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O BRASIL é o MEU PÚBLICO: MAZZAROPI entrevistado por armando salem para a revista veja em 28/01/1970



De Jeca a Djeca, um sucesso de 25 anos, com os cinemas sempre lotados 

   Esta semana, mais um de seus filmes está sendo lançado nos cinemas de São Paulo para depois correr o Brasil. “Uma Pistola para Djeca”. Produtor, ator, criador do personagem, ele é capaz de jurar que Djeca não vem de Django, o pistoleiro italiano: “Djeca é um herói caboclo do Brasil do século XIX”. Ele é Amácio Mazzaropi, sucesso garantido em bilheteria, um homem que dá risadas das histórias contadas a respeito de sua fortuna. Mora numa casa classe média – três quartos, sala, banheiro, cozinha – num bairro classe média de São Paulo. Na garagem, um automóvel Galaxie amarelo, que Mazzaropi mesmo dirige, desmente uma das histórias: a do bilionário caipira que – charuto na boca, terno de linho branco trocado pelo chapéu-coco, chofer na direção de um magnífico Rolls-Royce – de vez em quando passeia nas ruas da cidade. Parece ser um homem simples, como os personagens que viveu durante 25 anos (completa o jubileu este ano) nas telas dos cinemas nacionais. Tem um pouco do “Zé do Periquito”, do “Padre”, do “Corinthiano”.

    Solteirão nascido na capital de São Paulo em 9 de abril de 1912, filho de um casal classe média, Dona Clara e Bernardo – um próspero dono de mercearia – iria crescer sem problemas financeiros mas com muita preguiça: mal conseguiu terminar o ginásio. Do avô Amácio Mazzaropi (imigrante italiano que foi trabalhar nas terras do Paraná) não herdou só o nome, mas o gosto pela vida do campo que o levou um dia a pesquisar no interior o personagem de calças curtas, canela aparecendo, botinas, fala arrastada – o caipira Mazzaropi.

  DO CIRCO AO CINEMA, SEMPRE O MESMO PERSONAGEM

Veja Qual é o seu público?
Mazzaropi
– Meu público é o Brasil, do Oiapoque ao Chuí. Eu loto casa em São Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Acre, Rondônia, Rio Grande do Sul, Rio Grande do Norte, ilha do Bananal… 

VejaSim, mas como você definiria esse público: gente simples, classe baixa, elite, velho, moço?
Mazzaropi – É público bom, fiel.  

Veja – Você não gosta de falar?
Mazzaropi – Não.  

Veja
Por quê?
Mazzaropi – Porque deturpam tudo o que eu falo.

Veja – Quem deturpa?
Mazzaropi
– A crítica. A imprensa.

Veja – E como se faz para contar quem é Mazzaropi e o que ele pretende fazer daqui para a frente?
Mazzaropi – Conte minha verdadeira história, a história de um cara que sempre acreditou no cinema nacional e que, mas cedo do que todos pensam, pode construir a indústria do cinema no Brasil. A história de um ator bom ou mau que sempre manteve cheios os cinemas. Que nunca dependeu do INC – Instituto Nacional do Cinema – para fazer um filme. Que nunca recebeu uma crítica construtiva da crítica cinematográfica especializada – crítica que se diz intelectual. Crítica que aplaude um cinema cheio de símbolos, enrolado, complicado, pretensioso, mas sem público. A história de um cara que pensa em fazer cinema apenas para divertir o público, por acreditar que cinema é diversão, e seus filmes nunca pretenderam mais do que isso. Enfim, a história de um cara que nunca deixou a peteca cair.

Veja – Conte então sua história.
Mazzaropi – Quando eu comecei minha vida artística, muito pouca gente que vai ler esta história existia. Nasci em 1912, e na época em que comecei tinha uns quinze anos. Naquele tempo, o gênero de peças que fazia sucesso no teatro era caipira. E, como todo mundo, eu gostava de assisti-las. Dois atores, em particular, me fascinavam. Genésio e Sebastião de Arruda. Sebastião mais que Genésio, que era um pouco caricato demais para meu gosto. Nem sei bem por que, de repente, lá tava eu trabalhando no teatro. Mas não como ator – eu pintava cenários. Aliás, eu amava a pintura, sempre amei a pintura. Pois bem, um belo dia “perdi” o pincel e resolvi seguir a carreira de ator. No começo procurei copiar a naturalidade do Sebastião, depois fui para o interior criar meu próprio tipo: caboclão bastante natural (na roupa, no andar, na fala). Um simples caboclo entre os milhões que vivem no interior brasileiro. 
 
Saí pro interior um pouco Sebastião, voltei Mazzaropi. Não mudei o nome (embora tivessem cansado de me aconselhar a mudá-lo) por acreditar não haver mal nenhum naquilo que eu ia fazer. Os amigos diziam que Mazzaropi não era nome de caipira, que era nome de italiano, mas eu respondia para eles que, se não era, iria virar. Que eu não tinha vergonha do que ia fazer e, por isso, ia fazer com meu nome. E o público gostou do meu nome, gostou do que eu fiz. Turnês em circos, teatros, recitando monólogos dramáticos, fazendo a platéia rir, chorar. Mas sempre com uma preocupação: conversar com o público como se fosse um deles. Ganhava 25 mil-réis por apresentação quando comecei, passei a ganhar bem mais quando montei a minha própria companhia (1). De nada adiantou a preocupação dos meus pais quando eu saí de casa: “quem faz teatro morre de fome em cima do palco”. Eu fiz e não morri, pelo contrário, sempre tive sorte – sempre ganhei dinheiro. Mas eu era bom, era o que o público queria. Em 1946 assinava um contrato na Rádio Tupi – onde fiquei oito anos. Em 1950 ia para o Rio de Janeiro inaugurar o canal 6, e começava minha vida na televisão (2). Um dia, num bar que havia pegado ao Teatro Brasileiro de Comédia, entrou Abílio Pereira de Almeida. A televisão estava ligada, o programa era o meu. Ele me viu. Uma semana depois, uma série de testes me aprovava para fazer o meu primeiro filme: “Sai da Frente”. Meu primeiro salário no cinema – 15 contos por mês. No segundo já ganhava 30, depois 300, hoje eu produzo meus próprios filmes. E o público, como no meu tempo de circo, vai ver um Mazzaropi que faz rir e chorar. Um Mazzaropi que não muda.
 

A MÁGOA DE MAZZAROPI: UMA CRÍTICA QUE SÓ PENSA EM DINHEIRO

Veja Sua história parece girar em torno de cifras. Você é louco por dinheiro?
Mazzaropi – Não, acho que dinheiro não traz felicidade na vida. Tá certo que ajuda, mas, em compensação, quem tem, além de viver intranquilo, passa a ter desconfiança em vários setores da vida. Quem tem dinheiro sempre duvida de quem se aproxima – não sabe se é um amigo ou se vem dar uma bicada.

Veja – Quanto você ganha?
Mazzaropi – Mas por que vocês se preocupam tanto com o que eu ganho? Vão perguntar pro Pelé, que marcou mil gols. Ele é muito mais rico que eu. Tudo que tenho em meu nome é a casa onde moro. O resto está tudo em nome da Pam-Filmes.

Veja – Tem sócio?
Mazzaropi – Não, não tenho. Tenho o necessário para pensar em fazer amanhã ou depois a indústria cinematográfica de que falei. Tenho câmeras de filmar, holofotes, lâmpadas, cavalos, cenários, agências em São Paulo, Rio, Norte do país, e uma fazenda de 184 alqueires no Vale do Paraíba – Taubaté – que serve perfeitamente de estúdio para os filmes que rodo. Como vê, tudo que ganho é aplicado na Pam-Filmes, no cinema brasileiro. E depois vêm esses críticos de cinema metidos a intelectuais dizendo: “O Mazzaropi tá cheio de dinheiro. Ele tá podre de rico. Não sabe onde pôr o dinheiro”. Não são capazes de entender que eu faço cinema como indústria. E o cinema é uma indústria como qualquer outra. Eu faço o cinema-indústria e vou fazer a indústria brasileira de cinema.

Veja – Acredita mesmo nisso?
Mazzaropi – Acredito e não estou longe dela. Não uma indústria exportadora. Não sou visionário. Uma indústria que seja capaz de suprir o mercado interno de filmes é o suficiente. Não podemos pensar em conquistar o mercado externo – nós não temos nem lâmpadas aqui. Tudo que temos vem de lá. Mas, se nós pudermos ter uma indústria produzindo fitas nacionais, se nossas salas ficassem ocupadas por fitas nacionais, quanto dinheiro nós estaríamos evitando de mandar para fora!

Veja – É um sonho muito bonito. Mas há público no Brasil para fitas nacionais? Ou seria a falência dos exibidores?
Mazzaropi – Não posso falar pelos outros porque não conheço os resultados dos números daquilo que eles fazem. Tenho muita vaidade em dizer que eu não tenho nenhum problema de exibição de meus filmes. Os exibidores fazem fila na porta da Pam-Filmes. O público vai ver minhas fitas e sai satisfeito. Eu já consegui colocar 13000 pessoas num dia, nas várias sessões do Art Palácio, em São Paulo. Com isso, ando de cabeça erguida. Agora, pelo outro tipo de filme feito no Brasil, não respondo. Não sei se ele pode ajudar a indústria cinematográfica nacional.

Veja – Que outro tipo de filme?
Mazzaropi
– Esse tal de Cinema Novo.

Veja – Você é contra o Cinema Novo?
Mazzaropi – Não, eu não tenho nada contra ele. Só acho que a gente tem que se decidir: ou faz fita para agradar os intelectuais (uma minoria que não lota uma fileira de poltronas de cinema) ou faz para o público que vai ao cinema em busca de emoções diferentes. O público é simples, ele quer rir, chorar, viver minutos de suspense. Não adianta tentar dar a ele um punhado de absurdos: no lugar da boca põe o olho, no lugar do olho põe a boca. Isso é para agradar intelectual.

Veja – Você parece ter muito raiva dos intelectuais.
Mazzaropi – E tenho mesmo. É fácil um fulano sentar numa máquina e escrever: “Hoje estréia mais um filme de Mazzaropi. Não precisam ir ver, é mais uma bela porcaria”. Mas não explicam por quê. Talvez com raiva pelo fato de eu ganhar dinheiro, talvez por acreditarem que faço as fitas só para ganhar dinheiro. Mas não é verdade, porque o maior de todos os juízes fugiria dos cinemas se isso fosse verdade – o público.

Veja – O que você acredita oferecer para o seu público?
Mazzaropi – Distração em forma de otimismo. Eu represento os personagens da vida real. Não importa se um motorista de praça, um torcedor de futebol ou um padre. É tudo gente que vive o dia-a-dia ao lado da minha platéia. Eu documento muito mais a realidade do que construo. Quando eu falo tanto na parte comercial, não quer dizer que é só com isso que eu me preocupo. Se um crítico viesse a mim fazer uma crítica construtiva, mostrar uma forma melhor de eu ajudar o público – eu aceitaria e o receberia de braços abertos. Mas em momento nenhum aceitaria que ele tentasse mudar minha forma de fazer fitas. Elas continuariam as mesmas, pois é assim que o público gosta e é assim que eu ganho dinheiro para amanhã ou depois aplicar mais na indústria brasileira do cinema. E se os críticos se preocupassem menos com o que eu ganho e mais com as salas vazias do Cinema Novo entenderiam que cinema sem dinheiro não adianta. Que não adianta a gente começar pondo o carro adiante dos bois.

Veja – Quanto rendem seus filmes
Mazzaropi – A resposta só pode ser dada pela contabilidade do escritório da Pam. É lá que eu confiro os balanços. De cabeça só tenho as cifras da renda total do filme que exibi no ano passado: “O Paraíso das Solteironas”. Do dia da estréia, 24 de janeiro de 1969, até 19 de janeiro de 1970, o filme rendeu 2 bilhões e 650 milhões de cruzeiros velhos.

Veja – Quanto custou a produção?
Mazzaropi – Não me lembro.

Veja – E a do último?
Mazzaropi – “Uma Pistola para Djeca” ficou entre 500 e 600 milhões de cruzeiros velhos. É o meu filme mais caro e mais bem cuidado. Colorido especial, guarda-roupa especialmente feito para o filme, que está, realmente, muito bonito. Procuro sempre melhorar a qualidade técnica dos filmes que produzo. É este o algo mais que eu procuro dar ao público. Infelizmente, o que falta no Brasil é gente inteligente, que entenda de cinema. Faltam diretores, roteiristas, cinegrafistas, falta tudo.

Veja – Dos papéis que já representou, qual o mais importante?
Mazzaropi – Gostei de todos os filmes que fiz, por isso é difícil dizer qual o papel que mais me realizou.
 
Veja – Não teria sido “Nadando em Dinheiro”?
Mazzaropi – Quem sabe! Não é verdade, é brincadeira. Gostei do Candinho, do Motorista, do Corintiano, gostei mesmo de todos. Mas talvez eu fique com a opinião do presidente da Academia Brasileira de Letras, que, no dia 17 de janeiro de 1968, escrevia e assinava um bilhete dirigido a mim (eu o guardo até hoje num quadro sobre a lareira de minha sala): “Astraugesilo de Ataide considera que, com “Jeca Tatu e a Freira” Mazzaropi alcançou no cinema o mais alto nível de sua arte. É hoje, sem nenhum favor, um artista de categoria mundial”.  
 

A FAVOR DO PALAVRÃO MAS CONTRA OS EXAGEROS DO SEXO

 

Veja Você contou ter entrado no teatro através da pintura. Até hoje você pinta?
Mazzaropi – Não, apenas gosto.

Veja – Que gênero prefere?
Mazzaropi – Sou um conservador, prefiro a pintura clássica. Principalmente dos quadros que têm paisagem, talvez por me fazerem lembrar o campo, o contato com a natureza.

Veja – E quanto a leitura?
Mazzaropi – Só leio “Tio Patinhas”.

Veja – Sente saudade do teatro?
Mazzaropi – Oh, se sinto. Mas de vez em quando dá pra matá-la. Faço alguns shows beneficentes em circos e teatros do interior.

Veja – Representando coisa séria? Ou vivendo o caipira Mazzaropi?
Mazzaropi – É muito difícil separar um do outro. Eu já fiz teatro sério: interpretei “Deus lhe Pague” e “Anastácio”, de Juracy Camargo; “Era uma vez um Vagabundo”, do Wanderlei, e várias peças do Oduvaldo Viana. Em todas elas eu sempre fui Mazzaropi. Não interessa se fazia o público rir ou chorar. Ele sempre estava vendo o Mazzaropi, pois eu não posso mudar meu jeito de rir, falar, olhar.

Veja – Você vai muito ao teatro?
Mazzaropi – Sim, bastante.

Veja – O que pensa do novo teatro, do palavrão, do nu?
Mazzaropi – Não tenho nada contra ele. Pelo contrário, até gosto das peças que têm nu, palavrão, mas quando eles vêm por necessidade, por decorrência da própria história. Não do palavrão, do nu forçados. De um punhado de gente pelada se esfregando maliciosamente pelas paredes do teatro; do sensacionalismo para ganhar público. No início, eles vão conseguir encher os teatros – é certo. Mas e depois, este público volta? Não, claro que não volta. Nem a minoria que vai ao teatro consegue agüentar ficar vendo gente pelada e ouvindo palavrões o tempo inteiro. Calculem a população de São Paulo e façam uma relação do número de teatros que nós temos e vejam quantos estão cheios. Vejam quantos lugares têm esses teatros – e verão que a freqüência é mínima. O grande público fica em casa. Aceita Chacrinha, Sílvio Santos, Hebe Camargo, vê televisão. Vai ao cinema ver os meus filmes e depois eu passeio pelas ruas e ouço um pai de família: “Mazzaropi, seus filmes são ótimos. A gente pode levar a família para assisti-los”. Já imaginaram se eu aparecesse pelado para esse público? Ele nunca mais iria me assistir no cinema.

Veja – Você falou na aceitação da televisão. Por que não volta a fazer?
Mazzaropi – Já tenho muito trabalho com a Pam-Filmes. Faço um filme por ano – mas ele dá um trabalho! Cinco meses de preparação de roteiro, cenários, etc. Dois meses para filmar. O resto é problema de distribuição. Não dá para fazer mais nada. E não estou mais na idade de ter patrão. Tenho meu negócio, trabalho a hora que quero. Não dou satisfação a ninguém. Na TV eu iria ter patrão.  

Veja – Mas você gosta de televisão?
Mazzaropi – Oh, se gosto. Assisto sempre. Tudo que consegue se comunicar com o público me fascina. Gosto do Sílvio Santos e da Hebe, principalmente. Eles vieram do nada como eu. Ganham dinheiro para divertir o público, e divertem. Não adianta nada a crítica chamar a Hebe de burra. Ela nunca disse para ninguém que era professora. Não adianta dizer que ela só fala bobagens – o público gosta do que ela fala. E quem manda é o público. 

Veja – Tem planos para o futuro?
Mazzaropi – Sim, continuar fazendo filmes até morrer – é a única coisa que sei fazer na vida. Quero morrer vendo uma porção de gente rindo em volta de mim.
 

Observações do Museu Mazzaropi

(1) Após realizar seu último filme pela Cinedistri, Chico Fumaça, de 1956, Mazzaropi já era famoso no cinema nacional e resolveu que estava na hora de investir em si mesmo. Isso porque via as grandes filas no cinema e eram, geralmente, os donos das produtoras que sempre ganhavam muito dinheiro.

O sucesso de Chico Fumaça fez com que Mazzaropi comentasse com sua mãe, Dona Clara, que o proprietário da companhia Cinedistri, sr. Massaini, ganhara muito dinheiro com o sucesso dos filmes em que ele participara e pediu para que ela o apoiasse num investimento que pretendia fazer.

Ele queria produzir um filme, mas para levar seu projeto adiante não hesitou em se desfazer dos seus bens: dois carros Chevrolet americanos, terrenos, economias bancárias e perguntou ao seu filho de criação, Péricles Moreira, se fosse necessário, se ele não se importaria em trocar o colégio particular por um colégio estadual. Mazzaropi ficou apenas com o terreno do Itaim Bibi.

Em 1958, consegue produzir seu primeiro filme, Chofer de Praça. Não foi fácil, no início teve que alugar os estúdios da Cia Vera Cruz para as gravações internas e as filmagens externas foram rodadas na cidade de São Paulo com os equipamentos alugados da Vera Cruz. Estava inaugurada a PAM Filmes – Produções Amácio Mazzaropi.


(2) Na verdade, em setembro de 1950, Mazzaropi, com 38 anos, estreava na TV Tupi de São Paulo o mesmo show que tinha sido sucesso durante muito tempo na Rádio Tupi: Rancho Alegre – o programa era ao vivo, todas as quartas, às 21 horas.

Quatro meses depois, janeiro de 1951, Mazzaropi é convidado para a inauguração da TV Tupi no Rio de Janeiro. No alto do Pão de Açúcar, onde se achava instalada a torre transmissora, acontece a grande festa com a presença do Presidente, General Eurico Gaspar Dutra.

A apresentação do show inaugural coube a Luis Jatobá, primeiro locutor da Tupi carioca.

Mazzaropi também passou pela TV Excelsior fazendo parte de um programa de sucesso na época, apresentado por Bibi Ferreira, Brasil 63.

ENTREVISTA COM MÁRIO BENEDETTI – escritor uruguaio / por sanjuana martínez*

Mario Benedetti: “por respeto a los obreros, no pongo obreros en mis obras”

Mário Benedetti: “por respeito aos operários, não incluo operários em minhas obras”

Mario Benedetti ha escrito más de setenta libros que se han traducido a veintitrés idiomas. Su libro La Tregua tiene ciento treinta ediciones, ientras la tirada total de sus textos alcanza más de dos millones de ejemplares.

Mário Benedetti escreveu mais de setenta livros, traduzidos para vinte e três idiomas. Seu livro A Trégua tem cento e trinta edições, e a edição total de seus textos atinge mais de dois milhões de exemplares

A sus ochenta años, Mario Benedetti no se acostumbra a la celebridad. Está cansado de tantas entrevistas. Desde hace cuatro años intenta tomarse un año sabático pero no le dejan sus compromisos y asegura que a medida que pasa el tiempo piensa más en la muerte, aunque no la teme. Es sencillo, riguroso en sus opiniones, y nunca ha cambiado sus convicciones ideológicas: “los intelectuales de izquierda, seguimos siendo de izquierda”. El autor de Inventario y Poemas de la oficina, comentó en la entrevista que todo lo que sea una aportación para el amor es maravilloso. Andamios (Alfaguara) se ha reeditado ya trece veces. Se trata de una historia sobre los encuentros y desencuentros del “desexilio”, una palabra conocida a través de Mario Benedetti.

Com seus oitenta anos, Mário Benedetti não se acostuma com a celebridade. Está cansado de tantas entrevistas. Há quatro anos, tenta conseguir um ano de folga mas não consegue pelos seus compromissos e afirma que à medida em que passa o tempo, pensa mais na morte, embora não a tema. É simples, rigoroso em suas opiniões e nunca mudou suas convicções ideológicas: “os intelectuais de esquerda, continuamos sendo de esquerda”. O autor de Inventário e Poemas do escritório, comentou na entrevista que tudo o que for uma ontribuição para o amor é maravilha. Andaimes (Editora Alfaguara) foi reeditado treze vezes. Trata-se de uma história sobre os encontros e desencontros do “desexílio” , uma palavra conhecida através de Mário Benedetti.

MB – Es una novela de setenta y cinco capítulos, setenta y cinco andamios que son estructuras adicionales que se hacen cuando se está construyendo una casa. Después de doce años de dictadura, Uruguay ha entrado en la etapa de reconstrucción democrática, pero sin terminar, por lo tanto precisa andamios. Esta es la metáfora del título. Son los encuentros y desencuentros de un exiliado que vuelve a su país, un desexiliado, una palabra que yo inventé. Como pasa con cualquier exiliado, tiene encuentros felices, otros más desgraciados y desengaños. La vuelta al país siempre es un cocktail de sensaciones.

MB- É um romance de setenta e cinco capítulos, setenta e cinco andaimes que são estruturas adicionais que se fazem quando se está construindo uma casa. Depois de doze anos de ditadura, Uruguai entrou na etapa da reconstrução democrática, mas inconclusa, por isso precisa de andaimes. Esta é a metáfora do título. São os encontros e desencontros de um exilado que volta para seu país, um desexilado, uma palavra que eu inventei. Como acontece com qualquer exilado, tem encontros felizes, outros menos e desencantos. O retorno ao país sempre é um coquetel de emoções.

SM – ¿Usted regresó a Uruguay después de doce años, tiene algo que ver Javier Montes, el protagonista de su novela, con usted?
SM- Você retornou ao Uruguai após doze anos. Javier Montes, o personagem de seu romance, tem algo a ver com você?

MB – Los dos somos desexiliados. La ficha biográfica de Javier no tiene mucho que ver conmigo. No es una novela autobiográfica, sino con gajos comunes que no son sólo de Javier y míos sino de casi todos los que volvieron al país. Las sorpresas, los cambios del estilo de la gente, las huellas que dejó la dictadura. Es un poco lo que hemos visto todos, no todos reaccionamos igual.
MB – Ambos somos desexilados. A biografia de Javier não tem muito a ver comigo. Não é um romance autobiográfico, mas com traços comuns que não são apenas de Javier e meus, mas de quase todos os que voltaram ao país. As surpresas, as mudanças de estilo das pessoas, as marcas deixadas pela ditadura. É algo visto por todos, mas com diferentes reações.

SM – ¿Cómo vivió usted el desexilio?
SM – Como foi seu desexílio?

MB – Uruguay no es el mismo que yo dejé, tampoco es el país que yo imaginé que iba a encontrar. Yo estaba muy bien informado de todo lo que pasaba en el país, pero no era el mismo que yo imaginé. Yo viví mi exilio en cuatro países de habla hispana, me adapté bastante bien. Uno aprende, pero de los gobiernos no se aprende, pero sí de la gente. En el exilio se da un fenómeno de ósmosis, uno da todo lo que puede para agradecer al país que lo acoge, pero también ese país le da a uno cosas.
MB – Uruguai já não é o mesmo de quando eu o deixei, nem é o país que imaginei quando o encontrei. Estava muito bem informado de tudo o que acontecia no país, mas não era o mesmo que eu imaginava. Vivi meu exílio em quatro países de língua espanhola, me adaptei muito bem. É possível aprender com as pessoas mas não dos governos. No exílio ocorre um fenômeno de osmose; qualquer um dá tudo o que pode para agradecer ao país que o acolhe, mas também esse país oferece coisas.

SM – ¿Cómo ve ahora a Uruguay?
SM – Como enxerga agora o Uruguai?

MB – Los militares están allí, están muy atentos y vigilantes. No es una situación comparable a la de Chile, donde Pinochet, que es dictador, sigue comandando las fuerzas armadas. Ahora que volvió a salir el tema de los desaparecidos, salió una ley que se llamó “Ley de caducidad de la retención punitiva del Estado”, una larga metáfora para decir: Ley de amnistía a los torturadores. Había un artículo cuarto donde se decía que se investigara a fondo el problema de los desaparecidos para que sus familiares supieran dónde estaban y dónde los habían enterrado, pero fue el único artículo que no se ha cumplido. En Uruguay hay una democracia vigilada, por la aprobación de esto. Han enterrado gente y luego les han puesto arboles encima, pero casi todos los desaparecidos están enterrados en los cuarteles. En definitiva, Uruguay es un país con muchas heridas no cicatrizadas. La impunidad permanece.
MB – Os militares estão aí, estão bastante atentos e vigilantes. Não é uma situação comparável com o Chile, onde Pinochet, que é ditador, continua comandando as forças armadas. Agora que voltou o assunto dos desaparecidos, apareceu uma lei que se chamou “Lei de cancelamento da retenção punitiva do Estado”, uma grande metáfora para dizer: Lei de anistia para os torturadores. Há o artigo quarto que se refere à busca dos desaparecidos para que seus familiares soubessem onde estavam e onde foram enterrados, mas foi o único artigo que não foi cumprido. No Uruguai há uma democracia vigiada para a aprovação deste assunto. Foram enterradas pessoas e colocaram árvores nesses lugares, porém quase todos os desaparecidos estão enterrados nos quartéis. Enfim, Uruguai é um país com muitas feridas não cicatrizadas. A impunidade permanece.

SM – ¿Qué pasa con los intelectuales de izquierda después de los cambios del siglo XX?
SM – O que acontece com os intelectuais de esquerda depois das mudanças do século XX?

MB – Los intelectuales de izquierda siguen siendo de izquierda. El Partido Comunista de Uruguay se escindió en tres partidos después de la crisis de la Unión Soviética, pero los tres están integrados en el Frente Amplio. Uruguay nunca fue un país con intelectuales de derecha, ni Argentina. Es muy importante la independencia de los intelectuales y en Uruguay fueron contados con la mano los que colaboraron con la dictadura.
MB- Os intelectuais de esquerda continuam sendo de esquerda. O Partido Comunista do Uruguai se dividiu em três partidos depois da crise da União Soviética, mas os três estão integrados na Frente Ampla. Uruguai nunca foi um país com intelectuais de direita, nem Argentina. É muito importante a independência dos intelectuais no Uruguai e foram poucos casos os que colaboraram com a ditadura.

SM – Comentó que desde el estallido de la guerra en Chiapas no ha vuelto a México…
SM – Você comentou que desde o início do enfrentamento em Chiapas não mais tem viajado ao México…

MB – Pero he firmado cosas a favor del subcomandante Marcos. La historia de México se dividirá en antes de Chiapas y después de Chiapas. La guerrilla de Chiapas es una guerrilla extraordinaria. Es la única guerrilla que tiene posibilidades reales de provocar cambios.
MB – Mas tenho feito abaixo-assinados em favor do subcomandante Marcos. A história do México se dividirá em antes e depois de Chiapas. A guerrilha de Chiapas é uma guerrilha extraordinária. É a única guerrilha que tem possibilidades reais de provocar mudanças.

SM – ¿Sin armas?
SM – Sem armas?

MB – Efectivamente, esa es la solución. Se ha demostrado que con la lucha armada no se pueden arrancar cambios… el último caso es el de Tupac Amaru de Perú. En cambio, la guerrilla de Chiapas tiene la inteligencia de hacer un reclamo dentro de la ley, que es que se le aplique la Constitución a todos los mexicanos. El PRI no es indestructible, puede ser derribado, corre peligro su permanencia en el poder.
MB- Efetivamente, esta é a solução. Se demonstrou que com a luta armada não se podem produzir mudanças…o último caso foi o de Tupac Amaru no Peru. Por sua vez, a guerrilha de Chiapas tem a clareza de reivindicar dentro da lei, o que consta na Constituição do México. O PRI não é indestrutível, pode ser suplantado, sua permanência no poder está ameaçada.

SM – Desde La borra del café (1992) no escribía usted otra novela. ¿En qué género se siente más seguro?
SM – Desde O Pó de café (1992 – La borra Del café ) você não produziu outro romance. Em que gênero se sente mais seguro?

MB – Poesía y además hace años que no escribo cuentos. Para escribir una novela, se necesita un espacio libre. Un poema lo puedo escribir en un avión, o esperando al destino. Claro que a veces se hacen apuntes de un poema, es muy difícil que escribas la versión definitiva esperando al dentista. La novela es un mundo que uno inventa y tiene que meterse en ese mundo, porque no se pueden escribir diez páginas hoy y las próximas diez páginas en unos años. Por eso yo demoré tanto en escribir Andamios. Si a mí me dejaran tranquilo podría escribir más novelas, pero no me dejan, tengo muchos viajes, entrevistas y muchos compromisos. Hace como cuatro años que pretendo tomarme un año sabático y no puedo.
MB – Poesia e além do que faz anos que não escrevo contos. Para escrever um romance, necessita-se de espaço livre. Um poema posso escreve-lo no avião, ou esperando o destino. O romance é um mundo inventado e que obriga que se entre nesse mundo porque não se pode escrever dez páginas hoje e as próximas dez páginas daqui a alguns anos. Por isso demorei tanto em escrever Andaimes. Se me deixassem tranqüilo, poderia escrever mais romances, mas não me deixam, tenho muitas viagens, entrevistas e muitos compromissos. Faz quatro anos que tento tomar um ano de folga mas não posso.

SM – ¿Es verdad que cada vez se lee menos poesía?
SM- É verdade que se lê poesia cada vez menos?

MB – No creo, en mi caso, no. Cada vez vendo más libros de poesía. Tanto, que tengo setenta libros publicados y después de La tregua que tiene ciento treinta ediciones, el segundo libro mío con más ediciones es Inventario con cincuenta y ocho ediciones.
MB – Não acredito, no meu caso. Cada vez vendo mais livros de poesia. A prova disso é que tenho setenta livros publicados, e depois de A Trégua, que tem cento e trinta edições, o meu segundo livro com mais edições é Inventário, com cinqüenta e oito edições.

SM – ¿Es consciente de que muchos de sus poemas han sido el inicio de un romance?
SM- Tem consciência de que muitos de seus poemas provocaram o início de um namoro?

MB – Todo lo que se haga a favor del amor, me parece fantástico. Me han pasado cosas curiosas. Por ejemplo, en Guadalajara donde estuve con Viglietti, el primer día del evento, se acercó una pareja joven, como de veinticinco años y venían con un tomo de Inventario y me dijeron que querían contarme que se conocieron y se casaron por ese libro, pero que ahora estaban divorciados y que sólo eran amigos y se habían reunido especialmente para irme a ver. El tercer día, en otro evento, aparecen de nuevo los dos con una edición más nueva de Inventario y para ponerme al corriente de la relación: “Mire, como el otro día estuvimos contándole que nos conocimos por Inventario queríamos decirle que por Inventarios hemos decidido volvernos a casar. Eso me parece muy lindo. También en Guadalajara me sucedió otra cosa, que no tiene que ver con cosas de amor, pero sí de amor a la vida. Después de un recital estabamos firmando autógrafos y libros y se acercó un muchacho joven y pensé que era para firmar pero no, me dijo: “yo no quiero que me firme el libro, yo le quiero contar una historia. Hace unos meses, estaba muy mal, me iba todo mal en lo económico y sentimental y decidí suicidarme y puse incluso la fecha: un martes. Pero el viernes, andaba por la calle y me encontré con un amigo que me dijo que por qué tenía esa cara, yo no le dije que me iba a suicidar, pero él me regaló Inventario y pensé qué iba hacer yo con esas poesías. Finalmente me puse a leer el libro y como resultado no me suicidé”. Esas son las dos cosas más lindas que me ha pasado en mi vida con relación a mi obra, las dos en Guadalajara, Jalisco.
MB – Tudo o que se faça em favor do amor me parece fantástico. Aconteceram comigo coisas curiosas. Por exemplo, em Guadalajara, onde estive com Viglietti, o primeiro dia do evento, se aproximou um jovem casal, em torno de uns 25 anos de idade e tinham um volume de Inventário e me disseram que queriam contar-me que se conheceram e se casaram por este livro, porém que agora estavam divorciados e que eram apenas amigos e se haviam reunido especialmente para ir me ver. O terceiro dia, em outro evento, aparecem de novo os dois com uma edição mais nova de Inventário e para deixar-me atualizado da relação: “Veja, como o outro dia estivemos contando que nos conhecemos por Inventário, queremos dizer-lhe que por Inventário decidimos voltar a casar. Isso me parece muito bonito. Também em Guadalajara me aconteceu outra coisa, que não tem a ver com coisas do amor, mas sim de amor à vida. Depois de um recital estávamos autografando livros e se aproximou um rapaz jovem e pensei que era para autografar, mas não, e me disse: “eu não quero que me dê um autógrafo, eu quero lhe contar uma história. Faz uns meses, estava muito mal, tudo ia mal comigo, com a situação financeira, sentimental e decidi suicidar-me e inclusive marquei uma data: uma terça-feira. Porém na sexta, andava pela rua e encontrei um amigo que me perguntou porque estava com aquela cara e eu não disse a ele que iria me suicidar, mas ele me presenteou com Inventário e pensei o que eu iria fazer com essas poesias. Finalmente, coloquei-me a ler o livro e como resultado não me suicidei”. Essas são as duas coisas mais bonitas que ocorreram em minha vida, em relação com minha obra, as duas em Guadalajara, Jalisco.
[Después de un silencio, añade:]También me han pasado cosas muy tristes, por ejemplo, en Buenos Aires. Después de regresar, me fui a firmar libros y llegó un matrimonio veterano con cinco o seis libros míos muy maltratados y yo les dije: ¡Cómo están estos libros…! Ellos me contestaron: “Sí señor, es que estuvieron ocho años enterrados en el jardín de casa”. Mis libros estuvieron prohibidos durante las dictaduras. Otra señora llegó con un libro lleno de anotaciones en los márgenes y le dije: Parece que este libro ha sido leído y ella me contestó: sí, es de mi hija, que está desaparecida”. En Argentina hubo treinta mil desaparecidos. En Uruguay murieron muchos en la tortura, pero casi todos desaparecieron en Argentina y forman parte de esa cifra, deben ser unos doscientos o más.
[Depois de um silêncio acrescenta]:
Também aconteceram comigo coisas muito tristes, por exemplo, em Buenos Aires. Depois de retornar, fui autografar livros e apareceu um casal de idade já, com cinco ou seis livros meus muito maltratados e eu lhes disse: Como estão estes livros…! e eles me responderam: “Sim, senhor, é que estiveram oito anos enterrados no jardim de minha casa”. Meus livros foram proibidos durante as ditaduras. Outra senhora chegou com um livro cheio de anotações nas margens e eu disse: Parece que este livro foi lido e ela me respondeu: sim, é de minha filha, que está desaparecida”. Na Argentina houve trinta mil desaparecidos. No Uruguai morreram muitos na tortura, porém quase todos desapareceram na Argentina e formam parte desta conta, devem ser mais de duzentos.

SM – Usted es uno de los escritores más cantados. Son muchos los intérpretes que le han puesto música a sus poemas…
SM- Você é um dos escritores mais musicados. São muitos os intérpretes que musicaram seus poemas…

MB – Son cuarenta. Me gusta trabajar mucho con los cantantes y los músicos, me gusta más cuando trabajamos juntos. Hay dos casos especiales: Alberto Favero, cuando estaba con Nacha Guevara y el otro Joan Manuel Serrat. Cuando somos amigos, las cosas salen mejor. Hay mucha gente que se acercó a mi poesía a través de la canción. Llegaron por la puerta de servicio, entraron a la obra literaria por la canción. En Guadalajara fue donde estrenamos por primera vez un recital a dos voces con Viglietti, fue allí donde hablando con él nos dimos cuenta que cada uno había escrito doce trabajos, él doce temas y yo doce poemas, sin ninguna premeditación. Y nos dijimos: hay que hacer algo. Así, por primera vez, mezclamos canciones con poemas.
MB- São quarenta. Gosto de trabalhar muito com cantores e músicos, e mais gosto quando trabalhamos juntos. Há dois casos especiais: Alberto Fávero, quando estava com Nacha Guevara e o outro Joan Manuel Serrat. Quando somos amigos, as coisas saem melhores. Tem muita gente que se aproximou de minha poesia através da canção. Vieram pela porta de serviço, entraram na obra literária pela canção. Em Guadalajara foi onde estreamos por primeira vez um recital a duas vozes, com Viglietti, foi aí onde falando em ele, nos demos conta que cada um tinha escrito doze trabalhos, ele doze temas e eu doze poemas, sem nenhuma intenção. E dissemos: devemos fazer alguma coisa. Assim, pela primeira vez, misturamos canções com poemas.

SM – Empezó a escribir desde su infancia en alemán y a los once años hizo su primera novela El trono y la vida, de capa y espada, tratando de imitar a Alejandro Dumas… ¿parece que siempre tuvo su vocación bien clara?
SM- Começou a escrever desde sua infância em alemão e aos doze anos fez seu primeiro romance, El Trono y la vida, com capa e espada, tratando de imitar a Alexandre Dumas… Parece que sempre teve sua vocação bem definida?

MB – Siempre supe que quería ser escritor. Lo único que me hubiera gustado ser es campeón de ping-pong, pero la literatura me arrastró por otro lado. Forma parte del carácter, la vocación, en mi familia no hay ningún escritor, yo abro la dinastía literaria.
MB- Sempre soube que queria ser escritor. O único que lamento é não ter sido campeão de ping-pong, mas a literatura me levou para outra direção. Forma parte do caráter, a vocação, em minha família não há nenhum escritor, eu inicio a dinastia literária.

SM – ¿Por qué siempre sus personajes son montevideanos de clase media?
SM – Por que sempre seus personagens são montevideanos de classe média?

MB – Es la clase que yo conozco. Muchas veces, los escritores de izquierda me han reprochado que nunca hay obreros en mis obras. Cuando he intentado poner un obrero, el obrero no habla como los obreros, me sale una cosa artificial. No he hecho una misión complaciente, la clase media es a la que yo pertenezco y conozco bien sus entretelones, sus virtudes y sus defectos, entonces me muevo con mucha más propiedad. Por respeto a los obreros, no pongo obreros en mis obras. Me es más fácil poner oligarcas, yo tengo una visión más crítica y más contacto, he trabajado en muchos diarios y he tenido contacto con los propietarios. A los cuatro años me fui a vivir a Montevideo y soy montevideano y cuando me fui al exilio seguí escribiendo sobre los montevideanos de clase media.
MB- É a classe que eu conheço. Muitas vezes, os escritores de esquerda me criticaram por não colocar operários em minhas obras. Quando tentei colocar a um operário, o operário não fala como os operários, sai uma coisa artificial. Não realizei uma obra complacente, a classe média é quem conheço e pertenço, suas entrelinhas, suas virtudes e defeitos, no interior da qual me sinto mais à vontade. Por respeito aos operários, não os coloco em minhas obras. Fica mais fácil incluir os oligarcas, eu tenho uma visão mais crítica e mais contato, trabalhei em muitos jornais e tive contato com os proprietários. Com quatro anos de idade fui viver em Montevidéu e quando parti para o exílio continuei escrevendo sobre os montevideanos de classe média.

SM – ¿A qué atribuye el éxito de su literatura, que es muy localista, pero que se ha traducido a veintitrés idiomas?
SM – A que atribui o êxito de sua literatura, que é muito local, porém foi traduzida para vinte e três línguas?

MB – Para reflejar el mundo hay que empezar por la comarca, los grandes escritores siempre han sido locales: Dostoievski, Joyce, Proust, Dante… han escrito sobre su mundo y su contorno.
MB – Para refletir o mundo deve-se começar pela comarca, os grandes escritores sempre foram locais: Dostoievski, Joyce, Proust, Dante… escreveram sobre seu mundo e seu contexto.

SM – ¿Cuál es su diagnóstico de la actual literatura latinoamericana?
SM – Qual é seu diagnóstico sobre a atual literatura latino-americana?

MB – Es muy distinta de acuerdo a cada país. En algunos han surgido movimientos importantes. En Chile hay narradores jóvenes de muy buen nivel. No conozco la literatura joven de México, conozco los escritores anteriores: José Emilio Pacheco, Sabines, … los lectores mexicanos siempre me han apoyado mucho. En Uruguay y Argentina han aparecido nombres buenos importantes. En el cono Sur no entró el realismo mágico, cuando se publicó alguna cosa influenciada por García Márquez, eran malas copias. Incluso a la chilena Isabel Allende se le acusó mucho de eso con su primera novela, La Casa de los Espíritus, yo creo que no es tanto, ella es más original de lo que dicen. Todos los escritores jóvenes tienen influencias, el que dice que no, descaradamente miente.
MB – É muito diferente, de acordo a cada país. Em alguns, surgiram movimentos importantes. No Chile há jovens escritores de muito bom nível. Não conheço a literatura jovem do México, conheço os escritores anteriores: José Emilio Pacheco, Sabines…, os leitores mexicanos sempre me apoiaram muito. No Uruguai e Argentina apareceram nomes muito importantes. No Cone Sul não entrou o realismo mágico, quando se publicou alguma coisa influenciada por García Márquez, eram cópias ruins. Inclusive a chilena Isabel Allende foi acusada muito disto em seu primeiro romance, A Casa dos Espíritos, eu não creio, ela é mais original do que dizem. Todos os escritores jovens têm influências, quem diz não mente descaradamente.

SM – En varios de sus poemas está de forma recurrente el tema de la muerte como en “Dónde estas muerte, mujercita”… ¿le preocupa esto?
SM – Em alguns de seus poemas aparece repetidamente o tema da morte como em “Onde estás morte, mulherzinha”… Isto o preocupa?

MB – A medida que uno avanza en edad, lógicamente se va acercando a la muerte, hay que irse acostumbrando a la idea de la muerte para que no te tome de sorpresa. Yo no le tengo miedo a la muerte, no creo en castigos ni infiernos ni en la recompensa del paraíso porque soy ateo.
MB – À medida em que se avança na idade, logicamente vai-se aproximando da morte, deve-se ir acostumando com a idéia da morte para que não te tome de surpresa. Eu não lhe tenho medo, não creio em castigos nem em infernos nem na recompensa do paraíso, porque sou ateu.

* tradução de gladys floriani – uruguaia, médica, residente em curitiba e diretora da “Casla” casa latino-americana.

Entrevista com Rita Levi Montalcini – premio nobel de medicina

Entrevista com a Dra. Rita Levi, que tem 96 anos e recebeu o Premio Nobel de Medicina há 19 anos, quando tinha 77.! Rita Levi Montalcini, nasceu em Turín, Itália em 1909 e obteve o titulo de Medicina na especialidade de Neurocirurgia.
Por causa de sua ascendência judia se viu obrigada a deixar a Itália um pouco antes do começo da II Guerra Mundial. Emigrou para os Estados Unidos onde trabalhou no Laboratório Victor Hambueger do Instituto de Zoologia da Universidade de Washington de Saint Louis.
Seus trabalhos junto com Stanley Cohen, serviram para descobrir que as células solo começam a se reproduzir quando recebem a ordem para isso, ordem que é transmitida por umas substâncias chamadas fatores do crescimento.
Obteve o Premio Nobel de Fisiologia na Medicina no ano 1986, que compartilhou com Stanley Cohen.

ENTREVISTA CONCEDIDA EM 22/12/2005:

Como vai celebrar seus 100 anos?
-Ah, não sei se viverei até lá, e, além disso, não gosto de celebrações. No que eu estou interessada e gosto é do que faço cada dia.!
E o que você faz?
-Trabalho para dar uma bolsa de estudos para as meninas africanas para que estudem e prosperem … elas e seus paises. E continuo investigando, continuo pensando.
Não vai se aposentar?
-Jamais! Aposentar-se é destruir cérebros! Muita gente se aposenta e se abandona… E isso mata seu cérebro. E adoece.
E como está seu cérebro?
-Igual quando tinha 20 anos! Não noto diferença em ilusões nem em capacidade. Amanhã vôo para um congresso médico.
Mas terá algum limite genético ?
– Não. Meu cérebro vai ter um século…., mas não conhece a senilidade.. O corpo se enruga, não posso evitar, mas não o cérebro!
Como você faz isso?
– Possuímos grande plasticidade neural: ainda quando morrem neurônios, os que restam se reorganizam para manter as mesmas funções, mas para isso é conveniente estimulá-los!
-Ajude-me a fazê-lo.
-Mantenha seu cérebro com ilusões, ativo, faz ele trabalhar e ele nunca se degenera.
E viverei mais anos?
-Viverá melhor os anos que vive, é isso o interessante. A chave é manter curiosidades, empenho, ter paixões….
A sua foi a investigação cientifica…
-Sim e segue sendo.
Descobriu como crescem e se renovam as células do sistema nervoso…
-Sim, em 1942: dei o nome de Nerve Growth Factor (NGF, fator do crescimento nervoso), e durante quase meio século houve dúvidas, até que foi reconhecida sua validade e em 1986, me deram o premio por isso.
Como foi que uma garota italiana dos anos vinte converteu-se em neurocientista?
-Desde menina tive o empenho de estudar. Meu pai queria me casar bem, que fosse uma boa esposa, boa mãe… E eu não quis. Fui firme e confessei que queria estudar.
Seu pai ficou magoado?
-Sim, mas eu não tive uma infância feliz: sentia-me feia, tonta e pouca coisa… Meus irmãos maiores eram muito brilhantes e eu me sentia tão inferior…
Vejo que isso foi um estimulo
– Meu estimulo foi também o exemplo do médico Albert Schweitzer, que estava em África para ajudar com a lepra. Desejava ajudar aos que sofrem, isso era meu grande sonho…!
E você tem feito…, com sua ciência.
– E, hoje, ajudando as meninas da África para que estudem. Lutamos contra a enfermidade, a opressão da mulher nos paises islâmicos por exemplo, além de outras coisas…!
A religião freia o desenvolvimento cognitivo?
-A religião marginaliza muitas vezes a mulher perante o homem, afastando-a do desenvolvimento cognitivo, mas algumas religiões estão tentando corrigir essa posição.
Existem diferencias entre os cérebros do homem e da mulher?
– Só nas funções cerebrais relacionadas com as emoções, vinculadas ao sistema endócrino. Mas quanto às funções cognitivas, não tem diferença alguma.
Por que ainda existem poucas cientistas?
– Não é assim! Muitos descobrimentos científicos atribuídos a homens, realmente foram feitos por suas irmãs, esposas e filhas.
É verdade?
– A inteligência feminina não era admitida e era deixada na sombra. Hoje, felizmente, tem mais mulheres que homens na investigação cientifica: as herdeiras de Hipatia!
A sábia Alexandrina do século IV…
– Já não vamos acabar assassinadas nas ruas pelos monges cristãos misóginos, como ela. Claro, o mundo tem melhorado algo…
Ninguém tem tentado assassinar a você…
– Durante o fascismo, Mussolini quis imitar o Hitler na perseguição dos judeus…, e tive que me ocultar por um tempo. Mas não deixei de investigar: tinha meu laboratório em meu quarto…E descobri a apoptose, que é a morte programada das células!
Por que tem uma alta porcentagem de judeus entre cientistas e intelectuais?
– A exclusão estimula entre os judeus os trabalhos intelectivos e intelectuais: podem proibir tudo, mas não que pensem! E é verdade que tem muitos judeus entre os prêmios Nobel…
Como você se explica a loucura nazista?
– Hitler e Mussolini souberam como falar ao povo, onde sempre prevalece o cérebro emocional por cima do neocortical, o intelectual. Conduziram emoções, não razões!
Isto está acontecendo agora?
– Porque você acha que em muitas escolas nos Estados Unidos é ensinado o creacionismo e não o evolucionismo?
A ideologia é emoção, é sem razão?
– A razão é filha da imperfeição. Nos invertebrados tudo está programado: são perfeitos. Nós não e, ao sermos imperfeitos, temos recorrido a razão, aos valores éticos: discernir entre o bem e o mal é o mais alto grau da evolução darwiniana!
Você nunca se casou ou teve filhos?
– Não. Entrei no campo do sistema nervoso e fiquei tão fascinada pela sua beleza que decidi dedicar todo meu tempo, minha vida!
Lograremos um dia curar o Alzheimer, o Parkinson, a demência senil?
– Curar… O que vamos lograr será frear, atrasar, minimizar todas essas enfermidades.
Qual é hoje seu grande sonho?
– Que um dia logremos utilizar ao máximo a capacidade cognitiva de nossos cérebros.
Quando deixou de sentir-se feia?
– Ainda estou consciente de minhas limitações!
Que tem sido o melhor da sua vida?
-Ajudar aos demais.
O que você faria hoje se tivesse 20 anos?
-Mas eu estou fazendo!!!!

* env. por Berenice Teodorovicz

8 de outubro A MORTE DE CHE GUEVARA

Ainda na adolescência, o general Harry Villegas largou a vida de lavrador no interior de Cuba para pegar em armas contra o governo de Fulgencio Batista. Ele acabou sob o comando de Ernesto Che Guevara.

Villegas chegou a chefe da segurança pessoal do comandante Guevara, o acompanhou à África quando Che tentou criar um núcleo guerrilheiro no Congo e foi um dos únicos cubanos a sobreviver à ofensiva do exército boliviano.
Hoje em dia, 40 anos depois da traumática experiência, Villegas concedeu a entrevista abaixo ao correspondente da BBC em Havana, Fernando Ravsberg.BBC – General, com que idade o senhor conheceu Che Guevara?

Harry Villegas – Convivi com ele desde os 15 ou 14 anos.BBC – Como Che Guevara o influenciou pessoalmente?

Villegas – Pelo lado pessoal, ele me deixou o exemplo de lutar, de que sempre se pode mais, o exemplo de que quando se luta com amor, com paixão, quando se mergulha em uma obra, uma causa, sempre se pode chegar à vitória.

BBC – Uma das coisas que Che mais destacou foi a construção de um novo homem. Quase 50 anos depois da vitória da revolução, conseguiu-se criá-lo?

Villegas – Bem, acho que quando Che se foi, fez uma avaliação de como andava a revolução cubana e, em seus últimos escritos, que fez durante a sua viagem pela África e pela Ásia – na carta a Quijano – deixa bem claro que o processo revolucionário de Cuba naquele momento era irreversível.

Depois, nós tivemos problemas: desapareceu o campo socialista, o boicote foi reforçado, nos vimos obrigados a fazer concessões de caráter econômico, como aceitar o dólar, um conjunto de coisas que voltaram a dificultar alcançar este homem com o qual Che sonhara e do qual era protótipo. Não podemos dizer que o temos hoje, seguimos lutando para construí-lo.

BBC – Na América Latina tem havido mudança nos governos. Atualmente, muitos países são governados pela esquerda, que chegou ao poder por meio de eleições. Isso quer dizer que o caminho escolhido por Che estava equivocado?

Villegas – Bem, agora mesmo te expliquei que para Che a guerra de guerrilhas era a última alternativa para tomar o poder, que sempre que houvesse outro caminho, no qual não fosse necessário usar a violência – que sempre representa morte, destruição, sacrifício -, seria o mais correto.
Mas como não havia outra alternativa, ele escolheu este caminho.

BBC – Como se sentiria Che nesta América Latina com tantos governos de esquerda?

Villegas – Acho que se sentiria muito bem, feliz, acho que realmente há uma alternativa para poder construir um mundo diferente, um mundo melhor.

BBC – E na Cuba atual, como se sentiria Che?

Villegas – Estou pensando em como cresceram as desigualdades sociais em nosso país, pensando no que disse Fidel sobre o risco da corrupção, que também cresceu.
Há um debate político, por exemplo, em todo o país, nas fábricas, no bairros…

BBC – Que faria Che atualmente?

Villegas – Acho que Che estaria ao lado de Fidel, lutando ali ombro a ombro, quebrando a cabeça para conseguir recuperar todas estas coisas que se foram perdendo, entende?
Mas acho que o mais importante é a tomada de consciência em todo o nosso povo, que a está tomando abertamente, de que está em nossas mãos poder construir e manter essa sociedade e garantir o socialismo.
Esse é o objetivo fundamental, sem ter medo de ver as nossas deficiências. Foi isso que fomos convocados a fazer pelo segundo secretário do partido.
Além disso, a única forma de resolver as deficiências e os problemas é tomando consciência de que eles existem, e acho que Che realmente compreenderia que atualmente, o único caminho que temos é discutir, analisar, com toda a nossa juventude, todo o nosso povo, qual foi a obra da revolução, a que aspira a revolução.

BBC em Havana entrevista com Fernando Ravsberg