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O BRASIL é o MEU PÚBLICO: MAZZAROPI entrevistado por armando salem para a revista veja em 28/01/1970



De Jeca a Djeca, um sucesso de 25 anos, com os cinemas sempre lotados 

   Esta semana, mais um de seus filmes está sendo lançado nos cinemas de São Paulo para depois correr o Brasil. “Uma Pistola para Djeca”. Produtor, ator, criador do personagem, ele é capaz de jurar que Djeca não vem de Django, o pistoleiro italiano: “Djeca é um herói caboclo do Brasil do século XIX”. Ele é Amácio Mazzaropi, sucesso garantido em bilheteria, um homem que dá risadas das histórias contadas a respeito de sua fortuna. Mora numa casa classe média – três quartos, sala, banheiro, cozinha – num bairro classe média de São Paulo. Na garagem, um automóvel Galaxie amarelo, que Mazzaropi mesmo dirige, desmente uma das histórias: a do bilionário caipira que – charuto na boca, terno de linho branco trocado pelo chapéu-coco, chofer na direção de um magnífico Rolls-Royce – de vez em quando passeia nas ruas da cidade. Parece ser um homem simples, como os personagens que viveu durante 25 anos (completa o jubileu este ano) nas telas dos cinemas nacionais. Tem um pouco do “Zé do Periquito”, do “Padre”, do “Corinthiano”.

    Solteirão nascido na capital de São Paulo em 9 de abril de 1912, filho de um casal classe média, Dona Clara e Bernardo – um próspero dono de mercearia – iria crescer sem problemas financeiros mas com muita preguiça: mal conseguiu terminar o ginásio. Do avô Amácio Mazzaropi (imigrante italiano que foi trabalhar nas terras do Paraná) não herdou só o nome, mas o gosto pela vida do campo que o levou um dia a pesquisar no interior o personagem de calças curtas, canela aparecendo, botinas, fala arrastada – o caipira Mazzaropi.

  DO CIRCO AO CINEMA, SEMPRE O MESMO PERSONAGEM

Veja Qual é o seu público?
Mazzaropi
– Meu público é o Brasil, do Oiapoque ao Chuí. Eu loto casa em São Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Acre, Rondônia, Rio Grande do Sul, Rio Grande do Norte, ilha do Bananal… 

VejaSim, mas como você definiria esse público: gente simples, classe baixa, elite, velho, moço?
Mazzaropi – É público bom, fiel.  

Veja – Você não gosta de falar?
Mazzaropi – Não.  

Veja
Por quê?
Mazzaropi – Porque deturpam tudo o que eu falo.

Veja – Quem deturpa?
Mazzaropi
– A crítica. A imprensa.

Veja – E como se faz para contar quem é Mazzaropi e o que ele pretende fazer daqui para a frente?
Mazzaropi – Conte minha verdadeira história, a história de um cara que sempre acreditou no cinema nacional e que, mas cedo do que todos pensam, pode construir a indústria do cinema no Brasil. A história de um ator bom ou mau que sempre manteve cheios os cinemas. Que nunca dependeu do INC – Instituto Nacional do Cinema – para fazer um filme. Que nunca recebeu uma crítica construtiva da crítica cinematográfica especializada – crítica que se diz intelectual. Crítica que aplaude um cinema cheio de símbolos, enrolado, complicado, pretensioso, mas sem público. A história de um cara que pensa em fazer cinema apenas para divertir o público, por acreditar que cinema é diversão, e seus filmes nunca pretenderam mais do que isso. Enfim, a história de um cara que nunca deixou a peteca cair.

Veja – Conte então sua história.
Mazzaropi – Quando eu comecei minha vida artística, muito pouca gente que vai ler esta história existia. Nasci em 1912, e na época em que comecei tinha uns quinze anos. Naquele tempo, o gênero de peças que fazia sucesso no teatro era caipira. E, como todo mundo, eu gostava de assisti-las. Dois atores, em particular, me fascinavam. Genésio e Sebastião de Arruda. Sebastião mais que Genésio, que era um pouco caricato demais para meu gosto. Nem sei bem por que, de repente, lá tava eu trabalhando no teatro. Mas não como ator – eu pintava cenários. Aliás, eu amava a pintura, sempre amei a pintura. Pois bem, um belo dia “perdi” o pincel e resolvi seguir a carreira de ator. No começo procurei copiar a naturalidade do Sebastião, depois fui para o interior criar meu próprio tipo: caboclão bastante natural (na roupa, no andar, na fala). Um simples caboclo entre os milhões que vivem no interior brasileiro. 
 
Saí pro interior um pouco Sebastião, voltei Mazzaropi. Não mudei o nome (embora tivessem cansado de me aconselhar a mudá-lo) por acreditar não haver mal nenhum naquilo que eu ia fazer. Os amigos diziam que Mazzaropi não era nome de caipira, que era nome de italiano, mas eu respondia para eles que, se não era, iria virar. Que eu não tinha vergonha do que ia fazer e, por isso, ia fazer com meu nome. E o público gostou do meu nome, gostou do que eu fiz. Turnês em circos, teatros, recitando monólogos dramáticos, fazendo a platéia rir, chorar. Mas sempre com uma preocupação: conversar com o público como se fosse um deles. Ganhava 25 mil-réis por apresentação quando comecei, passei a ganhar bem mais quando montei a minha própria companhia (1). De nada adiantou a preocupação dos meus pais quando eu saí de casa: “quem faz teatro morre de fome em cima do palco”. Eu fiz e não morri, pelo contrário, sempre tive sorte – sempre ganhei dinheiro. Mas eu era bom, era o que o público queria. Em 1946 assinava um contrato na Rádio Tupi – onde fiquei oito anos. Em 1950 ia para o Rio de Janeiro inaugurar o canal 6, e começava minha vida na televisão (2). Um dia, num bar que havia pegado ao Teatro Brasileiro de Comédia, entrou Abílio Pereira de Almeida. A televisão estava ligada, o programa era o meu. Ele me viu. Uma semana depois, uma série de testes me aprovava para fazer o meu primeiro filme: “Sai da Frente”. Meu primeiro salário no cinema – 15 contos por mês. No segundo já ganhava 30, depois 300, hoje eu produzo meus próprios filmes. E o público, como no meu tempo de circo, vai ver um Mazzaropi que faz rir e chorar. Um Mazzaropi que não muda.
 

A MÁGOA DE MAZZAROPI: UMA CRÍTICA QUE SÓ PENSA EM DINHEIRO

Veja Sua história parece girar em torno de cifras. Você é louco por dinheiro?
Mazzaropi – Não, acho que dinheiro não traz felicidade na vida. Tá certo que ajuda, mas, em compensação, quem tem, além de viver intranquilo, passa a ter desconfiança em vários setores da vida. Quem tem dinheiro sempre duvida de quem se aproxima – não sabe se é um amigo ou se vem dar uma bicada.

Veja – Quanto você ganha?
Mazzaropi – Mas por que vocês se preocupam tanto com o que eu ganho? Vão perguntar pro Pelé, que marcou mil gols. Ele é muito mais rico que eu. Tudo que tenho em meu nome é a casa onde moro. O resto está tudo em nome da Pam-Filmes.

Veja – Tem sócio?
Mazzaropi – Não, não tenho. Tenho o necessário para pensar em fazer amanhã ou depois a indústria cinematográfica de que falei. Tenho câmeras de filmar, holofotes, lâmpadas, cavalos, cenários, agências em São Paulo, Rio, Norte do país, e uma fazenda de 184 alqueires no Vale do Paraíba – Taubaté – que serve perfeitamente de estúdio para os filmes que rodo. Como vê, tudo que ganho é aplicado na Pam-Filmes, no cinema brasileiro. E depois vêm esses críticos de cinema metidos a intelectuais dizendo: “O Mazzaropi tá cheio de dinheiro. Ele tá podre de rico. Não sabe onde pôr o dinheiro”. Não são capazes de entender que eu faço cinema como indústria. E o cinema é uma indústria como qualquer outra. Eu faço o cinema-indústria e vou fazer a indústria brasileira de cinema.

Veja – Acredita mesmo nisso?
Mazzaropi – Acredito e não estou longe dela. Não uma indústria exportadora. Não sou visionário. Uma indústria que seja capaz de suprir o mercado interno de filmes é o suficiente. Não podemos pensar em conquistar o mercado externo – nós não temos nem lâmpadas aqui. Tudo que temos vem de lá. Mas, se nós pudermos ter uma indústria produzindo fitas nacionais, se nossas salas ficassem ocupadas por fitas nacionais, quanto dinheiro nós estaríamos evitando de mandar para fora!

Veja – É um sonho muito bonito. Mas há público no Brasil para fitas nacionais? Ou seria a falência dos exibidores?
Mazzaropi – Não posso falar pelos outros porque não conheço os resultados dos números daquilo que eles fazem. Tenho muita vaidade em dizer que eu não tenho nenhum problema de exibição de meus filmes. Os exibidores fazem fila na porta da Pam-Filmes. O público vai ver minhas fitas e sai satisfeito. Eu já consegui colocar 13000 pessoas num dia, nas várias sessões do Art Palácio, em São Paulo. Com isso, ando de cabeça erguida. Agora, pelo outro tipo de filme feito no Brasil, não respondo. Não sei se ele pode ajudar a indústria cinematográfica nacional.

Veja – Que outro tipo de filme?
Mazzaropi
– Esse tal de Cinema Novo.

Veja – Você é contra o Cinema Novo?
Mazzaropi – Não, eu não tenho nada contra ele. Só acho que a gente tem que se decidir: ou faz fita para agradar os intelectuais (uma minoria que não lota uma fileira de poltronas de cinema) ou faz para o público que vai ao cinema em busca de emoções diferentes. O público é simples, ele quer rir, chorar, viver minutos de suspense. Não adianta tentar dar a ele um punhado de absurdos: no lugar da boca põe o olho, no lugar do olho põe a boca. Isso é para agradar intelectual.

Veja – Você parece ter muito raiva dos intelectuais.
Mazzaropi – E tenho mesmo. É fácil um fulano sentar numa máquina e escrever: “Hoje estréia mais um filme de Mazzaropi. Não precisam ir ver, é mais uma bela porcaria”. Mas não explicam por quê. Talvez com raiva pelo fato de eu ganhar dinheiro, talvez por acreditarem que faço as fitas só para ganhar dinheiro. Mas não é verdade, porque o maior de todos os juízes fugiria dos cinemas se isso fosse verdade – o público.

Veja – O que você acredita oferecer para o seu público?
Mazzaropi – Distração em forma de otimismo. Eu represento os personagens da vida real. Não importa se um motorista de praça, um torcedor de futebol ou um padre. É tudo gente que vive o dia-a-dia ao lado da minha platéia. Eu documento muito mais a realidade do que construo. Quando eu falo tanto na parte comercial, não quer dizer que é só com isso que eu me preocupo. Se um crítico viesse a mim fazer uma crítica construtiva, mostrar uma forma melhor de eu ajudar o público – eu aceitaria e o receberia de braços abertos. Mas em momento nenhum aceitaria que ele tentasse mudar minha forma de fazer fitas. Elas continuariam as mesmas, pois é assim que o público gosta e é assim que eu ganho dinheiro para amanhã ou depois aplicar mais na indústria brasileira do cinema. E se os críticos se preocupassem menos com o que eu ganho e mais com as salas vazias do Cinema Novo entenderiam que cinema sem dinheiro não adianta. Que não adianta a gente começar pondo o carro adiante dos bois.

Veja – Quanto rendem seus filmes
Mazzaropi – A resposta só pode ser dada pela contabilidade do escritório da Pam. É lá que eu confiro os balanços. De cabeça só tenho as cifras da renda total do filme que exibi no ano passado: “O Paraíso das Solteironas”. Do dia da estréia, 24 de janeiro de 1969, até 19 de janeiro de 1970, o filme rendeu 2 bilhões e 650 milhões de cruzeiros velhos.

Veja – Quanto custou a produção?
Mazzaropi – Não me lembro.

Veja – E a do último?
Mazzaropi – “Uma Pistola para Djeca” ficou entre 500 e 600 milhões de cruzeiros velhos. É o meu filme mais caro e mais bem cuidado. Colorido especial, guarda-roupa especialmente feito para o filme, que está, realmente, muito bonito. Procuro sempre melhorar a qualidade técnica dos filmes que produzo. É este o algo mais que eu procuro dar ao público. Infelizmente, o que falta no Brasil é gente inteligente, que entenda de cinema. Faltam diretores, roteiristas, cinegrafistas, falta tudo.

Veja – Dos papéis que já representou, qual o mais importante?
Mazzaropi – Gostei de todos os filmes que fiz, por isso é difícil dizer qual o papel que mais me realizou.
 
Veja – Não teria sido “Nadando em Dinheiro”?
Mazzaropi – Quem sabe! Não é verdade, é brincadeira. Gostei do Candinho, do Motorista, do Corintiano, gostei mesmo de todos. Mas talvez eu fique com a opinião do presidente da Academia Brasileira de Letras, que, no dia 17 de janeiro de 1968, escrevia e assinava um bilhete dirigido a mim (eu o guardo até hoje num quadro sobre a lareira de minha sala): “Astraugesilo de Ataide considera que, com “Jeca Tatu e a Freira” Mazzaropi alcançou no cinema o mais alto nível de sua arte. É hoje, sem nenhum favor, um artista de categoria mundial”.  
 

A FAVOR DO PALAVRÃO MAS CONTRA OS EXAGEROS DO SEXO

 

Veja Você contou ter entrado no teatro através da pintura. Até hoje você pinta?
Mazzaropi – Não, apenas gosto.

Veja – Que gênero prefere?
Mazzaropi – Sou um conservador, prefiro a pintura clássica. Principalmente dos quadros que têm paisagem, talvez por me fazerem lembrar o campo, o contato com a natureza.

Veja – E quanto a leitura?
Mazzaropi – Só leio “Tio Patinhas”.

Veja – Sente saudade do teatro?
Mazzaropi – Oh, se sinto. Mas de vez em quando dá pra matá-la. Faço alguns shows beneficentes em circos e teatros do interior.

Veja – Representando coisa séria? Ou vivendo o caipira Mazzaropi?
Mazzaropi – É muito difícil separar um do outro. Eu já fiz teatro sério: interpretei “Deus lhe Pague” e “Anastácio”, de Juracy Camargo; “Era uma vez um Vagabundo”, do Wanderlei, e várias peças do Oduvaldo Viana. Em todas elas eu sempre fui Mazzaropi. Não interessa se fazia o público rir ou chorar. Ele sempre estava vendo o Mazzaropi, pois eu não posso mudar meu jeito de rir, falar, olhar.

Veja – Você vai muito ao teatro?
Mazzaropi – Sim, bastante.

Veja – O que pensa do novo teatro, do palavrão, do nu?
Mazzaropi – Não tenho nada contra ele. Pelo contrário, até gosto das peças que têm nu, palavrão, mas quando eles vêm por necessidade, por decorrência da própria história. Não do palavrão, do nu forçados. De um punhado de gente pelada se esfregando maliciosamente pelas paredes do teatro; do sensacionalismo para ganhar público. No início, eles vão conseguir encher os teatros – é certo. Mas e depois, este público volta? Não, claro que não volta. Nem a minoria que vai ao teatro consegue agüentar ficar vendo gente pelada e ouvindo palavrões o tempo inteiro. Calculem a população de São Paulo e façam uma relação do número de teatros que nós temos e vejam quantos estão cheios. Vejam quantos lugares têm esses teatros – e verão que a freqüência é mínima. O grande público fica em casa. Aceita Chacrinha, Sílvio Santos, Hebe Camargo, vê televisão. Vai ao cinema ver os meus filmes e depois eu passeio pelas ruas e ouço um pai de família: “Mazzaropi, seus filmes são ótimos. A gente pode levar a família para assisti-los”. Já imaginaram se eu aparecesse pelado para esse público? Ele nunca mais iria me assistir no cinema.

Veja – Você falou na aceitação da televisão. Por que não volta a fazer?
Mazzaropi – Já tenho muito trabalho com a Pam-Filmes. Faço um filme por ano – mas ele dá um trabalho! Cinco meses de preparação de roteiro, cenários, etc. Dois meses para filmar. O resto é problema de distribuição. Não dá para fazer mais nada. E não estou mais na idade de ter patrão. Tenho meu negócio, trabalho a hora que quero. Não dou satisfação a ninguém. Na TV eu iria ter patrão.  

Veja – Mas você gosta de televisão?
Mazzaropi – Oh, se gosto. Assisto sempre. Tudo que consegue se comunicar com o público me fascina. Gosto do Sílvio Santos e da Hebe, principalmente. Eles vieram do nada como eu. Ganham dinheiro para divertir o público, e divertem. Não adianta nada a crítica chamar a Hebe de burra. Ela nunca disse para ninguém que era professora. Não adianta dizer que ela só fala bobagens – o público gosta do que ela fala. E quem manda é o público. 

Veja – Tem planos para o futuro?
Mazzaropi – Sim, continuar fazendo filmes até morrer – é a única coisa que sei fazer na vida. Quero morrer vendo uma porção de gente rindo em volta de mim.
 

Observações do Museu Mazzaropi

(1) Após realizar seu último filme pela Cinedistri, Chico Fumaça, de 1956, Mazzaropi já era famoso no cinema nacional e resolveu que estava na hora de investir em si mesmo. Isso porque via as grandes filas no cinema e eram, geralmente, os donos das produtoras que sempre ganhavam muito dinheiro.

O sucesso de Chico Fumaça fez com que Mazzaropi comentasse com sua mãe, Dona Clara, que o proprietário da companhia Cinedistri, sr. Massaini, ganhara muito dinheiro com o sucesso dos filmes em que ele participara e pediu para que ela o apoiasse num investimento que pretendia fazer.

Ele queria produzir um filme, mas para levar seu projeto adiante não hesitou em se desfazer dos seus bens: dois carros Chevrolet americanos, terrenos, economias bancárias e perguntou ao seu filho de criação, Péricles Moreira, se fosse necessário, se ele não se importaria em trocar o colégio particular por um colégio estadual. Mazzaropi ficou apenas com o terreno do Itaim Bibi.

Em 1958, consegue produzir seu primeiro filme, Chofer de Praça. Não foi fácil, no início teve que alugar os estúdios da Cia Vera Cruz para as gravações internas e as filmagens externas foram rodadas na cidade de São Paulo com os equipamentos alugados da Vera Cruz. Estava inaugurada a PAM Filmes – Produções Amácio Mazzaropi.


(2) Na verdade, em setembro de 1950, Mazzaropi, com 38 anos, estreava na TV Tupi de São Paulo o mesmo show que tinha sido sucesso durante muito tempo na Rádio Tupi: Rancho Alegre – o programa era ao vivo, todas as quartas, às 21 horas.

Quatro meses depois, janeiro de 1951, Mazzaropi é convidado para a inauguração da TV Tupi no Rio de Janeiro. No alto do Pão de Açúcar, onde se achava instalada a torre transmissora, acontece a grande festa com a presença do Presidente, General Eurico Gaspar Dutra.

A apresentação do show inaugural coube a Luis Jatobá, primeiro locutor da Tupi carioca.

Mazzaropi também passou pela TV Excelsior fazendo parte de um programa de sucesso na época, apresentado por Bibi Ferreira, Brasil 63.

VERÃO com RELÂMPAGOS e MACACOS conto de tonicato miranda

(Breve conto escrito num celular entre Joinville e Curitiba)

Quanto mais o ônibus se aproximava da morraria, mais intensos os clarões dos relâmpagos.
E eles pulsavam no breu da noite, sem aviso, sem ritmo ou compasso. Impossível adivinhar o intervalo entre o último e o próximo – este que já caiu. E eles continuaram riscando a anágua preta da noite, lá longe, no sopé da montanha.

De súbito, um estrondo. O raio rompeu a janela do ônibus deixando passar a chuva de granizo e uma pedra caída sobre a poltrona, felizmente vazia, ao lado do homem. Enrolada nela um papel amarfanhado e agora mais molhado ainda com a chuva que passava pelo buraco na vidraça. Mesmo assim era possível ler a grafia borrada, em azul:

__ Se não me amas, por que não me esqueces?

Ficou o homem pensando, curvas e curvas estrada afora, até que num impulso louco se atirou pelo buraco da janela, no exato momento em que o ônibus passava sobre uma ponte, vindo a cair no vazio.

Três macacos se assustaram com aquele turbilhão de estrondos, e muitos galhos crepitando como se fora um incêndio violento e não um aguaceiro que já caia há algum tempo. Depois de galhos e folhagens que primeiro chegaram ao solo, chegou o corpo do homem.

Depois de alguns segundos de desconfiança, os macacos se aproximaram e foram tentando cheirar o corpo, com seus focinhos compridos, mexendo nos braços do homem para se certificar se ainda estava vivo. Ao constatar estarem definitivamente diante de um morto, começaram com dentes ágeis a dilacerar o corpo do homem.

Não demorou cinco dentadas para que a macaca grunhisse para o macaco mais velho, afirmando: Gruuuhhhh!!!! Argruunnnnhh asfgrgrggr!!! (e que rapidamente pudemos traduzir em – “seres humanos apaixonados têm melhores gosto e fragrância”).

BANHO de LINGUA, OPS! por edu hoffmann

As palavras têm mistérios e são cheias de sutis complexidades. Todo homem é um animal etimologista, o que significa que as pessoas apresentam um interesse natural por conhecer a origem das palavras que usam no cotidiano. Carlos Drumond de Andrade: “lutar com palavras / é luta mais vã / entanto lutamos / mal rompe a manhã “.

Para melhor sabermos do significado das palavras da nossa língua, pincei alguns exemplos de três livros: De Onde Vêm as Palavras – Frases e Curiosidades da Língua Portuguesa, de Deonísio da Silva, Editora Mandarim; A Origem Curiosa das Palavras,de Márcio Bueno, Editora José Olympio , e finalmente A Casa da Mãe Joana – Curiosidades nas origens das palavras, frases e marcas, de Reinaldo Pimenta, Editora Campus.

Do livro De Onde Vêm as Palavras:

Assassino: do árabe ashohashin, bebedores de haxixe. Durante as cruzadas, integrantes de uma seita, embriagados dessa droga, matavam a quem seu chefe lhes indicasse. Por isso, passou a significar homicida.

Conchavo: do latim conclave, designando qualquer das dependências da casa que se fecham com uma só chave, como o quarto, a alcova, a sala. Passou a denominar acordos porque estes são feitos em recintos fechados, ainda que depois sejam discutidos também em lugares públicos, como acontece com as combinações políticas.

Faísca: do alemão antigo falaviska, em cruzamento com o latim favilla, ambos significando fogo pequeno. Por isso, alguns pesquisadores viram neste vocábulo a origem de favela: vistas de longe, as luzes dos barracos eram foguinhos. Entretanto, há controvérsias, pois o amontoado das toscas construções poderia ter esse nome devido à forma de favo, lembrando uma abelheira.

Ficção: Do latim fictione, declinação de fictio, de fingire, fingir, modelar, inventar. A ficção literária, em prosa ou poesia, é um faz-de-conta com a realidade, um fingimento que cria paradoxalmente, uma outra realidade, tal como aparecem nos famosos versos de Fernando Pessoa: “O poeta é um fingidor / finge tão completamente / que chega a fingir que é dor / a dor que deveras sente”.

Do livro A Origem Curiosa das Palavras:

Banguela: Desdentado, indivíduo cuja arcada dentária é falha na frente. A origem do nome é a cidade de Benguela, situada na baía de Santo Antonio, em Angola. A população negra dessa região tinha o costume de limar os dentes incisivos das crianças O estrago era grande, pois os incisivos são os oito dentes da frente, que ficam entre os caninos. O termo é usado também na expressão “na banguela”, com o significado de “com a marcha do veículo desengatada, ou desengrenada”. O mesmo que “em ponto morto”. A origem seria o fato de engatar, ou engrenar uma marcha, é o mesmo que “endentar”. Significa fazer com que as engrenagens da marcha se engatem com as do eixo do motor, ou que os dentes se encaixem, para que haja a tração. Quando está em ponto morto, geralmente em descida de ladeira, o carro se movimenta sem ajuda dos dentes, ou sem os dentes, o que teria gerado a expressão “na banguela”.

Baitola: Termo de uso mais freqüente no Nordeste do Brasil, denominando, com conotação pejorativa, homossexual masculino. A palavra, que se pronuncia Baitôla, teria surgido durante a construção de ferrovias na região por uma companhia inglesa. A mão-de-obra qualificada, como os engenheiros, eram ingleses, e os operários, brasileiros. Os ingleses, entre os quais havia alguns homossexuais, em vez de dizer `bitola` (distância entre os trilhos), pronunciavam `baitola`. Por isso, os operários passaram a brincar entre si com essa palavra arrevesada, chamando de `baitola` quem fazia algum gesto afetado.

Dizimar: Atualmente o termo é usado principalmente no sentido de exterminar ou destruir parte de um grupo ou população. O vocábulo tem relação com “dízima” ou “dízimo” que designa o imposto ou contribuição correspondente à décima parte do rendimento. A origem foi o costume de se punir uma tropa militar por indisciplina, sublevação ou outro crime militar, fazendo destacar um soldado em cada grupo de dez e executá-lo à frente de todos. Tratava-se, portanto, da execução da décima parte da tropa. Com o tempo, o termo passou a incorporar vários outros significados, como exterminar, aniquilar de uma maneira geral em relação a pessoas, animais, plantações etc.

Vinheta: Em rádio e televisão, vinheta é uma peça curta utilizada para abrir e fechar programas, ou blocos, e também para identificar a emissora, o programa ou o patrocinador. A origem é o francês vignette, que significa “pequena vinha” ou “pequena plantação de uvas”. Mas qual a relação de uma coisa com outra? Originalmente, era chamado de vignete, em francês, o desenho em forma de folhas e cachos de videiras que ornamentavam louças ou peças de mobiliário. Depois, passou a denominar ornamento do início e do alto da página de um livro ou capítulo – na imprensa escrita passou a designar letra ornamentada ou pequena ilustração para marcar, como um símbolo, diversas matérias que tratam do mesmo assunto. Daí, o termo foi adotado por outro veículo como rádio e a televisão, para designar peça que tem alguma relação com o símbolo utilizado pela imprensa escrita, mas que está a uma distância infinita do significado primitivo, de “pequena vinha”

Do Livro A Casa da Mãe Joana:

Bocó: A palavra francesa boucaut (um saco feito de pele de bode para transporte de líquidos) veio de bouc (bode) e deu no espanhol bocoy. Daí chegou ao brasileiro bocó para designar um saco feito de couro de tatu. Como o bocó não tem tampa, ficando sempre aberto, a palavra passou a se aplicar à pessoa palerma, tola, que vive de boca aberta, em pasmo permanente.

Camarada: Do francês camarade, que veio do espanhol camarada. Era como se tratavam os soldados espanhóis porque comiam e dormiam juntos na mesma câmara, no mesmo quarto.

Óculos: O latim oculu, olho, originou em português olho e óculo. Óculo é sinônimo de luneta ou qualquer instrumento com lentes para auxiliar ou aumentar a visão. Daí binóculo – formado de bi (dois) + óculo – duas lunetas. Óculos (no plural) é o resultado de duas lentes paralelas para auxiliar a visão. São dois óculos. Por isso deve-se dizer, no plural, “Onde estão meus óculos?”, e não “Onde está meu óculos?”, que é tão errado quanto “Onde está minha calças?”.

Saravá: É a interjeição umbandista equivalente a salve! Saravá era como os escravos africanos pronunciavam a palavra salvar, com influência da fonética do banto, sua língua nativa.

Trivial: Do latim triviale, comum, vulgar, derivado de trivium (tri + via), cruzamento de três caminhos, praça pública, um lugar em que as pessoas se encontravam para bater papo, fofocar, enfim para tratar de trivialidades.

burra eu te amo – poema de jorge barbosa filho

deves sonhar jegues
saltando cerquinhas prá lá pra cá
pelo curral da imaginação,
para que farfalhes tantos
charmes de odor capim.
deves dar com os pensamentos n’água…
ainda que penteies as idéias
conforme a ocasião:
burra te amo!
meu coração é um vasto pasto,
confesso que teu férreo passo
é minha sorte, meu talismã.
ainda mais que acertei no bicho
e na intenção,
nem vou contar-te,
vou contemplar-te com cangalhas,
luas-de-feno e buquês-de-alfafa
na melhor estrebaria da região.
vem cavalgar, no meu vasto…
vasto mundo…
deleitar esporas e chicotes sensuais
zuzurrando e empacando,
amor…

“SANDYNIGHT” poema de sérgio bitencourt

Champagne com cerejas e calma,
São um complemento
Para o alimento
Do corpo e da alma.

Além de que aos pouquinhos,
Você vai fazer biquinhos,
Que acolho com brilho nos olhos,
Pelo frescor que cura,
De tanto charme e doçura.

Ainda mais se toda esta beleza,
Se fizer acompanhada
Do Amor da Mulher Amada,
E da Música Francesa.

À SOMBRA DOS MURAIS EM FLOR poema de bárbara lia


(para Frida Kahlo)
 

(Cravos na pele
os seios
a coluna jônica
a pele tolteca
os pregos
os pregos
via-crucis
expiação)
Pinto em palavras
A tua dor.

Sonho teus sonhos.
Vivo os
 maremotos sutis.
As espinhosas horas
Que nos traz o amor.
Pinto girassóis de aço.
Espumas.
Estrelas.
Vou colorindo
Com vulcânicos
Abraços
A solene tela
(Riso-sol de meu Diego,
À sombra
Dos murais em flor)

A BURRA por carlos alberto pessoa (nêgo)

A constituição de 88 é moinstruosa no tamanho, na redação, na pretensão e na burrice. Feita nas coxas e pouco antes da queda da fraude socialista, ela acolheu todo o besteirol anti-64, pré-64, mais o besteirol gestado nas más cabeças sociais-democratas.

Um horror. Que teve como líder a “besta do Ulisses”, terceiro time à época anterior a 64. E que só veio à boca da cena por gravidade. Ulisses assessorado pelos bobocas esquerdistas tipo FHC, Covas e outros. Deu nesse cocô que aí está. Certo?

GREVE

Entre outras asneiras está o direito de greve amplo, geral e irrestrito. Inclusive pro funcionalismo público. É de uma estupidez sem tamanho essa permissão. Pela simples e boa razão seguinte: na greve da vida real quem se ferra é a empresa; na greve do serviço público quem se ferra é o distinto público, sacou? É por isso que não pode haver greve no serviço público, sacou? Porque não é greve, é chantagem! Os grevistas miram suas armas pras nossas cabeças. E o governo, claro, baixa as calças. Ok, empresa estatal é diferente. Desde que não esteja na linha de frente de uma atividade essencial ao País. Entre outras razões, essa é mais uma contra a concessão de monopólios à empresas públicas. O país pode virar refém de meia dúzia de chantagistas.

IDADE MÉDIA RENASCE por walmor marcellino

A seita dos templários renasce; agora, capeando Karl Marx, como farsa, ou, como Groucho Marx, uma comédia para quem à seriedade prefere o vaudeville. Não bastasse a depressão em que está mergulhada a esquerda desconexa ‑ que se agarra à burocracia oficial e, no mercado paralelo, à escrivania de uma “revolução ao tempo” ‑está na moda endiabrar Bush, Gordon, Merkel, Sarcozy e toyotistas asiáticos, juntando-se-lhes Uribe e Fernando-Henrique e aproveitar o hiato político nacional não para exigir a República e a democracia social mas para formar uma seita de idiotas que se identificam e comprazem na defesa do protelário Luiz Inácio Lula da Silva e suas políticas do capitalismo social. Quem os contestar passará ao índex do momento histórico ou empoado livro negro no “hagiológio da história”.Quanto mais exaltado pela bruxuleante luz socialista de Brasília e alteado na missão de salvar seu “Santo Sepulcro” da revolução política, social e cultural brasileira ‑ onde a revolução econômica (até a reforma real) foi inumada pelo reino das multinacionais e agronegócios “nacionais”, e onde pastejam os felizes mutuários do crédito e bolsistas avulsos, em seu esplendente brejo das almas ‑ os novos templários dividem os créditos de sua militância à esquerda, isto é, pelos lados das massas que fazem o IBOPE de São Sebastião, aquele que pereceu no combate aos hereges ocupantes das terras transmontanas.A nova ordem dos templários, formada pelo p(i)etismo de São João à base do Apocalipse, dirige sua fúria pentecostal e homicida para aqueles que sabem a que servem realmente essas cruzadas: Por trás do milenarismo exaltado da fé o pedágio do poder estratégico (prático e ideológico, claro!) e o tráfico de especiarias e mensalidades. Virou grife e paixão apostólica endiabrar os adversários e até os alheios à ordem desse satanismo; basta a dúvida que dirá a suspeita, quanto mais a certeza de que o bom povo está sendo enganado. À atoarda da horda se fundem os gritos dos templários: o Santo Sepulcro estará salvo da revolução dos hereges; até que se convertam todos ao rebanho do Senhor das Moscas. A miséria da política é a desesperança nacional (dos trabalhadores, bem entendido). 

IMIGRAÇÃO E TORTURA em PORTUGAL por luis carlos lopes

DEBATE ABERTO

O caso da jovem brasileira presa e torturada em Portugal é um dos fatos mais pavorosos da onda emigratória recente. Ana Virgínia é só uma entre muitos que buscam resolver seus problemas, buscando trabalho fora do Brasil. Não há registro de que tenha cometido qualquer crime e, mesmo que assim fosse, nada justificaria o tratamento que recebeu e vem recebendo.

Ana ainda está presa, já tentou o suicídio e sua situação ainda não foi resolvida. Este caso está fartamente documentado na Internet (*).
É bom lembrar, que o Brasil recebeu os portugueses por décadas. Eles imigraram para cá, ao longo do século XX e da crise social provocada pelo fascismo salazarista e suas guerras coloniais. Jamais um português foi expulso do Brasil por ser português, rico ou pobre. Encontraram por aqui uma nova pátria, sempre bem tratados, respeitados e amados como `patrícios´. A grande maioria veio para cá pobre e, não poucos, melhoraram de vida.
Alguns enriqueceram a custa do trabalho dos brasileiros, outros galgaram posições de classe média. Todos puderam viver por aqui e considerar a ex-colônia Brasil como um eldorado.É verdade que muitos deles sempre imaginaram os brasileiros como indolentes, `pretos´ e imprestáveis. Isto não os impediu de se misturarem, constituindo novas famílias inter-raciais com bastante ou algum sucesso vivencial.
O racismo e o conservadorismo político e social dos portugueses jamais lhes deram dores de cabeça. Os brasileiros, com a imensa tolerância que lhes caracterizam, passaram por cima e deixaram para lá. Por vezes, os xingavam de `galegos´, sabendo que isto era uma ofensa aos brios lusitanos. Reclamavam dos seus modos agressivos, principalmente com as mulheres, e de seus hábitos de asseio pessoal incompatíveis com os trópicos. Quase sempre, tudo isto não passava de galhofa. Raramente, superava o nível da agressão verbal, quase sempre em resposta e defesa.
Os brasileiros jamais boicotaram o comércio e outros negócios dos portugueses. Aceitaram candidamente que eles dominassem por muito tempo, em algumas cidades do país, principalmente nos setores alimentícios e imobiliários. Seus descendentes estão por aí. Continuam sendo comerciantes, rentistas, dentre outras atividades do velho capitalismo. Não foram molestados por décadas. Continuam vivendo por aqui, com seus descendentes, sem nenhum problema. Hoje, não mais atravessam o Atlântico para ficar.
Depois da Revolução dos Cravos (1974), Portugal percorreu a senda tortuosa que o transformou em um país `europeu´.
No Brasil, adora-se o progresso português. Muitos de nós vibraram com o 25 de abril. Ai!, como se quis, guiados por Chico Buarque, que o Brasil viesse a ser `um imenso Portugal´. Talvez, o poeta sensível, vendo o caso da Ana, que não é das loucas, reescrevesse o seu `fado tropical´. É uma pena que não se tenha, hoje, grandes mobilizações, que se viva em um momento de apatia e profundo individualismo.
Este caso é um exemplo dos desrespeitos aos direitos humanos que os brasileiros emigrados vêm sofrendo pelo mundo afora.
Cadê o Tribunal de Haia? Onde está a ONU? Quando vão parar estas novas formas de genocídio? Por que não se exige do governo português a imediata libertação, reparação econômica e repatriação de nossa compatriota?
Será que Salazar renasceu do monte de excrementos de sua história?
A PIDE foi refundada?
Quando os culpados serão de fato julgados?

USINA MOVIDA A ENERGIA SOLAR NA ESPANHA por editoria

Um projeto gigante, que gera tanto eletricidade quanto resultados positivos para o meio ambiente, foi inaugurado no sul da Espanha: a primeira usina do mundo movida inteiramente pela energia do Sol.
No meio do terreno árido da região, a usina se destaca pela magnitude e imponência. Do chão brotam os raios que convergem no topo da torre de 160 metros, mais alta que um prédio de 50 andares. É radiação solar em estado puro, concentrada em um único ponto.

Calor natural que aquece a água que corre para dentro da torre até virar vapor a 400ºC, para mover as turbinas que produzem energia elétrica sem poluir o meio ambiente.
Novecentos espelhos gigantes se movem lentamente como girassóis. Nem dá para perceber a mudança de posição, mas eles estão sempre alinhados com o Sol para refletir o máximo de luz, direto para a torre de captação. É a maior usina solar com produção de energia em escala comercial do mundo.
Daqui sai eletricidade para abastecer 180 mil casas, uma cidade do tamanho de Sevilha, que fica a 30km.A construção ocupa uma área do tamanho de 60 campos de futebol. E custou o equivalente a meio bilhão de reais. Cada centavo saiu da iniciativa privada, um consórcio de empresas espanholas que planeja recuperar o investimento em apenas dois anos.
“Trocamos o gás, o carvão e o petróleo pelo Sol, que brilha 240 dias por ano na região sul da Espanha. E é de graça”, diz o engenheiro responsável pela produção de energia.A segunda usina, ainda maior, já está em construção.
Outras sete completarão o projeto da plataforma solar de Sevilha até 2014. O plano é fornecer eletricidade para todo o sul da Espanha. E o melhor de tudo: evitar que sejam despejadas 600 mil toneladas de dióxido de carbono por ano na atmosfera.
“É um tecnologia que pode servir a sociedade, em qualquer parte do planeta”, diz o engenheiro. “Inclusive no nordeste do Brasil, onde o que não falta é Sol”.
Trata-se da fonte de energia mais antiga do mundo, mas ainda considerada por muita gente um negócio do futuro. Não na Espanha, onde já é, claramente, um sucesso.
fonte: ambiente brasil

SÉTIMO DIA SEM BIA por jb vidal

hoje faz sete dias que BIA DE LUNA entregou as moedas para o barqueiro e navega, com mar de almirante, em direção aquele lugar que todos sonhamos, de volta às origens.

nestes dias fui envolvido por um sentimento de perda e de saudades que jamais imaginei fosse senti-los em tal intensidade.

o blog, deixei à disposição da BIA, e parece-me, que soube usa-lo: 238 e-mails, até o momento, de amigos, poetas, conhecidos, desconhecidos, foram encaminhados para o site a partir da comunicação da sua viagem.

BIA amada, no silêncio, agora revelado.

bem que a BIA poderia ter sabido que tantas pessoas a amavam, ainda viva, pensei. mas, as gentes são assim, amam em silêncio, sentem vergonha (?) de dizer, a não ser bem baixinho, no ouvido e de preferência a sós, no quarto escuro.

passa a idéia de que o amor é perigoso, comprometedor, ofensivo para quem sente.

porque? só os ofendidos podem responder.

BIA não, sabia revelar a quem amava, o seu profundo amor, o seu carinho, para seus companheiros ou para seus amigos e amigas a qualquer hora ou momento, revelava quando sentia. lindo. não tinha medo nem vergonha de amar. por isso sentia com muita força. por isso seus poemas exprimem o que exprimem. por isso as cautelas para com BIA. medrosos, infantis. BIA jamais ofereceu risco a quem quer que fosse. com a palavra os seus companheiros.

mas, sua estampa se impunha, sua presença tornava insignificante o ambiente. BIA  forte. BIA meiga. BIA  doce. BIA  amarga.

BIAAAAAAAA, sua presença era um grito no infinito.

ah BIA como me arrependo de não ter dito, todos os dias, a você, que te amava (e amo), com o melhor do meu amor, aquele simples, do respeito, do amigo. medroso talvez.

hoje, infeliz, por não ter dito.

pois sofra, sofra jb, quem sabe poderás depurar-te e, assim, conhecer o amor em sua plenitude.

obrigado BIA pela lição. 

beijo e até, 

jb vidal

BÁRBARA LIA ESCREVE PARA BIA DE LUNA

Beatriz Hyuda de Luna Pedrosa – Bia de Luna, foi enterrada ontem. Bia lançou o livro Clivagens e a conhecia mais através dos outros poetas, nunca convivi com Bia. Quando os poetas se reuniam no Bife Sujo em uma época efervescente, que gerou uma coletânea de poesias com este título – Bife Sujo – com as poesias de todos que ali conviviam, eu estava apenas colocando os pés na margem do Lago da Poesia. Mas, sempre vi a Saldanha Marinho como um rio de carvão escuro onde a vida incendiava aqui e acolá em chispas que floresciam ao sopro da beleza, como florescem as brasas na lareira ao vento, como floresce o chão carvão. Ando pensando carvão, este que de tão escuro é azul. Lembro que era a cor dos cabelos de Bia. E ela incendiou brasas azuis na cidade morta. Na Saldanha Marinho, no Sal Grosso, estes lugares onde transitam os artistas, pessoas que vivem livre sem correntes. E a poesia que flanava nas mesas do Bife Sujo e, mais recentemente, no Palco do Kapelle transborda para calçadas tortas, de um tijolo escuro, um rio. Um rio chamado Tempo, uma casa chamada Terra. Ontem vi Mia Couto no Roda-Viva e pensei na poesia como esta coisa abensonhada. Quem viveu abensonhadamente, nem morre. Vi Bia de Luna uma vez, uma única vez, no Hermes Bar, nem faz muito tempo. Hoje li que ontem ela foi enterrada, que faleceu na madrugada do dia 13. Guardo um retrato dela, tecido por outros. Tem um texto do Raymundo Rolim que a evoca, e está no site Palavras, todas palavras… Bia foi uma das personagens da peça de Raymundo Rolim – Ópera da Cidade. A finitude é matéria pouca, a matéria é pouca, a alma sempre fica gravada, vai reascender vez por outra, um braseiro santo, vai brilhar nos corações de quem ela tocou quando soprar o vento da saudade.Todas palavras para Bia de Luna.

RENATO ENVIA FOTO PARA BIA DE LUNA

renato, irmão de BIA de LUNA, enviou esta foto como mais uma homenagem. se dizendo não ser poeta mas amante da fotografia, tenta exprimir desta forma, o sentimento que lhe toma conta. 

 

PARA VOCÊ AMIGO DA BIA DE LUNA o editor

como agradecimento do PALAVRAS, TODAS PALAVRAS às centenas de mensagens, que continuam chegando, de consternação pelo desaparecimento da nossa poeta e amiga BIA DE LUNA, o blog oferece o poema a seguir de VITOR HUGO: 

Desejo primeiro que você ame,
E que amando, também seja amado.
E que se não for, seja breve em esquecer.
E que esquecendo, não guarde mágoa.
Desejo, pois, que não seja assim,
Mas se for, saiba ser sem desesperar.
Desejo também que tenha amigos,
Que mesmo maus e inconseqüentes,
Sejam corajosos e fiéis,
E que pelo menos num deles
Você possa confiar sem duvidar.
E porque a vida é assim,
Desejo ainda que você tenha inimigos.
Nem muitos, nem poucos,
Mas na medida exata para que, algumas vezes,
Você se interpele a respeito
De suas próprias certezas.
E que entre eles, haja pelo menos um que seja justo,
Para que você não se sinta demasiado seguro.
Desejo depois que você seja útil,
Mas não insubstituível.
E que nos maus momentos,
Quando não restar mais nada,
Essa utilidade seja suficiente para manter você de pé.
Desejo ainda que você seja tolerante,
Não com os que erram pouco, porque isso é fácil,
Mas com os que erram muito e irremediavelmente,
E que fazendo bom uso dessa tolerância,
Você sirva de exemplo aos outros.
Desejo que você, sendo jovem,
Não amadureça depressa demais,
E que sendo maduro, não insista em rejuvenescer
E que sendo velho, não se dedique ao desespero.
Porque cada idade tem o seu prazer e a sua dor e
É preciso deixar que eles escorram por entre nós.
Desejo por sinal que você seja triste,
Não o ano todo, mas apenas um dia.
Mas que nesse dia descubra
Que o riso diário é bom,
O riso habitual é insosso e o riso constante é insano.
Desejo que você descubra ,
Com o máximo de urgência,
Acima e a respeito de tudo, que existem oprimidos,
Injustiçados e infelizes, e que estão à sua volta.
Desejo ainda que você afague um gato,
Alimente um cuco e ouça o joão-de-barro
Erguer triunfante o seu canto matinal
Porque, assim, você se sentirá bem por nada.
Desejo também que você plante uma semente,
Por mais minúscula que seja,
E acompanhe o seu crescimento,
Para que você saiba de quantas
Muitas vidas é feita uma árvore.
Desejo, outrossim, que você tenha dinheiro,
Porque é preciso ser prático.
E que pelo menos uma vez por ano
Coloque um pouco dele
Na sua frente e diga `Isso é meu`,
Só para que fique bem claro quem é o dono de quem.
Desejo também que nenhum de seus afetos morra,
Por ele e por você,
Mas que se morrer, você possa chorar
Sem se lamentar e sofrer sem se culpar.
Desejo por fim que você sendo homem,
Tenha uma boa mulher,
E que sendo mulher,
Tenha um bom homem
E que se amem hoje, amanhã e nos dias seguintes,
E quando estiverem exaustos e sorridentes,
Ainda haja amor para recomeçar.
E se tudo isso acontecer,
Não tenho mais nada a te desejar.

BIA DE LUNA E SEU “CLIVAGENS” POESIA QUE VENCE A MORTE por jairo pereira

…quando Clivagens saiu do forno, fiz (acho que a primeira resenha) sobre o livro. Sempre aceito, uma poética que se faz densa, e quando o poeta é alguém de quem você conhece o existencial (como no caso de Bia) desregrado. “Meus olhos são bordados/Por miçangas vidrilhos paetês/CRISTAIS./Não ouse um mau/Olhado.” A poeta amalgamou todas as emoções do ser que está condenado a ser livre e perde-se na noite da urbe. Amou, sonhou, descreu, litigou, contorceu-se como as linguagens, na forja do poema-vida. A vida não é limpa e cristalina. Por trás do olhar calado, contemplativo do poeta, se represam signos sujos, causticantes. A Bia de Luna, detinha esse represar de águas paradas, thurvas, pontuado por uma ametista ou outra. Nos porões da lira, des-enthusiasmada, a objetalidade, impregnada de Bia, sujeito que se atira de cabeça nos precipícios da des-razão, para haurir poesia da melhor qualidade. “E uma ametista se acrescenta/Incrustada entre meu olhar./Colorido/Calado/Horizontal”. A Bia de Luna, era a imagem (física) de sua própria poesia. Um artesanato de linguagens. Versos curtos, certeiros. Extremamente simbólica, mezzobarroca até na pegada, que servia apenas para dar uma aura sombria ao poema. Do seu perambular pela noite de Curitiba, em lunáticas aparições, a poeta angariou admiradores. Claro que o conteúdo denso de sua poesia, refletiu longe. Personalíssima no dizer, Bia de Luna, nunca relegou sua vida, pra fora do poema. Estava ali, irmanada com a palavra (vida) em toda vida que vivera intensamente. “Vai meu derradeiro sonho/De vida. Basta – agora aos/Ímpios um lugar frio e/Distante, onde tais almas/Algumas por vezes causticantes,/Que nos gelam o sangue tão/Quente e próspero.” Tudo era é causticante em Bia de Luna, os signos, a vida, as amizades, os amores, as urgências que nunca levavam a lugar seguro. Muitos comprimidos, muitas cápsulas e doses de uísque nessas noites frias e pressagiosas de Curitiba. Na noite as mesmas caras, os mesmos conflitos, as mesmas buscas e o assombro da poesia, ente brusco de vida-morte, perpassando as mesas. A poesia-mulher, femilúnica de Bia de Luna rompe qualquer convenção de linguagem e significação. É lânguida, sutil, laminar, como já disse anteriormente no texto crítico que escrevi sobre Clivagens. “Apague essa vela/Que você acendeu/Na minha sala de jantar/Me deixe no escuro/A ver estrelas/Ou um céu cinzento/Espocado de flores roxas”. O signo furioso, o signo-simples-palavra, arremete fazendo a mais bela poesia. Com a poeta, as coisas aconteciam assim, fortes, carregadas de roxos e cáusticos, reflexo de uma vida plena no poético. Certamente, a Bia de Luna deixou poemas, ou livros inéditos, e esses vão uma hora aparecer pra desafio dos críticos. Pelo visto, essa tarefa ficou para os próprios poetas, eis que os críticos de poesia, são espécie em extinção no país. Guardei a chave da porta./Antes, tranquei. Choveu limão/E orquídeas escorriam pelos/Meus seios febris. Lavei as/Mãos com sal./Não sou estátua./Sou sal. Bia de Luna e seu Clivagens, poesia que transcende a vida e a morte, e marca na sua lira eterna o roxo, o cáustico e o urgente.

BIA DE LUNA: A POETA DA LUA por rosana albuquerque

 

Com o falecimento da amiga e poeta BIA DE LUNA perdi uma referência na noite da cidade, pois sentirei uma imensa falta da sua presença exótica, feminina, insone, elegante e solitária. BIA era uma pessoa de bom caráter, muito intensa e verdadeira tanto na vida como em seus poemas. Gargalhava quando queria e se fechava como caramujo quando bem entendesse, sempre na sua.
A poesia da artista, é permeada de profundo lirismo, feitiço e doçura, assim como BIA. Seus poemas são viscerais, corrosivos, transbordam desassossego, abandono e perturbação; esfaqueando o olhar do leitor com toda a dor e o desespero que houver nesta vida. Seus livros Morfeu Gargalha e Clivagens são feitos de amor com desamor,  sangue  e lágrimas, carregados de escuridão e cheiram a inverno. Sendo BIA DE LUNA, a primeira poeta genuinamente PUNK curitibana. Muitas Saudades!

Em um poema dedicado a Bruno Vasconcelos, intitulado Palavras Cruzadas, incluso no livro Clivagens, BIA diz assim:

 

Palavras urgentes
Transbordando a urgência
De um mergulho
Da lucidez o transporte.
– Palavras que açoitaram até a
exaustão do momento.
despertando as extremidades e
aquecendo as eternidades
translúcidas.

Outra poesia,extraída do livro Clivagens:

É poesia russa a noite paulistana. Da garoa
faço flocos de vodka que me embebedam cada
poro. E assim justifico a covardia da minha
insônia.
Na avenida carótida desfilam palhaços monges
bruxas num samba enfeitiçado pela prece da
palhaçada cardíaca.
O sol espera ávido a hora de desnudar a
floresta e cerrar de vez os olhos em fresta.
Morfeu gargalha.

São Paulo -1.9.79

 

 

Obrigada pelo apoio à poeta BIA DE LUNA.
Abraços,

Rosana Cavalcanti de Albuquerque
Bibliotecária e
Feira do Poeta / Fundação Cultural de Curitiba

IRMÃO HOMENAGEIA BIA DE LUNA.

 

Caro Vidal,

fico feliz em saber que a Bia tinha amigos como você. Eu, o irmão de longe (moro fora de Ctba há mais de 30 anos), não vinha tendo muito contato direto com ela. Sou o Renato que aparece em algumas dedicatórias nos poemas de Clivagens.

Dei a ela, de Natal, a coletânea do Borges de poesias, ed bilíngue recém-publicada. Pelo que minha sobrinha que entregou o livro me disse, ela ficou muito feliz com o presente, o que me alegra, pelo menos nos últimos dias eu estive, de alguma forma, perto dela.

Eu tenho muitos negativos com fotos dela, desde 1974, quando comecei a fotografar mais seriamente (depois parei, recentemente voltei a fazê-lo). Vou ver se acho e depois passo para você, se houver interesse. Estou sem laboratório em casa agora, mas acho que você conseguiria alguém para fazer as fotos, não?

Meu e-mail está aí para contato.

Um abraço, Renato.

POETAS SE REUNEM PARA HOMENAGEAR BIA DE LUNA.

 
 BIA no habeas coppus em 31 de outubro de 1990 no lançamento da coletânea. foto de rosana albuquerque.
pois é, BIA faleceu no domingo (13/01/08) a tarde, segundo informações, e o sepultamento foi marcado para segunda feira as 11:00, como nenhum de seus amigos foi avisado, ninguém sabia, óbvio. eu fui avisado pela gazeta do povo as 9:50, por mera casualidade, pois não é meu costume ler o obituário, ali encontrei o nome dela. confirmei com o ewaldo, que estava em londrina, o nome completo e me dirigi para a capela 04 da luz. levei alguns minutos para me recuperar do choque emocional e passei a avisar, com alguma dificuldade, o máximo de amigos. mas, a esta altura já eram 10:40. a proximidade do sepultamento e o elemento surpresa dificultou o deslocamento do pessoal, poucos, que consegui avisar. estiveram presentes: elaine, que se encontrava próxima, mauro, que também estava nas redondezas e eu, graças à gazeta do povo. a poeta marize manoel, que chegou para o velório de uma outra amiga, tomou conhecimento, por meu intermédio e, também, foi despedir-se da amiga BIA. só. não por culpa de seus inúmeros amigos, mas pelo prazo curto para que a notícia se espalhasse até o sepultamento. diante deste fato, com muita tristeza e consternação, alguns amigos se reuniram no final da tarde e decidiram que irão convidar os demais amigos de BIA para homenageá-la em diversos lugares da cidade a serem definidos. estavam presentes, luis felipe leprevost, luis alceu (lulo), kambé, miranda, denise, alexandre frança, lurdes, marilda confortin e eu. ficou agendado para o dia 24/01 a primeira manifestação no hermes bar, a partir daí, serão programadas as demais. todos lá! nunca me imaginei escrevendo sobre tal fato.
jb vidal

POETAS FAZEM HONRAS À BIA DE LUNA

 

 

 O FIGURANTE SORRIDENTE

de altair de oliveira
 

Diante de Dante, Bia só me ria
Quando me via rir-lhe radiante
No mesmo instante, eu ressorindo lia
O riso lindo que Bia fazia…
De tão bonito inibia o Dante!
 
Eu no meu canto, Dante no seu canto
Cantava Bia que me via e ria
O riso dela, que era bela, ardia
Todos eternos céus de meus espantos
Pondo distantes os infernos de Dante.
 
E eu comedia o riso desmedido
Retribuído à Bia sorridente
Que prometendo o fogo dos amantes
Deixava Dante a cantar no seu canto
Enquanto eu, dissimulante,  ria
Desinibindo rios que me ardiam
Pra nos lançar num mar de fogo eterno
e por ao léu o belo céu de Dante.

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POR QUE MENTIAS? poema de álvares de azevedo

 

Por que mentias leviana e bela?
Se minha face pálida sentias
Queimada pela febre, e minha vida
Tu vias desmaiar, por que mentias?
Acordei da ilusão, a sós morrendo
Sinto na mocidade as agonias.
Por tua causa desespero e morro…
Leviana sem dó, por que mentias?
Sabe Deus se te amei! Sabem as noites
Essa dor que alentei, que tu nutrias!
Sabe esse pobre coração que treme
Que a esperança perdeu por que mentias!
Vê minha palidez- a febre lenta
Esse fogo das pálpebras sombrias…
Pousa a mão no meu peito!
Eu morro! Eu morro!
Leviana sem dó! por que mentias?

 

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SOLIDÃO poema de jb vidal
                   
                                                                                                                                                                              
                                  

andava por andar
não havia nada a dizer

as palavras agarravam-se aos meus cadarços
como se fosse o último a dar-lhes vida

os pensamentos voaram para longe,
atormentar outras mentes

a alma,
bem, a alma sofria  o compromisso com o corpo

o corpo,
ora o corpo,

retive um sorriso,
…e tudo era só

 

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O INCONFORMADO  de léo meimes

 

Que sou dentro desta
Prisão, se não o nu infame da
Carne sempre a definhar?

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SOLILÓQUIO DO CASTIGO poema de alexandre frança
 
A gelosia aprisiona os olhos
E a súplica da sacristia,
Prostrada ao pé do desavergonhado
Recebe um tchau sarcástico da morte.
 
Na lembrança moços de estampas florais
Escolhem quem deflorar
No peito o metrô vazio
Nas mamas bocas sujas a sugar seu leite
A noite, como sempre, reluta a cair hipnotizada
Pensa demais. Raciocina demais…
…até o cigarro pegar carona com a varejeira.
 
Na mesa a cruz,
A navalha,
O cinza-avermelhado que geralmente envolve este tipo de cena…
 
…e o preto dos olhos que novamente escolhe a vingança como remédio para dormir.

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CORPUS poema de joão batista do lago
 
 
A argila
Carne que perambula
Vermes – e alma –
Só tornará calma
Se argila tornar Ser
 
O barro não morre o corpo
Sedento de espírito vira anti-corpo!
 
E quando a morte se dera
Na alma do corpo que se fizera
Verás desta vida apenas quimera
 
Santificada seja a morte que me retorna à vida da terra!
 
Somente lá estarei concluído
Somente lá jamais serei vencido
Somente lá terei a paz sem guerra

POEMA de nelson padrella

   

Com a alegria que outrora possuia
    construí meu planeta. Pedra a pedra
    edifiquei o lar e os caminhos
    que levam ao lar.
    Respeitei as estradas das formigas
    e sobre riscos de água criei pontes.
    Abri a porta da casa para amigos
    e as janelas para que entrassem pássaros
    com seus vermelhos e gritos de alegria.
    E quando olhei pra mim eu era deus
    e gozava o recém criado paraíso.
    Ah! Quanta alma bela flutuava
    na vastidão do planeta que eu criara.

 

 

 

OS LOUCOS de mário quintana

 

“Nossa loucura é a mais sensata das emoções, tudo o que fazemos deixamos como exemplo para os que sonham um dia serem assim como nós:

Loucos, mas felizes!”

 

 

 

PASSAGENS  poema de luis felipe leprevost

 

confirmei que o barulho dói no slogan dos hospitais
onde se recuperam as balas doentes dos xerifes
e senti dores musculares como os papéis
que panfleteiros do centro
batem uns contra os outros de modo a imitar o inseto
zunindo nossa atenção de madrugada

eu pude percorrer as linhas da minha própria mão nos olhos
de Mãe Oriva de Oxossi, suas cartas e búzios distraídos
sem conseguir prever aquele tiro
e adivinhando o retorno da pessoa amada em três dias
quando não haveria o terceiro dia

eu ceguei para crer na chuva, ossos das nuvens
eu deitei no veneno como deitasse na cama do xerife
mas todos os jardins findaram
plantar e colher nuvens é o que me resta

e é tão difícil descrever uma presença
mesmo com lentes visionárias

——————————————————-

 

TARDE DEMAIS poema de jorge do irajá

velo esta tarde engomada
florida com tanto alinho
que parece que o homem
é o último dentro do inútil agora.

meu olhar vestido de terno
acompanha o cortejo
e tenta crer com respeito
no suspiro final da cidade.

o sol que eternamente enterro
na carne de minhas palavras
é o nosso morto presente

e feito fóssil fogo-fátuo.
sussurra baixinho meu epitáfio:
– tarde de mim, tarde de tudo, tarde demais.

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 POEMA de carolina correa

 

Deitada no sofá
Ela, e um mero copo de vinho.
O cheiro de cigarro
Ainda impregna sua camiseta.
Desilusão é sua cegueira
Asneiras sua surdez.
Cansada,
Cambaleia até sua cama
Lá, deposita suas forças.
Para sempre.
Fecha os olhos
E vê que foi tudo um lindo sonho.

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DOS IMBECIS COMO DONOS DO MUNDO  poema de jairo pereira

   os imbecis na midiosfera investidos de sóis

deuses da mediocridade os imbecis

os imbecis supremos

carnavalizam a vida como podem

enquanto trabalhamos sofremos pensamos

os imbecis resistem dionisíacos

a melhor porção da nathureza pra nós criada

aos imbecis se consagra como totem do supercapital

imbecis: os imbecis estão vencendo

já ganham nossos espaços bebem do melhor vinho

roubam nossas mulheres festejam

os imbecis do mundo inteiro estão vencendo

palavras cobertas de cal :augúrios de má-fé:

soberba nos atos perfídia no modus q. contemplam. 

POEMA de cora coralina 

 

Não te deixes destruir…
Ajuntando novas pedras
e construindo novos poemas.
Recria tua vida, sempre, sempre.
Remove pedras e planta roseiras e faz doces. Recomeça.
Faz de tua vida mesquinha
um poema.
E viverás no coração dos jovens
e na memória das gerações que hão de vir.
Esta fonte é para uso de todos os sedentos.
Toma a tua parte.
Vem a estas páginas
e não entraves seu uso
aos que têm sede.

POEMA de batista de pilar 

 

Inédito é o poema
Que a gente nunca
Escreveu
Aquele que passa
De relâmpago pelo sonho.
No acordar some
Como a cerração
Sobre a colina.
E vai construindo
Em nada
Aos poucos tornando-se
O reflexo de um raio de sol
Sobre a água cristalina.

BIA DE LUNA morreu

A ARTE PARANAENSE ESTÁ DE LUTO.
faleceu ontem, domingo 13 de janeiro de 2008, e
foi sepultada, hoje, as 11:00 no cemitério municipal
de curitiba a GRANDE e queridíssima poeta e
amiga BEATRIZ HYUDA de LUNA PEDROSA – BIA
DE LUNA autora do livro-sucesso CLIVAGENS.
todos os palavreiros da hora já sentem sua
ausência permanente.
boa viagem BIA.
até o nosso reencontro.

  

  

De tudo restou
Uma solidão amarga
E corrosiva. Poro a Poro.
-E é quando suor e lágrimas
Se encontram numa pororoca
Larga e amiga que
A saudade bate. Choro.
poema de bia de luna no livro CLIVAGENS.

PARA SABEREM QUE FALEI DAS FLORES por jb vidal

03h15min e uma coceira irrestível me acordou. estava localizada entre a coluna e a omoplata, localização difícil para um braço curto como o meu. alcancei-a com uma régua que estava na mesinha de cabeceira. alívio. nada melhor do que acabar com a coceira no momento em que ela está no auge. voltar a dormir. 03h40min ainda aguardava o retorno do sono quando me veio a idéia – salve as flores – o quê? o pensamento indagou, reposta do pensamento – salve as flores -; mente vazia ferramenta para o capeta, pensei. tentei novamente dormir, agora, fechando os olhos. –salve as flores – uhm? –salve as flores – salve as flores – salve as flores -!!!
irritadíssimo, levantei e fui ao banheiro, não havia nada a fazer ali; abri as portas que existem na cozinha, geladeira, armários enfim todas. nada. não queria nada. – salve as flores – salve as flores – a idéia martelava impiedosamente o cérebro em detrimento do tão esperado sono. arrastei-me pela área de circulação do apartamento como se carregasse uma tonelada nos ombros. cheguei na biblioteca e aboletei-me na cadeira da escrivaninha. e veio, veio como rajada de ciclone, devastadora, ocupando todos os espaços do combalido cérebro:

“ …maravilhosas, indescritivelmente divinas, ornamentos dos olimpos, cheias de energias que te transmitem descanso, paz interior, beleza no feio, calma na dor, lágrima na alegria, fragrâncias no lodo…assim são as flores! elas existem para isso e muito mais, para acolher nosso olhar ainda que cheio de ódios e amarguras, tristezas e frustrações e nos devolvem  todo o seu encanto de cores, formatos e brilhos que se fixam nas retinas como imagens  apacentadoras de nossa alma inquieta e sofrida. ah soubessem os homens a força tranquilizadora que elas dedicam a quem sabe observa-las, admira-las, senti-las…

ah se soubessem! curativos da alma é o que são.

companheiras de caminhada, solidárias aos penosos, alegria dos infantes, brincadeira dos namorados, símbolo dos amantes, carregam em si a nossa esperança que desconhecemos.

divinas.

vieram das estrelas para enfeitar nossa rude vida. para sorrirem de nosso orgulho e vaidades, e, ao nosso olhar, devolverem certeza de passos mais firmes e decididos.

ah estas flores, as flores do meu planeta, quantas transformações ao longo dos milênios para permanecerem ao nosso lado, ao alcance do nosso olhar, gerando imagens que nos levam para mais próximos do ser”. 

mas não ! isto não é verdade. isto é fantasia de poetas inúteis! 

que fez o homem? arrancou-as das florestas, dos matagais, dos caminhos que percorriam e as  aprisionaram em fazendas de cultivo, produção em série, com código de barras, fora do seu habitat natural  perderam o brilho, o perfume. quanto sofrimento para elas!

e para quê?

para vendê-las em mercados fedorentos, lojas de acrílico a milhares de idiotas que “faça o buquê mais lindo possível” porque ele vai terminar de matá-las num vazo de cristal na sala da residência de uma mulher que dentro em pouco as colocará no lixo!

flores para minha amada! nem sequer pensou em admirá-las antes do corte fatal da tesoura.

então… o amor leva à morte a beleza das flores? que triste constatação. 

mais, você as vê agonizando nos salões de festas, todos se divertem com os arranjos florais ao som das valsas e não percebem o sofrimento de quem lhes oferece beleza mesmo nos últimos momentos de vida.

muito triste seus destinos traçados pelo homem civilizado.

mais, não satisfeitos em  extingui-las nas festas, mandam mata-las para enfeitar, por poucas horas o túmulo de ente sepulto, querem demonstrar sua admiração pelo cadáver com os cadáveres florais.

oferecem a morte para a morte. incrível. 

recolho-me tomado de grande tristeza pela sina destruidora do homem.

a barbárie é agora.

CARTA À HUMANIDADE QUE VIRÁ por deborah O’lins de barros

Meu nome é Deborah. Embora de família cristã, eu e minhas irmãs (Rachel e Sarah) fomos batizadas com nomes judaicos, por opção de nossos pais. Antes de começar o relato propriamente dito, gostaria de deixar uma colocação às gerações vindouras (outros relatos de meus contemporâneos podem confirmar): viver na época em que vivo é muito chato. A a-prece-esperanca.jpgminha história é a micro-história da minha geração; minhas raízes nasceram, foram arrancadas, replantadas, arrancadas novamente e assim por diante.

Eu realmente espero que alguém leia isso em algum futuro, por que não me deparei, até agora, com nenhuma admoestação das gerações que tanto invejo. Todas as guerras, guerrilhas e conflitos do século XX, foram o estopim para a desestruturação política, social e moral desse novo século XXI. A cada dia eu fico com mais medo de presenciar o “admirável mundo novo”, previsto pelo escritor Aldous Huxley.

Bem, vamos por partes, vou tentar deixar vocês a par das coisas que acontecem nessa era pós-moderna de intolerância. Há uma metáfora que diz que se alguns jornais forem espremidos, escorrerá sangue por eles. Acreditem. Se eu juntar numa folha as centenas de acontecimentos que ocorreram a partir do ano em que nasci, 1983, e apertá-la, uma poça de sangue venoso se formará junto a meus pés. Mesmo assim, tenho orgulho de ter assistido ao vivo (embora pela literalmente globalizada tevê): a queda do Muro de Berlim, quando eu tinha seis anos; e o que me despertou para a política, os atentados de 11 de setembro de 2001, no World Trade Center.

Sabe o que me deixa mais irritada nesses “tempos modernos”? Parece que não aprendemos nada. Não aprendemos nada com os “erros” do passado, não aprendemos nada na escola. E o pior, ou irônico, é que as pessoas que menos sabem, parecem ser as mais felizes, pois não se preocupam. Como afirmou um personagem do filme que marcou a geração, Matrix, “a ignorância é maravilhosa”. Porém, certa vez eu escrevi num caixote, quando me mudei do Rio de Janeiro para Santa Catarina: se a ignorância é uma bênção, eu amo ser desgraçada. E quem opta pela busca do conhecimento se torna um desgraçado mesmo; somos angustiados, poucos, espelhados, impotentes. A grande massa que nos apoiaria numa revolução não pode perder o capítulo inédito da novela.

Não sou de esquerda. Nem de direita. Acho os que se dizem socialistas, piegas, utópicos; os capitalistas burgueses, ridículos; os que se dizem “centro”, hipócritas. Considero-me apenas uma sonhadora. Outra coisa interessante na minha geração é que somos um bando de indecisos. Não somos (mesmo que às vezes proclamemos) 100% nada. Combinamos camisa do Che Guevara com tênis All Star; somos católicos e acreditamos em encarnação; praticamos esportes e nos drogamos regularmente; somos mestiços, bissexuais e musicalmente ecléticos.

A música e arte, bem, em geral estão capengas. Na verdade, qualquer coisa (“coisa” mesmo) que for feita por algum famoso ou descendente (o sucesso não é mais mérito, ele é hereditário) e for bem divulgado, terá um bom retorno. Parece que estamos levando a sério aquela piadinha do Andy Warhol de fazer a “arte do comum”. E o pior, vende que nem água e custa os olhos da cara. Só um exemplo: os cantores mais populares do século XX, Frank Sinatra e Elvis Presley nunca cantaram nada de instrutivo ou interessante.

É isso. Eu, daqui do passado, espero ter cooperado em alguma coisa para o futuro, isso é, se ele houver; se não acabarem com o mundo antes. Espero que vocês, de fora do paradigma da minha geração, aprendam o que eu nunca aprenderei. Quanto a mim, vou continuar imaginando como seria bom se eu tivesse vivido na época, ou melhor, tivesse sido o Álvares de Azevedo, ou o Edgar Allan Poe, ou a George Sand, ou o Oscar Wilde…

MARQUÊS de SADE por editoria

marques-de-sade-011.jpgDonatien Alphonse François de Sade, mais conhecido como Marquês de Sade (Paris, 2 de junho de 1740; Saint-Maurice, 2 de dezembro de 1814) foi um aristocrata francês e escritor marcado pela pornografia violenta e pelo desprezo dos valores religiosos e morais. Muitas das suas obras foram escritas enquanto estava em um hospicio, encarcerado por causa de seus escritos e de seu comportamento. De seu nome surge o termo médico sadismo, que define a perversão sexual de ter prazer na dor física ou moral do parceiro ou parceiros. Foi perseguido tanto pela monarquia (Ancien Régime) como pelos revolucionários vitoriosos de 1789 e depois por Napoleão.
Além de escritor e dramaturgo, foi também filósofo de idéias originais, baseadas no materialismo do século das luzes e dos enciclopedistas. Era adepto do ateísmo e obcecado por fazer apologia do crime e afrontas à religião dominante. Em seu romance Os 120 Dias de Sodoma, por exemplo, nobres devassos abusam de crianças raptadas encerrados num castelo de luxo, num clima de crescente violência, com coprofagia, mutilações e assassinatos – verdadeiro mergulho nos infernos, sem nenhuma concessão ao bom-gosto. Esse romance foi produzido durante sua prisão, manuscrito em letras miúdas num rolo feito de papéis colados, e teve sugestões dadas pela mulher do marquês, Renné, que passou parte da vida defendendo o marido nos tribunais e só se separou dele quando o marquês foi libertado da cadeia, num breve intervalo de vida livre pós-Revolução Francesa.

CRONOLOGIA:

1740. Dia 02 de junho, nasce em Paris, Donatien-Alphonse-François de Sade, Marques de Sade. Dos quatro aos 10 anos, primeira infância no “Comtat-Venaissin”.
1750. Colégio “Loius-Le-Grand” e preceptor particular.
1754. Escola de cavalaria leve.
1755. Sub tenete no regimento de infantaria do Rei.
1757. Serve na “guerra dos Sete anos”.
1759. Capitão do regimento de infantaria da Bourgogne.
1763. Desmobilização. Casamento com Renée-Pélagie de Montreuil. Quinze dias de encarceramento na prisaõ de Vincennes, sob acusação de práticas libertinas agravadas por atos de blasfêmea.
1764. Recepção no parlamento da Bourgogne, nas funções de tenente geral das províncias de Bresse, Bugey, Valromey e Gex.
1765/66. Ligações públicas com atrizes e dançarinas.
1767. Morte do Conde de Sade, seu pai. Nascimento de seu primeiro filho.
1768. Processo Rose Keller em Arcueil. Quinze dias de detenção em Saumur e mais sete meses em Pierre-Encise, próximo a Lyon. Festas e bailes em seu castelo de “La Coste”, na região de Provence.
1769. Nascimento de seu segundo filho.
1771. Nascimento de sua filha.
1772. Processo a partir do caso das quatro jovens de Marseille. Condenação à morte à revelia. Fuga para a Itália, acompanhado de sua cunhada(?). Execução simbólica na cidade Aix-en-Provence, no dia 12 de setembro. Preso em Chambéry é transferido para Miolans na Savoie.
1773. Fuga de Miolans. A senhora de Montreuil, sua sogra, obtém ordens do Rei para prendê-lo e seqüestrar seus documentos e escritos. Sem resultados.
1774. Ele se esconde em seu castelo de “La Coste”.
1775. Processo a partir do caso das cinco jovens de Vienne e de Lyon. Nova fuga para a Italia, com estadias no seu castelo de “La Coste”.
1777. Morte da senhora Sade, sua mãe. Detido em Paris, é mantido prisioneiro em Vincennes.
1778. Anulação, na sua presença, do julgamento de Aix-en-Provence. Escapa e é detido em “La Coste” e reencarcerado em Vincennes.
1782. Conclusão do Dialogue entre un prêtre et un moribond.
1784. Transferido para a Bastilha.
1785. Redige a última versão da obra Cent vingt journées de Sodome.
1787. Redação de Contes et d’historiettes.
1788. Redação de Eugénie de Franval e do romance Infortunes de la vertu.
1789. Redige provavelmente a última versão da obra Aline et Valcour. Transferido às pressas para Charenton na noite de 03 para 04 de julho. Tomada da Bastilha e pilhagem de seus pertences e documentos.
1790. É libertado da prisão de Charenton. Estabelece relações com Marie-Constance Quesnet, que não o abandonará até a sua morte.
1791. Publicação (clandestina) de Justine, ou les malheurs de la vertu. Primeiro texto político. Primeira representação de Oxtiern.
1792. É nomeado membro da “section des Piques”. Textos políticos. Representação do Suborneur.
1793. Textos políticos. Nomeado jurado de acusação e em seguida presidente da “section de Piques”. Intensa atividade anti-religiosa. Detido.
1794. É conduzido à prisaõ “Carmes”, “Saint-Lazre” e finalmente à casa de saúde de “picpus”. Condenado à morte é após Thermidor posto em liberdade.
1795. Publicação-clandestina- da La philosophie dans le boudoir, e- oficial- de Aline et Valcour, ou le roman philosophique.
1796. Publicação(clandestina) do romance L’histoire de Juliete.
1799. Remontagem da peça teatral Oxtiern em Versailles onde Sade mora em condições de pobreza. Ele representa o papel de “Fabrice”.
1800. Publicação oficial da peça Oxtiern e dos Crimes de L’amour e publicação clandestina de La Nouvelle Justine.
1801. Detido e conduzido à prisão de Sainte-Pélagie” e posteriormente à “Bicêtre”, sob a acusação de ser o autor do romance L’histoire de Juliette. A edição de L’histoire de Juliette é recolhida.
1803. A família consegue a transferência de Sade para o hospício de Charenton. Lá ele organizará espetáculos.
1807. Redação da obra Journées de Florbelle. Os manuscritos são seqüestrados de seu quarto.
1813. Publicação oficial da obra La Marquise de Ganges.
1814. No dia 02 de dezembro, Sade morre no hospício de Charenton. 

 

DISCURSO conto de josé alexandre saraiva

Nos idos de 1970, fui convidado para assistir a memorável e merecida homenagem prestada pela municipalidade do Rio de Janeiro ao consagrado teatrólogo Olavo de Barros. Curitibano, nascido em 1892, em plena Rua XV, Olavo de Barros foi pioneiro do rádio-teatro, prestigiadíssimo no Brasil e no exterior, atuou na Europa e obtendo aplausos da crítica especializada. Escreveu oito livros e dirigiu as principais companhias teatrais de sua época. Conquistou o público e a crítica como autor, ator, galã, professor da arte cênica e mestre em prosódia.
Na ocasião, também recebia idêntica homenagem (título de cidadão carioca) um general da reserva, pelos relevantes serviços prestados à Nação. Foi o primeiro a falar. O esplendoroso Teatro Municipal estava lotado.
Às dezessete horas em ponto, nosso general inicia seu discurso —o mais longo e enfadonho que meus ouvidos, por força das circunstâncias, tiveram que suportar.
A atriz Henriquieta Brieba e o crítico de teatro Jota Efegê, convidados de honra pelos vínculos que mantinham com o homenageado civil, sentaram-se ao meu lado – ela à esquerda, ele à direita. A atriz Cordélia Ferreira, irmã de Olavo, também sentou-se na mesma fileira.
O general dispara o verbo, valorizando pausada e paulatinamente cada palavra. Mais ou menos assim (aqui, me permito o recurso da síntese e da imaginação para não repetir os mesmos enfados):
“Em 1914, cheguei a esta Cidade Maravilhosa em busca da sobrevivência. No Nordeste, deixei os folguedos da juventude e, já no primeiro semestre, alistei-me no exército, cumprindo meu sagrado dever cívico. No mesmo mês, consegui emprego numa fábrica de biscoitos.”
“No segundo semestre de 1914, concluí os estudos secundários, que antes havia interrompido por força maior.”
“Ainda no segundo semestre de 1914, comprei a prazo um dicionário, uma enciclopédia e uma coleção de obras literárias, incluindo uma biografia de Napoleão Bonaparte, para enriquecer meus parcos conhecimentos.”
“Corria o mês de janeiro de 1915 e numa noite de torrencial tempestade, relâmpagos e trovões…”
E assim foi indo o orador, em meio a flores, holofotes. Cada ano, cada estação, cada mês, cada dia, cada noite, cada alvorada, cada pôr-do-sol, cada pingo de chuva, cada estrela, cada marechal.
As horas não passavam… Henriquieta Brieba entrou em sono profundo. Jota Efegê, com aquele ar de tolerância por dever do ofício, fazia círculos silenciosos com os polegares em movimento, enquanto os demais dedos, rígidos, permaneciam contidos e entrelaçados, comprimindo a barriga.
O general seguia firme e determinado, dissecando as horas e os minutos constantes de sua rica e fantástica trajetória.
“Em 1926..”.
“Em 1927…”
“Em 1928…”
E os anos foram arrastando-se lentamente, sofridamente para “nosostros”. Lá pelas tantas, um súbito ruído de uma poltrona na fileira de trás fez Henriquieta despertar.
Atônita, ela se virou para mim, deu uma gostosa bocejada, encostou os dedos em meu ombro e perguntou:
— Meu filho, em que ano ele está?
— Em 1953, faltam 21 anos para 1974 – respondi.
— Obrigada — disse ela, acrescentando: quando ele chegar em março de 1964, por favor, me acorde. E voltou a dormir.

RETIFICAÇÃO e AGRADECIMENTO da editoria do blog

OBRIGADO LUCIANA ELLER!!

que possa este mundo virtual, sério e desonesto, ao mesmo tempo, contar com outros milhões de Lucianas atentas e sempre dispostas a corrigir injustiças, denunciar plágios, falcatruas e outras merdas que os frustrados, os picaretas, os covardes que se escondem no anonimato para expor as suas vísceras nojentas que ocupam seus cérebros raquíticos.
obrigado luciana.


jb vidal

Equipe palavreiros da hora


NOTA da EDITORIA:

este site (em outro host pois este teve inicio em 01/12/07) publicou em 06 de novembro o texto: CIRURGIA de LIPOASPIRAÇÃO? como sendo de autoria do sempre grandioso HERBERT VIANNA, que com certeza nem imagina o fato, enviado através de email por um leitor do blog, o qual já foi notificado do caso para suas considerações que esperamos sejam convincentes.
a “navegadora” luciane eller detectou a fraude e postou um comentário, no post, apontando a irregularidade e enviando por email o original de autoria de ROSANA HERMANN a quem solicitamos, de público, as suas desculpas. apesar de todo o rigor e atenção que tomamos com referência aos autores, na internet pode ocorrer tais fatos em razão das pessoas mal intecionadas que habitam o mundo virtual. segue o texto original constante do email de luciana eller:


Mais um da Rosana Hermann . Este texto foi roubado do blog da Rosana, adulterado e postado no orkut como se fosse de Herbert Vianna e ganhou o título “Vaidade” (leia mais aqui ). Aí vai a versão original:

“no trabalho e.. chocada”
Rosana Hermann

Cantor do LS Jack é internado em coma no Rio após lipoaspiração É possível isso? É admissível isso? Um rapaz de 27 anos ter uma parada cardíaca e entrar em coma após uma cirurgia de lipoaspiração?
Pelo amor de D’us, eu não quero usar nada nem ninguém, nem falar do que não sei, nem procurar culpados, nem acusar ou apontar pessoas, mas ninguém está percebendo que toda essa busca insana pela estética ideal é muito menos lipo-as e muito mais piração?
Uma coisa é saúde outra é obsessão.

O mundo pirou, enlouqueceu.
Hoje, D’us é a auto imagem.
Religião, é dieta.
Fé, só na estética.
Ritual é malhação.
Amor é cafona, sinceridade é careta, pudor é ridículo, sentimento é bobagem. Gordura é pecado mortal.
Ruga é contravenção.
Roubar pode, envelhecer, não.
Estria é caso de polícia.
Celulite é falta de educação.
Filho da puta bem sucedido é exemplo de sucesso.
A máxima moderna é uma só: pagando bem, que mal tem?

A sociedade consumidora, a que tem dinheiro, a que produz, não pensa em mais nada além da imagem, imagem, imagem.
Imagem, estética, medidas, beleza. Nada mais importa. Não importam os sentimentos, não importa a cultura, a sabedoria, o relacionamento, a amizade, a ajuda, nada mais importa. Não importa o outro, a humanidade, o coletivo.
Jovens não tem mais fé, nem idealismo, nem posição política.
Adultos perdem o senso em busca da juventude fabricada.
Ok, eu também quero me sentir bem, quero caber nas roupas, quero ficar legal, quero caminhar correr, viver muito, ter uma aparência legal mas… uma sociedade de adolescentes anoréxicas e bulímicas, de jovens lipoaspirados, turbinados, aos vinte anos não é natural. Não é, não pode ser.

D’us permita que ele volte do coma sem seqüelas.
Que as pessoas discutam o assunto. Que alguém acorde. Que o mundo mude. Que eu me acalme. Que o amor sobreviva.

PS – Desulpe o desabafo, o texto em um fôlego só. Mas sabe, isso é um blog.”

NOTA DO EDITOR: em 13/01/08 luciana eller envia este email para o blog:

Bom dia.Muito obrigada por sua nota de agradecimento, no entanto, creio que ela não seja justa.
Gostaria de pedir que a altere, se possível. Eu explico:
O texto que constava no e-mail que lhe enviei, conforme referência contida no mesmo, foi retirado do blog ” autordesconhecido.blogger.com.br“. É Vanessa Lampert, autora do blog e ávida pesquisadora,  que merece os créditos, por ter tido todo o trabalho, não só neste texto, como em inúmeros, como você pôde constatar no blog.

Gostaria que os créditos fossem dados a quem é de direito, visto que, do jeito que está atualmente, parece que a plagiadora sou eu, roubando textos alheios.

Repito: o trabalho de pesquisa que eu tive foi mínimo (Google e afins), se comparado ao da autora. Por favor, peço-lhe para corrigir esta injustiça. Eu creio na seriedade do seu blog e que, assim como você não quis cometer uma grande injustiça à verdadeira autora do texto em questão, eu não gostaria de fomentar mais uma.
Todos os créditos devem ir para o blog autordesconhecido.blogger.com.br, de autoria de Vanessa Lampert, não pra mim.
Desde já agradeço,
Luciana Eller
publicamos com grande prazer o seu email, e tenha certeza que o trabalho realizado pela vanessa lampert é de um valor inestimável para o mundo virtual, entretanto, quem acendeu a luz vermelha, aqui no site, foi você, por isso, reiteramos nossos agradecimentos.

jb vidal

EDITOR

CERVEJA COM SABOR DE CHIMARRÃO pela editoria

   ESTA MATÉRIA É DE UTILIDADE PÚBLICA!

                                                                

kit da cerveja de chimarrão tem copo em formato de cuia e suporte para copo em couro.

 

EMPRESÁRIO GAÚCHO CRIA CERVEJA COM SABOR DE CHIMARRÃO 

Uma das maiores tradições gaúchas, o hábito de tomar chimarrão, foi parar dentro de uma garrafa de cerveja, ou melhor, virou cerveja com sabor de chimarrão. A criação é do empresário gaúcho Eduardo Bier Corrêa, de 42 anos, que lançou a bebida em dezembro do ano passado no Rio Grande do Sul.

 

Segundo o empresário, a DaDo Bier Ilex é a primeira cerveja no Brasil produzida com erva-mate (Ilex paraguariensis). A bebida ainda traz ingredientes como lúpulo, água mineral e um blend de maltes importados. “A cerveja é diferenciada, de baixa fermentação, tem alto teor alcoólico e a coloração esverdeada”, disse.Corrêa levou a idéia de produzir a cerveja usando erva-mate para o mestre-cervejeiro Carlos Bolzan. “Foi um trabalho desenvolvido durante um ano e meio. A erva-mate tem algumas semelhanças com o lúpulo, como o amargor e o sabor semelhante ao da cerveja. Apesar disso, os dois ingredientes são completamente diferentes do ponto de vista químico.

Mesa de bar

O projeto da cerveja começou depois de uma conversa com outro amigo cervejeiro, Marcelo Carneiro, em 2006. Ele me confidenciou que tinha vontade de fazer uma cerveja com erva-mate. Eu disse que a história poderia ser interessante e maturei a idéia”, disse Corrêa.Segundo ele, um dos problemas para se chegar ao resultado final da cerveja Ilex foi a falta de referência para testes. “Não tínhamos como comparar os resultados das análises com as amostras feitas com cerveja de lúpulo. Foi uma mistura complexa. Fizemos alguns testes experimentais em restaurantes no Rio Grande do Sul e percebemos uma boa receptividade do consumidor.”

Slogan

A campanha publicitária destinada ao público gaúcho faz alusão à cultura gaúcha. Em um dos outdoors, a mensagem é a seguinte: “Se beber, não galope”. “A receptividade foi impressionante. Inicialmente chegamos a ter receio dos gaúchos mais tradicionalistas, pois mexemos com um dos maiores ícones da região, que é o chimarrão. Foi tudo fascinante”, disse Corrêa. Em outro trabalho de divulgação, aparece a seguinte mensagem: “Mais gaúcha que isso, só se viesse em garrafa térmica”.

Produção

A DaDo Bier Ilex foi colocada no mercado nacional em garrafas de long neck e em um kit com copo em forma de cuia e um suporte para copos feito de couro. “Produzimos oito lotes de três mil litros cada, de dezembro para cá. Isso nos permite fazer 2,5 mil caixas com 24 garrafas long neck”, disse o empresário.O foco da produção é o público nacional, mas a cerveja Ilex foi lançada preliminarmente no Rio Grande do Sul. “Já estamos levando o produto para São Paulo. Também queremos atingir o consumidor da Argentina e Uruguai.”

divulgação: eduardo carneiro

 

DESABAFO por “comentário anônimo”

“pelo ritmo em que estão surgindo e fechando pra balanço essa infinidade de supostos sites e blogs literários, será que o que está faltando não é um pouco mais de humildade e semancol e menos pretensão aos candidatos a escritor? Eles têm certeza de que tem alguma coisa de relevante a dizer? Não tenho visto relevancia nenhuma na maioria desses escritos. Que tal viver e ler mais antes de se meter a encher páginas e páginas de coisas nenhuma? Poesia? juntar palavras a esmo não é poesia…”

comentário feito no site ALGARAVÁRIA que está dando um tempo. dá o que pensar.

O NOVO ACORDO poema de remisson aniceto

Uma longa viagem me inspira,
porquanto enjoado e absorto
é quando a palavra transpira.
Tomei um avião para o Porto.

Essa história de uniforme
que tentam vestir na grafia
vai deixá-la mais disforme
pra quem – leigo – escrevia.

Do soneto não me enjôo
e a mudança deu-me a idéia
de escrevê-lo em pleno vôo.

Amanha, em outro voo,
talvez tenha outra ideia
quando tiver outro enjoo.
                               

SOU POETA poema de ítalo agra de oliveira silva*

Como um músico tocando sem retorno
Hesitando que o tempo se disperse
Um pintor distraído que esquece
Dos pormenores contornos,
De suas idéias iludíveis
Nos símbolos incompreensíveis
Que para muitos são meros adornos.

Sou poeta…
Que escreve, mas receia
Pois espera a grande ceia
No porvir que ser arvora
E enquanto a alma não chora
Cumpro vícios e caprichos
Nos pequenos interstícios
Que a intransigência devora.
 

o autor vive em gameleira/pe

DIÁLOGO em NOITE FRUSTRADA por alexandre frança

Ela diz – eu sou um redemoinho de sentimentos e sensações, uma alma pronta para alçar vôos cada vez mais profundos por entre os galhos rotos que a vida nos impõe, pois esta é a minha vida, um rio transbordando e transbordando e transbordando um céu de sentimentos múltiplos, de cores nunca antes vistas queimando o que é diáfano e lacrimoso.

Eu digo – você está carente.

Ela diz – você nunca vai entender o que se passa nesta alma-fênix de mulher rasgada pelas artimanhas ferinas da vida, já que esta sua forma machista de impor a sua opinião será sempre uma barreira entre esta represa tórrida de sentimentos, que sou eu, e esta sua mania irritante e reducionista de limitar todo e qualquer assunto que diga respeito a mim.

Eu digo – você está carente.

Ela diz chorando – você nunca vai me entender. você com este seu ar de pseudo-intelectual, com este cigarro entre os dedos, com este brilho irritante no olhar. sabe o que mais, você é um bêbado, eu nunca deveria ter me envolvido com um tipo escroto como você, já que você, com esta sua enpafiazinha de moleque, nunca irá entender uma mulher de verdade, uma pantera desvairada no cio dos mais puros e impuros sentimentos, uma estrela cadente do eterno brilho da sexualidade feminina de uma fera em extinção

Eu digo – você já não está falando coisa com coisa

Ela diz – e o que você entende disso, seu merda?

Eu digo – me dá um abraço?

O ASSASSINATO de BENAZIR BHUTTO por tariq ali

benazir-bhutto-foto_mat_20993.jpgDomínio militar é tragédia paquistanesa

É difícil imaginar que algo de bom possa surgir dessa tragédia, mas existe uma possibilidade. O Paquistão precisa desesperadamente de um partido político que fale em nome das necessidades sociais da maioria de seu povo. A análise é de Tariq Ali.

Mesmo aqueles dentre nós que criticavam severamente o comportamento de Benazir Bhutto e as políticas que ela adotou quando estava no poder e depois de perdê-lo se sentem atônitos e enraivecidos diante de sua morte. Indignação e medo tomam o país uma vez mais. Foi essa estranha coexistência entre despotismo militar e anarquia que gerou as condições que resultaram no assassinato de Benazir.No passado, o governo militar tinha por objetivo preservar a ordem. Mas isso deixou de ser verdade. Hoje, o domínio militar cria desordem e destrói o domínio da lei. Que outra explicação poderíamos encontrar para a demissão do presidente e de oito outros juízes da Suprema Corte paquistanesa por terem tentado sujeitar a polícia e os serviços de informações aos ditames da lei? Os substitutos não têm firmeza moral para tomar providência alguma, quanto mais conduzir a investigação sobre os delitos das agências, a fim de encorajar a revelação da verdade por trás do assassinato cuidadosamente organizado de uma importante líder política.De que maneira o Paquistão seria outra coisa que não uma conflagração de desespero hoje? Presume-se que os assassinos sejam jihadistas fanáticos. Pode ser verdade, mas agiram por conta própria?

EUA e coragem
Benazir, segundo fontes próximas a ela, sentiu-se tentada a boicotar as falsas eleições, mas não teve coragem política de desafiar Washington. Tinha muita coragem física, e recusava-se a ceder às ameaças de seus oponentes locais. Bhutto estava discursando em um ato em Liaquat Bagh. É um espaço batizado em homenagem ao premiê que formou o primeiro governo paquistanês, Liaquat Ali Khan, assassinado por um atirador em 1953. O matador foi imediatamente abatido a tiros por ordem de um policial envolvido no complô.

Não muito longe dali, existia uma estrutura da era colonial que servia de prisão aos militantes nacionalistas. Era a prisão de Rawalpindi, o local em que Zulfikar Ali Bhutto, pai de Benazir, foi executado em 1979.

O tirano militar responsável por seu assassinato fez desaparecer o lugar da execução. A morte de Zukfikar Bhutto envenenou o relacionamento entre o seu Partido do Povo do Paquistão e o Exército; ativistas do partido foram torturados, humilhados e, ocasionalmente, mortos.

A turbulenta história do Paquistão, como resultado de contínuo domínio militar e de alianças internacionais impopulares, agora apresenta sérias escolhas à elite governante, que parece não ter qualquer objetivo positivo. A maioria esmagadora do país desaprova a política externa. O povo também se sente irritado pela falta de uma política doméstica séria, se excetuarmos os esforços para enriquecer ainda mais uma elite insensível, cujas fileiras incluem as Forças Armadas, superdimensionadas e parasitárias -as mesmas que assistem, impotentes, ao assassinato de líderes políticos.

Benazir foi atingida por tiros e logo houve uma explosão. Os assassinos garantiram duplamente a operação, dessa vez. Queriam-na morta. Agora, é impossível a realização de uma eleição, ainda que fraudulenta. O pleito terá de ser adiado e as Forças Armadas estão contemplando a imposição de um novo período de domínio militar direto caso a situação se agrave, o que pode facilmente ocorrer.

O assassinato representa uma tragédia multidimensional em um país que está na estrada para novas tragédias. Há despenhadeiros e cataratas à frente. E há a tragédia pessoal. A família Bhutto perdeu mais um membro. Pai, dois filhos e agora a filha.

Morte do pai
Fui apresentado a Benazir na casa de seu pai, em Karachi, quando ela era uma adolescente que só queria se divertir, e voltei a encontrá-la mais tarde, em Oxford. A política não era sua inclinação natural, e ela desejava ser diplomata, mas a história e suas tragédias pessoais a conduziram em outra direção. A morte de seu pai a transformou. Ela tornou-se uma pessoa nova, determinada a enfrentar o ditador militar daquela era.

Estava instalada em um pequeno apartamento em Londres, no qual discutíamos o futuro do país. Ela concordava quanto à necessidade de uma reforma agrária, grandes programas educativos e uma política externa independente, como passos cruciais para salvar o país dos abutres que estavam à espreita, com ou sem uniforme. Sua base eleitoral eram os pobres, e ela se orgulhava disso. Mas Benazir mudou de novo, ao se tornar primeira-ministra.

No início de seu governo costumávamos discutir, e ela dizia que o mundo havia mudado. Ela não podia se colocar ”do lado errado” da história. E, como outros, fez as pazes com Washington. Foi isso que a levou, por fim, a fechar um acordo com Musharraf e voltar ao país. Em diversas ocasiões ela me disse que não temia a morte. Era um dos perigos inerentes da vida política paquistanesa.

É difícil imaginar que algo de bom possa surgir dessa tragédia, mas existe uma possibilidade. O Paquistão precisa desesperadamente de um partido político que fale em nome das necessidades sociais da maioria de seu povo. O Partido do Povo, fundado por Zulfikar Ali Bhutto, foi criado pelos ativistas do único movimento popular de massa que o país já viu: estudantes, camponeses e trabalhadores que lutaram durante três meses, em1968/9, pela derrubada do primeiro ditador militar do país. Os militantes consideravam a organização como o seu partido, e o sentimento persiste ainda hoje em determinadas áreas do país.

A morte horrível de Benazir deveria fazer com que seus colegas parem e reflitam. Depender de uma pessoa ou família talvez seja ocasionalmente necessário, mas isso representa uma fraqueza estrutural, e não uma vantagem para uma organização política.

O Partido do Povo precisa ser recriado como organização moderna e democrática, aberta ao debate e discussão honestos, defendendo os direitos sociais e humanos, por meio da união dos muitos grupos e indivíduos paquistaneses dispersos que estão desesperados por qualquer opção de governo minimamente decente e que apresente propostas concretas para estabilizar o Afeganistão, ocupado e dilacerado pela guerra. Isso pode e deve ser feito. Não deveríamos solicitar novos sacrifícios à família Bhutto.

* Escritor, historiador anglo-paquistanês e editor da revista New Left Review

agência Carta Maior.

A VILÃ HIPERATIVIDADE por paula lameu

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foto de hélio rocha/br

Carlinhos é hiperativo. A todo momento sua atenção é chamada pelas mais simples coisas: o fechar de porta, o cair do lápis, o cantar do passarinho, o ponteiro do relógio. “Tiiiiiiaaaaaaaa!”. Sempre me chama para mostrar alguma coisa super interessante. Vejo nos seus olhos a indignação por eu não dar a mesma importância. “Me desculpe, mas você pensa muito rápido!”. Desculpo-me sorrindo e confortando-o. Na verdade, gostaria que pintasse o desenho e ficasse sentado como os outros. Mas que chatisse! Nem eu gosto de pintar desenhos. Que besteira a minha.

Carlinhos gosta de desafios. Em seu período pré-silábico, fiz um ditado com ele, em português, inglês e espanhol. A cada escrita, berrava de satisfação. “Coche, termina com E!” E escrevia com um sorrisão de orelha à orelha.

Suas bochechas rosadas pedem muitos beijos todas as vezes que o vejo no recreio. Na escola é feliz: brinca, ri porque é respeitado.

Sua hiperatividade foi diagnosticada com menos de um ano de vida, pois era “esperto demais para a idade”. Foi quando o pesadelo começou. Dois, três dias sem dormir, só querendo brincar. Pais estressados, avós que não queriam ouvir falar. Até que chegaram os “roxos”. Mas não faz mal, porque era para ele deixar tudo sair pela janela que amanhã seria outro dia…

Mas e a medicação? As doses são dadas de acordo com o comportamento do menino, chegando a ficar dias sem tomar, se foi “mau”. Daí começamos novamente desde o início, surto após surto. Quantos Carlinhos não existem por aí em salas de 40 alunos? Seu QI está bem acima da média, só precisa de um educador que antes de tudo o ame como ele é, para depois orientá-lo nas descobertas do aprender.

NAZISMO BÍBLICO ou ARIANO? por walmor marcellino

Acusam-me de não facilitar a leitura quando o assunto é de alta complexidade; e eu reconheço minha máxima culpa, porém afirmo que os temas são complexos e/ou inextricáveis aos conhecimentos de um desvalido e entediado. Como vocês sabem, a “civilização ocidental-cristã” — abichornada pelo remorso do que o capitalismo imperialista alemão fez na Segunda Guerra Mundial contra comunistas, eslavos, judeus, ciganos, deficientes físicos e mentais, homossexuais e enfim contra os “não-heróicos arianos” e os supostos “traidores” e “algozes” dos alemães na Primeira Guerra Mundial… — bem, um bonachão grupo “democrático” hecatômbico ou holocaustiano deu de presente para uma organização sionista a Palestina. Creio ser esse um final “grotesco” É difícil escrever brevemente sobre tal assunto, embora seja obrigação diária desasnar o gentio sobre a origem do que vai pelo conluio imperial-colonialista Estados Unidos-Grã Bretanha-Israel. Pensar cansa quem como eu não é bem formado (no sentido mental). Daí dou sumário exemplo de uma tentativa de síntese: O nazismo “é um movimento chauvinista [nacionalista exacerbado] de direita, alemão [ou judeu-sionista], nos moldes do fascismo italiano [ou do Partido Likud, apoiado no agressivo e criminoso rabinato de Israel], imperialista [ou da “Eretz” ou “Grande Israel”], belicista [como o colonialismo imperialista de Israel] e cuja doutrina consiste numa mistura de dogmas [como no “Mein Khampf” de Adolf Hitler e nos “tributos” ao Talmude e/ou mandamentos da Torá] e preconceitos [de “povo eleito”, semita, “destinado” às terras que vão do Eufrates ao Nilo, e com predestinação divina ao poder, desde sempre, até antes que Zoroastro inventasse essa fundamentação mística judaico-cristã] a respeito da pretensa superioridade da raça “ariana” [a) invenção paranóica oriunda da etimologia sânscrita “nobre”;b) consta que os árias, esse belo povo da Ásia Central, teriam migrado para a Índia; porém o imbecil do Hitler os relacionou com os nórdicos;c) conforme outro tipo de cretinismo (o arianismo), Jesus Cristo seria uma criatura de natureza intermediária entre a divindade e a humanidade… ufa!]; existência a que se atribuem os nazistas [e os sionistas]…”, cf. registra o dicionário Aurélio e acentuam os parênteses meus.O rebanho político judeu afirma que sua “diáspora” lhe deu os direitos transcendentes à terra palestina [com ou] sem a concordância dos ancestrais moradores palestinos. Também Adolph Hitler afirmava ter direito à expansão territorial [com ou] sem concordância dos austríacos, poloneses, tchecos e periecos.Esses fanáticos judeus falam de um conchavo entre o Ente Superior e o povo semita, mesmo que a ciência diga que eles não passam de filhos da negra Lucy, como nós. Já o ex-cabo Shickelgruber, alcunhado Adolf Hitler, prendeu, seqüestrou, concentrou e torturou todos os que considerava inimigos, especialmente comunistas, eslavos e judeus; os judeus porque ‑ ao contrário do que afirmava Max Weber em “o espírito do capitalismo”‑ teriam sido eles “e sua cobiça” e não os protestantes e a seita calvinista em especial que desenvolveram o capital e a usura. E se Hitler teve uma pré-ciência de que o precípite capitalismo desata coisas incontroláveis, não poderia imaginar que os sion-nacionalistas, alentados pela “Lebensraun” tardia, iriam mais tarde prender, seqüestrar, concentrar, torturar e matar semitas, jafetitas e camitas que se opusessem à Grande Israel. Pelo menos, hoje sabemos que o rabinato fascista e o militarismo colonialista, associados à matriz imperialista, é que dirigem a “democracia judaica” no Oriente Médio. Pra cientista nenhum botar defeito.Curitiba, 2/12/2007 

O LIVREIRO de CABUL reportagem, ficção ou farsa? – por salomão rovedo

Sharbat Gula – foto de Steve McCurry

Como comprar, ler e entender um livro? É essa a pergunta que sempre faço a mim mesmo quando corro as livrarias como um rato fanático atrás de um pedaço de queijo. Buscando interpretar essa angústia – que morrerá comigo e com muitos outros leitores – faço estas notas na esperança de corrigir-me na próxima vez que comprar um livro…

Tenho aqui em minhas mãos um dos best-sellers de 2007 – O Livreiro de Cabul. Logo na capa leio uma chamada dizendo que este é um campeão de venda nas listas do NYT. Pulo para a contracapa, onde um quarteto de citações informa um pouco mais.

Primeira: para o The Guardian, o resultado é formidável. Não me pergunte (nem o editor me diz) quê ou qual resultado é formidável – sei que essa é apenas uma frase de efeito. Talvez se refira ao fato de Asne Seierstad ter feito uma reportagem, tendo a cautela de utilizar um pseudônimo para nomear a figura principal.

Segunda: Seierstad é uma observadora astuciosa e lírica da vida doméstica afegã. (…) O Livreiro de Cabul pode ser lido como um romance, e é uma reportagem empolgante. Aqui avanço meu conhecimento mais um pouco. Sobre a autora, que é uma observadora astuciosa e lírica. Não imagino como se pode possuir tal combinação no caráter. E sobre o livro, que pode ser lido como um romance, e é uma reportagem empolgante. (The NYT)

Terceira: Mark Hertsgaard, do The Washington Post, é mais cru e realista: Ela escreve sobre indivíduos, mas sua mensagem é ampla, e ninguém que a leia será otimista sobre a transformação dessa cultura tradicional em uma democracia moderna. Hertsgaard cai no engodo em que estão mergulhados os ditadores democráticos do Ocidente, exceto que ele tem a capacidade de perceber que nem o Afeganistão nem o Iraque nem qualquer outro povo pode ser “civilizado” como o foram os nativos conquistados no século XVI – nem na marra! Coisa que os Césares não se dão conta.

O terceiro comentário, da Publishers Weekly, sequer merece reprodução, mas aqui vai apenas para mostrar o quanto o semanário dos editores enrolam o leitor com qualquer subterfúgio: Ficará como um dos melhores livros de reportagem sobre a vida afegã depois da queda do Talibã. Mas por que esta é uma frase descartável? Porque, já na orelha, se sabe que a autora escreveu a “reportagem”, por ter vivido três meses com uma família afegã. Só três meses dá para conhecer todos os costumes de um povo? E quem não conhece o histórico social do islã, cuja história é anterior às narrativas das Mil e uma noites?

Antes de a orelha acabar, fico sabendo ainda mais alguns detalhes sobre a autora e sua obra. Asne Seierstad apresenta uma coleção de personagens comoventes que reflete as contradições do Afeganistão, e nos emociona, sobretudo ao apresentar a rotina, a pobreza e as limitações impostas às mulheres e aos jovens do país. Nem se precisa ser um graduado em literatura para deduzir que este é um texto que anuncia de modo claro uma obra de ficção.

Completando: O protagonista, mesmo sendo um homem de letras, é um tirano na orientação familiar, nos negócios, e pautado pelo radicalismo. Prova disso é que, indignado com o resultado do trabalho da autora, o livreiro de Cabul que inspirou o personagem Sultan Khan foi à Noruega (!) com o propósito de pedir reparação judicial. Fala sério! O cara saiu de Cabul para a Noruega para processar a autora? Não seria mais barato e prático contratar um advogado? É um cabulense mesmo…

Mas o que posso dizer de um livro cujo copyright original é de 2002 e somente cinco anos depois aporta em Pindorama a bordo do tsunami – ou boom – de publicações sobre o Afeganistão? Será que foi em decorrência das invasões que César Bush tem feito mundo afora em busca de petróleo? Tudo é possível se a alma é grande, os best-sellers anunciados nas listas de literatura nos jornais e revistas especializadas estão aí mesmo para serem lidos, então vamos ler também O livreiro de Cabul, mas sem perder a ilusão sabendo-se que grande parte dos livros que os editores brasileiros trazem de fora são pura porcaria.

Sobre o personagem (esta denominação, repetida aqui, pelos críticos e pelos editores, refere-se quase sempre a uma figura literária de ficção), posso adiantar alguma coisa. Já existiu um Sultan Khan (1905-1966), nascido na Índia, mas em território que hoje pertence ao Paquistão. Foi um jogador de xadrez de força razoável, cujo mérito maior foi ter vencido o Campeão Mundial J. Raúl Capablanca no Torneio de Hastings (1930).

Este Sultan Khan, o que é? A história do livreiro pode ser contada inteirinha em dez páginas do livro. Nas outras trezentas e seis páginas são narradas velhas histórias sobre casamentos combinados, namoros furtivos, esposas múltiplas, discriminações, o papel das mulheres, fofocas em casa e na sociedade, radicalismo islamita do Talibã, tudo enfim que se lê em revistas, enciclopédias de qualidade mediana – ou na Wikipédia…

Comercialmente falando, como livreiro o personagem é realmente um comerciante, isto é, em primeiro lugar visa o lucro. Mas não deixa de lançar frases de efeito, como a que deu num interrogatório político: Podem queimar meus livros, arruinar a minha vida, podem até me matar, mas nunca poderia destruir a história do Afeganistão. Como disse lá em cima, resultado é formidável – mas essa é apenas mais uma frase de efeito.

Desde rapaz o futuro comerciante de livros se sobressaiu ao livreiro patriota: aproveitou uma viagem a Teerã para comprar livros escolares, mas aproveitou a ocasião e levou muito mais exemplares, que venderia aos seus colegas em Cabul – pelo dobro do preço. Essa mercantilização excessiva sobressaiu em outro texto, desta vez mais gravemente:

De volta do Paquistão para cuidar da sua livraria, Sultan adquiriu vários livros roubados da biblioteca nacional por uma pechincha. Por algumas dezenas de dólares comprou textos que datavam de vários séculos, entre eles um manuscrito de quinhentos anos do Uzbequistão pelo qual o governo uzbeque mais tarde lhe ofereceu 25 mil dólares. Ele encontrou uma edição particular de Zahir Shah de Firdausi, seu poeta favorito, a grande obra épica Shah Numa, e por um preço irrisório comprou diversos livros valiosos dos ladrões (…).

Nesse caso não tem como contemporizar – o Livreiro de Cabul, como descrito acima, é apenas mais um reles criminoso. Não é um livreiro geograficamente localizado – Cabul – mas um comerciante, exatamente igual a todos os comerciantes do mundo.

Pelo que se lê, O livreiro de Cabul tanto pode ser considerado reportagem alinhavada com elementos ficcionais, da mesma maneira como pode ser a ficção maquiada de reportagem. Tanto faz porque exatamente em razão da existência de tantos elementos ficcionais, tenha sido impossível a Shah Mohammed Rais – o verdadeiro nome de Sultan Khan, hoje proprietário de uma rede de livrarias – iniciar um processo contra Asne Seierstad.

O que ele fez – como hábil comerciante que é – foi promover seu próprio livro Era uma vez um livreiro de Cabul, escrito na esteira do sucesso de Seierstad…

SONETO do REENCONTRO de manoel de andrade

Na  primavera  tu  voltaste de mansinho
finda a tempestade, surgiste na bonança
me  conjugando o verbo  da esperança
num  íntimo  gesto  de  lírico carinho.

Tu foste  meu fuzil, o meu canto guerreiro
a  voz  peregrina  acesa  no  meu  peito,
ensina-me  a cantar agora de outro jeito
para entoar amor e paz ao mundo inteiro.

Combatente e amordaçada em meu destino
silenciados e por atalhos clandestinos
trinta  anos  se  passaram,  dia-a-dia.

Depois a liberdade chegou para o meu povo
mas  só  agora  eu  te encontrei de novo
para  nunca  mais  perder-te… ó poesia.

MARIA CALLAS poema de sergio bitencourt

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Dona Maria callas,

Como se vê tu não te calas,

Nem avivas o que ves. Talvez um engenheiro,

Seja o suficiente para colocares no bolso,

Tipo sem dúvida eficiente,

Que traz consigo uma vontade de engenhar,

Proezas,belezas e átinos.

 O que parece descontínuo,

É manteres no bolso,

Como num calabouço, um poeta

Tipo meio inconformado,

Em ficar neste estado,

E tu mesmo vais sentir,

Que sentir-se-a sufocado. 

Mas a surpresa e tão grande,

E inédita a situação,

Que é mesmo o poeta que engenha,

Deixar-se ser o engenheiro,

Só para ficar por inteiro,

No calabouço do bolso,

Do teu Coração.

ESTRELA LEMINSKI – poema de*

Fodam-se as regras
de gramática e redação
Os acadêmicos não são deuses
pra decidir quem é bom ou não

Danem-se os verbos
e suas regras de conjugação
Esses se acham padres
capazes de dar sermão

A literatura é cristo,
um santo que estende a mão
Um poço de sabedoria,
sem limite para o perdão

Pregadores são os que escrevem
relatando o seu tormento
e fingem não ser seu o sofrimento

A poesia é anjo que chega e comunica
que ensina o amor novo
e apaga a chaga antiga

poema do livro CUPIDO: cuspido, escarrado

INDÍGINAS JAPONESES por richard siddle

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MINA SAKAI membro do AINU Rebels

 Os Ainu são o povo indígena do norte do Japão. Sua história constitui, em parte, uma luta por sua representação discursiva. Ideologicamente marginalizados como uma “raça em extinção” necessitando “proteção”, uma imagem que moldou políticas concretas que promoveram sua subordinação ao Estado, os Ainu têm reagido, desde os anos setenta, ao se recriarem como um “povo indígena”. Suas vozes, porém, tem permanecido mudas em um Japão, que continuou a representar-se como “racialmente homogêneo”. Porém tudo isso pareceu mudar no dia 1 de julho de 1997, quando entrou em vigor no Japão a primeira legislação para promover uma cultura étnica anticonvencional e encorajar o multiculturalismo no interior da sociedade japonesa. A promulgação do Ato de Promoção Cultural Ainu (APC) foi recebida entusiasticamente por seus defensores como um evento que “marcou época”. Assim , o governo japonês finalmente resolveu seu “problema Ainu”, fazendo justiça e reconhecendo direitos humanos aos habitantes originais de Hokkaido, despojados, marginalizados e empobrecidos pela exploração colonial daquela ilha após 1869? Ou a retórica de acontecimentos que “marcam época” obscurece uma realidade política que na verdade mudou muito pouco? Nesse paper vou argumentar que o APC representa apenas uma concessão marginal por um estado paternalista. Políticos continuam a fazer afirmações de “estado homogêneo”. Críticos argumentam que o movimento Ainu descarrilhou, e que a cultura Ainu, longe de ser “promovida”, está presa numa estrutura de opressão pouco diferente da que prevalecia durante a política oficial de assmilação. Apesar de passados apenas quatro anos desde a promulgação do APC, vou tentar avaliar nesse paper o impacto inicial dos movimentos Ainu em prol de direitos políticos e humanos e sua posição na sociedade japonesa no alvorecer de um novo século.

AS MELHORES IMAGENS DE 2007

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O BOM JUDEU poema de jairo pereira

vinte anos esperei o bom judeu q. me editaria
mirava os aviões escassos no céu interiorano
amanhã ou depois aterrisaria em Cascavel Foz
Curitiba ou Londrina e depois numa van até Quedas
o bom judeu vindo: e em sua maleta o contrato prévio
visto-revisto em minúsculas letras
de capciosas cláusulas
e onde cegamente eu o poeta otário assinaria
como um cordeiro escalado ao sacrifício
vinte anos convivi com o bom judeu em minha retina
o bom judeu q. era de vir viria um dia nunca veio
todo de negro óculos de aros claros calva ruiva e feio
o bom judeu da minha redenção midiático-financeira
alma numinosa e nas negras vestes botões cifrados
apto a colocar-me
na rica estante dos consagrados. 

BALANÇO de FIM de ANO por eduardo ratton

Para a surpresa da população ou a alegria de alguns interessados, nestes momentos em que 2007 está findo e que 2008 está sendo bem-vindo, não houveram grandes surpresas. Os acordos irresponsáveis do Executivo e o descaso do Legislativo ocuparam as manchetes dos noticiários. Mas, nada mudou, ao contrário, vivenciaremos a continuidade do nepotismo descarado e inconseqüente no primeiro escalão do governo, da incompetência jurídico-administrativa nas negociações do pedágio (embora a COPEL tenha tentado participar deste condenado esquema milionário), da compra da termoelétrica de Araucária, do fracasso da intervenção na SANEPAR, dos escândalos do CEASA e da compra das televisões alaranjadas, dos absurdos ocorridos na administração portuária, enfim, enquanto ninguém foi até então responsabilizado pelos danos ambientais decorrentes da explosão do navio Vicuña (2004), champanhes explodem no carnaval da ilha das Cobras, com risos sarcásticos no festerê de luzes fraternas. Este é o resultado de mais um ano de aclamação do governo pelo povo paranaense. Feliz Ano Novo! 

Eduardo Ratton

Professor da UFPR

DESPEDIDA de SOLTEIRO poema de paulo matos

  

Ontem solto.

Ora salto

Ao matrimonio. De assalto.

Ontem livre

Como um livro.

Teoria livre de lavra

Hoje volto

– E esse o voto –

ao seio da mulher    amada…

REDE de AÇUDES do NORDESTE a maior do planeta Terra por manoel bonfim ribeiro

Discute-se a transposição de águas do rio São Francisco para o Nordeste brasileiro como a grande solução hídrica para o Semi-árido. A aridez desta região se caracteriza pela sua baixa pluviosidade com isoietas de 600 mm/ano. A seca se instala quando o desvio padrão é negativo, chovendo 60, 40, ou apenas 30% das médias anuais. Na grande seca de 1915, a mais tirana de todas, embora curta, o desvio padrão chegou a 75%, isto é, só choveu 25% da média, 150 a 180 mm naquele ano. Foi um horror que mereceu o primeiro livro da escritora Rachel de Queiroz, “O Quinze”. Durante o período de inverno as chuvas se concentram por três meses em média e, geralmente em maio, ocorre um brusco declínio pluviométrico. Isto é próprio dos climas semi-áridos sob latitudes equatoriais.
 Não há seca absoluta, na acepção do termo, com precipitação anual zero. No continente americano só o deserto de Atacama, no Chile, tem zero de precipitação, porque os ventos alísios, carregados de umidade, não conseguem cruzar a cordilheira andina e, por sua vez a evaporação no Pacífico é incipiente naquela faixa fria da costa chilena, não havendo, portanto, formação de nuvens convectivas.
 Todos os anos, impreterivelmente, chove no período das quadras invernais, pouco ou muito, mas chove. Por vezes são chuvas tempestuosas, hibernais. O sertanejo costuma dizer que as chuvas de um ano caem num só mês e as chuvas de um mês caem num só dia.
 Pesquisar técnicas para reter e acumular as águas superficiais nas regiões áridas do mundo foi, sempre, a grande luta do homem para suprir as suas necessidades hídricas nas longas travessias estivais. Assim procederam os povos bíblicos do Oriente, os aborígines da Austrália, os tuaregues do Kalahari, os pastores mongóis da Ásia, os afegãos com o sistema subterrâneo Karez de captação, os pigmeus do Saara e mais outros povos da antiguidade.
 Abriam-se poços, algibes e cacimbas, construíam barreiros, açudes e outras técnicas usadas para a captação das águas de chuva. A luta desses povos foi sempre armazenar água sob qualquer modalidade, cativar a água que cai do céu. Na Mesopotâmia foram construídos muitos açudes entre os dois rios e mais de 300 km de canais de irrigação. Os povos daquela região sabiam trabalhar a água. Os cartagineses foram exímios construtores de açudes. Na Austrália, construíram-se grandes implúvios ao longo das rodovias, em regiões áridas como o deserto de Simpson. Os árabes levaram as técnicas de açudagem para as terras semi-áridas da Ibéria. O Egito antigo foi insuperável no trato dos recursos hídricos. Ramsés II construiu obras monumentais, diques de 1.200 km de extensão para imprensar o Nilo contra a costa líbica, para irrigação por bacia. Construiu o lago Meris para controle das águas do rio, obra semelhante ao Sobradinho de hoje. Este lago foi comparado ao Labirinto de Teseu pela complexidade dos seus canais.
 As técnicas contemporâneas de açudagem começaram a surgir na Índia nas regiões de Madras e Bombaim, onde, além de um grande programa de perfuração de poços, aliou-se um robusto plano de construção de açudes, que se multiplicaram aos milhares. Técnicas modernas surgiram também na Inglaterra. Os EE.UU, por todo século XIX, construíram uma grande rede de açudes na região Oeste, de terras áridas e semi-áridas, conhecida como as Grandes Planícies, onde as isoietas pluviométricas variam de 250 a 500 mm, nunca além. Colorado, Montana, Arizona, Nebraska e outros estados que ocupam quase metade do País, cerca de 40%. O Elephant Bute é um mega açude americano com 3 bilhões de m³ acumulados, construído no século XIX e hoje, já bastante assoreado.
 No Brasil só temos 12% de terras semi-áridas, sujeitas ao flagelo clímico, com chuvas de 500 mm/ano. O estado do Ceará, área de 148.000 km², representando 15% do Polígono das Secas, tem pluviosidade acima de 700 mm/ano, a maior da região. A média mais baixa está na Bahia, 480 mm/ano em 330.000 km² representando 33% do referido Polígono.
 Foi no século XX que surgiram os primeiros açudes no Nordeste brasileiro. O programa de construção começou no advento da República, um pouco antes, quando a terrível seca de 1877/79 crestou todo o Semi-árido nordestino, degradando e desagregando os lares sertanejos. Partiram desta grande seca os programas de açudagem, que logo passaram a ser uma questão nuclear para o Nordeste.
 À medida que os açudes iam sendo construídos nas calhas de riachos efêmeros e intermitentes, a sociedade sertaneja começava a crer na solução distributiva dessas águas represadas.
 As águas de chuva seguem três caminhos distintos: evaporação, infiltração e escoamento. A evaporação no Semi-árido é avassaladora, chegando a mais de 80%, no momento da precipitação. A infiltração varia de 10 a 15%. O escoamento é o de águas superficiais e fugidias, formadoras dos riachos. O coeficiente de escoamento (run-off) varia de 10 a 20% das águas caídas, mas é baixíssimo o índice de armazenamento, geralmente, menos de 1% do volume afluente médio anual, por vezes, apenas 0,1%.
 Apesar de índices tão baixos, os reservatórios acumulam grandes volumes de água, com milhões e bilhões de metros cúbicos, como o Castanhão, um açude oceânico que pode ser visto da lua.
 Os açudes são construções públicas federais, estaduais, municipais, particulares e de cooperação, somando, hoje, o fantástico número de 70.000 reservatórios superficiais, tornando o Semi-árido, a região mais açudada do Planeta. Não há região no Globo, árida ou semi-árida, com tamanha capacidade de acumulação, um cubo de 37 bilhões de m³, um terço do que o São Francisco despeja anualmente no Atlântico. Numa distribuição geográfica eqüitativa disporíamos de um açude a cada 14 km² por toda a superfície do Polígono das Secas.
 Os açudes se multiplicaram com métodos construtivos cada vez mais avançados. Vejamos alguns, acima de 100 milhões de m³ acumulados, verdadeiros mares interiores: Aires de Souza, CE (104 milhões de m³), Saco II, PE (124 milhões), Cedro, CE (126), Pompeu Sobrinho, CE (143), Caxitoré, CE (202), Serrote, CE (250), Acauã, PB (250), Eng. Ávidos, PB (260), Gal. Sampaio, CE (320), Pentecostes, CE (400), Boqueirão, PB (420), Pedra Branca, CE (425), Serrinha, CE (500), Poço da Cruz, PE (504), Epitácio Pessoa, PB (536), Araras, CE (1,0 bilhão de m³), Coremas-Mãe d´água, PB (1,4 bilhão), Banabuiú, CE (1,7 bilhão), Açu, RN (2,4 bilhões), Orós, CE (2,5 bilhões), Castanhão, CE (6,7 bilhões). Só estes 22 mega-açudes construídos no Semi-árido acumulam nas suas bacias 20,3 bilhões de m³ de água, volume equivalente a 8 vezes e meia a baía da Guanabara, a segunda maior baía do litoral brasileiro.
 Os açudes não secam, são reservatórios plurianuais, inter-anuais, projetados e construídos, com aprimoramento e rigor técnico, pelos engenheiros do Brasil, sobretudo nordestinos, comparados aos melhores hidrólogos egípcios. Cada projeto exige todos os dados climatológicos da bacia hidrográfica em questão, pluviometrias, fluviometria, vazões, run-off, quociente de evaporação, índice de armazenamento, tudo é definido em projeto, inclusive a ciclicidade das secas da região com toda sua série histórica. São analisados e selecionados os materiais usados em cada obra. É tecnologia avançada de alto nível. Citemos, como exemplo, Pinhões, um açude de 15 milhões de m³, considerado de pequeno porte, construído no riacho divisor dos municípios Juazeiro e Curaçá – BA. Situa-se na região mais árida do Brasil, precipitação de 380 mm/ano e evaporação de 4.000 mm ao ano, quase a mesma evaporação do mar Vermelho, situado entre os desertos da Núbia e Arábico. Pois bem, este açude nunca secou, tendo, inclusive, um pequeno sistema de irrigação. Milhares de outros açudes podem ser citados. Quase todos os grandes açudes de Nordeste têm projetos de irrigação implantados, e muitos deles com geração de energia hidrelétrica. São açudes que não podem secar e, realmente, não secam.
 Construímos, durante 100 anos, com muito orgulho nordestino, o maior patrimônio hídrico do Mundo na captação de chuvas, uma das grandes conquistas da humanidade em terras áridas, uma verdadeira AGUABRÁS, e, num determinado momento, joga-se tudo pela janela, não serve mais, vamos transpor o São Francisco, é melhor.
 Senhores do nosso Brasil, políticos, governantes, religiosos, administradores, profissionais, executivos e toda a sociedade. A solução para o atendimento às comunidades sertanejas está na distribuição dessa água. A infra-estrutura está pronta, basta implantar um vigoroso sistema de adutoras. Os nordestinos serão todos atendidos e assistiremos na AGUABRÁS, o grande naufrágio da “indústria da seca”.

 

o autor é eng civil,  ex-diretor regional do DNOCS, da CODEVASF, sec. executivo do CEEIVASF e consultor da SRH/MMA

açude orós sangrando. foto sem crédito. ilustração do site.

PEQUENAS CONSTATAÇÕES, na falta de maiores por josé zokner (juca)

Constatação I
Quando o obcecado convencido recebeu um e-mail, cujo título dizia “Cuide bem do seu amor”, incontinente pensou: “Eu já cuido – e bem – de todos os meus amores. Afinal, eu não tenho culpa se a minha fama transcende aos esquemas midiáticos consagrados e é divulgado por elas boca a boca”.

Constatação II

Não se pode confundir devidas com dívidas, até porque nem todas as dívidas, devidas, são quitadas, como, por exemplo, as dívidas de campanha (não confundir com promessas. Essas, nem falar). A recíproca é verdadeira basta ver os cheques devolvidos, os seproc’s da vida e coisas desse jaez.

Constatação III

E como comentava a menininha para sua coleguinha depois da aula: “Acho que a professora esqueceu algo, hoje, na aula de ciências. Ela disse que nós somos formados essencialmente de carne e osso. Será que ela esqueceu do silicone?”

Constatação IV

Deu na mídia: “O cantor e compositor Paulinho da Viola e a atriz Helena Ranaldi foram vítimas da violência do Rio”. Como os meus prezados leitores podem constatar, também, a violência, por não escolher as suas vitimas, está cada vez mais democrática e sem preconceito…

Constatação V

Rico se insinua; pobre é convocado.

Constatação VI

E como dizia aquele sujeito que se considerava de Esquerda quando constatou que o professor que havia sido escolhido para paraninfo de uma turma da faculdade, reconhecidamente de Direita, havia se negado, peremptoriamente, a mostrar, previamente, seu discurso ao reitor e aos censores de plantão, no tempo da ditadura: “Pela primeira vez na minha vida sou obrigado a me solidarizar com um cara da Direita…”

Constatação VII

E na festa a fofoqueira cochichou para sua comadre: “O Braga – não o Ney Geraldo Braga, que é gente fina – tava comendo desbragadamente; o Fraga, nas eleições, foi derrotado fragorosamente e o Franco, aquele que é meio pirado, deu de falar, para ele mesmo, nada francamente”.

Constatação VIII

Ela inovou com verborragia a escrita: A sua carta, de 20 laudas, só continha besteirol, blablablá e nhenhenhém.

Constatação IX

Rico enriquece cada vez mais, pobre empobrece como rico enriquece.

Constatação X

Rico administra com brilho mágico; pobre com realismo mágico.

Constatação XI

Rico guarda seus tesouros a sete chaves; pobre não precisa.

Constatação XII

Rico começa sua vida profissional, na pior das hipóteses, como assistente; pobre, na melhor das hipóteses, como ajudante.

Constatação XIII

Rico é um vulcão no mundo dos negócios; pobre, um iceberg se derretendo pelas lavas do vulcão.

Constatação XIV (Mensagem do Professor Luiz Gonzaga Paul, meu ex-colega no Badep – Banco de Desenvolvimento do Paraná S.A. e meu conselheiro para assuntos relacionados com o nosso rico vernáculo).

Natureza nossa, que estais nos céus e na Terra,
preservada seja vossa beleza e graça dos primeiros tempos.

Tenha o homem senso ecológico em todos os reinos,
reparando os danos causados assim na Terra como nos céus.

Alimentos e águas puras de cada dia, mereçamos hoje,
e longe de nós as ofensas ao meio ambiente
mesmo à custa de nosso lucro e bem-estar.

E não nos deixeis cair na tentação
de achar que a vida na Terra é infinita e tudo vence,
mas fiquemos sempre alerta na defesa do patrimônio natural
Assim seja!

FELIZ dies solis invicti natalis ou simplesmente: FELIZ NATAL por marilda confortin

Jesus Cristo não tinha certidão de nascimento. Por isso, na idade média, um monge chamado Dionysius Exiguus, que nasceu na Cítia Menor (região da atual Romênia ou Bulgária) foi encarregado pelo Papa João I, de fazer pesquisas históricas e propor um calendário que unificasse os vários sistemas de contagem cronológicas existentes na época e marcar o início da era cristã.Baseado nos precários registros históricos, nos seus conhecimentos matemáticos e astronômicos e, aproveitando uma festa pagã muito bonita que homenageava o dies solis invicti natalis, isto é, o solstício de inverno, ou momento em que o sol se dirige para o norte para retornar a sua posição mais elevada, o monge fixou o dia 25 de dezembro do ano 1, como a data provável do nascimento de Jesus. É claro que essa data foi contestada pelos astrônomos que afirmavam que os três reis magos foram conduzidos até a manjedoura pelo cometa Halley cujas aparições já eram conhecidas bem antes de Cristo e não aconteceram em dezembro. Os historiadores diziam que o recenseamento ordenado pelo imperador César Augusto e pelo qual o casal José e Maria se locomoveram até Belém não aconteceu no inverno e que o ano da matança de criancinhas ordenada por Herodes também não batia com o calendário criado pelo monge. Mas criar um calendário, não era e não é uma tarefa fácil. Até o papa Gregório III admitiu haver um erro na contagem dos dias no calendário Juliano e promoveu uma reforma em 1582, criando o calendário gregoriano que foi então adotado pela maioria dos países católicos. Enfim, se Ele nasceu ou não nesse dia, já não importa. O Natal é atualmente a maior festa dos cristãos e do comércio mundial.Sobre a vida de Jesus até os 30 anos, também não se sabe muito. A começar pelo nascimento. Falaram mal da mãe dele quando apareceu grávida. Quem seria o pai? O Espírito Santo? O Arcanjo Gabriel? O carpinteiro José? Sabe Deus… sempre falam mal das mães solteiras. Os mais de 60 evangelhos apócrifos (relatos não reconhecidos pelo Vaticano), contam algumas peraltices Dele na infância, mas se tivermos coragem de perguntar para nossos vizinhos, professores e parentes, como éramos quando crianças, também colocaremos sob suspeita algumas histórias, não é? Um fato comum narrado na Bíblia e nos evangelhos apócrifos, é a famosa passagem da fuga do menino Jesus aos 12 anos em Jerusalém. Dizem que só foi encontrado alguns dias depois, discutindo teologia com um grupo de sábios e questionando os doutores da lei. Quem foram seus professores? Onde será que ele adquiriu todo aquele conhecimento? Numa escola pública ou seus pais tinham dinheiro para pagar mestres particulares? Será que ele levou umas palmadas por ter fugido ou se perdido dos pais? Profissionalmente, sua história também é cheia de altos e baixos. Nunca teve salário fixo nem carteira de trabalho assinada. Fez estágio na carpintaria do pai, aprendeu a arte do pastoreio, da pescaria e como guardião de um templo sagrado expulsou a chicotadas um bando de mercenários que faziam negócios ilícitos. Conhecedor da medicina, fez muitas curas e até ressuscitou algumas pessoas. Zangou-se com uma árvore preguiçosa que não lhe deu frutos e inventou o figo seco. Multiplicou pão e vinho e distribuiu pra galera. Fez vários sermões filosóficos, e questionou o regime político da época. Era exigente na escolha dos seus discípulos. Sua melhor amiga e confidente, foi Maria de Madgala, mais conhecida como Maria Madalena. Era uma mulher independente, culta e corajosa, que por não aceitar a tutela de nenhuma figura masculina da época, foi difamada e acusada de prostituta, mas os decifradores de códigos do século da Vinte, concluíram que ela foi a mais importante discípula de Jesus e que disputou a liderança dos grupos cristãos com São Pedro. O machismo era evidente naquela época. Dentre todos que o seguiram durante os anos de vida pública, ele nomeou somente 12, a quem chamou de apóstolos e concedeu poderes espirituais. Todos eram barbudos, cabeludos e se tratavam por irmão ( Eaí mano, tudo belê?)Não se conformou com a morte de seu amigo Lázaro e tratou de ressuscitá-lo.(se você pudesse, não ressuscitaria aqueles entes queridos que partiram?). Gostava de comer bem: Carneiro assado, peixe e um bom vinho (e quem não gosta?)Foi acusado por questionar os impostos, traído por um amigo, julgado e condenado injustamente. Engraçado, muitos dos meus amigos, têm histórias bem parecidas com a Dele… E eu também não sei a data de nascimento dos meus amigos. Não escrevi mensagem, não estive presente quando precisaram, não comprei presentes e nem fiz festa nos seus aniversários.  Péra aí… mas Jesus era diferente!Você também é uma pessoa ímpar.  Mas Ele era um santo, pregava o amor, a paz, a justiça, igualdade… E você não prega essas virtudes? – Mas Ele era um mestre! E você não é um mestre naquilo que faz? – Mas Ele foi julgado e condenado injustamente!E você nunca foi injustiçado?– Mas Ele foi crucificado! Vai me dizer que nunca te pegaram pra Cristo?– Mas Ele era filho de Deus!E você não é? Olha, com todo o respeito que Jesus merece, eu vou comemorar o Natal como se fosse o aniversário de todas as pessoas que amo, inclusive o Dele. Porque assim como Jesus, as pessoas que amo são justas, honestas e fazem muito bem à humanidade. Merecem meu respeito, meus parabéns e uma grande festa de aniversário, mesmo que eu não saiba o dia certo do seu nascimento.

AMOR TARDIO conto léo meimes

Vários e vários dias se passaram desde que aquele homem se apaixonara pela última vez e não menos forte do que as outras paixões foi esta que agora o aprisionava. Entrou em situação tal que todas as tardes, ao horário que sabia que sua amada terminava seus afazeres, ele se sentava na praça onde ela passava. Via aquelas inúmeras crianças que neste horário saiam do colégio, observava os bares com pessoas ao fim do expediente, dava pipocas às pombas e comprava doces em banquinhas, só para ter uma desculpa para aquele horário estar lá. Tinha um lugar de preferência, um banco bem em frente ao local onde ela aparecia. Ficava ali ansioso, roendo unhas e se mordendo de ciúmes dos colegas e amigos de sua perdição. Quando ela saía do grande prédio, ele muitas vezes levantava ansioso e fitava aquela face alegre e sempre sorridente. Ela tinha pernas e braços roliços, pele lisinha, um corpo magnífico, e era exuberante em seus gestos e movimentos. Cabelos enormes que desciam pelas costas até encontrarem as curvas do traseiro. Tinha uma pasta, que normalmente era carregada por um de seus amigos, ou colegas. Sua presença sufocava de tal maneira este homem que ele queria gritar e bradar algo em sua cólera de amor. Isso ele não fazia. Passava às vezes a manhã e a tarde pensando em coisas, assuntos e formas de conhecer sua amada. No sonho todas essas tentativas pareciam lógicas e cabíveis, mas na hora ela o deixava totalmente inerte.

Incrivelmente ele tinha a certeza de que ela sabia que era especial. Suas formas de andar, conversar, rir e de tocar as pessoas, insinuavam que ela tinha a absoluta certeza do que causava aos homens. Os homens em seu apetite voraz pelo sofrimento e pelos seus desejos mais púberes, deixam se levar por estas provocações. Seus amigos estavam completamente absortos em uma emanação de vida e desejo vindos daquela criatura que aparentava ser tão delicada. Essa luz, esse brilho talvez nem todos os homens consigam perceber de imediato, pelo menos não os que nunca tenham tido um contato primeiro, uma iniciação. Porém é difícil que tal pessoa exista. Nós crescemos, vivemos na presença destas incríveis figuras, tentadoras, delicadas e absolutamente lindas. Mas já vos digo, como este homem poderia confirmar, não são todas que assim nos levam à perdição. Digamos que numa sala com quarenta apenas uma, ou nenhuma, consegue tal proeza. As que conseguem o fazem por um motivo: sabem. Elas sabem, como já foi dito, que têm este poder, e o usam. Fazem de tudo para que sua presença seja a mais tentadora possível. Por isso que nós vemos agora ali nosso herói, agonizando em desespero, por não conseguir uma palavra, um gesto vindo de tal criatura que fosse destinado a ele.

Perdeu as contas de quantas coisas já havia feito para chegar a ela. Havia comprado pipocas no pipoqueiro que ficava imediatamente à frente de onde ela saía e o máximo que conseguiu foi vê-la e quase tocá-la. Conseguiu sentir o cheiro dos cabelos, da pele. Ele, apesar de todo o desespero por aquele amor, sabia que era quase impossível tal relação, afinal ele mesmo já tinha uma esposa e até filhos. O que acontece é que seu amor não era nutrido de possibilidades e sim de um fluido mágico que continha todas as emanações que vinham de sua amada e que penetrava em seu corpo toda vez que a via, fazendo seu estômago gelar, e sua mente desvairar em loucuras lógicas para o amor. Estava viciado em tal sensação. A simples visão da pele branca, do sorriso grande e do movimento dos cabelos lisos já lhe era o suficiente.

Para seu desespero, um dia estando ali em seu destino diário, tentou se aproximar mais uma vez da multidão que saía daquele prédio junto com ela, comprou uma pipoca, como desculpa e acabou encontrando um amigo de passagem. Em conversas se esqueceu do que estava planejando e entrou cada vez mais nos assuntos debatidos. Mas em um relance de descuido, sua musa passou e ele com um olhar de lado, conseguiu ver que ela não só o tinha fitado como havia encostado os ombros em suas costas, o fazendo arrepiar. Petrificou. Perdeu o rumo da conversa e seu amigo até pensou que ele estava passando mal. No outro dia entusiasmado com um simples olhar recebido sentou-se no banco que ficava imediatamente à esquerda de onde ela saia, e com um pacote de pipocas começou a alimentar os pombos. Foi jogando o alimento aos pássaros e não percebeu quando em sua volta havia já uma imensa revoada. No que as crianças saíram do colégio a confusão foi tal que muitos pisaram e sem querer chutaram os pássaros. Eis que em meio aquela situação surge sua perdição, repreendendo um menino que estava tentando chutar os pombos. O homem a fitou como ela fizera no dia anterior, e já não sentiu tanto frio no estômago. Ela em retribuição ao olhar, comentou “você é que dá comida a esses pombos? Eu sempre vejo o senhor com sacos de pipocas”. Sua voz foi tal que o homem entrou em transe, seu mundo só pertencia a ela e ela era agora seu mundo. Com um gesto instintivo ele ofereceu a ela um saquinho de pipoca, sem dizer nada. Ficou ali parado esperando uma resposta, que veio quando ela ao seu lado sentou e pegou-o de sua mão. “Qual seu nome?” foi a primeira pergunta que lhe veio em mente. “Maria”, respondeu a delicada criatura. “Você parece ser muito nova, Maria, meu nome é César e não precisa me chamar de senhor” disse nosso herói.

 “Sim, tenho quinze anos”, respondeu Maria…

OBREIRO poema de joão batista do lago

Desorientado!
Sim, desorientado saíra de casa…
Casebre.
No caminho do trabalho ia mastigando sua febre de 40º,
ruminando desespero do filho sem leite,
da mulher recém parida,
que ficara na casa – casebre! –
já quase sem vida.
E ele, obreiro de muitas obras,
de tantas e quantas obras,
não tinha obra nenhuma para doar à família.
Toda obra que construíra fora para pagar o salário miserável que consumia no dia-a-dia da sua miserável vida.
Ruminava e ruminava.
Ruminava inconsciente a caminho do matadouro
onde entregaria sua mente a preço vil,
sua força de trabalho restaria na produção covil.
No dia seguinte tudo se repetia.
Ainda assim esperançava um dia
ser dono da mais valia que lhe roubava o pão nosso de cada dia.
E pensava:
“Antes de morrer hei de ver meu filho banhar-se de leite,
minha mulher entre sedas, pedras preciosas e ouro…
Hei de ver! Hei de vencer!”
Passava o tempo e todo dia a mesma coisa se repetia:
refém da mais valia, mas esperançava sempre – um dia! –,
o velho trabalhador, ter a alegria de ser livre,
de não ser apenas um sofredor; ser dono da sua força de trabalho,
não ser apenas o curinga do baralho ou apenas peça descartável do mercado.
Hoje, velho e maltrapilho… (maltratado!), arrasta-se entre ladrilhos de esperanças, contudo espera que sua criança – ainda sem leite! – não perca a esperança de um dia ser dono da sua laborança,
que seja refratário ao vil capital do consumo,
que seja libertário e que não se deixe pregar à cruz,
para de lá, como eu, apenas dizer:
“consummatum est!”

MÃOS no FUNDO poema de darlan cunha

           
Abranda em teu ser o cansaço
de não saberes de onde partiu tanta noção
de beleza, acalma em ti
o medo de que venhas tudo perder, desce comigo
esta rampa rumo ao Espanto, vamos
que o sol dura apenas um dia, descansa, e retorna
para perguntar aos nossos ombros
o que fizeram em sua ausência.

Vamos, desçamos a rampa, subamos
o que houver para subir.

POEMA de namibiano ferreira/ angola

namibiano-ferreira-foto-angola02_161.jpg

A ngoma tem a pele negra
boi, vaca ou pacassa
troando a noite antiga da tradição
às mãos negras do tocador.
Eu queria ser ngoma, kissange, dicanza…
vibrar como ngoma velha de pele negra
e como os outros, num grito universal,
proclamar aos mistérios da selva, da savana
e do mundo inteiro e imundo
a impossível renúncia que aflora à alma
como albufeira imensa do Cuanza distante. Eu queria ser ngoma, kissange, dicanza…
na Rota do Sul perdida e por achar
nas ondas da calema
e na maré louca para voltar.
Ba-tam-tam-tam; ba-tam-tam-tam
ritmo de ngomas
ngomas do mato
angolana saudade dos batuques do Sul
desse meu Sul: rota antiga imortal
vibrando-vibrando na alma ngoma
despida de sal.

Aiuê! minhas ngomas do sul da saudade.Ba-tam-tam-tam; ba-tam-tam-tam

Ngomas – instrumento de percusao, tambor.Pacassa – genero de boi selvagem.

Kissange e dicanza – instrumentos musicais angolanos.

AS AMANTES e o COMPADRE conto de jb vidal

          a segunda dose de uísque, é sempre melhor que a primeira e as outras.   
          eu estava nela. absorto.
          tamborilava com dois dedos a borda do copo suado, olhando as pequenas quedas das pedras de gelo que lentamente derretiam. sentia-me àquilo.
                  
          “olá!? posso sentar-me com você?” levantei os olhos com preguiça “é que o restaurante está cheio e pensei que…” eu estava de saco cheio, cansado, irritado por que  tinha que definir uma situação e definir é sempre uma merda.   “como queira” “atrapalho? está aguardando alguém?” “ porque as pessoas são assim? você mal chegou e já quer saber da minha vida, porra!” “desculpe, não tive a intenção de…” “e assim também! quando percebem que erraram, recuam, se arrastando em cima de uma falsa humildade! é repugnante!”
                  
          era uma sexta-feira e a semana havia sido a pior de todas. tudo errado.
          o clima paulista, cinzento, depressivo, morno e gosmento. 
                  
          eu estava disposto a deixar S. Paulo, depois de dois anos de trabalho naquele inferno e sem ter um espaço exclusivo.
          ora me hospedava no apartamento do Lidio, amigo e compadre, ora nos das amantes.
          com elas, já sabia, seriam dois, três meses e viriam as reclamações e cobranças “você chega muito tarde!” “ nos finais de semana eu não existo!”  “onde vais?” “ me acorda de madrugada, bêbado, pra foder!” enchia o saco.

          voltava para o apartamento do compadre.
                   
          na manhã daquela sexta-feira, andei em círculos pelo centro da cidade, buscando uma saída. ainda procurava quando entrei no Filé do Morais, na São João, para tomar alguma coisa; coisa? coisa nada, uísque.
                   
           assim estava, quando chegou aquela  sem-mesa.
         
         
                  “puta que o pariu você é intratável! está de mal com o mundo é?…pouco me importa! vou almoçar e ir embora! você que vá para o inferno com esse mau humor!  nem te conheço!”
                    
                  o gelo derretia e eu junto.
                    
                  olhei de soslaio, notei que não era feia. é um bom começo.
                  mas minha libido estava à zero.
                     
                  “escute aqui sua charope duma figa! você entrou, pediu para sentar, eu permiti. o que tinhas que fazer? hein? hein? heeeeeein? não sabes? eu respondo, tinhas que almoçar e dar o fora, porra! não tinhas que perguntar nada, não tinhas que querer saber de nada, porra! se atrapalhasse ou estivesse esperando alguém não permitiria, entendeu? entendeeeeeeeu? merda!” porque gesticulava muito, bati com a mão no copo de uísque que voou para o chão, espatifando-se.
                  como sempre, todos aqueles olhares escandalizados, censores, como se nenhum daqueles filhos da puta tivessem quebrado um copo alguma vez. 
                  “hipócritas! a humanidade apodrece diariamente e eu sem forças vou de arrasto”.
                     
                  ela pegou a bolsa e levantou. os olhos choravam.  
                  levantei, e antes que se afastasse da mesa, tomei-a pelo braço e disse gritando “não pense que você vai chegar aqui como um vendaval, arrasar com tudo e ir embora, não! vai sentar aí e vamos resolver toda essa merda!”
                 
                   sentou-se aos soluços.
                     
                  eu sou uma bosta. não posso ver mulher chorar.

                  “garçom! dois filés antes do ponto e muito agrião”.

                  fodemos o resto da tarde no apartamento dela. “não vá meu amor!”
                  não fui. por três meses.

FÚRIA

sobre o comunismo

uma teórica vitória do comunismo em ambito mundial não alteraria em nada a minha vida.
aristóteles onassis

PAPAI NOEL: Barba caída, vira-latas e um saco vazio – por fabrício alves

Neste sujo e pobre país de terceiro mundo, o Papai-Noel, mais do que um “bom-velhinho” símbolo do capitalismo, é, para a maior parte da população, símbolo do nada, símbolo de dias em que uma pequena parte de nossa sociedade desigual se diverte, juntamente com suas crianças, enquanto a maior parte apenas tenta sobreviver e o que é pior, diante de presentes e felicidades intangíveis que inundam os meios de comunicação cada vez mais acessíveis.

O papai-noel moderno e suas representações agravam ainda mais o sentimento de pobreza, miséria, solidão e tristeza, numa época em que se ressalta justamente o inverso disso, a alegria, a abundância, enfim, o espírito natalino que hipnotiza as pessoas de uma maneira que nem George Orwell imaginaria na época em que escreveu sua obra “1984”.

Papai-noel é um grande-irmão sazonal, que ataca nos meses de dezembro, num período de comemorações cristãs, onde os presentes dados representam a alegria do nascimento de Jesus Cristo, que se vivesse neste admirável mundo novo ao qual fazemos parte, seria mais um dos excluídos e que ganharia no máximo algumas balinhas do “bom-velhinho”.

Ele não entra nas favelas, pelo menos não a versão clássica, que distribui videogames, DVDs, carrinhos de controle remoto e bonecas que andam, falam e se vestem muito melhor que as crianças que recebem o bom-velhinho pobre, terceiro mundano, versão básica, de barba caída, as renas transformadas em vira-latas moribundos e um saco vazio, cheio de presentes imagináveis. Este sim, que é o verdadeiro espírito natalino da nossa sociedade.

O Natal moderno representa um sonho, um mundo irreal criado para divertir as pessoas, pelo menos aquelas pessoas a quem se interessa divertir, aquelas que possuem o poder de decisão e compra, aquelas cujas mentes influenciam outras a manterem o sistema como está, que incentivam a aceitação da irrealidade e ainda colocam isso como algo positivo e correto. Não se contesta aqui a união e a felicidade, mas sim, a união e a felicidade comprada, cega e ignorante, que agrada poucos e fere milhões.

E como no fim, torturados ou não, todos se entregam e se submetem ao grande-irmão, papai-noel vence mais uma e ataca com força total, aliado da mídia e de todos os veículos de comunicação possíveis e imagináveis, nos induz a gastar dinheiro com presentes que agradam a parcela “cega porém feliz” da população, mantendo vivo todo o esquema de exclusão social e marginalização da maioria, mantendo tudo como está, até que chegue o outro ano, e depois outro, renascendo das trevas e renovando eternamente o ciclo.

EXÍLIO por frederico fullgraf

Uma crônica de Ano Novo
A onze mil quilômetros de distância e apesar da curvatura dos meridianos, Berlim acha-me em minha ocultação, acelera os batimentos, lateja nas têmporas,  aguilhoa o peito. De saudade do Ano Novo, se não branco, com muito frio de rachar os lábios – para os não viageiros, os sedentários geográficos, uma labiríntica, impenetrável sensação de plenitude, que a espuma leitosa do chope de beira de calçada, nesta insípida província subtropical, não conseguirá compensar; acentuar, sim, a sensação de perda irreparável. Caminho por Curitiba neste interstício dos anos e não encontro o sublime; apenas o silêncio do desterro, a paz do simulacro.

O grande andarilho berlinense e também filósofo, Walter Benjamin, compôs sua prima Obra das Passagens durante caminhadas por Paris, recuperando na cultura dos arcos de ferro das gares e na pintura panorâmica, a literatura da modernidade e o dandy Baudelaire. Flanar … E eu, o que faço: embarco na jardineira para turistas e deixo-me perscrutar pelo olho cego de Oscar Niemeyer, ou jogo-me da ponte da Ópera de Arame, matando comigo uma dúzia das nobres carpas japonesas, enfartadas de susto? Sei que, se bater à porta de seu mal-assombrado solar da Ubaldino, o Vampiro me acolherá, comovido, e, exultante, blasfemará sobre os ícones de um alcaide mentiroso e a carranca de um … adelantado raivoso: ”essa tua cidade não é a minha // bicho daqui não sou // no exílio sim órfão paraguaio da guerra do Chaco”… Choraremos um no ombro do outro, mas a angústia será inconsolável…

Estou mortificado de saudades: do meu amigo Mário José, de seus pantagruélicos jantares, regados com os melhores vinhos do Douro; do João, também português e fujão da tropa em Angola, que comandava uma taberna sob os arcos de um viaduto do trem; das incendiárias discussões ideológicas; das ingênuas utopias; dos pequenos crimes aduaneiros (comprar a vodca Wyborowa, com gramínea de búfalo, em Berlim Oriental, para burlar a receita federal do Ocidente e retornar, triunfante, a Berlim West); das transgressões do corpo no lago Wannsee (nadar na suave noite de verão e ser flagrado, nu em pêlo, pelos holofotes da guarda de fronteira, na margem “comunista” do lago); da porta da casa de Hans Magnus Enzensberger abrindo-se e na sala um Gabriel García Márquez bailando, borracho, ao som de I can´t get no satisfaction… (tivesse-o filmado naquela noite e financiaria meu  réveillon em … Cartagena de las Índias, embalado pelo som de uma habanera!)

É comparação covarde, mas que se dane!: sinto enorme falta de oito livrarias por quadra, galerias também, da pizza “Katástrophe” do tresloucado iraniano (mussarela, ovos, calabresa, pepperoni, e – arggh! – re-po-lho ro-xo!!), do Café Kranzler chique-cafona (onde as dondocas serviam torta de maçã com chantilly na boquinha de poodles e pinschers), do sorvete de creme com figo fresco e calda de pimenta verde (receita grega – do Jardim Perfumado?), das mulheres mais bonitas do continente; excluídas as sempre pálidas feministas da livraria Lilith, da qual fui expulso apenas (digo: exatamente)  por ser homem. Mas até dessas mal-amadas tenho saudades! Do cobrador da Linha 19, latindo com sotaque grosseiro, da velhinha do metrô, reclamando do vento encanado (apesar de todas as janelas fechadas), da caixeira da padaria, desejando mentiroso “bom-dia!”, da catinga do taxista que não tomava banho há uma semana: desses  não levo saudade nenhuma.

Sinto-me apoquentado, flagelado, com saudade da Vida, de um fado dilacerante ou uma syrtáki chamejante, de um grito contra a pasmaceira ou um beijo no asfalto, de uma pedra no ar, da bicuda restolhada de um vidro estilhaçado – enganoso delírio geográfico: a vitrine do shopping não é a fachada do America House, nem a choldra indolente e consumista será alguma manifestação contra o efeito-estufa…

Exílio: um amigo, poeta, confessou-me certa vez que, apesar de nascido aqui, sentia-se o próprio pai desembarcando no cais do porto; mas com um pé enroscado no escaler. É o efeito-caranguejo. Benjamin morreu no exílio: se não se suicidou nos Pirineus, seu assassinato foi perfeito. E eu tenho medo de morrer em Curitiba, de morte imbecil, destituída de aura e heroísmo: no Bar Stuart, por exemplo, entediado com o discurso do último leninista de plantão, alternando com mais um plano de romance ou filme mirabolante de outro curitibano aparvalhado, ou atropelado sob a ponte preta da João Negrão (temível Oráculo de N.S. da Luz dos Pinhais,  já em 1994 o Vampiro esbraveja:”capital mundial dos assassinos ao volante // santuário do predador de duas rodas sobre o passeio // na cola do pedestre em extinção”). De todas, porém, abotoar-me frente a frente com um macaco-prego melancólico, em pleno Passeio Público, é o espectro de causa mortis mais desgraçado que me assalta. Preciso sobreviver até o Ano Novo e aliviado me lembro que ainda me resta a lembrança! Contudo, minha falta de sorte não poderia ser mais esdrúxula. Sinto saudades de uma cidade que não existe mais: o muro caiu, o cenário ruiu, meu poema sobre o casario atrás dos chorões à margem do Spree, sumiu; durante a volta para o cemitério dos elefantes – não se escreve a mesma estória duas vezes. E enquanto este ano nefando não se despede, sinto-me deslizar para o nada; aquele poço entre o casco do navio e a parede do cais (fantasiar-me de branco, jogar uma rosa, fazer um pedido a Iemanjá… Em Praia de Leste? Capaz!.

E AQUI ESTOU CANTANDO poema de cecilia meirelles

   

Eu canto porque o instante existe

E a minha vida está completa.

Não sou alegre nem sou triste:

Sou poeta.

 

Irmão das coisas fugidias,

Não sinto gozo nem tormento,

Atravesso noites e dias

No vento.

 

Se desmorono ou se edifico,

Se permaneço ou me desfaço,

– não sei, não sei. Não sei se fico

ou passo.

 

Sei que canto. E a canção é tudo.

Tem sangue eterno a asa ritmada.

E um dia sei que estarei mudo:

– mais nada.              

CARTESIANISMO e ESPIRITISMO por sérgio biagi gregório


1. INTRODUÇÃO

O objetivo deste estudo é mostrar o grau de influência que o racionalismo de Descartes exerceu sobre os princípios básicos codificados por Allan Kardec. Para a compreensão do tema, analisaremos: contexto histórico do método, visão geral do Cartesianismo, os problemas tratados por Descartes e os problemas tratados por Descartes à luz do Espiritismo.

2. CONTEXTO HISTÓRICO

Na Grécia antiga, berço da civilização ocidental, o pensamento dos grandes filósofos estava assentado no método dedutivo, em que o conhecimento era construído partindo-se do geral para o particular. “Para Aristóteles, o método da filosofia é a lógica, ou seja, a aplicação das leis do pensamento racional que nos permite passar de uma posição a outra posição por meio das ligações que os conceitos mais gerais tem com outros menos gerais até chegar ao particular”. (Garcia Morente, 1970, p.39)

Na Idade Média, período histórico em que predominava o movimento filosófico e religioso denominado de Escolástica, o método é ainda dedutivo. O conhecimento era construído através dos vários silogismos aristotélicos, partindo-se do geral para o particular.

Na Idade Moderna, o método passa a ser indutivo, sem contudo desprezar de todo o método dedutivo. Francis Bacon (1561-1626) ao apresentar o seu Novum Organum, em que enfatiza o empirismo nas ciências, isto é, o conhecimento passa a ser construído partindo-se do particular para o geral. René Descartes insere-se nesse novo contexto da ciência.

3. CARTESIANISMO

3.1. RENÉ DESCARTES

René Descartes (1596-1650) nasceu em La Haye, França, pertencendo a uma família de prósperos burgueses. Estudou no colégio jesuíta de La Fléche, na época um dos mais conceituados estabelecimentos de ensino europeu. Foi soldado, esteve sob as ordens de Maurício de Nassau. Participou de várias campanhas militares. As obras de Descartes são de considerável extensão. As mais importantes são: Regras para a Direção do Espírito (1628), O Discurso do Método (1637) e Meditações Filosóficas (1641). (Jerphagnon, 1982)

3.2. SONHO PREMONITÓRIO

A dez de novembro de 1616, o jovem Descartes teve um sonho premonitório. Sonhou que o Espírito da Verdade o visitara e, reverente, tal como é natural à Entidade de sua estirpe, comunicou-lhe que lhe competia a missão de edificar uma “Ciência Admirável” , cujas coordenadas lhe trouxe em outra visita onírica. Houve, ainda, uma terceira, concluindo o esclarecimento devido. Ao acordar, preocupado com a responsabilidade de tão grande missão, pediu a Deus que o amparasse a fim de que pudesse fielmente cumprir a grande tarefa, tão acima de suas parcas forças. (São Marcos, 1993, p. 76)

3.3. O DISCURSO DO MÉTODO

3.3.1. TÍTULO ORIGINAL

O Discurso do Método para bem conduzir a razão e procurar a verdade nas ciências, mais a Dióptrica, os Meteoros e a Geometria que são os ensaios deste método. (volume de 527 páginas)

3.3.2. A DÚVIDA METÓDICA

Descartes analisa o conhecimento vigente e conclui que nada se lhe oferece, de modo indubitável, sobre o que possa fundamentar o seu trabalho. Tem que buscar alguma coisa fora da tradição, uma idéia, uma única que seja, mas que resista a todas as dúvidas. Toma como paradigma a geometria que partindo de algumas proposições certas em si mesmas, descobre outras verdades e esgota todas as possibilidades; também a filosofia deve, de igual modo, descobrir e demonstrar as suas verdades, dedutivamente, partindo de algumas proposições certas, indubitáveis. O edifício filosófico que lhe compete estruturar a de assentar, sobre uma verdade contra a qual nenhuma dúvida, a mínima que seja, possa pairar (São Marcos, 1993, p. 77).

3.3.3. AS QUATRO CÉLEBRES REGRAS

1.ª) Só admitir como verdadeiro o que parece evidente, evitar a precipitação assim como a prevenção;

2.ª) Dividir o problema em tantas partes quantas as possíveis (é o que se chama regra de análise);

3.ª) Recompor a totalidade subindo como que por degraus (regra da síntese);

4.ª) Rever o todo para se Ter a certeza de que não se esqueceu de nada e que, portanto, não há erro. (Jerphagnon, 1982)

3.3.4. INTUIÇÃO E DEDUÇÃO

Dois atos fundamentais nos conduzem à verdade: a intuição e a dedução.

A intuição é o conceito, fácil e distinto, de um espírito puro e atento, de que nenhuma dúvida poderá pesar sobre o que nós compreendemos.

A dedução é apenas uma série de intuições – e, como se pode sempre esquecer um momento da série, será necessário pela imaginação e pela memória habituarmo-nos a repassar cada vez mais rapidamente no nosso espírito os termos da dedução, até que leve a uma “quase intuição” (Jerphagnon, 1982).

4. PROBLEMAS TRATADOS POR DESCARTES

1 – PROVA DA EXISTÊNCIA DE DEUS: descubro em mim próprio, ser finito, a idéia do infinito. Ora, como não posso ser autor dessa idéia, é necessário que o autor seja Deus e que, portanto, ele exista. Daí surge o famoso cogito ergo sum, ou seja, “penso, logo existo”.

2 – RES COGITANS E RES EXTENSA: enquanto a razão se tornava alma, coisa pensante (res cogitans), o espaço, por seu turno, tornava-se realidade material, coisa extensa (res extensa). Esta é a dualidade cartesiana.

3 – UNIÃO DA ALMA E DO CORPO: prova que a alma é distinta do corpo. Para Descartes, a alma existe e isso deveria ser o suficiente. (Jerphagnon, 1982)

5. PROBLEMAS LEVANTADOS POR DESCARTES À LUZ DO ESPIRITISMO

1 – PROVA DA EXISTENCIA DE DEUS: os Espíritos informam a Allan Kardec que Deus é inteligência suprema causa primária de todas as coisas. Para o Espiritismo, não há efeito sem causa. Tudo enquadra-se na lei natural. Ao “Penso, logo existo” de Descartes, J. H. Pires escreve “sinto Deus em mim, logo existo”. Quer dizer, Deus não é percebido pelo pensamento, mas pelo sentimento.

2 – RES COGITANS E RES EXTENSA: para Descartes, o Universo é constituído de dois elementos fundamentais: res cogitans e res extensa. ssas duas substâncias cartesianas, em termos espíritas, são a inteligência e a matéria que, juntamente com Deus, formam a trindade universal.

3 – UNIÃO DA ALMA E DO CORPO: partindo-se de que alma e corpo são distintos Allan Kardec, com o auxílio dos Espíritos, informa-nos que o perispírito – matéria quintessenciada – é o elemento de ligação entre a alma e o corpo físico.

6. INFLUÊNCIA DE DESCARTES EM KARDEC

O método cartesiano pode ser vislumbrado nas entrelinhas da Doutrina Espírita. Allan Kardec, em várias passagens da Codificação, fala-nos que devemos colocar tudo sobre o crivo da razão; que é preferível rejeitar nove verdades a aceitar uma única verdade como falsidade; que a fé inabalável somente é aquela que consegue enfrentar a razão face a face em todas as épocas da humanidade.

7. CONCLUSÃO

Esse estudo do Cartesianismo serve não só para nos chamar a atenção sobre o tema, como também o de sugerir o desenvolvimento e aprofundamento do mesmo. Se assim o fizermos, vamos encontrando o verdadeiro encadeamento das idéias e uma explicação racional da síntese filosófica elaborada por Allan Kardec.

FERNANDO PESSOA pela editoria

Fernando Antonio Nogueira Pessoa nasceu em Lisboa em 1888, partindo, após o falecimento do pai e o segundo casamento da mãe, para África do Sul.
Frequentou várias escolas, recebendo uma educação inglesa. Regressa a Portugal em 1905 fixando-se em Lisboa, onde inicia uma intensa atividade literária.
Simpatizante da Renascença Portuguesa, rompe com ela e em 1915,  com Mário de Sá-Carneiro, Almada Negreiros e outros, esforça-se por renovar a literatura portuguesa através da criação da revista Orpheu, veículo de novas ideias e novas estéticas.

Devido à sua capacidade de «outrar-se», cria vários heteronimos (Alberto Caeiro, Álvaro de Campos, Ricardo Reis, Bernardo Soares, etc.), assinando as suas obras de acordo com a personalidade de cada heteronimo.
Colabora em várias revistas, publica em livro os seus poemas escritos em inglês e, em 1934, ganha o concurso literário promovido pelo Secretariado de Propaganda Nacional, categoria B, com a obra Mensagem, que publica no mesmo ano.

Faleceu prematuramente em 1935, deixando grande parte da sua obra ainda inédita. É considerado um dos maiores poetas portugueses. A sua personalidade desdobra-se nos seus heteronimos: Alberto Caeiro, o naturalista da percepção aparentemente ingenua dos objectos, Ricardo Reis, classicizante e estóico, Álvaro de Campos, espectacular e futurista, Bernardo Soares, autor da prosa intimista.
Além deles, Fernando Pessoa é,  por si só, um grande poeta do simbolismo e do modernismo, pela temática da evanescência, indefinição e insatisfação das coisas e dos seres, e pela inovação praticada por entre diversas sendas de formulação do discurso poético (sensacionismo, paulismo, interseccionismo, etc.)
 

FELIZ ANO NOVO!!

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POEMA DE TIGRES – poema de julio almada

01

As garras são meus olhos,
Esses que eram de qualquer outro,
E na ousadia de minha madrugada
Os instalei de súbito em meu corpo.
Olhos renascidos de não morrer
Onde a morte lhes visita a gravidade.

02

Instantâneos e profundos como a saudade:
Noturna matinal arenosa e incômoda.
Lobos aves folhas e olhar de um poço,
Labirinto circular de meus passos felinos.
O tigre dos gritos do meu corpo
Arrasto e não ouvem. Desfolho
Sem saber, o intento no meu rosto.
O Meu Sorriso não tem dizer.

03

Tigres de vôos não vistos,
Não há como ver a altura do imprevisto;
Nem como fugir a fuga dos que tem sina;
Nem como ser luz do que perdeu a vista,
Sem ser brilhar e entorpecer.
Os designados nunca são inteiros
Carregam em seus passos, pés dilacerados:
 As pernas e os fatos e as dores.

04

Não há destino exato para a semente no deserto.
Para implacável incerteza desperta.
Para o doer de tigres que desperto.
No tigre dói a não investida,
E assim o tempo cria em mim suas dores.

05

Se persigo veloz tudo que quero:
O fel tenho do não ter e das vontades;
Se passeio ronda a fera como fera,
A vontade que era grande me dilacera.
Sedento da fonte que não seca,
Faminto nas raízes da terra.
06

Quebro a armadilha do labirinto:
Inimigo do transitar das presas,
A prisão do desejo me encarcera.
Os gemidos solitários do secar das ervas:
São explosões inimagináveis do que se queima,
Fogo: angústia nas garras – olhos,
Captura a dor e a corrida do que vejo.
07

Não chamarei de tristes as afiadas unhas,
Nem de solitárias as vítimas da caçada.

08

Há os que praguejam seu destino.
Há os que o destino afaga e cala.
Há no círculo de luz a funda vala
Da fogueira extasiada de algo haver faltado:
Dois dias dois sábados dois olhos,
Ou a mágoa não ter evaporado,
Ou a viagem interceptada de lábios
Que queimariam a febre da fogueira.

09

Quebro nesta tarde com meu correr de tigre:
O braço da sina que me abraça.
Deixem-me por entre flores negras,
Por entre minhas não suavidades:
O tigre que sou – Só garras.
O homem que sou – Só olhos.

AS IDÉIAS poema de augusto dos anjos

“De onde ela vem? De que matéria bruta
Vem essa luz que sobre nebulosas
Cai de incógnitas criptas misteriosas
Como estalactites duma gruta?!

Vem da psicogenética e alta luta
Do feixe de moléculas nervosas
Que, em desintegração maravilhosas,
Delibera, e depois, quer e executa!

Vem do encéfalo absconso que a constringe,
Chega em seguida às cordas da laringe,
Tísica , tênue, mínima, raquítica…

Quebra a força centrípeta que a amarra,
Mas, de repente, e quase morta, esbarra
No molambo da língua paralítica!”

HERÓIS & DIAS AMENOS poema de altair oliveira

Temos que a vida não dói.
– Viver é tudo que temos!
Ao menos somos os heróis
Da história que nos fazemos.
E, enquanto o tempo nos rói,
Tecemos planos de engenhos…
Vamos em busca de sonhos
Usando de asas e de remos.

Galgamos sobre o passado
Buscando os dias amenos
Tememos sobre o futuro
Que nem sabemos se temos
Jogamos os nossos melhores
Tentando ganhos pequenos
Treinamos poses de heróis
Da história que nós queremos!

Enfim, nós somos assim:
Restos de tudo que fomos
Mas sempre somos heróis
Da história que nos contamos
Nos cremos por maiorais
Que, ao certo, um dia seremos
Morremos sempre no fim…
– Fingimos que não sabemos 

poema do livro O Lento Alento – 2007
O autor, que vive em Curitiba desde 1988, é poeta de fundo de quintal, de quitinete e canta luazinhas de desenhos de paredes. afirmação do autor.

A REVOLUÇÃO ORGANÍSMICA por fernando radin bueno

Uma análise sobre a mudança de paradigma

Em meio a um descontentamento de uma camada da comunidade científica e filosófica com relação ao mecanicismo subjacente às teorias materialistas da mente e à física newtoniana no estudo dos fenômenos físicos, surge uma nova abordagem para o estudo da mente, da sociedade e das relações entre os indivíduos que a compõem. Segundo Ludwig von Bertalanffy, em sua obra General System Theory, o paradigma da física newtoniana, que culmina na filosofia kantiana, já não era suficiente para responder a algumas das questões complexas decorrentes do desenvolvimento das ciências biológicas e comportamentais. Vendo lacunas no paradigma dominante, outros cientistas são conduzidos ao pensamento organísmico, e passam a olhar o mundo a partir dessa perspectiva, ou seja, passam a observá-la como organização complexa em constante mudança. O objetivo deste artigo é fazer uma crítica ao paradigma mecanicista a partir da Teoria Geral dos Sistemas, além de pensar nas conseqüências dessa teoria enquanto paradigma em ascensão na filosofia contemporânea.

Imediatamente ao se pensar em organismo várias imagens suscitarão em nossas mentes e categorias variadas estarão presentes em nossos pensamentos, podemos pensar desde uma célula até a constituição do universo que a essência do sistema certamente estará presente. Várias são as características de um sistema complexo, mas iremos nos aprofundar em apenas algumas delas, mais especificamente no conceito de interdependência entre as partes e interação destas com o todo. Qualidade inexistente no paradigma cartesiano, no qual as partes de um sistema eram independentes e autônomas, não constituindo vínculo relacional na formação e manutenção do conjunto, o conceito de conexão entre os elementos de um sistema é revolucionário. Realmente, a revolução organísmica conseguiu achar uma brecha no paradigma cartesiano e, a partir daí, infiltrar-se nele como uma rachadura crescente em um dick; nós podemos tanto contribuir para sua contenção como para a destruição da barragem cartesiana, tudo que devemos fazer é bater as assas.

O andar do relógio

Desde Descartes no século XVI até hoje muita coisa tem mudado, a roda do progresso não poderia ficar estanque. A hipótese levantada por Cartesio de que o universo, o ser humano e a natureza teriam sua constituição análoga a de um relógio suíço foi bem aceita pelos cientistas da época, o que não quer dizer que não houveram objeções. A idéia de que o ser humano teria sua constituição similar a de uma máquina – composto de peças, engrenagens e movimentos mecânicos – levantou grande polêmica e admiração, justamente por explicar algo que, até então, se revelava como misterioso e divino: feito a imagem e a semelhança de Deus, o homem, uma vez despido dessa maneira, teria nas mãos a chave para desvendar o enigma da existência; o racionalismo conquistaria um de seus maiores trunfos. Justamente a partir dessa estabilidade adquirida pelos cartesianos é que esse pensamento começa a ganhar espaço na comunidade científica, pois o objetivo da ciência era e é o de oferecer cada vez mais segurança e certeza em suas proposições e descobertas.

Nada poderia ser mais exato do que a matemática, nem mais perfeito do que o andar do relógio, era por ele que todos organizavam suas tarefas, era a referência comum. Precisamente por sua notoriedade e confiança é que o relógio foi usado como exemplo de sistema; construído por Deus, gozava então de bons precedentes podendo ser amplamente aproveitado como método seguro de se imaginar a vida e a realidade. O relógio simbolizou, para muitos autores, a ordem do universo. Seus movimentos são totalmente previsíveis. Para saber como funciona um relógio, basta desmonta-lo e compreender como suas peças se encaixam. Da mesma forma, para compreender a natureza, bastava desmontá-la, descobrir como funcionam suas partes e tudo se revelaria com espantoso reducionismo e determinismo.

Essa visão de mundo ganhou uma metáfora no Demônio de Laplace. O cientista francês propôs que, se uma consciência soubesse todos os dados de todas as partículas do universo e fosse capaz de fazer os cálculos necessários, teria condições de prever o seu funcionamento com perfeição. O Demônio Laplaciano teria diante de si o passado, o presente e o futuro.

“A inteligência suposta por Laplace seria onisciente, mas impotente para provocar qualquer modificação no curso dos eventos. Restaria a ela um olhar entediado sobre o porvir, pois nada poderia acontecer que não tivesse já previsto”. Isaac Epstein

Muitos críticos empiristas, dentre eles Hume, dirão que esse tipo de razão é indolente, já que o determinismo reduz a realidade a um jogo de cartas marcadas e situações pré-determinadas. Não é de se espantar que Hume será taxado de ateu, pois, ao pregar a autonomia na condução da vida humana muitos sentirão a negação da onipotência de Deus e a adoção de um pensamento laico naquela época não era muito bem vindo. A teoria mecanicista, por outro lado, gozava ainda de muito crédito, tendo sido reforçada pela física newtoniana, defendendo leis imutáveis e a concepção de uma realidade determinista e perene. A idéia de uma causalidade linear também adiquiriu grande força na época, pois, além de se encaixar nas concepções cristãs (gênese/apocalipse; nascimento/morte; início/fim), ainda oferecia um reforço ao determinismo, muito sensual para os cientistas da época. Se a partir do conhecimento de uma causa eu puder determinar sua conseqüência (ou vice-versa), então toda natureza pode ser conhecida e dominada pela razão; acreditava-se que a natureza devia ser torturada e interrogada para a partir daí liberar todos os seus segredos e submeter-se ao jugo da razão.

Porém, por mais que os cartesianos demonstrassem leis e princípios algo ainda permanecia vago, alguma coisa estava faltando. Com o desenvolvimento das ciências biológicas, comportamentais e da própria dinâmica da urbanização sentiu-se uma necessidade de se ir além, de superar a filosofia determinista e caminhar pela sua tangente. A idéia de interação entre os organismos e de sua interdependência causou dúvida na estrutura mecanicista; a sociedade e a natureza não eram constituídas através de uma soma de indivíduos, mas sim da interação entre eles; a soma das partes não era igual ao todo, podendo resultar em crédito ou débito devido às interações inerentes em suas relações. O proletário dependia tanto do burgês para se manter no sistema capitalista quanto este daquele, esta era a essência do pensamento organísmico. Se o universo surgiu a partir de um único ponto então era somente uma questão de tempo.

Atraso quântico

Quando nosso relógio quebra ou perde a hora (entra em descompasso) devemos achar qual a parte que está quebrada e substituí-la, sendo o ser humano nada mais do que um amontoado de peças unidas pelo movimento de engrenagens. Essa abordagem se vê ultrapassada quando se descobre a infinidade de interações que um indivíduo participa, mesmo inconsciente ou involuntariamente e que determinam de certa forma o caminhar de sua existência. O pensamento complexo ultrapassa as fronteiras do reducionismo investigando as interações das partes e suas conseqüências. Se, por exemplo, uma peça de meu relógio quebra perco a hora do ônibus e não chegarei a tempo na escola, perdendo assim a prova e colocando meu ano letivo em risco. Da mesma forma, as peças do relógio não existem sozinhas nem funcionam por si só, assim, encaixam-se em um sistema maior do que Descartes poderia imaginar, sendo qualquer parte do relógio tão importante quanto ele mesmo.

O individualismo intrínseco na teoria cartesiana reflete muito de sua época e de suas raízes antropocêntricas, além de sua insegurança e incapacidade de compreender a vasta gama de possibilidades no universo. A cooperação perde lugar para a introspecção e assim fugimos do mundo criando explicações próprias para a realidade; essa inversão era o que Marx chamava de ideologia. Segundo Peter Singer, eminente filósofo contemporâneo, somos responsáveis pelo que fazemos e pelo que deixamos de fazer e esse pensamento não poderia ser mais sistêmico,uma vez que todas as nossas ações ou omissões são importantes na dinâmica do sistema, esta que vive de atitudes positivas e negativas, de erros e acertos, do sim e do não.

“O homem moderno tem utilizado a relação de causa e efeito do mesmo modo como o homem da antiguidade usava os deuses, isto é, para ordenar o universo. Isto não ocorria apenas porque se tratava do sistema mais verdadeiro, mas porque era o mais conveniente”. Henri Poincaré

Nas palavras de Poincaré, o ser humano se fez mais amigo dele mesmo do que da verdade, alienando-se devido a sua covardia e criando justificativas próprias para sua artificialidade perante o mundo que o cerca. Nesse contexto, a teoria sistêmica, emergindo da revolução organísmica, oferece uma visão muito mais holística e complexa, livre dos grilhões do especismo e de suas limitações individualistas. Segundo Capra, todos fazemos parte e interagimos direita e indiretamente da “teia da vida”, relação entre todos os seres que constituem o universo e isso abrange desde seres vivos até o movimento de planetas, passando pelas estações do ano e pelo quebrar das ondas na praia.

Esse tipo de reflexão nos direciona para um “pensamento ecológico”, justamente por atribuir mais responsabilidade em nossos atos para com o meio ambiente e nossos semelhantes. A “ética da solidariedade”, assim chamada por Morin, se encontra em plena ascensão, executando uma curva inversa ao declínio do paradigma cartesiano; nos encontramos exatamente no “turning point”.

No que diz respeito ao relógio de Descartes, a teoria quântica – desenvolvida no fim do século XIX, devido aos avanços nas observações atômicas; essa teoria iria afundar o navio da ciência ao bombardeá-la com princípios de incerteza e probabilidade – juntamente com a teoria do caos iriam demonstrar o comportamento não-linear de modelos até então considerados exatos e precisos como o movimento pêndulo e do próprio relógio. Mesmo os relógios atômicos, baseados nas vibrações de átomos de césio, apresentam um atraso mínimo, o caos inerente ao seu movimento tratará de retirar a certeza e reduzi-la a probabilidades. Como se vê, a rachadura no dique de certezas cartesianas se apresenta maior e mais perigosa devido ao próprio método do pensamento complexo. As mudanças mínimas apresentarão sérias conseqüências posteriores justamente pela dinâmica do sistema; seu constante movimento cria um efeito similar a uma “bola de neve”, parecendo inofensiva no início tem o poder de engolir pessoas e pensamentos. Processo similar ocorreu com a teoria mecanicista, que se viu diante de um impasse com a organísmica e, pouco a pouco, encurrala-se e tropeça nos próprios erros, deixando livre espaço para o desenvolvimento do pensamento sistêmico, um novo nível de realidade.

A certeza no caos

O impacto da chamada revolução organísmica não foi propriamente o de uma revolução, porém seus efeitos ecoaram de tal forma nas certezas até então adotadas pela ciência que nos parece simplista demais a idéia de que um ponto possa fazer tanta diferença. Sabemos, por outro lado, que o simples erro de sinal em uma equação pode comprometer todo o raciocínio lógico do qual a matemática tanto se orgulha, também temos ciência de que toda mudança, por maior que seja, tem seu início na mente de uma ou de um grupo pessoas; o consenso e a mudança ocorrem com o tempo, porém a revolução acontece naquele momento. De forma similar, a revolução em cima do paradigma cartesiano se deu com base no sistema transgressor, ou seja, indo de parâmetros de ordem (menores) aos de controle (maiores e mais influentes na hierarquia sistêmica), atingindo assim relevância suficiente para remodelar nossa noção de mundo, nos fazendo cair em uma “crise de percepção” . Com isso, o ser humano começa a questionar seu lugar no mundo e sua participação no todo, revalorizando seus valores e transpondo os limites impostos por nós mesmos. Quando o extraordinário se tornar cotidiano, precisaremos de uma nova revolução.

LETÍCIA SABATELLA versus CIRO GOMES

Resposta de Letícia Sabatella a Ciro Gomes: 
Caro deputado Ciro Gomes, antes de visitar frei Luiz Cappio em Sobradinho, tinha conhecimento desse projeto da transposição de águas do Rio São Francisco, através da imprensa, , das quais participei a convite de minha querida amiga, a ministra Marina Silva. Há alguns anos, quieta também, venho escutando pontos de vista diversos de ambientalistas, dos movimentos sociais, de nossa ministra do Meio Ambiente e refletindo junto com o Movimento Humanos Direitos (MHuD), do qual faço parte. Acompanho a luta de povos indígenas e ribeirinhos, sempre tão ameaçados por projetos de grande porte, que visam a destinar grande poder para um pequeno grupo em troca de tanto prejuízo para esses povos, ao nosso patrimônio social, ambiental e cultural.
 
Acredito que devam existir benefícios com a transposição, mas pergunto, deputado, quem realmente se beneficiará com esta obra: o povo necessitado do semi-arido ou as grandes irrigações agrícolas e indústrias siderúrgicas? Afinal, a maior parte da água (bem comum do povo brasileiro) servirá para a produção agrícola e industrial de exportação e apenas 4% dessa água serão destinados ao consumo humano.
 
Sabendo do desgaste que historicamente vem sofrendo o rio, necessitado de efetiva revitalização, sabendo do custo elevado de uma obra que atravessará alguns decênios até ser concluída e em se tratando de interferir tão bruscamente no patrimônio ambiental, utilizando recursos públicos, por que razão, em sendo sua excelência deputado federal, este projeto não foi ampla e especificamente discutido e votado no Congresso? Por qual motivo essa obra tão “democrática” foi imposta como a única solução para resolver a questão da seca no semi-árido quando propostas alternativas, que descentralizam o poder sobre as águas, não foram levadas em consideração? No dia 19 de dezembro de 2007, o que presenciei na Praça dos Três Poderes, em Brasília, foi a insensibilidade do Poder Judiciário, a intransigência do Poder Executivo, e a omissão do Congresso Nacional. Será que não precisamos mesmo falar mais sobre democracia republicana, representativa? Ou melhor, praticar mais?
 
Quanto ao gesto de frei Luiz, sinto que o senhor não age com justiça, quando não reconhece na ação do frei uma profunda nobreza. Sinto muito que o senhor ainda insista em desqualificálo. Por tê-lo conhecido e com ele conversado, participado de sua missa na Capela de São Francisco junto aos pobres, pude testemunhar sua alma amorosa e plena de compaixão humana, pastor de uma Igreja que mobiliza e não anestesia, que ajuda a conscientizar e formar cidadãos. Ele vive há mais de trinta anos entre ribeirinhos, indígenas, trabalhadores rurais, quilombolas e é por eles querido e respeitado.
 
Conhece profundamente as alternativas propostas pelos movimentos sociais, compostos por técnicos e estudiosos que há muitos anos pesquisam o semiarido.
 
Uma dessas alternativas foi proposta pela Agência Nacional de Águas, com o Atlas do Nordeste, que foi objeto de seu debate com Roberto Malvezzi, da Comissão Pastoral da Terra, cuja honestidade intelectual o senhor publicamente enalteceu em seminário realizado na UFF. Ele mostrou que o projeto da ANA custaria R$ 3,3 bilhões, metade do custo da transposição, beneficiando com água potável 34 milhões de pessoas, abarcando nove estados: então, por que o governo não levou em consideração esta opção mais barata e mais abrangente? Infelizmente, caro deputado, Dom Cappio não exagerou quando decidiu fazer seu jejum e fortalecer suas orações para chamar a atenção de todos à realidade do povo nordestino. O governo do presidente Lula optou por um modelo de desenvolvimento neocolonial que, dando continuidade à tradição de realizar grandes obras para marcar seus mandatos, sacrifica o povo com o custo de seus empreendimentos, enquanto o que esperávamos deste governo era a prática de uma verdadeira democracia.
 
Rio de Janeiro, 20 de dezembro de 2007

LETÍCIA SABATELLA 
 
jornal O Globo 21 de dezembro de 2007

 

ciro gomes e letícia sabatella. foto sem crédito. ilustração do site.

O NATAL por eduardo ratton

CHEGAMOS AO FINAL DO ANO COM ALGUNS ARRANHÕES E FERIMENTOS, MAS A ONÇA AINDA NÃO CONSEGUIU NOS PEGAR.

A entrada do ano que se acaba foi quase ontem e, novamente,  partimos para outra época. 2007 está findo e 2008 seja bem-vindo!
Correria brava, os anos têm passado batidos, por vezes mais gordos, outros mais magros, mais quentes, mais tristes, mais caros e com mais manchetes nos noticiários. Temos trabalhado para “car-va-lho!!!” Anos duros como a peróba, anos fartos de trampos diversos, enriquecedores ou apenas gratificantes o bastante. Instigantes!
Nestes tempos corridos, mergulhamos na onda caminhando a passos largos. Estreitamos o tempo, os laços, apertamos a marcha, os passos, os nós nos sapatos. Aceleramos as horas, os atos, o tic-tac dos ponteiros, a abertura de nossos compassos. Seguimos assim, amados ou não, amigados talvez, como uma massa comum de companheiros neste barco de Noel, nesta arca de Noé, simbólico Pai da biodiversidade.
Durante o ano nem sempre fomos amigos, mas nem por isso tivemos os punhos cerrados, tampouco braços armados. Essa maratona toda é fruto de nossos projetos de vida, nos chamando para detalhar-los, para que se transformem de desenhos a fatos, originais, verdadeiros, legítimos. Nossas expectativas mais íntimas nos empurram para um abismo, nos jogam na vida, na busca desregrada por uma receita universal, misteriosa, única e pessoal. Talvez, a “tal da felicidade” (como cantavam  as Frenéticas nos anos 80).
Mas talvez estejamos exagerando demais! Eu, talvez estive, creio que estava há tempos atrás!… Corri na velocidade da luz, de uma luz própria e, nas horas da escuridão, acabei sendo cegado pela intensidade do brilho desta minha pretensa luminária, que era apenas uma simples vela no escuro, novamente, tentando ser feliz.
Alguns de nossos pares acabaram sendo atropelados: “Eu fui o primeiro!” E tive que conviver imperativamente com a sensação do “tudo parado”, morto, logo ali caído no chão, na nossa cara! E nós, sempre, carregando este legado de pobres inválidos, feridos, machucados, quase tão sofridos quanto nós mesmo (ou mais).
Mas mesmo isso tudo não comove a todos da mesma maneira, não funciona assim! Somos diferentes, graças ao Deus (de vocês)… O que agora vejo e neste momento desejo é exatamente isso: a preservação da diferença, da diversidade das vidas, das almas, de feras, feridas ou calmas, enfim, não quero mudar ninguém e, tão pouco, modificar minha teimosia que todos olham com desdém. Um dia, talvez, entendam dos porquês e possam, ainda, me dar razão, ou simplesmente comentarem numa mesa de bar que, o “cabra” era teimoso e obstinado, que embora tinhoso tinha suas razões e suas idéias claras, confundidas com algumas paixões (mesmo que, por vezes, exageradas).
Desejo, para todos, que tudo siga os caminhos mais sábios da consciência humana. Precisamos preservar nossa originalidade, nossas peculiaridades, nossas idéias mais ímpares. Sejamos, portanto, pares, parceiros… Nunca competidores, traiçoeiros, párias desnaturados da sociedade… Não precisamos competir, simplesmente porque não há porque competir. Vamos procurar um galho que não tenha macaco! E pronto! Nossa corrida e briga é contra nós mesmo!
Devemos buscar mais cores e muitas mais tintas! Diversos números para não pintarmos apenas os “setes” (quem sabe os oitos, os noves, ou os sessenta e noves). Para sermos melhores que nós, para progredirmos e conseguirmos ser tão rápidos para, repentinamente, ao olharmos no espelho possamos flagrar a nossa imagem de um segundo atrás! Enxergar a própria nuca, antes que o espelho tenha tido o tempo de refletir a imagem de nosso olhar. Este é o desafio simbólico de quem quer melhorar. Seja este o nosso desafio!
Que nossa regra seja partilhar, dividir para somar, trocar idéias, multiplicar, até mesmo criticar nossos mais fraternos ideais. Que tenhamos em mente a lógica de nossos conterrâneos tropicais. Quando os recursos são limitados, o melhor é a instintiva partilha, ao invés de uma competição desmedida no seio da própria matilha.
Somos responsáveis pelo futuro da nossa espécie, das outras também, e de muito mais. Queremos toda essa biodiversidade, de verdade, para uma real sociedade, de cidadãos comuns, comuns no nobre direito de se afirmarem raros! De serem queridos e de “se valerem” caros! Não somos simples coadjuvantes de fúteis e insuportáveis seriados. Não queremos ser nem estar enlatados, como peixes pequenos, descabeçados. Estarmos confundidos e rotulados como a tal farinha de um mesmo saco!
Somos únicos, exóticos por natureza, bizarros até! Somos o puro desejo de nossos genes pareados, de alguns pares de base desparceirados, que livremente se articularam para manter a própria existência, a instintiva excelência, a compartilhada competência. Competência sim, competição não! Até porque não temos adversários com tantos brios, qualidades, estratégias e, infelizmente, com tanto rancor, cinismo e orgulhos com dor! Estes somos nós!
A competência não é competitiva, ela é de responsabilidade, de incumbência, de sabedoria, de discernimento, de consciência, de respeito, de muita força, de coragem, de saber avaliar as conseqüências! Vamos enfrentar as bruxas, desafiar os espinhos do caminho, sem sandálias, sem grandes dilemas. Cada qual tem um papel neste teatro da vida, afinal, tem algo que é seu, apenas seu, que ninguém pode copiar ou roubar.
A tal genialidade está em todos, está em ser por simplesmente ser; está em descobrir o óbvio de cada um e a obviedade de todos; somos, ao fim, uma multidão de míopes, guiando cegos no desvendar das coisas que estão bem aqui na nossa cara! E cada insignificante formiga que se mantiver antenada, trará o indispensável alimento para sua colônia, para várias tribos, para todos os seres vivos.
Que bom se nos próximos tempos diminuíssemos nossas diferenças, sem as insalubres desavenças, evidenciadas por nossos atos mais falhos, inconscientes e intolerantes. Cada um sabe a sua letra decor, sua fala, seu papel, em cima do palco, dentro da sala, nesta “salada da vida”, já tão intensamente temperada.
Somos cartas embaralhadas, mas somente as parelhas formam canastras, canastras reais e, apenas assim, somamos mais pontos, sem jamais “perder o naipe” a que originalmente pertencemos. Sejamos, pois, o coringa, o sete de copas, os audazes ases de ouro, os espadilhas ou os reis de paus, nunca o mole, o caixão o quatro ou o cinco indesejável e que sempre produz dissabor.
Cada qual é uma figura, carimbada, assinada, premiada, fora de série. Não somos meros números, tampouco uma carta qualquer a ser descartada. Somos parte importante desta partida, desta parada, “que não é gay”! Somos todos distintos, cada um e cada qual com suas qualidades e imperfeições.
Quanto mais originais nos prestamos a ser, mais difícil é o processo de nos fazermos compreendidos, integrados e inseridos. É o duelo entre os normais e os demais. Felizes são os loucos, pois não herdam a nossa razão. Precisamos querer “mais erosão e menos granito”, precisamos daquilo que não temos dito, inclusive daquilo que tememos e por vezes sofremos. Precisamos gostar do inacabado, do imperfeito, do estragado. Não queremos só canção, precisamos de gritos e de revolução.
Desejo que todos tenham e mantenham toda a originalidade que contenham; que sejam comedidos ao viver suas verdades; que acreditem nas suas próprias invenções, fugindo das convenções, das doutrinas, das competições, das disputas tolas e sem objetivos claros ou princípios raros.
Que 2008 seja ímpar, embora bissexto! Que todos possamos ser bons pares, parceiros, companheiros de bar e da mesma barca; que a lealdade dos navegadores deste mar, seja nossa marca. Atitudes de fidelidade, de amor e de ajuda. O novo tempo é de mudanças e que estas não sejam apenas políticas ou climáticas!
Que possamos curtir mais os momentos, todas as horas, cada instante; que deixemos nossos troféus na estante e, daqui em diante sempre iremos avante! Passos firmes, definidos, bem distribuídos, acreditando na própria história, valorizando a própria memória, apreciando a sábia trajetória de nosso ser infante, nosso acervo gigante, nossa cabeça grande de um “Ser Elefante”…e “que se foda” o beija-flor e a macacada!
Temos muito para viver até chegarmos a ser apenas uma imagem de seres extintos do passado. Somos nós agora os atores, os principais autores desta história e façamos dela uma narração pictórica.
Mais vida, mais diversão, mais alegria! Vamos ensinar nossos filhos como aproveitar a vida e o Mundo, e não como vencer na vida e vencer todo mundo, cavando trincheiras no solo pantanoso, deste jogo tão marcado. Continuemos radicais nas nossas ações, mas tolerantes nas nossas interpretações. Amigos em todas as horas, originais desde criancinhas.
Saúde, paz, verdade, vida e tudo que o bom vento velhinho nos traz de tempos atrás, de passados Natais, de nossos anseios ancestrais. Beijos e abraços, felicidades, bandeiras brancas e “-Vamos pro Limpo!” A Luta continua e o Luto é passageiro.
Guardem esta mensagem, pois ao longo do ano próximo não custará nada reler e refletir sobre isto, mesmo quando chegarmos de madrugada exalando malte e totalmente liquidados, mais parecendo burros e com outros incorporados. Vamos criar nossa própria oração!
Mais beijos e abraços e não se esqueçam que: ”Pouco conhecemos do que já passou, e menos ainda daquilo que ainda virá!”

Eduardo
Apagando as luzes de 2007… e acendendo o sol do novo 2008!
 

CONSULTA MÉDICA (coisas de fim de ano) por “o editor enlouqueceu”

  
          

Um médico sincero foi questionado sobre vários conselhos que sempre nos são dados…
 
 Pergunta: Exercícios cardiovasculares prolongam a vida, é verdade ?
 
Resposta: O seu coração foi feito para bater por uma quantidade de vezes e só… não desperdice essas batidas em exercícios. Tudo gasta-se eventualmente. Acelerar seu coração não vai fazer você viver mais: isso é como dizer que você pode prolongar a vida do seu carro dirigindo mais depressa. Quer viver mais? Tire uma soneca !!!
 
 P: Devo cortar a carne vermelha e comer mais frutas e vegetais?
 
 R: Você precisa entender a logística da eficiência… .O que a vaca come? Feno e milho. O que é isso? Vegetal. Então um bife nada mais é do que um mecanismo eficiente de colocar vegetais no seu sistema . Precisa de grãos? Coma frango.
 
 P: Devo reduzir o consumo de álcool?
 
 R: De jeito nenhum. Vinho é feito de fruta. Brandy é um vinho destilado, o que significa que, eles tiram a água da fruta de modo que vc tire maior proveito dela. Cerveja também é feita de grãos. Pode entornar!
 
 P: Quais são as vantagens de um programa regular de exercícios?
 
 R: Minha filosofia é: Se não tem dor…tá bom!
 
 P: Frituras são prejudiciais?
 
 R: VOCÊ NÃO ESTÁ ME ESCUTANDO!!! … Hoje em dia a comida é frita em óleo vegetal. Na verdade ficam impregnadas de óleo vegetal. Como pode mais  vegetal ser prejudicial para você?
 
 P: Flexões ajudam a reduzir a gordura?
 
 R: Absolutamente não! Exercitar um músculo faz apenas com que ele aumente de tamanho.
 
 P: Chocolate faz mal?
 
 R: Tá maluco? !!!! Cacau!!!! Outro vegetal!! É uma comida boa pra se ficar feliz ! !!
 
 E lembre-se: A vida não deve ser uma viagem para o túmulo, com a intenção de chegar lá são e salvo, com um corpo atraente e bem preservado.
 
 Melhor enfiar o pé na jaca – Cerveja em uma mão – tira gosto na outra – muito sexo e um corpo completamente gasto, totalmente usado, gritando:
 
VALEU !!! QUE VIAGEM !!!!!! !!!!!!

RECEITA PARA SE MANTER COMUNISTA APÓS OS 30 por otávio machado de albuquerque

Parabéns camarada, mais um aniversário. Você está preocupado porque em alguns anos atingirá a marca de 30 anos, aquela marca que lhe contaram que ao atingi-la você não será mais comunista. Como continuar comunista depois dos 30? Quer saber? Leia as instruções abaixo com cuidado porque senão o seu irmão mais novo deixará de confiar em você. Afinal, não confie em ninguém com mais de 30. Não confie em ninguém com 32 dentes.

A primeira regra para se manter comunista após os 30 é: nunca diga que é comunista. A segunda regra para se manter comunista após os 30 é: NUNCA diga que é comunista.

Isto significa que você deve adotar um pseudônimo para dizer que você não é comunista. Você dará a desculpa que a sua identidade secreta foi criada para você se defender do patrão, quando na verdade neste “novo eu” você poderá externar todo o Partidão que existe dentro de você sem ser ridicularizado. Se alguém questionar a duvidosa coerência do uso de pseudônimo você vai lembrar que Stendhal, Lênin, Pablo Neruda e George Orwell usavam pseudônimos. Afinal, para você e seus seguidores você é um deles.

A terceira regra para se manter comunista após os 30 é se afastar do mundo produtivo. Monte sua própria banda antiamericana ou, melhor ainda, torne-se um professor universitário. Assim você poderá viver confortavelmente à custa de seus fãs ou do governo. Você terá um refúgio contra o capital para escrever maciçamente contra ele sem ser importunado.

Você poderá escrever e falar qualquer asneira que defenda o comunismo. Que a URSS foi libertária e, mesmo que seja contraditório, você dirá que o comunismo nunca existiu e que Stálin é o grande culpado. Defenderá Cuba, mas dirá que o comunismo nunca existiu. Defenderá que a URSS não foi um império, mas negará a existência do comunismo. Meu jovem, na vida você faz escolhas. Seja coerente ou seja comunista.

Apoio é importante. Se você tiver uma banda, logo terá um fã-clube. Se você se tornar um professor universitário logo terá vários “voluntários” trabalhando de graça para você. Eles divulgarão os seus livros, seus artigos sem que você precise pagar nada por isso. Sempre terá uma pessoa carente que vai acreditar nos seus discursos contra o sistema. Ora, quer algo mais sedutor do que isso? Dizer a um jovem que quer mudar o mundo que existe uma saída? Lembre-se. Ingênuos não faltam nesse planeta.

Reescreva a história. Diga que o comunismo é a força do povo e não a forca do povo. Diga que o comunismo não matou ninguém. Diga que não é um sistema que poucos ganham muito e muitos não ganham nada, além de chibatadas nas costas e férias forçadas na Sibéria.

Para ser defensor do comunismo é necessário exaltar o crime. Assassinos em massa são líderes e assassinos comuns são vítimas do sistema capitalista opressor. Culpe o capitalismo por tudo. Culpe a polícia sempre. Nunca os bandidos. Exalte o comunismo sempre. Mas lembre-se, ele nunca existiu de verdade. Não esqueça de mencionar que os direitos humanos são para todos, mas esqueça dos policiais, sim. Você vai ensinar que os policiais são os novos capitães do mato e em todo camburão tem um pouco de navio negreiro. Os seus seguidores acreditarão que você é mesmo contra o sistema. Se alguém invadir a sua casa ligue para a polícia, mas não diga a eles que você os critica e nem diga aos seus amigos o que aconteceu. Afinal quem precisa de polícia, não é verdade? Mas, cuidado. Defender o crime e difamar pessoas nem sempre dá certo.

Escreva muitos livros. Sobre tudo. Escreva muitos artigos. Sobre tudo, mas culpe sempre a burguesia e os Estados Unidos. Sempre culpe os EUA por todos os males do mundo. Faça textos antiimperialistas, mas negue a todo tempo que a URSS foi imperialista. Você pode fazer isso, claro. Se ficar muito claro que a URSS é imperialista, diga que o verdadeiro comunismo nunca existiu. Culpe então o Stálin e diga que um dia o Messias chegará para libertar o povo das amarras da tirania. Deixe a entender que o Messias pode ser você. Se tudo isso não colar, bote a culpa nas elites deste país.

Use a incoerência. Sempre. Defenda ditaduras em nome da liberdade. Defenda o patriotismo, mas use o brasão da URSS. Diga que você defende os negros, mas em todos os seus registros classifique-se com Caucasiano (Branco), apesar de ser mestiço. Defenda as mulheres em público, mas seja machista no privado. Defenda o uso do idioma português correto, mas ignore os analfabetos que chegam ao poder. Acuse a burguesia de todos os males. Importante: você não é burguês. Minta. Diga que você acessa a Internet de uma Lan House e não de casa, afinal você é um defensor dos pobres. Não pega bem que saibam que você tem carro, tv a cabo, máquina digital, microondas, celular com câmera e internet com banda larga em casa. Denomine-se “outsider” (em inglês mesmo) e mantenha um perfil cheio de preferências e fotos no Orkut. Passe a todos que você é cult e inteligente. Procure comunidades de pensadores e movimentos sociais. Não basta ser comunista, tem que ser cult.

As pessoas deixam de ser comunistas após os 30 anos porque entram em contato com a realidade. Amadurecem e percebem o grande erro que é regulamentar a vida das pessoas de cima para baixo. Só afastado do mundo da fantasia da vida acadêmica e artística você começa a entender que a melhor saída para corrigir as injustiças é mudar as pessoas, não os sistemas. Só os artistas, comunistas e os que vivem das tetas do governo podem encher os pulmões e dizer: “Eu sou burguês, mas eu sou artista. Estou do lado do povo…”

Entendeu? O importante não é só enganar os outros, mas enganar a si próprio. Desta forma você ultrapassará a barreira dos 30 e continuará a ser comunista.

Siga estes passos e com certeza você vai ganhar muito dinheiro. Lembre-se, Cristo atingiu seu ápice aos 33 anos. Portanto, nunca deixe de ser a vítima, mas muito cuidado para não ser desmascarado um dia!

CENA de SEXO conto de luis felipe leprevost

“nada mais limpo que teus pés na chuva”
(Augusto Silva)

Atinha-se à cabeça, depois à base, meus pentelhos, engolia-me, a boca mais aberta, movimentos lentos… masturbação oral… látex não, não conhecíamos camisinha… ela bate uma siririca, eu olho… ela lambe meus mamilos… calmo ziguezague de línguas… ela é uma cientista da minha anatomia… começa a me cortar, aos poucos… volta para o saco… lambidela no cu… fujo… ela não é uma dominatrix… eu não sou um cara com uniforme de bombeiro… opto por carinho e cuidado… como nomear aquilo…? posição ginecológica…? as pernas em ângulo de quase 180 graus… pornô, mas com amor… não são exatamente besteirinhas o que falo nos ouvidos dela… opto em ser atencioso… nem ela me parece adepta do sadomasoquismo… não tinha roupa de enfermeira nos cabides… não havia escolhido sexy-langeries… não vestia espartilhos… sabia me segurar pelo cabelo, a parte de trás de minha cabeça enquanto eu a chupava… sabia prender com seus dez dedos o redor do meu punho, melhor que algemas sua pressão… sabia agarrar os pêlos do meu peito e quase arrancá-los feito rasgasse uma camiseta… ela sabe ir por minhas artérias… alcançar meu sistema nervoso… me hipnotizar… ir me sarrando… permitindo-me provar canapés de sua polpa… o que chamo xana… chamo xota… chama… chamo enxame… chamo Sheila… ela me beija sobre a cueca… tiro a cueca… chupa as bolas… tenta aproximação anal… fujo… ela monta em mim… rebola, não feito puta, senão uma  bailarina… depois, sim, é puta e não deixa de bailar, nem seu carinho diminui… nem são posições de kamasutra aquelas, são uma técnica de desde sempre, e muito nossa… nenhuma semelhança com frango assado… que idiota sussurraria tesuda no ouvido de sua garota sem resultar no enrubescimento do próprio pau…? esperma… é o meu esperma… são as carnes pudendas dela… lavou, tá novo… mas não nos lavávamos, prosseguíamos, às vezes sem tirar o pau de dentro… era esperma lavando esperma… camadas de gosma seca debaixo de gosma nova… e o odor… chame fetiche quem queira… duvido, mas talvez Sheila guardasse vibradores na gaveta do banheiro… não fui conferir, não me interessam aquelas coisas com formato de pepino, avestruz, capitão gancho… ela me cavalgando interessa, minhas pernas fadigadas… panturrilhas suadas… a nuca querendo se esticar e lá no alto, pescoço de girava feroz, alcançar a jugular de Sheila… sugar sua pureza e doença de ser mulher… o colchão me engolia… eu sou o causador de uma voracidade traiçoeira… estamos nos metendo pelo corpo um do outro, sozinhos mas não separados… sozinhos feito aleijões um do outro… sem Sheila estou inteiro mas aleijado de Sheila, uma parte de mim, uma perna, talvez mais do que isso, não existisse… um lado meu, moral, metafísico, interior, fundo, houvesse removido Sheila em mim, por ela e à revelia dela… e o grelo está ali em minha frente… a mulher ao redor de uma buceta… o grelo um bichinho sem escrúpulos… qualquer movimento e é imprescindível que criemos garras… a matéria do que Sheila é feita treme, quase uma inconsciência sísmica… agora manobra sobre mim, 69, estou embaixo, calcanhar de um no lóbulo da orelha do outro… saco, virilhas, o cu de Sheila, ela vai no meu, não tenho aonde fugir… somos bife sobre a chapa borbulhante, as fibras endurecem, células se contorcem, mangue branco, as pálpebras querem virar do avesso e levantar vôo para dentro de um céu que é o interior do globo ocular… acreditamos ser pássaros libertos, morcegos frutíferos… há lugares em que só chegamos apostando na incerteza… abismos podem ter rede de proteção ou não…essa a primeira trepada… Sheila não era capaz de conter seus gemidos… o busto se empinava como que por conta própria, em alavanca, a lombar em ângulo convexo… a minha boca, os meus dentes… a língua dela, saliva dela… nossas línguas duas lesmas dando nó… dedos, palmas das mãos… as barrigas, umbigos… o ventre de Sheila, os pentelhos sem depilação… calado, concentrado me dedico à foda, a função de fazê-la gozar… deslizo nela, ela às vezes diz mais, às vezes pede sim… os seios, bicos rosáceos, ora marrons… um par de tetas não é o melhor amigo das melodias, só se você for capaz de assobiar e chupar cana ao mesmo tempo, não que eu não seja, eu sou, mas éramos um tácito acordo entre silêncios… silêncios que se traíssem em sussurros, dengos, pedidos, ordens, súplicas… meu pua bombava, teu pau Sheila sussurrava… a segunda trepada da noite da noite da primeira trepada, lentamente… de novo o que fazíamos era amorzinho gostoso… um exercício de maratonistas que não pretendessem cruzar a linha de chegada… punheta… chupeta… sem que haja precipitação, e Sheila era um precipício… chegar ao fundo sem me espatifar lá dentro… meus pentelhos nos pentelhos dela… estou duro, ela encharcada… somos gosma e cheiros fortes… penetrar uma mulher é recuar até o lugar no tempo em que o tempo esqueceu de si… recuar aonde nos alcança o susto, o baque que nos pegasse desprevenidos… sempre o despreparo, surpresa e júbilo mais maldição, catarse e dor… continue é a palavra pendurada nos lábios de Sheila… não, não é uma palavra, é uma ordem… encaixe e simultaneidade… a mais reveladora das intimidades é-nos a menos familiar… as polaridades mais incomuns entre os dois provocam as mais esquisitas identificações… estamos conectados igual a fios que ligássemos nas tomadas as máquinas… grudados feito cão e cadela na sarjeta… e temos harmonia… ela abraça minha perna, a que pensei ter-me amputado… aperta as unhas roídas em meus ombros, alguém que acabasse de ser salva… ela age, é assim que me executa… lógica não há… quando muito a tudo a lógica esfacela… manchas nos lençóis, os lençóis não nos interessam… e a lógica é um acontecimento com o qual não nos preocupamos… somos da raça das feras… dominamos o ofício de sermos animais… é um trabalho, ambos nos dedicamos… baixo os lábios feito fossem insetos suicidas abandonando-se no suco de pólen entre coxas… é a terceira trepada da noite… Sheila de algum modo se infiltra por baixo da minha pele… subcutânea bóia na maré convulsa de meu sangue… faz-me cócegas à epiderme… e pau, pau e buceta, gozamos e não tiro de dentro… estou agasalhado por seus sons guturais de fêmea ferida… o fundo de Sheila é agradável e convincente feito uma prece… ela perde o controle da respiração, na falta de ar se perdem seus xingamentos… ela treme, evapora em meu hálito, depois é osso, também nossas cartilagens dobram… mordidas, nós nos latimos, rimos, mastigamos, não somos vampiros, ou vampiros tenham dentes afiados no corpo todo… meus joelhos têm dentes, o abdômen dela abre a mandíbula e destroça minhas orelhas… nacos de gemidos, farelos não de lábios que sangram, porém os glóbulos do sufoco… agora é outra noite… preliminares, os movimentos dos corpos se abandonam à humildade de ser migalhas desde o princípio… isso, migalhas de paixão, restos, isso, restos de sopa de saliva… não se pertencem quanto a se pertencem… é mais… estão sem controle e ainda não enlouqueceram, porém se afinaram com insanos e insones… debruçaram-se fora da cama, joelhos ralados, de quatro, pêndulos flamejantes… Sheila levanta o quadril à procura de minha fuça… a palma da minha língua, os dedos dos meus lábios… e é a boca de Sheila maior do que Sheila inteira é a boca de Sheila… engole nós dois juntos, escorrego no tobogã da garganta, a goela, muita porra, ela lambe… sobe por meu umbigo, barriga, peito, pescoço, queixo, boca, de novo as bocas… é um beijo de quem sabe amar também de olhos abertos… de tanto nos olharmos fizemos uma transfusão de olhos, Sheila me vê com os meus, eu tenho os olhos de Sheila e não sei se suporto o vislumbre de tanta dor em suas paisagens… a agonia dos recantos depredados de Sheila… fingimos, nem sei se é incesto… queremos o mesmo sangue em nosso sistema venal… enganamos tão bem até chegarmos à essência de uma verdade, e então somos fragilizados por ela, penalizados… o prêmio esconde algo de demoníaco… recantos, o que são subterrâneos… Sheila é o diabo que me carregue… devo ser algum cristo em suas chagas… o meu é um coração de búfalo… a ciranda dos quadris de Sheila giram rápido demais, e pude me acostumar com ânsias de vômito… sei que meus beijos funcionam às vezes feito moedores e gritos… ela é minha garota, e está de bruços… suas costas parecem uma aziaga fenda cicatrizando…

OLHO e a GRANDE NOITE ESTELAR poema de jairo pereira

saltos cegos do gênio no desconhecido
destreza de mágico os toques com as mãos
na argila da beira desse rio erigi transmundos
vias artérias labirintos de espelhos no vivido
criar e ser criado o meu vão ofício
linhas de pensar o impensado como flor-matriz
prodestras as guias acidentais no investido
tresandos crispagens espocos de fogos de artifício
fogos focos de luz concêntrica o olho mira
a grande noite estelar no dia
o olho a arma nuclear do fito atira
setas nos corpos dos astros de ditos
ou na flor-matriz ideológica recém-nascida
:vertente plúrima dos contraditos:

EMBRIAGAI-VOS! poema de charles beaudelaire

É necessário estar sempre bêbado.

Tudo se reduz a isso; eis o único problema.
Para não sentirdes o fardo horrível do Tempo, que vos abate e vos faz pender para a terra, é preciso que vos embriagueis sem tréguas.

Mas – de quê ? De vinho, de poesia ou de virtude, como achardes melhor.
Contanto que vos embriagueis.

E, se algumas vezes, sobre os degraus de um palácio, sobre a verde relva de um fosso, na desolada solidão do vosso quarto, despertardes, com a embriaguez já atenuada ou desaparecida, perguntai ao vento, à vaga, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo o que foge, a tudo o que geme, a tudo o que rola, a tudo o que canta, a tudo o que fala, perguntai-lhes que horas são; e o vento, e a vaga, e a estrela, e o pássaro, e o relógio, hão de vos responder:

– É a hora da embriaguez ! Para não serdes os martirizados escravos do Tempo, embriagai-vos; embragai-vos sem cessar !

De vinho, de poesia ou de virtude, como achardes melhor.

 

o poeta.

SE É QUE TENHO COMPETÊNCIA por walmor marcellino

Todavia, existe uma guerra político-ideológica adversa que se desvela na tradição do consentimento; pela persuasão no ensino conformista, pelos acompanhamentos “politicamente corretos” e pela interesseira simplificação sociológica. Sob essa névoa, as pessoas escolhem o que parece conveniente e a intelectualidade se põe a serviço, secundando “olhaís” e vendendo criatividades.
Como já foi toga arrogar-se vanguarda social — moral, política e estética — passou para a moda ser à “parte”; até nalguma parceria tecnocientífica, como “acompanhante” político ou como “isento observador sem favor nem causa”.
Assim a comunicação social especialmente e até a ensaística — da qual se esperam senão epistemes pelo menos atitude e disposição ético-políticas — têm assumido a parcialidade estentórea do “seu” ponto de vista “democrático” como respeitável e justificável decisão existencial. Ad valorem.
Em nome da positividade capitalista, escriba a soldo, pena a prêmio, caráter em leilão no requisitório de mercado vai de Assis Chateuabriand a Júlio Mesquita, de Carlos Lacerda a Paulo Francis, de Vitor Civita a Francis The Beautifull, da TV-Globo à RCTV, de Arnaldo Jabur a Diogo Mainardi et alii.
Reconheça-se que esse clube de serviço não demanda salvaguardas, porém tenta justificar-se cotejando-se à indigência apologética “de esquerda” e ao fideísmo “socialista” desnorteado. Mas à sabujice ou ao “compromisso” não se deve objetar, senão escusar.
Quanto a mim, tenho a humildade de que de que minha arte e seu engenho não há que esperar demais: algum arrazoado sistêmico ou fundamentada contradita científica ou filosófica; mas acredito que a práxis é ou deve ser a política, sua ética e o compromisso, que podem construir justiça como primeira virtude das instituições sociais. E, se ela não se dá por interesse ou privilégio, resulta do direito à vida, à sobrevivência dignificante e à retribuição social aos frutos do trabalho. Ademais, o capitalismo não nasceu ético, não cresceu ético nem ora se deteriora ético, pois nasceu do confisco da propriedade social e na produção da alienação humana.
À falta de convencimento epistemológico (a perspectiva histórico-social voltou a ser predominantemente essa, a não ser que o positivismo instrumental nos exija uma ciência empírica como ponto circular de partida), não devo me engalanar com propedêuticas artificiosas. No terreno comum da práxis espero aprender com sabedoria ou saber no aprendizado o que são nossos valores nesta produção constitutiva da condição humana. Assim, posso continuar esse discurso, nesse diapasão, sem ofender manoplas, artelhos ou pentelhos de alguém?
Sem a “má-fé” de contrafazer as postulações políticas de pessoas como Adorno, Habermas, Foucault, Deleuze e outros notáveis críticos dos sistemas sociais e do pensamento, porém, ao invés, seguindo-lhes as pegadas, socorro-me da vontade de ação na resolução das pendências sociais (estariam “extintas” as lutas de classe na sociedade contemporânea e seu espólio se encontraria em translação cultural a acompanhar os meandros das ciências naturais… do que resultaria… nossa perplexidade para obter respostas na prática política, social, econômica e científica? — nessa ordem de prioridades). E, à guisa de esclarecimento, devo confessar que a centralidade de Marx ainda hoje, pari passu o crescimento, a decadência e a agonia nuclear do capitalismo, me parece Prometeu ante a Esfinge, profligando, desmitificando-a sem que esta reconheça a verdade da sua decadência e continue a lhe recusar passagem.
Daí que o renascimento dos estudos sobre Marx e da crítica marxista aos doutrinarismos socialistas teoricistas e dogmáticos (até “ortodoxos” mas sem a dinâmica ortodoxia teórico-prática de que o pensamento de Karl Marx e as reflexões prático-teóricas de Lênin constituem o cerne) estariam a nos re-dizer que as expectativas sociais de uma solução política para as crises econômico-sociais acabam gerando a filosofia social de sua superação (ou, ao reverso dialético, a conservação “a-histórica” de que Hegel nos falava). E, esperamos, também a sua prática. Não minha nem de grupelhos, tribos ou hordas, mas de uma inteligência social.
Qualquer tempo é tempo de combate; e se as classes sociais implodiram sob certa “contemporaneidade” ou “pós-modernidade”, sua divisão e multiplicação continua sendo “o social” resultante da base produtiva e das relações sociais. Sua tensão dinâmica teria passado do estado sólido (em que “tudo que é sólido desmancha no ar”) para o estado gasoso, que é “ainda” força da matéria em expansão. E suas tensões ora ampliadas ora dissimuladas ou esmaecidas não infirmam que as contradições sociais vão ocupando os “vazios” (enquanto parecem dissolver-se) modificando o meio. Na atração e espera da corrente ou torrente condutora.
E como a violência social é sudação da sociedade oprimida, podemos até mesmo contemporizar, sem extinguir-lhe os antagonismos. Entretanto, ou proclamar “a certeza do futuro” ou bater pratos e fazer uma “marche aux flambeaux”.

PEQUENAS CONSTATAÇÕES por josé zokner (juca)


Constatação I
E como diz o meu grande amigo Wilson Caron, atleticano de quatro costados: “O cara jogou tão mal, é tão ruim que perdia a bola pra ele mesmo”. Não sei se foi alguma alusão aos times do meu Paraná e o do meu Corinthians. Coitados!

Constatação II

Não se deve confundir cizânia, que o dicionário Houaiss define como “falta de harmonia; desavença, rixa, discórdia” com zizânia, que o mesmo dicionário define como “coisa ruim, de má qualidade”, muito embora quando se recebe um trabalho e/ou produto com a característica de zizânia o fato pode provocar uma cizânia que pode levar litigantes até conseqüências extremadas. A recíproca é verdadeira. Só não é se entrar fatores corretivos, a turma do deixa disso e outros aspectos assaz pacificadores.