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SÉRGIO DA COSTA RAMOS faz segundo lançamento do livro PILOTO DE BERNUNÇA no “BOX 32” em Florianópolis

o jornalista e cronista SÉRGIO DA COSTA RAMOS bate papo com o poeta JB VIDAL no BOX 32 do Mercado Municipal, onde fez um segundo lançamento de seu livro PILOTO DE BERNUNÇA. SÉRGIO, no dizer de MILLÔR FERNANDES é o melhor cronista brasileiro da atualidade.  foto do editor do livro VINÍCIUS ALVES. 02/12/09.

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SÉRGIO autografando seu livro para o BETO , ao centro, e JB VIDAL. BETO é o gourmet que comanda o BOX 32 e sua griffe de cachaças de excelente qualidade. ontem, 2/12/09, passaram pela mesa de SÉRGIO mais de uma centena de admiradores e amigos. foto do poeta e editor VINÍCIUS ALVES. 02/12/09.

Rumorejando (O jogador do meu Paraná inspirou a França a fazer gol com a mão para se classificar, constatando). – por juca (josé zockner) / curitiba

PEQUENAS CONSTATAÇÕES, NA FALTA DE MAIORES.

Constatação I

O Ratinho, há tempos, declarou – e sua frase teve ampla repercussão entre jornalistas, críticos, telespectadores, etc. – que se houvesse intenção de educar o povo brasileiro, utilizando essa notável mídia que poderia ser a televisão, os programas da Fundação Roberto Marinho, os tele-cursos, seriam levados ao ar em horário nobre e não praticamente na madrugada. E tudo ficou na mesma.

Constatação II (Para recitar pra ela).

Que estranho !

Ontem a conheci

E parece que a vi

Desde antanho*.

*Antanho = Antigamente, outrora.

Constatação III

Quando o septuagenário leu o texto do escritor uruguaio Mario Benedetti, intitulado Síndrome, se sentiu perfeitamente identificado com o autor:

“Todavia tenho quase todos os meus dentes

quase todos meus cabelos e pouquíssimas cãs

posso fazer e desfazer o amor

subir uma escada de dois em dois

e correr quarenta metros atrás do ônibus

ou seja que não deveria me sentir velho

mas o grave problema é que antes

eu não me fixava nestes detalhes”.

Constatação IV

A doce ilusão sempre acaba redundando amarga…

Constatação V

A loira burra que faz operação plástica, em certas regiões do corpo, quase sempre as mesmas, muda apenas o invólucro…

Constatação VI (De conselho isonômico).

Se você tem um filho de 20 anos que não quer estudar e, muito menos, trabalhar, não corte a mesada dele. Afinal, tá cheio de político e administrador que não faz nada e nem por isso ele tem os seus proventos cortados.

Constatação VII (Via pseudo-haicai).

Quem se julga o tal,

Não dá outra:

Boçal.

Constatação VIII

O mais grave da ignorância é não se dar conta dela.

Constatação IX (Teoria da relatividade para principiantes).

Se a sabedoria pode conduzir à loucura, é muito melhor morrer louco do que burro.

Constatação X

Pobre é caloteiro; rico é inadimplente.

Constatação XI

Perguntou o médico psiquiatra ao seu paciente: -“E então ? Como é que vai indo ?”

Respondeu o paciente: -“Mais ou menos. Tenho administrado razoavelmente minhas crises conjugais, depressivas, financeiras e existenciais”.

Constatação XII

A humanidade é ineducável.

Constatação XIII (Ah, esse nosso vernáculo, via pseudo-haicai).

Na Alfama,

Havia uma azáfama

Em busca de fama.

Constatação XIV

Ronca a mulher,

Ronca o cachorro.

O que mais se quer ?

Que, pelo menos, em coro.

Constatação XV

Rico tem necessidades imperiosas; pobre, é afoito.

Constatação XVI (Via pseudo-haicai).

Quando ouviram meu canto,

Os críticos, com a ousadia,

Fizeram cara de espanto.

Constatação XVII (Ah, esse nosso vernáculo).

O abúlico, metido a áulico, não sabia jogar bolinha de búrico. (No Rio de Janeiro, prezado leitor, se diz búrica).

Constatação XVIII (Via pseudo-haicai).

Truco, sem lúpulo,

É falta total

De escrúpulo.

Constatação XIX

Em certos países, quem consegue trabalho, consegue; quem não consegue, não consegue e fica por isso mesmo. Elementar, meu caro Watson…

Constatação XX (Via pseudo-haicai).

Alma, já não havia.

Mostrou, até,

Sua radiografia.

Constatação XXI

A grande incidência

De assaltos na rua

É uma verdade nua e crua,

Uma eterna reincidência.

Constatação XXII (Via pseudo-haicai).

Sua conversa opaca

Enchia a paciência

Paca.

Constatação XXIII (De alguma derrota de algum dos nossos times, algures, via pseudo-haicai).

Ficamos todos aturdidos

Com os três a zero.

Até hoje, ardidos…

Constatação XXIV (Ah, esse nosso vernáculo).

No decurso das férias, ela fez um curso para não mudar o curso das coisas. Acabou mudando o curso da minha história. Vou entrar com um recurso, sem decurso de prazo e sem muito discurso. Depois, participar de um concurso. Espero não ficar no percurso, pois creio que a banca não fará papel de amigo urso. Afinal, não se pode perder o “purso” (Perdão, leitores).

Constatação XXV (Via pseudo-haicai).

Até sem nitidez,

Deu para perceber:

Pura frigidez.

Constatação XXVI

E como dizia, via pseudo-haicai, o adepto do ócio total:

“Desocupação

Nunca gera

Preocupação”.

Constatação XXVII (gauchesca).

Me creia:

O doidivanas

Volta e meia

Se embriagava

Pois tomava

Dúzia de carraspanas

E ficava

De cara cheia.

Que “peleia”!

Constatação XXVIII

E já que falamos no assunto, em outra constatação, com a onda de violência, o perigo não está somente nas ruas; também, nas calçadas…

Constatação XXIX (Via pseudo-haicai).

Me abalo,

No trânsito,

Com tanto gargalo…

Constatação XXX

Rebola,

A Jane do Tarzan,

Toda gabola.

Até parece

A Chita pela manhã.

E quando anoitece..

O PAGADOR DE IMPOSTOS por sérgio da costa ramos / florianópolis

O ilhéu, assim como todo o povo brasileiro, cedo se acostumou a pagar o quinto, o dízimo, a parte de César, chame-se César de Visconde de Barbacena, Marquês de Pombal, Lula ou Dário.

O IPTU engorda todo mês de janeiro, a uma taxa sempre superior ao IPCA. O preço das passagens de ônibus também seSÉRGIO DA COSTA RAMOS 1 reajustam por um número cabalístico, quase sempre uma pancada de “dois dígitos”. O único interesse que não é consultado é o do “pagador”. Aquele deserdado que um dia, na cabine eleitoral, imaginou estar bem protegido, ao passar “uma procuração” ao presidente, ao governador, ao prefeito.

Que lógica preside a majoração de um imposto, de uma passagem de ônibus em nível muito acima da inflação? A lógica de uma tirania fiscal, como a que inspirou o Marquês de Pombal.

Os impostos chegaram ao Brasil com as caravelas, os selos, as taxas, os emolumentos e as obrigações reinóis – tudo compondo uma imensa carga fiscal, infligida aos súditos de uma monarquia tão cartorária quanto a portuguesa.

Próximo dos 40% do PIB, o volume de impostos sugados do brasileiro já beira os US$ 400 bilhões – algo como R$ 1 trilhão –, “tesouro” este retribuído em “magníficos” serviços, ótima assistência médica e previdenciária, excelente base educacional e impecável segurança, com direito a “apagões” periódicos.

Mas até mesmo a Metrópole hoje se constrangeria em admitir que, entre 1790 e 1795, criou “impostos” especialmente dirigidos à Vila do Desterro, “para ajudar na reconstrução de Lisboa”, arrasada por um terremoto em 1755.

Toda a “baixa” Pombalina, junto ao Tejo, foi reconstruída com as gotas do nosso suor, num momento em que a vila padecia de endêmica pobreza.

É como registra mestre Oswaldo Cabral, em sua saborosa Notícia de Nossa Senhora do Desterro:

“Equivalia a, nada mais, nada menos, do que retirar o couro de quem já perdera a camisa…”

A mesma autoridade que comunicou o “imposto para Lisboa”, o vice-rei, Conde de Resende, não satisfeito com a “féria”, mandou à Câmara da vila uma pesada crítica ao povo desterrense, exatas 3.757 almas:

“Parece-me útil dizer a vosmicês que, sendo de sua obrigação cuidarem do bem comum e da utilidade desse povo, não o perca de vista para o apartar do ócio em que vive, obrigando-o, ao menos, à plantação dos mantimentos de sua subsistência.”

Além de colocar a mão no bolso dos ilhéus, o vice-rei – certamente um “trabalhador” – ainda chamava o povo de “vadio”. E o mandava plantar mais batatas…

Sábio, o desterrense não teve medo de perder o pescoço, como Tiradentes. E boicotou o “quinto” de Lisboa, guardando os seus parcos caraminguás.

A vila enfrentou a escassez praticando a desobediência civil – e festejando como podia. Durante a “grande fome”, Desterro possuía 666 casas, 18 lojas de fazendas e… 44 tavernas.

Se não havia muito o que comer, a turma se esmerava em encher a caveira. Só na Rua Menino Deus – caminho obrigatório para quem fosse rogar a bênção do Senhor dos Passos – havia 11 botecos com alambiques próprios, onde a “caninha” rolava solta.

Como aperitivo, a “raça” se virava com carne de macaco, um petisco para a época de vacas magras, saboreado com os “carás” e os “inhames” fritos.

As pestes não eram incomuns – a febre amarela, o cólera, a sífilis bubônica –, mas a visita mais temida era a das caravelas de sua majestade, trazendo impostos.

Fora essa “peste tributária”, a vida na Vila do Desterro podia ser vagarosa e despreocupada, do tipo “ganha-se pouco, mas é divertido”.

CRONTOS ou CÔNICAS por omar de la roca / são paulo

 

Atravessei a miniatura da Via Lactea, riscada de estrelas multicores esperando que uma delas passasse de raspão e levasse com ela esta dor de cabeça imensa.Fui garimpar um pouco de energia com o Pedreira.Aprendi que amigos são para isso mesmo.Um dia a gente apóia e em outro nos apoiamos.As pedras coloridas e a conversa me aliviam.Mas a dor esta forte e não consigo participar direito.Preciso pedir desculpas da próxima vez.Momentos preciosos de amizade não podem ser desperdiçados.Mas a cabeça lateja e lateja.Começou assim : Sai do prédio gelado e vazio,como um grande tumulo congelado.Fui andar ao sol.O sol que me encarou de frente e me fez buscar sombra acolhedora que não encontrei.Não é um longo caminho até o Pedreira e eu sempre vou com prazer.Espero que para ele minha presença seja tão bem vinda,tanto quanto eu gosto de estar lá.Mas não com dor de cabeça,que lateja,lateja.Estou aprendendo a observar mais.Aprendendo a olhar para cima,para a borboleta inexistente ,vendo o pássaro que não passou e vou registrando tudo ou quase tudo.Será que escreverei um conto? Uma crônica ? Acho que seria melhor escrever um cronto mistura de conto e crônica. Não uma cônica que me lembra formas geométricas.Todas diferentes,como as pessoas e as pedras.Lateja.No caminho querem pegar em minha mão,quase deixo para sentir o toque,mas a conversa que vem depois já conheço de cor.Continuo caminhando ao sol,que me ofusca e cubro os olhos para diminuir seu brilho.Ajuda,mas quem poderá ofuscar o sol ?As folhas de carvalho na pedra.Que eu sempre quis fotografar.Mas para que? Bonitas  sim,mas de uma inutilidade absoluta. Continuarão na pedra até que o prédio venha abaixo.Lateja,lateja.Passo pelas árvores que me cumprimentam e eu me curvo perante elas.Vou caminhando,mas devagar,que lateja. Já foram quatro comprimidos.E a dor que multiplica o sangue bombeando,latejando.Fechou o farol.Atravesso ainda com o sol no rosto,fazendo o possível para ignora-lo, mas ele não deixa. Precisei dar uma pequena corrida que uma moto não respeitou o farol.A cabeça explode.Vou andando devagar,preciso de energias boas.Energia das pedras coloridas.Muitas coisas me passam pela cabeça,vejo um pequeno jardim sem flores,sem grama.Um jardim?Ao menos me pareceu que era um jardim.Um pedaço de terra revirado.Sem uma planta sequer.Lateja.Ali,um jato de água tímido querendo vencer a queda e se lançar no espaço.E eu passo por ele esticando a mão para molhar a testa. Mas esta longe.E eu continuo pela praça quase deserta.Latej.Isto mesmo latej,esta melhorando,e eu me animo.Começamos a conversar e eu a tocar nas pedras.Lat,quase bem mas ainda confuso dos comprimidos.E falamos e falamos.Lateja forte.La.Chega a hora de ir embora.Quase bem agora.De costas para o sol volto a caverna fria.No caminho abro o guarda chuva para me proteger de minhas memórias mas num inacreditável movimento antigravitacional elas contornam a beirada do guarda chuva sobem pelas varetas e vão pingando sobre mim.Agora que cheguei,abro o Word.Palavras e mais palavras que quero brincar com vocês.L,quase bem.Mas com o gosto dos comprimidos na boca.Comprimo os lábios contendo o riso ao lembrar…Sacudo as gotas que a memória deixou em meu paletó e o penduro para secar.Quanto ao resto farei o que puder.” Serei sempre aquele que espera que lhe abram uma porta,ao pé de uma parede sem porta?” Ou um juntar e rejuntar de cacos que se unem e se desfazem todos os dias ? Tentando Se reinventar numa forma diferente, mais agradável talvez? Mas que nunca é deixado na estante,quieto como um bibelô? E se por acaso me esquecerem lá,saberei resistir a imobilidade , já que não fui feito para exposições? Agora sim,a dor passou.Nem mesmo um l minúsculo para registra-la. Mais uma vez chegou a hora de juntar os cacos.Sorrindo os apanho depressa coloco um aqui,outro ali,sem me importar muito se estão no lugar.Opa ! Um deles caiu e o apanho depressa apertando com mais força para ficar preso desta vez.E vou andando,feliz com meus cacos,esperando que não vejam as emendas que fiz no conjunto,procurando mostrar mais o lado azul da porcelana do que o branco onde as fraturas aparecem mais.Se doem ? Tanto quantas outras múltiplas coisas,como a mão que para no meio do caminho de um afago.Ou os braços que rejeitam um abraço.Os lábios que desviam.Mais cacos.E vou virando e revirando memórias para achar um pouco de cola e mante-los no lugar.

ANSELMO DUARTE por hamilton alves / florianópolis

Soube agora há pouco pelo noticiário da imprensa da morte de Anselmo Duarte, aos 89 anos, realizador de um dos maiores filmes no plano mundial, “O Pagador de Promessa”, tanto é que foi ganhador da Palma de Ouro, em Cannes, em que figuraram grandes atores, que competiu com filmes da repercussão e qualidade de “O anjo exterminador”, de Buñuel, o que, sem dúvida, enaltece ainda mais seu feito.

A notícia divulgada dá conta que Anselmo desde o dia 27 de outubro estava internado no Hospital das Clínicas em São Paulo para tratamento de problemas vasculares e outros, e recebeu alta médica para tratar-se em casa, quando veio subitamente a ser atingido por um AVC, que o matou nesta madrugada de sábado, 7 de novembro.

Além do prêmio em Cannes, que o consagrou como um dos melhores diretores de cinema do mundo, Anselmo assinou outros filmes, com um dos quais tentou concorrer à premiação noutro festival de cinema mas foi barrado pela má vontade que, de certa parte em diante de sua atividade de cineasta, acompanhou-o como uma praga. Não houve (entre notoriamente os cinemanovistas, tipo Glauber Rocha, Arnaldo Jabor, Cacá Diegues e outros) quem não quisesse questionar os méritos de
“O pagador…”, considerando-o de uma estética ultrapassada. Então estava em voga o cinema do autor ou da linha godardiana, que era apregoada como o modelo a seguir – ou “uma máquina na mão e uma idéia na cabeça”, que Anselmo jocosamente traduziu, em seu livro, “Adeus, cinema”, por “uma máquina na mão e merda na cabeça”.

O fato é que, no cinema brasileiro, bem poucas vezes realizou-se um filme da envergadura de “O pagador…”, ainda que as línguas ferinas (e invejosas) sempre tratassem de menosprezá-lo, não obstante a consagradora vitória num certame da importância do festival de Cannes e com cineastas concorrentes do valor do já citado Buñuel.

Nesse livro de Anselmo, referido, narra-se o que passou, em matéria de agruras, depois do triunfo em Cannes, os conflitos vividos, as incompreensões, que o deixaram na maior decepção frente ao fato de ter sido o ganhador de um festival da importância do que tinha participado e levado o prêmio. Os cinemanovistas, principalmente, nunca lhe perdoaram essa vitória, e trataram de enxovalhar, quanto puderam, a grande expressão artística, sob todos os aspectos, que merecera internacionalmente “O pagador de promessa”, que é, hoje, incluido no rol dos melhores filmes já produzidos no universo da sétima arte.

Se outro fato não fizesse por destacar Anselmo Duarte, por sua atividade de cineasta e também de ator de tantos filmes em que apareceu, a vitória em Cannes seria suficiente para guindá-lo a uma posição igual à de tantos outros grandes mestres do cinema.

Ave, Anselmo.

 

O CULTO CARREIRISTA por ” o ruminante ” / belém


Todos nós sabemos que hoje o mundo está cada vez mais corrido, caótico, competitivo e stressante. A velocidade dos acontecimentos e do fluxo de informações estão fazendo das pessoas escravas de tecnologias que até pouco tempo nem mesmo pensávamos ter. O que deveria nos beneficiar está nos trazendo mais sofrimento, pois hoje ficamos angustiados quando acaba a bateria do celular, quando não podemos acessar a internet, quando perdemos algum e-mail que era importante, além de muitas outras coisas.

Ao observar essas coisas comecei a analisar nossas vidas, valores e o que tem sido considerado importante nos dias de hoje. Logo no primeiro momento percebi que cada vez mais as empresas estão nos levando a crer que a carreira profissional é a nossa maior realização na vida, como se sucesso no trabalho fosse sinônimo de felicidade. Também pude notar que muito da tecnologia que temos é para trabalharmos mais rápido e sermos mais eficiente. Não consegui de deixar de pensar em alguns pontos, por exemplo:

  1. Telefone Celular: desde o ínicio de minha carreira não tenho um celular próprio, estou o tempo todo conectado a disposição da empresa, podem me ligar a qualquer hora, seja lá o que estiver fazendo. Temos um coleira eletrônica e por esta somos pagos para usar.
  2. Notebook da empresa: se a empresa lhe concede um computador portátil, pode ter certeza, é para você poder trabalhar em qualquer lugar. Não acredite que se a empresa lhe acrescentar no pacote um sistema de internet móvel via celular você vai estar com vantagens, a única garantia é que além de te ligarem a qualquer hora, você ainda vai receber tarefas onde estiver.
  3. Cursos Motivacionais: esse é um dos piores, pois com o tempo os empresários descobriram que é só falar ou fazer algumas coisas estimulantes aos empregados para obterem maior produtividade. Estamos sendo tratados como cachorrinhos em adestramentos, recebemos um agradinho, fazemos o truque e somos premiados com um biscoitinho.
  4. Livros de auto-ajuda: talvez pior do que os cursos, as empresas tem feito um marketing enorme sobre livros de liderança, motivação, mudanças e muitos outros assuntos que, no final das contas, só querem nos levar a dar mais de nossas vidas para eles.

Acredito que muitos podem vir a me interpretar como um preguiçoso que não quer trabalhar, ou até receber críticas de que eu estaria sendo influenciado pelo comunismo ou outras linhas de pensamento socialista, mas na verdade não é isso que me estimula a escrever.

Com as observações que venho fazendo, percebi algo: não damos mais o mesmo valor para nossos familiares e vida pessoal, damos o nosso sangue para sustentá-los, mas o que eles mais querem é que estejamos por perto, que possamos passear no praça ou praia com nossos filhos e conjugês. Pode não ser tão perceptível, mas estamos nos colocando em uma situação que somente nos sacrificando ao extremo podemos dar tudo o que nossa família talvez nem precise, deixando de fora o mais importante: pais, mães, maridos, esposas e filhos que são muito mais importantes.

Emprego, trabalho, carreira pode ser que traga felicidade para um indivíduo, desde que não seja por uma influência imposta pelo culto ao profissional, mas por um gosto pessoal, se isso lhe dá felicidade, seja feliz assim. Hoje nos está sendo imposta a idéia que o sucesso profissional é a realização de nossas vidas, mas será que ao final de tudo, quando olharmos para trás terá valido a pena deixar de brincar com nossos filhos? Será que agüentaremos a saudade de nossos pais que estão envelhecendo e abruptamente podem nos deixar? Não seria melhor aproveitar o máximo de nossas vidas com quem amamos? Ainda que tenhamos que viver de forma mais simples, acredito que eu sei a resposta, pelo menos para mim.

VOVÓS LOLITAS por sérgio da costa ramos / florianópolis

 

No imaginário popular, vovó sempre foi aquela velhinha encarquilhada de Monteiro Lobato, a Dona Benta, inimaginada como alguém proprietária de algum sex-appeal. Que não se choquem os pudicos, mas jantá-la… nem mesmo o lobo mau.

Pois esta imagem da avó “maracujá-de-gaveta”, enrugada como uma Alena Ivanovna, de Dostoievski, ou uma babuskha de Tolstoi, caducou ao talho do bisturi da modernidade.

“Toda mulher devia ter 14 anos”, proclamou, certa vez, o sociólogo-dramaturgo Nelson Rodrigues.

Na sua época, era impensável a beleza na idade meã, de 50 pra cima:

– Marilyn Monroe morreu dessa enfermidade terrível que é a beleza. E o que é mais sofrido: a beleza jovem.

Isso nos tempos em que os bichos falavam e Nelson vivia de escrever paradoxos. Hoje as vovós estão tão jovenzinhas e enxutas – para usar uma gíria antiga – que, de vez em quando, uma vovó dá à luz, com mais de sessenta e tantos. Em vez de vovós, são as “momós”… As vovós mamães.

Doutora Anna Aslan – a primeira grande geriatra – e as artes disseminadas pelo cirurgião plástico brasileiro Ivo Pitanguy fizeram milagres pelas vovós de hoje, que malham nas academias e se submetem a tratamentos ortomoleculares para conservar a carroceria sempre saudável – “com tudo em cima”, como gostam de dizer.

Já se desvaneceu aquele antigo horror das mulheres muito vaidosas, em briga permanente com a palavra “avó”.

As vovós precoces de antigamente só faltavam amordaçar os netinhos, para que eles não atirassem em sua direção o dissílabo fatal:

– Vovó!

Atrás de uma bola, alertava-se, sempre vinha uma criança. E atrás de um netinho, uma velhinha. Isso, antigamente.

Hoje, atrás de um netinho podem muito bem vir as atrizes Marieta Severo e Betty Faria, ou a empresária Lígia Azevedo – que acaba de chegar aos 65 com uma silhueta digna da “Receita de Mulher” do mulherólogo Vinicius: Que haja uma hipótese de barriguinha, mas que a mulher se alteie em cálice, e que seus seios sejam uma expressão greco-romana.

As vovós já não são aquelas velhinhas em cadeira de balanço, tricotando sapatinhos.

Elas curtem os netos, as netas, e até rivalizam com estas, usando calças três quartos, de cintura baixa e umbigo à mostra…

Marieta Severo confessa “alguns sustos” ao ser considerada “símbolo sexual” em plena maturidade:

– Acho que andam me confundindo com a Vera Fischer. Mas sou amiga dos amigos das minhas filhas porque sou muito animada. Acho muito engraçado ser considerada “uma gata” aos sessenta e “alguns”.

Mais do que cremes esfoliantes, as vovós gostosas precisam de “emoções”, ensina Marieta.

Como o olhar de um homem, torcendo o pescoço para reparar no seu “movimento de quadris”, a verdadeira revolução francesa do erotismo.

A verdade é que as Vovós Lolitas andam merecendo o nosso assobio. Até o quase pedófilo Vladimir Nabokov (Lolita) se apaixonaria por elas.

 

 

SÓ PARA ISSO, SÓ PARA TUDO, SÓ NOS INTERVALOS por zuleika dos reis / são paulo

Quando ouço alguém dizer que fulano nasceu só para isso, quase morro de inveja. Robert de Niro engordou quarenta quilos para interpretar O TOURO INDOMÁVEL. Carlos Vereza, que odiava cigarros, aprendeu a fumar quatro maços por dia para representar Graciliano Ramos na prisão, nos tempos do Estado Novo. São atores. Que mais poderiam ser?

Francisco de Assis conversava com os bichos. Chamava o Sol e a Lua de irmãos. Era santo, nada menos do que isso. Nada a fazer senão ser santo.

Dos navegadores portugueses Fernando Pessoa aprendeu o mote “navegar é preciso, viver não é preciso” (existem outras versões sobre os verdadeiros autores do referido mote, o que não vem ao caso, no presente momento) e seguiu-lhe, à risca, na linguagem, a rota de navegações sem descanso. Era poeta. Nada a ser senão poeta, e apenas isso. Se tivesse casado com a filha de sua lavadeira ai, pobre dela, a filha de sua lavadeira!

Há, em contraponto, os que nasceram para tudo e se contentam com isso. Os antropófagos. Os opíparos. Dormem em todas as camas e sobre todos os corpos; provam dos mais incompatíveis e inconcebíveis manjares; trabalham como  escafandristas desde o Mar Morto até ao Mar Vermelho; trazem no bolso  receitas para a cura de cada um dos males do mundo, tanto quanto para a cura do próximo mais próximo; portam sempre algum isqueiro para fumantes (a mais recente espécie de criminosos surgida nas ruas de São Paulo) que precisem infringir a Lei que proíbe o fumo em recintos públicos e fechados.Enfim: nenhuma escolha senão ser múltiplo.

Há, por fim, os que só acontecem nos intervalos. Nos intervalos entre os noticiários crêem no Futuro. No brevíssimo intervalo entre as dívidas assimilam novas necessidades de consumo. No intervalo entre silêncios sem sentido escrevem poemas os quais, por um segundo, consideram perfeitos. No intervalo entre pânicos

ensaiam grandes gestos de coragem que começarão a praticar na próxima segunda-feira (Como algum novo regime alimentar para perder vinte quilos).Nos intervalos entre ceticismos absolutos convencem os outros de verdades insofismáveis. Nos intervalos… arrumam as malas para partir mas jamais partem.

Assim, os que nasceram só para isso; os que nasceram só para tudo; os que só acontecem nos intervalos. Nada a dizer dos grandes BURACOS NEGROS.

VOAR NAS ASAS DE UM POEMA de hamilton alves /florianópolis

Costumo dizer que, de quando em vez, vôo nas asas de um poema meu. Ocorre em determinados dias em que estou mais propenso a essa acrobacia. Não é, pois, sempre que isso acontece. Há que ter fatores propícios para possibilitar essa manobra do espírito. Ou uma perfeita sintonia com o teor do poema, que tem que combinar, por exemplo, com a cor do dia, se faz sol ou sombra, se venta e que tipo de vento, se norte ou sul, se encontro determinados tipos de pessoas, que estimulam esse processo ou o alimentam de qualquer modo ou ainda a cor do mar preponderante ou se revoltoso ou calmo – tudo isso me permite ter mais ou menos sucesso na prática desse salutar esporte. No sábado passado, encontrei o clima propício ao vôo com o poema que segue:

“As ondas batendo

Nas rochas dizem:

– efêmero! efêmero! efêmero!

As nuvens no alto

Seguem o mesmo estribilho:

– efêmero! efêmero! efêmero!

As gaivotas grasnando

Como que ensandecidas

Entoam idêntico cântico:

– efêmero! efêmero! efêmero!

O vento que sopra

Uivando feito lobo

Faz coro a tais vozes:

– efêmero! efêmero! efêmero!”

Dois peritos em poesia fizeram uma rápida abordagem sobre esse poema. Um me disse que, se excluísse os terceiros versos da terceira e quarta estrofes, o poema ganharia em beleza ou talvez em harmonia ou estaria mais bem expresso; outro opinou de forma diferente, alegando que, se fizesse essa operação, sugerida pelo primeiro, o poema desabaria na sua estrutura ou na sua expressão mais bela.

O caso é que, no sábado passado, como dito, voei nas asas desse poema (como outros tenho conseguido esse mesmo objetivo). Essa discussão, que se travou entre dois ledores, críticos de literatura ou conhecedores profundos de poesia, pouco pode ser por mim considerada, haja vista que estava entretido a visualizar a paisagem em volta.

Não há experiência, na verdade, mais interessante e divertida do que voar nas asas de um poema de que se gosta. Ou de alguma forma se aprecie. É uma forma inesquecível e inexprimível de giro por aí.

Rumorejando (A chegada da estação primavera em Curitiba ainda aguardando). – por juca (josé zockner)

PEQUENAS CONSTATAÇÕES, NA FALTA DE MAIORES.

Constatação IJUCA - Jzockner pequenissima (1)

Rico é aristocrático; pobre, é metido.

Constatação II

Rico é pragmático; pobre, é lunático.

Constatação III

Vai começar o debate,

No horário político,

Terrível e execrável,

Eivado de duvidança

E desesperança.

Prepare-se para ouvir disparate

E argumento nada analítico.

Bem melhor ouvir criança

Incluso na linguagem tatibitate.

Constatação IV

Rica tem o rei na barriga; pobre, todo ano, um filho.

Constatação V

Depois da vitória de Rubinho Barichello, em Monza, o piloto brasileiro, por quem a gente torce e sofre, afirmou e reafirmou que o momento é manter o pé no chão. Data vênia, como diriam nossos juristas, mas Rumorejando acha que é importante manter o pé no acelerador. A propósito das poucas vitórias de Rubinho, vale lembrar que Arquimedes proferiu: “Dai-me uma alavanca e um ponto de apoio que eu moverei o mundo”. Pelo jeito, Rubinho poderia dizer: Dai-me um bom carro na Fórmula 1 que eu serei o campeão do mundo…

Constatação VI (De um estulto perfil).

Era um borra-tintas,

Um exímio sarrafaçal*,

Metido a dar fintas.

Um insigne boçal.

*Sarrafaçal = “1. indivíduo inútil, preguiçoso”.

2. “profissional inapto” (Houaiss).

Constatação VII (Teoria da Relatividade para principiantes).

É muito melhor o nosso time fazer um gol com a mão e o juiz validar, ainda que a gente fique morrendo de vergonha, do que o nosso time sofrer um pênalti e o juiz não marcar.

Constatação VIII

Não se pode confundir barulho com baralho, muito embora no jogo de truco que é jogado com baralho e que onde este assim chamado escriba não encontra adversário, quem faz muito barulho, às vezes, ganha o jogo…

Constatação IX

O detetive

Particular

Contratado

Pra seguir

E flagrar

Um marido,

Acostumado

A desmando,

A trair,

Levou

Azar:

Desligado,

Ficou

Caído,

Ferido

Quando

Escorregou

Num declive

E tropeçou

Num aclive.

Coitado!

Constatação X

O posudo,

Em baixa, estava.

E se achava

Sortudo

E que tava

Com tudo.

Constatação XI (De um pseudo-soneto).

Apresentou uma lista pra ele

Ele ia ter que dormir no paiol

E que ela não era seu lençol

E que não tinha pena dele.

Ele ficou muito triste e azedo,

Dormir naquela espécie de macega

Ali, seria difícil um esfrega-esfrega,

E viu que era sério, não era brinquedo.

Foi consultar uma benzedeira

Dizendo que teria de ficar no estaleiro

E desfilou sua choradeira,

Como era época de nevoeiro

Poderia pegar um resfriado

E que tal jamais acontecera com algum seu antepassado.

Constatação XII

Foi a tartaruga

Mesmo afrouxando o passo,

Que chegou ao destino

Com o sol a pino,

Na casa do namorado

Cansada,

Cheia de ruga,

Um bagaço?

Coitada!

Coitado!

Constatação XIII

Quando meu celular me chama, eu já sei quando é a minha sogra que está chamando. O celular não tilinta, nem vibra. Ele vocifera, esbraveja, impreca, rosna.

Constatação XIV

Pela intenção do Brasil de comprar aviões de combate na França, sem levar em conta as ofertas da Suécia e dos Estados Unidos, o nosso país contaria, dentre outros, com o apoio daquele país para o Brasil fazer parte do Conselho de Segurança da ONU. Este negócio do Brasil ser membro do Conselho de Segurança me deixa numa dúvida crucial que me faz relembrar com o seguinte fato, já contado na coluna: Em 1970, este assim chamado escriba estava estagiando na França, mercê de uma bolsa de estudos, oferecida pelo governo francês. Aproveitando as curtas férias nas festas de fim de ano, resolvi conhecer Londres. Chegando a este país, me dirigi às informações turísticas, em busca de um hotel barato. À atendente, com cara de enfastiada, perguntei: “Do you speak french?” O francês era minha língua estrangeira mais fácil para me fazer compreender e entender. E ela, me olhando de alto a baixo, com desprezo: “What for?” (Para quê?)

Constatação XV

Com relação à constatação anterior, talvez a gente esteja por fora. Quando o presidente Lula disse, no dia 7 de setembro, que o Brasil vai comprar os aviões da França ele, apenas, tão-somente, queria impressionar a mulher do presidente Sarkozy, madame Carla Bruni, que pelos seus dotes merece os encômios respeitosos de todos.

Constatação XVI

Rico é agradável; pobre, censurável.

POLANSKI por hamilton alves / florianópolis

Roman Polanski, o cineasta de tantos filmes que marcaram época e se constituem alguns deles clássicos do cinema, como, só para citar alguns, Chinatown, O bebê de Rosemary e outros, vem de ser preso, quando chegava num dia desses ao aeroporto de Zurique, por ordem da justiça americana, sob a alegação de que tivera relação sexual com uma menor.

O crime foi cometido em 1977. Há, portanto, 32 anos.

Para qualquer justiça de país civilizado, esse crime não poderia provocar mais qualquer tipo de efeito contra o infrator por se lhe aplicar a figura da prescrição, pelo qual o Estado não tem mais interesse em punição (nem pode moralmente aplicá-la) pelo decurso de certo tempo previsto nas legislações penais desses países.

Será tão caduca assim a legislação penal dos EUA, que lá não se aplique idêntico preceito?

Ou será o crime sexual contra menores imprescritível por aquelas bandas?

No Brasil, não há exceção pela natureza do crime para efeito de prescrição, que eu saiba.

O efeito retardatário da pena apresenta-se, à primeira vista, como uma coisa anacrônica. É evidente que, no decorrer do tempo prescricional (assim fixado expressamente na lei), o infrator mudou a forma de ver as coisas, regenerou-se ou passou por uma transformação moral ou psíquica, arrependeu-se ou qualquer coisa dessa ordem, que sugere que a pena por um crime passado não tem mais sentido. Ou perdeu a razão de ser ou de sua aplicabilidade.

A adotar-se tal medida, a imprescritibilidade da pena, resulta que o infrator de um crime (ou infração) nunca deixará de ser perseguido pela justiça, mesmo que o decurso do tempo lhe tenha produzido profunda modificação no comportamento. Ou outro seja seu padrão moral. Ou tenha havido substancial mudança em sua índole ou conduta.

O processo estará em seus calcanhares até que a pena seja aplicada, mesmo que, como o caso de Roman Polanski, os efeitos ainda durem depois de 32 anos de ter praticado o delito pelo qual fora imputado.

O que, a bem dizer, é uma velharia da lei penal dos EUA, em descompasso com as demais legislações de outros países, como o Brasil, por exemplo, em que, no caso, a pena há muito teria prescrito. A não ser que na legislação americana (o que não ocorre com a nossa) haja determinados tipos de infrações imprescritíveis, como será a de manter congresso carnal com uma menor, de cujo crime é imputado o cineasta.

Mas como quer que seja, após 32 anos, nenhuma pena pode ser sensatamente aplicada a um infrator, independentemente da natureza do crime, pois o processo de erosão do tempo sobre os efeitos da pena se operou, a contra-indicar que o Estado ainda revele interesse em sua adoção.

O caso que agora se dá de prisão de Roman Polanski, que tem uma série de grandes filmes em seu currículo (o que não o isentaria de responder por um crime, fosse qual fosse)

é revelador, antes de mais nada, do desatualização da legislação penal americana. O que é, em última análise, de provocar pasmo.

DO TREINADOR E DO HERÓI por jorge lescano / são paulo


Domingo é o dia em que Deus perdeu a imaginação

então o homem criou a bola.

Livro das Cinzas e do Vento; 11-10

Aconteceu no Monumental de Núñez, impressionante construção capaz de abrigar mais de 80 mil almas, embora naquele domingo vastos setores das tribunas se vissem despovoados. Disputava-se a justa entre Argentina e Peru pelas eliminatórias da Copa do Mundo de 2010, o vazio era conseqüência da péssima campanha da seleção local. Esta ganhava por um gol a zero, o que lhe permitia sonhar com a participação na fase final do certame na África do Sul. O jogo parecia estar decidido. O time peruano não queria voltar para casa derrotado, apesar de já estar fora da competição tentava recuperar a honra nacional, perdida em Rosário em 1978 (Argentina 6 Peru 0).

No estádio todos lembravam do primeiro jogo desta edição em Lima. Argentina ganhava um a zero e a partida estava no fim quando, naquela que viria a ser a última jogada, na ponta esquerda peruana alguém recebe a bola sozinho e como se fosse salvar a mãe da forca dispara que nem foguete tumultuando a defesa argentina. Ao chegar à metade da profundidade da área, ainda fora dela, fez uma pequena curva rápida com a bola colada no pé. A confusão de corpos não permite lembrar se ele ultrapassou a linha de cal, o fato é que chutou com potência e precisão provocando o delírio peruano. Para desespero dos argentinos a bola penetrou no ângulo inferior direito do gol. O juiz apitou duas vezes e apontou o centro do campo com os braços esticados. A TV mostrou rostos congestionados, bocas escancaradas, olhos arregalados, punhos em alto. O Peru estava apto à classificação e mais, mantinha-se invicto em seu território. Esta foi a última partida do Louco Bielza à frente do time argentino.

Agora Diego Armando Maradona não convence como técnico, a imprensa o ataca impiedosamente, os torcedores misturam sua vida pessoal ao trabalho em campo. Oitenta jogadores convocados e um time diferente em cada disputa, assim ninguém se conhece. Era como se um general quisesse avaliar cada um dos seus soldados individualmente para depois definir sua estratégia de combate. Imperícia! Não faltava quem maldosamente afirmasse que sendo Maradona o técnico não faltaria craque na seleção. A calúnia iguala políticos e treinadores. Como os políticos, don Diego se deixa levar pelas palavras, seus discursos ficam difíceis de contornar. Antes da desastrosa derrota contra a Bolívia (6 a 1) havia dito que a altura de 3600 metros de La Paz não seria fator decisivo na partida, tal afirmação descartou a única desculpa do vexame, segundo com esse resultado na historia do futebol argentino. A primeira foi em 1958, na Suécia, contra a Tchecoslováquia. Curiosamente os goleiros de ambas derrotas tinham o mesmo sobrenome e jogavam no mesmo time, Carrizo e River Plate, respectivamente. Nos anais do futebol boliviano esta foi sua maior vitória, para os argentinos a pior derrota; levar goleada da Tchecoslováquia há meio século, vá lá, mas da Bolívia, depois de dois títulos mundiais!… A torcida argentina pedia em altos brados o afastamento de Maradona, já os torcedores brasileiros achavam injusta a medida depois das alegrias que o ex-craque deu ao Brasil nestas eliminatórias. Os brasileiros esquecem que a torcida argentina teve oportunidade de gritar o nome do Dunga em partida memorável. A coisa pode extravasar do continente se a esquadra albiceleste sair desta enrascada.

Tais os antecedentes da atual disputa em Buenos Aires.

Aos dois minutos do segundo tempo Higuarán abre o marcador para os argentinos. Aos catorze minutos começa a chover. Aos vinte o ataque peruano perde um gol com impedimento não marcado. Aos vinte e sete a chuva aumenta. Os dois técnicos recusam as capas e gesticulam como fantasmas na névoa formada pela água nas lentes das câmeras. Aos trinta minutos a ventania balança as câmeras e seus operadores. O time argentino se encolhe. Ataca esporadicamente. Aos trinta e dois minutos o vento conspira contra o time albiceleste, joga-se em meio ao dilúvio. A torcida canta, vocifera, ruge.

Faltavam dois minutos para completar o tempo regulamentar. Argentina 1 Peru 0. Rajadas de oitenta quilômetros por hora criavam redemoinhos no centro do campo atirando a bola a esmo, independentemente da vontade dos jogadores. A torcida argentina orava pelo término da partida, os peruanos queriam operar seu milagre. Este ainda poderia acontecer pois o juiz determinara mais três minutos de tempo suplementar. Estava-se no quadragésimo quarto minuto, o peruano Rengifo cabeceia e gol. Gol-Gol-Gol! Argentina 1 Peru 1. Cruéis, os sinos da derrota dobram a finados, a seleção argentina pode se despedir da Copa, os peruanos deitam e rolam na piscina improvisada, comemoram como se fosse o título mundial.

O temporal redobra sua fúria vingativa, talvez desesperada. Nesse palco trágico, aos quarenta e sete minutos, Martín Palermo, que entrou no segundo tempo, parcialmente restaurado da hemorragia nasal que o havia proscrito por alguns minutos além das fronteiras do campo da batalha, com um chumaço de gaze ensangüentada a pingar da narina direita, sob a inclemência dos elementos que empanavam os olhos da multidão, surge do tumulto dentro da pequena área peruana e com um toque sutil corrige a trajetória da bola lançada do outro extremo da grande área, a esfera, obediente ao desígnio do herói, penetra nas traves adversárias, no mesmo lugar do gol peruano em Lima. O momento é de epifania. O herói desnuda o torso na comemoração pagã desafiando a intempérie e o regulamento, nas arquibancadas gritos, risos, lágrimas, mãos juntas em agradecimento ao criador; o druida Maradona mergulha no gramado. A chuva não diminui, antes aumenta, raios e trovões somam-se à comemoração pátria. O jogo continua, para desespero dos jogadores, da comissão técnica, da torcida argentina encharcada no estádio e daquela parcela que optara por acompanhar o provável desastre pelo rádio familiar.

Os peruanos não se rendem e colocam em perigo o reduto argentino. Os deuses autóctones e os do futebol disputam o tempo, Cronos, impassível, rege no pulso do juiz. No minuto que resta ainda cabe uma segunda bola na trave argentina e a dúvida sobre uma irregularidade em sua área. Pênalti?! Agora? Com o céu a desabar sobre suas cabeças? O árbitro apita e assinala o círculo central, um imenso suspiro acompanha seu gesto. Palermo e Maradona choram abraçados. Argentina está salva até a próxima quarta-feira, em Montevidéu.

Alguma rua da cidade será rebatizada com o nome do herói, epónimo do herói popular criado por José Hernández – Martín Fierro?  Antecipando a imortalidade já existe em Buenos Aires um bairro com o seu sobrenome, até parece que a vida copia o esporte. Martín Palermo, o homem que pode ter feito a Argentina ressurgir de suas cinzas é o mesmo que dias antes garantira sua celebridade ao marcar um gol de cabeça do meio do campo, em jogo do Boca Juniors contra o Vélez Sarsfield.

Quarta-feira 14 de outubro de 2009, aproximadamente 20h50, horário de Brasília. Aos 35 minutos do segundo tempo Argentina e Uruguai empatam sem gols no Estádio Centenário. Um jogador uruguaio é expulso por cometer falta grave contra Gutiérrez. O jovem Messi cobra lançando sobre a pequena área. Depois de um bate-rebate, aos 39 minutos, o volante Bolatti, que estréia na seleção, coloca a gorduchinha no fundo do ninho e entra para a história. A sorte está lançada: Uruguai disputará a repescagem contra Costa Rica, Argentina carimba seu passaporte para o continente negro. Don Diego dedicou a classificação a todos os argentinos, menos os jornalistas. O próximo capítulo será na África do Sul, resta saber se os protagonistas serão os mesmos.

É possível ainda duvidar das alternativas do heroísmo? Talvez o herói contemporâneo não seja apenas o conquistador de postos de chefia nas empresas multinacionais nem o consumidor classe A. Talvez herói seja aquele que os povos admitem como tal.

A CARA DA OSTRA – por sergio da costa ramos / florianópolis

SÉRGIO DA COSTA RAMOS 1A Feira da Ostra começa, mais uma vez, a provar aquela verdade gastronômica, segundo a qual o feio pode, muito bem, ser o gostoso. Cá pra nós, como dizem os manezinhos e olhando bem uma ostra na sua cara , com uma franqueza que descreva só a aparência, não o sabor:

– É bicho feio…

Digamos que o molusco, mais uma vez na vitrina, com a inauguração da Fenaostra, mereça a defesa apaixonada de algum apaixonado gourmet – e que esse admirador sustente gloriosa argumentação, contra os impropérios de algum serrano adepto das carnes vermelhas, tão irresistíveis, mas nem sempre belas para o sentido da visão.

– A ostra – começaria o fã das conchas premiadas – é um coquetel de proteínas maravilhoso. Um verdadeiro e saudável “drinque do mar”…

O lageano, bom bebedor, já se animou:

– Se é bebida…

– A ostra é um organismo vivo e, pode crer, é “hermafrodita”, traz lá no seu epicentro os dois sexos ao mesmo tempo – e por isso se autofecunda.

– O quêêê!? Come a si mesmo?

– É um ser do mar, que se nutre do plâncton. É um presente de Deus, um organismo vivo. Uma “bebida” vital. Nunca comeste uma ostra na vida, homem de Deus?

– Já fui apresentado… Mas tem aquela gosma esbranquiçada e, no meio, uma crosta escura.

– Tem estômago e intestino, é verdade. E um coração, cujos batimentos se pode observar.

– Barbaridade! Prefiro uma picanha, uma maminha, até um matambre! Pelo menos o bicho tá morto e assado! Quem é que gosta de comer o intestino dos outros? Como o caracu, o miolo do boi, o rabo ou o pé de porco. Mas intestino?

– Não se preocupe. Até chegar à sua boca, bem lavada, é mais pura do que água filtrada. Uma concentração de hormônios e vitaminas. Melhor Viagra não tem! Caracu e pé de porco é pra baixo! Ostra é pra cima!

– Sei não. Só de olhar uma já me dá um negócio aqui no grugumilho. Já não me arrisco a ir com a, digamos, Letícia Sabatella, pr’um Motel…

– Pois vá sem medo. E ofereça ostras pra ela. Dará uma prova de sofisticação e bom gosto. Leve umas ostras Bienville. Ou uma Rockfeller. Levanta até defunto. Quando houve uma crise de escargots nos EUA, anos 1920, os ricos e famosos adotaram a Rockfeller em Nova York, fartando-se de ostras do Maine na Central Grand Station.

– Prefiro viajar para o Texas e comer uma costela de zebu. Um baby-beef mal passado. Ou uma picanha ao ponto, pra lá de buena!

– Pois é. É por essas e outras que o mundo está ficando obeso. É a gordura da carne animal. As ostras têm calorias, sustentam, mas não dão barriga. E fortalecem os músculos! Principalmente “aquele”!

– Estou quase tentado a provar… Como é que se come esse bicho?

– Dez mil maneiras. Cozida em ensopado, como moqueca. Ou frita, grelhada, temperada com ervas, alho e azeite de oliva. Mas a minha preferida é a “natural”. Cruinha. Em cima de um colchão de gelo, pingada no suco de limão. E regada a um vinho branco Muscadet, geladinho. Melhor do que isso, só “aquilo”!

ACOMPANHE O RITMO DO DIA por eloi zanetti / curitiba

Quando gostava de usar gravatas, mantinha um estoque de umas duzentas e cumpria um ritual todas as manhãs. Após o banho e a barba, ao me vestir, ia à janela e olhava para o céu, para o tempo e conforme eu me sentia no momento, escolhia a gravata do dia. Dava sempre certo. Havia gravatas para dias escuros, primaveris, ensolarados, tristes, festivos e, principalmente, para os dias de grandes momentos. Hoje já não uso mais gravatas com tanta assiduidade, elas ficam esperando, quietinhas, acho que até suplicando, me use, me use. Aquele era um ritual bom, pois me ajudava no ajuste do dia a ser vivido, uma espécie de pontapé inicial da jornada. 

Os romanos tinham uma frase sábia sobre os dias: carpe diem – que quer dizer aproveite o dia. Poucos de nós sabemos viver com sabedoria os dias que temos pela frente. Ficamos enclausurados em reuniões, amuados por questões mesquinhas, de beiço caído porque brigamos com a mulher, amargurados por desejos não realizados ou pressionados por compromissos inadiáveis. O tempo vai passando e a soma dos dias acumulados para trás vai se tornando maior do que a soma daqueles que ainda temos a viver. Quem sabe? 

Percebi que com os dias o trato tem que ser o seguinte: adapte-se ao ritmo apresentado, não queira forçar a barra, porque não vai dar certo. Para os dias lentos e agonizantes puxe o freio de mão e vá devagar. Para os dias de sol, saia para o jardim, dê um passeio com o cachorro, cuide das plantas, vá buscar as crianças na escola. Para os dias chuvosos, fique mais introspectivo, vá ler um livro ou simplesmente dormir. Para os dias de outono, olhe para o céu, curta o calorzinho da tarde e encante-se com as cores do poente. Para os dias escaldantes, alimente-se de maneira frugal, durma depois do almoço e não saia na hora de maior calor. Para os dias tumultuados, não entre em pânico, fique na sua, observe o burburinho do seu canto e procure não tomar parte dele. Para os dias apressados, acompanhe o ritmo, corra, despache, mas se mantenha dono da situação. Para os dias tristes e melancólicos, entre na tristeza e curta a melancolia. E, como dizem os caboclos, para os dias aziagos, aqueles em que nada dá certo, em que tudo é azar, tenha paciência, não faça mais nada, sente e espere o dia findar. Avançar o sinal será uma péssima ideia. E para os dias de sorte, abuse dela, porque a deusa da fortuna deve estar olhando para você neste momento, se puder jogue na Mega Sena. 

Assim é a vida, tudo tem a sua cadência e nada tem mais ritmo do que um dia depois do outro. Eles sempre foram assim e assim será por todos os séculos e séculos, amém.


* Eloi Zanetti é publicitário, escritor, palestrante e consultor de marketing e comunicação.

Quem Cortou o Meu Queijo* – por “o ruminante” / belem


Me diz uma coisa, você já teve a oportunidade de ler o livro infantil “Quem Mexeu No Meu Queijo” de Spencer Jonhson? Se leu acredito que percebeu que este clássico da auto-ajuda menospreza totalmente nossa inteligência. Caso não tenha lido, vou te passar a mensagem de forma respeitosa: Mudanças podem ser positivas, quando algum panorama estiver alterando, procure alternativas para seu dia-a-dia, não fique preso a conceitos arraigados que não te permitem ver novos horizontes, você precisa se adaptar. Pronto não precisa mais ler o livro. Tudo bem, eu sei que tem mais detalhes, mas não vale a pena perder tempo com isso.

Conforme um resumo bem básico que achei na internet, o conto ocorre com essa base:

“Os quatro personagens imaginários descritos nesta história os ratos: Sniff e Scurry, e os duendes: Hem e Haw – tem a intenção de representar as partes simples e complexas de nós mesmos, independentemente de nossa idade, sexo, raça ou nacionalidade.

Às vezes podemos agir como Sniff que percebe a mudança logo, ou Scurry que sai correndo em atividade, ou Hem que rejeita a mudança, resistindo-lhe, assim como teme que ela leve a algo pior, ou Haw que aprende a se adaptar a tempo, quando percebe que a mudança leva a alguma coisa melhor !

Quaisquer que sejam as partes de nós que escolhemos utilizar, todos nós dividimos algo em comum: a necessidade de encontrar nosso caminho no labirinto e ser bem-sucedido em períodos de mudanças.”

A mensagem do texto nos é apresentada como uma estórinha para criança, por isso fico chateado com esse tipo de literatura, pois trata as pessoas como se elas não tivessem crescido. Não é que o autor esteja errado em sua opinião (pode até ser que esteja), só não gosto da forma como é passada. Com toda sinceridade, se é para utilizar este livro, eu usaria para ensinar minha filha (nem fudendo), jamais para um adulto.

Não entendo a razão de tanta alarde sobre este livro, pois a mesma mensagem poderia ser passada de forma bem humorada e direta, com exemplos práticos de nossa vida. Se alguém precisa de contos infantis para entender uma mensagem como essa, me desculpem, mas tem algo errado com essa pessoa.

Vocês precisam de um livro para ajudar a entender como se comportar diante de uma mudança drástica e necessidade de adaptação? Leiam “Robson Crusoé” de Daniel Defoe. Um texto inteligente e muito mais interessante que dois duendes e dois ratinhos. Pode ter certeza que você tem senso crítico para ler este livro e encontrar lições para lidar com as mudanças de seu dia-a-dia.

* Só um pequeno desafio (muito pequeno mesmo): a primeira pessoa que explicar corretamente o trocadilho que fiz com o título no post em referência ao título do livro ganha um exemplar de Robson Crusoé. Eu mando direto para casa do vencedor, é garantido!

HOJE É DIA DE CECÍLIA por zuleika dos reis / são paulo

Cecília era um passarinho quieto; de repente, ei-la pássaro canoro. Cecília ouvia-me histórias, agora sonha contá-las, ela própria, para as crianças. Outras histórias, por certo, com heróis e vilões, bruxas e fadas, início, meio e fim, final feliz. Cecília sabe que os olhinhos surpresos, arregalados, em suspenso, têm direito sempre a um final feliz.

Cecília estuda Pedagogia. Está no 1° semestre, mas se sente estudando há séculos. Já é líder em seu grupo, também na classe. Já se dá conta dos custos-benefícios de ser líder.

Ouço a chave na porta. Cecília entra. Hoje não é dia de faxina nem de forno: hoje é dia de Cecília. É bem verdade que, mal chegando da Faculdade, só teve tempo de beber um copo d’água antes de sair de novo, para acompanhar a mãe ao Mercado. A pé, e entre a casa e o Mercado, há uma ladeira… quê ladeira! É verdade também que ontem, até a madrugada, Cecília esteve a construir brincos e anéis, todos lindos, todos disputados. Cecília sabe muito de tudo, jamais teve por hábito hierarquizar tarefas, essencialmente quando se trata de servir aos outros.

Mas, não nos esqueçamos: para além das variáveis, hoje é dia de Cecília. Seus olhos brilham ao contar que o trabalho sobre Literatura Infantil foi tão bom, que até o professor, via de regra impassível, aplaudiu de pé. De pé, imaginem só! Cecília vibra enquanto conta. Percebemos ambas, que seu grupo e a classe toda vão aprendendo e crescendo com ela, com seu entusiasmo. Cecília é puro entusiasmo, um deus feliz lhe habita a alma, os gestos. É fácil imaginá-la contando histórias às crianças, despertando nelas não o hábito – hábito é escovar dente, dormir cedo, cumprir tarefa… – mas a paixão pela leitura, coisa muito diferente.

Enquanto olho Cecília, enquanto a ouço, revejo uma de mim, apaixonada também, apaixonada assim. Quantas maluquices fazíamos juntos, eu e meus meninos! Quando a aula não estava boa, todos gritavam, em coro: “Canta, Ana! Canta!” A aula se interrompia, Ana cantava, eles aplaudiam e logo nosso coral se erguia na sala de aula. Isso tudo se passou noutro século, noutro mundo.

Sinto que o Milagre é possível. Todos os dias muitos morrem, nascem outros tantos. Tudo está sempre pronto para uma Nova Ressurreição.

E A CRÔNICA SE FOI! por hamilton alves / florianópolis

Não sei atribuir a que motivo, acordei hoje e logo me deparei com um tema que poderia bem aproveitar para uma crônica.

Na vida de um cronista (ou de um poeta) a inspiração ocorre num repente, oriunda não se sabe de onde.

Não tomei nota do tema (poderia fazê-lo, se fosse mais cuidadoso); nunca o faço; deixei para tratá-lo depois do desjejum.

Um pouco depois, quando me sentei diante do computador para desenvolvê-lo, cadê o tema. Tinha se esboroado sem deixar um único vestígio.

Por mais que, ainda agora, me esforce para recuperá-lo (e se tratava de um bom assunto para explorar em lauda e meia digitada – ia dizer datilografada – lá se foram os bons tempos da máquina de escrever, da qual de vez em quando lanço ainda mão), tudo resulta baldado.

A solução é me conformar, embora sinta muito pesar de não me lembrar dele, que ficará sepulto para  sempre na minha memória. Podia ser uma boa página de crônica, quem sabe lá?

Ocorreu o mesmo fenômeno com o poeta Manuel Bandeira, certa vez. Como conta em seu livro “Itinerário de Pasárgada”. Só no caso dele aconteceu não com uma crônica, no que ele era bom também, mas com um poema.

Estava em determinado local quando subitamente um poema se desenvolveu em sua mente por inteiro, do primeiro ao último verso. Vasculhou os bolsos atrás de um toco de lápis e de um pedaço de papel; não os encontrou para seu desespero.

Perguntou a uma pessoa, que por ali passava, naquele momento, se podia lhe conseguir um mísero instrumento de escrever, qualquer que fosse; nada.

Bandeira saiu esbaforido em busca de um lugar onde encontrasse o tal lápis ou outro objeto que lhe permitisse dar corpo ao poema.

Finalmente, num bar (ou em outro lugar semelhante) encontrou o tão desejado lápis (nem era lápis, era uma caneta esferográfica). Mas decepção das decepções. Era tarde demais. Assim como o poema se compôs inteiro em sua mente, desapareceu como uma nuvem ou um sonho.

Ficou certamente supondo que aquele teria sido um de seus grandes momentos como poeta, que se perdera ou ficara no ar com sendo algo que se tornou de beleza sem igual (um poema abortado na mente).

Assim aconteceu-me com a crônica, que, igual ao poema de Bandeira, nunca virá à luz. E constituirá um motivo de amargura ou frustração.

Rumorejando (Pelo jeito que o futebol está se caracterizando, quem fizer mais falta é que ganha a partida?, perguntando) – por juca (josé zokner) / curitiba

O terror que matura

I

Oriunda de respeitável progenitura:

A mãe, professora de corte e costura;JUCA - Jzockner pequenissima (1)

O pai, escriturário na magistratura,

Era, ela, uma formosura,

Uma pintura,

Digna de figurar numa gravura,

Ou numa xilogravura,

Daquelas com moldura,

Trabalhada em artística ranhura.

Mediana estatura,

Cabelos pretos, sem tintura,

Dentes, perfeitos, uma alvura;

Sorriso, sem amargura,

Franco, aberto, uma quentura;

A mirada, uma brandura,

Muito límpida, muito pura,

De olhos de jabuticaba, uma pretura;

E um poço de ternura!

Ah! E a cintura!

Parecia duma tanajura…

Educação, nem falar. Que finura!

Dada a não pouca leitura,

De sutil e elevada literatura,

E um dedilhar, sem partitura,

Além de se dedicar à feitura

De origami, de dobradura.

E, no jardim, à floricultura,

Onde, às vezes, ouvia o canto da saracura.

II

Ele, era só feiúra,

Como uma caricatura.

Duma lividez, duma transparente brancura

Num monte de ossatura

Como se filho fosse de alguém de média estatura,

Mas de não muita largura.

E do Cavaleiro da Triste Figura

Àquele que, até com moinhos, mostrou bravura

Não tendo como vestidura

A respectiva armadura.

Além disso, morando numa lonjura.

E, mais, um escrachado caradura

De péssima postura,

Ou melhor, somente impostura:

Noites a fio, jogava, com fundura,

Em busca de fácil fartura;

À mão, um copo daquela bebida de lúpulo, de levedura

E um eterno cigarro, alterando, dos lábios, a comissura.

Receitas, infalíveis, de fazer estrago em qualquer criatura.

Tal proceder, sem dúvida, merecia ampla censura.

Não confundir com àquela do tempo da ditadura,

Quando até se usou a indefectível tortura,

Nos governos da chamada linha dura,

Bem antes do que se convencionou chamar Abertura.

O salário, parco, da Prefeitura,

Dum trabalho que exercia com sinecura,

Na base de quem não se apura,

Obviamente, redundava numa apertura.

As dívidas, não poucas, proveniente de mordedura,

Mesmo que firmadas numa caprichada escritura,

Fatalmente seguiam o destino da pendura

Que postergava, com ensaboadura,

Para uma época futura

E que, da memória, apagava com uma varredura.

De inteligência, não era nenhuma cavalgadura,

Daquelas que só falta a ferradura.

Era capaz de se pôr a falar, com desenvoltura,

Sobre, do quadrado, a curvatura

Ou, da circunferência, a quadratura.

E, se porventura,

Cometia alguma outra loucura

De imitar, de alguém, a assinatura,

Perfeita e sem rasura,

Em cheque, promissória ou fatura,

Fruto de condenável urdidura,

Resultava, se descoberto, nessa amargura

De ter que conseguir um alvará de soltura,

Alegando, ao delegado, tratar-se duma travessura

E no seu ilibado currículo, uma simples arranhadura;

Que não tinha intenção de viver numa cela escura

E que, afinal, toda a sua vida, agira com extrema lisura.

III

Essa atitude devassa, que o estado físico tritura

E o bolso, a conta corrente do banco, perfura,

Para ele, era adrenalina total, uma aventura,

Que foi obrigado de encerrar, uma fissura,

Quando sua saúde se deteriorou e sofreu uma ruptura.

Logo, ele, que nunca tivera um resfriado, ou uma rasgadura

E, muito menos, alguma forma de rendidura,

Parecendo, tudo, praga, maldição ou esconjura,

De nada adiantando os santos invocados em benzedura.

É que numa amorosa tertúlia, sobreveio uma velhice prematura

Àquela que deixa, um, e a parceira, em desventura,

E provoca na alma e no ego profunda machucadura.

Pouco antes, já vinha sentindo, no estômago, uma queimadura,

Somado a um mal-estar, a uma teimosa tontura,

Que o deixava, por um momento, com a vista obscura

E com a possibilidade de cair e sofrer uma fratura.

O médico, amigo desde a infância, adepto da natura,

Pespegou-lhe um susto, numa sincera e repreensiva secura:

“Não se trata de querer que você viva numa clausura.

No entanto, se dessa vida desregrada não abjura;

Se continuar nessa farra, para você uma gostosura;

Não se livrar do vício, dessa imbecil escravatura,

O teu amanhã nem eu nem ninguém te assegura,

Pois você, bem sabe, está cavando a própria sepultura.

Entretanto, preste atenção, você facilmente se cura:

Primeiro, tem que parar de comer fritura

Que absorve rios de gordura;

Não fumar, nem beber, dormir cedo, nada de diabrura;

Tem que consumir muita verdura,

Muita fibra e fruta não ácida, madura;

Nada de doce tipo quindim ou rapadura,

Se não vai ter – já, já – de usar dentadura”.

Os amigos acharam tudo aquilo uma frescura,

E que a prescrição parecia mais uma absurda propositura,

Ponderando que uma vida, assim, nem santo atura.

De início, o reproche, ele classificou de grossura,

Mas, apavorado, ou como dizem os italianos, numa “paúra”,

Resolveu mudar de vida, para uma mais segura.

Indubitavelmente, foi um tento de bela feitura:

Má alimentação, vícios e toda essa nomenclatura

Foi mudada com força de vontade de quem tem envergadura;

Passou a estudar e ler livros de grossa brochura

E a escutar música clássica e popular de fina tessitura,

Já que havia desenvolvido o bom gosto, por aquela altura;

Optou em fazer uma faculdade, uma Licenciatura,

Visando o almejado canudo, numa cerimônia de formatura.

Chegou até a pensar em Engenharia ou Arquitetura,

Sem descartar Agronomia, dado a discorrer sobre agricultura.

Melhorou o visual, que a gente, a si mesmo, augura:

Cabelo e barba aparados, dois banhos diários, total limpadura;

Entrou numa academia de ginástica para fazer musculatura

Com a intenção de ganhar peso, conforme, por aí, se assegura

E ficar com o tórax como os lutadores na era da gladiatura;

Passou a freqüentar ambientes de pessoas de boa catadura,

Onde o gosto apurado, aliado à boa educação, sempre fulgura;

A usar ternos com tecidos de excelente textura

E gravata, com grife, em camisa de abotoadura;

Pagou os credores, que não desgrudavam como atadura,

E, mais adiante, comprou, do ano, uma possante viatura,

Bem espaçosa, “nada de apertos, nada de miniatura”.

Também, numa pechincha, um apartamento, não de cobertura,

Mas tendo sacada com churrasqueira, para grelhados e assadura.

E suíte com hidromassagem, portaria e tetra-chave na fechadura,

Em imóvel localizado num terreno ajardinado, numa planura.

O pagamento: uma entrada, mais 20 anos, com juros da Lei da Usura,

Aproveitando um desconto graças a famosa Lei da Oferta e da Procura,

Àquela, que político promete revogar ao defender sua candidatura.

Decorou, tudo, com móveis em cedro, com caprichada entalhadura

E tapetes, feitos à mão, de razoável espessura.

IV

Nessa história, em condições normais de pressão e temperatura,

Deveria haver, com a jovem do início, alguma relação ou ligadura.

Mas, não. Ela só foi aqui lembrada por sua beleza, sua candura.

Seu sorriso, seu olhar, sua sensibilidade, sua doçura.

Bem! Cada um seguiu o seu destino, sem se cruzar, sem mistura,

Embora, o mesmo juiz de paz ter efetuado a legal lavratura.

E que passaram, em épocas distintas, a lua-de-mel em Cascadura,

Onde, anos após, retornariam para passar alguns dias em vilegiatura.

Ele, redimido, havia encontrado uma companheira, uma lhanura,

Gentilíssima, amável, cortês, sem um pingo de desmesura.

E ela, um companheiro, muito sério, trabalhador, uma polidura,

Um estudioso aplicado, um autodidata em matéria de cultura.

Obviamente, de todos as partes envolvidas, de amor eterno, muita jura,

Que, nesses casos, quase sempre, ao pé de ouvido se murmura

E, com ardor, se realizam num colóquio de extrema fervura.

Hoje, vivem felizes, com filhos, produto duma fértil semeadura

Numa paixão que, mesmo com a crise econômica, ainda perdura.

SOU DO TEMPO por sérgio da costa ramos / florianópolis

Não espalhem, mas sou do tempo em que o pão e o leite chegavam à porta da freguesia entregues em domicílio pelo leiteiro e pelo padeiro um a pé, o outro a bordo de uma carrocinha, com bagageiro de madeira, em cujos batentes eraSÉRGIO DA COSTA RAMOS 1produzido o aviso de sua chegada.

Sou do tempo – acreditem – do primeiro filme em cinemascope projetado em Florianópolis. Confessar um arcaísmo desses equivale a ser confundido com o primeiro a ser fotografado pelo “daguerreótipo”, o primeiro a tomar Coca-Cola no Brasil, com aquelas garrafinhas imortalizadas por Andy Warhol, junto com as sopas Campbell.

Tenho, sim, a coragem histórica de confessar que assisti a O Manto Sagrado, com Richard Burton, Victor Mature e Jean Simmons. Foi no Cine São José, em 1956 – três anos depois do filme passar em Hollywood como o primeiro em tela alongada, no sistema “cinemascope”. Meu Deus! Está fazendo 53 anos!

Como atenuante, devo dizer que o filme era “proibido para menores de 10 anos” e que, apesar de envelopado numa calça curta marrom e de exibir o quengo meio raspado – moita no alto da testa, como era moda pra “rapaz pequeno” –, consegui enganar, gloriosamente, o porteiro. Rejubilei-me por isso, pois em 1956 tinha nove anos.

Sou do tempo em que Florianópolis ainda conservava os seus carrinhos de cavalo, e até escrevi que adoraria ser cocheiro de um deles. No verão, arriaria a tolda para que os fregueses desfrutassem, ora do calor do sol, ora do fulgor das estrelas. Nas noites quentes seria cúmplice dos boêmios, de suas serenatas e de suas “beberatas”. Levaria uma vida muito mais emocionante do que esta que levei, de regrado cumpridor dos meus deveres. O “carrinho” seria meu lar, os cavalos, meus irmãos, até que a morte nos separasse.

É preciso admitir, também, que sou do tempo do pastel do Bar Rosa e da empada do Chiquinho. E que devorava os “folheados” da confeitaria A Soberana, esquina de Praça XV com Felipe Schmidt.

Sou do tempo da “matinada” no São José, aos domingos, logo depois da missa das 10. Dois jornais da tela: Atualidades Atlântida e Les Actualités Françaises, o cinejornal da Art-Films. Desenhos de Mister Magoo, Tom & Jerry, comédias dos Três Patetas e O Gordo e o Magro. Um seriado do Zorro ou do Superman. Cada idade tinha seus prazeres, seu espírito, seus costumes. Duvido muito que me atraísse, hoje, passar duas horas a fio ouvindo os rocks traduzidos de Celly Campelo – Biquíni de Bolinha Amarelinho, Estúpido Cupido e Oh, Carol.

Devemos obediência ao tempo. Tempo houve em que era imperioso ir ao “Encontro dos Brotinhos”, no Lira, das sete às 11 da noite, aos domingos. E encharcar-se de cuba libre antes de “tirá-la pra dançar”. Teria sido bem mais agradável se o cavalheiro tivesse a coragem de beber menos. Assim, a favorita não teria sido tão cortejada e pisoteada ao mesmo tempo.

O tempo, aliás, é um rio veloz , formado pela caudalosa corrente dos fatos. Mal se vive o momento – e lá vai ele, corredeira abaixo, juntar-se ao manso lago das lembranças – as boas e as más.

Nadando “rio” acima, reencontrei o galã da época, outra vez jovem e atlético, um eleito pelas jovens dos anos 1950, ao som de Bernardine, do hoje pastor evangélico Pat Boone.

O rapaz está transformado num senhor barrigudinho. E careca. Encontrei-o na fila da padaria – já não se entregam pães em casa. Lutava pelo pão e pelo leite de cada dia com o mesmo zelo com que, antigamente, cultivava na testa uma caprichosa vírgula capilar, à semelhança de Bill Halley e seus “cometas”.

PARA NÃO NOS LEVARMOS A SÉRIO DEMAIS ! por lucas paolo / são paulo

Para começar achamos de suma importância esclarecer padrões epistolares! Não nos expressaremos em primeira pessoa!  Muito menos em terceira! O primeiro caso traria uma vivência por demasiada pessoal para se tratar a complicada questão a ser abordada! O segundo caso não conseguiria convencer nem Eu nem Ele nem Você! Portanto não passaria de uma farsa ridícula com ares de paródia!  Para uma abnegação completa de qualquer forma de subjetivismo falaremos por Nós!  Isso exclui definitivamente o emissor e o remetente liquidando qualquer tipo de dupla significação! Entretanto é uma carta! De nós para nós mesmos!  O intuito não é ativar a imaginação nem dar margens às suposições! Seremos tão límpidos como água clara! Enfim diretos! Não buscaremos palavras nem expressões diferentes no dicionário! Qualquer erro redundância contradição ou demonstração de sentimentos será com certeza uma falha devida à imperfeição humana! Desejamos a maior perfeição possível para a presente abstração! Seremos absolutamente científicos exatos e indiferentes! Também não usaremos de qualquer simbologia! Apenas será usado o ponto de exclamação para finalizar as frases e dar a devida importância a elas!  Não julgamos necessidade de qualquer paragrafação além da próxima e mais uma no final! Prestem muita atenção ao que se segue o sentido da vida pode estar contido aqui!

Estamos com muita vontade de suicidar palavras e gastar papel! Ou seja queremos por demais escrever qualquer coisa! Porém falta-nos um tema para um possível romance e não sabemos também por onde começar um conto uma crônica um poema o que for! Acreditamos não haver tema neste mundo e na nossa cultura que mereça nossa reflexão! Não! Não desejamos falar de amor! Este tema é por si só mesquinho e pouco metafísico! Não somos românticos e não temos boas experiências para dividir! Achamos que ninguém as tem! Só existe uma supervalorização idiota do momento vivido com alguma outra pessoa que não nós mesmos! Dividir a existência com alguém é estúpido e não é nem um pouco produtivo! Falar de amor é repetir metade da literatura universal já escrita! Não existe amizade verdadeira ou que dure realmente! Sendo assim a amizade é mais um tema que não merece ser especulado muito menos mencionado em algum texto inteligível! A família é uma propriedade cultural e histórica que não daria tema nem para 50 páginas! E outra coisa todo mundo tem uma família e elas são em seu cerne todas iguais! Pra que falar delas! Aliás para que falar de alguma coisa que envolva o convívio humano! Somos todos animais que não sabemos conviver em sociedade nem longe dela! Não nos olhamos! Não nos percebemos! Não nos conhecemos! Enfim não nos merecemos então para que falar de nós mesmos e nossas relações! Estupidez inventar personagens fictícios! Para que botar mais gente egocêntrica no mundo mesmo que literário! Que fique bem claro não desejamos falar do bicho homem e de sua existência tão supérflua e insignificante! Não ansiamos nem por um instante tratar de arte! Música! Música é um banal artesanato infindo e sem qualquer resultado palpável! Produzir movimento em partículas que formam uma onda que causará devido à imperfeição do ouvido humano a errônea impressão de estarmos ouvindo determinada freqüência ou seja um som para o qual buscaremos relação com algum sentimento ou que tentaremos racionalizar até o último ínfimo físico e estético do possível significado de uma movimentação do ar que nada mais tem que significar do que uma coisa que acontece devido à uma movimentação nas coisas que existem na natureza! Uma movimentação do ar caramba! Artes cênicas ou teatro não merecem nosso tempo também! Que babaquice é representar uma coisa que por si só já é uma representação! A vida não tem que ser representada tem que ser vivida e representar uma representação da vida é se afastar cada vez mais dela! Atores são aqueles que mais procuram a perfeição do gesto em suas encenações e são também os que menos prestam atenção em seus próprios gestos! Artes plásticas ou visuais ou como quiserem chamar a produção de alguma coisa para ser contemplada com os olhos! A cor é uma ilusão! A produção de uma imagem é congelar no tempo um momento uma pessoa um objeto uma abstração uma qualquer coisa! Resumindo é parar na seqüente movimentação do espaço cósmico uma asneira qualquer! Interferirmos no fluente curso de nosso texto para falar de intervenções artísticas performáticas seria por si só uma intervenção! Continuemos! O amálgama de coisas que podem ser consideradas arte é muito grande! Se as grandes artes não fogem de um irracionalismo absurdo o que diremos então da Moda da Gastronomia da Numismática e do que mais houver! Finito! Não falemos da produção humana! Muito menos podemos falar do pensamento humano! Toda hora aparece um novo grego falando bobagens e usando da retórica para distorcer e torcer um assunto que já foi tão controvertido pelos homens! Filosofar é parar no tempo para refletir sobre o nada com o intuito de concluir o sentido do lugar nenhum! Quantas bobagens já não foram ditas sobre o nada e o tempo! A junção dos dois resulta na existência da memória e do gênero humano! A junção do homem nessa mixórdia toda resulta no conjunto de coisas chamada Humanidade e conseqüentemente resulta em culturas diferentes e prosseguindo conseqüentemente em guerras! E ainda bem! Conseqüentemente logo logo no fim da raça humana! Ufa! Ufos! Falar de alienígenas verdinhos ou de vida extraterrena é extrapolar para fora de uma realidade que já é desinteressante inferindo nossa visão antropológica do mundo que de nada provavelmente tenha a ver com possíveis culturas marcianas, plutonianas ou seja lá quem for os possíveis cabeçudinhos! Deixando o homem e a suposta outra vida inteligente do universo de lado poderia se falar de todas as outras coisas que existem vivem mas não pensam! Se é que podemos chamar o que os homens fazem de pensar! Podemos escrever mil duas mil três mil páginas sobre uma manga uma pedra um dromedário uma pulga um cristal condensado sobre o ar a terra a água a via lactéa o surgimento de tudo! Mas pensamos que nós temos bem mais o que fazer! Podemos falar da preguiça da gula da luxúria da avareza! Podíamos falar de Deus o ubíquo! Mas tememos muito as heresias e não somos chegados aos gnosticismos! Não acreditamos em nenhuma religião mas tememos constantemente o inferno! Já conseguimos deduzir que não se vale a pena falar de nada sobre o que se possa divagar ou reproduzir com palavras! Podemos falar do niilismo ou da escrita! Pensando bem os dois são uma e a mesma coisa! A justificável desistência do mundo material para o mundo das possibilidades ou não possibilidades! Contudo queremos nos permitir deixar aqui no fim da carta algo de redundante de modesto de conclusivo de irreflexivo escrito! Alguma bobagem que justifique o endereçamento de uma carta a alguém! Um aforismo!

Muitas vezes quanto mais verde se joga mais se colhe leitores maduros!

Observação minha sobre a missiva: Não pretendi alcançar nesta carta o sentido da vida; não busquei um impacto muito grande para minhas palavras e nem as escolhi a dedo; só queria escrever e não sabia sobre o que, então, escrevi de uma maneira esquisita sobre muitas coisas que, NO MOMENTO, não tinha vontade de tratar neste texto. Sei lá do que posso ter tratado nesta epístola! Acho que não tratei de nada, só escrevi. Mas escrever foi por demais bom e divertido. Desculpem a chatice e a possível crítica a alguém ou alguma coisa importante da vida. No mais, agradeço pela leitura de meu texto.

AMORES – por sergio santeiro / niterói.rj

Há de todo o jeito: curtos, longos, breves, vãos, tensos, intensos,
fugazes, velozes, durazes, de pronto atendimento, a perder de vista.
Algo se produziu na convivência humana que nos faz chegar perto, nos
faz chegar mais de uns ou de outros. Dizem que há explicações, prefiro
não buscá-las: químicas, cheiros, identidades, estranhezas.

Prefiro o mistério, o que se não explica. A rigor, acho que o
acasalamento devia ser mais livre, mais casual. Não era preciso chamar
tanta atenção, nem sonhar tanta promessa, algo mais fluido. E assim é,
de vez em quando. A maior ofensa que se faz às mulheres é não tentar
seduzi-las, principalmente as que se acham. O maior elogio é deixar-se
por elas seduzir, principalmente as que não se acham.

Seduzir ou não, eis a questão. Ficar ou não ficar pra mim é muito
vago, sou da antiga. É ou não é coisa na coisa. Especialmente quando
se chega à decisão, um pergunta pro outro: – Pode ser ou tá difícil? É
preciso perguntar, afinal a mulher é aquela coisa que quando quer
quer, mas quando não quer, não quer.

Quando quer move mundos e fundos, vai até ao inferno, mas, quando não
quer, finge que não viu nem ouviu – o que é um dos mais notáveis
atributos femininos: faz que não entende. Quando quer atravessa o
oceano, quando não, nem a rua.

Coitado ou coitada é condição etimologicamente derivada de coito que
não houve? Acoitar é sinônimo de agasalhar? Agasalhar o croquete é
vulgar? É feio externar as palavras que me acorrem à mente? Entubar
hoje em dia é botar no youtube? Em português, no tutubo? Ou botar no
teu tubo? No meu ainda não. Dizem que, depois de certa idade, tudo é
possível. Pode ser, ainda não cheguei lá.

Pra mim, o doce ainda é navegar nas águas turvas da emoção. Emoção
quer dizer Ê, moção? Moção como moça grande, exuberante, fornida,
aumentativo de moça e não de moço, bem entendido. Aliás, entendido é
também como se chama o parceiro de mesma natureza. Tudo é da natureza.
Na Grécia, em Roma, nos confins da Alexandria, tudo era natural. Hoje
também.

Na Grécia como os gregos, em Roma como os romanos, em Alexandria como
Alexandre, como não como verbo, como como como, menos as romanas, as
gregas e as alexandrinas, que estas são como verbo. Sabemos por outra
que neste quesito a vida não é das mais difíceis. Sempre sobra um bem
querer para o nosso querer bem.

Muitas vezes o erro ou o mal é errar com quem, ou pode-se atirar no
que se viu e acertar onde não se viu, neste caso recomenda-se insistir
e tomar o acerto ao invés de insistir no erro e levar um fora. Levar
um fora não é lá dessas coisas, nem sempre é pra sempre, nada como um
dia após o outro, com uma noite, um sonho, um travesseiro no meio,
talvez quando acordar, hoje dá.

Ser aprazível, aconchegante, insinuante, audaz, desdenhoso, desejante,
gaste o verbo. Tudo o que não sou. Acima de tudo, não perder a
esperança jamais. Afinal, por que não eu?

20/9/2009

MEU AMIGO QUINTANA por hamilton alves / florianópolis



Lembro-me saudosamente o dia em que fui ao encontro do poeta Mário Quintana, num apartamento, no Hotel Royal, muito bem acomodado ali, que o jogador de futebol Falcão lhe emprestou para morar. Pouco tempo antes disso, a Prefeitura de Porto Alegre o despejou de um cômodo, pertencente à municipalidade. Não fosse Falcão, Quintana teria amargado horas ruins.

Mario me recebeu muito bem. As prateleiras de seu quarto eram recheadas de livros. Mário sempre viveu à volta deles.

Nossa entrevista foi curta. Não tratamos de literatura, como se poderia supor.

Trocamos algumas palavras dessas corriqueiras, comuns entre amigos que se visitam.

Mário era servido por uma secretaria, que, na hora em que o visitei, lhe preparava um lanche.

Além dos livros, que ocupavam algumas das estantes já referidas, vi um quadro de muito mau gosto a uma parede. Mas, claro, não cheguei a tocar nesse assunto para o Quintana. Só fiquei julgando que provavelmente não se interessasse por pintura. Devia ser um quadro que fora dado por um amigo ou amiga ou um visitante inesperado como eu.

Fui lhe mostrar um livro de crônica. Fora a Porto Alegre à procura de editor.

Disse-lhe das dificuldades de um escritor pouco ou nada conhecido de conseguir publicar um livro de crônicas, ainda mais se tratando desse gênero maldito. Ele replicou:

– Os editores sempre criam dificuldades para editar um livro, mas no fim acabam editando.

Não lhe mostrei os manuscritos, que trazia numa pasta. Ele, obviamente, não teria o menor interesse de ler minhas crônicas.

De-repente, sem mais aquela, Mário se esticou numa poltrona (acima da qual estava o dito quadro). E entendi que dava por encerrada a entrevista comigo.

Não ficamos só nisso na passagem por seu apartamento.

Deu-me de presente um de seus livros de prosa e poesia (mais deste do que daquele gênero). Fez-me uma dedicatória:

“Para Hamilton Alves de seu colega e amigo Mário Quintana – Natal de 84”.

Nesse livro, desponta um poema que é representativo do estilo de Quintana de compor versos. Intitula-se “Poeminha do contra”. Ei-lo:

“Todos esses que aí estão

Atravancando o meu caminho,

Eles passarão…

Eu passarinho!”

Perdi o contato com esse belo livro, que me fora dedicado pelo Quintana, editado pela “Mercado Aberto”, de Porto Alegre, sob o título “Sapo Amarelo”.

Hoje, percorrendo a minha biblioteca atrás de um livro de outro poeta, acho-o escondido entre outros numerosos livros.

Veio-me à lembrança a tarde de 84 em que vim a conhecer Quintana, esse poeta de poemas tão leves e que parecem voar como se fossem passarinhos, como bem expressa esse que transcrevi nesta crônica.

Ele mesmo, tal qual me surgiu aos olhos nesse dia,  parecia-me um pequeno e frágil passarinho.

(out/09)

Rumorejando (Como muitos,com a vitória do Rio de Janeiro vibrando, mas com os super-faturamentos se preocupando…) – por juca (josé zokner) / curitiba

JUCA - Jzockner pequenissima (1)

PEQUENAS CONSTATAÇÕES, NA FALTA DE MAIORES.

Constatação I

Ficou

Arrebatado

De alegria

Parecia

Estar

Num mar

De rosas.

Havia

Acertado

Numa milhar

E passou

A ganhar

A atenção

Das formosas

Atendentes

Do balcão

Que antes sequer

Nele notavam

Nem mostravam

Os dentes.

Vá alguém

Procurar

Entender,

Compreender

O desdém

De uma mulher.

Constatação II [Chuvas no Paraná e nos demais estados do sul do Brasil (I)]

No céu cinzento,

Kafkiano,

O curitibano,

Sentiu-se bolorento,

Fossético,

Patético,

Amuado,

Torvado,

Perturbado.

Coitado!

Constatação III [Chuvas no Paraná e nos demais estados do sul do Brasil (II)].

Um sol atrevido,

Que já havia desaparecido

Despontou

Entre nuvens carregadas

De imagens

Como desenhadas.

Soprou um vento,

Naquele momento

Trazendo

Frescas aragens

Tal deixou

Ele, um quatrolho*,

De humor horrendo,

Com o sobrolho,

Antes carregado,

Desanuviado.

Descoitado!

* De sobrancelhas brancas (Houaiss).

Constatação IV [Chuvas no Paraná e nos demais estados do sul do Brasil (III)].

Ela fez uma desfeita.

Não compareceu

Ao encontro marcado,

O que levantou nele,

Um apaixonado romeu,

Uma incômoda suspeita

De que estava sendo corneado.

Tinha ficado

Debaixo de um aguaceiro

E logo quando ele

Ia pedir a ela algum dinheiro.

Coitado!

Constatação V

Uma imagem vale mil palavras. Se for das sogras vale mil palavras, relacionadas com medo, susto e sobressaltos.

Constatação VI (De uma dúvida crucial).

O Michael Jordan viria a ser o Pelé do basquete e/ou o Pelé ante viria a ser o Michael Jordan do futebol?

Constatação VII (“Poesia” meio forçada).

Foi o clarinete

Que disse pro fagote

Que o oboé

Ao andar de trotinete*

Escorregou ao dar 

E deu um trompaço na trompa,

Que até pareceu abraço de tamanduá,

Quando retornava de ,

Das bodas de fígaro, com pompa,

Mas sem circunstância

Já que não houvera dote

E se fora um casamento

De muita retumbância.

Aí,

Num certo momento,

O noivo descuidado,

Talvez ofuscado

Pelo sol,

Meio fora de si

Tropeçou num fami…gerado

Penetra que não tinha sido convidado,

Já que os convivas só

Era gente de escol

E se machucou de dar .

Coitado!

*Trotinete = patinete (Houaiss).

Constatação VIII

Rico alcança uma idade avançada; pobre, fica um caco.

Constatação IX

Rico cria mitos; pobre, é macaca de auditório.

Constatação X

Chamou o idoso, seu tetraneto, de fedelho.

E passou a lhe dar um sermão, além de conselho.

Era sua tataravó que sempre armava uma querela

Quando ele disse que ia pela nona vez se casar com uma donzela.

Constatação XI

Rico é impetuoso; pobre, vagaroso.

Constatação XII (Via pseudo-haicai).

Seu verso-de-seis-pés*

Ninguém se dispôs a ler

De lés-a-lés**.

*Sextilha (Aurelião).

**De um lado a outro (Aurelião)

Constatação XIII

Rico fica indignado; pobre p. da vida.

Constatação XIV

O jogador paranaense Alex, que foi revelado na equipe de base do Coritiba merecia estar no livro Guiness de recordes por ter sido o único jogador que fez dois gols olímpicos numa mesma partida. O goleiro que levou tais gols também…

Constatação XV

E já que falamos em futebol, vale lembrar e/ou assinalar que o meu time, o Paraná, não tem necessidade de estar mudando frequentemente de técnico. O Paraná precisa, apenas, mudar a Diretoria, os jogadores da defesa, do meio de campo e do ataque. Elementar…

Constatação XVI (“Poesia” quase trágica).

Traição em dobro

Saiu correndo pela rua em trajes de Adão,

Mostrando, entre outros, seu tralalá.

O guarda lhe deu voz de prisão:

“Vosmecê vai tê que me “acompanhá”

O Delegado perguntou a razão

De ele estar andando desnudo.

Ele não quis dar explicação

Daí, ficou todo o tempo mudo.

“Você vai ficar no xilindró

Até que eu telefone pra sua consorte”.

Apavorado, ele falou: “Por favor, tenha dó.

Não faça isso. Se não, será minha morte”.

“Não entendo porque tanto temor

Que mal que ela poderá te fazer?”

“É que eu estava com outro amor

Aí, o marido chegou e eu tive que correr”.

Constatação XVII

Rico sofre de oclofobia*; pobre, almeja a oclocracia**.

*Oclofobia = “medo mórbido da multidão, da plebe” (Houaiss).

**Oclocracia = “exercício do poder ou do governo pela multidão, pela plebe” (Houaiss).

Constatação XVIII

Quem anda no fio da navalha

Não pode nem deve ter uma escorregadela

Porque lhe pode sair caro essa falha

Pois poderá machucar a bun, digo, a costela.

DE LANTERNA NA MÃO por sergio da costa ramos / florianópolis

Acendo uma lanterna, e como um Diógenes no meio de uma floresta de letras, procuro uma boa notícia nos jornais. É como procurar um varão de Plutarco no Senado.

Aliás, a primeira má notícia é exatamente a da próxima votação, já marcada no Senado: a PEC dos Vereadores, pelaSERGIO DA COSTA RAMOSqual será alterada a relação de “edis per capita”.

As manchetes dos jornais refletem a realidade escabrosa:

– Casal Kirchner persegue Clarín com fiscalização!

– Sarney esquece malfeitorias e quer liberdade na internet!

– Piquet confessa que bateu de propósito!

O foco da lanterna de Diógenes vai derramando seu círculo de luz sobre uma coleção de más notícias:

– PMs são presos por tráfico no Rio.

– Gangue mata desafetos e depois bebe o sangue.

– PCC e Comando Vermelho querem fundar “fraternidade”.

– Argentina vai importar trigo e pãozinho de 50 gramas já custa R$ 0,30.

– Brasil não está imune a terremotos.

Meu Deus, até essa. Atravessei a infância e a adolescência com os mais velhos enaltecendo essa “qualidade” brasileira. “Trata-se de um país abençoado por Deus. É o único lugar do mundo que está livre de terremotos”, repetia o velho realejo patrioteiro, no mais puro estilo do conde Afonso Celso.

Pois agora vem o geofísico Lucas Vieira, da Universidade de Brasília, e garante que não é bem assim:

– Foram descobertas 48 falhas na placa tectônica brasileira, locais que podem ser vítimas de terremotos a qualquer momento.

O mito da intangibilidade era “falta de informação e de conhecimento técnico”.

Depois dessa, qualquer má notícia não chega a ser surpreendente. E elas se sucedem, distribuídas entre monstrinhos que espancam velhinhas, esfolam bebês, assassinam pais e mães. A mãe que jogou a própria filha num rio, netinhos drogados que esfaqueiam avós, famílias inteiras que traficam drogas até na porta de um jardim de infância.

Parece que o vaso da sensatez quebrou-se em mil pedaços na consciência do Brasil.

Agora, de manhãzinha, chega mais esta:

– Santa Catarina terá mais 287 vereadores!

Está na hora de alguma providência.

Por exemplo: procurar um “telefone vermelho”, daqueles que interligava as grandes potências na época da Guerra Fria, e ligar diretamente para Ele, o Todo-Poderoso, buscando uma fórmula caridosa de desarmar tragédias.

E perguntar, sem papas na língua:

– Acaso esquecestes que és brasileiro?

RUMOREJANDO (27/09/09) por juca (JOSÉ ZOKNER) / curitiba

PEQUENAS CONSTATAÇÕES, NA FALTA DE MAIORES.

Constatação I

Rico ganha abastança*; pobre, perde a esperança.

*Abastança =  substantivo feminino

1 provimento satisfatório ou suficiente

2 excesso de provimentos e haveres; abundância, riqueza.

3 vida segura, confortável, sem privações ou problemas de subsistência (Houaiss).

Constatação II

Um otimista sempre vai achar que o Paraná volta para a Primeirona do Brasileirão; o pessimista, que ele cai para a Terceirona; o realista que ele deverá continuar na Segundona. Esta, parece ser a  mais provável. Triste sina…

Constatação III

Não se pode confundir provisão com profissão, muito embora muitos políticos fazem de seus cargos uma profissão, recorrendo a alguma provisão de numerário, não necessariamente honesta, independentemente de seus estratosféricos salários.

Constatação IV

Não se pode confundir colunável (Quem aparece nas colunas sociais [e/ou policiais]) com colimável (passível de se ter em vista; pretenso), até porque nem sempre é possível obter o objeto, pessoa ou coisa que se deseja por meios lícitos ou não com o fito de passar a ser colunável. A recíproca é como é e tá acabado. Tenho democraticamente dito!

Constatação V

Parcos pode ser substantivo ou adjetivo; porcos, também. Mas nem por isso deve-se confundir uns com os outros.

Constatação VI

Eu achei o pedido da ministra incabível”, disse a ex-secretária da Receita Federal Dilma Vieira se referindo a Ministra Dilma Roussef. Taí mais uma expressão sendo inaugurada em depoimento. E a sua utilização, embora soe estranha, está correta. Igualmente como foi a de um outro ministro que usou o “imexível”. A utilização de ambas é infrequente (epa…).

Constatação VII

Esse pessoal do PT que votou a favor do Sarney agora tenta justificar o voto (“Obedeci ordens porque sou homem do partido”), para estar bem com todos. Os nazistas também, segundo eles, obedeciam a ordens. Tá na hora desse pessoal do PT se dar conta de quem bate o córner não consegue também cabecear. A falta de caráter virou pandemia…

Constatação VIII

Disse a mulher na praia para o marido: “Pare de olhar para essas meninas todas”.

Disse o marido: “Não sou eu que estou olhando pra elas. São elas que estão olhando pra mim. Como você já deve ter se dado conta, no meu caso específico, charme não se compra em farmácia”.

Contestou a mulher: “Mas xarope tem de todas as marcas”.

Constatação IX

Uma livraria cá de Curitiba colocou junto a sua placa indicativa uma máxima, atribuindo sua autoria ao grande escritor gaúcho Mário Quintana: “Livros não mudam o mundo, quem muda o mundo são as pessoas; os livros mudam as pessoas”. A autoria da frase é contestada. Segundo os entendidos ela foi proferida pelo romano do século II a.C. Caio Graco. Rumorejando gostaria de receber informações dos seus leitores a respeito. Obrigado.

Constatação X

Travado

Pelo zagueiro,

De gol com gana e sede,

O artilheiro

Chutou-o e também a bola.

Esta, quicou

Como se tivesse cola

E ficou

Ali ao lado.

O coitado do zagueiro,

Ao ser chutado,

Voou

Raspando o travessão.

Acabou

Estatelado

Na rede

Onde se emaranhou

Na maior contusão.

Coitado!

Constatação XI

Nada de ladainha!

A credibilidade

Da Situação

E da Oposição

Tá um caco.

Na realidade,

Eles sempre foram farinha

Do mesmo saco.

Constatação XII

Se o Homem foi criado à semelhança de Deus, como se propaga por aí, a Sua imagem como é que fica?

Constatação XIII

Rico dispõe de tudo; pobre, eventualmente do entrudo.

Constatação XIV

Deu na mídia: “Presidente da Inguchétia retorna dois meses após atentado”. E Rumorejando que achava que seus conhecimentos de gografia estavam em dia. Inguchétia?

Constatação XV

E como dizia o obcecado para a solteirona convicta, parodiando o antigo partido União Democrática Nacional – UDN (“O preço da liberdade é a eterna vigilância”): “O preço da ignorância é a eterna vigilância. E o preço da vigilância é a eterna ignorância”.

Constatação XVI

E já que falamos no assunto da incompreendia liberdade, o livro Poemas para a Liberdade, do escritor Manoel Andrade, catarinense radicado em Curitiba, publicado em vários países da América do Sul, saiu em português, pela editora Escrituras de São Paulo, numa edição bilíngue. Leitura obrigatória , como diriam os críticos.

O CASO TOFFOLI por hamilton alves / florianópolis

Os golpes baixos não param nunca de detonar neste país. Agora, apresenta-se aos olhos dos espectadores da cena nacional o caso do advogado José Antonio Dias Toffoli, advogado geral da União, e ex- (ou ainda é?) advogado do PT, que foi ungido por Lula (não consigo chamá-lo de presidente depois do conhecido episódio Lina Vieira x Dilma Rousseff) ao cargo de Ministro do Supremo Tribunal Federal. O caso é que a justiça do Amapá condenou-o (ao eleito de Lula) com uma sentença condenatória de devolução aos cofres públicos da vultosa soma de R$420 mil reais por ter havido, segundo se divulga, afronta à Lei das Licitações e ao princípio da moralidade administrativa (Estado de S. Paulo, de 21/09/09). Sustenta-se ainda que Toffoli teria sido reprovado duas vezes em concurso para Juíz de Direito e que, por isso mesmo, põe-se em dúvida sua competência ou capacidade profissional para ser investido nas funções de Ministro do Supremo Tribunal Federal. Acusa-se o advogado ainda de firmar contrato irregular para representar o Estado do Amapá nos tribunais superiores, em Brasília, à época do governo de João Capiberibe (PSB).

Toffoli é tido como inexperiente e despreparado para ocupar o STF, além de ligado ao PT (não seria outro o motivo pelo qual Lula o teria indicado ao cargo), especialmente ao ex-deputado José Dirceu. A condenação sofrida pelo advogado pela justiça do Amapá à devolução da importância referida representa mais um desgaste para vir a ser efetivado no cargo de Ministro do Supremo, segundo algumas opiniões que analisam o caso.

Num dia desses, o presidente do STF, José Mendes (que é conhecido por posições jurídicas discutíveis, que vêm assumindo frente a algumas questões debatidas bem recentemente, defrontando-se com oposição no seio do próprio STF, como no caso das denúncias formuladas contra José Sarney, que foram todas arquivadas. Liderou a corrente a favor de tal decisão ou fez parte do grupo que as rejeitou), saiu em defesa de Toffoli, minimizando a decisão da justiça do Amapá. Para ele, Mendes, na condição de advogado militante é absolutamente rotineiro alguém sofrer ações e eventuais condenações na justiça. E salientou: “Até me surpreende que não tenha havido mais processos”. Ó, senhor dos céus, onde chegamos!

Segundo o Ministro Presidente, tudo isso não constitui motivo para que o Senado recuse a indicação ao Supremo do nome de Toffoli. Ó, senhor dos céus, para onde vamos?!

Anuncia-se que aliados, no Palácio do Planalto, estariam defendendo a aprovação do nome de Toffoli ao STF. Ó, senhor dos céus, por que novos descaminhos segue este país!

Tudo como dantes no quartel de Abrantes. Nenhuma novidade à vista. Tudo sob o império do facilitário.

KAPRYXO por jorge lescano

Não cheira, apesar do seu peso e, preservando a cor natural, é frio nos meses ímpares é arredondada quando não áspero. Possui sabor próprio em torno, mas ao entardecer é agudo com pintinhas dodecafônicas. Para conservá-la, é bom, porém não exageradamente. No entanto, se for necessário, pode ser salpicado com si bemol, ocre ou multas. Neste caso é conveniente sair da sala. O uso de argamassa ou paletó é opcional, não assim a preposição. Como seu nome indica, existem os que são contra as comichões da pele e as estatais. Outros tipos crescem tacitamente a ambos lados das margens, no entanto, não dispomos de informações detalhadas a respeito. É certo, contudo, que não suportam a temperatura se imersos cautelosamente. Isto é válido apenas para as de cume furta-cor, os de rodinhas e as que pagam juros: os mais comuns apresentam características diferenciadas segundo os graus de rigidez e uso. Em todos os casos, aconselha-se ficar atenta, embora não seja de todo inexpugnável. A observação anterior só faz sentido, obviamente, quando tem os pés bem conservados ou estão vazias. Pelo avesso, seu aspecto é peculiar ou semelhante, o que facilita a manipulação e melhora sensivelmente o moto mortis e a vida convexa. Outrossim: importa muito bem os acentos de sábado. Sua sombra tem poderes abrasivos ou refratários, salvo exceções: não precisa contra-indicação e tem alvará na versão infantil. Apenas esta advertência deve ser feita: cuidado com suas metamorfoses, cópias e falsificações; quanto ao resto: é eterna.

DISCURSO DE POSSE por hamilton alves / florianópolis

Sabe-se que Drummond recusou-se de pertencer aos quadros da Academia Brasileira de Letras, com horror do fardão e de proferir o discurso de posse. Imagino qual teria sido, aproximadamente, numa ocasião dessas, caso aceitasse integrar-se àquele sodalício (ó, palavrinha horrível):

“Meus senhores,

Eis-me aqui eleito para esta Academia, à qual fui convidado a candidatar-me à vaga de Fulano de Tal. Não falarei desse Fulano porque mal o conheci e mal o li.

O convite, podeis crer, foi inesperado. Pois jamais sonhei ou sequer cogitei de um dia vir a pertencer aos vossos quadros e formar convosco sob o teto desta vetusta e respeitável casa.

Aqui estou. E, na verdade, nem sei para que. Ou com que cara.

Vacilei muito entre aceitar ou não o convite que me foi formulado por um de vós.

Foi, para mim, crede-me, honraria excessiva, eu que me reconheço um modesto poeta, com uma dúzia, se tantos, de poemas bem realizados, um dos quais sempre esperei que uma comissão julgadora, formada por ilustres personalidades, incluísse  entre os dez melhores do mundo, que considero o que corresponde as minhas exigências – “José”, que, no entanto, foi preterido por dois de Fernando Pessoa. Mas fazer o que?

Estou aqui, para minha surpresa ou perplexidade, vestindo esse fardão, que podeis perceber não me assentar bem. Sinto-me ridículo nele. E, sobre tudo isso, pesa-me. E de dois modos: pesa-me por ser o vosso fardão, instituído por esta casa; pesa-me porque é uma roupa que não me vai bem.

O que faz a vaidade!

Não encontro palavras para expressar o meu ingresso nesta Academia, que conta com figuras tão eminentes quão respeitáveis. Quisera me sentir à altura de todos os senhores para bem merecer vestir esse fardão e receber o título de acadêmico.

Mas farei tudo por merecê-los, eu que, de mim, sou refratário a todos esses incômodos rapapés.

Sou, de natureza, um homem simples, que não se sente confortável sob as luzes da fama ou do aparato acadêmico.

Que mais direi neste momento de tanta solenidade quanto de perplexidade para minha modéstia?

Acho que disse tudo o que me cabia.

E mais não direi”.

Ao fim, Drummond, com apertos de mãos e calorosos abraços, tomaria assento em sua cadeira. Seguir-se-ia, muito certamente, o chá das cinco, tão costumeiro e tradicional na Casa de Machado de Assis. Para gáudio de todos os presentes e do eleito.

Chuva com Velhos na Cabeça! – por tonicato miranda / curitiiba


Por aqui chove um oceano.

Da rua vem o barulho dos pneus chiando no asfalto com tanta água.

Vozes soltas aqui e por lá, além das pombas voando meio perdidas junto à janela do Escritório das Penas Eternas. Todos estão meio desorientados em meio a este momento diluviano. Interessante dizer que estou há pouco mais de 24 horas para retornar para Curitiba. Chega. Já estou cansado de estar ausente de casa. Por mais que existam parentes por aqui, lar é sempre o lar.

É certo que tenho mais amigos aqui do que por aí. Daqueles amigos que se pode falar mal da companheira, dos filhos e até mesmo falar mal de nós mesmos. O ouvido é surdo e escuta tudo calado. Pressente que o momento é de desabafo e se presta à condição de fossa. Claro que não abusamos da amizade nestes momentos, é só um vomitozinho pequeno. Logo nos recompomos e seguimos viagem junto à amizade tão querida. Está claro que têm pessoas que exageram e fazem do ouvido alheio uma Fossa de Java. Destila o fel e a amargura interminável. Acabam por se tornar chaaatos!. Os velhos são dados a esses papéis. Deus e o Diabo livrem-me deste vício. Chamo os dois porque desta pecha não quero ser lembrado. Uma vez que os dois, segundo a mitologia da igreja católica, andaram juntos no começo de tudo, invocando-os em dupla não estou nem pecando, nem sendo ingrato.

Mas falava dos velhos.

Puxa, que chuva incrível!

Sigamos nesta crônica oceânica.

Interessante as queixas do meu pai sobre minha mãe, hoje pela manhã.

Disse-me ele:

__ Sua mãe não me dá descanso. Imagine que se abro a janela um pouco mais ela reclama. Ela quer que a janela fique aberta dois palmos, nem mais nem menos. E a toalha? Se penduro no varal da esquerda, ela reclama porque isto tampa a claridade que entra na cozinha. Pior ainda quando vou comprar verduras e legumes. As batatas têm que ser quase do mesmo tamanho. Caso traga para casa uma grande em meio a um monte mais ou menos do mesmo tamanho, lá vem o esbregue. É difícil, meu filho.

Posso dizer que tenho sido vítima também do humor e das manias da minha mãe.

Do alto dos seus 82 anos, ela tem lá as suas razões, mas tem exagerado um pouquinho. Ontem, antes de dormir lembrou do meu Tio Geninho, espécie de patriarca da Família Mattos. Ele morreu aos 95 anos e 3 meses. Mesmo assim ainda deu algumas ordens a todos aos 95 anos e 1 mês. Minha mãe, citando-o, disse que toda a casa deve dormir arrumada, pois se houver a necessidade da visita de um médico durante a noite ou na madrugada, o que iria pensar o médico sobre uma família desorganizada que dorme sem arrumação?

Dá para imaginar uma colocação dessas? Isto ocorreu a propósito das minhas sandálias que estavam sob uma mesinha de centro quando a minha mãe entrou no quarto da TV para arrumá-las antes de eu dormir. Como estou passando um período aqui em Brasília, na condição de hóspede, engoli em seco. Carona e hóspede prolongado não dão pitaque. Têm de ficar calados.

Ainda bem que passo o dia inteiro longe da casa dos meus pais, somente chegando mais de 21h, todos os dias.

Mas tenho uma pena danada do meu pai!

Coitado do velho, vítima de uma pobre e adorável velhinha.

Caso fechasse o olho e pensasse um pouquinho, acho que não casaria com ela não.

Isto hoje, um momento em que já a conheço há muito tempo.

Mas teve época que a aceitava de forma integral.

Agora, pensaria duas vezes.

Putcha lá vida! Como dizem os curitibocas do interior do município, que chuva lazarenta! Travou a pesquisa de campo no seu último dia, adiando o fecho do trabalho e o reboliço dos estagiários aqui no Escritório das Penas Eternas. Quem sabe amanhã chova menos?

Eu preciso voar em asas de aço, no rumo de Curitiba.

Vou sentir saudades da mãe arrumadinha.

E conto uma última.

Diz meu pai que quando a diarista está limpando a casa ela sai andando atrás da coitada e vai passando a mão sobre os móveis para ver se não sobrou um resquício de poeira.

Ah minha pobre mãe!

Ah mais ainda, meu pobre pai!

TRÊS MONSTROS SAGRADOS por hamilton alves / florianópolis

Num dia desses, um amigo me brindou com a remessa de uma mensagem contendo o registro de Tom Jobim e Elis Regina cantando a memorável e inexcedível composição “Águas de Março” (letra e música, como sabido, casaram-se às mil maravilhas).

Me deleitava com essa audiência, com Tom na flauta, acompanhando Elis, os dois se entreolhando, quem sabe se namorando e, no fundo, se amando (tinham, na realidade, uma gamação um pelo outro  no plano da amizade que não escondiam ou não conseguiam esconder). Tom era ainda um moço bem aprumado de pouco mais de trinta anos, certamente. Elis estava na flor da idade também. Os dois exuberavam talento. Mas a vida, como sempre, fez o resto. Levou-nos os dois, ela de forma trágica. E a música popular brasileira, claro, tinha só que murchar e empalidecer.

Mas como dizia, estava assim a apreciar os dois grandes artistas quando Ilmar Carvalho – como sempre o faz – me liga do Rio. Ilmar não é apenas um excelente cronista, resenhista, melômano de mão cheia, crítico musical de clássico e popular, mas é, acima de tudo isso, um homem que acompanha o quadro cultural urbi et orbi.

Referi-lhe a coincidência de sua ligação, sendo ele, como dito, um apaixonado ou aficionado da MPB, com o fato de me deparar com os dois (Tom e Elis) na tela do computador, com essa beleza de canção.

Foi então que me contou duas histórias envolvendo Tom (há muitas, claro). Uma das quais ligada ao caso que lhe mencionei de ser Tom grande admirador de Drummond. Ele emendou, em seguida: – A admiração era tal que, quando, certa vez, Tom se encontrou com Drummond, numa rua de Copacabana, abaixou-se e lhe beijou os pés.

E disse-me mais: que essa letra de “Águas de Março” foi considerada a mais bela da música popular mundial        .

Aproveitei a oportunidade para lhe dar duas informações sobre o poeta: 1) que Houaiss recebeu missão dos membros da Academia Brasileira de Letras para convidar Drummond a integrá-la. Para isso, foi visitá-lo em seu apartamento na rua Conselheiro Lafayette, em Copacabana. Drummod recebeu-o amavelmente. Houaiss lhe disse que, para ingressar na ABL, Drummond precisaria apenas se candidatar; mais nada; o resto os membros da ABL fariam.

Drummond disse a Houaiss que se sentia muito sensibilizado com o convite, mas não conseguia se ver envergando o fardão de acadêmico nem muito menos pronunciando o discurso de posse, o que, de ante-mão, o levavam à recusa de tão nobre quão honrosa distinção; 2) o mesmo deu-se com a indicação de seu nome ao prêmio Nobel de literatura, na condição de poeta, não autorizando quem quer que seja a tomar tal iniciativa.

Drummond, Tom, Elis Regina, que grandes artistas, que colocaram numa altura tão grande a arte que praticaram, que, sem dúvida, assinalou uma época.

(set/09)

MÁRIO crônica de hamilton alves

Mário é o nome de um amigo que fiz há pouco. Tem setenta e oito anos, mas aparenta ser ainda um homem disposto para qualquer parada, cabelos grisalhos, bastante lúcido, sem nenhum problema de saúde aparente e dono de um bom humor contagiante. Toma vinho, cerveja, caipirinha. Come com moderação, sem escolha de cardápio. Ou seja, o que vier traça. Exercício físico, segundo deduzi em algumas horas de conversa, não faz nenhum. Ou não se dedica a fazê-lo. Exame médico, não se lembrava mais do último que fez. Consulta a médico, também, só se recordava de ter feito duas ou três durante toda a vida, mesmo assim para doenças passageiras.

                                               Passou o diabo para sobreviver, oriundo de uma família pobre, de oito irmãos (incluindo-se ele). Começou a frequentar a escola com onze anos, mas logo percebeu que tinha que trabalhar para ajudar nas despesas da casa.

Reuniu-se com três outros amigos (dois deles filhos de médicos e um outro de marinheiro) para trabalhar na caça a rãs. Os filhos dos médicos e ele eram caçadores, enquanto o filho do marinheiro tratava de limpá-las para vendê-las. Colhiam sempre uma boa grana nesse comércio. O filho do marinheiro tinha uma destreza incrível no trato das rãs. Tornou-se um perito nessa tarefa. As rãs, depois de devidamente limpas, eram colocadas numa sacola, conduzidas num carrinho de mão, dirigido por ele, depois do que eram comercializadas, especialmente com italianos, que as adoravam para comê-las ou revendê-las.

                                               Com esse trabalho inicial deu os primeiros passos na sua vida trabalhosa.

                                               Casou-se aos 21 anos com uma mulher diplomada em universidade (não me disse qual). Colocou-o nos trilhos (dito por ele), insistindo que voltasse a estudar. Seguiu seu conselho. Com isso, um amigo lhe arranjou um emprego numa empresa que trabalhava na comercialização de arroz. Entrou nela sem saber o salário que ia ganhar de início. Só seria estabelecido depois que provasse sua capacidade de gerenciamento. Trabalhava doze, treze, quatorze horas, sem descanso, nos feriados e domingos, que era quando saía em viagens para no dia seguinte ter contato com adquirentes do produto. No fim de 35 anos, aposentou-se. Abriu seu próprio negócio.

                                               Formou uma família de quatro filhos: dois homens e duas moças, sendo um engenheiro agrônomo, o outro comerciante, uma das moças é dentista,  a outra é enfermeira de grau universitário. Dois deles, o agrônomo e a enfermeira, fizeram mestrado e doutorado na Alemanha, vindo a casar com alemães, do que resultou uma neta alemã, tendo dez netos.

                                               A filha, diplomada em enfermagem, conhece alemão, assim como o filho agrônomo. Dão palestras por toda parte. Ela é professora universitária.

                                               Perdeu a mulher aos cinqüenta e sete anos de casado. Me declarou (alto e bom som)  que lhe deve tudo o que foi e o que é.

                                   – Qual seu estado civil atual?

                                   Fiz-lhe essa pergunta levando em conta sua jovialidade, deduzindo que, por isso, teria se amarrado a algum rabo de saia.

                                   – Sou viúvo. – respondeu com muita convicção, como se assim quisesse revelar que, mesmo depois de morta, guarda fidelidade à velha companheira.

                                   Findou o encontro confessando-me:

                                   – Só se colhe o que se planta.

                                  

 

RUMOREJANDO (Cota de avião? A próxima legislação de interesse deles algum pai da pátria já deve estar bolando. Até quando? / por juca (josé zokner)


PEQUENAS CONSTATAÇÕES, NA FALTA DE MAIORES.

Constatação I

O abandono dela me deixou sentido.

Meu coração, que era maciço,

Ficou, por tal razão, carcomido.

E parecido com um queijo suíço.

Constatação II

O candidato eleito é a antítese, o antípoda, a dicotomia, a discrepância do candidato em campanha.

Constatação III

Foi a tenista americana Serena Wiliams que um admirador tranqüilo, calmo, sereno fez uma serenata pra ela no meio de um forte sereno, cantando “serenô eu caio, eu caio, serenô deixa cair”…

Constatação IV

Corja é o coletivo

De um pessoal

Muito vivo?

Constatação V (Para os meus amigos Beto Guiz e Marcos Recchia e para Inezita Barroso).

Quando o interiorano foi pela primeira vez assistir um balé que apresentou o Lago dos Cisnes do compositor russo Pyotr Ilyich Tchaikovsky e, mais tarde, contou para os amigos: “Só me alembro de algumas partes que eu assisti. As otras eu drumi. Abriu uma cortina de uma baita janela. Adespois vejam só:

Ela parecia mermo uma garça

Quando na ponta do pé

Tava a dançá

Uma linda varsa.

Será que ela tava

Com dor no carcanhá?

Que deve ter incomodado ela

Bastante?

Um cristão

Ficava

Arrodeando

Ela todo instante

E se agarrava nela.

Devia tá matutando

Arguma má intenção

Arguma má fé.

Tinha jeito de tê

Arguma tara.

Num gostei do infeliz.

Eu até quis

Dá nele um safanão

O fiô duma égua,

Que vá dança

Com aquela

Ropa de cetim,

Cateretê

Com as muié,

Que quisé

Muinta légua

Pra morde longe de mim.

Constatação VI (Dúvida crucial via pseudo-haicai).

É no peritônio

Que se manifesta

O cara ser idôneo?

Constatação VII

E como fabulava o obcecado: “Meus carinhos são sempre sem segundas intenções, mas que elas existem isso lá existem”.

Constatação VIII

Assim como o parvo diz parvoiçada e o besta diz besteirada quem diz disparate é um sujeito resultante da soma do parvo e do besta na tabuada?

Constatação IX (Para o meu Amigo Luiz Ivan de Vasconcellos se recuperando de um acidente).

Foi o lírio

Que disse para a ágata:

“Você é uma gata

Que, como ouro, reluz.

Pros meus olhos uma luz,

Um colírio.

O teu desdém

Me obriga, no jantar,

A tomar

Um chá de mentruz

Pra me acalmar

Você é alguém

Que me induz,

Num vaivém,

A frequentar

O Sus.

Constatação X (Dúvida crucial).

Foi o marisco

Que, para não se molhar,

Por causa de um chuvisco,

Adentrou ao mar?

Constatação XI

Não se pode confundir purista com jurista, até porque nem todo jurista é purista e nem todo purista é jurista. Evidência, evidentemente, evidente, prezados leitores.

Constatação XII

Muita gente reclama porque Noé levou para a sua – dele – arca certos insetos inconvenientes, como, por exemplo, um casal de pulgas. Data vênia, como diriam nossos juristas, mas este assim chamado escriba acha que, por estar muito atarefado em conciliar os lugares para todas as espécies, Noé não tomou tal iniciativa. Elas, as pulgas, devem ter tomado carona no casal de cães. Pelo sim e pelo não Rumorejando se propõe a esclarecer o que realmente ocorreu. Tão logo tenha uma resposta dará a conhecer aos seus estimados leitores. Obrigado pela compreensão.

Constatação XIII

O horroroso

Não se considerava

Pavoroso,

Nem, ao menos, feioso

E não se achava

Mirífico*

Ou magnífico.

Ele se julgava

Meio-termo,

Pois vivia ermo

Só e abandonado.

Coitado!

*Mirífico = “2   extraordinariamente belo; perfeito, maravilhoso, admirável” (Houaiss).

Constatação XIV

O corporativismo é uma reunião de interesses comuns, defendendo causas incomuns.

Constatação XV

E foi a ametista

Que levou a boca-de-leão

Ao dentista

Por causa de uma inflamação?

Constatação XVI

O banguela

Desceu com o carro

Na banguela

Na estradinha de barro

Um pouco lisa.

O dentista tinha arrancado

Mais de um dente

Que o doutor tinha achado

Excludente.

Coitado!

De repente ele divisa

Um buraco.

Freou,

Meio devagar, fraco.

Mesmo assim,

O carro derrapou

E a companheira

Que ia ao lado

Bateu no pára-brisa

A moleira.

Quebrou um dente,

Também ela.

Ficou danada.

“Você não cuida de mim!”

Coitada!

Constatação XVII

Rico sofre de amnésia; pobre, nunca presta atenção.

Constatação XVIII

E como explicava, poetando, aquele velho professor de matemática contrário à máquina de calcular:

“Qualquer resolução

De uma equação

Passa, antes de mais nada,

Pela velha tabuada.

Constatação XIX (De uma dúvida crucial).

Por que será que a diretoria do meu Paraná não se demite ao invés de demitir técnicos?

Constatação XX

Rico leva donativo; pobre, corretivo.

E-mail: josezokner@rimasprimas.com.br

 

A GALINHA por hamilton alves

 Numa certa ocasião, entre amigos (isso na mocidade), houve um grande problema.  Propúnhamo-nos a fazer um ensopado de galinha. Éramos quatro para uma galinha só.

                                   O problema surgido, de pronto, foi quem se incumbiria de matar a galinha.

                                   Nenhum de nós tinha até então vivido experiência igual.

                                   Havia três casas vizinhas. Era já noite fechada. Incomodar vizinhos para matar uma galinha não entrava na cabeça de nenhum de nós. Tínhamos que nos virar.

                                   Consultamos um vizinho mais próximo.

                                   – O senhor não conseguiria matar uma galinha que queremos ensopar?

                                   – Ó, meu caro – disse ele – nunca matei sequer uma mosca na vida, muito menos uma galinha,

                                   Não tinha jeito. A missão teria que caber a um de nós. E à qual?

                                   Houve um que teve uma idéia que nos pareceu salvadora: chamaria a irmã por telefone, que morava próximo – ela tinha habilidade de matar uma galinha com um mero golpe no pescoço.

                                   – Tua irmã vai demorar e acabamos não comendo essa galinha. – disse um dos mais famintos, apressado em resolver logo o impasse.

                                   A tal irmã demorou um bocado. A certa hora, bateu o telefone. Todos pressurosos corremos para atendê-lo. Era ela (a irmã).

                                   – Me desculpem (disse ela), mamãe acabou de chegar, não está se sentindo muito bem; não posso ir.

                                   Era a derradeira esperança de se resolver de modo não turbulento a morte da galinha para que, finalmente, a comêssemos.

                                   Um dos amigos propôs-se a pedir a um passante qualquer que o fizesse.

                                   Passou um praça da polícia.

                                   – Eu, meu filho, matar uma galinha? Nem por nada deste mundo.

                                   Passou uma velha senhora, sobraçando um pacote.

                                   – De modo algum, não conheço essas artes.

                                   Passou outro sujeito, metido num capote que o cobria de cima a baixo.

                                   – Não, não me peça para cometer um crime desses. Não levo jeito para matar nada.

                                   Caímos os quatros em desolação.

                                   Ou com receio de que um de nós teria que dar conta da triste missão.

                                   A galinha estava amarrada pelos pés. Olhava-nos numa expectativa tensa do que se faria com seu destino. Cacarejava, mal acomodada com o barbante lhe amarrando as perninhas ou pesinhos, coitada.

                                   Olhava-a de quando em vez. Morria de pena de saber que, por mal ou por bem, acabaria lhe cabendo o trágico destino na mão de um daqueles algozes.

                                   Foi então que, súbito, um de nós ergueu-se, impávido, depois de tocado por algumas doses de uísque. Pegou a galinha pelo pescoço, torceu-o duas ou três vezes, que estrebuchou até exalar o último suspiro.

 

 

(março/09)      

RUMOREJANDO. (Parentes com verba da Câmara viajando. Dúvida crucial: Será que eles não acham que estão nos roubando?) 19.04.09

PEQUENAS CONSTATAÇÕES, NA FALTA DE MAIORES.

Constatação I

Rico é caloroso; pobre, nebuloso.

Constatação II

Rico ganha cafuné; pobre, pontapé.

Constatação III

Ao gracejo

Ela respondeu,

Rapidamente,

Como um meteoro,

Com um sonoro

Bocejo

Tão-somente.

Aí ele perdeu

O rebolado.

Coitado!

Constatação IV

Com relação ao seu pedido de aumento,

Alegando a vinda próxima de um rebento

E o substancial e exagerado aumento

Do aluguel do seu apartamento,

Tenho a informar o seguinte argumento,

Que se refere ao posicionamento

Do meu Departamento:

Ultimamente o seu comportamento

De incitar os colegas a um movimento

De paralisação por um momento

Ou os trabalhos de retardamento

Da entrega das partidas de cimento

Revelando descumprimento

Da política de nosso enriquecimento,

Obriga-me a recusar o seu intento.

Sinceramente lamento.

Sem mais para o momento,

Apresento meu respeitoso cumprimento.

Antônio dos Anjos Sarmento

Ex – Primeiro Sargento

Do 2º. Batalhão de Provimento.

Constatação V

Aquele edifício,

Onde habitava

Gente não pontifícia,

Parecia um dentifrício:

Numa batida da polícia,

Rolava nada de carícia,

Pois ela apertava

A caterva

Aí, saía muita erva.

Nada a ver com erva-mate

O que seria um disparate,

Pois tomar um simples chimarrão

Absolutamente não é infração.

Constatação VI(Ah, esse nosso vernáculo ou como ensinar o a, e, i, o, u versejando, preferencialmente, para adultos).

Por causa de um perjúrio

De um mau augúrio

O cartorário

Teve um delírio,

Condenatório,

O que foi um martírio,

Além de um mistério

Que seu itinerário

Para o purgatório

Antes passava pelo cemitério.

Constatação VII

Encheu o bandulho

Com uma macarronada

Antes de visitar

A namorada.

A barriga se pôs a fazer barulho,

A roncar

Bem na hora de beijar

A idolatrada

A tão amada

Que caiu na risada

O que fez o encanto

Esmorecer.

Ficou chateado.

Tava nas preliminares

Naquela sublime ação

Da bolinação

Que afasta até azares

E que deveria acontecer,

Ou que se supõe suceder

Em todos os lares.

Pra não enroscar,

Já tinha tirado

Até os anéis e colares.

Teve que recomeçar

Com novo canto,

Com novos cantares.

Coitado!

Constatação VIII (Uma historieta).

A família era constituída pela mãe, o pai e quatro filhos, duas meninas e dois meninos. Tinham o habito de comerem todos juntos, ao contrário do que vem acontecendo na maioria das famílias. Mas isso já é outra história ou historieta que absolutamente, agora, não vem ao caso. A mãe mandou fazer uma mesa sextavada. Assim, cada um dos componentes sentava num dos lados do hexágono, no seu lugar já consagrado. Um dia, a filha mais velha trouxe o namorado para jantar. Era o professor da academia de ginástica, do tipo dois metros de altura por dois metros de largura. Quando começaram a comer, depois de dar um jeito de encaixar o namorado na mesa, se deram conta que teriam, nas próximas vezes, tirar os outros três filhos para irem comer na cozinha. É que o namorado comia com os cotovelos formando 90º com o corpo. Coitado! Coitados!

Constatação IX (Teoria da Relatividade para principiantes).

É muito melhor ter os olhos de rato e o sorriso da Mona Lisa do que os olhos da Mona Lisa e o sorriso de rato.

Constatação X (Pergunta ao meu amigo, o professor Luiz Gonzaga Paul).

Por que palavras como período, bugio, vazio e tantas outras a letra o tem o som de u?

Constatação XI (De diálogos tipo mea culpa).

-“A minha mulher é uma santa!”

-“Por que? Ela faz milagres?”

-“Sim. Ela faz o milagre de me aturar”.

-“Ah!”

Constatação XII

O eterno cordato

Acaba virando

Um pato

De quando em quando?

Constatação XIII

“Sinergia”, explicava o obcecado para a sua mais recente conquista, “é dizer sim com toda a energia para as minhas benévolas propostas”

Constatação XIV (De diálogos meio confusos e consequentemente pouco esclarecedores).

-“Ela tirou o corpinho. Revelou assim todo o seu antológico corpinho. Que eu cobri com o meu corpão”.

-“Cobriu o corpinho ou o corpinho?”

-“O corpinho”.

-“Ah, bom!”

Constatação XV

Era um político duplamente baixo: De altura e de propósitos.

Constatação XVI

E como poetava aquele filho para a sua – dele – intrometida mãe: “Não me impinja uma calipígia como é o caso da Ligia; não infrinja meu direito de escolha. Não seja bolha”.

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