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AMANHECER em SANTA ROSA (RS) por tonicato miranda. curitiba

TONICATO MIRANDA - Periferia de Santa Rosa


Quantos já repararam numa cidade amanhecendo? Muitos, com certeza.

Mas agora, aqui, no alto do quinto andar do Hotel Rigo, em Santa Rosa, assisto um tanto solitário, a este amanhecer de verão, no extremo oeste do Rio Grande do Sul.

De início tudo era penumbra, e as luzes nas ruas eram pontos brilhantes desenhando os traços feitos pelos homens. Depois, com a claridade, as luzes ficaram boiando no espaço, penduradas por árvores de cimentos como estrelas mortas.

À minha frente passa um ciclista, sofrendo no pedal na subida da ladeira. Outro desce tranquilo.

E mais outro vem, regulando a freada na descida. Aquele vai olhando a manhã, sereno como ela. Com pedaladas ritmadas, mochila às costas, segue no rumo do trabalho. Nesta hora, bem cedo na manhã têm mais bicicletas do que automóveis nas ruas. Certamente são os operários rumando em direção à labuta de mais um dia.

Abençoados sejam esses trabalhadores matutinos de Santa Rosa, ou de Horizontina, que visitei ontem, de Arraial do Cabo, de Joinville, de Teresina, de Arapongas, de Monlevade, e tantos, em tantas cidades brasileiras; e todos que vão ao encontro do trabalho montados nas suas magrelas.

O hotel, numa de suas laterais, faz frente com a Rodoviária da cidade. Exatamente a fachada do apartamento onde estou e que tem esta sacada e eu dentro dela. Lá embaixo, uma mãe atenciosa aponta para cima indicando a um dos três filhos que algo acontece aqui em cima. Acho que aponta para mim. Deve estar a dizer: __ Olha que estranho, lá em cima tem um homem a escrever! – O filho certamente não entende nada, pois isso não lhe parece tão estranho, nem tampouco tão normal. Como pássaro não escreve e homem não se dependura no céu, as possibilidades estão empatadas. A situação é somente inusitada.

Por via das dúvidas, diante do interesse, como pássaro ou como escritor maluco, ensaio um tímido adeus que fica sem resposta.

Mais tarde para o alto do telhado da Rodoviária – começando a se alvoroçar com o povo que não para de chegar – tenho a visão de três a quatro bairros da cidade de Santa Rosa e de um dos seus principais acessos viários. Também posso ver algumas plantações de soja, de milho e outras culturas não identificáveis à distância e, ainda, tufos de matas remanescentes exigidos no interior das fazendas pelo IBDF.

Os raios de Sol que vêm chegando iluminam primeiramente as torres dos silos mais distantes. Depois, arrancam da penumbra um trecho de mata, todo um bairro situado na parte alta da cidade. Para, mais tarde, cambiar do escuro para o claro o verde das plantações. Uns vinte minutos depois, os raios já um pouco mais inclinados, permitem-me a visão da primeira sombra de uma árvore sobre um relvado distante. É o sol fazendo parceria com o tempo para produzir formas com a luz e assim enaltecer a geometria.

Passada a primeira meia-hora que o Sol pareceu seus raios já atingem em cheio um prédio lá embaixo, fazendo janelas abrirem-se de par em par. Mas ao longe as chaminés de um fábrica iniciam o lançamento de rolos de fumaça ao ar. Pode-se ouvir agora mais fortes os ruídos da cidade e dos homens a trabalhar.

Os passarinhos ainda cantam aqui e acolá, porém seus trinados soam perdidos no interior da sinfonia urbana do homem. Santa Rosa agora está de pé, já acordou. Perdeu um pouco a graça da Santa e o Róseo tom da manhã; é mais amarela e um pouco mais movimentada. E eu tenho de tomar café, como todos os outros que levantam mais tarde na manhã.

O BRASILEIRO – autor não identificado

– Brasileiro é um povo solidário. Mentira. Brasileiro é babaca.
Eleger para o cargo mais importante do Estado um sujeito que não tem escolaridade e preparo nem para ser gari, só porque tem uma história de vida sofrida;
Pagar 40% de sua renda em tributos e ainda dar esmola para pobre na rua ao invés de cobrar do governo uma solução para pobreza;

Aceitar que ONG’s de direitos humanos fiquem dando pitaco na forma como
tratamos nossa criminalidade…

Não protestar cada vez que o governo compra colchões para presidiários que queimaram os deles de propósito, não é coisa de gente solidária.
É coisa de gente otária.

– Brasileiro é um povo alegre. Mentira. Brasileiro é bobalhão.

Fazer piadinha com as imundices que acompanhamos todo dia é o mesmo que tomar bofetada na cara e dar risada.

Depois de um massacre que durou quatro dias em São Paulo, ouvir o José Simão fazer piadinha a respeito e achar graça, é o mesmo que contar piada no enterro do pai..
Brasileiro tem um sério problema.
Quando surge um escândalo, ao invés de protestar e tomar providências como cidadão, ri feito bobo.

– Brasileiro é um povo trabalhador. Mentira.

Brasileiro é vagabundo por excelência.
O brasileiro tenta se enganar, fingindo que os políticos que ocupam cargos públicos no país, surgiram de Marte e pousaram em seus cargos, quando na verdade, são oriundos do povo..

O brasileiro, ao mesmo tempo em que fica indignado ao ver um deputado receber 20 mil por mês, para trabalhar 3 dias e coçar o saco o resto da semana, também sente inveja e sabe lá no fundo que se estivesse no lugar dele faria o mesmo.

Um povo que se conforma em receber uma esmola do governo de 90 reais mensais para não fazer nada e não aproveita isso para alavancar sua vida (realidade da brutal maioria dos beneficiários do bolsa família) não pode ser adjetivado de outra coisa que não de vagabundo.

– Brasileiro é um povo honesto. Mentira..

Já foi; hoje é uma qualidade em baixa.
Se você oferecer 50 Euros a um policial europeu para ele não te autuar, provavelmente irá preso.
Não por medo de ser pego, mas porque ele sabe ser errado aceitar propinas.

O brasileiro, ao mesmo tempo em que fica indignado com o mensalão, pensa intimamente o que faria se arrumasse uma boquinha dessas, quando na realidade isso sequer deveria passar por sua cabeça.

– 90% de quem vive na favela é gente honesta e trabalhadora. Mentira.

Já foi.
Historicamente, as favelas se iniciaram nos morros cariocas quando os negros e mulatos retornando da
Guerra do Paraguai ali se instalaram.
Naquela época quem morava lá era gente honesta, que não tinha outra alternativa e não concordava com o crime.
Hoje a realidade é diferente.
Muito pai de família sonha que o filho seja aceito como ‘aviãozinho’ do tráfico para ganhar uma grana legal.
Se a maioria da favela fosse honesta, já teriam existido condições de se tocar os bandidos de lá para fora, porque podem matar 2 ou 3 mas não milhares de pessoas.
Além disso, cooperariam com a polícia na identificação de criminosos, inibindo-os de montar suas bases de operação nas favelas.

– O Brasil é um pais democrático. Mentira.

Num país democrático a vontade da maioria é Lei.
A maioria do povo acha que bandido bom é bandido morto, mas sucumbe a uma minoria barulhenta que se apressa em dizer que um bandido que foi morto numa troca de tiros, foi executado friamente.

Num país onde todos têm direitos mas ninguém tem obrigações, não existe democracia e sim, anarquia.
Num país em que a maioria sucumbe bovinamente ante uma minoria barulhenta, não existe democracia, mas um simulacro hipócrita.
Se tirarmos o pano do politicamente correto, veremos que vivemos numa sociedade feudal: um rei que detém o poder central (presidente e suas MPs), seguido de duques, condes, arquiduques e senhores feudais (ministros,
senadores, deputados, prefeitos, vereadores)..
Todos sustentados pelo povo que paga tributos que têm como único fim, o pagamento dos privilégios do poder. E ainda somos obrigados a votar.

Democracia isso? Pense !
O famoso jeitinho brasileiro.
Na minha opinião, um dos maiores responsáveis pelo caos que se tornou a
política brasileira.
Brasileiro se acha malandro, muito esperto.
Faz um ‘gato’ puxando a TV a cabo do vizinho e acha que está botando pra quebrar.

No outro dia o caixa da padaria erra no troco e devolve 6 reais a mais, caramba, silenciosamente ele sai de lá com a felicidade de ter ganhado na loto… malandrões, esquecem que pagam a maior taxa de juros do planeta e o
retorno é zero. Zero saúde, zero emprego, zero educação, mas e daí?
Afinal somos penta campeões do mundo né?? ?
Grande coisa…

O Brasil é o país do futuro. Caramba , meu avô dizia isso em 1950. Muitas vezes cheguei a imaginar em como seria a indignação e revolta dos meus avôs se ainda estivessem vivos.
Dessa vergonha eles se safaram…
Brasil, o país do futuro !?
Hoje o futuro chegou e tivemos uma das piores taxas de crescimento do mundo.

Deus é brasileiro.
Puxa, essa eu não vou nem comentar…

O que me deixa mais triste e inconformado é ver todos os dias nos jornais a manchete da vitória do governo mais sujo já visto em toda a história brasileira.

Para finalizar tiro minha conclusão:

O brasileiro merece! Como diz o ditado popular, é igual mulher de malandro, gosta de apanhar. Se você não é como o exemplo de brasileiro citado nesse e-mail, meus sentimentos amigo, continue fazendo sua parte, e que um dia
pessoas de bem assumam o controle do país novamente.
Aí sim, teremos todas as chances de ser a maior potência do planeta.
Afinal aqui não tem terremoto, tsunami nem furacão.
Temos petróleo, álcool, bio-diesel, e sem dúvida nenhuma o mais importante:
Água doce!

Só falta boa vontade, será que é tão difícil assim?

-.-

CÃOZINHO FELIZ - image

DESISTA!! por auro sérgio / são paulo

Estamos em 2050, não há nenhuma quarta guerra mundial. Os chefes mundiais conseguiram resolver a maioria das mazelas sociais. Os homens enfim perceberam que devem preservar o meio ambiente para sobreviverem mais e com qualidade. Nota se a amizade reinando entre todos os povos, principalmente nos do oriente médio que decidiram viver unidos em prol de um objetivo comum: Cultivar seus familiares vivos. Temos televisões que só comunicam boas notícias e transmitem programas culturais, filmes bons e antigos. Eliminamos os conservantes, acidulantes, flavorizantes, sentimos o gosto das coisas que temos na natureza preservada. Fomos à Lua, Marte, Júpiter e até em Plutão só pra perceber que aqui na Terra temos tudo. As crianças aprendem nas escolas conceitos de paz, honestidade, harmonia, sinceridade, justiça, retidão, integridade, boa fé, pureza, cordialidade… E aprendem. Não há mais preocupações idiotas com o enriquecimento individual, pois o capitalismo já derrocou a luz de um novo movimento que surgiu, um movimento diferente de todos os outros. O movimento Desistencialista.

Infelizmente estamos em 2010, essa projeção para um futuro é bem utópica e praticamente impossível de ser alcançada nesse curto espaço de tempo, em quarenta anos não aprenderemos senão a nos destruirmos uns aos outros num canibalismo acelerado, sem ética, sem respeito à faunas, floras, rios, crianças, próximos, e  nem a nós mesmos. Continuaremos fabricando bombas, refinando urânio, incitando o consumismo, vendendo, lucrando, produzindo e destruindo tudo. Continuaremos convivendo com líderes de estados corrompidos, ambiciosos e egoístas que se sentem os donos do mundo. Ainda observaremos a batalha num oriente sem sentido por uma Terra Santa que não é nem nunca foi de ninguém, por uma crença que não salva coisa nenhuma. Conviveremos ainda com a bestialidade urbana alimentada por uma gênese descompromissada com valores morais. Nesse tempo, infelizmente, partilharemos ainda da anorexia dos africanos, favelados de Ruanda, Serra Leoa e demais agonias sociais espalhadas por esse chão por culpa de um insensível ser que insiste em pensar que é ele que está no centro do Universo verdadeiramente.

O Desistencialismo. Uma doutrina baseada dentre outros dogmas no episódio de que basta simplesmente existirmos sem grande alarde, sem causar danos ao próximo, ao distante, ao desconhecido. Um conceito amplo de vida fundamentado na opção de não precisar haver celeridade nem solidez em nada que possuímos, uma vez que isso não é nosso, nem nós mesmos temos a eternidade nas mãos. Temos que deixar essa desenfreada busca particular por status, dinheiro, beleza, conforto etc. Para buscar formas de conviver com o próximo no mesmo nível, pois agora somos todos iguais. Esse movimento ainda descontínuo em seu fundamento, mas alicerçado de ideais legítimos é a única saída para que possamos alcançar um dia a consonância da sobrevivência em sociedade. Desista, tente algo novo, pois tudo que foi fato terá que ser recomposto.

RUMOREJANDO (20/09/09) por juca (josé zokner) / curitiba

PEQUENAS CONSTATAÇÕES, NA FALTA DE MAIORES.

Constatação I

Não se pode confundir Maradona com maratona, até porque vai ser uma maratona, Maradona armar um time JUCA - Jzockner pequenissima (1)para enfrentar o Brasil e os demais para se classificar para o mundial.

Constatação II

A execrável censura contra o Estadão lembra a fábula de Esopo (Phaedrus) O lobo e o cordeiro, ou o indefectível “O senhor sabe com quem está falando” e coisas desse jaez. Pena!

Constatação III

“Na gafieira,

Segue o baile calmamente”,

Diz a canção.

No Senado,

Por todo o lado,

Só se ouviu, recentemente,

Uma profusão de besteira

Entremeada de palavrão.

Constatação IV (De velhos tempos quando a gente costumava abotoar o cabelo atrás e deixar um topete como o Elvis Presley e mais tarde como um presidente da República do nosso país).

O barco descia

Na corredeira

Do rio Iguaçu.

Dava tanto solavanco

Que a gente se sacudia

No banco

E tanto molhava

A cabeleira,

Da água que espirrava,

Que até não adiantaria

O uso de “glostora” e xampu.

Constatação V

Deu na mídia: “Casa Branca prevê déficit de US$ 9,05 trilhões em 10 anos”. Este assim chamado escriba que trabalhou boa parte da sua vida – que nem por isso deixará de ser eternamente curta – no Banco de Desenvolvimento do Paraná S.A. – Badep, antiga Codepar, acostumado a ouvir falar de repasses, investimentos e financiamentos de expressivas cifras, confessa que não sabe contar até lá. Mas que é um baita* número, isso lá deve ser.

*Usamos a expressão “baita” porque somos educados como é sobejamente reconhecido por nossos prezados leitores.

Constatação VI (Pseudo-soneto da série Ah, o amor…)

Lábios nem sempre carnudos

Também são feitos para beijar

Os casais, nessa hora, ficam mudos

Efetivamente não vale a pena falar.

Beijo na bochecha ou selinho

É tênue e rápido demais

Dá impressão de não haver carinho

Entre os desvelados casais.

Beijo que é recomendável

E premonição de algo notável

É o que tira a respiração.

Se for de língua melhor ainda

Nessa benfazeja hora infinda

Que não enseja anúncio de solidão…

Constatação VII

Não se pode confundir sanefa, que o dicionário Houaiss, entre outros, dá comolarga tira de tecido que se coloca na parte superior da cortina ou reposteiro, nas vergas das janelas etc., geralmente rematada com franja ou galão” com safena, a veia que se usa para substituir por alguma outra que esteja entupida, para se fazer uma ponte, “by-pass”, etc. Até porque uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa, como já foi propalado por aí.

Constatação VIII

E também não se pode confundir loquacidade com louca cidade, até porque a loquacidade dos prefeitos, visando melhorar o tráfego nunca é posto em marcha e transitar ou atravessar as ruas fica difícil, pois se tem a impressão que se vive numa louca cidade.

Constatação IX

E ainda não se pode confundir libertinagem, que o dicionário Houaiss dá como “licenciosidade de costume, conduta de pessoa que se entrega imoderadamente a prazeres sexuais; a prática do libertino” com libidinagem, que o mesmo dicionário, dentre outros, define como “qualidade, condição ou comportamento próprio do que ou de quem é voluptuoso, lascivo, sensual”, até porque o referido dicionário ainda define libertinagem, no sentido figurado, como “insubmissão, indisciplina”. Elementar, crianças!

Constatação X

Disse o obcecado para o amigo, mostrando uma foto da playboy duma “poupança” de uma gatona: -“preferência multinacional”. Respondeu o amigo: -“Por que multinacional se a turma define como nacional?” –“Porque eu sempre procuro ser original. E, além disso, depois da globalização, ainda existe empresa nacional no nosso país?”

Constatação XI

“Desprazerosa

A tua companhia”,

Disse a sogra pro genro

Nada amorosa.

Numa cantilena

Sem melodia,

Fazendo cena.

”Você não é tenro

Com a tua mulher

Trata, a pobre,

Como uma qualquer.

Não trata como o finado

Me tratava

Como se eu fosse nobre.

O tempo todo ele me paparicava.

Você não dá a ela atenção.

Só fica vendo televisão,

Ou fica no computador.

E as tuas juras de amor?

Seu vento virado*.

Coitado!

*Vento-virado = “prisão de ventre, constipação” (Houaiss).

Constatação XII

Rico, quando fala, usa estrangeirismo; pobre, caipirismo.

SONATA PARA VITRINA E PEDRA por jorge lescano

para A. vidraça e pedra e ângela; 

 aos pais destes  meninos.

 

Esta crônica foi escrita em 1987, decidi-me a “publicá-la” novamente em virtude de um fato real noticiado pela imprensa: um menino de 9 anos foi assassinado a bala por um investigador de polícia em represália por  ter atirado uma pedra no portão de sua residência, pois acreditou que se tratava de um assalto. Segundo  o jornal Notícias Populares, os últimos atos de menino dentro de casa, antes de sair para brincar, foram:  montar a árvore de natal e abraçar sua mãe. O policial  não foi demitido e, ao que se sabe, continua circulando armado pela cidade, para proteger sua população dos vândalos. No final do segundo milênio cristão, a história de Davi e Golias tem um desfecho renovado.

São Paulo, dezembro de 1999

 

Processo inédito    Juiz intima para depor criança que atirou pedra em carro

A Corregedoria do Tribunal de Justiça (TJ) decidiu investigar processo em que foi expedido mandado de busca e apreensão contra um menino de 5 anos (foto) em Serrana (SP). O processo foi aberto há dois anos porque o garoto jogou pedra num carro. Na última sexta, PMs foram procurá-lo em sua casa. O pai do menino, então, levou-o à presença de um juiz na segunda-feira. Ao vê-lo, o juiz decidiu arquivar o processo.

Diário de S. Paulo. sexta-feira, 25 de agosto de 2006, A1.

 

Ele olha a janela e vê o fulgor do crepúsculo nela refletido. O sol é cobre condensado na vidraça. A luz de fogo antigo é seu Eu e pede aos gritos para ser multiplicado. O Anjo sabe disso porque há uma comunhão inexplicável entre os três. Ele sente no bolso da camisa o peso das pedrinhas de areia; a forma arredondada passeia brevemente pela ponta dos seus dedos e deita no couro do estilingue. A pedra e ele sabem que o espaço deseja ser cortado por um corpo sólido rumo a um destino certo. O vazio da tarde espera as notas de cristal. Então o Anjo é poeta, escultor, músico, pintor: empunha sua batuta e com olho certeiro modela na realidade algo que nunca antes existira e que jamais voltará a se repetir. Ele sabe que cada vidraça, e cada pedra, e cada garoto, e cada tarde silenciosa, é única. O ar é uma vibrante corda de violino. O vidro morto salta em fagulhas de sons e cores; a tarde toda vira um caleidoscópio, do qual também fazem parte o brilho assombrado dos olhos do Anjo, e seu sorriso, e o pulsar do coração, que se antecipa e quer fugir.

 

PERSEGUIR UM SONHO por donato ramos

 

Há dez anos eu escrevia sobre as dificuldades de se fazer jornal no interior e o Jornal Folha de Itapoá publicou com destaque. Com destaque por falava do sonho de Beth e Marcelo, os donos do “pasquim-nanico” e porque a Folha completava seu primeiro aninho. Era uma criança. E como a grande maioria das crianças recém-nascidas, feio pra burro, parecendo um joelho. Depois, já com dez aninhos, que gracinha. Fica até colorido!
Na Capital sempre foi uma dificuldade manter-se um periódico, mesmo que fosse mensal; nas cidades grandes, a mesma coisa. Nas cidadezinhas então, praticamente impossível. Anunciante só se for parente bem chegado ou amigo do peito, que faz anúncio “pra ajudar”. Mas não vou me deter nisso, por uma série de fatores, os quais não vou mencionar porque o que eu quero falar é de perseguição de sonho.
A FOLHA DE ITAPOÁ completa dez anos. Beth Fagundes completa meio século, com toda a festa de que é merecedora por seus grandes méritos e vai lotar o Maresia (local obrigatório das grandes festas em Itapoá), Marcelo, como marido, amante e puxa-saco da grande jornalista, “a beijará na boca” e, como sócio, vai fotografar tudo e, depois, publicar uma edição especial, enchendo as páginas com as carinhas bem cheias e coloridas dos seus amigos – eu e o prefeito Erwino na frente – com uma manchete bem pomposa: FOLHA DE ITAPOÁ: DEZ ANOS DE SUCESSO!
BETH: MEIO SÉCULO FAZENDO AMIGOS!
Uma das coisas gratificantes na vida é ver reconhecido o caminho percorrido por alguém em busca dos seus objetivos, por mais estranhos que possam parecer esses objetivos aos olhos de incautos observadores. E esses dois jornalistas são reconhecidos hoje, depois de dez anos de luta.
Agüentar o tranco durante dez anos, numa cidade que nem maior de idade ainda é, merece aplausos em pé! Por essa razão não me sentei pra escrever estas palavrinhas a eles endereçadas: por respeito! Respeito muito, demais, os sonhadores como Beth e Marcelo,
 “tomando as suas” juntos, brigando entre si por qualquer motivo banal – e todos os motivos são banais na vida, nada existindo de muito importante , escrevendo juntos as manchetes, editoriais, nascimento de criança ou morte de velho – que são poucas, pois vivem num paraíso chamado Itapoá e com uma vida dessas as pessoas custam muito pra morrer -, sofrendo todas as agruras das negativas de anunciantes que seriam possíveis patrocinadores do sonho de se fazer jornal no interior, mas, no final da madruga, juntos, na mesma cama e sonhando – de novo – novos sonhos. Amanhã, outra vez, correrão atrás deles, como quem persegue uma sombra fugitiva.
Corra, Lola! Digo, corra Beth! Corra, Marcelo! Não deixe o sonho fugir!

DONATO RAMOS mora em Florianópolis e é proprietário do Jornal Cultura & Lazer, Presidente do Instituto Vida & /Cidadania, Presidente da Associação Catarinense de Idosos e Pré-idosos.
Nas horas vagas pinta, escreve livros, faz música, toca gaita de boca e vive feliz ao lado de Dalila e seus quatro filhos.

 

Donato Ramos – Jornalista/Escritor