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“CHICO XAVIER,” o filme – por dr. rosinha / curitiba

“Vai lamber ferida”

Quando criança, ouvia periodicamente a frase “vai lamber ferida”. Nunca soube o porquê nem como surgiu esta frase. Mais tarde, ouvi o Brizola, após uma derrota eleitoral, dizendo que se retiraria por uns dias e, como o gado, iria lamber suas feridas.

Lamber as próprias feridas, termo mais conhecido, é citado, como Brizola fez, após uma derrota política, amorosa ou de negócios. Derrotados se retiram e vão ruminar seus erros ou dores num canto solitário. Vão procurar a resposta para a ferida aberta.

Estas duas situações surgiram enquanto assistia a “Chico Xavier – o filme”. Logo no início, a madrasta do menino Chico, interpretado por Matheus Costa, manda-o lamber uma ferida. O menino é submetido literalmente a lamber uma ferida. É nojento, mas é feito para mostrar como foi difícil a vida do garoto.

Órfão de mãe, mantinha com ela diálogos longos, que poderiam ser fantasias de crianças. Por essas “fantasias”, era uma criança absorta e sonhadora. Por isso, reprimida.

Fui ver o filme esperando um libelo do espiritismo. O filme mostra a vida sofrida de um homem profundamente humano e religioso, e que, possuído de um espírito superior, somente busca o bem.

Nunca estudei o espiritismo. Nunca li nada mais profundo sobre Chico Xavier ou escritos dele. Portanto, fui ao filme sem nenhum preconceito ou informação prévia sobre o mesmo. Fui de espírito desarmado.

Na infância, no interior do Paraná, ouvia falar do Chico Xavier e de caravanas que partiam da região para ir ao encontro dele. Todos iam imbuídos de fé e na busca de cura para seus males físicos ou espirituais. Também lembro que ele usava peruca, tema abordado no filme. Esperava que o filme fosse basicamente um rosário dessas curas. Não é. Aparecem estes tipos de cenas, mas são poucas.

Há momentos de descontração, como quando ele recebe uma família tomada por maus espíritos e pede ao seu auxiliar que use o “peso do evangelho”, se necessário. Usar o peso do mesmo era fazer a leitura, com muita fé, de uma passagem bíblica. O seu auxiliar entendeu outra coisa e fez uso de outra maneira.

Outro momento de descontração é quando Chico faz sua primeira viagem de avião e, ao passar por uma turbulência, é tomado de medo. Medo de morrer. Neste momento, aparece Emmanuel, que pede a ele que pelo menos morra com educação. O que será morrer com educação?

No inicio da década de 1970 a TV Tupi, hoje extinta, tinha um programa chamado “Pinga Fogo”. Esse programa era transmitido ao vivo e durava uma hora. O convidado do dia 28 de junho de 1971 foi Chico Xavier, e neste dia o programa durou mais de três horas. O filme tem como espinha dorsal esta entrevista.

O filme Chico Xavier é baseado no livro “As muitas vidas de Chico Xavier”, escrito pelo jornalista Marcel Souto Maior. A partir do “Pinga Fogo”, é reconstituída a infância do menino em Pedro Leopoldo e o restante de sua vida, como as primeiras psicografias de Chico ainda jovem, interpretado por Ângelo Antonio, em Uberaba.

Roteiro bem construído e sem ser piegas, o filme leva a alguns momentos de emoção. Não às lágrimas.

Emocionante e bem posta é a música. Egberto Gismonti. Gismonti nos tem dado uma imensa e bem postada obra como Sonho’70, Academia De Danças, Dança Das Cabeças, Carmo, Mágico, Circense, Fantasia, Alma e tantos outros trabalhos.

A música de Gismonti eleva o filme e dá a ele um espírito. Eleva também o espirito de quem assiste. A música contribui para que se saia do filme de espirito limpo, quase que flutuando.

O filme apresenta um drama paralelo: um casal que teve um filho morto e que paira a dúvida entre um acidente ou um assassinato. Este casal espera uma carta psicografada.

Nelson Xavier é quem interpreta Chico na vida adulta. Não poderia ser outro ator, pois Nelson não só tem a coincidência do mesmo sobrenome, tem a semelhança física e desempenha a tarefa com profundo profissionalismo.

Fui ao cinema imaginando ver um filme meramente espírita. Enganei-me. É um filme humano e que nos coloca a lamber nossas próprias feridas.

Dr. Rosinha, médico pediatra, é deputado federal (PT-PR)

UTOPIA & BARBÁRIE, de SILVIO TENDLER

Utopia e Barbárie, de Silvio Tendler é um documentário que trafega por alguns dos mais polêmicos episódios dos últimos séculos. Temas como o Holocausto, as bombas de Hiroshima e Nagasaki, a Revolução de Outubro e o ano de 1968 no mundo, inclusive no Brasil, são retratados com imagens e depoimentos surpreendentes, de quem sonhou e lutou pela liberdade.

UM clique no centro do vídeo:

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A MULHER É A ORIGEM DO MAL (O ANTICRISTO) por ewandro schenkel / curitiba

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Não tente entender tudo. É impossível. O certo é que Lars Von Trier é vanguarda. Se procurávamos algo que pudesse descrever o homem atual, já o encontramos. Mesmo que não saibamos muito bem o que está sendo dito. É normal. Leva tempo até assimilarmos o que somos. Muito tempo para saber o que realmente somos.

Ignore o que chamam de geração Y. Besteira pura. Na ânsia de nos classificarmos acabamos dando ouvidos a nerds descerebrados que querem nos empurrar que hoje somos mais egoístas, destemperados, impacientes e anti-hierárquicos. Queremos tudo ao mesmo tempo e sem demora, dizem eles. Uma geração que começa em 1979 e que se definiu pela tecnologia. Pela informação livre, pelo hedonismo do emprego ideal. Sem ele, o trabalho dos sonhos, não sairíamos de casa.

Nasci em 1979 e não consigo me encaixar nessa tal geração. Muito menos no Y. Quem me explica? Certamente sou reflexo de uma maioria que ainda procura explicações para o que sente e não encontra as respostas na televisão, nos livros ou nos rádios. Muito menos no computador, no MP3 player ou no celular. Tenho certeza que essa parafernália toda não pode responder o que tenho a perguntar. Essa é a função da arte, se há a necessidade de uma função. Descrever o que o Ewandro Schenkel é em relação ao mundo em que vive. A arte é o espelho do meu espírito.

Há um hiato. É natural que não consigamos identificar os grandes artistas no momento que eles desovam suas criações. Mas não é sadio quando não conseguimos nem ter uma indicação de quem são eles. O último que conseguiu canalizar o Zeitgeist se matou com um tiro na cabeça em 1994. Desde então enfrentamos um deserto, que começa a ganhar aquíferos com o descobrimento do discurso que o cineasta dinamarquês vem construindo paulatinamente.

Quatro parágrafos de confusão. E vai piorar, acredite.

Deformação da realidade

Em o Anticristo, Lars Von Trier conta a história de um casal que passa por um grande perda, a morte do único filho. O marido, um psicanalista, tenta ajudar a esposa a escapar de uma depressão profunda. Para isso, cria um ranking de medos que devem ser enfrentados. Entre eles está Éden, uma casa no campo onde a mãe e o filho se refugiaram no último verão para que ela pudesse terminar um trabalho acadêmico sobre feminicídio.

O filme se constrói na luta do marido para provar que os medos deformam a realidade. O enfrentamento direto daria a certeza de que o pavor é algo que construímos. Seria uma blindagem para um medo real, como a aceitação da morte de um filho. Uma realidade que não pode ser deformada. O objetivo do psicanalista passa a ser tentar fazer com que a esposa se liberte do medo e, finalmente, possa sentir a dor física e emocional da perda e dar o passo seguinte. O objetivo da mulher é outro, levar o marido para dentro de sua crise depressiva e espiritual. Ela está afundando.

A misoginia clamada na obra de Von Trier se deve ao fato de a personagem interpretada por Charlotte Gainsbourg reunir características que sintetizam o mal: busca o sexo para aliviar a dor, mutila o marido, se mutila e, ainda, descobre-se depois que maltratava o filho às escuras. Já o personagem de Willem Dafoe tenta teorizar o que levou a mulher ao lastimável estado sem pré-julgamentos. Maniqueísta, numa leitura superficial.

O caos reina

O certo é que Lars Von Trier é vanguarda, disse no primeiro parágrafo. A explicação é que o diretor criou um filme que tenta classificar os sentimentos modernos sem maquiá-los. A mulher é, segundo ele, a origem de todo o mal do mundo. Foi Eva quem primeiro mordeu o fruto proibido e acabou com as pretensões divinas para um mundo perfeito. O pecado, desde o princípio, é culpa feminina. O que nos levou a demonizar o prazer feminino durante séculos. Há quinhentos anos resolvíamos isso com fogueiras. Os iluministas detonaram essa visão sem dar respostas. A psicanálise de Freud nos jogou ainda mais para dentro da culpa, que estaria no inconsciente. E não falamos mais nisso.

O diretor parece querer resgatar a discussão do mal. Do que nos faz mal e de onde vem. É um filme profundamente psicológico, com artimanhas para levar o espectador mais sensível a se entregar completamente. A cena da hipnose serve tanto para o personagem quanto para quem assiste. A tese é clara: a mulher, que representa não só o sexo feminino mas também as características humanas mais ligadas aos sentimentos incompreensíveis, é o fruto do mal.

A história já nos deu respostas para as barbaridades que o humano é capaz de cometer: Possessões, distúrbios mentais e psicopatias. E quando tudo isso se torna insuficiente? Com o excesso de informação temos acesso ao mal puro e simples. Quem poderia explicar o que Suzane Richthofen fez? Antigamente poderíamos atribuir os atos dela ao Diabo. Há pouco tempo seria uma psicopata. Mas vê-la na televisão com uma sobriedade e passividade assustadoras nos coloca num terreno de medo. Ela matou os pais por motivos banais: herança e aceitação do namorado. Os médicos não foram claros nos diagnósticos.

Qual a primeira imagem que vem à cabeça quando falamos em tortura no Iraque? Uma integrante do exército americano arrastando um preso iraquiano por uma corda como se fosse um animal. Ela, provavelmente, passou por testes psicológicos para entrar nas forças armadas. Também não temos registro que tenha feito pacto com o Capeta. Não há explicação possível para o ato. É exatamente a ferida que Von Trier quer escarafunchar.

O filme não é uma apologia à demonização da mulher, obviamente. A figura feminina serve como metáfora, como no caso da bíblia, para os sentimentos obscuros e com os quais não sabemos lidar. De uma maneira piegas seria como dizer que todo homem tem uma mulher dentro dele. Todos nós temos sentimentos que não conseguimos explicar. Dói, como mostra Anticristo, fuçar neste terreno. A mulher representa a nossa natureza selvagem. Os genes do mal dos quais não conseguimos nos livrar. E faz mal tentar escondê-los.

Na pirâmide dos medos proposta pelo marido, o primeiro item é a natureza. Depois, a mulher corrige, acrescenta-se o Éden. Ele adiciona Satanás, mas no fim percebe que, lá no topo, está o eu, no caso ela. O que mais ela teme não é natureza, não é a religião e muito menos o Satanás, é o criador disso tudo, a própria vontade humana.

No filme, a mãe revela, em determinado momento, que teve prazer com a morte do filho. Ela estava consciente quando viu o menino subir na cômoda ao lado da janela antes de cair para a morte. Não fez nada pois estava absorta fazendo sexo com o marido. As imagens levam a crer que o momento da queda coincide com o orgasmo. A pergunta que fica: até que ponto esta mãe sentiu prazer com a morte do filho?

Representante da razão, o marido enxerga tudo com olhar abstrato, pois não consegue conceber como é possível alguém ter sentimentos tão detestáveis. Ele a mata, tentando sufocar o que lhe é revelado. Mas esta é uma viagem sem volta. A imagem de milhares de mulheres cercando o personagem no final do filme talvez dê a dimensão do discurso. Até que ponto o prazer da maldade está em nossa natureza? O verdadeiro Anticristo somos todos nós? Poderemos levar algum tempo para decifrar a mensagem de Lars Von Trier, mas já serve como um espelho opaco de uma geração que não se contenta em ser apenas Y.