Arquivos de Tag: frases

EDUCAÇÃO, ESCOLA e FAMILIA – por sonia oliveira silva

A qualidade da Educação Infantil depende, cada vez mais, da parceria entre a escola e a família. Abrir canais de comunicação, respeitar e acolher os saberes dos pais e ajudar-se mutuamente. Eis algumas ações em que as únicas beneficiadas são as nossas crianças pequenas. (Carraro, 2006)Em seu lar a criança experimenta o primeiro contato social de sua vida, convivendo com sua família e os entes queridos. As pessoas que cuidam das crianças, em suas casas, naturalmente possuem laços afetivos e obrigações específicas, bem como diversas das obrigações dos educadores nas escolas. Porém, esses dois aspectos se complementam na formação do caráter e na educação de nossas crianças.
A participação dos pais na educação dos filhos deve ser constante e consciente. A vida familiar e escolar se completa.
Torna-se necessária a parceria de todos para o bem-estar do educando. Cuidar e educar envolve estudo, dedicação, cooperação, cumplicidade e, principalmente, amor de todos os responsáveis pelo processo, que é dinâmico e está sempre em evolução.
Os pais e educadores não podem perder de vista que, apesar das transformações pelas quais passa a família, esta continua sendo a primeira fonte de influência no comportamento, nas emoções e na ética da criança.
É fato que família e escola representam pontos de apoio e sustentação ao ser humano e marcam a sua existência. A parceria família e escola precisa ser cada vez maior, pois quanto melhor for a parceria entre ambas, mais positivos serão os resultados na formação do sujeito.
A parceria com a família e os demais profissionais que se relacionam de forma direta ou indireta com a criança é que vai ser o diferencial na formação desse educando.
A vida nessa instituição deve funcionar com base na tríade pais – educadores – crianças, como destaca Bonomi (1998). O bom relacionamento entre esses três personagens, (dois dos quais são protagonistas na escola – educadores e crianças) é fundamental durante o processo de inserção da criança na vida escolar, além de representar a ação conjunta rumo à consolidação de uma pedagogia voltada para a infância.
A Professora Di Santo (2007) lembra que a fundamentação para a relação educação/escola/família como um dever da última para com o processo de escolarização e importância de sua presença no contexto escolar é publicamente amparada pela legislação nacional e diretrizes do MEC, aprovadas no decorrer dos anos 90.
Podemos citar: Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei 8069/90), nos artigos 4º e 55; Lei de Diretrizes e Bases da Educação (Lei 9394/96), artigos 1º, 2º, 6º e 12; Plano Nacional de Educação (aprovado pela Lei nº 10172/2007), que define como uma de suas diretrizes a implantação de conselhos escolares e outras formas de participação da comunidade escolar (composta também pela família) e local na melhoria do funcionamento das instituições de educação e no enriquecimento das oportunidades educativas e dos recursos pedagógicos. Citamos ainda, a Política Nacional de Educação Especial, que tem como uma de suas diretrizes gerais: adotar mecanismos que oportunizem a participação efetiva da família no desenvolvimento global do aluno.

A importância da família na vida da criança

O primeiro grupo de pessoas com quem a criança, ao nascer, tem contato é a família. É interessante que logo a criança já demonstra suas preferências, seus gostos e suas diferenças individuais. Também a família tem seus hábitos, suas regras, enfim, seu modo de viver. É desse modo que a criança começará a aprender a agir, a se comportar, a demonstrar seus interesses e tentará se comunicar com esta família.
Está aí, neste círculo de pessoas que rodeiam a criança, a fonte original da identidade da criança.
Desde cedo, os pais precisam transmitir à criança os seus valores, como, ética, cidadania, solidariedade, respeito ao próximo, auto-estima, respeito ao meio ambiente, enfim, pensamentos que leve essa criança a ser um adulto flexível, que saiba resolver problemas, que esteja aberto ao diálogo, às mudanças, às novas tecnologias.
A criança já aprende desde pequena o que a mãe não gosta, o que é perigoso, o que pode e o que não pode fazer. Percebe-se, então, a importância da orientação dos pais.
À família cabe entender que a criança precisa de liberdade, mas por si só não tem condições de avaliar o que é melhor ou pior para ela mesma. A família é o suporte que toda criança precisa e, infelizmente, nem todas têm. É o sustentáculo que vai ajudar a criança a desenvolver o conhecimento ajustado de si mesmo e o sentimento de confiança em suas capacidades afetiva, física, cognitiva, ética, estética, de inter-relação pessoal e de inserção social, para agir com perseverança na busca de conhecimento e no exercício da cidadania;

 

Sobre a Autora:
Professora, Empresária, Especialista em Educação Infantil pela UFJF e também Pós Graduada em Mídia e Deficiência pela Universidade Federal de Juiz de Fora, Mg.

O AZAR de ISADORA – por petrucio chalegre


A famosa bailarina Isadora Duncan foi perseguida toda sua vida por inacreditáveis azares. Morreu enforcada por uma echarpe muito longa com a qual entrou em um carro conversível. A ponta, com metros esvoaçando ao vento, enrolou-se na roda traseira do veículo e quebrou-lhe o pescoço. Cultivou amores que pareciam escolhidos para darem errado. Caiu certa vez em um buraco no convés de um navio ferindo-se seriamente. Resolveu ensinar dança em Moscou em uma época extremamente difícil e passou privações.Examinando com cuidado os azares de Isadora, veremos que sua má sorte foi grandemente influenciada por suas imprudências, por um temperamento impulsivo não dado a examinar as possíveis conseqüências de suas opções. Max Gunther escreveu um interessante livro sobre os favores dos deuses, em que examina os fatores determinantes do que chamamos sorte. Analisando casos de notórios azarados, como Isadora, ao lado de bem sucedidos favorecidos pelo acaso, chegou a conclusão de que nossos destinos são definidos por um processo de escolhas e atitudes característicos. Um dos fatores importantes é a atitude de previdência, fosse Isadora uma pessoa de sorte, pelo padrão de Gunther, ao embarcar no conversível teria cogitado do perigo de sua comprida echarpe tremulando ao vento.Países e pessoas costumam atribuir os acontecimentos a fatores externos, ora é o capital internacional que deseja nos explorar, ora é uma globalização para a qual nunca estamos preparados, ora são conspirações ardilosamente urdidas com o fito de nos amarrar permanentemente à dependência. É mais fácil pensar assim, na verdade muitos parecem professar uma religião diferente daquela que proclamam, a grande fé fatalista é a islamita, islã significa submissão, submissão à vontade divina. Se tudo está escrito nosso destino é inelutável. Tudo viria de fora e seríamos impotentes para modificar os desígnios do grande livro. Maktub! Estava escrito! Como nos livros de Mahlba Tahan. No entanto a grande tradição ocidental é a do livre arbítrio. Significa que somos donos de nossos caminhos, que optamos continuamente em encruzilhadas traçando simultaneamente os acontecimentos subseqüentes.

Jogamos uma grande partida, infelizmente sem direito a ensaio. A lei da causalidade interfere continuamente alterando o resultado final. Nosso país no entanto tem longa tradição de oportunidades perdidas, escolhas insensatas são a origem de cada uma das dificuldades que enfrentamos. Basta pensar se estaríamos enfrentando o déficit de população preparada hoje se tivéssemos tomado esta providência décadas atrás, quem sabe em 1868 como o Japão. Se teríamos os problemas de segurança críticos de agora se houvéssemos acabado com a impunidade endêmica 30 anos atrás. Mil considerações políticas podem ser feitas a respeito das dificuldades de fazer passar medidas que trazem restrições imediatas e cujos resultados benfazejos só surgirão com o tempo. Porém os azares de Isadora também tinham esta característica, suas escolhas tendiam ao prazer imediato: o vento no rosto, o gosto da velocidade no carro aberto, o pano drapejando ao vento… súbito o resultado da imprevidência: um aperto seco e mortal.

 

 

               arte digital. de grendel. ilustração do site.

ROCHEDO poema de zuleika dos reis

                                              

 

Tecido esgarçado

réstia de sol

pedaço de lua

rochedo

algo a ser arrancado do corpo

algo não lhe pertencido.

 

Ar que entra

que sai

pensamento expulso

moscas

tudo sobre suspeita.

 

Véu desta idéia:

tua vida.

Face obscura:

tua vida.

 

Pólo sul.

Pólo norte.

A lua não sabe

nunca saberá.

Não apontes para a lua.

 

Dedos de corte arredondado

conformes aos portos conhecidos.

Sonda o invisível.

Sonda o visível.

Caminha sentindo o que for nascendo.

Ama os fragmentos sílabas vestígios

de um pássaro rápido demais.

 

Do que terá sido este tremor nas mãos?

 

Cala o que sentes

do que ainda te pertence:

o quase nada da brisa.

 

Esta árvore

esta quase saudade esgueirada súbita

lagartixa

palavra que se repete imóvel

pedra.

 

Deixa girar o mundo vertigem

rochedo a ser arrancado do corpo

mundo verde

onde todas as vidas vivem

sobretudo as incompreensíveis.

 

O amor sem manual de instruções.

Continua jogando sem parceiro.

 

Consola-te:

Em algum tempo do mundo

alguém sonha sonho igual.

Consola-te:

Em nenhum tempo do mundo

ninguém sonha sonho igual.

 

Tudo o mesmo

se não,

algo é acrescentado…suprimido?

Um rochedo a ser arrancado do corpo

um rochedo que não te pertence.

 

Teus parceiros invisíveis

teus parceiros visíveis

todos deuses

sem Escrituras nem garantias.

 

No entanto houve uma Voz…

No entanto ouve uma Voz…

 

Carrega, impassível,

os segredos dos teus parceiros.

 

Os Numes não têm nome

número

data de nascimento

carteira de identidade.

Os Numes não estão nas estatísticas.

 

O sabor deste momento não te sabe.

Há Eras desconheces as ciências.

Que oração te devolve o Ser?

 

A pedra despenca

no fundo do lago.

A fogueira arde

no centro da noite.

As máscaras não convencem.

 

Caminhas pelos emaranhados das árvores

as doenças da tua identidade.

 

Um rochedo a ser arrancado do corpo.

Água que não houve

e se houve não persiste

e se persiste

não sabes onde.

 

Os parques de dentro, encarquilhados.

 

No momento em que nasceste

começaste a usurpar teu trono próprio.

 

O rochedo arrancado do corpo

bolhas de sabão do pensamento

segundo da Voz

tão nítido!

Círculos na água: a pedra afunda.

Amor? Ah…amor…

VATE poema de erly welton

 

essa língua minha

linha que sempre esqueço

é a única que desconheço

 

essa minha língua estranha

só fala mesmo o que minto

pois quando meu verbo assanha

não consegue dizer o que sinto

 

não é viva a minha língua

nem morta ou moribunda

ela volta sempre que digo siga

arreia as calças e mostra a funda

 

teimosa em confundir a rima

essa minha língua vagabunda

de impronunciáveis dialetos

áreas amplas, vales profundos

 

signo-língua minha

de consoantes no papel

são vogais de muitas tribos

onde a palavra ainda morreu

 

ruas violentas, arquivos secretos

se insiste e exige a verdade

o resultado é sempre sangrento

ou vate

 

Vate

substantivo de dois gêneros
1    indivíduo que faz vaticínio, predição; profeta, vidente
2    aquele que cria ou escreve poesia; poeta
Etimologia
lat. vátes ou vátis,is ‘adivinho, oráculo; agoureiro; profeta, vidente; poeta, vate; mestre (em uma arte)’; ver vat(i)-

Rumorejando (Queda de braço no Judiciário constatando). – por josé zokner (juca)

PEQUENAS CONSTATAÇÕES, NA FALTA DE MAIORES.

Constatação I

O político mima

O eleitorado

Com sua peroração,

Com sua pantomima,

Com sua empulhação*.

Eleito, esquece,

Com desfaçatez,

Do que falou,

Do que prometeu.

Aí, o safado,

Desaparece.

E, mais uma vez,

O povão

Se f…deu,

Digo, se ferrou.

Coitado!

*Empulhação = “Regionalismo: Brasil. Logro, tapeação, embuste, mentira” (Houaiss).

Constatação II (Com rima apelativa em “ade”).

Eu com mais de 71, minha provecta idade

Vi e asseguro que é verdade:

Pastor explorando a credulidade,

Com promessa de imortalidade;

Padre jurando falsidade

E metido em imoralidade;

Rabino cometendo iniqüidade,

Dando mau exemplo, sem urbanidade.

E também vi, cada vez menos, afetividade

Cada vez mais maldade

Cada vez mais contrariedade.

Presidente, um poço de vaidade;

Desembargador em antijuricidade;

Deputado e senador em cumplicidade

Só roubando que uma barbaridade.

E também prefeito e vereador na maior serenidade.

Gente morrendo em fila, uma infinidade

Por que a Saúde não é prioridade.

Tampouco no Ensino há essencialidade

Que mereça educabilidade.

Violência, dentro e fora da cidade

Com o racismo imperando com irracionalidade

Até nos campos onde deveria haver esportividade.

Brasileiros imigrando ocasionando emotividade,

Por falta de maior oportunidade.

Rico cada vez mais rico por ausência de eqüidade

Pobre cada vez mais pobre por má distribuição da rentabilidade

Sem mudança que se vislumbre uma probabilidade

Enchentes em lugares por falta de permeabilidade

Aquecimento global por excesso de impunidade

Proprietários de terra numa imensidade

Maior que países extraterritorialidade

Como se o mundo devesse ser de sua propriedade

O que não tem nada a ver com a Teoria da Relatividade.

Político discursando com loquacidade,

Enganando o povo de qualquer localidade,

Mas sem dizer algo com razoabilidade.

Mentiras, engodos e empulhações uma diversidade

Com a maior desfaçatez e serenidade

E o que é merecedor de perplexidade

É as gentes acharem que o que dizem é veracidade

O que tornou o fato, para muitos, uma peculiaridade.

Governantes, por favor, mais sobriedade

E parem de mentir também com a palavra: Igualdade.

Constatação III

Rico tem escorregão de comportamento ético; pobre é ladrão.

Constatação IV

Não se pode confundir testa com festa, principalmente no caso que não é uma festa para quem descobre ter um par de chifres na testa. A recíproca não é necessariamente verdadeira, como, por exemplo, é uma festa quando, no último minuto do jogo, o nosso time faz o gol da vitória com a testa, pé, peito, peito do pé, bun, digo, de costas o seja lá como for desde que não esteja impedido e/ou com a mão, cometendo falta, etc.

Constatação V

Deu na mídia principalmente na época do caos aéreo: “Pilotos estrangeiros são alertados de risco de voar no Brasil”. Data vênia, como diriam nossos juristas, mas Rumorejando acha que, de acordo com outras divulgações da mídia, o risco se estende também a caminhar pelas ruas desertas ou não, dentro das casas, chácaras, apartamentos e assim por diante…

Constatação VI

Rico mantém sua presença, mesmo ausente; pobre, não deixa saudades.

Constatação VII

Quando muitos deputados e senadores e outros tantos governantes se inteiraram, na mídia, que “pobreza e fumo aumentam o câncer” devem ter pensado, como de praxe, e o que eu tenho a ver com isso…

Constatação VIII (Sugestão a quem de direito).

Com esse aumento de veículos circulando pelas ruas de Curitiba, tendo em vista, cada vez o maior número dos que entram em circulação, tá na hora de eliminar a reversão à esquerda com a medida, dentre outras, de dotar muitas das ruas com sentido único. O investimento com semáforos e placas de sinalização poderia ser coberta com publicidade das empresas particulares como já vem sendo feito. As ruas com sentido único teriam que ser dotadas de lombadas, eletrônicas ou com elevação e/ou com radar para evitar os abusos de velocidade que fatalmente ensejarão. De nada!

 

Constatação IX

Deu na mídia: “Carla Bruni nega rumores sobre gravidez”. Taí uma notícia de transcendental importância para o futuro da Humanidade…

Constatação X

Deu na mídia: “Reunião do G8 no Japão termina sem resultados efetivos”. Alguém tinha alguma dúvida? Alguém se lembra de reuniões desses países ricos resolverem algo a não ser em proveito próprio? Quem se lembrar, por favor, cartas a Rumorejando. Obrigado!

E-mail: josezokner@rimasprimas.com.br

 

 

sem crédito. travesseiro para mulheres tímidas. ilustração do site.

ARTE de BOTEQUIM – por thomás levy

Como um poeta sem produção pôde influenciar uma geração? Em conversas de bar!

 

 

Em um clima de descontração, Humberto Werneck, Xico Sá e Paulo Roberto Pires se sentaram no palco principal da Flip. O nome da mesa era sugestivo: conversa de botequim. “Não tem whiskey?”, indagou Xico Sá, desapontado com a liberdade que tomaram com o termo “botequim”. Regados à água, o assunto da mesa logo foi definido: Jayme Ovalle.

Um poeta, músico e escritor que influenciou grandes nomes da literatura brasileira, entre os quais estão Mario de Andrade e Manuel Bandeira. Isso nos faz imaginar que ele é um autor de extensas obras, que deixou uma tradição técnica admirável. Humberto Werneck escreveu um livro sobre este homem, e logo quebra essa errônea concepção.

Tive acesso a um baú com seus escritos. Cerca de 40 poemas, ruins, um livro escrito em um inglês macarrônico e 33 partituras de músicas curtíssimas.” Como então ele pôde ser tão importante?

Ele era um grande artista sem educação formal. Era dono de uma capacidade narrativa ímpar, mas não tinha como externar sua arte. Usava então a mesa de bar para contar suas anedotas, e assim influenciou uma geração de escritores que ouvia o que ele tinha a dizer e se deixaram moldar por suas palavras.”

 

Ainda sim, suas anedotas decoraram muito da literatura brasileira. Sem escrever, ele se tornou um personagem que, com muitos amores, muitos problemas e muitas loucuras deu uma cara nova à personalidade brasileira.

Conversa de bar é arte? Se bem usada, sim! Xico Sá aproveitou esse tema para criticar A Folha de São Paulo pela matéria que publicou no dia da abertura da Flip, na qual afirmou que esse evento não era tão bom quanto os outros por carecer de autores premiados.

Se formos acreditar n’A Folha, nem estamos aqui. Não temos ganhadores de pulitzers ou nobels nessa mesa, então não existimos (risos). É ridículo tentar existir à base de prêmios, tentar julgar a literatura com coisas como essa.”

O livro de Werneck se chama “O Santo Sujo”, e foi lançado pela CosacNaify.

 

TAJ MAHAL, A MARAVILHA – pela editoria

 

Umas das 7 maravilhas do mundo, praticamente todos já o viram em inúmeras fotografias, mas o que poucos sabem, é a história que está por detraz deste inigualável monumento. O Taj Mahal, é não mais do que uma ode ao amor e representa toda a eloquência que este sentimento pode ser. Durante séculos, o Taj Mahal inspirou poetas, pintores e músicos que tentaram capturar a sua magia em palavras, cores e música. Viajantes cruzaram continentes inteiros para ver esta esplendorosa beleza, sendo poucos os que lhe ficaram indiferentes.

Como todas as histórias, esta também começa da mesma maneira… Era uma vez um príncipe chamado Kurram que se enamorou por uma princesa aos 15 anos de idade. Reza a história que se cruzaram acidentalmente mas seus destinos ficaram unidos para todo o sempre. Após uma espera de 5 anos, durante os quais não se puderam ver uma única vez, a cerimónia do casamento teve lugar do ano de 1612, na qual o imperador a rebaptizou de Mumtaz Mahal ou “A eleita do palácio”. O Príncipe, foi coroado em 1628 com o nome Shah Jahan, “O Rei do mundo” e governou em paz.

Quis o destino que Mumtaz não fosse rainha por muito tempo. Ao dar à luz o 14º filho de Shah Jahan, morreu aos 39 anos em 1631. O Imperador ficou tremendamente desgostoso e inconsolável e, segundo crónicas posteriores, toda a corte chorou a morte da rainha durante 2 anos. Durante esse período, não houve música, festas ou celebrações de espécie alguma em todo o reino.

Shah Jahan ordenou então que fosse construído um monumento sem igual, para que o mundo jamais pudesse esquecer. Não se sabe ao certo quem foi o arquitecto, mas reuniram-se em Agra as maiores riquezas do mundo. O mármore fino e branco das pedreiras locais, Jade e cristal da China, Turquesa do Tibet, Lapis Lazulis do Afeganistão, Ágatas do Yemen, Safiras do Ceilão, Ametistas da Pérsia, Corais da Arábia Saudita, Quartzo dos Himalaias, Ambar do Oceano Índico.

Surge assim o Taj Mahal. O seu nome é uma variação curta de Mumtaz Mahal.. o nome da mulher cuja a memória preserva. O nome “Taj”, é de origem Persa, que significa Coroa. “Mahal” é arábico e significa lugar. Devidamente enquadrado num jardim simétrico, tipicamente muçulmano, dividido em quadrados iguais cruzado por um canal ladeado de ciprestes onde se reflecte a sua imagem mais imponente. Por dentro, o mausoléu é também impressionante e deslumbrante. Na penumbra, a câmara mortuária está rodeada por finas paredes de mármore incrustado com pedras preciosas que forma uma cortina de milhares de cores. A sonoridade do interior, amplo e elevado é triste e misterioso, como um eco que soa e ressoa sem nunca se deter.

Sobre o edifício surge uma cúpula esplendorosa, que é a coroa do Taj Mahal. Esta é rodeada por quatro cúpulas mais pequenas, e nos extremos da plataforma sobressaem quatro torres que foram construídas com uma pequena inclinação, para que em caso de desabamento, nunca caiam sobre o edifício principal.

Os arabescos exteriores são desenhos muçulmanos de pedras semi preciosas incrustadas no mármore branco, segundo uma técnica Italiana utilizada pelos artesãos hindus. Estas incrustações eram feitas com tamanha precisão que as juntas somente se distinguem à lupa. Uma flor de apenas sete centímetros quadrados, pode ter até 60 incrustações distintas. O rendilhado das janelas foi trabalhado a partir de blocos de mármore maciço.

Diz-se que o imperador Shah Jahan queria construir também o seu próprio mausoléu. Este seria do outro lado do rio. Muito mais deslumbrante, muito mais caro, todo em mármore preto, que seria posteriormente unido com o Taj Mahal através de uma ponte de ouro. Tal empreendimento nunca chegou a ser levado a cabo. Após perder o poder, o imperador foi encarcerado no seu palácio e, a partir dos seus alojamentos, contemplou a sua grande obra até à morte. O Taj Mahal foi, por fim, o refúgio eterno de Shah Jahan e Mumtaz Mahal. Posteriormente, o imperador foi sepultado ao lado da sua esposa, sendo esta a única quebra na perfeita simetria de todo o complexo do Taj Mahal.

Após quase quatro séculos, milhões de visitantes continuam a reter a sua aura romântica… o Taj Mahal, será para todo o sempre uma lágrima solitária no tempo.

O EDUCADOR e IDÉIA DE CÃO – mini contos de raimundo rolim

O educador

 

O acinte era evidente! O homem estava mesmo disposto a criar o caos. Não conseguia ouvir uma única frase inteira e já revidava em seguida. E o que era para ser pensado, temperado, medido e sopesado, postergava-se para uma possível outra ação. E gritava ele com os punhos cerrados, que a bancarrota espreitava cada movimento ali presente e que certamente, nenhum elétron se manifestaria por um descuido de inconsistência química. Que seguiria, por conseguinte, as ondulações sonoras de cada vogal pronunciada com veemência e sem objetivo real próximo; nem que fosse por alguns instantes. Consoantes, nem pensar! Estas seriam duras demais para o tenro momento. Ufa! disse o homem. A discussão teve de ser finalmente suspensa com a chegada do corpo de bombeiros, polícia, batalhão de choque e um sem número de repórteres que vieram acudir e cobrir o Primeiro Simpósio da Educação Moderna e Inteligente dos Humanos que Restavam Após o Centésimo Nono Encontro Depois da Puta Que o Pariu. Era uma sigla grande, quase portentosa. O desentendimento foi absolutamente descabido.  Foi o escambau.

 

Idéia de cão

 

O cachorro latiu três vezes e esperou que seu dono aparecesse. Faltava ao cão, o prato de comida matinal, composto de ração farta e dieteticamente equilibrada. Latiu de novo e mais uma vez. Aí achou que deveria ficar latindo, pois nada mudava no cenário. O sol já ia alto e nada. O estúpido animal bem que pensou que seu dono tivesse morrido de indigestão, por ter ele mesmo ingerido a comida que lhe preparava todos os bons e santificados dias. E foi o que aconteceu ou quase! O homem acordara muito bem disposto, além de otimamente humorado, só que com idéias caninas! Mas, faltou-lhe suco gástrico suficiente para digerir o enorme osso que, distraído, enfiara goela adentro, entalando-se. O seu melhor amigo que também estava inspirado e muito, muito famélico, veio rápido em seu encalço. Socorreu-o tomando-lhe da boca esgarçada o osso que ficara com uma ponta para fora. Meteu o focinho por debaixo das arcadas dentárias e puxou forte. Salvara a ambos de morte certa.

 

 

VOLÚPIA poema de florbela espanca

No divino impudor da mocidade,
Nesse êxtase pagão que vence a sorte,
Num frêmito vibrante de ansiedade,
Dou-te meu corpo prometido à morte!

A sombra entre a mentira e a verdade…
A nuvem que arrastou o vento norte…
– Meu corpo! Trago nele um vinho forte:
Meus beijos de volúpia e de maldade!

Trago dálias vermelhas no regaço…
São os dedos do sol quando te abraço,
Cravados no teu peito como lanças!

E do meu corpo os leves arabescos
Vão-te envolvendo em círculos dantescos
Felinamente, em voluptuosas danças…

Ou te amo ou sou covarde ou demente – poema de tonicato miranda

Preciso te amar desesperadamente

do mesmo jeito como a gripe precisa do inverno

Preciso te amar como quem vai para o inferno

Desejo tuas mãos, teu corpo, tua pele, quero te ter com febre e arder

Preciso te amar como um demente

 

Desejo te amar e dizer bobagens tolas

rir da nossa imagem refletida nos espelhos

sentar-te tranqüila e nua sobre meus joelhos

Desejo tuas mãos, teu corpo, quero te comer com pimenta e arder

Preciso das minhas mãos loucas

 

Quero passear minhas mãos sobre tuas curvas

da mesma forma como passeio com minha bicicleta

deslizando sem preocupação com a rota mais certa

Tu pedalando dentro de mim e ao meu lado, minh’alma a arder

Nossas pedaladas a caminho de cavernas e furnas

 

Mas nossas mãos estão distantes

nossos olhares e mares barrados por um continente

Ah meu Deus, quanta terra, pra quê?

Pra quê tanto céu e mar, para quê?

Queria a memória dos elefantes

jamais esquecer dos caminhos

das curvas do teu corpo, das lágrimas do teu olhar

sempre chorando, mesmo quando estão sorrindo.

 

Preciso te amar desesperadamente

Em meio às Águas de Julho que anunciam tempos de frios

Preciso me abrigar no teu colo e tremer meus brios

Desejo tuas mãos, teu corpo, tua pele, quero ter febre e com ela arder

para espantar estes ares gelados que vem de terras mais ao sul

 

Teu corpo está distante daqui

tremendo, temo experimentar tua noite, aportar na tua enseada

deixar meu barco marejar e balançar, balançar

no vai e vem do teu olhar e do teu corpo, a balançar

sem saber o que tua boca fala ou me diz

caminhar sobre tua paisagem de dunas

jogar sobre tua barriga um jogo de runas

descobrir um tempo único que já veio e logo irá para nunca mais

 

Preciso te amar desesperadamente

Por uma única e vitoriosa vez neste inverno

alimentando fogueiras do meu próprio inferno

Desejo teus fluídos, teus murmúrios e os marulhos em meus ouvidos, a arder

Para não levar além vida a tristeza de não saber se te amei realmente, fui covarde ou demente

 

…e dá-se que de novo lê-se Ulisses – por ivo barroso

O much ado que se vem fazendo a propósito de uma nova tradução do Ulisses suscita de imediato a pergunta: é melhor que a anterior? ou — mais categoricamente — vale a pena fazer-se uma nova tradução do Ulisses?

Quanto à última, a resposta será sempre positiva: toda grande obra merece ser retraduzida de tempos em tempos, atendendo-se à própria evolução da língua, à modernização do entendimento do tradutor em face dos novos estudos e análises que surgem entre uma e outra tentativa. Em benefício do leitor, sonha-se que a nova tradução deva ser sempre melhor, superior à antecedente, por um motivo ou outro. Tal é a expectativa que vem ocorrendo em relação ao trabalho de Bernardina da Silveira Pinheiro, que a Objetiva acaba de lançar em comemoração do 101º aniversário do Bloomsday.

A tradução anterior do Ulisses, feita por Antônio Houaiss, deveu-se a uma série de circunstâncias que se conjugaram: a um gesto mecênico de Ênio da Silveira, que procurou assegurar ao tradutor num momento difícil um estipêndio condigno (Houaiss tinha sido cassado do Itamaraty e passava por problemas de saúde na família); ao fato de ser este, na ocasião, o único escritor com uma “linguagem adequada” para a transposição do texto joyciano; e à necessidade editorial de se lançar no Brasil um livro reconhecidamente fundamental para todas as literaturas e que nos chegava com um atraso de 43 anos.

Momento estelar na história da tradução brasileira, o Ulisses foi um trabalho pioneiro em que o erudito professor Antônio Houaiss desbastou, ao longo de um ano, a “pedreira joyciana”, criando em português uma linguagem-padrão, equivalente às ousadias semânticas do original. Quando de sua publicação, o crítico e tradutor paulista Augusto de Campos — seguramente uma das maiores autoridades na obra de Joyce no Brasil — escreveu uma série de artigos, posteriormente reunidos no livro Panaroma do Finnegans Wake (editora Perspectiva, 1971) em que analisava minuciosamente as soluções apresentadas por Houaiss, apontando passagens ou palavras para as quais sugeria outras soluções. O trabalho de Augusto de Campos vinha reforçar a assertiva de que a única maneira honesta de se criticar uma tradução é mostrando como se faria no caso específico. Houaiss, de bom grado, incorporou várias de suas sugestões em edições posteriores da obra. Também o tradutor Millor Fernandes contestou, em especial, a tradução da palavra final do monólogo de Molly (yes), que Houaiss traduzira por “sins”, no plural, e que para Millor deveria ser algo como “É!” ou “Eu vou!”, por entender que a palavra ali representava um grito de orgasmo.

Sobre a importância da obra há quase unanimidade nos meios intelectuais; chega-se mesmo a considerá-la um divisor de águas, a conquista de um patamar inultrapassável na técnica narrativa, o modelo-princeps a que estaria submetida toda a produção ficcional que viesse depois. Em 1956, a 34 anos de seu aparecimento inicial na França, surge no Brasil um fenômeno estilístico semelhante: João Guimarães Rosa, que já surpreendera a crítica em 1937 com a coleção de contos intitulada Sagarana, lança o romance Grande sertão: veredas que parecia, em termos nacionais, destinado a marcar, como Ulisses, o modelo absoluto da prosa vindoura. Mas a verdade é que, passado o efeito devastador da tsunami joiciana (bem como o da pororoca vimaranense), as populações ribeirinhas da literatura mundial (e nacional) voltaram a construir seus enredos com os destroços do mesmo material que haviam herdado das literaturas clássicas, não-revolucionárias. E hoje, em parte alguma do mundo (ou do Brasil) pode-se encontrar quem esteja escrevendo à Joyce ou à Rosa, não obstante a contribuição de ambos para a renovação dos estilos literários.

Quanto à adequação do trabalho transpositivo de Houaiss, não obstante ter sido considerado o right man para um feito daquela envergadura, houve certa ironia subjacente por parte de alguns que já se arrepiavam com seu “estilo cipó”, vendo no texto em português uma extrapolação das dificuldades do original. É certo que Houaiss, após dominar a técnica joyciana da “palavra-amálgama”, aplicou-a em muitos trechos em que ela não aparecia em inglês, mas que se prestavam para aquele tipo de “sanfonamento” em nosso idioma, lançando mão de uma técnica compensatória de que se valem não raro os bons tradutores, talvez para enfatizar o “stil nuovo” joyciano. Seu Ulisses foi bem-vindo por todos os apreciadores de Joyce que não sabiam inglês e chegou mesmo a alcançar uma parte do público acostumado a ler tudo o que está na moda. Tornou-se um “sucesso de estima”, prerrogativa dos “unhappy few”, auto-flagelação dos sísifos literários capazes de carregar esta pedra até a página 846, embora o “leitor da moda”, como é sabido, não tenha conseguido ultrapassar uma trintena delas.

A nova tradução, devida à professora Bernardina da Silveira Pinheiro, a que vinha se dedicando há 9 anos, profunda conhecedora da vida e da obra de James Joyce, de quem já traduzira O Retrato do Artista Quando Jovem — chegou precedida das informações de que ela se divertira muito enquanto executava seu trabalho e nele havia preservado o coloquialismo e a musicalidade que permeia a obra joyciana. A leitura comparada das duas traduções revela, desde o início, que a linguagem de Bernardina é menos erudita, menos rebuscada que a de Houaiss, e seu coloquialismo procura estar a passo com o linguajar atual. Isso não quer dizer que a obra se tenha tornado menos complexa, mais compreensível.

O perigo dessa facilitação seria transformar o texto numa espécie de “livro condensado”, à maneira Digest, com todas as arestas devidamente polidas para atender à ignorância do leitor. Felizmente, isso não acontece, e se, em muitas passagens parece que o texto de Houaiss sofreu apenas um copidesque, com a mudança ocasional de uma palavra arrepiada por outra mais lisa — vê-se em seguida que a tradutora teve o critério de traduzir de costas voltadas para o precedente: as soluções são dela própria, por mais que se possa argüir contra sua propriedade ou funcionamento. No prefácio, há de fato uma insistência quanto à musicalidade da prosa joyciana (não esquecer que ele começou como poeta, num sintomático Música de Câmara). Essa musicalidade dificilmente poderia ser preservada em português na transposição de monossílabos seqüenciais que não temos, aliterações que não podemos fazer, etc. Em alguns trechos é possível dizer-se que Houaiss foi mais feliz em captar essa “música” ao submeter a frase quase a uma contagem métrica. Mas, a nova tradutora também se esforçou para obter efeitos à sua maneira.

Intraduzíveis são os jogos de palavra, os trocadilhos, as deformações léxicas, que não funcionam quando transpostos à risca ou se alheiam inteiramente do contexto quando substituídos por improváveis equivalências. Desta forma, grande parte do divertimento da tradutora teria que ficar na leitura do original, prática recomendável àqueles que conhecem inglês. Na tentativa de permanecer fiel ao texto, preservando-lhe supostamente todas as nuances, a tradutora chegou a afirmar que em certas passagens errou de propósito na composição da frase em português para corresponder aos intencionais deslizes de Joyce que constavam do original. Contudo, aqui parece que Bernardina incidiu na mesma tentação de Houaiss em criar mais do que lá estava, pois seria pouco provável que Joyce, se escrevesse em português, cometesse frases como “Parado, ele perscrutou”, “Solenemente ele avançou”, “ele se inclinou a ele”, “Ele raspou”, “ele esbravejou” [capítulo inicial], em que o pronome, indispensável em inglês, é de praxe omitido em português, em proveito da elegância da frase, por estar subentendido na flexão verbal. Igualmente, na escolha de certas palavras (como “fazer um banzé”, para traduzir give him a ragging), é de crer que Joyce tivesse usado sinônimos mais em sintonia com o tom da frase (como, por exemplo, “dar um pito” “passar um sabão”), igualmente coloquiais, mas não tão pés-na-cozinha.

Haverá inúmeros trechos, sem dúvida, em que a nova tradutora terá sido mais legível que o antigo mestre, seja pela solução vocabular mais imediata, menos arcaizante, seja buscando uma expressão mais próxima da forma léxica empregada por Joyce e não de suas intenções estilísticas. Também é certo, como já previa Houaiss, que outras traduções venham a surgir depois desta. A de João Palma Ferreira, em Portugal, data de 1989. Sabe-se que o professor Caetano Galindo, da Universidade do Paraná, já tem a sua em adiantado estado de gestação. É possível até mesmo que, na tentativa de popularização do Ulisses, surja mais tarde uma tradução cheia de plebeísmos como “cara”, “eu lhe vi”, “o livro que eu mais gosto”, “essa semana”, etc. Contudo, o problema não está na tradução, mas no livro em si: eis uma obra a ser lida por escritores, não para lhe imitarem o estilo, mas para conhecerem as audácias estilísticas que um autor de gênio pode conceber. Nenhuma publicidade ou facilitação será capaz de transformar Ulisses em um novo Código da Vinci.

ASSÉDIO MORAL NA ESCOLA – por josé dagostim

O assédio moral é a melhor definição para o bullying. A sociedade com o advento da manifestação sombria do patriarcado, alimenta-se do capitalismo, assim, o homem se caracteriza pelo forte antropocentrismo coletivo, baliza para o comportamento individual, uma analogia a neoplasia mórbida.

A escola acha-se fortemente corrompida por um padrão fragmentado que valoriza: quantidade, regra, dogma, padrão e a ciência. Tudo dentro das sombras pragmáticas da receita; uma negação da diversidade. Sonegação da individualidade interior e os diversos padrões que se manifestam nos comportamentos existentes em cada ser humano.

Ao identificar os quatros arquétipos principais e seus sub-arquétipos C.G.Jung nos deixou a base da estrutura profunda da psique humana: visão, pensamento, sensibilidade e sensação. O tipo visionário se caracteriza pela personalidade pioneira e destaca-se pela excentricidade e a bondade, o tipo pensamento se caracteriza pela coragem e decisão tendo como ponto forte a comunicação imparcial, o tipo sensível se caracteriza pela percepção dos acontecimentos; a sabedoria e o tipo sensação pelo pragmatismo; os cinco sentidos e a paixão pela vida.

Dentro de cada estudante encontram-se todos estes padrões, mas, sempre um é que se destaca, enquanto os demais se manifestam inconscientemente. Falta aos educadores sensibilidade (sabedoria) para identificar o padrão de cada estudante e tencionar (trazer para a consciência) a vocação, dentro do padrão predominante e equilibrar os demais padrões.

A escola atual identifica-se com um padrão e marginaliza os demais, ocasionando desequilibro interno e externo. O dano à sociedade se percebe na desestruturação da psique humana e materializa-se no assédio moral (bullying).

Somos parte da unidade que clama!

 

COMO SE POLUI UM RIO – por gil portugal

Em realidade, despoluir ou não poluir um rio é uma tarefa de múltiplas facetas e exige atuações postas tais quais um feixe de retas paralelas em uma mesma direção.

Em primeiro lugar, para coordenar idéias, compete definir aquilo que é, para um rio, o seu elemento ou elementos vitais, a partir de que ele será um rio “com saúde”.

Desculpem-me se, daqui para frente, passarei a escrever sobre o óbvio mas, se o farei, nada mais é que para ordenar a linha de pensamento.

Na massa d’água corrente de um rio existem um sem número de organismos vivos dos reinos vegetal e animal e em todos os graus de entrosamento. É um ecossistema. E a Natureza nos ensina que todo ecossistema tem que viver harmoniosamente.

Vejamos, para começar, o reino animal que está presente no rio. A grande maioria de seus membros, devido ao rio, sobrevive, porque ali se alimenta e respira (oxigênio) ar e por isso, eles são animais aeróbios. Se não existissem no rio alimento ou ar eles morreriam. Com isso, tira-se a primeira conclusão: o ar, isto é, o oxigênio é peça indispensável para a sobrevivência do ecossistema, da mesma forma que o alimento, como para qualquer animal, e que, neste caso é a matéria orgânica. Acontece que a respiração é a função primordial, visto que, à sua falta o animal perece de imediato, donde se conclui que o oxigênio é a matéria prima fundamental para a sobrevivência do ecossistema rio.

Basicamente, o oxigênio estará presente na massa líquida por dois processos: a diluição em contato com o ar atmosférico e a fotossíntese devida aos vegetais. E aí, podemos chegar à primeira grande conclusão: se não houver diluição de contato e fotossíntese somadas em quantidade suficiente, fornecendo oxigênio para atender a fauna, ela perecerá gradativamente, até a posição de equilíbrio com a demanda.

O animal respira oxigênio e expira CO2 (dióxido de carbono), se alimenta de matéria orgânica e a transforma em minerais; a planta absorve o CO2 e através da fotossíntese, regenera o oxigênio.

Essa teoria é límpida e certa e com ela, podemos analisar um a um os fatos que fazem “adoecer” um rio e, com isso, nominar cada reta do nosso feixe de paralelas citado. Vejamos:

Desmatamentos – A retirada de um vegetal do solo ou mesmo sua morte, enfraquecerá a resistência mecânica desse solo graças a fixação que havia pelas raízes. Ao perder essa resistência, as águas de chuva iniciam um processo de erosão que, invariavelmente, mesmo que longe do curso d’água, irá carregar para os leitos desse curso, quantidades anormais de sólidos, levando ao processo de assoreamento.

O assoreamento conduz a dois acontecimentos, um deles de caráter não ambiental propriamente dito, que é a diminuição da seção fluída e com isso, provocará alagamento extra-caixa do rio e o outro ambiental, que se dá pelo soterramento dos vegetais de fundo e inibição da penetração para eles do oxigênio, passando, aí, a ocorrer outro processo de decomposição do material orgânico soterrado – sem a presença de oxigênio – através de organismos ditos anaeróbios (que não necessitam do oxigênio dissolvido para respirarem) mas que, ao invés de darem como produto o dióxido de carbono e minerais (insumos para a fotossíntese), produzirão gases derivados de carbono e do enxofre como o metano, as mercaptanas e os gases sulfurosos, venenos para a fauna aeróbia.

Agrotóxicos – São substâncias utilizadas em plantações com a finalidade de matar organismos nocivos à saúde dessas plantações; evidentemente que, essas substâncias, mais cedo ou mais tarde, pelas chuvas, serão carreadas para um curso d’água, continuando ali seu efeito tóxico sobre outros organismos que não aqueles a que se destinavam eliminar. Tais organismos, principalmente os microorganismos, são exatamente aqueles que se encarregam de fazer a decomposição das substâncias orgânicas no seio da massa líquida e se eles estão mortos ou doentes, funcionarão como mais alimentos a serem consumidos, ao invés de transformadores de alimentos.

Adubos – São substâncias colocadas em plantações com a finalidade de abastecê-las de seus elementos vitais como o nitrogênio, o potássio e o fósforo, são as “vitaminas” da flora e estimulam seu crescimento. De uma forma ou de outra, parte desses adubos serão carregados para os rios e ali incentivarão o crescimento dos vegetais aquáticos, principalmente os minúsculos como as algas e esse crescimento exagerado fará acontecer o fenômeno de eutrofização (proliferação exagerada de vegetais) que turvará de verde as águas, dificultando a penetração de luz solar, imprescindível à fotossíntese (que é geradora de oxigênio).

 Barragens – O turbilhonamento das águas é fator que facilita a dissolução de oxigênio do ar na água. Se as águas ficam tranqüilas, caso das águas barradas, a tendência à oxigenação diminui à montante (antes) da barragem e também, fica facilitada a deposição de poluentes pesados que comprometem o ecossistema; de positivo, nesse caso, há um favorecimento na depuração das águas à jusante (depois).

Lixeiras – Uma lixeira (local de disposição de lixos domésticos, chamada lixão, aterro sanitário) deve se constituir num sistema de proteção que preveja o recolhimento dos percolados e do “chorume”, que nada mais é que um “caldo” altamente orgânico e que demandará um grande consumo de oxigênio ao chegar a um curso d’água; não se contando aí, a possibilidade do lixo conter patogênicos, se for oriundo de hospitais.

Lixos Públicos – As populações ribeirinhas têm, no geral, o costume de lançar seus lixos diretamente nos rios por suas margens; isso significa mais material orgânico a demandar oxigênio bem como, materiais biodegradáveis como metais e plásticos que se não afetam diretamente a saúde do rio, irão causar transtornos aos sistemas de captação das águas para tratamento.

Esgotos Sanitários – Está aí a causa maior da alta demanda bioquímica de oxigênio (consumo de oxigênio) de um rio. Estudos mostram que, para cada pessoa, o esgoto produzido demanda, por dia, um consumo de 54g de oxigênio das águas do rio, isso sem contar os prejuízos dos não biodegradáveis que irão influenciar, por efeito direto, na saúde da flora e da fauna.

Atividades Pastorís – A criação de animais implica numa concentração não natural de espécies e consequentemente, em conseqüência, focos concentrados de dejetos altamente orgânicos a sacrificar os cursos d’água, localizadamente.

Abatedouros – Da mesma forma, há uma concentração não natural de fontes altamente demandáveis de oxigênio nos cursos d’água, além de outros inconvenientes, como exemplo, as penas que constituem um grande transtorno de filtração primária nas estações de captação de águas para tratamento.

A Poluição Atmosférica por Particulados – A geração e lançamento ao ar de partículas pelas diversas atividades industriais têm o efeito de cobertura constante dos solos e vegetais. Tais partículas, mais cedo ou mais tarde, por efeito das chuvas, irão atingir os cursos d’água, causando efeitos de assoreamento e de turbidez.

Os Pós de Varrição – Da mesma forma, as partículas geradas nas vias públicas por veículos, principalmente, irão, mais cedo ou mais tarde, alcançar um curso d’água.

Efluentes Líquidos de Hospitais e Laboratórios – Não se tem notícias de que haja tratamentos nesses casos; isso leva, evidentemente, à poluições de caráter patogênico e químico, respectivamente.

Os Aterros Industriais – O fenômeno de lixiviação de metais nos aterros industriais, sem uma perfeita proteção do solo, infiltram para os aqüíferos subterrâneos esses metais em dissolução, terminando seu deságüe em curso d’água.

As Micro-Atividades – Oficinas, postos de gasolina, fundições, galvanoplastias, cemitérios etc. são contribuidores constantes de óleos, outros orgânicos e metais.

A Poluição Térmica – O lançamento de águas quentes num rio causará, de imediato, fenômenos localizados de desoxigenação pois, o calor favorece a dissipação do oxigênio dissolvido; além disso, a faixa de temperatura de sobrevivência de peixes e muitos microorganismos é bastante estreita e, ainda, alguns vegetais têm sua proliferação acentuada com o aumento de temperatura.

A Poluição por Tensoativos – Os sabões influenciam para desequilibrar a tensão superficial vital para espécies de animais que dela dependem para sobreviver; como exemplo a flutuação das aves aquáticas, as bolhas de ar do besouro d’água etc.

A Poluição por Potencial Hidrogeniônico – A acidez ou basicidade acentuada, fora da normalidade das águas, podem levar a mortandade de peixes, muito comum junto a despejos de usinas de açúcar de cana.

A Poluição por Valor Osmótico – O fenômeno da passagem de líquidos através de membranas semipermeáveis, na direção do menos saturado para o mais saturado, aplica-se à vida de animais acostumados ou à água doce ou à água salgada. Dessa forma, o lançamento de grande quantidade de sais em água doce é uma forma de poluição e, paradoxalmente, o lançamento de águas doces e límpidas no mar é, também, forma de poluição.

Bem, leitor, vou parar por aqui, mas queria que ficasse registrado que o assunto “saúde de um rio” é muito mais complexo do que se pensa.

Hoje, como temos assistido, a preocupação recai quase que exclusivamente nas indústrias. É mais fácil forçá-las a não poluir, porque os recursos para tal não saem de verbas públicas e as tecnologias não precisam ser pensadas por organismos públicos para que descubram aquelas de maior benefício a menor custo etc.

Com isso, apenas um dos enormes tentáculos do polvo vem sendo cuidado: a poluição devido às indústrias.

Este artigo tem a finalidade de chamar a atenção para a abrangência do assunto e se refere às formas de poluição.

Quanto à despoluição, a certeza é que, deixar de poluir é uma forma de despoluição pois, os cursos d’água são notavelmente auto-renováveis, bastando que se diminuam as causas de sua degradação para que eles se recuperem paulatinamente.

poluição no TIETÊ. sem crédito. ilustração do site.

DECURSO de PRAZO – por walmor marcellino

O que acontece quando a liberdade de falar se faz o discurso da negação social, porque assume o arbítrio e dispõe a imposição como doutrina da razão? De onde surge essa voga do maniqueísmo de estreiteza cultural e política que quer ser pensamento e conduta para todos? Das seitas políticas, civis, religiosas; de autoritários cansados, dos neófitos abismados com o corredor vazio à sua passagem?

Aos tempos da boa justa pelo necessário, em causas reconhecidas pela adversidade, sucederia por perempção o gesto desorientado, nesse destoar do grito “às armas”, “ao combate”? E, então, os espetáculos sem grandeza, as misérias pelos palcos, a embriaguez de valentias e as paródias da cavalaria ocupam as ruas, as praças, os salões e… os estapafúrdios éditos provincianos.

Entretanto, a era da resistência política, da desobediência civil para afirmação dos direitos fundamentais não passou. As causas pedem voluntários. Por que então em vez de uma boa causa um bom combatente, algumas pessoas gritam a sua inutilidade?

Sabemos que as lutas sociais vão acontecendo replicadas nas retaliações e seus paradoxos. Porém como se tornou mais difícil alertar, chamar, convocar grupos, profissões, classes, porque a sociedade do espetáculo substituiu a comunicação de massa, as lideranças de esquerda mal-cuidam de seus noviços e agregados. Daí essa turba à solta, batendo bumbo, fazendo zoadas; para pedir atenção a seu cursilho, para assumir capatazia social.

Sempre existiu: o socialismo sem integração com as massas é a sua negação; o socialismo de grupo tende ao fascismo; e mesmo as fanfarras na rua ou os repetitivos discursos na mídia eletrônica podem ser ritos de auto-complacência política e autoritarismo ideológico. Por que as causas sociais passaram a ser vigiadas, censuradas e combatidas?

O socialismo voltou ao cenário. Mas, à falta do exercício da consciente prática produtiva, social, política e cultural, certos grupamentos fazem reuniões de autodefesa sem definir do quê. E o socialismo se torna fascismo, porque o grupo é toda a linha de combate: fascio de combattimento. O social-fascismo está ocupando espaços públicos, repartições, escolas… e tenta substituir os meios de persuasão do neoliberalismo antinacional. Todavia, a inteligência o rejeitará, como a massa recusará essa nova tutela obscurantista.

O socialismo de fachada vai-se tornando agora inimigo dos avanços sociais.

ACABEI de VIRAR VEGETARIANO por luiz felipe leprevost

 

Não podei as garras da fraqueza quando pude, agora fui agarrado. 

            Desisti de olhar no relógio, toda vez me deparava com a certeza de que não uso relógio.

 

            Você não vai acreditar, eu tô por essas bandas tem quase um século. Ajudei a fundar essa cidade. Nem sei como foi que a gente inventou até cimento capaz de agarrar na neblina.

             É correta a tua reclamação, o pessoal reclama mesmo, diz que conversar comigo é coisa pra descerebrado, que ninguém entende lhufas da minha linha de raciocínio, mas você acompanha, fique calmo, vou dando esses saltos porque com a idade que tenho se eu fico apegado a detalhes a coisa não anda, é óbvio que eu poderia narrar, por exemplo, as sutilezas de um único ser humano, ou de uma única casa, mas aí… 

 

Se eu te dizer que justo essa era uma dúvida que assombrava um par de simbolistas, você não vai me acreditar, mas ninguém lhes tirava da cabeça que o Emílio de Menezes na verdade era o leão marinho Leôncio.

            Eu tô dizendo, piá, era um tempo aquele em que as línguas dançavam geadas.

            Sempre que alguém entrava no elevador vinha aquela frase preciso de um amor que me aborreça.

            Nalgum momento, nalguma daquelas ruas de paralelepípedos os cidadãos poderiam presenciar o famoso Bloco Carnavalesco Crueldade Social passando. 

            Eu tava te contando, iam já os meus 83 anos e resolvi treinar jiu-jitsu, foi então que se me deu a revelação: apenas 1% dos praticantes tem cérebro, os restantes são cartilagem e inchaço.

            Umas coisas que dá ganas na gente de vomitar, pois que o alimento vomitado é a escultura da necessidade, já que é suja e fétida, esterco nossa alma.

 

Ôô do balcão, mais dois risoles aqui, e duas Fanta Laranja, pra mim e pra esse bom-papo que tá comigo.

            Uma coisa é pouco discutível, a coisa de que sem dor o homem acaba, é onda que quebra pra fora de si mesma.

            Devo me animar? Disseram que parece que o Banco Geral de Gélida tá com um bom plano pra pedintes, mas só os que tem limite superior a três mil no cheque especial.

 

            Veja bem, mocinho, eu sou professor de formação, lecionei minha vida toda, catedrático da Universidade e tudo, mesmo assim posso afirmar que só sei aquilo que sei. E só eu sei aquilo que eu não sei.

            Nossa mãe do céu, eu fico pensando em tanta coisa que nem sei. Você tem namorada? Não…? Mas um moço assim tão vistoso que nem você, tinha que ter uns rabinho de saia…

            Olha, e vou te dizer uma coisa, na minha opinião, amor não correspondido é doença psicossomática.

            Aliás, permita-me reformular: na minha opinião, amor não correspondido não é amor.

            Ou até, pensando melhor, acho que só é amor quando a realidade perde a insignificância, entende?

            Engraçado, o amor tem ouvido absoluto, mas é surdo a certos chamados.

            Agora se me confundiu tudo, ai ai ai, preciso pensar.

            Perdoe-me ter chegado ao ponto de até parar pra pensar. Perdoe isso também de colocar a mão no queixo assim igual O Pensador, perdoe, são os velhos hábitos. Perdoe, mas é que tô quebrando a cachola aqui com um questionamento: E se o amor for uma pedra maciça com um oco por dentro?

            Eu sei, eu sei, mas a questão é: você pode amar muito alguém hoje e noutro dia amar muito outra pessoa, na mesma intensidade, entende?, e não precisa ser necessariamente o teu cachorro.

            Quer comer alguma coisa?, o amor, digo, papo sobre essas coisas, aliás, papo a respeito de qualquer coisa dá fome. Quer um risoles? Não. Eu quero: Ôô do balcão, você mesmo aí de branco tentando enganar que é enfermeiro, traz pra mim outra Fanta Laranja e um risoles, dessa vez de queijo, que eu acabei de virar vegetariano.

 

Você é vegetariano? Não. Eu tava começando a querer ser, mas você não sendo, então eu desisto também.

            Parece que o pessoal votou uma lei aí em relação ao gado. Deve tá dando o maior pepino, porque claro que os deputados que querem aprovar não tem fazenda de gado, e os que não querem aprovar têm fazenda de gado, então como é que fica, né?

            Agora que a gente vai ver quantas cabeças de gado existe na fazenda do Governador.

            Não sou muito de falar de política, mas você é piá novo, sabe quem é o Prefeito de Gélida? Sabe? E o Governador do Estado? Claro que sabe.

            Péssimo III é o nosso Prefeito, e é inimigo de morte de Péssimo II, que é o Governador, que era inimigo de morte de Péssimo I.

             Alguns acharam uma lástima que Péssimo I tivesse morrido, é que naquele ano ele tava cotado pro Prêmio Nobel da Corrupção.

            Não, eu não, nunca fui político, não me interessava ser, e nem hoje me interessa. Mas certa ocasião oportunizou-se a mim a feitura de um discurso bem no meio da Praça Nomeiodonada, não sei bem por quais feitos, ocorreu que subi à tribuna e comecei (falando de mim na terceira pessoa como gostam os políticos): Agradecemos com sinceros votos de grata gratidão 1º os nossos filhos da puta, depois os vossos filhos da puta. Nem bem iniciara a explanação, sei lá porque cargas d´água, os seguranças me chutaram palanque à baixo.

 

Mas não vamos falar de mim. Você por acaso é bombeiro, meu rapaz?, não? Por nada, é que as vezes me vem ao pensamento isso de achar que nós humanos como deveríamos vir com aquelas portas antipânico dentro da gente.

           Por algum acaso você, assim, não trabalha na televisão? Não, né. Suspeite. É que te achei parecido com sujeitinho lá do canal 667.

            É mesmo, você está acobertado de razão, trabalhar na televisão é uma coisa ingrata. Quem é que lembra do pintinho amarelinho do Gugu?

 

Por outro lado, a televisão enriqueceu muita gente, menos a maioria dos atores.

            Agora, nós que não éramos atores nem maioria… era impressionante, eles vinham e te esfregavam dólares na cara.

            Aqueles que diziam sim, eu gosto de dinheiro!, esses com certeza ficaram mais ricos que muitos outros que pareciam incapazes de dizer sentença tão simples. 

            Ganhei tanto dinheiro que chegou um momento da minha vida que notas e moedas jorravam da palma da minha mão, era assim, eu abria a mão e dinheiro, mais ou menos como acontece com o homem-aranha, mas comigo era dinheiro.

 

Um belo dia, aliás, num péssimo dia, a fonte secou, mas restou essa mancha aqui, lembrança de tempos do quando fui alguém, só essa marca, com a qual sou obrigado a conviver.

            No começo não era assim, eu esfregava, esfregava, arranhava, rasgava e a mancha não saia.

            O fato é que, graças a essa desgraça aqui, transformei-me a mim num belo hipocondríaco.

            Eu tava acabado, mesmo, sem dinheiro e sem amor, sozinho e mal- acompanhado.

             Foi quando soube que às vezes cresce lágrimas no nosso rosto no lugar da barba.

             Eu achava que tinha todas as enfermidades da humanidade, ficava muito nervoso, gritava frases que não me diziam respeito: Que adianta ser dono duma mansão de frente pro mar estando na fila de transplante de fígado?

             E, no entanto, apesar de acabado, sem dinheiro e sem amor, sozinho e mal-acompanhado, hipocondríaco, achando que guardava todas as penúrias humanas, nervoso etc, ao bem da verdade, devo admitir, jamais tive doença que não fosse uma mera gripe passageira. 

 

A questão primordial, meu rapaz, é: como viver num lugar sem portas? Não tem idéia, né? Pois deixe que eu responda: sozinho.

            Uma coisa que me parece imperdoável no ser humana é isso de se acreditar triste, de modo que passa a enxergar nos outros a sua tristeza, e chega a ficar ofendido se não identificam-lhe o mesmo.

 

E essa bonitinha aí, quem é? Sua amiga? Aposto que é a sensação da Rua dos Pingüins Tristonhos. Ela parece ser dessas que passa e a piazada não consegue movimentar um miligrama de pálpebras, que é pra não desgrudar os olhos. 

            Seja bem-vinda, lindinha. Que tal um risoles com Fanta Laranja?

 

“governo medíocre de Brasilia” CAÇA poemas publicados – pela editoria

poetas de Brasília protestaram, ontem, contra a retirada de poemas que se encontravam em pontos de ônibus, gravados em placas de aço. a idéia era que a população pudesse ler poesia enquanto esperasse o seu transporte, nada poético. entretanto, o governo daquele “senhor” que “cassou” o gerúndio da lingua falada na capital, lembram? que ficou assim: de “estamos roubando”  para “já roubamos“, resolveu agora retirar os poemas. Brasília é um outro mundo, diferente daquele em que vivem a totalidade dos brasileiros. lá a farra do boi, da pizza, da champanhota, dos bacanais, dos dólares nas cuecas e calcinhas, dólares em armários, da orgia, são permanentes. lá,  não há nada mais a fazer, segundo o governo daquele “senhor” que foi cassado pelo senado (sic) por “falta de decôro”, a não ser eliminar o gerúndio e retirar os poemas das ruas. está aberta a temporada de adivinhação para a próxima medida do brilhante governo, eu começo achando  que será a troca do sofá-cama do gabinete!

 

recebam poetas brasiliensis a SOLIDARIEDADE PLENA dos PALAVREIROS da HORA e deste site pela ação imediata que tomaram de cimentar poemas nas calçadas. o povo brasileiro, pelos sofrimentos que passa, merece caminhar sobre a poesia feita pela sua gente.

O ANTICRISTO e o BRASIL – por fabrício alves


“…eu sou, em grego, e não apenas em grego, o Anticristo…” – assim se autodefiniu Friedrich Nietzsche em Ecce Homo (De como a gente se torna o que a gente é), um dos mais conhecidos filósofos alemães da história, um crítico voraz de toda a espécie humana, da religião, da moral, e principalmente, dos alemães.

Para Nietzsche, os Alemães arrancaram da Europa as conquistas e o sentido da

última grande época, a época da Renascença, eram culpados da irracionalidade anticultural, do nacionalismo, da política caseira… criticou também Lutero por ter restabelecido a igreja, e assim, ter ajudado indiretamente a sucumbida Igreja Católica voltar com toda a força, trazendo de volta todos os seus valores morais e cristãos…

O asco de Nietzsche chegava ao extremo de, mesmo sendo filho de alemães, alegava ser judeu, apenas para se distanciar ainda mais do povo alemão, que valorizava menos suas obras literárias que os povos vizinhos. Mesmo com essa pouca influência em sua própria pátria, a maior parte da classe operária da Alemanha na época já havia lido algum livro de Nietzsche, a população tinha um nível cultural alto, destacavam-se ainda nessa época compositores, pintores e artistas respeitados em todo o mundo, como por exemplo o compositor Wagner, inicialmente um dos ídolos e posteriormente mais um objeto de críticas de Nietzsche, devido ao seu xonofobismo.

Nietzsche odiava a Alemanha.
Nietzsche nunca conheceu o Brasil.

Nietzsche provavelmente não teria conseguido reunir em um só livro todas suas críticas humanas, culturais e religiosas, caso tivesse nascido ao final do século 20, no Brasil. Faltaria espaço para descrever séculos de desvalorização da cultura, da falta de criatividade de nossos pintores, escritores, escultores, músicos, salvo meia-dúzia destes. Precisaria também de um livro especial para descrever como o brasileiro se tornou aquilo que ele realmente é: “humano, demasiado humano.”

O filósofo alemão poderia também procurar as origens dessa “Transvaloração de todos os valores” em nosso povo. Seriam os governantes os culpados? Mas não somos nós que os elegemos? Ou seria a mídia? Os veículos de comunicação através da história teriam alguma influência sobre a mente de todos nós? Ou eles apenas foram adequados a transmitir aquilo que temos capacidade de compreender?

Poderia ser ainda a falta de nacionalismo de nosso povo… Bom, se isto resolvesse algo, a Alemanha teria progredido culturalmente de uma maneira incrível durante o período do nazismo, algo que a queima de livros, a cegueira da população diante do sistema e a caça aos artistas “decadentes” não permitiram.

Onde estaria então o problema?

Nietzsche morreu após sérios problemas mentais, que o atingiram fortemente durante os seus últimos anos de vida. Talvez o “excesso” de problemas com os alemães e a sociedade da época tivesse causado isto.

Quanto tempo será que o filósofo mais crítico de toda a história sobreviveria vivendo no Brasil, e como ele aprenderia a sobreviver nessa sociedade deteriorada, violenta e aculturada?

O Brasil precisa urgentemente de um Nietzsche, não só para criticar e cobrar todas essas coisas, que já são corriqueiras, mas também para acrescentar algo realmente útil à nossa literatura, a nossa cultura e ao nosso desenvolvimento humano, nem que para isto, precise “bater” duramente em todos os pontos fracos de nosso sistema

BARATAS TONTAS & PAPAGAIOS – por darlan cunha

É de impressionar o tanto de gente que a gente vê atropelando-se nestes mistos de padaria e supermercado, sim, aquele burburinho surdo de gente comprando as novas mesmices de sempre, venenos de todos os dias, melequinhas cotidianas, folhetos e plásticos diários, sempre o mesmo ar delirante, andando e bicando isso e aquiloutro, falando no papai-celular, mamãe-célula, marido assim-assado, enfim, gente cheia de empáfia com as chaves do apertamento e do car®o, feito vespas e marimbondos, dívidas e dúvidas nas mochilas, pastas e bolsas de couro falso de jacaré, ai, e lá vou eu nessa estrada, diz a canção, e eu fico por ali, bicando uma loirinha, passando as mãos no Tempo-Rei, revendo a impressionante e repetitiva quantidade de gente pra lá e pra cá, e por isso mesmo ponho AQUI a letra desta que é uma das grandes canções do BRASIL:

POIS É… PRA QUÊ ?

(Sidney Miller, 1945-80)

 

O automóvel corre, a lembrança morre

O suor escorre e molha a calçada

Há verdade na rua, há verdade no povo

A mulher toda nua, mais nada de novo

A revolta latente que ninguém vê

E nem sabe se sente, pois é, pra quê?

 

O imposto, a conta, o bazar barato

O relógio aponta o momento exato

da morte incerta, a gravata enforca

o sapato aperta, o país exporta

E na minha porta, ninguém quer ver

Uma sombra morta, pois é, pra quê?

 

Que rapaz é esse, que estranho canto

Seu rosto é santo, seu canto é tudo

Saiu do nada, da dor fingida

desceu a estrada, subiu na vida

A menina aflita ele não quer ver

A guitarra excita, pois é, pra quê?

 

A fome, a doença, o esporte, a gincana

A praia compensa o trabalho, a semana

O chope, o cinema, o amor que atenua

O tiro no peito, o sangue na rua

A fome a doença, não sei mais porque

Que noite, que lua, meu bem, pra quê ?

 

O patrão sustenta o café, o almoço

O jornal comenta, um rapaz tão moço

O calor aumenta, a família cresce

O cientista inventa uma flor que parece

A razão mais segura pra ninguém saber

De outra flor que tortura, pois é pra quê?

 

No fim do mundo há um tesouro

Quem for primeiro carrega o ouro

A vida passa no meu cigarro

Quem tem mais pressa que arranje um carro

Pra andar ligeiro, sem ter porque

Sem ter pra onde, pois é, pra quê?

LUA poema de marilda confortim

E por falar em lua …

 

O por do sol ainda sangrava
quando no horizonte despontava
uma lua recém nascida
arrastando um umbigo prateado
sobre a placenta do mar.

Pobre luazinha!
Nascida antes da hora,
órfã das crateras,
das estrelas e madrugadas,
sem um seresteiro a espera
pra batizá-la na viola.

Pobre lua despida!
Tão desprotegida lá nas alturas!
São Jorge ainda dormindo,
bêbados e boêmios ainda sãos,
nenhum poeta assistindo
e os amantes ainda nus.

Pobre luazinha menina!
Perdida na imensidão escura
sem ter a quem dar a luz.

Como eu,
nasceu franzina,
minguada, prematura,
sem berço pra se embalar.


Ela, sem braços no além.
Eu, sem ninguém pra me abraçar.

LABORO exposição de HÉLIO LEITES, é hoje

É E NÃO ESTÁ poema de jb vidal

é outono e está verão,

sou hoje e estou ontem,

 

desconheço minhas estações,

parte da natureza deixo-me levar por si,

 

folhas marron-ferrugem não cobrem as calçadas,

meus pés sentem sua ausência, não é o que deveria, está o que não sei

 

 

 

 

o tempo rebela-se contra definições

ele É sempre e o demais transige,

 

o ciclo não é exato e o homem é impreciso,

se navegar é preciso que vento devo seguir?

 

senhor de mim mesmo não me conduzo,

minhas folhas não caíram, não tenho outono, pareço inverno

 

 

 

 

 

os frios estão por chegar, do tempo, das saudades, da campa,

nenhum terá o rigor deste que me congela desde o ventre,

sem origem nem destino, sinto-o, aqui, dentro,

Deus e o Demônio congelados comigo até a primavera das mentes,

quando a venda dos meus olhos escorrerá com as águas da morte,

então estarei diante deles, dentro deles, sendo eles, sendo um, novamente

 

 

 

CENÁRIO poema de walmor marcellino

 

Conjuras passam nas calçadas,

o trabalho convoca servidão

um chicote esbate a galope

a ferradura faísca no asfalto

que o cavalo lapidará mais tarde.

Só pássaros aluindo os céus

no pólen de alvéolos esgarçados,

um homem espirra, o chicote zara

o cavalo borrega trotando,

se esfumam corpo a fora.

Não era soturno o planger

dos pássaros altos vôos,

alígeros num modo flutuante;

por baixo os silêncios

por cima o firmamento.

Alfim,

o desforço se extenua,

modilhar de sinos entardecem

o dia, o te-deum proclama,

vulvas enfuriadas se excitam

à sofreguidão de almas penadas.

Amanhã repetiremos essa aforia

extremunhado impressentimento

com letargia agônica a morte.

 

DIZER QUE SIM – por jorge lescano

 

e o pai diz que sim, que temos que ir de qualquer jeito, que não agüenta mais e que se à irmãzinha acontecer o pior, a morte, quer dizer, ele faz uma barbaridade daquelas de mandar cristão pro xadrez… e diz que temos que ir, mesmo que não dê jeito, e que o trabalho o fez Deus pro home viver e não pra matar o home, e que é isso o que ta acontecendo; e ainda diz que se o Diabo quisesse danar algum, não ia escolher ele, que ninguém conhece e que nunca se deu mal porque é home de paz e de trabalho, como toda sua família que sempre foi, e que se alguém jogou praga pra daná-lo, prefere perder as vistas, que ´o pior pro home trabalhadeiro, a que lhe aconteça qualquer coisa, por miúda que for, à Rosinha, que ele pôs nome de flor pelo cheirinho gostoso que sempre teve, mesmo na hora da nascença. 
 E a mãe balança a cabeça como um cavalo com sono, e diz que sim, que tudo vai dar certo, porque uma veiz na vida a gente merece sair do chiqueiro; e escondendo o medo do silêncio do pai e a vontade dela de sair do sítio, diz que sim. E diz que as crianças não têm culpa de nada nem pecado algum, e que se Deus quiser cobrar dívidas não tem precisão de fazê-las sofrer, e assim dizendo olha pro rostinho murcho da Rosinha e pra meus pés duros como cascos de bode. Que a gente grande faz e desfaz, diz, às veiz sem tenção de fazer, mas que Deus sabe disso e tem que entender que criança nasce anjinho, e olha a Rosinha, e adepois não é mais porque a vida não deixa; e que mesmo o Calixto, com deiz anos feitos e quase onze, não pode ter feito grande coisa, e mesmo fazendo, isso não é mais que falta de miolo pela idade pouca, e que isso Deus também entende sem precisão de Padre-Formado explicar, e que sendo assim, não pode ser que o Pai Santo esteja mexendo com a gente, e assim sendo, só pode ser coisa do Cão, e faz pelos-sinal olhando o Cristo esfumaçado que pinga dum barbante quase preto pelo fogão de lenha. E adepois coça os olhos com as costas dos dedos e olha pro pai, que fuma e olha a lonjura com olhos pequenininhos, como no inverno, quando a mãe fecha a porta e o fogão vira locomotiva velha: só fumaça enchendo o rancho.     
 E eu fico sem saber as minhas responsabilidades e fico sem jeito acocorado num canto, mode não atrapalhar ninguém, mas com uma vontade doida de dizer que sim, que tudo vai dar certo e a Rosinha vai ficar boa pra que o pai olhe pra ela com esse olhar manso de vaca velha, e pra que o dedo grosso do pai mexa no queixinho dela e na barriguinha dela e no narizinho dela, e vai ficar boa pra que o pai possa pegá-la pelos sovacos, meio sem jeito sempre, com as mãos duras de calos duros. E quando o pai olha pra mim, quase sabendo minhas idéias, eu quero sumir na parede como se fosse mais uma sujeira no barro rachado de seco. E ele olha porá mim bem demorado, como se eu fosse um estranho ou mulher alheia, e então penso no que Deusinho pode pensar de mim ouvindo o que o pai e a mãe acham do que fiz, sem fazer ou fazendo, até mesmo querendo não fazer, mas sempre na ignorantice de que Ele estava olhando. E a mãe passa a mão na minha cabeça e eu não gosto, embora saiba o que sente. E então o pai olha pra mãe primeiro e adepois pro canto onde está a Rosinha e pra mim, e eu acho que tenho culpa de estar vivo enquanto a Rosinha vai se desmilingüindo, e o pai dá uma tragada comprida, de afundar as bochechas e adepois solta a fumaça de uma veiz só, sei lá se pra esconder a vergonha ou a tristura. E quando a fumaça some ele já está de olho na lonjura, acocorado que nem eu, só que na porta, e então eu  vejo as costas dele, com dois  ossos que parecem  asinhas de anjo recém-parido. E às
veiz,  quando  fica muito  tempo  desse  jeito  acocorado, eu quase o vejo, sem vê-lo, voando feito urubu, menos negro e maior, mas do mesmo voando por cima da terra escura, como pra afugentar os gafanhotos que voam por cima do milho e das batatinhas iguaizinhos que poeira grossa e barulhenta, como a mãe diz que são as cinzas do Inferno. E então eu penso no que a mãe disse quando a gente se aprontava pra ir sem voltar da capital. E mesmo querendo que o pai não fique nesse não dizer nada e que a mãe não ponha mais a mão na minha cabeça mode não me sentir criança sem amparo, não consigo dizer que sim, que tudo vai dar certo, a começar pela Rosinha, e que nóis vai pra capital, com jeito ou sem, e que o pai vai arrumar serviço, que pra isso Deus não lhe tirou os braços e  mãe também vai trabalhar, só de manhã. Mas eu queria dizer que sim. Que na escola ninguém vai mexer comigo, como contou Seu Toríbio, só por causa da cor escura da minha cara e das minhas mãos, que o resto do corpo não tem precisão de mostrar. E dizer que sim, que a gente estuda é com os miolos e não com o cabelo liso e preto de índio, nem com os dentes, amarelos e mordidos por desconhecença de remédio pra isso. E então o pai vira, e enquanto joga longe a ponta do cigarro, diz vida puta, nóis vai nem que for a pé. E a mãe vira as costas pra ele e encara o fogão, frio, com um amontoado de cinzas, e mexe a cabeça pra cima e pra baixo como um cavalo com sono e eu olho a Rosinha, que começa a espernear e solta um berro rouco, como se já estivesse cansada do choro, quando na verdade apenas começou. E então eu faço força e digo pra mim mesmo que sim, que nóis vai de qualquer jeito. Apenasmente eu sei, feito a mãe, que o pai sabe que nóis nunca vai arredar pé do sítio, da terra magra que nem a Rosinha, que sem malquerença pra ela, já tem rostinho de anjo. E bem nas profundezas do meu entendimento eu acho, sem maldade pra ela, que é melhor morrer, mesmo sabendo que o pai terá que cavar uma cova do ladinho das outras duas. Então abaixo a cabeça e coço os olhos, e pra dizer qualquer coisa, mode desentupir a garganta, digo que sim, que nóis vai nem que for a pé.   

de valtecir santos. ilustração do site.

…preciso de copos quebrados para sobreviver! – carta de ánton passaredo

Meu Caro Vidal,

 

Belíssima carta a sua, em resposta às minhas do mês anterior, ele que já se foi assim como afastou a memória de São João e de São Pedro para as festividades juninas do ano que vem. Interessante esta frase, não? Como pode a memória se ocupar com fatos futuros? Somente na cabeça de escritores distraídos e desassuntados pode nascer uma construção dessas. Bobagem grossa. Deixa pra lá.

 

Queria tecer breve relato do nosso último sábado, quando ali, na Feira do Litoral, ao lado do homem nu e da mulher nua, tivemos o prazer de ter mais duas companhias que se juntaram ao nosso vinho e às ostras. Aliás, para conseguir comê-las – infelizmente apreciá-las ainda não –, levei um pão de linhaça fatiado, comprado na antiga Padaria Vianna, quase esquina da Tiradentes.

 

O poeta Osvaldo Wronski se juntou a nós, logo nos primeiros goles, contribuindo com um espumante gelado que neste momento não aflora a minha memória a marca do produtor do precioso líquido. Além de Osvaldo chegou, momentos depois, Marilda Confortin. Esta, meu caro Vidal, você conseguiu arrancar da cama às 11h da manhã. Estávamos vivendo um sábado frio, onde o sol logo apareceu mostrando sua força. Mesmo assim não conseguiu ele espantar o ar entristecido e sisudo dos curitibanos.

 

Lembro que Marilda entrou em discussão acalorada sobre o Poetrix e o “haikai” com Osvaldo, ensaiando debate sobre um poema mostrado por ele, onde a análise girou sobre o carimbo de ser ou não o poema um “haikai” correto ou não, por serem as sílabas tônicas ou átonas importantes para se estruturarem dentro do rigor do 5-7-5. Bobagem obtusa esta.

 

Lembro também que em determinado momento prometi a Marilda um desafio e o envio de um texto voltado à desmistificação dos poemas curtos. Besteira longa da minha parte, agora, Vidal. Marilda tem razão, os tercetos sempre existiram e sempre existirão. Fazem parte da nossa cultura lusitana, desde os tempos dos cavaleiros andantes, e mesmo antes, nos jograis medievais. Por causa de Marilda estou relendo Bashô, de Leminski, vinte anos depois “primavera não nos deixe/pássaros choram lágrimas/ no olho do peixe” – Bashô.

 

Voltando do Japão a Curitiba, lembro de dias atrás, quando almocei com um amigo português. Conversamos sobre o Brasil. Concluímo que não temos um país, mas sim um conglomerado diverso de interesses e culturas, onde a única ligação entre os territórios é a língua portuguesa. Pois neste país lingual, tão vilipendiando pelos políticos e pela comunicação massificada, ainda sobram rasgos de cultura espontânea que nos levam para algum orgulho em ser daqui.

 

Digo pertencer a todo este grande espaço continental, não apenas ao sul brasileiro. Interessante falar de sul. Tenho alguns conhecidos, desde meus primórdios em terras curitibanas, que consideravam como norte todos estados situados acima de São Paulo. Uma visão estereotipada e preconceituosa deste imenso país. Para eles não há Norte, Nordeste, Sudeste ou Centro Oeste. Tudo se divide entre sul e norte. O sul vai do Chuí a São Paulo, e o resto é o norte eunuco.

 

Voltando ao amigo português, Vidal, explico que ele vive de vender copos. Então, te assustaste? Eu sempre tive curiosidade. Mas, sem ter antes a oportunidade, nunca havia perguntado como ele vivia uma vida tão boa vendendo copos. Estando com a minha mísera adega residencial sem copos, resolvi perguntar se me venderia alguns recipientes de vidro. Ele, com um sorriso matreiro no canto da boca, respondeu-me que não vendia copos. Espantado, perguntei, como não? E ele adiantou que tinha uma equipe de vendedores, não aceitando encomendas inferiores a 500 copos. Acho que não preciso de tantos copos.

 

O mais interessante foi a aula de qualidade e técnicas de venda de copos que ele me deu. Pegando sobre a mesa quatro copos utilizados por nós durante o almoço; dois deles utilizados para tomamos duas doses de cachaça e só isto de álcool, devido a Lei Seca; e dois outros copos, onde tomamos água, demonstrou porque aquele vendido por sua empresa era o melhor. Batendo os copos que representava um contra o outro, observou que eles bateram ao meio, numa parte mais resistente e espessa. Enquanto isto os outros dois copos tocaram-se no bordo, região mais fina e frágil do copo. Disse que o argumento era infalível para o convencimento dos donos do estabelecimento. E adiantou ainda, infelizmente, aquele era um copo muito bom. Se isto ajudava a vender inicialmente os copos, por outro lado, ajudava o pessoal desastrado das cozinhas, que demoravam a quebrar os copos vendidos por ele, diminuindo as vendas de reposição desse tipo de mercadoria. E adiantou – preciso de copos quebrados para poder sobreviver.

 

Lembrei neste momento, meu caro Vidal, das nossas taças deixadas na Barraca das Ostras, e de que uma das moças, logo em nossa chegada, nos comunicou ter uma delas quebrado na viagem. Será que a taça fazia parte do “portfolio” do amigo português? Ficou a dúvida. De qualquer maneira, no próximo sábado teremos mais vinho, ostras e literatura ao vivo na última barraca do Homem e da Mulher Nus na praça da vida. Ali, onde coisas naturais estão ou nas bancadas das ostras ou presas aos meios fios da via pública, enquanto o imaginário anda solto em nossas cabeças. Apenas teremos de cuidar das doses para não ultrapassarmos os limites da Lei Seca, ou ajudar meu amigo português quebrando mais copos.

 

Ánton Passaredo

Curitiba, 2 de Julho de 2008.

 

                                                

                                               sem crédito. foto da época. ilustração do site.

 

 

RETRATO poema de manoel de andrade

Outrora

outro era o mar

o grande mar da infância…

tinhas aquela água imensa para salgar tua inocência

o horizonte incendiado pelo fogo das auroras

e as manhãs de espumas, conchas, redes e gaivotas.

Tinhas os crepúsculos de verão para extasiar tuas retinas

e no caminho rútilo dos pirilampos

tinhas a dança luminosa de um farol

e a lua flutuando no plácido espelho das águas.

 

Na voz submersa de um tempo inumerável

o mar te ensinou a mágica leitura do infinito.

No seu murmúrio ouviste o eco de todas as origens,

na linguagem das ondas e das tormentas,

na força  das correntes e nas grandes calmarias,

o mar te ensinou a sonoridade e o silêncio,

o encanto e a indomável magnitude dos movimentos.

Os pescadores te contaram de sua insondável  beleza, 

de passarelas de algas e corais

onde desfilam cores, formas e mistérios.

Te contaram histórias de tempestades e naufrágios,

de embarcações  que se perderam,

de sobreviventes, órfãos  e viúvas.

O mar te seduziu com o beijo incessante das espumas,

te acenou com o lampejo intermitente dos relâmpagos,

com o branco das velas que voltavam.

Encheu teu samburá de caramujos e mariscos,

teus lábios de sal, teus pés de areia

e tatuou em tua vida esta única saudade.

O mar te inundou com sua água imensa e horizontal

e, com suas imensuráveis distâncias, 

deixou em teus passos um caminho aberto para todos os portos.

                                                     

Teu coração enfim,

repleto como um dique,

era um relicário de rotas e promessas

e desde então em tua alma navegam todos os possíveis…

 

Desabrochavas a flor da  adolescência

quando uma onda solitária escorreu teus passos

e a vida te levou para o planalto.

Não conhecias o exílio e a penumbra das cidades

onde piratas velozes manejam o vício e a lança.

Não conhecias os tentáculos da noite

nem as paisagens sitiadas pela sedução.

Sobrevives nestes mares e ilhas inquietantes,

te consolas com a foz dos ribeirões,

recrias aqui a tua praia, o teu manguezal

e um horizonte impossível.

 

Retornas ao teu mar, de quando em quando,

mas ele não é mais o teu mar de outrora.

Recordas um tempo de saudosas navegações,

de pescadores partindo pelas madrugadas

e do regresso das canoas trazidas pelo vento.

Um tempo em que as estações se sucediam em equilíbrio

e num céu de ozônio o sol te oferecia a carícia de uma luz imaculada.

Num tempo em que o petróleo ainda não boiava sobre as águas

e os rios não despejavam nos litorais sua agonia.

As redes  chegavam pesadas e repletas

porque os radares ainda não cercavam os cardumes no teu mar.

Não conhecias o protesto das baleias suicidas,

nem os estertores dos pingüins betumizados.

Os arpões não tinham ainda sua infalível precisão,

os rios não choravam os seus mortos,

nem choravam os recifes os seus corais despedaçados.

 

No fundo e na  superfície

teu pranto assiste agora a um funeral de vítimas.

Num tempo que se curva sob o peso dos pressentimentos,

teus punhos se fecham contra uma legião de predadores.

 

Eis o teu cálice…

tua indignação, teu suplício…

teu grito… como tantos

tua lágrima… como tantas.

Impotente, num mundo que se afoga, sobrevives…

Sobrevives…

na memória e no esquecimento…

Sobrevives…

quando te hospedas na infância…

Sobrevives…

porque um estuário de esperança te sobrepõe à realidade…

Sobrevives…

porque um território de sonho te preserva do naufrágio.

 

 

                                                                                 Curitiba,outubro de 2003

 

 

Este poema consta do livro Cantares, publicado por Escrituras.
 

 

A VISITA DA MULHER ARANHA – de zuleika dos reis

As luzes dos prédios surpreendem-me a fuga e, enquanto mudo a marcha, tento calar os ecos da sua voz.  Transparência nas vidraças, o brilho no chão, nos móveis, nenhum objeto a esmo sobre a mesa-de-centro nem sobre os sofás, nos vasos as plantas sem qualquer folha seca. Pôster de Elis Regina, marinha, abstrato à Mondrian… retrato do Afonso longínquo, tão jovem! A ampulheta de metal, herança paterna. O anjo barroco, de valor inestimável. O computador de última geração. Os espelhos impecáveis. Concerto de Paganini. Repentino relógio marca 22h30min. Outro farol fechado. “Descubra o que sou pra você e se descobrir que não sou nada, não volte e nem me chame. Nunca mais”. Palavras de folhetim, de novela de TV, e ela falou a sério. Do carro ao lado, alguém pergunta pela rua tal. Respondo: Sou estrangeiro. Geraldo prepara o jantar, eu reencontro na estante, entre Verlaine e Rimbaud, um dos cadernos nos quais meu amigo ainda hoje exercita o anacronismo das anotações. Leio, ao acaso: “Você se lembra, eu e Rogério, você invertebrado, olhando?” Espera, esta é frase de esboço de texto meu, na tentativa de descrever a cena na casa em Ouro Preto, a cena daquela viagem há quatro anos, aquela cena atroz. Pois é, Geraldo também andou bisbilhotando manuscritos em minha velha escrivaninha… Fico olhando a frase aqui, no seu caderno, na letra irregular, assimétrica. “Você se lembra, eu e Rogério, você invertebrado, olhando?” Você, transformado em terceira pessoa do discurso. Pegajosas e quentes, as imagens escorrem pelo asfalto.

                        O vermelho do farol, do sangue, dos signos. Ela, a letra, tem por hábito deitar-se para a esquerda, para a direita, por-se de pé repentina e em todas essas posições dentro da mesma palavra. Quando o dono da letra dorme, costuma fazê-lo imóvel, por causa dos sedativos. Geometrias difíceis de decifrar, no corpo da letra, no corpo do dono da letra. Com que eficácia, amiga, nos escondemos um do outro, enquanto você afiava tanto as suas garras. Era conveniente para mim, eu sei, para você não sei porquê, nem terei coragem para descobrir.

                         Contraponto, o recanto das plantas junto à sacada, com seus brotos saindo da terra úmida. Minha rainha, nosso reinado de nadas. E sempre foi tarde, desde muito antes da Peste.

                         “Você se lembra, eu e Rogério, você invertebrado, olhando?” A frase que escrevi duas semanas após nossa volta a São Paulo, os corpos exaustos do naufrágio em Ouro Preto. Quase quatro anos: a síndrome, os vai-e-vens, as fraturas expostas, por fim a grande briga por motivo tão fútil, que se nos varreu da memória. E então, seis meses de silêncio, até sua chamada ontem à noite. Penso em nossa fidelidade incorruptível, degluto minha velha frase em seu caderno, enquanto você prepara o jantar de boas-vindas. Compreendo tudo, faço-lhe justiça. Apesar disso, nesta noite, lançarei meu ultimato.

                        O pensamento e a rua correm, simultâneos. Invertebrado. Bom ser inseto, perder todo o peso de homem.  Impossível recuperar qualquer sentido nos rabiscos palavras a esmo brancos no papel, antecedendo e seguindo-se à frase surrupiada do meu esboço, atitude nem um pouco peculiar, que Geraldo tem por norma, ao contrário do que faz com a própria vida, passar suas páginas a limpo e em duas versões, pelo menos. Por que voltei aqui? Seis meses… um caso a mais na bagagem… e a magia de estar neste apartamento me invade, como antes, como sempre. Da cozinha vem um cheiro de massa folhada. Torta de maçã?

                        O inseto olha, chegou à Paulista. Brigadeiro Luis Antonio. Gazeta, Gazetão, Gazetinha, nomes de cinemas evocando fugas das aulas, USP, Bardugo, Rei das Batidas, ruas dos anos setenta.   Lembra, Geraldo, das infindáveis rodas-de-samba? Certa vez, um amigo nosso vindo de Recife, queria conhecer um bar tranqüilo. Naquela noite, houve briga de garrafadas no Bardugo e todos se escondendo por debaixo das mesas. No Rei das Batidas fazíamos barulho além da conta, os vizinhos reclamavam, a polícia prendia nossos documentos até de manhã – o País, ainda na ditadura militar, já ultrapassara o estágio mais terrível e os tempos de agora, da Peste, ninguém seria capaz de antever naquele mundo cercado de generais onde, na contramão, os corpos – salvo o seu, no meu – se amavam livremente e as mentes se alimentavam só de sonhos utópicos.  

                        Não consigo permanecer inseto, embora o queira tanto. O dia em que eu quis ser uma vaca…. Por baixo das palavras eu sempre me quis só mulher, sua fêmea. Uma vaca, pastando pacífica, compreendendo tudo com enormes olhos sem história.

                         Cena patética: nós na Avenida Rio Branco (ainda não havia Sambódromo) vendo o desfile das Escolas e discutindo Metafísica. Prateados, azuis, amarelos, vermelhos, dourados, infinitas nuances e timbres, o som da bateria avassalando o mundo e nós, discutindo Metafísica. Levaria ainda muitos anos para viver na pele a plena pungência dessas perdas, dessa Dor. “Quer um aperitivo? Tenho um Porto muito bom”.

                        Rogério e eu, e eu gozando e carpindo você, morto ali, só olhos. Se as lembranças dela parassem de verter sangue na minha cabeça… Dentro, meu ser cindido; fora, você ardendo todo pelo macho imerso em mim até o cabo, mas também ardendo por mim, encharcada desde os ossos. Entre nós três e os esconderijos em São Paulo, a serra, a chuva, as barreiras caindo. Impossível estrada, fuga impossível. Ilhados nas noites sem saída, eu o observava no sono imóvel, com medo de não vê-lo acordar na manhã seguinte.

                        Rua da Consolação. Desde aquela viagem sem ménage à trois, que outro abraço tira seu peso de mim, amiga?  Quem somos, Geraldo? Nada, senão dois blocos de incerteza politicamente desconjuntados. Nada, senão dois prisioneiros de uma ética em quase completo ostracismo. Anacrônicos, por certo; melhores, por acaso? Apenas mendigos, vivendo de esmolas recebidas das Lembranças, incapazes de pertencer, efetivamente, a quaisquer clubes que nos aceitem como sócios.  Não sei como a vi, nem como a vejo agora. Sei apenas que passamos a vida a encenar uma comédia estúpida, sem sangue nem ossos.               

                        Consolação, consolação. O cemitério lembra Lúcio, o habitante mais recente. No entanto, Afonso ainda está vivo, me disseram. Afonso, que se exilou para me proteger, que fugiu para se poupar dos meus sacrifícios, da minha piedade. “O Porto é bom mesmo”. Por Afonso talvez você se veja obrigado a continuar, mesmo à distância. Não por mim, sei que nunca por mim. Deixa-me, Dor, esvaziar este cálice, saborear até o derradeiro grão a paz por um fio do jantar quase pronto.

                        Quatro horas e a duas quadras do edifício onde moro e de onde fugi quando você partiu. Como um suicida, fugi de você para a face escura de Romeu. Romeu, instrumento de uma corda só: Lúcio. O apartamento ainda menor, como se tivesse encolhido junto com o dono.  Os sentimentos também podem encolher aos poucos até sumirem, Geraldo, ou se transformarem em mera curiosidade sobre o destino do antigo amor. Quem sabe eu ainda chegue lá, talvez tenha, com sorte, pelo menos outro tanto de vida para tal esquecimento. Quem sabe outro alguém… alguma espécie de milagre…Você passa, enrolado na toalha. Daqui a pouco sairá do quarto com aquela camisa de que eu gosto, seu perfume, sua virilidade ambígua a seduzir, quase em perfeita inocência, homens e mulheres ao alcance dos olhos, dos dedos… a seduzir principalmente a mim, a mim, a interdita, a interditada.

                        Pergunto pelos quadros, livros, discos… Tudo foi doado, Romeu não sobreviveria às lembranças visíveis. Fico olhando, mínimo. André chega em seguida e fala…fala…da viagem a Nova Iorque, dos becos sempre cheios apesar de tudo, dos amigos comuns, dos novos – “Que negro lindo, toca um sax!”- de Sinésio, e de Lúcio.Romeu foge para o quarto. O incontinente André insiste em ouvir Tom Waits enquanto esvazia a última garrafa do Chivas. Ao sairmos, me arrasta para o bar mais próximo. Continuo com a água mineral, completamente bêbado. Ele comenta: “Você está estranho…” Tenta fechar o cerco. Fujo por uma fresta, meu primeiro teste vitorioso como inseto.

                        Estaciono junto ao meio-fio, com a precisão que jamais tive e a lucidez dos que vão morrer. Luto, consigo escapar dos meus escombros.

                        Saio do carro. Diante da porta, a chave estranha a fechadura. Vida, hall inacessível e uma mesma mulher, satélite inimigo, girando há milênios. Desde quando estou parado em frente a este prédio, com a chave na mão inútil? Ou seria o contrário?

                        Daqui a dez dias começa 1988. A toalha imaculada, a baixela e os talheres de prata, as taças de cristal, o pão e o vinho, a mesa posta, castiçal, velas, flores: cenário perfeito para a comemoração das bodas. Éramos jovens dançando na praça, dançando na praça… como na canção do Chico Buarque.

                        O elevador desce em silêncio. Geraldo me leva para casa. Na despedida, lanço-lhe o ultimato, quem sabe desafio. Qual de nós dois a presa? Quem tece a teia na nossa parede branca?

 

arrumação e foto de jb vidal. Museu Oscar Niemayer. ilustração do site.

SONATA PICTÓRICA OPUS 2002 – 5 /poema de tonicato miranda

para Lineu Carneiro
29 de Março de 2002

 

dia de anjos, de silêncios e ventos levemente bailando
as cortinas das janelas e os tecidos das almas brandas
Corelli, tocando seus violinos vai, devagar, anunciando
anjos, querubins, virgens, párocos, tementes a Deus, reuni-vos
é tempo de genuflexão, de perdão e de sagrados livros
de falar de paz em todas ruas do mundo, por todas suas bandas

num dia como este, muitos outonos atrás, ele morreu
mesmo sendo órfãos da bondade, profanamos nosso relicário
todos tão dependentes da boca, e nela um filho meu ensandeceu
anjos, querubins, virgens, párocos, tementes a Deus, reuni-vos
estou a vossos pés, pedinte, minha sorte sob seus crivos
tira-me em sacrifício, dá ao filho o que de meu é necessário

mas quem se importa com o além das portas dos vizinhos?
para além dos móveis, dos objetos e das misérias dos humanos
há a beleza dos campos, onde araucárias, a relva e os passarinhos
são constantemente visitados por mulheres com algibeiras e ais
colhidas pelo som de Corelli e pelas cores de Ikoma e seus trigais
quando não recolhem elas nosso olhar ou nosso amor cigano

também, violinos viajam por sobre telhados nas mãos de Chagal
mas a paisagem é aqui, Curitiba e seus muitos bairros, descansam
do Barigui ao Bacacheri, do Boqueirão ao Ahú, do Batel ao Chaparral
a cidade dorme nesta tarde modorrenta e muitos são seus sonhos
Corelli, passeando por calçadas irregulares vê dois acordes bisonhos
a menina do caminho, onde apenas a cabeça e a sua trança dançam.

DO SIGNO RECÉM-INAUGURADO / poema de jairo pereira

terçar significados terçar nos terços um tear teares sempre variados flores erigidas em hastes galhos pomares pólens sementes nathivas

:estufas do pensamento: pensamento em pensamento idéia em idéia pomares ideológicos terçar significantes combinar com significados um significante pra cada significado não podem dois significados um só significante e vice-versa um correspondendo a outro um corpo-áudio e seu reflexo no espelho :significante: uma face identificando o original :significado: o primeiro significado o primeiro significante um após o outro ou concomitantes no nascedouro vida-morte a que os destinaram.

Importante o signo recém-nascido podaz poderoso & voraz o signo recém-inaugurado pra desespero dos espíritos.

O Aleph azul de BORGES – poema de bárbara lia

Deixastes aqui teu coração

– Aleph azul

povoado de tigres brancos

e miragens,

que pulsa como esta Milonga Del Angel,

nesta primavera desprotegida

– acordes de Piazzola –

 

 

Nuvens brancas a acenar certezas:

teu coração Aleph azul

permanece – no suave ritmo del sul.

Deixastes um Livro de Areias

– tu’alma –

nós todos virando páginas

deste deserto metafísico – noturno e trágico –

que leva à aurora nítida do reino da poesia.

 

 

Deixastes aqui teu coração,

Aleph onde trafegam signos vários,

e mesmo que tenhas imprimido sonhos

em grego, sânscrito ou aramaico,

deciframos – em alfa –

tuas mensagens de estrelas.

És um vaso vazio de segredos,

pleno de sóis & luas & signos da nobreza,

em uma azul sinfonia que teces

entre seus dedos, enquanto apontas:

 

A eterna água, o ar eterno,

flanando em um vale de sombras

e a inscrição brilhante com fios de ouro

– não existe tempo –

Guardiões do impossível

levamos ao pescoço a ampulheta

como homens-bombas

explodindo a vida,

sem seguir teus passos-acordes.

 

 

Cegos, não percebemos,

a inutilidade da areia que cai em conta-gota,

teu coração quer nos gritar isto –

Aleph azul que guarda segredos rojos.

Alguns o folheiam em prece, como anjos.

Eu o folheio, deslumbrada,

com a mesma cálida e reverente ternura

com que olhava abismada a estrela Vésper.

 

 

Azul como teu Aleph coração.

Seta e sinal em meu caminho:

A estrela Vésper

e o Aleph azul de Borges.

O HOMEM-ATIMIA por antonio carlos lopes

A personalidade, segundo a Psicologia, representa o conjunto harmônico e integrado das tendências e caracteres, fisiológicos e psicológicos, sociais e culturais, formando uma unidade do eu.

As experiências são formadas no seio de nossas relações humanas, descobrimos o complexo mundo dos sentimentos, as emoções, as atitudes, as inexoráveis decepções, as quais somos submetidas às vezes, nas mais variadas circunstâncias da vida.

A psicologia não é o meu campo de estudo, muito menos pretendo escrever um tratado, mas registrar minhas ”subjetivas” impressões, resultado da trajetória existencial, que classifico como sendo “o olhar no cotidiano”, portanto isento de qualquer pretensão de “Dono da Verdade”, mas à busca da qualidade e o aperfeiçoamento de minha humanidade.

Há o surgimento de um “novo ser”, o qual está integrado em nosso convívio, o homem-atimia, segundo a Psicologia, Atimia: trata-se de uma ausência de afetividade, pelo menos de suas manifestações exteriores, um arquétipo que se insurge, numa proliferação assustadora, já consagrada, está em todo lugar; nas ruas, nas praças, nos bares, nas universidades, muito próximo de nós, uma epidemia mundial, hoje, um dos “produtos” mais notáveis do mau caratismo moderno.

A intenção não é criar, uma discriminação ou desrespeito com as pessoas que sofrem dessa patologia, mesmo porque à conotação empregada no texto, está voltada para àquele sujeito que se aproxima de você, se faz “amigo”, desfruta da sua companhia, senta-se à mesa, come, bebe, se faz “parceiro”, mas na verdade, ele é o seu inimigo íntimo, ele quer ser você, ele quer te ver humilhado, na lona, sua intenção é extrair o seu melhor, para nutrir à mediocridade existente no ser.

Talvez, uma espécie de “Dândi” ou um canalha da nova geração globalizada ou melhor um indivíduo amorfo, aquele sem marca pessoal, sem traço saliente, e cujo caráter, sem unidade, é simples reflexo do meio.

Valores como: caráter, amizade, respeito, fraternidade, significam nada, mas são utilizados como elementos para o seu desempenho conspirador e farsante, a alcançar de forma única e exclusiva, os seus objetivos mais inescrupulosos.

Definição de Atimia:
s.f. Ausência de manifestações afetivas, freqüente nos esquizofrênicos.
sem crédito. homem conversa com estátua de DRUMONND de ANDRADE na praia de Copacabana/RJ/BR. ilustração do site.

COMO UMA SUPERSTIÇÃO SE TORNA RELIGIÃO – por janos biro

1. As pessoas que foram atropeladas enquanto atravessavam a rua não estavam segurando o nariz. Logo, quem não segura o nariz na hora de atravessar a rua é atropelado.

2. Quem não segura o nariz na hora de atravessar a rua nem sempre é atropelado, mas não vale a pena arriscar.   
 

3. Quem não segura o nariz na hora de atravessar a rua pode não ser atropelado nunca, mas ainda vai sofrer muito por causa disso.

4. Quem segura o nariz na hora de atravessar a rua ainda pode ser atropelado misteriosamente, mesmo tomando muito cuidado, porque não segurou o nariz com convicção.

5. Quem não segura apropriadamente o nariz na hora de atravessar a rua pode achar que está segura e feliz, mas não está. Por dentro essa pessoa sente um vazio.

6. Quem segura apropriadamente o nariz na hora de atravessar a rua não só não será atropelado como se torna uma pessoa mais feliz e mais ética.

7. Algumas pessoas perdidas dirão que não é necessário segurar o nariz na hora de atravessar a rua, mas apenas tomar cuidado. Elas não sabem o que estão dizendo, tenha pena delas e segure seu nariz por elas na hora de atravessar a rua.

8. Se você for atropelado enquanto atravessa a rua segurando seu nariz apropriadamente, isso aconteceu por um bem maior, e de qualquer forma você vai ser mais feliz assim. O que é realmente importante é que você segure o nariz apropriadamente na hora de atravessar a rua, porque é o mínimo que podemos fazer em respeito a todos que não seguraram o nariz e morreram. Se você morrer enquanto segura o nariz apropriadamente, você ainda vai ser mais feliz numa outra vida, que de qualquer forma é melhor que essa, então não se preocupe, não discuta e não pense demais sobre isso, apenas faça!

9. Uma força superior enviou seu único filho para morrer apenas para nos ensinar a segurar o nariz apropriadamente na hora de atravessar a rua, por isso devemos respeito e submissão completa.

10. Dar seu dinheiro para nós é uma forma de mostrar que você realmente está comprometido em segurar o nariz apropriadamente ao atravessar a rua, tanto que você nem precisa segurar mesmo, o importante é que você vai ser recompensado ficando rico como nós.

11. O universo tem um único propósito: Fazer os seres evoluírem para formas capazes de segurar o nariz na hora de atravessar a rua com cada vez mais perfeição.

Se você quiser incluir alguma outra religião, fique à vontade.

                                               

                                                   sem crédito. ilustração do site.

O POEMA de BASHÔ e o ZEN – pelo mestre h. masuda goga

Quase todos os que estudam o haicai acreditam que Bashô escreveu seus poemas de acordo com a iluminação Zen. Portanto, pensam que o haicai é uma poesia que nasceu do zen-budismo. Mas o próprio Bashô disse que não era bonzo nem adepto da seita Zen, apesar da grande amizade com o bonzo Bucchô.
Pode-se dizer que Bashô foi espiritualmente influenciado pelo bonzo amigo de forma profunda, tendo a sua atitude perante a arte tornado-se cada vez mais rigorosa e séria. Ele ficou sensibilizado pelas vicissitudes não só da vida humana, mas também dos outros seres vivos que habitam o universo.
O saudoso bonzo zen Ryohan Shingu discorreu certa vez em artigo sobre a “tranqüilidade”. Esta é uma virtude do zen-budismo. Pensamos que Bashô queria expressar no famoso haicai da rã um ambiente de quietude, inspirado pelo súbito acontecimento da natureza: um salto de rã na água de um velho tanque.

Certa vez, lemos que este haicai foi criticado por Kikaku, um de seus discípulos, que sugeriu o termo “yamabuki” (um tipo de rosa) no lugar de “velho tanque”. Mas o Mestre preferiu o original, reforçando sua sensibilidade poética ao referir-se à quietude que enfrentava e ao mesmo tempo apreciava.

Reconhecemos a influência do budismo no poema de Bashô, mas o haicai por si mesmo não é Zen ou produto artístico do Zen.

COMPLEMENTO:

 

Perguntar a um mestre se o que ele pratica é Zen pode deixá-lo zangado ou simplesmente mudo. “O que você entende por Zen?”, ele poderá perguntar. Em sua racionalidade, você discorrerá sobre as teorias expostas nos livros. “Se é isso que você pensa ser Zen, então o que eu faço não é Zen”, responderá ele.

Conceituar qualquer arte como Zen é levar o Zen ao nível mais baixo. Certa ceramista objetivou o Zen na forma e na queima das peças. O comportamento “Zen” dessa ceramista era justamente descobrir as formas no próprio processo de transformação. Cada peça nascia quando da manipulação da matéria-prima pela artista, de maneira completamente não-intencional.

“Como posso chamar a minha arte de Zen se nem ao menos sei o que vou criar?”, irritou-se ela, ao ser abordada por jornalistas. Afirmar que uma arte é Zen é possuir uma idéia pré-concebida. No momento em que isso ocorre, aquela arte deixa de ser Zen. Em outras palavras, quando afirmo “aqui está vazio”, o “vazio” desaparece.

Francisco Handa
O que é Zen
Editora Brasiliense

 sem crédito. ilustração do site. 

COMO ACABAR COM A VIOLÊNCIA NA ESCOLA – por vicente martins

Encontro-me com um grupo de professores da educação básica. O bate-papo é inicialmente informal e ameno. Aos poucos, porém, a conversa torna-se confragosa, crua e empedrouçada. Ouço, atento, o relato das dificuldades pedagógicas dos mestres, em sala de aula, sobretudo as relacionadas ao ensino e à aprendizagem da leitura, escrita e ortografia. Logo me incomoda a descrição da escola enquanto palco de situações de violência. A violência escolar nas escolas, públicas e privadas, é um problema pedagógico.

 Diretores e professores de escolas públicas me descrevem, apavorados, ocorrências de depredações dos prédios, casos de arrombamento de salas e laboratórios, ameaças e casos de detenções ou prisões e, não poucas vezes, situações de constrangimento e amedrontamento envolvendo pais, professores e alunos. 

 Um professor me diz que a situação está tão grave que um puxão ou uma tapinha entre alunos, dentro ou fora da escola, já pode  não ser sinal de uma simples brincadeirinha infanto-juvenil, mas de safanão  que logo será desferido contra o colega de sala, a ser deflagrado com intenção de dano físico, moral e requinte de perversidade  Agora, uma pergunta advém: em que  a universidade pude ajudar as escolas públicas? Onde podemos encontrar, na Academia, respostas concretas para uma situação real e preocupante das escolas públicas?

Uma solução simplista, imediata e necessária é, decerto, o policiamento e a colocação de grades. Mas isso não basta.Quase sempre as medidas coercitivas e paliativas parecem reforçar, apenas, a violência escolar.

São nas crenças, atitudes e reações dos mestres e na descrição do que se passa efetivamente na ambiência escolar que um novo olhar de todos nós, educadores, pais e poder público, deve ser proativo e, desde logo, vale começar por uma questão fundamental: de onde vem a violência? E, em seguida, levantar dúvidas do tipo: onde há a exclusão social se manifesta de modo mais acentuado a violência escolar?  Onde as causas? Onde as soluções?

 As respostas que nos vem à consciência nos mostra que as escolas não ficam isoladas  do contexto social uma vez que, realmente, estão muito próximas das famílias e da sociedade. A escola, para lembrar Louis Althusser, é o principal aparelho ideológico do Estado. As boas experiências de superação da violência escolar sairão, pois, do interior dos  próprios estabelecimentos de ensino.

Os gestores escolares sabem que medidas tradicionais como gradeamento, vigilância e policiamento, a médio ou longo prazos, não são suficientes nem atingem os  pontos centrais do problema da violência escolar ou urbana.

 Se tomarmos, como referência a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBEN), a Lei 9.394/96,  ela, ao certo, dar-no-á pistas para uma resposta mais contumaz e convincente para a violência escolar.

O artigo 22, da LDBEN, referindo-se à educação infantil, ao ensino fundamental e médio, estabelece que é tarefa das instituições de ensino assegurar aos alunos a formação para cidadania e fornecer-lhes meios para progredir no trabalho, nos estudos posteriores e na vida.  Agora, novos questionamentos: a escola tem cumprido esta missão? A escola tem se preocupado em formar os alunos para viver em sociedade, a saber-estar na vida social, ou tem se limitado a repassar conteúdos curriculares?

Sei que nada disso é fácil. E a primeira tarefa é sairmos do discurso ou espírito da Lei e ingressarmos na ação concreta. Então, com o fim de colaborar nessa missão, eis algumas sugestões ou passos  em direção  ao que chamaria aqui de práxis cidadã.

O primeiro passo para uma práxis cidadã, certamente, pode ser o de seguir alguns procedimentos de gestão participativa como, por exemplo, o de ouvir todos os segmentos envolvidos na comunidade escolar, em especial, os alunos.

O segundo passo é o de explicitar as contradições existentes na escola. Um terceiro passo é o de trabalhar as contradições internas da escola para que, em quarto momento, possa propor melhorias para as relações humanas. Um quinto procedimento é o de organizar comissões para aprofundar as discussões sobre violência e sobre a segurança possível na escola, no bairro, na cidade. E, por fim, duas ações são fundamentais para uma escola com menos violência e mais cidadania: os gestores devem abrir as escolas para dentro e para fora, inclusive aos finais de semana, e fazer funcionar, sem medo, e  efetivamente,  as estruturas democráticas das escolas.

A atuação de cada docente pode se materializar em projetos especiais nas escolas públicas. Como professor de língua materna, sem hesitação, montaria um projeto “ Ler Mais para uma Vida Melhor”. Sim, começar, pela leitura. Não é,  por certo, um projeto original, mas, para o modelo de escola que temos no Brasil, não há dúvida de que há de ser inovador, um novo olhar sobre a problemática escolar. Um bom exemplo (e é bom imitar o que é bom) é o projeto Círculos de Leitura, do Instituto Fernand Braudel, com grande atuação em Diadema, São Paulo.

O nome do Instituto é inspirativo: Fernand Braudel, um historiador francês e um dos mais importantes representantes da Escola dos Annales. Esta escola foi pioneira na abordagem de um estudo de estruturas histórias de longa duração nos eventos. Conhecer a história é, de alguma maneira, conhecer a geografia, cultura material, as mentalidades e a psicologia da época.  Da mesma forma, conhecer a violência urbana ou escolar é algo que extrapola histórica, social e juridicamente a questão da segurança pública e  nos conduz ao campo dos valores, crenças, maneira de pensar, disposições psíquicas e morais da coletividade.

Pois bem. As atividades do Instituto começaram assim: um grupo de estudiosos da problemática social, ao conduzirem pesquisas de campo nas escolas públicas da periferia da Grande São Paulo, em 1999, documentaram a falta da prática da leitura, reflexão e debate no cotidiano da sala de aula. A partir do diagnóstico, desenvolveram uma política de apoio às bibliotecas escolares, através de mutirões e capacitação de voluntariado em parceria com a comunidade escolar.

O método da Fundação Fernand Braudel é fantástico, por sua simplicidade e eficácia e, mais do que isso, por seus resultados.  Eles trabalham com grupos pequenos e interativos de educadores pagos e voluntários  que trabalham de forma interativa com grupos de 10 a 15 jovens. Com esta medida, o Instituto oferece melhores condições para o jovem dialogar e formar vínculos com outros alunos e professores.

Outra interessante atividade é o desenvolvimento da capacidade de aprendizagem a partir da leitura de temas universais e clássicos da literatura. Vale destacar que trabalham com obras literárias que trazem em suas  histórias (e estórias) temas universais, com que o jovem pode se identificar, ampliando seu repertório cultural e relacionando suas experiências com relatos que sobrevivem ao tempo.

Entre as atividades de lectoescrita, a Fundação  faz um trabalho de desenvolvimento da leitura em voz alta e em grupo. A Fundação acredita, e isso é verdade, que para aquisição da capacidade cognitiva, alunos necessitam de instrução efetiva em cinco áreas: fonêmica, fonética, fluência, vocabulário e compreensão do texto. Em pequenos círculos, participantes se alternam lendo em voz alta e parando periodicamente para discutir sobre o significado dos trechos lidos.     

Ainda no campo da lectoescrita, os voluntários da Fundação Fernand Braudel desenvolvem atividades como produção textual para que o aluno reflita e escreva sobre o que foi lido e discutido em grupo. As redações desenvolvidas durante as sessões do Círculo são utilizadas para acompanhar o progresso de cada aluno e do grupo. Ao final de cada encontro, os participantes lêem e refletem sobre os conteúdos dos poemas e textos encontrados ou escritos por eles.

Por fim, outras ações da Fundação, não menos significativas, são a participação voluntária do jovem, peça-chave para a construção de sua cidadania, e sua contribuição na melhoria das condições do espaço escolar. As atividades culturais também têm lugar na missão da Fundação. São elas que auxiliam no aprendizado do jovem e ampliar seu universo de referência cultural a partir das obras lidas, além de organizar atividades e passeios culturais, incluindo visitas a bibliotecas, parques  e teatros.

         O que sei, depois de duas décadas de magistério, é que a privação da leitura interfere no desenvolvimento da personalidade dos alunos. Um sem-leitura é como um sem-terra sem a posse legal da terra em que vive e trabalha. Um aluno sem leitura não compreende os códigos lingüísticos e sociais e, o mais grave, não sabe interpretar, naquela visão paulofreiriana, a vida em sociedade. Não é à toa que um aluno sem-leitura é rechaçado e rechaçador, triste e deprimido, agressivo e angustiado, potencialmente um excluído do convívio social. .

         Numa sociedade de informação, ler ou escrever bem é condição de superação da desigualdade social. A leitura vai além do repertório de palavras que brotam do alfabeto.  Ler é compreender, interpretar, descobrir, criar e, sobretudo, desfrutar do reino do conhecimento.

 

 

Vicente Martins é professor da Universidade Estadual Vale do Acaraú(UVA), de Sobral, Estado do Ceará.
foto feita pelo telescópio hubble. foto da nasa.

CÓDIGO E LINGUAGEM, METALINGUAGEM por décio pignatari

Vê-se por aí que código e linguagem são basicamente uma e mesma coisa, a ponto de podermos dizer que o Português é um código, e o Inglês, outro. O que não impede que, sem certas circunstâncias, e para maior clareza, se faça uma distinção entre linguagem e código, como o faz Colin Cherry. Para ele, linguagem é “um vocabulário (de signos) e o modo de usá-los”, um conjunto de signos e regras, tais como os que usamos na conversação diária, de um modo altamente flexível e, até, bastante “ilógico”. As mensagens podem ser codificadas quando já expressas por meio de signos (letras, por exemplo); então, uma codificação seria uma transformação, geralmente unívoca e reversível, por meio da qual mensagens podem ser convertidas de um conjunto de signos para outro. O código semafórico e o código dos surdos-mudos – melhor ainda, o Código Morse – representam exemplos típicos. Dessa forma, as linguagens teriam um longo desenvolvimento orgânico, enquanto que os códigos seriam inventados para algum fim específico e sujeitos a regras explícitas. A verdade, no entanto, é que na medida em que se introduz a ambigüidade num código – ou seja, quando a sua reversibilidade não é perfeita – ele começa a tingir-se de certas características de linguagem, ou melhor, de língua.

 

De outra parte, convém fazer a distinção entre língua e linguagem, ainda mais quando vemos que, em Inglês e Francês, as palavras “language” e “langage” são tomadas como sinônimos de “língua”, Por esta razão, no que nos toca, consideramos as línguas como manifestações particulares, fundamentais embora, da linguagem, e a Lingüística como um ramo da Semiótica, que pode, assim, ser considerada como a Linguagem (ou: princípios gerais que comandam toda e qualquer manifestação da linguagem).

 

No estudo da linguagem, uma última distinção se faz ainda necessária: entre linguagem-objeto e metalinguagem. Linguagem-objeto é a linguagem que se estuda; metalinguagem é a linguagem com que se estuda, é a linguagem instrumental, crítico-analítica, que permite estudar a linguagem-objeto sem com ela se confundir. Ou ainda: quando a linguagem-objeto se volta sobre si mesma, ela tende a ser metalinguagem, beneficiando-se da fenomenologia. Este fenômeno é particularmente notável nas revoluções artísticas e de “design” (Dada, neoplasticismo e pop, nas artes visuais; dodecafonismo, música serial e eletrônica, na música; “nouvelle vague”, no cinema; Mallarmé, Joyce, Pound, poesia concreta, na literatura; a revista Mad em relação às linguagens dos meios de comunicação de massas; Mies Van Der Rohe, na arquitetura).

 

Segue-se daí que toda metalinguagem é marcadamente sintática, formal, estrutural. É por ignorância deste fato e pela tendenciosa e hegemônica formação cultural de tipo lingüístico (melhor dizer literário), que a maior parte da chamada crítica de arte – literária, visual, musical, cinematográfica, arquitetônica – se manifesta “literária” e subjetivamente: carece de metalinguagem adequada (voltada que está, aristotelicamente, para o “conceito”, o “conteúdo” a “significação”). O criador está por dentro da linguagem; o crítico, por fora. O criador se alimenta de raízes da linguagem; o crítico, de suas folhas, flores e frutos. O mesmo se diga dos professores de nossas universidades, ao abordarem o fenômeno artístico. A metalinguagem é um processo dinâmico, mas é comum ver como ela tende a se estratificar em código, confundindo-se então com o jargão técnico, especializado.

 

Texto escrito em Janeiro de 1968.

                                                

     coletânea CARPE DIEM. Curitiba.

Rumorejando (Com a volta da inflação, cada vez mais o cinto apertando). – por josé zokner (juca)

 

PEQUENAS CONSTATAÇÕES, NA FALTA DE MAIORES.

Constatação I

Rico é bem-intencionado; pobre, é faccioso.

Constatação II

Rico pondera; pobre, é leviano.

Constatação III

Fui defender minha liderança

Dentro do meu doce lar

Como após a tempestade

Sobrevém a bonança

A também doce cara-metade

Mandou, sem mais delongas,

Xingando-me de xongas*

Eu, incontinente, pirar**.

*Xongas = “coisa nenhuma, nada” (Houaiss).

** Pirar = “Retirar-se discretamente, cair fora, dar o pira” (Houaiss).

Constatação IV

Em certos países, os assaltantes matam como se fosse a coisa mais corriqueira do mundo. Pelo jeito, pra quem não se importa com o fato, também…

Constatação V

Deu na mídia: “IBGE: mortalidade infantil caiu 64% de 1980 a 2006”. Rumorejando: Imortalidade de deputados e senadores não caiu. Sempre foi de 0%. Salvo rarísssimas (assim mesmo, com três esses para enfatizar o fato…) exceções, alguém se lembra de algum deputado e/ou senador que mereça os encômios da nação?

Constatação VI (“Poesia” do cotidiano).

Ponderou com a patroa

Que a comida não tava boa.

“Vai comer no boteco da esquina

Lá o ‘Jesus me chama’

É iguaria fina,

Recheada com salmonela,

Cozida numa suja panela.

Aí, você cai de cama

E, mais depois, finado,

Nunca mais reclama

Do meu suculento

Cardápio de ensopado

Preparado com esmero

Em fogo lento

E sem exagero

Do meu preferido tempero”.

Coitado!

Constatação VII

Rico faz acordo; pobre, conluio*.

*Conluio = “Cumplicidade para prejudicar terceiro(s); colusão, trama; ajuste maléfico” (Houaiss).

Constatação VIII

Não se pode confundir desperto com esperto até porque tem que ser esperto para adormecer, quer dizer não desperto quando se ouvem discurso de político e/ou as empulhações em época do horário gratuito. E, que fique bem claro, de todos os partidos, sem exceção. A recíproca é como é e tá acabado. Tenho democraticamente dito.

Constatação IX

A pedido do meu dentista

Fiz uma panorâmica,

Um baita de um raio-x.

Eu não sou alarmista

Mas a chapa revelada

De vermelho tava manchada

E me deixou assaz infeliz:

Mostrou dois dentes de cerâmica,

Pontiagudos, assim como, também,

Os que lembram Frankenstein.

Constatação X

“Só um segundo”,

Ela falou

Ao telefone.

Ele esperou

Sem estar insone

Mas, com a demora

E o adiantado

Da hora

Caiu num sono profundo

Quando acordou

Só escutou

Ti… ti… ti…

Aí, incomodado

Pôs-se a pensar

Num raio, não o do círculo,

Nem o da circunferência,

Mas o “que a parta”,

Já que ela está de mim farta.

E se pôs a cantar,

Da vida, fulo,

Sem muita paciência,

O bolero “Sem ti”.

E se sentindo no abandono

Também um pobre dum mono,

Perdeu totalmente o sono.

“Vou pôr os pingos no i”,

Pensou todo amuado.

 

Coitado!

Constatação XI (Subsídios para uma nova versão de uma velha marchinha de carnaval).

Passou pela minha moleira,

No fim duma segunda-feira

Qual um vento numa veneta*,

Que o pirata da perna de pau

Absolutamente não é perneta

Tampouco, tem cara de mau.

*Veneta = “impulso repentino”.

Constatação XII

Não se pode confundir balela com baleia, principalmente quando alguém conta que montou numa baleia e com o guarda-chuva aberto saiu velejando por mares nunca antes navegados. Não acreditem porque é uma balela. Afinal, não tem guarda-chuva que resista ao vento, sem virar no avesso, provocado por uma baleia singrando o oceano na velocidade que ela normalmente costuma…

Constatação XIII

Deu na mídia: “Um em cada quatro casais no Japão não faz sexo, diz pesquisa”. Taí mais uma notícia de transcendental importância para o futuro da Humanidade. Salvo no lamentável caso de se generalizar pelo mundo afora, virando epidemia, endemia, pandemia, coisas assim desse jaez…

Constatação XIV

Amor, teu nome é ternura;

Desamor, teu nome é agrura.

Benquerença, teu nome é doçura.

Desavença, teu nome é broxura

Constatação XV (Coitado!).

Ela sempre cerzia

As meias do marido.

O dedão, um dia,

Também ficou cerzido.

Constatação XVI (Dúvida crucial, via pseudo-haicai).

Dela, a terrível vendeta

Foi exagerar na dose

Da pimenta malagueta?

Constatação XVII (De diálogos um tanto burocráticos e um tanto rimados).

-“Quero que você me apronte

O teu atestado de residência”.

-“A senhora tenha paciência,

Ainda to morando debaixo da ponte”.

E-mail: josezokner@rimasprimas.com.br 

CHINA. logística no lixo reciclado. foto sem crédito. ilustração do site.

Indiana Jones: o plagiato de 1,3 bilhões de dólares – por frederico fullgraf

Indy, o arqueólogo rufião, está de volta: coroa, poeira sobre as pálpebras, ainda arranca suspiros da platéia feminina e surfa virtuosamente na maionese de Steven Spielberg. Mas sua cepa continua obscura para a maioria dos seus fãs. Spielberg, seu alter-ego, se finge de morto, nunca revela suas fontes, e quase trinta anos após sua estréia nas telas, o público ignora que o Indiana Jones da vida real se chamava Hiram Bingham. Nascido no Havaí em 1875, e morto em Washington DC em 1956, foi político nos EUA e “descobridor” das ruínas de Machu Picchu, em julho de 1911.

 

Chapéu de aba murcha ao vento, sorriso debochado, Bingham emprestou ao personagem de Harrison Ford sua estampa de “canastrão, mas bom moço”. Contrariando o zelo arqueológico, em Machu Picchu violou 130 sepulcros incas, metendo a pá onde estava a História. Sob o pretexto de “análise científica”, o aventureiro levou para os EUA 5 mil (as autoridades peruanas falam em 40 mil) peças arqueológicas de inestimável valor, com a promessa de “empréstimo” por doze meses. Quebrou o contrato: entregou o butim ao Museu Yale Peabody, em Boston, e há 97 anos o Peru luta pela devolução de seu patrimônio histórico. 

 

Dublê de arqueólogo e agente secreto, truculento, Indy tem uma faible por mistérios, câmaras ocultas, rituais demoníacos: em “Os caçadores da arca perdida” (1981), disputa a tábua mítica dos Dez Mandamentos; em “O templo da morte” (1984) corre atrás de um gigantesco diamante; na “Última cruzada” (1989) tenta apossar-se daquele cálice com o sangue do Cristo crucificado; o Santo Gral. E dê-lhe “nazistas” e “comunistas”: como “vingador do Ocidente”, o herói não recusa um flerte com o FBI e a CIA. Inventado por Spielberg e George Lucas, durante uma reunião no Havaí de Bingham, Indiana Jones é fenômeno da transição da Guerra Fria para o “império” unipolar. Sustentada por plágios descarados, em vinte e cinco anos a trilogia amealhou a alucinante bilheteria mundial de 1,3 bilhões de dólares – provavelmente a maior bilheteria do Cinema de todos os tempos,  sutil engendramento da lei-da-oferta-e-da-procura e chocante termômetro da irrefreável imbecilização da humanidade.

 

Spielberg não tem tempo de ler livros. Mal lê suas orelhas e freqüenta catacumbas onde, colher de pau na mão, mexe o caldeirão de sua indigesta gororoba, trocando fatos por fábulas. A bola da vez é a Amazônia. Quer dizer, mais ou menos: História e Geografia reais são incômodas. Indiana Jones e a Caveira de Cristal é mais uma versão de samba of the foolish gringo, com figurações, sotaques e referências ao México, quando o enredo “mostra” o Peru (ou seria o Acre, no Brasil?). Lá o herói tenta reencontrar um ex-colega desaparecido. Escreve-se o ano de 1957, auge das disputas com a URSS, e não é que um comando da KGB, travestido de marines e encabeçado por uma “vidente”, primeiro invade uma base de testes nucleares no Nevada, e depois reaparece na “selva amazônica” (filmada no Havaí…), atrás do mesmo obscuro objeto do desejo: o crânio de cristal caçado por Indy?

 

Tais crânios de cristal são tão verdadeiros como o “santo Gral”, o “triângulo das Bermudas” ou os “diários de Hitler”: tudo fake, mas funciona brilhantemente como realimento para esotéricos delirantes e a comunidade dos teóricos da conspiração. Uma dúzia destas recriações do crânio humano, esculpidas em cristal de quartzo, encontra-se espalhada pelo mundo, do British Museum ao museu de história natural Smithsonian, em Washington. Nenhum deles é original, todos são réplicas. Sua verdadeira origem, incaica ou asteca, continua mistério, provavelmente simbolizam rituais de sepultamento e de “passagem”. Já na Internet e em livros esotéricos circula a versão de que os crânios têm 100 mil anos de idade, emanam super-poderes (demoníacos) e que foram deixados na Terra por ETs – “trip” na qual embarcou Spielberg, que, mais “modesto”, afirma serem relíquias de Atlântida, o mitológico continente “desaparecido”.

 

O novo Indiana Jones é um coquetel de Lost City of the Incas, livro de Hiram publicado em 1948, e de uma farsa urdida nos anos 70, que culmina em 1984 com o assassinato de seu autor, na saída de um restaurante do Leblon: A Crônica de Akakor (Bertram, 1977) de Karl Brugger, então correspondente da rede de Rádio e TV Pública da Alemanha, no Rio de Janeiro. Contudo, crônica making of de um filme que não está na tela, o compromisso da presente é surpreender o leitor, aqui convidado, como fazia o bruxo Machado, a acompanhar o autor escada abaixo, porque a caverna escura de Indiana Jones (não citada por Spielberg nem por Brugger) é bem real e escabrosa.

 

Eis então, em que insuspeitável geografia e companhia  se fecha o círculo do delírio.de Spielberg: Heinrich Himmler, fundador da SS, a tropa de elite nazista. Desde a tenra juventude o ideólogo tinha um notável pendão para o esoterismo, numa versão impregnada de patriotismo racista e antijudaísmo. Acreditava, por exemplo, numa „civilização de Atlântida“, que supunha ter existido na orla da Groenlândia, cujos descendentes presumiu, transmutados, no Tibet e na América do Sul.

 

Na origem do esoterismo de Himmler estão “ariósofos” sombrios, como Karl Maria Wiligut, aliás  Weisthor (austríaco, como de resto aquele mal-sucedido pintor de paredes e futuro “Führer”, Adolf Hitler). Willigut foge de um manicômio, o que não o impede de alcançar a patente de chefe de Brigada da SS, protegido por Himmler, e de atuar como mentor do jovem mitologista Otto Rahn, PhD na saga de Parsifal e nos mitos do Santo Gral. Em 1929 Rahn peregrina à fortaleza medieval de Montségur, na França, convencido de lá encontrar o maldito cálice (que presume ser um monólito). Não o encontra, mas publica uma pesquisa avassaladora sobre a Cruzada contra o Gral (fonte na qual bebe, sem citá-la, outro profissional do plagiato: Dan Brown, autor d´O código da Vinci).

 

Reciclando o Gral como mistério pagão para a SS, Himmler inaugura uma série de expedições para os recônditos do planeta. A primeira delas sob a liderança do zoólogo e montanhista Ernst Schäfer, em 1934 ao Tibet, onde o supremo sacerdote da SS imagina sobreviventes da “raça ariana” e Schäfer se curva respeitosamente à aura do jovem Dalai Lama. Indício, rude, dessa teoria „pan-ariana“, seria a cruz gamada ou suástica (termo de raíz indo-germânica), que desde tempos imemoriais é símbolo da boa sorte dos tibetanos.  Outra expedição teria como destino a Amazônia.

 

Transcorrida mais da metade do filme, a perseguição atinge a apoteose em Akator, uma “cidade perdida”, em cuja grafia Spielberg trocou apenas o ”k” da Akakor de Brugger pelo “t” de seu plágio. Alimentada por uma bizarra teoria da conspiração, a inspirada Crônica de Akakor de Brugger conta que certa “elite nazista”, acompanhada de dois mil soldados e (para delírio da tribo dos UFOlogistas) uma versão primitiva de discos-voadores, teria se refugiado numa “cidade perdida”, também conhecida como “o castelo do Gral dos Incas”, na Amazônia.

 

Já na versão de Spielberg não cabiam os “nazistas” de Brugger porque, segundo a crônica, uma guerra entre os nativos e os primeiros teria virtualmente exterminado os povos de Akakor.  Em seu lugar entraram os soviéticos, tão órfãos de materialismo dialético, quando catatônicos os gringos, face  à  horripilância da “cidade perdida”; úmida morada de múmias, morcegos, escorpiões e caranguejeiras. E então a seqüência final: aqui o auto-referido Spielberg faz desabar a montanha do “Gral andino” e de seu interior decolar (“ET is back”!) um gigantesco disco-voador – mais do que suspeita semelhança com “Eram os deuses astronautas”, do lunático Von Däniken, e com a crônica Babylõniaká (História da Caldéia) de Bérose, sacerdote de Bel-Marduk (330 a.C.), vagamente referida por Platão, segundo a qual o homem primitivo foi visitado pelos akpalos, extraterrestres pisciformes, que lhes transferiram o conhecimento para o despertar da Humanidade nas terras do atual Iraque.

 

Infelizmente, para a teoria da conspiração, o informante de Brugger foi um tal de “Tatunca Nara”, que em 1972 se apresenta como filho de um chefe indígena e de mãe alemã, “refugiada nazista”. Mas Tatunca Nara”, que fala alemão sem sotaque, estava mal parado na foto: no final dos anos 80 a BKA, Polícia Federal alemã, reconhece o cidadão Günther Hauck com bronzeado de urucum, na roupagem do falso índio – alemão, nascido em 1941 em Coburg, na Baviera, procurado por dívidas de pensão alimentícia e por isso escondido, desde a década dos anos 60, em Barcelos, no Amazonas. Mediante declaração cartorial, emitida em 2003, Tatunca Nara”, que já se naturalizou brasileiro, assume sua condição de “doente mental” – foi a segunda morte de Karl Brugger.

 

Impassível, a inconfidência esotérica insiste que a “expedição amazônica nazista” teria ocorrido entre 1942 e 1943, e que em 1984 Brugger foi liquidado como “queima de arquivo”. Mais aceitável é a hipótese de que Brugger tenha sofrido um assalto banal: levou um tiro quando esticou a mão ao bolso traseiro da calça. Certamente queria apanhar a carteira de dinheiro, mas o pivete fez outra leitura, pensou que seria uma arma – gesto fatal, mas não improvável, para quem já vivia há mais de dez anos no Rio de Janeiro. E desde então “os nazistas” povoam a “cidade perdida dos Incas”, esculpida no subsolo da Amazônia, à qual Spielberg se mudou, sem pagar aluguel.

 

 

foto sem crédito. ilustração do site.

 

Saudades de “NÓS” – poema de sergio bitencourt

Quando a palavra “eu”,

Prevalece em auto-enaltecimento,

(eu faço,eu viro,eu mexo…)

O sentimento “NÓS”,

Desprevalece na mesma proporção.

 

Então,

Ao invés deste iludido enaltecimento,

Prevalece a sensação de sofrimento,

E quando ainda assim,

Não presta-se à conscientização,

A própria dor perde função.

 

E as “vítimas” deste pseudo-amor,

Auto-produzidas em dor,

Não assumem a própria vitimação,

Desintegradas,

 

Partem-se, Excluem-se, Separam-se. 

 

REMORSO PÓSTUMO poema de charles baudelaire

Quando fores dormir, ó bela tenebrosa,
Em teu negro e marmóreo mausoléu, e não
Tiveres por alcova e refúgio senão
Uma cova deserta e uma tumba chuvosa;

Quando a pedra, a oprimir tua carne medrosa
E teus flancos sensuais de lânguida exaustão,
Impedir de querer e arfar teu coração,
E teus pés de correr por trilha aventurosa,

O túmulo, no qual em sonho me abandono
– Porque o túmulo sempre há de entender o poeta -,
nessas noites sem fim em que nos foge o sono,

Dir-te-á: “De que valeu, cortesã indiscreta,
Ao pé dos mortos ignorar o seu lamento?”
– E o verme te roerá como um remorso lento.

INFÂNCIA! por cybele meyer

“Oh! que saudades que tenho, da aurora da minha vida, da minha infância querida, que os anos não trazem mais!”
Casimiro de Abreu

INFÂNCIA – Palavra de uma sonoridade infinita que embriaga os ouvidos como se poesia fosse. Sempre que é pronunciada provoca um sorriso maroto nos lábios de quem a ouve.Quem não guarda, no baú de suas recordações, doces lembranças da infância? Quando falamos em infância, sempre temos uma história deliciosa para contar. Mesmo as maiores travessuras, aquelas que chegaram a tirar a nossa mãe do sério, hoje se tornaram pérolas que guardamos em nosso coração como jóias raras. Bons tempos aqueles em que brincávamos com bolinhas de gude na rua de terra. Ao final do dia voltávamos para casa com os bolsos pesados, cheios de bolinhas de vidro, fruto das partidas ganhas e na mão, para poder contemplar a todo o momento, aquela bolinha especial, tão “cobiçada”, com três listras coloridas, prêmio obtido pelo melhor desempenho na partida. E pular amarelinha! Era divertido desde o momento de procurar um pedaço de tijolo para desenhá-la na calçada. Precisava ter muita noção espacial para não deixar uma casa maior que a outra. Era sempre a mais velha da turma quem desenhava. E a pontaria! Era preciso muita concentração para mirar e acertar na casa da vez. Equilíbrio então!! Ficar num pé só, abaixar-se para pegar a pedrinha e voltar sem colocar o outro pé no chão, era uma missão e tanto. Lembro-me com muitas saudades do “jogo da ordem” em que eu atirava a bola contra a parede e ia recitando: ordem, sem lugar, sem rir, sem ……(falar), um dos pés, o outro, uma das mãos, ….. e ia fazendo os gestos pedidos pela música no tempo da bola bater na parede e voltar. Se a bola caísse no chão, eu perdia a vez (é obvio). Nos dias de chuva brincávamos de cama de gato, jogo da velha, três marias….Passávamos o dia todo entretidos com estas brincadeiras. Riamos muito, corríamos até perder o fôlego, pulávamos, cantávamos, tudo ao som estridente das vozes infantis.

Quando a tarde chegava, tomava banho e me sentava diante da TV para assistir desenho animado. Era o Pica-pau fazendo das suas, o Plic e o Ploc enganando o Chuvisco, o Tom e o Jerry que nunca se entendiam. Depois dos desenhos vinham os episódios dos Três Patetas, como eu ria das palhaçadas deles. Também havia o seriado do Zorro. Este ativava muito a minha imaginação. Eu amarrava um lençol no pescoço e colocava a meia preta do meu pai sobre os olhos, deixando uma fresta para poder enxergar e pulava de cima do sofá para o chão empunhando numa das mãos como se fosse uma espada, a colher de pau da minha mãe. Era uma delícia! Depois jantava e às nove horas da noite, quando começava a tocar na TV a música dos cobertores Parahyba “Tá na hora de dormir, não espere a mamãe mandar…” eu tinha que dar boa noite rapidinho e ir para o meu quarto dormir, caso contrário no dia seguinte ficava sem assistir televisão. Eu sabia que daquele horário em diante era só programa de adulto, então, como eu ainda era criança, não podia assistir.

É uma pena que as crianças de hoje não possam usufruir dessas delícias, primeiro em razão do progresso, brincar na rua nem pensar, o trânsito é imenso e a falta de segurança é outro fator crucial. Temos também que concordar que hoje os tempos são outro, a tecnologia é outra, os tipos de brinquedos são outros, só que isto está acabando com o espírito infantil.

No tempo citado acima não havia variedade de brinquedos mas o que havia em grande quantidade era a imaginação, a fantasia, a criatividade. Hoje, o consumismo tomou o lugar do brincar. A criança quer muito um determinado brinquedo, logo após ganhá-lo já começa a pedir outro. Quando a criança vai à casa de um amiguinho para brincar e leva um brinquedo novo – o brinquedo que a criança carrega consigo é sempre “o novo” pois o que ele ganhou ontem “é velho” e não tem mais importância – ela o fica segurando todo o tempo. Não brinca com ele, não o empresta, apenas o exibe.

Com relação às meninas, fazem uma verdadeira coleção de bonecas da moda. É uma boneca com roupa de praia, outra com a roupa que vai esquiar, a com roupa para ir ao supermercado, a com roupa de festa e assim vai. E mesmo tendo todas estas bonecas, ela ainda não se sente satisfeita, pois sua amiguinha tem uma com um modelo que ela ainda não tem, então ela vai pedir este outro modelo, incessantemente, até conseguir.

Agora me responda, elas brincam com as bonecas? Não! Elas apenas as exibem e comentam que vão ganhar mais esta ou aquela. Este tipo de comportamento, roubou o prazer do brincar, do faz de conta. O que existe agora é o adquirir, o competir, a satisfação relâmpago do TER. A criança de hoje não conversa mais com seus bichinhos, não sabe brincar sozinha, não se entretem com nada! Ops!!! Mas tem o videogame!

Realmente o “must” agora é o videogame. As crianças ficam sentadas no sofá, quase nem piscam, praticamente nem se lembram de fechar a boca e ficam ali, com os olhos arregalados, com a língua pendurada do lado de fora da boca, só movimentando os dois dedões, um de cada mão, é claro, vidradas nas imagens que elas têm o poder de movimentar para o lado que quiserem. Quando acaba a força do “boneco”, que é computada pela quantidade de sangue que aparece na parte inferior do vídeo, é que se lembram de olhar em volta e se dão conta de que estão no sofá da sala e que perderam ou ganharam o “game”. Passam horas ali sentadas sem perceber que estão na mesma posição o tempo todo. Quando a noite chega, só se afastam um pouco mais para o canto do sofá para dar lugar aos outros membros da família que também querem ali se sentar. Então começam as novelas das 6h, das 7h, o Jornal Nacional, a novela das 9h e elas ali assistindo a tudo isto. Ninguém se importa se elas têm 2 ou 3 ou 4 ou 5 anos. Assistem a tudo com muita atenção, afinal tudo ali é muito interessante. Tem traição, tem assalto, tem assassinato, tem desfalque, tem seqüestro, tem sexo, tem… tem…E elas ali vendo tudo isso. Continuam com os olhos arregalados e com a boca aberta, totalmente concentradas no que estão assistindo. Diante desta realidade toda não sobra lugar para a fantasia.

É uma pena que as coisas estejam caminhando desta forma. Isto irá gerar, no futuro, um vazio muito grande nessa geração infantil pois tudo de bom que levamos, pela vida afora, são as lembranças dos nossos tempos de criança. São estas lembranças que nos energizam no dia a dia. Sempre haverá uma música antiga ou um aroma de perfume que nos transportará para um tempo, não muito distante, onde éramos simplesmente crianças.

 

 

foto sem crédito. ilustração do site.

PALAVRAS poema de cleto de assis

 

Para Saramar, a aprendiz de poeta (que mentira!), em luta constante com as palavras

 

 

 

Palavras são lepidópteros

a riscar desenhos invisíveis frente a meus olhos.

Bruxuleantes, gatafunhantes, coisa de criança,

que é pra ninguém entender na primeira leitura.

E como fiz uma boa rede de caçar borboletas

às vezes eu as capturo, uma a uma,

e colo em um pedaço de papel

onde elas também se divertem

apesar de aprisionadas a normas gramaticais.

Oxítonas, paroxítonas, estas sempre mais abundantes

em buliçoso panapaná.

Quando em quando, aparecem também as proparoxítonas

genuinamente lepidópteras,

que, raras e vaidosas, adoram ser chamadas de esdrúxulas.

Metafóricas e cândidas, sabem ser trêfegas,

embora, ultimamente, tenham aparecido trêmulas

depois da notícia de que poderão perder seus acentos

por mero capricho da Academia.

Mas, uma vez juntas, esquecem suas diferenças

de raça, cor, sexo, religião, ideologias, nacionalidade, morfologia,

sintaxe e fonética

e brincam de criar alegorias que mexem com minhas sensações.

 

 

Cleto de Assis

Curitiba

10.janeiro.2008

NOSSO MEDO poema de erly welton

Não usa sapatos novos

Nem assoma na janela

O uivo de sete paredes

Nosso medo

 

Ruas mal-iluminadas

Pedra assentada no ombro

O que espreita na lida

O nosso medo

 

Signo de nenhuma estrela

Crucificada no erro

Em vestes corruptíveis

Nosso medo

 

Fala pelos cotovelos

Entre ossos e lama e aço

Cerra olhos e punhos

Nosso medo

 

Não tem a morte no rosto

Não oferece a outra face

Ferro e fogo do verso

O nosso medo

 

Cálice de vinho e veneno

Inverno de mitos sangrentos

Desperta mil vezes em cena

O nosso medo

 

É uma montanha de pedra

Ciência e deuses no Olimpo

Rosário de cal e areia

Nosso medo

 

Punhado de sal na têmpora

O dia que ainda não veio

Barco na névoa espessa

Nosso medo

 

Cova rasa do julgamento

A linha de qual horizonte

Minúncias de cal e areia

Nosso medo

 

São farpas e ferpas na unha

Estrada longa e estreita

Reza pra todos os santos

O nosso medo

 

Ferrugem no pó e nos pelos

O sangue de metal e fungos

A certeza de não sabermos

O nosso medo

 

Em doze motes de cera

Ferro de muros e cercas

Arame em torno do punho

O nosso medo

 

AS INCRÍVEIS PINTURAS DE ISABEL GUERRA – pela editoria

as-pinturas-de-isabelguerra-impressionante1

MPB – UMA EXPRESSÃO AMBÍGUA (I) por alberto moby

Qual a relação entre a expressão “música popular bra­sileira” e a sigla MPB? A resposta pode parecer ób­via, mas não é. Alguns cantores e compositores bra­sileiros, durante muitos anos, particularmente os anos 1960-1980, quando se deu o auge da MPB, embora can­tas­sem canções que pudessem tran­qüi­la­men­te ser clas­sificadas como parte de uma “música popular brasileira”, nunca foram classificados como cantores da MPB, usando-se para as canções que faziam ou can­tavam outras classificações, tais como “música brega”, “sambão jóia”, “música romântica”, entre ou­tras. Essa diferenciação ainda permanece em nossos dias, em­bo­ra eu tenha a impressão de que o significado implícito de MPB tenha se ampliado, se tornado mais elástico e mais condescendente com estilos e ritmos musicais que antes jamais seriam classificados como tal. Mas, ainda assim, continua havendo uma clara distinção entre o que seria a “verdadeira MPB” e outras músicas, tais como a “sertaneja”, a “axé music” ou “samba-reggae”, o “funk” e outros estilos para os quais seria injusto dizer que não são “música popular brasileira”. E então, como saímos dessa sinuca de bico? Convido vocês a seguirem comigo alguns passos que, imagino, nos levarão à saída deste labirinto.

A expressão “música popular”, no Brasil, antes do surgimento da sigla MPB tinha o mesmo sentido que lhe é atribuído pelo maestro e crítico musical Júlio Medaglia, para quem, em linhas gerais, poderíamos dividir em três tipos preponderantes as diferentes espécies de manifestação musical popular no Ocidente. A primeira, que se convencionou chamar de folclórica, liga-se mais diretamente a determinadas situações sociológicas, históricas e geográficas, congregando em sua estrutura uma série de elementos básicos que a tornam característica de uma época, uma região e até mesmo de uma maneira de viver. Por isso, suas formas de expressão seriam mais estáticas e menos passíveis de evolução e influências exteriores[1].

Os outros dois tipos são de origem urbana, sendo qualificados simplesmente como música popular e possuindo as seguintes características que os identificam e diferenciam: “o primeiro tem suas raízes na própria imaginação popular e é aproveitado e divulgado pela rádio, pela TV, pelo filme e pela gravação; o outro é a espécie de música popular que é fruto da própria indústria da telecomunicação”[2] .

Segundo o maestro, o chorinho é uma música de origem, expressão e posse popular. O chamado “iê-iê-iê”[3] seria um estilo musical que existia em função de um número limitado de elementos que o praticavam e que alcançaram popularidade imediata através dos recursos modernos da telecomunicação.

No Brasil, até os anos 60, independentemente dos variados ritmos musicais, do segmento social de onde provinham os compositores e intérpretes e do público, havia consenso em que “música popular” era a expressão para caracterizar sua situação de oposição à “música clássica” ou “erudita”. A partir dos anos 60, porém, tal expressão passa a ser substituída, em algumas situações bastante definidas, pela sigla MPB. Daí em diante, essa sigla passa a designar não mais toda e qualquer música produzida e/ou consumida pelas classes populares no Brasil. É com o surgimento da bossa nova e dos grandes festivais de música veiculados pela televisão que a expressão MPB aparece no mercado musical brasileiro. O curioso é que esta sigla e toda a produção poético-musical que ela passa a designar é uma construção política e não significa mais, como pode parecer, toda e qualquer música popular brasileira, sendo um subproduto – ou melhor, para que o termo não soe pejorativo –, uma subseção dela.

Resulta praticamente impossível precisar o momento exato em que nasce a sigla MPB. Algumas pistas, no entanto, apontam para a rapidez das transformações na “linha evolutiva” da música popular brasileira (conforme expressão de Caetano Veloso) a partir do final dos anos 50, particularmente através da bossa nova e, num momento imediatamente posterior, via festivais. Ao que tudo indica, seu surgimento teve, como objetivo inicial, combater a tentativa da indústria cultural de fazer com que o iê-iê-iê fosse vendido também como sendo música popular “de raiz”. A sigla se cristalizaria no nome de um conjunto vocal – o MPB-4 – e se consolidaria durante os chamados “anos duros” do regime militar.

Mas é preciso, porém, identificar onde está a diferença entre a MPB e a música popular em geral. A esse respeito Marilena Chaui, em ensaio de 1986, afirmava:

se, no início deste século, os compositores mais conhecidos eram “lá do morro”, no final do século, grande parte da música popular é composta e ouvida por universitários. Em contrapartida, a chamada música sertaneja (designação mais freqüente para a música caipira e para a moda de viola sob a influência de novos ritmos urbanos) corresponderia muito mais à idéia do “popular” como “subalterno”. Por outro lado, as composições mais admiradas pela população “popular” são aquelas que costumam receber a qualificação pejorativa de kitsch[4].

Embora Chaui siga implicitamente a linha de raciocínio da Escola de Frankfurt, ao referir-se à oposição entre um “público universitário” e a “população ‘popular’”, sua hesitação, ao considerar a música “universitária” como parte da música popular brasileira mostra a dificuldade de conceituar “música popular” na época de sua reprodutibilidade técnica. Essa dificuldade, que certamente não é exclusiva da história da música no Brasil, comporta uma especificidade: o surgimento da MPB.

Ao longo dos anos 70, a sigla MPB, já relativamente consolidada no meio artístico e nos mass media, não designava mais toda e qualquer música produzida e/ou consumida pelas classes populares no Brasil, quer a “autêntica” música popular (rural e/ou “folclórica”), quer a música “de consumo”. Aqui, nem sempre os compositores e ouvintes da chamada MPB pertencem às ditas “camadas subalternas”, sendo mais comumente localizados na classe média. Além do mais, não é raro que cantores e compositores da MPB se utilizem do instrumental teórico musical para grafar e reproduzir suas canções, o que dificultaria a conceituação de “música popular” para a MPB em oposição a “música erudita” também por esses critérios.

Na verdade, a sigla MPB está vinculada, sem dúvida, à resistência da faixa de compositores e cantores que, herdeira da chamada “canção de protesto”, de origem universitária, tinha como proposta combater o regime militar. Para esses compositores e cantores, segundo Gilberto Vasconcellos, “o importante é saber como pronunciar; daí a necessidade do olho na fresta da MPB. Contudo – continua – não basta somente retina. Além de depositar certa confiança na argúcia do ouvido musical, a metáfora da fresta contém uma aporia: restam ainda os percalços objetivos da decodificação”[5].

Eis aí a MPB que, com o fim da ditadura militar, começa a desaparecer enquanto sigla e enquanto movimento artístico-político, cedendo lugar cada vez mais definitivo ao rock and roll em português, ao “pagode”, à canção “brega”, à “new-sertaneja” e, mais recentemente, à chamada axé music e ao funk.

Assim, parece claro que, ao utilizar as expressões “música popular brasileira” e “MPB” não se pode estar falando do mesmo objeto, quando estiverem referidas ao regime militar. Acre-dito ser essencial marcar essa peculiaridade da expressão MPB: não se trata da música popular urbana brasileira como um todo (apesar do aparente significado da sigla), mas da expressão de um grupo de compositores, cantores e um público de classe média universitária, centrado no eixo Rio-São Paulo prioritariamente, aos quais corresponde também uma identidade política anti-ditadura militar.

PS: Este post é uma versão adaptada das p. 142-146 do meu livro Sinal Fechado: a música popular sob censura (1937-45/1969-78, publicado este ano, em segunda edição, Editora Apicuri, do Rio de Janeiro (www.apicuri.com.br).

NOTAS:

[1] Cf. MEDAGLIA, Júlio. “Balanço da bossa nova”. In: CAMPOS, Augusto de (org.). Balanço da bossa e outras bossas. 4. ed. São Paulo: Perspectiva, 1986, p. 67.

[2] Idem, p. 67-68.

[3] Medaglia escrevia em 1967 e referia-se à adaptação que a juventude ligada ao movimento musical conhecido como “Jovem Guarda” faria, para a língua portuguesa, do constante “refrão” yeah yeah yeah presente em várias das canções do rock and roll anglo-norte-americano do começo da década de 1960, cujo exemplar mais famoso era She loves you, dos Beatles (de John Lennon e Paul McCartney).

[4] CHAUI, Marilena de Souza. Conformismo e resistência: aspectos da cultura popular no Brasil. 3. ed. São Paulo: Brasiliense, 1989, p. 10.

[5] VASCONCELLOS, Gilberto. Música popular: de olho na fresta. Rio de Janeiro: Graal. 1977, p. 72.

 

pintura urbana. sem crédito. ilustração do site.

 

FINALMENTE, ENFURECI! por waldo luís viana

Acordei de madrugada, neste outono de terremoto, a pensar sobre o que aconteceu realmente em meu país. Todo mundo já disse tudo. A imprensa golpista, a imprensa esquerdista que não se diz golpista (aliás que caricatura grotesca o esquerdismo a favor!) – e fiquei matutando: o que nos aconteceu?
        Os políticos continuam os mesmos, safados, entre uísques, interesses e amantes, procurando os seus cadinhos, como moscas em volta das fezes do poder. Uma Pátria dirigida por pútridos, em sucessão de escândalos que não dá pra registrar, empreiteiros, bicheiros, lobistas, vigaristas, assessores, falsos empreendedores com escritório de fachada, amantes em busca de carteiras gordas e uma gravidez premiada, traficantes pequenos e grandes, a cocaína e a prostituição à solta, a pornografia invadindo os olhos dos nossos filhos pela internet e a corrupção vitoriosa, tão inexcedível em seu poder de persuasão, que os corruptos levam os filhos de carro blindado para a escola e seus netos serão inevitavelmente chacinados por alguém, desesperado, que o gordo, careca, de terno cinza e gravata vermelha, com certeza no passado prejudicou…
        O que aconteceu neste país que nossos vizinhos querem tomar nossas riquezas e os índios e ONGs estrangeiras nossos territórios e minerais? Onde generais, sempre ciosos do respeito à hierarquia, acalmam as suas mulheres nos travesseiros noturnos, dizendo que com certeza virá o próximo aumento para a tropa? E olha que mulher de militar é fogo, hein, tem coragem…
        O Brasil, como dizia o velho general Golbery é um barril de pólvora. E dizia mais: entre sístoles e diástoles vamos desdobrando nosso vil destino, enquanto as maiorias não cobram o seu quinhão. Esperemos, pois, que a Rocinha desça um dia e tome São Conrado, onde reside o Sr. César Maia e outros que tais. Vai ser uma novela da Rede Globo. Ainda bem que o Projac fica mais longe…
        Cá estou eu, diante do computador que ainda me resta, pensando em meu país, sem dormir, como o velho seringueiro de Mário de Andrade. De que adianta pensar que minha filha está longe e se atravessar minha cidade de madrugada possa levar uma bala perdida? E o festival em torno da morte da menina Isabella? A mãe verdadeira já está sendo envolvida por duplas caipiras e talvez se torne artista do próximo Big Brother…
        Tudo nessa terra é banalização. Vivemos a morte bem morrida da ética. Eu também tenho os meus pecados, como cruel mortal, mas diante do que vejo, das carnificinas, das bocas de fumo, dos caveirões e fuzis AR-15, sou reles e ingênuo inocente.

 
 

 

        Escritor e poeta com tantos livros a publicar, outros no estrangeiro porque minha gente não me deseja ler, porque não apanhei da ditadura (tinha quinze anos quando ela explodiu) e não posso nem requerer indenização…
        O que aconteceu, meu Deus, a meu país, em que as mulheres precisam tirar a roupa para subir na vida e encontrar um figurão para escorar o divórcio. Em que as prostitutas são seres dos mais nobres porque fazem distribuição de renda: tiram dos homens mais velhos o dinheiro que revertem para os filhos mais novos, que não pediram para nascer…
        E nossos aposentados, roubados a cada dia em seus proventos de vento, não podem recorrer a ninguém, já sem forças. Os que lhes esmagam serão velhos um dia também, mas vivem da esperança de repatriar o dinheiro de paraísos fiscais, onde os brasileiros detêm 150 bilhões de dólares e não receiam qualquer guerra e, no íntimo, fazem previsão meteorológica de que jamais haverá um tsunami no Caribe…
        Nossos juros, os mais altos do planeta, para conter o egoísmo da inflação produzido por nossas elites. Nenhuma idéia nova. Só a mesma ortodoxia econômica da Escola de Chicago. Como se o sol nascesse a cada dia por causa do Itaú, do Bradesco e do Banco de Boston. Essas instituições não valem a beleza de um carvalho, nem o pescoço de uma vaca pendido no pasto…
        O Brasil da dengue, dos seios siliconados, da febre amarela, do carnaval do abadá e do rouba-cá, das geladeiras novas do bolsa-família para poupar energia, enquanto entregamos Itaipu para o falsificado irmão Paraguai, da solidariedade latino-americana que é sempre contra nós, dos norte-americanos que ainda pensam que comemos bananas e temos cobras pelas ruas passando entre tiros de fuzil, pobre Brasil, em que os poetas não estão nas praças públicas, mas trombadinhas e mulheres grávidas morrem nas portas dos hospitais públicos, aqueles da saúde quase perfeita.
        Afinal temos um PAC de placas, discursos e pedras fundamentais, pastores bandidos que devem ao fisco e não podem ser investigados porque têm bancadas parlamentares, um congresso fascista, movido a facções profissionais como queria Mussolini, e  uma falsa esquerda, sempre ética antes de chegar ao poder e coberta de dossiês e socialismo de mercado quando encontra com ele. Pobre país em que temos quase 50 ministros, como na extinta União Soviética e 22 mil cargos de confiança, como em qualquer ditadura africana.
        Onde isso tudo vai acabar? Em nada. Na minha cama, Para onde irei como sempre, assustado, à espera do efeito do calmante…
 ___
* Waldo Luís Viana é escritor e economista.
Rio de Janeiro, 24 de abril de 2008.

“O INTERNO” escultura gigante de ron mueck.

INCANDESCENTE poema de lilian reinhardt

                 
                        “…
executo meus versos na flauta das minhas vértebras…”
                                            
(Maiakóviski)
                          
                                   
(líricas de um evangelho insano)

A taça de espumas seca o signo.
A matéria mágica dos sonhos
se molda ao pensamento.
Meus dedos cegos de luz
se alimentam e moldam a argila,
e o peso do teu breu molda
a minha alma incandescente.
Desde sempre moldam-se
os golpes da adaga,
desde sempre as margens
e as cabeceiras das águas são moldadas,
desde sempre a talha
nos costados selvagens
molda a boca, a língua
do vento que derrete o tempo,
da agulha que cose a pedra,
e lancina a toda boca devorada!

 

 

PAIS DESESPERADOS PEDEM AJUDA DA POPULAÇÃO – a pedido

Hoje faz 16 dias que a menina Janaína Lúcia Machi, 10 anos, saiu de casa com sua bicicleta azul para comprar pão e não mais voltou pra casa, em Alto Paraíso do Oeste (RO).

Caso alguém obtenha alguma informação ligue para o 190 do seu estado.

A MULHER – poema de manoel bomfim

Olá! Prezado JB Vidal,

Tenho trabaiado munto
Mas, referente ao assunto
De escrivinhar poesia
Pra  mim, é sempre uma alegria

Esse poeminha metido a poesia com arguns pés quebrados, eu escrevi em homenagem a mió coisa que Deus já criou nesse mundo, A M U I É… Hehehe

Veja-o.
         A MULHER
 
Eita! Que Deus tava inspirado
Quando fez sua maior obra prima
Acho que era um dia ensolarado
A brisa corria num ameno clima
 
Foi por demais feliz sua inspiração.
Naquele momento tão Divino
Sua cabeça cheia de imaginação
E os anjos no céu tocando sinos
 
Juntou as peças que tinha no chão
Lapidou com amor e sabedoria
Pegou cada pedacinho com a mão
E fez a BELA MULHER com Maestria
 
Depois, com plumas e lixa de algodão.
Modelou seu corpo com inteligência
Juntou a beleza com a afeição
Desafiou os homens e toda a ciência…
 
… Duvido que exista um único cientista
Que tenha capacidade de Me imitar
Como também, qualquer artista
Capaz de uma obra dessa… criar…!!!
 
Colocou nela o sexo feminino
Essa Deusa linda e tão desejada
Que o homem sonha desde menino
Deitar-se com ela e vê-la saciada.

Eu gosto tanto tanto de mulher
Infelizmente, só posso casar com uma
Mas, se a lei deixar e eu puder
Ainda vou arranjar mais uma ruma.

Não existe nada que se compare
A perfeição dessa obra tão rara
Que Deus me perdoe e me ampare
E nunca tire de mim, essa boa tara.

À minha mulher eu amo e tenho tesão
Vivo com ela sempre no pensamento.
Dormir ao seu lado é uma satisfação
E pra ela é todo o meu sentimento.

Um abraço

Manoel Bomfim
Natal – RN

tem um PObre queRENdo faLAR – por jorge barbosa filho

 

 

tem um PObre queRENdo faLAR.

 

 

            Acho que você já ouviu essa musiquinha da chamada a cobrar: tum TUM tum tum TUM tum tum TUM. Agora coloque a letra do título. Imagino que quem receba esta chamada fique contanto no pulsar do ritmo desta canção o quanto mais pobre ficará ao atender tal chamada. Imagino mais: quem é o filho de Deus que tem tamanha intimidade ou necessidade para ligar a cobrar, quando em nossas preces pedimos para ter uma vida economicamente melhor. Mais ainda: quem é este filha da puta que está sem dinheiro (ou está de sacanagem) que nos liga indiscretamente em hora imprópria e, por uma questão de educação, somos obrigados a aceitar tal acinte. Deve ser aquele amigo fudido, um parente cheio de motivos aparentes, um(a) namorado(a) animado(a) com as últimas confusões sentimentais ou foi engano! Talvez… Pois é, bovino leitor, alguém arranjou um motivo para te deixar irritado estragando seu orçamento e sua ocasião.

            Mas focado (palavra da moda e que transforma pessoas em lâmpadas) leitor, cada vez mais o mundo e as pessoas ao nosso redor pedem compreensão, auxílio, ajuda, carinho e doação (não esmola!!). Vivemos num mundo onde respirar ar frio ou quente custa dinheiro. Também custa, e muito caro, as ligações telefônicas, especialmente as “a cobrar”.  Atlético leitor, você que sempre correu atrás de resultados, (e nunca como os poetas e artistas atrás de significados), lute como consumidor pela baixa das tarifas telefônicas que são exorbitantes e estará melhorando (ainda não solucionando) e dando significado às suas relações mais próximas. Encare com propriedade, a preços módicos e reais, sem a eterna angústia do bolso, a possibilidade de falar com seus entes próximos e queridos mesmo que isto custe algo. Repare que toda relação tem um preço. Que seja baixo. Brigue por isto e notará como valerá a pena.

            Agelasto leitor, sei que seu humor não está lá estas coisas e que ninguém, nenhuma ONG, deputados, senadores, advogados, ou algum grupo de consumidores brigam por uma causa aparentemente insosa. As companhias telefônicas impuseram suas regras e não nos queixamos. Paga quem pode e quem não pode se sacode e liga a cobrar.

Não fizemos nada e só faremos quando perdermos alguma coisa importante. È assim que funciona a nossa classe média que paga seus impostos e move o país com seus tributos. É a filosofia do “deixa estar”, que só nos damos conta quando tudo está perdido. É assim em relação à violência social: as pessoas só se engajam em um movimento quando perdem um ente familiar e depois desfilam com a foto do dicfunto estampada na camisa querendo soluções.

Lembrem-se que quando um pessoa apontar-lhe uma arma enquanto estiver para do no sinal, escute a musiquinha: tem um PObre queRENdo faLAR. Isto também é uma ligação a cobrar.

tela de rettamozo. ilustração do site.

COMENTÁRIO de JONAS TADEU NUNES em “O PARTIDÃO versus FOQUISMO”, neste site

COMENTÁRIO:

 

JONAS TADEU NUNES

 

Manoel de Andrade, Lelo, poeta, pena forte e decidida, consegue transpor para o papel a luz do pensamento, consegue fazer com que as palavras revelem o que lhe vai na alma e, melhor, consegue comunicar sentimentos e visões interiores.
Parabéns, Manoel. Tenho lido e acompanhado teus textos e publicações, ou melhor, tenho tido o privilégio de poder ver de perto um verdadeiro escritor, um verdadeiro pensador, alguém que viveu e que transmite sua experiência e seu acervo interior aos demais.
Manoel de Andrade foi forçado a deixar o país, em 1969, perseguido pelas forças do obscurantismo reinante no Brasil. Saiu, abandonou tudo, família e amigos, para andar errante pelos caminhos dessa nuestra América rebelde. Seu caminho foi, certamente, um caminho de luz para tantos lutadores sociais, para tanta gente sofrida e carente de uma boa palavra.
Talvez o Brasil não conheça Manoel de Andrade como deveria, mas a América Latina o conhece e o respeita, como poeta, como criador e como pensador humanista. Seus livros eram daqueles que passavam de mão em mão, publicamente ou na clandestinidade. Sua intensa atividade como escritor o obrigava a fugir, de país em país, perseguido pela intolerância e pelos que temem o fulgor da palavra e a lâmina fina do verso.

Itajaí, 28 de maio de 2008.

Jonas Tadeu Nunes, produtor e apresentador do programa “Canto Libre, a Voz da América Latina”

 

veja o tema: AQUI

COMENTÁRIO de CÈDRIC PIOLAN em “AS NOVELAS da GLOBO a NOVA ARMA”, neste site

COMENTÁRIO:

CÈDRIC

 

Você está numa ONG de pessoas sem mídia? Acorda, isso é coisa do século passado. Hoje qualque cidadão pode ser a mídia e a internet está ai para provar isso.

Porque não abre um canal no YouTube e divulga o seu pensamento de forma audiovisual, como até as grandes redes de TV, que já possuem o domínio do latifúndio midiático nacional, estão fazendo?

Confrontrar a toda-poderosa e defender o Lula também acho uma besteira. O problema dos intelectuais e de seus aspirantes neste país ao meu ver, se resume à falta de exercício físico. Levantar da cadeira, reinvidicar e adentar os espaços de poder é o que falta a muitos que pretendem mudar a mídia e a política, mas ficam se restringindo a ficar onde estão: no conforto do lar com a comodidade de um notebook com banda larga.

Se você tem disposição, candidate-se a um cargo eletivo, deputado, presidente, vereador, o que seja. Mostre suas idéias, propostas e discuta com a sociedade.

O blog é uma ótima mídia, fazer crítica é ótimo e também necessário, para que se fomente discussões fora da virtualidade. Mas é preciso crescer, ter e divulgar voz.

Não espere respostas da mídia. Seja a mídia.

Um abraço,

Cèdric Piolan

 

veja o tema : AQUI

COMENTÁRIO de ANDRÉA POÇA em “DO PROIBIDO AO OBRIGATÓRIO”, neste site

COMENTÁRIO:

Andréa  Barreto M. da Poça

 

 

Adorei o Post. Sou Professora de Ciências, dou aulas de Educação Sexual para meninos e meninas de Escolas Públicas do Rio de Janeiro. E o que vejo é uma imensa massa de adolescentes que não tem informação, ou melhor tem a informação só mas não a transformam em conhecimento. E essa massa é empurrada a fazer sexo sem o menor preparo. Passamos do nada pode, para tudo vale. Já enfrentei meninos com 12 anos com Doenças Sexualmente Transmissíveis ou meninas com 11 anos, grávidas ! Isso é uma aberração! Não é natural. Eles não estão preparados para isso !
Parabéns pela coragem e clareza do Post ! Está na hora de falar o óbvio!

 

veja o tema: AQUI

PROPRIAMENTE DITO – por zuleika dos reis

 

 

 

                   Não tenho mais palavras para falar sobre isso. Isso continua existindo, mas não tenho mais palavras e não sei como isso pode continuar existindo sem palavras com que eu possa falar disso. Sem palavras para falar disso, não posso comparar isso com aquilo, não posso separar isso daquilo. Sem palavras sobre isso, não posso isso. No Princípio foi o Verbo e assim continua o mundo reconhecível, sem Depois nem Antes dizível.

                   Não tenho o verdadeiro verbo dos que ousam afirmar: Não desejo mais isso. Ainda desejo isso, as palavras disso, mas isso não se dá mais em palavras. Tampouco isso se dá no verdadeiro silêncio disso. Isso não se dá mais, no entanto continua e não sei como continua sem palavras nem silêncio. Isso é a impossibilidade possível na possibilidade impossível e a possibilidade impossível na impossibilidade possível das palavras a dizer isso e do silêncio a calar isso, que continua existindo e que ainda desejo, sem poder calá-lo, sem poder dizê-lo.

                   Um dia, eu tive as palavras disso. Elas vieram junto com isso, nasceram ambos ao mesmo tempo. Isso era o que se dizia disso e as palavras diziam o que era e o que não era isso. Nas palavras, o completo disso, seu tudo-nada. E o silêncio também era o sendo e não-sendo disso. E isso era pleno, na própria palavra e no silêncio próprio de si mesmo.

                   Agora, isso continua no seu sendo e no seu não-sendo. Mas, as palavras e o silêncio disso só não são, nunca mais sendo. Desde quando? Desde quando as palavras e o silêncio disso só não são, nunca mais são isso, que continua sendo só no alheio de si mesmo? Em que momento isso se tornou só isso? Como um coração que bate à nossa revelia? Por um átimo, quase senti o coração disso batendo.

                   O coração pulsa, isso ainda pulsa, mas não é um coração. Isso é isso, não é aquilo, aquilo nunca será isso. As palavras podem criar tudo, não podem transformar isso naquilo. Também o não-sendo disso não é o não-sendo daquilo.

                   Como isso continua, se as palavras disso, se o silêncio disso já não são? Como continua existindo o que não tem palavras nem silêncio? Talvez isso tenha se tornado outro-isso, habitante do Verbo e do Silêncio de outro mundo e, por essa razão, eu só poderia falar disso-outro, ou calá-lo, apenas com os verbos e os silêncios daquele idioma de mundo que não conheço.

                   Isso-outro não é mais isso para o quê havia as palavras do meu mundo. Talvez tenha se tornado apenas o eco do idioma de alguma civilização perdida, ou o eco do idioma de civilização futura, cujos verbos alguém que não eu pronunciará, cujo silêncio alguém que não eu calará, esse-outro-pretérito-futuro nunca sido nem jamais vindouro, desde sempre e para sempre o Diverso disso que, em instante irremediavelmente incognoscível, perdemos na palavra e no silêncio do presente mundo.

 

                  

                                                  

                    

arte digital de grendel. ilustração do site.

IF – by poetry jb vidal

 

 
I glance at the Universe
expecting to feel it,
pulse together, be limitless, be complete

 be it,

slowly, the image fades away
with no horizon, the retinae cannot remain focused
vision becomes heavy, eyes close, head over heels,

I spin inside myself
sweat rivers of salt,
feel and do not feel,
see everything and nothing
poorest, I  am  great,
great, I am my own Cosmos

look at indeed, look at myself

infinite seconds abducted me
react, return not!
misery not, war not,
starvation not,  plague not,
love not, hate not,
live not, die not,
conscience not!

life, life indeed

If I am, and I do not know where I am
I am what I do not know, where I am not in

O ENTERRO DE Nietzsche – por joão batista do lago

Esta é uma revelação que guardei por muitos anos, e que dou, aqui e agora, a conhecer a todo mundo – quem o quiser saber. Não lhes peço credibilidade quaisquer, pois credibilidade não se dá, se constrói. Ela é um dos enigmas da filosofia pura: não está antes e nem depois. Ela só existe no aqui e agora. Mas, se chegastes até aqui – aviso-te: ainda tens tempo suficiente para usar da tua autonomia e abandonar-me, a mim e a este relato, antes que te o seja caro, que te o envolvas definitivamente na sua trama – é porque desejas saber realmente como aconteceu o enterro de Nietzsche. Eu afirma que foi exatamente  como relato. Eu estava lá. Duvidas? Então acompanha-me…

Antes de tudo devo matar essa tua curiosidade! Naturalmente desejas saber quem sou. Não quero deixar a impressão de um ser grosseiro, mal educado, irreverente, prepotente ou qualquer outro adjetivo que, porventura, me queiras administrar. Mas hás de convir comigo: não estou aqui para dar conta de minha vida. Ela tem muito pouco interesse para ti. Ela não representa o que estás a pensar neste exato instante: “Ecce homo deve ser mais louco que o próprio Nietzsche”.

Não é isso que pensas neste momento?

Sinceramente, para mim pouco se me dá o teu pensamento… Ele é só um pensamento (há muitos outros pensamentos não seguidos, por exemplo, e por isso mesmo adormecidos). E posso inclusive dizer-te que ele não é real – é pura e tão-somente uma representação do real no campo da irrealidade presente em tua memória inestética.

Concordas comigo? Ou não?

Se não concordas, por quê então acreditas que Nietzsche inferiu que Deus está morto? Acreditas que Deus está morto? Mas, se concordas comigo, então, quem está morto és tu. Concordas? Assim sendo tu não existes. Tu não és real. Correto?

Bem te avisei: já não mais tens o direito de deixar de me acompanhar neste relato, pois dele tu serás discípulo e apóstolo – já te enfiastes até o pescoço, faltando, apenas, dar-me a tua cabeça para pensá-la comigo. Ou então serás, apenas, túmulo e morte.

Concordas? Duvidas?

Mas com o que exatamente concordas? E do que estás a discordar? […] Ah, estás pensando no Deus que Nietzsche disse está morto…

“Quem matou Deus?” – É este o teu pensamento agora?

Para resolver esta tua curiosidade tu precisas, primeiramente, resolver a questão anterior à morte de Deus. Proponho-te a seguir que te faças uma pergunta: quando Deus nasceu? De quem ele nasceu? Onde Deus nasceu? Não vale responder com dogmatismos religiosos. Isso é senso comum. E o senso comum é o não-pensamento. Esta resposta merece o teu pensamento, portanto, pergunto-te: o que pensas aqui e agora? Veja bem: aqui e agora, neste instante… O que pensas? […]

Pronto, dei-te a ti e ao teu pensamento os tempos necessários. Digo-te, agora, o seguinte: toma-a (a tua resposta) e guarda-a bem dentro do teu pensamento. Mas antes precisas responder se o pensamento existe, como te propus lá atrás… Nunca esqueças disso. Uma coisa tem a ver com a outra. Todas se interpenetram. Ah, mais uma coisa: foge imediatamente dessa tua dualidade. A dualidade é uma falsa representação da realidade. A dualidade não é Real. Pensar pela ótica da dualidade implica reduzir a vida simplesmente à causa e efeito. E a vida não é só isso: causa “versus” efeito.

Ou é?!

Mas, se não é, então, o que é a vida? E se ela é, então, o que ela é? O que diz o teu pensamento a este respeito?

Dá-me, a mim, aqui e agora, o teu pensamento para junto pensarmos. Pensemos: se a vida não é, o Homem (homem/mulher) não é. Deus não O é. O Ser não É… É não-Ser!

Mas a vida sendo o homem não é… Deus não O é! O Ser não É. Assim não sendo tudo é representação. Concordas? Não concordas? Então toma este poema e pensa-o:

 

Descaminho

 

Há uma pedra no caminho;

no caminho há um homem.

 

Há um homem no caminho;

no caminho há uma pedra.

 

Há um caminho sem uma pedra;

no caminho não há um homem.

 

Há um caminho sem um homem;

no caminho não há uma pedra.

 

Há uma pedra livre porque o caminho está livre do Homem.

Há um homem livre porque o caminho está livre da Pedra.

Há um caminho livre porque o Caminho está sem uma pedra.

Há um aminho livre porque o caminho está sem um Homem.

 

[…]

 

Há um Caminho livre por quê não há nem Homem, nem Pedra!

 

E agora, que me dizes tu? Qual caminho tu tomarás como teu? O caminho livre do Homem? O caminho livre da Pedra? Ou o Caminho (simplesmente) livre – sem nem um homem, sem nem uma pedra?

Mas a todas estas questões quero inserir mais uma: – Qual caminho tomou Nietzsche quando inferiu a morte de Deus? Qual a realidade de Deus, em que realismo Deus existe? Ou Deus é só romantismo? E mais uma pergunta: – Por quê inferir apenas a morte de Deus? E o Diabo?… Existe? Continua vivo? Ou também foi morto? Por quem? E se ambos existem – ou existiram –, quais caminhos tomaram como seus? Vê o que nos diz o poeta:

 

A Maçã do Éden

 

o cadáver da vida

floresceu entre os parreirais

o diabo lho fizera prece

deus e o diabo beberam

do mesmo vinho dionisíaco

hoje apolínicos em suas dimensões

ambos reclamam Adão e Eva

 

E aí, que me respondes tu, diante dessa celeuma que deblatera dentro do teu espírito?

Êpa… mas que é isto, o Espírito? De que matéria constitui-se o Espírito? Quem te deu esse espírito? Se o tens, o que és então: matéria ou espírito? E se te condensas nos dois, quem é o desencadeador da Razão? E a Razão o que é senão a realidade da matéria? Se a Razão é, pois, a realidade da matéria, o espírito não tem razão de Ser? Concordas? […]

Ah, resolvestes dar o ar da graça…

Discordas do meu pensamento! Então discutamos o teu pensamento.

Presumes que o espírito é Deus. Correto? Pois bem… Se o espírito é Deus, tu és Deus. Concordas? Ah, não concordas! Neste caso nem tu, nem Deus, existem. Concordas comigo que tu não É, assim como Deus não É? Discordas!

“Deus é o Princípio e o Fim” – dizes-me tu.

Consideras um Fim em Deus, então, dás razão a Nietzsche… – “Deus está morto”. Neste caso, assim como Nietzsche, tu aceitas como Verdade a preexistência de Deus… Correto? Ah, Deus está fora de si? Onde? […]

Bem, sei que estás cansado… Mas eu também, contudo, vejamos até onde chegamos: à Verdade.

Tomas o meu pensamento por Verdade?

Se assim o consideras, elejo-te, então, meu discípulo e apóstolo. Se não me tomas por verdadeiro, então qual é a tua verdade? Qual caminho tu seguirás após nossa conversa? Qual pensamento será o teu desencadeador de agora por diante? Terás um pensamento próprio ou continuarás refém de outros pensamentos?

[…]

Ah, ia-me esquecendo: no dia do enterro de Nietzsche postei-me ao lado esquerdo do caixão. Era madrugada. Entre 2 horas e 3 horas da madrugada. Somente eu estava ao lado do caixão. Ele olhou-me. Sorriu faceirosamente e, com um estupendo gozo eterno confidenciou-me:

– Vocês são todos loucos, mas dou-te, somente a ti, meu caro Atsitabj Ogal, este meu testamento: não fui eu quem matou Deus… (cochichando) …nem sei se Deus morreu… (piscou o olho para mim e acenando com a cabeça pediu que eu chegasse mais perto) …foi a humanidade… o homem… o humano… foram as religiões que mataram Deus. Ah, quanto ao Diabo, nem se preocupem, ele não fará tanto mal assim como pregam por aí…

[…]

Será que me compreenderam!? Dionísio contra o crucificado!? – (depois desta frase desfaleceu).

[…]

Depois do enterro, no dia seguinte, Lou Salomé, que tomava café ao meu lado, confidenciou-me:

– Nietzsche queria ser Deus…

 

           

            cézanne. ilustração do site.

ROSA CHÁ AZUL ANIL poema de bárbara lia

Alma rosa chá.
Vestida de rosa chá.
Na casa rosa areia.

Leva – enquanto passeia –
um oceano de espantos
nas mãos:

Cinzas de rosas
no ar do quarto do avô
morto.

Mistério ácido na boca
– sabor do fruto vítreo –
de figueira desconhecida.

Açúcar cristal brilha
– mínimas estrelas –
nas mãos.

Céu rosáceo de Dali
desce ao chão
e incendeia
o futuro lilás:

rosa chá + azul anil

Linhas do destino
emaranhadas
– já no ventre
de nossas mães.

E apenas agora
o homem sagrado
envolto em acordes
de estrelas no cio.

– meu azul demorado!

LUA, A RIVAL poema de marilda confortin

 

Sabe aquela lua âmbar que apareceu ontem à noite? Linda, né?

Pois é… os homens são apaixonados pela lua. As mulheres não.

As mulheres são apaixonadas por homens que se apaixonam pela lua.

 

A lua e eu

 

Infelizes rivais, somos

A lua e eu.

 

Ela no espaço,

Longe dos seus braços

Contenta-se em segui-lo,

Sem nunca alcançá-lo.

 

Eu, tão perto,

Há anos luz de seu afeto

Contento-me em sabê-lo

Sem nunca tocá-lo.

 

Estranho acordo, fizemos

A lua e eu:

 

À noite,

Ela ilumina os passos desse homem,

E eu sonho com seu rosto.

De dia ela some,

E eu assumo seu posto.

 

Parceiras suicidas, somos

A lua e eu:

 

Enfeitiçadas por esse amor platônico

Sob o olhar atônito das estrelas

Morremos e nascemos noite e dia.

Eu, incandescente Fênix,

Ela, encantadora e fria.

 

JIA LÉVISTA poema de jairo pereira

JIA LÉVISTA

o signo quer existir existe sem minhas nominações :significante ou significado: sujeito ou objeto reflexo do reflexo sua nathureza isenta do olhar do homem o signo quer viver anárquico independente corrido na frente do pensamento jksdfjklsdfnb

fdsbjjkdjJKSDFmn

bejaseeuh

o signo insuflado de revoluções no mundo do incriado núcleos funções desígnios das partículas comunicantes

no mundo do incriado incrio o gesto transignificado concebo estruturas híbridas de vozes diferenciadas no mundo do incriado transitam minhas vespas ciberaéreas módulos (semas semantemas) grafados na matéria loidal ;o pântano da não-razão:

:  no pântano da não-razão nasce grande parte de minha poesia

:por isso a chamo

de jia lévista:

 

Stultorum infinitus est numerus (*) – por walmor marcellino

Ao assumir, em 2003, era dever do governo Luiz Inácio Lula da Silva fazer um acerto de contas com o governo anterior. Isso não foi e não é um assunto pessoal entre Fernando-Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva; é assunto de governo, questão de Estado. Porém, as leniências e acordos de compadre vão mostrando que a política da ameaça-de-rabo-exposto faz parte dos interesses e das relações sociais de classe nobre; mesmo quando ferrenhos opositores se defrontam. E o PT não mexeria no rabo do PSDB para não ter o rabo em jogo.

Algum genioso patife, senador, deputado ou juiz contesta que esse dever de esmiuçar as contas e os procedimentos na transmissão de cargo deva ser cumprido?

Pois bem, passada a oportunidade da diferenciação essencial de programa e mandato, o que o governo petista deveria ter feito era reunir em um dossiê as informações passadas ‑ a que acabou sendo mais tarde levado por acurácia ideológica e defesa política. Só que esse dossiê legítimo e legal enquanto registro privativo do poder não poderia ser exposto ou até esgrimido para ameaçar e/ou chantagear os adversários.

Eis que então a desídia funcional de alguém da Casa Civil se somou ao despeito e mal-querença de outrem já exonerado e deserdado dos poderes burocráticos. De confidências a arquiteturas, convidaram outro transgressor para fazer um escândalo com os dados ainda em sigilo; só que esse tertius era um senador da República que transformou a “contravenção” ou “crime” que se seguiu à inconfidência funcional, em um fato político na forma de divulgação. A razão do interdito legal da divulgação se consumou com a deliberada ação criminosa do senador, que sequer tinha levado o caso à direção do Senado Federal a que pertence. E nem sequer o veículo “transmissor da ilegalidade” foi objeto de denúncia.

Como não entendo a moralidade própria dessa elite política, fico na minha: divulgar fatos oficiais protegidos por segredo é transgressão funcional e crime civil; acoitá-los como depositário-intermediário é cumplicidade e crime; e divulgá-los é o desiderato do mesmo crime da subtração e quebra de sigilo. Afinal, de que é que os palhaços estão ainda falando? Ou saltimbanco sou eu que não compreendo a política?

 (*) Versículo 15, capítulo I, do Eclesiastes: “Os perversos dificilmente se corrigem e o número dos insensatos é infinito”.)

 

foto sem crédito. ilustração do site.

EDU HOFFMANN e seus HAI CAIs

I Ching

 

 

 

                  ou fico

 

 

 

                ou pássaro

 

 

=

 

 

                o dia acorda

 

           com cara de boa noite

 

               estrelas no chá 

 

 

=

 

                 antes só capim

 

              olhares de ikebana

 

              florescem o jardim

 

 

 

                 poeta róe

 

           todas unhas do dia

 

         lambe dedos da noite

 

=

 

 

                   cheguei amargo

 

                minha flauta doce

 

                    nem se toca

 

 

CERTAS CONCEPÇÕES… por darlan cunha

CERTAS CONCEPÇÕES DE VIDA  a estupidez é irmã dela.
**

A ingratidão se veste de maneiras inúmeras. A ingratidão pode se disfarçar disso e daquilo, quer ser camaleoa ou camaleão, simbiose, etc, mas sempre eu a tenho sob reserva.

Pode durar dois anos ou dez anos, eu a desnudo, sim, a ingratidão gosta de ficar nua.

FIESTA. WHAT AN UNUSUAL WORD !

Tu fiesta es una fiesta sin invitación. Hay tanta belleza y acción aquí que nadie se puede aburrir ni colgarse o desplegar-se por las calles con malas palabras. Es una fiesta sin tiempo, sin sillas, sin ninguna fecha – ayer, mañana… nada más que una increíble fiesta sin cuchillos ni ballazos.

 

Do you think too much ?

*****

BUSTAMANTE E BUÇOFRIO, LINOCA E RUTILDES, ou seja, A PLEBE IGNARA.

 

Tu gostas de curvas fechadas quanto de buracos quentes, aos quais só se atrevem os duros de coração e os avaros por aventuras de morte a qualquer custo, oui

gastas boa parte do tempo com estas sórdidas clientes cotidiáridas com seus gelos e suas glosas, todas com seus tiques de gente atrabiliária, com nódoas que extrapolam e avançam, sempre pensando em indizíveis prêmios… yes

a nobreza obriga que se agache de jeito elegante, com todos os molúsculos relaxados a contento, sim, a rasteira sugere que se tenha certa dosagem de cor primária na tez, mas sabe-se que a vida tem muitos gumes, que é arma bronca em negro tabuleiro – broncos e ocos são os homens, turvas e vagas as mulheres.

A vida é uma armação mais pavorosa e bela do que a que se vende nas esquinas de que tanto gostas, mas por trás destas curvas está o mais legítimo “Zás… apanhei-te, queridinho”.

*****

P&B

Por trás da fotografia em preto
& branco vive o convite, manual
de interpretações

mil, Manuel,

audazes sejamos cada um e cada uma
para irmos lá
e refazer com dentes
& unhas as contas que abrem

o imaginário nosso de cada dia.

Recém-nascida / poema de manoel de andrade

                                        para Isabela

 
Teus olhos,
abrem o mundo…
inauguram o destino…

Teu ser…
luz que escavou o ventre em busca do amanhecer,
é a véspera de toda  ventura
o talvez de tudo
uma aurora retirada do mistério.

Passo a passo… e encantada…
ressurgiste na semente peregrina
caminhando como seiva palpitante.
Penetraste nos segredos da criatura
decifrando os idiomas do encanto.
Atravessaste as fronteiras do impasse
e de forma em forma, de reino em reino,
pelas fácies primordiais da vida,
gestada pelo código das espécies
pelo tempo imensurável dos enigmas
e por esse umbilical território da beleza… tu chegaste!

Retornas com o véu do esquecimento
desterrando sombras
e anunciando a esperança.
E agora já és promessa e reencontro,
um botão se entreabrindo num parto de louvores
e assim…eis  a rosa…
a rosa amanhecida
a flor… enfim…
a flor imprescindível.
                                                              
                                                      

Teus olhos
corolas cristalinas de ternura
âncoras da luz e do silêncio,
são retratos adormecidos de outras eras
sóis  que acordarão novas primaveras
cantiga antecipada de  lirismo
invadindo a aldeia da minha melancólica poesia.

Dádiva perfeita
viandante de todos os caminhos
filha  milenar do tempo e das estrelas…
o meu amor apenas germinou teus passos
e construirá contigo um caminho para o sol.

 
                                                            Curitiba, esboçado em junho de 1980
                                                                            reescrito em junho de 2004

Este poema consta do livro Cantares  publicado por Escrituras.

 

CLUBE de CRIAÇÃO do PARANÁ, CONVIDA!

DE TEMPOS… – poema de olavo tenório


De tempos em tempos penso no tempo

Tempo atemporal

Sobra diáfana

Augusta suspensão

De corpo ausente

Augusta interlocução

De mente presente

Correndo em direção

Não da discórdia

Não da concórdia

Correndo em direção

Do tempo

No contratempo

A gente se encontra

No compromisso

Dá gente nervosa


Na métrica

Mecânica

Da forma

Tempo desloca

Assumidamente sem compromisso

Daquilo que sei.

IMPÉRIO ROMANO (27 a.C. a 476 d.C.) – pela editoria


Depois de um século de lutas civis, o mundo romano estava desejoso de paz. Octavius Augustus se encontrou na situação daquele que detém o poder absoluto num imenso império com suas províncias pacificadas e em cuja capital a aristocracia se encontrava exausta e debilitada. O Senado não estava em condições de opor-se aos desejos do general, detentor do poder militar. A habilidade de Augustus – nome adotado por Octavius em 27 a.C. – consistiu em conciliar a tradição Republicana de Roma com a de monarquia divinizada dos povos orientais do império. Conhecedor do ódio ancestral dos romanos à instituição monárquica, assumiu o título de imperador, por meio do qual adquiriu o Imperium, poder moral que em Roma se atribuía não ao rei, mas ao general vitorioso. Sob a aparência de um retorno ao passado, Augustus orientou as instituições do estado romano em sentido oposto ao republicano. A burocracia se multiplicou, de forma que os senadores se tornaram insuficientes para garantir o desempenho de todos os cargos de responsabilidade. Isso facilitou o ingresso da classe dos cavaleiros na alta administração do império. Os novos administradores deviam tudo ao imperador e contribuíam para fortalecer seu poder. Pouco a pouco, o Senado – até então domínio exclusivo das antigas grandes famílias romanas – passou a admitir italianos e, mais tarde, representantes de todas as províncias. A cidadania romana ampliou-se lentamente e somente em 212 d.C. o imperador Marcus Aurelius Antoninus, dito Caracalla, reconheceu todos os súditos do império. O longo período durante o qual Augustus foi senhor dos destinos de Roma, entre 27 a.C. e 14 d.C., caracterizou-se pela paz interna (Pax Romana), pela consolidação das instituições imperiais e pelo desenvolvimento econômico. As fronteiras européias foram fixadas no Reno e no Danúbio, completou-se a dominação das regiões montanhosas dos Alpes e da Península Ibérica e empreendeu-se a conquista da Mauritânia.

CAPITOLIO. maquete de Roma antiga.

O maior problema, porém, que permaneceu sem solução definitiva, foi o da sucessão no poder. Nunca existiu uma ordem sucessória bem definida, nem dinástica nem eletiva. Depois de Augustus, revezaram-se no poder diversos membros de sua família. A história salientou as misérias pessoais e a instabilidade da maior parte dos imperadores da Dinastia Julius-Claudius, como Caius Julius Caesar Germanicus, Caligula, imperador de 37 a 41 d.C., e Nero, de 54 a 68 d.C.. É provável que tenha havido exagero, pois as fontes históricas que chegaram aos tempos modernos são de autores que se opuseram frontalmente a tais imperadores. Mas se a corrupção e a desordem reinavam nos palácios romanos, o império, solidamente organizado, parecia em nada ressentir-se. O sistema econômico funcionava com eficácia, registrava-se uma paz relativa em quase todas as províncias e além das fronteiras não existiam inimigos capazes de enfrentar o poderio de Roma. Na Europa, Ásia e África, as cidades, bases administrativas do império, cresciam e se tornavam cada vez mais cultas e prósperas. As diferenças culturais e sociais entre as cidades e as zonas rurais que as cercavam eram enormes, mas nunca houve uma tentativa de diminuí-las. Ao primitivo panteão romano juntaram-se centenas de deuses e, na religião como no vestuário e em outras manifestações culturais, difundiram-se modismos Egípcios e Sírios. A partir de suas origens obscuras na Judéia, o cristianismo foi-se aos poucos propagando por todo o império, principalmente entre as classes baixas dos núcleos urbanos. Em alguns momentos, o rígido Monoteísmo de Judeus e cristãos se chocou com as conveniências políticas, ao opor-se à divinização, mais ritual que efetiva, do imperador. Registraram-se então perseguições, apesar da ampla tolerância religiosa de uma sociedade que não acreditava verdadeiramente em nada. O império romano só começou a ser rígido e intolerante em matéria religiosa depois que adotou o cristianismo como religião oficial, já no século IV. O século II, conhecido como o Século dos Antoninus, foi considerado pela historiografia tradicional como aquele em que o Império Romano chegou a seu apogeu. De fato, a população, o comércio e o poder do império se encontravam em seu ponto máximo, mas começavam a perceber-se sinais de que o sistema estava à beira do esgotamento. A última grande conquista territorial foi a Dácia e na época de Trajanus (98-117 d.C.) teve início um breve domínio sobre a Mesopotâmia e a Armênia. Depois dessa época, o império não teve mais forças para anexar novos territórios.

moeda do Império Romano.

Uma questão que os historiadores nunca conseguiram esclarecer de todo foi a da causa da decadência de Roma. Apesar da paz interna e da criação de um grande mercado comercial, a partir do século II não se registrou nenhum desenvolvimento econômico e provavelmente também nenhum crescimento populacional. A Itália continuava a registrar uma queda em sua densidade demográfica, com a emigração de seus habitantes para Roma ou para as longínquas províncias do Oriente e do Ocidente. A agricultura e a indústria se tornavam mais prósperas quanto mais se afastavam da capital. No fim do século II, começou a registrar-se a decadência. Havia um número cada vez menor de homens para integrar os exércitos, a ausência de guerras de conquista deixou desprovido o mercado de escravos e o sistema econômico, baseado no trabalho da mão-de-obra escrava, começou a experimentar crises em conseqüência de sua falta, já que os agricultores e artesãos livres haviam quase desaparecido da região ocidental do império. Nas fronteiras, os povos bárbaros exerciam uma pressão crescente, na tentativa de penetrar nos territórios do império. Mas se terminaram por consegui-lo, isso não se deveu a sua força e sim à extrema debilidade de Roma. O século III viu acentuar-se o aspecto Militar dos Imperadores, que acabou por eclipsar todos os demais. Registraram-se diversos períodos de anarquia militar, no transcurso dos quais vários imperadores lutaram entre si devido à divisão do poder e dos territórios. As fronteiras orientais, com a Pérsia, e as do norte, com os povos germânicos, tinham sua segurança ameaçada. Bretanha, Dácia e parte da Germânia foram abandonadas ante a impossibilidade das autoridades romanas de garantir sua defesa. Cresceu o banditismo no interior, enquanto as cidades, empobrecidas, começavam a fortificar-se, devido à necessidade de defender-se de uma zona rural que já não lhes pertencia. O intercâmbio de mercadorias decaiu e as rotas terrestres e marítimas ficaram abandonadas. Um acelerado declínio da população ocorreu a partir do ano 252 d.C., em conseqüência da peste que grassou em Roma. Os imperadores Aurelianus, regente de 270 a 275 d.C., e Diocletianus, de 284 a 305 d.C., conseguiram apenas conter a crise. Com grande energia, o último tentou reorganizar o império, dividindo-o em duas partes, cada uma das quais foi governada por um augusto, que associou seu governo a um caesar, destinado a ser o seu sucessor. Mas o sistema da Tetrarquia não deu resultados. Com a abdicação de Diocletianus, teve início uma nova guerra civil. Constantinus I favoreceu o cristianismo, que gradativamente passou a ser adotado como religião oficial. A esclerose do mundo romano era tal que a antiga divisão administrativa se transformou em divisão política a partir de Theodosius I, imperador de 379 a 395 d.C., o último a exercer sua autoridade sobre todo o império. Este adotou a Ortodoxia Católica como religião oficial, obrigatória para todos os súditos, pelo edito de 380 d.C.. Theodosius I conseguiu preservar a integridade imperial tanto ante a ameaça dos bárbaros quanto contra as usurpações. No entanto, sancionou a futura separação entre o Oriente e o Ocidente do império ao entregar o governo de Roma a seu filho Honorius, e o de Constantinopla, no Oriente, ao primogênito, Arcadius. A parte oriental conservou uma maior vitalidade demográfica e econômica, enquanto que o império ocidental, no qual diversos povos bárbaros efetuavam incursões, umas vezes como atacantes outras como aliados, se decompôs com rapidez. O rei godo Alarico saqueou Roma no ano 410 d.C. As forças imperiais, somadas às dos aliados bárbaros, conseguiram entretanto uma última vitória ao derrotar Átila nos Campos Catalaúnicos, em 451 d.C. O último imperador do Ocidente foi Romulus Augustus, deposto por Odoacrus no ano 476d.C., data que mais tarde viria a ser vista como a do fim da antiguidade. O império oriental prolongou sua existência, com diversas vicissitudes, durante um milênio, até a conquista de Constantinopla pelos Turcos, em 1453.

FORUM. Roma antiga. maquete.

 

Os povos indígenas do Xingu e a Hidrelétrica Belo Monte – por Dom Erwim Kräutler, Bispo do Xingu

matéria enviada por MAY WADDINGTON colaboradora deste site no norte do país.

“É teu povo, Senhor, que eles massacram,

é tua herança que eles humilham!”

(Sl 93 (94),5)

 

Uma história que não é de hoje

O Xingu é um rio peculiar e único. Não dá para compará-lo com qualquer outro rio da Amazônia. Só ele faz aliança com o majestoso Amazonas através de um largo delta. Na foz, suas lindas águas verde-esmeralda se mesclam com as águas barrentas do rio-mar no qual se perde finalmente acima do Forte de Santo Antônio de Gurupá. Percorreu 2045 km desde o Mato Grosso, onde nasce a 600 metros acima do nível do mar na junção da Serra do Roncador com a Serra Formosa.

 

O Xingu é misterioso. Seu nome até hoje não tem explicação etimológica. Alguns estudiosos querem traduzi-lo como “casa dos deuses” ou melhor “Casa de Deus”, mas não se tem certeza qual seria a verdadeira raiz subjacente a este nome. Suas águas ora são calmas e pacíficas formando extensos lagos, ora furiosas e indômitas quando se estreitam em perigosas cachoeiras que já ceifaram muitas vidas de viajantes desavisados ou afoitos que teimaram enfrentá-las. Pode ser que não seja a Casa de Deus, mas que é um rio sagrado para os povos que habitam nas suas margens há milhares de anos, quem teria a ousadia de negar!

 

O Xingu narra a história do paraíso de antanho e repete as palavras divinas “E Deus viu tudo o que tinha feito: e era muito bom” (Gn 1,31). Mas conta também a história da rebelião contra Deus, da prepotência e arrogância dos homens que queriam ser como deuses (cfr. Gn 3,5). Relata ainda a violência assassina que ceifou a vida do irmão e brada pelos séculos afora a palavra de Deus: “Que fizeste! Ouço o sangue de teu irmão, do solo, clamar por mim!” (Gn 4,10).

 

Na realidade, as águas do Xingu deveriam ter a cor do sangue por causa das inúmeras chacinas que se perpetraram ao longo dos séculos passados. A fúria antiindígena assassinou com armas de fogo a índios munidos apenas de arco e flecha e bordunas. Os invasores misturaram nas praças das aldeias com o barro vermelho também o sangue de indefesas mães e mulheres grávidas, jovens e crianças recém-nascidas. Milhares tombaram!

 

O mundo que se autodenomina de “civilizado” fechou os olhos, mostrou indiferença diante do sangue indígena bradando por justiça, gritando pelo direito de viver, reclamando a pátria que Deus criou para estes povos, defendendo o chão de seus mitos e ritos, chorando a terra onde sepultaram os antepassados. Até hoje o índio é chamado com desprezo de “silvícola”, um termo que insinua tratar-se apenas de algum bípede a mais, sem inteligência e livre arbítrio. Grande parte da sociedade envolvente vê ainda os povos indígenas como uma horda de malfeitores, de agressores hostis, selvagens, traiçoeiros, bárbaros, cruéis, não-confiáveis.

 

A história dos índios é uma história de rios de sangue derramado. Assim, tudo que hoje acontece de desfavorável, de adverso faz emergir do inconsciente coletivo destes povos todo o sofrimento do passado, toda hostilidade de que foram vítimas desde que os europeus fincaram o pé neste continente e os bandeirantes avançaram em todas as direções abrindo caminho a ferro e fogo.

 

Não faz tanto tempo que o próprio órgão governamental encarregado de proteger os povos indígenas, o Serviço de Proteção ao Índio – SPI, participou de massacres. Foi extinto por causa da repercussão no exterior das escandalosas carnificinas e substituído pela Fundação Nacional do Índio – Funai. Em 1967 veio à tona o assim chamado “Massacre do Paralelo 11” que aconteceu em 1965. Um seringalista do Mato Grosso deu ordem para exterminar uma aldeia. Primeiro sobrevoaram o povoado e jogaram bombas, depois entraram na aldeia e mataram a todos. Eu mesmo vi uma fotografia que mostra uma mulher indígena presa pelos pés, de cabeça para baixo, ladeado por dois homens brancos com facões. Esquartejaram a mulher. A mera lembrança da foto me causa arrepios. Isso não aconteceu no tempo dos bandeirantes, mas há apenas pouco mais de quarenta anos.

 

Naquela mesma década de 60 outra agressão bem planejada aconteceu no Xingu. A ação criminosa nunca foi investigada. Os criminosos não foram identificados e punidos por homicídio qualificado cometido em série. Alguns políticos queriam a todo custo tirar Altamira do ostracismo. A cidade precisava ser ligada através de uma estrada – mesmo que fosse apenas uma picada – com Santarém, o portal a dar acesso ao mundo.

 

O empecilho para concretizar o intento foram os índios Arara que viviam na região que hoje coincide com os municípios de Medicilândia e Uruará. Mas para não frear o progresso “esses selvagens” tinham que ser “eliminados”. Se a expedição avistasse um índio Arara, a ordem era de executá-lo imediatamente! Não se sabe do número exato de índios Arara mortos naquele tempo. Só se sabe que foram muitos. Morreram até eletrocutados quando se aproximaram do barraco da “força expedicionária” circundado por uma cerca de arame conectada com um grupo gerador. Os índios queriam ver os “brancos”, seguraram no arame e levaram choques de 220 volts.

 

A história deste povo que vivia sossegado no meio da mata entre Altamira e Santarém culminou em outra tragédia durante a construção da Transamazônica. A nova rodovia passava a três quilômetros da aldeia dos Arara no igarapé Penetecaua. Os índios foram até perseguidos por cachorros. A forçada convivência com o mundo dos brancos trouxe doenças como gripe, tuberculose, malária. Outros tantos morreram. O mundo lá fora, no Brasil e no exterior, nada soube desta desgraça que desabou sobre um povo. Continuava a aplaudir “a conquista deste gigantesco mundo verde”, palavras que constaram da placa afixada no tronco de uma castanheira derrubada quando o presidente da República deu solenemente início aos trabalhos de construção da Transamazônica. A que preço! Nunca me esqueço do dia em corria a notícia de que, finalmente, os “terríveis índios Arara” haviam sido dominados. Como prova de que o “contato” tinha sido um sucesso total, trouxeram uns representantes daquele povo que até então vivia livre na selva xinguara. Nus, tremendo de medo em cima de uma carroça, foram expostos à curiosidade popular como se pertencessem a alguma rara espécie zoológica.

 

Vivemos em outros tempos. Pelo menos assim pensamos. Celebramos 60 anos de promulgação da Carta Magna dos Direitos Humanos. Qualquer discriminação racial é condenada. É proclamada a igualdade de povos e raças. No Brasil temos desde 1988 uma Constituição Federal em que os direitos indígenas são inscritos no Artigo 231. Foi abolida a tutela de um órgão estatal. Os indígenas, outrora equiparados aos menores de idade e aos deficientes mentais, alcançaram plena cidadania, não precisando mais ser tutelados. Tem todo o direito de ir e vir como qualquer brasileiro. Mesmo assim, enquanto já estamos festejando os 20 anos da Constituição “cidadã”, parte da imprensa ainda não se inteirou desta novidade constitucional e há jornais insistindo que “a Polícia Federal deverá pedir explicações à Funai (…) já que o órgão é o tutor legal dos índios brasileiros[1].

 

O salto qualitativo da letra constitucional para o chão concreto da realidade em que os povos indígenas vivem ainda não aconteceu. Se uma demarcação de área indígena é concluída com a homologação pelo presidente, prevista em lei, um clamor ensurdecedor se levanta pelo Brasil afora, reclamando que “há muita terra para pouco índio”. E o pior aconteceu há algumas semanas em Altamira. Uma rádio local se desdobrou em berrar agressões verbais contra os índios, insultos racistas que fazem inveja ao tratamento destinado aos judeus pelo regime nazista. Pensávamos que tais excessos pertencessem a um passado longínquo e tivessem sido há muito tempo extirpados do vocabulário jornalístico. Infelizmente nos enganamos. A onda antiindígena assume novamente proporções alarmantes.

 

De Kararaô a Belo Monte

Muitos não recordam o tempo a ditadura militar e, já que a memória tem fama de ser curta, poucas pessoas se lembram dos mandos e desmandos dos presidentes plenipotenciários daquela época. Um deles foi o general Emílio Garrastazu Medici. Tornou-se célebre pelo Projeto de Integração Nacional e a construção da rodovia Transamazônica, inaugurada em setembro de 1972. Foi a década do “Integrar para não entregar” e de outro slogan que desencadeou uma migração sem precedência no Brasil. “Terra sem homens para homens sem terra!” exclamava eufórico o general-presidente, o que não deixou de ser um tremendo insulto aos povos indígenas que há milênios habitam a Amazônia. O presidente simplesmente os ignorou, despojou-os da cidadania, negou-lhes a existência, considerou-os definitivamente mortos.

 

Milhares de famílias rumaram do Nordeste, Centro, Sudeste e Sul para a Amazônia. No entanto, o Projeto de Integração Nacional previu também a construção de barragens. A rodovia cortou os grandes rios nas proximidades das principais quedas d’água. Já em 1975 a Eletronorte contratou a firma CNEC (Consórcio Nacional de Engenheiros Consultores) para pesquisar e indicar o local exato de uma futura hidrelétrica. Em 1979 o CNEC terminou os estudos e declarou a viabilidade de construção de cinco barragens no Xingu e uma no rio Iriri, maior afluente do Xingu. Ao povo do Xingu negou-se qualquer informação mais detalhada. Só se sabia que o governo pretendia tocar a construção o quanto antes possível.

 

Os povos indígenas reagiram pela primeira vez em 1989. Vieram uns 600 índios para Altamira e hospedaram-se no centro Betânia da Prelazia do Xingu. Vieram para protestar contra a decisão do governo de sacrificar o rio Xingu. O encontro que os índios chamaram de “Primeiro Encontro das Nações Indígenas do Xingu” realizou-se entre os dias 20 e 25 de fevereiro de 1989 e alcançou uma enorme repercussão nacional e internacional.

 

A foto que retratou a cena em que a índia Kayapó Tuyra encostou a lâmina de seu facão no rosto do então presidente da Eletronorte e hoje presidente da Eletrobrás, José Antônio Muniz Lopes, percorreu o mundo inteiro e virou a logomarca da oposição indígena ao projeto de hidrelétrica. Tuyra tornou-se a mulher mais famosa do mundo Kayapó, mãe carinhosa com seus filhos e ao mesmo tempo guerreira intransigente quando se trata da defesa de sua terra e seu rio. Pouco depois daquele memorável encontro, o Banco Mundial negou o suporte financeiro e o projeto foi arquivado. Nunca, porém, foi abandonado. Já na década de 90 foi desengavetado e veio à tona com mais força.

 

No inicio do mês de junho de 2007, reuniram-se outra vez representantes de vários povos indígenas do Xingu no Centro Betânia da Prelazia do Xingu e insistiram que colaborássemos com eles para promover um Encontro dos Povos Indígenas semelhante àquele que aconteceu em 1989. Os índios pretendiam chamar a atenção do Brasil e do mundo, condenando o projeto faraônico que ameaça imolar ao deus-progresso o rio Xingu que para eles é sagrado, símbolo da vida, dádiva de Deus.

 

No dia 3 de junho de 2007, os participantes do encontro foram para a beira do rio, em Altamira, para uma manifestação contra o projeto de hidrelétrica ressuscitado que recebeu o nome “Belo Monte” em substituição à denominação anterior “Kararaô” que equivale a um grito de guerra do povo Kayapó. Mudou apenas o nome! O atual governo o considera prioridade no Plano de Aceleração do Crescimento (PAC). O presidente Lula antes de ser eleito manifestou-se contra Belo Monte. Do mesmo jeito vários membros do Congresso Nacional, entre eles o deputado federal Zé Geraldo (PT/PA), eleito pelas comunidades do Xingu, declararam-se visceralmente contrários, quando estavam em campanha eleitoral. Mas que surpresa para todos nós: depois de eleitos mudaram de posição. O que antes condenaram com veemência, de repente, da noite para o dia, passaram a defender com unhas e dentes. O que estaria por trás dessa repentina metamorfose camaleônica?

 

Doravante, o povo do Xingu é informado de que se trata apenas de uma Unidade Hidrelétrica (UHE) e não mais de um Complexo Hidrelétrico. Não deixa de ser uma mentira deslavada que se propaga sem nenhum pudor, um artifício empregado propositadamente para ludibriar o povo. Todo mundo sabe que seria um incalculável desperdício investir bilhões de reais em uma usina que durante o verão tropical não tem condições de funcionar plenamente quando o volume de águas do Xingu diminui. É a estação em que extensas praias de areia branca e dourada emergem das águas cristalinas transformando a região numa paisagem deslumbrante.

 

Mas os barrageiros não se deixam impressionar pela beleza exótica do Xingu. Já baixaram a sentença e fim de papo. O rio tem que ser sacrificado! É o preço a pagar! Outras barragens serão necessárias e estão programadas! Para adiantar o serviço, a Eletrobrás já dispõe de todo o “inventário” do Xingu com o respectivo mapa que prevê os barramentos e as áreas alagadas até acima da cidade de São Félix do Xingu. Parece tratar-se de estudos clandestinos, pois não são acessíveis ou revelados ao público, algo que deve estar levando o carimbo “matéria altamente confidencial” ou “segredo de Estado”. Por que todo esse sigilo?

 

No mesmo dia 3 de junho de 2007 um cacique Kayapó subiu num caminhão estacionado na avenida que margeia o Xingu, pegou o microfone e indagou gritando: “O que será de nossas crianças?” e acrescentou: “Não permitimos que as sepulturas de nossos ancestrais vão para o fundo!”. Enquanto empresários e comerciantes defendem Belo Monte na acalentada esperança de “chuvas de dinheiro” desabando sobre Altamira e não se preocupam com as consequências perniciosas para a vida de milhares de pessoas – mormente a população das baixadas que terá suas casas e propriedades alagadas, enquanto os membros desse consórcio empresarial abertamente demonstram que não lhes causa nenhuma inquietação se áreas indígenas demarcadas e homologadas são alagadas e o povo ribeirinho prejudicado – enquanto essa gente que em sua grande maioria veio de outros estados não tem nenhuma dor de consciência diante de um programado desastre ecológico irreversível, um índio, até hoje considerado um supérfluo resíduo da idade da pedra lascada, esse índio discriminado e tratado com desdém ou desprezo, é quem dá uma lição a toda a sociedade. Esse consórcio “comercial, industrial e agropastoril” só pensa em si. Não mantém laços nem com o passado, nem os estabelece com as futuras gerações, não se relaciona nem com quem vivia antes nem com quem vem depois. É uma associação de gente imediatista, interesseira e egoísta que aposta apenas em lucros fabulosos e declara guerra a quem tiver a petulância de se opor a sua ambição e ganância que não respeita nada e ninguém.

 

De repente, um índio chama a atenção para o direito das futuras gerações que também querem viver e estabelece ainda uma ponte com os antepassados, de quem herdamos este mundo que Deus criou. O índio teve a coragem de alertar para as consequências nefastas de um projeto megalomaníaco. À beira do rio, indígenas e não-indígenas se deram as mãos para selar o pacto de lutar contra a destruição do rio e da vida: Xingu Vivo para Sempre!

 

Em 1989 os índios se manifestaram, em 2007 insistiram de novo num grande encontro e mostramo-nos sensíveis ao pedido de todos os povos indígenas da bacia do Xingu.

 

Por que representantes da Eletrobrás ou Eletronorte nunca passaram por uma única aldeia para ouvir os índios a respeito de Belo Monte? Por que não pediram ajuda de quem realmente entende do mundo Kayapó para manter contatos com esses povos que são os primeiros a habitar esta terra? Por que essa discriminação, exclusão, marginalização dos povos autóctones? Por que?

 

Nas audiências chamadas “públicas” não se fala a verdade nem existe real possibilidade para o povo manifestar as suas dúvidas, fazer indagações e apresentar críticas. Essas audiências são apenas parte de um ritual em que os enviados da Eletrobrás ou do governo recitam o rosário de vantagens e benefícios. Só vantagens! Só benefícios! Parece terminantemente proibido criar no povo a sensação de que possa haver alguma sequela negativa ou algum dano irreparável. Se alguém se atrever em insistir e opor-se ao discurso oficial, a resposta repetida até criar náuseas é e será sempre: “É o preço a ser pago pelo progresso!” “É a exigência do desenvolvimento”.

 

Instados a explicar o que entendem por desenvolvimento e progresso, recusam-se a responder. Dizem que não não vieram para discutir questões “ideológicas”. Fato é que a Eletrobrás sabe o que convém à sociedade, não ao zé-povinho. Causa realmente espécie a repetição de slogans, chavões pré-fabricados não com a intenção de esclarecer, mas de cooptar.

 

Veja-se o caso da índia Xipaia que está sendo aplaudida pelo pessoal do Consórcio e filmada afirmando que está a favor de Belo Monte, porque “o índio está no escuro”. Sei quem é essa senhora. Ela mora há décadas na cidade e há luz na casa dela desde que a energia elétrica chegou a Altamira. “Cimi não dá dinheiro! Dom Erwin não dá dinheiro! Eletronorte dá dinheiro, paga conta! Por isso somos a favor de Belo Monte!” são frases que foram ouvidas na aldeia de determinado grupo que se distanciou dos outros povos indígenas do Xingu e não participou mais de nenhum evento. Que maneira mais esdrúxula de defender a “UHE Belo Monte”, cooptando índios menos avisados e ainda acenando com vantagens financeiras aos que prometem defender o projeto.

 

Obcecado pela idéia de acelerar o crescimento da economia, o próprio presidente Lula identificou como “entraves” a esta medida a questão dos índios, dos quilombolas, dos ambientalistas e até do Ministério Público. Considerou ainda “penduricalhos” os artigos da legislação ambiental pois estes parâmetros legais estariam travando o desenvolvimento do país. Por isso a ordem é de desconsiderar ou, pelo menos, não dar tanta importância a impactos sociais e ambientais. Caso contrário, o país estaria condenado à estagnação.

 

Mas, já que são exigidos estudos preliminares no caso de uma hidrelétrica, o governo encarrega os primeiros interessados no projeto, os grandes empreendedores, de providenciar os estudos de viabilidade ou de impacto ambiental e social. Terão a seu dispor cientistas de sua inteira confiança que na mais cega obediência aos ditames superiores corroborarão a tese que já é definida antes do estudo: o impacto ambiental e social será mínimo ou praticamente nulo. Alega-se: “O Brasil não pode esperar!” Ou alguém pensa que uma dessas empresas esteja interessada em apontar impactos ou danos sociais e ambientais? Isso equivaleria a cortar o galho em que estão sentadas.

 

A pergunta chave é: A quem mesmo interessa Belo Monte? Ao Brasil? Vai melhorar o padrão de vida dos paraenses, dos xinguaras, do povo de Altamira, Vitória do Xingu, Souzel, Anapu, da Transamazônica, do Baixo Xingu? A energia, a quem será destinada? Todos sabemos que serão mais uma vez beneficiadas as multinacionais que vivem às custas do Brasil com todas as mordomias fiscais e facilidades energéticas.

 

O preço da energia para a família brasileira é escandaloso, é exorbitante, mas as empresas transnacionais contam com a benevolência magnânima dos sucessivos governos. O Pará, a Amazônia é considerada mera “província” energética, mineral, madeireira, última fronteira agrícola… Nunca saiu dessa categoria de “província”. A metrópole, o centro nevrálgico das decisões e deliberações, sempre se encontra alhures! Pouco interessa à metrópole se os povos da “província” passam bem ou vão de mal a pior. Algumas migalhas sempre caem, mais por descuido do que por amor aos pobres.

 

E os nossos políticos, em vez de questionar esse sistema iníquo, de criticar estruturas prejudiciais aos povos da Amazônia, de exigir direitos e “royalties”, aplaudem de pé e não hesitam em apelar até para a terminologia teológica quando falam em “salvação”, “redenção” da região, do Pará e da Amazônia. Infelizmente nada entendem da máxima do grande Santo Tomás de Aquino: “Gratia supponit naturam” (a graça pressupõe a natureza). No contexto da Amazônia, jamais haverá redenção se a criação for arrasada, destruída, aniquilada. Aí só vai sobrar a desgraça, o caos, o apocalipse.

 

Xingu Vivo para Sempre

No dia 19 de maio de 2008 tive o privilégio de fazer a abertura do encontro Xingu Vivo para Sempre no Ginásio Poliesportivo de Altamira. Mais de 600 indígenas, mulheres, homens e crianças, entraram solenemente no recinto, cantando e dançando, erguendo suas lanças, bordunas e facões. Quem não se emocionou quando os índios Kayapó cantaram o Hino Nacional em sua língua materna! A platéia aplaudiu entusiasmada.

 

Apresentei todos os caciques das 24 etnias presentes e saudamos os outros participantes do evento chamando-os por município. O ar foi festivo, animado, algo excepcional, pois não é todo dia que se vê tantos indígenas, pintados segundo suas tradições, dançando de acordo com os seus ritos milenares e cantando num idioma ancestral enquanto se movimentam num ritmo tão peculiar. Volta e meia, uma ou um Kayapó levanta para fazer s