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JORGE LUÍS BORGES, escritor de bairro – por jorge lescano / são paulo


Não fosse a fama e os fatos da vida de Jorge Luís Borges seriam menos interessantes que sua obra. Nasceu em 24 de agosto de 1899 em Buenos Aires.  Aos 15 anos viaja para Europa em companhia dos seus pais, que se estabelecem em Genebra. Lá faz seus estudos secundários. Volta à Argentina em 1921, depois de ter passado pela França, Itália, Portugal e Espanha. Por volta de 1937 ingressou no seu primeiro emprego de tempo integral. Antes trabalhara em tarefas editoriais menores. Escreveu para o jornal Crítica, a revista El Hogar e para cine-jornal.

Na biblioteca municipal onde trabalhava, a sudoeste do centro de Buenos Aires, escreveu A Biblioteca de Babel, A Loteria da Babilônia e outros contos que lhe dariam fama internacional. Em 1946, depois de ter sido promovido a fiscal de galináceos e coelhos nos mercados municipais, pede demissão da prefeitura e passa a ministrar aulas e palestras. Viaja por toda a Argentina e Uruguai. Fala de literatura, cabala, poesia germânica medieval, sufismo, as sagas islandesas, Dante, expressionismo, Cervantes.

Em 1961 divide com Samuel Beckett o Prêmio Formentor, outorgado por editores europeus graças a uma tradução dos seus contos para o francês, publicada quase trinta anos antes. É o inicio da fama e do mito do Bardo Cego. Sua obra é traduzida para todas as línguas européias, o árabe e o hebraico. O prêmio é quase equivalente ao Nobel, que não chegou a ganhar. Suas opiniões políticas têm muito a ver com esta omissão, à qual se referia ironicamente como uma antiga tradição nórdica.

Borges, escritor cosmopolita, que não duvidou em se utilizar quase todo o acervo cultural da humanidade, era, explicitamente, um escritor argentino. Poucos, talvez nenhum escritor argentino tenha reivindicado para sua família tantos fatos da história do seu país. Isto consta em seus escritos assim como em muitas das centenas, talvez milhares, de entrevistas que concedeu ao longo de sua longa vida em diversos países. Ainda que não chamasse a atenção para esses fatos, toda sua obra se encarregaria de lhe denunciar a origem. Na obra deste autor não percebemos a Argentina dos jornais e das agências de turismo, antes, outra, forjada em Buenos Aires pelas classes ilustradas suas contemporâneas.

Seria possível lhe atribuir a reinvenção do labirinto. Um labirinto arquetípico, platônico. Outros apenas admitem o tabu deste tema na literatura depois dele, são menos os que lhe reconhecem o mérito de ter atualizado um motivo presente exaustivamente em obras maneiristas.

Buenos Aires é uma cidade de ruas paralelas, os quarteirões formando quadriláteros quase perfeitos. Talvez a perfeição do quadrilátero fosse a primitiva intenção dos fundadores, isto se percebe nos esboços originais da cidade. Borges parece não tê-la sentido assim, deu aos seus passeios uma forma circular. Visitava sempre os mesmos lugares. Se acrescentarmos a estas caminhadas a penumbra de sua cegueira progressiva, poderemos encontrar — ou justificar —  a presença em sua obra desta forma arquitetônica tão venerada quanto inútil.

Este homem que como Quevedo, como Voltaire, como Goethe, como Wells, como algum outro mais aspirou menos ser um literato que uma literatura, extraiu do sul da cidade seus temas e personagens.

O sul era, para Borges, menos uma referência geográfica que um ideal. Isto afirma em O sul conto que destacava como sua narração melhor acabada, na qual inclui um dado biográfico da maior importância em sua evolução como escritor.

Dahlmann, protagonista da obra, é um pacato bibliotecário que sofre um acidente numa escadaria escura enquanto carregava um exemplar de As mil e uma noites. O próprio Borges, na véspera de Natal de 1938, é ferido na testa por uma janela aberta e recém pintada, isto provocará uma septicemia e ele passará duas semanas entre a vida e a morte. Quando volta a escrever, tenta algo que nunca tivesse escrito, um conto. Escreve Pierre Menard, autor do Quixote, uma de suas obras de maior influência não só na ficção como na crítica contemporânea.

Buenos Aires e seus arredores estão sempre presentes. Dentre muitos exemplos, Borges nos esclarece que os losangos do vitral que aparecem no conto A morte e a bússola, localizado em Genebra, fazem parte da paisagem de uma rua do sul de Buenos Aires, e que a quinta Triste-le-Roy, do mesmo conto, é uma transposição de um hotel de Adrogué, localidade ao sul de Buenos Aires, onde a família costumava passar temporadas na época de férias.

Jorge Luís Borges cresceu no bairro de Palermo e praticamente até sua morte morou no lado norte da cidade. Isto poderia sugerir uma curiosa constatação: enquanto sua obra fixava um espaço limitado da cidade, ele, morador de sua antípoda, cumpria o papel de turista, que sempre criticou, de forma implícita, na literatura. De fato, a cor local do sul foi retratada por um homem do norte. Suspeito que esta conclusão não seria do seu agrado.