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LIBERDADE SEM PREÇO por orlando margarido / berlim

Em apenas 48 horas na metade do mês de fevereiro, dois casos exemplares nas telas mostraram o quanto as circunstâncias fazem a diferença no cinema. Aconteceu nos primeiros dias da 60ª edição da Berlinale, o Festival de Cinema de Berlim, quando dois nomes que reconhecidamente conquistaram o privilégio de fazer o que bem entendem atrás das câmeras exerceram tal direito com resultados diferentes. Na ordem de exibição, primeiro chegou O Escritor Fantasma, o filme de Roman Polanski, sem a presença do diretor, como se sabe detido em seu chalé na Suíça em regime domiciliar. Para compensar, quem sabe, a falta do momento estelar do cineasta franco-polonês, veio, no dia seguinte, um céu de estrelas pronto para os holofotes. Com Martin Scorsese à frente, surgiram seu atual predileto Leonardo DiCaprio, Ben Kingsley e Michelle Williams, prontos para trocar elogios e demonstrar uma feliz união em torno de Ilha do Medo. Um encontro sem dúvida providencial que nos permite tirar uma lição da condição desses cineastas acima de qualquer suspeita.

Um indício evidente, mas não justificável de todo, é o impacto que ambas as obras e seus realizadores causaram no evento. Enquanto o filme de Polanski respondeu na tela a que veio, sem depender necessariamente da presença de seu autor, o novo Scorsese recorreu ao efeito midiático e à conhecida verve cinéfila do diretor para se impor. Verdade que este corria fora da competição, como geralmente cabe aos que alcançaram o mérito da maestria. Presente em concurso, O Escritor Fantasma sinalizava a intenção da comissão seletiva da Berlinale, depois confirmada com o Urso de Prata de melhor direção, de um desagravo ao encarceramento do realizador. Difícil não fazer a correspondência de um prêmio político, mas há qualidades suficientes no filme para que se justifique por si só.

Não é essa a situação de Scorsese. Sua aparição festejada em Berlim, com entrevistas concorridas e o tapete vermelho que mais frisson provocou, tem no elenco boa parte da razão. Ao cineasta coube discutir cinema, tema no qual é um entendido emérito. Afinal, temos um nome fundador do cinema moderno americano, ao lado de John Cassavetes e Francis Ford Coppola, por exemplo, realizador dos referenciaisTaxi DriverTouro Indomável, que a caminho dos 70 anos tateia nas mais recentes experiências em busca de um filme conjugador de sua independência de criação e do flerte com o grande público. Para tanto, elegeu uma face irregular de interpretação para ser o símbolo dessa ambição na tela. Leonardo DiCaprio, agora na quarta parceria com o diretor, serve à tentativa de resgatar um frescor cinematográfico de fonte geracional. Na conversa entre bons companheiros disfarçada de coletiva de imprensa em Berlim, reconheceram-se influentes um ao outro, com o ator reverenciando o mentor e amigo Marty ao lembrar sessões de seus primeiros filmes antes de conhecê-lo.

Scorsese, por sua vez, diz não imaginar outra face nos últimos anos para seus heróis culpados e em busca de redenção. Escalou DiCaprio para Gangues de Nova YorkO AviadorOs Infiltrados e agora como o investigador federal Teddy Daniels, que segue para a soturna ilha do título, base de um manicômio onde busca pistas do desaparecimento de uma paciente. Conta com um companheiro para a tarefa, interpretado por Mark Ruffalo. A afinidade entre os atores e DiCaprio dá o tom certo, por vezes de profundo desespero, o que evita a total nulidade do personagem. O intrigante, como se verá a partir de 12 de março, quando o filme estreia no País, é que cabe mais a Scorsese a falta de força dessa adaptação do livro de Dennis Lehane (Paciente 67). Mistério opaco, didatismo na explicação das pistas desvendadas uma a uma e um gosto por lançar infinitas armadilhas ao espectador são algumas ocorrências que banalizam Ilha do Medo. Mais compatíveis, por certo, a certo cinema contemporâneo de thriller e não a um trabalho de complexas relações do homem com seu destino a que nos habituou Scorsese.

Verdade que ele pisa aqui no gênero com o qual é menos acostumado. Embora com ambições psicológicas, o novo filme tem aquele tom dos suspenses noir dos anos 50 e 60 vistos avidamente pelo garoto Marty na Nova York em que crescia. Talvez seja possível aproximá-lo, numa curiosa coincidência de títulos, da refilmagem Cabo do Medo, de 1991. Mas aqui temos outro tipo de mente doentia do que nos fala o livro de Lehane, e nesse sentido é interessante a relação feita entre os pacientes da instituição e quem os trata, numa época em que estavam em voga recursos dessa medicina como a lobotomia. É o próprio Scorsese, no entanto, que dá as pistas da origem do seu interesse pela história e a linguagem escolhida para a versão cinematográfica. “O filme representa os meus anos 50. Era o período americano da Guerra Fria, da paranoia, quando havia medo e insegurança”, diz, reafirmando que experimentou tudo isso bem de perto e também no cinema.

O diretor aponta para uma lista infinita de influências que vão do horror de baixo orçamento dos filmes de zumbis à tradição de mestres como John Ford, Orson Welles e William Wyler. Há uma evocação explícita de Vampiro de Almas, clássico B de Don Siegel de 1956. Ainda atribui elementos de inspiração a Nicholas Ray, especialmente Delírio de Loucura, do mesmo ano, e um pacote com LauraFuga do Passado, Crossfire e o documentário Let There Be Light, de John Huston. Não por acaso, exibiu esses cinco últimos títulos ao elenco para conseguir se fazer entender. Uma lição superior de cinefilia, sem dúvida, mas de menos aplicação prática do que poderia se supor de um mestre que não denota o talento de outrora.

Dessa forma, é irônico que tal conjuntura se estabeleça com mais propriedade e conhecimento em O Escritor Fantasma, baseado em romance de Robert Harris. Temos aqui a atmosfera opressiva que Scorsese busca em seu filme por truques por vezes medíocres e Polanski conquista com a desenvoltura das experiências com O Inquilino, por exemplo. Assim como naquele título de 1976, a situação entre o real e o delírio é vista pelos olhos do protagonista, o homem errado no lugar errado. Personagem sem nome no filme, ele é contratado para finalizar as memórias do ex-premier britânico (Pierce Brosnan), depois que o escritor anterior aparece morto. Aos poucos enreda-se numa trama entre o mistério da morte e o envolvimento do político, agora retirado em sua casa num balneário exclusivo americano, com um escândalo de acusação por violar direitos humanos durante a Guerra do Iraque.

Ao demonstrar faro para uma situação de lances atuais e exímia habilidade no ritmo da trama, Polanski ganhou mesmo o beneplácito da coincidência, antes que sua prisão fosse decretada no ano passado. Na trama, o primeiro-ministro, ante a pressão dos problemas, diz que desejaria fazer uma viagem. Sua equipe de advogados, no entanto, o aconselha ir para um país que não mantenha acordo de extradição. Involuntário, quem sabe, o chiste remete à situação do próprio cineasta, exigido pelos Estados Unidos para julgamento por pedofilia. Mas há mais coerência em imaginar um humor negro casual, na medida em que o realizador deu as últimas ordens para montagem e finalização de seu filme por courrier, como lembraram seus produtores em Berlim.

Se a referência cinematográfica recai sobre si mesmo, pois não consta que Polanski tenha o apetite insaciável do colega pelo cinema do passado, este realizador consegue com recursos semelhantes a Ilha do Medo consumar a apreensão do espectador. Seu cenário também é cinza e desolador, e a princípio estamos numa praia frequentada pelos Estados Unidos da tradição e dinheiro. O protagonista, embora no início contrafeito, representa apenas um homem comum que enxerga a possibilidade de angariar sua primeira fortuna por um trabalho e não hesita em cair fora dele quando a situação se mostra insustentável. Mas a ideia de não conseguir pelas circunstâncias faz a trama derivar para a investigação inesperada.

Como comprova o final, talvez não surpreendente para quem conhece os truques do diretor, Polanski tem-se reservado o direito de testar velhas fórmulas que já lhe foram gratas (Chinatown) ou nem tanto (Busca Frenética) com a precaução dos sábios com a idade. Antes de enveredar neste projeto, cancelou outros dois devido à magnitude da produção, sendo o mais comentado a adaptação da saga histórica Pompeia. Scorsese não parece dar sinais da mesma consciência. Um dos factoides disparados pela imprensa em Berlim dava conta de um encontro do cineasta americano com seu colega dinamarquês Lars Von Trier em que este lhe teria proposto uma refilmagem de Taxi Driver. O próprio Scorsese dirigiria, mas baseado em algumas regras misturando ficção e documentário testado por Trier no filmeFive Obstructions, de 2003, em parceria com Jorgen Leth. Nada confirmado pelos protagonistas, exceto o encontro e a certeza de que Scorsese continuará a trilhar caminhos que podem amedrontar sua fiel audiência.

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PROGRAMA do JÔ investigado pelo MPF

caricatura-28.jpg O Programa do Jô, exibido depois do Jornal da Globo pela TV Globo, está sendo investigado pelo Ministério Público Federal (MPF) no Rio de Janeiro por suposta manifestação de preconceito. A informação foi divulgada pelo MPF nesta segunda-feira(26).O programa do dia 18 de junho deste ano exibiu uma entrevista com o escritor Rui Moraes e Castro sobre a mutilação genital a que são submetidas mulheres angolanas. Após a entrevista, a campanha “Quem Financia a Baixaria é Contra a Cidadania” – projeto que visa melhorar a qualidade da programação da TV brasileira – recebeu inúmeras denúncias de organizações sociais feministas e ligadas a comunidades negras.As denúncias recebidas acusavam o entrevistado e o entrevistador de manifestação de preconceito racial, especialmente em forma de ironia. Durante o programa, o entrevistado buscou relacionar o penteado das mulheres negras de Angola com as suas vaginas. As denúncias também acusam o programa de fazer alusão à pedofilia.A procuradora dos direitos do cidadão do MPF do Rio de Janeiro, Márcia Morgado, é a responsável por averiguar se realmente houve desrespeito às comunidades negras. O caso está sendo investigado. Radioagência , Vinicius Mansur.