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O FIO DA MEADA por alceu sperança / cascavel.pr


Neste exato instante milhões de seres humanos estão famintos e doentes, sucumbindo a uma pobreza extrema. OutrosAlceu sperança  - AJC (1) milhões sofrem com o desemprego crescente, que é uma das características mais assustadoras da globalização neoliberal.

Aqui e em boa parte do planeta se acentuam as desigualdades sociais. Arruína-se a natureza através de um processo cruel e injusto chamado “desenvolvimento”. E tudo isso é mantido em nome da “democracia”, veja só!

Os capitalistas neoliberais, aproveitando a seu favor os atentados às torres gêmeas, resvalaram para um novo tipo de autoritarismo, que se dá pela ocupação militar de países “desobedientes” e bases nos obedientes, disseminando uma furiosa paranóia que clama por segurança na exata medida em que a golpeia.

O poder hoje não está ali no Palácio das Araucárias ou em Brasília, mas em instrumentos supranacionais. A guerra e o militarismo surgem, já avisou Lênin em 1916, como resposta de força do imperialismo aos seus limites históricos e às suas próprias contradições.

Os orçamentos militares atingem recordes históricos: o dos EUA sobe na escala do trilhão de dólares. Quanta comida e quanto remédio isso daria? E vem aí a retomada do Projeto Guerra das Estrelas, da era de Reagan, com a instalação do “escudo anti-míssil” na Europa.

Cria-se, em suma, uma “polícia” mundial para manter a situação de pobreza, miséria, fome e doença.

Bush socialista

Não há como ter conhecimento de tudo isso e ficar de braços cruzados. Aqui e em todos os lugares há margem e espaço para a luta de cada um para que o mundo comece de fato a marchar para a democracia, pois o planeta que temos sob os pés não é democrático.

Não há democracia onde falta justiça e pão. Neste mundo de injustiças e opressões, num país governado pelo marketing da engabelação luliberal, das Prefeituras mal administradas ao Palácio do Planalto a serviço de banqueiros e empreiteiras, só indignação não basta, mesmo porque há grandes potencialidades de luta e de avanço progressista.

Um dos truques do domínio neoliberal é criar em laboratório e propagar pela TV líderes políticos locais que falem em socialismo e democracia e pratiquem seu oposto.

No Brasil, e também aqui no Paraná, vemos burguesões liderando partidos “socialistas”. Seguem uma cartilha que até o rei Bush demonstrou ter aprendido: na frustrada viagem à América Latina (e logo Obama fará o mesmo), sua alteza mencionou Simon Bolívar, o libertador, e disse, como nosso Guevara diria, que é preciso “terminar o seu trabalho revolucionário” e garantir “verdadeira justiça social” em toda a região…

Quem diria: Maria Antonieta nos exortando a decapitá-la!

Rejeitar, um começo

O caminho da revolução, no entanto, passa por rejeitar e superar o capitalismo em sua etapa neoliberal.

Passo a passo, os povos latino-americanos vão dizendo não à engabelação da ideologia, como o povo venezuelano fez ao escorraçar do palácio presidencial os vampiros que usurparam o governo, pondo na prisão, ilegal e criminosamente, o presidente Chávez.

É na rejeição às receitas neoliberais que está o fio da meada para a superação das injustiças deste mundo.

Há uma viagem a fazer. O começo dessa viagem está em bloquear a atual ofensiva em curso no País contra as conquistas sociais e os direitos alcançados pelos trabalhadores, através da palavra de ordem “Nenhum Direito a Menos, Só Direitos a Mais!”

DÚVIDAS QUE ASSALTAM por alceu sperança / cascavel.pr

Por vezes, alguma curiosidade sobre coisas estranhas que acontecem neste País nos assalta. Há mesmo ocasiões em que a curiosidade não só te assalta como te manda ficar quieto pra não levar chumbo.Alceu sperança  - AJC (1)

Sempre vemos no jornal notícias de jovens baleados e esfaqueados, mas nunca se diz por que os misteriosos assassinos atiram nas vítimas. Você não fica sabendo a causa dos tiros ou facadas, mesmo quando o assassino é preso ou condenado. Pior ainda quando foge.

Outra curiosidade que nos assalta e ameaça é também social: para onde vão os invasores despejados de fundos de vale e de imóveis urbanos ociosos?

Como não somos informados sobre a causa do jovem se tornar alvo de balas e facas, poderíamos pensar que eles são atirados e esfaqueados apenas porque são jovens.

E aí se especularia: são alvejados para diminuir as filas de desempregados, por que não pagam o “transador” pelo crack ou porque tentam namorar gurias já comprometidas?

Quanto aos abusados que teimam em ter direito a morar em nossas ricas cidades, com tantos imóveis para alugar e vender (quem não compra também não tem dinheiro para alugar), eles são enxotados pela polícia a chamado dos proprietários. Ou da Prefeitura, quando se trata de lote público.

Nesse caso, a gente até vem a saber que eles de fato são expulsos, mas raramente se vê esses descarados invasores de terrenos sendo empurrados para dentro de um dos imóveis já disponíveis e vagos ou de construções em áreas de adensamento – Plano Diretor é pra quê, afinal?

Volta e meia, por falta de onde morar, os sem-tetos se arriscam a erguer casas ou barracos nas áreas de fundo de vale, pois é mais difícil levar corridão de gente da Prefeitura que se diz “socialista” ou “social-democrata” (ninguém mais se assume como fascista ou direita, coisa estranha!) do que de especulador imobiliário.

Há milhares morando onde não morava ninguém, em caráter precário, pois a ocupação é irregular. Como ninguém lhes regula um lugar regular onde ficar, acabam degradando os fundos de vale com aquele “popular” modo de viver: sem torneiras, bicos de luz, sanitários com botão de pressão, ficam atirados nesses fundões.

E é ali que os “bons cidadãos” despejam porcarias oleosas e plásticas de todos os tipos. Somadas às próprias porcarias dos pobres-diabos ali estabelecidos, elas criam um caldo de cultura bem inculto e doentio.

Claro que a Prefeitura não está alheia a isso, pois vai lá e expulsa. O problema é para onde os pés-rapados vão quando são rapidamente expulsos pelas nossas zelosas autoridades.

Será que os excluídos andam combinando algo no breu das tocas? No caso de uma “invasão relâmpago” em Cascavel, num sábado, a combinação ficou clara: uma família, com a ajuda de várias pessoas, começou a erguer uma casinha numa área pertencente à Prefeitura.

O mutirão acelerado pretendia levantar a casa e criar uma situação de fato, mas a Guarda Municipal agiu rapidamente e acabou com a festa.

O argumento para escorraçar a família é que ela não vivia na desgraça absoluta, pois pagava aluguel. Daí concluímos que se estivessem mesmo na M total, a invasão seria autorizada.

Ou então que quem paga aluguel é criatura feliz, sem direito a querer casa própria. E no vai e vem da nossa rica vida metropolitana, continuamos sem saber por quê os jovens são assassinados e para onde vão os sem-tetos depois de enxotados dos fundos de vale.

Cortem a cabeça! – por alceu sperança /cascavel.pr

Alceu sperança  - AJC (1)A Rainha de Copas ordenou que cortassem a cabeça de Alice com base na história do Brasil?

O capitalismo se desenvolveu com o “financiamento” do ouro roubado das terras brasileiras e vizinhas, mas antes disso até as idéias libertárias da Revolução Francesa foram “desapropriadas” pelos europeus, recolhidas dos nossos índios, como amostras de sangue para patentear ou exemplares de nossa biodiversidade.

Afonso Arinos defendia essa tese no livro “O índio brasileiro e a Revolução Francesa” (1937) e Darcy Ribeiro batia na mesma tecla.

Viu potencial para uma drástica mudança nas cabeças de “um bando de europeus malcheirosos vindos de cidades devastadas por peste e fome, encontrar aquela indiada nua, paradisíaca”.

Esse paraíso a olho nu certamente poderia inspirar idéias novas em alguém às voltas com os horrores de sua época. Os livros religiosos sempre se referiram à possibilidade de um mundo novo para os homens, sem injustiça e opressão. Encontrar os índios era aprender que esse paraíso é possível.

A coisa toda pode ser rastreada. A carta Mundus novus, de Américo Vespúcio, nos valeu sermos hoje americanos e o fascínio pelo paraíso na terra:

“Todas as árvores são odoríferas e produzem gomas ou óleos (…) cujas propriedades todas, se fossem conhecidas, não duvido que andaríamos todos sãos. E por certo que se o paraíso terrenal existe em alguma parte da terra, creio que não deve ser longe destes países.”

De onde será que tiraram a idéia de vir roubar nossa biodiversidade?…

Os franceses André Thevet (1558) e Jean de Léry (1578) chegaram a exagerar: tínhamos homens marinhos e bichos que se alimentavam de ar. A Igreja Católica se assustou e mandou investigar. Notícias antecedentes, curiosas e necessárias das cousas do Brasil, obra do padre Simão de Vasconcelos, em 1663, deveria historiar essa investigação, mas o capítulo que tratou do assunto foi censurado.

A coisa praticamente teve início com Thomas Morus e seu livro A utopia (1516), que deriva de Américo e sua fabulosa América. O protagonista é um marinheiro europeu que aprende uma linda lição: “A virtude consiste em se viver segundo a natureza”.

O francês Michel de Montaigne, que está voltando à moda outra vez, não deixou por menos no ensaio Sobre os canibais (1572), louvando a vida selvagem para criticar as instituições européias. “A essa gente chamamos selvagem como denominamos selvagens os frutos que a natureza produz sem a intervenção do homem”.

Esse paraíso, pode-se notar pelo que Montaigne escreve, foi para as cucuias:

“É um país (…) onde não existe hierarquia política, nem domesticidade, nem ricos e pobres; (…) o trabalho dos metais aí se ignora; não usam vinho nem trigo; as próprias palavras que exprimem a mentira, a traição, a dissimulação, a avareza, a inveja, a calúnia, o perdão, só excepcionalmente se ouvem.”

Daí, como dizemos aqui, temos Rousseau e suas considerações idealistas sobre o “bom selvagem”. E logo viria a Revolução Francesa, com base na ideia de que seria uma beleza viver sem propriedade nem a exploração do homem pelo homem, como aqueles índios nus que, quando guerreavam, era por um impulso natural.

Inclusive na hora de cortar cabeças!

Depois Marx transformou o cantar da guilhotina ao cortar cabeças em algo mais cabeça. Mas aí, entre os índios nus encontrados em 1500 e os dias de hoje, já são outras 500 revoluções.

E nossas cabeças já não são mais as mesmas.

O LULIBERALISMO por alceu sperança / cascavel.pr

Ao retornar de viagem de trabalho ao Rio de Janeiro, o colega Jairo Eduardo, do jornalzinho Pitoco, deixou no ar uma pergunta irrespondível. Depois de assinalar que há nas plagas fluminenses obras fantásticas, um mundaréu de turistas trazendo dinheiro a toda hora e fabulosos investimentos públicos e privados feitos cotidianamente naquele Estado, ele sapecou:

“Como pode tanto dinheiro gerar tanta miséria?”

Antes de responder ao irrespondível, vamos tentar responder a algumas perguntas mais simples. Por que o Primeiro Mundo é rico e a América Latina não é? É bem simples: o capitalismo se impôs no mundo através de grandes roubos, coisa que, aliás, Marx cansou de dizer.

Roubaram nosso ouro e, assim, ficaram ricos e nós seguimos pobres. Portugal, que iniciou essa roubalheira toda – e como deixou seguidores nas elites brasileiras! – saqueou fortemente o Brasil e deixou uma Independência falsa, soterrada por uma dívida externa que não devemos e até hoje, no luliberalismo, ainda se paga na forma de juros absurdos.

Luliberalismo? Delfim Netto: “O Lula tem virtudes e desvirtudes. Ele mudou o Brasil de forma importante, de forma a salvar o capitalismo” (O Globo, 20 de setembro de 2009)

Entregando o ouro

No entanto, todo o ouro surrupiado não contribuiu para que Portugal continuasse a grande potência da época dos descobrimentos. Esse ouro, cáspite!, acabou foi aprofundando a dependência de Portugal à Inglaterra.

O que Portugal comprava do florescente capitalismo inglês (hoje os endividados EUA compram da florescente China), era cobrado em muito ouro. Fomos nós, portanto, com nosso ouro, que financiamos a Revolução Industrial e o luxo europeu. Esse ouro, ufane-se, criou a grande força do capitalismo mundial.

Entregamos o ouro e sustentamos o florescimento do capitalismo no mundo, Lula entrega o ouro e salva o capitalismo no Brasil…

Foi a glória quando Napoleão enxotou d. João para o Brasil, pois assim partes da Europa, Ásia e África passavam a ser governadas daqui. É, sim: até a globalização fomos nós que iniciamos!

Agora o Brasil não era mais uma coloniazinha remota. Era a sede de uma tradicional monarquia europeia. Mas essa vinda aos trópicos entregou de vez a rapadura portuguesa à Inglaterra, que veio definitivamente a ser a grande beneficiária do ouro brasileiro.

Mais e mais perguntas

Além de devorar nosso ouro e com ele financiar o capitalismo/imperialismo no planeta azul, a Inglaterra nos passou a conversa e repentinamente estávamos lhe devendo os tubos, e cada vez mais.

Além de tomar nosso ouro, tomaram nossos melhores cérebros, colocando a seu favor, pagos com migalhas daquele ouro, os doutores, magistrados, governantes, parlamentares, fazendeiros, industriais, comerciantes.

Vemos aí que a roubalheira, a corrupção e a miséria que entristeceu nosso colega Jairo têm origem justamente numa grande riqueza: nosso ouro.

Ao irrespondível, há que responder com mais perguntas: como pôde toda a riqueza gerada pela madeira que saiu do Oeste paranaense para reconstruir a Europa devastada pela II Guerra Mundial, e depois construir Brasília, gerar a atual criminalidade e a violência na periferia de Cascavel e Foz?

Como pode toda a riqueza gerada pela soja dar nessa gurizada que mata e morre, rouba e assalta a toda hora no centro e nos bairros?

Como pode todo o ouro brasileiro ter produzido a corrupção, a elite mais calhorda e venal do mundo, esses governinhos federal, estaduais e municipais luliberais cheios de lábia e escassa competência, as bolsas-família, bolsa-jagunço, CPMF, mensalão etc?

Porque o espaço acabou, talvez seja a hora de mais gente começar a responder a tantas (e incômodas) perguntas.

De joelhos, não! – por alceu sperança / cascavel.pr

Não é o caso de morrer de amores por Pierre-Joseph Proudhon (1809–1865), a quem Marx deu a devida resposta em Miséria da Filosofia, mas ele estava coberto de razão quando disse que “os grandes só parecem grandes porque estamos de joelhos”.

Bairros não precisam pedir licença a uma Prefeitura para criar suas associações comunitárias. Foi o que se tentou fazer em Cascavel, uma cidade que deveria ser mais evoluída que isso.

As entidades de bairros sequer precisam necessariamente estar afiliadas a uma união municipal de associações, comoAlceu sperança  - AJC (1) tentaram oficializar na Terra Vermelha, para que tivessem “autorização” para funcionar.

Nada contra uma união comunitária que reúna esforços gerais, pois isso permitirá melhores condições de pressionar o poder público a dar conta de suas enormes responsabilidades.

Mas apesar de alguns diretores de associações de bairro amarem estar comprometidos até a medula com os poderosos de plantão, os moradores têm todo o direito de se reunir e formar suas entidades, livres da tutela oficial, escapando à síndrome da correia de transmissão – aquelas organizações corrompidas rebocadas a líderes políticos, traficantes e quejandos.

Esse comentário tem a ver com a ojeriza que acometeu certos setores do poder em Cascavel com a reativação de uma entidade de moradores que, segundo se publicou pela imprensa, não seria “reconhecida pelo movimento comunitário”.

Que “movimento” é esse, que reconhece ou deixa de reconhecer entidades de bairro?

Parece o tal do “Mercado”, que grita seu silencioso grito através da mídia toda vez que o povo começa a exigir seus direitos.

“O Mercado ficou nervoso”, diz um jornalista de economia. “O Mercado gostou da decisão do presidente Lula”, diz outro, passando a opinião do tal “Mercado”, na verdade um timinho de banqueiros.

O jovem mas já calejado João Luiz de Araújo, polêmico e persistente líder comunitário popular em Cascavel, fez o “Mercado”, quer dizer, o tal “movimento comunitário”, subir nas tamancas ao reativar a entidade que abrange os loteamentos Colonial, Clarito, Jardim Pazzinatto e Jardim Floresta, depois que a associação ficou inativa por mais de um ano.

Trata-se de uma atitude exemplar: quando os dirigentes das entidades de bairros se amarram às botas do prefeito, vereadores e dirigentes partidários, elegendo-se com belas propostas e depois passando apenas a usar o título de dirigente de bairro para fazer negócios com os políticos, é a hora do pessoal se reunir na saída da igreja e combinar outra saída.

Ou a convocação de uma assembleia geral para destituir a direção corrompida, adulterada, vendida, alugada, mensalizada, ou refundar a entidade com bases nos princípios estatutários que, invariavelmente, proíbem os dirigentes de meter a entidade em política partidária. No limite, criar uma nova entidade, mais democrática e combativa.

A política partidária não é o território das associações de bairro, aliás, nem de associações empresariais ou clubes lojistas. O movimento comunitário é formado por todas as correntes subjacentes na sociedade: não pode se atrelar ao grupo no poder municipal, ao vereador, ao deputado, ao rei da cocada ou da crackada periférica.

O exemplo de João Luiz Araújo, goste dele quem quiser, deteste-o quem julgar ter motivos para tal, é uma sinalização correta de como se deve agir quando a paralisia toma conta das entidades comunitárias.

Vale o recado da brilhante escritora e fotógrafa norte-americana Eudora Welty (1909–2001), grande conhecedora da alma humana:

“A hora em que você precisa fazer alguma coisa é quando ninguém mais quer fazê-la ou quando todos dizem que é impossível”.

AS MEIAS LUTAS por alceu sperança / cascavel.pr

Gosto muito do senador Christovam Buarque, dos ambientalistas e especialmente dos estudantes, aos quais dediquei meu livro Cascavel, A História.

Mas é preciso ter esse radicalismo meio chato, e contudo necessário, de dizer a todos que de pouco resolve lutarAlceu sperança  - AJC (1)pontualmente pela educação, pela proteção ambiental, pelo passe-livre no ônibus.

Há muito canalha educado e de boas maneiras. O problema da destruição ambiental não é do “homem”, mas de um sistema cruel e injusto. E educar as pessoas para se acomodarem a ele não vai liquidá-lo.

Você pode ganhar o passe-livre hoje e não ter ônibus amanhã, porque o sistema é sacana: quem paga o transporte coletivo, de fato, é o trabalhador que aguenta chuva e vento no ponto de ônibus, e não o prefeito aburguesado ou o governador falastrão, diante de cujos palácios as passeatas são feitas.

Se os professores, os ambientalistas e os jovens não perceberem que o problema é o capitalismo, ainda mais agressivo em sua atual etapa neoliberal, continuaremos vítimas da ideologia.

Seguiremos tomando atitudes politicamente corretas, como lutar pela educação integral, pelo ambiente repleto de belas borboletas e pelo estudante sem pagar lotação, mas estaremos cultivando e mantendo as grandes causas das desgraças e das injustiças deste mundo.

Em recente reunião, discutindo a importância da educação no processo de desenvolvimento político, a professora Ana Carla Marques da Silva alertou que a educação, por si mesma, não é nenhum instrumento revolucionário.

Por sua vez, a propósito da pasmaceira do movimento estudantil, hoje engabelado pela guarda pretoriana do lulismo, a professora Francis Mary Nogueira nos deu um recado magnífico:

“Não só o movimento estudantil, como o sindical e de esquerda, precisam entender o que está acontecendo para orientar as organizações”.

São questões incompreensíveis para quem sucumbiu à ideologia, essa coisa manipuladora e quase invisível que sacraliza o pontual e demoniza o geral.

As lutas pontuais são importantes, é claro, pois seria um absurdo estudante não brigar para ter professor em sala, desempregado não lutar por trabalho, favelado não reclamar casa, deserdado do campo se conformar em não ter terra.

É preciso inclusive intensificar todas essas e outras lutas. Mas ainda assim estaremos hipnotizados pelo pêndulo manipulado pela causa de toda essa desgraceira que nos aflige, enluta, entristece e deixa inseguros: a ideologia, que mente, distorce, esconde a verdade, privilegia o secundário, distrai com a irrelevância.

Um pêndulo a serviço do neoliberalismo, com sua economia desempregadora, sua precarização do trabalho, maximização de lucros dos banqueiros e das transnacionais, a adequação dos estados nacionais a seus propósitos desumanizantes.

Assim, as lutas pela educação, pelo meio ambiente e pelo passe-livre são apenas meias lutas, pois não focam as causas ocultas – e malandramente disfarçadas – do descalabro educacional, da destruição ambiental e do elevado custo do transporte urbano (e da vida, em geral).

Só a luz no fim do túnel não basta. É preciso abrir o olho para aproveitá-la e ver de fato o que acontece em nosso mundo: a prevalência do sistema de culto ao vencedor, que implica haver guerras.

Moderno, eficiente e poderoso, ele nos enreda em sua teia de trapaças, ameaçando a sobrevivência da espécie humana com o desastre do clima, por exemplo.

Um desastre que igualará na desgraça ricos e remediados aos famintos. O “socialismo” da infelicidade substituindo aquele que desejamos – o usufruto coletivo das riquezas.

GENTE BRONZEADA por alceu sperança / cascavel.pr

Se males piores o capitalismo em sua etapa neoliberal não contivesse além da brutal contradição entre desenvolvimento e destruição ambiental e da liquidação geométrica dos postos de trabalho proporcional à evolução Alceu sperança  - AJC (1)aritmética do progresso científico e tecnológico, ele deveria ser condenado como desumano no mínimo por uma constatação inquestionável e da maior relevância: ele é cruel para com o futuro da nossa espécie.

Evidencia-se isso de várias formas, inclusive pela destruição ambiental e pelo desemprego gerado com a introdução de computadores e robôs nas empresas, mas a face mais ofensiva desse sistema injusto é o que está acontecendo com as crianças, agora mesmo.

Mais de 200 milhões de crianças menores de cinco anos nos países mais pobres não atingem seu potencial de desenvolvimento, apontou um estudo do University College de Londres, publicado na revista médica The Lancet. Os pesquisadores mostraram o óbvio: pobreza e desnutrição redundam num cérebro menos capaz de aprender.

Essas crianças podem até ter vagas na educação “universalizada”, mas entram em sala com desvantagem competitiva com aquelas cujas mães conseguiram cuidar bem desde a gestação.

No que isso dá

É claro que a maioria delas, com exceção de um André Rebouças aqui ou de um Milton Santos acolá, devido às condições excepcionais de sua criação, poderão erguer a cabeça além do nível da água, mas essas crianças em desvantagem tendem a ter mau desempenho na escola, reproduzindo a velha equação: baixa renda + alta fertilidade = mais gente com menos dinheiro. E sempre mais gente infeliz.

É assim que a pobreza vai atravessando as gerações e explode na forma de insegurança e violência nas nossas cidades sitiadas no medo e nas injustiças sociais, agravadas dia a dia pelo neoliberalismo e sua máquina ideológica de engabelar.

O estudo promovido pela instituição britânica desfila um rol de obviedades: as crianças dos países pobres sofrem com a pobreza renitente, a má nutrição continuada e a completa falta de estímulo da família para elas, e à família por parte da sociedade e dos governos eleitos pelo povo para a alegria dos banqueiros compradores de votos. O fruto óbvio dessa desgraceira toda é a criança afetada em seu desenvolvimento cognitivo, motor e socioemocional.

Hoje, vivem em países pobres mais de 600 milhões de crianças menores de cinco anos, das quais 160 milhões têm problemas de crescimento e 130 milhões penam na absoluta pobreza. Essas crianças estão condenadas a ter menos educação, um menor desenvolvimento cognitivo e a ser menos produtivas.

“Deveriam implementar”

Ingenuamente, os pesquisadores que elaboraram o estudo concluem que “para alcançar os Objetivos do Milênio para reduzir a pobreza – e assegurar que meninos e meninas completem a escola primária –, os governos e as sociedades civis deveriam implementar programas de desenvolvimento infantil de alta qualidade”.

Esses governos neoliberais do tipo PT/PSDB/PMDB/DEM e essa sociedade omissa e conivente que aí estão não vão fazer nada disso em homenagem à bela cor dos olhos pidões e sofridos dos miseráveis em geral. Vão enrolar a massa a bolsadas e enriquecer os barões assinalados que financiam as campanhas eleitorais.

Pois, já dizia Marx em Miséria da Filosofia, essa coisa hoje dominante só pensa no que lhe dá lucro:

“É o tempo da corrupção geral, da venalidade universal ou, para falar em termos de economia política, em que qualquer coisa, moral ou física, tendo-se tornado valor venal, é levada ao mercado para ser apreciada por seu valor adequado.”

Por aqui, temos que reviver a bela palavra-de-ordem do poeta Assis Valente:

“Chegou a hora dessa gente bronzeada mostrar seu valor” (Brasil Pandeiro, 1941).

MAU SUCO por alceu sperança / cascavel.pr

O PPS cometeu um enorme desserviço à história do País quando tentou destruir o Partido Comunista Brasileiro (PCB), dando-nos um enorme trabalho para reconstruir tudo do zero.

Para dificultar esse trabalho, espalhou por aí, sem o menor pudor, todo o patrimônio documental do Partidão, que acabou nas mãos da Globo, veja só!

Em seguida, irrefletidamente, apoiou a tucanagem nas eleições. E agora anuncia a intenção de promover discussões sobre a “esquerda democrática”… Deveria ter mais respeito pela própria história e não levar água ao moinho da direita.

A esquerda é democrática por definição e a adjetivação dela é absolutamente imprópria e malandra. Sugere que o PPS é “esquerda democrática” em oposição a uma esquerda que seria “antidemocrática” ou “não-democrática”.

O que é a esquerda, hoje, neste planeta? É não se render à ideologia capitalista, que hoje se apresenta com sua cara mais feroz e, contudo, hipnótica: o neoliberalismo. A ideologia que leva o escravo a desejar ser escravo, querer consumir e ser consumido, gastar e ser gasto.

Coisa gagá

O grande ridículo dos últimos tempos foi aquela coisa gagá dita pelo presidente Luiz Inácio:

“Se uma pessoa idosa é muito esquerda, então ele não sofre bem da cabeça”.

A besteira está menos na questão da idade que no conceito absurdo de intensidade: o que é ser “muito esquerda”, “pouco esquerda” ou “médio-esquerda”? Uma bobagem como “muito grávida”, “medianamente grávida” ou “pouco grávida”.

A esquerda é um amplo e multifacetado movimento anticapitalista e antineoliberal, de teor humanista e ambientalista, comandado pelas forças do mundo do trabalho em sua autodefesa, que procura de forma admirável, persistente, enfrentando toda a ardilosa e renitente ideologia vigente, radicalizar a democracia e não se opor a ela.

Sequer está em busca do Comunismo, um horizonte ainda impossível de compreender sem antes construir o socialismo como processo de transformação do antigo em novo.

O deputado Chico Alencar, do PSol – um dos partidos integrantes da Frente de Esquerda, ao lado de PCB e PSTU nas últimas eleições presidenciais –, fez, em uma palestra, um resumo do que é a esquerda nos dias atuais:

“Pela democratização radical: dos grandes meios de produção e… dos meios de governar (inclusive as caixas-pretas dos bancos centrais e dos gestores econômicos)”.

Abraça ainda a utopia de um governo mundial cooperativo (que Paulo VI já pregara, na encíclica Populorum Progressio, de 1967, atenção!) e de um planeta saudável e auto-sustentável.

Ou seja: ser esquerda hoje é pensar mais ou menos como o Papa pensava em 1967.

Frutos amargos

Essa mania de adjetivar a esquerda lembra aquilo que o filósofo Michel Foucault (1926–1984) dizia pensarem dele:

“Fui considerado um tecnocrata, agente do governo gaullista pelos democratas. E pelos gaullistas, pela direita, como um perigoso anarquista. Até mesmo um docente americano indignou-se porque nunca um veterano marxista como eu, certamente um agente da KGB, seria convidado pelas universidades americanas, e assim por diante”.

Mas se o neoliberalismo é o inimigo principal da esquerda, que não precisa de adjetivos e nem merece que alguém tente rachá-la com adjetivação, não é inimigo menor o neo-anarquismo, que também conduz à despolitização, à desmobilização e à omissão.

O neoliberalismo e o neo-anarquismo têm de muito parecido entre si o fato de semearem o desinteresse dos cidadãos por aquilo que é seu, é público e precisa do controle e da iniciativa popular para no mínimo corrigir rumos.

Ambos apostam na disfuncionalidade do Estado-nação. Ou seja, uns querem o Estado mínimo no sentido de ausente, outros querem nenhum Estado, acreditando que basta negá-lo para destruí-lo. Os frutos dessas duas árvores são igualmente amargos e nocivos. Dão mau (e antidemocrático) suco.

Ser esquerda é estar serviço da humanidade. É, portanto, ser radicalmente, e sempre, democrático.

MÃOS AO ALTO por alceu sperança / cascavel.pr

Deixou-nos, ao cabo de seus maravilhosamente bem vividos 94 anos, em 2007, o padre francês Henri Antoine Groués, mais conhecido como Abbé Pierre, o tipo do sujeito que a gente quer ser quando crescer.

Histórico defensor dos sem-tetos, um ás na luta pelos direitos humanos, padre Pierre se tornou um aríete no combate às injustiças. Como nos fazem falta os padres Pierres, especialmente hoje, quando a engabelação líbero-túcano-lulo-petista toma conta do País!

A ditadura prometeu construir casas para o povo, mas seu BNH no máximo construiu para a classe média alta e para os ricos. Banco é sempre banco. A década de 80, na democradura então vigente, terminou com a sofrível média anual de 259 mil moradias financiadas pelo poder público, caindo ao longo da década de 90 para 219 mil.

Atualmente, “Minha Casa” é “Minha Vida” mas a vida anda pela hora da morte, aos trancos e barrancos. A produção atual de casas para a população de baixa renda nem de longe projeta um dia resolver o problema.

No País, faltam ao redor de 8 milhões de casas. No Paraná, fala-se num déficit no mínimo de 270 mil casas. Só em Cascavel, cidade rica, que não deveria ter um só sem-teto, ao redor de 40 a 50 mil pessoas – quase três Corbélias, minha gente! – não têm casa própria, morando em favelas ou habitações precárias, sem contar o pessoal da classe média que paga os tubos em aluguéis e tem o justo desejo de morar no que é seu.

A verdade, padre Abbé, é que o déficit habitacional só aumenta aqui neste paraíso de ricos fazendeiros, e a política da moradia é o retrato da incompetência, mediocridade e cara-de-pau dos governos neoliberais.

A coisa só não é pior porque em alguns lugares, onde a democracia já começa a se instalar de fato, as comunidades se organizam e se apóiam e a indústria faz sua parte ao lançar uma quantidade crescente de itens pré-fabricados cada vez mais baratos, por causa do aumento da escala de produção.

Mas ao lado da autoconstrução há outro dilema: apenas um sexto desse tipo de obra tem planta aprovada na prefeitura. É a informalidade habitacional paralela à segregação geográfica.

E o outro lado da moeda é que há 5 milhões de lugares vagos no Brasil (para um déficit nacional de 8 milhões de lares), a maioria casas e apartamentos em áreas centrais e consolidadas. E no atual ritmo de investimentos, diz projeção da ONU, haverá em 2020 cerca de 60 milhões de brasileiros morando em favelas. Uma França inteirinha, padre Pierre!

Não é preciso grande esforço investigativo para achar o culpado. Se os gastos com habitação em 1990 representaram apenas 22% dos registrados em 1980, e não mais aumentaram desde então, é mais do que claro que essa coisa monstruosa é mais um pecado mortal do neoliberalismo, que no Brasil é sustentado pela dupla PSDB-PT, agregados e aderentes.

Com a extinção do BNH, grande fracasso da ditadura, Estados e municípios passaram a ter políticas próprias de habitação. A toda hora surgem mais programas habitacionais e, contudo, os recursos minguam. Claro, precisa sobrar dinheiro para encher o saco dos banqueiros por conta das dívidas suspeitas que o Império criou, a ditadura aumentou, a tucanagem multiplicou e o lulismo paga sem bufar, à custa do sacrifício de milhões de brasileiros levados no bico pelo bolsismo reinante.

Mantenha as mãos ao alto, pois o assalto secular continua.

No meio dessas gripes todas, livrai-nos do mal! – por alceu sperança / cascavel.pr

A globalização neoliberal, além de seus sete (mil) pecados capitais, tem um pecadilho adicional que incide sobre a cidade, a aldeia, o vilarejo: ela é tão massacrante, perversa e ardilosa que nos faz cruzar os braços na crença de que nada que façamos aqui e agora poderá ajudar o mundo e o País a melhorar.

Essa crença conduz à despolitização, que favorece a manutenção do poder pelos mensaleiros, sanguessugas e outras pragas que se cevam da desinformação e do controle ideológico das massas.

Esse cruzar de braços traz, além da despolitização, apatia e indiferença aos temas que nos interessam muito de perto e dos quais nossa vida depende:

1) Desemprego maciço, que não é efeito colateral da tecnologia, que seria “culpada” pelo desemprego, na propaganda dos donos do mundo. Na verdade, o desemprego resulta do entendimento desumano de que o ser humano de nada vale, a não ser na condição de máquina capaz de dar lucro ao escravocrata que a emprega.

2) As reais causas da criminalidade, da insegurança e da violência,  que não são um caso de polícia, mas de política. Causas como o aumento da dívida irreal e o aumento a corrupção real, sugando dos cofres públicos os recursos necessários à resolução concreta de problemas concretos – infraestruturais e sociais. E quem mais sofre com isso são os escravos, neo-escravos, inadimplentes, desempregados, doentes, ignorantes e desesperados. Só descer o porrete nos que sofrem não resolve, apenas realimenta o mal e os males.

3) O caos ambiental, que ameaça nossa descendência no planeta. Eles não dizem assim – caos ambiental – mas “aquecimento global”, que os cientistas comprados pela exploração capitalista colocam na conta da própria natureza e não de seus geradores. Ora, o AG é uma regulação natural: já existia desde o tempo dos dinossauros. Logo, não é uma criação deliberada, criminosa e desumana do capitalismo: é a “vontade de Deus”…

Refletir – Mas o que podemos fazer, aqui neste cantinho do mundo, para resistir a esse poder babilônico, sequioso de lucros e indiferente ao sofrimento de bilhões de pessoas?

Logo de saída, refletir. Que partidos e “lideranças” estão de algum modo comprometidos com o neoliberalismo? O saudoso Otávio Brandão (1896–1980) aconselhava: “Examine os políticos de acordo com o partido e com a classe que representam”.

E com cuidado, pois a maioria engana, até se fingindo de “socialistas” ou “verdes”, ocultando a submissão ideológica ao neoliberalismo no clássico modelo do lobo em pele de cordeiro.

Por isso, mais vale a ação que a palavra, o compromisso persistente que a repetição episódica e oportunista de chavões de efeito retórico, como nunca antes na história deste País.

Basicamente, o neoliberalismo, que tanto encanta (e controla) o governo Lula, inclinando-o perigosamente para a direita, e partidos como PT, PSDB, PMDB e DEM, seus aderentes, agregados e similares, é um moedor de carne representado, bem no alto, por empresas transnacionais e das altas finanças.

São máfias, “ruralistas”, o grande capital local associado ao estrangeiro, os corruptos, as empresas prestadoras de serviços a prefeituras, governo estaduais e à União.

No caso da mão-de-obra, esse moedor de carne leva à liquidação de empregos, pois um robô efetivamente desemprega um montão de pessoas. À redução do emprego direto via terceirização. E à transformação do salário em custo variável (remuneração vinculada às metas de produção e vendas).

E viva a informalidade, o banditismo, o salve-se-quem-puder!

Deuses malucos – O neoliberalismo nos faz dever os tubos: FHC assumiu o País com a dívida interna (aquela que nós, você e eu, teremos que pagar) na casa dos R$ 60 bilhões e saiu deixando-a na casa dos R$ 800 bilhões.

Aí veio Lula e fez a festa dos banqueiros, tendo o pagamento dessa dívida como prioridade, com a infraestrutura a perigo, a desindustrialização às portas e se mantendo no poder doando migalhas bolsistas a um povo sofrido, secularmente levado no bico.

Pode acreditar quando os lulistas dizem que “fizeram” duas vezes mais que o desastrado FHC: estão praticamente dobrando a dívida já monstruosa que a tucanagem ardilosa deixou!

Assim, há que apresentar resistência também aqui, localmente, ao massacre neoliberal, que é em primeiro lugar ideológico.

Ele entorpece com drogas de todos os tipos – cachaça, cocaína, crack, TV, cartão de crédito –, a consciência de quem, no mínimo por pensar na própria vida e na família, deveria estar combatendo o neoliberalismo no local de trabalho, na escola, no ponto de encontro.

Não é possível que alguém consiga ficar indiferente ao desemprego maciço que nos ameaça, à violência que nos cerca e ao caos ambiental que se manifesta desde já num espantoso aumento dos casos de câncer de pele e pandemias.

Tais fenômenos não resultam da vontade dos deuses, mas de nossa ação ou omissão: “Se a miséria de nossos pobres não é causada pelas leis da natureza, mas por nossas instituições, grande é a nossa culpa” (Charles Darwin).

TODO O PODER AOS BARNABÉS por alceu sperança / cascavel.pr

Os municípios brasileiros vivem dias muito difíceis. Os vereadores se desdobram para mostrar serviço e não têm como: nada que eles façam tem qualquer influência do que realmente importa para as pessoas – salário, renda, estrutura de saúde, domínio ideológico das grandes corporações mundiais sobre cada centímetro do planeta.

Em Cascavel, eles decidiram mostrar que fazem mais do que discutir sexo dos anjos e quadratura do círculo, passando a se exibir nos bairros para ver se a popularidade aumenta. O prefeito só enrola, pois o orçamento é um terror e as necessidades são imensas. Nem se arrisca a processar malfeitores, pois se estes vencerem na Justiça o Município tem que pagar custas judiciais proibitivas.

Há precatórios simplesmente criminosos, impagáveis, mas a espada de Dâmocles está sempre sobre o prefeito: intervenção, sequestro da arrecadação de impostos, quebradeira da estrutura de saúde, professor sem salário…

De resto, um dos truísmos mais cultivados por aqui desde a ditadura é que um prefeito só traz “benefícios” para a cidade se estiver de quatro debaixo de um presidente ou governador. Se for contra o estado ou o governador, não traz nada. Se é a favor, não passa de capacho e pau-mandado.

Por que os municípios vivem essa tamanha sensação de que tudo está errado? Por que houve a redução do número de vereadores? Não, porque quando havia mais vereadores a situação crítica era a mesma e o prefeito precisava “mensalizar” mais gente para aprovar projetos e ter à disposição o tal “cheque em branco” – margem de manobra imoral para dispor do dinheiro público sem o controle dos representantes do povo.

A crise se deve à imprensa, que não elogia os esforços hercúleos do prefeito para pôr a casa em ordem? Não, porque o velho Joseph Pulitzer (1847–1911), na mais magistral aula de jornalismo de todos os tempos, deu o tom: “Nossa missão é confortar os aflitos e afligir os confortados”. Puxador de saco na imprensa (“um abraço para o deputado Fulano”) é criatura desprezível. Desligue ou rasgue.

Todas as forças políticas ideológicas tradicionais, com exceção apenas dos comunistas (que jamais concorreriam à Prefeitura), já tiveram a chance de administrar municípios brasileiros e quebraram a cara neste período pós-ditadura. Estranhamente, os mesmos fracassados continuam vencendo eleições. Quer dizer, estranhamente para quem não sabe como as salsichas são feitas e como ocorre o financiamento das candidaturas…

A causa local da crise é que no geral não houve nenhuma reforma administrativa real nas Prefeituras. Mudam nomes de prefeitos e secretários, mas o organograma básico é o mesmo. Os cofres são raspados até o centavo, o povo não percebe melhorias e só vê a violência aumentar. O nepotismo, o loteamento de cargos, a troca de favores e o tráfico de influência estão na base de todos os quiproquós verificados há décadas.

Só proibir a nomeação de parentes seria um passo ainda muito tímido, pois pode ser contornado nomeando parentes dos cupinchas. Falta-nos uma reforma administrativa revolucionária, eliminando logo de cara todos os cargos de confiança, a não ser três ou quatro para ouvidoria, controladoria, auditoria, algo assim.

A fortuna economizada iria tapar um pouco o buraco da saúde e reforçar a Educação em Tempo Integral. É preciso extinguir todas as secretarias e seus salários milionários. É a hora de privilegiar exclusivamente os funcionários de carreira nas tarefas administrativas.

Todo poder aos barnabés! No lugar de secretários pagos a peso de ouro, governar só com a Câmara, já bem paga, e os conselhos populares. Os mamadores, que perderão a teta já quase seca da vaca-povo, vão odiar. Que odeiem. Vamos deixar esses homens trabalhar, mas na iniciativa privada.

OBRIGADO, LULA por alceu sperança / cascavel.pr

O presidente Lula fez um favor ao País pondo fim às ilusões daqueles que ainda acreditavam que ele e o PT tivessem qualquer coisa de esquerda. Se ele próprio não tivesse dito, seria preciso continuar a desmascará-lo dia após dia, e ainda assim haveria iludidos, crentes em que ele, seus satelizados e mensalizados poderiam um dia encaminhar o Brasil ao socialismo.

Lula, o PT e seus satelizados estão claramente no campo da direita. Sua opção é a neoliberal, sendo necessário, assim, organizar a resistência. Enganadores, travestiam-se de esquerda sob o falso pretexto de combater as privatizações, no exato momento em que criavam em seus porões as famigeradas PPPs (parcerias público-privadas), que significam entregar o que é do povo a empresas privadas, especialmente transnacionais. As práticas revelam seu verdadeiro caráter, em nada diferente da balela tucano-pefelista (hoje, demonista).

Com as ilusões desfeitas, já podemos colocar os pingos nos is e começar a unificação da esquerda brasileira. Esquerda, sim: é bobagem essa história do Caetano de que os conceitos de direita e esquerda estão demodês. Nem ele está. Hoje, neste mundo tão cheio de injustiças, doença e miséria, em que poucos nababos enriquecem e milhões de pessoas sofrem e sucumbem, é impossível não delimitar dois campos opostos: a direita, para onde Lula escolheu ir, é o neoliberalismo, e a esquerda é, no mínimo, o antineoliberalismo.

O neoliberalismo não tem nada de demodê, portanto. Por isso, a Intersindical, em seu II Encontro Nacional, decidiu criar uma divisa para barrar as tentativas neoliberais de tirar direitos do povo: “Nenhum direito a menos, avançar nas conquistas”. Com essa bandeira, a Intersindical vê claramente a “perspectiva de aprofundamento, ainda maior, dos ataques promovidos pelo capital às conquistas dos trabalhadores e trabalhadoras no segundo mandato do governo Lula”. Serão leis, medidas provisórias e administrativas e reformas da Previdência, Sindical e Trabalhista, dentre outras, e há o risco de setores majoritários do movimento sindical se renderem a essas manobras.

A proposta da Intersindical é “intensificar a discussão, conscientizar, mobilizar e unificar os lutadores sociais para derrotar a política dos governos neoliberais, que retiram as conquistas e direitos históricos da classe trabalhadora, bem como buscam destruir as suas formas e possibilidades de organização como classe”.

A criação da Intersindical se baseou na necessidade de enfrentar o Estado capitalista, com autonomia e independência dos trabalhadores em relação aos governos, patrões e partidos. Busca a organização autônoma e independente dos trabalhadores, sustentada em suas organizações de base, visando a romper com o corporativismo e combatendo a burocracia, o assistencialismo e o aparelhismo sindical. Algo de novo no front, portanto. Engabelar os trabalhadores era a regra. Mas a máscara finalmente caiu.

No entanto, há muita ignorância neste País em relação ao verdadeiro papel dos governos – federal, estaduais e municipais. Sua função na verdade não é governar, mas administrar a crise. Mal e porcamente, com nosso dinheiro. E elevadíssimos índices de popularidade.

Nossos criminosos olhos azuis / por alceu sperança

 


 

Joseph Pulitzer achava que um governo enrolão e uma imprensa “cínica, mercenária e demagógica” produziriam um povo igual. Um povo impostor, misto de Pedro Malazartes, Papai Noel, cegonha, Barão de Münchausen e coelhinho da Páscoa. Será que chegaremos a isso – a ter um povo tão canalha quanto as elites espoliadoras? Ou, na verdade, o sofrimento pelo qual o povo brasileiro passa vai servir de lição para não cair mais em conversa fiada eleitoral?

Terão uma função educativa a crescente insegurança, medo de perder o emprego, terror de não poder pagar as dívidas empenhadas nos cartões de crédito, a ameaça de declínio social, a impotência diante da corrupção, a quebradeira dos serviços públicos em cotejo com a mais brutal carga tributária do planeta, preços altíssimos para tudo, como uma indecente tarifa do lotação e o custo do litro de gasolina? 

Como aprendemos no bê-a-bá do marxismo que tudo está ligado, é impossível desligar esse caos urbano e rural que varre o Brasil do desastre da ideologia. Depois de convencer todo o mundo de que estavam certos, eles mesmos estão comprovando que tudo estava errado: o Estado que se queria mínimo vai socorrer os bancos quebrados, reforçar o caixa das empresas falidas, socorrer os ricos com os caraminguás dos pobres.

E agora a polícia desanda a dar borrachada em pobre desde a elegante Londres até o grotão mais miserável da Tailândia. É um tal de baixar o cassetete que a face mais visível do Estado na crise é ele assumir um caráter policial, xerifesco. Descem o pau a cada tentativa de exigir justiça, direitos e benefícios provindos dos impostos embutidos em tudo o que se compra.

Não há como negar que o mundo está submetido a um comando policial, exercido pelos EUA a pretexto de combate ao terrorismo. Isso vai se refletir também nos países dominados pela mão pesada do Grande Irmão do Norte. Aliás, a ditaduras sangrentas que se implantaram em consequência da maldita Guerra Fria eram quentíssimas no lombo dos povos latino-americanos, africanos e asiáticos. Que outro sentido teve a “Operação Brother Sam”, avalista da ditadura do 1º de abril? Os EUA têm sido a polícia do mundo: prendem e arrebentam pelo planeta afora e espalham sua ideologia de perseguição e exclusão. É mera consequência que a violência e a criminalidade aumentem no Brasil.

Já houve um tempo em que os “quinta-coluna”, brancos de olhos azuis, eram rancorosamente perseguidos. Nossos avós italianos eram presos e espancados por qualquer motivo. Os alemães iam para o xilindró por um simples sotaque. Até era possível se fazer de mudo e botar peruca preta para ocultar os cabelos louros, mas não havia como disfarçar aqueles criminosos “olhos azuis”, pois não havia lentes de contato à venda nos bolichos. Esses perseguidos na II Guerra Mundial é que depois fariam a força e o desenvolvimento da economia no Sul.

E o que será dos perseguidos de hoje – os moreninhos e brancos, de olhos de todas as cores, empurrados para as favelas por conta de uma ditadura violenta e governos gastadores? Eles já poderiam ser o grande capital humano para o futuro da economia brasileira, mas os dirigentes e as elites preferem a matança dos jovens da periferia a melhorar a educação, a saúde e a geração de empregos.


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O autor é escritor.

 

 

lula-de-olho-azulilustração do site. arte digital de néo correia.

Marxismo: não conseguem inventar nada mais atual? – por alceu sperança


 

“Os donos do capital vão estimular a classe trabalhadora a comprar bens caros, casas e tecnologia, fazendo-os dever cada vez mais, até que se torne insuportável. O débito não pago levará os bancos à falência, que terão que ser nacionalizados pelo Estado” (Karl Marx, 1867). Quanto mais se estuda a obra de Karl Marx mais se tem convicção de que o velho sabia das coisas.

 

Acadêmicos, cá entre nós, não são meio chatos? Terrivelmente metódicos, adoram interromper a fluência da leitura com uma nota de pé de página recheada de referências quilométricas…

Não ligue, é apenas uma brincadeira: se Karl Marx fosse menos rigoroso com as fontes de informação e com as ideias que sorveu, não teria conseguido nos dar um dos mais importantes métodos para a compreensão das coisas que nos rodeiam.

Para nossa felicidade, apesar do lulismo e do antilulismo (duas faces da mesma moeda neoliberal), hoje os melhores professores cultivam o espírito crítico empregando as categorias marxianas. Há 50 anos isso dava demissão e até cadeia.

A Universidade Estadual do Oeste do Paraná tem sido uma das “oficinas” de vanguarda na investigação do pensamento marxista. Uma reflexão que ousou contrariar o pensamento dominante – o capitalismo –, que ainda paira sobre este mundo como cuspe de mosca.

A mosca, sabemos, alimenta-se depois de atirar sobre a vítima a gosma de seu ácido corrosivo. O capitalismo cmporta-se dessa forma para extrair lucro do trabalho humano e das necessidades dos homens.

As aberrações reacionárias da burrice paranaense fustigam implacavelmente a universidade paranaense, mas ela tira isso de letra – é um modelo.

Criada modestamente pela Prefeitura de Cascavel, incorpora hoje toda a região Oeste do Paraná e avança pelo Sudoeste, abrangendo também Francisco Beltrão.   

É um grande orgulho para os paranaenses e os brasileiros, pois temos aqui acadêmicos e professores de todo o Brasil.

Um pensamento vivo

De quando em vez, a Unioeste lembra a passagem do aniversário da morte de Marx (transcorrido em 14 de março) e quero crer que não esteja comemorando sua morte, mesmo porque teve o cuidado de meter Friedrich Engels na jogada.

E meteu bem, porque sem Engels a gente não teria aprendido coisas tão óbvias quanto estas, que tento traduzir para a linguagem da minha filha:

“Vocês, galera, se assustam porque queremos acabar com a propriedade privada. Mas aí nessa sociedade de vocês a propriedade não existe para 90% das pessoas. É porque 90% não têm nada que vocês têm tanto. Vocês acusam a gente de querer acabar com essa joça, que só existe impedindo quase todos de ter alguma coisa.  Cai na real: detonar essa droga injusta é exatamente o que a gente quer!”

Que Marx e Engels me perdoem pela tosquice da “tradução”…

De proprietário a próprio-otário

O que, realmente nos pertence? O conceito de propriedade é hoje muito fluido e complexo – não entendo nem metade. Recebi uma herança em terrenos, mas eles foram invadidos enquanto durava o inventário.

Dê-lhe usucapião urbano, advogado pedindo isenção de custas a seus clientes despossuídos, uns confirmando para os outros que moram no lugar há trocentos anos, juiz me intimando a comparecer às tantas horas de tal dia da semana lá nos cafundós, eu perdendo quase tudo e ainda tendo que dar o que sobrou à Prefeitura para pagar os IPTUs atrasados.

Os sem estão com e eu estou sem. Acho que sou dono da minha casa, mas pago IPTU, taxa de lixo, iluminação e o condomínio me põe no pau se eu atrasar.

Mas é tudo meu e ninguém tasca! Um sem-teto não paga IPTU e reza para pagar. Um caloteiro sonegador impatriota odeia pagar imposto de renda e eu, isento, adoraria pagar um milhão de reais desse imposto.

Glória e miséria da civilização

O capitalismo, no entanto, precisa de explicações bem melhores que as minhas. E a dupla Marx–Engels, até hoje, continua na frente quando se trata de trocar em miúdos esse fenomenal mecanismo de criar riquezas.

Nunca houve em toda a história algo tão capaz de gerar bens, suprir necessidades, fazer tudo avançar tão rapidamente. O capitalismo é, sem favor, o ápice da civilização.

Mas o capitalismo é a mosca, pois causa muito sofrimento. Não teríamos, mesmo ignorando Marx e Engels em definitivo, nada melhorzinho para pôr no lugar?

Afinal, há uma enorme e ofensiva mosca a esmagar!


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O autor é escritor.