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A DESCOBERTA e SACERDÓCIO – mini contos de raimundo rolim

A descoberta

 

            Jamais alguém tinha ousado tanto. Nem fora possível ousar mais. Não havia quem pudesse deslocar aquela tamanha pedra. O nó górdio. Ficava exatamente bem no meio do caminho. Era imperativo desviar primeiro para a esquerda e depois, chegava-se ao outro extremo para se avaliar como aquilo fora parar ali. Desbravadores, piratas, gente cordial, poetas e pintores por lá já haviam estado com a única intenção de descobrir como naquele ermo, aquela pedra se estabelecera lá. Diziam que um disco voador já havia pousado nas paragens e que criaturinhas de poucos centímetros tiraram retratos. A turba se arrastava nos finais de semana para apreciar. Carrinhos de sorvete barato feitos artesanalmente e às pressas pululavam ao redor da mesma para que muitos matassem sede e curiosidade com o bico doce ao menos. Vendedores ambulantes de quinquilharias se amontoavam e tinham os seus pontos fixos que não trocavam mesmo a peso de ouro. Romarias de confessos adoradores do intangível arranjavam um jeito de circundar a pedra que tinha um lado já meio gasto, de tanto passarem a mão. Diziam que energizava, pois achavam que a coisa tinha vindo como um sinal dos céus. Um dia apareceu um cidadão munido de fios, uma infinidade de ferramentas esquisitas e uma maleta cheia de tranqueiras. Semeou um pozinho escurozinho por debaixo da imensa pedra. O homem terminou o serviço e correu pedindo para que a enorme assistência procedesse de igual modo. Debandada geral. Muitos se atropelaram. Houve pisaduras, luxações, hematomas e arranhões que não eram nada, perto do que estava para acontecer. E a coisa explodiu. A pedra foi fragmentada em milhares de pedacinhos que se espalharam às centenas, talvez a bilhares de metros. Estava descoberta a pólvora. Bem que o homenzinho com seus experimentos tinha os olhinhos meio puxadinhos, assim pro amendoado e tal !

 

              Sacerdócio

 

O padre não havia pecado ainda! Desde menino, dos tempos de seminário. Sua conduta irrepreensível era de há muito sabida. Douto em conhecimento litúrgico, confissões, encomendação de corpo, batizados e o diabo de quatro. O padre era imaculado, manso, finamente educado. Encantava a todos que se acercavam para ouvir-lhe as prédicas. O homem era impecável. Batina e sandálias sempre limpas e rigorosamente conservadas. Mãos finas, firmes e compridas, unhas sempre bem aparadas que casavam com o andar gracioso do corpo magro, esguio e alto; o que fazia dele um ícone sagrado aos compêndios da estética. Ainda que não dissessem, era considerado um semideus. Ah, mas naquele dia não houve jeito. O padre caíra em tentação e o negócio foi estupendo. O que tornava o fato muito mais espetacular era que o santo homem tinha esquecido de rezar como o fazia todas as manhãs e para o bem do seu pecar, fora confessar logo a jovenzinha de olhar de veludo e boca púrpuro-virginal. O que a mesma não sabia, ou não se dava conta, era que carregava nos olhos, todo o poder de sedução possível numa só pessoa. E o padre pecou. Ouviu-se do interior da capela, urros e gemidos, que se espalharam rapidamente para todos os outros ouvidos que não eram poucos nem moucos. E o padre sumiu-se com a mocinha beatazinha. Correu um boato que o mesmo fora feliz e para sempre e que a moça ainda geme e urra sempre que se confessa com o maridozinho, a sós, na capela que fizeram nos fundos do quintal. E é ali que ele sacrifica a vivente para as delícias da carne e do pão e do vinho e da luxúria e do proveito das prédicas ao pé do ouvido delicado, febril, daquela que ruge e implora mais e mais, cada vez mais ad infinitum et peremptorium… Fundum… Mais fundum…

TERCEIRA PEDRA poema de jorge barbosa filho

inscrevo nessa pedra

com saliva e suor sereno

o epitáfio vivo e ingênuo

do meu nome e do meu ser em volta.

 

inscrevo, ainda mais, nela

com sangue e sêmen de astronauta,

a história dos vôos da alma

naquilo que serei, sou e era.

 

essa coisa que no céu levita

e no nosso ser navega,

uiva em tuas mãos aflitas:

as línguas do mar e da terra.

 

uma lua cheia de lua nova,

fúria de imperfeita forma

que no fundo, é um afago que te acalma

onde quer que eu esteja,

 

pois nela não há alguma ciência:

há apenas a terceira pedra,

a distância que nos integra

em nosso olhar de reticências.

O DIA EM QUE O CÉU DO ORIENTE CHOROU FOGO – poema de joão batista do lago

Procurei todas as razões para entender as guerras

Nunca encontrei qualquer motivo que as justificassem

É por isso que não as entendo…

É por isso que não as compreendo.

Jamais aceitei a idéia da guerra como recurso para a paz. Jamais!

Nenhuma guerra é capaz de traduzir a paz. Nenhuma!

Todas são evolução da ignomínia do homem. Todas!

Em todas há a obsessão dada do poder e da ganância. Todas!

Não há razões para o fazer da guerra!

 

Que direitos são esses do Ocidente sobre o Oriente?

 

Oh, noite das noites!

Noites que se fazem meteoritos de estanho

Noites que se matam as crianças

Sem lhas dar as chances de saber da esperança

Oh, noite das noites!

Não posso cantar-te em meus versos

De ti resta-me o odor do sangue escarlate

Que jorra da terra como ouro negro

E que se compraz perseguir a alma dos mortais

 

Noite em que balas dançam pelos céus dos esquecidos!

 

Quem dera fosse essa noite o Apocalipse de João.

Quem dera!

Não teríamos o amanhã para chorar os sete arcanos

O céu não fumegaria o horror das bombas atómicas:

Buuuuuuuuuummmmmmmmmm…

Aqui uma cabeça; ali uma perna; mais adiante um braço…

Diante de mim vejo o corpo do amor no seu último abraço

Viro o rosto para não gravar tamanha desgraça…

Mas cai à minha frente um coração que pulsa: brasa!

 

Noites que rompem o tempo e se fazem espaço de guerras!

 

Pilhas de corpos que se amontoam sobre a relva

Corpos que depois de lavados são plantados em covas rasas

Covas que darão árvores daninhas no alvorecer do amanhã

Árvores que produzirão frutos de carnes humanas

Frutos que serão no teatro da vida o prato de predileção

Teatro onde se há-de encenar o ato seguinte da nova guerra

Guerra que consumará a vitória dos senhores donos do mundo

Vitória que será húmus da miserável guerra que renascerá na terra.

Ó, Senhor de todos os céus, será assim eternamente a sina dos mortais!?

 

Noites de miseráveis guerras! Noites assassinas da Paz!

 

AS EMOÇÕES NOS ANIMAIS por marta follain

Pessoas que experimentam contato com animais, não têm nenhuma dúvida de que eles demonstram amor, alegria, mau humor, raiva, ciúmes, gratidão, bom humor, tédio, medo, etc. claramente e, de forma semelhante à dos seres humanos.Com essa assertiva, concordava Charles Darwin em “The Expression of the Emotions in Man and Animals”, afirmando que algumas de nossas expressões de sentimentos, são resquícios herdados de antepassados primitivos comuns tanto ao homem quanto a outros animais. Senão, como explicar que, ainda hoje, mostremos os dentes caninos  quando enfurecidos, como fazem os macacos e os cães, apesar de não nos servirmos desses dentes para brigar ?

O escritor contemporâneo e veterinário Richard Pitcairn reitera as afirmações de Darwin : “É uma verdade inegável o fato de que os animais têm estados emocionais e sentimentos. Quem convive com eles, pode ver isso facilmente, embora não seja algo de que as pessoas precisam estar intelectualmente convencidas. Não existe dúvida, na minha mente, de que os animais apresentam o mesmo leque de emoções que as pessoas: amor, medo, raiva, tristeza, alegria, e assim por diante “.

Um estudo recente, realizado na Universidade de Bristol, coordenado por John Webster, professor de Reprodução Animal em Bristol, e autor do livro “Animal Welfare: Limping Towards Éden”, mostra que as vacas têm vida sentimental que inclui emoções como a amizade, rancor e frustração. Os pesquisadores constataram que as vacas formam, dentro de uma manada, pequenos grupos de amizade e trocam cuidados entre si. Esta descoberta foi apresentada numa conferência científica em Londres, em março de 2005.

Ainda, segundo este estudo da Universidade de Bristol, os animais estão mais próximos dos seres humanos, sob o ponto de vista emocional, do que até aqui acreditava-se. Duro golpe na presunção do homem de ser a única espécie com sentimentos do reino animal !

Keith Kendrick, professor de Neurobiologia do Instituto Babraham, em Cambridge, descobriu que as ovelhas conseguem estabelecer relações de amizade com humanos, entrando em depressão por separações longas e, festejando a volta do dono, mesmo  depois de 3 anos de separação.

O psicólogo de animais, Patfield, afirma que bois possuem memória emocional. Em sua experiência, um boi e um bezerro presenciaram a matança de 150 bois. O boi foi mantido isolado e o bezerro colocado num rebanho. Passaram-se 2 anos. Após esse tempo o boi reconheceu os abatedores que haviam matado seus companheiros. Ele gemia e urrava  de medo, com a aproximação daquelas pessoas. No rebanho, o bezerro foi o único animal que fugiu quando os homens (abatedores)  aproximaram-se e, desembestou em pânico.

Sendo assim, a afirmação de que um animal pode utilizar suas emoções significa que seu cérebro reage a certos eventos de maneira particular. Os sentimentos surgem da mente analítica.

Mas, o pesquisador Jaak Panksepp, especialista em comportamento da Universidade Estadual de Bowling Green, Ohio, não acredita que sentimentos surjam apenas da reflexão. Ele sustenta que a raiz das emoções encontra-se em regiões do cérebro tais como o sistema límbico (área cerebral que produz e regula as emoções), muito antigo do ponto de vista evolutivo e presente em todos os mamíferos. O sistema límbico é uma estrutura cerebral antiga, e o fato dele desempenhar papel importante no cérebro, indica que a emoção é parte fundamental na vida dos animais.

Estudos sobre o metabolismo do cérebro  fornecem evidências de que os sentimentos dos animais, talvez não sejam muito diferentes dos sentimentos dos seres humanos pois, entre eles há processos cerebrais comuns. Pesquisas mostram que o neurotransmissor “dopamina”  é importante no processamento de emoções como alegria e desejo, tanto em humanos como em outros mamíferos.

Ainda não é possível provar, através de observação, se um animal possui sentimentos conscientes, como também não se pode provar o que uma pessoa sente no seu íntimo. Porém, experimentos de laboratório indicam que, pelo menos, alguns animais dispõem da capacidade de autoconsciência. Podemos supor que talvez, tenham consciência de suas emoções.

E, se os animais são capazes de sentir emoções, temos mais uma razão para tratá-los com respeito, dignidade e carinho.

Alguém duvida da alegria que um cão experimenta quando seu dono chega em casa ? Ou o prazer que demonstra um gato, quando acariciado ?

Os animais são como nós, mas ao mesmo tempo diferentes, porque são melhores. Muitas vezes descobrimos que os animais são “mais humanos” do que muitos seres ditos humanos, refletindo melhores impulsos de humanidade –  não mentem,  não enganam, demonstram lealdade, gratidão, um amor incondicional e, são bem poucos os humanos que conseguem exibir esses sentimentos.

 

Martha Follain – Formação em Direito,

Neurolingüística, hipnose, regressão.

Terapia floral – animais e humanos.

Terapia reikiana – animais e humanos.

CRT 21524.

 

CIÊNCIA e RELIGIÃO por fred seifert

Discussão antiga, que continua atual. Deixo minha opinião.

Dizem que ciência e religião podem, no máximo, coexistir, mas, para mim, são complementares, com modos diferentes de atuar. Têm o mesmo valor, e acredito que chegaremos a um ponto em que ambas serão uma uníca coisa, uma única forma de análise e síntese da realidade.

Stephen Jay Gould disse que “a ciência estuda o céu, enquanto a religião é como chegar ao céu”. Ou seja, a ciência se baseia na busca do conhecimento empírico enquanto a religião fica com os campos da ética e da moral.

Não podemos esquecer que toda e qualquer ciência é humana em sua essência. Dizem que a maior descoberta da ciência foi a própria ciência, ou seja, apesar dela ser uma forma de análise da realidade, seu metódo científico é humano. Seus alicerces foram construídos pelo homem, a ciência, assim como tudo, não existe por si só.

O mesmo Jay Gould disse: “a ciência cobre o reino empírico; do que o universo é feito (fato) e como funciona (conceito)”. Vamos partir daí:

[As regras do jogo…]

Muitos cientistas, como Einstein, viam Deus como a ordem universal. Deus era a soma de tudo, era como tudo funcionava. E é fácil entender por que muitos pensam assim.

Apesar de sabermos muito pouco acerca do universo, sabemos que ele funciona perfeitamente sobre uma linha que beira o absurdo. Na verdade, era muito mais provável que não existisse nada do que existisse alguma coisa. William (ou Guilherme) de Occam em sua teoria, a Navalha de Occam, dizia isso. É mais ou menos assim: o universo segue o caminho mais simples, embora Deus possa escolher o mais difícil de vez em quando.

Não é bem aí que eu quero chegar, não acredito em Deus só por isso e não e a isso que Einstein se refere quando “louva” Deus através da adoração a ordem universal.

O que é importante ressaltar da sua natureza, e o que mais nos fascina e mais intriga todos os cientistas, é a estética matemática. Como tudo no universo consegue ser expressado em termos matemáticos de maneira regular e previsível, com fórmulas e equações. Esse é o Deus de Einstein.

Isso significa o seguinte: a verdade é uma só, assim como deve existir uma única maneira de expressá-la. O que nos foge não é a resposta em si, e, sim, como procurá-la. Não estamos fazendo a pergunta da maneira certa, se a fizermos, teremos a resposta final.

O que eu quero dizer com isso é temos várias respostas, várias equações, que não deixam de ser verdadeiras, mas não são completamente verdadeiras. Vou usar uma metáfora para me fazer entender melhor: quando um homem se interessa por uma mulher e quer saber se esta está envolvida em algum tipo de relacionamento, pergunta: “você é casada?”. Bom, e a mulher responde: “não”. O homem acha então que pode se aproximar, pois não tem nada o impedindo. Mas imagine outro homem, também interessado, e tem a mesma dúvida, mas pergunta: “você está solteira?”. E ela diz: “não, tenho namorado”. Veja que ambas perguntas foram válidas, e suas respostas igualmente verdadeiras, mas que a primeira pergunta apenas abrangiu uma pequena parte da verdade, e não ela toda. É assim que nos encontramos. Apesar da metáfora ser bem fraquinha, acho que deu pra entender.

Deus não muda as regras do jogo depois do jogo já começado, não é como a Rainha de Copas de Alice no País das Maravilhas. A ciência tenta descobrir quais são as regras e o fundamento do universo através do empirismo.

[E a religião?]

O que seria então a religião? Ao meu ver, defino religião como uma forma de conhecer a verdade também. Mas não de forma empírica, mas, sim, de forma espiritual. Descobrir também respostas, mas não exteriormente, mas interiormente. Agradecer pela existência nossa e também das perguntas que a ciência faz. Porque se não fosse por uma força maior, não existiria o que perguntar.

Prefiro deixar claro que também não acredito num deus de forma humana, que criou o homem do barro, etc. Aliás, no meu modo de pensar, vejo a ciência criacionista como uma grande contradição.

Acredito, assim como Einstein, que Deus é a ordem universal, que está em cada coisa e em todos os lugares. Mas para mim ele não é só isso, ele transcende esses limites e essa realidade. Deus é a verdade última, criador das regras do universo e responsável pela existência de tudo. Mas como disse no meu primeiro post, a realidade física é apenas uma projeção do que realmente somos e do que tudo realmente é. As regras de Deus estão também aqui no mundo físico, e muito bem delimitadas, aliás, incrivelmente delimitadas. Cabe a nós fazermos as perguntas certas, tanto exteriormente (mundo físico) quanto interiormente (alma, plano das possibilidades), para descobrirmos a verdade, a resposta que realmente queremos.

[Concluindo meu pensamento…]

A verdade é uma só, mas não se encontra “parada” em apenas um lugar. Assim como um artista visualiza uma obra de arte em um bloco de mármore, o cientista visualiza equações regendo o universo e os religiosos visualizam em Deus a verdade. E por que não juntar essas visões de mundo? Estão todas corretas em certa extensão, a sua união só traria benefícios à humanidade.

Cabe a nós perguntarmos, e a Deus responder. Se fizermos a pergunta da maneira certa, Ele não ocultará a resposta. Aí está Deus, na ordem universal, mas Ele está além disso também. Ele está conosco a cada momento, e essa ordem incrível que nos rege é apenas um reflexo disso.

A ciência e a religião podem ter seus atritos, mas têm a mesma essência. A verdade é uma só. Acredito que ela esteja em Deus e que é através do método científico e da fé religosa combinadas que chegaremos a encontrá-la.

Non, je ne regrette rien/Não me arrependo de nada – tradução de marcos fontinelli

Composição: Michel Vaucaire/Charles Dumont

 

 

Non, rien de rien                                       Não, de forma alguma
Non, je ne regrette  rien                            Não, eu não me arrependo de nada
Ni le bien quõn m’a fait                             Nem o bem que fizeram,
Ni le mal, tout ça m’est bien égal              Nem o mal, tudo é  igual

 

 

 

Avec mes souvenirs                                 Com minhas lembranças
J’ai allumé le feu                                       Eu alimentei o fogo
Mes chagrins, mes plaisirs                       Minhas aflições, meus prazeres
Je n’ai plus besoin d’eux                           Eu não preciso mais deles

Balayés mes amours                                Varri tudo, meus amores
Avec leurs trémolos                                  Junto com seus aborrecimentos
Balayers pour toujours                              Varri para sempre                          

 

 

Je repars a zero                                         Eu recomeço do zero
Non, rien de rien                                       Não, de forma alguma
Non, je ne regrette  rien                            Não, eu não me arrependo de nada
Ni le bien quõn m’a fait                             Nem o bem que fizeram,
Ni le mal, tout ça m’est bien égal              Nem o mal, tudo é  igual

 

 

Non, rien de rien                                       Não, de jeito nenhum
Non, je ne regrette rien                             Não, eu não me arrependo de nada
Car ma vie, car me joies                           Pois minha vida, minha felicidade

Pour aujourd’hui ça commence avec toi   No dia de hoje começam com você                                       

 

A CRIANÇA e o PRAZER DE LER – por graziele ferreira

Para que uma criança obtenha o interesse pela leitura, é necessário que ela entenda que a leitura não é uma obrigação e sim uma satisfação. O interesse pela leitura começa antes mesmo de seu ingresso em uma escola, pois a criança tem uma curiosidade natural por tudo que a cerca. A leitura deve ser vista como uma atividade prazerosa e não algo que lhe seja doloroso.

A família que lê para a criança histórias, contos, poesias, ou revistas de seu interesse, incentiva nela o hábito e a simpatia pela leitura. A leitura precisa ser incentivada na infância pelos pais, pela família. Mas sabemos que isso é algo complicado, pois muitos pais não possuem o hábito de ler e, na maioria das vezes, nem o sabem. Sendo assim, resta à escola criar metodologias e projetos, não somente em sala de aula, mas na escola como um todo, para educar os alunos para a prática da leitura. Também é importante que os objetos de leitura estejam sempre ao alcance das crianças.Na escola a professora deverá descobrir uma maneira de mostrar as crianças que a leitura é uma fonte de prazer.

Ela pode habituar as crianças a entrarem na biblioteca, descobrir o cantinho da leitura, folhear os livros, saber dos livros novos que chegaram desde o início do ano.

 

Mostrar-lhes a importância de entrar em livrarias, mesmo sem a intenção de comprar, só para olhar, ler as contracapas e saber dos últimos lançamentos.

É preciso descobrir o prazer de ler, é preciso redescobrir o gosto pela leitura. Novos escritores podem surgir a partir desses bons leitores. Precisamos de novos leitores e escritores com uma nova visão, precisamos de escritores capazes, com uma visão crítica, com uma visão ampla do mundo que os cerca. Precisamos de pessoas que escrevam e leiam, mas por prazer, pelo simples prazer de ler e escrever.Em muitos casos, na escola o grande problema na verdade não é a falta de interesse da criança pela leitura, mas da professora. Quem não gosta de ler dificilmente ensina alguém a gostar de ler. O incentivo a leitura é de suma importância, se a professora não gosta de ler, terá que aprender, ou mudar de profissão, pois a criança precisa saber que a leitura é uma entrada fantástica para um mundo cheio de realidades e encantos.

ENSAIO AOS SÓS – poema de vanessa lima de carvalho

Imenso tratado da solidão,

Outorga leis irrevogáveis.

Não responde a nenhum questionamento,

Muito menos a poucas lágrimas.

É insensata,

Ingrata e

Oferecida.

Não cede aos apelos dos dramáticos

Nem aquebranta-se perante o tempo.

Assusta os distraídos,

Abranda os desalmados.

Famigerada solidão,

É caso sério no leito dos loucos,

Das beatas e dos bêbados.

Essa mulher, formosa em poesias,

Quando atravessa as multidões,

Traz um silêncio sepulcral.

Não tarda a chegar o dia

Em que numa sala vazia

O seu ruído atravessa a porta.

 

TRABALHAR CANSA / LAVORARE STANCA – por darlan cunha

Já não é tão incomum ficarmos sem notícia de quem fica noutro lado da cidade durante toda a semana, por ela ser tão grande que não compensa ir e vir para casa todo dia. Sem notícia de quem não vê filhos e filhas, senão quando dormem, quando chega e quando sai, apertado coração e algo indefinido na mente. Lavorare stanca / trabalhar cansa é o título de um livro do italiano Cesare Pavese (1908-50).

Sim, trabalhar cansa, leva-nos para longe de nós mesmos, ao mesmo tempo em que é visível o fato de que nos aprimora ao acertar nossas mãos e pernas, para as ações, obriga o cérebro a aprender e estender todo o aprendizado para além-lá da individualidade (embora nem sempre se dê assim, porque é forte e antigo, mais, é genético o egoísmo), ensina a decodificar enigmas que logo se tornam coisas corriqueiras.

O que realmente nos guia os dias, nos move em direção ao que não sabemos ao certo o que é e nem onde está, pois sempre mutantes estamos ? Lá vou eu nesta estrada… diz a canção Ave Cantadeira, do mineiro Paulinho Pedra Azul.

EUSEBIUS e FLORESTAN (Homenagem a Schumann) – por helena sut

 

Florestan e Eusebius marcam as biografias de Schumann como as personalidades contrastantes do grande representante do romantismo alemão que, segundo Carpeaux, foi consagrado como o poeta do piano. O compositor presenteou a humanidade com obras como Devaneios (Träumerei) nas Cenas Infantis Op. 15 (Kinderszenen) e o divino Concerto para piano em lá menor.

Criados pelo compositor como pseudônimos para assinar os artigos na Nova Revista de Música (Neue Zeitschrift für Musik) fundada por Schumann em 1834, Florestan e Eusebius eram os heterônimos do articulista e significavam as próprias faces do compositor. Personagens imaginários que encarnaram os aspectos de sua natureza ambígua e oscilaram entre suas crises de profunda depressão e seus períodos de intensa criatividade. O enérgico e o sonhador, o arrebatado e o reflexivo, o dionisíaco e o apolíneo…

Com o sentimento projetado num jogo de espelhos coloridos, sua música era a concepção fiel de sua personalidade, uma subjetividade que não se ajustava às formas definidas, um caleidoscópio de palavras, sons e idéias. Ora Florestan, ora Eusebius, porém nunca um ser morno, sem paixões ou reflexões, adaptado aos padrões da época.

O filho do livreiro, que viveu imerso na literatura durante a adolescência, poderia ser poeta ou advogado, como queria sua mãe, mas foi na composição musical que encontrou o tecido perfeito para cerzir definitivamente o som com a idéia. Schumann era um intelectual.
 
Robert Schumann protagonizou o mais belo idílio amoroso da história da música com a exímia pianista Clara Wieck Schumann, mas o amor não foi suficiente para fazê-lo esquecer da proximidade da loucura. O medo escrevia o seu desfecho.

Sofria perturbações psíquicas cada vez mais graves que culminaram nas alucinações em que ouvia harmonias que lhe chegavam do céu trazidas pelos anjos e percebia os demônios que o ameaçavam com o inferno. A razão e a impulsividade do homem, que sempre se inspirou em histórias imaginárias, cheias de duplos, tomavam rumos irreversíveis e o lançaram no rio Reno em 27 de fevereiro de 1854 numa desesperada tentativa de suicídio.

Privado dos sonhos e da clareza da realidade, Schumann desistiu de tentar vencer a loucura e pediu para ser internado num sanatório para doentes mentais em Endenich perto de Bonn. Distante dos seus, talvez a terceira personalidade pouco conhecida, Meister Raro, o moderador, que tantas vezes interveio como conciliador de Eusebius e Florestan, tenha tentado resgatar o gênio, mas a vesânia venceu e, dois anos após, em 29 de julho de 1856, o mundo se despedia do grande compositor romântico e de seus duplos.

 

 

 

ONDE FOI PARAR NOSSA TRIBO? por janos biro

Os seres humanos passaram muito mais tempo vivendo em tribos que em cidades. O modo de vida tribal é inseparável da espécie humana. Não é de estranhar que se adaptar à vida urbana é tão difícil e exija tanta dedicação e sacrifício. Não chegamos a esse modo de vida da mesma forma com que chegamos ao modo de vida tribal ou da mesma forma com que as aranhas chegaram a criar suas teias. Não foi um trabalho da criatividade improvisada e adaptação. Fizemos tudo com planejamento racional baseado em supostas leis imutáveis, lutando contra nossa herança “animalesca”. E nesse caso todos os problemas ambientais resultantes são meras reações colaterais necessárias. São resultados de nossa evidente superioridade, não de um desequilíbrio crescente. Um preço que o planeta deve pagar pelo nosso exclusivo bem estar. Talvez seja isso que faça nossos pensadores imaginarem que a evolução siga algum tipo de plano, ou então que o ser humano de alguma forma superou a evolução, se tornou “livre” da natureza. Como se tivéssemos atingido um novo estágio, um estágio superior a todas as formas de vida até agora. Para que uma mudança tão drástica com a mudança da tribo para a cidade como forma de organização tipicamente humana tenha sido resultado da evolução, teríamos que estar diante de um fato realmente extraordinário. Acreditar que a civilização é o destino inevitável da humanidade é acreditar numa exceção inexplicável como se fosse um fato banal. Nós insistimos nessa idéia apesar de todos os sinais negativos, pois temos um monte de desculpas convincentes e convenientes. Preferimos uma existência desesperada e destrutiva que uma vida “primitiva”.

Mas como vivemos a maior parte do tempo em tribos, ainda estamos mais bem adaptados para a vida tribal que para a civilização. Por isso investimos tanto em doutrinação: para que nossa natureza permaneça sobre controle. Aqueles que não se entregam facilmente à doutrinação se sentem deslocados. E realmente estão, pois o lugar do homem em sua forma selvagem não é a cidade. Aqui é o lugar do homem domesticado. No fundo ainda somos tribais tentando nos adaptar, com variados graus de sucesso. Ainda temos as mesmas necessidades instintivas que foram importantes na vida tribal. Essas necessidades são preenchidas com substitutos insatisfatórios ou inadequados para a relação original entre homem e meio, criando todo tipo de vícios. Ainda temos a necessidade, por exemplo, de pertencer a um grupo e obter reconhecimento. Ainda temos a necessidade de compartilhar experiências e recursos, nos envolver emocionalmente ou fisicamente com a comunidade, testar nossas habilidades, imaginar, criar, cuidar. Temos necessidade de apoio mútuo, de amizade, de afeto, e de muitas outras coisas que são decisivas na organização social de qualquer primata, especialmente de humanos. Essas qualidades não necessitam de recompensas ou reforços morais, foram selecionados pela evolução. Estes “valores” não fazem parte de um direcionamento moral coercitivo. Uma vez que o modo de vida tribal não dá vantagem alguma para atitudes negativas ou prejudiciais, não há motivos para coagir alguém a não agir de tal forma. Só a sobrevivência pode julgar o que é benéfico e o que maléfico. Conviver bem é recompensa por si só. Mas nosso modo de vida civilizado foi construído sem a menor consideração por essas relações. É realmente vantajoso para um membro de nossa sociedade que ele seja mesquinho, por mais que isso traga desvantagens para outros, é preferível a sofrer as desvantagens que ele sozinho terá se insistir em ser desapegado. Somos fortemente influenciados a ser ambiciosos e individualistas, para nosso próprio bem. A maioria da população nem sequer participa dos “benefícios” que esse modo de vida traz. Digo “benefícios” porque não são realmente ganhos que preenchem necessidades, mas sim contingências criadas pelo próprio modo de vida. Nem os mais ricos podem ficar plenamente satisfeitos. Estamos diminuindo nossas chances de sobrevivência em longo prazo e insistindo com todas as forças em algo que não será completamente aproveitado.

Não precisamos ser introduzidos novamente à vida em tribo, não há regras a seguir e passos necessários para se voltar à tribo. Tribo é simplesmente o único nome que temos para se referir a uma organização social não civilizada. Uma vez que superemos este “desvio de comportamento” e voltemos ao nosso modo de vida natural, ele provavelmente se parecerá estruturalmente com uma tribo, porque é isso que nossos genes estão preparados. Não significa que vamos morar em ocas ou vestir tangas. Significa sim que nossa construção civil e nosso vestuário, por exemplo, precisam ser simples, baratos e fruto de trabalho local. Não é possível ser sustentável se ainda existirem corporações produzindo tudo em larga escala, visando lucro. O futuro sustentável é feito à mão, não por empresas “ecologicamente corretas”. Atualmente temos o acúmulo e a expansão como fundamentos econômicos. Criar tal ciclo vicioso não foi difícil, só é incrivelmente difícil sobreviver por muito tempo com ele. Os fundamentos da vida tribal ainda estão em nós, e não são mantidos por coerção. Eles permeiam nosso inconsciente. Não é preciso sair das cidades fisicamente, mas é preciso “desarmá-las”. Esse processo não é linear. Inclui como atividades importantes: sonhar, brincar, dançar, amar, transar, conversar, rir, subverter e eventualmente transgredir. Podemos começar rejeitando todo tipo de doutrinação, questionando a civilização e instigando o questionamento. Todos nós queremos muito mais do o máximo que ela tem a nos oferecer. Podemos nos recusar a pôr mais lenha na fogueira da civilização e ao mesmo tempo nos dedicar mais a nós mesmos. Isso me parece sensato por enquanto, mas não podemos arriscar colocar todos os ovos na mesma cesta. Devemos diversificar as soluções possíveis, mantendo ao mesmo tempo a mente aberta e a autocrítica.

Finalmente, não precisamos converter as pessoas. É bom falar sobre o que aprendemos porque isso ajuda a entender melhor nossas próprias idéias, desenvolvê-las e descobrir novas. Eu leio e escrevo sobre crítica cultural faz mais ou menos oito anos, a aprendo coisas novas o tempo todo. É aprender novas coisas que me impulsiona a continuar. Nossa tribo não saiu do lugar. Temos agora que enfrentar o desafio de voltar a viver naturalmente, não como invasores ou dominadores, mas como seres humanos.

CASA no LÍBANO poema de fátima tardelli

 

Minhas cartas foram escritas, mas não postadas,
Temo a resposta do destinatário,

Meus verões tornaram-se invernos,
Tão triste é minha solidão,

Está meu coração para sempre marcado,
Marcas não comerciais, marcas estranhas, ininteligíveis e indeléveis.

Não há mais púlpito,

Não há mais público,
Não há mais a quem converter!

Meus armários….vazios!
Estou nua, desnudastes minh’alma…

Equinócios se seguiram sem teu retorno,
não vejo flores, não vejo folhas, não vejo sol, só invernos!

Gastei minha fortuna, meu soldo,
à tua procura….
Milhares de guinéus se foram em recompensas,
nenhuma resposta que me indicasse o caminho!

Orei à Deus,
Aos santos, às virgens,
pedi à dinvidades, deidades.
Nenhuma resposta….chorei, desisti!

II
Longe da bainha.
Abandonastes a peleja.
Foi ela sussurrada, ficou agora sem sentido.
Está ela arada, à espera do semeador

Roma tem vários caminhos,
A estante só tem dois livros.
Doces grilhões as prenderam,
à distância, contemplando…

III
Presos na garganta.
Fechadas neste inverno.

que louca ciranda!

IV
Vide supra: eis tuas respostas.
Enviei cartas (2)
sem obter respostas!

V
Venha a mim que te curo,
Chegue aqui que te amo,
Volte a mim que te ressuscito,
Pouse em mim que te cuido!

O navegante encontrou a ilha,
seduziu a índia,
tomou a terra,
fez nela sua morada,

depois foi ele seduzido por nova estrada,
abandonou o que tinha, apostou o que não podia,
perdeu tudo numa jogatina, numa mão do carteado!

VI
flutuando ao vento, à procura de teu olfato,
vislumbrando o horizonte, em busca de certa embarcação,
chagas abertas no peito, a dilacerar um pobre coração atormentado!
Onde estão os hilários ciúmes?
A terra não navega, desconhece os mares!

VII
Palavras emprestadas:
Estar junto não é estar ao lado,
É estar do lado de dentro.

 

 

 

INSULANTE poema de walmor marcellino

Terra não sou, mínimo pedaço

sesmo em degrandeza ou desfastio:

sou imodesto húmus, levedura

da natureza.

Esse humílimo fermento

aguardando formatação,

de serial avalanche

em minha translação.


 

CINCO HAICAIs de edu hoffman

 

alguma festa

 

onde leva essa fila

 

    de formigas

 

 

 

    beira do lago

 

  bicicleta espera

 

o passeio da tarde

 

 

 

 

    velha tartaruga

 

  apesar da couraça

 

   desliza na água

 

 

 

 

 

        água límpida

 

mancha roxa na coxa

 

       quatro trutas !

 

 

 

 

        

          vem de longe

 

       d  e  v  a  g  a  r

 

       se vai ao monge

 

A LINGUAGEM ESQUECIDA DOS SINTOMAS por flávia albuquerque

A quantidade de diagnósticos e remédios nunca foi tão numerosa quanto na atualidade. Desde transtornos, que encerram o sujeito numa verdade que se estabelece como indiscutível entre médico e paciente, até medicamentos que bloqueiam uma possibilidade de manter sintomas necessários para o questionamento fundamental: ‘a que servem na vida do sujeito queixoso?’.

            Sintomas comuns como apresentar atitudes que se repetem, rituais que se tornam sagrados a ponto do sujeito não conseguir deles se libertar, o uso de substâncias químicas que funcionam como um apoio indispensável, ou mesmo cuidados com o corpo que beiram o excesso são vistos como uma emergência de cura sem antes serem questionados.

            A psicanálise vem recolocar em cena a condição humana: estar submetido à linguagem. Esta linguagem na qual o sujeito se insere é transmitida por aqueles que o antecedem. O bebê é falado pela mãe e pelo pai ainda no momento anterior à sua concepção e permanece ‘sendo falado’ ao longo da gestação, nascimento e vida. Esta fala é impregnada de desejos e possibilita inaugurar no infans um sujeito de desejo. Certas falas terão peso de verdade para o sujeito em constituição com a ressalva de que não virão atreladas apenas a sentidos dados pelos locutores em questão, mas serão adicionadas de sentidos que o próprio sujeito poderá construir. Com isso, é preciso lembrar do que Freud insistia em dizer a seus leitores: é preciso tomar cada caso como único.

Não há exame clínico que possa dar conta do diagnóstico dos males da alma ou da dor de existir, como preferirem. O psicanalista lança mão da fala por saber que o diagnóstico é, sobretudo, um efeito da linguagem. Até os nomes dados aos medicamentos podem somar a uma afirmação como esta. Estão a venda remédios para controlar a hiperatividade ou o aumento de peso com nomes bastante sugestivos. O paciente consome além da substância uma mesma ou maior dosagem do significante que a pílula carrega. Fato este confirmado com a eficiência dos placebos que atingem o efeito esperado a partir de sugestão através… da linguagem.

Para as ‘mazelas’ modernas que se apresentam cada vez mais numerosas, demandam-se soluções rápidas. Afinal, daqui a alguns dias haverá outras e as anteriores precisam ser curadas. Na carona desta urgência, revistas e jornais – dos mais lidos – convocam profissionais com a tarefa de informar com a máxima clareza a respeito das patologias atuais. Tudo o que se consegue com matérias de títulos bombásticos, tabelas que listam fenômenos muitas vezes corriqueiros na vida da maioria das pessoas, é encerrar o sujeito na constatação de que ele É uma doença – na melhor das hipóteses, apenas 1.

Lidar com o sujeito de uma forma padronizada e fenomenológica é ficar engessado em um saber que não se constrói além do constatado. É acreditar que o humano possui instinto como algo padronizado e comum aos semelhantes exatamente como ocorre com os animais, sem considerar que toda necessidade humana, seja ela qual for, vem carregada de desejo. Afinal, temos fome, mas como bem questionaram os Titãs: ‘você tem fome de quê?’ Há uma escuta que precisa ser privilegiada para dar lugar à importância das leis da linguagem as quais o humano está submetido. Os sintomas podem ser semelhantes assim como os significantes ofertados, mas o uso que se faz deles são como os significados: incontáveis.

Buscar um saber para além do corpo é se reconhecer único. É trazer à tona a diferença fundamental normalmente escamoteada pela cobrança de uma igualdade burra dentro de uma sociedade que privilegia a imagem em diversos sentidos. É preciso lembrar que a imagem é enganosa. O que parece ser uma solução rápida pode estar, muitas vezes, servindo de alimento a um mal maior.

 

 

 

Flávia Albuquerque é psicanalista.

Pós-graduada em Clínica Psicanalítica

fmaa@uol.com.br (21) 9792-8326

MANOEL DE ANDRADE, PALAVREIRO nato, é SUCESSO na AMÉRICA LATINA

MATÉRIA DO “JORNAL OPINIÓN” de BOLIVIA DO DIA 12/05/08:

MANOEL DE ANDRADE ES UN POETA DE VERDAD.

por Martha Urquidi Anaya.

La indeleble imagen de la vida y el territorio mágico del alma

 

 


Hacia 1969 llegó a Bolivia, huyendo de la dictadura que imperaba en su
país, un joven poeta y trovador brasileño llamado Manoel de Andrade, quien se dio a conocer con sus versos en foros universitarios, culturales y sindicales bolivianos, mediante recitales y conferencias. Participando, asimismo, en el Festival de Poesía Internacional que se realizaba en Cochabamba. Llamo la atención por la fuerza de su poesía luchadora y apasionada; eran sus “Poemas para la Libertad”, el primer testimonio de su creación literaria, como reacción al abuso de los poderosos contra los oprimidos. Moderno juglar, sólo tenía como instrumento de lucha revolucionaria, sus palabras ardientes, su voz contestataria.
Aquí fue muy bien acogido entre la juventud estudiosa y las clases trabajadoras, las que habrían alcanzado un nivel de conciencia política y social.
El poeta nacional Jorge Suárez reconocido ya como un alto exponente de la literatura del país, tuvo oportunidad de conocer su principal obra poética y consideró valiosa su publicación en un libro, al que enriqueció con un elogioso prólogo en el dice textualmente de manera profética: “Andrade será un puente espiritual de esta América de las nieves y de las rocas y el inmenso Brasil que percibimos a través de las neblinas de los Andes, para un tiempo nuevo en que la revolución latinoamericana borre sus fronteras”, anunciando la futura importancia de su poesía. La obra de Manoel de Andrade fue editada en 1970, por la Universidad Mayor de San Andrés de La Paz. Hoy, soplan nuevos tiempos de libertad y democracia por toda América.
Algo semejante hizo Suárez con la obra de Edmundo Camargo, poeta fallecido prematuramente a los 27 años, cuya obra salvó del olvido contribuyendo a la publicación póstuma de ella y un significativo prólogo en el que anuncia a Edmundo Camargo como a un gran poeta surrealista, dentro de la literatura latinoamericana. Su exitosa reedición, luego de treinta años así lo confirma.
Tanto el poeta boliviano Camargo como Manoel de Andrade el brasileño, se muestran hoy como dos grandes poetas de nuestro continente. No estaba equivocado Jorge Suárez al anunciarlos así.
La obra de Manoel de Andrade “Poemas para la Libertad”, escrita en español y publicada inicialmente en Bolivia en 1970, tuvo tres ediciones más en Perú, Colombia y Ecuador; pero curiosamente ninguna en el idioma natal del autor. En la actualidad Manoel de Andrade tiene el propósito de hacerlo, ahora, que reaparece después de varias décadas de silencio literario haciendo la presentación de su nueva obra “Cantares” recientemente dada a conocer en el Brasil, con gran resonancia en los medios y la crítica especializada.
Queremos recordar la singular aventura literaria que realizó Manoel de Andrade hace treinta años cuando el continente estaba plagado de regímenes dictatoriales, munido solamente de sus versos revolucionarios y su pasión literaria, recorriendo quince países de Latinoamericanos en medio de las mayores amenazas y peligros, (con una inteligencia política que actuaba a nivel internacional a favor de las dictaduras) promoviendo debates, clamando por la justicia social, llamando a la resistencia y a la lucha, siempre perseguido y hasta encarcelado, arribó finalmente, exiliado a México donde tuve nuevamente oportunidad de encontrarlo. En 1972, volvió al Brasil acogiéndose a una amnistía política que le obligó a retirarse a la vida privada y familiar, y al desempeño de su profesión de abogado. Hoy, después de una “Abstinencia poética y literaria”, como él la llama, vuelve a la palestra con “Cantares”, su última producción la cual llegó a nuestras manos y nos permitimos comentar brevemente. Pudimos comprobar que hoy en Manoel de Andrade permanece intacto el genio poético.
Sólo la temática es distinta; además de las bellas reminiscencias de su infancia; “indeleble imagen de la vida, el territorio mágico del alma” como afirma, de su sueño eterno de marinero frustrado, pues nunca lo fue, pues sólo viajó por mar en la “nave de la imaginación” de la que hablaba el poeta cubano Lezama Lima, nos presenta nuevas visiones del presente y del futuro del hombre y del mundo, con banderas de lucha para este tiempo, como las de la defensa de la vida y del Planeta, seriamente amenazados hoy. Le preocupan los cambios climáticos, los daños ecológicos irreversibles”. ¿”Qué sabor tendrán los frutos la próxima estación”?, se pregunta. Se pregunta también hacia donde nos lleva esta cultura globalizada y cibernética que nos obliga a vivir cada vez más en un mundo virtual y deshumanizado, sin substancia, en el que predominan la falta de valores morales y el hedonismo y nos obliga a presenciar” el escándalo nuestro de cada día”.
Sus poemas dedicados al mar y su descripción, como testigo y síntesis de la actividad humana a través de la historia, son de gran hallazgo emulando al célebre BARCO EBRIO del francés Rimbaud. El mar resumen del planeta Tierra, que más que tierra es agua y al que pinta como una pequeña lágrima flotando en el universo:“apenas un húmedo punto en el infinito”
 
 

 un acuoso respiro
un minúsculo acuario
un minuto ondulante en la eternidad
hace billones de años
una gota salada suspendida en el universoSu poesía oscila entre lo clásico y lo vanguardista, pero es una voz singular, única, que se ha hecho más universal y definitiva con el tiempo. Hay en ella un contenido filosófico e ideológico profundo, pero siempre en el ámbito mágico de una poesía de alta calidad estética y humana. Manoel de Andrade sigue siendo ayer y hoy un poeta de verdad.

 

O QUE SÃO OS ESTADOS UNIDOS? – por anselmo heidrich

Em DST’s, sexo, moraleiros & negócios, o autor diz:

“A América é outra terra. Cada vez que me sento à mesa com americanos, fala-se de Bíblia e “valores cristãos”, ou fala-se de dinheiro. Não me espanta que os EUA, com tão entranhada inclinação para moralizar, tenham 30% das raparigas com menos de 25 anos com uma DST e que para se alcançar a cúspide de um dos centos de igrejas-empresa se coloque como requisito possuir conta bancária e património milionários. O negócio está-lhes entranhado no sangue. Sem aristocracia e tradições aristocráticas, os EUA produziram uma ética de desembaraço que tudo desculpa e isenta no plano da reprodução do dinheiro, mas exige uma ética sexual que dir-se-ia mosaica. Contudo, nada ali é mosaico. Aquela sociedade acostumou-se de tal maneira às públicas virtudes e pecadilhos privados que não sabemos onde começa uma e a outra acaba. É o preço de 400 anos de calvinismo e duzentos de negócios. Se há na cultura americana coisas que verdadeiramente me seduzem – cuidado com a palavra – tais como a bela filmografia e a excelente literatura, outras levam-me a questionar se estamos perante uma derivação do Ocidente, ou de uma civilização absolutamente distinta feita de sobras e refugo do pior que a Europa mercantilista produziu; aquela Europa dos mercadores e da caça às bruxas do século XVII que persiste sobreviver para além do razoável. Talvez seja tempo para os republicanos irem dar uma volta!”O post é interessante. Mas, me pergunto qual sociedade não apresenta a dualidade moral/sexo? Só que representada de modo diverso, bem diverso como podemos ver no caso brasileiro dentre tantos outros. Li numa National (Geographic), matéria em que o fotógrafo americano fora indagado sobre sua origem pelo taxista moçambicano que asseverou como admirava seu país. Ao lhe perguntar se gostaria de se mudar para lá, o motorista respondeu que sim, mas que morava com seus pais e estes não suportariam viver daquele jeito, pois “eram muito cristãos”. O narrador levou um choque, pois se apercebera do abismo existente entre o que achamos que somos e como os outros nos vêem.

 

Eu em minhas viagens sempre tive que me explicar muito sobre como é o Brasil para quem tinha uma vaga idéia, na melhor das hipóteses e estereótipos, na pior. Assim me pergunto, se o que vemos dos EUA quando os julgamos não corresponde mais a algo que supomos existir do que o que realmente são.Sim, os EUA são diferentes porque são o país do excesso. Tudo lá é “mais”, o que é reflexo de sua economia. Ou sua economia é que é reflexo de seu ethos? Não sei… Veja, quando se fala em liberdade, muitos utilizam esta palavra em termos muito abstratos para o meu gosto. Há, na verdade, “liberdades”. Da mesma forma como é muito comum vermos nos EUA, um pastor empunhar sua Bíblia justificando a Pena Capital, o que é fruto de sua liberdade de expressão, temos o jogo e a prostituição. Mas, também, de forma aparentemente paradoxal, temos a liberdade de legislar contra o que pode se entender como perversão. Aí entram as aparentes contradições que, com rapidez no julgamento, chamamos de “hipocrisia”.

Um antigo aluno me falava, indignado, que fora barrado na porta de um cassino em Las Vegas… “Como aqui pode ser chamado de ‘país da liberdade’ se não me deixam andar na rua?” Detalhe: ele estava parado quando foi abordado. Menores de idade não podem ficar no cassino, apenas passar por eles. Contradição? Penso que não. Trata-se, sim, de algo diferente. Ruim, bom, errado, certo? Isto é relativo. Quando dei aula num curso em Santos fiquei impressionado como as meninas se vestiam, extremamente à vontade. No entanto, a cidade tinha uma igreja em cada esquina. Já, subindo a serra cerca de 100 km, em São Paulo, elas usavam calças, mas eram muito mais liberais. Em Os Confins da Terra, o excelente Robert Kaplan fala do Irã que, em sua visita ao país era comum os convidados serem agraciados por uma dança do ventre executada pela esposa do anfitrião. Observou também o contraste entre as cidades mais religiosas e aquelas, como Teerã, onde as mulheres namoravam em parques públicos com suas unhas delicadamente pintadas. Exceto pelo uso do véu (não tão ostensivo quanto na Arábia Saudita), é muito parecido com nosso país. Afinal não temos “cidades carolas” como São João del Rey, MG e outras mais libertinas. Em que pese toda a repressão sexual no mundo islâmico, sírios e sauditas são conhecidos por seus excessos em casas de prostituição, especialmente quando saem do país. É como se fora daquele ambiente cultural, deus fizesse vistas grossas.

Outro amigo que esteve em Miami falava-me da venda livre de cachimbinhos metálicos para crack nas lojas. Ao que protestei: “Como? A droga não é proibida?” Sim, mas não a venda de cachimbos, me replicou. Custei para aceitar e custei mais ainda para entender: uma lei não pode contradizer outra. Não me perguntem quais leis, estou “inferindo”, chutando em bom português, mas acho que é isso mesmo. Da mesma forma que o policiamento ostensivo não pode ir contra a 2ª Emenda, a garantia constitucional de portar armas. E há quem defenda que a 1ª Emenda só existe devido à existência da 2ª…

Por outro lado, o que importa são os atos. Isto é interessante e muito diferente do que temos aqui. Um nazista pode divulgar suas idéias, pode fazer seu proselitismo de ódio tranqüilamente. Só que se pisar fora da linha é preso. Pensemos… Nazistas existem, o ódio sempre existirá. O que é melhor, então? Proibir o uso da suástica ou permiti-la, vigiando quem faz apologia nazista? No Canadá e na Alemanha, a saudação nazista é proibida, mas isto garante que suas hostes não se formem ou estão certos os americanos que os permitem, mas os prendem tal como já desbarataram a KKK no passado?

A Ku Klux Klan continua ativa, embora bem mais fraca e desacreditada. No entanto, ela se forma novamente… De um ponto de vista sociológico a la Durkheim, os americanos e seu sistema jurídico estão certos, pois certa dose de crime aprimora os mecanismos de repressão. E me perdoem pelo “raciocínio organicista” que lançarei mão, mas sem pegar nenhuma gripe, o dia que nos depararmos com um viruzinho qualquer padeceremos tal qual um ianomâmi.

Para aqueles que não gostam de drogas, sexo, prostituição há o dry county onde é proibida a venda de bebidas alcoólicas. Ou seja, há a “liberdade de proibir”, o que parece um brutal contra-senso. Não é, se levarmos em conta que os EUA não são apenas um país liberal, conservador, mas também democrático. País no qual vigora esta “ditadura da maioria”, como os liberais (no sentido europeu do termo) gostam de se referir à democracia, tratando-a como engodo.

Isto é de suma importância, pois a democracia, em meu conceito, não serve apenas para estabelecer consensos, mas também (o que é o outro lado da moeda) para regular dissensos, regular conflitos. Eu endosso isto, desde que, é claro, haja lugares onde eu possa migrar e me ver livre daqueles com quem não partilho princípios comuns.

Mobilidade me parece um conceito chave para entendermos aquele país, tanto no sentido literal, físico – Ride to live, live to ride diz o lema da Harley Davidson -, como no sentido de ascensão social (ou sua queda…). Assim, tenho facilidade para migrar ao procurar emprego (o que a UE também almeja, mas muito mais “burocratizadamente” porque, afinal, são vários países) ou para me encontrar em um estado, condado, cidade, bairro que tenha mais a ver com meu estilo pessoal de vida.

O entendimento deste conceito, a democracia tem como pré-condição o afastamento dos dogmatismos socialista e liberal. Trata-se de procurar entender uma espécie de “engenharia social” típica daquele país que aceitou o federalismo, ou seja a União sacrificando a total autonomia que outras colônias poderiam ter e substituindo-a por outra que portasse a liberdade dentro de um imenso território sem fronteiras. Caso não existisse este princípio de agrupamento com manutenção de certas peculiaridades, talvez tivéssemos mais países comuns aos modelos já conhecidos e experimentados.

Em suma (baita pretensão…), os EUA são isto, um mix de equilíbrio entre tradições religiosas, seculares, liberais, conservadoras, democráticas e realistas. Esta última característica, se levarmos em conta seu intervencionismo externo.

Para entendermos aquela particular formação social cabe admitirmos que não é um “equilíbrio perfeito”, harmônico, no qual não existem tensões. Mas, no final das contas, “o troço” acaba funcionando. Mal ou bem está aí, em forma.

PS: Quanto aos “30% das raparigas com menos de 25 anos com uma DST”, nada encontrei, por enquanto… Exceto, se ele estiver pensando em fungos como Candidíase (muito comuns). Ou seja, uma coceirinha daquelas que qualquer um já teve…

 

VOLTAIRE: VIDA E ESCRITOS – pela editoria

François Marie Arouct, que adoptou o nome de Voltaire, nasceu em Paris a 21 de Novembro de 1694. Foi educado num colégio de jesuítas e ingressou bastante jovem na vida da aristocracia cortesã francesa. Mas uma disputa com um nobre, o cavaleiro de Rohan, fê-lo ir parar na Bastilha. Nos anos de 1727-29 viveu em Londres e assimilou a cultura inglesa da época. Nas Cartas sobre os ingleses, ou Cartas Filosóficas (1734), registra os vários aspectos daquela cultura insistindo especialmente sobre os temas mais característicos da sua atividade filosófica, histórica, literária e política. Defende assim a religiosidade puramente interior e alheia a ritos e cerimônias dos Quacres (Lett., I-IV); põe em relevo a liberdade política e econômica do povo inglês (1b., lX, X); analisa a literatura inglesa e traduz poeticamente alguns trechos da mesma (1b., XVI11-XX111); e, na parte central, exalta a filosofia inglesa nas pessoas de Bacon, de Locke e de Newton (Ib., XII-XVII). Comparando Descartes a Newton, exalta os méritos de matemático de Descartes, mas reconhece a superioridade da doutrina de Newton (Ib., XIV). Descartes “fez uma filosofia como se faz um bom romance: tudo parece verossímil e nada é verdadeiro”. No mesmo ano de 1734, Voltaire publicou o seu Tratado de metafísica, no qual versa os temas filosóficos que já abordara nas Cartas sobre os ingleses. Em 1734 foi viver em Cirey, na casa da sua amiga Madame de Châtelet, e foram esses os anos mais fecundos da sua atividade de escritor. Voltaire publicou então numerosíssimas obras literárias, filosóficas e físicas. Em 1738 apareceram os Elementos da filosofia de Newton, e em 1740 a Metafísica de Newton ou paralelo entre as opiniões de Newton e Leibniz.Em 1750, aceitou a hospitalidade de Federico da Prússia em Sans-Soucie e aí permaneceu cerca de três anos. Após o rompimento das suas relações de amizade com Federico e várias peregrinações, estabeleceu-se na Suíça, no castelo de Ferney (1760), onde prosseguiu a sua infatigável atividade graças à qual se tornou o chefe do iluminismo europeu, o defensor da tolerância religiosa e dos direitos do homem. Só aos 84 anos voltou a Paris para dirigir a representação da sua última tragédia, Irene, tendo sido acolhido com honras triunfais.
Faleceu a 30 de Maio de 1778. Voltaire escreveu poemas, tragédias, obras de história, romances, além de obras de filosofia e de física. Entre estas últimas, além das citadas, são importantes o Dicionário filosófico portátil (1764), que nas edições subsequentes se tornou uma espécie de enciclopédia em vários volumes, e O Filósofo Ignorante (1766), o seu último escrito
filosófico. Mas também é bastante notável pelo seu conceito de história o Ensaio sobre os costumes e o espírito das nações (1740), a que antepôs mais tarde uma Filosofia da história (1765) em que procura caracterizar os costumes e as crenças dos principais povos do mundo.
Outros escritos menores de um certo relevo são citados adiante. Shaftesbury dissera que não há melhor remédio contra a superstição e a intolerância do que o bom humor. Voltaire pôs em prática melhor do que ninguém este princípio com todos os inexauríveis recursos de um espírito genial. O humorismo, a ironia, a sátira, o sarcasmo, a irrisão aberta ou velada, são por ele empregados de vez em quando contra a metafísica escolástica o as crenças religiosas tradicionais. Na novela Candide ou de L’optimisme, Voltaire narra as incríveis peripécias e desditas que põem à prova o otimismo de Cândido, o qual encontra sempre maneira de concluir, com o seu mestre, o doutor Pangloss, que “tudo corre o melhor possível no melhor dos mundos”. Num outro romance, o Mícrómegas, do qual é protagonista um habitante da estrela Sírius, zomba da crença da velha metafísica segundo a qual o homem seria o centro e o fim do universo e, nas pisadas do Swift das Viagens de Gulliver, aborda o tema da relatividade dos poderes sensíveis, relatividade que pode ser superada somente pelo cálculo matemático. Num Poema sobre o desastre de Lisboa (1755), escrito a propósito do terremoto de Lisboa do mesmo ano, combate a máxima de que “tudo está bem” considerando-a como um insulto às dores da vida, e contrapõe a esperança de um melhor futuro construído pelo homem.
“Muda é a natureza que em vão interrogamos. Não é preciso um Deus que fale ao gênero humano. Só a ele cabe sua obra explicar, aconselhar o débil, o  sábio iluminar… Nossa esperança é que algum dia tudo esteja bem: Mera ilusão é que hoje tudo esteja bem.

O MUNDO, O HOMEM E DEUS

Diz-se habitualmente que Voltaire, no decurso de toda a sua vida, passou do otimismo ao pessimismo e que, sob este aspecto, os seus últimos escritos marcam uma orientação diferente da dos primeiros. Na realidade, não é possível distinguir oscilações dignas de relevo na atitude de Voltaire sobre este ponto. Ele sempre esteve convencido de que o mal do mundo é uma realidade tão inegável como o bem; que é uma realidade impossível de explicar à luz da razão humana e que tinha razão ao afirmar a insolubilidade do problema e criticar implacavelmente todas as possíveis soluções do mesmo. Mas, por outro lado, esteve também sempre convencido de que o homem deve reconhecer a sua condição no mundo tal qual ela é, não já para se lamentar e para negar o próprio mundo, mas para alcançar uma serena aceitação da realidade. Nas Anotações sobre os Pensamentos de Pascal (1728), que é um escrito juvenil, não pretende refutar o diagnóstico de Pascal sobre a condição humana, mas apenas extrair dela um ensinamento muito diferente. Pascal, com efeito, inferia desta situação a negação do mundo e a exigência de se refugiar no transcendente. Voltaire reconhece que tal condição é a única condição possível para o homem e que, portanto, o homem deve aceitá-la e dela tirar todo o partido possível. “Se o homem fosse perfeito, diz ele, seria Deus; e as pretensas contrariedades a que vós chamais contradições são os ingredientes necessários de que se compõe o
homem, o qual é, como o resto da natureza, aquilo que deve sem. É inútil desesperar por não ter quatro pés e duas asas. E as paixões que Pascal condenava, em primeiro lugar o amor próprio, não são no homem simples aberrações porque o movem a agir, visto que o homem é feito para a ação. Quanto à tendência do homem para se. divertir, Voltaire observa: “A nossa condição é Precisamente Pensar (…)”.

Pascal e Voltaire reconhecem, ambos, que O Homem, pela sua condição, está ligado ao mundo; mas Pascal quer que ele se liberte e afaste do mundo, ao passo que Voltaire pensa que ele o deve reconhecer e amar. A diferença está toda nisto; o pessimismo ou o Otimismo Pouco têm a ver com a questão.

Voltaire toma os traços fundamentais da sua concepção do mundo dos empiristas e dos deistas ingleses- Decerto que Deus existe como autor do mundo; e, conquanto se encontrem nesta opinião muitas dificuldades, as dificuldades com, que depara a opinião contrária são ainda maiores. Voltaire repete a este propósito a argumentação de Clarke e dos deístas (que reproduz o velho argumento Cosmológico): ” Portanto existe alguma coisa de eterno já que nada se produz a partir do nada. Toda a obra que nos mostre meios e um fim revela um artifício: portanto, este universo composto de meios, cada um dos quais tem o seu fim, revela uni artífice potentíssimo e inteligentíssimo” (Dict. phil., art. “Dieu”; Tra@té de Mét., 2).
Voltaire repudia, portanto, a opinião de que a matéria se tenha criado e organizado por si mesma. Mas, por outro lado,  recusa-se a determinar os atributos de Deus, considerando ambíguo também o conceito de perfeição, que não pode decerto ser o mesmo para o homem e para Deus. E não quer admitir qualquer intervenção de Deus no homem e no mundo humano. Deus é apenas o autor da ordem do mundo físico. O bem e o mal não são ordens divinas, mas atributos do que é útil ou nocivo à sociedade. A aceitação do critério utilitarista da verdade moral permite a Voltaire afirmar terminantemente que ela não interessa de modo algum à divindade. “Deus pôs os homens e os animais sobre a terra, e eles devem pensar em conduzir-se o melhor possível”. Tanto pior para os carneiros que se deixam devorar pelo lobo. “Mas se um carneiro fosse dizer a um lobo: tu desprezas o bem moral e Deus castigar-te-á, o lobo responder-lhe ia: eu procedo de acordo com o meu bem físico e, pelo visto, Deus pouco se importa que eu te coma ou não”

É do interesse dos homens conduzirem-se de modo a tornar possível a vida em sociedade; mas isto requer o sacrifício das paixões próprias, que são indispensáveis, como o sangue que lhes corre nas veias; e não se pode tirar o sangue a um homem, porque pode ser acometido de uma apoplexia.

No que toca ao conhecimento, Voltaire considera, tal como Locke, que o seu ponto de partida são as sensações e que de se desenvolve mantendo-as e dando-lhes forma. Voltaire repete os argumentos que Locke empregou sobre a existência dos objetos exteriores; e acrescenta um, por sua conta: o homem é essencialmente sociável e não poderia ser sociável se não houvesse
uma sociedade e, por consequência, outros homens fora de nós. As atividades espirituais que se encontram no homem não permitem afirmar a existência de uma substância imaterial chamada alma. Ninguém pode dizer, de fato, o que é a alma; e a disparidade das opiniões a este propósito é muito significativa. Sabemos que é algo de comum ao animal chamado homem e àquilo que se chama animal. Este algo poderá ser a própria matéria? Diz-se que é impossível que a
matéria pense. Mas Voltaire não admite tal impossibilidade. “Se o pensamento fosse um composto da matéria, eu reconheceria que o pensamento deveria ser extenso e divisível. Mas, se o pensamento é um atributo de Deus dado à matéria, não vejo que seja necessário que tal atributo seja extenso e divisível. Vejo, de fato, que Deus comunicou à matéria outras propriedades que não têm nem extensão nem divisibilidade: o movimento, a gravitação, por exemplo, que atua sem corpo intermediário na razão direta da massa o não da superfície, e na inversa do quadrado das distâncias, é uma qualidade real demonstrada, cuja causa é tão oculta como a do pensamento”.

Além disso, é absurdo sustentar que o homem pense sempre; sendo assim, é absurdo admitir no homem uma substância cuja essência seja pensar. Será mais verossímil admitir que Deus organizou os corpos tanto para pensar como para comer e para digerir. Posta em dúvida a realidade de uma substância pensante, a imortalidade da alma converte-se em pura matéria de fé. A sensibilidade e o intelecto do homem nada têm de imortal; como se poderia, pois, chegar a demonstrar a eternidade? Não existem certamente demonstrações válidas contra a espiritualidade e a imortalidade da alma; tais demonstrações são destituídas de toda a verossimilhança e é injusto e despropositado pretender efetuar uma demonstração onde somente são possíveis conjecturas. Além disso, a mortalidade da alma não é contrária ao bem da sociedade, como o provaram os antigos hebreus que consideravam a alma material e mortal

O homem é livre, mas dentro de limites bastante restritos. “A nossa liberdade é débil e limitada, como todas as nossas faculdades. Nós fortificamo-la habituando-nos a refletir e este exercício torna-a um pouco mais vigorosa. Mas, apesar de todos os esforços que façamos, nunca poderemos conseguir que a nossa razão impere como senhora de todos os nossos desejos; existirão sempre na nossa alma, como no nosso corpo, impulsos involuntários. Se fôssemos sempre livres, seríamos o que o próprio Deus é”. Na sua última obra filosófica, Le Philosophe Ignorant (1766), Voltaire insiste na limitação da liberdade humana, que não consiste nunca na ausência de qualquer motivo ou determinação. “Seria estranho que toda a natureza, todos os astros obedecessem a leis eternas, e que houvesse um pequeno animal com a altura de cinco pés que, a despeito destas leis, pudesse agir sempre como lhe aprouvesse, segundo o seu capricho. Agiria ao acaso, e sabe-se que o acaso não é nada; nós inventamos esta palavra para exprimir o efeito conhecido de toda a causa desconhecida” (Phil. ign., 13).

A HISTÓRIA E O PROGRESSO

No decurso da sua atividade historiográfica, Voltaire dilucidou sempre os conceitos em que ela se inspirava. É como filósofo que ele pretende tratar a História, isto é, colhendo, para lá do amontoado dos fatos, uma ordem progressiva que revele o significado permanente deles. A primeira exigência é a de depurar os fatos de todas as superestruturas fantásticas de que o fanatismo, o espírito romanesco e a credulidade os revestiram. “Em quase todas as nações, a História é desfigurada pela fábula até ao momento em que a filosofia vem iluminar os homens; e quando, por fim, a filosofia surge no meio destas trovas, encontra os espíritos tão obnubilados por séculos de erros que mal logra esclarece-los; deparam-se-lhe cerimônias, fatos, monumentos, estabelecidos para sustentar mentiras” (Essais Sur les Moeurs, cap. 197). A filosofia é o espírito crítico que se opõe à tradição e separa o verdadeiro do falso.

Voltaire manifesta aqui com idêntica força a exigência histórica e antitradicionalista que Bayle representara. Mas a esta primeira exigência junta-se uma segunda, a de escolher, entre os próprios fatos, os mais importantes e significativos para delinear a “história do espírito humano”. Deste modo, cumpre escolher, na massa do material bruto e informe, o que é necessário para construir um edifício; é mister eliminar os pormenores das guerras, tão nocivos como falsos, as pequenas negociações que são apenas velhacarias inúteis, as aventuras particulares que abafam os grandes acontecimentos, o é preciso conservar apenas os fatos que, pintam os costumes e fazem nascer desse caos um quadro geral e bem articulado. Voltaire seguiu este ideal, sobretudo no Ensaio sobre os costumes e o espírito das nações, em que dá o máximo relevo precisamente ao nascimento e morte das instituições e das crenças fundamentais dos povos. Mas em toda a sua obra historiográfica o que importa a Voltaire é pôr em luz o renascimento e o progresso do espírito humano, isto é, as tentativas da razão humana para se libertar dos preconceitos e erigir-se em guia da vida social do homem. O progresso da história consiste precisamente e apenas no êxito progressivo de tais tentativas, já que a substância do espírito humano permanece inalterada e imutável. Resulta de quadro, diz Voltaire, que tudo o que concerne intimamente à natureza humana se assemelha de um extremo ao outro do universo; que tudo o que pode depender dos costumes é diferente e se assemelha apenas por acaso. O império do costume é muito mais vasto do que o da natureza; estende-se aos hábitos e a todos os usos, e expande-se na sua variedade por todo o universo. “A natureza manifesta assim a sua unidade: estabelece por toda a parte um pequeno número de princípios invariáveis, de modo que o fundo é em toda a parte o mesmo, mas a cultura produz frutos diversos”. Na verdade, o que é susceptível de progresso não é o espírito humano nem a razão, que é a essência dele, mas sim o domínio que a razão exerce sobre as paixões em que se radicam os preconceitos e os erros. A História apresenta-se assim a Voltaire como história do iluminismo, do esclarecimento progressivo que o homem faz de si mesmo, da progressiva descoberta do princípio racional que o rege; e implica uma alternância incessante de períodos sombrios e de renascimentos.

O conceito voltairiano da História liga-se estreitamente ao iluminismo, porque, na realidade, não é mais do que a historicização do iluminismo, o seu reconhecimento no passado. Mas com isto não se pretendeu aniquilar a problematicidade da História, e Voltaire sente-se ele mesmo um instrumento daquela força libertadora da razão, cuja história pretende descrever.
 
 
 

 

TARDE DEMAIS – poema de jorge barbosa filho

velo esta tarde engomada

florida com tanto alinho

que parece que o homem

é o último dentro do inútil agora.

 

meu olhar vestido de terno

acompanha o cortejo

e tenta crer com respeito

no suspiro final da cidade.

 

o sol que eternamente enterro

na carne de minhas palavras

é o nosso morto presente

 

e feito fóssil fogo-fátuo.

sussurra baixinho meu epitáfio:

– tarde de mim, tarde de tudo, tarde demais.

 

SEM AS POEIRAS DE VOLTAIRE – poema de tonicato miranda

Uma mariposa cinza

com a ponta de uma das asas quebrada,

mas com um desenho magistral,

mais trabalhado que kambé,

mais variado do que Roman

mais surpresa do que Poty,

mais elegante do que Mazé,

muito menor do que o sorriso da Desi

desceu em queda livre

de Piraquara a Morretes.

 

Depois de quase ser comida por um pombo,

uma gralha sobrevivente

e um gavião ancião;

depois de quase cair num canavial,

quase beijar uma grande pedra

às margens do Marumbi,

após a descida vertiginosa do cimo

dos picos da Serra do Mar,

pousou a teu pés.

 

Não declamou para ti

Ana Cristina César,

como era de se esperar,

mas Voltaire

eu não beijo a poeira dos vossos pés,

porque vós quase não caminhais,

vós levitais nos meus pensamentos“.

A ARTE ESTÁ DE LUTO, MORREU MÁRIO SCHOEMBERGER

                  Aos 56 anos, morre o ator curitibano Mário Schoemberger.

 

                   foto de Jonathan Campos/Arquivo/Gazeta do Povo.

Com trabalhos em inúmeros filmes e peças de teatro, ele foi um dos representantes mais importantes de sua geração. Versátil, com currículo extenso e atuações na televisão, teatro e cinema. Mário Schoemberger, ator curitibano capaz de transitar com tranqüilidade entre papéis cômicos e trágicos, que já passava por problemas de saúde há mais de um ano, morreu nesta quarta-feira (14) aos 56 anos.

O velório está marcado para esta quarta-feira (14) às 23h, na Sala de Exposições do Teatro Guaíra (Praça Santos Andrade, s/n.º). O corpo do ator deixa o teatro às 16h desta quinta-feira, e segue para o Crematorium Metropolitan em São José dos Pinhais, onde será cremado.

Carreira longa no teatro, televisão e cinema

Em sua carreira de longos 37 anos, Schoemberger já passou pelos palcos do teatro, pela telinha da televisão e pelo cinema.

Alguns destaques dentro de seu vasto currículo no teatro, destacam-se a obra “Memória Póstumas de Brás Cubas”, com direção de Nauttíulio Portela, “Pinha, Pinhão, Pinheiro”, sob direção de Fátima Ortiz, “As Bruxas de Salém”, trabalho dirigido por Marcelo Marchioro, “A Casa do Terror”, de João Luiz Fiani e as mais recentes “Jantar Entre Amigos (Pequenos Terremotos)”, de Felipe Hirsch e “Três Versões da Vida”, com direção de Elias Andreatto.

Ele trabalhou também como diretor teatral em várias montagens como “O Processo”, com texto de Fátima Ortiz, “A Ceia dos Cardeais”, de Júlio Dantas e “Trancentina II”, de Enéas Lour.

No cinema, pode ser visto no curta “A Loura Fantasma” e no média-metragem “Vítimas da Vitória”, com direção de Berenice Mendes. Schoemberger também pode ser visto no filme “Trair e Coçar É Só Começar”, “O Cheiro do Ralo”, e também na comédia “Os Normais – O Filme”, no qual faz um oficial do navio.

Na televisão, seu trabalho pode ser visto em várias séries da TV Globo, como no seriado “Os Aspones”, “A Diarista” e “A Grande Família”. Ele já recebeu o Troféu Gralha Azul na categoria ator pela peça “Os Mistérios de Curitiba”, obra baseada no texto de Dalton Trevisan e pelo qual recebeu ótimas críticas, entre outros prêmios.

 

por Angela Antunes e Irinêo Netto.

fonte RPC.com

DARLAN CUNHA é PALAVREIRO DA HORA e vem da bela MINAS GERAIS

Nasci em Medina, MG. Moro em Belo Horizonte. Apraz-me aprender algo com a Psicanálise / Psicologia; atenho-me em apreender o que posso das Ciências Sociais (Sociologia, Antropologia e Etnologia). Tenho com a Literatura um enleio antigo (severo nas escolhas).

Escrevi os primeiros textos aos 30 anos. Arranho um violão, componho. Dos lugares em que toquei, do que me lembro com mais simpatia é Ouro Preto, num show feito há muitos anos, numa segundona, no mais antigo teatro das Américas, onde, naturalmente, “não se deixa qualquer um tocar = palavras ouropretanas… hehe). Devo isto ao meu falecido amigo engenheiro André Roelens. Show informal, coisa de estudantada. Uma beleza. Gente pelo ladrão, papo com Inconfidentes ressucistados, e por aí vai… hehe.
Em vias de publicar primeiro livro.
 
 
 
 

 

 

 

COLOQUEI MEU COLCHÃO NO SOL   

Vivo quase sempre cantando, mas, contráriamente àquele popular ditado, não consigo espantar meus males – pelo menos não todos. Sou físsil, e sei disso; incréu, e sei disso; devagar, e sei disso, mas o acre meneio das curvas caras ao minuto somente ao minuto, e o falso-sólido conceito de reta não vigem de graça ou impunes aqui neste elo não vencido em seu tempo de encantamento. Vivo em estreito conluio com o que de mim se afasta, mesmo se não retorna.

 

 

 

 

TRIPÉ

Mera partilha de abusos e ranços,
o dia desencaminha ardores maiores
do que o salto da pulga
atrás da orelha, hoje
e a partir de hoje, só mesmo a cal
como pertinaz tempero, sim, de enterrar
amores, viver.

 

os PALAVREIROS da HORA dão as boas vindas ao companheiro de viagem e batalhador das letras DARLAN CUNHA, que compreendeu a finalidade pública e solidária do PALAVRAS, TODAS PALAVRAS, de divulgar os “deserdados” do famoso “mercado editorial.”  mais um âncora, agora, da bela Minas Gerais. sê bem vindo DARLAN.

 

 

ALBERT EINSTEIN e a ARTE

Ser suficiente artista é ter capacidade de desenhar a imaginação. A imaginação é mais importante que o conhecimento. O conhecimento é limitado. A imaginação envolve ao mundo.

OFERTÓRIO -VISÃO / poema de jb vidal

 

 

 

ofereço a quem possa interessar

este olhar esgotado de tanto ver,

um olhar milenar sobre o conhecido,

cravejado de imagens,

poucas majestosas,

as demais dignas de olhos cegos,

 

um olhar universal sobre a insignificância

sobre um mar sereno, azul turquesa

e um rio de sangues, caudaloso,

ofereço um olhar ao Himalaia, branco nevoso

e outro, a um Kilimandjaro feito de cadáveres,

antes, miseráveis, famintos, podres,

 

um olhar sobre vales acariciados por brisas

saídas da boca de um deus sonhador,

outro sobre  guerras fedendo  gases mortíferos

nascidos na cobiça das fezes de gravata,

afirmo ter visto um planeta indescritível

e um mundo lamacento, porco, nojento, risível

 

ofereço um olhar atento e cansado,

bom e mau, vivo e disfarçado,

um olhar que se cravou no chão

descalço andou, andou e andou,

detendo na retina o perfume das flores

e os cheiros próprios dos mortos

 

NAGUS – poema de jairo pereira

anafriolanthu’s lhidimalhis zigudófilis

as flores estacionaram no ponto em que estavam

neferquithis limbarrus zefenhís

o predador aéreo repassa o jardim

trúsbitas enésimas persecutions zambronas

olhos de não ver vendo

sentidos de não-sentir sentindo: rastreamento

larvas ciscos pólipos

lesmas escriturárias

thercíades velutípteros in versus

a colcha de terra virada ao contrário

vidas em movimento vida-morte

letalli’s o verbo acids lingsthifólios

mortal a linguagem das plantas

ácida a saliva espessa

os crisântemos crispados de tempo & vento

nagus : o nada :

 

 

 

CHEGAR AONDE FESTEJAS – poema de altair de oliveira

Por tanto que te desejo

Pareço quem te conhece

Quem sabe onde começas

E cresce onde festejas

Quem quer ser teu endereço

E estar onde quer que estejas…

 

Nos penso cheios de ardores

Te lembro  e sinto que adejo

Te almejo de maio a maio

E ensaio que te alvejo

Te faço feixes de amores

E te deixo mantos de beijos.

 

Pressinto-te e até latejo

Onde florindo retardas…

Lá onde guardas meus beijos

Onde teus beijos me aguardam!

 

 

do livro recém lançado O LENTO ALENTO.

 

DE ALLEG A JULIUS FUCIK E GRAMSCI – por walmor marcellino

“Lá onde Maquiavel exprime a verdade política autoritária, La Boétie formula a possibilidade de sua vertente libertária” (Michel Onfray in “A Política do Rebelde)

Henri Alleg se transformou em memória revolucionária, e pela obra de Jean-Paul Sartre, num símbolo da Resistência Argelina contra o colonialismo francês; Julius Fucik, militante político revolucionário e resistente à invasão colonialista-nazista (Tchecoeslováquia), se fez um mártir da violência capitalista-imperialista e um herói paradigmático com seu “Testamento Sob a Forca”; Antônio Gramsci se mostrou militante marxista inteiramente dedicado a seu projeto social, mártir e paradigma de ação política, prática crítica e prática intelectual, com um legado que enriquece nossa humanidade. Do paradigma para os seres da planície nas pessoas politicamente ativas, podemos destacar que os modelos de conduta nos engrandecem ou envilecem e que são fanais apenas para os integrados nas causas sociais; os demais os apontam sinceramente como modelos a serem imitados ou renegados, ou acusados blandiciosa e maldosamente, como faz o fariseu oportunista com algumas “referências ético-políticas” para situar-se socialmente e obter vantagens em discursos políticos e exaltações éticas; o radicalismo de palavras é cevado com esse oportunismo da impostura cínica.

Todavia, esses paradigmas políticos foram e são casos concretos, em que o perde-e-ganha da política e dos seus projetos sociais se apresentam como situações. A serem julgados pelos coadjuvantes envolvidos na própria causa de cada ativista como um “herói” modelar, nédio militante ou “vilão infame” mas não por estranhos ao processo; estes só admissíveis quando, de uma “exemplaridade social” exposta, se se conhecerem o fato, suas nuances e seus compromissos programático-políticos. O resto são coivaras.

O que as pessoas diretamente envolvidas relatam e dizem de si ficará em suspeição – tanto quanto as afirmações levianas e as moralidades covardes dos juízes “à outrance” – porém os fatos objetivos com visões estratégicas e relatos comprovados pelos deuteragonistas é que afirmarão e desafirmarão o sentido das ações e condutas em causa; isso que se constitui fato e sua apreciação política sempre necessária. O resto correrá à conta da ignorância, perversão política, mistificação ética quando uns “passageiros de agonia” ou espectadores embuçados assumirem o papel de juízes.

Do Dr. Zequinha (não da anedota de estilingue) falarão os que o conheceram na militância política contra a ditadura e a repressão política, onde ressaltou sua coerência político-ideológica; e em episódios semelhantes evidenciaram-se Clair da Flora Martins, Hasiel Pereira, Jair Ferreira de Sá, Aldo Arantes, Paulo Wright, João Batista Drumond, Duarte Pacheco, Altino Dantas, Jorge Leal, Vinicius Brandt, Rubens Leal e outros tantos em ações definidas e responsabilidades revolucionárias e não simples discordâncias com o regime ou alegações. Seus claros projetos revolucionários, estratégia e tática, podem ser julgados ainda hoje como “projeto de sociedade-projeto de nação”, independente de diferenças interpretativas de sentido e participação objetiva na luta direta de classes; e assim, entre os “resistentes à ditadura de 1964” existiram a intenção e a dissensão, a persistência e o abandono, a luta real com seu martírio e as vacilações e desistências. E sobre esses tantos fatos as falácias burguesas e pequeno-burguesas do “auto-heroísmo de esquina” e seus paradoxos sociais.

Aqui, a par desses relances ético-críticos, ativistas políticos como Paulo Gustavo Carvalho, José Carlos Brianezzi, Divo Guizzoni, José Angeli, Narciso Pires, Vera Weisheimer, Isamu Ito, Dirlei de Luca, José Zanetti, Hamilton Farias, Paulo Sá Brito, Elba Ravaglio e tantos outros pagaram preço na resistência política, uns com privação da liberdade e/ou tortura, outros com sevícia e morte.

E haverá muitos auto-heróis alguns com ações não-dimensionadas outros com várias incertezas e até invejas críticas; e os de cujo “exemplo”, não tão incomum, se montou alguma “tragédia” ou “epopéia” de vítimas, com depoimentos “histórico-políticos”, em relatos pessoais “fidedignos” e até livros: num circuito da fabulice alienada, de mistificação ideológica e mentira política.

OS PASSAGEIROS por zuleika dos reis

                                                                                                                  Para Jorge Lescano

 

 

Não, não se parecem com amantes em pleno ato de amor, nem com amigos no momento do reencontro, ainda que a epiderme de cada um toque fundo a epiderme de cada outro. Talvez se pareçam com passageiros de um ônibus, às seis da tarde, em direção à periferia, ou às cinco da manhã, em direção ao centro.

                        Aqueles que não se assemelham a amigos nem a amantes e que sugerem certa analogia com passageiros, têm com estes apenas alguma proximidade no que se refere à aderência dos corpos, e isto levando-se em conta somente os passageiros em pé que, com os sentados, dois cotovelos colados aqui, duas coxas coladas ali, toda e qualquer comparação perde consistência, porque os corpos que não se assemelham a amantes nem a  amigos  não aderem dois cotovelos aqui, duas coxas ali.

                        Observando-se o interior do ônibus de modo desatento, poderíamos interpretar o conjunto de passageiros apenas como bloco imóvel de múltiplas peças imperfeitamente articuladas, espécie de máquina inoperante, interpretação que se desfaz quando o ônibus pára no ponto para a entrada de novos passageiros visto que estes, ao se inserirem no referido veículo, geram desestruturação na tal máquina pois, na medida em que dois corpos, não podendo ocupar simultaneamente o mesmo lugar no espaço, novos corpos, ao se inserirem, desloquem os mais antigos da posição em que se encontram.Processo análogo, em sentido inverso, ocorre antes de algum corpo sair do veículo, porque também se depara com a necessidade de separar muitos e muitos outros para atingir a porta traseira e, em seguida, descer cada um dos degraus até retornar, na calçada, à condição de peça individual. Às vezes, há entradas e saídas não concomitantes que, ainda quando sincrônicas, nos permitem rápidos vislumbres das reestruturações e desestruturações sucessivas no bloco imóvel ao olhar distraído, as quais instituem no âmago do ônibus, aquilo a que chamamos movimento.

                        Algo distinto ocorre aos que não se parecem com amantes nem com amigos. Se se assemelham aos passageiros em pé dentro do veículo, pelo fato de não precisarem entrar nem sair de veículo nenhum, conservam-se o mesmo bloco, aderidos e imóveis sempre, situação alterada apenas por uma Força de natureza diversa, que aparece e retira este ou aquele do local que ocupam, causando – como no ônibus – desequilíbrio nos imediatamente próximos. Não cabendo a tal Força a palavra passageiro e cumprindo a nós a tarefa de imaginar que nome lhe dariam, se fossem aptos para fazê-lo, os que não se parecem com amigos nem com amantes,  surge-nos a expressão “deus ex machina”, aparição súbita e exterior ao enredo, em certas peças gregas, vinda a fim de solucionar situações de total impasse para seus personagens.

                        Deus Ex Machina caminha pela calçada, seguido pela silhueta dos veículos, dos arranha-céus, das luzes de néon e da lua cheia. Caminha devagar, com um pacote contra o peito, como se estreitasse o amigo ou a amante, sabendo-se cronópio, degenerado e em extinção (1). Ei-lo que chega a casa, abre a porta e, mesmo antes de ir ao banheiro, desfaz o referido pacote, retira-lhe do interior objetos já pretéritos – ainda que seus fabricantes continuem a convencê-lo da contemporaneidade dos mesmos (2) – e os vai colocando horizontalmente sobre seus pares em pé, estes companheiros de segredos (como os amigos certos, os amantes verdadeiros) cujos corpos, porque não possuem a flexibilidade dos que continuam seguindo no ônibus, já não admitem a inclusão, na vertical, de qualquer novo exemplar de sua espécie, por mais delgado que seja, isto conferindo aos objetos recém-chegados grande vantagem sobre os passageiros do veículo anteriormente referido visto que, se estes possuem a autonomia de entrar, de permanecer, de sair do tal veículo, só lhes é possível nele estar verticalmente ou, alguns poucos, nos assentos. Nenhum pode deitar-se no teto, ressalvando-se que acomodações deste tipo já vêm sendo utilizadas em trens da Central do Brasil, mas apenas por passageiros clandestinos e sobre o teto pelo lado de fora; no que se refere ao seu usufruto, em ambas as variantes (por fora e por dentro), em ônibus e trens do metrô, ainda não dispomos de estatísticas confiáveis. Voltando aos recém-ingressos à casa que será, doravante, o seu verdadeiro lar, são deitados de modo confortável, ou nem tanto, sobre seus pares, como a Pátria no esplêndido berço… enquanto o escriba salva, no disquete, uma das crônicas de costumes da cidade de São Paulo, no final dos anos oitenta do século XX (3).

(1)   – Os gêneros, por tradição, pertencem aos famas. Ambos, famas e cronópios, existem desde sempre, sendo que estes últimos devem seu nome ao escritor argentino Julio Cortázar. Os primeiros constituem a grande maioria; dos segundos, perpetuamente ameaçados de extinção, restam bem poucos e esparsos, fato do qual os ecologistas, espécie benéfica em florescimento no Planeta, ainda não se deram conta. (Nota do Autor)

(2)    Provavelmente, tal leitura apocalíptica seja equivocada, à semelhança do ocorrido quando da invenção da       Imprensa. (Nota do Autor)

(3)    Esta crônica foi encontrada em agosto de 1999, por funcionário doutorando em História Natural, no Setor       de Achados e Perdidos do Metrô; por mero acaso, chegou às mãos de um dos organizadores desta Coletânea. (Nota do Editor)

                                                                                                   

 

LATINIDADE? por jorge lescano

A  raça é um conceito  zoológico:  refere-se ao tipo  físico.

Otto Klineberg As diferenças raciais

 

Periodicamente entram em circulação termos que, analisados de perto, revelam-se dúbios, quando não desprovidos de significado. Latino, latinidade, estão neste caso.  

Segundo a antropologia, nunca houve uma raça latina, apenas língua latina. O espírito de síntese, ou a preguiça mental, acabaram identificando o nome da língua com o tipo racial do povo que a falava. Assim, os romanos passaram a ser latinos.

Costuma-se afirmar a existência de línguas neolatinas, contudo, não é inadmissível a teoria de que tais línguas seriam anteriores à conquista romana. As línguas neolatinas, então, seriam apenas línguas latinizadas. Isto é, teriam sido formalizadas pela gramática do império. Na época da conquista da América, a normalização daquelas línguas pela gramática latina é um fato irreversível. Contudo, na opinião de Ricardo Rojas: quando a civilização espanhola começou a ser transferida para o Novo Mundo, não estava constituída nem a unidade racial nem a consciência idiomática da metrópole.

A história da América Latina teve início no dia do desembarque dos navegantes europeus nas ilhas Bahamas, mais precisamente na rebatizada de San Salvador, atual Watling Island, à qual os nativos chamavam de Guanahani. A  ocupação inicia-se pela palavra. “Assimilar” a cultura dos povos conquistados sempre foi uma prática sutil de dominação. Alterando-se os significados dos símbolos originais, torna-se possível implantar uma nova ideologia. Consumada esta primeira usurpação, foi fácil para os novos senhores impor outra escala de valores e assumir pelas armas os destinos das populações autóctones.

         Os ibéricos chegam ao continente com a aura de Cultura Superior (hierarquia atribuída por eles mesmos) pois têm a herança da civilização romana acrescida da verdade “incontestável” de possuir o Deus verdadeiro. A identificação com Roma, duas vezes sacramentada, produz o “esquecimento” das diferenças raciais. Lusos, galegos, catalães, vascos, italianos em geral, são agrupados sob o rótulo latinos, ad majorem dei gloriam, presumivelmente. O curioso, se não cômico, é que o insigne genovês, que segundo a lenda perambulou pela Europa tentando o patrocínio sem ser levado a sério, somente foi reconhecido como Gênio da Raça, arquétipo de uma era, ao se perceber que chegara ao continente errado. Nessa altura, os aborígines já haviam sido denominados índios, pela única “razão” de que o Grande Almirante acreditou até a morte haver aportado na Índia.

A política colonial torna necessária a “purificação” do continente. As mais de duas mil línguas faladas na América antes da chegada dos europeus, são silenciadas pelo cristianismo. Por algum tempo circulará a expressão Ibero-América, mais tarde quase desaparece. Consagrado pelo uso nada casual, o latino impõe sua prosápia à terra mestiçada; e seus habitantes são meio brancos, pelo menos lingüisticamente. Os grandes manipuladores da história (políticos, militares, cronistas) operam o milagre da transformação racial segundo a etnia dos dominadores. O tempo, ajudado por estes taumaturgos, apaga aos poucos o termo americano que ainda identificava as populações falantes das línguas ibéricas nestas plagas. Hoje, o conceito latino, apesar de difuso, define etnia(s), comportamento e características psicológicas.

Também o nome do continente foi deturpado. Paul Herrmann, depois de noticiar a descoberta de Vespuccio (Temos seguido estas costas por um trecho de 600 milhas, e se estendem tão longe que ninguém pode prever seu término; sou do parecer que não se trata de uma ilha, mas de uma vastíssima terra firme(1)), detém-se a considerar a origem do seu prenome. Com suspeitosa naturalidade comenta: a extravagância dos Vespucci manifestou-se de modo ingênuo, por exemplo nos nomes de batismo dado aos descendentes varões. O pai de Amerigo se chamou Anastásio(2), nome extinto ou pelo menos raríssimo desde há séculos na Europa Central. O filho recebe o de Almerigo, italianização do germânico Almerico, também fora de uso desde tempo imemorial. O tom casual da referência sugere aquiescência unânime quanto ao nome, ou pelo menos à divulgação do fato, que torna desnecessário outros testemunhos. O pressuposto permite que encerre o assunto no parágrafo seguinte afirmando: E nada tem de ilógico que o geógrafo alemão Waldseemüller proponha aos cientistas de sua época se dê à nova terra do Ocidente o nome de batismo de Vespucci: América, isto é, a terra de Amerigo.

Uslar-Pietri, por sua vez, comenta o fato da seguinte forma: Martin Waldseemüller  necessitava um nome para acompanhar o da Europa, da Ásia, da África, e como quem o havia revelado a Europa era Amérigo, pensou que podia chamar a esse continente com o nome desse personagem. Considerou denominá-lo Amérigen, mas achou que os nomes dos continentes eram femininos e se decidiu por América. […] Assim, Amérigo veio a ter, sem sabê-lo, o dom supremo dos deuses, o de dar vida e destino através da palavra que nomeia. 

Inútil citar outros textos que divulguem tal versão, esta é a verdade oficial. Há, entretanto, autores que a põem em dúvida, se não a refutam categoricamente.     

Ricardo Palma cita as Cartas de Índias, documento publicado em Madri em 1877. Diz ele:

Trata-se de provar que a voz América é exclusivamente americana e não um derivado do prenome do piloto maior de Índias Albérico Vespuccio. […] América, ou Americ é nome de lugar na Nicarágua e designa uma cadeia de montanhas na província de Chontales. A terminação ic (ica, ique, ico, quando castelhanizada) encontra-se freqüentemente nos nomes de lugares nas línguas e dialetos indígenas da América Central e das Antilhas. Parece que significa grande, elevado, proeminente,  e se aplica aos cimos montanhosos não vulcânicos.

[…] Quando em 1522 publicou-se na Basiléia a primeira carta marítima com o nome de América província, Colombo e os seus principais companheiros já haviam morrido.

[…] Também é possível presumir que este nome de América tenha ido se espalhando pouco a pouco até se generalizar na Europa, e que não se conhecendo outra relação impressa descritiva dessas regiões, que a de Albericus Vespuccius, publicada em latim em 1505 e em alemão em 1506 e 1508, acreditassem ver no prenome Albericus a origem, um tanto alterada, do nome da América.

Na Europa, América não era nome de batismo de homem ou mulher, e chamando-se Vespuccio Albérico, fica claro que se fosse ele a dar nome ao Novo Mundo, este deveria ter-se chamado Alberícia, por exemplo, e não América.

         Segundo o historiador visconde de Santarém, o florentino Vespuccio veio pela primeira vez ao Novo Mundo em 1499, na expedição de Cabral, e a descrição que escreveu destas regiões foi publicada por Waldseemuller, em Lorena em 1508. Foi Waldseemuller então que teve a injustificável idéia de sobrepor o nome do descritor ao do descobridor.

         Quem era, afinal, este Vepuccio? Albérico ou Albérigo – não Amérigo nem Almerigo –  Vespuccio nasceu em Florença em 18 de março de 1452;  até 1496 foi diretor do escritório bancário dos Medici em Sevilha. Faleceu nesta cidade em 1512. 

O historiador Francisco de Arce diz: Foi simples desenhista a serviço de Juan de la Cosa, piloto de Santonha e, aproveitando-se da exagerada modéstia – muito própria da raça – do piloto de la Cosa, assinou as cópias que fazia dos seus mapas, acabando por se apropriar delas, assim como das observações e narrações de viagens do seu patrão, e talvez das de outros navegantes hoje esquecidos.

         […] A idéia de dar o nome de América ao então chamado Novo Mundo, deve-se à proposta do cosmógrafo Martin Waltzemüller, em sua obra Cosmographie Introductio (Saint-Dié, 25 de abril de 1507), e aceita tacitamente por geógrafos e historiadores contemporâneos.

         O tempo fez esquecer estes detalhes, e os partidários e discípulos do florentino Albérigo Vespuccio batizam-no Américo, pela assinatura de alguns dos seus mapas, apócrifos, como temos dito, trouxeram o erro muito divulgado de que América deve seu nome ao cartógrafo Vespuccio.   

E o continente, mais uma vez, teve o seu nome espoliado.

Inversamente, porém com as mesmas intenções dos antigos romanos, o habitante das ex-colônias britânicas na América se apropria, em pleno século XIX (1845-48), de territórios do México como já havia feito com o nome do continente para se identificar como nação. Para compensar, um século mais tarde Hollywood, localizada em ex-território mexicano (Los Angeles, Califórnia) criará o latin lover, encarnado, segundo acreditamos, primeiro pelo italiano Rodolfo Valentino e depois pelo mexicano César Romero (3),  entre outros.

O latino hoje ainda fala castelhano e português, o americano,  inglês, por assim dizer.  No Brasil, a língua portuguesa está sendo substituída paulatinamente por um dialeto composto de inglês ignorado com português esquecido, devidamente complementado por uma gestualidade simiótica (sic). Dia chegará em que falaremos uma mixórdia incompreensível, a julgar pela contaminação das culturas praticada pelos meios de comunicação de massa. A tal de globalização. O latino agora tem  o tipo físico do  maputche, do tcharrua, do quéchua, do aimará, do maia… E às vezes é congo, mandinga, carabali. O americano é loiro. Operou-se a substituição de identidade sem prejuízos para o dominador de turno, pois é ele o administrador da língua.

Concluindo: aceitar nossa latinidade é admitir a necessidade, no século XXI, do xerife convocar os cruzados para defender nossa (!) ideologia, nosso (!) mercado e nossos (!) hábitos de consumo do fanatismo da raça portadora de turbante, alfanje de plástico e bactérias.

_____________________________________

1 – Provavelmente o autor alemão se refere ao seguinte trecho da Mundus Novus, pretensa carta de Vespuccio a Lorenzo de Medici em 1503 (?): Lá aquela terra soubemos não ser ilha mas continente, porque em longuíssimas praias se estende não circundantes a ela e de infinitos habitantes está repleta. Cumpre salientar que não se tem notícia do original deste documento.

 

2- Por respeito às fontes, mantemos as divergências de datas e grafias dos nomes próprios.

 

3- O nome  espelha o texto: césar, este cargo sintetiza Roma; Romero (romeiro) é quem vai a Roma.

 

Bibliografia:

Rojas, Ricardo; Eurindia, Editorial  Losada, Buenos Aires, 1951

Herrmann, Paul, Historia de los descubrimientos geográficos, vol. 2; Editorial Labor, Barcelona, 1967.

Vespuccio, Américo (sic) Novo Mundo, Cartas de viagens e descobertas; L&PM, Porto Alegre, 1984

Uslar-Pietri, Arturo, Valores Humanos, Vol. 2; Editorial Mediterraneo, Madrid, 1976.

Palma, Ricardo, Tradiciones Peruanas, Ediciones Troquel, Buenos Aires, 1959.

Arce, Francisco de, El nombre de América, in América y el viejo mundo; Librería El Ateneo, Buenos Aires, 1942.

Esta rua não devia se chamar Mário Quintana – poema de solivan brugnara

Esta rua não devia se chamar Mario Quintana

 

Não gosto do sabor insosso

das linhas retas.

Um poeta não devia nomear

uma rua reta.

A rua Mario Quintana não devia ser reta,

devia ter joelhos,

dobrar esquinas,

passar por um barbeiro e livrarias,

por uma árvore centenária,

por um bar,

cruzar uma praça,

 desorganizar o retilíneo das homenagens.

                       Uma rota de pássaros migratórios, sim

                         poderia se chamar Mario Quintana.

 

1968: PARTIDÃO versus FOQUISMO por manoel de andrade

                          

3ª/4ª parte:  Partidão versus Foquismo

 

                                                    O ano de 1968 tinha ainda pela frente um longo percurso assinalado pela importância dos fatos políticos que marcavam sua excepcionalidade  na recente história do Brasil e do Mundo. Entre nós, brasileiros, o que estava por trás desses dos fatos foi, em grande parte, a decisão das esquerdas de se armarem e saírem para o confronto direto com a Ditadura. Cada vez mais afastadas do Partido Comunista (PC) e ideologicamente divididas entre Moscou e Pequim, elas perceberam que todos os caminhos das lutas de liberação nacional começavam e terminavam no próprio território latino-americano. As trincheiras dessa luta foram escavadas pelo continente inteiro. Começaram no extremo sul, em 63, com os Tupamaros uruguaios, e com o peruano Hugo Blanco, que em maio daquele ano caiu no vale do Cuzco. Em 65,  Héctor Béjar rompe com o PC e retoma a guerrilha peruana. Essa imensa trincheira abre, ainda em 65, novos sulcos  pelas mãos dadas dos socialistas e comunistas chilenos em torno do MIR. Na mesma época o venezuelano Douglas Bravo, expulso do Partido Comunista, definia o conceito de Revolução Bolivariana dentro da estratégia guerrilheira com o apoio de Fidel Castro. Em 15 de fevereiro de 65 o padre Camilo Torres morre em combate à frente do Exército de Libertação Nacional na Colômbia. Em 66 o Comandante Turcios Lima comandava a luta feroz contra o Exército e os grandes latifúndios na Guatemala. Em 67, a Frente Sandinista de Libertação Nacional decide declarar a guerra revolucionária contra a somozismo, na Nicarágua e naquele ano a bandeira cravada em Ñancahuazú por Che Guevara e a simbologia gloriosa de sua morte em combate são os traços indeléveis de uma paisagem revolucionária que, iluminada pelas luzes ofuscantes do Caribe, iriam agora abrir suas trincheiras na esquerda urbana do Brasil. 

          A luta armada:
          No começo de 68 se discutia muito por aqui o livro “Revolução na Revolução” de Regis Debray.  Publicado em inícios de 67, em Cuba, numa edição de 200 mil cópias, a obra se espalhou pela América Latina e os primeiros exemplares que chegaram ao Brasil foram enviados pelos nossos exilados de 64, do Chile. Debray, que em meados da década de 60 estivera observando a guerrilha venezuelana comandada por Douglas Bravo, — onde conheceu sua mulher, a então guerrilheira  e hoje  antropóloga Elisabeth Burgos, tristemente célebre pela falsa biografia que escreveu sobre a gualtemateca Rigoberta Manchú, Nobel da paz de 1998 — foi colher os  subsídios para o seu livro, na experiência cubana em Sierra Maestra. O disputado livro “Revolução na Revolução”,escrito pelo intelectual francês aos 26 anos, propunha a Teoria do “foco guerrilheiro” , baseado num “foco militar rural” como a melhor  estratégia para se iniciar a vanguarda da luta revolucionária e a tomada posterior do poder pelas massas.
          Neste sentido, e pela sua importância nessa cronologia, é sintomático dizer que em janeiro daquele ano, — apesar da malograda aventura armada de Jefferson Cardin, no noroeste do Rio Grande do Sul, em 65 e do fiasco da guerrilha brizolista de Caparaó, abortada em abril de 67 —,  o Partido Comunista do Brasil (PC do B) , começava a montar sua base guerrilheira na margem esquerda do Rio Araguaia, e por aquelas matas  já transitavam  meia dúzia de seus quadros disfarçados. Entre eles, o “Osvaldão”, o Maurício Grabois e o grande João Amazonas. Por outro lado a Ação Libertadora Nacional (ALN), de Carlos Marighella, —  que após participar da reunião da OLAS em meados de 67 , em Cuba, rompera com o Partidão— buscou seus próprios caminhos e tomou a dianteira, “na ação e na vanguarda” fazendo sua primeira “expropriação” a um carro pagador em novembro de 67 e em março de 68 explodindo uma bomba no consulado americano em São Paulo. Em junho a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), formada de uma dissidência radical da Política Operária (POLOP) e dos remanescentes brizolistas do MNR,   explode uma bomba no Quartel General do II Exército. Em julho, o Comando de Libertação Nacional (COLINA), também uma dissidência da POLOC (?), faz uma equivocada execução política no Rio de Janeiro confundindo o major alemão Edward von Westernhagen,  com o major boliviano Gary Prado, tido como o matador de Che Guevara.  Em agosto a ALN faz uma nova “expropriação” ao vagão pagador do trem Santos-Jundiaí. Entre muitas outras ações realizadas em 68 por comandos revolucionários, destaca-se o julgamento e a execução pela VPR do capitão americano  Charles Chandler, no mês de outubro em São Paulo, tido, pela organização, como agente da CIA e torturador de vietcongues, no Vietnã. Assim as organizações de esquerda tomaram a ofensiva na luta revolucionária tanto nas ações com objetivos logísticos para a compra de arma e de apoio aos seus quadros  clandestinos, como nessas discutíveis execuções, ações de caráter político retaliatórias que não tiveram os efeitos publicitários que buscavam. Os seqüestros, contudo, que tiveram início em setembro de 69 com o embaixador Elbrick, eram ações políticas inteligentes e justificáveis para libertar prisioneiros barbaramente torturados. Neste sentido a conotação que o Regime  dava para o termo terrorismo ao referir-se às ações políticas de sobrevivência da esquerda revolucionária era um eufemismo se comparada com os planos diabólicos da Ditadura. O caso Para-Sar, em 68, já prenunciava o que seria a dimensão da tortura e das execuções, com requintes de crueldade,  perpetradas  pelos  órgãos de segurança em todo o país.

.         Outras bandeiras de luta:
          No amplo contexto deste enfrentamento com a Ditadura muitas outras bandeiras foram levantadas. No plano sindical a mobilização popular começa a mostrar a sua cara em abril de 68 com a greve de Contagem, em Minas Gerais e em maio em São Bernardo do Campo. O grande destaque, contudo, foi dado pela greve de 1º de maio em Osasco, que mobilizou operários, camponeses, estudantes e intelectuais. Os metalúrgicos tomaram a fabrica que depois foi invadida pelo exército e os trabalhadores presos.
          No plano cultural, a partir de julho o alvo da Ditadura passa a ser a atividade teatral, ainda traumatizada com o desmantelamento, em 64, do Centro Popular de Cultura (CPC). O questionamento político, através da dramaturgia se recuperava gradativamente.  Lembro-me que, em meados de 65,  assisti aqui em Curitiba a peça “Liberdade, Liberdade”. Escrita por Millôr Fernandes e montada pelo grupo Opinião, sob a direção de Flávio Rangel, o espetáculo era protagonizado por Paulo Autrán e Tereza Raquel. Com ela se inaugura o teatro de resistência, dramatizando um apanhado de textos retirados da Literatura universal sobre o tema Liberdade onde os atores representavam uma postura explícita de enfrentamento com a Ditadura.
          Assim, nessa linha  de questionamentos o cinema empunha também sua bandeira ideológica e o filme “Terra em Transe” de Glauber Rocha, propõe, hipoteticamente, as duas saídas para a tomada do poder: ou pela lenta organização política das massas, proposta pelo Partidão ou através da luta armada, segundo a Teoria do Foco. Já o propósito do teatro era despertar, a qualquer preço, a consciência política da platéia, como fizera, com irreverente dramaticidade, na apresentação de Roda Viva, em São Paulo. No ritmo dessa saudável disputa, a musica popular deixou um rastro de luminosa  beleza nas composições de Chico Buarque e sobretudo de Geraldo Vandré, com quem a nação inteira cantou  “Caminhando” e “Pra não dizer que não falei de flores”. A nota dissonante nesse engajamento foi dada pelos efeitos anarquistas, e da nascente alti-cultura que os versos de Allen Ginsberg e a prosa rebelde  de Jack Kerouac, — os pais intelectuais da Beat Generation — por certo deixaram em parte daquela geração musical, levando a consciência política da juventude de 68, a proibir, com suas vaias, no festival da canção, a música  “É proibido proibir”, de Caetano Veloso.

A reação do regime a todo este desafiante fenômeno cultural começa em julho com a participação do CCC (Comando de Caça aos Comunistas) depredando o teatro e espancando os atores da peça Roda-viva  em São Paulo. Posteriormente houve o atentado à peça O burguês fidalgo e a explosão do Teatro Opinião, no Rio. Em outubro, um comando de oficiais do Centro de Informações do Exército lançam uma bomba na Editora Civilização Brasileira, dirigida por Ênio Silveira, e que naquele ano publicava  um livro por dia, com ênfase para grandes escritores de esquerda como Nelson Werneck Sodré, Hélio Jaguaribe, Isaac Deutscher, George Lukács,  Antônio Gramsci, e outros, cujas obras  — para ficarmos apenas nas editadas pela Civilização  — estiveram na formação da cultura política de toda uma geração.

          O Ato Institucional nº 5:
          Naqueles 2 de setembro, logo após a pancadaria, invasão e prisão de estudantes na Universidade de Brasília pela P.M. e pelo DOPS, o deputado carioca Marcio Moreira Alves, fazendo coro com outros parlamentares, denunciou com veemência, no Congresso, a verdadeira operação de guerra usada contra os universitários. Convocou, com seu discurso, os brasileiros a não participar dos festejos de 7 de setembro como um “boicote ao militarismo” e, num rasgo extravagante de eloqüência perguntou:  Até quando o Exército será o valhacouto de torturadores?.  A frase que passou quase despercebida pelos seus pares e não teve nenhum destaque da imprensa nacional, provocou, posteriormente, profundos ressentimentos entre os militares. A partir daí começou a fermentar aquele prato cheio que os radicais do Regime estavam esperando como pretexto para oficializar a repressão. Enfim, a despeito da sua boa intenção, o seu discurso gerou o mais grave fato político de 68 e a maior crise institucional na história da Ditadura.  Mas quem era afinal o pivô  da crise que levou ao AI-5? Marcio Moreira Alves, descendente dos Mello Franco, fizera brilhante carreira como jornalista do Correio da Manhã, trincheira ideológica de onde se esgrimiam contra o Regime Militar os afiados artigos de Paulo Francis,  Otto Maria Carpeaux, Antônio Callado, Carlos Heitor Cony, Hermano Alves e dele próprio. Em 66 publicou o livro Torturas e Torturados, denunciando, com farta documentação, as torturas e as inomináveis injustiças que se cometeram nos primeiros meses após o golpe de 64.
Com base na ofensa que o discurso de Marcio causara nas Formas Armadas, forças estranhas e inconfessáveis passaram a atuar para precipitar a radicalização do Regime. À medida que o ano terminava se fechava o cerco sobre o próprio Congresso, e por trás desse impasse estava o Ministro da Justiça, Gama e Silva – que, embora não atuasse à sombra do poder, pelos seus insidiosos conselhos ao Presidente Costa e Silva, era a  eminência parda do Regime, na época.
E assim, em fins de novembro, o pedido para condenar Marcio, já passara pelo Supremo, mas encontrava a resistência dos próprios parlamentares governistas na Comissão de Constituição e Justiça. No dia 10 de dezembro o insuspeitável deputado governista Djalma Marinho, presidente daquela Comissão e amigo leal de Costa e Silva, vai à tribuna, renuncia à presidência e, em seu discurso, citando Calderón de la Barca, diz com todas as letras: “Ao rei, tudo; menos a honra”. Este foi um dos raros gestos de honra política na nossa história  parlamentar  —  numa época ainda sem fisiologismo, pró-labore mensal e varejo do voto — e o aval que muitos deputados da Arena precisavam para  derrotar o próprio governo. Na tarde de 12 de dezembro o pedido foi negado por ampla maioria e, no dia seguinte, uma sexta-feira 13 de um ano bisexto, foi promulgado o Ato Institucional nº 5.

           A Repressão:
          O AI-5 levou à prisão centenas de pessoas no país inteiro. Políticos como JK e Carlos Lacerda; juristas como Heleno Fragoso e Sobral Pinto, preso em Goiânia, aos 75 anos de idade; intelectuais como Antônio Callado, Ênio Silveira,  Paulo Francis, Carlos Heitor Cony, Glauber Rocha, Millôr Fernandes,  e muitos outros.
Aqui no Paraná, e particularmente em Curitiba, não foi diferente. O Coronel Bianco  pôs todo o seu pessoal na rua em busca dos subversivos. O golpe, no golpe, quatro dias depois, atingiu em cheio uma reunião regional da UNE, realizada na chamada Chácara do Alemão, no bairro Boqueirão, em 17 de dezembro. Foram presos 42 estudantes e entre eles o cearense João de Paula, um sobrevivente da UNE que não foi a Ibiúna. Caíram também Berto Luiz Curvo, presidente da União Paranaense de Estudantes (UPE), Vitório Sorotiuk, presidente do  Diretório Central dos Estudantes(DCE), João Bonifácio Cabral Junior, do Diretório de Direito da PUC, e outros dirigentes.  Todos foram condenados pela Auditoria da 5ª Região Militar, a 2 e 4 anos de prisão.
Entre os militantes um dos primeiros a cair foi Aluísio Palmar, do MR-8, que em 2005 publicou o livro “Onde foi que vocês enterraram nossos mortos” , relatando o trágico destino que teve o grupo guerrilheiro de Onofre Pinto, traído e executado ao entrar em Foz do Iguaçu, em 1974. Oriundo do primeiro MR-8, de Niterói, Aluizio desmobilizava as bases da organização no Oeste do Paraná, quando foi preso em abril de 69. Depois dele caíram mais quatro na região e os demais em Curitiba e no Rio.
 Enfim, por aqui  foi um corre-corre geral. O autor destas linhas deixou o país em março de 69. Seu poema “Saudação a Che Guevara”, pregando a luta armada e panfletado antes do AI-5, foi parar no DOPS, nas mãos do Coronel Bianco. Ninguém mais sabia de ninguém. Os que não foram presos, se esconderam ou fugiram. Daquela turma de Curitiba  muitos nos reencontraríamos anos depois e longe daqui. Só fui rever o Vitório Sorotiuk e o Luiz Felipe Ribeiro, companheiros de Direito da Federal, no Chile socialista de Salvador Allende, em abril de 72,  naquela bela Santiago, florida de revolucionários.

          O AI-5 sufocou os últimos suspiros da democracia. Fechou o Congresso, rasgou a Constituição, amordaçou a imprensa, suspendeu o hábeas corpus, cassou políticos, demitiu funcionários, transferiu e reformou militares, foi enchendo as prisões e abrindo os caminhos do anonimato, os becos da cladestinidade e a via crucis da perseguição, da incomunicabilidade, da tortura, do desaparecimento e da morte. Fora deste contexto a vida do povo corria normalmente. Sem uma visão crítica do processo histórico tudo fluía sem maiores questionamentos. “A massa não pensa” como dizia Gustave Le Bon. Estávamos às vésperas do carnaval de 69,  a Copa de 70 estava a caminho e a televisão se instalando no país. Cada cidadão tinha o seu dia-a-dia: alienado ou engajado. Era, por outro lado, também tudo aquilo que Jamil Snege retratou no seu grande livro “Tempo Sujo” publicado naquele ano. Quarenta anos depois, muitos de nós que testemunhamos tantos fatos, podemos afirmar que 1968 foi o ano que tatuou nossas almas com as tintas luminosas da paixão revolucionária e com as cicatrizes indeléveis da perplexidade, do pânico e do sofrimento. Hoje aqui viemos, alegres por podermos partilhar nossas lembranças, por ainda preservarmos nossos sonhos e estender, com estas palavras, nossas mãos solidárias aos sobreviventes de tantas trincheiras. Mas estamos aqui, também e sobretudo, para rogar a um poder maior que leve para além das fronteiras do encanto o nosso imperecível reconhecimento àqueles que nunca hesitaram em comprometer seus passos, àqueles que nos ensinaram a dizer sim-sim e não-não. Aqueles que rumaram para as estrelas para semear o amanhã. Aqueles cuja bandeira tremula nos punhos da pátria agradecida e a quem o próprio Che nos ensinou a dizer: hasta siempre.

 

LUIS CARLOS PRESTES secretário geral do PARTIDÃO (PCB), e o livro foquista de régis debray. fotos sem crédito. ilustração do site.

 

 

1ª/4ª parte: A sexta-feira sangrenta – publicada aqui:

https://palavrastodaspalavras.wordpress.com/2008/04/29/1968-a-sexta-feira-sangrenta-por-manoel-de-andrade/

2ª/4ª parte: A Passeata dos Cem Mil – publicada aqui:  

https://palavrastodaspalavras.wordpress.com/2008/05/05/1968-a-passeata-dos-cem-mil-por-manoel-de-andrade/

 

4ª/4ª parte:  As barricadas que abalaram o Mundo – publicada aqui:

https://palavrastodaspalavras.wordpress.com/2008/05/29/as-barricadas-que-abalaram-o-mundo-por-manoel-de-andrade/

DIREITOS EM CONTRASTES poema de marcelo santos costa

Fique triste é um direito seu
falte ao trabalho
perca o controle e xingue a mãe alheia
grite da janela do carro em movimento
ignore o que não acrescentar nada
escute o que for destrutivo
seja bom , seja mau
dê lugar aos idosos
e negue à mulheres grávidas
admire os marginais
desgoste os militares
quem te deixou? ame-o
quem amou? deixe-o
faça cagadas na vida
tente, bata a cabeça, seja desobediente
teimoso, imprevisível e eclético
diferencie-se é um direito seu
Seja quadrado e circule no lugar-comum
compreenda para discordar
imcompreenda para concordar
arrote seu nome,
cuspa no chão
e reclame com quem joga papel de bala
proteja os animais e vá a churrascaria
seja contraditório e
não ouça conselhos (nem estes)
é um direito seu.

 

RUMOREJANDO por josé zokner (juca)

PEQUENAS CONSTATAÇÕES, NA FALTA DE MAIORES.

Constatação I

Tinha um nariz abismal

Olhar sobrenatural

Vestia-se como no carnaval

Pressão arterial

Elevada, descomunal.

Tratava a todos mal.

Afinal,

Quem era o boçal?

O gerente da sessão de pessoal.

Constatação II

Rico determina; pobre, solicita.

Constatação III

Deu na mídia no dia 6 de dezembro de 2006: “LONDRES – Cerca de 2% dos adultos mais ricos do planeta possuem mais da metade da riqueza mundial, segundo um relatório da ONU divulgado em Londres, que reflete a grande disparidade entre ricos e pobres.

A América do Norte detém 34% da riqueza mundial; a Europa, 30%; a área Ásia-Pacífico rica, 24%; a América Latina e o Caribe, 4%; o resto da Ásia-Pacífico, 3%; a China também 3%; e a África e a Índia, 1% cada um”.

Quanto ao Brasil, relatório do Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas (PNUD) mostra que o nosso país ocupa apenas o 69° lugar no índice de desenvolvimento humano. A Noruega ocupa o 1º lugar. Data vênia, como diriam nossos juristas, mas Rumorejando já chegou a conclusão que a Lei do nefasto Mercado, a globalização nela atrelada e outros que tais cria essa Lei da Selva, a execrável lei do mais forte, e que esses relatórios todos se omitem de acrescentar viva “nóis”.

Constatação IV

Deu na mídia: “BRASÍLIA – O senador Jefferson Péres (PDT-AM) disse que o ministro Marco Aurélio Mello tem razão quando aponta a vantagem dos parlamentares em relação aos vencimentos que ele recebe no Supremo Tribunal Federal (STF)”, se referindo a verba indenizatória de mais R$15 mil que os parlamentares recebem”. Com relação a diferença entre ambos os salários e o salário mínimo não se ouviu nenhuma referência. Pelo menos até agora…

Constatação V

E como se lamentava, queixoso, aquele cidadão: “Esse vagabundo do meu cunhado, além de não trabalhar, vive mordendo a irmã para descolar um trocado. Morando, por instâncias insistentes da minha mulher em casa, ele come como um rei e dorme profundamente a sesta, como a irmã quando tá fazendo amor comigo. Que família!

Constatação VII

Rico admite; pobre, confessa.

Constatação VIII

Não se pode confundir dantes, que quer dizer antes, antigamente, com dentes, muito embora dantes a gente tivesse medo de ir ao dentista para tratar os dentes e agora a gente tem receio. Isso quando não tem pavor, trauma, paúra e outros epítetos, nomenclaturas, cognomes, etc. A recíproca ainda está sendo averiguada a sua existência ou não. Tão logo tenhamos a informação, por sinal de transcendental importância para o futuro da Humanidade, daremos a conhecer aos nossos prezados leitores. Aguardem, pois.

Constatação IX (Passível de mal-entendido, via pseudo-haicai).

O Papa, qual ditador, jamais

Dispôs-se a cingir-se

Aos pontos cardeais.

Constatação X

Rico desfruta a vida; pobre, sobrevive.

Constatação XI (De conselhos úteis).

Cuide para que a tua neurose não coincida com a neurose da tua companheira, pois, como é por demais sabido em matemática e eletricidade, pólos do mesmo sinal se repelem, além do perigo de curto-circuito. Cultive, pois, o uso de outras distintas. De nada!

Constatação XII (Recado gratuito aos jovens).

Livro não morde. Podem pegar pra ler.

Constatação XIII

Quando o obcecado leu: “Mídia francesa pede a Sarkozy para se comportar com a rainha” disse lá com os seus própios botões e fechos eclair: “Esse presidente francês é um obcecado mesmo”.

Constatação XIV

Aviso: Restam poucos dias para outros tantos…

Constatação XV (Quadrinha para ser recitada para o teu chefe de quem está a fim de pedir aumento do salário).

Juntei uns poucos trocados

Para minhas férias desfrutar

Elas se limitaram a dois bem-casados

Que foi tudo que deu pra pagar.

Constatação XVI (Quadrinha para ser recitada para os noivos que vêm te convidar para padrinho de seu – deles – casamento).

Quem tá pra casar

Sem ser afetuoso

É o mesmo que andar

Num caminho sinuoso.

Constatação XVII Quadrinha intitulada “Efeito colateral”, para ser lida pra quem defende intransigentemente a alopatia).

Ela gesticula

Sem nada dizer.

A “ameaça” na bula

Havia acabado de ler.

Constatação XVIII

Reconheci minha firma

Quando escrevi que a amava

Ela respondeu:

“Isso nada confirma.

Não sou tua marionete.

Você já escreveu

Pra outras sete.

E eu sou a oitava”.

E-mail: josezokner@rimasprimas.com.br

 

SINGELA HOMENAGEM À MÃE por jaciara carneiro

Após jantarmos, ela entoa a cantilena comum às visitas que me faz:
– Comprei mamão, laranja e manga. Você tem que comer frutas.
– Não gosto de frutas que lambuzam. A manga eu até como, mas depois de picar todinha e guardar na geladeira. O mamão tem caroço, dá trabalho pra cortar e eu tenho preguiça. Pode levar o mamão com você.

Na manhã seguinte, saio pro trabalho. No começo da tarde, ela pega o ônibus de volta pra casa.

Dia cheio, tarefas canalhas. Saio do escritório, passo na padaria, chego em casa. Abro a geladeira pra guardar algumas compras. E ali vejo um prato cheio de mamão picado, encimado por uma laranja caprichosamente descascada.

Então descubro que até um prato de mamão picado e uma laranja descascada podem ser uma prova de amor materno. E também podem fazer chorar.
 

AH! SE EU PUDESSE… autor não identificado

Se eu pudesse viver novamente a minha vida,
na próxima trataria de cometer mais erros.
Não tentaria ser tão perfeito, relaxaria mais.
Seria mais tolo ainda do que tenho sido;
na verdade, bem poucas pessoas levariam a sério.
Seria menos higiênico. Correria mais riscos,
viajaria mais, contemplaria mais entardeceres,
subiria mais montanhas, nadaria mais rios.
Iria a mais lugares onde nunca fui,
tomaria mais sorvete e menos lentilha,
teria mais problemas reais e menos imaginários.
Eu fui uma dessas pessoas que viveu
sensata e produtivamente cada minuto da sua vida.
Claro que tive momentos de alegria.
Mas, se pudesse voltar a viver,
trataria de ter somente bons momentos.
Porque, se não sabem, disso é feito a vida:
só de momentos – não perca-os agora.
Eu era um desses que nunca ia a parte alguma
sem um termômetro, uma bolsa de água quente,
um guarda-chuva e um pára-quedas;
se voltasse a viver, viajaria mais leve.
Se eu pudesse voltar a viver,
começaria a andar descalço no começo da primavera
e continuaria assim até o fim do outono.
Daria mais voltas na minha rua,
contemplaria mais amanheceres
e brincaria com mais crianças,
se tivesse outra vez uma vida pela frente.
Mas, já viram, tenho 85 anos
e sei que estou morrendo.


A VERDADEIRA HISTÓRIA DO HOMEM PÚBICO – por alceu sperança

Havia um país em que as pessoas eram inocentes. Não havia maldade. Inexistia a aids e ninguém sabia para que serviam as partes. Os homens púbicos andavam sempre à vontade, pois não precisavam de roupas. Não esfriava, o El Niño era só o nenê de um vizinho paraguaio e assim os homens púbicos podiam passear inocentes por onde bem entendessem.

Mas sobreveio uma granizada ventosa e todo mundo sentiu aquilo ficar roxo de frio e os homens púbicos pela primeira vez sentiram vergonha. O vendaval traria a notícia de que no dia 3 ou 4 de outubro viriam as ereções. As ereções serviriam para que os homens púbicos subissem na sociedade.

Daí que depois das ereções os homens púbicos se tornariam só homens. E aqueles homens púbicos que desprezavam as ereções e só começaram a pensar em eleições se tornaram homens públicos e não pararam mais de infernizar a vida da gente até hoje.

Daí porque a bruxa Roxa, a suposta autora dessa história, filosofa com seus caldeirões e suas poções:

– Essa modernidade toda que taí só deu em mutretas e auditorias. Nós precisamos, mesmo, é de mais ereções.

 

CINCO HAICAIS de leonardo meimes

O Bêbado

 

Puro o alambique,

Trança as pernas e diz feliz:

Sabe que te amo, né?

 

 

O Marido (2)

 

A dúvida cruel é:

Fartura, ou qualidade?

Amante ou esposa?

 

O Aluno Realizado

 

Tinha vinte piá lá

Na sala e só euzinho vi

A calcinha dela…

 

O Sortudo

 

No aniversário da

Maria além de beijo, ganhou

O primeiro bolo.

 

O Íntimo

 

A plumagem macia e

O curvilíneo sabor da

Fruta da época

 

TERCETOS, NADA MAIS QUE TERCETOS por joão batista do lago

Aviso aos “haicaístas” de plantão: os versos abaixo não são, em hipóteses quaisquer, Haicai. Segundo a minha concepção são (e nada mais do que isso são) tercetos que fazem parte de um estudo poético que desenvolvo. Nestes tercetos introduzo práxis técnica e metodológica “metricamente” diferentes e contrários àqueles que são utilizados pelo haicai, ou seja, a construção do haicai compõe-se de três versos de dezessete sílabas: o primeiro e o terceiro versos são de cinco sílabas; o segundo de sete. Já nos tercetos que componho o primeiro e o terceiro versos são de sete sílabas e o segundo de cinco sílabas.

Outro aspecto que considero relevante destacar, para delimitar definitivamente a diferença dos tercetos que construo, reside no seguinte fato: o haicai, genericamente, deve concentrar pensamento poético e/ou filosófico inspirado nas mudanças que o ciclo das estações provoca no mundo concreto. Já os “meus” tercetos concentram pensamentos variados (p. ex.: filosofia, economia, sociologia, sociedade e comportamento social, religião, etc.) oriundos da concretitude do concreto da realidade, do real, da infra-estrutura (a partir de conceito filosófico marxista oriundo do “new criticism” da Escola de Frankfurt).

Para, além disso, devo destacar outro ponto que me distancia definitivamente da corrente haicaísta vernacular (até porque só entendo o haicai estruturado a partir da essencialidade vernáculo-epigramático japonês): cada vez mais a minha poética torna-se ôntico-ontológica e caminha no, assim, sentido de se amalgamar no conceito do Surracionalismo bachelardiano, sobretudo quando infere: “O exterior e o interior formam uma dialética de esquartejamento, e a geometria evidente dessa dialética nos cega tão logo a introduzimos em âmbitos metafóricos. Ela tem a nitidez crucial do ‘sim’ e do ‘não’, que tudo decide. Fazemos dela, sem o percebermos, uma base de imagem que comandam todos os pensamentos do positivo e do negativo. Os lógicos traçam círculos que se superpõem ou se excluem, e logo todas as suas regras se tornam claras. O filósofo, com o interior e o exterior, pensa o ser e o não-ser (o caso da ”minha” poética, especificamente). A metafísica mais profunda está assim enraizada numa geometria implícita, numa geometria que – queiram ou não – especializa o pensamento; se o metafísico não desenhasse, seria capaz de pensar? O aberto e o fechado são metáforas que se liga a tudo, até aos sistemas” – Gaston Bachelard in A Poética do Espaço, pp. 215 e 216.

 

* * * * *

 

I

 

Como macho repetem

Elas são assim:

Feministas, competem.

 

II

 

O capital confesso:

Homem é peça.

O mercado professa.

 

III

 

Amor só é ilusão

Reduz todo ser

À miserável prisão

 

IV

 

O cigarro vem antes

O uísque depois

Amor de um não é dois

 

V

 

A vida: só um sonho

Simples ilusão

Espera nela ponho

 

VI

 

No amor a dominação

Plena sujeição!

No processo: produção

 

VII

 

Cantai à felicidade

Diz o profeta

Imita assim ao poeta

 

VIII

 

A palavra na arte

Lavra amor e dor

Colhe o fruto sofredor

 

IX

 

Fé remove montanha

Demove do homem

Fortaleza tamanha

 

X

 

Quem canta, males espanta!

Cantai aos prantos

Desespero vos encanta

 

XI

 

A paz da guerra salva

A guerra acalma

Todo poder sem alma

 

XII

 

Visitai sempre a alma

Ela é só calma

Na diversa confusão

 

XII

 

Corpo reflexo: tempo.

Mente reflete

Toda morte presente

 

REFLEXO poema de deborah o’lins de barros

Ninguém gosta do espelho.

Em frente a eles nos vemos…

 

É na frente do espelho que

A mulher quase magra

Admira tristemente

As celulites não admitidas

E as insulta,

Como se a própria mulher

Não tivesse parte nisso.

 

É na frente do espelho que

O velho quase brocha

Raciocina friamente

Que a gostosa com quem dorme

É uma prostituta,

E não são seus lindos olhos azuis

Que a mantém perto dele.

 

É na frente do espelho que

O juiz quase honesto

Se envergonha inconscientemente

Das atrocidades absolvidas

E as ignora,

Se enganando que no juízo final

Outro juiz o julgará inocente.

 

Ninguém gosta do espelho…

Em frente a eles nos vemos.

E quando vemos que estamos com defeito

Fechamos os olhos imediatamente.

Nos envergonhamos,

Nos insultamos,

Nos avacalhamos,

Depois esquecemos, abrimos os olhos

E seguimos em frente.

 

SOBRE A POESIA – poema de marilda confortin

Mandado de busca e apreensão contra a Poesia.

Procurem nos seguintes locais:

 

No calo dos dedos dos músicos,

No quadro negro das escolas,

No fascínio quântico dos físicos,

Na placa do cego que esmola.

 

Procurem nos diários e discos rígidos,

Nos papiros, nas lápides dos túmulos,

Nas paredes dos banheiros públicos,

Nas gavetas e nos grafites dos muros.

 

Procurem nas pedras das cavernas,

Nos evangelhos apócrifos e escrituras,

Nos templos, conventos e tabernas,

Nas democracias e nas ditaduras

 

Procurem nas ruas e nos parreirais,

Nos campos de girassóis maduros,

Nos tercetos modernos e haicais,

No passado, presente e no futuro.

 

Procurem nos álbuns de fotografias,

Nos bares, museus, sebos e alcorões,

E por último, revirem todas as livrarias,

Costumam escondê-la nos porões.

ZERO OITOCENTOS (CENÁRIO DO ABSURDO) por helena sut

“Transação não autorizada.”

“Como? Tenta de novo.”

A caixa passou novamente o cartão, fitou a compradora com um olhar perdido entre o cansaço e a desconfiança, e repetiu: “Não autorizada”.

“A senhora pagou o cartão? Extrapolou o limite? Tem certeza de que a fatura…?”

A compradora pediu um telefone para entrar em contato com a central de atendimentos do banco. Apesar de todas as perguntas e dos olhares, ela estava calma, pensando que poderia se tratar de uma forma de segurança, um mal-entendido, uma poeira na tarja do cartão…

Depois de muitos dígitos, um atendente informou que a transação havia sido autorizada às 17:42:29 e que já iria constar da próxima fatura. A informação foi repassada para o vendedor, a caixa e o gerente, mas não tinha como superar o “não autorizado” do visor e a ausência de qualquer documento que assegurasse a compra. Ainda calma, a compradora pediu que fosse estornado o valor de sua fatura, mas o atendente falou que só seria possível com uma declaração, em papel timbrado da sede da loja no interior de São Paulo, com firma reconhecida, carimbos e outras formalidades, atestando que a venda fora cancelada.

“Impossível! Como cancelar uma compra que não foi realizada.” O gerente descartou a possibilidade, o vendedor repetiu, a caixa bocejou entediada…

Mas o atendente da central continuava com a voz equilibrada e com a posição firme “transação autorizada, já debitada na próxima fatura”. Não mostrou cansaço, mas jogou a bola pra frente quando forneceu outros zero oitocentos. O gerente e o vendedor se reuniram e ligaram para o telefone da central do cartão. Durante a ligação olharam para a compradora que se agitava em movimentos ansiosos. Desligaram com a afirmação: “Não foi autorizada pela instituição financeira. Motivo 5. A senhora está com problemas com o cartão.”

Se havia algum problema, era evidente que estava entre o banco e a administradora do cartão de crédito. A compradora ainda tentou mais uma vez falar com a central de atendimentos do banco, mas foi nocauteada pelas afirmações pausadas do atendente.

“Transação autorizada. Constará da próxima fatura. A senhora retira a mercadoria.”

A situação já havia perdido os limites com a razão. Como um processo kafkaniano,desdobrava-se em afirmações absurdas, olhares acusatórios e silêncios sentenciosos. O vendedor, o gerente e a caixa estavam impacientes. Já estavam cerrando as portas da loja, a venda não estava efetuada e a mulher ainda queria sobrecarregá-los com seus problemas.

“É só pegar a mercadoria. A transação foi autorizada…”

A compradora, com os olhos arregalados e a voz inconstante, mostrava sinais de estar perdendo o controle.

“Como? No tapa? Não há documento algum de compra… Eu vi no visor que a transação não fora autorizada!”

O atendente não perdeu a calma.

“A senhora que sabe como vai pegar a mercadoria… Se o estabelecimento continuar se recusando, entre no PROCON para ir atrás dos seus direitos.”

Outras ligações se sucederam e as informações contraditórias inflamavam os olhares desconfiados dos lojistas. Sem tempo para reverter a situação, com o horário comercial dos bancos e da loja expirado, a suposta compradora se rendeu ao absurdo. Saiu das lojas com as mãos vazias e com os pensamentos carregados com uma dívida que se tornou realidade na virtualidade dos sistemas. Deixou para o dia seguinte a continuidade das ligações sem solução.

Por quantos zero oitocentos deveria passar até ver o seu constrangimento sanado?

FUGA PICTÓRICA OPUS 2002 – 2 / poema de tonicato miranda

para Guilherme Magalhães Vaz

14 de Março de 2002

 

 

Coltrane, sempre ele, pinga notas na minha alma

você não conhece Curitiba, nem eu tão pouco

a cidade já me habitou como caranguejo na lama

da mesma forma como Brasília, quando era só poeira

quando a solidão das pessoas, nadava no jazz e na beira

das janelas, onde jovens de apartamento bebiam Coltrane

 

elas bebiam e cresciam em John, lançando-se à calma

janelas afora, no tapete voador da pauta do músico rouco

Brasília era assim, mais perplexidade do que trauma

cidade onde o pontilhado de um Equinox era mugido de boi

ruminante longe do sertão, próximo do que para Picasso foi

o touro, os chifres, os seios e para mim os acordes do Coltrane

 

o fraseado deixa-me triste, preso às linhas da mão na palma

solto num sertão de recordações, nas tardes de ventos loucos

onde acordes como pulsos, salpicavam-me como napalm

enquanto Vietnams sangravam pessoas, florestas e fogueiras

A morte e as guerras, tão distantes estavam das mangueiras

o último acorde do sax, mais do que música era puro Coltrane

 

morrer na lembrança todos morrem um pouco, que nos diga a Salma

vizinha do paraíso plantado no solo de um terreno, de pouco em pouco,

frases musicais volteiam-me, apalpam a alma, viram-na e salgam-na

Lembranças do Lago Norte, daquela casa, do pé de Guabirovu

das árvores plantadas no pé da minha janela e do meu olho nu

e My favourite things trina no sax passarinho, do bico de Coltrane.

 

HOMENS ATÔMICOS poema de sergio bitencourt

“HOMENS ATÔMICOS

 UNIDADES LATENTES
 ATÔNITOS VIVENTES 
 
 DANÇA ÁTOMO
 DANÇA HOMEM
 DANÇA VERSO
 DANÇA UNIVERSO
 
 DANÇA…”

POEMETO do ARREPENDIMENTO – de ubirajara passos

Não. Não é possível que a vida se me esvaia
Sem ter jamais ao campo de batalha
Arrojado-me, sequer, a perseguir ideais;
E, derrotado sem luta e sem vontade,
Veja cair-me uma a uma as máscaras
De que cobri, em atroz engano, a face,
Vivendo a iludir-me e ao mundo
Na promessa vã, hipócrita, infinda
De principiar a grandiosa jornada;
A transformar-me a vida em imensa farsa
.

 

OLAVO TENORIO hoje no BRDE

 

OLAVO TENÓRIO

 

A. H. Fuerstenthal

Consultor em Ciências Comportamentais

 

 

 

Este artista é um mestre de formas. Seja num móbile, num corpo de luz, numa composição de estruturas contrastantes, na simbolização de um animal, num broche, num desenho, numa pintura ou em outra coisa que ainda não fez, mas certamente fará, ele se destaca pela originalidade, pela inspiração, pela simplicidade e pela espontaneidade estética.

 

O que impressiona em Olavo é a ausência de comprometimento. É moderno só no sentido de não seguir nenhum estilo historicamente marcado: não é gótico, nem barroco, nem renascentista e muito menos expressionista ou impressionista. O seu estilo pode ser chamado de “musical”, uma vez que cada uma das suas figurações toca o espectador como se fosse um som, ou, melhor, uma harmonia que agrada os sentidos sem que se saiba exatamente o porquê.

 

Outro traço característico do Olavo é a “unidade”. A obra e a pessoa são uma e a mesma coisa, tendo a mesma elegância genuína, o mesmo alongamento, a mesma sinuosidade e significação.

 

E não é só isso. A unificação estende-se também ao meio em que vive e cria este artista. O Olavo expressa o melhor do Brasil, suas danças, seus cantos, seus sorrisos, seus abraços e sua gentileza que atrai os visitantes, apesar de desavenças sociais, desordem e insegurança.

 

Olavo tem a resposta certa para todos aqueles embaraços do meio tropical: pega a madeira, o metal, o acrílico, o cristal e raios de luz para criar um mundo de pequenos milagres, capazes de dar à pessoa sensível um impacto de beleza em plena existência cotidiana.

 

 

“O VAMPIRO” e “A SURPRESA” mini contos de raimundo rolim

O vampiro

 

O vampiro do arraial era esquisito o suficiente para não ser levado muito a sério. Todos os habitantes o sabiam propenso ao sanguessuguismo deslavado e desmedido. Ao menos achavam que era isso. Ele o era, porém não!  Alguns o justificavam mais por pena que por precisão. Dizia-se à boca miúda, que ele, o vampiro, vivia ali há séculos e mais alguns anos e que simplesmente recusava-se a abandonar a – digamos – “casca” – que escondia com altivez sombria sob um puidíssimo e paupérrimo manto negro. Um dente em cima, o outro ficava em baixo, de lado, quase atrás. Era cômico e algo idiota. Corcunda. O peso da idade o deixara com seqüelas seriíssimas. Arrastava-se inteiro para andar e embora ainda o fizesse na vertical, ia assim, meio adernado para um lado. Era corajoso, isso ninguém o negava. Cabelos ele ainda os possuía, aos tufos, longos e amassados; jamais o vento bulia-os, (imexíveis que eram). Os olhos de um vermelho azinavrado, dependuravam-se nas órbitas desmesuradas e escuras. As mãos eram indecifráveis posto que translúcidas e esqueléticas. Não sabiam ao certo como vivia aquele homem, já que nunca o viram mastigar ou ruminar, nem pensamentos.  Alguns disputavam que o mesmo vivia de ar. Outros que não; que os o espíritos dos antepassados vampiros o alimentava. Havia total desconhecimento. Com ninguém ele falava e nem coisa com coisa. Lendas diziam que lá, naquele lugar, habitavam outros iguais a ele e que eram invisíveis e eram esses tais que o encorajava a continuar, transferindo-lhe todo o know-how de que carecia para sobreviver séculos seculorum. Oras! Como aquele pobre diabo poderia ser um vampiro? O habitante mais antigo já lhe sabia as façanhas e que a tal criatura lá existia desde sempre, quando chegaram as primeiras caravanas a tomar posse de terras. Por mais que o seguissem, jamais descobriram onde o mesmo morava. Pois em dado momento, ele desaparecia e no outro canto do arraial, lá estava ele, sem nunca se cansar! Nem arfar! Mas, por que então o chamavam vampiro? Ninguém o sabia, assim chamavam e assim ficou! Mesmo com sol a pino ele perambulava e isto o diferenciava muito mais, até em demasia! Dizia-se que um marceneiro havia confeccionado ardilosos crucifixos e afiadas estacas de madeira e os deitava ao longo do caminho, mas que na hora agá, o vampiro desviava-se como que teleguiado. As crianças tinham certo cuidado e recomendações paternas especiais, para que jamais se deixassem ficar em rota de colisão com aquele azarento, que a bem da verdade, a ninguém incomodava, (o que tirava das autoridades o direito de perturbá-lo ou exigir-lhe pagamento de impostos ou coisas do gênero). Aquilo tudo seguiria sem fim, não fosse um belo dia, o gaguinho local, entre um soluço e outro, ter conseguido finalmente articular palavras (e falava num e só fôlego para não patinar nas letras) e disse que vira finalmente a criatura extrair de um frasco, uma substância que carregava num alforje dependurado na altura das costas e que levara a mão à boca e que engolira sem mastigar. E que o odor característico que sentira, assemelhava-se a um tempero bem conhecido. Alho, alho, alho, (repetia sôfrego e sem parar o gaguinho), alho puro! O vampiro encara alho ! Disse esta última lasca de frase e voltou a gaguejar imediatamente. Oras! E daí? Era a sua única ração (do vampiro)! A sua última razão (do vampiro). Era ele um vampiro à moda da casa! E daí? O vampiro encara alho! E daí?

 

 

 

A surpresa

 

A noiva da cidade, já entrada em anos, era das cercanias o folclore. Excursões eram organizadas para que conhecessem a dita cuja. Fugira-lhe de há muito a beleza, assim como todo e qualquer atrativo que fizesse homem com pingo de juízo, se aproximar. Não mais existia a graça, o esplendor. Sepultados estavam o brilho e os traços de delicadeza. Não havia expressão naquele corpo por baixo do eterno vestido (da qual a mesma não se livrava nem para os banhos, e havia muitos que apostavam que ela nunca mais os tomara), desde que fora deixada na porta da capela pelo noivo – um vaqueiro desalmado – num domingo de sol, sem piedade nem consideração. O véu, a grinalda, a guirlanda… (como ela chamava aquilo), enfeitada de flores de plástico, tão antinaturais que já beiravam a comicidade pura e simples. De algumas das flores, restavam apenas a haste torta e pardacenta, com o arame à mostra. Ainda assim, ela os acomodava com certa vaidade, no alto da cabeça, bem como todo o seu vestuário, transformado em andrajos, que a rigor, já nem trajava nem desnudava. Era um misto de ser e não ser, o princípio da contradição estabelecido numa única e singular pessoa. Um mistério, um milagre! O pároco local já tentara com água benta e modos medievos exorcizar o que quer que fosse que tomava o lugar daquele cérebro, e óbvio, nada acontecia! Era ela inexpugnável ! Carregava ainda nas mãos sempre trêmulas, o mesmo buquê que não jogara para trás, por cima da cabeça, para que outras casadoiras o pegassem. Era tudo dela. Vivia assim, sem denodo nem pecado. Juravam que ela não mais tinha alma, nem espírito nem sangue, nem princípio e nem fim. E claro, era um desafio para a inteligência mais aguçada e a ciência da psicologia e parapsicologia se desfiguraria nos seus postulados mais elementares se tentasse se inclinar sobre tudo aquilo do que se dizia sobre a noiva da cidade. Uns tinham vontade de jogar pedra, outros faziam o sinal da cruz à sua passagem. Risinhos e lágrimas se confundiam no rosto das pessoas que achavam ter o privilégio de vê-la passar pelas manhãs, aos domingos, como que a procura de algo que jamais se soube o que era. Ela, a noiva, a danada e sem banho, o sabia. Só ela. Ninguém a cumprimentava, mesmo porque, não havia retorno. Um dia, ela apareceu nua. Isto, nuazinha. Em pelo! Deslindara-se dos andrajos de nubente que a acompanhara desde o dia fatídico. Aí sim, o motivo de tanta estranheza fora imediatamente compreendido, e toda a cidade, toda, fez vários e muitos ohs !!! A noiva da cidade apiedara-se finalmente da curiosidade e angústia alheias e resolveu num último lampejo de serenidade dar-se a conhecer. Com um pequeníssimo pênis à mostra, que quase desaparecia entre tufos de pelos descolorados e ralos, desatou-se a rir. E riu-se, riu-se tanto que toda a cidade se pôs a rir. Até o sacristão, por não mais agüentar de tanto rir, foi tocar os sinos para aumentar o alarido. Era veramente ela, a noiva desapiedada, um “fofo” de colhões e espada. E assim cruzou a rua principal (sua via menos crucis) na mais espetacular procissão de uma só pessoa. Embrenhou-se na estrada de pó, assim, daquele jeito, puro e casto, a rir-se. Da cidade. De si !

 

CANÇÃO DA PRAIA poema de nelson padrella

Abertos os braços da alma, recebo-te em júbilo.

Somos um os dois, amante e noivo.

Ao teu encontro vou como à rocha o mar.

Espuma e véu e sal, azul e ar.

 

Correm cristais de luz por teus cabelos.

Voam em bandos sutis borboletas.

A solidão é assim o mar que bate

e regressa vencido para marrar outra vez.

 

Fecho os braços da alma em torno de mim.

Caem nuvens fechadas sobre o mar escuro.

Somos dois, agora, amante e noivo,

que se separam como o oceano inventa marés.

 

Na amplidão o gozo de saber-te luz,

os prazerosos ontens sepultados.

Cai uma chuva de pétalas de rosas

e eu mergulho no poço de rãs e musgos.

 

Há um prego na memória enferrujando datas.

Tesouros de desejos entre paixes náufragos.

Nada resta agora se é tudo só espaço,

apenas o espaço de uma praia esquecida.

PONTO DE VISTA por mônica caetano

SER. Sujeito da ação?
Homens.
Mulheres.
PESSOAS.

SOMOS SERES SOCIAIS DOTADOS DE SUBJETIVIDADE.
TEMOS, NO COTIDIANO, A EXPRESSÃO PLURAL DA SUBJETIVIDADE HUMANA.
SOMOS SERES SOCIAIS!!

A Lei coexiste na subjetividade.
As leis precisam acolher àqueles aos quais limitam.
São necessárias ao indivíduo enquanto norteadoras, mas, jamais podem levar à exclusão do SER!!

Povo Brasileiro,
a realidade vivida,
a expressão da verdade,
a manipulação instituída,
Angústia diária.
À margem da escolha alheia,
inexiste o Sujeito da Ação!!!
Carência de oportunidade em assumir-se a própria escolha.

“Não é preciso encontrar outros caminhos; precisa-se, sim, descobrir a nova forma de caminhar!
Aquela que ,efetivamente, realiza a mudança.”
Mudança,
Mudança de postura,
Mudança de compreensão e de dimensão na análise,
Mudança de “lugar”.
Posicionamento ativo, dinâmico, conjunto, participativo, engajador e construtivo para a evolução ,
abandonando definitivamente a mera repetição.

Precisamos assumir a fala original , abandonando as expressões segundas.
Resgatar a Fala autêntica!!!

A Democracia precisa que a autorizemos vir à Luz.
Nós, mães desta filha que não consegue nascer e agoniza já hoje dentro do ventre destes brasileiros que não encontram em si a possibilidade de autorizarem-se a dar à luz a esta filha singular e especial que é parte de seus pais e que não deve ocupar apenas uma lembrança de Desejo de existir!!!
Somos gestantes da FILHA Democracia, mas,

 precisamos autorizar-nos a deixá-la existir!

Permitamos que no resgate da fala autêntica coexistam o gênero, um ao outro complementariamente, sendo assim plenos de compreensão enquanto necessários a existência da Democracia!!!

 

MICHAEL LÖWI entrevistado por sandra silva

“Enterrar o marxismo é prematuro”

 

O cientista social Michael Löwy, que vive em Paris há 30 anos, veio ao Brasil para o lançamento de O Marxismo na América Latina, que foi organizado por ele. A publicação é da Editora Fundação Perseu Abramo. Mais do que um conjunto de textos com a antologia dessa corrente de pensamento desde 1909 até os dias atuais, Löwy quer mostrar que nem a Teologia da Libertação, nem o marxismo morreram na América Latina, apesar de o socialista lamentar a migração de marxistas para o neoliberalismo, como o ilustre presidente da República, Fernando Henrique Cardoso, que Löwy fez questão de citar.

 

A fundação do Partido dos Trabalhadores (PT) por exemplo, teve alguma inspiração marxista, segundo o cientista social. O Movimento dos Sem Terra (MST), que surgiu a partir das Pastorais da Terra – ligadas à Igreja Católica – também tem forte cunho socialista, por conta da influência da Teologia da Libertação, ou do cristianismo de libertação, como Löwy gosta de chamar o movimento.

 

O cientista recebeu o JORNAL DO BRASIL na casa de seus tios, que o hospedam em São Paulo. Apesar do frio, o cientista fez questão de sentar na varanda para aproveitar o sol da manhã de outono. Ele tem 61 anos, nasceu em São Paulo, e formou-se em Ciências Sociais na USP. Participou da fundação da organização Política Operária (Polop) e fez doutorado na Sorbonne, defendendo tese sobre o jovem Marx.

 

Löwy é autor de livros e artigos traduzidos em 22 idiomas. Atualmente, trabalha como diretor de pesquisas no Centre national de la Recherche Scientifique, em Paris, onde também faz parte do PT.

 

O senhor indentificou três fases do marxismo na América Latina. A revolucionária, a com fortes tendências stalinistas e uma terceira, também com vocação revolucionária. Pode-se afirmar que a última etapa é a de maior amadurecimento?
O primeiro período é o mais fértil, do ponto de vista intelectual. Porque nessa época é que aparece José Carlos Mariátegui, o pensador mais criativo do marxismo, mas que é pouco conhecido no Brasil. O último período não pode ser considerado como o mais maduro, porque havia uma espécie de ilusão na estratégia guerrilheira de que bastava simplesmente imitar os cubanos na revolução. Quase todos os países da América Latina fizeram isso, a própria tentativa de Che Guevara, na Bolívia, foi inspirada por essa idéia. Mas a revolução só deu certo em países com estrutura social semelhante a de Cuba, como a Nicarágua, com a revolução sandinista.

 

Por que a insurreição salvadorenha, em 1932, foi a única conduzida por comunistas na América Latina?
Nos anos 20, os partidos revolucionários ainda eram fracos, não tinham conseguido se desenvolver na maior parte dos países. Então, não havia condições para que um deles tivesse um papel dirigente em larga escala. A exceção mesmo foi em El Salvador, onde embora o partido também fosse recente, conseguiu ganhar uma base social ampla. O que ocorreu foi um verdadeiro levante de massas. Outra particularidade é que a Internacional Comunista não participou desse levante. Isso garantia maior liberdade às ações do partido comunista em El Salvador. Já quando Stalin assumiu o poder, houve a busca da aliança com a burguesia nacional, o que paralisou os partidos e burocratizou-os. A partir daí, nos anos 30, cada vez mais os partidos perderam seu papel revolucionário e começaram a fazer greves e a lutar por melhores condições de trabalho.

 

Durante a era stalinista houve a revolta dos militares em 1935, no Brasil. Como o senhor analisa isso?
O levante de 1935 foi um caso especial porque foi ambivalente, já que não havia uma base de massas populares. Uma das ilusões era a de que a burguesia apoiaria o movimento, que era centrado nos militares, com Carlos Prestes. Só no Nordeste, em Natal, houve participação popular, mas nada comparado com o que houve em El Salvador. Mas depois disso, não houve mais nada parecido porque o stalinismo realmente enquadrou os partidos.

 

O que faltou para que acontecesse uma revolução socialista mais amadurecida na América Latina?
Depois da revolução cubana houve uma efervescência social e política, mas a maior parte dos países não conseguiu organizar as classes subalternas. A militância ficou apenas entre intelectuais, estudantes e camponeses. Quem conseguiu realmente organizar os pobres foram os cristãos. A insurreição em El Salvador só deu certo porque havia o apoio cristão. Na Guatemala por exemplo, era o partido comunista quem dirigia a revolução, mas havia confiança total nas Forças Armadas. O PC achava que o exército daria as armas ao povo, mas os militares acabaram traindo a confiança dos comunistas, com a justificativa de que, na verdade, deveriam defender a pátria. Foi um erro trágico.

 

Pode-se falar na morte da Teologia da Libertação na América Latina, com o atual resgate do evangelismo e crescimento de igrejas pentecostais?
São prematuros os anúncios da morte da Teologia da Libertação, porque a terceira e quarta gerações que tiveram essa formação não vão recuar. A Teologia da Libertação continua para os cristãos, porque o muro da pobreza não caiu. Nos últimos 10 anos, cada vez que há um movimento social ou político na América Latina, você encontra forte presença da Teologia da Libertação, como no MST por exemplo. Seus dirigente vieram das comunidades de base, de pastorais da terra. Apesar disso, quiseram criar uma autonomia em relação à Igreja Católica. O movimento Zapatista, em Chiapas, também vem da conscientização das comunidades indígenas, que foi feita por Dom Samuel Ruiz. Os surtos evangélicos pentecostais que existem atualmente são apenas resultado da orientação conservadora do Vaticano, que combateu as comunidades de base e deu espaço para os carismáticos. Da mesma forma, é outro enterro prematuro o do marxismo. Quando houve a queda do muro de Berlim, muitos acharam que significaria também a queda do marxismo. Mas os sistemas em vigor na Tchecoslováquia e na URSS já eram uma caricatura burocrática do regime. A impulsão do marxismo não vinha daí há muito tempo. Mas quem se formou pelo modelo soviético ficou muito abalado. O que sobrou do Partido Comunista no Brasil não é muito brilhante. A queda do muro ocorreu bem em cima dos comunistas brasileiros. Quem conseguiu se desvincular e não tinha a China, nem a Albânia ou a URSS como modelo, continua ativo. Eu acho que o marxismo vai desenvolver-se, libertado do peso da história que foi o stanilismo. A própria fundação do PT teve alguma inspiração marxista.

 

O MST no Brasil tem vocação revolucionária?
Sua vocação revolucionária é a de realizar a reforma agrária. O que, no Brasil, é quase uma revolução, porque a classe dos latinfundiários controla há muitos séculos a terra. O MST é a ponta avançada de um movimento social contra o neoliberalismo.

 

E como o senhor analisa a situação do movimento sindical brasileiro, que tem sofrido com o desemprego e com a crise econômica?
É um momento muito difícil para o movimento sindical mundial, porque essa ofensiva neoliberal não é fácil de ser enfrentada. Mas é difícil separar a luta pelo emprego da batalha pelas outras conquistas trabalhistas. Na Europa está ficando cada vez mais claro que a manutenção do emprego passa pela redução da jornada. O próprio governo francês reduziu a jornada semanal para 35 horas. A lógica do desenvolvimento do capitalismo cada vez marginaliza a força de trabalho. Quanto mais o empresário elimina empregados, mais as cotações da empresa na bolsa sobem. O capitalismo acha que não precisa de mão-de-obra, algum dia a mão-de-obra vai chegar à conclusão de que não precisará do capitalismo. E não tem 35 saídas, a saída é o socialismo.

 

O que mudou em Cuba, desde a palavra de ordem “Wall Street dever ser destruída”, de Julio Antonio Mella, passando pela Revolução Cubana, até os dias de hoje?
Julio Antonio foi fundador do partido comunista. Mas com o stalinismo, o partido comunista cubano foi degradando-se. E não foi à toa que a Revolução Cubana não foi feita pelo partido, mas pelo movimento 26 de Julho. A Revolução Cubana foi a virada na história na América Latina. Até 1968, a revolução representou uma tentativa original de busca ao socialismo, com críticas ao modelo soviético. Mas a partir de 1968 houve uma adesão ao socialismo soviético, o que custou muito caro. Porque ocorreu a perda de autenticidade e substância democrática. Houve um processo de dependência político-ideológica e econômica muito grande da URSS. Hoje, lógico, há uma crise. Mas diferentemente do que aconteceu na Romênia, que caiu como um castelo de cartas quando o muro caiu, existe em Cuba um apoio da população. Cuba não quer voltar a ser um prostíbulo dos Estados Unidos, uma colônia americana. Hoje Fidel Castro tem uma saúde frágil, mas essa dependência excessiva de um líder é perigosa, tem de haver a substituição desse caudilho revolucionário por uma democracia socialista.

 

O POETA poema de mario oliveira

O Poeta.

O Poeta é um ser diferente,

O mundo do poeta é diferente do mundo da gente,

O poeta idealiza um mundo, venturoso e fecundo,

E vive lá para sempre.

 

Em versos forma palavra, em cada fala uma rima,

O Poeta sente o sabor em cada verso de amor.

Somente o poeta interpreta o esplendor da alma feminina,

 

O poeta é um criador, que sabe transformar em verso,

Das belezas do universo, faz um paraíso em flor,

O poeta anda sozinho recitando pelos caminhos,

Seus poemas de amor.

 

O Poeta é um construtor,

 De versos de amor e palavras bonitas,

Só ele no seu repente alegra a alma da gente,

Com palavras que nunca antes foram ditas.

 

 O Poeta dribla a tristeza em seu jeito de viver.

O poeta contempla a beleza onde outro olho não vê.

Somente o Poeta sabe o que lhe vai pela mente,

O Poeta sente saudade mesmo estando presente.

 

O homem necessita um castelo para sua propriedade,

Precisa muito poder para afagar sua vaidade

Para o Poeta o mundo é belo, tendo saúde e amizade,

Se contenta com os farelos da esperança e da saudade.

 

O Poeta mente para o seu coração,

Dizendo em sua imaginação, que todas as mulheres são suas,

Embora nem uma possa tê-la,

O poeta é apenas amigo da lua e namorado das estrelas.

 

 

ESCOMBROS poema de jorge barbosa filho

derrubo as paredes das palavras

para beber o ar e o sol

e tomar um porre com o tempo

sendo a fala a ginga

o vento olhar de farol

eu trago o sotaque

de todos os lugares

e de lugar nenhum

eu fumo os horizontes

e bato as cinzas

na língua das nuvens.

 

eu chovo, eu relampejo

inundo e fulmino

precipito rumo ao abismo

e meu verso é um risco

não começo, não acabo

desabo acima de tudo e de todos

se no meu verbo eu não caibo

não espero, não paro

meu poema é um grito

veloz de meus  remorsos

e para o nosso assombro

encontrei seus olhos perdidos

nestes escombros.

Pífio – monólogos dos psicotrópicos que não fazem mais efeito – por luiz felipe leprevost

Eu amava uma guria. Amava tanto que queria chegar na alma dela. Eu queria tocar a alma dela, apertar assim que nem as crianças fazem com os cãezinhos que ainda são filhotes. Eu queria pra mim aquela alma. Queria por na boca e deixar derreter que nem chocolate. Queria sentir o bafio de cada poro da sua pele. Acontece que a guria tava um pouco suja. Tinha que limpar ela. Então peguei minha escova de dente. E comecei a escovar a sujeira. Braços, costas, coxas, ventre, tudo. Até que ela ficou bem lisinha. Só que naquela lisura de mulher depilada pela Depil House não econtrei a alma dela. Continuei esfregando, sabia que a alma podia estar na pele, já que dali exalava um cheiro tão bom. Tão bom que só podia mesmo ser uma fragrância almal, que nem aquela perseguida pelo botânico de O Perfume. Mas acabou que constatei que não, a alma não estava em sua pele. Aquela menina já sem pêlo, aquela que não precisaria mais se depilar. Então continuei esfregando, esfregando, esfregando, até que cheguei na carne. Sim, ela estava em carne-viva. Aí achei que tava bom, porque todo  mundo sabe que o amor deixa a gente em carne viva. E que é deveras provável que a alma das mulheres se revele ali no sangue, na chaga, no fogo, na queimadura. Mas não era nada disso, droga, pura ilusão de românticos bobalhões. Por isso continuei esfregando, agora com mais afinco, ainda mais, digamos, obsessivo. Se até então não tinha encontrado a alma da minha guriazinha era porque a lazarenta se esconde lá no lugar mais entranhado do ser humano. E já que era daquele jeito, então que fosse daquele jeito. Que jeito? De jeito nenhum. Pois bem, vamos cair fundo, baibe, pensei. Foi o que pensei, embora já com poucas forças me restando. Eis que súbito me dei conta que só havia osso. (Sombrio) Osso, osso, osso e mais nada. Lá estava eu polindo a caveira da minha amada. E nem mesmo ali, nem na medula, nem nas costelas que outrora foram, talvez, as próprias costelas de Adão. Nem ali havia alma. O que fazer? Não havia outra alternativa, restava-me apenas prosseguir. E eu prossegui. Eu tinha que achar o que procurava. Então continuei obstinado a esfregar a escovinha de dente. Esfreguei, esfreguei, esfreguei, Deus sabe o quanto esfreguei. Até que os ossos foram ficando lisinhos, fininhos, foram se rompendo, quebrando, virando poeira… Poeira na brisa que parecia soprar: Nada… nada… naadaa… naaaad…

 

 

ENGANO, HORA POÉTICA, ERRO e OUTRA DÚVIDA poemas de eunice arruda

ENGANO

Não
isto ainda
não
é a
paz

É o silêncio da vida

 

 

 

 

HORA POÉTICA

Para esquecer esta
dor

– transformá-la em poesia

Para eternizar esta
dor

– transformá-la em poesia

 

 

 

 

 

ERRO

Edifiquei minha
casa sobre a
areia

Todo dia recomeço

 

 

 

 

OUTRA DÚVIDA

Não sei se é
amor

ou

minha vida que pede
socorro

 

SEGREDOS OCULTOS por elisa bastos

O homem ali parado observava o céu, a terra e o mar; queria saber onde eles se encontravam; percebeu que se uniam no horizonte do horizonte. È muito além do que os olhos humanos podem enxergar… ele, porém, era especial! não era um extraterrestre nem um anjo, era um ser humano normal apenas com uma deficiência visual.

 Desde pequeno não podia enxergar nada, por causa disso era excluído das brincadeiras, das conversas e não tinha amigos. Passaram-se os anos, ele tornou-se um homem esbelto e charmoso, muitas mulheres viviam a sonhar com ele.

 Apesar de não poder enxergar, podia ver com as mãos as curvas do corpo e do rosto das mulheres com as quais namorava, podia sentir o cheiro dos perfumes mais discretos, podia ouvir as vozes aveludadas e belas que as mulheres tinham, podia sentir o gosto da comida por mais fraca que fosse.

 Comigo não foi diferente  e acabei me apaixonando por ele; vivi muito tempo na ilusão de poder tê-lo, até que um dia essa ilusão se tornou realidade. Como muitos esperavam não vivemos felizes para sempre e sim o que tinha que durar, durante esse tempo fomos felizes.

 Ele morreu envenenado no dia 25/05/1935, foi horrível para mim e para todos que dele gostavam. Ninguém nunca descobriu quem o matou.

 

 

ETERNO poema de jb vidal

meu corpo no teu

acende a dúvida

 

ser ou estar

 

eu!? nós!?

gozo cósmico!?

 

prazer em deixar-me ir

onde estás ou sejas

 

sou inteiro em ti

 

estou metade

 

TECENDO ESTRELAS DE VAN GOGH poema de bárbara lia

 

 

Estrelas escorriam da tela,

na solidão do museu.

Aparei gotas de céu em minhas mãos.

Enovelei-as.

Possui por um tempo,

Estrelas abrasadas de loucura

e o azul mais azul que pode o azul ser.

 

 

Museu de Nova Iorque

em delírio.

Corre-corre. Alarmes. Vigias.

Não revistaram minhas mãos.

Um céu enovelado que me aquece

e apaga – primaveras sem teus beijos,

invernos de angústias.

 

 

Teci um manto azul

de estrelas emaranhadas,

um manto enfeitiçado.

Das estrelas da noite do artista.

Tenho mãos de fada.

e tenho tanto amor,

quanto estas estrelas deslumbradas.

 

 

Quando chegar aquele que amo.

Com seus olhos

que são para mim, música;

e para outros, mel.

Quando ultrapassar a escura porta

e se quedar no branco leito.

Eu o cobrirei com o céu.

 

CARNE TRÊMULA por frederico fullgraf

Um dia terá que confessar. Contar tudo a ela. Desconcertada, ela tenta acalmá-lo. Abraça-o, beija-o, aninha-o. Não sabe que na raíz do seu estremecimento está certa síndrome de placas tectônicas. Tenebroso tremor dos umbrais, capaz de empalidecer a carne, amarelar os heróis de Almodóvar; credor desta leviana licença poética.  Placas, o quê? Comovida, ela tenta se aproximar, pergunta que “visões” são aquelas. Não entende o extremismo dele, o salto para fora da cama. Depois brinca: vai ver, é encosto de vidas passadas… E sempre acontece em pleno êxtase. Mas só em apartamentos. Quanto mais alto o prédio, mais pavorosa a vertigem. Será rejeição? Sentindo-se culpada, ela ecoa, testa seu próprio hálito com a palma da mão aberta em concha à frente da boca – hálito que continua perfumado como todo seu corpo; quente, aconchegante. Ele a consola: nada a ver contigo, querida. E ela o recompensa, diz que ele foi “maravilhoso” (mal sabe ela daquele vai-e-vem!). Mas então, o que é? Vendo-o agora, pálido, estático, debaixo do caixilho da porta do quarto, lhe recomenda, já aflita, um telefonema para o terapeuta – e ele ali com a expressão dos possessos, carranca de Kaspar Hauser, os pés milimetricamente retraídos à soleira, a cabeça cuidadosamente protegida pelo vão; olhos esbugalhados fixando a janela!

 

Mergulhado em silêncio indecifrável, ele recolhe os fragmentos, encaixa os estilhaços, acomoda as sensações de sua carne estremecida, para tornar plausível aquele episódio inenarrável. Que na verdade dispensa terapeuta. Este, apenas irá divertir-se às suas custas, cobrar-lhe honorários por seus risinhos pudicos – que definhe em sua angústia Lacaniana!

 

Então refaz a viagem. Desembaraçado do controle de passaportes, arrastando a mala e buquê de flores em punho, alcançou o portão de chegada. Com muita apreensão. E naquele átimo que o separava do desejado abraço com ela, a “ex” (expressão que, verdade seja dita, soa sórdida, lembra veredicto de execução sumária), na tela da memória espocou em seqüência descontrolada aquele filme: fazia vinte e três anos que tinha levantado vôo de Santiago. Coração latejando na boca, pulmão esbraseado: em poucas horas estariam em seu encalço, atrás das trinta latas de filme não revelado em sua bagagem. Imagens proibidas, sobre a resistência contra o tirano. Filmadas à sorrelfa, driblando a mais feroz das ditaduras. Aquela espera pelo embarque, fora das mais excruciantes em sua vida. Por isso esperava enfrentar-se com seus fantasmas já acompanhado, cingido por ela.

 

Mas, que droga, onde ela se metera? O coração outra vez disparado. Daquela vez alvoroçado, agora, machucado: um dia inteiro em viagem, de escala em escala, de país em país – e ela não viera recebê-lo. De repente lembrou-se, ela era reincidente: já o tinha feito esperar hora e meia num bar. Sentiu nas estranhas um pequeno terremoto. Jogou as flores de ponta-cabeça numa lata de lixo e informou-se sobre os vôos de regresso ao Brasil. Para aquela mesma noite? Nenhum. Reservou um hotel por telefone e sentou-se para fumar um cigarro, já fazendo planos.

 

Surgindo do nada, vestida de preto e aflita, ela irrompeu no grande saguão. Já tinha perdido o bronzeado da Ilha do Mel, mas estava esbelta. Mantendo-se encoberto pela multidão, ele acompanhou os olhares desesperados dela à procura do seu; vingou-se, deixou-a sofrer. Só quando, já resignada, se preparava para fazer um telefonema, ele a chamou. E ali mesmo tiveram sua primeira briga. Tinha tomado o caminho errado para o aeroporto, ela mentiu, invertendo os papéis – mas, diabos!, quem ali era o estrangeiro desnorteado? Não me fales assim, sou pessoa pública, ela aprumou-se – e ele pensou que tinha desembarcado no aeroporto errado. Subiram ao carro dela. Na verdade ela se atrasara na casa de uma amiga (informação da mãe no primeiro telefone dele). Ele fumou mais dois cigarros com raiva e disparou: quem ama, chega adiantado ao aeroporto! (riu-se às escondidas, era frase com sonoridade de aforismo). No meio da estrada pediu para parar. Ela resistiu, chorou. Mas ele engoliu duas lágrimas secas para não vacilar, e seguiu de táxi. Naquela primeira noite se instalou num hotel. E ela lhe ligou dezessete vezes.

 

Domingo, céu de brigadeiro, chamejando com as cores da reconciliação, comeram um asado na casa do futuro sogro. Beberam vinho das boas cepas do Valle Central. Falaram abobrinhas, contaram piadas, buscaram alguma afinidade. Ela o apresentara como compañero, mas evitaram o passado; a prisão, as torturas, o exílio do pai e antigo colaborador do presidente caído em combate no Palácio da Moneda. Estranhamente, no brilho dos objetos e nas frestas entre as palavras ele percebeu a acomodação de um deslumbramento; inicialmente algo insondável, e depois mais e mais desvelado. Dinheiro. E enquanto ela cumpria seu protocolo de vereadora da capital do país, ele reencontrava-se com Santiago, a néscia, apressada, sufocada por chumbo e fumaça; a Cordilheira sangrando a neve com lágrimas de fuligem.

 

Quando ela finalmente se desvencilhou do cerimonial, escaparam para o norte, via Panamericana, onde os nativos parecem imitar os suíços, em obsessivo aproveitamento de cada nesga dos minúsculos vales férteis. Embrenharam-se no Valle del Elqui e embebedaram-se de pisco. Instalaram-se em Puerto Velero, recortado por azul veludínio.  Fartaram-se de polvos, lulas e peixes sirênicos das águas profundas. Amaram-se na banheira muito pequena para aquela luxúria sem tamanho, deitando água na sala, inundando a casa. A foto perfeita: ela riu de braços abertos, quando ele urrou, mergulhando nas águas geladas daquele mar do poente. E sentados na praia, na última noite tentaram socorrer-se de seus abalos sísmicos, contando as estrelas do poeta de Isla Negra, ancoradas sob o céu do Pacífico.

 

E então sobreveio aquele dia mal-nascido. Até a hora do almoço o país assistira atônito à domesticação da hiena, à investidura do ditador sanguinário no cargo de senador da República. Honraria vitalícia em desonra da Nação. O povo saiu às ruas. Calígula protegido pela guarda pretoriana: cerco, ameaças, soldados com os olhos colados na mira das armas. !Vayan-se todos! Indignação e asco, palavras e pedras. No meio da fúria, as mãos dele e dela perderam o toque. Reencontraram-se no apartamento dela, noite já alta.

 

Famélicos, deitaram-se e enrolaram-se na cortina de tisne que escondia a cidade. E quando seus corpos alagados já se confundiam, a cama começou a mover-se. Um misterioso ritmo, que não era deles, infiltrara-se. Agarrado ao silêncio, ele estancou seu movimento, e ela se enfureceu. Nela nenhum espasmo, nele apenas respiração contida. Fechou os olhos, creditando a estranha sensação à reverberação do dia já consumido. Subitamente sentiu mais que um tranco – era balanço. Olhou para a mulher a seu lado, com a expressão do prazer interrompido nos lábios: como é que te moves, se eu não te toco? Mas quando ergueu o olhar, pensou ver a cordilheira atravessando a janela, feito pêndulo. Não acreditou. Em pânico, acotovelou a mulher já adormecida: o prédio treme! Espreguiçando-se, ela desdenhou com desprezo mais que indolente: es apenas um tremorzito… Terremoto?! No, !tremorrr! Insultado pela escala Richter, cujas nuanças lhe pareciam cínicas, ele saltou da cama, bateu de frente com o guarda-roupa, reincorporando-se sem saber para onde correr. Ela instruiu-o desde a cama abandonada: não seja idiota! Mas já que você quer se salvar, o único lugar recomendado pelos sismólogos é o caixilho da porta. E enquanto refletia sobre a piada (de hilariante realismo), imaginando-se despencar do décimo quinto andar, emoldurado por uma porta que não o salvaria da desdita, no alto do 15º andar daquele prédio do bairro de Providencia, a cordilheira saudava sua carne trêmula com imperturbável vai-e-vem diante da janela.

 

RONALDINHO (O FENÔMENO) PEGA TODAS! comentário de diego ribeiro

Ronaldo já teve casos com muitas mulheres conhecidas e bonitas do meio artístico. Já foi dito até que ele poderia “pegar” muitas mulheres em decorrência da sua fama e fortuna. Mas atualmente ele não tem se dado bem com os casos que encontra pelo caminho.

É lamentável ver o fenômeno envolvido em mais uma polêmica. Ronaldinho foi um herói, exemplo e inspiração para muitas crianças e adolescentes que sonham com o mundo do futebol. Atualmente, além de viver se contundindo, ele é alvo de grandes polêmicas. Sua última manchete envolve três homossexuais.

Muitas pessoas já condenam a prostituição e outras muitas a homossexualidade. E o que falar desse episódio que envolve os dois temas? Se pararmos para analisar o caso, muitas perguntas surgirão. Será que Ronaldinho não sabia mesmo que se tratava de travestis? Será que realmente não aconteceu relação entre eles?

 Só não podemos ver um ídolo dessa magnitude fazendo uma bobeira dessas e pensar que isso agora é moda. Como já disse Arnaldo Jabor  “Antigamente a tendência homossexual era proibida no Brasil. Depois, passou a ser tolerada. Hoje é aceita como comportamento normal… Eu vou-me embora, antes que se torne obrigatório.”

A FANTÁSTICA FÁBULA DA HUMANIDADE resenha do filme por deborah o’lins de barros

 

Há duas versões cinematográficas do livro “A Fantástica Fábrica de Chocolates”, de Roald Dahl. E o engraçado é que o grande enfoque dos filmes não é Charlie, ou Wonka, ou mesmo os chocolates. A grande sacada são os problemas sociais da época. É uma história para crianças, mas a pessoa que teve idéia de fazer o livro virar filme era adulto, e sabia que eram os pais (gente grande) que iam levam os filhos (gente grande no futuro). Não riam. É sério.

 

Problemas. Como andava o mundo em 1971? Guerra no Vietnã, Guerra Fria, mísseis, terroristas, golpes, direita versus esquerda, Watergate… É, não mudou muita coisa. Mas o que havia em excesso: traição. Não que não haja hoje, mas era difícil confiar em alguém que podia vender informações à CIA e ir à lua antes de você. O dinheiro falava (e ainda fala) muito mais alto que o caráter. E ninguém queria ser paspalho e deixar que o DOPS (ou a Polícia do Pensamento – ops… livro errado!) acabasse com sua raça.

 

Hoje… Bem, hoje os dedos cruzados e o Habeas Corpus estão aí para provar que nada mudou. Mas o grande problema social dos nossos dias é a família. De tanto não confiar em ninguém, a geração de 70 criou a minha de uma forma que ela não tivesse vínculos. E para onde raios levaram a família? Para os diabos, ora! O maior exemplo disso sou eu: cadê o meu pai? Repare bem, as pessoas hoje moram sozinhas e, quando “casam” é com uns 30 anos ou mais. Para se separar em seguida.

 

Dessa forma, a história de Willy Wonka, ao ser contada e recontada sofre e, imagino eu, sofrerá sempre, ajustes para permanecer fiel ao seu tempo. É psicologia (poderia arriscar psicanálise?) pura. Se em 1971, Gene Wilder encontrou alguém honesto, em 2005 Johnny Depp procura (acho que sem saber, por estar dentro do paradigma) pela família, ou melhor, o significado de família. Aha! Matei a charada!

 

Sr. Wonka não quis crianças por pedofilia ou nada parecido. Quem pensar isso é o verdadeiro pedófilo. Crianças são o reflexo da geração anterior. Eu sou tudo o que a geração do Gabeira e do John Lennon conseguiu fazer e, espero sinceramente, que meus filhos e seus amiguinhos sejam coisa melhor. 

 

Só para fechar, um apelo: está mais ao nosso alcance resolver problemas recentes. Então, como dificilmente vamos acabar com a desonestidade, vamos ao menos evitar que as próximas gerações cheguem perto do “admirável mundo novo”, e acabem de vez com o conceito de família. E torço para que, em 2039, a terceira versão da “Fantástica Fábrica” enfoque, finalmente, a produção de chocolates.

 

 

 

ARROZ, FEIJÃO & PHILOSOFIA (completo) – por jairo pereira

 

 

 

 

 

Filósofo  é aquele cara que tem mania de criar conceitos. Gilles Deleuze e Félix Guattari, no livro O que é a filosofia? mostram que filósofo é o amigo do conceito, ou melhor, ele o próprio filósofo é o conceito em potência. Li pouco de história da filosofia. Lia os filósofos que iam aparecendo em minha vida, acidentalmente. Outros, de meu interesse, corria atrás até encontrar. Embora entenda ser importante a visão orgânica da filosofia, fixei-me com obsessão na teoria do conhecimento, aliás, utilíssima pra quem faz arte e literatura. O estalo, o lux, taí, na relação cognitiva: sujeito x objeto x prisma de análise, os condicionamentos do sujeito cognoscente, etc. Depois de tanto debater-me no processo do conhecimento, acabei pai de filosofia. Modestíssima a minha, só para o gasto, construída no quintal da casa, a protonathural, que carrego comigo sempre para onde vou e que apesar de séria, é motivo de riso para os outros. Li e confundi vários filósofos ao mesmo tempo. Pegava a monada no ar, e póft, a abatia a tiro, como um verdadeiro tiro ao pombo, ou tiro ao prato. Uma coisa sobre filosofia aprendi e isso digo de boca cheia: tem tudo a ver com samba e poesia. Não se aprende estudando sua história. Não se aprende nos templos afamados do saber. Não se aprende nos grandes museus e cemitérios de livros. Filósofo, é de nascer pronto. Ou mais certeiro: filósofo já nasce filósofo. Tem tino. Alto poder de abstração. Aquele olhar grave que estraga qualquer festa, como expressou Erasmo de Roterdã, no seu O elogio da loucura. Filósofo é deslocado. Distraidão. Só pega no tranco. Na fase oral, tem a estranha mania de morder os bicos dos seios da mãe e cuspir fora a chupeta de borracha.

 

Além, muito além de criar conceitos, ou sê-los, os conceitos em potência, filósofo é aquele cara que desde menino, não sabe brincar com as outras crianças. Tudo que faz dá errado. Não sabe ganhar dinheiro, namorar, atleticar. Filósofo, é acima de tudo indolente e reparador. Vejam que em reparador está praticamente a potência máxima do protofilósofo. Reparar é observar, criticando silenciosamente. Observar a vida. Observar as pessoas. Observar a nathureza. Observar, observar e observar. Contrastar, projetar, refazer in spiritus o contorno das coisas, seus núcleos complexos, entroplexos.

O olhar rastreador de quem repara as mínimas coisas, situações, projeções do outro no tempo, no espaço das mais diversas nathuras. A exemplo o filósofo que visita alguém e mede a condição social da família, se os filhos estudam, trabalham, o grau de conhecimento dos mesmos, as possibilidades reais do núcleo se expandir no tempo naquele contexto onde vivem, se há, haverão problemas familiares explícitos ou implícitos, tudo é medido milimetricamente pelo espírito invicto e silencioso do philósopho, como um aparelhinho positrônico que não foi inventado ainda, vocacionado ao registro minucioso da vida alheia de seu tempo e de seu espaço, além da própria (vida) em todas suas mazelas. Filósofo já sai pronto de forma. A ninguém se deu ou se dará o poder de fabricar filósofos. Convive o triste, com o são desequilíbrio construtivo, oscilando entre imanência e transcendência. Não adianta subir o longo calvário do conhecer histórico e canônico da velha filosofia, especialmente a ocidental, que é criação humana, racional e cerebrina, para tornar-se um dia filósofo, se não se detém o dom inato, de profunda observação dos fenômenos. Criar conceitos é apenas uma das faculdades com as quais os filósofos se armam. Além dessa muitas outras espocam, como estrelas, no céu da vida daquele pobre coitado que nasce com o mal grave da Triphistophilosophia. Primeiro: filósofo que é filósofo deve saber situar-se no tempo e no espaço. Impor-se pelo pensamento. Pensamento que deve trazer no mínimo, algo do seu próprio pensar. Pensar que não pode ser mera revista do que lera de outros filósofos ou veio a aprender em escola. Para tanto, filósofo deve trazer sempre sob as vestes, o opúsculo extraordinário de sua lavra. Um livreto qualquer de no mínimo vinte ou trinta laudas de um só-pensar-particular,  legítimo, autêntico, nem que seja no próprio equívoco desse seu detido pensar. Equívoco que poucos terão coragem de um dia em vida acusar ao nosso amigo filósofo. Lembrando que muitas grandes filosofias viveram apenas de uns poucos conceitos, não é preciso escrever muito para se conceber uma filosofia original. A obra realmente é de fundamental importância na vida do filósofo que se habilita. É de se compor o filósofo convicto, o seu pequeno livro, aberto aos espíritos, o livro que revele o pensar singularíssimo, de ser e estar no mundo entre as coisas. Tudo isso, que é quase-nada, fazer, sob pena de passar em branco, como uma traça tonta, a vagar, nas páginas do processo filosófico, sobre as sentenças (conceitos) dos outros.  Afluir, entre as antinomias: identidade e contradição, ser x não-ser, causa e efeito, sujeito x objeto, transcendência e imanência, presença x não-presença, essência e aparência, etc. Segundo: filósofo é de trazer claro no espírito sua visão do mundo e da nathureza como um todo, eis que como sujeito é objeto no social e como objeto é também sujeito que conhece e como pensador, é capaz de interferir na natura das relações, fixando em ato seu pensar das coisas, que não pode ficar meramente no plano do pensamento pelo pensamento, mas traduzir-se em ação, interferência transformadora. Pensar é revolucionar. O pensamento sim, aplicado em ato, um fazer sobre todas as coisas, subverte o real. Filósofo é de ter também finalidade. A mínima possível, por exemplo: mudar o mundo. Filósofo que é filósofo sabe disso. Mudar o mundo é fácil e deve ser feito no todo dia, no almoço com a família. No sofá, quando todos dormem, depois da meia-noite. Nesse horário é melhor, porque pessoas, ah pessoas, essas sempre vão querer evitá-lo nas suas longas preleções. Outra coisa: nunca participar de ideologias coletivas. Ter falsa consciência da realidade, em deliberando sozinho sobre o assento do vaso sanitário. Filósofo é de estar na rua, informadão. Transar com a semiótica. Antropologia. Arte. Poesia. Estar com canais de comunicação abertos. Holístico. Filósofo é de ser fogo. Filósofo é de ser gelo. Tudo deve saber. Com tudo deve interagir. E com nada ao mesmo tempo, retornando à origem, ao instinto primário de contemplação das estrelas. O ímpeto selvagem é que deve levar o filósofo em sua caminhada rumo a alguma coisa que pode ser a revelação da cósmica razão do existir. O conhecimento é um reflexo da nathureza no ser. A voz de Hegel, soando baixinho entre as árvores. A voz sisuda, autoritária, que ante todo o metafisismo, alerta sobre o não afastamento demasiado do filósofo da nathureza, onde encontram-se os objetos mais importantes da filosofia. Não adianta procurar lá longe o que está aqui tão perto de ti filósofo. O problema é você, a nathureza (objetos) e o conhecimento que se tira dali, das coisas mortas, das coisas vivas, das coisas que causam, das coisas que implicam, das coisas que serenam, do tempo, da história e do vento. Filósofo é mesmo conceituador. Mania de verbo ser, o é pra tudo quanto é coisa. Poesia é produto fenomênico do pensamento. Poesia é… O tempo é cíclico. A história é repetitiva. Tudo é e deve ser  para o filósofo impetuoso, aquele que arrisca tudo no saber, como os suicidas no morrer. Sofro delírios de silogismos no de vezenquando, o que revela em mim índole conceituadora, coisa de filósofo, além do que recebo estrelas no sótão depois da meia-noite, não namoro, perco botões das camisas à toa, metafisico (do recém-criado verbo metafisicar) sob as tempestades, peripatético, com conta estourada no banco. De quebra, ainda sou fanático por linguagem. Outra afecção má do espírito, já convulso de filosofia. Imaginar na hora do lanche,  a composição de obras futuras, almejadas, tais como: A razão absolutória dos males do espírito ou Da atração da inteligência pelo mórbido. Boa parte da vida entregue às conjeturas, o quem sou? de onde venho? para onde vou? por quê? pra quem? como? Sempre um fio invisível enredando teu corpo, teu espírito de filósofo na hermética teia da aranha absoluta. Enredando. Desafiando. Que é pra se perquirir. Que é pra se engendrar pelo cognocer elevado. Que é pra repercutir verdades transfinitas. Que é pra subverter o real e o certo. Que é pra… Arroz, feijão e filosofia, é de se pôr na mesa todo dia. Filosofia a louca preciosa. A  insubordinada que atenta contra as profissões contemporâneas, eis que convida ao ócio criativo e resgata a reflexão questionadora. Filosofia a desordeira. A santa. A obstinada. A traiçoeira, que mata de mentirinha a vida, antes da vida nascer. A que das perguntas faz respostas e das respostas, faz propriamente filosofia.

 

Antes que me caia uma tartaruga na cabeça, derrubada por alguma águia distraída. Antes que me caia um balde de tinta de cima da escada de frente à loja. Antes de tudo, que o filósofo que é filósofo se perca e se reencontre na vida e no pensamento, a fim de haurir do nada que é tudo uma razão feliz, de muito amor e elocubração para a vida presente e futura.

 

 

 

 

 

 

 

iAiRo pEreIrA

 

Autor de O antilugar de poesia, O abduzido

e outros.

1968 – A PASSEATA DOS CEM MIL – por manoel de andrade

2ª/4ª parte: A Passeata dos Cem Mil   

 

           

A estratégica aparição daquele estudante de 23 anos provocou uma apoteose de gritos e palmas na imensa multidão que, por volta do meio-dia, ocupava inteiramente a Praça Floriano Peixoto, na Cinelândia.. O presidente da UME, Vladimir Palmeira, disfarçado pelo penteado, barba feita, terno e gravata,  subiu as escadarias da Assembléia Legislativa,  e com alguns gestos interrompeu as palmas, pediu silêncio e que todos se sentassem e,  em seguida, começou o seu primeiro discurso do dia dizendo:

 

Pessoal, a gente é a favor da violência quando ela é aplicada para fins maiores. No momento, ninguém deve usar a força contra a Policia, pois a violência é própria das autoridades, que tentam por todos os meios calar a voz do povo. Somos a favor da violência quando, através de um processo longo, chegar a hora de pegar nas armas. Aí, nem a policia, nem qualquer outra força repressiva da ditadura, poderá deter o avanço do povo.

 

          Enquanto os discursos se sucederam mais e mais populares iam se juntando à concentração. De todas as partes chegavam comitivas de estudantes com faixas e bandeiras. Emissários e “batedores” saíam e chegavam com notícias sobre a segurança do percurso da passeata prestes a começar. Por trás de toda essa organização estavam os estudantes Franklin Martins e Marcos Medeiros, comandando outras  lideranças estudantis encarregadas de controlar todos que participavam do ato, evitando, com isso, qualquer incidente com pessoas infiltradas. No final dos discursos Vladimir Palmeira tira o paletó, afrouxa a gravata e retoma a palavra para dizer:

 

Nós queremos os cadáveres dos estudantes que foram mortos durante as últimas manifestações. Todos viram seus corpos, ao vivo e nos jornais, e não é possível que o governador e as outras forças repressivas continuem a esconder os seus corpos para iludir a população.

 

          Seu discurso foi interrompido pelo ronco ensurdecedor dos aviões da FAB que  passavam em vôo rasante em franca provocação. Com isso terminaram os discursos e começou a passeata. A multidão comandada pelos estudantes e de mãos dadas, seguiu ordeira e alegre para a Avenida Rio Branco, cujo trânsito havia sido interditado pelas autoridades. As grandes lideranças estudantis do país estavam ali representadas por Luís Travassos, e José Roberto Arantes, respectivamente presidente e vice-presidente  da UNE.

          Pela grande avenida desfilava uma massa humana sempre mais engrossada pelo imenso fluxo de pessoas que vinham da Cinelândia. Como ao longo de todo percurso houve provocações de agentes do DOPS e de policiais, os líderes estudantis tiveram o cuidado de reiterar aos manifestantes que mantivessem a calma e a vigilância. Aquela inacreditável massa humana penetrou pela tarde atravessando o centro do Rio num gesto grandioso de indignação, mas sobretudo  de esperança no retorno ao estado democrático de direito.

          Quando chegou à Candelária, Vladimir subiu na capota de um carro e disse:

 

Este lugar tem um significado muito grande para nós. Na missa de Édson, foi aqui que fomos violentamente reprimidos. Hoje o panorama é diferente. Prova de que a potencialidade de luta popular é maior do que as forças da repressão. Hoje damos uma demonstração de força e de fraqueza ao mesmo tempo. Temos força para retomar a praça, mas ainda não podemos tomar o poder que eles usurparam.

 

          Naquele longo percurso que se entende desde a Candelária até à  Rua Uruguaiana,  toda a Avenida Presidente Vargas  foi ocupada  pela imensa multidão em movimento.

Elio Gaspari, referindo-se ao fato na sua  “Ditadura Envergonhada”, descreve:

 

Olhada, a passeata era uma festa. Manifestação de gente alegre, mulheres bonitas com pernas de fora, juventude e poesia. Caminhava em cordões. Havia nela a ala dos artistas, o bloco dos padres (150), a linha dos deputados. Ia abençoada pelo cardeal do Rio de Janeiro, o arquiconservador D. Jaime Câmara, que em abril de 1964 benzera a Marcha da Vitória. Muitas pessoas andavam de mãos dadas. Todo o Rio de Janeiro parecia estar na avenida. A serena figura da escritora Clarice Lispector e Norma Bengell, a desesperada de Terra em Transe;  Nara Leão, Vinicius de Moraes e Chico Buarque de Hollanda, que com a poesia “Carolina”, e seus olhos verdes, encantava toda uma geração. Personagens saídos da crônica social misturavam-se com estudantes saídos do DOPS. Do alto das janelas a cidade jogava papel picado.(…) a Passeata dos Cem Mil saiu da Cinelândia, jovem, bela e poderosa. (…) Depois de parar gloriosamente na Presidente Vargas, vagou emagrecida até os pés da estátua de Tiradentes, em frente ao prédio da Câmara dos Deputados. Lá Vladimir Palmeira, o mais popular dos dirigentes estudantis, ameaçou: A partir de hoje, para cada estudante preso, as entidades estudantis promoverão o encarceramento de um policial.

 

          Depois de passar pela Sete de Setembro e o Largo da Misericórdia a passeata chegou à Praça Tiradentes onde se seguiram uma dezena de discursos das lideranças estudantis, sindicais e intelectuais. Ali mesmo foi proposta e criada uma comissão com representação dos intelectuais, dos professores, do clero, dos estudantes e das mães para intervir junto às autoridades pela libertação dos estudantes presos nas recentes manifestações.                                  

          Passavam das cinco da tarde quando os estudantes queimaram uma bandeira americana em frente do Palácio Tiradentes. Ali mesmo Vladimir retomou a palavra para encerrar a manifestação num tom de advertência, dizendo:

 

 Voltaremos sempre para exigir nossos direitos. Pacificamente, se não formos reprimidos pela Polícia. Agressivamente, se tentarem nos agredir, como fizeram algumas vezes.                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                           

 

          Neste ano de 2008, há quarenta anos da Passeata dos 100 Mil, podemos ter uma clara perspectiva dos fatos e analisar aquele acontecimento como um dos mais belos e corajosos gestos políticos da cidadania recrutando os  mais lúcidos representantes da intelectualidade brasileira que marcaram, com a sua presença, as mais variadas tendências da esquerda nacional. Este fato por si só nos convida a tirar algumas ilações sobre a importância do debate político daquela época em que os termos “revolucionário” e “reformista” eram usados com ironia nos nossos bancos acadêmicos. Neste mesmo enfoque, não se podia confundir “revolucionário” com “rebelde sem causa” sem reconhecê-los, respectivamente, pela legítima contradição dialética  e pela mera formalidade das idéias. Ainda nesse contexto é pertinente relembrar que, na célebre  Passeata do Rio de Janeiro, havia uma aberta disputa programática entre os cartazes e slogans  das dissidências da esquerda, e quando  os radicais gritavam: “Só a luta armada derruba a ditadura”,  os militantes do Partidão respondiam: “Só o povo organizado  conquista o poder”.Isto vale dizer que cada grupo disputava no grito a hegemonia daquele extraordinário acontecimento político. Eram já os efeitos das grandes cisões que estavam acontecendo no Partido Comunista. Os primeiros representavam os estudantes que já tinham feito sua opção pelo enfrentamento direto com o regime e sonhavam com uma pátria socialista dirigida pela classe operária. Os segundos encaravam o fenômeno revolucionário como um processo lento onde a ruptura com o sistema e a conseqüente transformação estrutural da sociedade ocorreria como resultado da organização das próprias forças sociais. Uns seguiam a orientação de Cuba e outros, a de Moscou.

          Para quem foi um estudante na década de 60 é estimulante recordar que ninguém queria ficar à margem do engajamento político, e era uma ofensa esmagadora ser chamado de “reacionário”, ou seja, ser de direita. Na verdade todo aquele saudável “romantismo” deixou, no que tange à mera postura intelectual, uma imensa saudade. Quem não tinha na parede do seu quarto uma gravura do Che, de Mao ou de Ho Chi Minh?  Como ser um autêntico radical de esquerda sem conhecer a “teoria do foco” de Régis Débray, sem conhecer a história da Revolução Russa, sem ter lido os patriarcas do pensamento revolucionário, sem ter compulsado Marcuse, Lukács, Gramsci. Como criticar um reformista sem conhecer os insuperáveis argumentos de Rosa Luxembrugo. Era tudo isso e muito…, muito mais, porque a bibliografia revolucionária era enorme e também não se podia deixar de ler a nossa brilhante “prata de casa” como Caio Prado Junior, Celso Furtado e  Nelson Werneck Sodré.

          E eis porque hoje, nesse imenso distanciamento, ao relembrarmos aquele 26 de junho de 68, relembramos também que todos os estudantes brasileiros marcharam, em espírito, com os estudantes cariocas e a Passeata dos 100 Mil ficou na história como uma referência indelével do poder de mobilização dos estudantes e da força que o pacifismo pode ter quando uma ampla frente popular pode ser bem organizada e bem representada. Naquele momento o Movimento Estudantil atuou como o mais legítimo porta-voz da sociedade contra a Ditadura. Ele representava, por um lado, a radicalização de um conflito expresso pelas contradições contidas nas frustrações da classe média emergente em sua busca de um lugar ao sol. Por outro lado representava as tensões crescentes que essa mesma classe média  — que em parte apoiou o golpe militar  — e a classe operária passam a ter com o poder, cada vez mais agravadas pelo estado de exceção e pelo apoio dos segmentos mais conservadores das classes dominantes. (leia-se a Marcha da Família com Deus pela Liberdade, apoiando, em 64, o golpe militar)

Embutida neste amplo questionamento estudantil estava também a velha estratégia do capitalismo moreno, sempre empenhado em manter uma política educacional dependente, promovendo uma educação acadêmica alienante ao limitar a capacidade crítica do indivíduo para questionar o mundo em suas contradições sócio-políticas e ideológicas e, conseqüentemente, formar profissionais que se amoldem culturalmente ao sistema.

          Por trás dessa invisível feição sociológica o movimento queria, na verdade, mostrar, explicitamente, a sua mais bela imagem: a face despojada do idealismo empunhando pacificamente o lábaro da justiça e da liberdade.

          Contudo seus sonhos, legitimados por essa fé e esse compromisso, não puderam se realizar. À medida que o ano chegava ao seu final iam-se esgotando as esperanças de se reconquistar o estado de direito por meios democráticos. O nosso drama político representava as ultimas cenas do seu primeiro ato e a decretação do AI-5 baixou as negras cortinas ante uma platéia assustada. Os espectadores mais atentos não esperaram para ver como seria o segundo ato. Sabiam que ali se apagavam as últimas luzes da ribalta e somente as sombras iriam invadir o palco da tragédia. Foi a gota dágua para que muitas organizações de esquerda se decidissem pela luta armada. A partir daí a repressão caiu como uma rede sobre a classe estudantil e suas principais lideranças não encontraram outro caminho para a sua militância política fora da clandestinidade. Seus sonhos de mudar o mundo começaram muito antes, quando em 1961 a UNE fundou o Centro Popular de Cultura (CPC) cujo propósito era despertar pacificamente, com a arte, a consciência política do povo. Sob a direção do dramaturgo Oduvaldo Viana Filho foram encenadas dezenas de peças, publicados livros, produzidos filmes e discos e promovidos shows, cursos e debates. Nesta saga cultural sem precedentes da nossa historia se engajaram, ao lado de estudantes, artistas e intelectuais, figuras emblemáticas do teatro brasileiro como Augusto Boal e Gianfrancesco Guarnieri. Quando as sementes dessa utopia começavam a abrir suas flores e a colher seus frutos com a presença cada vez mais contagiante da população em seus espetáculos, o golpe militar de 64 colocou a UNE na ilegalidade e toda esta fogueira de sonhos e esperanças, cujo imenso clarão iluminou a geração de nossos anos dourados, foi abafada bruscamente pelo manto tenebroso da opressão. Quando no fim de 68 arrancaram das mãos do Movimento Estudantil as suas últimas bandeiras democráticas, não restou a eles outra expressão de bom combate que não fosse a luta armada. O que aconteceu depois todos nós sabemos. Centenas deles foram presos, barbaramente torturados e mortos nas prisões do Regime Militar. Deram a vida para que sobrevivesse um sonho e para que continuassem abertas as trincheiras de luta que  escavaram em nome de um homem novo e de um mundo melhor. Esta é a triste memória que a história recente do país tenta resgatar pelos depoimentos dos que sobreviveram, pela escavação dos cemitérios clandestinos e na voz silenciosa dos desaparecidos. Eu bem quisera enumerar aqui os nomes da bravura. Dos que resistiram até o último golpe e caíram aureolados com a coroa do martírio. Mas todos os seus nomes somente podem ser escritos com a dimensão da palavra: legião.  Porque sempre faltaria ainda um nome ou um codinome de alguém cujo coração materno poderia  derramar a derradeira lágrima, motivada pelo meu esquecimento.

 

a passeata dos cem mil no Rio de Janeiro/1968. foto sem crédito ilustração do site.

 

 

1ª/4ª parte: A sexta-feira sangrenta – publicada aqui:

https://palavrastodaspalavras.wordpress.com/2008/04/29/1968-a-sexta-feira-sangrenta-por-manoel-de-andrade/

3ª/4ª parte:  Partidão versus Foquismo

https://palavrastodaspalavras.wordpress.com/2008/05/12/1968-partidao-versus-foquismo-por-manoel-de-andrade/

4ª/4ª parte:  As barricadas que abalaram o Mundo

https://palavrastodaspalavras.wordpress.com/2008/05/29/as-barricadas-que-abalaram-o-mundo-por-manoel-de-andrade/

 

FOTOGRAFIA DA ALMA HUMANA (primeira) por jairo gonzales

Uma operação cirúrgica que se complica uma paciente morta e uma foto misteriosa que oferece uma versão surpreendente do que sucedeu na sala de operações. De fato, pela primeira vez na história se consegue plasmar no papel a imagem da alma humana. Um acontecimento fora do normal revolucionou o mundo médico e científico, reformulando uma vez mais a possibilidade da vida depois da morte.

 

Tudo começou com uma intervenção cirúrgica num hospital de Frankfurt Alemanha. A paciente faleceu sobre uma mesa de operações, mas o insólito do caso viria dias mais tarde, quando uma das fotos tomadas durante a operação revelou a existência do espírito da mulher. Tudo isto, pegou por surpresa a pesquisadores e céticos, já que a foto existe e muitos puderam vê-la.

 

Uma operação sem riscos

 

Quando Karin Fischer, uma dona de casa alemã de 32 anos, foi internada no hospital Frankfurt para submeter-se a uma operação, estava muito longe de imaginar a surpresa e as conseqüências que traria sua estadia na sala de operações. De fato, também não suspeitava que fossem seus últimos momentos de vida. A intervenção a que ia submeter-se, ainda que não fosse simples, também não era de alto risco; iam corrigir-lhe umas válvulas defeituosas que tinha implantada no coração. Mas algo saiu mal e uma série de complicações fez com que seu coração deixasse de bater depois de quarenta e cinco minutos do início da operação. Nos controles, o monitor cardíaco assinalava o estado de morte com uma linha reta que percorria a tela. Nenhuma das doze pessoas da equipe viu nada do que revelava a fotografia.

 

A fotografia surpresa

 

No momento de seu falecimento, Karin se encontrava rodeada de doze pessoas, todos eles membros da equipe de cardiologia: médicos, técnicos e enfermeiras comprovaram como todos os esforços para tentar reavivá-la eram inúteis. O professor Peter Valentín, diretor do Departamento de Divulgação Didática do hospital também estava na sala de operações. Naquela ocasião sua tarefa consistia em manejar uma câmara de fotos. É muito freqüente que, durante as intervenções, que se fotografe, ou se filme o trabalho dos cirurgiões; a fotografia ou filme é utilizado depois, para a divulgação científica, os arquivos médicos e, sobretudo, para as classes universitárias na faculdade de Medicina. Também foi o professor Valentín quem, poucos dias depois, depois de recolher o carretel do filme no laboratório e ver as cópias, não pôde conter sua surpresa. Uma das fotografias mostrava, com toda clareza, como uma forma humana, difusa e transparente, elevava-se para o teto com os braços abertos. Era a foto de um espírito e além disso, estava saindo do corpo da falecida!

 

O Papa João Paulo II recebeu uma cópia e os pesquisadores do Vaticano a estão analisando. Peter Valentín não saía de seu assombro enquanto escutava as palavras do técnico em fotografia. A foto era autêntica! Um estudo mais profundo e detalhado levava à mesma conclusão: não existia montagem, não existia truque algum. Ademais, como se fosse uma ironia, na imagem podia ver-se claramente a tela do monitor no momento em que a paciente expirava, coincidindo com o momento em que o espírito saía de seu corpo. Ninguém tinha visto nada; a alma é invisível aos olhos humanos. O professor Valentín decidiu comentar o caso com o pároco do hospital, um padre bastante lúcido e pouco amante de perder o tempo com trivialidades. Sua primeira reação foi a de exclamar: ‘Céu Santo, é um alma humana!’. O padre fez questão de divulgar a notícia: pela primeira vez alguém conseguia fotografar uma alma. Remeteram-se cópias a muitos centros religiosos de toda Europa, bem como aos maiores estudiosos do tema.

 

A resposta da Igreja foi imediata: o Papa João Paulo II pediu que se lhe enviasse uma foto para estudá-la nos laboratórios do Vaticano. Não existe ainda uma resposta oficial da Santa Sé; mas a foto já foi recebida e os técnicos de Roma continuam pesquisando. Suas primeiras impressões são positivas: tudo parece indicar que não há truque e que a foto revela a verdade: um espírito humano saindo de um corpo que acaba de falecer.

 

A Ciência se pronuncia

 

Um dos estudiosos da matéria que recebeu a fotografia é o doutor Frank Müller, cientista alemão que se dedicou a pesquisar exaustivamente o insólito documento. É a primeira vez que se obtém a imagem, da alma humana. Sua conclusão foi definitiva: é a prova que faltava, o que muitos têm procurado desde sempre. Segundo ele, a alma das pessoas tem uma vida eterna depois de deixar o corpo físico. A seu entender, isto é uma confirmação do que é narrado pela Bíblia, e sem truque possível, já que os melhores técnicos estudaram a foto durante várias semanas, com os aparelhos mais sofisticados e o maior interesse. Para o Doutor Müller, está claro que sempre terá gente cética que se negue a acreditar na evidência, mas também, eles não têm uma resposta convincente, que explique a presença da imagem sobre o papel. É uma questão de extremos onde, uma vez mais, o inexplicável, tem um papel relevante. Não cabe lugar a mais estudos; a ciência demonstrou que é uma fotografia autêntica, sem truques ou montagens de nenhuma espécie. Agora só resta, aceitar as coisas como são sem maiores discussões. Enquanto isso, muitos sugeriram que poderia tratar-se da foto mais importante obtida, em todos os tempos. Outra prova da imortalidade da alma.

ABORTO CONSCIENTE por mônica caetano

Ouso falar do lugar crítico do Ser que percorre o caminho que constrói, vezes consciente, outras inconsciente quanto às possíveis conseqüências.

Enquanto convivo e participo das relações que estabeleço ou apenas aceito o convite a participar por alguns momentos, reflito sobre a conseqüência das existências presentes.

Percebo a diversidade de atitudes frente à vida; vezes a própria, outras a alheia; porém sempre possível de leitura, a atitude frente a vida.

Há os que se preocupam demasiadamente com a própria, fazendo para isso atrocidades que a si próprios atingem, mas que, no ímpeto de se livrarem de qualquer responsabilidade ou possíveis impedimentos, optam sem refletir. Não importa; a conseqüência destas ações são permanentes no caminho seqüencial de suas vidas, quer  queiram  ou não.

Há os que se responsabilizam demasiadamente por tudo e por todos, esquecendo, por sempre, de permitirem-se um olhar todo especial a si próprios, e que logicamente trazem também as conseqüências no caminho construído, quer queiram ou não.

Há os  ponderados, que tentam equacionar suas atenções a si e aos outros, mas que vez ou outra, deslizam mais a um do que a outro, e novamente, no caminho seqüencial, vivem as conseqüências. 

Há as conseqüências…

Não sabem, ao agir, que cada escolha advém de uma conseqüência longínqua, já definida a muito, por outrem, que lá, optou também por uma escolha e graças à esta conseqüência, agora este, faz a sua opção.

Cada vez que se aborta uma ação, não é mera criação própria, mas antes, uma repetição inconsciente daquilo que reconhecemos como nosso lugar.

Ah! este lugar!!!

 Lugar desejado, muito antes de se pensar em existir, por alguém que é o maior responsável, mesmo que inconsciente, deste pulsar a se expandir!!!

Fosse possível tomar consciência da grandeza deste desejo, ainda no ventre, quão mais rica poderiam ser as escolhas!!!

Escolhas por melhorar a cada minuto da construção que se realizará.

E, novamente, as conseqüências.

Aqueles que não passam da existência, por pequeno momento, no ventre daquelas que agem de forma impulsiva e coercitiva no ímpeto de se eximirem de responsabilidades, livram-se de piores conseqüências que poderiam respingar em suas construções futuras, e fatalmente marcar uma construção para sempre.

Estes são poupados pela conseqüência!!!

Mas, a grande maioria, ultrapassa a barreira do nascer e coexistem mergulhados no emaranhado dos desejos que os circundam. É neste emaranhado que todos, sem exceção, perpassam grande parte de suas existências.

Grande parte porque, são minoria os que se encontram desligados a um determinado tempo, deste emaranhado que os permeou, mas que, como conseqüência, oportunizou Ser.

Estes vivem e constroem perpetuamente.

Mas, o que dizer dos que permanecem agindo e construindo emaranhados nos desejos inconscientes que os envolvem sem que tomem consciência de sua influência?

Ah !  Esse universo sem fim…

Ali, os abortos, muitas vezes, são permanentes!!! Abortos de afetos, de atitudes, de acolhimento, de presença, de respeito para com o outro. Atitudes atrozes e frias são comuns e cotidianas para muitos dos que permanecem na obscuridade do que pensam ser “o Existir”.

Nesse universo, sem mensuração, encontramos a triste existência de tantos que se dizem donos de si e defendem vorazmente a liberdade de suas escolhas!

Sobrevivem ao engodo de si próprios, em função das conseqüências daqueles que, por vezes, se pudessem, exterminariam da face da Terra, sem ter consciência, que este desejo, na verdade foi o primeiro que permeou a sua própria existência.   

Ah!  Esse engano…

Quando penso sobre Ser quem sou, me surpreendo com a ação de muitos frente ao ato de abortar.

Descubro que, por vezes, a arte de muitos existe apenas em conjugá-lo diuturnamente, na construção de seu caminho.

Mas há uma seleta parcela que o conjuga apenas em situações necessárias e que são, na verdade, aquelas que possibilitam construir reais espaços e lugares para a preservação de si e de outrem. Muitas vezes, enquanto se constroem as escolhas conjugadas às conseqüências permanentes, é necessário abortar abruptamente, existências nefastas das relações que nos permeiam, a fim de permitir que o Ser, em construção, flua através de desejos sadios e perpétuos.

Este abortar, a meu ver, é verdadeiramente consciente!

OS AFORISMOS por agustina bessa-luís

 

 

 

Com os costumes andam os aforismos. Assim, eis que eles tomam um caráter mais criticador e vibrante, isto na linguagem de Karl Kraus, homem sagaz e ventríloquo de certas causas que a sociedade não confia à voz pública. Ele diz, por exemplo: «As mulheres, no Oriente, têm maior liberdade. Podem ser amadas».

Ou então: «A vida de família é um ataque à vida privada». Ou ainda: «A democracia divide os homens em trabalhadores e preguiçosos. Não está destinada para aqueles que não têm tempo para trabalhar».

Tudo isto, como axioma, lembra Bernard Shaw, esse inglês azedo e endiabrado cujo Manual do Revolucionário fez o encanto da nossa adolescência. Todavia, o aforismo do homem de letras, se impressiona, quase nunca comove ninguém.

 

O autêntico aforismo não é uma arte – é uma espécie de pastorícia cultural. Não está destinado a divertir nem a chocar as pessoas, mas, acima de tudo, propõe-se transmitir uma orientação. É uma lição, e não o pretexto para uma pirueta.


Os aforismos e paradoxos de Karl Kraus têm esse sabor irreverente que se diferencia da sabedoria, porque há algo de precipitado na sua confissão. Precisam de ser situados num estado de espírito, para serem aceites e compreendidos; enquanto que os verdadeiros aforismos quadram sempre à natureza das coisas e das pessoas, qualquer que seja a era em que se pronunciam e a civilização em que se repercutem.

 

O aforismo deve ser a última colheita do uso da vida, e não uma impertinência ou uma afronta. Mas acontece que um coração novo encontra na rebelião uma força que se assemelha à sabedoria e que provém do desprendimento das coisas que ele não amou ainda; enquanto que aquele que muito conheceu o mundo, uma vez liberto, encontra-se, além de desamarrado das suas paixões, menos apressado no julgamento.

 

O sábio é o homem que amou tanto a casa em festa como a casa em luto, e o fim e o princípio de todas as coisas. No momento da reflexão, ele pensa que o melhor da terra é não sabermos o futuro que nos está destinado; e, no dia alegre, goza de alegria. Esta condição da alegria não produzirá nunca o falso aforismo, que é apenas um excitante e um divertimento. Goza de alegria o que não encontra no mundo atrativo maior do que a virtude desconhecida.

Assim, lendo os aforismos de Karl Kraus, tomei-os como impróprios dum espírito profundo e sabedor. Como acontece decerto a muita gente inclinada à observação, ele conhece no seu íntimo aquele aforismo magistral: «Mais vale a sabedoria do que a força; mas a sabedoria do pobre é desprezada e as suas palavras não são escutadas». Esse sentimento de indigência que se apodera do indivíduo que pensa com justiça no meio duma turba indiferente, é o que prevalece no repentista dos aforismos.

 

Ele sabe que um improviso veemente e a pedra de escândalo atirada com habilidade podem tirá-lo da sombra e levá-lo a abrir os ouvidos fechados. É por isso que os momentos de maior convulsão da história aparecem prodigiosamente povoados de oradores e de pensadores. Eles são os sábios pobres, aquele que em época discreta e burocrática não chegariam a pronunciar uma só palavra ou não seriam escutados.

 

FERRADURA DE ESTRADA por walmor marcellino

 

 

Pobres campônios, assim vivemos no entorno da dialética: um dia decepcionados com o projeto capitalista da transposição do Rio São Francisco, outro entusiasmados com a viagem política de Lula da Silva à Bolívia, num apoio oportuno ao governo democrático-nacionalista de Evo Morales. Um dia irritados com as manicurvas etanólicas do proletcult  ao imperial George W. Bush, noutro satisfeitos pelas conversas com Hugo Chavez sobre as complementaridades energéticas no Continente. Num dia apostrofamos as vacilações cavilosas de Marina Silva e Luiz Inácio no arrendamento da Amazônia aos inventados “empresários ecológicos”; depois tomamos conhecimento de que o Exército está construindo rede de quartéis para defendê-la (ao custo de R$ 20 milhões a unidade, embora falte o dinheiro do superávit secundário), aos quais se somem instalações e unidades de aeronáutica e marinha.

 

De repente, reles republicanos, nos entusiasmamos com a possibilidade de construção de uma política de informação e educação públicas através de redes públicas de comunicação e educação sociais; e a seguir sabemos que os Hélios Costas sobremandam os Franklins Martins, e o que é público permanece restritamente estatal; e o que é decodificador de digital para pobre é uma porcaria para manter o público cativo da Rede Globo, Bandeirantes, Record e similares (pois não é que um decodificador independente custa oito vezes mais?). E quando sabemos que a iniciativa privada democrática (Sesc/Senac) avança na popularização e socialização de estudos e debates, as redes estatais e estaduais trepidam confundindo uma linha estatal-governamental com uma linhagem pública. E para alçar essa área pública, vibramos ademais com a iniciativa (privada) de convergência com o que existe no mundo (ainda Sesc e Senac) nos sistemas, formas e métodos de educação, para nosso uso; enquanto tropicamos (e entropicamos debilmente) em discursos autógenos de inteligência governativa; e então, como uma vanguarda política, a iniciativa das entidades econômicas é oferecida para a pauta e as decisões nacionais do Partido dos Trabalhadores.

 

Uma no cravo, outra na ferradura e alfafa para o cavalo, que o caminho é comprido.

 

Pobres eleitores e ineptos cidadãos, quando nos abalançamos à investigação de causas e efeitos, quando cursamos o esforço crítico para discernir as coisas, um alegado cientista de plantão, na realidade algum fiscal de boatos, nos acusa de inimigos da Humanidade, da Pátria estremecida e do bom-senso no mercado venerável.

 

Um amplexo no gaiteiro, ou saudações socialistas?