Arquivos de Tag: hamilton alves

VOAR NAS ASAS DE UM POEMA de hamilton alves /florianópolis

Costumo dizer que, de quando em vez, vôo nas asas de um poema meu. Ocorre em determinados dias em que estou mais propenso a essa acrobacia. Não é, pois, sempre que isso acontece. Há que ter fatores propícios para possibilitar essa manobra do espírito. Ou uma perfeita sintonia com o teor do poema, que tem que combinar, por exemplo, com a cor do dia, se faz sol ou sombra, se venta e que tipo de vento, se norte ou sul, se encontro determinados tipos de pessoas, que estimulam esse processo ou o alimentam de qualquer modo ou ainda a cor do mar preponderante ou se revoltoso ou calmo – tudo isso me permite ter mais ou menos sucesso na prática desse salutar esporte. No sábado passado, encontrei o clima propício ao vôo com o poema que segue:

“As ondas batendo

Nas rochas dizem:

– efêmero! efêmero! efêmero!

As nuvens no alto

Seguem o mesmo estribilho:

– efêmero! efêmero! efêmero!

As gaivotas grasnando

Como que ensandecidas

Entoam idêntico cântico:

– efêmero! efêmero! efêmero!

O vento que sopra

Uivando feito lobo

Faz coro a tais vozes:

– efêmero! efêmero! efêmero!”

Dois peritos em poesia fizeram uma rápida abordagem sobre esse poema. Um me disse que, se excluísse os terceiros versos da terceira e quarta estrofes, o poema ganharia em beleza ou talvez em harmonia ou estaria mais bem expresso; outro opinou de forma diferente, alegando que, se fizesse essa operação, sugerida pelo primeiro, o poema desabaria na sua estrutura ou na sua expressão mais bela.

O caso é que, no sábado passado, como dito, voei nas asas desse poema (como outros tenho conseguido esse mesmo objetivo). Essa discussão, que se travou entre dois ledores, críticos de literatura ou conhecedores profundos de poesia, pouco pode ser por mim considerada, haja vista que estava entretido a visualizar a paisagem em volta.

Não há experiência, na verdade, mais interessante e divertida do que voar nas asas de um poema de que se gosta. Ou de alguma forma se aprecie. É uma forma inesquecível e inexprimível de giro por aí.

O ATEISMO DE SARAMAGO por hamilton alves / florianópolis

Nenhuma pessoa, por mais considerável seja seu cabedal de conhecimentos, cultura, etc., tem condições de afirmar, categoricamente (a não ser que seja muito leviana), que Deus não existe. Assim como, de outra parte, não se pode dizer o contrário. Nem uma nem outra das duas correntes têm suficiente cacife para dizê-lo com profundo conhecimento de causa. Deus continua sendo uma incógnita. Há sábios de nomeada, como Kierkegaard, Chesterton, Unamuno e tantos outros que são acirrados defensores da ideia de que Deus existe. Outros tomam partido contrário e são igualmente nomes notáveis da ciência.

José Saramago, escritor, Nobel de literatura, de vez em quando, molha a sua pena, que vai meio gasta a essa altura (nunca mais escreveu um livro que preste), para tomar partido contra a existência de Deus.

Que sabe um escritor desse assunto?

Será ele um filósofo de alguma escola famosa?

Será um teólogo de formação em alguma universidade ou doutourou-se nesse tema?

É apenas e tão somente um escritor.

Um escritor escreve livros.

Devia se limitar a essa função e não dar palpite sobre o que não conhece especificamente. Ou conhece pouco. Ou nada.

Numa entrevista que concedeu a um jornal, falando do lançamento de seu novo livro, que leva um título bem sugestivo, que deve envolver tema religioso – “Caim” – volta a repetir o que se sabe, sendo ateu de carteirinha – que “as religiões têm feito mais mal do que bem à humanidade e que, por isso, o mais sensato é acabar com elas”.

E remata, a certa altura, o Sr. Saramago:

“O cérebro humano é um grande criador de absurdos. E Deus é o maior deles”.

Seria de responder que o cérebro humano, sim, faz coisas capazes de inspirar um homem aparentemente tão certo do que diz que o levou ao comunismo, mesmo sabendo dos horrores que esse regime causou em todo mundo, especialmente na URSS, onde Stalin imperou longos anos, cometendo toda sorte de atrocidades, ao regime de Castro, com um cartel semelhante de truculências, vindo Saramago declarar-se há pouco contra medida de Fidel por ter assassinado três jovens, que numa balsa pretenderam fugir do “paraíso” cubano. Antes tinha jurado simpatia ao regime de Fidel – “José Saramago, Nobel de literatura, proclama sua adesão à revolução cubana” – foi mais ou menos o que disse quando de sua visita a Cuba.

Acredite-se num homem que assim tergiversa e muda de bandeira da forma como lhe sopram os ventos.

“Deus não existe fora da cabeça das pessoas que Nele creem” – foi outra de suas afirmações nessa entrevista.

Que certeza fundamental terá Saramago de que Deus existe ou não?

Deve tê-la descoberto numa bola de cristal ou na consulta a alguma pitonisa.

Até hoje, que eu saiba, não apareceu nenhum sábio conhecido capaz de afirmá-lo com absoluta segurança de sua veracidade.

Saramago faria melhor se cuidasse de sua literatura, que nesses últimos tempos tem ido tão mal.

POLANSKI por hamilton alves / florianópolis

Roman Polanski, o cineasta de tantos filmes que marcaram época e se constituem alguns deles clássicos do cinema, como, só para citar alguns, Chinatown, O bebê de Rosemary e outros, vem de ser preso, quando chegava num dia desses ao aeroporto de Zurique, por ordem da justiça americana, sob a alegação de que tivera relação sexual com uma menor.

O crime foi cometido em 1977. Há, portanto, 32 anos.

Para qualquer justiça de país civilizado, esse crime não poderia provocar mais qualquer tipo de efeito contra o infrator por se lhe aplicar a figura da prescrição, pelo qual o Estado não tem mais interesse em punição (nem pode moralmente aplicá-la) pelo decurso de certo tempo previsto nas legislações penais desses países.

Será tão caduca assim a legislação penal dos EUA, que lá não se aplique idêntico preceito?

Ou será o crime sexual contra menores imprescritível por aquelas bandas?

No Brasil, não há exceção pela natureza do crime para efeito de prescrição, que eu saiba.

O efeito retardatário da pena apresenta-se, à primeira vista, como uma coisa anacrônica. É evidente que, no decorrer do tempo prescricional (assim fixado expressamente na lei), o infrator mudou a forma de ver as coisas, regenerou-se ou passou por uma transformação moral ou psíquica, arrependeu-se ou qualquer coisa dessa ordem, que sugere que a pena por um crime passado não tem mais sentido. Ou perdeu a razão de ser ou de sua aplicabilidade.

A adotar-se tal medida, a imprescritibilidade da pena, resulta que o infrator de um crime (ou infração) nunca deixará de ser perseguido pela justiça, mesmo que o decurso do tempo lhe tenha produzido profunda modificação no comportamento. Ou outro seja seu padrão moral. Ou tenha havido substancial mudança em sua índole ou conduta.

O processo estará em seus calcanhares até que a pena seja aplicada, mesmo que, como o caso de Roman Polanski, os efeitos ainda durem depois de 32 anos de ter praticado o delito pelo qual fora imputado.

O que, a bem dizer, é uma velharia da lei penal dos EUA, em descompasso com as demais legislações de outros países, como o Brasil, por exemplo, em que, no caso, a pena há muito teria prescrito. A não ser que na legislação americana (o que não ocorre com a nossa) haja determinados tipos de infrações imprescritíveis, como será a de manter congresso carnal com uma menor, de cujo crime é imputado o cineasta.

Mas como quer que seja, após 32 anos, nenhuma pena pode ser sensatamente aplicada a um infrator, independentemente da natureza do crime, pois o processo de erosão do tempo sobre os efeitos da pena se operou, a contra-indicar que o Estado ainda revele interesse em sua adoção.

O caso que agora se dá de prisão de Roman Polanski, que tem uma série de grandes filmes em seu currículo (o que não o isentaria de responder por um crime, fosse qual fosse)

é revelador, antes de mais nada, do desatualização da legislação penal americana. O que é, em última análise, de provocar pasmo.

E A CRÔNICA SE FOI! por hamilton alves / florianópolis

Não sei atribuir a que motivo, acordei hoje e logo me deparei com um tema que poderia bem aproveitar para uma crônica.

Na vida de um cronista (ou de um poeta) a inspiração ocorre num repente, oriunda não se sabe de onde.

Não tomei nota do tema (poderia fazê-lo, se fosse mais cuidadoso); nunca o faço; deixei para tratá-lo depois do desjejum.

Um pouco depois, quando me sentei diante do computador para desenvolvê-lo, cadê o tema. Tinha se esboroado sem deixar um único vestígio.

Por mais que, ainda agora, me esforce para recuperá-lo (e se tratava de um bom assunto para explorar em lauda e meia digitada – ia dizer datilografada – lá se foram os bons tempos da máquina de escrever, da qual de vez em quando lanço ainda mão), tudo resulta baldado.

A solução é me conformar, embora sinta muito pesar de não me lembrar dele, que ficará sepulto para  sempre na minha memória. Podia ser uma boa página de crônica, quem sabe lá?

Ocorreu o mesmo fenômeno com o poeta Manuel Bandeira, certa vez. Como conta em seu livro “Itinerário de Pasárgada”. Só no caso dele aconteceu não com uma crônica, no que ele era bom também, mas com um poema.

Estava em determinado local quando subitamente um poema se desenvolveu em sua mente por inteiro, do primeiro ao último verso. Vasculhou os bolsos atrás de um toco de lápis e de um pedaço de papel; não os encontrou para seu desespero.

Perguntou a uma pessoa, que por ali passava, naquele momento, se podia lhe conseguir um mísero instrumento de escrever, qualquer que fosse; nada.

Bandeira saiu esbaforido em busca de um lugar onde encontrasse o tal lápis ou outro objeto que lhe permitisse dar corpo ao poema.

Finalmente, num bar (ou em outro lugar semelhante) encontrou o tão desejado lápis (nem era lápis, era uma caneta esferográfica). Mas decepção das decepções. Era tarde demais. Assim como o poema se compôs inteiro em sua mente, desapareceu como uma nuvem ou um sonho.

Ficou certamente supondo que aquele teria sido um de seus grandes momentos como poeta, que se perdera ou ficara no ar com sendo algo que se tornou de beleza sem igual (um poema abortado na mente).

Assim aconteceu-me com a crônica, que, igual ao poema de Bandeira, nunca virá à luz. E constituirá um motivo de amargura ou frustração.

MEU AMIGO QUINTANA por hamilton alves / florianópolis



Lembro-me saudosamente o dia em que fui ao encontro do poeta Mário Quintana, num apartamento, no Hotel Royal, muito bem acomodado ali, que o jogador de futebol Falcão lhe emprestou para morar. Pouco tempo antes disso, a Prefeitura de Porto Alegre o despejou de um cômodo, pertencente à municipalidade. Não fosse Falcão, Quintana teria amargado horas ruins.

Mario me recebeu muito bem. As prateleiras de seu quarto eram recheadas de livros. Mário sempre viveu à volta deles.

Nossa entrevista foi curta. Não tratamos de literatura, como se poderia supor.

Trocamos algumas palavras dessas corriqueiras, comuns entre amigos que se visitam.

Mário era servido por uma secretaria, que, na hora em que o visitei, lhe preparava um lanche.

Além dos livros, que ocupavam algumas das estantes já referidas, vi um quadro de muito mau gosto a uma parede. Mas, claro, não cheguei a tocar nesse assunto para o Quintana. Só fiquei julgando que provavelmente não se interessasse por pintura. Devia ser um quadro que fora dado por um amigo ou amiga ou um visitante inesperado como eu.

Fui lhe mostrar um livro de crônica. Fora a Porto Alegre à procura de editor.

Disse-lhe das dificuldades de um escritor pouco ou nada conhecido de conseguir publicar um livro de crônicas, ainda mais se tratando desse gênero maldito. Ele replicou:

– Os editores sempre criam dificuldades para editar um livro, mas no fim acabam editando.

Não lhe mostrei os manuscritos, que trazia numa pasta. Ele, obviamente, não teria o menor interesse de ler minhas crônicas.

De-repente, sem mais aquela, Mário se esticou numa poltrona (acima da qual estava o dito quadro). E entendi que dava por encerrada a entrevista comigo.

Não ficamos só nisso na passagem por seu apartamento.

Deu-me de presente um de seus livros de prosa e poesia (mais deste do que daquele gênero). Fez-me uma dedicatória:

“Para Hamilton Alves de seu colega e amigo Mário Quintana – Natal de 84”.

Nesse livro, desponta um poema que é representativo do estilo de Quintana de compor versos. Intitula-se “Poeminha do contra”. Ei-lo:

“Todos esses que aí estão

Atravancando o meu caminho,

Eles passarão…

Eu passarinho!”

Perdi o contato com esse belo livro, que me fora dedicado pelo Quintana, editado pela “Mercado Aberto”, de Porto Alegre, sob o título “Sapo Amarelo”.

Hoje, percorrendo a minha biblioteca atrás de um livro de outro poeta, acho-o escondido entre outros numerosos livros.

Veio-me à lembrança a tarde de 84 em que vim a conhecer Quintana, esse poeta de poemas tão leves e que parecem voar como se fossem passarinhos, como bem expressa esse que transcrevi nesta crônica.

Ele mesmo, tal qual me surgiu aos olhos nesse dia,  parecia-me um pequeno e frágil passarinho.

(out/09)

SARAVÁ, WALMOR! por hamilton alves / florianópolis

Conheci Walmor Marcelino há muitos anos, quando ainda a escola, que freqüentávamos, era, como se costuma dizer, risonha e franca. Falo da escola de jornalismo em que iniciamos praticamente juntos, no Diário da Manhã, do Zedar Perfeito da Silva, velho jornalista e escritor.

Ali ensaiamos os primeiros passos dessa atividade para a qual éramos vocacionados e que só largaríamos, como o fez Walmor, no fim da jornada. Carregou bravamente a tocha até o último suspiro.

O jornalismo que fez foi diferente do meu – um jornalismo de linha de frente, de combate pela justiça social, como bem assinala o necrológio feito na edição de ontem deste “blog”.

Marcelino pensava o mundo por um viés humaníssimo. Queria que todos tivessem acesso aos bens da vida e notadamente aos mais preciosos: educação, saúde, habitação, etc. Por isso, sempre combateu ao lado dos fracos e oprimidos com destemor. Pagou alto preço quando imperou neste país o regime militar, sendo preso várias vezes.

Walmor foi sempre fiel aos seus ideais, Não tinha temperamento nem muito menos formação para aderir, por exemplo, à linha burguesa de ação, na qual sabia que militavam os oportunistas, os que querem os cargos não para exercê-los no bem de todos mas no interesse de grupos (tipo Sarney, p. ex.) – só para citar um lídimo representante dessa corrente.

Walmor era um idealista e seu ideal estava colocado acima do cidadão Walmor Marcelino. Colocava-o muito alto, a uma altura quase inalcançável pela maioria de seus concidadãos. Era meio quixotesco na forma como encarava sua brava luta. Sabendo-se quase só ou um dos poucos que ainda alimentavam esse sonho de transformação do mundo pela perseverança ou pela doutrinação desses ideais puros.

Marcelino editou meu primeiro livro – uma pequena novela – a que dei o título de “O velho da aldeia”. Ele o alterou para “O velho e a aldeia”, que lhe dava uma semelhança com a novela de Hemingway “O velho e o mar”. Mas não fez isso deliberadamente; nunca o faria. Deve ter se equivocado. Acompanhei-o até sua casa, em Curitiba, para pegar os trezentos exemplares do livro. Antes havíamos nos encontrado na Ilha e me perguntou: – “Tens alguma coisa para editar?”

Guardava os originais datilografados dessa novela na gaveta fazia um bocado de tempo.

Mostrei-os para o Walmor. Levou-os para editar. Poucos meses depois entrou em contato comigo, informando-me que concluira a edição por sua editora “Hoje”. Fiquei radiante com a beleza, embora artesanal, da edição desse livro.

Há pouco, o Vidal , editor deste “blog”, me convidou para um encontro com ele em Santo Amaro da Imperatriz, onde fora descansar. Mas subitamente       teve que retornar a Curitiba. Perdemos essa chance de voltar a nos ver e relembrar os velhos tempos.

Walmor fez grandes amigos aqui na Ilha e certamente em Curitiba, onde morou longos anos, vindo a falecer há pouco.

Era um dessas raras figuras de combatente,  de uma só têmpera, de uma só linha, de um caráter inquebrantável na defesa destemida de seus sonhos.

Legará seu exemplo de retidão e de espírito de luta.

Saravá, Walmor!

O CASO TOFFOLI por hamilton alves / florianópolis

Os golpes baixos não param nunca de detonar neste país. Agora, apresenta-se aos olhos dos espectadores da cena nacional o caso do advogado José Antonio Dias Toffoli, advogado geral da União, e ex- (ou ainda é?) advogado do PT, que foi ungido por Lula (não consigo chamá-lo de presidente depois do conhecido episódio Lina Vieira x Dilma Rousseff) ao cargo de Ministro do Supremo Tribunal Federal. O caso é que a justiça do Amapá condenou-o (ao eleito de Lula) com uma sentença condenatória de devolução aos cofres públicos da vultosa soma de R$420 mil reais por ter havido, segundo se divulga, afronta à Lei das Licitações e ao princípio da moralidade administrativa (Estado de S. Paulo, de 21/09/09). Sustenta-se ainda que Toffoli teria sido reprovado duas vezes em concurso para Juíz de Direito e que, por isso mesmo, põe-se em dúvida sua competência ou capacidade profissional para ser investido nas funções de Ministro do Supremo Tribunal Federal. Acusa-se o advogado ainda de firmar contrato irregular para representar o Estado do Amapá nos tribunais superiores, em Brasília, à época do governo de João Capiberibe (PSB).

Toffoli é tido como inexperiente e despreparado para ocupar o STF, além de ligado ao PT (não seria outro o motivo pelo qual Lula o teria indicado ao cargo), especialmente ao ex-deputado José Dirceu. A condenação sofrida pelo advogado pela justiça do Amapá à devolução da importância referida representa mais um desgaste para vir a ser efetivado no cargo de Ministro do Supremo, segundo algumas opiniões que analisam o caso.

Num dia desses, o presidente do STF, José Mendes (que é conhecido por posições jurídicas discutíveis, que vêm assumindo frente a algumas questões debatidas bem recentemente, defrontando-se com oposição no seio do próprio STF, como no caso das denúncias formuladas contra José Sarney, que foram todas arquivadas. Liderou a corrente a favor de tal decisão ou fez parte do grupo que as rejeitou), saiu em defesa de Toffoli, minimizando a decisão da justiça do Amapá. Para ele, Mendes, na condição de advogado militante é absolutamente rotineiro alguém sofrer ações e eventuais condenações na justiça. E salientou: “Até me surpreende que não tenha havido mais processos”. Ó, senhor dos céus, onde chegamos!

Segundo o Ministro Presidente, tudo isso não constitui motivo para que o Senado recuse a indicação ao Supremo do nome de Toffoli. Ó, senhor dos céus, para onde vamos?!

Anuncia-se que aliados, no Palácio do Planalto, estariam defendendo a aprovação do nome de Toffoli ao STF. Ó, senhor dos céus, por que novos descaminhos segue este país!

Tudo como dantes no quartel de Abrantes. Nenhuma novidade à vista. Tudo sob o império do facilitário.

DISCURSO DE POSSE por hamilton alves / florianópolis

Sabe-se que Drummond recusou-se de pertencer aos quadros da Academia Brasileira de Letras, com horror do fardão e de proferir o discurso de posse. Imagino qual teria sido, aproximadamente, numa ocasião dessas, caso aceitasse integrar-se àquele sodalício (ó, palavrinha horrível):

“Meus senhores,

Eis-me aqui eleito para esta Academia, à qual fui convidado a candidatar-me à vaga de Fulano de Tal. Não falarei desse Fulano porque mal o conheci e mal o li.

O convite, podeis crer, foi inesperado. Pois jamais sonhei ou sequer cogitei de um dia vir a pertencer aos vossos quadros e formar convosco sob o teto desta vetusta e respeitável casa.

Aqui estou. E, na verdade, nem sei para que. Ou com que cara.

Vacilei muito entre aceitar ou não o convite que me foi formulado por um de vós.

Foi, para mim, crede-me, honraria excessiva, eu que me reconheço um modesto poeta, com uma dúzia, se tantos, de poemas bem realizados, um dos quais sempre esperei que uma comissão julgadora, formada por ilustres personalidades, incluísse  entre os dez melhores do mundo, que considero o que corresponde as minhas exigências – “José”, que, no entanto, foi preterido por dois de Fernando Pessoa. Mas fazer o que?

Estou aqui, para minha surpresa ou perplexidade, vestindo esse fardão, que podeis perceber não me assentar bem. Sinto-me ridículo nele. E, sobre tudo isso, pesa-me. E de dois modos: pesa-me por ser o vosso fardão, instituído por esta casa; pesa-me porque é uma roupa que não me vai bem.

O que faz a vaidade!

Não encontro palavras para expressar o meu ingresso nesta Academia, que conta com figuras tão eminentes quão respeitáveis. Quisera me sentir à altura de todos os senhores para bem merecer vestir esse fardão e receber o título de acadêmico.

Mas farei tudo por merecê-los, eu que, de mim, sou refratário a todos esses incômodos rapapés.

Sou, de natureza, um homem simples, que não se sente confortável sob as luzes da fama ou do aparato acadêmico.

Que mais direi neste momento de tanta solenidade quanto de perplexidade para minha modéstia?

Acho que disse tudo o que me cabia.

E mais não direi”.

Ao fim, Drummond, com apertos de mãos e calorosos abraços, tomaria assento em sua cadeira. Seguir-se-ia, muito certamente, o chá das cinco, tão costumeiro e tradicional na Casa de Machado de Assis. Para gáudio de todos os presentes e do eleito.

TRÊS MONSTROS SAGRADOS por hamilton alves / florianópolis

Num dia desses, um amigo me brindou com a remessa de uma mensagem contendo o registro de Tom Jobim e Elis Regina cantando a memorável e inexcedível composição “Águas de Março” (letra e música, como sabido, casaram-se às mil maravilhas).

Me deleitava com essa audiência, com Tom na flauta, acompanhando Elis, os dois se entreolhando, quem sabe se namorando e, no fundo, se amando (tinham, na realidade, uma gamação um pelo outro  no plano da amizade que não escondiam ou não conseguiam esconder). Tom era ainda um moço bem aprumado de pouco mais de trinta anos, certamente. Elis estava na flor da idade também. Os dois exuberavam talento. Mas a vida, como sempre, fez o resto. Levou-nos os dois, ela de forma trágica. E a música popular brasileira, claro, tinha só que murchar e empalidecer.

Mas como dizia, estava assim a apreciar os dois grandes artistas quando Ilmar Carvalho – como sempre o faz – me liga do Rio. Ilmar não é apenas um excelente cronista, resenhista, melômano de mão cheia, crítico musical de clássico e popular, mas é, acima de tudo isso, um homem que acompanha o quadro cultural urbi et orbi.

Referi-lhe a coincidência de sua ligação, sendo ele, como dito, um apaixonado ou aficionado da MPB, com o fato de me deparar com os dois (Tom e Elis) na tela do computador, com essa beleza de canção.

Foi então que me contou duas histórias envolvendo Tom (há muitas, claro). Uma das quais ligada ao caso que lhe mencionei de ser Tom grande admirador de Drummond. Ele emendou, em seguida: – A admiração era tal que, quando, certa vez, Tom se encontrou com Drummond, numa rua de Copacabana, abaixou-se e lhe beijou os pés.

E disse-me mais: que essa letra de “Águas de Março” foi considerada a mais bela da música popular mundial        .

Aproveitei a oportunidade para lhe dar duas informações sobre o poeta: 1) que Houaiss recebeu missão dos membros da Academia Brasileira de Letras para convidar Drummond a integrá-la. Para isso, foi visitá-lo em seu apartamento na rua Conselheiro Lafayette, em Copacabana. Drummod recebeu-o amavelmente. Houaiss lhe disse que, para ingressar na ABL, Drummond precisaria apenas se candidatar; mais nada; o resto os membros da ABL fariam.

Drummond disse a Houaiss que se sentia muito sensibilizado com o convite, mas não conseguia se ver envergando o fardão de acadêmico nem muito menos pronunciando o discurso de posse, o que, de ante-mão, o levavam à recusa de tão nobre quão honrosa distinção; 2) o mesmo deu-se com a indicação de seu nome ao prêmio Nobel de literatura, na condição de poeta, não autorizando quem quer que seja a tomar tal iniciativa.

Drummond, Tom, Elis Regina, que grandes artistas, que colocaram numa altura tão grande a arte que praticaram, que, sem dúvida, assinalou uma época.

(set/09)

ONDE ARTISTAS MORREM por hamilton alves / florianópolis

Não sei se acontece com todo mundo, mas comigo dá-se esse interesse por saber ou ter curiosidade por lugares (hotéis, cidades, ruas) onde grandes artistas morreram ou foram sepultados. Ou deixaram um registro qualquer. Ainda que não sejam os artistas escritores propriamente ditos, mas seus personagens.

Há pouco, soube, lendo um conto de Hemingway, que Verlaine morreu num hotel modesto perto da rue Mouffetard, uma rua sempre atravancada como conta Hemingway. Mais recentemente, lendo uma crônica de Rubem Braga, ao acaso, para fazer outro tipo de consulta (saber se em alguma crônica teve a infelicidade de usar a palavra “todavia” – (discuti com um amigo sobre a questão de que essa palavra não soa bem numa crônica; em outro qualquer lugar, sim, poderá ser muito própria, por exemplo, num ofício de um excelentíssimo senhor para um outro excelentíssimo senhor) – lendo uma crônica do Braga, li que Proust morreu na rua Hamelin, próximo de onde morou quando passou curta temporada em Paris.

Sei que Odete de Crécy, personagem de “Em busca do tempo perdido”, de Proust, morou numa rua atrás do Arco do Triunfo, na rue La Pérouse (com um restaurante com esse mesmo nome). Um dia irei lá, nem que seja na forma de espectro.

Sei que Joyce foi sepultado no cemitério Fluntern, em Zurique, Suíça.

Tenho esses dados espalhados (ou anotados) em livros.

Kafka foi enterrado, em Praga, sua cidade natal.  Augusto Frederico Schmidt, o poeta, com quem, em certa época, andei trocando algumas cartas, esteve lá para conhecer esse local. Procurou colher informação com um e outro. Nada ficou  sabendo. O mesmo acontecera com Carpeaux, que foi numa clínica onde Kafka se tratara de sua doença, que o matou. Só conheceu a clínica e o filho do médico que deve ter cuidado do escritor, mas nada mais além do local em que estivera cuidando de sua saúde, que descreve como sendo muito discreto. Até pode observar por uma janela envidraçada uma sala onde provavelmente estivera Kafka sob tratamento. Ou o quarto onde se hospedara.

Há curiosidade em torno dessas coisas, que, afinal, marcam a história de um artista, que há pessoas que têm interesse de saber.

Se for um dia a Paris, procurarei conhecer o hotel modesto, no dizer de Hemingway, em que morreu Verlaine ou a rua, na informação de Rubem Braga, em que morreu Proust.

Ou ainda, em Praga ou em Zurique, conhecer os locais onde estão sepultados Kafka e Joyce.

E nos respectivos túmulos depositar uma flor.

UM JORNALISTA DE VISÃO por hamilton alves

Só conheci Assis Chateaubriand, que mantinha uma rede de jornais e emissoras de rádio, por longo anos, pontificando entre os primeiros “O Jornal”, que era, para seu tempo, algo que representava um avanço além dos marcos já conquistados pela imprensa do país e até, por que não dizer?, mundial, pelo nome e por via de fotos. Era um velhote baixote, muito simpático – e mais que tudo isso velha raposa do jornalismo tupiniquim. Conheceram-no os grandes jornalistas brasileiros que com ele conviveram e lhe conheceram certamente as pequenezas e grandezas características de todo o ser humano.

Refiro-me a Chateaubriand para lembrar o senso jornalístico que possuía. Ou a forma de conquistar leitores quando as coisas lhe pareciam não ir bem, o que falta nos proprietários de muitos de nossos jornais de hoje, que se contentam com o rebotalho de que dispõe (não vou citar nomes).

Houve, por exemplo, um momento em que “O Jornal” passou por uma crise de anunciantes e até mesmo de boiar nas bancas de meter medo e assustar Chatô (como era chamado pelos mais íntimos).

O que é que fez?

Usou a cabeça ou a imaginação, que lhe serviram de bússola a vida toda.

Convocou à redação Nelson Rodrigues, que, por essa época, pontificava em algumas colunas de jornais menos badalados e menos importantes, mas com público fiel que o lia.

O que lhe propôs Chatô para atrair leitores e ganhar anúncios? Simplesmente lhe disse:

– Nelson, você vai inaugurar no jornal uma história em folhetim. Cada dia publica-se um novo capítulo.

Nelson não deve ter achado difícil cumprir a missão que lhe foi confiada. Até porque era uma coisa que sabia fazer como poucos: inventar histórias, as mais dramáticas e rocambolescas, como eram, tempos depois, as crônicas que escrevia, na “Zero Hora”, de Samuel Wainer, na última página, no rodapé, que hoje foram transformadas em livro por iniciativa de seu grande admirador, Ruy Castro, que conta no prefácio (A vida como ela é) que sua mãe as lia para ele, que ouvia entre deslumbrado e embevecido.

Chatô acertou em cheio com a convocação de Nelson para iniciar esse folhetim, que assinava com o pseudônimo de Suzana Flag, que acabou noutro de seus grandes romances, lançado pela Companhia das Letras, prefaciado também por Ruy, com o título de “Núpcias de Fogo”.

Estamos assistindo à decadência de alguns de nossos jornais (notoriamente os que ainda mantêm algum prestígio e boa circulação, mas que dão sinais evidentes de descompasso com os novos tempos, com a concorrência forte do computador, com a formação de blogs) e pergunto se os donos desses jornais têm alguma receita pronta para reagir aos solavancos eventuais de falta de leitores e anunciantes?

Ou pretendem manter as coisas dentro do atual padrão? Vale lembrar a lição de Chatô.

FIM DE JOGO por hamilton alves

A peça famosa de Beckett “Fim de Jogo” chegou-me às mãos por um texto em espanhol. Comecei a lê-lo e, a partir de certo ponto em diante, o larguei. Não pude colher nenhuma impressão das poucas páginas lidas. Sabia, no entanto, que se tratava de uma das melhores peças do dramaturgo irlandês. Vinha precedido de outro sucesso de palco, esse mais estrondoso – “Esperando Godot”, representado, no Brasil, pela primeira vez, por Walmor Chagas e Cacilda Becker, que, num dos espetáculos, teve uma crise de aneurisma e morreu em cena.

“Fim de Jogo” foi exibida aqui por Edson Celulari (canastrão global) e Cacá Carvalho (ator excelente). Revezavam-se ambos na interpretação dos personagens Clov e Hamm (dificílimos). Mas se saíram muito bem de sua missão árdua, melhor do que se poderia esperar.

Como fui ver essa peça é preciso que se conte.

Não tinha nenhum interesse de vê-la porque não acreditava em Celulari. Cacá era, para mim, um ilustre desconhecido, se bem que, como o outro, trabalhava nas novelas xaropes da Globo.

Um amigo, um dia antes da sessão a que compareci, me ofereceu dois ingressos.

Tinha-os ganho mas não revelava nenhuma disposição de ver a peça.

De minha parte, como aludido, tinha minhas restrições a Celulari, mal conhecia os demais atores, que formavam um quarteto, dois dos quais tinham pouca participação.

Sabia do valor do texto de Beckett, que, àquela altura, tinha corrido mundo.

Enfrentando uma má vontade de rotina de sair de casa à noite, onde invariavelmente me enfurno para distrair-me com leitura de livros ou jornais ou para compor algum trabalho literário, além do convívio com a família, fui ver a peça, já sabendo de ante-mão o que me esperava. Ou as poucas perspectivas de assistir a alguma coisa que me agradasse.

Bem, para resumir: o tiro me saiu pela culatra. Ou seja, foi um dos maiores espetáculos de teatro que já vi.                                                                                                Celulari que, na oportunidade em que assisti à peça, interpretava Hamm, e Cacá, Clov, deram ambos um show ”au complet” de arte teatral.

Punha as barbas de molho pela crítica ferina que havia feito de suas possibilidades de atores. Celulari, especialmente, estava absolutamente senhor de seu complicado papel de interpretar um velho caquético e autoritário como Hamm, que submetia sob seu tacão o pobre Clov, que lhe era todo servil. Cacá merece igualmente destaque especial (fez Clov de forma absolutamente espetacular). Trata-se, para mim, da revelação de um ator genial.

Quando saía do teatro, vinha comentando com um amigo a funda impressão que me deixara o desempenho de todos os quatro atores, com destaque para Celulari e Cacá. Notei que uma pessoa, que me ouvia, fez um risinho de mofa, levando-me a crer que não entendera lhufas da peça.

Não quero aprofundar o tema, mas me ocorreu como são mal aproveitados e pior dirigidos os atores de novelas.

O POETA FLORIDEU por hamilton alves / florianópolis

Na década de 50 do século passado (quem diria que ainda usaria essa expressão), conheci um senhor de personalidade interessantíssima, diferente de todos os seres que até então conhecera no meu trânsito pela vida, que beirava os 25 anos.

Chamava-se Florideu Gervásio, nome belíssimo. Florideu é raro de encontrar-se, Gervásio é mais comum, embora não tão comum assim. Sempre supus que se escondesse nesse pseudônimo, que a mim, desde o primeiro contato com ele, me parecera sê-lo. De alguma maneira, queria esconder-se por trás de um nome falso.

Pelo que soube depois de uma semana de convivência diuturna (pertencia a essa época a uma turma risonha e franca para não dizer que era dada a viver intensamente madrugadas infinitas nos locais mais imprevisíveis), viera à Ilha gerenciando uma companheira pianista, que faria alguns shows na cidade, com programações acertadas em várias outras.

Durante a semana que passou conosco, Florideu sequer compareceu à estréia do recital da pianista nem muito menos aos demais, tal o encanto que revelou por estar em contato conosco a todo o momento, certamente atraído por uma jovem muito bonita que integrava o grupo, a quem Florideu cortejou mas sem êxito. A moça não revelou recíproca atração por ele. Mas Florideu não era homem de perder o rebolado fosse porque fosse. Enfrentou o fracasso de sua proposta de envolvimento amoroso com grande categoria, como era de seu feitio.

Com aproximadamente 60 anos bem vividos, Florideu revelava uma juventude superior, em todos os aspectos, a de qualquer um de nós, pelo senso de humor, pelo enfrentamento de dissabores, por sua bonomia imbatível. Estava sempre pronto a tirar de letra a menor dificuldade que surgisse por isso ou por aquilo, segundo nos deu prova cabal.

Queria confraternizar com o grupo e relembrar-se, de certo, de seus saudosos tempos de mocidade.

Éramos livres de qualquer vínculo ou liame social. Seu senso de liberdade juntou-se ao nosso. Numa semana que fosse, queria viver essa sensação de desregramento de toda a conveniência ou convenção. Que fosse tudo às favas, inclusive seu compromisso com a pianista.

Que lhe diria no acerto de contas quando a poeira baixasse?

Não imaginávamos o que fosse.

Florideu teria uma saída.

Na última noite que dividiu a madrugada conosco, recitou-nos um poema longo, que passei para um tosco papel de embrulho, que me acompanhou durante anos, até que o perdi. Terminava com esses versos:

“Mistério, mistério,

Na vida e na morte,

Tudo é mistério”.

A TRAGÉDIA COM O AIR BUS por hamilton alves / florianópolis

Na revista “Veja” desta semana as páginas amarelas trazem uma entrevista com um piloto de viagens internacionais, com larga experiência no ofício. Em resumo, diz que,  quando ocorre um acidente aéreo, a causa sempre é atribuível a erro humano. No caso do air bus da Air France, um avião de quase absoluta segurança (nunca antes houve acidente com aviões dessa companhia), o problema ocorrido foi com o “pilot”, que transmitiu uma mensagem falsa ao comandante da nave quanto à velocidade que vinha sendo mantida. Em razão disso, acelerou o avião além da conta, fazendo com que houvesse o impacto de materiais ou da estrutura do avião com o vento, o que teria ocasionado a quebra de arrebites e, em conseqüência, a despresurização e daí a queda da aeronave. Muito simples. Por que o “pilot” passou aviso falso? Isso pode ocorrer sempre? Em caso positivo, não haverá jamais segurança de vôo. A não ser que se adote outro sistema mais confiável de controle de velocidade.

O sr. Stevens Marks, que é o piloto que respondeu às perguntas (a maioria mal formuladas) da “Veja”, a certa altura diz o seguinte:

“Acidentes não são atos de Deus. Acontecem porque alguém cometeu um erro. Frequentemente, são produtos não de um, mas de uma série de problemas, que se sucedem porque as providências para evitá-los não foram tomadas. Isso tem de ser apontado, é preciso mostrar que aquilo não deveria ter acontecido daquele jeito para que se possam mudar e melhorar as condições de segurança”.

E diz mais, em resposta à pergunta se tem medo de voar:

“A maior parte das viagens é muito segura. Estatisticamente, os aviões continuam sendo o meio de transporte mais seguro. Quando acontece um desastre, evidentemente, isso provoca grande comoção porque morre muita gente…”

Algum dos leitores aí convenceu-se dos argumentos do Sr. Stevens? Ou há dúvidas em torno de suas teses?

A mim, tais palavras não me convenceram.

Viajar, seja de ônibus, de avião ou mesmo de canoa, na travessia de uma baía ou de um lago ou de um pequeno rio, me parece sempre uma aventura, em que o homem que segue em tais viaturas corre risco.

Chico Anysio tem uma frase sobre esse tema, a meu ver, lapidar. Diz ele:

“Quem não tem medo de viajar de avião é um idiota”.

Estou com o Chico. E não abro.

CHATOS por hamilton alves / florianópolis

Alguém já tentou definir o que é um chato? Creio que seja um animal de difícil definição porque é tão múltiplo, tão variado em sua espécie, que se torna problemático achar um termo ou um conceito que o enquadre naquilo que é ou significa. Joyce certa vez disse que nunca encontrou um chato pela frente. Era um gênio e todo o sujeito que o é tem uma forma de enfrentar um chato. Ou fenômeno equivalente. Joyce, provavelmente, via, no chato, um motivo de análise ou de incorporá-lo ao anedótico da vida. E, por esse ângulo, o chato era uma riqueza. Ou um objeto digno de atenção. Também adorava cidades sujas, como se diz que Paris seja. Uma ocasião uma senhora, em Trieste ou outra cidade, lhe lembrou que Paris era muito suja. Joyce, com sua proverbial complacência com tudo neste mundo, lhe respondeu: “dirty is marvellous!”. Era um louco e, para loucos, a ordem estabelecida é o caos. Ou próximo disso.

Quanto a mim, tenho uma paciência (ou a revelo, pelo menos) com chatos sem limites.

Assim, sou capaz de entreter conversa com chatos por tempo sem fim, como me tem ocorrido sempre.

A última (ou uma das últimas) em que me deparei com um chato, narrou-me uma história que não fazia nexo, que mudava de tom e de tema de minuto a minuto. Mas como eu estava ligado em outros aspectos da figura dele, cor dos olhos, a forma dos dentes, o movimento das orelhas quando falava, a calvície que se apresentava nele já em estado de grande progresso, a cor do rosto, que se transmudava de pálido para róseo, dependendo do caráter de sua história, um cacoete de mexer com o nariz curioso, me entretinha com isso enquanto desenrolava sua narrativa mirabolante.

Até que me vi livre dele por um desses estratagemas que costumo usar em momentos assim. Disse-lhe que naquele momento tinha que comparecer à consulta de um dentista, estava com problema num dente meio sério – aí ele afavelmente me estendeu a mão, mas ainda me pediu um instante para concluir o derradeiro episódio de sua desarticulada história, toda cheia de instantes épicos.

Até que se aproximou outro chato e disse:

– Esse seu amigo não pinduca bem, não é?

Dei-lhe um sorriso em resposta, que entendesse como bem quisesse.

A minha admiração é que entretenho papo com chatos, mesmo quando seja o caso que os fatos que aborda não formem sentido. Entro na conversa do modo mais inesperado e surpreendente para ele, certamente, e para mim.  De repente, vejo-me como um maluco falando a outro maluco – e tudo acaba, em geral, para mim, num desfrute de bom humor, que produz o efeito psicológico de me tornar leve como um passarinho. Entenda-se tudo isso. Joyce e eu temos algo em comum – a tolerância com chatos.

QUIMERA de otto nul / palma sola.sc

Quem me dera

Fosse agora

A suprema hora

.

De encontrá-la

Entre as coisas

Perdidas de outrora

.

Que fosse como

Um talismã

De segredos

.

Indevassáveis na aurora

Do eterno buscar

De coisas no degredo

.

Que fosse nada

Ou muito pouco

Qual obra fanada

.

x x x

(julho/09 – Otto Nul)

RIMBAUD por hamilton alves / florianópolis

De Rimbaud, mais que tudo do que produziu (e não foi muito) conheço “Le bateau ivre” (ou “O barco bêbedo”), que  gostaria de dizer melhor, na voz popular, “bêbado”. Esse poema é uma pequena autobiografia do poeta, tanto quanto pude julgá-lo ou interpretá-lo à primeira leitura. E isso já conta alguns anos. Nem me lembro de quem era a tradução. Mais tarde (decorridos alguns anos), li outra. Esta de Augusto de Campos, emérito tradutor.

Mas que autobiografia mais hermética, mais fechada, mais misteriosa.

Como todo o grande poema, esse de Arthur (por delicadeza / perdi minha vida) também se esconde, se enfurna, se encerra em seus desvãos de pouca luz. Ou de pouca clareza.

Quando chegou a Paris, por volta dos 15 anos, Rimbaud, de um talento precoce, viu que a poesia chafurdava na mesmice ou no mais puro convencionalismo, ainda seguindo os padrões mais ou menos do parnasianismo, mas já se inclinando, pouco que fosse, para o simbolismo, tendo em Stéphane Mallarmé sua figura máxima (Un coup de dés n,abolira le hasard).

Aos 17 anos, quando dera por concluida sua obra resumida a poucas páginas, abandona a poesia para traficar armas em Harat, uma cidade na Arábia.

Perguntado por que encerrara sua carreira de poeta, respondeu:

– À la merde la poésie.

Formou com outro grande poeta uma dupla que revolucionou aqueles tempos sisudos, em que poetas eram vistos (ou concebidos) como vivendo em redomas ou seres tocados pelos dedos dos deuses (ou de exceção) – Paul Verlaine. Eram (ou primavam por ser em tudo) dois marginais, que romperam com todos os preconceitos. Rimbaud largou o amigo, que, em certo momento, lhe disparou um tiro quase mortal pelo qual pegou uma pena de dois anos de prisão.

Depois se reconciliaram. Tudo não passara de mal entendidos.

O fato é que, desde então, se separaram, mas Verlaine nunca mais esqueceria o amigo. Rimbaud, certamente, tão pouco esqueceria Verlaine, que produziu um poema da mesma grandeza de “Le bateau ivre”:  “Chanson d’automne”, que tem essa belíssima primeira estrofe:

“Les sanglots longs

Des violons d’automne

Blessent mon coeur

D’une langueur monotone”.

(julho/09)

MÁRIO crônica de hamilton alves

Mário é o nome de um amigo que fiz há pouco. Tem setenta e oito anos, mas aparenta ser ainda um homem disposto para qualquer parada, cabelos grisalhos, bastante lúcido, sem nenhum problema de saúde aparente e dono de um bom humor contagiante. Toma vinho, cerveja, caipirinha. Come com moderação, sem escolha de cardápio. Ou seja, o que vier traça. Exercício físico, segundo deduzi em algumas horas de conversa, não faz nenhum. Ou não se dedica a fazê-lo. Exame médico, não se lembrava mais do último que fez. Consulta a médico, também, só se recordava de ter feito duas ou três durante toda a vida, mesmo assim para doenças passageiras.

                                               Passou o diabo para sobreviver, oriundo de uma família pobre, de oito irmãos (incluindo-se ele). Começou a frequentar a escola com onze anos, mas logo percebeu que tinha que trabalhar para ajudar nas despesas da casa.

Reuniu-se com três outros amigos (dois deles filhos de médicos e um outro de marinheiro) para trabalhar na caça a rãs. Os filhos dos médicos e ele eram caçadores, enquanto o filho do marinheiro tratava de limpá-las para vendê-las. Colhiam sempre uma boa grana nesse comércio. O filho do marinheiro tinha uma destreza incrível no trato das rãs. Tornou-se um perito nessa tarefa. As rãs, depois de devidamente limpas, eram colocadas numa sacola, conduzidas num carrinho de mão, dirigido por ele, depois do que eram comercializadas, especialmente com italianos, que as adoravam para comê-las ou revendê-las.

                                               Com esse trabalho inicial deu os primeiros passos na sua vida trabalhosa.

                                               Casou-se aos 21 anos com uma mulher diplomada em universidade (não me disse qual). Colocou-o nos trilhos (dito por ele), insistindo que voltasse a estudar. Seguiu seu conselho. Com isso, um amigo lhe arranjou um emprego numa empresa que trabalhava na comercialização de arroz. Entrou nela sem saber o salário que ia ganhar de início. Só seria estabelecido depois que provasse sua capacidade de gerenciamento. Trabalhava doze, treze, quatorze horas, sem descanso, nos feriados e domingos, que era quando saía em viagens para no dia seguinte ter contato com adquirentes do produto. No fim de 35 anos, aposentou-se. Abriu seu próprio negócio.

                                               Formou uma família de quatro filhos: dois homens e duas moças, sendo um engenheiro agrônomo, o outro comerciante, uma das moças é dentista,  a outra é enfermeira de grau universitário. Dois deles, o agrônomo e a enfermeira, fizeram mestrado e doutorado na Alemanha, vindo a casar com alemães, do que resultou uma neta alemã, tendo dez netos.

                                               A filha, diplomada em enfermagem, conhece alemão, assim como o filho agrônomo. Dão palestras por toda parte. Ela é professora universitária.

                                               Perdeu a mulher aos cinqüenta e sete anos de casado. Me declarou (alto e bom som)  que lhe deve tudo o que foi e o que é.

                                   – Qual seu estado civil atual?

                                   Fiz-lhe essa pergunta levando em conta sua jovialidade, deduzindo que, por isso, teria se amarrado a algum rabo de saia.

                                   – Sou viúvo. – respondeu com muita convicção, como se assim quisesse revelar que, mesmo depois de morta, guarda fidelidade à velha companheira.

                                   Findou o encontro confessando-me:

                                   – Só se colhe o que se planta.

                                  

 

A GALINHA por hamilton alves

 Numa certa ocasião, entre amigos (isso na mocidade), houve um grande problema.  Propúnhamo-nos a fazer um ensopado de galinha. Éramos quatro para uma galinha só.

                                   O problema surgido, de pronto, foi quem se incumbiria de matar a galinha.

                                   Nenhum de nós tinha até então vivido experiência igual.

                                   Havia três casas vizinhas. Era já noite fechada. Incomodar vizinhos para matar uma galinha não entrava na cabeça de nenhum de nós. Tínhamos que nos virar.

                                   Consultamos um vizinho mais próximo.

                                   – O senhor não conseguiria matar uma galinha que queremos ensopar?

                                   – Ó, meu caro – disse ele – nunca matei sequer uma mosca na vida, muito menos uma galinha,

                                   Não tinha jeito. A missão teria que caber a um de nós. E à qual?

                                   Houve um que teve uma idéia que nos pareceu salvadora: chamaria a irmã por telefone, que morava próximo – ela tinha habilidade de matar uma galinha com um mero golpe no pescoço.

                                   – Tua irmã vai demorar e acabamos não comendo essa galinha. – disse um dos mais famintos, apressado em resolver logo o impasse.

                                   A tal irmã demorou um bocado. A certa hora, bateu o telefone. Todos pressurosos corremos para atendê-lo. Era ela (a irmã).

                                   – Me desculpem (disse ela), mamãe acabou de chegar, não está se sentindo muito bem; não posso ir.

                                   Era a derradeira esperança de se resolver de modo não turbulento a morte da galinha para que, finalmente, a comêssemos.

                                   Um dos amigos propôs-se a pedir a um passante qualquer que o fizesse.

                                   Passou um praça da polícia.

                                   – Eu, meu filho, matar uma galinha? Nem por nada deste mundo.

                                   Passou uma velha senhora, sobraçando um pacote.

                                   – De modo algum, não conheço essas artes.

                                   Passou outro sujeito, metido num capote que o cobria de cima a baixo.

                                   – Não, não me peça para cometer um crime desses. Não levo jeito para matar nada.

                                   Caímos os quatros em desolação.

                                   Ou com receio de que um de nós teria que dar conta da triste missão.

                                   A galinha estava amarrada pelos pés. Olhava-nos numa expectativa tensa do que se faria com seu destino. Cacarejava, mal acomodada com o barbante lhe amarrando as perninhas ou pesinhos, coitada.

                                   Olhava-a de quando em vez. Morria de pena de saber que, por mal ou por bem, acabaria lhe cabendo o trágico destino na mão de um daqueles algozes.

                                   Foi então que, súbito, um de nós ergueu-se, impávido, depois de tocado por algumas doses de uísque. Pegou a galinha pelo pescoço, torceu-o duas ou três vezes, que estrebuchou até exalar o último suspiro.

 

 

(março/09)