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DO TREINADOR E DO HERÓI por jorge lescano / são paulo


Domingo é o dia em que Deus perdeu a imaginação

então o homem criou a bola.

Livro das Cinzas e do Vento; 11-10

Aconteceu no Monumental de Núñez, impressionante construção capaz de abrigar mais de 80 mil almas, embora naquele domingo vastos setores das tribunas se vissem despovoados. Disputava-se a justa entre Argentina e Peru pelas eliminatórias da Copa do Mundo de 2010, o vazio era conseqüência da péssima campanha da seleção local. Esta ganhava por um gol a zero, o que lhe permitia sonhar com a participação na fase final do certame na África do Sul. O jogo parecia estar decidido. O time peruano não queria voltar para casa derrotado, apesar de já estar fora da competição tentava recuperar a honra nacional, perdida em Rosário em 1978 (Argentina 6 Peru 0).

No estádio todos lembravam do primeiro jogo desta edição em Lima. Argentina ganhava um a zero e a partida estava no fim quando, naquela que viria a ser a última jogada, na ponta esquerda peruana alguém recebe a bola sozinho e como se fosse salvar a mãe da forca dispara que nem foguete tumultuando a defesa argentina. Ao chegar à metade da profundidade da área, ainda fora dela, fez uma pequena curva rápida com a bola colada no pé. A confusão de corpos não permite lembrar se ele ultrapassou a linha de cal, o fato é que chutou com potência e precisão provocando o delírio peruano. Para desespero dos argentinos a bola penetrou no ângulo inferior direito do gol. O juiz apitou duas vezes e apontou o centro do campo com os braços esticados. A TV mostrou rostos congestionados, bocas escancaradas, olhos arregalados, punhos em alto. O Peru estava apto à classificação e mais, mantinha-se invicto em seu território. Esta foi a última partida do Louco Bielza à frente do time argentino.

Agora Diego Armando Maradona não convence como técnico, a imprensa o ataca impiedosamente, os torcedores misturam sua vida pessoal ao trabalho em campo. Oitenta jogadores convocados e um time diferente em cada disputa, assim ninguém se conhece. Era como se um general quisesse avaliar cada um dos seus soldados individualmente para depois definir sua estratégia de combate. Imperícia! Não faltava quem maldosamente afirmasse que sendo Maradona o técnico não faltaria craque na seleção. A calúnia iguala políticos e treinadores. Como os políticos, don Diego se deixa levar pelas palavras, seus discursos ficam difíceis de contornar. Antes da desastrosa derrota contra a Bolívia (6 a 1) havia dito que a altura de 3600 metros de La Paz não seria fator decisivo na partida, tal afirmação descartou a única desculpa do vexame, segundo com esse resultado na historia do futebol argentino. A primeira foi em 1958, na Suécia, contra a Tchecoslováquia. Curiosamente os goleiros de ambas derrotas tinham o mesmo sobrenome e jogavam no mesmo time, Carrizo e River Plate, respectivamente. Nos anais do futebol boliviano esta foi sua maior vitória, para os argentinos a pior derrota; levar goleada da Tchecoslováquia há meio século, vá lá, mas da Bolívia, depois de dois títulos mundiais!… A torcida argentina pedia em altos brados o afastamento de Maradona, já os torcedores brasileiros achavam injusta a medida depois das alegrias que o ex-craque deu ao Brasil nestas eliminatórias. Os brasileiros esquecem que a torcida argentina teve oportunidade de gritar o nome do Dunga em partida memorável. A coisa pode extravasar do continente se a esquadra albiceleste sair desta enrascada.

Tais os antecedentes da atual disputa em Buenos Aires.

Aos dois minutos do segundo tempo Higuarán abre o marcador para os argentinos. Aos catorze minutos começa a chover. Aos vinte o ataque peruano perde um gol com impedimento não marcado. Aos vinte e sete a chuva aumenta. Os dois técnicos recusam as capas e gesticulam como fantasmas na névoa formada pela água nas lentes das câmeras. Aos trinta minutos a ventania balança as câmeras e seus operadores. O time argentino se encolhe. Ataca esporadicamente. Aos trinta e dois minutos o vento conspira contra o time albiceleste, joga-se em meio ao dilúvio. A torcida canta, vocifera, ruge.

Faltavam dois minutos para completar o tempo regulamentar. Argentina 1 Peru 0. Rajadas de oitenta quilômetros por hora criavam redemoinhos no centro do campo atirando a bola a esmo, independentemente da vontade dos jogadores. A torcida argentina orava pelo término da partida, os peruanos queriam operar seu milagre. Este ainda poderia acontecer pois o juiz determinara mais três minutos de tempo suplementar. Estava-se no quadragésimo quarto minuto, o peruano Rengifo cabeceia e gol. Gol-Gol-Gol! Argentina 1 Peru 1. Cruéis, os sinos da derrota dobram a finados, a seleção argentina pode se despedir da Copa, os peruanos deitam e rolam na piscina improvisada, comemoram como se fosse o título mundial.

O temporal redobra sua fúria vingativa, talvez desesperada. Nesse palco trágico, aos quarenta e sete minutos, Martín Palermo, que entrou no segundo tempo, parcialmente restaurado da hemorragia nasal que o havia proscrito por alguns minutos além das fronteiras do campo da batalha, com um chumaço de gaze ensangüentada a pingar da narina direita, sob a inclemência dos elementos que empanavam os olhos da multidão, surge do tumulto dentro da pequena área peruana e com um toque sutil corrige a trajetória da bola lançada do outro extremo da grande área, a esfera, obediente ao desígnio do herói, penetra nas traves adversárias, no mesmo lugar do gol peruano em Lima. O momento é de epifania. O herói desnuda o torso na comemoração pagã desafiando a intempérie e o regulamento, nas arquibancadas gritos, risos, lágrimas, mãos juntas em agradecimento ao criador; o druida Maradona mergulha no gramado. A chuva não diminui, antes aumenta, raios e trovões somam-se à comemoração pátria. O jogo continua, para desespero dos jogadores, da comissão técnica, da torcida argentina encharcada no estádio e daquela parcela que optara por acompanhar o provável desastre pelo rádio familiar.

Os peruanos não se rendem e colocam em perigo o reduto argentino. Os deuses autóctones e os do futebol disputam o tempo, Cronos, impassível, rege no pulso do juiz. No minuto que resta ainda cabe uma segunda bola na trave argentina e a dúvida sobre uma irregularidade em sua área. Pênalti?! Agora? Com o céu a desabar sobre suas cabeças? O árbitro apita e assinala o círculo central, um imenso suspiro acompanha seu gesto. Palermo e Maradona choram abraçados. Argentina está salva até a próxima quarta-feira, em Montevidéu.

Alguma rua da cidade será rebatizada com o nome do herói, epónimo do herói popular criado por José Hernández – Martín Fierro?  Antecipando a imortalidade já existe em Buenos Aires um bairro com o seu sobrenome, até parece que a vida copia o esporte. Martín Palermo, o homem que pode ter feito a Argentina ressurgir de suas cinzas é o mesmo que dias antes garantira sua celebridade ao marcar um gol de cabeça do meio do campo, em jogo do Boca Juniors contra o Vélez Sarsfield.

Quarta-feira 14 de outubro de 2009, aproximadamente 20h50, horário de Brasília. Aos 35 minutos do segundo tempo Argentina e Uruguai empatam sem gols no Estádio Centenário. Um jogador uruguaio é expulso por cometer falta grave contra Gutiérrez. O jovem Messi cobra lançando sobre a pequena área. Depois de um bate-rebate, aos 39 minutos, o volante Bolatti, que estréia na seleção, coloca a gorduchinha no fundo do ninho e entra para a história. A sorte está lançada: Uruguai disputará a repescagem contra Costa Rica, Argentina carimba seu passaporte para o continente negro. Don Diego dedicou a classificação a todos os argentinos, menos os jornalistas. O próximo capítulo será na África do Sul, resta saber se os protagonistas serão os mesmos.

É possível ainda duvidar das alternativas do heroísmo? Talvez o herói contemporâneo não seja apenas o conquistador de postos de chefia nas empresas multinacionais nem o consumidor classe A. Talvez herói seja aquele que os povos admitem como tal.

MAQUETE: AS JANELAS DE F.K – por jorge lescano / são paulo

A guisa de prólogo.

Para aqueles que precisam definir o gênero para poder iniciar a leitura; para aqueles que acham que existe o hábito da leitura; para aqueles que pretendem haver entendido o texto quando conseguem classificá-lo, anuncio desde já: isto é uma Maquete, “gênero” ou objeto que passa a existir em forma narrativa a partir deste original.

Ilustres exemplos poderiam ser apresentados para autorizar esta opção ou capricho. Cito apenas dois para não cansar o leitor: o escritor e político peruano Ricardo Palma (1833-1919) batizou de Tradiciones um gênero de crônica que mistura ficção e história do Peru colonial. Johannes Jensen, autor dinamarquês (prêmio Nobel de Literatura de 1944, para os que valorizam tal honraria), chamou de Mitos suas crônicas. O termo ganhou um verbete especial no dicionário danês.

Para aqueles que apreciam a história dos eventos literários; para aqueles que gostam das notas explicativas de pé de página; para aqueles que cultuam as interpretações acadêmicas, descrevo a seguir as circunstâncias em que surgiu esta Maquete.

O Centro de Pesquisa Teatral (CPT), que funciona na Unidade Consolação do Serviço Social do Comércio (SESC), promove neste primeiro semestre de 2003 um Curso de Cenografia e Adereços Teatrais. Requisito para se inscrever na lista de seleção dos candidatos para as poucas vagas oferecidas: projeto cenográfico (maquete ou desenho) para uma encenação de qualquer obra de Franz Kafka.

É claro que a liberdade e dificuldade da proposta desafiam qualquer imaginação!

No primeiro momento a mente percorre o trilho do bom senso e procura no seu arquivo a obra que deseja encenar. Vêm, instantâneas, imagens de encenações das mais freqüentadas obras de F.K.: O Processo; O Castelo; A Metamorfose.

Carta ao Pai, com uma enorme cadeira, espécie de trono pontifício, colocada sobre um pedestal altíssimo, inacessível ao protagonista narrador, no qual estará sentado o Patriarca criado por Kafka, é por si só uma síntese de todas estas obras. Em  cada uma delas há uma figura imponente, inacessível, prepotente, espécie de arquétipo da mitologia contemporânea, povoada de pais, chefes de governo, arquivistas. Qualquer ambientação que remetesse às sórdidas dependências de um escritório de repartição pública, serviria. A impessoalidade de tais ambientes, conquanto fechados, ilustrariam parte do universo kafkiano. As idéias a respeito, por óbvias, foram recusadas. Neste ponto, a inscrição na supracitada lista de seleção estava fora de cogitação.

Não que eu pensasse seriamente em fazer o tal curso, mas a idéia de desenvolver um projetinho como exercício era atraente. Então outra idéia veio à mente.

(Escrevo sem consultar as obras citadas, este recurso dá-me a ilusão de criar um clima poético no texto.)

II – Maquete propriamente dita.

Existe uma curiosa fotografia que mostra a janela do  quarto de Franz Kafka, em Praga, que dá diretamente para o interior de uma igreja católica, perto do altar-mor. Talvez esta janela, e de forma inconsciente, tenha gerado outras janelas que aparecem na sua obra.

A primeira, por ordem de função, está no primeiro capítulo de O Processo. Por ela se assoma uma senhora idosa para observar como Josef K. é informado do seu processo. São duas janelas, se bem me recordo, pois é pela segunda que a dita senhora, vizinha frontal do protagonista, pode ver melhor o quarto deste.

Tal janela, menos como detalhe arquitetônico que motivo literário, reaparecerá no final do romance. É dali que a testemunha, um homem em mangas de camisa, assiste a execução de Josef K. Este homem é também a última imagem que F.K. deixa ao leitor, permitindo supor que esta coincide com a visão final de Josef K.

A terceira janela deve estar em A Metamorfose e por ela se debruçam A Mãe e A Irmã de Gregor Samsa para contemplar a paisagem depois do pesadelo que é o miolo da novela.

(Embora A Metamorfose seja anterior a O Processo, aqui é citada em função dramática, não cronológica: A Mãe e A Irmã sentem-se libertas pela morte de Gregor, este fato crucial coincide com a cena final de O Processo).

Esta janela tem algo como função ritual ou catártica, se associada àquela da moradia de F.K. Ela é o tema da maquete. O reconhecimento de sua  hierarquia em relação aos outros componentes, determinada pela posição central na fachada aparente do fundo do palco, exige que a luz seja interna, isto é, a iluminação do palco terá sua fonte na janela e de lá se projetará  sobre a cena. A janela, ao invês de receber a luz, será a sua fonte. Nada nos impede imaginar que F.K. estará olhando o mundo através dela, como poderia ter olhado o interior da igreja de Praga.

A morte de Josef K. se dá à vista do público que acompanha a execução (como um cão) juntamente com o homem da janela. Já a morte de Gregor Samsa se manifestará como ausência iluminadora. Ironicamente, esta morte libertará a luz e os personagens.

A janela empírica (para o interior da igreja) é a verdadeira personagem desta encenação (cenográfica), motivadora da presente maquete. Os acontecimentos serão reunidos ao seu pé para permitir que se perceba sua mudança. Se há um processo psicológico, será o da janela, símbolo do olhar do dramaturgo Franz Kafka.

Assim se compreende que o palco permaneça nu durante todo o espetáculo, apresentando-se as nuanças psicológicas por intermédio da luz e, talvez, de recursos acústicos: ecos, amplificações, deslocamentos de vozes, passos, etc., do ritmo (ou disritmia) corporal dos atores, a piacere do encenador.

III – De como se fará a transferência da (suposta) poética de Beckett sobre a máscara para a cenografia.

Há um pressuposto (nosso) que diz que Samuel Beckett leva o teatro europeu às últimas conseqüências retornando às suas origens gregas. Tal fato dar-se-ia no seu monólogo NOT I. Nesta obra, o autor irlandês “reduz” a máscara grega ao seu componente essencial: a boca.

É de acreditar que o texto da tragédia grega é continuação da arte do rapsodo – contador de histórias ambulante. Em algum momento este contador deixará de perambular e se estabelecerá na polis, justificando, se não exigindo, a construção do teatro. Parece lógico especular que ele seja uma das raízes do espetáculo teatral, além das festas dionisíacas.

Sabemos que nos seus primórdios, a tragédia era um gênero narrativo mais do que dramático. O único ator em cena dizia seu texto em pose estática sobre um pedestal. As diferenças em relação ao rapsodo estavam no figurino e na máscara e, paradoxalmente, na impossibilidade de representar certas atitudes e emoções dos personagens, como é visto ainda hoje nos contadores de praça pública. Impossibilidades físicas decorrentes dos paramentos e da situação cênica do ator, deram à cena um caráter solene, incorporando sua pose hierática à arquitetura-cenografia e padronizando sua atuação. Tal será o tom dominante das futuras representações.

Em nossa leitura da poética de Beckett em Not I, atribuímos-lhe a intenção de sintetizar este momento fundador reduzindo a máscara à boca. Desenvolvendo esta premissa dramatúrgica, experimentaremos aplicar tal princípio à cenografia com atributos de drama. A tradição escolhida será o palco latino.

De forma esquemática, suficiente para nosso propósito, podemos descrever este palco como a representação do frontispício de um edifício dotado de colunas com capitéis sustentando cornijas, janelas, e três portas. Apenas estas portas tinham função real. Por elas entravam e saiam os atores que representavam seus papéis no espaço compreendido entre o fosso da orquestra e esse fundo.

A questão básica é: como sintetizar este palco, per si tão reduzido?

Valendo-nos das janelas apresentadas, importantes na dramatização das cenas kafkianas, valorizaremos as janelas do fundo do palco. As entradas e saídas dos atores serão feitas pelas laterais. As janelas estarão no nível de um primeiro andar, serão apenas três e somente a do centro terá profundidade real, pois por ela se assomarão os personagens-espectadores do espetáculo que se desenrolará aos seus pés. Uma luz tênue, de abajur, deverá indicar a existência das janelas laterais.

As cenas escolhidas da obra de Kafka serão representadas no pequeno espaço iluminado pela luz crua da janela central, que se projetará sobre o palco propriamente dito. Os personagens-espectadores não serão figuras muito nítidas. A luz virá de detrás deles, permitindo perceber seu volume, mas não as feições, semelhantes a espectros e aos espectadores sentados na platéia vistos do palco. A platéia e o fundo do palco deverão sugerir a idéia de espelho embaçado. Entre estes dois “espelhos” se desenrolará o drama kafkiano, espécie de ponto cego no espaço real do teatro, ponto de partida e final do espetáculo.

Kpn. 4/3/003

KAPRYXO por jorge lescano

Não cheira, apesar do seu peso e, preservando a cor natural, é frio nos meses ímpares é arredondada quando não áspero. Possui sabor próprio em torno, mas ao entardecer é agudo com pintinhas dodecafônicas. Para conservá-la, é bom, porém não exageradamente. No entanto, se for necessário, pode ser salpicado com si bemol, ocre ou multas. Neste caso é conveniente sair da sala. O uso de argamassa ou paletó é opcional, não assim a preposição. Como seu nome indica, existem os que são contra as comichões da pele e as estatais. Outros tipos crescem tacitamente a ambos lados das margens, no entanto, não dispomos de informações detalhadas a respeito. É certo, contudo, que não suportam a temperatura se imersos cautelosamente. Isto é válido apenas para as de cume furta-cor, os de rodinhas e as que pagam juros: os mais comuns apresentam características diferenciadas segundo os graus de rigidez e uso. Em todos os casos, aconselha-se ficar atenta, embora não seja de todo inexpugnável. A observação anterior só faz sentido, obviamente, quando tem os pés bem conservados ou estão vazias. Pelo avesso, seu aspecto é peculiar ou semelhante, o que facilita a manipulação e melhora sensivelmente o moto mortis e a vida convexa. Outrossim: importa muito bem os acentos de sábado. Sua sombra tem poderes abrasivos ou refratários, salvo exceções: não precisa contra-indicação e tem alvará na versão infantil. Apenas esta advertência deve ser feita: cuidado com suas metamorfoses, cópias e falsificações; quanto ao resto: é eterna.

MÚSICA, MAESTRO! por jorge lescano / são paulo

– Para esses ouvintes a arte deve se parecer com um bom jantar ou um par de sapatos macios!

Ao Maestro parecia-lhe que a educação musical havia chegado a um ponto no qual era possível ouvir as estruturas à par da melodia, do ritmo. Pensava em termos de som e pausas expressivas. Os ouvintes do Café Concerto precisavam de música de fundo para não ouvir suas próprias palavras, e de melodias que se gravassem na memória para reproduzi-las, ou convites à dança.

– A isto chamam de utilidade, justificação social da arte! Eu chamo de ganha-pão!

Alguma vez pensou num concerto só de cadenzas, uma para cada instrumento. Assim a orquestra permaneceria como estrutura, porém, sua função seria outra, destacando as qualidades de todos os sons sem se misturarem:

– O ouvinte vinculará esses elos dentro do seu tempo de escuta. Uma composição que utilize a descontinuidade do tempo através de instrumentos musicais e temas sonoros diversos, unidos, no entanto, pela estrutura da orquestra e a continuidade da audição.

Lamentava não poder discutir estes assuntos com seus companheiros do Café. Todos estavam preocupados com o artesanato da música, a reprodução exata das notas do pentagrama. Todos eram partidários da melodia bem feita:

– Apenas o trivial variado, não variado demais se se quer trivial. Mas eu entendo; é preciso sobreviver!

Às vezes se abandonava aos impulsos de mudança, de rupturas:

– Não respeitar as formas estabelecidas pelo romantismo, e ainda estamos nisso, é o único modo de ser autenticamente romântico! Pense nas Humoresques de Sibelius, nos Caprichos de Paganini, nos Noturnos de Chopin, mas sem o instrumentista virtuose. Houve um caso de flautista virtuose. Seu maior sucesso era o Moto Perpétuo. Fez carreira até que se soube que era gago. O interesse do público esfriou e ele acabou como faquir, pobre, em sânscrito. É uma piada, naturalmente, mas ilustrativa. Compreende o que quero dizer? Na situação em que foi colocado, o público só aprecia fenômenos, e o artista, em tanto que profissional, só pode aspirar a ser um fenômeno. Tudo isso é puro romantismo. O indivíduo exótico contra a multidão comum, para agradá-la. Mas, como poderia ter dito Mozart: vida de artista não é uma valsa de Strauss. Nunca sentiu que o Bravo! Ouvido na sala de concertos é o Gol! das elites culturais? Eu sempre penso nos concursos de arte como um campeonato. Como se o amor, o ódio, a consciência e o medo da própria morte e a perplexidade ante a vida, pudessem ser avaliados com pontos, como uma redação escolar, e premiados numa competição! Arte é forma, diz você. Concordo, mas todo prêmio é por bom comportamento, e há de convir comigo que os sentimentos não respeitam convenções formais. Eu quero construir algo assim como haikus musicais. Fragmentos que são um todo. Sim, Webern, mas não é isso…

Coçava o queixo, impotente ante as limitações da palavra

– Cada instrumento criará seu próprio contexto, sic, confiando na perspicácia do ouvinte, e com ele se relacionando de forma sutil, no mesmo plano de criação. O músico provocando e o ouvinte, que é tão musical quanto ele, estimulando sua criatividade. Os dois no mesmo plano, unidos pelo som e este diversificado por cada instrumento.

Antecipava-se à jogada do outro:

– O jazz era isso! Hoje também tem partitura e autor e arranjador e direito autoral e empresas gravadoras e colecionadores e críticos e tratados enciclopédicos. A arte, como o esporte, é boa quando praticada. Chega de ver o rei passar! A música, meu amigo, deve ser vivida. Imagine um coro que cantasse em uníssono a mesma melodia, mas cada cantor cantando em língua diferente, segundo suas necessidades e convidando o público, vamos pôr aspas na palavra público, e convidando o público as participar ativamente, juntando sua voz e melodias ao tutti. Que festa!

O outro poderia ter avançado seu Ives, ou atacado com a música para não ser ouvida de Satie, para não apelar com John Cage, a música aleatória e tutti quanti:

– Sim, sim! Isso já foi feito, ouviu Deus que lhe diziam…

Segundo o Maestro, o Concerto é um gênero romântico: o mocinho solista contra a orquestra de bandidos:

– Não importa se surgiu antes do romantismo. Estou falando de uma atitude, não de baboseiras escolares. É um gênero, como o nu, a natureza morta e o soneto. Agora abundam os Concertos num só movimento. Veja as sonatas de Béla Bartók, têm um ou dois movimentos, quer dizer, não são Sonatas. A Sinfonia Inacabada de Schubert não é uma Sinfonia porque não preenche os requisitos formais da Sinfonia. Você já leu algum Soneto de sete ou oito versos? Nem poderia! Eu já vi um Nu Corretamente Vestido, o que não está errado, se pensarmos que todos somos Adão sob a roupa; e outro nu intitulado Natureza Morta, mas o autor dos dois quadros era um poeta que propositadamente misturava as linguagens e confundia os gêneros para chegar a outra coisa. Meu amigo Rodrigo Barrientos, um pintor colombiano que atualmente reside em Paris, ameaçava pintar um Nu Esotérico. Nunca soube como seria, provavelmente estava tão oculto que nem ele sabia como era. Quero dizer que vivemos presos às palavras; chamamos de inacabado algo que o autor não teve necessidade de continuar. No Masp há um retrato de Diego Rivera pintado por Modigliani. Aparentemente não está terminado porque aparecem trechos da tela que não foram preenchidos, mas está acabado. O pintor percebeu que não era necessário acrescentar nada. Fugiu da redundância parando onde o assunto se esgotou como pintura. A coisa muda e nós continuamos usando as mesmas definições, ou então acreditamos que mudando o nome mudamos a coisa. Para que chamar uma composição musical de Concerto ou Sonata, Suite ou Sinfonia? Para não falar do absurdo do Poema Sinfônico, como se a música precisasse da literatura! Talvez o contrário seja verdadeiro. O que importa é a música, não o rótulo. Eu quero desnudar a orquestra, por assim dizer, e mostrá-la ao vivo. Lembra de Pedro e o Lobo?, ampliar essa idéia musical, desafiar o ouvinte a unir os fragmentos e construir mentalmente sua própria composição. Falo de ouvintes, não de todos os que têm orelhas. Orelha não é documento! Ir além da sensualidade do som, reorganizar o tempo de escuta. Imagino uma composição como um quebra-cabeça, um mosaico e um caleidoscópio de sons, onde a orquestra não seja o meio, o suporte de uma Sinfonia ou de um Concerto, mas apenas produtora de som, do qual o objeto será a própria orquestra. Quanta música na Sinfonia Inacabada! Bartók compôs um Concerto para Orquestra, e Barber um Ensaio para Orquestra, mas não é isso, ainda não é isso… Isto está parecendo um manifesto! É melhor deixar sempre algo por dizer, parar antes de chegar à idéia, essa Musa morta!

(do Livro de Marievar)

JORGE LESCANO é PALAVREIRO DA HORA! E A EQUIPE FAZ A FESTA!

o PALAVRAS,TODAS PALAVRAS após algumas publicações, esparsas, de trabalhos literários do escritor e artista visual jorge lescano e apoiado no grande número de acessos nos links específicos, tomou a feliz iniciativa de convidar lescano para colaborar com a página de maneira mais regular, ou seja, jorge assume o compromisso de publicar quinzenalmente! convite aceito! é desta forma que o PALAVRAS se mantém e alcança todo esse sucesso. outra razão não é senão os PALAVREIROS e suas publicações  que atrai essa grande quantidade de leitores. sobre jorge lescano, fala a sua obra. no BUSCAR, acima, você acessa o que foi postado do escritor, dramaturgo e artista visual.

JORGE LESCANO

mesmo contrariando sua aversão por fotos, conseguimos, com alguma dificuldade, esta raridade. não tem “algo” de DALÍ aí?

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Como artista plástico participou de 15 salões de Arte Contemporânea, 10 exposições coletivas e realizou 3 exposições individuais, entre 1969-1975.

Em 1976 fundou e coordenou a Oficina Literária no SESC no CCD Carlos de Souza Nazareth – SESC (Consolação) depois de ter sido premiado na categoria conto no  Concurso Literário organizado por este centro.

Em 1978 publicou Amanhã São Perón – contos, Editora Ática.

Em 1983 publicou Os Quitutes de Luanda – conto infantil – Criar Edições, Curitiba; premiado pela Biblioteca Internacional da Juventude – Munique, Alemanha.

Na década de 1980 ministrou cursos e oficinas de Escrita-Leitura em diversas Casa de Cultura e Bibliotecas Municipais.

Desde 1992 ministra aulas de Criação Literária e Teoria do Teatro no Espaço Violação – Escola de Música e Arte.

De 1992 a 1995 lecionou Teoria do Teatro no Teatro Escola Macunaíma.

Em 1996-97, ministra aulas de criação de textos nas Oficinas de Criação da Escola Superior de Propaganda e Marketing.

Em 1996-98 leciona Teoria do Teatro na Escola Recriarte.

Em 2003 lecionou História das Artes Cênicas na Escola Everton de Castro.

Em 2004 dirigiu o espetáculo Máscara Preta, de Maurício Ayer.

Em 2006 dirigiu o espetáculo O Homem de Praga, com texto de sua autoria e apresentações no Espaço Violação e no Teatro Julia Bergman.

Tem participado como dramaturger em diversas montagens.

Vários dos seus textos foram encenados, dentre eles: O Mordomo; Era uma vez… Jack, o Estripador; Atrás do Móvel.

É tradutor de espanhol-português-espanhol.

SONATA PARA VITRINA E PEDRA por jorge lescano

para A. vidraça e pedra e ângela; 

 aos pais destes  meninos.

 

Esta crônica foi escrita em 1987, decidi-me a “publicá-la” novamente em virtude de um fato real noticiado pela imprensa: um menino de 9 anos foi assassinado a bala por um investigador de polícia em represália por  ter atirado uma pedra no portão de sua residência, pois acreditou que se tratava de um assalto. Segundo  o jornal Notícias Populares, os últimos atos de menino dentro de casa, antes de sair para brincar, foram:  montar a árvore de natal e abraçar sua mãe. O policial  não foi demitido e, ao que se sabe, continua circulando armado pela cidade, para proteger sua população dos vândalos. No final do segundo milênio cristão, a história de Davi e Golias tem um desfecho renovado.

São Paulo, dezembro de 1999

 

Processo inédito    Juiz intima para depor criança que atirou pedra em carro

A Corregedoria do Tribunal de Justiça (TJ) decidiu investigar processo em que foi expedido mandado de busca e apreensão contra um menino de 5 anos (foto) em Serrana (SP). O processo foi aberto há dois anos porque o garoto jogou pedra num carro. Na última sexta, PMs foram procurá-lo em sua casa. O pai do menino, então, levou-o à presença de um juiz na segunda-feira. Ao vê-lo, o juiz decidiu arquivar o processo.

Diário de S. Paulo. sexta-feira, 25 de agosto de 2006, A1.

 

Ele olha a janela e vê o fulgor do crepúsculo nela refletido. O sol é cobre condensado na vidraça. A luz de fogo antigo é seu Eu e pede aos gritos para ser multiplicado. O Anjo sabe disso porque há uma comunhão inexplicável entre os três. Ele sente no bolso da camisa o peso das pedrinhas de areia; a forma arredondada passeia brevemente pela ponta dos seus dedos e deita no couro do estilingue. A pedra e ele sabem que o espaço deseja ser cortado por um corpo sólido rumo a um destino certo. O vazio da tarde espera as notas de cristal. Então o Anjo é poeta, escultor, músico, pintor: empunha sua batuta e com olho certeiro modela na realidade algo que nunca antes existira e que jamais voltará a se repetir. Ele sabe que cada vidraça, e cada pedra, e cada garoto, e cada tarde silenciosa, é única. O ar é uma vibrante corda de violino. O vidro morto salta em fagulhas de sons e cores; a tarde toda vira um caleidoscópio, do qual também fazem parte o brilho assombrado dos olhos do Anjo, e seu sorriso, e o pulsar do coração, que se antecipa e quer fugir.