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A ARTE e a FAVELA por joão batista do lago / são luis

A Favela-arte e o alegre lirismo da Arte-favela    (03/ 2006)

Como categorizar ou classificar o documentário “Falcão…” exibido na noite do último domingo[1], pelo programa “Fantástico, o show da vida”, da Rede Globo de Televisão, do Brasil, sobre as reais condições de vida dos viventes em favelas, no Rio de Janeiro – Cidade Maravilhosa? O que dizer do impacto que causou (o que não deveria, pois, essa é uma realidade comum a todos nós) ao outro lado, – à burguesia deificada pela pós-modernice imanente no imaginário da identidade brasileira -, ao ver-se refletida no espelho surrealista da grotesca sociedade nacional? Que caminhos tomar, a partir deste evento “espetacular e mitológico”, dessa fantasmagoria, desse babelismo favélico[2], que nos faz alegres e nos remetem a pensamentos tais quais: “ainda bem que não sou eu…”, “o que eu tenho a ver com isso se não moro no Rio de Janeiro…”, “isso é problema dos governos…”, “eu faço a minha parte…”, “venha para o meio…”?
Permito-me dizer que o relatório concreto[3] final (ou quase final!) da pesquisa feita em diversos morros favelados da suburbana “Princesinha do Mar”, que resultou neste documentário telemático, é uma obra de arte… Arte do submundo fantástico! Arte da degradação do ser! Arte da história do homem! Arte da história da consciência humana! Arte da teoria da sociedade! Arte da crítica e da razão! Arte do Aufklärung! Mas, também, é preciso dizer: é arte da auto-afirmação da burguesa pós-modernice que canta em verso e prosa toda a alegria da favela-arte que é mercadejada no imaginário coletivo do mercado animista[4]. É, sobretudo, a afirmação de uma arte inclusiva da exclusão… arte da reclusão… arte da guetização… arte da segregação… É, assim, todo o lirismo da arte contido em si.
O documentário desvela, ao mesmo tempo, uma tipologia dialética do Eu louco foucaultiano numa direção rastreadora do mimetismo e da metamorfose kafkiana. Gostaria mesmo de não ter essa representação imagética desse sanatório geral, mas só ela me é possível após as imagens do aqui e agora, do real e do realismo puros, apresentadas em rede nacional de televisão. Pena que três quartos (ou mais até!) dos expectadores foram dormir sem quaisquer ânsias de vomição, pois, senso comum: a pobreza, a fome, a miséria, a desigualdade, a falta de trabalho… tão essenciais para o desenvolvimento e o progresso da burguesa sociedade que dorme em berço esplêndido – e tudo o mais! – regem, como mitos sacralizados, a vida dessas almas seculares que não mais são tocadas pelos dedos dos deuses capazes de lhes proporcionar a felicidade na terra. Mesmo que momentaneamente amarguradas serão embaladas nesta noite pelos sonhos opiáticos da burguesa solidariedade (ou pena!?) cristã. Que pena!
A cavernosidade do documentário é tanta que provoca letargia imanente não deixando eliminar o monstro e toda sua monstruosidade latente imbricada numa filosofia niilista que veda os olhos da esperança por mais otimistas que queiramos ou desejamos ser. E ainda que o fato se dê no aqui e agora, ele revela a pré-história do ser humano incapaz de resolver seus antagonismos, mesmo que à cada dia mais se eleve ao nível das tecnologias esperançosas (nada mais que falsas verdades!) de uma alteridade capaz de resgatá-lo num progresso sei-lá-do-quê.
Não há como não desesperançar quando nos interiorizamos ou retornamos a essa caverna do humano onde somos assassinados após ver toda a beleza da luz, do sol, da lua, do dia, da noite, dos rios, dos pássaros, das árvores, das rosas, das flores!… Não há como não desesperançar quando nos vemos apenas um mercado onde o modo de produção é a miséria… a fome… a desigualdade… a injustiça…
O que esperar, então, desta obra de arte que retrata e reflete o eu-nós-eu-em-si nessa droga de favela-arte da droga da arte-favela em todo o seu lirismo dogmático?
– O burguês prêmio por mostrar a dialética da negação estética da favela-arte que é comercializada no mercado negro da ética acrítica e amoral – “uma pré-história do idealismo, da imanência, do espírito exaltando-se a si mesmo, da subjetividade dominadora, em que é preciso enfatizar as configurações do mito e da pós-modernidade, da natureza e da história, do antigo e do novo, do sempre idêntico e do outro, da decadência e da salvação”.[5]
Mas, “Falcão…” também nos remete para uma verificação da dialética da cultura da miséria imanente no humano que, em si, é o Eros lírico da arte fetichizada. De certa maneira nos mostra a forma e o conteúdo dessa mísera democracia libidinosa presente no aqui e agora que pensamos está além de nós, quando, em verdade, ocorre dentro da infra-estrutura política, social e econômica, no interior de cada elemento individual do sócio-histórico, isto é, da sociedade, numa pulsão prazerosa da catástrofe e do caos.
Por acaso não é a miséria a estética subjetivista de uma sociedade que contém em si diversidade de emoções e sentimentos que a suscita? Que a torna bela? Que a faz atraente? Que a deseja? Que a erotiza? Que a transforma em mito? Que a consome? Que a subjuga? Que a exclui? Que a faveliza? Que a discrimina? Que a domina? Que a naturaliza, enfim, e a desclassifica?
“Com o recuo da luta de classes em pleno dia, a contradição mudou de forma: ela tem agora a aparência de uma despolitização das massas numa cidade que era, ela própria, cada vez mais politizada. À medida que a separação entre Estado e sociedade desaparece, e o poder social se torna político sem mediação, vê-se aumentar objetivamente o antigo desequilíbrio entre a igualdade inserida no direito e a desigualdade efetivada na repartição das oportunidades de agir politicamente. Esse mesmo processo, aliás, tem também por efeito o fato de ele mesmo perder seu caráter permanente e sua acuidade na cabeça dos homens. A sociedade que, embora seja política por natureza, não está mais separada do Estado, continua a ser concebida como uma entidade separada do Estado nas formas do Estado liberal de direito – essa sociedade funcionaliza cada vez mais seus cidadãos para fins oficiais mutantes, mas, para isso, os privatiza em sua consciência”[6]
É, pois, preciso pensar, entender e compreender – de uma vez por todas – que o morro e toda a sua história de miséria imanente e miseráveis imanentes, e não menos mitológicos e fetichizados, não estão além ou aquém do humano, não estão além ou aquém do sagrado, não estão além ou aquém da metafísica, não estão além ou aquém da racionalidade, não estão além ou aquém da sociedade, não estão além ou aquém do capital e do capitalismo, não estão além ou aquém do Estado. Estão em si. Encontram-se tatuados nas suas essências espirituais e delas jamais podem afastar-se ou desgarrar-se ou desintegrar-se.
Seria, então, a lírica arte de M. V. Bill, a pré-configuração latente de um tipo de profecia que se cumpre por si mesma sobre a forma e conteúdo dos moradores em favelas? Ou, seria, ao contrário, a materialidade real da catástrofe e do caos, que sempre estamos jogando para baixo do tapete das subjetividades latentes, como evitação do reconhecimento, compreensão e entendimento da verdade objetiva?

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[1] 19 de março de 2006.
[2] 1 Ora, toda a terra tinha uma só língua e um só idioma.
2 E deslocando-se os homens para o oriente, acharam um vale na terra de Sinar; e ali habitaram.
3 Disseram uns aos outros: Eia pois, façamos tijolos, e queimemo-los bem. Os tijolos lhes serviram de pedras e o betume de argamassa. 4 Disseram mais: Eia, edifiquemos para nós uma cidade e uma torre cujo cume toque no céu, e façamo-nos um nome, para que não sejamos espalhados sobre a face de toda a terra.
5 Então desceu o Senhor para ver a cidade e a torre que os filhos dos homens edificavam;
6 e disse: Eis que o povo é um e todos têm uma só língua; e isto é o que começam a fazer; agora não haverá restrição para tudo o que eles intentarem fazer.
7 Eia, desçamos, e confundamos ali a sua linguagem, para que não entenda um a língua do outro.
8 Assim o Senhor os espalhou dali sobre a face de toda a terra; e cessaram de edificar a cidade.
9 Por isso se chamou o seu nome Babel, porquanto ali confundiu o Senhor a linguagem de toda a terra, e dali o Senhor os espalhou sobre a face de toda a terra. (Gênesis. 11, 1-9.)
[3] Por estudo concreto, entende-se: um relato da sociedade como, totalidade. Porque somente neste relato é que a consciência, que os homens podem ter em cada momento de sua existência, aparece em suas relações essenciais. Por um lado, aparece como algo que, subjetivamente, se justifica, se compreende e se deve compreender a partir da situação social e histórica, como alguma coisa de “justo”; e, ao mesmo tempo, aparece como alguma coisa que, objetivamente, é passageira com relação à essência do desenvolvimento social, que não se conhece nem se expressa adequadamente, e pois como “falsa consciência”. Por outro lado, essa mesma consciência aparece sob essa mesma relação como carente subjetivamente dos alvos que a si mesma assinalou, ao mesmo tempo em que aparece visando e atingindo os alvos objetivos do desenvolvimento social, desconhecidos dela e que ela não desejou. Essa determinação, duplamente dialética, da “falsa consciência” não mais permite tratá-la restringindo-se a descrever o que os homens pensaram, sentiram ou desejaram efetivamente sob determinadas condições históricas, nas determinadas situações de classe etc. O que ai está é apenas o material, e, para dizer a verdade, muito importante, dos estudos históricos propriamente ditos. Estabelecendo-se a relação com a totalidade concreta, donde saem as determinações dialéticas, supera-se a mera descrição e alcança-se a categoria da possibilidade objetiva. E relacionando-se a consciência à totalidade da sociedade, descobrem-se os pensamentos e os sentimentos que os homens teriam tido, em uma situação vital determinada, se tivessem sido capazes de perceber perfeitamente essa situação e os interesses que daí decorrem tanto no que se refere à ação imediata como à estrutura, conforme a esses interesses, de toda a sociedade. Descobrem-se, pois, os pensamentos, etc., que são conformes à sua situação objetiva. Em nenhuma sociedade o número de tais situações é ilimitado. Mesmo se a sua tipologia está elaborada graças às pesquisas minuciosamente aprofundadas, tem-se por resultado alguns tipos fundamentais claramente distintos uns dos outros e cujo caráter essencial está determinado pela tipologia da posição dos homens no processo da produção. Pois a consciência de classe é a reação racional adequada que deve, dessa maneira, ser adjudicada a uma determinada situação típica no processo de produção. Essa consciência não é nem a soma nem a média do que os indivíduos que formam a classe, tomados separadamente, pensam, sentem, etc. Entretanto, a ação historicamente decisiva da classe como totalidade está determinada, em última instância, por essa consciência e não pelo pensamento etc., do indivíduo. E essa ação não pode ser conhecida a não ser a partir dessa consciência. (Consciência de Classe – György Lukács. 1920).
[4] Um bom exemplo disto é o filme Cidade de Deus (Fernando Meirelles), e mais remotamente Pixote (Hector Babenco), que, tal qual o documentário, fala sobre a vida e o comportamento das pessoas que moram nos morros e favelas do Rio de Janeiro, a partir de uma abordagem criminológica. Em Pixote a linguagem utilizada foi a do autor do filme. Cidade de Deus aborda o tema a partir de uma linguagem do sujeito interno, mas contada na terceira pessoa. A “fita” recebeu da burguesia pós-moderna – nacional e internacional – comentários apologéticos muito além do seu real valor estético. Aliás, este, sequer foi analisado do ponto de vista artístico-social. Mataforicamente pode-se afirmar que, neste caso, tem-se produzido um verdadeiro “Salmos” (o que prevejo para este documentário) sobre esta obra que, diga-se de passagem, não foi a primeira e tampouco será a última. O importante é notar que tanto nos filmes anteriores quanto neste caso (do documentário) percebe-se a clarividente profecia que se cumpre por si mesma que é “uma definição falsa da situação que provoca uma nova conduta a qual, por sua vez, converte em verdadeiro o conceito originalmente falso. A validade especiosa da profecia que se cumpre por si mesma perpetua o reinado do erro, pois o ‘profeta’ mencionará o curso real dos acontecimentos como prova de que tinha razão desde o princípio” (Robert K. Merton) mas, que não é sequer pautada para um debate esclarecedor no seio da sociedade (intra e extra) que, mais uma vez, surge no cenário como massa de manobra para as dominações latentes dos tais incluídos ou como mais recentemente apregoa a propagandística católico-cristã: os do meio.
[5] Resumo micrológico dos pensamentos (aleatórios) dos frankfurtianos Max Horkheimer, Theodor Adorno e Walter Benjamim.
[6] A Escola de Frankfurt – Wiggershaus, Rolf, 2002, p. 584.

COISAS de MARIA JOÃO convida para ouvir MAURO ALBERT e amigos / ilha de santa catarina

07 de maio de 2010 Mauro Albert (viola 10 cordas), Guinha Ramires(violão) e Leandro Fortes (guitarra)

O violeiro e compositor paranaense Mauro Albert,  tem trabalhado no cenário da música instrumental com distintas parcerias.

Nesta noite, num encontro intimista reune -se com dois outros reconhecidos músicos radicados em Florianópolis: Guinha Ramires e Leandro Fortes.

O repertório mostra a enorme diversidade musical brasileira, transitando por gêneros nordestinos, caipiras, gaúchos, sem esquecer do samba, choro, e indo além das fronteiras, passeando pela salsa, tango, jazz e rock, que você poderá apreciar à pouquíssima distância dos artistas.

Café Pequeno é para poucas pessoas. Com capacidade para aproximadamente 30 pessoas, é necessário fazer sua reserva antecipadamente e chegar até às 21h para garantir seu lugar.

Valor: R$ 15,00

Venda antecipada com lugar marcado no local.

Reservas no local ou pelos telefones 48 3209 9562/ 9107 4457/ 8482-5913

Local: Coisas de Maria João, o seu café com cultura!´

Rod. Gilson da Costa Xavier, 1172 (Estrada geral para Sambaqui) Sambaqui- Florianópolis

OCASO – de eunice arruda / são paulo

FOTOPOEMA 147 – de rudi bodanese / florianópolis

PICASSO: “GUERNICA em 3D”

UM clique no centro do vídeo:

RETTA e sua arte / curitiba

JARDIM DO SORRISO INTERIOR – técnica mista sobre tela.

A ARTE NO CONCEITO DE PLATÃO E ARISTÓTELES por fernando santoro

“… Dizer que a poesia é imitação, para a teoria apresentada na República, é distanciá-la duplamente da verdade, pois em primeiro lugar está a verdade na idéia em si mesma de algo; se um artesão vislumbra esta idéia e produz um objeto, este é gerado a certa distância da verdade, e se um poeta canta nos seus versos este objeto, então ele está afastado mais ainda da verdade.

O poeta, sendo imitador, é um artífice de segunda categoria, o mais afastado da verdade, próximo aosPLATÃO prestidigitadores e ilusionistas, porque não produz mais do que sombra das coisas. Isto é quase uma afronta ao senso comum dos gregos, que cultuavam seus poetas como os mais sábios dentre os homens, porta-vozes de seu panteão tradicional e do conhecimento das virtudes.
Aristóteles herda de Platão a categoria de “arte mimética”, mas, ao menos no tocante ao que nós chamamos de artes literárias, ele está disposto a resgatar-lhes aquele valor arcaico tradicional de sabedoria e verdade. Já no que diz respeito às outras artes miméticas, as não literárias, Aristóteles, por omissão, as deixa no mesmo patamar em que sempre estiveram: ofício de artesão, atividade socialmente inferior, servil.

Quando muito, o Filósofo faz uma distinção entre os mestres arquitetos e os que simplesmente obram com as mãos. Tal distinção ainda salva do total desprestígio alguém como Fídias, o arquiteto e mestre Aristótelesescultor dos monumentos da Atenas de Péricles. … Se Aristóteles chegou a enquadrar num mesmo gênero mimético as artes literárias e as artes plásticas, como certamente o fez Platão, não era por dar-lhes o mesmo “valor artístico”. A mímesis aristotélica é um contraponto à mímesis de Platão: ela não define o valor artístico (baixo), mas vem resgatar o valor de verdade.

Se, para Platão, a imitação era o distanciamento da verdade e o lugar da falsidade e da ilusão, para Aristóteles, a imitação é o lugar da semelhança e da verossimilhança, o lugar do reconhecimento e, assim, da representação.”

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Trechos retirados dos ANAIS DE FILOSOFIA CLÁSSICA, vol. 2 nº 4, 2008
ISSN 1982-5323

A MULHER É A ORIGEM DO MAL (O ANTICRISTO) por ewandro schenkel / curitiba

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Não tente entender tudo. É impossível. O certo é que Lars Von Trier é vanguarda. Se procurávamos algo que pudesse descrever o homem atual, já o encontramos. Mesmo que não saibamos muito bem o que está sendo dito. É normal. Leva tempo até assimilarmos o que somos. Muito tempo para saber o que realmente somos.

Ignore o que chamam de geração Y. Besteira pura. Na ânsia de nos classificarmos acabamos dando ouvidos a nerds descerebrados que querem nos empurrar que hoje somos mais egoístas, destemperados, impacientes e anti-hierárquicos. Queremos tudo ao mesmo tempo e sem demora, dizem eles. Uma geração que começa em 1979 e que se definiu pela tecnologia. Pela informação livre, pelo hedonismo do emprego ideal. Sem ele, o trabalho dos sonhos, não sairíamos de casa.

Nasci em 1979 e não consigo me encaixar nessa tal geração. Muito menos no Y. Quem me explica? Certamente sou reflexo de uma maioria que ainda procura explicações para o que sente e não encontra as respostas na televisão, nos livros ou nos rádios. Muito menos no computador, no MP3 player ou no celular. Tenho certeza que essa parafernália toda não pode responder o que tenho a perguntar. Essa é a função da arte, se há a necessidade de uma função. Descrever o que o Ewandro Schenkel é em relação ao mundo em que vive. A arte é o espelho do meu espírito.

Há um hiato. É natural que não consigamos identificar os grandes artistas no momento que eles desovam suas criações. Mas não é sadio quando não conseguimos nem ter uma indicação de quem são eles. O último que conseguiu canalizar o Zeitgeist se matou com um tiro na cabeça em 1994. Desde então enfrentamos um deserto, que começa a ganhar aquíferos com o descobrimento do discurso que o cineasta dinamarquês vem construindo paulatinamente.

Quatro parágrafos de confusão. E vai piorar, acredite.

Deformação da realidade

Em o Anticristo, Lars Von Trier conta a história de um casal que passa por um grande perda, a morte do único filho. O marido, um psicanalista, tenta ajudar a esposa a escapar de uma depressão profunda. Para isso, cria um ranking de medos que devem ser enfrentados. Entre eles está Éden, uma casa no campo onde a mãe e o filho se refugiaram no último verão para que ela pudesse terminar um trabalho acadêmico sobre feminicídio.

O filme se constrói na luta do marido para provar que os medos deformam a realidade. O enfrentamento direto daria a certeza de que o pavor é algo que construímos. Seria uma blindagem para um medo real, como a aceitação da morte de um filho. Uma realidade que não pode ser deformada. O objetivo do psicanalista passa a ser tentar fazer com que a esposa se liberte do medo e, finalmente, possa sentir a dor física e emocional da perda e dar o passo seguinte. O objetivo da mulher é outro, levar o marido para dentro de sua crise depressiva e espiritual. Ela está afundando.

A misoginia clamada na obra de Von Trier se deve ao fato de a personagem interpretada por Charlotte Gainsbourg reunir características que sintetizam o mal: busca o sexo para aliviar a dor, mutila o marido, se mutila e, ainda, descobre-se depois que maltratava o filho às escuras. Já o personagem de Willem Dafoe tenta teorizar o que levou a mulher ao lastimável estado sem pré-julgamentos. Maniqueísta, numa leitura superficial.

O caos reina

O certo é que Lars Von Trier é vanguarda, disse no primeiro parágrafo. A explicação é que o diretor criou um filme que tenta classificar os sentimentos modernos sem maquiá-los. A mulher é, segundo ele, a origem de todo o mal do mundo. Foi Eva quem primeiro mordeu o fruto proibido e acabou com as pretensões divinas para um mundo perfeito. O pecado, desde o princípio, é culpa feminina. O que nos levou a demonizar o prazer feminino durante séculos. Há quinhentos anos resolvíamos isso com fogueiras. Os iluministas detonaram essa visão sem dar respostas. A psicanálise de Freud nos jogou ainda mais para dentro da culpa, que estaria no inconsciente. E não falamos mais nisso.

O diretor parece querer resgatar a discussão do mal. Do que nos faz mal e de onde vem. É um filme profundamente psicológico, com artimanhas para levar o espectador mais sensível a se entregar completamente. A cena da hipnose serve tanto para o personagem quanto para quem assiste. A tese é clara: a mulher, que representa não só o sexo feminino mas também as características humanas mais ligadas aos sentimentos incompreensíveis, é o fruto do mal.

A história já nos deu respostas para as barbaridades que o humano é capaz de cometer: Possessões, distúrbios mentais e psicopatias. E quando tudo isso se torna insuficiente? Com o excesso de informação temos acesso ao mal puro e simples. Quem poderia explicar o que Suzane Richthofen fez? Antigamente poderíamos atribuir os atos dela ao Diabo. Há pouco tempo seria uma psicopata. Mas vê-la na televisão com uma sobriedade e passividade assustadoras nos coloca num terreno de medo. Ela matou os pais por motivos banais: herança e aceitação do namorado. Os médicos não foram claros nos diagnósticos.

Qual a primeira imagem que vem à cabeça quando falamos em tortura no Iraque? Uma integrante do exército americano arrastando um preso iraquiano por uma corda como se fosse um animal. Ela, provavelmente, passou por testes psicológicos para entrar nas forças armadas. Também não temos registro que tenha feito pacto com o Capeta. Não há explicação possível para o ato. É exatamente a ferida que Von Trier quer escarafunchar.

O filme não é uma apologia à demonização da mulher, obviamente. A figura feminina serve como metáfora, como no caso da bíblia, para os sentimentos obscuros e com os quais não sabemos lidar. De uma maneira piegas seria como dizer que todo homem tem uma mulher dentro dele. Todos nós temos sentimentos que não conseguimos explicar. Dói, como mostra Anticristo, fuçar neste terreno. A mulher representa a nossa natureza selvagem. Os genes do mal dos quais não conseguimos nos livrar. E faz mal tentar escondê-los.

Na pirâmide dos medos proposta pelo marido, o primeiro item é a natureza. Depois, a mulher corrige, acrescenta-se o Éden. Ele adiciona Satanás, mas no fim percebe que, lá no topo, está o eu, no caso ela. O que mais ela teme não é natureza, não é a religião e muito menos o Satanás, é o criador disso tudo, a própria vontade humana.

No filme, a mãe revela, em determinado momento, que teve prazer com a morte do filho. Ela estava consciente quando viu o menino subir na cômoda ao lado da janela antes de cair para a morte. Não fez nada pois estava absorta fazendo sexo com o marido. As imagens levam a crer que o momento da queda coincide com o orgasmo. A pergunta que fica: até que ponto esta mãe sentiu prazer com a morte do filho?

Representante da razão, o marido enxerga tudo com olhar abstrato, pois não consegue conceber como é possível alguém ter sentimentos tão detestáveis. Ele a mata, tentando sufocar o que lhe é revelado. Mas esta é uma viagem sem volta. A imagem de milhares de mulheres cercando o personagem no final do filme talvez dê a dimensão do discurso. Até que ponto o prazer da maldade está em nossa natureza? O verdadeiro Anticristo somos todos nós? Poderemos levar algum tempo para decifrar a mensagem de Lars Von Trier, mas já serve como um espelho opaco de uma geração que não se contenta em ser apenas Y.

Espaço Cultural BRDE abre as portas para a exposição “Imagens da Alemanha”, pela primeira vez no Brasil. / curitiba


Recém-chegada da Bolívia, a exposição “Deutschlandbilder”Imagens da Alemanha desembarca no Brasil e será vista em apenas duas cidades: Curitiba e Porto Alegre. O Espaço Cultural BRDE – Palacete dos Leões foi escolhido pelo Goethe-Institut para receber a exposição que reflete o olhar de oito fotógrafos sobre a Alemanha. “No ano em que o mundo lembra os vinte anos da queda do muro que, entre 1961 e 1989, dividiu a Alemanha em duas partes, o Goethe-Institut Curitibaem parceria com o Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul, através de seu Espaço Cultural, apresenta ao público algumas impressões da Alemanha atual, sem que esses trabalhos caiam numa vertente de fotografia oficial ou representativa. Seguindo o princípio de autoria, os fotógrafos se dedicaram a temas que fossem de seus interesses e de suas experiências pessoais” comenta a diretora do Goethe-Institut Curitiba, Claudia Römmelt.

“Deutschlandbilder”Imagens da Alemanha, única exposição fotográfica do ano no Espaço Cultural BRDE, foram exibidas pela primeira vez no outono de 2005 em Berlim, numa coletiva de todos os 17 fotógrafos da Agência OSTKREUZ. Um tema recorrente é o conceito da pátria, como afirmação geográfica, social e política, e também como expressão de sentimentos e saudade. Desta grande exposição, o Goethe-Institut selecionou oito fotógrafos, em parceria com OSTKREUZ, para rodar o mundo. “A história da OSTKREUZ, de certa maneira, se funde com a história da Alemanha, integrando aos poucos os membros da parte oriental e ocidental. A Agência foi fundada em Berlim, em 1990, por sete renomados fotógrafos da Alemanha oriental. Contando no ínterim com 17 integrantes, da Alemanha oriental e ocidental, ao longo dos anos, a OSTKREUZ tornou-se uma instituição estável e reconhecida”, explica Claudia Römmelt.

Este ano as Imagens da Alemanha já passaram pelo Chile e Bolívia. No Palacete dos Leões elas permanecem até o dia seis de novembro. Depois de Curitiba, “Deutschlandbilder”, segue para a Galeria do Goethe-Institut em Porto Alegre.

Quem são os fotógrafos de “Deutschlandbilder” Imagens da Alemanha

– Thomas Meyer capta o sentimento de pátria em fotografias da Ilha Spiekeroog, no norte da Alemanha.  Para muitos alemães, Spiekeroog significa viver em harmonia com a natureza, respirar ar puro, descobrir o ócio, usufruir de uma bela paisagem, encontrar a si próprio.  A ilha é uma localidade extremamente idílica. Não há automóveis, ruídos, poluição.

– Anne Schönharting direciona seu olhar para uma “pátria substituta” temporária, oferecida a crianças abandonadas que encontraram abrigo em um prédio de uma ex-escola. Seus retratos contam de saudade e solidão, de desilusão e agressões, de perda da esperança e perda de identidade.

– Sibylle Bergemann, por sua vez, se dedica à busca de vestígios no passado da ex-RDA (República Democrática Alemã). Um olhar melancólico sobre uma pátria gradativamente entregue ao esquecimento é transmitido pelas fotografias ampliadas em Polaroid – reminiscências de um mundo que, poucos anos atrás, era cheio de vida.

– Linn Schröder descobre em momentos capturados a qualidade poética do cotidiano. A série Uma parcela é composta de instantâneos. A fotógrafa direciona seu olhar sobre cenários enigmáticos, como, por exemplo, três elefantes em uma paisagem invernal em frente à Igreja ou sobre um homem que acaba de fotografar um motivo invisível, escondido atrás de um monte de pedras.

– Annette Hauschild também fotografa o cotidiano em sua série No domingo.  Nos países de tradição cristã, o domingo é o dia semanal de festas e descanso, mas o significado original deste dia está sendo esquecido. Annette capta, ocupações “clássicas” de domingo, como a ida à igreja ou o piquenique no parque.

Jordis Antonia Schlösser fotografou as regiões de Halle-Neustadt e Garzweiler, duas localidades características pela falta de habitantes que se tornaram sinônimo de “perda de pátria”. Aproximadamente 30% das moradias estão vazias. Sem emprego, os habitantes deram as costas às cidades. O vazio, típico da região oriental da Alemanha, está registrado nas fotografias em preto e branco.

– Ute Mahler, em sua série Novos velhos, registrou pessoas que, apesar da idade avançada, são engajadas e transmitem a impressão de energia e vitalidade. As fotografias são tanto transposições vivas e coloridas como humorísticas de um tema que, em decorrência da procura de juventude e beleza eternas, ganha cada vez maior importância.

– Wolfgang Bellwinkel, em contraposição, se ocupa em sua série Pátria com os projetos de vida da geração jovem.  Bellwinkel viajou pela província alemã e perguntou aos jovens casais sobre suas idealizações de pátria e felicidade pessoal.  Seus retratos cuidadosamente encenados e apresentações precisamente compostas de concepções idílicas são reunidas numa seqüência fotográfica conscientemente sublinhadas (überzeichneten) por “paisagens fantásticas”,  que questionam subjetivamente determinados clichês do conceito pátria, sem jamais expô-las ao ridículo.

Neue Alte

Neue Alte – Ute Mahler

An der NordseeAn der Nordsee – Thomas Meyer

Heimat IIHeimat – Wolfgang Bellwinkel

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Mais informações sobre a Agência de Fotografia OSTKREUZ no site http://www.ostkreuz.de/

Para saber mais sobre o Instituto Goethe Curitiba e suas exposições itinerantes acessewww.goethe.de/curitiba

“Deutschlandbilder” – Imagens da Alemanha

Abertura

08 de outubro às 19hs

Exposição

De 09/10 a 06/11

Segunda a sexta-feira, 12h30 às 18h30

Espaço Cultural BRDE – Palacete dos Leões

Av. João Gualberto, 530/570 (com estacionamento)

Alto da Glória – Curitiba -PR

Informações: (41) 3219-8056

BRDE

OUTRO OLHAR: LULA PALOMANES, a arte sem limite de transgressão – II – por bruno liberati / rio de janeiro

Uma mirada de viés que entorta a realidade. Um trabalho cerebral, com muito de experimentação e suor nesta procura.

Lula, esta é sua assinatura. Por trás dela está a pessoa física de Luiz Fernando Palomanes Martinho, que nasceu em 1963, na cidade do Rio de Janeiro. Mistura de espanhol com português, é bom que se saiba que não é cartunista, nem chargista.  Apesar de seu humor ferino, ele pode ser classificado como artista gráfico. Suas caricaturas são desconcertantes e soberbas. É quase impossível adjetivá-las. O espanto que suas artes provocam ultrapassam todas as categorias conhecidas. Admirador de Rembrandt , Velázquez, Francis Bacon, Picasso e Egon Schiele – Lula já passou Lula_Palomanesmuitas noites observando de perto e de longe as reproduções das obras desses mestres da pintura. (Não contem para ninguém, mas me informaram que ele não dorme à noite. Passa esse tempo lendo, desenhando e estudando as obras de seus artistas prediletos – só vai descansar quando o sol anuncia a manhã que chega, isto depois de comprar o pão na padaria da esquina).

Lula é um magnífico ilustrador e dono de uma personalidade forte. Imprime aos seus trabalhos um signo único, uma forma própria de elaborar a exageração, uma mirada de viés que entorta a realidade e a busca de uma nova forma a cada obra. Seu trabalho é cerebral, mas tem muito de experimentação e suor nesta procura. Além da influência dos grandes das artes plásticas, compõe seu aprendizado a observação de mestres do “campo gráfico”, como Luis Trimano, Cássio Loredano, Rubem Grilo, Ralph Steadman e Gerald Scarfe.  Mas não se pode dizer que botou tudo isso no seu liquidificador pessoal e saiu por aí desenhando. Sua expressão é algo que ultrapassa esse caldo cultural e se projeta como algo “inaudito”, talvez o único adjetivo que se aproxima da sua singularidade.

Começou a mostrar sua arte nas páginas de O Pasquim e depois migrou para a chamada “grande imprensa” do Rio de Janeiro – trabalhou em O Globo e no Jornal do Brasil. O nosso herói gráfico publicou seus trabalhos também nas revistas ImãNebelfpalter eGráfica. Fez capas para as editoras Zahar, Record e Rocco, ilustrou  as revistas SeleçõesPlayboy Ciência Hoje. Tem uma medalha de prata pendurada em sua prancheta, conferida pela Society for News Design por uma caricatura de Gore Vidal, que publicou em O Globo. Mas não pensem que Lula contemplou com sua arte apenas o mundo dos adultos , ele com grande sensibilidade e versatilidade também ilustrou vários livros infantis.

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