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PELE & OSSO ou DA CARNADURA das PALAVRAS – por jairo pereira

A poesia de Neuza Pinheiro no seu primeiro livro impresso, individual, como eu previa, alumbra a paisagem da lírica brasileira. Edição Fundação Cultural de João Pessoa – FONJOPE, 95 pgs. Prêmio Nacional de Literatura Lúcio Lins 2008. São muitas as Neuzas que se revelam, fortes, em pele e osso e na carnadura das palavras. Essa poeta, mulher, densa e resolvida, no seu psiquismo, pede “bis” à vida, como ela mesma expressou numa correspondência ao ora aventureiro a crítico. Gosto, regosto do seu estilo não-estilo. Conhecimento da palavra/poema repetida, principalmente nos primeiros poemas do livro. Não há desperdício de imagens. A palavra vem seca, pele & osso no mundo do sensível. Imagino os poemas do livro levados ao teatro, em performances alucinadas, com muito movimento de luzes, ação. Eu diria, dentre outros, este: “nessa lágrima pesarosa/composto de metais em solução aquosa/me veio a visão repentina/de ser massa entre os blocos/da Muralha da China”. A poesia espiritual, material, cotidiana e espectral de Neuza Pinheiro, é lux do pensamento acelerado. A mulher trabalhadora, madura, de visão crítica, inserida no social que aniquila e mata o ser criador, rebate com as catanas do talento as sombras. “me pisam nemas ninféias/luas danosas gementes/floemazuis viscerantes/deformidades maléias”. Uma poeta que amalgama coisas, sensações, fluxos verbais, imagens espectrais, silêncios e cogitações, só pode mesmo haurir a melhor poesia. Numa época em que poetas perseguem conceitos, fórmulas de se dar bem na escritura, em sendo sempre o outro, a poeta de Pele & Osso, revela-se visceral, abrindo-se na carne das palavras e no mais profundo do seu ser. Pele & Osso. Transcende a artista, o rigor vital de seu dizer, e a angústia que perpassa versos e versos, soa monocórdio alerta de um ser em crise. Um ser que somos, todos. Não há saída para o irreversível. O que não tem remédio, solução. Esse grito da alma a que Neuza Pinheiro expande no universo, vibra em dor. Queria e faço isso, digredir além dos ossos, pele e carnadura das palavras. A mônada que sustenta a poesia de Neuza Pinheiro, traz sim a angústia dos séculos. A mulher, nua, prolífera de sonhos, ilusões, rescaldos de sofrer, amar, projetar, frente ao real que agride e conspurca contra o intelecto. Vontade de amá-la sempre. Um ser cálido, transmitindo calor e segurança ao outro que pouco conhecemos. Que bom pudesse… Auto-conhecimento e poesia. Auto-conhecimento e viver. Auto-conhecimento e re-conhecer-se em meio a objetalidade presente. A poeta não perde o discurso pele & osso, vetor da sua realidade compósita de sofrer, amar, criar. Uma fuga o criar, sem precedentes. O criar que sublima e enleva o criador. Vivemos a era dos sem-leitura, do pensamento dispersivo, que revisita relâmpago, links, blogues, sites, objetos espectrais, conceitualmente distantes do livro e seu convite ao raciocínio lesto. “o poema não disse a que vinha/trouxe em gris em grous a vinha/rascou seu rastro de prata/da lua até a cozinha”. Não sei se é pelo conhecer de Neuza Pinheiro que detenho, em senti-la no tudo que nos comunicamos, que me marcam seus poemas e sua vida. A primeira vez que li/senti poemas seus foi na Revista Coyote, e já me sinalizaram a grande poeta/mulher, complexa na pegada, batalhadora da palavra bela, pele e osso, sangue e carne. Re-gosto do poeta autêntico que dá a cara pra bater, explora sua aura suja e nada espera em retorno. É suja de “psíquico” a poesia de Neuza. Suja e malcheirosa às vezes. Como a fêmea animal que lambe a cria, ainda túmida do sangue do nascer, a poeta perpassa emoções, sentimentos em auto-análise, ou auto-crítica: “sou uma mulher/sem cão/sem gato/sem pássaro/já levei à morte um mini-cacto/agora me seca a samambaia”. Há humor, como chuva ácida nessa poesia. Humor, angustiado, que não consegue e nem pretende, apagar a dor hospedeira dos poemas. Dolorida, a poeta pede “bis” à vida. Re-gosto, sua verve de pan-conhecimento. Os saltos no escuro. O pensamento ágil, lêmpto, na composição do poema. Taí uma poeta brasileira de encher os olhos de lágrimas. Uma poeta de rigozijo, em descobri-la autêntica, nathural, nathuralíssima no dizer. Meu olhar crítico e a lâmina do ver, desver, transver, não me habilita a grande coisa, ainda mais, quando esmorecemos ante a indiferença no poético. A era da corrosão do pensamento. O superimpulso de gerações, na velocidade do pecado. Ah. Phoda-se a indiferença das multidões! Teocrática verdade. A poesia de Neuza Pinheiro, finca raízes no céu da lira entusiasmada, na época do sem-entusiasmo. “sob uma perspectiva de náusea/diante da beleza/escolho a lesma/que a um punhado de sal/se desagrega/e aprisionada ao ser não ser/orvalho ou pérola/deixa de si mesma o longo leia-se/só alma/em rastro acesa”. A mulher nua que eu vejo, re-vejo, poeta e criadora dá prazer em expô-la aos ímpios. Faço isso. Os sentidos, revelam ausência, pesarosa presença, desfaçatez, indiferença, preâmbulos de escuridão e asco. Os sentidos do outro, com relação à poesia, é pouco mais que nada. Mas os poetas prosseguem em sua sina de descortinar o desconhecido, ou o conhecido des-sentido. Na palavra de Neuza pele, osso, carne de palavras duras, aflitivas até, reveladoras do “eu profundo” o “eu” encasulado no próprio “eu”. Pra arremate de meu parco dizer sobre a poeta, não poderia deixar de arremessar mais este: “estava lá/trêmula de tão nua/e não havia pressa na voragem dos/tempos. A noite era só uma/e eu me encontrava nesse estado líquido de/coisas”.

 

 

jAiRo pEreIrA

Autor de O abduzido e outros.


 

 

HISTÓRIA: À PROCURA DOS FATOS por walmor marcellino

A vida dos “homens ilustres” não é a história, mas a história não pode esquecer a hegemonia social, conquanto “os fatos da existência social em relevo” não venham sendo mais do que uma seleção da média jornalística ‑ ainda que nela estejam efetivamente contidos a luta das classes na conquista da produção e administração de seus resultados, e ademais um contencioso do próprio poder nos conflitos pelo poder, isto é, na política.

Basta ao nosso conhecimento político saber como agem e pensam as classes dominantes? E como se lhes reagem os produtores diretos por seus interesses fundamentais nesse processo social de classes, ou no que remanesceu dessas classes em transformação? Sim; porém como a história poderá fazer-lhes uma síntese ou uma expansão reveladoras, senão tentando delinear-lhe os traços mais significativos da tensão social de que compartilham? Particularmente, sob o poder dos planos e projetos político-administrativos “de mudança”, seu pensamento e sua ação. O demais, ficará à conta da “a sociedade do espetáculo” evidenciada por seus cronistas.

Se “a chamada ‘classe política’ ou elite não é outra coisa senão a categoria intelectual do grupo social dominante” (A. Gramsci: Cadernos do Cárcere) e vivemos a sociedade que nos conforma porém que desejamos flexibilizar para nossa ação, como escolher (e disseminar) os fatos da relação de poder político na formação social que o cotidiano ressalta à nossa vidência? Os fatos nos diminuem até o esquecimento e o poder nos envolve e determina o modo de existência; e assim só as sínteses históricas nos podem re-situar na vida social.

EDU HOFFMAN – HAICAIS

nunca avaro

 

   rima para a lâmpada

 

      encontro, claro  

 

 

=

 

 

                        vida que sorvo

 

                     do bico da cegonha

 

                       ao bico do corvo

 

=

 

 

memória rã

 

 

 

                    meu micro

 

                       sóft

 

                    na lagoa

 

=

 

 

estórias

 

 

                       Ivo

 

                       viu

 

                        a

 

                       uva

 

                       uma

 

                       óva

 

=

 

 

                                        lobisomens

 

                               que seriam dos deuses  

 

                                  sem os homens ?

 

=

 

 

 

            trilha de gente

 

         cacos dejetos lixo

 

           bicho não passa

 

 

BILL GATES NA FEIRA COMDEX – editoria

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Numa recente feira de informática (Comdex), Bill Gates fez uma comparação da indústria de computadores com a automobilística, declarando:

“Se a GM tivesse evoluído tecnologicamente, tanto quanto a indústria de computadores evoluiu, estaríamos dirigindo carros que custariam 25 dólares e que fariam 1000 milhas por galão (algo como 420 km/l)”.

A General Motors, respondendo, divulgou a seguinte nota:

Se a Microsoft fabricasse carros:

01 – Toda vez que eles repintassem as linhas das estradas, você teria que comprar um carro novo.

02 – Ocasionalmente, dirigindo a 100 km/h, seu carro morreria na Auto-estrada sem nenhuma razão aparente, e você teria apenas que aceitar isso, sem compreender o porquê! Depois, deveria religá-lo (desligando o carro, tirando a chave do contato, fechando o vidro saindo do carro, fechando e trancando a porta, abrindo e entrando novamente… Em seguida sentar se no banco, abrir o vidro, colocar a chave no contato e ligar novamente). Depois, bastaria ir em frente.

03 – Ocasionalmente a execução de uma manobra à esquerda poderia fazer com que seu carro parasse e falhasse… Você teria então que reinstalar o motor! Por alguma estranha razão você aceitaria isso como “normal”.

04 – A Linux faria um carro em parceria com a Apple, extremamente confiável. Cinco vezes mais rápido e dez vezes mais fácil de dirigir. Mas apenas poderia rodar em 5% das estradas.

05 – Os indicadores luminosos de falta de óleo, gasolina e bateria seriam substituídas por um simples “Falha Geral ou Defeito Genérico” (permitindo que sua imaginação identifique o erro!).

06 – Os novos assentos obrigariam todos a terem o mesmo tamanho de bunda.

07 – Em um acidente, o sistema de air bag perguntaria: “Você tem certeza que quer usar o air bag?”.

08 – No meio de uma descida pronunciada, quando você ligasse o ar-condicionado o rádio e as luzes ao mesmo tempo, ao pisar no freio apareceria uma mensagem do tipo “Este carro realizou uma operação ilegal e será desligado!” (IRRETOCÁVEL).

09 – Se desligasse o seu carro utilizando a chave, sem antes ter desligado o rádio ou o pisca-alerta, ao ligá-lo novamente, ele checaria todas as funções do carro durante meia hora, e ainda lhe daria uma bronca para não fazer isto novamente. (ÓTIMA).

10 – A cada novo lançamento de carro, você teria de reaprender a dirigir. Coisa fácil: voltaria a auto-escola para tirar uma nova carteira de Motorista. (PODE PARECER EXAGERO, MAS PENSANDO BEM É ISSO MESMO).

11 – Para desligar o carro, você teria de apertar o botão “Iniciar” (PERFEITA).

12- A única vantagem: Seus netos saberiam dirigir muito melhor!

UMA ANDORINHA SÓ, NÃO FAZ VERÃO! poema de deborah o’lins de barros

Andorinhas solitárias: uni-vos!

Vamos de encontro às teorias ultrapassadas

da sociologia clássica!

Façamos nossos pedaços de verão

e, de grão em grão,

a revolução se fará.

Cruzar os braços é como votar em branco,

e não sejamos brandos:

o conhecimento é socialista,

somos pássaros com sementes nos bicos,

não temos o direito de ser egoístas.

Andorinhas solitárias, não somos elite,

apenas temos nosso feijão-com-arroz cultural diário,

e nosso dever é dividi-lo,

para depois vê-lo multiplicado.

A cultura agoniza,

a educação agoniza,

e nos resignamos com o ditado.

Andorinhas solitárias, uni-vos,

e, de grão em grão,o

verão estará no papo.

Mosca usa “computador de bordo” para escapar dos nossos tapas – editoria

 

Cientistas descobriram como elas fogem do perigo com tanta tranqüilidade. Acha que é mais rápido que elas?

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Ela vem sorrateira. Voa tranqüila. Pára bem na sua frente. Você se prepara. Respira fundo. Tenta ser o mais rápido possível. E a mosca voa com serenidade para um local seguro. Parece até rir da sua cara. Como é que pode? Cientistas descobriram. As moscas sempre escapam do seu tapão porque possuem uma espécie de “computador de bordo”. Elas são capazes de calcular com precisão a velocidade e o trajeto do perigo, e voam para bem longe dele.

Mas se elas têm “computadores”, os cientistas não devem nada nesse quesito. E foi com a ajuda deles que os pesquisadores do Instituto de Tecnologia da Califórnia, nos Estados Unidos, descobriram o truque das mosquinhas. E publicaram na revista “Current Biology” desta quinta-feira.

Com câmeras de alta resolução e computadores avançados, os cientistas conseguiram filmar uma mosca em ação. E calcularam que cerca de 100 milissegundos antes de levantar vôo, seu pequeno cérebro já percebeu que há uma ameaça, já viu de onde ela vem e para onde está indo e obteve a velocidade do perigo. Ela então adapta sua postura e, com facilidade, voa para longe. Ao todo, o processo leva 200 milissegundos. Você consegue ser mais rápido? Tente!

A descoberta “ilustra quão rapidamente o cérebro das moscas pode processar informações e dar a resposta motora apropriada”, explicou o autor do estudo, Michael Dickinson, em nota.

A operação toda não pode ser considerada um “reflexo”, porque a mosca pode mudar de idéia e ir para outro lado quando bem entender. Ela sabe muito bem o que está fazendo. Dependendo do que a ocupa no momento (ela pode ser se alimentando, “paquerando” um potencial parceiro ou simplesmente irritando alguém), a reação é diferente, mas o resultado, o mesmo.

Um cérebro tão esperto em um bichinho tão minúsculo faz Dickinson pedir um maior “apreço” à melhor amiga dos cientistas. “Pense antes de tentar matá-las”, diz ele. Mas pense rápido.

G1/agência

 

CHIMARRÃO E POESIA poema de jayme caetano braun

 

O payador missioneiro
Sente o calor do braseiro
Batendo forte no rosto
E vai mastigando o gosto
Da velha infusão amarga,
Sentindo o peso da carga
Que algum ancestral comanda
Enquanto o mundo se agranda
E o coração se me alarga

Sempre a mesma liturgia
Do chimarrão do meu povo,
Há sempre um algo de novo
No clarear de um outro dia,
Parece que a geografia
Se transforma – de hora em hora
E o payador se apavora
Diante um mundo convulso
Sentindo o bárbaro impulso
De se mandar campo fora!

Muito antes da caverna
Eu penso – enquanto improviso,
Nos campos do paraíso
O patrão que nos governa,
Na sua sapiência eterna
E eterna sabedoria,
Deu o canto e a melodia
Para os pássaros e os ventos
Pra que fossem complementos
Do que chamamos poesia!

Por conseguinte – o Adão,
Já nasceu poeta inspirado,
Mesmo um tanto abarbarado
Por falta de erudição
E compôs um poema pagão
À sua rude maneira,
Para a sua companheira,
A mulher – poema beleza,
Inspirado – com certeza
Numa folha de parreira!

Os Menestréis – os Aedos,
Os Bardos – Os Rapsodos,
Poetas grandes – eles todos,
Manejando a voz e os dedos
Vão desvendando os segredos
Nas suas rudes andanças,
As violas em vez de lanças,
Harpas – flautas – bandolins,
Semeando pelos confins
As décimas e as romanzas!

Tanto os poetas orientais
Como os poetas do ocidente,
Cada qual uma vertente,
Todos eles mananciais,
Nos quatro pontos cardeais
Esparramando canções
E – no rastro das legiões
Do lusitano prefácio,
A última flor do lácio
Nos deu Luiz Vaz de Camões!

No Brasil continental
Chegaram as caravelas
E vieram junto com elas
As poesias – com Cabral,
Para um marco imemorial
Nestas florestas bravias
Perpetuando melodias
De imorredouro destaque:
Castro Alves e Bilac
E Antônio Gonçalves Dias!

Neste garrão de hemisfério
Quando a pátria amanhecia
Surgiu também a poesia
No costado do gaudério
Na pia do batistério
Das restingas e das flores
E a horda dos campeadores
Bárbara e analfabeta
Pariu o primeiro poeta
No canto dos payadores!

E foi ele – esse vaqueano
Do cenário primitivo,
Autor do poema nativo
Misto de pêlo e tutano,
De pampeiro – de minuano,
Repontando sonhos grandes;

Hidalgo – Ramiro – Hernández
El Viejo Pancho – Ascassubi
Mamando no mesmo ubre
Desde o Guaíba aos Andes!

Há uma grande variedade
De poetas no meu país,
Do mais variado matiz
Cheios de brasilidade,
De um Carlos Drummond de Andrade
Ao mais culto e ao mais fino,
Mas eu prefiro o Balbino,
Juca Ruivo e Aureliano,
Trançando de mano a mano
Com lonca de boi brasino

João Vargas – e o Vargas Neto
E o Amaro Juvenal,
Cada qual um manancial
Que ilustram qualquer dialeto,
Manuseando o alfabeto
No seu feitio mais austero,
Os discípulos de Homero
De alma grande e verso leve,
Desde sempre usando um “breve”
De ferrão de quero-quero!

Imagino enquanto escuto
Esse bárbaro lamento
Que a poesia é o som do vento
Que nunca pára um minuto,
Picumã vestiu de luto
A quincha do Santafé,
Mas nós sabemos porque é
Que o vento xucro não pára:
São suspiros da Jussara
Chamando o índio Sepé!

 

 

gaucho-mate

POEMA PARA MEU PAI – de ivo barroso

Meu pai morreu longe de mim
(eu é que estava longe dele).
Tantos anos se passaram
e ainda não lhe vi a sepultura.
Continuo longe. Mas sua presença
me sacode como um choque elétrico,
uma bebida forte que me arde
por dentro.
Está vivo nos meus dedos,
nos cabelos ralos
— a nuca, dá arrepios de se ver.
Está cada vez mais perto de mim
(eu é que estou mais perto dele).

FOTOGRAFIA poema de joanna andrade

Longa omissão,

covas e mais covas,

intermináveis lacunas sem expectativas,

sem cadáveres,

um infinito mar de sangue insipido claro e invisivel,

nada.

 

réquiem prum inimigo – poema de jorge barbosa filho

eu fico extasiado

com teu olhar de abismo

onde me atiro,

e procuro louco

o meu abrigo.

 

enterrar meu corpo,

no cemitério

de teu sorriso…

é vôo impreciso,

e minha língua prova

as asas de tuas salivas…

.

ah! me leva pro céu!

só pra soprar um risco..

uma nuvem…

me faz um anjo lindo,

enquanto eu traço

a dor que imagino.

 

chorei bastante,

te enterrei dentro de mim

me matei , te matei

tanto, que nem te digo…

você morre comigo!

o dilúvio das fronhas

não eram apenas chuvas!

 

ei, baby, aceite

o bônus track

da escuridão

de nossas palavras…

perdi a noção do perigo

te deitei na minha cama

pra sonhar contigo

e acordei com o inimigo!

 

mas ainda saí vivo!

vivo!

MARILU WOLFF abre exposição no JOKERS

A artista plástica curitibana Marilu Wolff abriu nesta segunda-feira, dia 13, às 20 horas, a exposição individual As Cores da Periferia, no Jokers (R. São Francisco, 164). Na ocasião ela selecionou 13 obras que, como o próprio título adianta, apresenta figuras humanas ligadas, principalmente, as pessoas que moram e trabalham na periferia, no campo, às margens da grande cidade. “Esse é um tema que me atrai bastante e me identifiquei muito. O meu trabalho mostra as pessoas que trabalham no setor primário da economia, com obras muitas vezes inspiradas nas fotografias do Sebastião Salgado”, define Marilu. A exposição tem entrada franca e permanece aberta até o dia 13 de junho.

Ao falar sobre sua obra Marilu acredita que por intermédio da figura humana ela consegue expressar muitas coisas que gostaria de passar para as pessoas. “As minhas obras estão relacionadas ao trabalho do homem do campo, do carpinteiro e outras funções que muitas vezes não são valorizadas”. O tema é recorrente na sua carreira. “Acho que agora meu trabalho está mais seguro e percebo que criei um estilo próprio. É uma marca que pode ser reconhecida quando as pessoas olham a minha obra”, comenta.

No início essas figuras eram representadas pela artista de forma mais suave e, ao poucos, elas foram ganhando mais expressão. Principalmente por conta evolução cromática da artista. “Eu percebo que há um amadurecimento não só das expressões mas, também, pelo uso da cor dos ambientes que são bem vivas, que faz um contraste com a cor das pessoas”, avalia Marilu.

Marilu conta que vai apresentar telas que foram produzidas por ela a partir de 2005. “Ultimamente tenho usado nas figuras humanas uma cor violeta que traduz uma expressão maior para as dificuldades enfrentadas para os personagens que eu apresento nas telas. Hoje estou totalmente satisfeita com esse resultado”.

Serviço:

As Cores da Periferia. Exposição da artista plástica Marilu Wolff. No Jokers (R. São Francisco, 164 – centro Histórico). Abertura segunda-feira, dia 14, às 20 horas. A exposição permanece até o dia 13 de junho. Horário de visitação: de segunda a sábado, das 18 horas até meia-noite. Entrada franca. Informações: 41 3324 2351.

Mais informações e entrevistas:
RB – Escritório de Comunicação
Rodrigo Browne 41 9145 7027
Bárbara B. 41 3363 775

 

PAIXÃO DE COSMONAUTA poema de leonardo meimes

 

Uma caindo aqui

Outra lá

Branquinhas.

 

Redondas, espaçadas

Algumas até enfurecidas.

 

Negra por excelência

Da carne.

 

Vermelha no coração

Fervente

 

Azul… por que é sim azul

Mas também por ser Blues

 

Macia para os que

A tocam com respeito

 

Dura e pesada

Para quem dela usa

Sem medo

 

Marcada pelos carimbos

Do sol

 

Pelas intempéries

Do mundo…

Não será ela o mundo?

 

Feminina no nome

Nas ações maternas

 

Masculina na ferocidade

Das reações

 

Dúbia por ser linda, amável

Perigosa, incontrolável

E tudo que realmente

Nos é valioso

 

Passam muitos dias

Sem que ela seja percebida

MANOEL DE ANDRADE faz lançamento, dia 15/04, de seu livro POEMAS PARA A LIBERDADE.

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Poemas para a liberdade

Até então inédito no Brasil, o sucesso editorial de Poemas para a liberdade foi tão considerável quanto seu alcance “político”. A obra estreou em 1970, na Bolívia. A 2a edição, colombiana, esgotou-se em poucas semanas nas livrarias de Cali e Bogotá. A 3a edição, lançada em San Diego, em 1971, espalhou-se pela Califórnia e pelo sudoeste dos EUA, levada pelos estudantes e intelectuais chicanos. Suas primeiras edições panfletárias, lançadas em 1970 em Cuzco e Arequipa, espalharam-se pelo meio estudantil do Peru e percorreram a América nas mochilas de estudantes latino-americanos. Seus poemas foram publicados em jornais, revistas, opúsculos, cartazes e panfletos.

Catarinense radicado no Paraná, onde se formou em Direito, o autor Manoel de Andrade deixou o Brasil em março de 1969, perseguido pela panfletagem de seu poema “Saudação a Che Guevara”, em uma época em que sua poesia começava a ser conhecida nacionalmente por meio de jornais e publicações como a Revista Civilização Brasileira. Expulso da Bolívia em fins de 1969, onde chegou em setembro para se integrar ao movimento guerrilheiro comandado por Inti Peredo, preso e expulso do Peru e da Colômbia em 1970, seus Poemas para la Libertad tiveram uma trajetória política e uma aventura literária que dificilmente outro livro tenha tido. Como falam da luta armada e cantam a saga guerrilheira em uma América Latina então controlada por ditaduras militares, cruzaram clandestinamente certas fronteiras, como uma mala com 200 exemplares da edição boliviana, que chegou a Guayaquil por via fluvial, trazida do Peru por contrabandistas equatorianos.

Poemas para a liberdade consta de vários catálogos da literatura latino-americana e seus poemas, de várias antologias, como Poesia Latinoamericana – Antología Bilingüe, publicada em 1998 pela Epsilon Editores de México., em que o autor partilha suas páginas com consagrados poetas, como Mario Benedetti, Juan Gelman e Jaime Sabines.

A capa do livro foi inspirada em cartaz anunciando recital do autor em 1970, na Universidad de Los Andes, Bogotá.

 

 

A ROSA DE VENTO E ÁGUA poema de otto nul

Surgiu no jardim

Uma rosa

De vento e água;

 

Foi vista como uma aparição

Insólita ou absurda

Quase milagrosa;

 

Espectral, ali ficou

Irradiando pálida luz

Para estranheza geral;

 

À noite, a rosa

De vida efêmera

Evaporou-se no ar.

 

O EGOISMO SOCIAL E A MOBILIDADE HUMANA por tonicato miranda

 


No último 22 de Setembro de 2008, no auditório do Ministério das Cidades, aconteceu o Seminário “Jornada Na Cidade Sem Meu Carro”. Dos que participaram do evento, 80% chegaram a ele conduzindo um automóvel ou vieram como passageiro de veículo motorizado. O evento teve a abertura do Ministro das Cidades, do Governador de Brasília e do representante do DENATRAN. Não pode ser dito que foi hipocrisia, mas o Ministro chegou ao evento pedalando uma bicicleta emprestada, em um trecho de menos de dois quilômetros. Valeu pelo simbolismo.

Ao final do evento todos se dirigiram aos seus carros e o Ministro, seguiu para outro rumo no banco de trás do automóvel oficial, guiado por seu motorista vestido de quepe e da pompa da institucionalidade do cargo, felizmente sem luvas brancas.

Estamos todos doentes. A velocidade dos automóveis, reflexo dos avanços buscados a peso de ouro e dos petroeuros pelo mundo da Fórmula 1, pela Fórmula Indy, é objeto de consumo impossível para os citadinos. Nas cidades, nossas velocidades de segurança não devem ultrapassar a 60 km/h, sendo 35 km/h, segundo estudos de vários institutos de pesquisa da Alemanha, da Holanda e da Suécia, aquela em que um pedestre tem 85% de chance de sobreviver num atropelamento. Não é à toa que hoje circula em toda Europa forte campanha para convencer as autoridades municipais a adotar para a maioria das vias urbanas a velocidade de 30 km/h.

Muitos diriam ser pouco. Mas quanto vale a vida dos nossos avôs, bisavôs ou das nossas crianças? tonicato-miranda-foto-da-depressao-de-20-nos-euaO automóvel vem se transformando no nosso bem, nosso mal, desde seu início, no final do Século XIX. Nascido simultaneamente com a bicicleta, da mesma forma que a magrela, faz tempo já atingiu o seu limite de desenvolvimento e eficiência.

No livro o Choque do Futuro foi mostrada a sua ineficiência. Embora atraente, pode-se mostrar como esta máquina é extremamente incompetente. Para transportar 55 ou 85 kg do peso de um adulto a tara (o peso próprio) dos automóveis tem de 1.100 a 1.700 kg. A bicicleta, para transportar estes mesmos pesos de carga não tem mais de 15 kg. Assim, o automóvel carrega vinte vezes mais o peso da carga a transportar, enquanto a bicicleta tem seis ou sete vezes menos o peso da carga transportada.

Muitos diriam isto é bobagem, o importante é que dentro do meu veículo eu ouço música, estou “protegido” e ele me leva onde eu quero “rapidamente”. Mas protegido do que? O acidente entre veículos motorizados é a segunda “causa mortis” em nosso País há muito tempo. Consegue fazer mais vítimas do que os atropelamentos de pedestres e de ciclistas. Senão vejamos alguns dados apenas da nossa cidade símbolo da motorização e terceira maior metrópole do planeta.

Pois São Paulo, em 2005 apresentou 1586 mortos no trânsito, sendo 757 atropelamentos de pedestres; 39 ciclistas; 177 motociclistas e 132 passageiros dos automóveis. Embora estes dados retirados do “blog” “Apocalipse Motorizado” tenham sido elevados em muito nos últimos três anos, eles já mostram o cenário de guerra no qual vivemos. Somente para se ter uma idéia, em 2008 o número de motociclistas mortos ascendeu para 857, segundo dados da Companhia de Engenharia de Tráfego – CET.

Mas o automóvel é o meu conforto e não abro mão dele, diriam os mais acostumados às comodidades da motorização. Está certo. Ainda agora, neste nosso último feriado da Semana Santa, os jornais estamparam em suas páginas “São Paulo bate recorde de congestionamento – 235 km”. Isto é progresso? É isto que queremos para nossa cidade? Para nossas vidas? Ficarmos engarrafados no trânsito, dentro de um veículo com ar condicionado, por horas a fio? Não é à toa que São Paulo tem a terceira maior frota de helicópteros do mundo.

Assim, esta coisa de dizer que ter carro é símbolo de “status social”, é somente para otário e pobre de espírito. Há muito tempo que ricos em São Paulo andam de helicóptero. Também não sendo incomum a presença de inúmeros edifícios com muitos heliportos em suas coberturas. Para que? Para que os grandes capitalistas não enfrentem o que todos os mortais enfrentam no seu dia-a-dia. Grandes congestionamentos, muita irritação, fechadas de veículos, bate-bocas generalizados com vidros escancarados, alguns culminando em agressões físicas e mortes de bala de chumbo grosso mesmo.

A Grande jornalista/urbanista Jane Jacobs, em seu laureado livro Vida e Morte das Grandes Cidades Americanas, teceu uma frase antológica “bicicletas aproximam as pessoas, automóveis afastam”. Como ciclista, confirmo integralmente esta máxima e posso “dar meu testemunho”. Estava em Utrecht, na Holanda, acompanhado de um amigo holandês que me mostrava a cidade e os projetos nela implantados para a bicicleta. Ao final do nosso encontro nos despedimos e fiquei a olhar a sua trajetória de saída. Logo uns trinta metros à frente, percebi que ele se dirigia a outro ciclista e perguntava se poderia acompanhá-lo, pedalando ao seu lado. Ou seja, é possível entre ciclistas, quase de imediato estabelecer uma camaradagem, coisa muito rara em se tratando de motoristas, sempre em regime de competição e disputa por oportunidades, seja vaga para estacionar, seja espaço para circular.

No entanto, o maior egoísmo social é a publicidade veiculada nas TVs e nos programas de auditório, fazendo do automóvel o objeto de desejo de consumo de classes de renda muito baixa. São inúmeras as residências que mal têm seis metros de testada de lote, mas que guardam espaço para abrigar um automóvel. Ou seja, têm a cama sobre o veículo, e este tem seu espaço garantido, mesmo que não haja espaço na sala de estar para comportar toda a família para assistir a um programa de TV, e/ou mesmo uma alimentação de qualidade.

Posso afirmar ser este um egoísmo social porque os governos não provêem as cidades de espaços seguros e agradáveis para as famílias passearem ou simplesmente estar. No passado os passeios públicos, parques e praças já cumpriram este papel. Hoje, porém, com o egoísmo exacerbado, a violência sem o freio do policiamento folgado e burocrático, transformou o espaço da rua em espaço da dúvida, da terra de ninguém e do medo.

É claro que o automóvel alarga o horizonte e permite às famílias aproveitar momentos de férias e de feriados prolongados. No entanto, muitos em tempos como o da Semana Santa ou do próximo feriado de Tiradentes, ficarão na cidade. Alguns por decisão própria, outros por total falta de condições para sair de carro, ou em se abrigar na casa de um parente em outro local. O fato é que nem todos têm dinheiro sobrando para bancar estadia em hotel ou realizar gastos com viagens. Em geral, como diria Caetano Veloso, ficam nas grandes cidades os “pretos e pobres, que são quase todos pretos” e acrescento eu, e ainda alguns brancos, mas igualmente pobres, além dos velhos etonicato-miranda-congestionamento-na-beira-mar-norte dos enfermos.

Agora a nova moda entre os proprietários de automóvel é usar o defectível vidro escuro, transformado por uma película conhecida como “insufilm”. Covardia. Afirmo ser isto uma covardia porque faz do motorista um ser anônimo e impede aos pedestres e aos ciclistas que entendam a intenção dos condutores de autos e se estes estão enxergando nossos movimentos. Afirmam os motoristas que este procedimento visa a dotar os veículos de melhor conforto, diante das condições do nosso País tropical, muito quente em determinados períodos e com luz por demais ofuscante. Também porque os protege de assaltos na via pública. Cretinice – adianto. A segurança é exatamente o contrário. Qualquer seqüestrador ou assaltante poderá fazê-lo sem nenhuma percepção dos demais transeuntes de uma via. Dado que não há visão, não há segurança.

É bem por isto que se comprova que as casas mais seguras não são aquelas cheias de trancas e de muros altos, onde o ladrão depois que entra se encontra seguro para praticar as maiores atrocidades, sem que nada seja percebido pela vizinhança. E isto é tão real e científico que os projetos mais ricos de Florianópolis e adjacências, como em Jurerê Internacional ou em Pedra Branca, no município de Palhoça, as casas não têm muros, mas cercas singelas, com arbustos sempre cortados à meia altura.

De volta à mobilidade, não se entende porque os governantes apartaram a bicicleta do cenário das cidades, deixando de oferecer infraestruturas adequadas e seguras à circulação dos ciclistas. Dizem os governantes “não há espaço”. É claro que não, nas nossas cidades mais de 30% do espaço dos seus territórios são ocupados por áreas para circulação e estacionamento de veículos motorizados.

Apenas na cidade de São Paulo a CET estima que há 1 milhão de vagas públicas gratuitas. Quantas existem em Curitiba? Em Florianópolis e em outras cidades quantas são? 200 mil? Quantas vagas existem para deficientes nessas cidades? Em São Paulo são 158. Ou seja, 0,015% ou um centésimo de 1%. E será que existem apenas 158 deficientes querendo estacionar? É claro que não. Este é mais um dos aspectos do egoísmo social.

A expropriação das oportunidades urbanas daqueles que têm opção diversa – como os ciclistas; ou daqueles portadores de deficiências físicas, não são realizadas apenas pelos detentores do poder e do capital, mas por uma parcela significativa da população, hoje identificada como os grupos motorizados. O meio urbano nas grandes cidades vem sendo construído ao longo de séculos, por acréscimos sucessivos aos espaços legados por nossos ancestrais. É impossível a ele, sem a adoção de cirurgias profundas, “abrir” espaços para a circulação e guarda em estacionamentos ao ar livre de tantos automóveis, como querem seus proprietários.

Faz tempo a racionalidade deixou de nortear administradores públicos e a população em geral. Ela que clama por mais e mais espaço como se este fosse um direito lídimo e intocável. Ela se coloca contra o pedágio urbano; contra o pedágio rodoviário; contra os impostos; contra as zonas azuis e suas outras corruptelas; contra as multas no trânsito e as lombadas eletrônicas, as quais chamam de instrumentos da indústria da multa. Enfim, contra todos os instrumentos de controle. E chegam mesmo a dizer que a Constituição Federal garante a elas “o direito de ir e vir”. Mas qual nada, cara pálida, o direito de ir e vir se aplica ao cidadão e não ao seu automóvel.

É mesmo assim que se comporta a nossa sociedade motorizada e hipócrita. Curitiba tem um dos melhores sistemas de transportes do País, sendo objeto de desejo dos olhares de muitas cidades mundiais. Recentemente uma equipe da “Streetfilms” esteve em Curitiba, entrevistando pessoas, entre elas Jaime Lerner, o atual Prefeito e secretários municipais, para conhecer mais sobre o sistema que pretendem implantar em Nova York. Mas nós aqui insistimos em dizer que o sistema está superado.

De fato, muito ainda precisa ser mostrado quanto às mazelas decorrentes do uso exagerado da motorização no meio urbano. Principalmente quanto às poluições ambientais, devido as emissões de gases e ruídos. Sobre o primeiro aspecto, ainda na cidade de São Paulo, é alarmante o número de mortes de recém-nascidos devido a inalação dos gases provenientes do escapamento dos automóveis. Mas diriam os discípulos de São Tomé – quem polui são os ônibus e caminhões e não os automóveis. Bobagem grossa, novamente digo eu. Os carros de passeio são de longe os maiores poluidores.

Estudo realizado pela UFRGS, em 1993, observou que os automóveis de passeio eram responsáveis por 56% da emissão de gases nocivos em Porto Alegre; vindo em seguida os ônibus, com 14%; depois os caminhões, com 12%; as indústrias da periferia urbana, com 12%; outros 6% atribuídos a emissões diversas, como queimadas. Ocorre que as pessoas não se dão conta de que as emissões dos carros são quase invisíveis, mas em número avassalador. E como se obtêm isto? Perguntariam os céticos. Ora, através da análise de filtros colocados em pontos específicos da cidade. Também porque os combustíveis utilizados pelos veículos são diferentes nas suas composições. Simples, não é mesmo?

Esta é uma das várias razões porque devemos controlar cada vez mais o uso do automóvel no meio urbano. Ter automóvel é sim uma coisa boa. Mas usá-lo indiscriminadamente é mais do que um ato anti-social é uma agressão ao seu vizinho, um desrespeito à saúde do seu avô e da sua avó. A natureza humana agradece e lhe dá boas vindas à sociabilidade e a um mundo menos egoísta. E que tal se, ao invés de ir à feira com o seu carrinho, não vá a pé ou de bicicleta e aprecie os jardins das casas dos vizinhos? Quem sabe não nasça em seu dia um pouco mais de prazer e identificação com a cidade em que escolheu para viver?

Mas se nada disso faz parte das suas pretensões, não lamente a crise, não diga que a cidade está ficando insuportável. Você ainda não está preparado/preparada para viver num ambiente do Século XXI. Interessante o que nos diz um texto que li recentemente, no qual não lembro agora o autor, me perdoem, o qual faz comparação entre Berlim e Bangcok. Mostrava o texto que Berlim tem três vezes mais automóvel do que a cidade asiática, mas ao contrário o número de viagens motorizadas correspondia a menos de um quarto da capital tailandesa. E chegava a conclusão de que se a posse de veículos motorizados representava a riqueza de uma nação, o uso do carro de forma indiscriminada demonstra quão pobre ainda esta nação se apresenta. Não foi à toa que um dos maiores investimentos de Berlim, realizados para a Copa do Mundo de Futebol de 2006, destinaram-se a dar maior mobilidade para a bicicleta. Em especial, entre os estádios e os hotéis; e entre os terminais do transporte coletivo os estádios e os novos hotéis, construídos para atender a grande demanda aos eventos.

Mas se nada deste texto a(o) convenceu da ignomínia que é ir a padaria buscar pão de automóvel. Esqueça. De fato, o mundo gravita ao redor do seu umbigo. Deixo apenas um pequeno abraço. Da minha parte, vou continuar pedalando minha bicicleta, indiferente às suas reclamações ingênuas e ineficazes para com a ganância dos impostos governamentais em cima do seu objeto de consumo maior, do seu papagaio de estimação sobre quatro rodas. Passar bem.

 

FOTOS: a primeira foi feita na depressão americana de 1920.

a segunda na Av. Beira Mar Norte (Florianópolis) fora da temporada.

Tonicato Miranda é Presidente da União de Ciclistas do Brasil – UCB.

 

CONTRATADOS poema de vera lúcia kalaari (Portugal)

Ah! Caravanas que passais

 De homens cansados,

 Esfaimados,

 Cantando vergados

 Ao peso da saudade,

 Bandeira branca a tremular ao vento…

 Caravanas de homens de pés descalços

 Sangrando por tortuosos caminhos…

 Como eu vos amo a todos, todos!

 Oh mulheres de ancar largas, bamboleantes,

 Com filhos ranhosos e famintos

 Que vindes em algazarra acenardes adeus,

 E gritais, gritais, palavras, impropérios,

 Cobrindo o choro dos que partem…

 Oh mães velhinhas, doloridas,

 Que chorais por não poderdes partir

 A dizerdes adeus,

 Um adeus distante

 A quem não esperais tornar a ver…

 Ah! As caravanas, as caravanas!

 Caravanas de homens esperançosos

 De corpos quebrados

 Que vêm de longe e se perdem à distância…

 

 

E só o mundo irado,

 A fome, o cansaço.

 E lá longe, a casa, as terras, as noites luarentas,

 O brilho ardente das fogueiras…

 E vão nas caravanas, coração pulsando,

 E a esperança, sempre a esperança,

 Num somho de riqueza.

 E voltam de novo, famintos,

 Das terras do fim do mundo.

 Voltam à terra onde andaram em pequeninos,

 Com o choro dos filhos nus

 Esfaimados, a pedir pão.

 

Deixem, homens, deixem que o tempo

 Marque o trilho das caravanas em que ides partir.

 Dia a dia, hora a hora,

 Ele se rasgará mais brilhante,

 Sem que o bafo dum vento quente

 Murche as flores da tua esperança.

 Partireis, triunfantes,

 À demanda, à conquista,

 Des terras dum novo mundo.

 

 

 

 

 P.S. Convém explicar que os contratados, eram, nas ex-colónias, os africanos apanhados em rusgas, que eram forçados a partir para trabalharem nas fazendas, por tempo indeterminado e que muitas vezes acabavam por nunca voltar aos sítios de origem.

A OUTRA por jorge lescano

                                                                                                                                                                   para P.S.

Ella havia viajado para o exterior cortando a tênue linha que os ligava (encontros para leituras. Agora ele percebia que também Paolo e Francesca se encontravam na leitura, nunca tinha reparado nisso apesar de que na sua juventude vivera uma situação parecida. A  leitura, amorosa armadilha. Lendo as Cartas a Milena se havia apaixonado por um fantasma!). Ele decidiu continuar o relacionamento escrevendo e-mails.

 Nesse meio tempo descobriu uma réplica dela. A moça trabalhava numa copiadora. Antes vira alguém muito parecida num filme erótico. Por momentos, a Frida de Salma Hayek se parece com Ella, então ele gostaria de ser Trotsky.

 A moça da copiadora também tinha o cabelo longo e preto e crespo de Ella, a mesma pele jambo. (Não quero forçar as coisas dizendo que tinham o mesmo nome, seria coincidência demais, tornando a história real inverossímil. Ele desejava manter a naturalidade do relato para que Ella o entendesse melhor, como nos encontros de leitura.) A moça da copiadora respondia por outro nome.

A insistência do olhar dele acabou chamando a atenção desta moça que, depois de algum tempo, começou a retribuir seu interesse. Então ele recuou. Nunca soube se por receio de trair a distante ou mera cobardia. A moça saiu do emprego. Ele tivera a oportunidade, desperdiçada, de se despedir dela, pois havia ido tirar xerox no mesmo dia e hora em que ela se despedia dos colegas na Galeria do Rock. Mais uma vez deixou de agir, depois percebeu o que havia perdido. Sempre acreditou que teria uma segunda chance, era o modo de desculpar sua falta de iniciativa, sua timidez.

Depois de quatro anos, Ella voltou. Tiveram vários encontros sem que abordassem o assunto principal, apesar de reconhecerem a correspondência de intenções.

No último ano, graves acontecimentos familiares perturbaram a mente dele, confundiram seus sentimentos. Agora que Ella estava perto, começou a sentir saudades da moça da copiadora.

A paciência tem um limite, sempre soube disso sem que jamais pudesse computar sua extensão. O caso é que Ella se sentiu rejeitada ou simplesmente cansou de esperar uma definição. Deixou de vê-lo e de permitir que a visse. Uma vez ele telefonou para sua casa e Ella se livrou dizendo que ligaria para ele, ambos sabendo que isto nunca aconteceria. Afastou-se dos telefones, o assunto exigia uma entrevista. Tentou reatar a comunicação via internet, Ella não respondia as mensagens. Para aumentar a sua confusão, a moça da copiadora não lhe saía da memória. Freqüentemente se confundem no seu pensamento. Às vezes as imagina usando um sarong, um xale, um leque, qualquer adereço exótico de estampa japonesa, de quadro de Gauguin. Os rostos se confundem, à imagem de uma corresponde a voz ou o nome da outra. De Ella guarda postais, uma leitura em francês, em vídeo, alguns e-mails, um exemplar de Rabinal Achi, a versão em castelhano da peça maia, que comprou num sebo do México, uma foto fantasiada de esquimó na antiga Cristiania enviada pela internet (cada vez que abre o guarda-roupa ela sorri no espelho). De Cláudia conserva acenos breves, olhares sutis, a tepidez da mão num ligeiro contato ao receber as cópias. Pobres troféus dos seus fracassos.

Ele não sabe fazer discursos nem escrever cartas de amor; redigiu um texto em que conta estas peripécias sentimentais. O dedicou a Ella, identificando-a com as letras iniciais do nome que usava quando a conheceu. Agora vive a dúvida de enviá-lo por e-mail ou apenas publicá-lo na internet, correndo o risco de ela não o descobrir. Mais uma vez a hesitação domina o enredo. Sabe que Cláudia se dilui para sempre na multidão de São Paulo; da outra, provavelmente, nunca obterá resposta.

 

 

 

NO SHOPPING CENTER / JAIRANDO UM JAZZ – poema de solivan brugnara

Abre-te Sesamo automático,

                         esta porta de translúcido vidro

                         para mim, o Moises de tuas águas sólidas.

                        Será que suas engrenagens, 

                    suas roldanas esmaga-formigas, seus sensores

                            funcionam com passarinhos?

                         Ou a andorinha bate no vidro como

                            em qualquer outra vidraça

                         e morre na delicia de morrer em um vôo      

                                despreocupado.

                            Gosto de caminhar no shopping           

                            este museu de roupas e calçados contemporâneos.

                            Meus olhos acham os decorativos deuses indianos.

                             Meus olhos flecham o calcanhar dos arquiles.

                           Meus olhos acariciam as meninas.

                            Meus olhos vêm a noite pelas janelas

                            e navego

                           cruzando Andrômeda

                           cruzeiro transespacial.

                           Balanço do do marmmmMnsera quenoi esopsçao tem balndlço de marnm MnM barcobebbadoGIu<a>sgliuglurub lka voub jdhueueueucrzaudndo anfdromedasolto^ v ^ v ajdgi***#3m@r?/??< >

                              A labirintite passou

                           e ando agora com alma de Bosch

                               por este estomago cheios de loja

                            pronto para sugar todas,todas as vitaminas de meu cartão de credito.

                           Experimento perfumes

                            safiras liquidas, rubis aquoso,outro cor de urina.

                         Sou sexagésima sexta reencarnação de um alquimista                          

                          e sinto vontades                            

                           de misturar o odor da manha,

                           com fezes de beija-flor,

                           vulvas em cio

                             e noite com óvnis.

                              Por tudo em frascos Mirós.

                             Ascendo em escadas rolantes

                               braços imitando um urubu. 

                        Paro para ver

                           na vitrines da loja de brinquedos

                             o super-homem

                             o que pode

                             cavalgar em cometas

                             e  se alimentar de vácuo,

                             o que pode tomar um sorvete feito de massa solar.

                           E Batmam o frutívoro espalha pólen.

                               Barbies em esquives rosas

                              e vídeos- games onde

                              as crianças podem

                                decapitar virtualmente  

                                estrirpar virtualmente

                                 lobos, anões e madrastras.   

                                Nos cinemas

                                olho os cartazes

                                como quatros em exposição.

                            Multidão de livros na livraria.

                          E toda a multidão esta  cheia de cretinos e magos

                         E toda a multidão tem economistas e astrólogos.

                             E em toda a multidão tem um poeta.

              Meus livros não estão na livraria

                     Nem do  Thadeu de estrelas no bigode

                     Nem do  Thadeu dez-dedos

                       na mão esquerda quando toca violão.

                     Nem do Jairo

                     O centauro que atravessa os oceanos a galope.

                        Nem do Jairo

                            Que abençoou as águas do riu Iguaçu

                            com poemas

                          e comeu pão com nanquim nas manhas.

                          Seuss filhos da p*#+_0*&&}$$CORNOS

                DO*@33##PKU$ilibinoshdnsG0Q3PIFU98WBICHA CAPINEWGIUB087

                     ESTA BURRIOIqeru,fne in tME IRRITAeeiirriHJGIDGIUtavao tomar IJVYU4746387¨*$%%&*($MNO CUlokhnfsçoiuoip90843l98w@%$t376   

           Compro  hq do homem-aranha       

                e um livro do Schopenhauer.

               Filosofos estão em promoção,

                       mais baratos que o gibi.

                 Paque um, leve dois.

                   Karl Marx em promoção

                    o capital em promoção.

                   Passo pela praça de má alimentação.

                    Barulho de atol das rocas.

                    Nos luminosos e placas em cores primarias

                      Uma salsicha de fraque e cartola.

                  Palhaços oferecendo  hamburguês

                      e monge comida chinesa.

                Sobre um cone o everest  granulado com  confeitos

                           vende sorvetes.

                      Sou tele-transportado por elevadores

                         de botões azuis fluorescentes.

                           3,2,1

                         Ejeção completada com sucesso.     

SÓ UM CANTO / NO JARDIM DE SOFIA (zocha) – poema de lilian reinhardt

Só um canto e a luz acorda
     a orgia celeste recomeça
     em minha alma agreste
     Tu és a carne do meu sonho
     o espaço a pausa a laceração
     desse anjo demônio
     dessa lousa ferida
     entre essas cordas que plangem
     toco-te ainda vestal
     com minha saliva de vinhas
     no calabouço dessa argila sangrada
     Em veneno e loucura
     a tua pele rasga o sal
     da ancestralidade da minha

FACULDADE VIROU SHOPPING CENTER por amandio luís de almeida teixeira

Quando paro a pensar sobre a educação superior desse país, vejo-a como um doente terminal, abandonado sobre uma maca em um corredor de hospital. Foram-se os tempos em que possuir uma pós-graduação, um mestrado, ser um doutor ou um professor catedrático era visto com respeito e como sinônimos de competência, experiência e capacidade de um trabalhador de qualidade, um cientista.

As políticas educacionais, a meu ver, se equivocaram. Todas, independentemente de governos e partidos, quando resolveram – e nisso todos os governos pós-ditadura incorreram – democratizar, massificar, ou “igualar” (por baixo) as oportunidades de acesso ao terceiro grau. O resultado dessa visão clientelista, num país que parece confundir democracia com populismo, pode ser muito bem sintetizado no que observamos no atual governo. Ao mesmo tempo em que o presidente alardeia sua vaidade e seu orgulho por não ter um diploma, perpetua e agrava a situação, ao querer sedimentar ainda mais a idéia de que todo mundo pode e deve ter um diploma universitário.

Já não bastasse a proliferação descontrolada de universidades de “fundo de quintal”, onde o que vale é poder pagar para seu diploma conseguir. Hoje uma universidade assemelha-se muito mais a um shopping center do que a uma instituição de ensino de qualidade, frequentadas por professores e alunos despreparados. Ao invés de salas de aulas bem montadas, laboratórios, bibliotecas, o que se vê? Lojas, bancos, restaurantes e lazer, parte fundamental dessa estrutura deformada. Parece que em cada esquina há uma universidade. Que o tal ensino à distância, eliminou de vez a distância entre a mediocridade e a aptidão natural de cada indivíduo para conquistar uma profissão de nível superior. Para que tanto diploma? Para que tantos licenciados, bacharéis e pós-graduados?

Acredito que chamar esse ensino de superior já é um equívoco. Superior só se for pela quantidade de médicos, engenheiros, advogados, entre tantos outros profissionais, que são despejados, a cada ano, de forma descontrolada, num mercado de trabalho já saturado. Profissionais para os quais o diploma é apenas a ferramenta necessária e legitimadora de seu direito como cidadão a se tornar um profissional de segunda, numa terra de terceira. Médicos que não sabem suturar, advogados do crime, engenheiros da demolição do saber.

Ou pior, concurseiros (públicos) profissionais. Não o pobre como alardeia o governo, mas aqueles mais afortunados, inocentes ou não, que sustentam essa famigerada indústria dos concursos. Indústria essa que movimenta milhões e milhões de reais, feita de cursinhos especializados, empresas promotoras especializadas (em concursos), o próprio governo que tem aí uma renda vultosa em taxas de inscrição, os cartórios que enriquecem ao autenticar tanta papelada desnecessária.

 

Hoje tudo é especializado. Os professores mal pagos e já engolidos por essa máquina. Esses que já não ensinam, mas que se especializam em treinar em macetes para passar. Esses que usam apostilas “obrigatórias” sem conteúdo, que custam uma fortuna, mas nada mais são do que receitas de bolo, dicas e truques, provas anteriores, cujo lema é “Aprendam como passar”. Parece-me mais especializadas no “seja esperto!”. Não precisa saber, é só se “preparar”! Preparar para que? Ao final disso tudo o que são esses concursos? E os famosos cadastros de reserva? Quantos são cancelados, postergados por anos, e ao final, sem ninguém contratar, voltam a se apresentar ao público? De quem é a culpa? Perguntem ao nosso sábio presidente…

Pobres tempos esses em que o saber já não importa. Em que a ciência é achincalhada, as cabeças pensantes decepadas. Poucos, muito poucos, sobreviveram a esse tsunami de diplomas fajutos, muitos comprados, outros tantos falsificados, milhares obtidos pela compra criminosa de monografias, dissertações e teses. Poucos, muito poucos, de forma árdua ao estudar, ao se dedicar, anos e anos de suas vidas “desperdiçar”, crédulos cidadãos que em algum momento acharam que isso lhes daria alguma real e honesta chance de no mercado de trabalho se encaixar.

Uns, mais inteligentes, ou mais lúcidos, vão embora. Fazer carreira, fama e dinheiro honesto nos países dos lourinhos de olhos azuis e viram celebridades, por mérito reconhecido é certo, mas ridiculamente aplaudido aqui, pelos mesmos que se indignam quando alguém ousa pensar. Outros decidem ficar. Por menos oportunidade, familiar necessidade ou que, por convicção, acham que é onde devem estar e lutar.

Essa é a minoria de sonhadores onde me incluo. Minoria de esperança persistente, de valor nunca reconhecido que tanto assusta e incomoda a esse país lulista, de reais valores, desprovido. Somos nós esses “velhos” com mais de 45 anos a elite pensante? A burguesia dominante? Ou a absoluta minoria que teima em sobreviver, mesmo que de forma tão humilhante? Só posso falar por mim.

Esta é minha ficha criminal:

Engenheiro, pós-graduado, mestrado, doutorado, pós-doutorado.

Professor universitário (enquanto agüentei).

Última ocupação: diretor de projeto – BID/Nasa.

Ocupação atual: desempregado, há três anos em casa.