados empossasse o primeiro suplente do partido, e não da coligação, no lugar do ex-deputado Natan Donadon (PMDB-RO), que havia renunciado ao mandato. A decisão, em caráter liminar, instalou dúvidas jurídicas e suscitou críticas ao STF. Isso porque pode modificar a composição das bancadas federais, já que pelo menos 41 parlamentares se licenciarão para assumir secretarias e ministérios. Se prevalecer a decisão do STF, as vagas serão preenchidas de uma forma diferente da que a Câmara vem usando há cinco décadas. Um critério que está sendo usado agora, para empossar suplentes que entram nas vagas dos atuais parlamentares, como, por exemplo, o deputado José Eduardo Cardozo (PT-SP), que assumiu o Ministério da Justiça.

A confusão se dá porque suplentes estão entrando no STF pedindo que a mesma decisão tomada no caso de Natan Donadon os favoreça. Até o momento, dois suplentes entraram no STF com mandados de segurança pedindo para serem declarados como primeiro suplente. Desta maneira, assumiriam o mandato de deputado federal logo após os titulares dos cargos se afastarem para atuar no Executivo. O último deles foi Carlos Victor da Rocha Mendes (PSB). Com 27.286 votos, ele foi diplomado pelo Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro (TRE-RJ) como segundo suplente da coligação formada pelo PSB e pelo PMN.

Ele quer que o Supremo conceda uma liminar para entrar na vaga deixada por Alexandre Cardoso (PSB), eleito deputado federal e confirmado por Sérgio Cabral para a Secretaria de Ciência e Tecnologia do Rio de Janeiro. Pela regra usada pela regra, que determina que toma posse o suplente mais votado da coligação eleita, quem assume no lugar de Alexandre Cardoso é Alberto Lopes, do PMN.

Além dele, também entrou no Supremo e espera o recesso do Judiciário acabar o suplente Humberto Souto (PPS-MG). O caso dele é o mesmo de Rocha Mendes. Ele quer ficar na vaga de Alexandre Oliveira (PPS-MG), eleito deputado e que tomou posse como secretário de Gestão Metropolitana do governo mineiro. No mandado de segurança, Souto usa como argumento parte da decisão do STF em dezembro. Ele argumenta que os efeitos da coligação cessam com o fim das eleições. A partir daí o que vale, na visão do suplente, é o desempenho do partido.

“O ministro não entendeu”

A lógica da maioria dos ministros do STF contraria o que está previsto no Código Eleitoral. Nele, está a previsão de que, para as eleições, as coligações equivalem a um partido político. “Isso indica que o ministro não entendeu como funcionam as coligações para as eleições proporcionais”, disparou o cientista político da Universidade de Brasília (UnB), David Fleischer. Ele se referiu ao voto do ministro Gilmar Mendes, relator do caso no Supremo que abriu toda a polêmica.

No dia 9 de dezembro do ano passado, os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) concederam liminar em Mandado de Segurança (MS 29988) impetrado pela Comissão Executiva do Diretório Nacional do PMDB e determinaram que a vaga decorrente da renúncia do deputado Natan Donadon (PMDB-RO),  ocorrida no último dia 27 de outubro, seja ocupada pela primeira suplente do partido, Raquel Duarte Carvalho. Pelo critério da coligação, quem deveria ter tomado posse era Agnaldo Muniz. Mas havia uma particularidade no caso dele. Quando Donadon renunciou, Agnaldo Muniz já não estava mais filiado ao PP, o partido que se coligara ao PMDB nas eleições de 2006.

Mendes, no seu voto, disse que a jurisprudência, tanto do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) quando do STF, é firme no sentido de que o mandato parlamentar conquistado no sistema eleitoral proporcional pertence ao partido. Como base, ele usou a resolução do TSE que regulmentou a fidelidade partidária. A norma estabelece que o mandato pertence à legenda, e não ao candidato. Em segundo lugar porque a formação de coligação é uma faculdade atribuída aos partidos políticos para disputa do pleito, tendo caráter temporário e restrito ao processo eleitoral. O problema, na opinião dos que divergem da decisão dos ministros, é que a relação dos suplentes no caso da Câmara obedece a um resultado eleitoral: eles são os mais bem votados logo abaixo daqueles que foram eleitos deputados. Se a coligação foi usada no cálculo da escolha dos titulares, logicamente deve ser usada também no caso do suplentes.

Queda de braço

“A coligação foi feita lá atrás, espero que essa decisão do STF seja revista”, afirmou o deputado Augusto Carvalho (PPS-DF). Eleito federal em 2006, não conseguiu a reeleição na eleição passada. Acabou ficando como segundo suplente na coligação entre PPS e PT. Como dois petistas fazem parte do governo de Agnelo Queiroz (PT) – Geraldo Magela e Paulo Tadeu –, ele deve assumir o mandato após a posse dos eleitos.

No entanto, se o Supremo confirmar o entendimento de que deve assumir o primeiro suplente do partido, e não da coligação, Carvalho pode perder o cargo. O parlamentar, que chegou a ser secretário de Saúde no governo de José Roberto Arruda (ex-DEM), pode ser substituído por João Maria, petista que obteve 2.199 votos em outubro passado, cerca de 16 mil a menos do que Augusto (18.893).

Augusto tem confiança que a Câmara mantenha o entendimento do caso de Natan Donandon. Ao receber a decisão do Supremo, o vice-presidente da Casa, Marco Maia (PT-RS), enviou a decisão para ser analisada pelo corregedor ACM Neto (DEM-BA). A Mesa Diretora, com base em relatório feito pelo demista, decidiu cumprir a determinação do STF. No entanto, resolveu que ela só valeria para o caso específico, não passaria a ser usada como regra para os demais, a não ser que eles também entrassem na Justiça. Ou seja: a decisão da Câmara pode estabelecer uma queda de braço com o Supremo, caso ele mantenha a decisão ao julgar outras ações.

“Se a decisão do STF for estendida aos outros casos, isso vai desvirtuar o processo eleitoral brasileiro, pois as coligações, na prática, anulam individualmente os partidos e têm efeitos que vão até depois das eleições. Não vejo como o Supremo poderia mudar esse entendimento, que é histórico”, disse o corregedor da Câmara no seu relatório. A decisão da Casa ocorreu em 1º de janeiro, logo após a posse de Dilma Rousseff como presidenta da República.

Um dos pontos do relatório de ACM Neto é que os efeitos das coligações duram toda a legislatura. Afinal, o quociente partidário foi calculado com base na votação da união dos partidos nas eleições. “Permitir que as coligações tenham efeito para a formação do quociente partidário e, depois, cassar dos partidos que a compuseram até mesmo o direito à suplência gera situações profundamente iníquas em relação às siglas coligadas e ao eleitorado”, apontou o deputado baiano.

“Idiota”

David Fleischer não poupa o Supremo, na decisão que considera totalmente equivocada. Para ele, a postura do STF foi “idiota e pontual”. No entendimento do cientista político da UnB, a interpretação da Câmara, diante da confusão, foi correta. Ele vislumbra, no caso, uma boa oportunidade para os parlamentares apresentarem um projeto de reforma política que acabe com divergências do tipo. Porém, lembra que os deputados tiveram outras oportunidades, como na resolução que regulamentou a fidelidade partidária. “Naquela oportunidade, a Câmara se mostrou inábil. A mesma coisa deve acontecer agora”, opinou Fleischer.

Em entrevista à Agência Câmara, o ex-ministro do STF Carlos Velloso avalia que um precedente importante foi aberto para futuras manifestações do tribunal. “A decisão do Supremo está correta, pois se o mandato pertence ao partido é o suplente do partido que deve assumir, mas foi aberto um precedente sério e isso deverá levar outros partidos a pleitearam o mesmo”, declarou. Há duas semanas, a vice-presidente do TSE, ministra Cármen Lúcia, afirmou em Belo Horizonte que a corte eleitoral deve iniciar os trabalhos deste ano resolvendo as divergências sobre a nomeação de suplentes na Câmara dos Deputados e nas assembleias legislativas.

Mario Coelho.

A DEMOCRACIA CHEGA ÀS CASERNAS, a contragosto dos DEMos e OUTROS facistas de plantão.

Comandante Dilma


17 jan 2011 – 07:15

O general Enzo Martins Peri, comandante do Exército, disse o seguinte em entrevista à revista Veja: “A presidente Dilma Rousseff foi eleita pelo povo de maneira legítima. É ela quem exerce o comando supremo das Forças Armadas. É a Dilma que prestamos continência”.

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é necessário afirmar que, com raras exceções, as gerações de oficiais das forças armadas, posteriores aos militares da metade do século passado, tem formação democrática e por isso elevou a moral e o respeito na caserna. os generais golpistas, aqueles que tinham contato estreito com os EUA em razão da II guerra mundial, não conseguiram fazer escola que pudesse envolver as novas gerações que  analisaram, com clareza, a participação das forças armadas no período da ditadura pós 1964.

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Banda Foreplay se apresenta no Centro Europeu / curitiba


Curitiba, 18/01/2011 – Nesta quinta-feira, dia 20 de janeiro, o Centro Europeu de Curitiba irá apresentar mais uma atividade da programação especial que conta com atrações musicais, exposições de arte, oficinas e workshops. A banda Foreplay, velha conhecida da noite curitibana, será a atração do dia e comanda um Pocket Show na sede da escola (Rua Brigadeiro Franco – 1700), a partir das 18h. Formada no ano de 2003, a banda é composta pelos músicos Leandro Bandeira (Voz), Julian Barg (Violão), Claudio Jardim (Baixo) e Lucio Trombini (Bateria). A entrada para a apresentação é gratuita. Mais informações pelo telefone (41) 3222-6669 ou no site www.centroeuropeu.com.br.

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MAYARA PETRUSO, SERRA, TUCANOS e DEMOS tem ódio de pobre e gostariam que os nordestinos voltassem para o nordeste ! (CULTURA)


Nordestinos são vítimas de preconceitos

na internet

Ter, 02 de Novembro de 2010

A estudante de direito paulista, Mayara Petruso decidiu manifestar sua insatisfação pela vitória de Dilma Rousseff (PT), nas eleições, com a divulgação de mensagens preconceituosas com relação à população nordestina.

As mensagens geraram polemicas após serem postadas no Twitter e no Facebook da estudante, mas após perceber o alcance delas foram deletadas imediatamente.

De acordo com as opiniões de Mayara, os nordestinos não tem condições de votar, pois são analfabetos e incompetentes. “Nordestisto não é gente. Faça um favor a SP: mate um nordestino afogado!”, afirmou em uma das mensagens no twitter.  “Afunda Brasil. Dêem direito de voto pros nordestinos e afundem o país de quem trabalha pra sustentar os vagabundos que fazem filhos pra ganhar o bolsa 171”, escreveu em seu Facebook.

As declarações da estudante se espalharam pela internet e a hastag #nodestisto – escrito incorretamente,apareceu nesta segunda-feira (1º), como a terceira palavra mais comentada pelos usuários do Twitter, de acordo com o Trending Tropics brasileiro.

Apesar de repugnar esses atos lamentáveis, não apenas na internet, mas na sociedade como um todo e muitas pessoas compartilham da opinião da Mayara. De acordo com a lei nº 7.716/89, da Constituição Federal, crimes como estes podem acarretar em até três anos de prisão.

Muitos twitteiros chegaram a fazer um movimento contra a jovem e outros paulistas que responsabilizaram o Nordeste pelo resultado das eleições, com a criação da hastag, o #orgulhodesernordestino e do perfil @nordestisto, com forma de ironizar as críticas aos nordestinos.

 

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DEFESA:

Não parece justo que Mayara seja demonizada como paulista racista, quando o mote da campanha eleitoral foi o da oposição entre as regiões

Sou neta de nordestinos, que vieram para São Paulo e trabalharam muito para que, hoje, eu e outros familiares da mesma geração sejamos profissionais felizes com sua vida neste grande Estado brasileiro.

É muito triste ler a frase da estudante de direito Mayara Petruso, supostamente convocando paulistas a afogar nordestinos.

Também é bastante triste constatar a reação de alguns nordestinos, que generalizam a frase de Mayara a todos os paulistas.

Igualmente triste a rejeição sofrida pelo candidato da oposição à Presidência da República, muito em função de ele ser paulista. Todos ouvimos manifestações no sentido de que, tivesse sido Aécio Neves o candidato, Dilma teria tido mais trabalho para se eleger.

Independentemente da tristeza que as manifestações ofensivas suscitam, e mais do que tentar verificar se a frase da jovem se “enquadraria” em qualquer crime, parece ser urgente denunciar que Mayara é um resultado da política separatista há anos incentivada pelo governo federal.

É o nosso presidente quem faz questão de separar o Brasil em Norte e Sul. É ele quem faz questão de cindir o povo brasileiro em pobres e ricos. Infelizmente, é o líder máximo da nação que continua utilizando o factoide elite, devendo-se destacar que faz parte da estigmatizada elite apenas quem está contra o governo.

Ultrapassado o processo eleitoral, que, infelizmente, aceitou todo tipo de promessas, muitas das quais, pelo que já se anuncia, não serão cumpridas, é hora de chamar o Brasil para uma reflexão.
Talvez o caso Mayara seja o catalisador para tanto.

O Brasil sempre foi exemplo de união. Apesar das dimensões continentais, falamos a mesma língua.

Por mais popular que seja um líder político, não é possível permitir que essa união, que a União, seja maculada sob o pretexto de se criarem falsos inimigos, falsas elites, pretensos descontentes com as benesses conferidas aos pobres e aos necessitados.

São Paulo, é fato, é fonte de grande parte dos benefícios distribuídos no restante do país. São Paulo, é fato, revela-se o Estado mais nordestino da Federação.

Nós, brasileiros, não podemos permitir que a desunião impere. Tal desunião finda por fomentar o populismo, tão deletério às instituições no país.

Não há que se falar em governo para pobres ou para ricos. Pouco após a eleição, a futura presidente já anunciou o antes negado retorno da CPMF e adiou o prometido aumento no salário mínimo. Não é exagero lembrar que Getulio Vargas era conhecido como pai dos pobres e mãe dos ricos.

Não precisamos de pais ou mães. Não precisamos de mais vitimização. Precisamos apenas de governantes com responsabilidade.

Se, para garantir a permanência no poder, foi necessário fomentar a cisão, é preciso ter a decência de governar pela e para a União.

Quanto a Mayara, entendo que errou, mas não parece justo que seja demonizada como paulista racista, quando o mote dado na campanha eleitoral foi justamente o da oposição entre as regiões.

Se não dermos um basta a esse estratagema para manutenção no poder, várias Mayaras surgirão, em São Paulo, em Pernambuco, por todo o Brasil, e corremos o risco de perder o que temos de mais característico, a tolerância. Em nome de meu saudoso avô pernambucano, peço aos brasileiros que se mantenham unidos e fortes!

*JANAINA CONCEIÇÃO PASCHOAL, advogada, é professora associada de direito penal na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo.

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COMENTÁRIO:

Racismo às avessas

Lendo as absurdas argumentações da professora Janaina Paschoal “Em defesa da estudante Mayara”, lembrei que grandes pesquisadores do racismo e preconceito no Brasil, como Roger Bastide e Florestan Fernandes, denunciaram a lógica da inversão. Graças a ela, não apenas não somos racistas, como, ademais, tudo que acontece é culpa da vítima. Se não fossem os negros, os nordestinos, os pobres, as prostitutas, os homossexuais, se Lula não fosse presidente, a estudante Mayara não teria cometido o destempério de pedir o assassinato de ninguém e tampouco teria sido demonizada. Coitadinha dela!

Heloísa Fernandes, professora associada de Sociologia da Faculdade de Filosofia da Universidade de São Paulo (São Paulo, SP)

viomundo.

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Garota que ofendeu nordestinos some da internet e da faculdade
Mayara

A estudante Mayara Petruso, que bem gostaria de levantar uma muralha para separar o Nordeste do restante do país, por ironia, nasceu no mesmo ano em que os alemães puseram abaixo o Muro de Berlim e a saudade que separava um mesmo povo entre capitalistas e comunistas – 1989.

Depois dos comentários preconceituosos feitos na internet, Mayara sumiu na mesma velocidade com que excluiu seus perfis nas redes sociais. Na madrugada de segunda, logo após a eleição de Dilma Rousseff (PT), ela pregou a morte de nordestinos no twitter. “Nordestino não é gente. Faça um favor a SP: mate um nordestino afogado”, escreveu.

A repercussão negativa das declarações fez Mayara se esconder. Desde o episódio, ela não aparece na Faculdades Metropolitanas Unidas (FMU), em São Paulo, onde cursa, à noite, o sexto semestre de Direito. Segundo a assessoria da instituição, os alunos não realizaram manifestações nem de apoio nem de repúdio à estudante.

Família

Mayara Penteado Petruso, 21 anos, faz parte de uma família tradicional, de origem italiana, do município de Bragança Paulista, a 90 quilômetros de São Paulo. Ela é filha caçula do empresário Antonino Petruso, que herdou uma rede de supermercados do pai, Salvatore.

A estudante é fruto do segundo casamento de Antonino com Mayara Coreno Penteado. Antes, ele vivia com Hermengarda Puccinelli, de origem italiana.

Ele teve duas filhas da ex-mulher, a advogada Bárbara Maria Puccinelli Petruso, 26 anos, e a estudante Carolina Maria Puccinelli Petruso, 23 anos. O CORREIO telefonou para o escritório de Antonino em Bragança, mas ele está em São Paulo com a filha.

Mayara deixou Bragança para ir morar no bairro da Liberdade, reduto paulistano da população de ascendência oriental, e cursar Direito na Universidade São Francisco, em Pari, Zona Leste de São Paulo. Após dois anos e meio, ela transferiu-se, neste semestre, para a FMU.


O ÓDIO plantado pelos “TUCANOS e DEMOS” durante a campanha presidencial resultou nisto:

Ah, se fosse nos Estados Unidos…

Essa turma aí tem sorte de viver no Brasil.

Nos Estados Unidos, onde essa coisa é levada a sério, hoje estariam todos se explicando ao FBI…

Para ver mais, aqui (dica da Ana Paula Siqueira, via Facebook).

O machão acima, Walter Edward Bagdasarian, pegou dois meses de cana e dois anos de sursis por escrever num blog do Yahoo, sobre Obama: “Fuck the nigger, he will have a 50 cal in the head soon”. O Serviço Secreto soube da ameaça e foi bater na porta dele. Na hora agá, chorou diante do juiz pedindo clemência…

PS do Viomundo: A foto que ilustra a capa é de Daniel Cowart, que vai pegar entre 15 e 18 anos de prisão por ameaçar Obama.

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Trinta milhões de eleitores de boa fé acreditaram nas mentiras, calúnias, preconceitos e ódios semeados pelo Serra, PSDB e DEMOS.

O que você leu, acima, é a colheita no seio da nossa juventude, que não tem a menor idéia de quem sejam Dilma ou Serra.

São apenas fantoches, do ódio disseminado, que reproduzem o que os “caciques” diabólicos programam.

Gostaria de ver a cara de um pai ou mãe de um desses jovens após ler o “recadinho” do querido filho no twiter.

É provavel que “as crianças” tenham sido incentivados pelos próprios pais, se foram, não haverá orçamento suficiente para saciar a sede de locupletação.

A cachoeira ( O que farão os poetas quando todas as combinações de palavras tiverem sido usadas?) – por omar de la roca / são paulo

 

Tenho ouvido muito sobre a morte das palavras,de palavras que secaram, de poetas que se perderam ou que perderam as palavras.Não posso falar por todos,cada um tem o seu problema.Mas posso dizer que nem as palavras morreram,nem os poetas se perderam ( mas podem estar confusos ) e nem perderam as palavras ( sentaram-se apenas num canto do caminho esperando uma hora que o sol não esteja tão forte).Pode ser que me perguntem como posso ter certeza.Podem ser que não acreditem,mas encontrei a fonte das palavras.Mais corretamente,uma  cachoeira de palavras.Com certeza não deve ser o único manancial,mas com certeza o encontrei e passo a descrever o lugar em seguida.Depois de três quilômetros montanha acima,cheguei numa pequena fazenda. Havia um pequeno portão que levava a um caminho ladeado por hortênsias azuis e enormes plátanos. Mais para a frente a esquerda um pequeno lago sobre o qual se debruçava um salgueiro , escrevendo com seus dedos preguiçosos poesias na superfície do lago. Quando o vento soprava forte, levantava sua cabeça e sacudia os longos cabelos sorrindo. Passando por ele, um espaço aberto onde se via a entrada do caminho que leva a cachoeira. Era um caminho que precisava cuidado. Era um caminho essencialmente individual. Nada proibia que ajudássemos uns aos outros, já que as pedras estão quase sempre úmidas. Pelo caminho cruzei com alguns poetas que descansavam sentados na grama , sem pressa para seguir ate a cachoeira. Comecei a descer o caminho devagar. Havia curvas encharcadas de água, e pedras traiçoeiras. Poucos apoios havia pelo caminho onde pudesse me segurar. Mas segui em frente que já ouvia o som da cachoeira. Não era um som que eu esperava ouvir. Parecia que mil vozes falavam ao mesmo tempo, mil palavras diferentes, mil línguas de fogo.Continuei descendo pelas pedras animado. Enfim cheguei ate um lugar onde podia observar um trecho da queda d’agua.Não toda, pois o terreno era irregular e ela muito grande.Parei um pouco e fechei os olhos para ouvir melhor.Ouvi palavras doces,agressivas,de desencanto, de esperança, palavras de amor, de ilusão, palavras que cantam,  que desencantam, enganadoras, sinceras,ásperas ( que eram altas ), de fé, palavras de cansaço, de entusiasmo,de exaustão.Palavras de espera, de cansaço de esperar, de ingenuidade, de resignação, de revolta, de inconformismo , de ação, de reação, de choro, de tristeza, de histeria, aflição, de riso , de dissimulação, de surpresa. Palavras de areia e de cinzas de gelo e fogo. De sacrifícios inúteis, de longas preparações para algo que nunca acontecerá. Palavras prolixas,sublimes,eróticas, satíricas.Palavrastodaspalavras . Que davam as mãos ao cair apenas para se separar ao chegar ao solo. Mas não. Era o meio da cachoeira.Ela continuava seu caminho tranqüilo até mergulhar na terra e seguir adiante.Desci mais um pouco até um pequeno remanso onde as palavras boiavam com os bracinhos atrás da cabeça, antes de se precipitarem mais a frente.Ouvi ainda palavras de gozação, de riso dissimulado,de rostos virados, de comentários inconseqüentes. Palavras displicentes, engraçadas , de falta, de abuso, de pena, de como podia ter sido, de solidão , de compaixão.Abri bem os olhos e a cachoeira ainda estava ali.Palavras de ventos e calmarias, de pássaros, folhas, borboletas.De natureza, de terremotos, vendavais.Fartei-me de palavras.Fartei-me.Estão todas dentro de mim esperando para sair.Tomara eu não arrebente,ou arrebente aos poucos,deixando sair toda aquela caudalosa corrente.Enquanto a cachoeira segue seu caminho plácido entre as plantas,pedras,correndo célere para o mar.

 

BBB 11, ética pelo ralo – por washington araújo / são paulo

O formato é o mesmo já consagrado pelo público e pelos anunciantes: invasão de privacidade com a venda de corpos quase sempre sarados, bronzeados e bem torneados e com a exposição de mentes vazias a abrigar ideias que trafegam entre a futilidade e a galeria de preconceitos.



No dia 11/1/201 a TV Globo levou ao ar seu programa de maior audiência no verão brasileiro: Big Brother Brasil 11. Sucesso de público, sucesso de marketing, sucesso financeiro, sempre na casa dos milhões de reais. Fracasso ético, fracasso de cidadania, fracasso de respeito aos direitos humanos fundamentais.

O prêmio será de R$ 1,5 milhão para o vencedor. O segundo e terceiro lugares levam, respectivamente, R$ 150 mil e R$ 50 mil. As inscrições para a próxima edição do BBB já estão encerradas. Ao todo, nas dez edições, foram 140 participantes. E já foram entregues mais de R$ 8,5 milhões em prêmios. Balanço raquítico, tanto numérico quanto financeiro para seus participantes, para um programa que se especializou em degradar a condição humana.

Aos 11 anos de existência, roubando sempre 25% do ano (janeiro a março) e agora entrando na puberdade como se humano fosse, o BBB começa anunciando que passará por mudanças na edição 2011. Se você pensou que as mudanças seriam para melhorar o que não tem como ser melhorado se enganou redondamente. O formato será sempre o mesmo, consagrado pelo público e pelos anunciantes: invasão de privacidade com a venda de corpos quase sempre sarados, bronzeados e bem torneados e com a exposição de mentes vazias a abrigar ideias que trafegam entre a futilidade e a galeria de preconceitos contra negros, pobres, analfabetos funcionais.

Após dez anos seguidos, sabemos que a receita do reality show inclui em sua base de sustentação as antivirtudes da mentira, da deslealdade, dos conluios e… da cafajestagem. Aos poucos, todos irão se despir de sua condição humana tão logo um deles diga que “isto aqui é um jogo”. Outros ensaiarão frases pretensamente fincadas na moral: “Mas nem tudo vou fazer para ganhar esse jogo.”

Como miquinhos amestrados, os participantes estarão ali para serem desrespeitados, não poucas vezes humilhados e muitas vezes objeto de escárnio e lições filosóficas extraídas de diferentes placas de caminhões e compartilhadas quase diariamente pelo jornalista Pedro Bial, ao que parece, senhor absoluto do reality show. Não faltarão “provas” grotescas, como colocar uma participante para botar ovo a cada trinta minutos; outra para latir ou miar a cada hora cheia; algum outro para passar 24 horas de sua vida fantasiado de bailarina ou para pular e coaxar como sapo sempre que for ativado determinado sinal acústico. O domador, que terá como chicote sua lábia de ocasião ou nalgumas vezes sua língua afiada, continuará sendo Pedro Bial que, a meu ver, representa um claro sinal de como as engrenagens que movem a televisão guardam estreita semelhança com aqueles velhos moedores de carne.

O último a sair da jaula
É inegável que Bial é talentoso. É inegável que passou parte de sua vida tendo páginas de livros ao alcance das mãos e dos olhos. É inegável também que parece inconsciente dos prejuízos éticos e morais que haverá de carregar vida afora. Isto porque a cada nova edição do reality mais se plasmam os nomes BBB e Pedro Bial. E será difícil ao ouvir um não lembrar imediatamente o outro. Porque lançamos aqui nosso nome, que poderá ter vida fugaz de cigarra ou ecoará pela eternidade. Imagino, daqui a uns 25 anos, em 2035, quando um descendente deste Pedro for reconhecido como bisneto daquele homem engraçado que fazia o Big Brother no Brasil. E os milhares de vídeos armazenados virtualmente no YouTube darão conta de ilustrar as gerações do porvir.

E, no entanto, essas quase duas dezenas de jovens estarão ali para ganhar fama instantânea, como se estivessem acondicionados naqueles pacotinhos de sopa da marca Miojo. Imagino cada um deles a envergar letreiro imaginário a nos dizer com a tristeza possível que “Coloco à venda meu corpo sem alma, meu coração quebrado e minha inteligência esgotada; vendo tudo isso muito barato porque vejo que há muita oferta no mercado”. E teremos aquele interminável desfile de senso comum. Afinal, serão 90 dias de vida desperdiçada, ou melhor, de vida em que a principal atividade humana será jogar conversa fora. O que dá no mesmo. E não será o senso comum exatamente aquele conjunto de preconceitos adquiridos antes de completarmos 15 anos de vida?

Friederich Nietzsche (1844-1900) parecia ter o dom da premonição. É que o filósofo alemão se antecipava muito quando se tratava de projetar ideias sobre a condição humana. É dele esta percepção: “O macaco é um animal demasiado simpático para que o homem descenda dele”. Isto porque Nietzsche foi poupado de atrações quase sérias e semi-circenses, como o BBB. No picadeiro, o macaco é aplaudido por sua imitação do humano: se equilibra e passeia de triciclo e de bicicleta, se veste de gente, com casaca e gravata, sabe usar vaso sanitário, descasca alimentos. No picadeiro do BBB, os seres humanos são aplaudidos por se mostrarem intolerantes uns com os outros, se vestem de papagaios, ladram, miam, coaxam, zumbem – e tudo como se animais fossem. Chegam a botar ovo em momento predeterminado. Se vestem de esponja e se encharcam de detergente a limpar pratos descomunais noite afora.

Em sua imitação de animal, o humano que se sobressai no BBB é aquele que consegue ficar engaiolado – digo, literalmente engaiolado – junto com outros bípedes não emplumados – por grande quantidade de horas. E sem poder satisfazer as necessidades humanas básicas, muitas vezes tendo que ficar em uma mesma posição, como seriemas destreinadas. E são os únicos animais que demonstram imensa felicidade em permanecer por mais tempo na gaiola. Não lhes jogam bananas nem pipocas, mas quem for o último a sair da jaula semi-humana ganha uma prenda. Pode ser um passeio de helicóptero, pode ser um carro, pode ser uma noite na Marquês de Sapucaí.

Heidegger reconheceria
O leitor atento deve ter percebido que em algum momento deste texto mencionei que o BBB 11 terá mudanças. Nem vou me dar ao trabalho de editar. Eis o quecopiei do site G1:

“Boninho, diretor do BBB, falou em seu Twitter nesta quarta-feira, 24/11, sobre a nova edição do programa, a 11ª, que estreará em janeiro de 2011. E ele adianta que, desta vez, as coisas vão mudar. ‘Esse ano tudo vai ser diferente… Nada é proibido no BBB, pode fazer o que quiser’, postou Boninho em seu microblog. Questionado sobre o que estaria liberado no confinamento que não estava em edições anteriores, ele respondeu: ‘Esse ano… liberado! Vai valer tudo, até porrada’. Boninho também comentou sobre as bebidas no reality show: ‘Acabou o ice no BBB… Vai ser power… chega de bebida de criança’, escreveu.”

Não terá chegado a hora de o portentoso império Globo de comunicação negociar com o governo italiano a cessão do Coliseu romano para parte das locações, ao menos aquelas em que murros e safanões, sob efeito de álcool ou não, certamente ocorrerão? E como nada compreendo de Heidegger, só me resta dizer que ao longo de toda sua vida madura Heidegger esteve obcecado pela possibilidade de haver um sentido básico do verbo “ser” que estaria por trás de sua variedade de usos. E são recorrentes suas concepções quanto ao que existe, o estudo do que é, do que existe: a questão do Ser (i.e. uma Ontologia) dependente dos filósofos antes de Sócrates, da filosofia de Platão e de Aristóteles e dos Gnósticos.

Quem sabe tivesse assistido uma única noite do BBB – caso o formato da Endemol estivesse em cena antes de 1976 –, o filósofo, por muitos cultuado, não apenas teria uma confirmação segura de que não valia mesmo a pena publicar o segundo volume de sua obra principal, O Ser e o Tempo, como também haveria de reconhecer a inexistência de algo anterior ao ser. Mas, com certeza, se fartaria com a miríade de usos dados ao verbo “ser”.

Washington Araújo é jornalista e escritor. Mestre em Comunicação pela
UNB, tem livros sobre mídia, direitos humanos e ética publicados no Brasil,
Argentina, Espanha, México. Tem o blog http://www.cidadaodomundo.org

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BBB11: Ariadna confessa que foi garota de programa

“Saí de casa aos 14 anos”, diz a carioca

iG Gente16/01/2011 01:44

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Foto: Reprodução

Sisters ouvem com atenção a história de vida de Ariadna

Sentada para conversar com Janaina,Jaqueline e Paula, Ariadna confessou – durante a Festa Caliente que rolou na madrugada de domingo (16) –, que já trabalhou como garota de programa.
“A minha família sabe de tudo que eu faço”, disse a cabeleireira.

As sisters ouviram a história com muita atenção, interrompendo apenas para consolar a carioca, que chorou muito.

“Sai de casa aos 14 anos e tive de me virar de uma forma muito ruim. Não tive adolescência. Não tive amor de pai e muita rejeição de mãe”, continuou Ariadna.

 

Ela pediu que o trio guardasse segredo e recebeu o apoio de Janaina: “Não acho legal isso vazar para os homens”, se solidarizou a paulista.

E Jaqueline completou: “Essa é a oportunidade que Deus deu, para você nunca mais voltar a fazer isso”.

 

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BBB11: Maurício quer levar Maria para o quarto do líder

“Quero ser líder para levar a Maria para o quarto e pintar o sete”, diz o músico

iG Gente16/01/2011 06:21

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Maurício conversava com Rodrigão e Diogodurante a festa e comentou que não queria ter sido o primeiro líder do reality, por conta da falta de opção de votos: “Você só tem nove opções de voto de 17. É muito difícil escolher. Na prova, eu não quis ser o último para não virar líder”.

O músico ainda revelou que deseja conquistar o reinado para dormir com Maria: “Quero ser líder para levar a Maria para o quarto e pintar o sete”, afirmou o músico e Diogo comentou: “Ela tem uma personalidade forte. Eu acho que se tiver que rolar, ela vai topar”.

ESTE É O PADRÃO “GLOBO” DE CULTURA A SERVIÇO DO

DESMANCHE DO CÓDIGO DE NAÇÃO.

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matéria do IG postada pelo site.

PRESIDENTA DILMA, só um alerta: fique atenta aos passos deste milico frustrado (se fantasia de soldado sempre que pode), ele tem compromissos outros com “outros” – por l.garcia / porto alegre

O fato do LULA ter pedido para que DILMA mantivesse o JOHNBIM ( ele é um entreguista, um subalterno às vontades dos EUA), não está claro, imagino que tenha sido um agrado para com os militares. Não se sabe das razões, pois militar, ou civil, não dá mais golpe armado no país, não tem condições reais e o povo brasileiro  impediria massivamente.  Se algum risco há, de golpe, é  no tapetão  do judiciário, que continua sendo um templo de falsas vestais e que “dançam” para o Dantas ( aquele banqueiro e homem de negócios “honestos” que honram o país). É preciso abrir a “caixa preta” ( ou as contas bancárias?). Amiga, cuide-se, você está cheia de inimigos na trincheira.

 

 

caricatura de joão de deus netto. (NETTO)

O FAROESTE AO ALCANCE DE TODOS por josé inácio werneck / bristol. eua

O faroeste ao alcance de todos

 

Bristol (EUA) – Que país é este? Este é, como gostam de dizer os próprios americanos, “o líder do mundo livre”. The leader of the Free World. É uma linguagem cediça, adotada ao tempo da Guerra Fria, mas incessantemente repetida, talvez pelo prazer da bazófia, talvez como velada advertência a outros possíveis pretendentes.

Em um índice os Estados Unidos sem dúvida lideram por larga margem: o absurdo número de armas de fogo e não estou falando apenas em termos absolutos. Falo também em números proporcionais. Há nos Estados Unidos 90 armas de fogo para cada cem habitantes. Nove para cada dez habitantes. Você pode ter certeza de que, esteja você onde estiver, haverá um cidadão armado (ou uma cidadã armada) nas proximidades: nos supermercados, nos bancos, no cinema, na festinha de aniversário das crianças, no play-ground, no automóvel ao seu lado na rua, na Igreja onde todos supostamente vão pedir a paz do Senhor. A única vítima verdadeiramente inerme, inocente e indefesa na tragédia de Tucson foi a menina de nove anos.

A própria deputada Gabrielle Giffords, agora entre a vida e a morte, alardeava o fato de que era dona de “uma Glock nove milímetros e atiro muito  bem”. O juiz morto na chacina, que era católico devoto e todos os dias ia à missa, não apenas frequentava um clube de tiro, mas lá também matriculara sua esposa. Um dos neuro-cirurgiões que operaram a deputada é também sócio desta agremiação, o Pima Pistol Club.

Há, concomitantemente, desde a eleição de Barack Obama, um partido de lunáticos chamado Tea Party, liderado por uma roceira ínscia, de nome Sarah Palin, que distribuiu antes das últimas eleições folhetins em que distritos com candidatos democratas  a favor da Reforma da Saúde (como Gabrielle Giffords) eram identificados com uma mira telescópica.

Os Tea Partiers proclamam ser “originalistas”. Isto é, querem que a Constituição seja cumprida em seus termos originais. Se fôssemos adotar sua doutrina voltaríamos, de saída, ao tempo da escravidão e negaríamos às mulheres direitos iguais aos dos homens.

O tal Tea Party baseia-se num incidente, nos tempos coloniais, em que moradores em Boston atiraram ao mar um carregamento de chá, pois achavam que não estavam obrigados a pagar impostos requeridos pela Coroa Britânica, alegando que “não tinham representação” em Londres.

No taxation without representation, era seu grito de guerra. Os pacóvios do Tea Party aparentemente não percebem que hoje eles tem representação. São congressistas como Gabrielle Giffords que os representam em Washington e passam leis cobrando impostos ou reformando os planos de assistência médica.

A eleição de um negro – acusado de 1) ter falsificado sua certidão de nascimento e 2) ser ao mesmo tempo comunista, fascista e nazista – foi o estopim para que a mídia controlada pela extrema direita, especialmente a que está nas mão do  magnata Rupert Murdoch, da Rede Fox, passasse a desfechar uma virulenta campanha  contra o presidente legitimamente eleito do país. (O que, lembrem-se, não foi o caso de George W. Bush, o Presidente de Araque que atacou o Ditador do Iraque.)

Eu escrevi acima que os integrantes do Tea Party são lunáticos. Acrescento: são lunáticos grosseiros, violentos, ameaçadores. São liderados na televisão pelos medievais Glenn Beck e Bill O`Reilly, da rede Fox, enquanto na rádio, em cadeia nacional, de costa a costa, um troglodita chamado Rush Limbaugh, destila diariamente, ao longo de três horas, uma campanha de ódio e incitamento contra Barack Obama. Não é de admirar que um desequilibrado como Jared Loughner tenha resolvido colocar em ação o que tais figuras deixam subentendido em palavras.

Paro por aquí porque o telefone está chamando. Deve ser o Bat Masterson.

AINDA HÁ ESPERANÇAS por mauro santayana /são paulo



AS DUAS TRAGÉDIAS desta semana, a de Tucson e a da Serra do Mar, trazem, em todo o seu horror, a centelha da esperança. Os fatos do Arizona, embora tenham custado muito menos vidas, conduziam presságios piores.


Os desastres naturais, ainda que se devam, em parte, à imprevidência dos homens e dos estados, não podem ser imputados à vontade desse ou daquele agente. A vida é uma concessão fugaz de razões imperscrutáveis que fizeram surgir tempo e espaço e, neles, essa fantástica aventura da energia convertida em matéria e dotada da consciência de si mesma. As tempestades, os vulcões, terremotos, ciclones – e prováveis impactos de asteroides – escapam de nosso controle.  Diante deles, nossa impotência se converte em força e coragem, como nos revelam os belos atos de solidariedade destas horas de luto e pranto.


Nos Estados Unidos, embora de forma ainda tímida, começa a reunir-se a consciência da necessidade de convívio mais civilizado entre os interesses políticos e econômicos, que sempre se aproveitam dos piores sentimentos para impor-se à sociedade. Ali, a extrema-direita se move contra a assistência médica universal e os imigrantes pobres. O discurso de Obama, convocando a união, foi acolhido com respeito.


Mas o ódio que se construiu e se manifestou de forma quase absoluta, nos anos 30 e 40, está, mais uma vez, de volta, e ensandecido, como revelam os atos do Tea Party, de Sarah Palin, Karl Rove e Murdoch. Nos últimos 65 anos, depois que o Julgamento de Nuremberg espantou o mundo com a ideologia do Terceiro Reich, que juntava baderneiros aos grandes banqueiros, temos lutado, com algum êxito, contra a nova barbárie, mas não conseguimos dela nos livrar.


O ódio ao outro permanece, e sofremos em ver que, em alguns casos, as vítimas de ontem se transformam em cruéis perseguidores de hoje. Sim, pensamos na Palestina. Todos os homens teriam que visitar, pelo menos uma vez na vida, os campos de concentração que ainda restam de pé.


Mais do que isso: deveriam ser de leitura obrigatória os relatos dos sobreviventes desses espaços de ódio convertido em razões de estado. Um desses inquietantes depoimentos é o de Robert Antelme, La espèce humaine. A mais clamorosa de suas experiências foi descobrir, em um relâmpago da consciência, que os seus algozes pertenciam à mesma e única espécie humana.


“O reino do homem – diz Antelme – não cessa. Os SS não podem mudar nossa espécie. Eles mesmos são fechados na mesma espécie e na mesma história”. E em outro momento forte, Antelme, resistente francês – e não judeu – reduz o SS a um ponto minúsculo no sistema, “encerrado, ele também, dentro do arame farpado, condenado a nós, fechado dentro de seu próprio mito”.


O Brasil, representado pela decisão da chefe de Estado, se une na busca dos mortos e feridos nas encostas de Petrópolis, Teresópolis e Nova Friburgo. Todos os nossos recursos, humanos e materiais, serão empregados no Rio de Janeiro, de acordo com a decisão da presidente Dilma Rousseff. Essas providências, é certo, serão tomadas também nas áreas atingidas em outros estados, como os de São Paulo e Minas.


É mais fácil sepultar as vítimas dos desastres naturais do que as da bestialidade dos próprios homens. Os enviados para as câmaras de gás e os fornos crematórios dos lager nazistas – judeus, comunistas, eslavos, ciganos – continuam insepultos, ainda que convertidos em cinzas, como insepultos continuam os negros assassinados pela Ku-Klux-Kan, os líderes políticos como Gandhi e Allende, as vítimas de Tucson – e os brasileiros mortos em tempo que não se afasta de nossa memória dilacerada.


Apesar disso, não puderam assassinar a esperança. Enquanto formos capazes de remover os escombros, neles encontrar vidas, e chorar pelos estranhos, seremos também capazes de combater o ódio e as injustiças, para a salvação da nossa espécie.


 

UMA PROSA À MEIA-NOITE – por zuleika dos reis / são paulo


 

 

O pior cego é aquele que vê demais. Ver demais obscurece a visão, ao contrário do que imagina a nossa vã filosofia ou, para complicar um pouquinho mais, a nossa vã auto filantropia. Achar é estar distraído, isto é, não procurar ver demais para que não nos ataque a cegueira irremediável diante do real. Por sua vez, há cegos que veem muito além da conta, mas isso pertence a outro departamento ou a outra história como preferirem os que se estejam expondo à leitura desta prosa sem sentidos predispostos a serem tecidos no exato momento presente, ou melhor, destecidos, que isso mais parece um casaquinho de tricô com um ponto solto bem no meio e aí a tricotadeira se vê obrigada a desmontar metade das costas do casaquinho que já ia pelo meio. Não me perguntem nem se perguntem nada sobre o que esta bobagem toda está a dizer. Ela não pretende dizer nada: eu estava aqui, no vazio dos pensamentos ociosos, inúteis e, inutilidade por inutilidade, entrei no Recanto e me pus a escrever este “texto”, ao vivo e não em cores. Não exatamente a compor uma escrita automática – ora, vejam só que beleza esse “compor uma escrita automática”. Quem sou eu, quem me dera ausentar-me de mim o suficiente em alguma escrita automática. O que eu desejo é repartir um pouco dessa loucura noturna, a esmo, com algum pobre leitor que nela caia, ao acaso, como diz o título, e nela permaneça para ver se essa maluquice deságua em algum lugar minimamente aceitável. Poderia continuar a escrever indefinidamente, assim, sem razão qualquer, sem pausa, como a vida. Só porque pensei nisso parei um instante e me vou de novo por esse lago estagnado de palavras, simplesmente porque não tenho ânimo para telefonar a algum amigo, a algum ex-amante ou para o amor de toda a vida, mais perdido dentro de si mesmo do que este pobre texto aqui presente (?). Pobre texto meu, pobre amor meu, assim tão ausentes de si mesmos. Pobre leitor incauto, caindo nessa teia. Sorte dele é que a aranha está tão morta de cansaço que não tem forças para causar mal a quem quer que seja.

 

LUIZ CARLOS PRATES: “Nem a Globo segurou o inimigo do pobre que tem carro” vitória do povo catarinense que reagiu e da BLOGOSFERA que divulgou massivamente a proteção da RBS

ENFIM DEMITIRAM O ENERGÚMENO

Prates: o facista catarinense ( era gaúcho, foi expulso de lá) a serviço dos facistas catarinenses, remunerado, é claro, portanto, é militante contra si próprio, ou seja, ele é o pobre que anda de carro.

E os outros inimigos do pobre que tem carro e que usam e abusam do espaço PÚBLICO que a Globo explora comercialmente ?

Quando eles vão parar de manifestar o ódio ao pobre que anda de avião ?

Quando também esses vão preferir seus “projetos pessoais” ?

Clique aqui para ver o vídeo inesquecível: Prates ataca pobre que usa carro.

PHA/jbv

ANDREA BOCELLI e Anna Netrebko interpretam “BRINDISI” – LA TRAVIATA

dê UM clique no centro do vídeo:

ENRIQUE ROSAS PARAVICINO sobre MANOEL DE ANDRADE:


EL CANTOR PEREGRINO DE AMÉRICA (*)


Un proverbio chino dice que un largo viaje empieza con un simple paso. Este paso en la vida de Manoel de Andrade debió ser una palabra, una metáfora, un verso juvenil, algo que diera inicio a la gran aventura de su existencia: escribir y caminar, crear y peregrinar, versificar el dolor social  y recorrer los infatigables caminos de América. Como León Felipe, fue el viento áspero y testimonial de las injusticias de la tierra, pero además, el que proclama su fe en aquel tiempo nuevo que la historia reserva para los pueblos oprimidos. Poesía labrada en la lucha tenaz, macerada en lágrimas y enunciada con tono viril y desafiante a pesar de los tiranos, poesía esparcida por las tempestades andinas para que resuene en villorrios, ciudades, centros mineros, fábricas y comarcas campesinas. ¿De dónde salió Manoel de Andrade con esa misión que se impuso, como un apostolado laico, con una firme convicción que lo identifique como esencial entre los poetas de su generación? Salió de Curitiba, Paraná, la noble tierra brasileña que se arrulla con el eco cercano del Atlántico. Nació en un hogar proletario, se hizo hombre a golpe de esfuerzo y necesidad. Por algo en uno de sus poemas se define forjado en la dureza de las privaciones:



 

“Cuando me preguntan de qué vale un poeta en el mundo / yo contesto con mi canto de hijo proletario /  con mi infancia descalza ysin juguetes / con todos los niños del mundo que fui en mi estómago de agua”. (Tiempo de siembra).

En tal origen humilde ya estuvo el germen de una poética que proclamaba derechos y utopías sociales. Bajo el magisterio de los dos íconos latinoamericanos más influyentes del siglo XX, Vallejo y Neruda, el brasileño se propuso entonces poetizar la gesta popular, el sacrificio colectivo, la solidaridad de clase, el ansia de libertad y el rechazo a la exclusión y el oprobio. En ese afán, crispa el puño contra los opresores de toda laya, aquellos que convirtieron la ancha tierra americana en una comarca de cadenas, saqueos y fosas comunes. Su poesía es una respuesta a esa paz de cementerio impuesta por los dictadores, pero también poesía matizada con tonos de ternura, de requiebros afectivos y de reafirmación de principios. Fueron años intensos de recorrido del poeta por Bolivia, Perú, Chile, Colombia, Ecuador y México. Portador de la bandera de “los hombres sin rostro”, Manoel de Andrade sintetiza así su largo peregrinar por el continente:

…Y de pueblo en pueblo / por esas ciudades llenas y vacías / en los teatros y las fábricas / en las escuelas y en los sindicatos / por los socavones profundos de las minas / en lo alto de los Andes / y por el eco misterioso de las montañas / sobre los valles florecidos / y entre los campesinos en medio de la cosecha / de frontera a frontera, / de esperanza en esperanza / por todas partes sembraré mi canto. (El caminante y su tiempo).

El poeta se yergue contra la infamia de las tiranías y se constituye en una voz digna y desafiante, esto es, la voz del sur que reclama la justicia secuestrada por los tecnócratas del norte opresivo, la palabra vibrante que conjuga, en sí, ética y estética, y resuena acompasada por el péndulo de los grandes ideales humanos. Porque, ciertamente, la ruta al futuro está asfaltada  de “sacrificios profundos” (dixit, Eduardo Galeano), con las acciones de los mártires y los sueños aurorales de los paladines de la emancipación continental. Convenzámonos de esto hoy que celebramos el segundo centenario de nuestra Independencia, momento propicio para revalorar una poética como la de Manoel de Andrade, firmemente enraizada en el fermento de las luchas populares, vivificada por una herencia histórica llena de gestas libertarias; sin perder  en tal contexto su yo poético, ese pronombre identitario que se enlaza con el yo colectivo de los humillados y negados de América.

Yo vengo a denunciar falsas revoluciones / y el oportuno pacifismo / vengo a hablar de un  tiempo de destierros y torturas, / yo vengo a hablar de un terror que crece uniformado, / y de estos años en que cada promesa de paz es una mentira. (Canción de amor a América).

No es gratuito, entonces, que en sus versos asomen los arquetipos de la heroicidad latinoamericana: Ernesto Guevara Serna, Javier Heraud, Guido Inti Peredo y Otto René Castillo, entre otros. Tampoco es casual que su primer poemario, publicado en Bolivia, lo haya dedicado a la memoria del

líder minero Federico Escobar Zapata. Ni menos nos sorprende que los editores de sus primeras hojas volantes hayan sido estudiantes bolivianos y peruanos, quienes fueron, asimismo, sus más entusiastas difusores. De ahí que Manoel de Andrade más que un simple hablante periférico, viene a ser  la personificación de una conciencia moral que al señalar, reclamar y nombrar en representación del pan y la equidad, le restituye a la palabra su inflexión más raigalmente humana, allí donde madura la simiente inicial de todo proyecto de justicia en el mundo. Su invocación a la libertad lo retrata mejor en esta ruta:

Libertad… oh libertad… / hoy somos apenas los guardianes de un sueño / los que sustentamos en tantas patrias la bandera de la bravura / hoy somos los guerreros del silencio / para que tu himno pueda ser entonado con alegría por los hijos del mañana. (Libertad).

Extraño caso el de este poeta. Adquirir el prestigio de la voz no en su patria natal, sino en el exilio y en el rumor de las multitudes sin voz de América. Él encarna esa ansia de liberación, la necesidad de romper los grilletes que atan al hombre a la enajenación, la miseria y a la marginalidad. El prestigio de su poética viene, esencialmente, de su identificación con la causa de los expoliados, de los que teniendo memoria han sido privados de futuro, de aquellos que con su duro trabajo cotidiano forjan las riquezas ajenas y acrecientan el poder opresivo de los pocos. Esta tesitura verbal se sustenta en certezas cotidianas y palpables, no así en abstracciones metafísicas decimonónicas; es una poesía que denuncia y alega, a la vez que afirma y remarca convicciones de lucha, en un tiempo en que pareciera decaer la fe en los valores supremos de la humanidad. En fin, es una poesía que debemos hacerla nuestra, porque nos representa como discurso y como demanda, porque todos estamos inmersos en su reclamo fidedigno y en la promesa que conlleva: la llegada de un amanecer que sea, necesariamente, el inicio de una historia de plenitud para nuestros pueblos.

Gracias, Manoel de Andrade, por resemantizar, con notable solvencia de voz, la memoria social de América.

Cusco, Perú, primavera de 2010.

(*) A propósito del libro Poemas para a liberdade. Ed. Escrituras, São Paulo, 2009.

Enrique Rosas Paravicino (Cusco, Peru) é  narrador, poeta, ensaísta e autor dos livros: Al filo del rayo (1988), El gran señor (1994), Ciudad apocalíptica (1998), La edad de leviatán (2005), Muchas lunas en Machu Picchu (2006), El patriarca de las aves (2006) y El ferrocarril invisible (2009),  além de inúmeros artigos publicados em revistas especializadas. Em conjunto com outros autores também publicou: Fuego del sur (1990), Alfredo Yépez Miranda y su tiempo (2001) y Nueva antología del Cusco (2005).
Seus textos integram estudos e varias antologias. É professor e pesquisador da Universidade Nacional de San Antonio Abad del Cusco e  reconhecido com vários prêmios e distinções nacionais.

SEM TITULO – por vera lucia kalahari / portugal

No deserto onde nasci, nesse Namibe das mil miragens, aprendi a falar
sem precisar das palavras, porque elas, muitas vezes, são pobres e
inúteis…Sim, significam as coisas banais e insignificantes da vida:
o camelo, o oásis, as tâmaras, o albornoz….
Quando sentimos alguma coisa profunda em nosso coração ,só o coração
saberia dizer o que as palavras não podem… Mas o coração só sabe as
sílabas da sua pulsação… Repousa a cabeça no meu peito, na solidão
da minha tenda, e ouve-o pulsar… Ouvirás o vento varrendo as areias,
curvando as palmeiras, secando as fontes, sepultando as caravanas.
E nas suas curtas sílabas, compreenderás todas as palavras que não
vale a pena serem ditas.
Esta é uma pequena alegoria que faço à mudança que tem que ser feita,
no deserto que é a vida…Quando aprenderes a encostar a cabeça num
ombro acolhedor e sentires que amas esse amigo, com a mesma ternura
que amarás uma árvore em cuja sombra, depois de longa caminhada ao sol
ardente pelas dunas solitárias, te dará a doçura da sua sombra
benfazeja, aí residirá a mudança. Saberás que ele não te poderá dar
senão a mesma frescura dos ramos dessa árvore acolhedora, nada mais…
Que somos na natureza seres diferentes, separados em mundos
diferentes, mas o amor junta-nos ali… E o amor é isso mesmo: Que
importa que linguas diferentes não nos nos deixem comunicar que as
mãos estejam distantes para uma carícia…Basta essa sombra da árvore
que acolhe um momento nossos destinos obscuros, errando pelos sóis do
deserto…
É aí que residirá o futuro da humanidade, nestes tempos de mudança.
Por isso, resta-nos ajoelhar e beijar a sombra silenciosa e
acolhedora, que, sem saber, aqueles que sabem amar trouxeram também
aos sois do nosso deserto.

P.S.  Dedicado ao meu amigo e grande poeta, João Batista do Lago

A VISÃO

Eu vi,

Corpos negros dançando

Num bailado sem fim…

Vi corpos requebrando ao vento

Como coqueiros  arqueados.

Era algo de profundo e magnífico…

Vi panos coloridos

Desnudando corpos,

Esvoaçando e brilhando,

Azuis, roxos, negros…

Vi  risos e cantos e tambores

Ressoando ao sol

Numa sinfonia sem fim…

Ran…Tan…Tan…

E vi a minha terra toda,

Meus avós, num bater frágil de asas,

Num canto inesquecível, superior à poesia,

Surgindo, surgindo,

De milhões de palmas, das fontes do eterno frio…

Deus… Que futuro imenso para esta terra,

Onde o lodo se tornará cristal,

E onde a liberdade há-de chegar…

Glória a todos os que morreram por ti,

Orgulhosos do seu fim,

Acreditando num mundo melhor…

Quem somos nós para duvidar

Que esse tempo tem que chegar?

 

JÁ É UM COMEÇO DE GOLPE – por rui martins / suiça

Rui Martins*

Se você faz parte dos 87% que apoiavam o governo Lula, fique alerta – no mais escondido covil de serpentes e escorpiões trama-se um golpe institucional contra o governo de Dilma, mesmo se esse governo começou com 62% de aprovação popular.

Desta vez, ao contrário do golpe de 1964 não se trama nos quartéis com o apoio declarado dos Estados Unidos. A trama é bem mais sutil – não se acena com a paranóia do perigo vermelho, mas com base em pretensos arrazoados jurídicos se quer desmoralizar e desautorizar o ex-presidente Lula e se colocar no ridículo a presidenta Dilma, que será destituída do poder de decisão.

O golpe não parece financiado só por dólares americanos, como no passado, mas igualmente por euros vindos da Itália. Aparentemente trata-se da extradição ou não extradição de um antigo militante italiano, Cesare Battisti, condenado num processo italiano fajuto à prisão perpétua, mas a verdade submersa do iceberg é bem outra.
Quem leu as revelações do Wikileaks quanto as opiniões dos EUA sobre Lula, considerado suspeito, e Celso Amorim, considerado antiamericano, e que acompanhou a campanha contra a eleição de Dilma, sabe muito bem haver interesses de grupos internacionais em provocar uma crise institucional no Brasil.

Será também a maneira de grupos econômicos estrangeiros impedirem a atual emergência do país como potência mundial. A Itália neofascista de Berlusconi com seu desejo de recuperar um antigo militante esquerdista é apenas uma providencial pretexto para os grupos políticos e econômicos internacionais incomodados com o Brasil líder do G-20 e vitorioso contra os EUA na OMC.

O que se quer agora, com o caso Battisti, é subverter as instituições brasileiras, mergulhar-se o país numa confusão entre o poder do Executivo e o poder do Judiciário, anular-se uma decisão do ex-presidente Lula para se abrir o caminho a que governança do Brasil seja sujeita à aprovação do STF. Para isso conta-se, como em 1964, com os vendilhões da nossa soberania e com os golpistas da grande imprensa.

Simples e prático, para se evitar que a presidente Dilma governe, vai se tentar lhe por um cabresto e toda decisão sua que desagrade grupos internacionais deverá ser anulada pelo STF. Por exemplo, a questão da exploração petrolífera do pré-sal poderá ser uma das próximas ações confiadas ao STF.

Se Dilma quiser renacionalizar as comunicações, já que a telefonia é questão estratégica, o STF poderá dizer Não e também optar pela privatização da Petrobras. Delírio ? Não, os neoliberais inimigos de Lula e da política nacionalista, derrotados nas eleições, poderão subrepticiamente retirar, pouco a pouco, os poderes da presidenta e do Legislativo, para que fique apenas com o STF o governo ou o desgoverno do Brasil.

O próprio advogado de Cesare Battisti, acostumado com leis e recursos, nunca viu uma decisão presidencial ser posta em dúvida por um ministro do STF, e por isso falou em « golpe » tal como havíamos alertado.

Por sua vez, o atual governador do Rio Grande do Sul, que aceitou o pedido de refúgio de Battisti quando ministro da Justiça, não aguentou a decisão do ministro Cezar Peluso do STF de colocar em, questão a validade da decisão do presidente Lula e declarou como « ilegal » e « ditatorial » o ato do ministro Peluso, do qual decorre um « prejuízo institucional grave » para o país e um « abalo à soberania nacional ».

Faz dois anos, Tarso Genro concedeu refúgio a Battisti, que deveria estar em liberdade desde essa época. Mas o ato liberatório foi sustado pelo ministro Gilmar Mendes, que submeteu a questão ao STF, o que já consistia um ato arbitrario. Embora os ministros tenham decidido por 5 a 4 pela extradição, competia ao presidente a decisão final, o que foi reconhecido, depois de uma tentativa de reabertura do julgamento.

O presidente Lula justificando seu ato, dentro do permitido pelo Tratado mútuo de Extradição entre Brasil e Itália, com base num documento da Advocacía Geral da União, negou a extradição e a própria Itália entendeu o ato como definitivo. Ora, a decisão do ministro Cezar Peluso de pôr em dúvida a decisão do presidente Lula e reabrir a questão vai além de sua competência e fere uma decisão soberana.
É tentativa ou já é golpe, no entender do advogado Luiz Roberto Barroso, é ilegal e ditatorial segundo o ex-ministro da Justiça Tarso Genro, opiniões que vão no mesmo sentido de Dalmo Dallari e de outros juristas.

O que iremos viver, quando o ministro Gilmar Mendes se dignar a colocar na agenda do STF o « julgamento da decisão do presidente Lula », se a maioria, por um voto que seja, decidir anular a decisão de Lula ? Será que a presidenta Dilma aceitará essa intromissão do STF no poder do Executivo ? Em todo caso, será o caos.

É hora de reagir, antes que seja tarde demais.

*RUI NARTINS – Ex-correspondente do Estadão e da CBN, após exílio na França. Autor do livro “O Dinheiro Sujo da Corrupção”, criou os Brasileirinhos Apátridas e propõe o Estado dos Emigrantes. Vive na Suíça, colabora com os jornais portugueses Público e Expresso, é colunista do site Direto da Redação. Colabora com o Correio do Brasil e com esta nossa Agência Assaz Atroz.

TANTOS… – de wagner de oliveira mello / curitiba

Tem tantos lugares onde eu poderia estar.

Sem rosto, sem corpo

apenas presença

um estar sem sentido

sentindo apenas.

 

No silêncio de alguns

na euforia de outros

tantos outros!

Quem são os outros quando não estão aqui?

 

Quem são, senão concepções vazias

ou irremediáveis certezas

que os fazem ser o que são

e o que não são.

 

RECUERDOS DE OUTUBRO DE 1983 – de julio saraiva / são paulo



a poeta hilda hilst
cercada de seus cães
lia poemas de amor na sala
de sua chácara em campinas
e entre goles de vinho do porto
e alguns palavrões
reclamava que ninguém a entendia

a poeta ana cristina cesar
no apogeu dos seus 32 anos
colocou a beleza de lado
e se atirou do prédio onde morava
no rio de janeiro
sem deixar nenhum escrito
que justificasse seu gesto
(se ela soubesse que foi minha namorada
secreta talvez não fizesse isso)

o poeta álvaro alves de faria
e eu
bebíamos conhaque dreher
no bar costa do sol
na rua 7 de abril
em frente ao edifício do diário da noite
que não existia mais

era outubro de 1983

agastam-me as palavras – por zénite / portugal



“Abalarei os céus, e a terra, e o mar, e a terra seca…”
(Ageu 2:6-21)

Hoje, venho dizer-vos que me agastam e entristecem as palavras.
Sou o errático andante que caminha descalço ou de sandálias pelo deserto das palavras, e as ama e anatomiza, as detesta e anatematiza, e volta a anatomizar e a amar e de novo a abominá-las e a anatematizá-las… e a amá-las…

Às palavras, a esses seres estranhíssimos que permitem amar e odiar em simultâneo, que nos amarram e escravizam e nos acenam depois com ventos de amor e liberdade, para voltarem de novo a acorrentar-nos sem piedade, há que rasgá-las, fendê-las, rachá-las, ateá-las e incendiá-las como lenha seca que arde em gigantesca pira – piramidal pira, diria, não fora a cacofonia – em sinuosas e ondulantes flamas de sangue.

Haverá estilhaços incandescentes e brasas incendiando todas as memórias.
E haverá fumo e uma inundação de luz e cinzas pairando. Perfurando o silêncio algemado e trucidado em serpejantes labaredas.
E haverá, outrossim, farpas. Dolorosas farpas rasgando e lacerando profundamente a pele, a carne e as ansas, qual mítica fénix de asas dilaceradas.

E dessa inundação de cinzas e de restos carbonizados, as palavras hão-de fluir de novo e voar, sopradas pelo vulturno nas noites soturnas e sem luar, ou nas manhãs e tardes aprazíveis e solares, impelidas pelo brando zéfiro, em eminentes vertigens de fénix renascidas.

Redescubramo-las e reinventemo-las, estáticas ou dinâmicas, desde o início de todas as linguagens.

Como na língua dos Hervos, que aqui vos deixo em soneto, neste meu deserto de vento e areia:

Soneto aos Hervos


Baixa lúcido o sol sobre os
montíolos,
E já a luz
sidárvia dos sidócitos,
Elíptica, tremula entre os gladíolos,
Trespassando as vidraças dos
esmócitos.

Crescem na tarde lânguidos ortíolos,
Em atávicos salmos tão
bartócitos,
Que agitam, paladinos, os pecíolos
Das hastes alongadas dos
acrócitos.

Ouve-se ao longe uma harpa merencória
Que aflita geme com a frauta lírica,
Enquanto a noite desce transitória.

São os hervos que voltam da hortírica
Com uvas de corinto e fruta
hespória
E mil sorrisos de candura onírica.

.

São os Hervos um povo gentil e humilde, amante da natureza, que habita os Vales Solitários do Nunca, contíguos à Terra-do-Meio, onde vivem os Hobbits, seus parentes próximos, que amam igualmente a natureza, a paz e o seu semelhante, e não se importam, minimamente, com o que se passa no resto do mundo, que, alías, não conhecem nem nunca ouviram falar.
P.S.: as palavras em itálico constam dos dicionários dos Hervos, e em nenhum mais.

O escritor AMILCAR NEVES, o poeta MANOEL de ANDRADE, MARIA VITÓRIA e NEIVA ANDRADE foram celebrar a chegada de 2011 com J B VIDAL e RÔ STAVIS na Praia dos Ingleses/Ilha de Santa Catarina


o escritor AMILCAR NEVES da Ilha de Santa Catarina, o poeta MANOEL de ANDRADE de CURITIBA e o poeta e editor do PALAVRAS TODAS PALAVRAS J B VIDAL comemorando a virada do ano (2011) na residência de J B na Praia dos Ingleses / Ilha de Santa Catarina.

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MARIA VITÓRIA, ROSANGELA STAVIS e NEIVA ANDRADE senhoras do escritor e poetas acima.

Uma noite muito agradável e rica no temário que acabou por estender-se até as 4:00 do dia 1/1/11.

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o escritor e poeta JAIRO PEREIRA de Quedas do Iguaçu/PR esteve visitando o amigo e colega J B VIDAL horas antes da virada do ano. seis horas de conversa, mesmo assim faltaram algumas abordagens.

SOB O SIGNO DO DESCASO – por amilcar neves / ilha de santa catarina


 

O atual governo do Estado inicia exatamente como terminou o anterior: sem um presidente na Fundação Catarinense de Cultura.

 

Escrevo esta crônica na noite de 3 de janeiro. Até o final da tarde não havia na FCC qualquer informação sobre comando da casa: nem presidente, nem diretores, nem gerentes, chefia nenhuma, tudo absurdamente olhado como cargos de confiança a serem preenchidos por afilhados políticos de acordo com questionáveis cotas partidárias: nada de profissionalismo, nada de valorização do pessoal de carreira, nada de continuidade administrativa e de projetos. Tudo parado no Centro Integrado de Cultura, complexo cultural que é forçado a ceder quase metade do seu espaço para abrigar a Fundação.

 

A data em que este texto é escrito mostra duas coisas: passados já três dias de governo, não há sequer nome escolhido para conduzir as atividades culturais em Santa Catarina – um dos poucos estados da Federação que, de modo também absurdo, não conta com uma Secretaria da Cultura. Como se o Estado não precisasse disso, como se não houvesse necessidades urgentes na área.

 

A segunda coisa: nesta data, completam-se três meses que o governador foi eleito em primeiro turno. Como não teve tempo, disposição ou vontade de definir o comando da FCC, certamente há de fazê-lo agora de improviso, às pressas, porque o tempo urge – e a possibilidade de fazer uma má escolha só aumenta com o tempo.

 

O governador anterior, um vice que assumiu porque o governador eleito que tanto quis acabar com a Biblioteca estadual saiu para ser senador, exonerou o presidente da Fundação no dia 16 de dezembro e ninguém fala por que Antonio Ubiratan de Alencastro, do mesmo PSDB do vice efetivado, foi assim subitamente descartado. Sempre ressalvando que mais tarde contarão direito a história, as pessoas dizem que “o Bira vacilou e foi exonerado” ou “queriam que o Bira fizesse coisas com as quais ele não concordou”.

 

Só há dois motivos para exonerar alguém do segundo escalão a 15 dias do fim do mandato: ou porque fez algo muito feio e errado ou porque recusou-se a fazer algo muito feio e errado. Pelo pouco que conheço do Bira, ele é o tipo do católico ativo, convicto dos Dez Mandamentos e incapaz de meter-se em aventuras condenáveis, feias e erradas.

 

Assim se dá a continuidade no governo do Estado: sob o signo do descaso. A Biblioteca Pública que se cuide.

 

 

EU TE COMPREENDO… de joão de abreu borges

 

 

Eu te compreendo…

Porque sei que estás vivendo da melhor maneira possível, apesar de todas as dificuldades financeiras que tens encontrado… e sorri para as conseqüências disto, principalmente a falta dos amigos que deixam minutos no chão para marcar o caminho mas se perdem, pois o tempo passa…

 

Eu te compreendo…

Porque sei que as suas intenções são as melhores possíveis e que estás procurando enxergar aquilo que poucos têm a coragem de procurar entender… e sorri para as consequências disto, principalmente a falta do que fazer quando muitos estão ocupados com tantas coisas…

 

Eu te compreendo…

Porque sei que a tua história se confunde com a história da maioria das pessoas que está ao seu redor, achando até mesmo graça no fato de às vezes se perderes no meio delas, encontrando-se como Um no organismo social que, nessas horas, faz sentido… e sorri para as consequências disto, principalmente quando tropeças por não conseguir acompanhar tanta pressa, tanta ânsia, tanto nervosismo…

 

Eu te compreendo…

Porque sei que quando dizes “sim”, talvez devesses dizer “não”, mas prefere a mentira quando esta se torna necessária para o bem estar do próximo… e sorri para as conseqüências disto, principalmente se quem recebeu esta tua gentileza seguiu em frente sem nem olhar para trás… e você nem reparou…

 

Eu te compreendo…

Porque sei que tu queres o melhor para ti, a partir do momento em que ensinas tudo aquilo que queres aprender e reflete a luz daquele que não consegue brilhar… e sorri para as consequências disto, principalmente o esgotamento que muitas vezes o deixa em dúvida, com o olhar perdido no céu… mas isto não o impede de caminhar.

 

Eu te compreendo…

Porque sei que teus princípios são os mais nobres possíveis… que tua voz é a mais elegante possível… que as tuas idéias tem um valor inestimável… que o teu amor surpreende até mesmo ao teu próprio coração… e sorri para as consequências disto, principalmente pela roupa simples que usas, pelo tênis apertado que ganhastes e pelo cabelo desmanchado que ainda não aparastes…

 

Eu te compreendo…

Porque sei, enfim, que tu compreendes a ti mesmo como um filho da natureza que está em evolução e em perfeita sintonia com os fenômenos do Universo e, assim, teu sorriso se expande entre árvores e estrelas, e nada disso tem conseqüência porque tudo está interligado.

 

Então, eu te compreendo!

 

LÍBIA e sua beleza natural – por haroldo castro / são paulo

Areias e montanhas pontiagudas do deserto de Akakus, Líbia


Começo 2011 com uma série de crônicas sobre a Líbia, um país tão enigmático como fotogênico. Escolho como ponto de partida o deserto, uma das mais paisagens mais belas do planeta.

Ali Mahfud é meu guia e tradutor durante essa jornada. Logo no primeiro dia, descubro que ele adora uma discussão filosófica, usando um francês que ele domina bem. “Aqui no deserto, a areia é a mãe e as rochas são suas filhas, pois as pedras foram feitas de areia”, afirma ele. Para manter a tensão do diálogo, rebato com uma visão mais geológica, dizendo que “as areias também são filhas das pedras, pois representam o resultado da erosão dos arenitos.”

As paisagens inspiram discussões filosóficas. A areia é a mãe das rochas? Ou, pelo resultado da erosão, a areia é filha das pedras?

Nossa conversa é uma viagem que se confunde com o próprio cenário. Rodeados por dunas gigantescas e formações rochosas pontiagudas, que nos transportam a outro mundo, estamos no deserto de Akakus, parte do infinito Saara.

O Akakus é a continuação do Parque Nacional Tassili N’ajjer, situado na Argélia. É bem diferente dos outros desertos que conheci até então. Hospeda dunas altas – algumas com mais de 100 metros de altura – e suas areias variam do branco ao ocre, passando pelo amarelo ouro e pelo quase-vermelho. Mas é o jogo entre as dunas dinâmicas e as formações rochosas que fazem de Akakus um lugar excepcional. Para os tuaregues, nômades da região e guardiões do deserto, é um “lugar” (aka)“tórrido” (kus), mas para a viajante parisiense Françoise Dubeau é simplesmente “o deserto de meus sonhos de criança.”

No deserto de Akakus, existe um jogo contínuo e dinâmico entre as dunas de areias coloridas e as formações rochosas.

Não é fácil chegar a esse recanto perdido do globo. Demanda muita logística para adentrar o deserto: duas Toyotas Land Cruiser 4×4, com tanques extra de 200 litros de combustível; equipamento de cozinha e comida de sobra; barracas, sacos de dormir, colchões e cobertores. E muita, muita água.

Sebha é a porta de ingresso ao Saara. É a principal cidade do Fezzan, nome da região situada ao sudoeste do país. Qualquer visitante estrangeiro que queira conhecer o deserto na Líbia deve passar obrigatoriamente por Sebha. Para os imigrantes ilegais vindos do Sudão, do Chade e do Niger, essa cidade de 130 mil habitantes é também um marco importante antes que eles possam viajar, como clandestinos, de Trípoli para a Europa. Sheba, com suas largas avenidas asfaltadas, seu aeroporto moderno e seus ricos mercados, é uma encruzilhada de cores e culturas.

Mais de 400 km separam Sebha das montanhas do Akakus. Durante o trajeto observo uma prova do poder da água e da vontade política. Poços artesianos que chegam a 450 metros de profundidade trazem água à superfície. O sagrado líquido transforma o solo árido em um tapete verde de trigo, milho e outras plantações.

O asfalto acaba em Sardalas. Agora é rumar para o leste e enfrentar a poeira, o calor e as pistas de areia e pedras. As montanhas negras que definem o Akakus, que se confundiam com a linha do horizonte, ganham mais presença. Quarenta quilômetros e duas horas depois alcançamos as primeiras pedras que brincam com nossa imaginação. Moldados pela erosão do vento (e, algumas raras vezes, da água) e pelas diferenças de temperaturas extremas entre as noites de inverno e os dias de verão, os arenitos de Akakus tomam as formas mais bizarras.

O monolito Ad’ad (significa, em idioma berbere, “dedo”) é o marco de entrada nesse mundo de objetos e pessoas que viraram pedra. “Parece que estamos na Lua”, diz Ali Mahfud. Para alimentar nossa peleja semântica, respondo que “a comparação com Marte seria melhor, pois a areia daqui é toda vermelha.” Ambos somos do mesmo signo de Áries e a viagem está apenas começando…

O monólito Ad’ad marca o ingresso no mundo insólito e imaginativo das pedras. Em idioma berbere, Ad’ad significa dedo.

RE.

PANELAS, terra dos cabanos – por josé alexandre saraiva / curitiba


Encravada no brejo de Pernambuco, meio mata, meio agreste, Panelas é cercada de serras majestosas. Os moradores respiram doces aromas de árvores frutíferas e são acalentados por brisas vespertinas que beijam as folhas do mulungu, dos cajazeiros, das mangueiras e dos juazeiros. A temperatura média é a mais acolhedora do mundo: varia entre 17°C  e 25°C..

 

No passado, suas encostas íngremes e os recônditos de matos impenetráveis serviram de palco em tórridas batalhas da Guerra dos Cabanos. Nesse cenário, realçado pelas venerandas Serras da Bica, do Boqueirão e dos Timóteos, forças dos governo registraram incontáveis baixas na Revolta de Panelas, iniciada em 1832. A Cabanada ganhou as páginas da História por sua singularidade. Tinha como objetivo o retorno ao trono do imperador Pedro I. A guerra, como posteriormente ocorreria no Pará e em outras regiões do Brasil, embora com conotações distintas, foi deflagrada por estar em jogo o status quo das elites dominantes, incluindo donos de engenhos apreensivos com a ruptura do modelo político e social promovido pela regência. Abrupto aumento da concorrência comercial, desvalorização da moeda, iminente suspensão de importação de escravos e insegurança jurídica formaram o pano de fundo do levante. Com engodos assistencialistas, sobretudo de fixação do lavrador como titular da terra e o fim do cambão, apoiados pelo clero, burgueses e aristocratas conservadores, dissidentes do núcleo  litorâneo do poder, seduziram a massa rural com o canto da sereia. Além de senhores de engenho, doutrinaram pessoas simples, moradores de cabanas rústicas, fornecendo-lhes armas e munição para cruentas e selvagens lutas. O contingente rebelde, que no auge do conflito correspondia a 10% da população pernambucana, era formado pelos camponeses, índios, negros e caboclos. Ocorreu que a liderança inicial do movimento – composta de pseudo-ideólogos de uma liberdade que nunca iria existir, donos de escravos e paladinos de uma restauração política impossível –  logo recuou. Mas ignoraram que isso já era tarde para deter a marcha do confronto. Ele prosseguiria de modo selvagem nos recessos das matas. Não havia mais tempo para retirar dos cabanos a doutrina de uma suposta injustiça, que teria sido praticada contra o imperador, e da ameaça real de expulsão das pequenas glebas, à época ocupadas graças a benesses ou favores concedidos pelos latifundiários. Na melhor das hipóteses, por esse modelo de fixação do homem à terra, os trabalhadores livres submetiam-se ao cambão, que consistia em entregar ao senhorio metade da suada produção. Os rebeldes, em sua maioria  elementos rudes e de valentia indomável, utilizavam táticas de guerrilha para dificultar as estratégias do inimigo, isto é, da força militar. E assim, à lavagem cerebral de reentronização de Pedro I, inicialmente apregoada, afloraram interesses próprios e legítimos dos cabanos, como o direito claro e objetivo à posse da terra e à sobrevivência digna. Em Panelas, o quartel-general dos cabanos era na Serra dos Timóteos, assim batizada em homenagem aos líderes locais, os irmãos Antônio e João Timóteo. Com o decorrer do tempo, o comando geral dos Cabanos, compreendendo os estados de Pernambuco e Alagoas, foi assumido por Vicente Ferreira de Paula. Com larga experiência militar, ele consolidou e liderou o movimento até o seu epílogo. Recolheu-se, com reduzido grupo de rebeldes (apelidados “papa-méis”), sem aceitar anistia, ao seu recanto predileto, um lugar chamado Riacho do Mato. Mas as forças legais continuaram vendo nele uma ameaça. Anos depois, apunhalado pelas costas numa cilada engendrada covardemente pelo Marquês do Paraná, famoso fazendeiro de café no Rio de Janeiro, foi preso aos 59 anos de idade, cumprindo uma pena de reclusão de 10 anos em Fernando de Noronha. Com a liberdade, setuagenário, teria ido morar em Alagoas, em cuja costa, insistentemente, no passado, tentara tomar de assalto um porto imaginando receber o venerado imperador Pedro I.

 

Certamente morreu sonhando um grande sonho, nunca o sonho daqueles doutrinadores iniciais, de ocasião. Um sonho ainda não convincentemente decifrado pela História oficial. Um sonho para o qual no começo foram conduzidos e que, com os desdobramento, no final, tiveram motivos próprios para, independentemente dos “doutrinadores”, perseguirem genuíno sonho. E isso já era tudo. Um sonho de pouco discurso, movido a cheiro de terra, de liberdade, de coragem e de braços fortes. Claro, de pólvora também. Um papa-mel poderia sonhar mais fundo ou mais largo do que suas braçadas firmes no sagrado solo natal? Eis porque foi um sonho legítimo: nunca esteve além do fruto da terra. Sequer foi mais alto que as lendárias Serra dos Timóteos , da Bica e do Boqueirão. Bastava a flor do mandacaru para demarcar fronteiras…

 

 

O nome Panelas

 

 

Para alguns pesquisadores, a palavra que dá nome à cidade originou-se da tradição dos antigos habitantes, especialmente os índios, na manufatura de panelas de barro. Outros atribuem a denominação à geografia urbana, comprimida entre os sopés de suas serras. Fico com a primeira versão. Ora, a palavra está registrada no plural (“Panelas”), a indicar a existência de provável cultura de artefatos de barro produzidos pelos antepassados. A localização da cidade, vista do topo de uma das três proeminentes serras, pode, quando muito, lembrar uma panela, mas uma só, no singular. Por outro lado, soa desproposital comparar o conjunto geográfico de suas terras a trempes de panelas – a menos que se admita um gigantesco triplé de serras para assentar panelas colossais, com vários quilômetros de diâmetro, vindas de outros planetas! Mesmo assim, e apenas como reforço de argumento final, o nome não poderia ser Panelas. Na melhor das hipóteses, seria Trempe, ou, com mais esforço ainda, “Trempes”.

 

 

 

general José Elito Carvalho, chefe do Gabinete de Segurança Institucional: ” A mais indecente declaração em 40 anos”

Vergonha é não ter vergonha

Começa muito mal a gestão Dilma Rousseff: deveria ter demitido no ato o general José Elito Carvalho, chefe do Gabinete de Segurança Institucional, para quem não há motivo para vergonha no fato de o país ter desaparecidos políticos.

Familiares exibem fotos de desaparecidos durante a ditadura

No mínimo, no mínimo, a presidente deveria ter exigido de seu subordinado que emitisse nota oficial explicando as declarações que deu e que, segundo ele, foram mal interpretadas. Não cabia interpretação nenhuma. O general produziu a mais indecente declaração que ouvi até hoje em 40 anos de acompanhamento de questões vinculadas aos direitos humanos nas muitas ditaduras sul-americanas.

Achar que se trata de “fato histórico” é zombar do público. Quer dizer então que os desaparecidos foram tragados por um tsunami, por um terremoto, um vendaval, “fatos” naturais contra os quais não há mesmo remédios nem culpados?
Não, meu Deus do céu, não. Foram produzidos por mãos humanas, se é que são de fato humanas pessoas capazes de tal barbaridade. Mãos que, até agora, não tiveram as digitais colhidas nem as responsabilidades devidamente apuradas, é bom lembrar.
Por extensão, há, sim, todas as razões do mundo para ter vergonha do que aconteceu. Como é possível a um ser humano O novo ministro do Gabinete de Segurança Institucional, General José Elito                     Carvalho Siqueira. Foto: Marcos Ommati/Diálogo
não sentir vergonha de o Estado brasileiro, em uma determinada etapa, ter feito desaparecer adversários políticos? É indecente, é obsceno.
Um funcionário público, graduado ou não, fardado ou não, que não sinta vergonha não é digno de continuar a serviço da sociedade, muito menos ainda na posição de responsável pela segurança institucional da República. É, visivelmente, um promotor da insegurança, jurídica e pessoal, ao tomar como “fato histórico” o que é crime.
Ou o general explica, limpidamente, o que pensa sobre o assunto ou se demite.
Conversa Afiada. pha.

VERA LUCIA KALAHARI e sua poesia / portugal

NOITES DE INSÓNIA

Oh…Estas noites de insónia

Terríveis, infinitas

Onde o próprio vento    `

Parece escorraçar-nos.

Onde cada pulsação é um tiro

Quebrando a escuridão

E cada sombra um mistério,

Cada ramo erguido

Uma garra que nos quebranta

Cada minuto, uma agonia…

Estas noites que me atemorizam

Em que cada  sombra é um fantasma,

E cada homem, cada amigo, um inimigo…

Lá longe, muito ao longe,

Ouve-se o cantar do mar.

…Depois, mais nada.

Só o pulsar cadenciado do meu coração

Muito alto…Muito alto…

É a hora em que as flores tombam em morte lenta

Tentando numa ânsia  agónica

Prenderem-se à terra.

Em que se ouvem, perdidos,

Os gritos lancinantes das crianças…

É a hora em que a morte surge, à espreita…

A hora em que os famintos curvados no lixo

Buscam, como se colhessem flores,

-Estranhas flores-

Pedaços de pão…

É a hora das coisas, dos silêncios, dos homens…

Em qualquer parte, em qualquer terra,

É a hora amarga dos pesadelos

Em que nos sentimos sós

Como se nos rodeasse já

A solidão torturante damorte.

Oh… Estas terríveis noites…

Este terrível chamamento, este horroroso apelo

Dum mundo em pranto.

O MEU CREDO

Creio

No cristal límpido

Em que se hão de transformar

Os pensamentos lodosos.

No sorriso iluminando rostos

Nos trajes luminosos que hão-de cobrir os homens:

Os trajes da liberdade.

No vinho doce que há-de embriagar

Mentes enlouquecidas…

No tropel de gente esperançada

Que há-de correr, chorando,

Para o Bom Deus, temendo chegar atrasada.

E vós

Que olhais sem verdes nada

Que fechais a alma à esperança,

Que tiritais ao frio da nortada

Esperai, por favor, pelo sol ardente

Que vos virá aquecer…

Porque, crede: O tempo sem violência de que vos falo,

Virá…Terá que vir…Acreditai.

O Sofá – por omar de la roca / são paulo

É meu costume deixar o despertador adiantado quinze minutos.Podia deixar na hora certa também e colocar para despertar quinze minutos antes.Mas é o meu jeito. Hoje de manhã acordei, depois de um sonho meio agitado.Esfreguei os olhos e comecei a lembrar do sonho.Me lembro que fazia referencia a um sofá.Sacudi a cabeça e sorri.Apenas um sonho.Peguei meu anel que estava no criado mudo e só então me lembrei do folheto.Estava debaixo do anel. Alguém colocara em minha mão na saída do metro Brigadeiro e eu distraído,coloquei no bolso de trás das calças. Mais tarde ao pendurá-las, encontrei o folheto.Então o sonho todo fez sentido.Reli o texto. Falava de um sofá que apagava as memórias. O texto não era muito longo, não dava maiores explicações. Era um sofá que você sentava, após assinar um contrato,que apagava as memórias que você havia escolhido previamente.Dizia que haviam se esmerado para decorar cada instalação ( que é como chamavam as lojas de esquecimento ). A que ficava nos Jardins era minimalista. Uma sala branca , um sofá branco de couro ( falso ,ecologistas ), um tapete branco e uma televisão de LCD de 52 polegadas. No centro antigo, era uma sala menor, de paredes amarelas, tapete azul e quadros escuros. A TV era de LCD, mas de 32 pol. Na Berrini era uma sala toda preta, com um sofá escuro.Parecia um confessionário do BBB. Tudo era pensado para garantir o conforto. Três outras lojas estavam em fase de acabamento no Rio de Janeiro. Havia ainda uma pequena descrição do método usado. Colhia-se um pouco de sangue para verificar a coagulação e outros itens.Media-se a pressão sanguínea. De cara desconfiei que era armação. Colocavam musica New Age em seus ouvidos,na TV vídeos de animais da Nat Geo ( a sua escolha ), incenso indiano  e colocavam sob a língua do requisitante uma suspeita pastilha de hortelã. Ah, detalhe , funcionava vinte e quatro horas. Mas não informava os preços. Como ainda era cedo, não me contive. Peguei no telefone e liguei para o primeiro numero da lista ( cada instalação tinha seis números diferentes ! ).Pensei que era um negocio em expansão que exigia  que os contatos fossem  imediatos. Uma voz eficiente atendeu antes do segundo toque. Dei meu nome e solicitei algumas informações. A voz que amavelmente se identificou como Maria ( Hum ! ) disse que estava as minhas ordens. Comecei perguntando sobre os preços.

– Depende da distancia que a memória escolhida esta do presente, senhor. Quanto mais distante, mais cara.

– Porque ?

– Porque dispende maior quantidade de energia para obter o efeito do relaxamento  (esquecimento ).

– E posso fazer um pacote de memórias a serem esquecidas ?

– Sim senhor,numa única sessão podemos relaxar ate quatro memórias, desde que de épocas próximas.Não podemos por exemplo relaxar uma memória sua aos sete anos e outra aos dezessete. Tem um arco máximo de três anos.

– E posso apagar, digo relaxar longos períodos ?

– Infelizmente ainda não temos autorização para relaxar longos momentos.Usamos o método americano que ainda é o mais seguro. Estão desenvolvendo relaxamentos de períodos mais longos, mas ainda não temos tecnologia segura e nosso presidente ainda não autorizou.

– Da empresa ?

– Não senhor, da republica. Os russos estão em fase adiantada de testes para relaxamentos longos. Comenta-se na Internet que conseguiram relaxar a infância de uma senhora que viveu esta época de sua vida durante  a ultima grande  guerra.Só não comentam o resultado,mas parece que ela ficou mais alegrinha.

– E é caro ?

– Não senhor, a relação custo benefício é excelente.

– E quanto seria para uma memoriazinha de infância ?

– Desculpe me senhor, só informamos preços pessoalmente.

– E o governo brasileiro, não faz nada para tentar abaixar os preços ?

– Os preços não são altos senhor. No momento os parlamentares estão mais preocupados com aumentos do que com descontos. Não devia comentar com o senhor mas os preços das memórias de guerra estão entre os mais altos.É que normalmente estas pessoas podem pagar mais.

– E o que vocês fazem com as memórias ?

– Depende do senhor. As memórias podem ficar armazenadas conosco por ate dez anos.Ou por um extra podem ser irreversivelmente destruídas.

– Destruídas ?

– Sim, se for uma coisa que o senhor tem certeza de que não quer mesmo mais saber…

– Pensei um pouco,memórias . Mas Maria ainda estava na linha e batia o lápis no caderno.

– Pode me explicar um pouco do procedimento ?

– Não sei muitos detalhes. Já fiz uma vez para esquecer uma coisa de que não gostava. Mas não dói. Não é como tatuagem.

– E o que você queria esquecer ? Existe devolução ?

– Desculpe me mas não me lembro.Fiz o pacote econômico, que guarda a memória por dois anos. Ao fim deste período poderei optar por lembrar a memória ou ela será destruída. Mas o nosso índice de desistência de esquecimento é mínimo. Depois que a pessoa esquece, dificilmente se lembra de pedir devolução do produto.

– E onde as memórias ficam guardadas  ? Não existe perigo de roubo ?

– Não senhor. As memórias são codificadas duas vezes antes de serem enviadas ao cofre em Brasilia. As senhas de acesso a cada uma delas ficam em poder de nosso presidente.

– Da república ?

– Não senhor, de nossa empresa. Nomeado pelos conselheiros americanos.

– Fingi que alguém falava comigo, pedi um minuto,cobri o fone com a mão e pensei.Será que é verdade? Que memórias, por mais difíceis, deveríamos esquecer ? A vida já não se encarregar de faze-lo ? Mas não. Existem coisas que nem a vida consegue varrer de nossa memória.

– Senhor Omar ?

– Desculpe me Maria, já retorno. Memórias tristes, que se agarravam a meus pés. Memórias que gostaria de deletar por definitivo. Mágoas, incompreensões, abusos.Poderia deleta-los todos, com uma só sessão. Só para começar. Depois estudaria as outras mais recentes.

– Maria, e quando vocês tem hora ?

– Só um momento senhor Omar,vou consultar em todas as lojas.

Ouvi o som to teclado sendo tocado rapidamente.  De novo.

– Só mais um momento senhor Omar.Me parece que a loja dos Jardins, esta com uma desistência para Novembro do ano que vem.

– Novembro ? Mas estamos em Dezembro !

– Nosso procedimento exige um período mínimo de seis meses durante o qual o paciente é acompanhado por psicólogos para ter certeza de que quer mesmo esquecer.

– E não existem exceções ?

– Sim senhor Omar, mas só são autorizadas pela presidente.

– Da república ?

– Sim senhor. Agora no final do ano damos entrada dos processos urgentíssimos, que serão julgados em no máximo três meses.Mas adianto que apenas alguns privilegiados conseguem. Ca entre nós, custa muito caro. Apenas alguns políticos conseguem.

– E a tecnologia é segura? Não corro o risco da memória voltar expontâneamente ?

– Olha senhor Omar, temos ordens de não dizer nada sobre isso. Mas gostei do senhor . Alguns de nossos pacientes esqueceram-se  de  mais do que deveriam. Mais do que constava no pacote. Estão com amnésia . Não conseguimos fazer as memórias voltarem. Nunca mais serão os mesmos. Mas se o senhor disser que eu contei , nego ate a morte. Para sua segurança as ligações não são gravadas.

– E nesse caso que você ( não ) me contou,o dinheiro é devolvido ?

– Não senhor. Após o procedimento realizado não há devolução. É feito apenas acompanhamento do paciente e da família.Esta é uma das cláusulas do contrato.

– E ninguém reclamou ?

– Achamos que algumas reclamações serão enviadas a nossa presidente no ano que vem.

– E como pretendem lidar com elas ?

– Isso fica a cargo da gerencia senhor Omar, sou apenas uma atendente.

– Desculpe me Maria, mas este emprego é bem pago? Você ganha comissão ?

– Esta acima da média do mercado,senhor Omar.Temos um adicional de contratos firmados. Deu para reformar nosso apartamento no Guarujá, no ano passado.

– Ah, entendi.Tem plano de saúde? Cartão alimentação ?

– Senhor Omar, o senhor não é repórter , não é ?

– Não, não, escritor.

– Então ta. Nossos benefícios incluem  os melhores hospitais e os melhores restaurantes.Podemos ate optar por esquecer algumas memórias por preço promocional.Mas depois que fiquei sabendo dos problemas, não me arrisquei mais.

– E a igreja, não é contra ?

– No começo o papa quis impor restrições no relaxamento. Memórias religiosas não poderiam ser incluídas. Mas somos contra o sofrimento e conseguimos passar por cima das imposições.Tudo que o paciente quiser,podemos relaxar.

– Ta bom Maria, não vou te perturbar mais.Obrigado.

– Não tem problema senhor Omar, venha tomar um café conosco quando estiver por perto. O senhor será sempre bem vindo. Diga que falou comigo, que o segurança o deixará passar.

– Esta bem Maria. Prometo passar por ai qualquer dia destes.Obrigado pelas informações.As guardarei sempre em minha memória.

– O senhor é quem sabe. Qualquer coisa podemos dar um jeitinho pro senhor. É o nosso negócio.

– Ok Maria, agradeço novamente, bom ano novo.

Coloquei o folheto dentro da gaveta do criado mudo. Preciso pensar. Será que algum dia vou me arriscar a deletar algumas memórias? Como irei me sentir ? Irei sentir falta delas ? Se me arriscar, não ficará um buraco em meu passado ? Será confortável ? Ou será como uma coceira que não se consegue coçar ? Por enquanto acho que vou ficar com elas. Boas ou más, a elas estou acostumado.Criei couraças. Mas de vez em quando as defesas caem. Só ai então irei me decidir a tomar um café com Maria e quem sabe agendar um relaxamento.

O pé de rosadá – por débora guedes / coruripe.alagoas


Sempre fui uma pessoa apegada a sons, aromas e sabores. Bem, observando minha forma física, muito mais em sabores do que em aromas e sons. Quando cheguei à emissora de rádio para editar um material de áudio da prefeitura em que trabalho, vi uma plantinha bastante familiar… Era um arbusto filhote ainda, quase imperceptível, meio sem graça, visto que suas folhas estavam maltratadas e seus frutos escassos. Era um pé de rosadá. Imediatamente, fui transportada para a infância vivida no sítio do meu avô, no povoado Estiva, na cidade de Coruripe.
Viajei até aquela casa, situada no alto de um morro, ladeada pelo alpendre onde redes e cadeiras de balanço convidavam para o descanso – se bem que a última coisa que uma criança queria, naquele paraíso, era descansar. Os quatro quartos eram simples, de piso grosso, com camas de madeira firme e lençóis caprichosamente lavados exalando cheiro de sabão em pó. O quarto de meus avós era um caso a parte: tinha guarda-roupa grande, penteadeira com muitos perfumes, talco, pó de arroz, cremes e muitas imagens de santos e terços. As marcas dos cosméticos eram populares, mas faziam a nossa festa. Todos tinham janelas enormes que permitiam a ampla entrada do sol e do vento. Fui levada pelo cheiro da lembrança àquelas salas de jantar e TV, onde religiosamente, todos os domingos, eu assistia a um programa de música regional, na companhia do meu avô, ouvindo a música tema de Renato Teixeira “Amanheceu, peguei a viola” e via a abertura linda que a emissora do plin-plin deixou de exibir.
A cozinha, que além do fogão a gás trazido pela modernidade, tinha um típico fogão à lenha, que era utilizado para cozinhar o feijão de arranca, temperado apenas com sal. Não que faltassem condimentos na casa de meus avós. Mas ele, o feijão, era preparado dessa forma, e confesso que jamais provei algo tão gostoso. Tentei prepará-lo igual em casa, mas não surtiu o mesmo efeito. Acho que a mágica estavam naquelas panelas sujas de cinza, nas lenhas do fogão e principalmente nas mãos calejadas de minha avó.
O quintal parecia um planeta colorido, saboroso com cajueiros, jaqueiras, bananeiras, goiabeiras, saputis, mangueiras, jabuticabeiras, limoeiros, laranjeiras, pitombeira, pés de café… Não que meu avô tivesse sido barão de café, porque com o escasso dinheiro, ele seria, na brincadeira, um café com leite. Mas tínhamos um pé e provávamos da fruta que por incrível que pareça, tem um sabor doce, meio enjoativo.
A oficina onde o caminhão e a saveiro eram consertadas, também era a montadora dos carros de rolimã, e carrinhos feitos de lata de óleo com os quais meus primos costumavam brincar.
Havia do outro lado da estrada de barro, um sítio de manga, com campo de várzea, para os famosos rachas, um cercado com algumas vacas que supriam nossa necessidade de leite fresco e o limite entre a terra vizinha, era o Rio Coruripe. Existia também uma casa de farinha onde descascávamos mandioca, colocávamos em sacas e meus tios colocavam sob a prensa, para retirar o líquido tóxico da raiz. Depois desse processo, a massa crua era peneirada por nós, em uma folia contagiante e levada ao forno de lenha, grande, redondo onde meus tios mexiam a melhor farinha que já comi. Lá, na casa de farinha, as risadas eram soltas, sem pudores e nós, as crianças, sempre a enlouquecer o juízo dos mais velhos – Eu mais que os outros, já que vivia às turras com meus primos e às quedas, porque falta de equilíbrio e coordenação me acompanha desde sempre. Qualquer semelhança com o fato de eu ser acadêmica de fisioterapia, não é mera coincidência.
Nas refeições, a mesa era farta de comida e principalmente de gente. Meu avô como típico patriarca do interior nordestino, não permitia que viva alma saísse de sua casa de estômago vazio. Tinha que estufar! “Coma!” Ordenava. “Tem feijão, arroz, macarrão, charque, carne guizada, peixe frito e salada. Se ‘silva’”, dizia ele em sua ingênua falta de traquejo na pronúncia da língua portuguesa.
Perto da casa de farinha, tinha uma mangueira e abaixo dela, um tronco quase sexagenário onde sentávamos as tardes para prosear e as noites para cantar ao som extraído das cordas surradas, porém afinadas do violão de meu tio.
Nas férias, ao chegar naquela casa, na subida do pequeno morro, o cheiro daquela planta sinalizava que minha festa estava apenas começando. Quando vejo o arbusto florido lembro-me daquele lugar, da minha infância muito bem vivida.
Confesso que antes de escrever esse post, liguei para minha prima e perguntei: “Kássia, como é mesmo o nome daquela planta que tem o cheiro da casa da vovó?” E sem pestanejar, ela respondeu: “Ah! É o pé de rosadá”.

DILMA ROUSSEFF PRESIDENTE !

Marcelo Casal/ABr / Dilma e o  vice-presidente Michel Temer sobem a rampa do Palácio do Planalto: promessa da nova presidente é de manter a estabilidade econômica
Dilma e o vice-presidente Michel Temer sobem a rampa do Palácio do Planalto: promessa da nova presidente é de manter a estabilidade econômica

Na posse, Dilma anuncia meta de erradicar a miséria no país

Nova presidente também deu destaque especial à luta pela melhoria da saúde, educação e segurança pública, áreas de forte demanda social

BRASÍLIA – A presidente Dilma Rousseff (PT) tomou posse ontem como a primeira mulher a comandar o Brasil. Disse que a pobreza extrema “envergonha o país’’. E reiterou que sua principal meta de governo será erradicar a fome e a miséria. Também deu uma especial atenção ao compromisso de lutar pela qualidade da educação, saúde e segurança – algumas das principais demandas da sociedade.

Aos 63 anos, a ex-militante de esquerda e ex-presa política foi oficialmente declarada empossada às 14h52 por um antigo integrante do campo político da ditadura que ela combateu, o presidente do Senado e do Congresso, José Sarney (PMDB-AP).


Brasília – A presidente Dilma Rousseff (PT) passou as duas últimas semanas debruçada sobre os discursos feitos ontem no Congresso Nacional e no Palácio do Planalto. Os textos finais contaram com sugestões do publicitário João Santana (marqueteiro das campanhas presidenciais dela e de Lula) e dos ministros José Eduardo Cardozo (Justiça) e Fernando Pimentel (Desenvolvimento, Indústria e Comércio).

“Eles ajudaram, mas foi a própria Dilma quem conduziu o trabalho. A presidente é muito inventiva, gosta disso”, diz o ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República, Gilberto Carvalho. O paranaense se disse “emocionado” com o teor dos discursos.

“É muito importante que ela tenha colocado como um avanço necessário e imprescindível a questão da erradicação da miséria.” Carvalho também adiantou que a primeira reunião da nova equipe de coordenação política do governo será realizada na terça-feira. Segundo ele, porém, ainda não está definido quem integrará a equipe.


Saúde terá papel fundamental no combate à pobreza extrema

Apontado como meta primordial do governo por Dilma Rousseff, o combate à miséria integrará todos os ministérios.

O discurso de 40 minutos de Dilma no Congresso, onde tomou posse, foi basicamente uma repetição de compromissos que ela vem assumindo desde sua eleição, além dos tradicionais elogios dos anos de governo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, de quem ontem recebeu a faixa presidencial. A novidade foi a introdução daquele que pode ser seu bordão de discursos de Dilma: “Queridas brasileiros, queridos brasileiros’’.

O texto teve como mote a afirmação de que seu antecessor e padrinho político promoveu o “despertar de um novo Brasil’’ e “o maior processo de afirmação’’ que o país já viveu, disse a petista, que é a 40.ª pessoa a ocupar ocupar a Presidência da República.

Dilma reafirmou que a luta de seu governo será “a erradicação da pobreza extrema e a criação de oportunidades para todos’’, além da melhora na “educação, saúde e segurança.’’ “Não vou descansar enquanto houver brasileiros sem alimentos na mesa, enquanto houver famílias no desalento das ruas, enquanto houver crianças pobres abandonadas à própria sorte”, disse. “Essa não será uma tarefa isolada de um governo, mas um compromisso a ser abraçado por toda a sociedade”, ressaltou.

Ao citar que outra prioridade no seu governo será a luta pela qualidade da educação, saúde e segurança, Dilma destacou que para melhorar a qualidade do ensino os professores precisam ser “tratados como verdadeiras autoridades da educação, com formação continuada, remuneração adequada e sólido compromisso com a educação das crianças e jovens”.

Economia

A nova presidente defendeu ainda em seu discurso de posse uma reforma política urgente “para fazer avançar nossa jovem democracia” e dar longevidade ao atual ciclo de crescimento. “É, portanto, inadiável a implementação de um conjunto de medidas que modernize o sistema tributário, orientado pelo princípio da simplificação e da racionalidade”, afirmou.

Dilma reiterou que manterá a estabilidade econômica como valor absoluto. “Já faz parte de nossa cultura recente a convicção de que a inflação desorganiza a economia e degrada a renda do trabalhador”, afirmou. “Não permitiremos, sob nenhuma hipótese que esta praga volte a corroer nosso tecido econômico e a castigar as famílias mais pobres”.

Ela prometeu também não fazer a menor concessão ao protecionismo dos países ricos “que sufoca qualquer possibilidade de superação da pobreza” e fazer um trabalho permanente e continuado para melhorar o gasto público.

Apoio político

Dilma pediu também o apoio dos partidos políticos, instituições e sociedade para governar o país. “O Brasil do futuro será exatamente do tamanho daquilo que, juntos, fizermos por ele hoje. Do tamanho da participação de todos e de cada um”.

Dilma prestou também homenagem ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, embargando a voz ao citá-lo e especialmente ao vice, José Alencar, internado em São Paulo, “pelo exemplo de coragem” no combate ao câncer. Alencar luta contra tumores malignos no intestino e não pôde comparecer à posse de Dilma.

André Gonçalves, correspondente

DILMA ROUSSEFF, discurso de posse no CONGRESSO NACIONAL

Dilma Rousseff  e Michel Temer foram empossados presidente vice, respectivamente, às 14h52 deste sábado no Congresso Nacional. Dilma fez um discurso de 40 minutos.

abaixo, leia a íntegra:

“Senhor presidente do Congresso Nacional, senador José Sarney,
Senhores chefes de Estado e de Governo que me honram com as suas presenças,
Senhor vice-presidente da República, Michel Temer,
Senhor presidente da Câmara dos Deputados, deputado Marco Maia,
Senhor presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Cezar Peluso,
Senhoras e senhores chefes das missões estrangeiras,
Senhoras e senhores ministros de Estado,
Senhoras e senhores governadores,
Senhoras e senhores senadores,
Senhoras e senhores deputados federais,
Senhoras e senhores representantes da imprensa,
Meus queridos brasileiros e brasileiras,

Pela decisão soberana do povo, hoje será a primeira vez que a faixa presidencial cingirá o ombro de uma mulher.

Sinto uma imensa honra por essa escolha do povo brasileiro e sei do significado histórico desta decisão.

Sei, também, como é aparente a suavidade da seda verde-amarela da faixa presidencial, pois ela traz consigo uma enorme responsabilidade perante a nação.

Para assumi-la, tenho comigo a força e o exemplo da mulher brasileira. Abro meu coração para receber, neste momento, uma centelha da sua imensa energia.

E sei que meu mandato deve incluir a tradução mais generosa desta ousadia do voto popular que, após levar à presidência um homem do povo, um trabalhador, decide convocar uma mulher para dirigir os destinos do país.

Venho para abrir portas para que muitas outras mulheres também possam, no futuro, ser presidentas; e para que – no dia de hoje – todas as mulheres brasileiras sintam o orgulho e a alegria de ser mulher.

Não venho para enaltecer a minha biografia; mas para glorificar a vida de cada mulher brasileira. Meu compromisso supremo – eu reitero – é honrar as mulheres, proteger os mais frágeis e governar para todos!

Venho, antes de tudo, para dar continuidade ao maior processo de afirmação que este país já viveu nos tempos recentes.

Venho para consolidar a obra transformadora do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, venho para consolidar a obra transformadora do Presidente Lula, com quem tive a mais vigorosa experiência política da minha vida e o privilégio de servir ao país, ao seu lado, nestes últimos anos. De um presidente que mudou a forma de governar e levou o povo brasileiro a confiar ainda mais em si mesmo e no futuro do país.

A maior homenagem que posso prestar a ele é ampliar e avançar as conquistas do seu governo. Reconhecer, acreditar e investir na força do povo foi a maior lição que o presidente Lula deixa para todos nós.

Sob a sua liderança, o povo brasileiro fez a travessia para uma outra margem da nossa história.
Minha missão agora é de consolidar esta passagem e avançar no caminho de uma nação geradora das mais amplas oportunidades.

Quero, neste momento, prestar minha homenagem a outro grande brasileiro, incansável lutador, companheiro que esteve ao lado do Presidente Lula nesses oito anos: nosso querido vice-presidente José Alencar. Que exemplo de coragem e de amor à vida nos dá este grande homem!! E que parceria fizeram o presidente Lula e o vice-presidente José Alencar, pelo Brasil e pelo nosso povo!!

Eu e o vice-presidente Michel Temer nos sentimos responsáveis por seguir no caminho iniciado por eles.

Um governo se alicerça no acúmulo de conquistas realizadas ao longo da história. Ele sempre será, ao seu tempo, mudança e continuidade. Por isso, ao saudar os extraordinários avanços recentes, liderados pelo presidente Lula, é justo lembrar que muitos, a seu tempo e a seu modo, deram grandes contribuições às conquistas do Brasil de hoje.

Vivemos um dos melhores períodos da vida nacional: milhões de empregos estão sendo criados; nossa taxa de crescimento mais que dobrou e encerramos um longo período de dependência do Fundo Monetário Internacional, ao mesmo tempo em que superamos a nossa dívida externa.

Reduzimos, sobretudo, a nossa dívida social, a nossa histórica dívida social, resgatando milhões de brasileiros da tragédia da miséria e ajudando outros milhões a alcançarem a classe média.
Mas, em um país com a complexidade do nosso, é preciso sempre querer mais, descobrir mais, inovar nos caminhos e buscar sempre novas soluções.

Só assim poderemos garantir, aos que melhoraram de vida, que eles podem alcançar mais; e provar, aos que ainda lutam para sair da miséria, que eles podem, com a ajuda do governo e de toda a sociedade, mudar de vida e de patamar.

Que podemos ser, de fato, uma das nações mais desenvolvidas e menos desiguais do mundo – um país de classe média sólida e empreendedora.

Uma democracia vibrante e moderna, plena de compromisso social, liberdade política e criatividade.

Queridos brasileiros e queridas brasileiras,
Para enfrentar estes grandes desafios é preciso manter os fundamentos que nos garantiram chegar até aqui.

Mas, igualmente, agregar novas ferramentas e novos valores.

Na política é tarefa indeclinável e urgente uma reforma com mudanças na legislação para fazer avançar nossa jovem democracia, fortalecer o sentido programático dos partidos e aperfeiçoar as instituições, restaurando valores e dando mais transparência ao conjunto da atividade pública.

Para dar longevidade ao atual ciclo de crescimento é preciso garantir a estabilidade, especialmente a estabilidade de preços, e seguir eliminando as travas que ainda inibem o dinamismo da nossa economia, facilitando a produção e estimulando a capacidade empreendedora de nosso povo, da grande empresa até os pequenos negócios locais, do agronegócio à agricultura familiar.

É, portanto, inadiável a implementação de um conjunto de medidas que modernize o sistema tributário, orientado pelo princípio da simplificação e da racionalidade. O uso intensivo da tecnologia da informação deve estar a serviço de um sistema de progressiva eficiência e elevado respeito ao contribuinte.

Valorizar nosso parque industrial e ampliar sua força exportadora será meta permanente. A competitividade de nossa agricultura e da nossa pecuária, que faz do Brasil grande exportador de produtos de qualidade para todos os continentes, merecerá toda a nossa atenção. Nos setores mais produtivos a internacionalização de nossas empresas já é uma realidade.

O apoio aos grandes exportadores não é incompatível com o incentivo, o desenvolvimento e o apoio à agricultura familiar e ao microempreendedor. As pequenas empresas são responsáveis pela maior parcela dos empregos permanentes em nosso país. Merecerão políticas tributárias e de crédito perenes.

Valorizar o desenvolvimento regional é outro imperativo de um país continental, sustentando a vibrante economia do Nordeste, preservando e respeitando a biodiversidade da Amazônia no Norte, dando condições à extraordinária produção agrícola do Centro-Oeste, a força industrial do Sudeste e a pujança e o espírito de pioneirismo do Sul.

É preciso, antes de tudo, criar condições reais e efetivas capazes de aproveitar e potencializar, ainda mais e melhor, a imensa energia criativa e produtiva do povo brasileiro.

No plano social, a inclusão só será plenamente alcançada com a universalização e a qualificação dos serviços essenciais. Este é um passo decisivo e irrevogável, para consolidar e ampliar as grandes conquistas obtidas pela nossa população no período do governo do presidente Lula.

É, portanto, tarefa indispensável uma ação renovadora, efetiva e integrada dos governos federal, estaduais e municipais, em particular nas áreas da saúde, da educação e da segurança, o que é vontade expressa das famílias e da população brasileira.

Queridos brasileiros e brasileiras,
A luta mais obstinada do meu governo será pela erradicação da pobreza extrema e a criação de oportunidades para todos.

Uma expressiva mobilidade social ocorreu nos dois mandatos do Presidente Lula. Mas ainda existe pobreza a envergonhar nosso país e a impedir nossa afirmação plena como povo desenvolvido.

Não vou descansar enquanto houver brasileiros sem alimentos na mesa, enquanto houver famílias no desalento das ruas, enquanto houver crianças pobres abandonadas à própria sorte. O congraçamento das famílias se dá no alimento, na paz e na alegria. É este o sonho que vou perseguir!

Esta não é tarefa isolada de um governo, mas um compromisso a ser abraçado por toda a nossa sociedade. Para isso peço com humildade o apoio das instituições públicas e privadas, de todos os partidos, das entidades empresariais e dos trabalhadores, das universidades, da juventude, de toda a imprensa e das pessoas de bem.

A superação da miséria exige prioridade na sustentação de um longo ciclo de crescimento. É com crescimento que serão gerados os empregos necessários para as atuais e as novas gerações.

É com crescimento, associado a fortes programas sociais, que venceremos a desigualdade de renda e do desenvolvimento regional.

Isso significa – reitero – manter a estabilidade econômica como valor. Já faz parte, aliás, da nossa cultura recente a convicção de que a inflação desorganiza a economia e degrada a renda do trabalhador. Não permitiremos, sob nenhuma hipótese, que essa praga volte a corroer nosso tecido econômico e a castigar as famílias mais pobres.

Continuaremos fortalecendo nossas reservas externas para garantir o equilíbrio das contas externas e bloquear, e impedir a vulnerabilidade externa. Atuaremos decididamente nos fóruns multilaterais na defesa de políticas econômicas saudáveis e equilibradas, protegendo o país da concorrência desleal e do fluxo indiscriminado de capitais especulativos.

Não faremos a menor concessão ao protecionismo dos países ricos que sufoca qualquer possibilidade de superação da pobreza de tantas nações pela via do esforço de produção.
Faremos um trabalho permanente e continuado para melhorar a qualidade do gasto público.

O Brasil optou, ao longo de sua história, por construir um Estado provedor de serviços básicos e de previdência social pública.

Isso significa custos elevados para toda a sociedade, mas significa também a garantia do alento da aposentadoria para todos e serviços de saúde e educação universais. Portanto, a melhoria dos serviços públicos é também um imperativo de qualificação dos gastos governamentais.

Outro fator importante da qualidade da despesa é o aumento dos níveis de investimento em relação aos gastos de custeio. O investimento público é essencial como indutor do investimento privado e como instrumento de desenvolvimento regional.

Através do Programa de Aceleração do Crescimento e do programa Minha Casa, Minha Vida, manteremos o investimento sob estrito e cuidadoso acompanhamento da Presidência da República e dos ministérios.

O PAC continuará sendo um instrumento de coesão da ação governamental e coordenação voluntária dos investimentos estruturais dos estados e municípios. Será também vetor de incentivo ao investimento privado, valorizando todas as iniciativas de constituição de fundos privados de longo prazo.

Por sua vez, os investimentos previstos para a Copa do Mundo e para as Olimpíadas serão concebidos de maneira a dar ganhos permanentes de qualidade de vida, em todas as regiões envolvidas.

Esse princípio vai reger também nossa política de transporte aéreo. É preciso, sem dúvida, melhorar e ampliar nossos aeroportos para a Copa e as Olimpíadas. Mas é mais que necessário melhorá-los já, para arcar com o crescente uso desse meio de transporte por parcelas cada vez mais amplas da população brasileira.

Queridas brasileiras e queridos brasileiros,
Junto com a erradicação da miséria, será prioridade do meu governo a luta pela qualidade da educação, da saúde e da segurança.

Nas últimas décadas, o Brasil universalizou o ensino fundamental. Porém é preciso melhorar sua qualidade e aumentar as vagas no ensino infantil e no ensino médio.

Para isso, vamos ajudar decididamente os municípios a ampliar a oferta de creches e de pré-escolas.

No ensino médio, além do aumento do investimento público vamos estender a vitoriosa experiência do ProUni para o ensino médio profissionalizante, acelerando a oferta de milhares de vagas para que nossos jovens recebam uma formação educacional e profissional de qualidade.

Mas só existirá ensino de qualidade se o professor e a professora forem tratados como as verdadeiras autoridades da educação, com formação continuada, remuneração adequada e sólido compromisso dos professores e da sociedade com a educação das crianças e dos jovens.

Somente com avanço na qualidade de ensino poderemos formar jovens preparados, de fato, para nos conduzir à sociedade da tecnologia e do conhecimento.

Queridas brasileiras e queridos brasileiros,
Consolidar o Sistema Único de Saúde será outra grande prioridade do meu governo.

Para isso, vou acompanhar pessoalmente o desenvolvimento desse setor tão essencial para o povo brasileiro.

O SUS deve ter como meta a solução real do problema que atinge a pessoa que o procura, com uso de todos os instrumentos de diagnóstico e tratamento disponíveis, tornando os medicamentos acessíveis a todos, além de fortalecer as políticas de prevenção e promoção da saúde.

Vou usar, sim, a força do governo federal para acompanhar a qualidade do serviço prestado e o respeito ao usuário.

Vamos estabelecer parcerias com o setor privado na área da saúde, assegurando a reciprocidade quando da utilização dos serviços do SUS.

A formação e a presença de profissionais de saúde adequadamente distribuídos em todas as regiões do país será outra meta essencial ao bom funcionamento do sistema.

Queridas brasileiras e queridos brasileiros,
A ação integrada de todos os níveis do governo e a participação da sociedade é o caminho para a redução da violência que constrange a sociedade e as famílias brasileiras.

Meu governo fará um trabalho permanente para garantir a presença do Estado em todas as regiões mais sensíveis à ação da criminalidade e das drogas, em forte parceria com estados e municípios.

O estado do Rio de Janeiro mostrou o quanto é importante, na solução dos conflitos, a ação coordenada das forças de segurança dos três níveis de governo, incluindo – quando necessário – a participação decisiva das Forças Armadas.

O êxito dessa experiência deve nos estimular a unir as forças de segurança no combate, sem tréguas, ao crime organizado, que sofistica a cada dia seu poder de fogo e suas técnicas de aliciamento dos jovens.

Buscaremos também uma maior capacitação federal na área de inteligência e no controle das fronteiras, com o uso de modernas tecnologias e treinamento profissional permanente.

Reitero meu compromisso de agir no combate às drogas, em especial ao avanço do crack, que desintegra nossa juventude e infelicita as nossas famílias.

O pré-sal é nosso passaporte para o futuro, mas só o será plenamente, queridas brasileiras e queridos brasileiros, se produzir uma síntese equilibrada de avanço tecnológico, avanço social e cuidado ambiental.

A sua própria descoberta é resultado do avanço tecnológico brasileiro e de uma moderna política de investimentos em pesquisa e inovação. Seu desenvolvimento será fator de valorização da empresa nacional e seus investimentos serão geradores de milhares de novos empregos.

O grande agente dessa política foi e é a Petrobrás, símbolo histórico da soberania brasileira na produção energética e do petróleo.

O meu governo terá a responsabilidade de transformar a enorme riqueza obtida no pré-sal em poupança de longo prazo, capaz de fornecer às atuais e às futuras gerações a melhor parcela dessa riqueza, transformada, ao longo do tempo, em investimentos efetivos na qualidade dos serviços públicos, na redução da pobreza e na valorização do meio ambiente. Recusaremos o gasto apressado, que reserva às futuras gerações apenas as dívidas e a desesperança.

Queridos e queridas brasileiras e brasileiros,
Muita coisa melhorou no nosso país, mas estamos vivendo apenas o início de uma nova era. O despertar de um novo Brasil.

Recorro a um poeta da minha terra natal. Ele diz: “o que tem de ser, tem muita força, tem uma força enorme”.

Pela primeira vez o Brasil se vê diante da oportunidade real de se tornar, de ser, uma nação desenvolvida. Uma nação com a marca inerente também da cultura e do estilo brasileiros – o amor, a generosidade, a criatividade e a tolerância.

Uma nação em que a preservação das reservas naturais e das suas imensas florestas, associada à rica biodiversidade e à matriz energética mais limpa do mundo, permitem um projeto inédito de país desenvolvido com forte componente ambiental.

O mundo vive em um ritmo cada vez mais acelerado de revolução tecnológica. Ela se processa tanto na decifração de códigos desvendadores da vida quanto na explosão da comunicação e da informática.

Temos avançado na pesquisa e na tecnologia, mas precisamos avançar muito mais. Meu governo apoiará fortemente o desenvolvimento científico e tecnológico para o domínio do conhecimento e para a inovação como instrumento fundamental de produtividade e competitividade do nosso país.

Mas o caminho para uma nação desenvolvida não está somente no campo econômico ou no campo do desenvolvimento econômico pura e simplesmente. Ele pressupõe o avanço social e a valorização da nossa imensa diversidade cultural. A cultura é a alma de um povo, essência de sua identidade.

Vamos investir em cultura, ampliando a produção e o consumo em todas as regiões de nossos bens culturais e expandindo a exportação de nossa música, cinema e literatura, signos vivos de nossa presença no mundo.

Em suma: temos que combater a miséria, que é a forma mais trágica de atraso, e, ao mesmo tempo, avançar investindo fortemente nas áreas mais modernas e sofisticadas da invenção tecnológica, da criação intelectual e da produção artística e cultural.

Justiça social, moralidade, conhecimento, invenção e criatividade devem ser, mais que nunca, conceitos vivos no dia a dia da nossa nação.

Queridas e queridos brasileiros e brasileiras,
Considero uma missão sagrada do Brasil a de mostrar ao mundo que é possível um país crescer aceleradamente, sem destruir o meio ambiente.

Somos e seremos os campeões mundiais de energia limpa, um país que sempre saberá crescer de forma saudável e equilibrada.

O etanol e as fontes de energias hídricas terão grande incentivo, assim como as fontes alternativas: a biomassa, (incompreensível) a eólica e a solar. O Brasil continuará também priorizando a preservação das reservas naturais e de suas imensas florestas.

Nossa política ambiental favorecerá nossa ação nos fóruns multilaterais. Mas o Brasil não condicionará sua ação ambiental ao sucesso e ao cumprimento, por terceiros, de acordos internacionais.

Defender o equilíbrio ambiental do planeta é um dos nossos compromissos nacionais mais universais.

Meus queridos brasileiros e brasileiras,
Nossa política externa estará baseada nos valores clássicos da tradição diplomática brasileira: promoção da paz, respeito ao princípio de não intervenção, defesa dos Direitos Humanos e fortalecimento do multilateralismo.

O meu governo continuará engajado na luta contra a fome e a miséria no mundo.
Seguiremos aprofundando o relacionamento com nossos vizinhos sul-americanos; com nossos irmãos da América Latina e do Caribe; com nossos irmãos africanos e com os povos do Oriente Médio e dos países asiáticos. Preservaremos e aprofundaremos o relacionamento com os Estados Unidos e com a União Européia.

Vamos dar grande atenção aos países emergentes.

O Brasil reitera, com veemência e firmeza, a decisão de associar seu desenvolvimento econômico, social e político ao nosso continente.

Podemos transformar nossa região em componente essencial do mundo multipolar que se anuncia, dando consistência cada vez maior ao Mercosul e à Unasul. Vamos contribuir para a estabilidade financeira internacional, com uma intervenção qualificada nos fóruns multilaterais.

Nossa tradição de defesa da paz não nos permite qualquer indiferença frente à existência de enormes arsenais atômicos, à proliferação nuclear, ao terrorismo e ao crime organizado transnacional.

Nossa ação política externa continuará propugnando pela reforma dos organismos de governança mundial, em especial as Nações Unidas e seu Conselho de Segurança.

Queridas brasileiras e queridos brasileiros,
Disse, ao início deste discurso, que eu governarei para todos os brasileiros e brasileiras. E vou fazê-lo.

Mas é importante lembrar que o destino de um país não se resume à ação de seu governo. Ele é o resultado do trabalho e da ação transformadora de todos os brasileiros e brasileiras. O Brasil do futuro será exatamente do tamanho daquilo que, juntos, fizermos por ele hoje. Do tamanho da participação de todos e de cada um:
Dos movimentos sociais,
dos que labutam no campo,
dos profissionais liberais,
dos trabalhadores e dos pequenos empreendedores,
dos intelectuais,
dos servidores públicos,
dos empresários,
das mulheres,
dos negros, dos índios, dos jovens,
de todos aqueles que lutam para superar distintas formas de discriminação.

Quero estar ao lado dos que trabalham pelo bem do Brasil na solidão amazônica, no semiárido nordestino e em todos os seus rincões, na imensidão do cerrado, na vastidão dos pampas.

Quero estar ao lado dos que vivem nos aglomerados metropolitanos, na vastidão das florestas; no interior ou no litoral, nas capitais e nas fronteiras do Brasil.

Quero convocar todos a participar do esforço de transformação do nosso país.

Respeitada a autonomia dos poderes e o princípio federativo, quero contar com o Legislativo e o Judiciário, e com a parceria de governadores e prefeitos para continuarmos desenvolvendo nosso país, aperfeiçoando nossas instituições e fortalecendo nossa democracia.

Reafirmo meu compromisso inegociável com a garantia plena das liberdades individuais; da liberdade de culto e de religião; da liberdade de imprensa e de opinião.

Reafirmo que o que disse ao longo da campanha, que prefiro o barulho da imprensa livre ao silêncio das ditaduras. Quem, como eu e tantos outros da minha geração, lutamos contra o arbítrio, a censura e a ditadura, somos naturalmente amantes da mais plena democracia e da defesa intransigente dos direitos humanos, no nosso país e como bandeira sagrada de todos os povos.

O ser humano não é só realização prática, mas sonho; não é só cautela racional, mas coragem, invenção e ousadia. E esses são os elementos fundamentais para a afirmação coletiva da nossa nação.

Eu e meu vice-presidente Michel Temer fomos eleitos por uma ampla coligação partidária. Estamos construindo com eles um governo onde capacidade profissional, liderança e a disposição de servir ao país serão os critérios fundamentais.

Mais uma vez estendo minha mão aos partidos de oposição e às parcelas da sociedade que não estiveram conosco na recente jornada eleitoral. Não haverá de minha parte e do meu governo discriminação, privilégios ou compadrio.

A partir deste momento sou a presidenta de todos os brasileiros, sob a égide dos valores republicanos.

Serei rígida na defesa do interesse público. Não haverá compromisso com o desvio e o malfeito. A corrupção será combatida permanentemente, e os órgãos de controle e investigação terão todo o meu respaldo para aturem com firmeza e autonomia.

Queridas brasileiras e queridos brasileiros,
Chegamos ao final deste longo discurso. Queria dizer a vocês que eu dediquei toda a minha vida à causa do Brasil. Entreguei, como muitos aqui presentes, minha juventude ao sonho de um país justo e democrático. Suportei as adversidades mais extremas infligidas a todos que ousamos enfrentar o arbítrio. Não tenho qualquer arrependimento, tampouco não tenho ressentimento ou rancor.

Muitos da minha geração, que tombaram pelo caminho, não podem compartilhar a alegria deste momento. Divido com eles esta conquista, e rendo-lhes minha homenagem.

Esta, às vezes dura, caminhada me fez valorizar e amar muito mais a vida e me deu sobretudo coragem para enfrentar desafios ainda maiores. Recorro mais uma vez ao poeta da minha terra:
‘O correr da vida – diz ele – embrulha tudo. A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem’.

É com essa coragem que vou governar o Brasil.

Mas mulher não é só coragem. É carinho também. Carinho que dedico a minha filha e ao meu neto. Carinho com que abraço a minha mãe que me acompanha e me abençoa.

É com esse imenso carinho que quero cuidar do meu povo, e a ele dedicar os próximos anos da minha vida.

Que Deus abençoe o Brasil!
Que Deus abençoe a todos nós!
E que tenhamos paz no mundo!”

 

PORQUE AS PESSOAS GRITAM? – por mahatma gandhi

Um dia, um pensador indiano fez a seguinte pergunta a seus discípulos:

– Por que as pessoas gritam quando estão aborrecidas?
– Gritamos porque perdemos a calma, disse um deles.
– Mas, por que gritar quando a outra pessoa está ao seu lado? – Questionou novamente o pensador.
– Bem, gritamos porque desejamos que a outra pessoa nos ouça, retrucou outro discípulo.

E o mestre volta a perguntar:

– Então não é possível falar-lhe em voz baixa?
Várias outras respostas surgiram, mas nenhuma convenceu o pensador. Então ele esclareceu:
– Vocês sabem  porque se grita com uma pessoa quando se está aborrecida? O fato é que, quando duas pessoas estão aborrecidas, seus corações se afastam muito.
Para cobrir esta distância precisam gritar para poderem escutar-se mutuamente.

Quanto mais aborrecidas estiverem, mais forte terão que gritar para ouvir um ao outro, através da grande distância.
Por outro lado, o que sucede quando duas pessoas estão enamoradas?
Elas não gritam.
Falam suavemente.
E por quê?
Porque seus corações estão muito perto.
A distância entre elas é pequena.
Às vezes estão tão próximos seus corações, que nem falam, somente sussurram.
E quando o amor é mais intenso, não necessitam sequer sussurrar, apenas se olham, e basta.
Seus corações se entendem.

É isso que acontece quando duas pessoas que se amam estão próximas.
Por fim, o pensador conclui, dizendo:
“Quando vocês discutirem, não deixem que seus corações se afastem, não digam palavras que os distanciem mais, pois chegará um dia em que a distância será tanta que não mais encontrarão o caminho de volta”

O MINISTÉRIO DILMA – por marcos coimbra / são paulo

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O Ministério Dilma
26/12/2010

Por mais que a esperemos, é sempre surpreendente a má vontade de nossa “grande imprensa” para com o governo Dilma. No modo como os principais jornais de São Paulo e do Rio têm discutido o ministério, vê-se, com clareza, seu tamanho.

A explicação para isso pode ser o ainda mal digerido desapontamento com o resultado da eleição, quando, mais uma vez, o eleitor mostrou que a cobertura da mídia tradicional tem pouco impacto nas suas decisões de voto. Ou, talvez, a frustração de constatar quão elevadas são as expectativas populares em relação ao próximo governo, contrariando os prognósticos das redações.

As críticas ao ministério que foi anunciado na última semana estavam prontas, qualquer que fosse sua composição política, regional ou administrativa. Se Dilma chamasse vários colaboradores do atual governo, revelaria sua “submissão” a Lula, se fossem poucos, sua “traição”. Se houvesse muita gente de São Paulo, a “paulistização”, se não, que “dava o troco” ao estado, por ter perdido a eleição por lá. Se convidasse integrantes das diversas tendências que existem dentro do PT, que se curvava às lutas internas, se não, que alimentava os conflitos entre elas. E por aí vai.

Para qualquer lado que andasse, Dilma “decepcionaria” quem não gosta dela, não achou bom que ela vencesse e não queria a continuidade do governo Lula. Ou seja, desagradaria aqueles que não compartilham os sentimentos da grande maioria do país, que torce por ela, está satisfeita com o resultado da eleição e quer a continuidade.

Na contabilidade matematicamente perfeita da “taxa de continuísmo” do ministério, um jornal carioca foi rigoroso: exatos 43,2% dos novos integrantes do primeiro escalão ocuparam cargos no governo Lula (o que será que quer dizer 0,2% de um ministro?). E daí? Isso é pouco? Muito? O que haveria de indesejável, em si, em uma taxa de 43,2%?

Note-se que, desses 16 ministros, apenas oito tinham esse status, sendo os restantes pessoas que ascenderam do segundo para o primeiro escalão. A rigor, marcariam um continuísmo menos extremado (se é isso que se cobra da presidente). Refazendo as contas: somente 21,6% dos ministros teriam a “cara de Lula”. O que, ao contrário, quer dizer que quase 80% não a têm tão nítida.

Para uma candidata cuja proposta básica era continuar as políticas e os programas do atual governo, que surpresa (ou desilusão) poderia existir nos tais 43,2%? Se, por exemplo, ela chamasse o dobro de ministros de Lula, seria errado?

Isso sem levar em consideração que Dilma não era, apenas, a representante abstrata da tese da continuidade, mas uma profissional que passou os últimos oito anos trabalhando com um grupo de pessoas. Imagina-se que tenha desenvolvido, para com muitas, laços de colaboração e amizade. Mantê-las em seus cargos ou promovê-las tem muito a ver com isso.

No plano regional, a acusação é quanto ao excesso de ministros de São Paulo, nove entre 37, o que justificaria dizer que teremos um “paulistério”, conforme essa mesma imprensa. Se, no entanto, fizéssemos aquela aritmética, veríamos que são 24,3% os ministros paulistas, para um estado que tem 22% da população, se for esse o critério para aferir excessos e faltas de ministros por estados e regiões.

Em sendo, teríamos, talvez, um peso desproporcionalmente positivo do Rio (com seis ministros nascidos no estado) e negativo de Minas (com apenas um). Há que lembrar, no entanto, que a coligação que elegeu a presidente fez o governador, os dois senadores e a maioria da bancada federal fluminense, o oposto do que aconteceu em Minas. O PMDB saiu alquebrado e o PT ainda mais dividido no estado, com uma única liderança com perspectiva sólida de futuro, o ex-prefeito Fernando Pimentel, que estará no ministério.

Para os mineiros, um consolo, não pequeno: a presidente Dilma nasceu em Belo Horizonte. Os ministros são poucos, mas a chefe é de Minas Gerais.

Marcos Coimbra é sociólogo e presidente do Instituto Vox Populi, o mesmo que, por discordar dos métodos imorais do DataFalha e do IBOPE, teve sua sede invadida em Belo Horizonte por agentes do PIG.
Deu no que deu.

por Marcos Coimbra*, no C Br

O PLANO DIVINO – por belmiro valverde jobim castor / curitiba


Nenhum sábio arriscaria pensar que aquele profeta e visionário pudesse um dia influenciar mais do que um punhado de apóstolos semianalfabetos, quanto mais mudar a história do mundo

Estava procurando um tema para esta crônica de Natal e tinha de ser especial: nada de falar em apagão aéreo (que preguiça ver a Anac aconselhando os passageiros a ficar em casa até descobrir se os aviões irão decolar ou não…), nem no ministério da presidenta eleita, Dilma Rousseff, muito menos nos juros e na carga fiscal que pesam no lombo dos brasileiros. Tudo isso empalidece frente ao significado do Natal, à sua transcendência insuperável. O Brasil prosperará ou enfrentará tempos difíceis, juros subirão e cairão, seremos sangrados em maior ou menor escala pelo apetite voraz dos governantes, alguns ministros verão seus currículos se transformarem em biografias, enquanto os de outros escorregarão para a pasta dos prontuários policiais. Nada disso tem significado permanente, serão apenas episódios fugazes de nossa trajetória nacional.

Corre uma anedota na internet que afirma que, se vivesse hoje, Jesus Cristo não poderia transmitir Seus ensinamentos: não fossem duas breves citações do historiador Flavius Josephus, não teria nem como comprovar sua existência; não tinha curso superior, nem currículo Lattes, não falava uma segunda língua, nunca publicou um artigo em revistas científicas e os textos atribuídos a ele foram, na realidade, escritos dezenas de anos após sua morte por alguns de seus amigos e admiradores.

No entanto, a prova definitiva da divindade do Cristo vem da absoluta improbabilidade – à luz da ciência humana – do cristianismo se transformar em algo mais do que a pregação solitária de um pescador pobre, perdido nas lonjuras de uma colônia menor do Império Romano. Nenhum sábio arriscaria pensar que aquele profeta e visionário pudesse um dia influenciar mais do que um punhado de apóstolos semianalfabetos, quanto mais mudar a história do mundo. O fato de tê-la mudado na profundidade e na extensão que fez desafia a sabedoria humana e é, para mim, a prova definitiva de Sua divindade. Por isso há alguns anos escrevi uma crônica denominada “O Business Plan”, que repito parcialmente a seguir.

“Fico pensando o que seria do céu se o Senhor resolvesse recorrer à “sabedoria” de consultores de empresas antes de mandar Seu filho à Terra. “Senhor” – ponderou o primeiro consultor – “com o devido respeito, parece-nos que existem alguns pontos duvidosos da maior importância, como a questão geográfica e geoestratégica. O centro econômico e político do mundo está situado em Roma, que irradia influências para as outras regiões. Portanto, se quisermos gerar um efeito multiplicador realmente importante, a “Operação JC” (consultores adoram abreviações e acrósticos) terá de ser em Roma mesmo; só numa segunda etapa, ser multiplicada para o resto do Império Romano e depois para o restante do mundo conhecido. No entanto, vejo que o Senhor está pensando em lançar o projeto na Palestina, uma área periférica do Império onde não existe nenhum potencial de trendsetting. Essa – com o devido respeito – é uma decisão arriscada”.

“Nada contra a Palestina” – engatou o segundo consultor – “mas temos de ser realistas: o que se sabe da região é que os grupos locais se detestam mutuamente e estão permanentemente em conflito, o que inviabiliza qualquer tentativa de criar um clima favorável para utilizar as técnicas do ‘viral marketing’. Os efeitos da operação podem demorar três, quatro séculos, até atingirem o centro do poder no mundo, o que é um prazo demasiado longo. E há ainda o problema do meio e da mensagem. A língua, por exemplo, pois o aramaico é pouco conhecido. Chequei também os currículos dos que vão participar e são todos gente muito simples, pescadores analfabetos… Será que estarão à altura da complexidade toda de uma operação desse porte e com objetivos tão vastos?”

Na saída da reunião, os consultores comentavam: “acho que o convencemos…” “Também, pudera, os nossos argumentos eram muito fortes.” Na antessala cruzaram com um conhecido. “Oi Gabriel! Que é que anda inventando por aqui?” “Não sei. O Senhor mandou me chamar com urgência. Pelo jeito é coisa muito importante!”

Belmiro Valverde Jobim Castor é professor do doutorado em Administração da PUCPR.

 

 

MAMÃE NOEL – por martha medeiros / porto alegre

Sabe por que Papai Noel não existe? Porque é homem. Dá para acreditar que
um homem vai se preocupar em escolher o presente de cada pessoa da família,
ele que nem compra as próprias meias? Que vai carregar nas costas um saco
pesadíssimo, ele que reclama até para colocar o lixo no corredor? Que
toparia usar vermelho dos pés à cabeça, ele que só abandonou o marrom depois que conheceu o azul-marinho? Que andaria num trenó puxado por renas, sem ar-condicionado, direção hidráulica e air-bag? Que pagaria o mico de descer por uma chaminé para receber em troca o sorriso das criancinhas? Ele
não faria isso nem pelo sorriso da Luana Piovani! Mamãe Noel, sim, existe.

Quem é a melhor amiga do Molocoton, quem sabe a diferença entre a Mulan e a
Esmeralda, quem conhece o nome de todas as Chiquititas, quem merecia ser
sócia-majoritária da Superfestas? Não é o bom velhinho.

Quem coloca guirlandas nas portas, velas perfumadas nos castiçais, arranjos
e flores vermelhas pela casa? Quem monta a árvore de Natal, harmonizando
bolas, anjos, fitas e luzinhas, e deixando tudo combinando com o sofá e os
tapetes? E quem desmonta essa parafernália toda no dia 6 de janeiro?

Papai Noel ainda está de ressaca no Dia de Reis. Quem enche a geladeira de
cerveja, coca-cola e champanhe? Quem providencia o peru, o arroz à grega, o
sarrabulho, as castanhas, o musse de atum, as lentilhas, os guardanapinhos
decorados, os cálices lavadinhos, a toalha bem passada e ainda lembra de
deixar algum disco meloso à mão?

Quem lembra de dar uma lembrancinha para o zelador, o porteiro, o carteiro,
o entregador de jornal, o cabeleireiro, a diarista? Quem compra o presente
do amigo-secreto do escritório do Papai Noel? Deveria ser o próprio, tão
magnânimo, mas ele não tem tempo para essas coisas. Anda muito requisitado
como garoto-propaganda.

Enquanto Papai Noel distribui beijos e pirulitos, bem acomodado em seu
trono no shopping, quem entra em todas as lojas, pesquisa todos os preços,
carrega sacolas, confere listas, lembra da sogra, do sogro, dos cunhados,
dos irmãos, entra no cheque especial, deixa o carro no sol e chega em casa
sofrendo porque comprou os mesmos presentes do ano passado?

Por trás do protagonista desse megaevento chamado Natal existe alguém em
quem todos deveriam acreditar mais.

.

foto de Leticia Remião.

NATAL – de philomena gebran / rio de janeiro

Tudo é normal nesta época.

Grandes euforias falsas alegrias

Salas iluminadas mesas arrumadas

Camas abandonadas

Árvores de papel.

Sorrisos de papai Noel

Tudo planejado em mágica imaginação.

Tudo sem fantasia. Tudo sem criação

Todos perfumados

Postados conformados.

Hoje ontem amanhã

Sem a menor emoção

Roupa nova inaugurada

Risos estrangulados

Tudo sempre igual no fatal natal.

 

A MANIFESTAÇÃO DA CRIANÇA SAGRADA de zuleika dos reis / são paulo

A MANIFESTAÇÃO DA CRIANÇA SAGRADA

 

 

O Natal nos liga à origem do Tempo Sagrado, onde está o Ser a Quem pertencemos, o Ser de Quem somos parte, independente do fato de termos clara em nós tal Ciência.

A manifestação da Criança Sagrada nos vem todo ano como Recordação e Presença; vem para nos lembrar de que a Vida não tem fronteiras, nem de espaço, nem de tempo.

A manifestação da Criança Sagrada nos vem todo ano para nos mostrar que a Vida apenas É, a iluminar-nos desde Sempre, desde o Âmago, desde o Centro.

A manifestação da Criança Sagrada nos vem todo ano para nos incinerar das nossas misérias, por segundos que seja; para nos Iluminar, por segundos que seja; é preciso Coragem Desmedida para nos deixarmos incinerar, por segundos que seja, para nos deixarmos Iluminar, por segundos que seja; é preciso Desmedida Coragem, para que ousemos duvidar do brilho mais do que nunca ofuscante do Imediato Real, do brilho que, se descuidarmos, nos fará passar totalmente em branco este Tempo de Recordação e de Presença da Criança Sagrada, que vem para nos Lembrar. Que vem para nos Lembrar, para nos lembrar de Nós.

 

Ainda na manhã de 22 de dezembro de 2010.

 

JULIO SARAIVA e sua poesia / são paulo

elegia a nós dois

não há ossos partidos

não há cinzas

só o frio das palavras expulsas da boca

um solo de adeus que constrange

um olhar escondido em nuvens

chuvas que machucam a memória dos livros

páginas que não lemos

.

não há ossos partidos

não há cinzas

só restos de alegorias   sobras de carnavais

& medos

velhos pierrôs exibindo sorrisos estrangulados

olhares antigos anunciando a cegueira

sei que as malas já estavam prontas

mesmo quando a ideia de partir não havia

urubus rondavam a casa

voos incertos além muito além das asas

coelhos fugiam da cartola

para desespero do mágico

.

não há ossos partidos

não há cinzas

não há nada

além do retrato feito a carvão

de um capitão bêbado

o cachimbo no canto da boca

o olhar sujo de quem há anos não dorme

querendo dizer que o atlântico é bem maior

do que qualquer adeus

.

o capitão está certo

do mar nunca se sabe

: navegar é impreciso


auto-retrato II

sou o silêncio de um navio cansado

poço fundo de tantos pesadelos

se sonho sonhos bons mesmo sem tê-los

sou conde num castelo abandonado

.

mas assim vou vivendo no ora-veja

debaixo das cinzas de quarta-feira

e fazendo da vida brincadeira

dou-me a qualquer mulher – se me deseja

.

se penso frevo canto marcha-rancho

e rio-me de mim  – sinto-me ancho

sabendo enfim que a merda desta vida

.

não me fez quixote fez-me sancho

e mesmo olhando o sangrar desta ferida

valeu-me a vida embora tão fodida


SKYLINE PIGEON – de omar de la roca / são paulo


 

É notável como uma musica pode despertar na gente sentimentos por vezes adormecidos ou que fizemos questão de esconder de nos mesmos.

Nestes anos todos tive poucas oportunidades de ouvir musica ao vivo.Uma vez no MASP,onde ouvi um pedaço de uma apresentação de cravo ( que minha companhia detestava ),uma apresentação de musica renascentista ( que minha companhia detestava ),um show de musica irlandesa ( da qual todos gostamos ).Um ensaio no teatro de Campos do Jordão.Algumas das quais não me lembro agora.Enfim,poucas oportunidades.

Nesta manhã molhada,a garoa me fez lembrar de antigamente, caindo continua e triste.Fiz as visitas que tinha que fazer,almocei e acabei me refugiando dela ( a garoa ) num dos shoppings da Paulista.Haveria a apresentação de um coral e um saxofonista ( com um nome pomposo inventado ).O coral embora afinado,não ousou muita coisa.Ficou nas musicas natalinas e uma do Renato Russo ( …o sol vai brilhar amanhã…).Isso ate onde eu ouvi.Mas a surpresa veio quando ouvi os primeiros acordes da gravação que o saxofonista acompanhava e que abriu o show.Skyline Pigeon de Elton John.Ha muito tempo, logo que foi lançada, eu decorei a letra.E fui cantando,sem voz mesmo, e me dando conta dos versos “ me deixe voar para terras distantes,sobre campos verdes, arvores e montanhas, flores e fontes nas florestas “ em tradução livre.Acabou que me pegou de jeito  trazendo a tona sentimentos anestesiados. Precisei respirar fundo para não chorar. Foi meio que como um presente.Uma coisa inesperada.Depois o coral de senhorinhas cantou mais algumas musicas conhecidas,sem muito brilho.

A garoa havia passado.Continuei a caminho do escritório. Na marquise do Sesi uma banda marcial do interior de São Paulo.Um pouco estridente,pra quem estava com dor de cabeça,mas corretos na sua juventude.Só não gostei de Pretty Woman, embora goste da musica.

Queria que tivessem tocado, qualquer um dos dois,The Long and Winding Road “ aquela que levava a porta de alguém” e que quando foi lançada eu achava que era uma rua que ventava muito.Mais tarde descobri o significado de “winding” andando por longos e tortuosos caminhos.Sempre foi uma de minhas favoritas.Mas acho que vai ficar para a próxima.

Mas agradeço aos presentes inesperados. Me  mostraram que ainda sou capaz de me emocionar,quando a tecla correta é apertada.Quando perdemos a vergonha de sentir uma lágrima correr solta e não temos que dar conta dela a ninguém.Que ninguém esta prestando atenção a você. Quando o sentimento te pega de jeito e te mostra que por mais controlado que você seja ( Hold your horses – Segure seus cavalos ) e segure suas sensações,sentimentos,pensamentos,palavras e ações, ele prevalece quando a cor certa aparece e toma conta da tela em branco.

 


“NÃO CHORES POR MIM ARGENTINA” nós também temos um “SUPREMO”

Ex-ditador argentino Jorge Videla é condenado à prisão perpétua

Um dia antes do veredicto, ex-ditador havia assumido culpa por seus atos.
Ex-general foi julgado com colegas pela execução de 31 presos políticos.

Da France Presse

O ex-ditador argentino Jorge Videla (1976-81) foi condenado nesta quarta-feira (22) à prisão perpétua, considerado culpado pelo homicídio de opositores e outros crimes contra a humanidade, em um julgamento contra 30 líderes do regime civil-militar.

O ex-general, de 85 anos, já havia sido condenado à prisão perpétua em 1985 durante um processo histórico da junta militar por crimes cometidos durante a ditadura (1976-1983), que fez 30.000 desaparecidos, segundo as organizações de defesa dos direitos do homem.

O ex-ditador argentino Jorge Rafael Videla, durante julgamento pela morte de 31 prisioneiros políticos em Córdoba, na Argentina, nesta terça (21) Argentina
O ex-ditador argentino Jorge Rafael Videla, durante julgamento pela morte de 31 prisioneiros políticos em Córdoba, na Argentina, na terça (21) Argentina (Foto: Diego Lima / AFP)

Mas a pena foi anulada em 1990 por decreto do ex-presidente Carlos Menem, que, por sua vez foi declarada inconstitucional em 2007 – decisão esta confirmada pela Corte Suprema em abril. O tribunal também suprimiu, em 2005, a lei de anistia para os crimes da ditadura.

A partir daí, vários processos foram abertos contra Jorge Videla, católico fervoroso que fazia-se de moderado, até liderar o golpe de 24 de março de 1976 e de dirigir o país até 1981. Estes anos foram os mais duros do regime militar.

Em Córdoba (centro), o ex-general estava sendo julgado desde o início de julho junto com outros 29 repressores pela execução de 31 presos políticos.

Entre os julgados está o ex-general Luciano Menendez, já condenado à prisão perpétua por três vezes, em processos por violação aos direitos do homem.

Segundo o magistrado Maximiliano Hairabedian, há provas suficientes reunidas “para afirmar que (Jorge Videla) era o mais alto responsável pela elaboração de um plano de eliminação dos oponentes, aplicado pela ditadura militar”.

Roubo de bebês
Processado por roubos de bebês de presos políticos, um crime não acobertado pelo perdão de 1990, Videla foi colocado em prisão domiciliar de 1998 a 2008, até ser transferido para uma unidade prisional em detenção preventiva, enquanto aguardava os múltimos julgamentos.

A partir de 2001, foi também processado por sua participação no Plano Condor, coordenado pelas ditaduras de Argentina, Chile, Paraguai, Brasil, Bolívia e Uruguai para eliminar opositores.

“Assumo plenamente minhas responsabilidades. Meus subordinados limitaram-se a cumprir ordens”, destacou Videla no tribunal de Córdoba, um dia antes da divulgação do veredicto.

No depoimento final de 49 minutos que leu pausadamente, o ex-ditador, de 85 anos, disse que assumirá “sob protesto a injusta condenação que possam me dar”.

“Reclamo a honra da vitória e lamento as sequelas. Valorizo os que, com dor autêntica, choram seus seres queridos, lamento que os direitos humanos sejam utilizados com fins políticos”, disse Videla.

Depois apontou para o governo da presidente Cristina Kirchner, assinalando que as organizações armadas dissolvidas “não mais precisam da violência para chegar ao poder, porque já estão no poder e, daí, tentam a instauração de um regime marxista à maneira de (Antonio) Gramsci” (téorico marxista italiano).

Videla, como comandante da ditadura (1976-81), e Luciano Menéndez, 83 anos, como ex-chefe militar com jurisdição em 11 províncias, são os dois militares de mais alta patente acusados pelo assassinato de 31 presos políticos numa prisão de Córdoba.

Até o momento, 131 repressores foram sentenciados por crimes de lesa-Humanidade durante a ditadura argentina (1976/83).

 

PROF. SERGIO NOGUEIRA: “Temas Polêmicos”

1. O alcoólatra e o alcoólico

A palavra álcool é de origem árabe e “latra” vem do grego. A raiz grega “latria” significa “adoração” (idolatria = adoração de ídolos; egolatria = adoração de si mesmo, do próprio “eu”). Assim sendo, alcoólatra é “quem adora álcool”, é o “viciado em bebidas alcoólicas”.
A Associação dos Alcoólicos Anônimos (AAA) deveria ser chamada de “Associação dos Alcoólatras Anônimos”. A troca de alcoólatra por alcoólico se deve, provavelmente, à carga negativa que a palavra alcoólatra apresenta: é como se fosse sinônimo de “doente irrecuperável, viciado sem salvação”. O uso de alcoólico por alcoólatra é praticamente um eufemismo, ou seja, uma forma mais suave de dizer a mesma coisa.
De eufemismos a nossa linguagem está cheia: “faltar com a verdade ou dizer inverdades” por mentir; “enriquecer por meios ilícitos” por roubar; “descansar, entregar a alma ao Criador e bater as botas” por morrer; “tumor maligno” por câncer; “portador do vírus da Aids” por aidético…
É interessante observar que o uso de eufemismos se dá por vários motivos: ironia, medo de ser grosseiro, atenuar o fato, ridicularizar o caso… O aspecto psicológico está sempre presente.
Alcoólico, na sua origem, é um adjetivo e significa “relativo ao álcool ou o que contém álcool”. Daí as bebidas alcoólicas, ou seja, bebidas que contêm álcool. Entretanto é importante observar que os dicionários Aurélio e Houaiss consideram alcoólico como sinônimo de alcoólatra também.
Portanto, no caso dos “Alcoólicos Anônimos”, a opção por alcoólico não está errada. É uma questão eufêmica, ou seja, a preferência por uma palavra de carga mais leve, mais suave.
Outra curiosidade é a palavra alcoolista, também registrada em nossos dicionários como uma forma menos usada. Seria uma alternativa para alcoólico, pois me parece que alcoolista não tem a carga negativa de alcoólatra.
Por fim, a ortografia. Em álcool, o acento agudo se deve ao fato de a palavra ser proparoxítona. Alcoólico e alcoólatra também são palavras proparoxítonas. O detalhe é o acento agudo no segundo “ó”.
Certa vez, ao entrar numa pequena cidade do interior de São Paulo, encontrei uma placa: “Aqui tem Alcóolicos Anônimos”. O acento agudo no primeiro “ó” indica a possibilidade de que o autor da placa estivesse de porre.

2. Elipse ou eclipse

O eclipse é aquele fenômeno em que há o ocultamento do Sol ou da Lua. Nós sabemos que eles estão lá, mas não os vemos.
A elipse é uma figura de estilo semelhante. Ocorre quando um termo fica oculto, mas nós sabemos qual é. A elipse mais conhecida é a do sujeito. É o famoso sujeito oculto. Não é necessário dizermos que “nós solicitamos aos senhores que…” Basta “solicitamos”. Pela desinência do verbo (-mos), já sabemos que o sujeito da oração só pode ser “nós”.
Outra elipse interessante é aquela em que usamos uma pausa (=vírgula) para marcar a supressão do verbo, para evitar a repetição: “Ele não nos entende nem nós, a ele”. Nesse caso, também chamada de zeugma, a vírgula substitui a forma verbal: “nem nós entendemos a ele”.
A elipse também ocorre em várias expressões do dia a dia, como: “querem cassar o senador”; “ele só nadou a prova dos 100 metros livre”.
No primeiro caso, subentende-se “cassar o mandato do senador”; e no último, “100 metros nado (ou estilo) livre”.
É importante observar que a boa elipse é aquela que não prejudica a clareza da frase.
Leitor reclama e quer saber a minha opinião a respeito do que ele julga ser um péssimo hábito: o de agradecer dizendo “obrigado eu”.
É como eu costumo afirmar: não devemos reduzir tudo à simplista discussão de certo ou errado.
Num agradecimento, o uso da palavra “obrigado” já caracteriza uma abreviação, pois se origina da frase “estou obrigado a retribuir-lhe o favor”. Em razão disso, a mulher deve dizer “obrigada”.
Assim sendo, a expressão “obrigado eu” não está errada. É apenas uma forma popular, abreviada e até certo ponto carinhosa, de dizer que “quem está obrigado a agradecer sou eu”.

3. Ele corre risco de vida ou de morte?

Temos agora uma seleção de casos incoerentes ou absurdos. São situações semelhantes ao do famoso “correr atrás do prejuízo”. Só louco corre atrás do prejuízo. Do prejuízo eu fujo. Eu corro “atrás do lucro”.
Outro caso curioso é o “correr risco de vida”. Rigorosamente, nós corremos “risco de morte”. Nós não corremos “o risco de viver”, e sim “o risco de morrer”. Nós sempre corremos o risco de alguma coisa ruim. Ninguém “corre o risco de ser promovido”, mas corre o risco de ser demitido. Ninguém “corre o risco de ganhar na loteria”, mas corre o risco de perder todo o dinheiro no jogo, de ser roubado, de ir à falência…
Não é uma questão de certo ou errado. É apenas curioso. Trata-se de mais uma elipse. Eu sei que está subentendido: “correr o risco de perder a vida”. Portanto, as duas formas são corretas.
Parecidíssimo com o caso anterior é a tal da “crise do desemprego”. Ora, na verdade, quem está em crise é o EMPREGO. Infelizmente, o desemprego vai bem. Creio que hoje nós vivemos uma “crise de emprego”.
Também merece destaque a tal mania de “tirar a pressão”. Se eu “tirar a pressão”, morro. É melhor medir ou verificar a pressão.
O assunto é muito interessante e ainda haveria muitos outros casos para analisar. Vou deixar mais alguns para você “quebrar sua cabeça”:
“Dividiu o bolo em três metades”;
“O anexo segue em separado”;
“Eram dois homossexuais e uma lésbica”;
“Estou preso do lado de fora”;
“Por favor, me inclua fora disso”…

 

“ESSE É O CARA”: Dom Manuel Edmilson da Cruz RECUSA homenagem do SENADO brasileiro (sic) / brasilia

Bispo recusa homenagem do Senado em protesto contra aumento

Dom Manuel Edmilson da Cruz receberia comenda de Direitos Humanos.
“Quem assim procedeu não é parlamentar, é para lamentar”, disse.


Dom Manuel da Cruz durante sessão especial no Senado Federal nesta terça-feira (21)
Dom Manuel da Cruz durante sessão especial
no Senado Federal nesta terça-feira (21)
(Foto: J. Freitas / Agência Senado)

O bispo de Limoeiro do Norte (CE), Dom Manuel Edmilson da Cruz, recusou nesta terça-feira (21) receber uma comenda do Senado Federal. Ele afirmou que sua atitude era para protestar contra o aumento salarial de 61,8% aprovado pelos parlamentares em causa própria. A homenagem recusada por ele é a Comenda dos Direitos Humanos Dom Helder Câmara.

A recusa do bispo foi feita em um discurso no plenário do próprio Senado. Ele criticou os parlamentares por aprovar o aumento deste montante para o próprio salário. “Quem assim procedeu não é parlamentar, é para lamentar”, disse.

O religioso afirmou que a comenda que lhe foi oferecida não honra a história de Dom Helder Câmara, que teve atuação destacada na luta pelos direitos humanos durante o regime militar.

“A comenda hoje outorgada não representa a pessoa do cearense maior que foi Dom Helder Câmara. Não representa. Desfigura-a, porém. Sem ressentimentos e agindo por amor e por respeito a todos os senhores e senhoras, pelos quais oro todos os dias, só me resta uma atitude: recusá-la. Ela é um atentado, uma afronta ao povo brasileiro, ao cidadão, à cidadã contribuinte para o bem de todos, com o suor de seu rosto e a dignidade de seu trabalho”, afirmou o bispo.

Ele destacou que o aumento dado aos parlamentares deveria ter como base o reajuste que será concedido ao salário mínimo, de cerca de 6%. “O aumento a ser ajustado deveria guardar sempre a mesma proporção que o aumento do salário mínimo e da aposentadoria. Isso não acontece. O que acontece, repito, é um atentado contra os direitos humanos do nosso povo”.

O senador José Nery (PSOL-PA) disse compreender a atitude do bispo. “Entendemos o gesto, o grito, a exigência de Dom Edmilson da Cruz”. Nery, que foi um dos três senadores a se manifestar na votação de forma contrária ao aumento, deu prosseguimento a sessão após a atitude do religioso.

G1

DA TELA PARA A PLATEIA – por sérgio da costa ramos / ilha de santa catarina

Nunca vi um personagem das telas sair da projeção e invadir a vida, como o garoto Totó (Salvatore Cascio), em Cinema Paradiso, de Giuseppe Tornatore.

Outro ser vindo do celuloide para a vida foi Mia Farrow, em A Rosa Púrpura do Cairo, de Woody Allen. Mas, de tanto ir ao cinema, assisti, no Ritz , em 1954, talvez, ao primeiro filme em Cinemascope – tela alongada, um espanto para a época. Em cartaz, The Robe, ou O Manto Sagrado, com Richard Burton, Jean Simmons e Victor Mature.

Fosse um épico, um bíblico ou uma chanchada, lá estava o eterno “Totó” – eu mesmo – assistindo a dois Sansão e Dalila, o drama e a comédia. O hollywoodiano, com o mesmo Victor Mature e Hedy Lamarr, e o seu pastiche tupiniquim, com Oscarito no papel do forçudo herói.

Pelos nomes dos cinemas que frequentou, cada espectador ilhéu pode contar a sua própria história de vida. Não peguei o Odeon, que até o final dos anos 1940 aproveitava a plateia do Teatro Álvaro de Carvalho para albergar uma tela da sétima arte.

Em compensação, acompanhei todos os épicos do Ritz, em meados dos anos 1950: O Manto Sagrado, Os Dez Mandamentos, Sansão e Dalila, O Rei dos Reis, Spartacus, Demétrio e o Gladiador, Ben-Hur.

E houve o Cine São José – joia do tempo em que os cinemas se chamavam “Palace” e justificavam o nome, sem imaginar que um dia acabariam servindo de sacristia para bispos e bispas da Igreja Renascer. Do cinema da Rua Padre Miguelinho, inaugurado em 1956, muito me marcaram comédias como Gigi (Audrey Hepburn e Louis Jourdan) e Quanto Mais Quente Melhor – talvez a melhor comédia do mundo, dirigida por Billy Wilder, com geniais atuações dos astros Marilyn Monroe, Jack Lemmon, Tony Curtis – e do coadjuvante Joe E. Brown, o milionário que diz a Lemmon estar “apaixonado”, mesmo ao ser informado de que “ela”, na verdade, é “ele”:

– Ninguém é perfeito! – conforma-se Brown, espalhando pela tela o seu bocão, depois de dançar com Lemmon para uma orquestra de olhos vendados.

Do Cine Imperial, que me fascinava pela iluminação indireta, vinda de nichos avermelhados, lembro-me de uma mistura de “soap-ópera” e musical – chatinho, para um garoto afeito aos bangue-bangues: Hey Lilli, com a “órfã” Leslie Caron, contracenando com Mel Ferrer, Jean-Pierre Aumont e Zsa-Zsa Gabor.

Mas ali na Rua João Pinto tive a ventura de assistir a clássicos importantes, como O Salário do Medo, de Henri-Georges Clouzot, com Yves Montand no papel do motorista cujo caminhão transporta nitroglicerina pelas escarpas dos Andes.

O Cine Imperial funcionou com este nome até 28 de fevereiro de 1958 – está fazendo 50 anos! Reabriu somente em 12 de abril de 1969, como informa o “sabe-tudo” de cinemas, seriados e cartazes, o catedrático Osni Machado. O Cine Coral, então inaugurado, durou até 2 de janeiro de 1986. Seis meses depois, o velho “Imperial” reabriria mais uma vez, teimoso, com o nome de Cine Carlitos. Até morrer, definitivamente, em 9 de setembro de 1992, já atropelado pelos cinemas dos shoppings, o Itaguaçu e o prestes a ser inaugurado, Beiramar.

Nada como as salas climatizadas, o som Dolby Stereo, as imagens digitalizadas. Mas o glamour das velhas salas remete à infância dos cinquentões e sessentões. E a profissões extintas, como a de “lanterninha”.

O acendedor de lanternas no escurinho do cinema ganhava gorjetas e gozava da regalia de trabalhar no ar-condicionado, durante os meses quentes do verão.

E ainda assistia a um interessante espetáculo paralelo: o “filme” fora das telas. Os namorados se beijando com ardor, enquanto o filme servia apenas de “inspiração”.

Os tempos são outros, os filmes são outros – até o namoro ficou diferente. Já não há personagens da “tela” se mudando para a plateia, trazendo “personagens” – ou beijos.

 

NOVEMBRANDO CURITADOR – de “nero” / curitiba

Viver em Curitiba é comer caviar e passar mal.
Viver em Curitiba é atravessar a espada de bronze no peito aberto.
Viver em Curitiba é incerto.
É levar. É receber. Não ter voz ativa.

Curitiba é sombria.
Fechada. Canalha. Pequenina.
Viver em Curitiba é ter lombriga.
Tênia solitária atada ao “eixo” Rio-São Paulo.

Viver em Curitiba é não ter palco.
É ser palhaço. Molango. Muleta. Malaco.
Viver em Curitiba é perder o tom por não ter como
empinar a pipa
sem cerol,
é como dar o cú:
Dói. Ninguém valoriza. Todo o mundo ridiculariza.
Sai pela culatra em ré bemol.

Curitiba
é uma prostituta de pernas abertas
a procura de sol.

WORKSONG II – de jorge barbosa filho / curitiba

 

 

bala perdida que acaba com a vida

vazia da classe média de todos santos

quantos? nunca lutaram por nada

e se dizem no direito da praça

vestindo-se num luto branco, prantos.

choram seus anjos e defuntos

infundos, e não sabem que a dita

é muito maldita, por puro engano.

 

posam bonitos nas fotografias,

dizem-se comunistas e socialistas

mas capitalistas, por enquanto!

suas olheiras são púrpuros encantos

e como ratos vão entrando pelos canos.

entupindo as veias fatais da vida,

na Tv com diversas entrevistas

clamando paz e porradas por todos os cantos.

 

você não gosta que eu chore,

mas quer que eu melhore, por tanto.

trabalho-me, malho-me, ralo-me e valho-me

da força que coloquei neste amor,

nem de longe sabes o quanto.

ainda pedes-me que implore

para escaparmos deste bando, banzo.

porém, esculhambo tudo tocando

meu banjo cotidiano, tanjo?

 

me arranja mulheres que nunca vi

e colheres para cheirar o meu ranço.

vinhos, vaginas e vícios, até quando?

incrimina-me de coisas que nunca fiz!

mesmo assim sou feliz e sambo, no tranco.

não te sei, mesmo assim, deveras!

só me levas porque sempre te amo.

te adianto: se insistires nestas teclas

com certeza, abandonarei o piano.

 

inferno os céus com poesias.

e as estrelas, são puros acalantos

viro-me  e brilho-me de preto e banto,

num eterno balanço no branco

que planto, e índio, desde o avesso.

digam-me sinceramente que sou negro.!

olhos verdes, azuis, vesgos e degradês.

posso te dizer que não te agradei,

 

pois é a ultima vez que te canto!

 

MÁRIO QUINTANA e o OLHAR / porto alegre

A RENDIÇÃO DE BREDA (1625) – por jorge lescano / são paulo

A RENDIÇÃO DE BREDA (Breda, 1625)

A RENDIÇÃO DE BREDA (Madrid, 1635)                          A RENDIÇÃO DE BREDA (São Paulo, 1995)

 

 

 

 

 

Para Abelardo Rodrigues


Antes, a pintura tinha outras funções,

podia ser religiosa, filosófica, moral.

Desde Coubert,

acredita-se que a pintura é endereçada à retina.

É absolutamente ridículo.

Isso tem que mudar; não foi sempre assim

Marcel Duchamp.

A  batalha acabou. Os comandantes se encontram no campo; as tropas que os rodeiam não têm ar belicoso, talvez cansado. O chefe holandês, conde Justino de Nassau, inclina-se diante do marquês Ambrogio Spinola e lhe entrega a chave da cidade. O espanhol pousa sobre o ombro esquerdo daquele sua mão direita, parece sorrir para si. Representação plástica, talvez, dos termos tolerantes da capitulação. Há algo de reconciliação na atitude de ambos; de fato, deixaram de ser rivais: um é o vencedor, o outro o vencido.

Breda foi tomada depois de dez meses de assêdio. O incêndio sobre o qual se recortam as cabeças das tropas holandesas ocorre, presumivelmente, na cidade ocupada, porém, este já não é um problema de Nassau: a administração, agora, será de Spinola. Isto os identifica, daí o gesto conciliatório e o sorriso esboçado. Intui o espanhol que a vitória não é definitiva e por isso se mostra cauteloso? O gesto de Nassau é duplamente simbólico. Entrega momentaneamente a chave (o poder) de uma cidade, contudo, destruída no nível institucional, arquitetônico, urbanístico, populacional. Toda a significação de Breda está em sua mão direita. Na mão esquerda de Spinola o bastão de mando e o chapéu, pois ambos descobriram a cabeça em sinal de respeito pelo outro.

A cidade era um baluarte de importância na luta contra a opressão espanhola. Esta a única razão da presença de Nassau no quadro, e a cena toda, do ponto de vista pictórico, existe apenas para conter o pequeno hexágono irregular e luminoso no qual se inscreve seu gesto. Gesto que se projeta dentro do campo espanhol na diagonal da grande bandeira axadrezada.

A quem olham os quatro soldados (dois espanhóis, dois holandeses)? O chapéu do holandês do segundo plano, na extrema esquerda do quadro, em trajes verde-oliva e ainda portando seu mosquetão no ombro, não oculta, antes desvenda o olhar (sublinhado pela mancha branca da gola da figura de ocre, de costas para o espectador) de outro soldado. Seu único olho visível parece nos interrogar, contrastando com o olhar surpreso e tenso do primeiro. Na região intermediária, entre o centro e a margem direita, desenha-se uma concha formada pelo contorno posterior do crânio, a gola e o ombro de Spinola, contorno este que se prolonga no brilho da manga de uma figura de costas (a cabeça em escorço), a garupa, a sela e a cabeça do majestoso cavalo do primeiro plano, voltada para o interior da cena e espelhada — visão frontal — pela cabeça do cavalo do lado holandês. Da concha surge o olhar do primeiro soldado espanhol. O segundo (o próprio Velázquez?)  nos observa de três quartos de perfil na margem direita. Estes dois personagens — a nitidez das feições e a “hierarquia” luminosa, permite-nos supor sejam retratos de personalidades contemporâneas do artista — encaram confiantes o espectador.

Todos os olhares, ao convergirem no observador, formam um triângulo projetado para fora do quadro, incluindo aquele na composição. Assim, somos testemunhas, se não cúmplices, do fato histórico. Do lado espanhol há ainda o olhar de um homem de traços rijos (diferentes das curvas que modelam os outros dois) dirigido frontalmente ao espectador. A cor “baixa” deste rosto — mais próxima da cor siena — acentua sua expressão séria. Ele está entre o primeiro espanhol e a cabeça em escorço. Contemplamos este olhar e nos parece enigmático. Ficamos indecisos sobre seu objeto.  Se num primeiro momento julgamos estar dirigido a nós, ao nos aproximarmos — nosso olhar no olhar dele — temos a impressão de que está concentrado na cabeça em escorço. Este olhar se encontra na mesma altura — aproximadamente a dois terços da altura do quadro, a contar de sua base — do olho do holandês semi-oculto pelo chapéu do soldado verde-oliva, um pouco abaixo da linha que limita um acidente do terreno. Esta linha é acentuada pela arma de um espanhol que no terceiro plano — a partir de Spinola — a mantém no ombro, como um reflexo do holandês da extrema esquerda. As costas da figura localizada atrás daquele espanhol, reproduzem a cor verde-oliva das vestes do holandês, porém mais escura, para sugerir profundidade. Percebida esta equivalência cromática, não podemos deixar de acompanhar a linha — criada por nosso olhar — que liga as duas figuras numa nova perspectiva, linha que passa por cima das cabeças dos comandantes, unindo, identificando, se quisermos, as tropas dos exércitos inimigos.

Os comandantes, embora partilhem o mesmo plano do quadro, pertencem a categorias diferentes. Sabe-se que Velázquez  chegou a conhecer pessoalmente Ambrogio Spinola — viajou com ele para a Itália –, mas que nunca vira Justino de Nassau. Talvez isto explique a penumbra que envolve suas feições. É de presumir que, para retratá-lo, usasse como referências gravuras e descrições verbais; então, enquanto a figura de Spinola é uma representação baseada na experiência direta, a de Nassau é uma reconstituição documental. Sua ação no quadro confirma tal gênese. Ambos estão “momentaneamente” congelados pela vontade do pintor, quem lhes deu forma e significado, e através daquela vontade permanecem imóveis na retina do espectador. Este, por sua vez, e dependendo das informações que tiver (históricas, plásticas), poderá atribuir aos protagonistas uma hierarquia, solidária com a opção e a importância que der a estas informações.



Nos anos seguintes, a administração catastrófica do Conde Duque de Olivares conduziu a Espanha à decadência.  Essa administração, porém, caracterizou-se pela suntuosidade, evidenciada na construção do Palácio do Bom Retiro e no aumento do patrimônio artístico.

A construção do palácio afasta completamente o rei Filipe IV dos negócios estatais e o monarca passa a dedicar-se à organização de uma galeria iconográfica que deverá mostrar as batalhas ganhas nos primeiros anos de seu reinado. Seu orgulho de rei da Áustria, expoente do catolicismo e neto de Filipe II, encontra nessa obra plena realização.

Além de Velázquez, outros pintores compunham o grupo encarregado da realização da obra monumental: Vicente Craducho, Eugenio Caxés, Juan de la Corte, Juseppe Leonardo, Mayno e Francisco Zurbarán. A cada um deles é atribuído um tema histórico especial. A Velázquez coube representar A Rendição de Breda, cidade holandesa que capitulou frente aos espanhóis em 1625.

Para a realização do quadro, denominado As Lanças, Velázquez inspirou-se na comédia histórica de Calderón de la Barca, escrita dez anos antes. Com poucas figuras e um par de cavalos, Velázquez criou a ilusão de dois grandes exércitos, à direita o espanhol, com suas compridas lanças, à esquerda o holandês. […] O fundo é uma ampla extensão de planície, limitada pelo mar. A luz do sol que ilumina a cena está concentrada sobre os dois generais. Um brilho intenso cai sobre o rosto triunfante mas bondoso de Spinola, enquanto os traços melancólicos de Nassau estão quase imersos na sombra — lampejo de gênio artístico e também de generosidade humana. Na perspectiva,  ressalta a fileira de lanças altas e finas, como uma floresta de galhos secos. A composição vigorosa e o complexo cromatismo atestam a superação de conceitos estéticos que Velázquez, sempre em renovação, logo levará a conquistas pioneiras.

(Mestres da Pintura, Velázquez; S.P., Abril, 1977; pp. 13/14)


Velázquez não teve escolha, os dois personagens já haviam morrido quando iniciou a obra. Deste modo, a representação de ambos seguiu um processo semelhante: Velázquez deve ter recorrido a imagens, se as havia, e às suas lembranças, para reconstituir as feições do militar espanhol. Neste ponto, o valor histórico dos retratos é equivalente: frutos da memória. Podemos pensar que as referências sobre Nassau deverão ter sido mais numerosas que aquelas sobre Spinola, pois para este o pintor terá confiado em sua memória visual. O retrato de Nassau, portanto, poderia ser um documento mais confiável (porque produto da pluralidade) que o de Spinola.Talvez o artista soubesse que sua batalha  individual para documentar estava fadada à retratação.  O triunfo tardio do espanhol — na tela  — se corresponde com o de Velázquez: o tema do seu quadro será contestado pela história político-militar: dois anos após a conclusão da obra (1635) os holandeses reconquistaram Breda definitivamente.

Os protagonistas do quadro ocupam, na superfície pictórica, o mesmo espaço. Se a morte no se interpusesse — impedindo inclusive que eles vissem a obra — poderíamos imaginá-los trocando de lugar, desnorteando o artista e o espectador. Não seria impossível então que a mão de Velázquez se detivesse. Indecisa, interromperia o vôo da paleta à tela, e com tal gesto suspenderia indefinidamente o desfecho da batalha e nosso olhar num ponto neutro do tempo-espaço: a-histórico.

O arranjo da cena (a composição do quadro) raramente corresponde à realidade factual. Este caso não será diferente: Velázquez pintou o quadro dez anos após o acontecimento que, aliás, não presenciou. O que vemos, então, é a “reconstituição sensível” de u fato, não um documento. Vale lembrar, contudo, que em livros de divulgação artística afirma-se — sem dar nomes — que “o quadro é considerado por muitos peritos como o maior quadro histórico do mundo”.

No ângulo inferior direito, onde esperaríamos encontrar a assinatura do artista (provavelmente esta convenção é posterior à obra), vemos a representação de uma folha de papel ligeiramente amarelada, retângulo luminoso porém, em contraste com as cores próximas. O condicionamento do olhar quer ver algo escrito (os termos tolerantes da capitulação?). As dimensões reduzidas de nossa reprodução não nos permitem conferir se o pintor escreveu de fato (uma carta?), ou se apenas se limitou a sugerir a escrita. Preferimos a segunda hipótese. Ela nos permite aventurar a seguinte afirmação: Velázquez nega à sua obra valor documental e o faz dentro da própria obra.

O lugar que ocupa a folha de papel estaria reservado à sua assinatura e à data de realização do quadro — documento, prova de autenticidade do mesmo. A folha em branco no lugar destes dados indica anonimato. Outra interpretação da mesma hipótese poderia ser: a folha encobre “acidentalmente” a identidade do autor. Será este um depoimento por omissão?

A obra, já “anônima”, poderá incluir detalhes que não pertençam à realidade documentada, detalhes estes de diferentes categorias e com diversas funções: históricas (lembremos que Velázquez nunca viu Nassau pessoalmente nem presenciou a cena que retrata) ou estéticas. Esta segunda função parece evidente em relação à folha branca. A luz do manuscrito representado cria uma diagonal com as lanças do lado esquerdo do quadro, onde uma bandeirola atrai o olho para o conjunto. A diagonal corta aquela outra, formada pelo motivo das armas nos ombros dos dois soldados.

O ponto de cruzamento deste X — atrás da cabeça de Nassau — indicaria um “ponto morto”, neutro  ou, se quisermos, o grau zero da percepção do quadro, o marco a partir do qual o espectador percorrerá a superfície pintada criando os “espaços” sugeridos pelas linhas e as cores. É, também, o fim da interpretação histórica (este X seria outro modo pelo qual Velázquez desautoriza a interpretação documental).  Simultaneamente, aí principia a obra pictórica, para a qual o tema é um pretexto. Será a partir deste “ponto cego” indicado pelo X, que o olhar , agora liberado, descompromissado com o documento, iniciará seu caminho de reconhecimento da tela como suporte da obra ficcional.

A rendição de Breda, a histórica, a real, talvez pudesse ser esquecida ou ignorada. Não o permite esta outra, concreta em sua realidade de tela, tinta, linhas e cores, significando gestos humanos e acidentes geográficos e nuvens e um ar enrarecido no qual ainda sentimos o fragor da batalha que já teve seu desfecho. Ainda que a rendição de Breda não tivesse acontecido, o quadro impõe sua realidade e se objetiviza como fato histórico. A representação é sua essência, seu “ser”.

Se a entidade Velázquez não tivesse a consistência de vida atestada por documentos, a simples atribuição desta obra a tal entidade bastaria para torná-la real, pois a obra cria seu autor.

A possibilidade de que o quadro “original” pudesse não existir, não é óbice para a concretude e significação desta “reprodução”. Aliás, a inexistência daquela, transformaria esta (apesar do número de cópias) em original. A não existência de um quadro pintado a óleo por um artista espanhol do século XVII de nome Diego Velázquez, que ocupa uma determinada superfície (3×3,60 m.) numa parede do Museu do Prado, em Madri, não desautorizaria a “cópia”. E esta bastaria para significar Diego Rodríguez de Silva y Velázquez — figura e caráter — porque a ele atribuída.

Ao mesmo tempo — no mesmo nível — a existência deste texto poderá fazer desnecessária a obra de Velázquez, o fato histórico que veiculam e os próprios autores (do quadro, do texto), tornando-nos cúmplices de uma aventura próxima do encantamento. Apenas isto (?) justifica ou separa (ou integra?) a arte da mera realidade, ou o que assim denominamos por convenção de linguagem. A obra se situa no limite entre ficção e realidade. É real enquanto suporte de uma imagem. Também a imagem é real: linhas, cores, texturas ou palavras, criando visualmente ou através do discurso, espaço, volumes, atmosfera, tempo. Mas ela será apenas referência, documento, se admitirmos como original um fato extra-artístico, algo que já não está ali, ou que, permanecendo, não é a própria obra.

Apesar do exposto, A Rendição de Breda poderá ser um documento: da necessidade e capacidade do homem imaginar a história e o seu significado.

E AGORA, BRASIL? – por fábio konder comparato / são paulo

A Corte Interamericana de Direitos Humanos acaba de decidir que o Brasil descumpriu duas vezes a Convenção Americana de Direitos Humanos. Em primeiro lugar, por não haver processado e julgado os autores dos crimes de homicídio e ocultação de cadáver de mais 60 pessoas, na chamada Guerrilha do Araguaia. Em segundo lugar, pelo fato de o nosso Supremo Tribunal Federal haver interpretado a lei de anistia de 1979 como tendo apagado os crimes de homicídio, tortura e estupro de oponentes políticos, a maior parte deles quando já presos pelas autoridades policiais e militares.

O Estado brasileiro foi, em conseqüência, condenado a indenizar os familiares dos mortos e desaparecidos.

Além dessa condenação jurídica explícita, porém, o acórdão da Corte Interamericana de Direitos Humanos contém uma condenação moral implícita.

Com efeito, responsáveis morais por essa condenação judicial, ignominiosa para o país, foram os grupos oligárquicos que dominam a vida nacional, notadamente os empresários que apoiaram o golpe de Estado de 1964 e financiaram a articulação do sistema repressivo durante duas décadas. Foram também eles que, controlando os grandes veículos de imprensa, rádio e televisão do país, manifestaram-se a favor da anistia aos assassinos, torturadores e estupradores do regime militar. O próprio autor destas linhas, quando ousou criticar um editorial da Folha de S.Paulo, por haver afirmado que a nossa ditadura fora uma “ditabranda”, foi impunemente qualificado de “cínico e mentiroso” pelo diretor de redação do jornal.

Mas a condenação moral do veredicto pronunciado pela Corte Interamericana de Direitos Humanos atingiu também, e lamentavelmente, o atual governo federal, a começar pelo seu chefe, o presidente da República.

Explico-me. A Lei Complementar nº 73, de 1993, que regulamenta a Advocacia-Geral da União, determina, em seu art. 3º, § 1º, que o Advogado-Geral da União é “submetido à direta, pessoal e imediata supervisão” do presidente da República. Pois bem, o presidente Lula deu instruções diretas, pessoais e imediatas ao então Advogado-Geral da União, hoje Ministro do Supremo Tribunal Federal, para se pronunciar contra a demanda ajuizada pela OAB junto ao Supremo Tribunal Federal (argüição de descumprimento de preceito fundamental nº 153), no sentido de interpretar a lei de anistia de 1979,
como não abrangente dos crimes comuns cometidos pelos agentes públicos, policiais e militares, contra os oponentes políticos ao regime militar.

Mas a condenação moral vai ainda mais além. Ela atinge, em cheio, o Supremo Tribunal Federal e a Procuradoria-Geral da República, que se pronunciaram claramente contra o sistema internacional de direitos humanos, ao qual o Brasil deve submeter-se.

E agora, Brasil?

Bem, antes de mais nada, é preciso dizer que se o nosso país não acatar a decisão da Corte Interamericana de Direitos Humanos, ele ficará como um Estado fora-da-lei no plano internacional.

E como acatar essa decisão condenatória?

Não basta pagar as indenizações determinadas pelo acórdão. É indispensável dar cumprimento ao art. 37, § 6º da Constituição Federal, que obriga o Estado, quando condenado a indenizar alguém por culpa de agente público, a promover de imediato uma ação regressiva contra o causador do dano. E isto, pela boa e simples razão de que toda indenização paga pelo Estado provém de recursos públicos, vale dizer, é feita com dinheiro do povo.

É preciso, também, tal como fizeram todos os países do Cone Sul da América Latina, resolver o problema da anistia mal concedida. Nesse particular, o futuro governo federal poderia utilizar-se do projeto de lei apresentado pela Deputada Luciana Genro à Câmara dos Deputados, dando à Lei nº 6.683 a interpretação que o Supremo Tribunal Federal recusou-se a dar: ou seja, excluindo da anistia os assassinos e  torturadores de presos políticos. Tradicionalmente, a interpretação autêntica de uma lei é dada pelo próprio Poder Legislativo.

Mas, sobretudo, o que falta e sempre faltou neste país, é abrir de par em par, às novas gerações, as portas do nosso porão histórico, onde escondemos todos os horrores cometidos impunemente pelas nossas classes dirigentes; a começar pela escravidão, durante mais de três séculos, de milhões de africanos e afrodescendentes.

Viva o Povo Brasileiro!

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Fábio Konder Comparato

(Santos, 8 de outubro de 1936) é um advogado, escritor e jurista brasileiro, formado pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo.

É professor titular aposentado (em 2006) da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, doutor em Direito pela Universidade de Paris e doutor Honoris Causa da Universidade de Coimbra. Em 2009, recebeu o título de Professor Emérito da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo.

PASSOS na CHUVA – de tonicato miranda /curitiba


 

para a mulher amada

 

nada sei da poesia se não estou triste

qual pássaro sem pressa de voar

que a qualquer um é permitido apanhar

vou deslizando pernas sobre pernadas

entrelaçando saudades e passadas

as penas recolhidas, totalmente amassadas

espero o acaso do susto, o fim, um nada

as ruas seguem tristes de gente e casais

somente nos desvãos ouve-se um ui, dois ais

são as sobras da sociedade, enroladas

em cobertores e nas garrafas preciosas

onde a cachaça é o gole mais ardente

o suporte para vencer a madrugada

mas nem isto me enternece ou me fenece

sigo em passos mansos, sem descansos

de poça em poça, de pedra em pedra

num logo caminhar lento, sem vento

sem nada a transportar ao minuto futuro

porque estou triste e apaixonado por ela

e dela nada quero a não ser sua vida

para vampirar como lobisomem tosco

a se entregar num copo onde o fundo

é o espelho e o arrependimento tardio

o lago mais fugidio a enrolar o estômago

a fundir a tristeza na gastura, lá no âmago

do corpo conspurcado com o rigor do gim

ele o único companheiro dela em mim

capaz de apaziguar esta minha vontade

de não mais caminhar sob a chuva

não mais tropeçar na miséria de ser triste

porque a bebida sempre corta em riste

e toda a tristeza em mim já virou alpiste

ela apaga meus rastros e todos passos

dados nas praças, em toda calçada

mesmo assim ainda gritarei: onde estás?

quando deixei de vibrar em ti minha amada?

onde estás agora repito, venha: corro perigo

não deixe este gole triste acabar comigo

 

 

NATAL no BE HAPPY (Porto Alegre) CONVIDA:

SECRETARIA DE DIREITOS HUMANOS DA PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA convida:

Sentença da Corte IDH: Brasil é obrigado a investigar e punir os crimes da ditadura militar

Rio de Janeiro, São Paulo e Washington DC, 14 de dezembro de 2010 – A Corte Interamericana de Direitos Humanos (Corte IDH), em uma sentença histórica notificada hoje, determinou a responsabilidade internacional do Brasil pelo desaparecimento forçado de, pelo menos, 70 camponeses e militantes da Guerrilha do Araguaia entre os anos de 1972 a 1974, durante a ditadura militar brasileira. Conforme compromisso assumido internacionalmente, é obrigatório e vinculante o pleno cumprimento desta sentença pelo país. 

Esta é a primeira sentença contra o Brasil por crimes cometidos durante a ditadura militar, que permite discutir a herança autoritária do regime ditatorial e contribui para o estabelecimento de uma cultura do “Nunca Mais” no país.
O Centro pela Justiça e o Direito Internacional (CEJIL), o Grupo Tortura Nunca Mais do Rio de Janeiro (GTNM-RJ) e a Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos de São Paulo (CFMDP-SP) atuam, desde 1995, em representação das vítimas e de seus familiares na denúncia internacional perante o sistema interamericano de proteção dos direitos humanos.

Ao longo do processo comprovaram cabalmente a responsabilidade internacional do Brasil pelo desaparecimento forçado das vítimas, pela total impunidade em relação a estes crimes e pela ausência de procedimentos eficazes para o estabelecimento da verdade no país. Assim, solicitaram diversas medidas de reparação, que abrangiam desde o conceito de reparação integral às vítimas e seus familiares, até medidas mais amplas, especialmente no que tange ao direito à verdade e à justiça, em relação à sociedade brasileira como um todo. Os fatos, as violações e as reparações mais destacadas que estabelece a sentença são as seguintes:

A Corte Interamericana determinou que as vítimas do presente caso foram desaparecidas por agentes do Estado. A sentença estabelece que o Brasil violou o direito à justiça, no que se refere à obrigação internacional de investigar, processar e sancionar os responsáveis pelos desaparecimentos forçados em virtude da interpretação prevalecente da Lei de Anistia brasileira, a qual permitiu a total impunidade deste crimes por mais de 30 anos.

A Corte determinou que esta interpretação da Lei de Anistia, reafirmada recentemente pelo Supremo Tribunal Federal, contraria o Direito Internacional. Nas palavras da Corte: “As (aquelas) disposições da Lei de Anistia brasileira que impedem a investigação e sanção de graves violações de direitos humanos são incompatíveis com a Convenção Americana, carecem de efeitos jurídicos e não podem seguir representando um obstáculo para a investigação dos fatos do presente caso (Araguaia)”.

Assim, a Corte requereu que o Estado remova todos os obstáculos práticos e jurídicos para a investigação dos crimes, esclarecimento da verdade e responsabilização dos envolvidos. Também, o Tribunal reafirmou o alcance geral de sua decisão exigindo que as disposições da Lei de Anistia, que impedem as investigações penais, não possa representar um obstáculo a respeito de outros casos de graves violações de direitos humanos.

Quanto à ausência de informação oficial a Corte avançou substancialmente os parâmetros exigidos para proteção do direito de acesso à informação, incluindo o princípio da máxima divulgação e a necessidade de justificar qualquer negativa de prestar informação. A Corte também afirmou que é essencial que o Brasil adote as medidas necessárias para adequar sua legislação sobre acesso à informação em conformidade com o estabelecido na Convenção Americana.

Finalmente, no que se refere à negativa do Estado, por mais de três décadas, de garantir o direito à verdade aos
familiares dos desaparecidos, a Corte Interamericana determinou que, em virtude do sofrimento causado aos mesmos, o Estado brasileiro é responsável por sua tortura psicológica e, entre outras coisas, determinou como medidas de reparação: a obrigação de investigar os fatos; a obrigação de realizar um ato publico de reconhecimento de sua responsabilidade; o desenvolvimento de iniciativas de busca e a continuidade na localização dos restos mortais dos desaparecidos; a sistematização e; a publicação de toda a informação sobre a Guerrilha do Araguaia e as violações de direitos humanos ocorridas durante o regime militar no Brasil.

Portanto, a sentença da Corte IDH no caso Gomes Lund e outros (Guerrilha do Araguaia) é paradigmática porque permitirá a reconstrução da memória histórica para as gerações futuras, o conhecimento da verdade e, principalmente, a construção, no âmbito da justiça, de novos parâmetros e práticas democráticas.
Segundo Vitória Grabois, familiar e vice-presidente do Grupo Tortura Nunca Mais/ RJ: “A falta de informação por mais de 30 anos causou aos familiares dos guerrilheiros do Araguaia angústia, sofrimento e desconfiança nas instituições brasileiras. A sentença da Corte renova nossa esperança na justiça.”

Nas palavras de Beatriz Affonso, diretora do programa do CEJIL para o Brasil: “Esperamos que a administração de Dilma Roussef demonstre que os governos democráticos não podem fechar os olhos aos crimes do passado e que se empenhe em saldar a dívida histórica do país. Já o Poder Judiciário, que é parte do Estado brasileiro, deve cumprir a decisão promovendo a investigação dos crimes cometidos durante a ditadura. Todos os cidadãos brasileiros devem ter certeza de que hoje, na democracia, a lei está ao alcance de todos, inclusive os agentes públicos e privados, civis e militares envolvidos em nome da repressão em crimes contra os cidadãos.”
Segundo Criméia Schmidt de Almeida, familiar e Presidente da Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos de São Paulo: ” Essa sentença pode significar um passo importante na verdadeira redemocratização do país, eliminando os entraves ditatoriais que ainda persistem nas práticas dos agentes públicos. Como familiar espero que possa significar um ponto final a tantas incertezas que há quase 40 anos marcam com angústia a nossa vida”

Neste sentido Viviana Krsticevic, diretora executiva do CEJIL disse: “América Latina tem avançado significativamente na resolução dos crimes contra a humanidade cometidos por governos ditatoriais. O Brasil, no entanto, ainda está em dívida com os familiares e a sociedade no estabelecimento da verdade e da justiça relacionadas a este tema. Esta sentença representa uma oportunidade única para que o Brasil demonstre que é capaz de liderar tanto no âmbito internacional como nacional os temas relacionados aos direitos humanos e democracia. Para isto, o Brasil deve deixar sem efei tos os aspectos da lei de anistia que impedem a justiça frente a crimes contra a humanidade.”

A sentença está disponível no website da Corte Interamericana:
http://www.corteidh.or.cr/docs/casos/articulos/seriec_219_por.pdf

Para mais informações:
Centro pela Justiça e o Direito Internacional:
Beatriz Affonso +55 21 2533 1660 ou 7843-7285
Viviana Krsticevic +1 202 319 3000 ou celular: 1-202-651-0706
Millie Legrain +1 202 319 3000
Grupo Tortura Nunca Mais do Rio de Janeiro: +55 21 2286 8762 ou 21 8103-5657
Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos de São Paulo: +55 11 3101-5549

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abaixo o deputado federal JAIR BOLSONARO   “O PORCO”

Discussão entre o Movimento Tortura Nunca Mais e o deputado federal Jair Bolsonaro (PP-RJ), por causa do cartaz colado na porta do gabinete dele (foto), que manda o recado: “Desaparecidos do Araguaia – quem procura osso é cachorro”.

O Tortura Nunca Mais ameaça impetrar ação contra o deputado no Supremo.

Bolsonaro, militar conhecido por ser enfatizar suas convicções, disse que o cartaz não será retirado. “É a minha liberdade de expressão”. Foi posto lá para implicar com o ex-ministro José Dirceu, que disse uma vez, lembra Bolsonaro, “vamos atrás dos ossos”.

“É um absurdo, uma afronta, não só um insulto, é a maior falta de decoro”,protesta uma das dirigentes do Tortura, Rose Nogueira.

O deputado fecha no estilo-Bolsonaro: “São uns escrotos esses da esquerda, só veem a causa do justo bolso deles. Graças a Deus os militares não deixaramesse pessoal chegar ao poder”.

O grupo de São Paulo mandou carta para a Comissão de Direitos Humanos daCâmara, pedindo punição. O presidente da comissão, Luiz Couto (PT-PB), disse que “vai analisar” e que “é claro que teremos nossa posição sobre isso”. Pode levar o caso ao presidente Michel Temer.

 

A COMILANÇA, traça a fisiologia da decadência



É o preço da polêmica de uma época. Passados os anos, um filme pode se firmar como obra além das fronteiras do incômodo ou simplesmente desaparecer como referência. A Comilança é um raro título que cabe nos dois casos. Em 1973, ganhou fama pelo gosto duvidoso, pela escatologia e por outros excessos a mexer com os sentidos. Mas isso talvez seja coisa do passado, a não ser que nunca tivessem surgido realizadores como David Cronenberg. Melhor assim.

A distância e com surpresas escatológicas superadas, vem à tona o melhor da obra de Marco Ferreri, o diretor italiano que adorava embrulhar olhos e estômagos. Morreu em 1997. É bem verdade que sua vaga dificilmente será preenchida. Até porque se mostrou um arguto crítico de sua era, como se verá no filme que volta hoje às telas. Um crítico de recursos bem menos refinados que Buñuel, por exemplo, mas de inspiração nobre e objetivos afiados como o mestre espanhol. Também preocupado como ele com um elenco magistral, sabendo que sua obra poderia ruir sem intérpretes de valor. E não fez por menos.

Marcello Mastroianni, Michel Piccoli, Ugo Tognazi e Philipe Noiret respondem por seus próprios nomes nos personagens que interpretam. Nunca mais houve tal reunião de feras da arte. Um comandante de avião, um produtor de TV, um chefe de cozinha e um juiz. É tudo que se sabe desses homens de vida aparentemente estabilizada, bem-sucedida, que se encerram na mansão de um deles para um fim de semana orgiástico. Orgia sexual, como a situação é mais empregada, mas fundamentalmente gastronômica. Querem comer até morrer.

Antes de expressão popular, um objetivo literal. De cara, remete-se ao clássicoO Anjo Exterminador. Mas há a diferença básica entre a cena buñueliana e a proposta de Ferreri. Lá, os convivas de um jantar são deixados trancados a fenecer sem razão aparente, mas se angustiam e buscam a saída. Em La Grande Bouffe, os anfitriões se obrigam ao cárcere. Tem a intenção do fim iminente. Aceitam convidadas, sim, quando o piloto Mastroianni protesta por não ter direito ao último ato sexual. Prostitutas são contratadas para logo se descobrir que o homem é um garanhão. Mas elas são acessórios da cena, regalos para moribundos. A única figura feminina importante é a gordinha Andréa (Andréa Ferreol), professora que se sintoniza com o regime de engorda do grupo e talvez seu movimento final.

Ferreri é refinado, ainda que o grotesco de assistir Mastroianni em suas perversões sexuais ou Noiret em demonstrações infindáveis de prisão de ventre e conseqüentes gases possam sugerir o contrário. Sofisticação que está num cenário histórico que mais lembra um museu, na reprodução de cenas pictóricas do Renascimento, na citação literária de um poeta como o neoclássico Boileau ou de Brillat-Savarin, o estudioso que uniu gastronomia e filosofia no tratado A Fisiologia do Gosto. Também nas homenagens cinematográficas, de Raoul Walsh à torre da Pathé esculpida. Mas refinado, antes de tudo, por criar tal fachada e assim ser mais contundente na demonstração de decadência de seus burgueses, dos cavalheiros que representam a face brilhante da sociedade ocidental orientada para o sucesso e o dinheiro. Não por acaso, o mais lascivo de todos, Mastroianni, escolhe o quarto de decoração oriental, para onde mais cedo ou mais tarde irão todos, numa quebra até do clássico “ménage à trois”.

Não menos significativo, há um juiz e um homem da mídia, medalhões recorrentes onde grassa a corrupção, num caso, e as banalidades imperam, no outro. Pois bem. O juiz guarda em seu lar tentações libidinosas com a ama que o criou. E o produtor de TV surpreende ao expor inesperadas ambigüidades em sua opção sexual. Por fim, claro, a maior representação possível da degradação humana. É quase insuportável assistir à comilança a que se dedicam os protagonistas. Até pela inversão da regra básica do alimento como gerador da sobrevivência.

Os quatro cavaleiros do ocaso buscam justamente o contrário e não poupam esforços. É irônico, quase uma piada, o crédito para a casa Fauchon, o templo parisiense das iguarias, no início do filme. Come-se e bebe-se do melhor, e uma das maiores bandeiras do orgulho francês passa subitamente a ser repudiada. Ferreri, vale relembrar, é um italiano. Sua pátria também tem muito a dizer sobre o ato de comer. Mas essas são alusões, digamos, imediatas e até fáceis para olhares mais atentos. Ferreri as adora. Está em outros filmes, comoA Carne, em que o amante congela o cadáver de sua amada para devorá-lo aos poucos. Também na castração com uma faca por Gérard Depardieu emL’Ultima Donna. Mas é um realizador também capaz de maior elaboração.

Em certo momento, alguns cachorros começam a cercar a casa do quarteto. Surgem aos poucos, talvez atraídos pelo cheiro da morte ou mesmo da cozinha. Mas ao final é que se dá com mais clareza. Estão ali como espectadores do triste espetáculo. Melhor representação das baixezas humanas impossível.

OEA emitirá sentença sobre crimes da ditadura brasileira – por joão peres / são paulo

OEA emitirá sentença sobre crimes da ditadura brasileira

Eros Grau entrou para a História como relator da Anista aos torturadores 

Organizações de defesa de direitos humanos demandaram julgamento na corte da OEA


São Paulo – A Corte Interamericana de Direitos Humanos vai emitir até o começo da próxima semana sentença a respeito dos crimes cometidos pela ditadura brasileira (1964-85) na região do Araguaia. Porta-vozes do organismo máximo do Sistema Interamericano de Justiça, da Organização dos Estados Americanos (OEA), confirmaram a informação à Rede Brasil Atual.


A sentença está definida e a expectativa é de que a revisão do texto emitido pelos juízes seja concluída nos próximos dias. O passo seguinte é a notificação das partes envolvidas e, de imediato, a decisão da Corte se torna pública.


Os peticionários da ação são o Centro pela Justiça e o Direito Internacional (Cejil), o Grupo Tortura Nunca Mais e a Comissão de Familiares dos Mortos e Desaparecidos. A avaliação é de que são grandes as chances de condenação do Brasil tendo em vista a jurisprudência criada pela Corte nestes casos. Em geral, os Estados têm sido obrigados a reparar os erros do passado.


Além disso, o Supremo Tribunal Federal (STF) emitiu, em maio deste ano, um sinal bastante negativo ao decidir que a Lei de Anistia abarca também os crimes cometidos por torturadores. A indicação, neste caso, é de que o Estado não está trabalhando para reverter o legado de violações promovidos no período da ditadura.


O centro da questão é saber, em caso de condenação, qual será o alcance da medida. O Brasil, signatário de tratados internacionais de direitos humanos e dos tratados constitutivos da OEA, teria a obrigação de cumprir as determinações vindas da Corte, sediada em São José, na Costa Rica. Em casos anteriores, envolvendo outros países, houve a exigência de responsabilização pelo julgamento de crimes cometidos por regime totalitário e seus agentes, inclusive no âmbito penal.


Com isso, dizem juristas ligados aos peticionários, seria possível reabrir, em primeira instância, casos que haviam sido arquivados pela decisão do STF. Além disso, é possível que se imponha reparação às vítimas diretas da Guerrilha do Araguaia, realizada entre 1972 e 1975 na região central do país.


A Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) encaminhou à Corte o pedido de condenação em diversos artigos, entre eles o que prevê o dever de adotar medidas efetivas para prevenir a tortura e o direito à proteção judicial das vítimas.

Nossa Senhora dos Capilares – de jorge barbosa filho /curitiba


Sou o lobisomem

devoto de Nossa Senhora dos Capilares,

a única que acha cabelo em ovo.

Ela é de origem portuguesa

e sua epifania se deu numa barbearia.

Tem pelos nas costas, usa bigode.

Uma Santa que nem o diabo pode.

Drag Queen beatificada,

padroeira dos bichos hisurtos,

dos hippies e das vassouras de pelo.

Santa de dar inveja aos carecas.

 

Pois tem vários cipós debaixo do braço,

perucas nas pernas e cultua suíças.

É a Santa que o Tarzan cobiça!

Nossa Senhora dos Capilares! Orai por nós!

Sua primeira oração foi “As Mentiras Cabeludas”

e posteriormente, “Sabão Cra –Cra”.

Protetora dos pelos do nariz, tufos na orelha,

da família circense, em especial, da Mulher Barbada.

Uma Santa de arrepiar os cabelos,

mas pelo sim e pelo não

é a Santa de minha devoção.

 

 

FELIZ NATAL de josé delfino silva neto / natal

Pudor, justiça, honra, liberdade,

Prazer, amor, carinho, congruência,

Verdade, encanto, enlevo, quintessência,

Nobreza, limpidez e igualdade.

Respeito, polidez, fraternidade,

Pureza, destemor, independência.

Vergonha, humildade, consistência,

Firmeza, esplendor, e fieldade.

Pintores, teatrólogos, sopranos,

Insanos, escultores, e mecenas,

Ar, fogo, terra, aves, oceanos,

Florestas, lua, sol, calor, camenas.

( Lá no fundo há corais gregorianos,

Mas já basta de idéias obscenas.)

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Feliz Natal !!!!!!


FESTIM DE CARGOS por heródoto barbeiro / são paulo

Estamos em plena temporada do festival de distribuição de cargos nos governos estaduais e federal. Os barões da política, donos de partido, financiadores de candidatos, pseudo líderes de categorias e outros estão sentados nas mesas reservadas para a divisão do botim. Para quem conseguiu um convite é uma oportunidade única de dar uma bocada na administração

dos recursos dos cofres públicos abarrotados com os impostos pagos por todos. Penetra nessa festa, que não é pobre como dizia o Cazuza, só com muita malandragem. A segurança é rígida e os leões de chácara e os lambe-botas estão de plantão para impedir que bagrinhos aproveitem festa de tubarão. Ainda assim, aventureiros de toda espécie, vigaristas, adesistas de undécima hora, vendedores de moralidade e ética tentam participar da razzia nos cargos públicos. Um espetáculo que certamente suplanta A Comilança, de Marco Ferreri.

A ascensão de partidos políticos ao poder faz parte da essência do processo democrático, uma vez que tem o aval da maioria para implantar o programa de governo que expôs durante a campanha eleitoral e foi escolhido como o melhor para o país. Alianças de partidos também fazem parte do processo, especialmente nos regimes parlamentares, quando um único partido não consegue ter maioria no Parlamento. Não é necessário em regime republicano, e o presidente pode muito bem governar com maioria oposicionista na Câmara e no Senado. O exemplo de Barak Obama é o mais recente, mas Bill Clinton e outros também governaram com minoria. Não se sabe de que cabeça diabólica surgiu a ideia que é necessário ter maioria no Congresso, para se governar. Para se conseguir essa maioria vale tudo, da cooptação a divisão de cargos e a ambicionada gestão das verbas públicas. As oligarquias tradicionais estão até o pescoço empenhadas na divisão. Vive-se por aqui um republicanismo parlamentarista mal costurado e que apresenta amplas brechas para a malandragem geral. Começa eleição, acaba eleição, tudo se repete e ao cidadão se promete uma reforma política que não chega nunca, como uma cenoura amarrada na frente do nariz de um burro. Um dia tudo isso vai mudar, talvez no sine die, ou no Dia de São Nunca…

Na hora de servir o prato principal, ministérios com mais ou menos verbas públicas, há um frisson geral. Fica com o partido majoritário no Congresso, com o partido da presidente, do vice, dos aliados, ou dos cooptados? Há cotas. Nessa hora os grupos armados puxam suas armas e cada um mostra o poder de fogo que possui. É o momento do ranger de dentes, de heresias políticas e ideológicas, blasfêmias, xingos, ameaças, enfim do vale tudo. Ninguém atira, ninguém quer estragar a festa, apenas conquistar a parte do botim que julga ter direito legítimo. E assim nascem os secretariados e o ministério. Atento o cidadão/eleitor/contribuinte acompanha atônito o noticiário sobre a dança das cadeiras, um espetáculo politicamente macabro, com um ou outro lance de humor negro, quando alguém dorme ministro e acorda sem ministério. As promessas da campanha que os cargos seriam preenchidos por técnicos competentes, honestos, éticos, comprometidos com o interesse público e não por políticos oportunistas foram esquecidas. Nem mesmo o eleitor se lembra. O ponto alto da festa é o início das concorrências públicas.

Heródoto Barbeiro é jornalista, apresentador do Jornal da CBN

 

DESESPERANÇA de vera lucia kalahari / portugal

O mundo não vale o nosso pranto…

Não vale sequer a nossa pena…

Não vale um grito,

Uma gota de sangue jorrada

Ao pisar de rudes espinhos.

Não vale um suspiro,  um amoroso encontro,

Uma simples palavra.

Não vale nada…

Porque o mundo não tem sentido.

Não ouve o choro dos famintos,

O gemido dos soldados,

As preces esperançosas

Das freiras em clausura,

O choro soluçante

Das mães chamando filhos…

Porque o mundo é fechado, vazio,

Cego aos sonhos dos que ainda sonham…

Por isso, assim acordados,

Sem imagens ilusórias,

Sem promessas e sem mentiras,

Saibamos compreender, entender,

E esquecer o mundo.

FERNANDO PY comenta os “Poemas para a Liberdade” de MANOEL DE ANDRADE / petrópolis.rj

Nos seus Poemas para a liberdade ( São Paulo: Escrituras, 2009; edição bilíngue português/espanhol; tradução do autor), o catarinense Manoel de Andrade tem o desassombro e a temeridade de cantar a luta armada contra a ditadura militar. Pode parecer um anacronismo, já que os militares brasileiros há muito deixaram de comandar os destinos do Brasil. Mas, na verdade, o caso de Manoel de Andrade é bem diverso. Perseguido pela ditadura, em 1969, devido à panfletagem do poema “Saudação a Che Guevara”, refugiou-se na Bolívia, onde se integrou ao movimento guerrilheiro. Em junho de 1970, publicou  na Bolívia, em espanhol, os Poemas para la libertad, cuja 2ª edição saiu na Colômbia, em setembro. Expulso tanto do Peru como da Colômbia, atravessou diversos países da América, publicando livros, promovendo debates, dando palestras e declamando seus poemas em teatros, sindicatos e universidades. Em janeiro de 1971, seu livro Canción de amor a América y otros poemas foi editado na Nicarágua e em El Salvador. Depois de vários êxitos no exterior, Andrade regressou anônimo  ao Brasil (1972), onde se manteve afastado da literatura durante trinta anos. Em 2002, participou da coletânea paranaense Próximas Palavras, e publicou Cantares em 2007. Esta edição dos Poemas para a liberdade é, que eu saiba,  a primeira editada do Brasil.

É claro que a poesia política do autor paga tributo aos grandes poetas latino-americanos que sempre se opuseram às ditaduras fascistas, especialmente Pablo Neruda. O tom dos poemas, sua oralidade intrínseca, o pendor para uma abordagem vívida das condições sociais e humanas da nossa época, são ingredientes básicos do volume. A eles, porém, não  está ausente um toque de lirismo, o lirismo de quem sabe que a poesia dita “engajada” não se sustenta apenas com uma mensagem libertária ou um repúdio incisivo a um estado de coisas intolerável.  O poeta soube dosar muito bem os materiais de que se utilizou, e o resultado é um livro coeso, muito bem realizado dentro do que ele se propôs, e que lhe confere uma posição de relevo em nossas letras. Parabéns.

(Tribuna de Petrópolis, 1º de outubro de 2010)

Fernando Py (Rio de Janeiro, 1935), é poeta, crítico literário e tradutor. Colaborou em vários jornais do país entre eles o Jornal do Brasil, Jornal da Tarde e o O Globo. Traduziu autores como Marcel Proust, Honoré de Balzac, Saul Bellow (Nobel em 1976) e outros. Tem vários livros publicado entre poesia e crítica. Atualmente assina a coluna “Literatura” no jornal Tribuna de Petrópolis, cidade onde vive.

JORGE LESCANO comenta em artigo de JULIAN ASSANGE (WikiLeaks)/ são paulo

Comentário:

C E R T O S   S I L Ê N C I O S


 

Há verdades perigosas e silêncios criminosos. Quando estas verdades atingem ou envolvem os donos do poder, os administradores dos meios de comunicação acusam os franco-atiradores de traição (sic), oportunismo, falta de ética, etc.. Este comportamento não se verifica apenas nos grandes eventos, lamentavelmente se dá também nas relações familiares e entre “amigos”. Todos conhecemos pessoas que são muito democráticas quando o amigo está disponível para ajudar, mesmo apenas ouvindo seus problemas, mas basta que a relação ameace se inverter, ainda que momentaneamente, e lá se vá o espírito de equidade. Creio que as atitudes públicas coincidem com as privadas, resta saber em qual destas esferas se manifestam primeiro. A democracia ocidental precisa do silêncio conivente para sobreviver. Mentir por omissão não é considerado crime, antes diplomacia, portanto é o mais comum dos crimes políticos. Omitir, ocultar, silenciar os erros e as agressões à credulidade pública é colaborar com elas. Neste momento em que a Comunidade Internacional (?) condena a ausência em Oslo de Liu Xiaobo, Prêmio Nobel da Paz de 2010, a “maior das democracias” (segundo sua própria opinião), não suporta a revelação dos seus meandros e procura um bode expiatório. É deplorável que a Suécia, país com imagem internacional de seriedade, justiça e liberdade sexual, se preste ao triste papel de donzela violada para tentar punir Julian Assange, cavaleiro andante da internet. Parece difícil salvar as aparências do Tio Sam.

VIVA  A  ÉTICA  POLITICAMENTE  INCORRETA!!!


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leia o texto comentado: AQUI

Premio Nobel de Literatura, uma impostura – por jorge lescano / são paulo

Todo prêmio é por bom comportamento.

Livro das cinzas e do vento

No dia 10 de dezembro, aniversário da morte de Alfred Nobel, serão entregues em Estocolmo, em pomposa cerimônia que inclui a presença do rei, os Prêmios Nobel (com acento no E).

O Nobel é o Roll-Roys dos prêmios literários. Como se sabe, não basta ter dinheiro para comprar este carro, os fabricantes precisam vasculhar a vida privada do comprador para decidir se ele merece tê-lo. Também o ganhador do Nobel deve dar provas de merecimento na vida privada. Para entrar na galeria dos premiados o comportamento moral, assim como as opiniões políticas, não é questão de somenos, devem coincidir com as da Comissão.

Os acadêmicos são pessoas que se levam a sério, e pessoas sérias não erram: a própria seriedade autoriza seu discernimento, daí toda a solenidade da premiação Nobel e sua aceitação internacional. Contribuem para o prestígio do Nobel a independência de julgamento da Comissão (a expressão é de um escritor brasileiro), bem como a promoção dos próprios contemplados.

Aceitar a autoridade da Academia Sueca é admitir que a crítica sueca seja a mais capacitada para julgar valores literários dentre as múltiples tendências concorrentes, contudo, a ausência da literatura sueca no plano internacional não parece justificar tal pontificado.

Autores de países que agora estão chegando à escrita poderão reivindicar o direito ao Prêmio junto com aqueles que fazem parte há séculos da tradição escrita? Um século de escrita em qualquer língua poderá concorrer com quatro, cinco, dez séculos de literatura?

A Academia sueca analisa as obras propostas em sua própria língua (ter dez obras traduzidas para o sueco é condição sine qua non para concorrer) depois de devidamente recomendadas por membros de instituições avalizadas em seus respectivos países, havendo passado, também, pelo crivo dos especialistas locais nas línguas originais das obras em apreciação.

Na primeira edição do prêmio, em 1901, Liev Tolstoi (Rússia) perdeu para Sully Proudhomme (França), Em 1903 o norueguês Henrik Ibsen perderia para seu compatriota Björnstjerne Björnson. Quem lê hoje, ou sequer sabe da existência destes premiados?

A lista é longa e abarca praticamente toda a história do Prêmio. Quem lê os dinamarqueses Karl Gjellerup e Henrik Pontoppidan (premiados em 1917), os suecos Verner von Heindenstam (1916) e Paar Lagerkvist (1951), o finlandês Emil Sillanpää (1939) e o islandês Haldor Laxness (1955), os noruegueses Knut Hamsun (1920) e Sigrid Undset (1928)? Em 1909, a sueca Selma Lagerlöff foi agraciada com o Prêmio e cinco anos mais tarde será eleita membro da Academia, cargo que exerceu por um quarto de século, participando na seleção do Prêmio Nobel de Literatura.

Seria verdadeiramente estranho que August Strindberg, o maior dos escritores suecos, nunca tenha sido cogitado para receber o prêmio se os historiadores do Nobel não revelassem que ainda que tivesse apresentada a sua candidatura, ela não teria chances, pois o Sr. Carl David af Wirsén, primeiro Secretário Perpétuo da Academia, falecido em 1912, apenas um mês depois de Strindberg, fora seu encarniçado inimigo desde que o dramaturgo o fizera objeto de amarga sátira em seu livro O novo reino. Isto para ficarmos nos escandinavos e até a década de 1950.

É verdade que entre os premiados há nomes de maior peso e evidência internacional que os citados, contudo, eles pouco ou nada devem ao Prêmio. O fato é que a obra de nenhum dos ganhadores de real importância literária precisava deste prêmio, assim como qualquer dos outros se tornou grande escritor por havê-lo recebido. Os mestres William Faulkner (1949) e Samuel Beckett (1969) convivem no mesmo espaço criado pelo Prêmio com Sir Winston Churchill (1953), porque o termo literatura não designa apenas as obras de ficção, diz a Academia, e inclui reportagens, biografias e discursos políticos, acrescemos. Isto para ficarmos na língua inglesa.

Tolstoi, além de ter sua candidatura impugnada por uma questão burocrática, recebe uma reprimenda moral do Sr. Wirsén, segundo este, as obras religiosas, políticas e sociológicas daquele autor se opunham à idéia de governo, recomendando em seu lugar uma anarquia inteiramente teórica, e mais: totalmente ignorante da crítica bíblica, reescreveu o Novo Testamento com espírito meio racionalista, meio místico. Os grandes painéis da vida russa do século XIX que são os romances Guerra e Paz e Ana Karenina foram relegados olimpicamente.

Coerente foi a decisão de Jean-Paul Sartre ao recusar o galardão em 1964: aceitá-lo significava admitir a autoridade da Academia Sueca sobre a sua obra. Isto, aliás, não abalou a moral dos senhores acadêmicos, que não levaram em consideração tal recusa ao declarar que a atitude deste autor não obedecia a uma desqualificação do prêmio, mas à sua coerência ideológica. O Secretário Perpétuo de turno frisou na ocasião que o Prêmio Nobel exprime a apreciação da obra de um autor e não depende absolutamente de sua eventual aceitação. Ou seja: a premiação obedece aos critérios de um pequeno clube de um país periférico no que diz respeito à literatura e sua decisão é incontestável.

O premiado mais recente (2010) do continente hispano-americano é o ex-peruano (naturalizou-se espanhol) Mario Vargas Llosa.  Os outros são: Gabriela Mistral (1945) e Pablo Neruda (1971) do Chile, Miguel Angel Astúrias (Guatemala, 1967), Gabriel García Marquez (Colômbia, 1982) e Octavio Paz (México, 1990).

Jorge Luís Borges, candidato perpétuo, afirmava que lhe negar o Prêmio era uma antiga tradição nórdica. Em entrevista disse que sem importar qual venha a ser a literatura escrita na Argentina no futuro, também a este país lhe chegará a hora de ter o seu Nobel. Profecia coerente e válida para todos os países, segundo podemos verificar na história do Prêmio. Chama a atenção que Borges, tão sutil na sua leitura, nunca tenha questionado o sistema pelo qual se escolhe o ganhador do Nobel e morresse presumivelmente magoado por não o ter recebido.

Entre nós não faltam autores que, sabedores da constituição do Prêmio, como quem não quer nada vão sugerindo sua candidatura em clubes de província por eles prestigiados com sua presença desinteressada.

Talvez o Prêmio Nobel seja atualmente a maior, se não única, contribuição da Suécia à literatura mundial. A premiação, tanto pelo seu valor pecuniário (mais de um milhão de dólares) quanto pela data em que é realizada a cerimônia, lembra presente de Papai Noel, personagem, aliás, de origem escandinava e que sem qualquer justificativa evangélica, nas proximidades do Natal invade as vitrinas das lojas de grande parte do mundo cristão.


ZULEIKA DOS REIS comenta “DIAS CONTADOS” livro de contos da poeta EUNICE ARRUDA / são paulo

Após muitos anos de trabalho consagrado como poeta, Eunice Arruda publica, em 2009,  Dias Contados, seu primeiro livro de contos.

Dias Contados: dias narrados;  Dias Contados: dias de seres sentenciados, a caminho da própria extinção.

Já no título, um dos eixos do livro: A morte. O outro eixo: A perda da identidade. Eixos entrelaçados, indissoluvelmente.

Doze contos e me parece que não por acaso. Vejamos algo da simbologia do número 12:

– 12 são os meses do ano.

– 12 são os Apóstolos.

– 12 são os signos do Zodíaco.

– Do número 3, símbolo da Trindade, multiplicado pelo número 4, símbolo da      Manifestação, surge o número 12.

– O 12, muitas vezes, indica o ciclo completo de um acontecimento.

Dos doze contos, cinco narrados por personagens mortos, sete por personagens vivos, vivos em permanente condição de perda, de um braço amputado à perda da imagem física de si mesmo para si mesmo e para os outros; da perda da liberdade à cisão permanente entre corpo e alma, sendo que o traço comum entre todos é a percepção da perda da própria identidade.

Lendo os contos de Eunice Arruda me veio a expressão ser-para-a-morte, de Heidegger, já que a morte é o denominador comum, a sempre presença no universo de cada um dos personagens.

O outro nome que me veio à mente foi Golem, vindo da tradição judaica, da Kábala, durante a leitura de Nem as gotas de chuva para mim, de todos, o conto mais instigante e enigmático. Nele, um homem volta do reino dos mortos com o próprio nome apagado da testa, o que me levou imediatamente ao mito do Golem.

No mito, o Golem inicial teria sido o próprio primeiro Adão, quando ainda recém-criado da terra, antes da alma lhe ter sido soprada pelo Deus. O Golem posterior seria um simulacro de ser humano, criado pelo homem, simulacro a quem é dado vida ao lhe ser escrita na testa a palavra Emeth, que significa Verdade. Se for retirada desta palavra a primeira letra surge Meth, que significa Está Morto, o que faz o Golem cair por terra. Segundo a Kábala, a letra é emanação do poder divino, é também a “assinatura” das coisas.

No conto Nem as gotas de chuva, o homem que volta do reino dos mortos sem nome na testa é um morto-vivo, um ser sem qualquer identidade.

 

Contos estáticos, em sua maioria; contos de atmosfera, não de ação. As ações são mostradas de forma embrionária; o que realmente importa são os estados do ser.

Em grande parte do tempo, presentes a estranheza, o insólito, o fantástico, talvez alguns elementos surrealistas, tudo através de uma linguagem clara e límpida como a da própria Eunice em seus poemas e a linguagem de Kafka.A se falar em surrealismo, diria que muito mais à Magritte do que à Salvador Dali. Há um quadro de Magritte chamado As afinidades eletivas que pode, a meu ver, ilustrar com muita propriedade tal afirmação: Uma  gaiola e dentro dela ovo que lhe ocupa todo o interior. Uma interpretação possível dirá que os pássaros já estão predestinados à escravidão, à ausência de liberdade, desde antes do nascimento. Voltando aos contos, penso que não se pode defini-los como fantásticos, ou surrealistas, ou de realismo mágico, ou kafkianos, ainda que apresentem várias de suas características.

A autora é grande poeta; segundo ela mesma, é essencialmente poeta, e tal condição vem inscrita também nos seus contos, da linguagem à estrutura circular, uma das características fundamentais da poesia. Contos via de regra alineares, que não seguem linha temporal, de um ponto definido no presente em direção ao futuro, do futuro a um ponto no passado, ou ambos. Como na poesia, o centro dos contos de Eunice Arruda está em todos os pontos, imantando tudo, todo o círculo, tornando tudo ponto de partida e ponto de chegada. O círculo: a poesia mágico-agônica da  roda onde gira a vida-morte,  em incessante intercâmbio.

 

Zuleika dos Reis

 

 

 

A BOMBA de carlos drummond de andrade


A bomba
é uma flor de pânico apavorando os floricultores
A bomba
é o produto quintessente de um laboratório falido
A bomba
é estúpida é ferotriste é cheia de rocamboles
A bomba
é grotesca de tão metuenda e coça a perna
A bomba
dorme no domingo até que os morcegos esvoacem
A bomba
não tem preço não tem lugar não tem domicílio
A bomba
amanhã promete ser melhorzinha mas esquece
A bomba
não está no fundo do cofre, está principalmente onde não está
A bomba
mente e sorri sem dente
A bomba
vai a todas as conferências e senta-se de todos os lados
A bomba
é redonda que nem mesa redonda, e quadrada
A bomba
tem horas que sente falta de outra para cruzar
A bomba
multiplica-se em ações ao portador e portadores sem ação
A bomba
chora nas noites de chuva, enrodilha-se nas chaminés
A bomba
faz week-end na Semana Santa
A bomba
tem 50 megatons de algidez por 85 de ignomínia
A bomba
industrializou as térmites convertendo-as em balísticos
interplanetários
A bomba
sofre de hérnia estranguladora, de amnésia, de mononucleose,
de verborréia
A bomba
não é séria, é conspicuamente tediosa
A bomba
envenena as crianças antes que comece a nascer
A bomba
continua a envenená-las no curso da vida
A bomba
respeita os poderes espirituais, os temporais e os tais
A bomba
pula de um lado para outro gritando: eu sou a bomba
A bomba
é um cisco no olho da vida, e não sai
A bomba
é uma inflamação no ventre da primavera
A bomba
tem a seu serviço música estereofônica e mil valetes de ouro,
cobalto e ferro além da comparsaria
A bomba
tem supermercado circo biblioteca esquadrilha de mísseis, etc.
A bomba
não admite que ninguém acorde sem motivo grave
A bomba
quer é manter acordados nervosos e sãos, atletas e paralíticos
A bomba
mata só de pensarem que vem aí para matar
A bomba
dobra todas as línguas à sua turva sintaxe
A bomba
saboreia a morte com marshmallow
A bomba
arrota impostura e prosopéia política
A bomba
cria leopardos no quintal, eventualmente no living
A bomba
é podre
A bomba
gostaria de ter remorso para justificar-se mas isso lhe é vedado
A bomba
pediu ao Diabo que a batizasse e a Deus que lhe validasse o batismo
A bomba
declare-se balança de justiça arca de amor arcanjo de fraternidade
A bomba
tem um clube fechadíssimo
A bomba
pondera com olho neocrítico o Prêmio Nobel
A bomba
é russamenricanenglish mas agradam-lhe eflúvios de Paris
A bomba
oferece de bandeja de urânio puro, a título de bonificação, átomos
de paz
A bomba
não terá trabalho com as artes visuais, concretas ou tachistas
A bomba
desenha sinais de trânsito ultreletrônicos para proteger
velhos e criancinhas
A bomba
não admite que ninguém se dê ao luxo de morrer de câncer
A bomba
é câncer
A bomba
vai à Lua, assovia e volta
A bomba
reduz neutros e neutrinos, e abana-se com o leque da reação
em cadeia
A bomba
está abusando da glória de ser bomba
A bomba
não sabe quando, onde e porque vai explodir, mas preliba
o instante inefável
A bomba
fede
A bomba
é vigiada por sentinelas pávidas em torreões de cartolina
A bomba
com ser uma besta confusa dá tempo ao homem para que se salve
A bomba
não destruirá a vida
O homem
(tenho esperança) liquidará a bomba.

JULIAN ASSANGE: “A VERDADE GANHARÁ SEMPRE” / londres

 

A WikiLeaks cunhou um novo tipo do jornalismo: o jornalismo científico. Trabalhamos com outros serviços informativos para trazer as notícias às pessoas, mas também para provar que é verdade. Por Julian Assange, publicado no The Australian

ARTIGO | 7 DEZEMBRO, 2010 – 19:00

JULIAN ASSANGE

Em 1958 o jovem Rupert Murdoch, então proprietário e editor de The News de Adelaide, escreveu: “na corrida entre segredo e verdade, parece inevitável que a verdade ganhe sempre”.

A sua observação talvez reflectisse a revelação do seu pai, Keith Murdoch, de que as tropas australianas estavam a ser sacrificadas desnecessariamente nas costas de Gallipoli por comandantes britânicos incompetentes. Os britânicos tentaram calá-lo, mas Keith Murdoch não se deixou silenciar e os seus esforços levaram ao fim da campanha desastrosa de Gallipoli.

Quase um século depois, a WikiLeaks está também a publicar destemidamente factos que precisam de ser publicados.

Cresci numa cidade rural de Queensland, onde as pessoas diziam o que lhes ia na alma de forma franca. Desconfiavam dum governo grande, como algo que pode ser corrompido se não for vigiado cuidadosamente. Os dias negros da corrupção no governo de Queensland, antes do inquérito Fitzgerald, são testemunho do que acontece quando os políticos amordaçam os meios de comunicação para não informarem a verdade.

Essas coisas calaram-me fundo. A WikiLeaks foi criada em torno desses valores centrais. A ideia, concebida na Austrália, era usar tecnologias Internet em novas formas de informar a verdade.

A WikiLeaks cunhou um novo tipo do jornalismo: o jornalismo científico. Trabalhamos com outros serviços informativos para trazer as notícias às pessoas, mas também para provar que é verdade. O jornalismo científico permite-nos ler uma história nas notícias, a seguir clicar online para ver o documento original em que é baseada. Dessa forma podemos ajuizar por nós mesmos: a história é verdadeira? O jornalista informou-nos com precisão?

As sociedades democráticas precisam de meios de comunicação fortes e a WikiLeaks é uma parte desses meios. Os meios de comunicação ajudam a que o governo se mantenha honesto. A WikiLeaks revelou algumas verdades difíceis sobre as guerras do Iraque e do Afeganistão e sobre histórias incompletas da corrupção corporativa.

Houve quem dissesse que sou anti-guerra: para que conste, não sou. Às vezes as nações têm de ir à guerra, e há guerras justas. Mas não há nada mais errado do que um governo mentir ao seu povo sobre essas guerras e depois pedir a esses mesmos cidadãos e cidadãs que arrisquem as suas vidas e os seus impostos com essas mentiras. Se uma guerra for justificada, então digam a verdade e as pessoas decidirão se a apoiam.

Se você tiver lido alguns dos diários de guerra do Afeganistão ou do Iraque, algum dos telegramas da embaixada dos Estados Unidos ou alguma das histórias sobre as coisas que a WikiLeaks reportou, pondere como é importante para todos os meios de comunicação serem capazes de informar estas coisas livremente.

A WikiLeaks não é o único editor dos telegramas da embaixada dos Estados Unidos. Outros serviços informativos, incluindo o britânico The Guardian, o The New York Times, o El Pais em Espanha e a Der Spiegel da Alemanha publicaram os mesmos telegramas editados.

Mas é a WikiLeaks, como coordenador desses outros grupos, que apanhou com os ataques e acusações mais maldosos do governo dos Estados Unidos e dos seus acólitos. Fui acusado de traição, embora seja australiano, não um cidadão dos EUA. Houve dúzias de apelos graves nos EUA para que eu fosse “retirado” por forças especiais dos Estados Unidos. Sarah Palin diz que devo ser “acossado como Osama bin Laden”, um projecto de lei republicano apresenta-se ao Senado dos Estados Unidos tentando que me declarem “uma ameaça transnacional” e se desembaracem de mim consequentemente. Um conselheiro do gabinete do Primeiro-Ministro canadiano apelou à televisão nacional para que eu fosse assassinado. Um blogger americano pediu que o meu filho de 20 anos, aqui na Austrália, fosse raptado e mal-tratado por mais nenhuma razão senão para apanharem-me.

E os australianos devem observar sem qualquer orgulho a alcoviteirice ignominiosa desses sentimentos pela Primeira-Ministra Gillard e pela Secretária de Estado dos Estados Unidos Hillary Clinton, que não tiveram uma palavra de crítica para com os outros meios de comunicação. Isto acontece porque o The Guardian, o The New York Times e a Der Spiegel são antigos e grandes, enquanto a WikiLeaks é ainda jovem e pequena.

Somos os da mó de baixo. O governo de Gillard está a tentar matar o mensageiro porque não quer a verdade revelada, incluindo a informação dos seu próprios feitos diplomáticos e políticos.

Houve alguma resposta do governo australiano às numerosas ameaças públicas de violência contra mim e outro pessoal da WikiLeaks? Poder-se-ia ter pensado que um primeiro-ministro australiano iria defendendo os seus cidadãos contra tais coisas, mas houve apenas reclamações não inteiramente genuínas de ilegalidade. Da Primeira-Ministra, e especialmente do Procurador-Geral, espera-se que tratem os seus deveres com dignidade e acima das querelas. Fiquem descansados, esses dois vão tratar de salvar a sua própria pele. Não o farão.

Sempre que a WikiLeaks publica a verdade sobre abusos cometidos por agências dos Estados Unidos, os políticos australianos entoam um coro provavelmente falso com o Departamento de Estado: “Vai arriscar vidas! Segurança nacional! Vai pôr as tropas em perigo!” Depois dizem que não há nada importante no que a WikiLeaks publica. Não podem ser verdade ambas as coisas. Qual delas é?

Não é nenhuma. A WikiLeaks tem uma história de publicação com quatro anos. Durante esse tempo mudámos governos inteiros, mas nem uma pessoa, que se saiba, foi mal-tratada. Mas os EUA, com a conivência do governo australiano, mataram milhares só nestes últimos meses.

O Secretário da Defesa dos Estados Unidos Robert Gates admitiu numa carta ao Congresso dos EUA que nenhuma fonte de informação ou métodos sensíveis tinham ficado comprometidos pela revelação dos diários de guerra afegãos. O Pentágono afirmou que não houve nenhuma prova de que os relatórios da WikiLeaks tinham levado alguém a ser mal-tratado no Afeganistão. A NATO em Cabul disse à CNN que não pôde encontrar nem uma pessoa que precisasse de protecção. O Departamento Australiano de Defesa disse o mesmo. Nenhuma tropa australiana ou fontes foram prejudicadas por nada que tivéssemos publicado.

Mas as nossas publicações estão longe de não ser importantes. Os telegramas diplomáticos dos Estados Unidos revelam alguns factos alarmantes:

– Os EUA pediram aos seus diplomatas que roubassem material humano pessoal e informação a funcionários da ONU e a grupos de direitos humanos, incluindo ADN, impressões digitais, exames de íris, números de cartão de crédito, senhas de Internet e fotos de identificação numa violação de tratados internacionais. Os diplomatas australianos da ONU presumivelmente podem ser visados também.

– O rei Abdullah da Arábia Saudita pediu que os representantes dos Estados Unidos na Jordânia e no Bahrain exigissem que o programa nuclear do Irão fosse detido por qualquer meio disponível.

– O inquérito britânico sobre o Iraque foi ajustado para proteger os “interesses dos Estados Unidos”.

– A Suécia é um membro encoberto da NATO e a partilha de informação de espionagem é escondida do parlamento.

– Os EUA estão a jogar duro para conseguir que outros países recebam detidos libertados da Baía Guantánamo. Barack Obama aceitou encontrar-se com o Presidente Esloveno apenas se a Eslovénia recebesse um preso. Ao nosso vizinho do Pacífico Kiribati foram oferecidos milhões de dólares para aceitar detidos.

Na sentença que se tornou um marco sobre o caso dos Documentos do Pentágono, o Supremo Tribunal dos Estados Unidos disse que “só uma imprensa livre e sem restrições pode expor eficazmente as fraudes do governo”. A tempestade que gira hoje em volta da WikiLeaks reforça a necessidade de defender o direito de todos os meios de comunicação a revelar a verdade.

7/12/2010

Julian Assange é redactor-chefe da WikiLeaks.

Tradução de Paula Sequeiros para o Esq.net

 

Arianna Huffington: “Web deu ao público o controle da informação” /usa


ENTREVISTA AO IG POR LEDA BALBINO:

A empresária Arianna Huffington, de 60 anos, inicia em 18 de dezembro uma viagem de quatro dias ao Brasil para “aprender sobre sua economia vibrante” e sobre as medidas adotadas pelo País para “reduzir a desigualdade social”. O tema lhe é caro por causa de seu mais recente livro, “Third World America”, em que alerta que a redução da mobilidade social e o declínio da classe média nos EUA vêm dizimando o chamado “sonho americano” e arriscam transformar o país em uma nação do Terceiro Mundo.

A ateniense radicada nos EUA, autora de outros 12 livros – incluindo biografias de Maria Callas e Picasso e obras de autoajuda -, não limitou a discussão da perda de poder dos EUA ao “Third World America”. Ela a expandiu para o fenômeno do jornalismo online Huffington Post, site de notícias e opinião lançado em 2005 e do qual é editora-chefe e cofundadora. No site, conhecido simplesmente como HuffPost, Arianna batizou uma seção com o nome do livro, com a proposta de que os leitores e internautas mapeiem iniciativas sendo empregadas nos EUA para ajudar na recuperação econômica e social do país.

A seção se encaixa na visão de Arianna de que o público não é mais um receptor passivo da informação, um mero espectador. Com a liberdade dada pela internet de poder comentar, interagir, compartilhar e de buscar qualquer conteúdo, as pessoas agora detêm seu controle. “Com o crescimento explosivo da mídia social, nos engajamos com as informações, reagimos a elas e as compartilhamos. Tornou-se algo que compilamos, conectamos e discutimos. Em resumo, as notícias se tornaram sociais”, disse Arianna ao iG.

Essa ideia, somada a 195 empregados, à colaboração voluntária de 6 mil blogueiros – que atraem 4 milhões de comentários por mês – e a um habilidoso uso do SEO (sigla em inglês para “Otimização da Ferramenta de Busca”, que melhora os resultados no Google), transformou o HuffPost em um sucesso do jornalismo online. Atualmente o site só perde em audiência para o do New York Times.

No Brasil, a 28ª mulher mais poderosa do mundo, segundo a revista Forbes, deve se encontrar com a presidenta eleita Dilma Rousseff e com a senadora Marta Suplicy (PT-SP), e participar de um jantar promovido pelo publicitário Nizan Guanaes em São Paulo. Leia a seguir os principais trechos da entrevista que concedeu por email ao iG.

iG: A sra. afirma que o Huffington Post é um jornal. Mas algumas pessoas acreditam que seu modelo de colaboradores não remunerados, reduzida equipe editorial e uso do conteúdo de outros canais pode modificar a mídia como negócio. A sra. concorda com essa avaliação?

Arianna: Nosso modelo é unir o melhor da mídia tradicional com a nova mídia. Isso inclui ter dezenas de editores altamente treinados e um crescente número de repórteres produzindo material próprio – incluindo as recentes contratações de Howard Fineman, que antes trabalhava na Newsweek, e Peter Goodman, doNew York Times. Também oferecemos uma ótima plataforma para blogueiros conhecidos ou relativamente desconhecidos para que possam contribuir para o debate público. E, quando agregamos histórias de outras fontes, nos certificamos de fazê-lo respeitando o direito autoral e de direcionar a audiência ao veículo original da história – fluxo que eles podem monitorar. Os leitores do HuffPost amam que o site tenha ao mesmo tempo notícias e opinião – de nossos escritores, blogueiros, repórteres e de todas as partes do mundo – apresentadas com nossa atitude e ponto de vista.

iG: Considerando o sucesso do modelo do HuffPost, qual é o futuro dos jornais tradicionais?

Arianna: Acredito em um futuro jornalístico híbrido em que os jornais tradicionais adotem os melhores elementos do jornalismo online e em que os sites de mídia façam cada vez mais a reportagem investigativa usualmente associada somente às empresas tradicionais. E ao contrário do derrotismo relacionado à mídia como negócio, acredito que vivemos a Era Dourada para aqueles que consomem informação, que podem navegar na internet, usar sistemas de buscas, acessar as melhores histórias de todas as partes do mundo e ser capazes de comentar, interagir e formar comunidades. A Web nos deu o controle sobre a informação que consumimos. E agora o crescimento explosivo da mídia social também está mudando fundamentalmente nosso relacionamento com a notícia. Não é mais algo que aceitamos passivamente. Agora nos engajamos com as informações, reagimos a elas e as compartilhamos. Tornou-se algo que compilamos, conectamos e discutimos. Em resumo, as notícias se tornaram sociais.

iG: Quais características do HuffPost a mídia tradicional deveria adotar para sobreviver?

Arianna: Algo que o HuffPost faz bem – e penso que os meios tradicionais de mídia poderiam fazer mais – é cobrir as notícias obsessivamente para lhes possibilitar reverberar fora de nosso universo multimídia. Também temos orgulho de nossa posição editorial: o compromisso com a transparência e a descoberta da verdade – aonde quer que ela nos leve. Frequentemente, a mídia tradicional sente ter de ouvir os dois lados de uma história, mesmo quando a verdade está certamente em um deles.

iG: O HuffiPost tem 6 mil blogueiros. Qual o segredo para fazer essa quantidade enorme de pessoas escrever sem remuneração?

Arianna: Os melhores blogueiros tendem a ser apaixonados por algo. E estamos felizes de lhes oferecer uma plataforma para expressar suas opiniões. Uma das razões originais para começar o HuffPost era minha sensação de que as vozes mais interessantes em nossa cultura não estavam online – e quis lhes facilitar essa transição.

iG: Como a sra. explica o sucesso do HuffPost? Qual papel que o hábil uso da “Otimização da Ferramenta de Busca” (Search Engine Optimization, SEO) desempenha nisso?

Arianna: O site foi lançado em meio a uma tempestade perfeita para um veículo de notícias e opinião. Tivemos uma inédita combinação de três coisas: agregação de notícia com atitude, opinião e comunidade. E sempre estivemos comprometidos com evoluir constantemente. Quanto ao SEO, sim, HuffPost é bom nisso, mas a coisa mais importante é nosso conteúdo grande e variado.

iG: Em seu livro “Third World America” (América do Terceiro Mundo, em tradução livre), a sra. alerta que os EUA não cumprem mais sua promessa do sonho americano. Qual é a relação entre o declínio da classe média dos EUA e fenômenos políticos como o movimento conservador Tea Party liderado pela republicana Sarah Palin?

Arianna: Em um período de dificuldades econômicas, quando grande número de pessoas perde  seus empregos, casas e se sente impotentes, fomenta-se a raiva. A ascensão do Tea Party é, em muitos casos, a ascensão desse sentimento. Mas o que falta nessa explicação é o fato de que todos estão com raiva. E não é difícil entender por quê. Os americanos estão sofrendo: a pobreza está crescendo, e não há previsão para o fim do alto desemprego e das execuções hipotecárias. Mas há mais de uma forma de canalizar a raiva. Em vez de demonizar, dividir e buscar bodes-expiatórios, podemos canalizar a energia para conectar, alcançar o outro, atuar, tornar a vida melhor para sua família e para quem precisa de ajuda. O que mais me surpreendeu durante a pesquisa do livro – e agora enquanto viajo pelo país – é a criatividade extraordinária florescendo em meio aos problemas perante as comunidades em todo o país.

iG: Em que contexto seu livro explica as eleições de novembro e a derrota democrata?

Arianna: Quase dois anos em seu mandato, o presidente Obama tem uma economia que desagrada nove em dez americanos. É realmente surpreendente que os eleitores tenham descontado sua ira nos democratas. Com os índices de “desemprego real” perto de 17% nos EUA, significa que quase todos são atingidos negativamente pela economia – ou conhecem alguém que seja. E eles não serão confortados pela reforma da assistência à saúde que não entrará em vigor até 2014 e pela reforma financeira que não desacelera o ritmo das execuções hipotecárias ou facilita o empréstimo de dinheiro para pequenos negócios. Como resultado, os eleitores não confiam mais nos democratas para consertar as coisas.

iG: Em seu post “Memorando para a Classe Média dos EUA: Obama, simplesmente não estão a fim de você ”, a sra. diz que as pessoas que estão descontentes com o presidente deveriam parar de reclamar e basicamente fazê-lo trabalhar. A sra. é uma das pessoas decepcionadas com Obama? Por quê?

Arianna: O governo Obama enfrentou muitos desafios reais, incluindo uma oposição que foi obstrucionista em um nível sem precedentes e perigoso e uma formidável máquina de ataque da direita que não se importa muito com a verdade.

Também é verdade que (o ex-presidente George W.) Bush realmente deixou o país em ruínas. O presidente Obama fez várias coisas boas, mas também cometeu vários grandes erros. O maior deles foi não priorizar os empregos – ele não dirigiu a mesma urgência em resgatar a classe média e reconstruir nossas comunidades que dirigiu para resgatar Wall Street e os grandes bancos. A escalada militar no Afeganistão foi outro grande erro, assim como tornar o bipartidarismo um objetivo em si mesmo. E realmente acredito que depende das pessoas – e da mídia – manter nossos líderes com os pés no chão com o objetivo de obter uma real mudança.

iG: Como a população pode fazê-lo trabalhar em 2011 com um Congresso quase totalmente republicano?

Arianna: Reivindicar que nossos políticos se atenham ao emprego, e às dificuldades da classe média, vai além do partidarismo, do “direita versus esquerda”. E é importante lembrar que há muitas coisas que o presidente Obama pode fazer sem envolver o Congresso – e, claro, há o poder incrível de seu cargo de autoridade para defender sua posição diretamente para a população americana.

iG: Por que a sra. vem ao Brasil?

Arianna: Nunca estive no País, então estou ansiosa para aprender sobre sua economia vibrante e sobre a forma como os partidos políticos, apesar de suas diferenças ideológicas, têm sido capazes de se unir para reduzir a desigualdade econômica e melhorar os sistemas educacional e de assistência à saúde do país.

 

Arianna Huffington, fundadora do The Huffington Post, vem ao Brasil

Arianna Huffington (Foto: Getty Images)

A fundadora do site The Huffington Post Arianna Huffington está de passagem marcada para o Brasil e chega ao País em dezembro.

Ela, que já foi capa da revista Forbes e é considerada pela revista a 28ª mulher mais poderosa do mundo, é uma das editoras do site norte-americano especializado em política.

 

 

John Lennon, assassinato completa 30 anos, hoje.

Beatle foi morto a tiros em frente ao edíficio Dakota, em Nova York. Mark Chapman, fã que levou idolatria ao limite do insano, segue preso

Cinco tiros disparados num dia frio de dezembro, em Nova York, há 30 anos, iriam causar uma das maiores tragédias da história da música. Um fã, identificado depois como Mark Chapman, matou o ex-beatle John Lennon, na porta de casa, o famoso edifício Dakota. O mundo custou a acreditar naquela notícia – Lennon era, para muitos, o cérebro pensante dos Beatles e, acima de tudo, o rosto mais visível de uma geração.

Ao contrário de seus contemporâneos, Jimi Hendrix, Janis Joplin e Jim MorrisonJohn Lennon não morreu devido ao abuso de drogas, mas confirmou a “maldição dos J” no rock. John foi viciado em heroína, mas conseguiu se recuperar – livrou-se das drogas, mas não escapou do fanatismo e da doença mental de Chapman. Quando morreu, aos 40 anos, ele estava limpo e havia abandonado a exposição pública, para se transformar em um homem dedicado à família.

Lennon rompeu com os Beatles em 1970 e, durante a década seguinte, desenvolveu um trabalho solo. O casamento com a artista plástica japonesa Yoko Ono marcou essa nova fase, na qual John ganhou visibilidade como ativista político, personificando o idealismo libertário dos anos 60 e 70.

A inquietação do artista diante do comportamento da sociedade e do governo era contestada por meio de intervenções pacifistas, como a “bed-in”, na qual pregou o fim da guerra do Vietnã em uma cama, ao lado da esposa.

Em novembro de 1980, após cinco anos sem lançar um álbum, John retomou sua carreira musical e lançou “Double fantasy”, marcado pela parceria com Yoko.

A morte na porta de casa


No mês seguinte, no dia 8 de dezembro, o músico saiu de casa no edifício Dakota para trabalhar no estúdio Record Plant. Logo em seguida, foi abordado por um fã que lhe pediu um autógrafo no novo LP. John atendeu ao pedido e foi gentil com o homem que, horas mais tarde, iria lhe tirar a vida. Ao voltar para casa, onde iria pôr o filho Sean para dormir, foi assassinado na frente do prédio por Mark Chapman.

Mark tinha fixação por John. Imitava o ídolo constantemente e chegou até mesmo a se casar com uma japonesa mais velha, assim como Yoko. A idolatria afetou sua saúde mental e ele perdeu a noção da realidade: ao pedir demissão, assinou John Lennon, ao invés de escrever seu nome verdadeiro.

O fã planejou o ataque por acreditar que o ídolo era uma farsa e que não merecia viver, pois havia aderido a práticas consumistas e não agia mais conforme pregava em seus atos como militante pacifista. Chapman acreditava que o autor de “Imagine” e “Give peace a chance” não poderia viver em um prédio luxuoso como o Dakota e não merecia mais viver.

O assassino não fugiu do local e ficou parado, sem qualquer reação. Trazia o clássico “O apanhador no campo de centeio”, de J.D. Salinger, um livro que marcou gerações. O homem que matou Lennon foi condenado à prisão perpétua e está preso desde dezembro de 1980.

Arrependimento, sim; perdão, não


Treze anos depois, Chapman disse, em entrevista, que estava arrependido, mas não ousava pedir perdão, pois tinha dimensão do dano que sua atitude gerou. Em 2000, ele recorreu pela primeira vez e pediu a liberdade condicional, mas os argumentos contrários de Yoko Ono convenceram a Justiça a não conceder o benefício. Este ano, o sexto pedido de Chapman teve a mesma reação negativa.

Ao atirar em John Lennon, Mark Chapman também impediu o retorno dos Beatles, que sempre foi aguardado pelos fãs, após o fim do grupo em 70. Mas o interesse pela banda de Liverpool atravessa gerações e serve como uma espécie de elo de ligação entre gerações – avós, pais e netos ainda se encantam com a música dos “Fab Four” .

O recente lançamento do “The Beatles: Rock Band”, do game Guitar Hero, evidencia o fenômeno de vendas que sobrevive ao tempo, quase meio século depois. Finalmente liberados para venda na loja virtual iTunes, os discos dos Beatles voltaram ao topo das paradas do mercado digital.

A sobrevida da beatlemania ficou evidente também nos recentes shows de Paul McCartney no Brasil. Famílias lotaram os estádios e se emocionaram no espetáculo solo do principal parceiro de Lennon. Paul arrancou lágrimas do público ao dedicar a música “Here, Today” ao amigo John: “and if I say I really knew you well/ what would your answer be/ if you were here today…”.

g1.

O BURACO do ESPELHO de arnaldo antunes / são paulo

 

 

o buraco do espelho está fechado

agora eu tenho que ficar aqui

com um olho aberto, outro acordado

no lado de lá onde eu caí


pro lado de cá não tem acesso

mesmo que me chamem pelo nome

mesmo que admitam meu regresso

toda vez que eu vou a porta some


a janela some na parede

a palavra de água se dissolve

na palavra sede, a boca cede

antes de falar, e não se ouve


já tentei dormir a noite inteira

quatro, cinco, seis da madrugada

vou ficar ali nessa cadeira

uma orelha alerta, outra ligada


o buraco do espelho está fechado

agora eu tenho que ficar agora

fui pelo abandono abandonado

aqui dentro do lado de fora

 

JUÍZO FINAL de aristêo seixas / são paulo

Raive o sol, pulse a dor, lateje o grito,

E o fel tragado seja, gole a gole.

Todo o amor, todo o bem seja proscrito,

Todo o perfume deste chão se evole…


Caia de cima o aerólito e, bendito,

Esmigalhando vá prole por prole…

E embaixo, a atroar em chamas o infinito,

Pedra por pedra sobre pedra role..

.

Senhor meu Deus! são vendilhões: matai-os!

Em vão se estorça a humanidade espúria!

E veja cada qual, nessa hora incerta,


O céu, em ódio, desprendendo raios,

O mar cuspindo vagalhões em fúria

E a terra inteira em túmulos aberta!…

Marx nas bancas, quem diria! – por amilcar neves / ilha de santa catarina


Passei segunda-feira numa banca de jornais na Trindade e comprei uma edição encadernada de Marx, O Capital. Simples assim: passar na banca, pegar o livro maldito, pagar R$ 17,90 e sair com ele debaixo do braço, sem embrulhar nem enfiar num saco plástico. Simples e inofensivo.


Mas houve época, neste País, em que Karl Marx era palavrão dos mais horrendos. Dava cadeia. Sem metáfora: dava cana apenas citar Marx. Ou falar do marxismo, discutir o comunismo, defender o socialismo ou, simplesmente, ler O Capital. Ou melhor: ter O Capital em casa. Sair com ele à rua tornava a empreitada uma operação de alto risco, uma temeridade, uma irresponsabilidade, um desafio imprudente à ditadura que campeava por estas terras – e também, depois, por terras vizinhas.


Bananas, por exemplo, o quarto filme dirigido por Woody Allen, coisa lá de 1971, só pude assistir no Uruguai, ainda democrático, porque no Brasil foi proibido pelos militares. Conforme a Wikipédia, “Fielding Mellish (Woody Allen) vai para San Marcos, uma republiqueta na América Central, e lá se une aos rebeldes e, no final das contas, se torna o presidente do país.” O fator subversivo no filme, para a nossa censura oficial, é que Allen usa barba e veste-se como Fidel, Che e o pessoal de Cuba que… derrubou uma ditadura apoiada pelo governo dos Estados Unidos – ou seja, seu personagem é um perigoso marxista em potencial.


Nesse aspecto, livros, filmes, canções, jornais, peças de teatro e quaisquer manifestações culturais que discutissem a realidade eram colocados lado a lado com revistas como Status e Playboy: estas somente poderiam circular se, nas fotos, os mamilos das mocinhas fossem borrados, mostrados sem nitidez – além de não poderem aparecer dois bicos de seio na mesma foto. Tudo para respeitar a tradição de um povo que nunca falava em sexo e, se o praticava, só o fazia no escuro da sua privacidade, e para defender a família brasileira, a “célula-mater da sociedade”, como gostavam de dizer, violentamente ameaçada pelo comunismo internacional.


Depois, como a situação política foi se deteriorando (do ponto de vista da ditadura), as revistas de mulher pelada foram sendo liberadas até o inimaginável nu frontal – para distrair as massas, ocupando-as a fim de não criticarem o governo.


Marx e as manifestações artísticas hostis, entretanto, continuaram censurados.


DÉCIO PIGNATARI: ” SOU CONTRA NACIONALISMOS ESTREITOS ” /curitiba


ENTREVISTA COM O PROFESSOR, POETA, ENSAÍSTA E TRADUTOR DÉCIO PIGNATARI:

CORREIO BRASILIENSE – Além da poluição, houve outros motivos para o senhor deixar São Paulo?

DÉCIO PIGNATARI – Achava que o intelectual brasileiro não tinha condições de ser intelectual. Quer dizer, ter um lugar onde pudesse trabalhar e pensar, mesmo. O intelectual sempre mistura tudo, tudo na mesma cidade, casa, família… Eu sempre preferi o modo europeu de ser intelectual. Ou seja, tem-se uma vida cotidiana e, se precisa trabalhar, escolhe-se um lugar, procura-se um lugar. Já nos anos 70, comecei a deixar São Paulo. Tinha agência de publicidade e tinha que tomar decisão: ou me tornava publicitário ou virava escritor. A questão era: como iria sobreviver na vida? Aí, falei: não vou ficar mais correndo atrás de clientes. Fechei a agência e o Antônio Candido aceitou minha orientação para o doutorado. Então, reformei garagem na casa do meu sogro, em Carapicuíba, cidade que fica a 30 quilômetros de São Paulo. Lá montei meu estúdio, para lá levei meus livros. Ficava lá nas férias, nos finais fim de semana, lá concluí minha tese de doutorado, intitulada Semiótica e Literatura. Mas São Paulo então já era insuportável. Começava a ficar feia, caótica.

CORREIO – São Paulo, então, é um projeto esgotado?

Pignatari – Não é que esteja esgotada, vai ter que sofrer cirurgias drásticas. A única coisa nos últimos anos que tentou pôr um pouco de ordem no meio do caos foi o metrô. Era a única coisa organizada. O resto, por desgraça de maus governantes, vai levar algum tempo e custará alguns bilhões de dólares para entrar em ordem. Já não suportava mais a poluição, comecei a fugir. E, graças à universidade – eu lecionava em duas, na Universidade de São Paulo (FAU) e na PUC-SP, no curso de Pós-Graduação – pude fazer o que queria: não ganhava muito dinheiro, mas tinha o suficiente, um ambiente minimamente organizado e um tempo organizado. Então, podia trabalhar no contrafluxo, fugir daquele trânsito pavoroso. Ia e voltava e, nos fins de semana, fugia para meu estúdio. Em seguida, me cansei e resolvi: não queria mais viver numa cidade assim. Tratei de comprar um terreno, longe, achei algo que me agradou em Morongaba, 100 quilômetros a nordeste de São Paulo, às margens do rio Jaguari. Lá ergui a minha casa, o meu estúdio, onde costumava pintar meus quadros, e pude acomodar meus dois mil livros e meus discos. Praticamente, não ficava mais em São Paulo.

CORREIO – O senhor utiliza computador para produzir?

Pignatari – Minha companheira é quem opera com agilidade o computador. Quando preciso de algo, ela faz para mim. Continuo, por enquanto, escrevendo à máquina. O que parece ser grande contradição, afinal sempre preguei esse negócio do computador. A verdade é que não gosto de trabalhar com amadores. E não gosto de ser amador. Trabalho com profissionais. Então tenho amigos que são programadores visuais, que são designers, que operam computadores muito bem. Então, prefiro fazer o layout de meus trabalhos e eles, gente como Chico Homem de Mello, resolvem.

CORREIO – Curitiba, para quem vem de São Paulo, não pode parecer um tanto quanto isolada?

Pignatari – E é mesmo. Mas hoje, não se esqueça, você vive em rede, e Curitiba não é retiro, não é ilha. Depois, digamos assim, para esnobar… eu não tenho interesse em ir a São Paulo ou ao Rio. Ver o quê? Uma orquestra? Meu prazer é ir a Paris. Eu gosto de viajar para o Exterior. Ano passado, fiquei lá em Paris, na Provença, no norte da Itália. E, como os museus de lá compram poesia visual, acabei vendendo certos poemas. Ganhei US$ 3 mil com o trabalho e pude passear em Veneza à vontade.

CORREIO – E Curitiba supre todas as suas necessidades? Como o senhor conheceu a cidade?

Pignatari – Eu não podia ir para um lugarejo qualquer, me fechar no mato, quando saí de São Paulo. Não sou bem do tipo. Nem minha mulher. Precisava ir para um lugar que tivesse infra-estrutura escolar, bons serviços de saúde. Vi Curitiba crescer, em 1967. Era uma cidadezinha provinciana. Vinha muito para cá. Fazia conferências. E também tinha o poeta Paulo Leminski. Eu o conhecia desde os 17 anos, quando fizemos uma grande exposição de poesia de vanguarda em Minas Gerais, na Universidade Federal de Minas Gerais, que foi organizada pelo Afonso Ávila. Foram mais de 100 trabalhos, era 1963, 1964. E o Leminski apareceu lá, moleque ainda. Foi em busca da informação. Pegando ônibus, carona. E nos conhecemos. Depois, aparecia em São Paulo, às vezes vestido de judoca, às vezes puxando um fumo. E de vez em quando eu vinha aqui, visitá-lo. A gente era amigo, estávamos sempre juntos. Depois, ele se ligou a outras coisas, começou a fazer sucesso, a compor letras para a música popular. E, quando ele foi a última vez à TV Bandeirantes, ele era produtor de textos e eu participava do Jornal de Vanguarda, que estava começando. Mas ele sumiu e morreu poucos meses depois… bebida, álcool. Ele bebia tudo que era porcaria, bebidas horríveis, drogas.

CORREIO – O senhor vê algum momento na história das duas cidades, São Paulo e Curitiba, que as aproxime?

Pignatari – Há uma momento, sim. O momento durante a última guerra em que, logo depois, comecei a publicar ascoisas. São Paulo tinha então seis jornais, hoje praticamente só tem dois – O Estadão e a Folha. São Paulo tinha um certo jeito ainda europeu e se americanizava aos poucos. Mas havia uma linguagem comum. O viaduto do Chá falava a mesma linguagem arquitetônica do estádio do Pacaembu. E quando a guerra terminou, São Paulo tinha a mesma população que Curitiba tem hoje.

CORREIO – E Curitiba pode ser o que São Paulo foi, neste momento?

Pignatari – Curitiba não tem ainda um elevado público consumidor de arte. O público não tem grande repertório. São Paulo sempre teve uma elite. Logo depois da guerra, havia grandes movimentos de retomada da arte e da liberdade e São Paulo liderou essas movimentações e atraía muita gente. E, apesar disso, a cidade nunca foi favorável à poesia concreta, necessariamente não. Quando se expôs arte concreta pela primeira vez, em dezembro de 1956, não houve grande repercussão. Foi no Rio de Janeiro, em fevereiro de 1957, em mostra no Ministério da Educação e Cultura, que o concretismo explodiu. Teve grande cobertura do Jornal do Brasil, graças ao Mário Faustino e a uma visão nova que o jornal trazia para Imprensa cultural brasileira. Quanto a Curitiba, acho que está vivendo um momento de boom. Acredito que esta cidade se torne brevemente um grande centro cultural.

CORREIO – Brasília poderia desenvolver-se de forma semelhante?

Pignatari – O problema no Brasil, como sempre, é que o país não sabe crescer bem. As pessoas não percebem que crescimento implica crise. Quem não sabe, se estoura. Veja os casos de Maradona, do Edmundo, casos exemplares de figuras públicas que não souberam lidar com a fama, com o crescimento. E as cidades sabem menos ainda lidar com o crescimento. Brasília ainda preserva o Plano Piloto, mas não conseguiu desenvolver projeto que consiga comportar os 2 milhões de habitantes que tem hoje.

CORREIO – Qual o seu propósito atualmente?

Pignatari – Vivo em função da obra e, por destino, ou por propósito, tenho que realizá-la. Então, é um jogo contínuo, que já dura décadas e décadas, entre tentar viver e tentar fazer a obra. Uma obra que eu me proponho a fazer no sentido de inovação. Não é inovar a obra. Meu reinado é o mundo da linguagem, verbal e não-verbal. Quero tentar colocar a literatura e o pensamento do Brasil em nível internacional. Quero o Brasil internacional, como o futebol é. Sem medo de encarar ninguém. Sou contra os nacionalismos estreitos.

Décio Pignatari

ARTE TOTAL – por alexandre freitas / são paulo

Parece pretensioso. E é. Lideradas pela música, todas as artes deveriam se fundir para se tornar a “arte do futuro”, Gesamtkunstwerk (obra de arte total). Uma ideia de Richard Wagner, primeiro aplaudida e depois vaiada por seu maior apreciador e seu maior crítico, Friedrich Nietzsche.

Mas não foi o compositor alemão o primeiro a acreditar e a buscar correspondências entre materiais artísticos diferentes. Desde Isaac Newton persegue-se, por diversos caminhos, a utopia de uma fusão entre cores e sons. Tenta-se encontrar o lugar secreto onde as coisas se assemelham em suas essências, em suas origens e em seus fins. Kandinsky, em Do Espiritual na Arte (Martins Fontes), queria que substituíssemos as correspondências exteriores, materiais e fáceis, por ressonâncias interiores, puras e profundas. As emoções não deveriam ser acústicas, visuais, olfativas etc, e sim “puramente espirituais”.

A Cidade da Música de Paris apresentou na última semana uma série de três concertos ligados pelo tema da Arte Total. Cada apresentação trazia no programa pelo menos uma obra que tentava cruzar ou construir algum elo mais profundo entre as dimensões sonoras e visuais.

A primeira obra foi encomendada e estreada pelo Ensemble Intercontemporain, o célebre grupo especializado em música contemporânea fundado por Pierre Boulez e atualmente dirigido por Bruno Mantovani. Objetos Impossíveis I e II (2010), compostos por DmitriKourliandski, tinham como conceitos norteadores a sobressaturação e a tensão, respectivamente. Não havia propriamente notas, mas efeitos instrumentais de todo tipo: pressão, sopros, atritos nas cordas, nas madeiras e nos metais que constroem os instrumentos. Esses sons eram captados por microfones e se tornavam imagens, depois de convertidos e manipulados em tempo real por dois vídeos artistas: Pedro Mari e Natan Sinigaglia. Nessas imagens, os conceitos gerais das obras se manifestavam em formas abstratas que reagem aos ruídos e sons provocados pelos músicos. Os objetos eram impossíveis, de acordo com o compositor, porque seu objetivo era fazer uma obra em que a subjetividade deveria ser deixada de lado. O forte impacto inicial daqueles efeitos musicais e visuais era substituído por um certo tédio por parte do público que, maldosamente, vaiou a obra. Faltava narratividade, uma historinha imaginária que estamos acostumados (nem sempre nos damos conta) a construir quando escutamos uma música, mesmo as puramente instrumentais. Mas a intenção do artista era somente a de sobressaturar e criar tensões, logo, ela foi muito bem sucedida.

No segundo concerto a obra escutada e vista foi Quadros de uma Exposição (1874), de ModestMussorgsky, acompanhada de animações dos esboços dos quadros que Kandinsky realizou para ilustrar a música de seu conterrâneo russo. Sobre o pianista Mikhail Rudy eram projetados os desenhos geométricos de Kandinsky desmontados e montados com a intenção de uma sincronia que quase nunca acontecia. As imagens e os sons interagiam, é verdade, mas a música parecia sair enfraquecida e não era nunca complementada por todas aquelas imagens.

O ciclo Arte Total se encerrou ontem com o Prometeu (1911) de Alexander Scriabin, poema sinfônico para piano, grande orquestra e luce, um órgão que projeta cores. Com Roger Muraro no piano e a orquestra de Lyon dirigida por JunMärkl, os feixes de luz que cortavam o fundo do palco interferiam na nossa percepção, colorindo e ampliando os efeitos de uma música. Embalado pelos ideais teosóficos e por uma suposta sinestesia do autor, Prometeu estabelece relações diretas entre as notas, as cores e estados de espírito. O interessante é que, independente dessas relações serem captadas ou não, o interesse da obra musical e os efeitos visuais é mantido na sua quase meia hora de duração. A obra terminou com uma luz violeta projetada em parte do público. Violeta representa a força criativa, acabei de ver na contracapa da partitura…

E assim a arte musical vai flertando com as artes vizinhas e revelando, por vezes, suas semelhanças secretas. A realidade da utopia da arte total se instaura. Mesmo que fugidiamente.

Alexandre Freitas

Alexandre Freitas é pianista e musicólogo graduado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e mestre pela Universidade de Toulouse. Alexandre Freitas faz doutorado em Música na Universidade de São Paulo e na Sorbonne, em regime de dupla titulação. Sua tese gira em torno das convergências entre estéticas musicais e visuais. A coluna Visões Musicais é um espaço de reflexões livres sobre músicas, músicos e arte, de maneira geral.

 

DILMA ROUSSEFF, entrevista ao WASHINGTON POST / brasilia

No Brasil, de prisioneira a Presidente

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Por Lally Weymouth – segunda-feira, 06 de dezembro 2010
Tradução de Paula Marcondes e Josi Paz, revisão de Idelber Avelar.
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dilma-3.jpgTer sido uma presa política lhe dá mais empatia com outros presos políticos?
Sem dúvida. Por ter experimentado a condição de presa política, tenho um compromisso histórico com todos aqueles que foram ou são prisioneiros somente por expressarem suas visões, sua opinião pública, suas próprias opiniões. 

Então, isso afetará sua política em relação ao Irã, por exemplo? Por que o Brasil apóia um país que permite o apedrejamento de pessoas, que prende jornalistas?
Acredito que é necessário fazermos uma diferenciação no [que queremos dizer quando nos referimos ao Irã]. Eu considero [importante] a estratégia de construir a paz no Oriente Médio. O que vemos no Oriente Médio é a falência de uma política – de uma política de guerra. Estamos falando do Afeganistão e do desastre que foi a invasão ao Iraque. Não conseguimos construir a paz, nem resolver os problemas do Iraque. Hoje, o Iraque está em guerra civil. Todos os dias, morrem soldados dos dois lados. Tentar trazer a paz e não entrar em guerra é o melhor caminho.
[Mas] eu não endosso o apedrejamento. Eu não concordo com práticas que possuem características medievais [quando se trata de] mulheres. Não há nuances; não faço concessões nesse assunto.

O Brasil se absteve em votar na recente resolução sobre os direitos humanos na ONU .
Eu não sou Presidente do Brasil [hoje], mas eu me sentiria desconfortável, como mulher eleita Presidente, não dizendo nada contra o apedrejamento. Minha posição não vai mudar quando eu assumir o cargo. Eu não concordo com a forma em que o Brasil votou. Não é minha posição.

Muitos norte-americanos sentiram empatia pelo povo iraquiano que se rebelou nas ruas. Por isso me pergunto se sua posição sobre o Irã seria diferente daquela do seu atual Presidente, que possui boa relação com o regime iraquiano.
O Presidente Lula tem seu próprio histórico. Ele é um presidente que defendeu os direitos humanos, um presidente que sempre apoiou a construção da paz.

Como a Sra. vê a relação do Brasil com os EUA? Como gostaria de vê-la evoluir?
Considero a relação com os EUA muito importante para o Brasil. Tentarei estreitar os laços. Eu admirei muito a eleição do Presidente Obama. Acredito que os EUA revelaram uma grande capacidade de mostrar que são uma grande nação, e isso surpreendeu o mundo. Pode ser muito difícil ser capaz de eleger um Presidente negro nos os EUA – como era muito difícil eleger uma mulher Presidente do Brasil.

Eu acredito que os EUA têm uma grande contribuição a dar ao mundo. E, acima de tudo, acredito que o Brasil e os EUA têm um papel a cumprir juntos no mundo. Por exemplo, temos um grande potencial para trabalhar juntos na África, porque na África podemos construir uma parceria para disponibilizar tecnologias agrícolas, produção de biocombustíveis e ajuda humanitária em todos os campos.

Também acredito que, neste momento de grande instabilidade por causa da crise global, é fundamental que encontremos formas que garantam a recuperação das economias dos países desenvolvidos, porque isso é fundamental para a estabilidade do mundo. Nenhum de nós no Brasil ficará confortável se os EUA mantiverem altos índices de desemprego. A recuperação dos EUA é importante para o Brasil porque os EUA têm um mercado consumidor fantástico. Hoje, o maior superávit comercial dos EUA é com o Brasil. 

A Sra. culpa o afrouxamento monetário [quantitative easing] por isso?
O afrouxamento monetário é um fato que nos preocupa muito, porque significa uma política de desvalorização do dólar que tem efeitos sobre o nosso comércio exterior e também na desvalorização da nossas reservas de divisas, que são em dólares. Para nós, uma política de dólar fraco não é compatível com o papel que os EUA têm, já que a moeda dos EUA serve como reserva internacional. E uma política sistemática de desvalorização do dólar pode provocar reações de protecionismo, que nunca é uma boa política a ser seguida.

Quando a Sra. planeja visitar os EUA? Sei que foi convidada para antes de sua posse, em 1º de janeiro, mas não podia ir.
Eu não estou aceitando os convites que recebo. Não estou visitando países estrangeiros. Tenho que montar o meu governo. Tenho 37 ministros para nomear. Estou planejando visitar o Presidente Barack Obama nos primeiros dias após minha posse, se ele me receber.

Então a Sra. convidará o Presidente Obama para vir ao Brasil?
Nós já o convidamos informalmente, durante a reunião do G-20.

Há preocupações na comunidade empresarial dos EUA sobre se o Brasil continuará o caminho econômico definido pelo Presidente Lula.
Não há dúvida sobre isso. Por quê? Porque para nós foi uma grande conquista do nosso país. Não é uma conquista de uma única administração – é uma conquista do Estado brasileiro, do povo de nosso país. O fato de que conseguimos controlar a inflação, ter um regime de câmbio flexível e ter a consolidação fiscal de forma que, hoje, estamos entre os países com a menor relação dívida / PIB do mundo. Além disso, temos um déficit não muito significativo. Não quero me gabar, mas temos um déficit de 2,2 por cento. Pretendemos, nos próximos quatro anos, reduzir a proporção dívida / PIB para garantir essa estabilidade inflacionária.

A Sra. disse publicamente que gostaria de ver as taxas de juro caírem. A Sra. irá cortar o orçamento ou reduzir o aumento anual de gastos do governo?
Não há como cortar as taxas de juros a menos que você reduza seu déficit fiscal. Somos muito cautelosos. Temos um objetivo em mente: que as nossas taxas de juros sejam convergentes com as taxas de juros internacionais. Para conseguir chegar lá, um dos pontos mais importantes é a redução da dívida pública. Outra questão importante é melhorar a competitividade de nossos setores agrícola e de manufatura. Também é muito importante que o Brasil racionalize seu sistema fiscal.

Se a Sra. quer baixar as taxas de juros, a Sra. tem que cortar os gastos ou aumentar a economia doméstica.
Você não pode se esquecer do crescimento econômico. Você tem que combinar muitas coisas.

Qual é seu plano?Meu plano é continuar a trajetória que seguimos até aqui. Conseguimos reduzir nossa dívida de 60% para 42%. Nosso objetivo é atingir 30% do PIB. Eu preciso racionalizar os meus gastos e, ao mesmo tempo, ter um aumento do PIB, que leve o país adiante.

Então o que a Sra. quer dizer com “racionalizar gastos”?
Não estamos em uma recessão aqui. Nós não temos que cortar os gastos do governo. Nós vamos cortar despesas, mas vamos continuar a crescer.
Estamos seguindo um caminho muito especial. Este é um momento no qual o país está crescendo. Temos estabilidade macroeconômica e, ao mesmo tempo, muito orgulho do fato de que conseguimos reduzir a extrema pobreza no Brasil.
Trouxemos 36 milhões de pessoas para a classe média. Tiramos 28 milhões da pobreza extrema. Como conseguimos isso? Políticas de transferência de renda. O Bolsa Família é um dos maiores exemplos.

Explique como funciona o Bolsa Família.
Pagamos um estipêndio, que é uma renda para os pobres. Eles recebem um cartão e sacam o dinheiro, mas têm duas obrigações a cumprir: colocar seus filhos na escola e provar que eles comparecem a 80% das aulas. Ao mesmo tempo, as crianças também devem receber todas as vacinas e passar por uma avaliação médica quando recebem as vacinas. Esse foi um fator, mas não foi o único.
Criamos 15 milhões de novos empregos durante a administração do Presidente Lula. Este ano, já criamos 2 milhões de novos empregos.

A Sra. é tão próxima do Presidente Lula. Será mesmo diferente ou apenas uma continuação da administração dele?
Eu acredito que minha administração será diferente da do Presidente Lula. O governo do Presidente Lula, do qual fiz parte, construiu uma base a partir da qual vou avançar. Não vou repetir a administração dele porque a situação no país hoje é muito melhor do que era em 2002.

Eu tenho os programas governamentais em andamento, que ajudei a desenvolver, como o chamado Minha Casa, Minha Vida, que é um programa de habitação.

Meus desafios são outros. Vou ter que solucionar questões como a qualidade da saúde pública no Brasil. Vou ter que criar soluções para problemas de segurança pública.
O Brasil passou por mais de 30 anos sem investir em infra-estrutura em uma quantidade suficiente. O governo do Presidente Lula começou a mudar isso. Eu tenho que resolver as questões rodoviárias no Brasil, as ferrovias, as estradas, os portos e os aeroportos.
Mas há uma boa notícia: descobrimos petróleo em águas profundas. 

A Sra. está sugerindo que essa descoberta irá financiar a infra-estrutura?
Criamos um Fundo Social [no qual] alguns dos recursos do governo oriundos da descoberta do petróleo serão investidos em educação, saúde, ciência e tecnologia.

A Sra. tem que preparar o pais para a Copa do Mundo e para as Olimpíadas.
Sim, mas eu também tenho outro compromisso, que é acabar com a pobreza absoluta no Brasil. Nós ainda temos 14 milhões na pobreza. Esse é meu maior desafio.

Todos os empresários que conheci em São Paulo disseram que precisam estar muito preparados para as reuniões com a Sra., porque a Sra. conhece bem a maioria dos projetos.
Sim, é verdade. Eu acho que é uma característica feminina. Nós apreciamos os detalhes. Eles, não.

O que significa, para a Sra., ser a primeira mulher Presidente do Brasil?
Até eu acho incrível.

Quando a Sra. decidiu que queria ser Presidente?
Foi um processo. Não há uma data. Comecei a trabalhar com o Presidente Lula e ele começou a dar algumas dicas sobre eu vir a ser indicada à presidência, mas ele não foi claro no começo. Foi uma grande honra para mim, mas eu não estava esperando.

A partir do momento que ficou claro para mim que eu seria indicada, dois anos atrás, eu sabia que tínhamos criado as condições adequadas para tornar possível a vitória nas eleições. O Presidente Lula teve uma excelente administração e o povo brasileiro reconheceu e admitiu isso. Somos uma administração diferente – nós ouvimos o povo. 

A Sra. recentemente lutou contra o câncer.
Sim, mas acredito que consegui lidar bem com isso. As pessoas têm que saber que o câncer pode ser curado. Quanto mais cedo você descobre, melhores suas possibilidades de cura. É por isso que a prevenção é importante. . . Acredito que o Brasil estava preparado para eleger uma mulher. Por quê? Porque as mulheres brasileiras conquistaram isso. Eu não cheguei aqui sozinha, só pelos meus méritos. Somos a maioria neste país.

A BICICLETA – por ronie von rosa martins

 

 

 

Não. O tempo não estava no movimento. Ele pensava. O tempo estava na bicicleta. Imóvel encostada ao muro.

Sim. O movimento era apenas ilusório, o tempo era além dele. Era imobilidade. Sim.

O muro estático e a bicicleta plantada em suas costas. Sustentação tácita. Amparo. O verbo já não existia. O verbo era distância. De fundo o azul chumbo de um céu imóvel como o tempo. Assim como ele. Estático.

Os aros da roda já não deliravam pelas estradas, mas uma massa de tempo enlouquecida se embrenhava imperceptível por eles. Silencioso enroscava-se no metal da bicicleta, retorcia-o. E ele percebia.

O tempo estava. Antes do movimento. Antes do verbo. Antes da representação do movimento. Antes da representação da fala. Ele.

Os pensamentos tentavam se constituir, mas a densidade temporal era anti-constitucional, e os pensamentos e também os sentimentos mesclavam-se em mechas de tempo e no metal da bicicleta e no barro do muro e na carne que era dele.

Então chorou. Silenciosa a lágrima percorreu pele e carne e porosidades e espaços e lembranças. E fez-se memória e apagou-se-extinguindo-se no silêncio da terra. E não houve outra.

Só a bicicleta muda. E dizia tanto. E gritava tão alto. E o muro permanecia além do próprio muro,visto que agora era lembrança. E também a bicicleta. Verde. Não o muro. Este cinza e velho. Como ele.

Cinza e velho ele percebia o tempo, e a bicicleta e o muro. E se tudo era símbolo. Era ele símbolo. Fechou a mão lentamente e pode sentir o tempo pulsando dentro, e afundar-se na carne e mergulhar pra dentro do corpo. E tudo pulsava e tudo era quente.

Tudo era quente no silêncio da bicicleta.

O movimento já não era necessário. Assim como o muro resolvera ficar. Coisificar-se no tempo. Plantar-se.

Achava que os outros viam por janelas. Ele via fora de casa. Via tudo. E tudo era a bicicleta e o muro. Não havia ilusão, não havia ângulos, só a bicicleta e o muro pendurados no tempo, emoldurados no tempo. De onde estava ainda via os rostos pálidos das gentes que passavam pelas janelas. Viam a delimitação da janela, o limite do olhar e a ilusão do movimento. Não viam nada.

E foi tudo o que viram. Todos eles: Um velho sentado em frente a uma antiga bicicleta escorada a um muro ainda mais antigo que o velho. E só.

 

Vocação para divertir e refletir – por orlando margarido / argentina


Filho de artistas, o argentino Ricardo Darín quer dignificar o ator popular.

Com as gargalhadas da mãe em público, Ricardo Darín perdeu o medo do ridículo. Com a contrariedade do pai ao saber da pretensão artística do filho, a face mais reconhecida do cinema atual argentino quase perdeu a vocação para o estudo das leis. Mas parecia fadado à câmera o rosto desse herdeiro de intérpretes, não propriamente pelos traços finos, mas pelos vincos profundos, ainda talhado por certa rudeza que hoje lhe garante os papéis de um amante à antiga, viril e charmoso.

Darín ri desajeitado quando lhe pedem para comentar a fama de beleza inesperada e faz jus ao humor materno. “Tive muita sorte”, diz. “Com esse nariz e esses dentes, não seria o que sou sem esses olhos azuis.” Viria a calhar aqui um trocadilho com o filme que definitivamente o celebrizou para o mundo, ao menos aquela porção que ainda toma Hollywood como referência de excelência cinematográfica. O Segredo dos Seus Olhos arrematou o Oscar de produção estrangeira deste ano. Darín torceu a distância e deu apenas o peso necessário à celebração.

Antes que tomem a atitude por desprezo ou arrogância, o ator de 53 anos apressa-se em justificar não ser seduzido pelas homenagens. Abre exceções quando a causa lhe parece válida. Foi o caso da Mostra Cinema e Direitos Humanos, evento que em sua quinta edição na capital paulista elegeu Darín como homenageado. Não apenas porque no mais recente filme, Abutres, de Pablo Trapero, ele interpreta um advogado que perdeu a licença e sobrevive de extorquir indenizações das famílias de vítimas do trânsito. Ao revelar, durante um encontro com a imprensa em São Paulo, que a fita, já vista por 700 mil espectadores na Argentina e representante do país no Oscar, provocou uma revisão desse universo escuso e ilegal por parte do governo, Darín também projetou o objetivo de sua presença no festival.

“Trapero mostra seres anônimos em sua luta de vida, em ofícios nem sempre conhecidos. São temas que precisam ser abordados no cinema com naturalidade, pois, quanto mais naturais, mais perto estamos do público.” E completa: “Quando se fala de direitos humanos, parece que se está enviando uma mensagem aos que não compartilham das mesmas ideias. Se somos demais incisivos, o que pode acontecer é uma divisão, e o que queremos é ser compreendidos”.

Articulado e generoso no modo como expõe seu pensamento, em longas explanações, ele é reconhecido internacionalmente por seu perfil popular. Desde os 10 anos de idade, frequentou os estúdios de tevê e de rádio, além do palco, universo do Ricardo Darín pai e da mãe Renée Roxana. “Conheci com eles a cozinha do ofício, como se diz, mas também alguns ensinamentos que acredito responsáveis por uma visão mais clara das coisas. Da minha mãe, muito divertida, veio o humor que acho essencial na vida. Do meu pai, uma postura de que essa mesma vida nunca seria fácil.” Uma das razões da oposição paterna à carreira artística era a pouca estabilidade financeira da família, que não deveria ser perpetuada. Mas foi justamente a falta que lhe fez superar tabus. “Por saber o que é não ter dinheiro, não recusava trabalhos nem me preocupava com prestígio.”

A postura o levou primeiro à teledramaturgia, nas novelas assinadas pelo veterano Alberto Migré. Enquanto se sucediam as peças teatrais, o cinema o capturou de séries de tevê populares, a exemplo de Mi Cuñado, de 1993, mesmo ano do primeiro filme relevante, Perdido por Perdido, embora circunscrito ao sucesso local. Para Darín, contudo, são dois os longas-metragens determinantes de um respeito público e crítico. O primeiro, o bem-sucedido Nove Rainhas (2000), atraiu os olhares argentinos e internacionais sobre ele, incluindo aí a fama inicial no Brasil, status confirmado pela refilmagem por Hollywood, que o intérprete, aliás, deplora. O ano seguinte foi igualmente celebrado com O Filho da Noiva, segunda de uma duradoura e afinada parceria com o diretor Juan José Campanella, que teve início com O Mesmo Amor, a Mesma Chuva (1999) e se seguiu em Clube da Lua (2004) e O Segredo dos Seus Olhos. Naquele momento, a fita foi responsável por colar em definitivo o nome Darín à nova produção comercial argentina.

Para o grupo de produções de Campanella, Darín reserva o elogio do romantismo que tanto lhe agrada no cinema. A ponto de considerar Abutres, com estreia prevista para o dia 3, uma história de amor, antes de tudo. Cinzenta, diríamos nós, mas não ele, que prefere um ponto final assertivo. Sosa, seu personagem, é um golpista de outra maneira do que aquele em Nove Rainhas, e vê a redenção possível ao conhecer a médica de pronto-socorro interpretada por Martina Gusman, mulher de Trapero. O romance de ambos está longe do conto de fadas, com a ética duvidosa de um, os vícios pouco recomendáveis à profissão no caso dela. Darín apenas receia que a proposta do filme se desloque demais para a denúncia social. “É bastante o projeto de Trapero provocar uma discussão em nível nacional, no Congresso, mas não devemos descuidar da escala emocional, do humano.” Para quem ainda duvidar do caráter romântico, e de modo mais amplo, de gênero, na sua visão de cinema, Darín responde com o longa-metragem dirigido por ele em companhia de Martin Hodara. O Sinal é um autêntico noir levado na Buenos Aires de Eva Perón, quando esta agoniza, em que o próprio veste a capa de detetive para se deixar levar pelo mistério da mulher fatal.

Curiosa essa mescla de homem de opiniões formadas, e dignas, ligado a um casamento de duas décadas e pai presente de dois filhos, com o ator que projeta na tela um tipo durão fragilizado por certa carência. Ele não sabe por que o veem assim, mas dá pistas do seu temperamento quando revela as aspirações dos cineastas ideais. Pensa em Woody Allen, embora não esteja certo da regra deste de que metade do sucesso de um filme está na escolha do elenco. Mas recusa Pedro Almodóvar, apesar de ter bom trânsito na Espanha, onde já trabalha. “Eu discuto muito e ele é briguento. Não nos daríamos bem.”

Entre os brasileiros, sua admiração por Walter Salles encontra reciprocidade, pois há projeto de filmarem juntos, talvez contando com o ator Gael García Bernal, uma história de irmãos na Patagônia. Essa colaboração entre vizinhos não foge à apreciação. “Há uma identidade comum na forma como se contam histórias no nosso continente e penso que esse aspecto tem conquistado fama mundial.” Ele fala de uma mistura de sensibilidade e bom humor que, acredita, fez a diferença e foi decisivo para o Oscar de O Segredo dos Seus Olhos. “Quem sabe se pela ingenuidade de países jovens em termos democráticos, temos a vocação de rir de nós mesmos.” Por certo, em sua passagem pelo Brasil, ele próprio foi o melhor intérprete da constatação.

 

Banho de Sol – de solivan brugnara / quedas do iguaçu.pr

Numa manhã fria

tomando sol

num pedaço de quintal

entre uma jabuticabeira

e um resto de horta abandonada,

velhas roseiras

e entulhos.

Fechei meus olhos

fiquei ali,

o ardente amarelo

transpassando

minhas pálpebras fechadas,

inerte,

só sentindo

o calor agradável,

sem pensar em nada,

sem ser nada.

Não existir

foi delicioso.

Quando abri meus olhos,

pensei:

Talvez

a jabuticabeira

seja feliz.

 

 

PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA-Secretaria de Direitos Humanos e Maurice Politi, CONVIDAM:

 

 

“POEMINHA DO CONTRA” de mário quintana / porto alegre

O fato de não ter ocupado uma vaga na Academia Brasileira de Letras só fez o poeta Mário Quintana ( 1906-1994) aguçar seu conhecido humor e sarcasmo. Perdida a terceira indicação para aquele sodalício, compôs o conhecido “Poeminha do Contra”, onde mostra que acreditava que enquanto os imortais da Academia serão esquecidos, seus versos são simplesmente livres…

 

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Todos esses que aí estão
Atravancando meu caminho,
Eles passarão…
Eu passarinho!

 

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MIRIAM SANTOS convida para “SVEGLIA” / ilha de santa catarina

MILLÔR FERNANDES, pensando…

CHICO BUARQUE vale mais como escritor do que EDNEY SILVESTRE – por euler de frança belem / são paulo

 

Quem deveria ter ido para a Academia Brasileira de Letras: o político Juscelino Kubitschek, que não sabia escrever e tinha alguns ghost-writers, ou o escritor Bernardo Élis, que, ao contrário do concorrente, escrevia seus próprios livros? Bernardo Élis, é claro, mereceu ser eleito para a ABL. Porque era o escritor de fato e de direito. Uma vitória de JK teria a ver apenas com política, com um ataque inútil à ditadura civil-militar. Se a ditadura ajudou Élis, palmas para a ditadura: fez a coisa certa.

O mesmo ocorre agora. Chico Buarque ou Edney Silvestre: quem deveria ter faturado o Prêmio Jabuti/Livro do Ano de Ficção? Pela lógica, por ter levado o Prêmio Jabuti de Melhor Romance (Chico ficou em segundo lugar), Edney, autor de um único romance, “Se Eu Fechar os Olhos Agora”, e recém-chegado ao “clube” dos escritores, deveria ter sido o premiado. Mas, comparando romance com romance, não há dúvida de que Chico Buarque é muito mais escritor e “Leite Derramado”, que levou o Jabuti de Livro do Ano de Ficção, tem mais qualidades literárias. Edney pode até ser uma promessa, mas seu livro é frágil como romance, mesmo se visto tão-somente como romance policial. Chico, que não me agrada muito como escritor (filho tardio do nouveau roman), é muito mais senhor da forma-romance do que o ótimo repórter global. Então, mesmo errando, o Jabuti premiou o melhor escritor. Houve ingerência político-editorial? É possível. Tanto que, em Portugal, Chico levou o Prêmio Portugal Telecom de Literatura 2010, com o mesmo romance, “Leite Derramado”. Mas quem vai faturar mesmo com a história, depois de tudo, será Edney. Apesar de trabalhar na Globo e de ter arrancado resenhas elogiosas, talvez de críticos que nem leram o livro mas quiseram agradar o simpático global, que sempre entrevista escritores e críticos literários, Edney é um prosador desconhecido, de qualidade discutível, e sua obra certamente seria ignorada. Agora, pelo barulho que fizeram, vai ser lida e o autor vai se tornar tão conhecido quanto Chico. Ele pegou uma boa carona na garupa do escritor-compositor.

Depois de ter declarado voto em Dilma Rousseff, não será surpresa se o governo brasileiro apresentar o nome de Chico como candidato ao Prêmio Nobel de Literatura nos próximos quatro anos.

Como escritor, Chico continua excelente compositor, superado, talvez, apenas por Noel Rosa. É o gênio mais refinado da música popular brasileira, acima, duas notas, de João Gilberto e Tom Jobim.

 

TRIGÉSIMO ANDAR de omar de la roca / são paulo

Estou sempre aberto para o mar.

Sentado e minha mesa,tenho sempre a água ao meu redor.

Numa reunião de negócios no alto do prédio ,revolvo meus pés na areia da praia.

E respiro a doce maresia em salas fechadas.

Procuro ter sempre a brisa do mar em mim.

Que me alivia , me completa.

Mas também penso nas cachoeiras  que vertem direto no mar.Nas matas fechadas

Mas prefiro o mar.

Das montanhas gosto da altitude delas, dos bosques de pinheiros ,  de seu perfume

amadeirado.

Mas o mar me trás o sal. O Santo Sal da purificação.

Já as montanhas me trazem as maresias  florais, as areias verdes e orvalhadas.

Os campos me trazem a solidão de praias vazias.

Onde cavalgo a beira mar, rápido, cada vez mais rápido.

É minha vez agora,

Hora de apresentar resultados. Falar sobre visitas e contatos.

Mais uma folha virada.Não pelo vento, que a sala esta fechada e condicionada.

Alguns comentários, parabens por um trabalho bem feito.

Já posso empurrar o barco prá água.

E depois a imensidão do mar me embalando.

O marulhar das ondas no casco ,as paginas se transformam em gaivotas,

E saem voando a procura de leitores peixes ávidos.

E eu fecho os olhos e aproveito o sol, o mar,o calor.

Neste tão condicionado e frio salão no 30 andar.

 

TATUAGEM DO DESTINO de luis garcia / tomar.pt


Arrancara o som de cada palavra;
uma busca pelo sentido
que só se encontra no momento seguinte
e um abraço cheio de vazio por desculpar…

Suprira o valor,
fizera um instante em que fosse rei
e chorara por ter muito para esconder!

O receio desenhara-o
como se fosse ele próprio
a tatuagem do destino.
E a mão que estava tão perto
só conhecia palavras de dor

 

Deus me livre de mim! – por edival lourenço

A razão é um atributo do Homo sapiens, uma especificação de fábrica que nos distingue da fauna geral. A razão nos leva a certas práticas que são tipicamente humanas, tais como a cultura, o desenvolvimento do conhecimento e sua acumulação, a reflexão sobre as próprias atitudes e aprender com os erros próprios e dos outros, principalmente a melhoria da condição de vida através da capacidade empreendedora. Talvez seja por isso que  ainda nos primórdios da civilização essa capacidade foi reconhecida e legitimada como um mandamento divino. Daí o Deus de Abraão ter ordenado em suas primeiras manifestações formais: Crescei e multiplicai-vos; enchei a terra e sujeitai-a; dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu e sobre todos os animais que se arrastam sobre a terra.

Este é por certo o mandamento que o homem mais vem cumprindo à risca. Até com certo garbo e arrogância. Porque aqueles outros (não matarás, não roubarás, não desejarás a mulher do próximo, respeitarás pai e mãe, não levantarás falso testemunho etc) o ser humano, como coletividade, não tem dado a mínima. E parece que enquanto mais avança no desenvolvimento das ferramentas, esses ditames ancestrais, que bem poderiam ser perenes, vão caindo no esquecimento coletivo. Já na questão de dominar a terra, de avançar sobre os bens naturais, sem ao menos os importar com os malefícios que nossas ações possam nos trazer, seja para a nossa geração, seja para as gerações futuras, temos sidos convictos, muito além da conta.

Nosso instinto empreendedor está eivado de pulsões de vandalismo. Estudos biológicos comprovam que a parte do cérebro que comanda o nosso senso empreendedor está acondicionada juntamente com resquícios evolutivos de propensão  vandalista,  do tempo em que as aves eram o tope da linha da criação animal. As aves são vândalas por princípio. Uma galinha, por exemplo, é capaz de jogar tudo pro alto e por terra, numa ciscação medonha, se tiver esperança de encontrar um grão que seja de cereal num ambiente. Outro dia, caminhando pelo Parque Vaca Brava, pude perceber que as flores de um ipê amarelo caiam metodicamente, uma depois da outra, numa sequência frenética e desesperada. Observei que entre a ramada havia um periquito ordinário, cortando flor por flor, numa fúria incontida. Observei, ou deduzi  que ele não tirava nenhum proveito derrubando as flores daquele modo. Aquilo apenas atendia à ânsia de empreendedorismo vândalo das aves, ao instinto de promover a bagaceira. Os agricultores sabem que quando as maritacas atacam os arrozais o estrago é total. Não porque elas comem tudo, mas porque elas derrubam os cachos, comendo alguns grãos, aqui e ali. Daí ser preciso vigiar a roça com argumentos de fogos ou alguns espantalhos em forma de palhaços Tiririca, distribuídos em pontos estratégicos.

Nós humanos somos assim. Com relação ao planeta, o suporte de nossa vida, nós somos a galinha ciscadeira, o periquito na florada do ipê amarelo, a maritaca no arrozal maduro. Somos o bicho feroz de nós mesmos. Um ladrão quando mata alguém para lhe retirar um simples par de tênis, ou um empreendedor que aterra as nascentes de um córrego para que o loteamento dê umas unidades a mais, está cumprimento esses comandos infelizes de cérebro de galinha, que também são nossos. Com a diferença que a galinha não tem os dispositivos da razão para lhe sofrear os instintos tóxicos e o Homo sapiens tem essa reserva moral a que pode recorrer, quando quiser, para orientar eticamente suas atitudes.

No entanto, o Homo sapiens, é um animau çinixtro, pois mesmo tendo os meios adequados para agir com correção e ética, ele se deixa convenientemente dominar por seus instintos de galinha. Está mais ligado no que julga ser o bem-estar pessoal imediato em detrimento do bem-estar coletivo duradouro. Se for possível apresentar lucro no balanço no final do mês, não se importa em causar prejuízo perpétuo para a vida, em todos os seus quadrantes.

O vandalismo de autoaniquilamento do Homo sapiens é um projeto coletivo que perpassa a todas as instituições humanas. A religião, a política, a economia, o mercado, tudo. Aliás, as religiões, pelo menos as de orientação cristã, têm se esmerado na criação das condições que levem o homem à autodestruição. Para essas religiões, o ser humano caminha fatalmente para um momento de Apocalipse, da revelação final. Não tem como torcer. Crescer e multiplicar-se etc. são o modus operandi dessa máquina escatológica, que haverá de aniquilar a todos, criando assim as condições propícias para que o Messias, um Deus super-herói pimpão, todo poderoso e socorrista nos redima da desgraça final. Quando já não tiver ficado pedra sobre pedra e houver estabelecido o choro coletivo e o ranger de dentes geral.

Depois desse susto imenso e desse protagonismo espetacular, será edificado seu reino pacífico e ordeiro, sem os tais instintos de galinha que contaminam a razão humana em nossa condição pré-apocalipse. Um reino quiliásmico (de mil anos). Todo mundo fará parte desse reino: cristãos, judeus, espiritistas, muçulmanos, budistas, animistas. Até os ateus terão seu lugar e ficarão por ali, meio vendidos, com cara de budão.  Os vivos e os mortos de todos os tempos serão convocados, inclusive os fetos vítimas de aborto. Os mortos serão plenamente restabelecidos em sua conformação de carne e osso e os vivos mantidos como se acham, num botox integral e definitivo. Onde haverão de se abrigar tanta gente? Pelo menos o Apocalipse de João não dá pistas de que vá haver espaço físico pra todo mundo. O livro medonho fala de uma Nova Terra, sem dar conta de que haverá algum planeta salubre em anexo, ou mesmo um pedaço em forma de aplique a este que temos o costume de habitar e afligir. Didaticamente, a ordem de arrasar o planeta está no primeiro livro da Bíblia e a superstição de que seremos salvos numa ação espetacular está no último.

Esse utopismo desbragado, que está na base de nossa cultura (considerando que do ponto de vista sociológico até ignorância é cultura), legitima qualquer ação humana que seja para dar relevo e implemento ao nosso desenvolvimentismo teleológico (com uma finalidade previamente estabelecida: o Apocalipse). Podemos destroçar os biomas, como a mata atlântica, o cerrado, o mangue, as coxilhas, a mata amazônica. Podemos derramar petróleo no mar, sem culpa, nem dó. Podemos atufar ruas e vias do mundo com nossos carrões irados, defecando veneno. Podemos mudar de discurso num repente, como o governo brasileiro que defendia o etanol com fervor apostólico pela sua baixa toxidade ao meio ambiente, mas foi só pintar o petróleo do pré-sal, acenando com a possibilidade de uma grana mais avultada, que o discurso mudou num passe de mágico.

Por dindim podemos puir nossa camada de ozônio com nossos gases peçonhentos, podemos rebentar com o equilíbrio climático, podemos emporcalhar a água, podemos moer a pau as condições favoráveis à vida. Afinal estamos apenas cumprindo o mandamento de crescer e multiplicar, dando vazão ao nosso instinto predatório de galinha e nos aproximando da revelação final, para o exercício do protagonismo divino. Para isso serve mais o instinto ancestral do que a razão adquirida já na condição humana.

Não consigo me ver no espelho de minha consciência sem me assustar: Deus me livre de mim.

 

RUDI BODANESE e sua arte / ilha de santa catarina

 

 

 

MÍDIA, golpes e tortura – por emiliano josé / são paulo

 

No Brasil a Casa Grande não descansa. E a principal voz da Casa Grande no Brasil é a mídia hegemônica, aquele grupo de poucas famílias que se pretende o intérprete da realidade brasileira, apesar de há muito ter deixado de sê-lo. A um jornalismo sério, que tivesse compromisso com a história, a um jornalismo que tivesse alguma ligação, tênue que fosse, com a idéia de democracia, que se preocupasse com a educação das novas gerações, caberia discutir a monstruosidade da tortura, mostrar o que ela tem de lesa-humanidade. Mostrar que qualquer processo que envolva tortura não merece qualquer crédito. Mas esse não é o jornalismo brasileiro. O artigo é de Emiliano José.

Emiliano José

Talvez pudéssemos inverter um pouco a ordem das coisas: que tal, ao invés de divulgar o relato de processos do STM sobre pessoas covardemente torturadas, como o faz agora o secretariado da mídia golpista brasileira, perguntássemos sobre qual o papel dessa mesma mídia na implantação da ditadura militar?

Não seria algo elucidativo, educativo para as novas gerações? Que tal compreender a verdadeira natureza de nossa mídia hegemônica para, então, entender por que, nesse momento, usando processos inteiramente submetidos à ordem castrense, ao terror ditatorial, tenta atingir a presidente da República, recentemente eleita, numa espécie de vingança pela derrota que sofreu? Perguntar por que ela não se conforma com essa nova derrota, a terceira derrota da mídia nas últimas eleições, derrotada pela opinião pública brasileira. Com que direito quer um terceiro turno, ilegítimo, revelador apenas de seus ressentimentos?

Eu insisto: no Brasil a Casa Grande não descansa. E a principal voz da Casa Grande no Brasil é a mídia hegemônica, aquele grupo de poucas famílias que se pretende o intérprete da realidade brasileira, apesar de há muito ter deixado de sê-lo. Não vou retroceder muito no tempo. Não vou esmiuçar o papel destacado de nossa mídia na tentativa de golpe contra o presidente Getúlio Vargas. O quartel-general do golpe era permanentemente orientado pela mídia. A mídia hegemônica de então e o golpe já quase consumado foram derrotados pelo suicídio do presidente.
O que pretendo mesmo é refrescar a memória ou informar um pouco que seja sobre o papel de nossa mídia no golpe de 1964. Não se trata apenas de ela ter elaborado todo o discurso que deu sustentação ao golpe contra o presidente Jango Goulart. Não se trata disso somente.

Trata-se do fato, por demais evidente, e há vasto repertório bibliográfico a respeito, de que a mídia participou diretamente das articulações golpistas. Ela derrubou Goulart lado a lado com os militares golpistas. Reuniu-se com eles para preparar o golpe. Não tem como se defender disso. É algo que hoje já pertence à história.

Com isso se quer dizer, e creio que é preciso insistir nisso, que a mídia hegemônica brasileira foi um ator fundamental na construção de uma ditadura sanguinária, terrorista no Brasil, a mesma que vai torturar covardemente homens, mulheres, crianças, que vai desaparecer com pessoas depois de desfigurá-las, provocar suicídios, que será capaz de todas as crueldades, perversidades para garantir a sua continuidade no poder por 21 anos.

A Rede Globo, criada lá pelos finais de 1969, não foi uma simples iniciativa empresarial. Foi um empreendimento político. Com a Rede Globo pretendeu-se unificar o discurso da ditadura, justificar tudo ela pretendesse, inclusive os assassinatos, o terrorismo que ela praticava cotidianamente. Inúmeras vezes assistíamos, no Jornal Nacional, notícias dando conta do atropelamento de companheiros, da morte de um militante por outro, versões montadas pela repressão para justificar a morte nas masmorras da ditadura. A Rede Globo encarnava e ecoava a voz do terror, foi criada para tanto.

E o grupo Globo é apenas parte de toda uma estrutura midiática que deu sustentação à ditadura, embora talvez, então, a parte mais importante. Não é difícil lembrar do terrível, do terrorista general Garrastazu Médici, ditador, que dizia que bastava assistir ao Jornal Nacional para perceber como tudo caminhava às mil maravilhas no Brasil. O Jornal Nacional era o diário oficial da ditadura.

Por isso, não há como nos surpreendermos com a tentativa, canhestra, de tentar desqualificar a presidente Dilma, pinçando aspectos do vasto processo buscado nos arquivos do STM, como a matéria de 19 de novembro, de O Globo. Não nos surpreendemos, mas não há como não nos indignarmos. É a voz da ditadura que volta, são os mesmos métodos que voltam, embora, agora, por impossibilidade, a tortura física não possa voltar.

A um jornalismo sério, que tivesse compromisso com a história, a um jornalismo que tivesse alguma ligação, tênue que fosse, com a idéia de democracia, que se preocupasse com a educação das novas gerações, caberia discutir a monstruosidade da tortura, mostrar o que ela tem de lesa-humanidade, mostrar a necessidade de evitar que ela exista, inclusive nas cadeias brasileiras de hoje. Mostrar que qualquer processo que envolva tortura não merece qualquer crédito. Mas, não.

O jornalismo realmente existente vai pinçar aspectos no processo que eventualmente desgastem a presidente da República. Nos próximos dias, a mídia golpista vai se debruçar sobre isso, podem anotar. É a tentativa do terceiro turno, evidência do ressentimento pela terceira derrota – a mídia perdeu em 2002 e 2006, quando Lula venceu, e perdeu agora, com a vitória de Dilma. Não se conforma, A Casa Grande não descansa.

Nem sei, nem vou procurar saber sobre todo o processo que envolveu a presidente. Escrevi vários livros sobre a ditadura, inclusive sobre Carlos Lamarca e Carlos Marighella, que tangenciam organizações revolucionárias pelas quais a presidente Dilma passou – e que orgulho ter militado em organizações revolucionárias. Não me detive, no entanto, na trajetória específica da presidente Dilma Roussef, nem caberia.

Mas será que os jornalistas que têm feito o papel de pescadores de leads e subleads negativos, de títulos desqualificadores da presidente têm alguma noção do que seja a tortura? Imagino que não, até porque só obedecem ordens, a pauta é previamente pensada, ordenada, e depois se faz a matéria.

Repito aqui o que escrevi em um dos meus livros, valendo-me das contribuições do psicanalista Hélio Pellegrino. A tortura nunca é mero procedimento técnico destinado à coleta rápida de informações. É também isso, mas nunca apenas isso. Ela é a expressão tenebrosa da patologia de todo um sistema social e político, expressão da ditadura militar de então. Ela visa à destruição do ser humano.

À custa de um sofrimento corporal inimaginável, teoricamente insuportável, a tortura pretende separar corpo e mente, instalar a guerra entre um e outro, semear a discórdia entre ambos. O corpo torna-se um inimigo – com sua dor, atormenta o torturado, persegue o torturado. A mente vai para um lado, o corpo sofrido para outro. O torturado fica exposto ao sol e à chuva, ao desabrigo absoluto, sem chão, entregue às ansiedades inconscientes mais primitivas. E apesar disso, tantas vezes, tantos de nós, quando não fomos trucidados e mortos na tortura, resistimos a esse terror, e saímos inteiros, ou quase inteiros, dessa situação-limite.

O que vale um processo feito sob a ditadura? O que valem declarações tiradas sob tortura? Responderia que valem apenas para revelar o que foi o terror, para revelar o que fizeram com as vítimas desse terror. Por que nos impressionamos e nos indignamos tanto com as vítimas do nazi-fascismo, inclusive nossa mídia, impressão e indignação justas, e somos, lá eles como costumam dizer os baianos, tão condescendentes com o terror da ditadura, com as torturas dos assassinos do período 1964-1985?

Eu compreendendo por que a mídia age assim com a nossa memória histórica, e já o disse antes: age assim pela simples razão de que ela tem tudo a ver com a gênese da ditadura, porque dela não pode se apartar, lamentavelmente. Por isso, nos preparemos para a luta dos próximos dias: ela vai buscar nos porões da ditadura o que possa servir aos seus propósitos de lutar contra o governo democrático, republicano e popular da presidente Dilma. E nos encontrará onde sempre estivemos: na luta intransigente, isso mesmo, intransigente, a favor da democracia, dos direitos humanos, e contra toda sorte de crimes contra a humanidade.

(*) Jornalista, escritor.


 

Dubai, o emirado dos recordes ! – por laura antunes / são paulo

Prédios de Dubai que parecem de brinquedo, vistos do observatório do 124º andar do Burj Khalifa, o prédio mais alto do mundo / Foto: Laura Antunes

Era uma vez um longínquo vilarejo num deserto das arábias que decidiu tornar real até a mais inimaginável miragem. No espaço de duas décadas, Dubai, o mais famoso dos sete Emirados Árabes Unidos, tomou para si o título de capital dos superlativos ao erguer uma estação de esqui na neve, uma ilha artificial em formato de palmeira com 500 quilômetros de orla, um conjunto de ilhas formando os cinco continentes, hotéis que reproduzem uma vela de barco ou uma onda… Como não era o bastante, Dubai conseguiu se superar ao inaugurar num mesmo endereço o prédio mais alto do mundo (com o observatório externo mais alto do mundo), construído ao lado do recém-inaugurado maior shopping do mundo – onde fica a maior parede transparente do mundo – e vizinho a uma das estações do novíssimo maior metrô automatizado do mundo. Um monumental lago artificial completa o complexo arquitetônico, onde acontece diariamente o balé das águas, que atrai milhares de turistas atônitos, pois o show termina, claro, com outro recorde: o jato de água mais alto do mundo! É só? Imagina… O lugar abrigará em breve a maior sobreposição de viadutos do mundo (15, ao todo). E, como Dubai não se cansa de surpreender, o próximo projeto megalômano já está a caminho: um prédio residencial, onde todos os apartamentos vão girar em seu eixo.

 

 

AS 10 ESTRATÉGIAS DE MANIPULAÇÃO MIDIÁTICA por noam chomski / usa

Noam Chomsky *

O linguista Noam Chomsky elaborou a lista das “10 Estratégias de Manipulação”através da mídia.
1. A estratégia da distração. O elemento primordial do controle social é a estratégia da distração, que consiste em desviar a atenção do público dos problemas importantes e das mudanças decididas pelas elites políticas e econômicas, mediante a técnica do dilúvio ou inundação de contínuas distrações e de informações insignificantes. A estratégia da distração é igualmente indispensável para impedir que o público se interesse pelos conhecimentos essenciais, na área da ciência, da economia, da psicologia, da neurobiologia e da cibernética. “Manter a atenção do público distraída, longe dos verdadeiros problemas sociais, cativada por temas sem importância real. Manter o público ocupado, ocupado, ocupado; sem nenhum tempo para pensar; de volta à granja com outros animais (citação do texto “Armas silenciosas para guerras tranquilas”).
2. Criar problemas e depois oferecer soluções. Esse método também é denominado “problema-ração-solução”. Cria-se um problema, uma “situação” previsa para causar certa reação no público a fim de que este seja o mandante das medidas que desejam sejam aceitas. Por exemplo: deixar que se desenvolva ou intensifique a violência urbana, ou organizar atentados sangrentos, a fim de que o público seja o demandante de leis de segurança e políticas em prejuízo da liberdade. Ou também: criar uma crise econômica para forçar a aceitação, como um mal menor, do retrocesso dos direitos sociais e o desmantelamento dos serviços púbicos.
3. A estratégia da gradualidade. Para fazer com que uma medida inaceitável passe a ser aceita basta aplicá-la gradualmente, a conta-gotas, por anos consecutivos. Dessa maneira, condições socioeconômicas radicalmente novas (neoliberalismo) foram impostas durante as décadas de 1980 e 1990. Estado mínimo, privatizações, precariedade, flexibilidade, desemprego em massa, salários que já não asseguram ingressos decentes, tantas mudanças que teriam provocado uma revolução se tivessem sido aplicadas de uma só vez.
4. A estratégia de diferir. Outra maneira de forçar a aceitação de uma decisão impopular é a de apresentá-la como “dolorosa e desnecessária”, obtendo a aceitação pública, no momento, para uma aplicação futura. É mais fácil aceitar um sacrifício futuro do que um sacrificio imediato. Primeiro, porque o esforço não é empregado imediatamente. Logo, porque o público, a massa tem sempre a tendência a esperar ingenuamente que “tudo irá melhorar amanhã” e que o sacrifício exigido poderá ser evitado. Isso dá mais tempo ao público para acostumar-se à ideia de mudança e de aceitá-la com resignação quando chegue o momento.
5. Dirigir-se ao público como se fossem menores de idade. A maior parte da publicidade dirigida ao grande público utiliza discursos, argumentos, personagens e entonação particularmente infantis, muitas vezes próximos à debilidade mental, como se o espectador fosse uma pessoa menor de idade ou portador de distúrbios mentais. Quanto mais tentem enganar o espectador, mais tendem a adotar um tom infantilizante. Por quê? “Ae alguém se dirige a uma pessoa como se ela tivesse 12 anos ou menos, em razão da sugestionabilidade, então, provavelmente, ela terá uma resposta ou ração também desprovida de um sentido crítico (ver “Armas silenciosas para guerras tranquilas”)”.
6. Utilizar o aspecto emocional mais do que a reflexão. Fazer uso do aspecto emocional é uma técnica clássica para causar um curto circuito na análise racional e, finalmente, ao sentido crítico dos indivíduos. Por outro lado, a utilização do registro emocional permite abrir a porta de aceeso ao inconsciente para implantar ou enxertar ideias, desejos, medos e temores, compulsões ou induzir comportamentos…
7. Manter o público na ignorância e na mediocridade. Fazer com que o público seja incapaz de compreender as tecnologias e os métodos utilizados para seu controle e sua escravidão. “A qualidade da educação dada às classes sociais menos favorecidas deve ser a mais pobre e medíocre possível, de forma que a distância da ignorância que planeja entre as classes menos favorecidas e as classes mais favorecidas seja e permaneça impossível de alcançar (ver “Armas
silenciosas para guerras tranquilas”).
8. Estimular o público a ser complacente com a mediocridade. Levar o público a crer que é moda o fato de ser estúpido, vulgar e inculto.
9. Reforçar a autoculpabilidade. Fazer as pessoas acreditarem que são culpadas por sua própria desgraça, devido à pouca inteligência, por falta de capacidade ou de esforços. Assim, em vez de rebelar-se contra o sistema econômico, o indivíduo se autodesvalida e se culpa, o que gera um estado depressivo, cujo um dos efeitos é a inibição de sua ação. E sem ação, não há revolução!
10. Conhecer os indivíduos melhor do que eles mesmos se conhecem. No transcurso dosúltimos 50 anos, os avançosacelerados da ciência gerou uma brecha crescente entre os conhecimentos do público e os possuídos e utilizados pelas elites dominantes. Graças à biologia, à neurobiologia e à psicologia aplicada, o “sistema” tem disfrutado de um conhecimento e avançado do ser humano, tanto no aspecto físico quanto no psicológico. O sistema conseguiu conhecer melhor o indivíduo comum do que ele a si mesmo. Isso significa que, na maioria dos casos, o sistema exerce um controle maior e um grande poder sobre os indivíduos, maior do que o dos indivíduos sobre si mesmos.

* Linguista, filósofo e ativista político estadunidense. Professor de
Linguística no Instituto de Tecnologia de Massachusetts

Tradução: ADITAL

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