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NA BIENAL DE VENEZA “Ngola Bar” de kiluanji kia henda

Kiluanji Kia Henda (1979) nasceu em Luanda, onde vive e trabalha. Viajou pelas várias províncias de Angola e dessas viagens resultou o trabalho “4.ª Dimensão”, no âmbito da I Trienal de Luanda. Colaborou com vários grupos de acção teatral e artística em Luanda e expôs em feiras de arte e museus na Europa (“Art InVisible”, Arco, Madrid, 2006; “Observatory SD”, IVAM, Valência, 2006). Recentemente, o seu trabalho foi selecionado para o projeto de curadoria “Check List Luanda Pop”, do Pavilhão Africano da 52.ª Bienal de Veneza (2007), a par de nomes consagrados da arte contemporânea como Ghada Amer, Miquel Barcelò, Jean Michel Basquiat, Marlène Dumas, Viteix, etc. Sob o título de ‘Ngola Bar’, a exposição que Kia Henda traz ao FMM apresenta trabalhos recentes que partem do local – a paisagem urbana e a natureza angolanas – para a esfera global: a produção de sentidos universais, a evocação da mobilidade sobre a paisagem, a cultura contemporânea das imagens.

enviado por antonio perseu. angola.

O ALAMBIQUE conto de léo meimes

Como se do chão viessem ondas que o desequilibrassem a cada toque, o Alambique tentava fazer seu caminho pelo beco. Suas pernas trançavam inúmeros tropeços, enquanto sentia o pequeno peso da carga nas costas o puxando para trás e em seguida o empurrando para frente. Assim ia ele, carregando apenas um saco preto, com cobertor, jornais para colocar no corpo enquanto dorme e uma garrafa de pinga. Com seu andar de camaleão, chegou à frente de um bar, tentou parar de brusco quando encontrou uma poça de água e acabou caindo de lado no chão, por sorte em cima do grande saco preto. Ali, deitado como quem está sofrendo de algum ataque, sentiu os pingos da chuva voltarem a cair em seu rosto. Demorou a se levantar e quando conseguiu dirigiu-se para o bar, precisamente para o canto esquerdo, onde se colocou a baixo da mesa em que os músicos tocavam imprecisamente algum samba.
O bar era local de juventude, podia se dizer que os mais velhos eram os que cantavam e tocavam, com a ajuda de duas moças mais novas. Nas mesas ali fora, o povo começou a adentrar devido à chuva fazendo o minúsculo local ficar cheio em segundos. O Alambique estava ali, mesmo que ninguém o considerasse. Olhava para os rostos jovens, que impregnados de saúde desviavam de seu olhar, evitavam, fingiam que ali não havia ninguém. Porém é fato e qualquer um que pudesse estar lá na hora comigo veria que aquele homem sentado no chão, em cima de trapos e vestido com trapos existia. A música não parou nenhum segundo, meninas desenvolveram uma dança atraente, rapazes olhavam descrentes, Alambique só procurava um olhar recíproco… Um garçom jovem como todos os outros, passou e deixou sobre uma mesa uma garrafa de cerveja. A espuma adentrou fundo nos desejos do Alambique. O homem barbudo e despenteado fez no movimento lesmático dos bêbados um sinal com os dedos apontando para cima e riu, imaginando platéia que acompanhasse seu trunfo, em seguida retirou da grande bagagem sua garrafa transparente e plástica de pinga. Mostrou, ofereceu e até gracejou uma cheirada no gargalo à sua platéia antes de beber o gole alcoólico com gosto. Ficou por momentos curtindo a música, ouvindo a melodia, o som não era em nada bom, os músicos com instrumentos desafinados, pandeiros fora do ritmo, mulheres cantando fora do tempo, porém era ópera para os ouvidos do Alambique. Parou a música e Alambique gritou “Madalena, Madalena”, um dos músicos ouve e atende o pedido, “Você é meu bem querer!” e assim continuaram. Alambique entra em um frenesi, dançando somente com os braços, batendo palmas, repetindo o refrão incessantemente, ali mesmo sentado. Mesmo quando já era outra música que tocava ele continuava a insistir “Madalena, Madalena!” Uma moça diz com ar reprovador para o Alambique “Não é mais Madalena homem, presta atenção!”. Ele em um crescente de euforia, talvez por ter sido visto, notado e ouvido, se levanta com dificuldade joga os braços para o alto e, como se pedisse que alguma Madalena se jogasse em seu colo, grita a pulmões de pneumonia “Madalena, Madalena!” O garçom do bar finalmente o vê ali, se dirige a Alambique e pede para que este se retire. Um rapaz que estava próximo diz ao garçom que deixe de ser implicante, pois o homem estava ali à tanto tempo e não estava atrapalhando ninguém. “Se deixar um entrar, daqui a pouco só tem fulero nesse bar”, diz o garçom já apontando a rua para Alambique. O barbudo olha para os lados e senta-se, fingindo não ver o homem que tentava colocá-lo para fora do lugar, pensa: “So fulero que nem todo mundo aqui”. O dono do bar em seguida aparece e o manda pegar as coisas e sair rapidamente. Com a ajuda do rapaz que o defendeu Alambique levanta, pega as coisas, arranca das mãos do garçom sua garrafa de pinga, a qual lhe fora tomada, e sai porta a fora.
Lá já não chove mais e como não podem o mandar embora da rua, fica parado em frente ao bar olhando e cantando seu verso preferido. Nas costas ainda está o saco com seus pertences. Próximo a ele uma mesa com vários jovens, incluindo o que o havia ajudado. Alambique se aproxima e tenta puxar assunto “Bom o samba?” e é respondido com um simples “Sai fora, se toca, já encheu o saco já”. É o que ele faz, vira de costas e começa de novo o seu navegar inconstante pelo beco, com tropeços e sustos. Não anda nem meia quadra e algo o surpreende. Formas lindas eram feitas no ar por malabaristas que jogavam claves, bolas, outros se equilibravam em monociclos enquanto faziam truques com bolas de toque. Alambique se apaixona pelos movimentos, pelas claves que saiam das mãos de um para a do outro sem cessar. Deixa-se cair de novo em cima do grande saco, desta vez não é a chuva que o agracia e sim a visão única de estar exatamente a baixo dos malabaristas. O circo, nunca por ele visitado, o rodeava agora e em seu sonho Alambique se imaginava um equilibrista, andando pelos paralelepípedos da cidade, contornando as esquinas esguias dos becos, passeando pelas marquises e pulando sobre toldos como se tudo isso realmente estivesse acontecendo. Naquele lugar mesmo Alambique dormiu.
No outro dia já havia passado da hora do almoço e ele como criança mimada dormia e não obedecia aos passos apresados dos gentios que tentavam o acordar. Um colega seu de rua, bebedeira e tudo mais, passa e se atreve a chamá-lo. “Alambique, Alambique, acorda que se tá no meio do beco, daqui apouco chamam a pulicia pra ti enxota daqui. Anda homem, que parece até que gosta de dormi no chão frio!” A voz de seu colega adentrou os sonhos de Alambique e o trouxe a realidade, acordou então. Desfez-se das remelas, arrumou o cabelo e enfim levantou.
— Rico, se num sabe tudo que me aconteceu onti rapais! Se eu ti conta, se acredita?
— Ave, que que foi?
— Eu onti, fui pro samba, dancei com a mulherada bonita, cantei junto cos cantor, puxei “Madalena”, bebi cerveja geladinha e sabe o que me aconteceu ainda?
— Que que foi?
— Dei sorte e peguei um circo de passage, até na corda bamba eu andei! To tão cansado, que merecia mais uma hora de sono, sabia?

CHEGOU O VERÃO por luis fernando veríssimo

Verão também é sinônimo de pouca roupa e muito chifre, pouca cintura e
muita gordura, pouco trabalho e muita micose.Verão é picolé de Kisuco no palito reciclado, é milho cozido na água da
torneira, é coco verde aberto pra comer a gosminha branca.
Verão é prisão de ventre de uma semana e pé inchado que não entra no tênis.
Mas o principal ponto do verão é…. a praia!
Ah, como é bela a praia.

Os cachorros fazem cocô e as crianças pegam pra fazer coleção.
Os casais jogam frescobol e acertam a bolinha na cabeça das véias.
Os jovens de jet ski atropelam os surfistas, que por sua vez, miram a
prancha pra abrir a cabeça dos banhistas.

O melhor programa pra quem vai à praia é chegar bem cedo, antes do
sorveteiro, quando o sol ainda está fraco e as famílias estão chegando.
Muito bonito ver aquelas pessoas carregando vinte cadeiras, três
geladeiras de isopor, cinco guarda-sóis, raquete, frango, farofa,
toalha, bola, balde, chapéu e prancha, acreditando que estão de férias.

Em menos de cinqüenta minutos, todos já estão instalados, besuntados e
prontos pra enterrar a avó na areia.

E as crianças? Ah, que gracinhas!
Os bebês chorando de desidratação, as crianças pequenas se socando por
uma conchinha do mar, os adolescentes ouvindo walkman enquanto dormem.

As mulheres também têm muita diversão na praia, como buscar o filho
afogado e caminhar vinte quilômetros pra encontrar o outro pé do
chinelo.

Já os homens ficam com as tarefas mais chatas, como perfurar o poço pra
fincar o cabo do guarda-sol.
É mais fácil achar petróleo do que conseguir fazer o guarda-sol ficar em pé.

Mas tudo isso não conta, diante da alegria, da felicidade, da maravilha
que é entrar no mar!
Aquela água tão cristalina, que dá pra ver os cardumes de latinha de cerveja
no fundo.
Aquela sensação de boiar na salmoura como um pepino em conserva.

Depois de um belo banho de mar, com o rego cheio de sal e a periquita
cheia de areia, vem aquela vontade de fritar na chapa.
A gente abre a esteira velha, com o cheiro de velório de bode, bota o
chapéu, os óculos escuros e puxa um ronco bacaninha.

Isso é paz, isso é amor, isso é o absurdo do calor!!!!!
Mas, claro, tudo tem seu lado bom.
E à noite o sol vai embora.
Todo mundo volta pra casa tostado e vermelho como mortadela, toma banho
e deixa o sabonete cheio de areia pro próximo.
O Shampoo acaba e a gente acaba lavando a cabeça com qualquer coisa,
desde creme de barbear até desinfetante de privada.
As toalhas, com aquele cheirinho de mofo que só a casa da praia oferece.
Aí, uma bela macarronada pra entupir o bucho e uma dormidinha na rede
pra adquirir um bom torcicolo e ralar as costas queimadas.

O dia termina com uma boa rodada de tranca e uma briga em família.
Todo mundo vai dormir bêbado e emburrado, babando na fronha e torcendo,pra
que na manhã seguinte, faça aquele sol e todo mundo possa se encontrar no
mesmo inferno tropical…
Qualquer semelhança com a vida real, é uma mera coincidência.

enviado por  graça maria meneghetti.

OLHA A CACHAÇA, AÍ GENTE! por edu hoffmann

AbrideiraCada país têm sua bebida popular. Em Cuba é o rum, nos esteites é o uísque, na Rússia é a vodka,

na Itália, tuto buona gente, adoram a graspa, no México bebem teqüila, e aí vai…
No Brasil, claro, é a cachaça!“Cachaça é a denominação típica e exclusiva da aguardente de cana produzida no Brasil, com graduação alcoólica de trinta e oito a quarenta e oito por cento em volume, a vinte graus Celsius, obtida pela destilação do mosto fermentado de cana-de-açúcar com características sensoriais peculiares, podendo ser adicionada de açúcares até seis gramas por litro, expresso em sacarose”.
Foi assim, que, em outubro de 2003, por meio do Decreto 4.851, o governo brasileiro oficializou a cachaça como produto tipicamente brasileiro.

Luis da Câmara Cascudo, em Prelúdio da Cachaça; etnografia, história e sociologia da aguardente no Brasil, informa:
A aguardente da terra, elaborada no Brasil, podia atender ao apetite dos fregueses humildes, escravos, mestiços, trabalhadores de eito a jornal, todo um povo de reduzida pecúnia. O Tráfico da escravaria impôs a valorização incessante da aguardente na terra, a futura cachaça, era indispensável para a compra do negro africano e, ao lado do tabaco em rolo, uma verdadeira moeda em circulação.

A cachaça a Deus do céu
tem o poder de empatar
porque se Deus dá juízo
cachaça pode tirar

mulato não larga a faca
nem branco a “sabedoria”
cabra não deixa a cachaça
nem negro a feitiçaria

(poesia anônima popular)

A nossa querida cachaça já foi tratada como bebida de segunda categoria, hoje, no entanto, ela já atingiu o status de boa bebida, graças ao trabalho, principalmente dos mineiros.
Lá em Minas Gerais, formaram cooperativas, com um controle rígido quanto à qualidade da nossa boa cachacinha. Por conta disso, em qualquer bar e restaurante do Brasil, encontramos uma “mineirinha” de primeira, motivo do aumento das exportações das branquinhas e amarelinhas.

Sabia que no Brasil já têm até cachacier? Pois é. Cachacier é variação da palavra francesa sommelier, que designa o expert em vinhos. O nosso especialista chama-se Carlos Gonzáles, dono da Cacharia Pompéia, em São Paulo. Entre as dicas do Carlos, está a escolha do copo: “não muito alto com gargalo mais estreito e bojudo” – para sentir o aroma e apreciar a coloração.

Cana -caiana
A cana-caiana é a única saccharum officinarum a denominar aguardente, ingressando na rica sinonímia da cachaça. Batizou um livro de poemas de Ascenso Ferreira (“Cana-caiana”, Recife,1939) onde reaparece um ditirambo popular:
Suco de cana-caiana
Passado no alambique,
Pode sê qui prejudique
Mas bebo toda sumana

Existem muitas estórias, brincadeiras e folclores envolvendo a cachaça. Consegui uma que vinha impressa na etiqueta da Caninha Brumado Velho:

Fui a Minhas gerais e tomei uma cachaça da boa,
mas tão boa, que resolvi levar dez garrafas pra casa.
Mas dona patroa me obrigou a jogar tudo fora.
Peguei a 1ª garrafa, bebi um copo e joguei o resto na pia.
Peguei a 2ª garrafa, bebi outro copo e joguei o resto na pia.
Peguei a 3ª garrafa, bebi o resto e joguei o copo na pia.
Peguei a 4ª garrafa, bebi na pia e joguei o resto no copo.
Peguei o 5º copo, joguei a rolha na pia e bebi a garrafa.
Peguei a 6ª pia, bebi a garrafa e joguei o copo no resto.
A 7ª garrafa, eu peguei no resto e bebi a pia.
Peguei o copo, bebi no resto e joguei a pia na 8ª.
Joguei a 9ª pia no copo, peguei a garrafa e bebi o resto.
O 10º copo, eu peguei a garrafa no resto e me joguei na pia.
-Não me lembro o que fiz com a patroa

Saideira

Musicalmente, foram feitas trocentas músicas, com letras falando da cachaça e respectivos bebuns. Apontarei três, que considero ótimas:Camisa listrada, de Assis Valente

Vestiu uma camisa listrada e saiu por aí
Em vez de tomar chá com torrada ele bebeu parati
Levava um canivete no cinto e um pandeiro na mão
E sorria quando o povo dizia: sossega leão, sossega leão…

Cachaça Não é Água Não,de Mirabeau Pinheiro, L de Castro e H Lobato

Se você pensa que cachaça é água
Cachaça não é água não
Cachaça vêm do alambique
E água vêm do ribeirão

Pode me faltar tudo na vida
arroz, feijão e pão
Pode me faltar manteiga,
E tudo mais não faz falta não

Pode me faltar amor
Disto até acho graça
Só não quero que me falte
A danada da cachaça

Moda da Pinga, de Ochelsis Laureano e Raul Torres

C’oa marvada pinga é que eu me atrapaio
Eu entro na venda e já dô meu taio
Pego no copo e dali não saio
Ali mesmo eu bebo, ali mesmo eu caio
Só pra carregá é que eu dô trabaio, oi lá !

Venho da cidade, já venho cantando
Trago um garrafão que venho chupando
Venho pros caminho, venho trupicando
Chifrando os barranco, venho cambeteando
E no lugar que eu caio, já fico roncando, oi lá !

O marido me disse, ele me falô
Largue de bebê, peço pro favor
Prosa de homem nunca dei valor
bebo com o sor quente pra esfriar o calô
E bebo de noite pra fazê suadô, oi lá !

Cada vez que eu caio, caio diferente
Me arco pra trás e caio pra frente
Caio devagar, caio de repente
Vou de currupio, vou deretamente
Mas sendo de pinga eu caio contente, oi lá !

Pego o garrafão e já balanceio
Que é pra mor de ver se tá mesmo cheio
Num bebo de vez porque acho feio
No primeiro gorpe chego inté no meio
No segundo trago é que eu desvazeio, oi lá !

Eu bebo da pinga porque gosto dela
Eu bebo da branca, bebo da amarela
Bebo no copo, bebo na tigela
Bebo temperado com cravo e canela
Seja quarqué tempo vai pinga na goela, oi lá !

Eu fui numa festa no rio Tietê
Eu lá fui chegando no amanhecê
Já me dera, pinga pra mim bebê
Já me deram pinga pra mim bebê, tava sem fervê

Eu bebi demais e fiquei mamada
Eu caí no chão e fiquei deitada
Aí eu fui pra casa de braço dado
Ai de braço dado com dois sordado
Ai, muito obrigado !

CARNAVAL? E O NOSSO? env. por loureane castro.

carro alegórico com eusébio, no corso de Loule.

 Quando se fala de Carnaval, os brasileiros acham-se donos da ciência. Pensam que só no Brasil é que há Carnaval? Nanay. Não se esqueçam do Carnaval veneziano…
Espanha também tem tradições próprias e muito antigas. Se, por um lado, temos o mediático Carnaval de Tenerife (mais do mesmo, na linha do Carnaval madeirense, como se pode ver em http://www.carnavaltenerife.es/), o norte da Espanha tem tradições que se assemelham muito às do interior/norte de Portugal e que remontam aos jograis e às sátiras sociais em tom jocoso e por trás de um careto ou de uma máscara.
A sul, mantêm-se as sátiras, mas juntam-se às chirigotas, em agrupamentos de gente que se une para satirizar a actualidade ao ritmo de pasodoble, tanguillo e outros da tradição musical andaluza. Há um concurso central, que é o de Cádiz, mas todas as terras têm o seu concurso local para os melhores chirigoteros. O site oficial é http://www.carnavaldecadiz.com/. O concurso pode também ser visto em directo na tv (ou numa selecção em diferido) no site do CanalSur: http://www.radiotelevisionandalucia.es/
Nós, os saloios dos ibéricos, também temos tradições para tudo. E, sinceramente, eu cá dispenso as mulatas despidas e as escolas de samba e vou-me ficar por ver o concurso de chirigotas em directo na terça-feira. É uma pena que não se incentivem os Entrudos lusitanos assim e que se deixem cair em desuso tradições seculares para adoptar referências culturais que, entre o Halloween dos EUA e o sambódromo do Brasil, não são nossas.
Eles têm o rei Momo, nós temos a Queima e o Enterro do Judas.
E qualquer provinciano ibérico como eu, que oscilo entre o jamón Pata Negra e as tripas à moda do Porto, sabe do que falo.
loureane afirma, em seu email, que retirou, de uma página, na internet, sem assinatura, e que achou interessante. como estamos no carnaval, e o servidor está cheio de confetes e serpentinas, publicamos. se o autor do texto se apresentar, com provas, citaremo-lo. ops! confete no olho.

POEMA de bia de luna

A borboleta branca

É a letra que falta

  

  

na palavra que não sai

CHIAR(O)SCURO poema de bárbara lia

Hora suspensa. Horizonte de sangue.
Despediu-se o sol, não brilha a lua.
Barcas estremecem em marés de fogo.
Sinos dobram a Ave-Maria.
O Bem chora a evaporação do dia.
Lágrimas de anjos pela humanidade crua.
Encontro e fuga de almas no ocaso,
Bebendo o sangue solar – poção
De luz para os dias de aço.
Crepúsculo incendiado.
Átimo de esperança: Um Serafim alado,
Flauta de estrelas flana acima de algas e corais.
Toca a música divina estremecendo cristais.
(Jazz, blues, salsa cubana, sinfonia?)
Som azul unindo sangue celeste e marinho.
Serafim, flauta e sol
Evaporam em silêncio de prece.
A branda noite abraça o arrebol.
O eco da flauta aos puros adormece

ARRANCADO DE MIM poema de paulo matos

Arrancado de mim
Como flor que fosse arrancada
Por uma criança ao passar
E antes que a flor percebesse
Já tivesse sido despetalada
Pela criança que soprava
Suas pétalas ao vento
Para acompanhar-lhes o vôo
No encanto mágico de voar
Como essa flor sem pétalas
Estou despido de mim
Perdido ao lembrar como era
E não saber como sou
Sinto medo
Há silencio em mim
Como se não ter respostas
Fosse a resposta
E tudo se tranqüilizasse
Como um mar em súbita calmaria
E o medo fosse embora
E outro medo então
Se apossasse de mim
O medo de não ter coragem
Para encontrar as respostas
Que provavelmente estão aqui
Dentro de mim

A RARA ARARA (palíndromos) de edu hoffmann

oh, nossas luvas avulsas, sonho
a base do teto desaba
marujos só juram

a sacada da casa
soa como caos
seco de raiva, coloco no colo caviar e doces

rir, o breve verbo rir

Ana me rola, calor emana
a rara arara
amora me tem aroma

ATÉ MAIS, OFÉLIA por zuleika reis

A mulher vai passando silenciosa pelo homem que toca violino junto aos mendigos da Estação República.
Peter Pan encontra a pedra de crack no bolso da calça jeans e se põe a sonhar… Wendy, ao seu lado, também se põe a sonhar…
O olhar do homem que entra no Franz e aguarda o café expresso, não se parece com um céu em chamas. Enquanto toma o café, apenas vê os brancos garçons suspensos por seus fios invisíveis.
O céu baixíssimo protege a velha biblioteca com seus ratos de outros tempos.
O palhaço com imensas pernas de pau atravessa o Viaduto do Chá, anunciando… Você só fala, fala, mas não faz nada, diz a balconista, que jamais leu o papagaio de Queneau.
Fernando Pessoa cumprimenta timidamente a mulher, que continua a passar silenciosa. Ele lhe faz um gesto como quem diz: Isso também passará. O poeta atravessa a Rua Direita com o chapéu em uma das mãos e na outra o gatinho que acabou de recolher da calçada.
O homem que toca o violino vem, cercado pelo séquito de mendigos. O homem que toma café no Franz se cose à parede. Não há como duvidar que os brancos garçons continuem, ad infinitum, a servirem cafés. O palhaço chega à Praça da Sé. Um rato pardo, que acabou de sair do bueiro, tem nos olhos a certeza de que o mundo perfeito não precisa, absolutamente, de queijos. Tento surpreender nele algum ar de mártir cristão ou de monge zen, mas já desapareceu.
Fernando Pessoa solta o gatinho, despe o casaco e se põe a dançar, frenético. Ele grita Ofélia vem dançar vem dançar vem dançar e a multidão que se dirige à missa também grita Ofélia vem dançar vem dançar vem dançar.
Ofélia dança e vai soltando, um por um, todos os seus véus e nua, continua a dançar.
Fernando Pessoa pára, veste o casaco, pega o chapéu do chão com o gato dentro e se despede:

Até mais, Ofélia.

PARA REFLETIR de artur amieiro

CRIME e CASTIGO por walmor marcellino

Após o anúncio da progressão assustadora do desmatamento na Amazônia, e da reunião de emergência do governo Lula da Selva, surge a inevitável pergunta: O presidente da República não teria sido avisado por sua delegacia de ordem política e social, isto é, a ABIn, por sua ministra do Ambiente do Meio(?) Marina Selva, pelo Ministério da Reforma Agrária, pelo Ministério da Defesa, pelo Ministério da Justiça e até pelo Ministério da Pesca e pela direção nacional do PT de que estão depredando a Amazônia? E que os empresários que a borracheira e castanheira Marina e o protelário Lulu estão querendo incumbir de proteger esse patrimônio nacional são assaltantes dos bens públicos?
Afinal, é o começo da PP/P (que os pariu!).

Os governadores, prefeitos, senadores e deputados da região amazônica são sócios do festim nacional do neoliberalismo de esquerda; como o eram no de Fernando-Henrique, ou seja, qualquer “predatório”. Toda vez que eu vi e ouvi os Artur Virgílios discursarem foi para atacar esse “governinho de esquerda” e defender a predação nacional, de direita. Essa escumalha de políticos se revelam a cada momento através de desastres e tragédias que são anunciadas para quem vê o que passa, sob a batuta de Lula-Meirelles-Mântega.

“Política é isso, fazer o quê?” dirão o Berzoini, o Palocci, o Mântega, o Paulo Bernardo, o Meirelles, o Mangabeira, o Luiz Inácio e as bancadas do PT e seus cúmplices no Congresso Nacional. A propósito, a governadora petista do Pará faz o quê, além de administrar o espólio?
O que vai acontecer agora, e depois?
Se alguém souber, me diga.

JOÃO GOULART, as provas e a história – por gison caroni filho

O Novo Dicionário Aurélio define “prova” como “aquilo que atesta veracidade ou autenticidade de uma coisa; demonstração evidente”. Nas reportagens ditas investigativas, é algo a ser obtido durante a fase de apuração das informações que vão ser publicadas. Peça tão importante que deve ser checada criteriosamente.

Na entrevista concedida à Folha de S.Paulo (27/1), o ex-agente de inteligência do governo uruguaio Mário Neira Barreira afirma que João Goulart, deposto em 1964 e morto em 1976, foi assassinado por envenenamento a pedido do governo brasileiro.

A rigor, não estamos diante de um furo jornalístico. Há duas semanas, após entrevista de Barreira com João Vicente Goulart, filho de Jango, a família entrou com uma ação na Procuradoria Geral da República na qual pede que se investiguem as circunstâncias que cercaram a morte do ex-presidente em seu exílio, na Argentina.
O que o diário paulista conseguiu foi um material rico em detalhes, algo que pede para ser reconstituído como acontecimento histórico relevante, podendo tanto confirmar a versão oficial (ataque cardíaco fulminante) como refutá-la.
O que está em questão é a disposição e/ou capacidade de se fazer jornalismo investigativo ou deixar que matéria morra na opinião sobre os “especialistas do tema”.

Ouvindo o que Jango falava

Ao escrever que Mário Neira “não exibiu provas e disse que o caso era discutido pessoalmente”, a jornalista Simone Iglesias, involuntariamente, suscita questões interessantes: o que pode ser considerado prova em um episódio como esse? Uma autorização por escrito do então presidente general Ernesto Geisel ou do delegado do Dops Sérgio Paranhos Fleury? Algum comprimido envenenado com frasco mostrando a validade vencida?
Se considerarmos que o relato do uruguaio guarda inconteste coerência interna – e é verossímil com o contexto político da época – a entrevista pode ser o primeiro passo na concepção de um instigante trabalho de investigação.
Uma história que pede para ser revisitada.
Se, tal como definida no dicionário, “prova circunstancial” é aquela que se baseia em indícios, as palavras do entrevistado não podem ser descartadas por falta de relevância. Como prova testemunhal, conhecida nos meios jurídicos como “prostituta das provas”, a posição funcional de Neira é um dado que não deve ser ignorado. O que deve ser apurado não é de pouca monta.

Senão, vejamos:

“Estive na fazenda de Maldonado para colocar uma estação repetidora que captava sinais dos microfones de dentro da casa e retransmitia para nós. Esta estação repetidora foi colocada numa caixa de força que havia na fazenda. Aproveitamos essa fonte de energia para alimentar os aparelhos eletrônicos e para ampliar as escutas. Isso possibilitava que ouvíssemos as conversas a 10, 12 km de distância. Ficávamos no hipódromo de Maldonado ouvindo o que Jango falava.”
Uma rara oportunidade
Não há como confirmar junto à família ou ex-trabalhadores a existência dessa caixa e a plausibilidade operacional de escuta no hipódromo? Ou disso cuidam os biógrafos?

“Foi morto como resultado de uma troca proposital de medicamentos. Ele tomava Isordil, Adelfan e Nifodin, que eram para o coração. Havia um médico-legista que se chamava Carlos Milles. Ele era médico e capitão do serviço secreto. O primeiro ingrediente químico veio da CIA e foi testado com cachorros e doentes terminais. O doutor deu os remédios e eles morreram. Ele desidratava os compostos, tinha cloreto de potássio. Não posso dizer a fórmula química porque não sei. Ele colocava dentro de um comprimido.”

Certamente, há como se comprovar ou não a existência do médico e seu papel no aparato repressivo. A medicação citada deve ser de conhecimento dos familiares ou de algum clínico com quem o ex-presidente tenha se consultado. Quem sabe não há prontuários no Brasil, Argentina ou Uruguai? Estamos falando do estudo de viabilidades, um procedimento bastante familiar a experientes jornalistas.

Se, conforme é descrito na matéria, “o Exército brasileiro informou que não há hoje ninguém na ativa com condição de responder ou até rejeitar acusações. O mesmo foi dito pela embaixada dos Estados Unidos no Brasil, questionada se houve participação da CIA na suposta operação para matar o presidente João Goulart, em 1976”, é hora de a Folha de S.Paulo estabelecer um plano de ação e pôr em campo uma equipe familiarizada com o tema e que a ele se dedique com afinco. Estamos falando da Operação Condor e de uma rara oportunidade: aquela em que a história, sorrateiramente, adentra uma redação como esfinge.
A opção é por demais conhecida para ser repetida como desfecho de artigo.

Ou será que a proverbial preguiça, advinda do exercício constante do denuncismo vazio, levou nossa imprensa a criar um novo preceito jurídico? Algo do gênero: a quem se acusa cabe o ônus da prova?

ENTRE o CARNAVAL e os CARNAVAIS por márcio salgues

No carnaval a vida muda. O país muda. As pessoas mudam.
Tantos pudores cotidianos são esquecidos. Os desejos mais íntimos afloram à pele nos carnavais das ruas e dos bailes.
Não há Josés, Marias, Franciscos, nem outras pessoas que sejam. Há, sim, foliões lançados ao transe coletivo, à catarse coletiva dos desejos oprimidos no dia-a-dia em nome de uma suposta vida normal.
Não há a necessidade de dissimulação para consigo mesmo. Os foliões se entregam aos folguedos e à libertinagem.O carnaval é a festa que melhor representa a cultura brasileira em todos os seus aspectos. Num misto de tradições populares e antigas tradições pagãs.
É a união de inúmeros personagens míticos e folclóricos: Baco, Momo, Pierrôs, Colombinas, Baianas das enormes saias que rodopiam nos desfiles, corpos lânguidos que saracoteiam pelas ruas exalando sensualidade, luxúria e o cheiro do cio que enche a atmosfera libertando os pudores; os carros que fazem suas alegorias à temas diversos, o gigante Galo da Madrugada… O mundo pára.
A vida pára.
  Raíssa Oliveira – (2008)  A mais nova de todas, com apenas 17 anos, Raissa mostrará todo seu charme e samba-no-pé como rainha de bateria da atual campeã, a Beija-Flor de Nilópolis.
foto sem crédito.
Durante quatro dias, ninguém mais se preocupa com as oscilações do mercado, com a cotação do dólar, com os baixos salários, com os escândalos de todos os dias, com a corrupção, com a pobreza, a miséria, a fome… Tudo é festa. Festeja-se a própria insensatez.
Todos se entregam à ilusão temporária a que chamam alegria, até que chegue a quinta-feira e todos retomem suas velhas e rotineiras vidas. Carnaval é a festa de todos.
Não há distinção de classes. Não há luta de classes.
Ainda que as diferenças se façam perceber na magnitude dos bailes nababescos e dos camarotes VIP dos endinheirados, celebridades descartáveis e candidatos à celebridade descartáveis; onde os “colunistas sociais” se esfalfam nos regalos e bajulações.
Título curioso, aliás, para uma categoria que não se vê no meio do povão, nas arquibancadas dos desfiles das escolas de samba, nas ruas, onde os corpos suados pululam ao som dos trios-elétricos, dos blocos de rua, das orquestras de frevo, Caboclinhos, Maracatus, Bois-Bumbás e todas as manifestações populares pelo Brasil adentro, onde está o verdadeiro carnaval.
Os carnavais dos versos de Nelson Ferreira, Chiquinha Gonzaga, Braguinha, Edgard Moraes e tantos outros grandes nomes da nossa cultura se perdem aos poucos, salvo iniciativas de grupos isolados…
Saudosismo dos blocos líricos e antigos carnavais? Não sei… Não vivi esses tempos. Apenas conheço as canções dos carnavais poéticos…
EVOCAÇÃO Nº 1 – (Nelson Ferreira, 1956)
“Felinto, Pedro Salgado, Guilherme, Fenelon
Cadê teus blocos famosos
Bloco das Flores, Andaluzas, Pirilampos, Apôs-Fum
Dos carnavais saudosos
Na alta madrugada
O coro entoava
Do bloco a marcha-regresso
E era o sucesso dos tempos ideais
Do velho Raul Moraes
Adeus, adeus minha gente
Que já cantamos bastante
E Recife adormecia
Ficava a sonhar
Ao som da triste melodia…”
… Apenas sinto a estranha sensação de que a nossa cultura aos poucos vai sendo canibalizada. A poesia, o lirismo, as tradições folclóricas vão sumindo.
Os carnavais da grande massa popular aos poucos vão se tornando em imensas feiras livres, cujo único objetivo é a venda de pretensas musiquinhas irritantes, abadás e cervejas de todas as marcas. E que, como fonte de lucro abundante, se prolifera nos chamados “carnavais fora de época”, onde se despejam, como que num grande buraco negro, todas as mazelas que açoitam nossa sociedade.
Esconde-se o lixo debaixo do tapete.
E assim, embriagados nos delírios desses dias de folia, a vida segue seu rumo. Despercebida e com poucos ideais e ambições. A sociedade vai sendo ludibriada e a cultura histórica se transforma numa cultura descartável, como tudo mais na sociedade moderna.
Assim fazemos a distinção entre o carnaval do engodo e da ignorância e o carnaval da cultura e da diversidade histórica que precisa ser massificado.
E esse carnaval verdadeiro, enquanto houver iniciativas por parte daqueles que cultuam as nossas tradições, será sempre a maior manifestação cultural e popular brasileira.

TORTURA É UM ABSURDO poema de manoel antonio bonfim

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MEIO de TARDE poema de joanna andrade

Meio de tarde
No balanço de um blues
Pra lá e pra cá
O cenário de hotel
A cadeira e o guarda sol
A fumaça do cigarro e o cinzeiro lotado
A água da piscina
O gim e a tônica da solidão.

O RETORNO de DARIO poema de jairo pereira

Dario em seu retorno de quinta ou sexta vez
está mais velho e lívido os grisalhos nevados
a tez feliz de quem já viu-viveu quase-tudo
Dario o das palavras: estar ficar nada-fazer
as unhas bem feitas os óculos finos a testa alta
Dario o aristocrata descido de brancas nuvens
o andar preciso o sorriso aberto no ouro do dente
Dario o da mulher ausente os filhos por re-conhecer
no sétimo retorno de Dario a voz consente
da razão escolher assento nas Quedas do Iguaçu
onde o Dr. Jairo é o louco bom q. chuta postes
e a maneira dos gaúchos de culotes
fere a noite no tropel de seu cavalo monet
oferecido a vida e a morte por mero deleite.

CONTRA-CANALHAS poema de joão batista do lago

Quanto tempo ainda restará
Para conviver com os canalhas?

Vive-se um tempo de batalha: a
Virtude é pura moeda rara!
Perdeu-se a vergonha da cara;
Falta coragem de usar a navalha.

Ó, República da vagabundalha,
República de miserável sorte,
Rasgaram-te as vestes da Ética (e)
Curvaram-te ante essa estética

Sangram-te, ó mãe, os canalhas!
Arrancar-te o Direito do peito é
Tudo que deseja a vagabundalha:
Nação inerte; prostrada ao leito.

Sangram-te, ó mãe, os canalhas!
Mas haverá dia que todo malfeito
Restará findo… restará morto…
A nação cativa se levantará do jugo

Então aí – o povo –, plebe ignara,
Tomará as rédeas do desatino e
Fará da nação cativa seu destino:
República de Virtude, Ética e Direito.

SONATA da PAIXÃO por helena sut

Meu primeiro colo foi um canteiro. Minha mãe tem nome de flor. O ventre solo acolheu-me semente e lançou-me ao mundo rebento rosa chá. Encontrei-me no sonho acolhido e flutuei no cerne da vida. Minha mãe dizia entre risos que o meu pai tinha cheiro de alecrim. Rosmaninho, orvalho do mar, folhas labiadas… O tempero e a cor da minha trama. Na concepção incorporei a maresia no oceano tranqüilo entranhado no corpo e percebi as marés e as luas na orla, protegida sobre as pedras do cais feminino.
Cresci com a dor do primeiro botão. A saliência despertou no caule das primaveris vivências e desprendeu o tronco com circunstâncias de ventos. Entornei o vinho dos virginais desejos e encontrei na carne as chagas do corpo em cruz. Das cicatrizes, espinhos… Espinhos? Dizem que resguardam os sonhos e debelam os medos, mas tem noites em que perco o sono, encolho-me, não percebo as alegorias e ainda sinto a aflição dos espinhos cravados na pele da lembrança.
Encontrei-me rubra com as pétalas revoltas. Os caminhos… Tantas opções e apenas uma posse de passos. Multiplicação de espinhos, ciclos de espera e renovação… Passei em procissão e ornei o templo com fantasias. Compreendi a sonata que repercutia e ritmava meus movimentos. Tantas vezes me rebelei em sons discordantes. Sangrei destinos e me cerzi em alguns acasos. Moldura de risos, superfície de falsos planos… Eu, o retrato enraizado no canteiro de um espelho; eu, o reflexo emoldurado em outras perspectivas…
Reconheci que paixão é um substantivo feminino como também a vida. Brinquei com palavras e me conjuguei amor, busquei complementos em corpos etéreos, encontrei-me entre estrelas e pousei orvalho da noite no colo sereno da percepção do próprio ventre. Pontuei orações com pétalas e espinhos sem finalizar as reticentes sementes manifestas no tempo.
Assumi a autoria de ser mulher.

PEQUENAS CONSTATAÇÕES na FALTA de MAIORES por josé zokner

Constatação I (Teoria da Relatividade para principiantes)
É muito melhor ser de Barra Mansa, Estado do Rio, do que corno manso.

Constatação II (De uma dúvida crucial).
Anfitrião que se serve por primeiro é a visita de si mesmo?

Constatação III
Rico faz carícias; pobre, malcriadez.

Constatação IV (Teoria da Relatividade para principiantes).
Numa transação, em que a palavra juros é banida, é muito melhor ter um preço menor e um prazo maior, do que um preço maior e um prazo menor.

Constatação V (Conselho útil, passível de mal-entendido).
Não se deve cutucar a sogra com vara curta.

Constatação VI (Dúvida crucial).
Será que retórica vazia é o mesmo que empulhação enrolada, ou ainda embromação mexerufada?* Quem souber, por favor, cartas à redação. Obrigado.
*Mexerufada = “mistura confusa, desordenada, de seres ou coisas; confusão, misturada, mixórdia” (Houaiss).

Constatação VII
Rico tem estofo; pobre, inércia.

Constatação VIII
Rico é uma douta personalidade; pobre se dá ares de importante.

Constatação IX (De diálogos entre mãe e filha ou entre mulher e sogra).
-“Se eu soubesse que meu marido ia me fazer isso, eu não teria feito tudo que eu fiz para ele: comidinha gostosa, me esfalfar num emprego para ajudar nas despesas da casa, levar e pegar os filhos na escola, ser a amante perfeita, mesmo cansadíssima e por aí afora”.
-“Reciprocidade, minha filha, é só banco comercial e olha lá. Eles querem tudo e a gente ainda tem que gramar na fila porque eles não põem funcionários, por medida de economia as nossas custas. Marido é que nem banco. A diferença, ou talvez semelhança é que marido não te dá dinheiro e dá pra amante; banco, não te empresta e só empresta para quem não precisa”.

Constatação X
Deu na mídia: “Em Recife, José Dirceu passa por operação para implantar cabelos”. Taí uma notícia de transcendental importância para a Humanidade em geral e para o Brasil, em particular.

Constatação XI
Deu na mídia: “Panda ignora vídeo erótico e fêmea tem de ser inseminada”. Data vênia como diriam nossos juristas e de um ou outro panda macho, mas existem alguns filminhos, em vídeo ou DVD, ditos eróticos, seja pra panda ou para os assim chamados racionais que, ao invés de fazerem o efeito desejado, pela má qualidade, fazem o efeito contrário.

Constatação XII
Não se pode confundir vista com visita, muito embora a vista fique anuviada, nublada, carregada, toldada, sombria com a visita desagradável que chega de modo inopinado, inesperado, imprevisto. E, para não acusarem a coluna Rumorejando de facciosa, perseguidora, plena de má vontade não estamos fazendo menção à sogra, em particular, mas se referindo a pessoas desagradáveis, em geral. A recíproca não é verdadeira. Basta fazer ou receber uma visita de um grande amor para que a vista receba uma dose de um colírio, daquele que é um alivio inclusive para os olhos…

Constatação XIII
Deu na mídia: “Sarkozy diz que relacionamento com ex-modelo é sério” e “Confirmada a gravidez de Nicole Kidman”. Taí outras duas notícias de transcendental importância para o futuro da Humanidade. Apenas que, a primeira é, efetivamente, importante, pelo menos, para o povo francês. Afinal, ele terá a quem fo, digo ferrar.

Constatação XIV
Rico ri, não necessariamente à-toa; pobre é enferruscado. (O dicionário Houaiss apresenta como enfarruscado e que enferruscado não existe. Rumorejando usou a expressão popular).

BIOPIRATARIA por flavio calazans

VOCÊ PRECISA SABER

O Século Vinte e Um é o século das biotecnologias, e o Brasil é o símbolo histórico da biopirataria.Piratas eram bandidos, ladrões saqueadores que atacavam as cidades portuárias como Santos. Hoje, os Biopiratas chegam disfarçados de turistas, ecoturistas , missionários religiosos e pesquisadores cientistas.Biopirataria é o roubo descarado de recursos naturais biológicos e processos ou técnicas de produção envolvendo formas de vida vegetal ou animal.O Brasil tem as maiores reservas de biodiversidade do mundo, plantas e animais que produzem uma infinidade de lucrativos remédios, alimentos, cosméticos, etc…cobiçados e roubados pelas indústrias biotecnológicas biopiratas.
A Biopirataria movimenta por ano no mundo cerca de US$ 60 bilhões, o que faz dela a terceira atividade ilegal mais lucrativa do planeta, atrás do tráfico de armas e de drogas. O Brasil possui a maior biodiversidade deste terceiro planeta da estrela Sol, perde cerca de US$ 1 bilhão por ano com o roubo de materiais genéticos, sobretudo na Amazônia (o Brasil abriga duas em cada cinco espécies de formas de vida deste planeta), conforme estimativa do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), o IBAMA calcula que o Brasil sofreu um prejuízo financeiro na ordem de 16 milhões de dólares POR DIA com a biopirataria só no ano de 2003.
A biopirataria é cruel, um crime duplo que rouba as riquezas e ainda as revende para o legítimo proprietário, impedindo o desenvolvimento.Historicamente, o nome BRAZIL vem de uma árvore de tronco rubro de onde os índios extraiam tintura vermelha, o famoso PAU-BRASIL que dá o nome deste país lusófono desde os anos 1532 (“Fundação” de São Vicente e Itanhaém).Nosso Pau-Brasil (caesalpinia echinata lam) foi tão brutalmente saqueado que hoje, no século XXI, é uma planta raríssima no próprio país que recebeu seu nome, dizimada e quase extinta pela sanha desmedida de lucro de invasores portugueses, franceses, ingleses e europeus em geral.
Outro caso emblemático é da Amazônia, o ciclo econômico da borracha, seiva extraída da árvore seringueira (hevea brasiliensis), até que o inglês Henry Wickham furtou e contrabandeou mudas de seringueira em 1876 plantando-as nas colônias inglesas da Malásia, que torna-se o maior exportador arruinando o mercado internacional e falindo os produtores brasileiros…hoje o Brasil de onde nasceu esta árvore e foi criado o processo de goma, a seiva cozida da borracha, é IMPORTADOR de borracha da Malásia, compramos nosso produto de quem nos roubou…. (meu avô paterno Miguel Calazans trabalhou com extração desta seiva no período áureo, fomos prejudicados nas finanças familiares pela Biopirataria, este é um assunto muito doloroso em minha própria história familiar).
Também há o MOGNO (swietenia macrophylla), uma madeira que dura séculos sem deformar ou mudar de cor-ideal para mobília de escritório , em quarenta anos de cortes foi dizimada, de 1971 a 2001 foram extraídos 2,5 milhões de árvores, mais de 4 bilhões de dólares, dois terços contrabandeadosilegalmente para USA e Inglaterra (a Inglaterra batizou a famosa flor flutuante do rio Amazonas de Vitória Régia em homenagem a rainha deles, a repressora e puritana Rainha Vitória!!!) o mogno é a madeira nobre mais valiosa do mundo, batizada de “ouro verde” vendida a 1,4 mil dólares por tora, se não fosse contrabandeado para os Norte Americanos e Ingleses teria gerado 4 Bilhões de Dólares em divisas para o Brasil.
O caso mais debatido de Biopirataria em 2003 também veio da Amazônia, foi o escandaloso patenteamento da produção e do uso da gordura da semente do CUPUAÇU (theobroma grandiflorum) pela empresa multinacional japonesa Asahi Foods, a “Proprietária” do Cupuaçu e do Cupulate, o chocolate da castanha-semente do cupuaçu, a produção e o processamento de gordura de Cupuaçu não é uma técnica nova criada pela Asahi Foods que patenteou-a (já é usada há muitos tempo pelas comunidades da região amazônica) e o cupulate não é uma invenção da Asahi Foods, pois foi desenvolvido pela Embrapa, mas a “dona” do cupuaçu e do Cupulate no Japão, na União Européia e nos Estados Unidos além de em todos os países-membros da Organização Mundial do Comércio (OMC) é a japonesa Asahi Foods…empresa que impede a comercialização de produtos brasileiros como bombons e doces de cupulate, prejudicando toda a comunidade da Amazônia e as empresas familiares dedicadas a plantar e colher a fruta cupuaçu e produzir o cupulate, suco de cupuaçu, óleos e bombons recheados com geléia de cupuaçu.
Esta biopirata empresa multinacional japonesa Asahi Foods, a “Proprietária” do Cupuaçu e do Cupulate, detém o monopólio do nome e da marca Cupulate, fez os pedidos de patentes sobre extração do óleo e produção do cupulate e derivados, uma multinacional do Japão, dona de um fruto que só nasce na floresta amazônica do Brasil, um absurdo jurídico que ilustra os perigos do século da biotecnologia.
A Asahi Foods, esperta, também já está patenteando uma outra fruta brasileira rica em vitamina C, a ACEROLA (malpigia glabra linn) ….e já estuda patentear outra, uma fruta vermelha de sabor azedo, com muito mais vitamina C, a CAMU-CAMU.Porém, como ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão, em 2003 a empresa inglesa THE BODY SHOP já patenteou o extrato da polpa da fruta cupuaçu para produção de cosméticos e produtos de beleza ou perfumes, cremes, shampoos e óleos. Também há o caso da semente de Bibiri, usada desde tempos imemoriais, desde sempre pelas índias uapixanas de Rondônia como anticoncepcional, patrimônio cultural indígena que hoje pertence ao laboratório canadense Biolink, que o patenteou como “descoberta” canadense!!!
A Andiroba (carapa guianensis aubl) usada como repelente de insetos, cicatrizante e contra a febre pelos indígenas da Amazônia teve sua patente registrada pela Rocher Yves Vegetable , dona da andiroba nos USA, Europa e Japão, seu extrato só pode ser usado em medicamentos ou cosméticos se pagando a ela, tal qual a Asahi Foods e o cupuaçu.
O Curare, veneno paralisante feito de mistura de ervas, usado nas flechas e setas de zarabatana pelos índios jivago da Amazônia, foi patenteado nos USA na década de 40 e é usado até hoje na industrialização de relaxantes musculares e anestésicos para cirurgias em todo o mundo. A AYAHUASCA (banisteriopsis caapi), folha caapi ou chacrona, que misturada ao cipó mariri faz a beberragem, o vinho dos deuses, popular entre mais de 300 etnias ou tribos indígenas amazônicas que o passaram aos seringueiros, alucinógeno de práticas religiosas como o Santo Daime, foi patenteado como descoberta da empresa americana International Plant Medicine Corp, USA.E o PAU-ROSA (aniba roseadora) é usado como fixador de aroma na indústria química de perfumarias, livremente usado nos USA, Bélgica, Inglaterra, Alemanha e França, seu óleo é a base do famoso perfume “CHANEL Numero 5”, o que resultou na extração abusiva, e como foi com o Pau-Brasil, o Pau-Rosa também corre risco de extinção pelo corte desmedido e predatório.Copaíba (copaifera sp) é uma planta antibiótico natural, desinfetante, estimulante e espectorante, a empresa Technico-flor s/a registrou patente mundial sobre cosméticos ou alimentos que futuramente empreguem a planta.
A lista de vegetais brasileiros biopirateados seria interminável, enciclopédica.Contudo, além da Botânica, a Zoologia também é vítima da biopirataria dos países ricos.Há um sapo (epipedobetes tricolor) que vive nas árvores da amazônia e produz uma toxina analgésica 200 vezes mais poderosa e eficiente do que a morfina, o laboratório Abbott dos USA sintetizou a substância e vende a droga com monopólio mundial.
A serpente Jararaca (bothrops jararaca) foi estudada pelo pesquisador brasileiro Sérgio Ferreira , professor da faculdade de medicina de Ribeirão Preto, descobriu na peçonha da jararaca uma substância química capaz de controlar a pressão arterial, sem recursos financeiros para desenvolver a pesquisa, teve de aceitar parceria com o laboratório Bristol-Myers Squibb USA, que acabou registrando a patente do princípio ativo Captopril em um mercado que rende 2,5 milhões de dólares ao ano só em royalties, Brasil também paga pelo uso do produto daqui que cura a pressão alta.
Desde 1993 uma indústria suíça controla totalmente a Pentapharm, um dos mais importantes serpentários do Brasil, em Uberlândia, Minas Gerais, onde criam-se as cobras jararacuçu, toda a produção da peçonha é exportada para a Suíça que o processa e produz medicamentos anticoagulantes revendidos muito caros para nós e exportados para o resto do mundo.
A Jararaca Ilhôa (bothrops insularis) só existe na ilha de Queimada Grande no litoral sul de São Paulo, perto de Peruíbe (frente às ruínas da igreja do abarebebe-o “padre voador”, boticário que classificava remédios dos pagés índios tupinambás e tupiniquins antes dos padres Nóbrega e Anchieta chegarem) sua peçonha é mais letal que qualquer víbora, em 2001 foram encontradas algumas vivas sendo vendidas em um mercado de animais de Amsterdan, Holanda, Europa, contrabandeadas da Ilha Queimada Grande, único lugar do mundo onde existem.
A rede de ongs GTA –Grupo de Trabalho Amazônico e a AMAZONLINK recolheram donativos chegando a 20 mil dólares para dar entrada nos custos iniciais do processo judicial e moveram processos internacionais de 2002 a 2004, obteve-se o primeiro resultado, uma sentença da qual corre recurso com a anulação judicial que cassa o registro do nome cupuaçu no Japão, impedindo a Asahi foods de continuar tentando cobrar multa de 10 mil dólares por produto exportado com o nome cupuaçu.
Conforme a GTA, plantas como a andiroba, ayhuasca, curare, açaí e infinitas outras já tem patentes em paises estrangeiros.
A Empresa norte-americana ZymoGenetics detem a patente de dois princípios ativos, um analgésico e um vasodilatador roubados de um sapo da amazônia, mas há uma dificuldade na justiça dos USA, pois Tio Sam nunca ratificou o tratado internacional “Convenção da Diversidade Biológica” e assim nunca paga pelo conhecimento ancestral dos povos que suas empresas recolhem na calada da noite e furtivamente patenteiam para comercializar e lucrar, típicos PIRATAS saqueando o patrimônio acumulado por gerações por povos de todo o mundo, Eugênio Pantoja, da Amazonlink explicou na revista Pesquisa Fapesp de abril de 2004, número 98, página 25: “procuramos um escritório de advocacia americano que nos pediu US$ 150 mil só para iniciar a ação, está fora das nossas possibilidades”, também denuncia patentes de cunani –substancia analgésica usada em ferramentas de pesca dos indígenas e do jambu, erva que serve de matéria prima para creme dental.
Um grupo de trabalho do IBAMA visitando o povo indígena Karitiana , que secularmente usa o sapo Campu (Phyllomedusa) espécie que só existe em seu território na floresta amazônica, e laboratórios dos Estados Unidos da América (USA), Inglaterra e França patentearam a vacina do sapo baseadas no suor neste espécime , como medicamento de tratamento contra tumor cancerígeno ou mesmo uma possível vacina contra o câncer.E um funcionário do correio de Goiânia em uma inspeção de rotina encontrou doze cobras espremidas em uma caixa de sedex, as cobras raras eram remetidas de São José do Rio Preto (451 kilometros a noroeste da capital São Paulo) para Goiânia e de lá redistribuídas para a Holanda, onde eram revendidas pela Europa e USA, répteis raros como jiboia-papagaio (periquitamboia) que vivem na mata atlântica e na amazônia .
Estes são somente alguns exemplos dentre os milhares de incontáveis casos de biopirataria que vem sendo perpetrados contra todos nós brasileios.Cabe a você que leu estas linhas saber disso, estar conciente e tomar sua posição a favor ou contra tais abusos, eu tomei minha atitude, escrevendo este texto e divulgando, passe adiante e vamos fazer uma corrente de opinião pública esclarecida e cobrar de nossos políticos profissionais leis de defesa, e cada um de nós vai fazer a diferença boicotando tais empresas e países biopiratas.
A BIOMIDIOLOGIA é um neologismo de propriedade intelectual de Flávio Mário de Alcântara Calazans ; BIOMIDIOLOGIA foi registrada na Biblioteca Nacional do Ministério da Cultura aos 16 de janeiro de 2002, registro 249.607, livro 444, folha 267 como descoberta científica de Flávio Mário de Alcântara Calazans.Bibliografia de Biomidiologia.
CALAZANS, Flávio Mário de Alcântara.
ECOLOGIA E BIOMIDIOMOLOGIA. São Paulo:Editora Plêiade, 2002. ISBN 85-85795-59___.“Biomediology: Communication and environment” ha sido aceptada para ser presentada en XI Encuentro de Faculdades Americanas de Comunicación Social FELAFACS: en la mesa de trabajo: Las causas globales; martes 7 de octubre de 2003 a las 14:30 HRS en el salón Flamingo B. Puerto Rico USA.___.“Biomidiologia do arrastão e Linchamento; a mente coletiva da multidão” ; III Congresso Brasileiro de Pesquisas Ambientais e Saúde –CBPAS 2003, Santos, São Paulo, 21 a 23 de julho de 2003, apresentado 23 de julho de 2003, às 11 horas, publicado na página 15 do programa, e resumo publicado na página 40 e 41 do programa, paper publicado integralmente no CDROOM EXPOSITOR.___.
“BIOMIDIOLOGIA: Um paradigma interdisciplinar do Século XXI”, Flávio Calazans, apresentado na seção número nove de Temas Livres do XXV Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação – INTERCOM´2002, em Salvador, Bahia, dia 3 de setembro das 14 às 18 horas, com resumo publicado na página 88 do programa e com o texto integral do “paper” também publicado no CDRom do evento. EXPOSITOR. ___.“ Da Televisão ao Carnaval: uma Biomidiologia do Arrastão” XXVI Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação – INTERCOM´2003 Belo Horizonte, resumo publicado na página 34 dos anais,___.“BIOMIDIOLOGIA DOS DNARTISTAS : EDUARDO KAC” paper aprovado pelo comitê científico internacional para ser apresentado no “FIRST BRAZIL-US COLLOQUIUM ON COMMUNICATION STUDIES” this event is the first of its kind in the United States, JAN. 30 – FEB. 1, 2004 AUSTIN, TEXAS USA foi selecionado para a sessão temática de Comunicação Internacional e Intercultural publicado nos anais e cdrom do congresso e na internet em http://www.utexas.edu/coc/rtf/brazil_us/brasilprogram.htm ___.“”Biomidiologia: Nova Teoria da Comunicação unindo “Communication” e “Environment” [Naturwissensaften (Bio) e Gemienenwissensaften (Midiologia)].”” paper aprovado pelo comitê científico internacional para ser apresentado no “World Congress on Engineering and Technology Education –WCETE” sob número 529 publicado nos programas , anais e cdrom do congresso http://www.copec.org.br/wcete2004,___. “Biomidiologia aplicada ao Pokemón” .In: Encontros culturais Portugal-Japão-Brasil, editora Manole, São Paulo, 2002, ISBN 85-204-1759-0, páginas 69 a 122).

CUPUAÇU – fruta nativa da região do Amazonas.
Muito apreciada na culinária e cobiçada pelo estrangeiro.
Esta que os japoneses queriam roubar o seu nome…

 

 

 

ATIVIDADE DE DESMATAMENTO na AMAZONIA. foto de luis carlos valois. ilustração do site.

 

FIM de SEMANA na PRAIA por antonio brás constante

Eis que aí está você. Bermudão e chinelos. Um sol maravilhoso. Curtindo a brisa marinha. Veio com a esposa e os filhos para um fim de semana em família. A casa você comprou no inverno, quando os preços eram menores.

O primeiro ritual ao chegar à praia é ir molhar os pés na beira do mar, não que dê sorte ou azar, é mais para a pessoa entrar no clima do lugar. Sentir-se como sendo batizado, para poder aproveitar as delícias de um feriado regido pelo sol, areia e um mar azul e límpido.

Após a cerimônia de “lava-pés”, você volta ao carro e descarrega todas as suas tralhas, abrindo a casa para arejá-la. A manhã já está na metade, o momento certo para colocar a churrasqueira para funcionar.

Neste momento você se sente um verdadeiro Rei. O pau de mexer o carvão é seu cetro real. O banquinho de madeira, seu trono. A carne crua e temperada a sua frente e a latinha de cerveja são suas riquezas e as moscas à sua volta os ladrões que atacam todos os reinos e devem ser repudiados com sua toalha de limpar as mãos.

Mas mesmo onde reina a paz mais intensa, acabam surgindo os piores dissabores e eles chegam buzinando e fazendo alarde. Você ainda não sabe quem são? Os seus parentes! Apareceram de surpresa para te fazer companhia na praia. Afinal para eles, praia sem parentes não é praia.

Costumam vir aos bandos, de forma predatória. Chegam, comem e bebem tudo que encontram e se mandam sem ajudar a pagar a conta. Os parentes são a maldição de qualquer homem casado. Ou que tenha algum irmão ou irmã casada. Pode ocorrer também em famílias com muitos tios, ou seja, todos nós, seres humanos, estamos sujeitos a sermos vítimas dessa situação.

Até o momento, nenhum dos parentes homens foi até onde você se encontra. Alguns abanaram de longe. Eles sentiram o cheiro do serviço e irão esperar até que a carne esteja quase assada, para então se aproximar e comer os aperitivos com farofa.

Neste meio-tempo irão se saciar com as cervejas que você estocou na geladeira. Alguns já se adonaram das redes e outros colocaram as mochilas no seu quarto, perguntando de forma descarada se podem usar a cama para descansar.

Você tenta conhecer todos que estão ali presentes, mas alguns são estranhos, pois são convidados dos seus parentes. Isto mesmo, uma mania de parente é convidar amigos deles para passar o fim-de-semana na sua casa de praia.

O almoço corre como o esperado, ou seja, você servindo a carne e todo resto comendo. A cerveja acaba e sua esposa lhe pede para ir comprar mais, você se nega e acontece a primeira briga do casal. Toda a parentada fica do lado de sua esposa. Afinal o insensível é você que não quer atender ao pedido dela.

Depois de muita discussão, finalmente vai buscar a cerveja (vários parentes vão junto, porém sem levar as carteiras de dinheiro). Note que eles não vão com você por serem bonzinhos, mas sim para impedir que compre alguma marca de cerveja vagabunda.

Chega a tarde, você pede para sua esposa lhe passar o bronzeador, mas ela lhe vira o rosto. Ainda está chateada com a história da cerveja. Principalmente depois de a parentada ter enchido a cabeça dela. Agora percebe que está sozinho, sua esposa passou para o lado do inimigo.

Quando resolve ir a praia, descobre que o seu bronzeador foi totalmente utilizado, que pegaram seus calções de banho e sumiram com suas toalhas. Até seus óculos de sol desapareceram.

Acaba indo de bermudão mesmo, sem nenhum protetor no corpo e sentindo o brilho do sol machucar seus olhos.

O tormento dura todo feriado. No último dia, ao final da tarde todos vão embora, deixando a casa toda suja e bagunçada para você ajeitar. Afinal a casa é sua e não eles. Você fica parado na frente do mar, todo queimado de sol, endividado, cansado, chateado, de mal com a patroa e o que é pior nesta situação toda, sem ter como dar o troco neles.

O melhor a fazer é vender a casa de praia e usar o dinheiro para viajar para outro estado, bem longe e de avião. Assim você finalmente terá férias de verdade e quem sabe até traga umas lembrancinhas, para que seus entes queridos morram de inveja.

 

era o tempo – por jb vidal

era o tempo em que eu voava, de folha para árvore, sobre oceanos, rochedos, e os rochedos eram moles, era gelatina os mares, as árvores, eram de papel e o papel não se deixava escrever, a tinta só no mundo, na pata não, meus irmãos corriam, de uma sombra para outra, no solo, e o solo era de nuvens, brancas, e não faziam sombras, as sombras brincavam entre elas, e elas me assustavam quando caiam no precipício, de brincadeira, que susto, e o susto era bom e eu assustava também, e o também, também se repetia, e a repetição era voar no mesmo lugar, brincar na mesma nuvem, e as nuvens subiam e desciam, e descer era subir, subir no mais baixo possível, quando subiam, era descer no mais alto possível, e os que viviam nos mares andavam sobre fogo, e o fogo era bom, bom e frio, e o frio, bem não sei, nunca estive na gelatina, mas não era ruim, segundo sei, e saber era sentir, sentir era mudar de rumo, e o rumo voltava, e eu ia e voltava, quando voltava era outra paisagem, e a paisagem mudava e voltava, e eu ia só para a que mudava, e não era mais, mas não voltava, voltava voando para a frente, e para frente era atrás, e atrás não existia, existia o vento, e o vento era meu, e meu era de ninguém, mas era meu, e eu voava nele, e ele deixava, e eu dominava ele, ele sorria, e sorrir era também chorar, e chorava de alegria, e alegria era tristeza, e a tristeza era boa, porque era boa a gente sofria, e sofrer era ruim, mas o ruim pode ser bom, e o bom pode ser mau, e o mau, não sei nunca fui mau, mas eu voava sobre o mau e o mal, e o mal não existia, como o bem também não, e o não era perfume, e o perfume, bem…o perfume…era eu, e eu era o próximo, e o próximo era todos, e todos brincavam, e brincar era trabalhar, e trabalhar era fazer, e fazer era destruir, e destruir era preto, e preto era verde, e verde não tinha cor, porque a cor era o nada, e o nada era branco e tudo, como esta folha de papel.

EWALDO SCHLEDER nos conta:

No dia 9 de janeiro, numa mesa do Kapelle, Bia nos disse, alto e bom som,
essa frase, um poema-síntese, o último que ouvi dela, depois
de comentar que alguma ginástica lhe faria bem:
Não sou atleta, sou poeta.
NÃO SOU ATLETA,
SOU POETA.
(Bia de Luna)
provalvemente tenha sido este o último poema de Bia, pois ela entregou as moedas para o barqueiro no dia 13 de janeiro de 2008.

ULTRAPASSAGEM (para Bia de Luna/in memorian) poema de walmor marcellino.

 “A janela com sua vista
pra fora é para dentro,
sem uma ida e uma volta
bastando o olhar atento.”
(Ehud Emin)

Inerme, à máscara definitiva
que fulgor agora alimenta?
]Bia, no escuro protegia
essa ânsia que alenta
o sopro, palavra-poesia.

Se estava viva, se ia morta
ela escondia, nos sinalizava
várias vidas atrás da porta
numa só máscara que engendrava.

MARILÚ, a penetradora – por frederico fullgraf

   Vestiu uma blusa de fino algodão, decotada, mal domando seus dois frutos rijos, aprisionados, introduziu-se num tailleur justo, que lhe esculpiu as curvas saradas e – cúmulo da luxúria anunciada – carregou nos lábios aquele batom com a tonalidade da carne, concupiscente. E foi à luta, digo: ao quartel, oferecer os seus serviços. As preliminares remetem àquele filme peruano, cujo protagonista, o valente capitão, arrinconado nas profundezas da Amazônia, bota ordem na pornéia, profissionalizando a fornicação. É verdade que a floresta é a mesma, a soldadesca aquartelada ama zona, mas a Marilú que foi à guerra é colombiana. Compareceu como especialista em relações públicas e, arrebatados, os camaradas dispensaram o aborrecível currículo e as mentirosas referências escritas, convenceu-os sua… “apresentação de armas”. Patente coruscante – olhar lúbrico, peito e bunda triunfantes –, “sus encantos hicieron que rapidamente se ganara la confianza de la superioridad”, resigna-se, nostálgico, um recruta, e logo a morena pousaria na foto de graduados coronéis e generais como a loura do pirata. Desaforada (cara-de-…pau aplica-se também à fêmea impudente?), infiltrou-se num curso de Inteligência da Escola de Guerra e a partir daí ascendeu até o cargo de vice-diretora de La Dorada, prisão de segurança máxima para narcotraficantes, paramilitares e “insurgentes” (Hugo Chávez), tropeçando em seus corredores com sumidades como Rodrigo Granda, o liberado “chanceler” das FARC. E jamais levantaram suspeitas, nem mesmo quando explodiu aquela bomba no estacionamento da Escola, cobrindo de estilhaços e terror o dia 19 de novembro de 2006. E sobreveio então aquele inusitado revide do exército, em meados de 2007: durante o enfrentamento, o azarão Carlos Antonio Lozada, chefe de uma coluna Brancaleone, perde sua agenda eletrônica e lá estava Marilú; com nome, endereço e telefone… Don Álvaro em pessoa anunciou o indiciamento de Marilú (sobrenome de paz Ramírez) por “terrorismo, rebelião e formação de quadrilha”. Matreiro, fê-lo apenas em novembro, quando já se armava a lona para o grande circo midiático de Villavizenzio, ponte aérea do resgate dos reféns das FARC, em cuja aritmética 1 + 1 = 3, pois Emmanuel, o filho bastardo da Colômbia, já estava sob a custódia do Estado desde 2005.  E enquanto do fundo da mata a choldra rebelde continuava atirando pedras em Lozada, o Estulto (cretino, mané, molongó, pacóvio!), os homens de Don Álvaro Uribe, o Durão, rastrearam sua agenda e ¡joder!: não é que reconheceram mais quatro atrevidas penetradoras?  Obedeciam todas ao mesmo figurino: mulheres jovens e bonitas aproximam-se de uma guarnição militar. E da sentinela fraquejante, pelos tenentes baba-ovos aos coronéis mulherengos, a hierarquia implode e a penetração se consuma… É quando elas abrem o jogo, mas não o zíper, oferecendo aos repulsivos milicos serviços profissionais que não os horizontais, como relações públicas, jornalistas ou assistentes sociais; sem nunca esquecer no olhar lânguido, resvaladiço, uma janelinha sempre aberta para just in case…  Foi o caso da descolada, que durante vários meses chefiou a assessoria de imprensa de uma importante unidade militar em Bogotá. Por razões óbvias os militares mantêm sua identidade em sigilo: inverteu-se o jogo, agora é ela a penetrada, bombardeada por perfurantes interrogatórios… Outra burlou os controles de segurança do aparatoso exército de Uribe, movido a US-Aid, e credenciou-se em cinco eventos de alto nível da Escola de Guerra em 2006. Num deles chegou a trocar olhares – “y quizás algo más” – com Don Álvaro, ninguém menos que o odioso presidente da República. “Odioso”: adjetivação apaixonada, pronunciada com ideológica convicção, mas como pensamento sob severa proibição – e se as traísse um imperdoável ato falho? Alarmadas e mais sortudas que a compañera Marilú, as quatro espiãs que vieram de cafarnaú escaparam para a noite fresca, antes que o fogo amigo lhes chamuscasse as serpejantes cadeiras. Já Marilú, dizem, trocou sua bandeira. Tudo agora é espera pelo trovador de uma salsa brejeira a da potranca de Tróia, “que se fue con un milico”, a lendária Mata Hari guerrilheira… Mas enganam-se, o ansioso leitor e a vexada leitora, ao presumirem segundas intenções do autor, já no título desta crônica sobre a farsesca e próspera guerrilha-mercante: “penetração” é linguagem politicamente incorreta e ordem superior do Capitão-Gancho Marulanda, o “Tiro Fijo” da farândola revisionista, hoje reles extorsionista: responder ao poder de fogo do inimigo com a arma milenar de mulheres fogosas, eis a tática. Porque a carne (de desafetos e afeiçoados também) é fraca e – intercursos à parte, “consentidos” por reféns – o campo de batalha não é convento de clarissas! Leitor tardio de Greene e Le Carré, baixou dez mandamentos para as aspirantes à missão: as introduzidas devem ser “chamativas, melosas e dicharacheras” (enfeitiçadoras) e usar, principalmente nos primeiros encontros, “roupa atrevida”. Uma última conferida diante do espelho e…¡penetración o muerte, venceremos!   Publicado pelo jornal El Tiempo, transcrito pela imprensa hispânica de todo o continente e, como sempre, hilariante estória ignorada pela ignávia e borrega “mídchia” brasileña, a impudica ordem do dia não deixa dúvidas: “Ali, em meio ao recrutamento de civis e das tentativas dos militares em mostrar sua melhor cara, pode então efetivar-se a intrusão”… – acorrentado Marx, vendado Freud, sorri a metáfora de guerrilha-pornô.   

ALGUMAS HISTÓRIAS QUE “O CAÇADOR DE PIPAS” NÃO CONTA por aurélio weissheimer

“O filme “Caçador de Pipas” apresenta um painel sobre a história recente do Afeganistão, a partir do relato sobre a amizade de dois meninos afegãos. Flutuando entre a imaginação e história, o filme denuncia monstruosidades mas silencia sobre o papel de alguns dos pais dos monstros que devastaram o país”.

O filme “O Caçador de Pipas”, dirigido por Marc Foster, tem o mérito de apresentar um painel sobre a cultura, as tradições e a vida no Afeganistão, a partir do relato sobre a amizade de dois meninos afegãos. É uma obra de ficção mesclada com uma tentativa de painel histórico sobre um período da história do país que compreende a queda da monarquia nos anos 70, a PIinvasão dos soviéticos e a ascensão dos talibãs ao poder. É aí, em seu pano de fundo histórico, que os méritos definham e os problemas florescem. O filme é uma adaptação do best-seller do médico Khaled Hosseini, nascido em 1965 em Cabul e que vive nos Estados Unidos desde 1980. O livro foi escrito inteiramente na Califórnia. Hosseini só voltou ao Afeganistão depois do livro ter sido lançado, 27 anos após ter deixado o país. Essa distância espacial e temporal ajuda a entender as omissões históricas e a visão generosa do autor com o papel dos EUA na destruição de sua terra natal.Quando visitou o país, após a publicação de seu livro, Hosseini ficou chocado. “Infelizmente, o que vi por lá era pior do que aquilo que imaginei e narrei. A destruição do país é impressionante, muito triste”, declarou em entrevista à revista Época. No livro (e no filme), o escritor é grato pela acolhida que teve nos EUA. Ao imaginar como poderia ter sido a vida do personagem Hassan, caso tivesse conseguido fugir para a América, escreve que o amigo estaria vivendo em um país “onde ninguém se importa com o fato de ele ser um hazara”. Essa visão, escancarada em todo o filme, mostra os soviéticos e os talibãs como seres monstruosos e pervertidos sexualmente, mas omite alguns “detalhes” históricos relacionados ao papel que os EUA tiveram no fortalecimento dos talibãs e na sua chegada ao poder. Assim como ocorreu com Saddam Hussein no Iraque (contra o Irã), os talibãs também foram aliados dos EUA (na luta contra os soviéticos). O civilizado e laico Ocidente foi cúmplice direto dos terríveis crimes cometidos pelos talibãs.Guerra pela civilização?
Se Hosseini não tivesse escrito o livro inteiramente na Califórnia, baseado apenas em sua memória e imaginação, talvez tivesse produzido um relato um pouco mais equilibrado historicamente. Ao final do filme, o que fica, do ponto de vista histórico, é o seguinte: a selvageria soviética e talibã, de um lado, e o papel salvador e civilizatório do Ocidente, do outro. Nenhuma referência sobre como países como EUA e Inglaterra – e seus aliados na região, como Paquistão e Arábia Saudita – contribuíram decisivamente para tornar o país um monte de ruínas. Alguém poderá objetar que não se pode cobrar do autor o relato sobre fatos que não presenciou. Objeção discutível. Mas, mesmo que a tomemos como razoável, isso não elimina o problema de que o pano de fundo histórico que caracteriza o filme é repleto de omissões, buracos e deformidades. Mesmo quem tenha gostado do livro e do filme, portanto, não sairá perdendo com algumas informações.

Em seu filme “Fahrenheit 9/11”, Michael Moore expôs as ligações entre a família Bush, empresas petrolíferas do Texas, a Halliburton, a Enron e os talibãs para a construção de um gasoduto que partiria do Turcomenistão, seguindo através do Afeganistão e chegando ao Paquistão. Mostrou também que, quando era governador do Texas, Bush chegou a receber uma visita de autoridades afegãs do Talibã para tratar de negócios. Depois da guerra contra o Afeganistão, após os atentados de 11 de setembro, o projeto do gasoduto foi entregue a Halliburton, empresa que tem entre seus executivos o atual vice-presidente dos EUA, Dick Cheney. Todos esses fatos já são bem conhecidos. Mas a obra de Moore não é o melhor relato sobre como os EUA ajudaram os talibãs chegar ao poder e sobre como, durante um bom tempo, silenciaram sobre as atrocidades que estavam sendo cometidos no país. Silêncio e cumplicidade justificados pela geopolítica e por interesses econômicos.

Um pedido de moderação aos talibãs
Na página da embaixada dos EUA do Brasil, há um interessante material na seção “Resposta ao Terrorismo – Programas Internacionais de Informação”, sobre a situação das mulheres no Afeganistão durante o regime talibã. Lá, podemos ler o seguinte: “Antes dos acontecimentos de 11 de setembro de 2001, oficiais dos EUA opunham-se à subjugação das mulheres pelo Talibã através de reuniões com talibãs para pedir moderação, além de trabalhar com outros países, tanto bilateralmente quanto multilateralmente, para refrear os excessos do Talibã”. Não há porém nenhuma referência sobre como foi asfaltado o caminho para que os excessos do Talibã chocassem o mundo.

Uma boa fonte para preencher essa lacuna é o livro “A grande guerra pela civilização – A conquista do Oriente Médio”, do jornalista inglês Robert Fisk, que passou os últimos 29 anos cobrindo as guerras no Oriente Médio.

Em seu livro de quase 1.500 páginas, publicado no Brasil pela Editora Planeta, Fisk conta algumas histórias que o caçador de pipas não conta. Vejamos algumas delas:

“Os sauditas e os paquistaneses ajudaram, por encargo dos EUA, a armar as milícias do Afeganistão contra a União Soviética, e depois – enojados pelas disputas entre os vencedores – apoiaram o exército de clérigos camponeses iluminados do mula Omar Wahhabi o Talibã. A Arábia Saudita havia investido milhões de dólares nas madraçais – escolas religiosas – do Paquistão ao longo de todo o conflito afegão soviético, e o Talibã era um produto genuíno do wahabismo, a fé estatal muçulmana, estrita e pseudo-reformista da Arábia Saudita.

“E o Paquistão? Ao juntar-se à “guerra contra o terror” promovida pelos Estados Unidos, o general Musharra conseguira de fato a aceitação internacional do golpe de Estado que perpetrou em 1999. De repente, tudo o que havia desejado – a suspensão das sanções, grandes investimentos para a cambaleante indústria paquistanesa, empréstimos do FMI, uma renegociação da dívida de 375 milhões de dólares e ajuda humanitária – foi concedido. Evidentemente, tivemos que esquecer também que foram unidades dos Interserviços de Inteligência do Paquistão – o escalão mais alto das agências de segurança do país – que ergueram o talibã, fizeram entrar armas no Afeganistão e ficaram ricas com o tráfico de drogas. Desde a invasão soviética do Afeganistão em 1979, o ISI havia trabalhado junto com a CIA, financiando os mulas do talibã, mais tarde condenados como arquitetos do terror mundial”.

“Depois do 11 de setembro os EUA, incapazes de conseguir a rendição do Talibã por meio de bombardeios, tentaram ficar bem com os assassinos e estupradores da Aliança do Norte, responsável por mais de 80% da exportação de drogas (heroína, principalmente) do país, após a proibição talibã do cultivo. De 1992 a 1996, a Aliança do Norte foi um símbolo de carnificinas, estupros sistemáticos e pilhagem. Por esse motivo, nós – e incluo o Departamento do Estado dos EUA – demos boas vindas ao talibã quando chegou a Kabul”.

“Após o 11 de setembro bombardeamos povoados afegãos até transformá-los em um monte de ruínas, junto com seus habitantes e culpamos o Talibã e Bin Laden pela carnificina.. Depois permitimos que nossa desapiedada milícia aliada executasse seus prisioneiros. O presidente George W Bush assinou uma lei que aprovou a criação de uma série de tribunais militares seretos para julgar e depois eliminar todo aquele que fosse um “assassino terrorista” aos olhos dos serviços de inteligência”.

Há muitos outros relatos sobre esses temas. A fonte de Fisk não é a imaginação, mas a experiência direta. Ele viu e presenciou in loco o que relata. A obra de Hosseini é uma ficção, é certo, devendo ser avaliada com outros critérios. No entanto, tem pretensões históricas que acabam produzindo um cenário esburacado. Não seria tão grave se, ao sair do cinema, não ouvíssemos frases do tipo: “não dá para defender esses muçulmanos, que povo bárbaro”. Aí a imaginação do Caçador de Pipas presta um desserviço à verdade e à justiça.

 

GÊNESIS e outras histórias – por artur de carvalho

– A verdade é que a humanidade não tem jeito mesmo, deve ser um defeito genético!

– É verdade, é verdade…

– Veja só esse negócio do Abel.

– Abel? Que Abel?

– O Abel, aquele que matou Caim.

– Ah, sei… mas não foi o Caim que matou o Abel?

– Hum, pode ser, mas isso não importa. O que eu estou querendo dizer é o seguinte. Veja bem. Naquele tempo do Caim e do Abel tinha só quatro pessoas no mundo, certo?

– Quatro?

– É, ué. O Abel, o Caim e os pais deles, o Adão e a Eva.

– Ah é, o Adão e a Eva, eu tinha esquecido deles.

– Pois então. Quatro pessoas no mundo. E o que é que acontece? Um deles mata o outro. O que quer dizer que naquele tempo, um quarto da humanidade era composto de assassinos.

– Um terço.

– Como assim, um terço?

– Um terço, ué. Um deles não morreu? Ficaram só três.

– Puxa vida. É mesmo! Um terço! O que só vem reforçar ainda mais a minha tese. Como é que uma espécie pode dar certo se ela já começou com um terço de assassinos fratricidas e…

– Frati o quê?

– Fratricida. O cara que mata o próprio irmão.

– Ah.

– Pois então, se a humanidade já começou com um terço de fratricidas, como é que podia dar certo? Não podia. A coisa vem da genética mesmo. Pra você ter uma idéia, é a mesma coisa de, hoje em dia, dos seis bilhões de habitantes que a Terra tem, dois bilhões deles serem assassinos! Já pensou numa coisa dessas? Dois bilhões de assassinos andando por aí, prontos para matar até o próprio irmão?

– Já imaginou só que coisa horrível?

– Pois não precisa imaginar nada. Olha só aí em volta e vê a porcaria que está. E é tudo por causa desse negócio do Caim matar o Abel. O ser humano já nasceu estragado. Todos nós temos no sangue o DNA de um assassino!

– E isso sem contar outras coisas.

– Que coisas?

– O Caim, ele teve filho com quem?

– O Caim? Bem, sei lá, com uma mulher, evidentemente.

– E qual era a única mulher que estava ali, disponível no momento?

– Minha nossa senhora! A Eva! Rapaz, a coisa é ainda pior do que eu imaginei!

– É verdade, é verdade…

 desenho do autor.

NOS QUINTAIS DE SOL DA MINHA VIDA poema de nelson padrella

     Nos quintais de sol da minha vida
    existem frutas e pássaros. Sobre flores
    voam borboletas e besouros.
    As pessoas estão além da cerca
    e nenhuma ameaça me ameaça.
    No rio de trás da minha casa
    – que nem rio é, mais um regato –
    crianças como eu brincam na água.
    Sei que a tarde levará embora o sol
    as aves se aquietarão nas árvores
    o silêncio dará a mão ao véu da noite.
    Nesse momento eu rio porque estou vivo
    nos quintais de sol da minha vida

POEMA de joanna andrade

A musica, os ouvidos e EU,
Sutil passadas de veludo,
Corre repentina, sem sentido,
Desenterra VOCE.
Imagem intocável, virtual,
Minha vida nesse momento,
Infindável, iluminada.
Musica não pare,
Se parar,
Quero voltar a sonhar de novo,
Eu quero, eu quero.
Fazer o que puder até,
Não agüentar mais, até,
Esgotar.
O sorriso, o choro, as brincadeiras, as noites e os dias, as viagens, a beira da estrada, os limites, as diferenças,
Eu e Você e
O sapato perdido no telhado, a garagem, a escada, o terraço, a chuva, a dança toda, as roupas rasgadas, os gritos…..
                  Blank!  Blank!   Blank!
 

O PASMO NA CASCA DE UMA PEDRA poema de darlan m. cunha

Se algum legista quebra as pernas
de um acordo tácito, e a mulher combina
um novo par
de brincos com um sutiã

de seda
chinesa, ou cetim paraguaio, novinho
igual a tudo o que a vida leva de tanta gente ainda

no berço, não te desesperes
tanto, não,
que a vida vive com poemas duros feito peroba
ou aroeira, de dentro deles saltam
ariranhas e araras, dunas

foram pedras, e com quebras
de linha é que o artista quebra as curvas
do modelo, tentando aplacar as ondas do mar
que dentro dele se quebram

e o quebra.

DOIS MONÓLOGOS e UM QUEBRA PAU de luis felipe leprevost

onde: na CASA do DAMACENO rua 13 de maio em frente ao colégio anjo da guarda.

FÚRIA (1)

  só se deve ler livros escritos há mais de cem anos.

  
jorge luis borges

RETTA no SESC da ÁGUA VERDE (Curitiba)

de 28 a 31 de janeiro das 13:00 as 17:00 no SESC da água verde ao lado do angeloni.

REVISTA ” O CRUZEIRO ” de 10 de NOVEMBRO DE 1928 – A ERA das FORÇAS HYDRAULICAS – reportagem

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capa do primeiro número da revista “o cruzeiro” que circulou no dia 10 de novembro de 1928 que continha esta reportagem.

ANNO 2000

A população do Brasil attingiu 200 milhões de pessoas a precisarem de energia para as suas multiplas actividades: compreende-se como essa necessidade levou ao aproveitamento das forças hydraulicas. Lentamente, medrosamente, a principio, essa utilização de energia se foi, depois, aos poucos accelerando. No anno 2000 já estão longe os tempos em que ainda se importavam carvão e petroleo! Esses recursos primitivos, condemnados pelo progresso da technica, foram desapparecendo, passando a constituir apenas uma recordação historica.
Os 50 milhões de cavallos-vapor de energia hydro-electrica, utilizados no Brasil, no anno 2000, equivalendo ao trabalho mecanico de 600 milhões de homens, a população brasileira, do ponto de vista energetico, é então computavel em 800 milhões.

Nessas condições, não admira que sejam enfrentados e convenientemente resolvidos os problemas da producção. As questões nacionaes são, então, estudadas por gente competente, tendo acabado, ha muito, a influencia dos politicos profissionaes. A Natureza, dia a dia dominada, é cada vez mais perfeitamente aproveitada. A luta do homem para o progresso passou a ser travada especialmente nos laboratorios de pesquisa. Ahi é que perscrutam, pacientemente, os segredos da Natureza, e dahi é que saem os processos, cada vez mais aperfeiçoados, de dominio da energia cosmica. Como estamos longe dos tempos em que nem havia Universidade no Brasil, a nao ser umas instituições de fachada, formadas por escolas exclusivamente para ensino profissional, e onde a pesquisa scientifica não se podia fazer!

Todas as actividades industriaes foram avassaladas pela energia electrica. São as industrias electro-chimicas, num desdobramento maravilhoso; é a electro-metallurgia; é, ainda, a energia para tudo. As distancias desappareceram, por assim dizer, desde que se resolveu o problema de irradiação da energia.
Lembram-se todos como começou a ser resolvida essa questão. Foi, a principio, a radio-telephonia, logo seguida da radio-photographia. Pouco depois, irradiava-se energia pra fins industriaes, e os motores electricos com energia irradiada se installaram em todos os vehiculos: bondes, trens, automoveis, aeroplanos, navios; e em todas as fabricas; e em todos os logares onde a energia se faz precisa. O problema da distribuição da energia passou, desde então, a ser uma questão definitivamente resolvida.

Transformara-se, com isso, a vida, que Nietzsche affirmou ser, essencialmente, uma aspiração á maior somma de poder, numa vontade que permanece, intima e profunda, em todo ser vivo. A luta pela existencia, pelo poder, pela preponderancia, com a nova forma de distribuição de energia passara a ser uma luta pela posse da energia electrica.

A importancia dos povos se alterara, sendo regida a sua classificação pelo valor das reservas em forças hydraulicas.
É assim que o 1° lugar passara a ser da Africa, com os seus 190 milhões de cavallos-vapor hydro-electricos. Em 2° logar vinha a Asia, com 71 milhões. A America do Norte, com 62 milhões, ficara em 3° logar, e a America do Sul em 4° logar, com 60 milhoes de cavallos-vapor hydro-electricos, dos quase 50 cabendo ao Brasil.

A Europa, com 45 milhões de cavallos, ficara tendo atrás de si unicamente a Oceania, com 17 milhões.
Cabia agora o dominio aos povos que dispunham de maior somma de energia hydro-electrica. Passara o tempo do imperialismo do carvão e do petroleo, e chegara a era da energia electrica. Os 445 milhões de cavallos-vapor, em que se orçara a energia total das forças hydraulicas da Terra, passaram a regular decisivamente a importancia relativa das 5 partes do mundo.
Ainda ha, no anno 2000, philosophos a indagarem se o progresso existe, affirmando que o que interessa não é poder ser enviado o pensamento á volta da terra, em alguns segundos, mas sim saber se esse pensamento é melhor, mais profundamente humano, mais justo. A vida, em todo caso, mudou completamente.

Melhor? Peor? – É difficil sabe-lo. Mas, seguramente, é differente.

É a era da electricidade.

A differença entre a vida de então e a dos anteriores é alguma coisa como a differença hoje existente entre a vida dss grandes cidades e a do campo. O ambiente é outro. Outra é a organização da vida. Cada vez o homem se afasta mais da Natureza. Primeiro, liberta-se do dia e da noite. A luz artifical permitte-lhe a vida nocturna absolutamente igual á do dia; a luz solar não é mais reguladora dos habitos quotidianos. A vida em grandes aglomerações vae, aos poucos, deixando em todos os habitos a sua marca. As facilidades augmentam para tudo e os multiplos actos da vida se vão, lentamente mas constantemente, adaptando á nova ordem das coisas. O tempo se distribue de outro modo, e os affazeres são outros. Outros são, tambem, os divertimentos. Insensivelmente, as differenças se vão accentuando.

As viagens e os proprios passeios diminuiram muito, desde que, sem sair de casa, pode-se ver o que ha em qualquer parte da Terra: a televisão, juntada á telephonia, modificou radicalmente os habitos. Não ha necessidade de sair para fazer compras: vê-se, escolhe-se, encommenda-se tupo pelo telephone-televisor automatico. Não ha mais necessidade de viajar, para ver terras longinquas: é só ligar o receptor, e visita-se, commodamente, qualquer museu, ou qualquer paiz. Sómente os objectos devem ser transportados.

Na era da electricidade o rei dos metaes é o aluminio, retirado das argilas pela energia electrica.
O aluminio supplantou, com as suas ligas, o ferro, pesado demais e facilmente oxydavel, e ainda substitui o papel, tão facilmente deterioravel. De aluminio são os livros. É em folhas de aluminio que se escreve.

A era da electricidade se caracteriza, essencialmente, pelo emprego da electricidade em todas as formas de energia. Energia luminosa: tudo se iluminna electricamente. Energia chimica: tudo deriva da electricidade. Energia thermica: tudo se aquece ou se resfria pela electricidade. Energia mecanica: tudo se movimenta pela electricidade.

Servindo para tudo, a energia electrica passa a ser a nova moeda. O ouro e as suas representações são formas obsoletas de medir valores. A moeda, no anno 2000, é, tambem, a energia electrica. Pagam-se as compras em kilowatts. Paga-se o trabalho en kilowatts.
A revolução trazida é principalmente nos habitos. Continúa a haver desigualdades sociaes. Ha ricos, possuidores de milhões de killowatts-horas, remediados, que têm alguns milhares de unidades de energia; e pobres, que dispõem apenas de algumas unidades. É verdade que não ha mais fome, desde a adopção do trabalho obrigatorio minimo, nas usinas distribuidoras de energia.

Mas as questões sociaes continuam.

Muitos pretendem estender o dominio da actividade industrial do Estado. Parece-lhes insufficiente o monopolio governamental das usinas geradoras e distribuidoras de energia. Começou a questão a proposito da regularização do clima. Uma vez reservada para o Estado a faculdade de provocar as chuvas pela energia irradiada ás nuvens, determinando-lhes a condensação, pareceu a muitos que se deveriam ampliar ainda mais as horas de trabalho obrigatorio minimo, servir-se-ia melhor a colectividade minima do trabalho. Só haveria vantagens nisso.

Objectam, porém, alguns ser o caso das usinas de energia, evidentemente, especial. Da mesma forma, o da distribuição das chuvas, vantajosamente affecto ás autoridades, para beneficio geral.

A Repartição das Chuvas, dispondo de todo o serviço official de estatistica, e em connexão com os demais repartições do Ministerio da Agricultura, é uma organização que se resolveu dever ser do Estado.
Ampliar, porém, ainda mais os serviços governamentaes, numa socialização progressiva de todas as actividades, não merece as sympathias de um grupo numeroso. Já todos os homens e todas as mulheres, maiores de 18 annos, são obrigados a um serviço diario de 2 horas. Breve serão 3 horas.

Onde se irá para nesse caminho? Invocam-se contra as idéias de socialização os velhos principios da liberdade individual. A questão está, assim, longe de ser resolvida
. . . . .
Sonho? – Sim. Mas o sonho de hoje poderá ser, amanhã, realidade. Sabe-se lá até onde nos levará a evolução que hoje se processa tão acceleradamente? Como será a vida no anno 2000?

colaboração de mari frança. fonte: memória viva.

DIÁRIO do PARAGUAI por emir sader

 A ELEIÇÃO NO PARAGUAI.

Aprendemos que na Guerra do Paraguai o Brasil se uniu à Argentina e ao Uruguai para tirar do poder um tirano. Mas Eduardo Galeano se pergunta: Que lição o Brasil, monárquico e escravista, tinha a dar ao Paraguai, republicano e sem escravidão?” O certo é que foram mortos na guerra 70% dos adultos do Paraguai, um país que, mediterrâneo, tinha um modelo econômico voltado para o mercado interno, fora dos circuitos de dominação da Inglaterra.

Hoje o Paraguai pode se somar à lista de governos progressistas da América Latina, elegendo ao ex-bispo Fernando Lugo como presidente. Terminada a longa ditadura de Stroessner – que viveu folgadamente seu exílio no Brasil, – em 1989, o Partido Colorado, que governa o Paraguai desde a década de 1940, tornando-se um verdadeiro partido-Estado, prolongou seu reinado, até que grandes mobilizações populares questionando seus métodos autocráticos de governo, erigiram a Lugo como lider oposicionista favorito a triunfar nas proximas eleições, de abril de 2008.

Tudo parece favorecê-lo: o apoio popular, o prestígio que possui, a crise do governo e do Partido Colorado dividido, o entorno regional. Lugo constituiu uma ampla aliança partidária, o que fez com que alguns movimentos sociais tomem distância em relação a ele, temendo que fique preso a compromissos com forças tradicionais, entre elas o maior partido opositor, o Partido Liberal.

O Partido Colorado está por decidir seu candidato. Pode ser uma ministra de Nicanor Duarte, atual presidente, ou o vice-presidente, Luis Alberto Castiglioni, o favorito, que renunciou recentemente, para poder se candidatar. Este é o mais significativo representante do neoliberalismo, com vínculos estreitos com o governo dos EUA.

Temeroso do favoritismo de Lugo, o governo introduziu uma nova manobra, libertando a Lino Oviedo, político tradicional, com prática conhecida de violência contra os movimentos populares, mas também implicado no assassinato do ex-vice presidente, Luis Argaña. Este é um dos três processos pelos quais Oviedo está condenado – um outro é por tentativa de golpe de Estado -, mas apelando das sentenças, está em liberdade, para tentar tirar votos de Lugo.

Lugo no elaborou ainda sua plataforma, mas certamente terá como uma de suas prioridades as negociações de um novo contrato de Itaipú, em que reivindicará simplesmente que o Brasil pague a preço de mercado a produção, revisando o acordo assinado pela ditadura militar brasileira com a ditadura de Stroessner. Apenas isto permitiria ao Paraguai receber pelo menos o dobro ou mais do que recebe com os acordos atuais.

O tema da reforma agrária deve ser central num eventual governo de Lugo, quando este se compromete a acabar com o latifúndio e critica a Lula pela lentidão na reforma agrária no Brasil. Ainda mais se o candidato do Partido Colorado for Castriglioni, Lugo tenderá mais claramente a desenvolver um discurso anti-neoliberal, pelo qual afirma optar.

Os riscos não são poucos: risco de campanha pesada e suja do governo e do Partido Colorado, incluindo tentativa de fraude eleitoral; risco de Lugo depender muito dos partidos tradicionais e fazer um governo amarrado por excessivos compromissos, inclusive pelas excessivas reticências de setores dos movimentos sociais em apoiá-lo resolutamente. Mas os riscos fazem parte da possiblidade de terminar com a ditadura do Partido Colorado. Nunca as condições internas e externas foram tão favoráveis.

HOMENAGEM A BIA DE LUNA REÚNE DEZENAS DE ARTISTAS

 

 

 

 não existem palavras para exprimir o que ocorreu na noite de homenagens a poeta BIA DE LUNA. simplesmente magnífico. todos os amigos da BIA, que se fizeram presentes, participaram com forte emoção e respeito por sentirem que ali, naquele momento, é que estavam REALMENTE dando um até breve, que não foi possível antes pelas razões que conhecemos. os poetas, homens e mulheres, que não conviveram com ela mas a conheciam por seus livros, MORFEU GARGALHA e CLIVAGENS ou pelo tratamento dado pelo PALAVRAS, TODAS PALAVRAS, ao seu desaparecimento, emocionavam-se ao ouvir os demais e subiam ao palco com palavras firmes de admiração e respeito. difícil descrever. os celulares tocavam. eram os amigos que não puderam estar presentes, solidarizando-se com o evento. que turma. que gente maravilhosa, esses artistas amigos da BIA. pelo palco das homenagens passaram o multimídia RETTA, a poeta MARILDA CONFORTIN, o promotor cultural MAURO, o poeta ELTER, o poeta MANOEL DE ANDRADE, a poeta BÁRBARA LIA, o poeta e compositor ALEXANDRE FRANÇA, o fotógrafo PAULO ROBERTO PEREIRA (Pablito), a poeta e escritora HELENA SUT, a amiga pessoal ELAINE, o poeta ALTAIR DE OLIVEIRA, o artista plástico ÁTTILA WENSERSKI, o poeta e pesquizador EDU HOFFMANN, o poeta e compositor LUIS FELIPE LEPREVOST, o amigo pessoal LUIS ALCEU (lulo) e este editor. as falações poéticas ocupavam os intervalos do conjunto do músico GUEGO. dezenas e dezenas de amigos presentes aplaudiam com ênfase a cada orador. não tenho notícia de algo semelhante por aqui. sem oficialismo. ainda bem! encontro da ARTE sem molduras oficiais ou sociais. uma homenagem póstuma com tal qualidade de presença. fantástico, inacreditável. recado aos “cérebros” que cultuam a elitização da arte, vazia de conteúdo, de beleza e de técnica.

nossos agradecimentos,
jb vidal
EDITOR
p.s. vejam algumas fotos que já chegaram do nosso amigo e fotógrafo pablito na “sala de visitas”

 

NO HERMES BAR, POETAS E ARTISTAS HOMENEGEIAM BIA DE LUNA

 

 

hoje, 24/01/08 a partir das 21:00, poetas e artistas irão homenagear a poeta BIA DE LUNA no hermes bar (av. iguaçu, curitiba). estão todos convidados para dizerem, lerem poemas da poeta ou seus. este ato irá marcar, também, o lançamento do projeto “sarau BIA DE LUNA poesias e performances poéticas” que deverá acontecer, bimestralmente, em teatros e locais apropriados da cidade. os bardos brasileiros ou não estão, desde já, convidados. os interessados em participar deverão entrar em contato, por email, com este site cujo endereço encontra-se na coluna da direita. por ora, todos lá no hermes.

jb vidal
EDITOR

O BRASIL é o MEU PÚBLICO: MAZZAROPI entrevistado por armando salem para a revista veja em 28/01/1970



De Jeca a Djeca, um sucesso de 25 anos, com os cinemas sempre lotados 

   Esta semana, mais um de seus filmes está sendo lançado nos cinemas de São Paulo para depois correr o Brasil. “Uma Pistola para Djeca”. Produtor, ator, criador do personagem, ele é capaz de jurar que Djeca não vem de Django, o pistoleiro italiano: “Djeca é um herói caboclo do Brasil do século XIX”. Ele é Amácio Mazzaropi, sucesso garantido em bilheteria, um homem que dá risadas das histórias contadas a respeito de sua fortuna. Mora numa casa classe média – três quartos, sala, banheiro, cozinha – num bairro classe média de São Paulo. Na garagem, um automóvel Galaxie amarelo, que Mazzaropi mesmo dirige, desmente uma das histórias: a do bilionário caipira que – charuto na boca, terno de linho branco trocado pelo chapéu-coco, chofer na direção de um magnífico Rolls-Royce – de vez em quando passeia nas ruas da cidade. Parece ser um homem simples, como os personagens que viveu durante 25 anos (completa o jubileu este ano) nas telas dos cinemas nacionais. Tem um pouco do “Zé do Periquito”, do “Padre”, do “Corinthiano”.

    Solteirão nascido na capital de São Paulo em 9 de abril de 1912, filho de um casal classe média, Dona Clara e Bernardo – um próspero dono de mercearia – iria crescer sem problemas financeiros mas com muita preguiça: mal conseguiu terminar o ginásio. Do avô Amácio Mazzaropi (imigrante italiano que foi trabalhar nas terras do Paraná) não herdou só o nome, mas o gosto pela vida do campo que o levou um dia a pesquisar no interior o personagem de calças curtas, canela aparecendo, botinas, fala arrastada – o caipira Mazzaropi.

  DO CIRCO AO CINEMA, SEMPRE O MESMO PERSONAGEM

Veja Qual é o seu público?
Mazzaropi
– Meu público é o Brasil, do Oiapoque ao Chuí. Eu loto casa em São Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Acre, Rondônia, Rio Grande do Sul, Rio Grande do Norte, ilha do Bananal… 

VejaSim, mas como você definiria esse público: gente simples, classe baixa, elite, velho, moço?
Mazzaropi – É público bom, fiel.  

Veja – Você não gosta de falar?
Mazzaropi – Não.  

Veja
Por quê?
Mazzaropi – Porque deturpam tudo o que eu falo.

Veja – Quem deturpa?
Mazzaropi
– A crítica. A imprensa.

Veja – E como se faz para contar quem é Mazzaropi e o que ele pretende fazer daqui para a frente?
Mazzaropi – Conte minha verdadeira história, a história de um cara que sempre acreditou no cinema nacional e que, mas cedo do que todos pensam, pode construir a indústria do cinema no Brasil. A história de um ator bom ou mau que sempre manteve cheios os cinemas. Que nunca dependeu do INC – Instituto Nacional do Cinema – para fazer um filme. Que nunca recebeu uma crítica construtiva da crítica cinematográfica especializada – crítica que se diz intelectual. Crítica que aplaude um cinema cheio de símbolos, enrolado, complicado, pretensioso, mas sem público. A história de um cara que pensa em fazer cinema apenas para divertir o público, por acreditar que cinema é diversão, e seus filmes nunca pretenderam mais do que isso. Enfim, a história de um cara que nunca deixou a peteca cair.

Veja – Conte então sua história.
Mazzaropi – Quando eu comecei minha vida artística, muito pouca gente que vai ler esta história existia. Nasci em 1912, e na época em que comecei tinha uns quinze anos. Naquele tempo, o gênero de peças que fazia sucesso no teatro era caipira. E, como todo mundo, eu gostava de assisti-las. Dois atores, em particular, me fascinavam. Genésio e Sebastião de Arruda. Sebastião mais que Genésio, que era um pouco caricato demais para meu gosto. Nem sei bem por que, de repente, lá tava eu trabalhando no teatro. Mas não como ator – eu pintava cenários. Aliás, eu amava a pintura, sempre amei a pintura. Pois bem, um belo dia “perdi” o pincel e resolvi seguir a carreira de ator. No começo procurei copiar a naturalidade do Sebastião, depois fui para o interior criar meu próprio tipo: caboclão bastante natural (na roupa, no andar, na fala). Um simples caboclo entre os milhões que vivem no interior brasileiro. 
 
Saí pro interior um pouco Sebastião, voltei Mazzaropi. Não mudei o nome (embora tivessem cansado de me aconselhar a mudá-lo) por acreditar não haver mal nenhum naquilo que eu ia fazer. Os amigos diziam que Mazzaropi não era nome de caipira, que era nome de italiano, mas eu respondia para eles que, se não era, iria virar. Que eu não tinha vergonha do que ia fazer e, por isso, ia fazer com meu nome. E o público gostou do meu nome, gostou do que eu fiz. Turnês em circos, teatros, recitando monólogos dramáticos, fazendo a platéia rir, chorar. Mas sempre com uma preocupação: conversar com o público como se fosse um deles. Ganhava 25 mil-réis por apresentação quando comecei, passei a ganhar bem mais quando montei a minha própria companhia (1). De nada adiantou a preocupação dos meus pais quando eu saí de casa: “quem faz teatro morre de fome em cima do palco”. Eu fiz e não morri, pelo contrário, sempre tive sorte – sempre ganhei dinheiro. Mas eu era bom, era o que o público queria. Em 1946 assinava um contrato na Rádio Tupi – onde fiquei oito anos. Em 1950 ia para o Rio de Janeiro inaugurar o canal 6, e começava minha vida na televisão (2). Um dia, num bar que havia pegado ao Teatro Brasileiro de Comédia, entrou Abílio Pereira de Almeida. A televisão estava ligada, o programa era o meu. Ele me viu. Uma semana depois, uma série de testes me aprovava para fazer o meu primeiro filme: “Sai da Frente”. Meu primeiro salário no cinema – 15 contos por mês. No segundo já ganhava 30, depois 300, hoje eu produzo meus próprios filmes. E o público, como no meu tempo de circo, vai ver um Mazzaropi que faz rir e chorar. Um Mazzaropi que não muda.
 

A MÁGOA DE MAZZAROPI: UMA CRÍTICA QUE SÓ PENSA EM DINHEIRO

Veja Sua história parece girar em torno de cifras. Você é louco por dinheiro?
Mazzaropi – Não, acho que dinheiro não traz felicidade na vida. Tá certo que ajuda, mas, em compensação, quem tem, além de viver intranquilo, passa a ter desconfiança em vários setores da vida. Quem tem dinheiro sempre duvida de quem se aproxima – não sabe se é um amigo ou se vem dar uma bicada.

Veja – Quanto você ganha?
Mazzaropi – Mas por que vocês se preocupam tanto com o que eu ganho? Vão perguntar pro Pelé, que marcou mil gols. Ele é muito mais rico que eu. Tudo que tenho em meu nome é a casa onde moro. O resto está tudo em nome da Pam-Filmes.

Veja – Tem sócio?
Mazzaropi – Não, não tenho. Tenho o necessário para pensar em fazer amanhã ou depois a indústria cinematográfica de que falei. Tenho câmeras de filmar, holofotes, lâmpadas, cavalos, cenários, agências em São Paulo, Rio, Norte do país, e uma fazenda de 184 alqueires no Vale do Paraíba – Taubaté – que serve perfeitamente de estúdio para os filmes que rodo. Como vê, tudo que ganho é aplicado na Pam-Filmes, no cinema brasileiro. E depois vêm esses críticos de cinema metidos a intelectuais dizendo: “O Mazzaropi tá cheio de dinheiro. Ele tá podre de rico. Não sabe onde pôr o dinheiro”. Não são capazes de entender que eu faço cinema como indústria. E o cinema é uma indústria como qualquer outra. Eu faço o cinema-indústria e vou fazer a indústria brasileira de cinema.

Veja – Acredita mesmo nisso?
Mazzaropi – Acredito e não estou longe dela. Não uma indústria exportadora. Não sou visionário. Uma indústria que seja capaz de suprir o mercado interno de filmes é o suficiente. Não podemos pensar em conquistar o mercado externo – nós não temos nem lâmpadas aqui. Tudo que temos vem de lá. Mas, se nós pudermos ter uma indústria produzindo fitas nacionais, se nossas salas ficassem ocupadas por fitas nacionais, quanto dinheiro nós estaríamos evitando de mandar para fora!

Veja – É um sonho muito bonito. Mas há público no Brasil para fitas nacionais? Ou seria a falência dos exibidores?
Mazzaropi – Não posso falar pelos outros porque não conheço os resultados dos números daquilo que eles fazem. Tenho muita vaidade em dizer que eu não tenho nenhum problema de exibição de meus filmes. Os exibidores fazem fila na porta da Pam-Filmes. O público vai ver minhas fitas e sai satisfeito. Eu já consegui colocar 13000 pessoas num dia, nas várias sessões do Art Palácio, em São Paulo. Com isso, ando de cabeça erguida. Agora, pelo outro tipo de filme feito no Brasil, não respondo. Não sei se ele pode ajudar a indústria cinematográfica nacional.

Veja – Que outro tipo de filme?
Mazzaropi
– Esse tal de Cinema Novo.

Veja – Você é contra o Cinema Novo?
Mazzaropi – Não, eu não tenho nada contra ele. Só acho que a gente tem que se decidir: ou faz fita para agradar os intelectuais (uma minoria que não lota uma fileira de poltronas de cinema) ou faz para o público que vai ao cinema em busca de emoções diferentes. O público é simples, ele quer rir, chorar, viver minutos de suspense. Não adianta tentar dar a ele um punhado de absurdos: no lugar da boca põe o olho, no lugar do olho põe a boca. Isso é para agradar intelectual.

Veja – Você parece ter muito raiva dos intelectuais.
Mazzaropi – E tenho mesmo. É fácil um fulano sentar numa máquina e escrever: “Hoje estréia mais um filme de Mazzaropi. Não precisam ir ver, é mais uma bela porcaria”. Mas não explicam por quê. Talvez com raiva pelo fato de eu ganhar dinheiro, talvez por acreditarem que faço as fitas só para ganhar dinheiro. Mas não é verdade, porque o maior de todos os juízes fugiria dos cinemas se isso fosse verdade – o público.

Veja – O que você acredita oferecer para o seu público?
Mazzaropi – Distração em forma de otimismo. Eu represento os personagens da vida real. Não importa se um motorista de praça, um torcedor de futebol ou um padre. É tudo gente que vive o dia-a-dia ao lado da minha platéia. Eu documento muito mais a realidade do que construo. Quando eu falo tanto na parte comercial, não quer dizer que é só com isso que eu me preocupo. Se um crítico viesse a mim fazer uma crítica construtiva, mostrar uma forma melhor de eu ajudar o público – eu aceitaria e o receberia de braços abertos. Mas em momento nenhum aceitaria que ele tentasse mudar minha forma de fazer fitas. Elas continuariam as mesmas, pois é assim que o público gosta e é assim que eu ganho dinheiro para amanhã ou depois aplicar mais na indústria brasileira do cinema. E se os críticos se preocupassem menos com o que eu ganho e mais com as salas vazias do Cinema Novo entenderiam que cinema sem dinheiro não adianta. Que não adianta a gente começar pondo o carro adiante dos bois.

Veja – Quanto rendem seus filmes
Mazzaropi – A resposta só pode ser dada pela contabilidade do escritório da Pam. É lá que eu confiro os balanços. De cabeça só tenho as cifras da renda total do filme que exibi no ano passado: “O Paraíso das Solteironas”. Do dia da estréia, 24 de janeiro de 1969, até 19 de janeiro de 1970, o filme rendeu 2 bilhões e 650 milhões de cruzeiros velhos.

Veja – Quanto custou a produção?
Mazzaropi – Não me lembro.

Veja – E a do último?
Mazzaropi – “Uma Pistola para Djeca” ficou entre 500 e 600 milhões de cruzeiros velhos. É o meu filme mais caro e mais bem cuidado. Colorido especial, guarda-roupa especialmente feito para o filme, que está, realmente, muito bonito. Procuro sempre melhorar a qualidade técnica dos filmes que produzo. É este o algo mais que eu procuro dar ao público. Infelizmente, o que falta no Brasil é gente inteligente, que entenda de cinema. Faltam diretores, roteiristas, cinegrafistas, falta tudo.

Veja – Dos papéis que já representou, qual o mais importante?
Mazzaropi – Gostei de todos os filmes que fiz, por isso é difícil dizer qual o papel que mais me realizou.
 
Veja – Não teria sido “Nadando em Dinheiro”?
Mazzaropi – Quem sabe! Não é verdade, é brincadeira. Gostei do Candinho, do Motorista, do Corintiano, gostei mesmo de todos. Mas talvez eu fique com a opinião do presidente da Academia Brasileira de Letras, que, no dia 17 de janeiro de 1968, escrevia e assinava um bilhete dirigido a mim (eu o guardo até hoje num quadro sobre a lareira de minha sala): “Astraugesilo de Ataide considera que, com “Jeca Tatu e a Freira” Mazzaropi alcançou no cinema o mais alto nível de sua arte. É hoje, sem nenhum favor, um artista de categoria mundial”.  
 

A FAVOR DO PALAVRÃO MAS CONTRA OS EXAGEROS DO SEXO

 

Veja Você contou ter entrado no teatro através da pintura. Até hoje você pinta?
Mazzaropi – Não, apenas gosto.

Veja – Que gênero prefere?
Mazzaropi – Sou um conservador, prefiro a pintura clássica. Principalmente dos quadros que têm paisagem, talvez por me fazerem lembrar o campo, o contato com a natureza.

Veja – E quanto a leitura?
Mazzaropi – Só leio “Tio Patinhas”.

Veja – Sente saudade do teatro?
Mazzaropi – Oh, se sinto. Mas de vez em quando dá pra matá-la. Faço alguns shows beneficentes em circos e teatros do interior.

Veja – Representando coisa séria? Ou vivendo o caipira Mazzaropi?
Mazzaropi – É muito difícil separar um do outro. Eu já fiz teatro sério: interpretei “Deus lhe Pague” e “Anastácio”, de Juracy Camargo; “Era uma vez um Vagabundo”, do Wanderlei, e várias peças do Oduvaldo Viana. Em todas elas eu sempre fui Mazzaropi. Não interessa se fazia o público rir ou chorar. Ele sempre estava vendo o Mazzaropi, pois eu não posso mudar meu jeito de rir, falar, olhar.

Veja – Você vai muito ao teatro?
Mazzaropi – Sim, bastante.

Veja – O que pensa do novo teatro, do palavrão, do nu?
Mazzaropi – Não tenho nada contra ele. Pelo contrário, até gosto das peças que têm nu, palavrão, mas quando eles vêm por necessidade, por decorrência da própria história. Não do palavrão, do nu forçados. De um punhado de gente pelada se esfregando maliciosamente pelas paredes do teatro; do sensacionalismo para ganhar público. No início, eles vão conseguir encher os teatros – é certo. Mas e depois, este público volta? Não, claro que não volta. Nem a minoria que vai ao teatro consegue agüentar ficar vendo gente pelada e ouvindo palavrões o tempo inteiro. Calculem a população de São Paulo e façam uma relação do número de teatros que nós temos e vejam quantos estão cheios. Vejam quantos lugares têm esses teatros – e verão que a freqüência é mínima. O grande público fica em casa. Aceita Chacrinha, Sílvio Santos, Hebe Camargo, vê televisão. Vai ao cinema ver os meus filmes e depois eu passeio pelas ruas e ouço um pai de família: “Mazzaropi, seus filmes são ótimos. A gente pode levar a família para assisti-los”. Já imaginaram se eu aparecesse pelado para esse público? Ele nunca mais iria me assistir no cinema.

Veja – Você falou na aceitação da televisão. Por que não volta a fazer?
Mazzaropi – Já tenho muito trabalho com a Pam-Filmes. Faço um filme por ano – mas ele dá um trabalho! Cinco meses de preparação de roteiro, cenários, etc. Dois meses para filmar. O resto é problema de distribuição. Não dá para fazer mais nada. E não estou mais na idade de ter patrão. Tenho meu negócio, trabalho a hora que quero. Não dou satisfação a ninguém. Na TV eu iria ter patrão.  

Veja – Mas você gosta de televisão?
Mazzaropi – Oh, se gosto. Assisto sempre. Tudo que consegue se comunicar com o público me fascina. Gosto do Sílvio Santos e da Hebe, principalmente. Eles vieram do nada como eu. Ganham dinheiro para divertir o público, e divertem. Não adianta nada a crítica chamar a Hebe de burra. Ela nunca disse para ninguém que era professora. Não adianta dizer que ela só fala bobagens – o público gosta do que ela fala. E quem manda é o público. 

Veja – Tem planos para o futuro?
Mazzaropi – Sim, continuar fazendo filmes até morrer – é a única coisa que sei fazer na vida. Quero morrer vendo uma porção de gente rindo em volta de mim.
 

Observações do Museu Mazzaropi

(1) Após realizar seu último filme pela Cinedistri, Chico Fumaça, de 1956, Mazzaropi já era famoso no cinema nacional e resolveu que estava na hora de investir em si mesmo. Isso porque via as grandes filas no cinema e eram, geralmente, os donos das produtoras que sempre ganhavam muito dinheiro.

O sucesso de Chico Fumaça fez com que Mazzaropi comentasse com sua mãe, Dona Clara, que o proprietário da companhia Cinedistri, sr. Massaini, ganhara muito dinheiro com o sucesso dos filmes em que ele participara e pediu para que ela o apoiasse num investimento que pretendia fazer.

Ele queria produzir um filme, mas para levar seu projeto adiante não hesitou em se desfazer dos seus bens: dois carros Chevrolet americanos, terrenos, economias bancárias e perguntou ao seu filho de criação, Péricles Moreira, se fosse necessário, se ele não se importaria em trocar o colégio particular por um colégio estadual. Mazzaropi ficou apenas com o terreno do Itaim Bibi.

Em 1958, consegue produzir seu primeiro filme, Chofer de Praça. Não foi fácil, no início teve que alugar os estúdios da Cia Vera Cruz para as gravações internas e as filmagens externas foram rodadas na cidade de São Paulo com os equipamentos alugados da Vera Cruz. Estava inaugurada a PAM Filmes – Produções Amácio Mazzaropi.


(2) Na verdade, em setembro de 1950, Mazzaropi, com 38 anos, estreava na TV Tupi de São Paulo o mesmo show que tinha sido sucesso durante muito tempo na Rádio Tupi: Rancho Alegre – o programa era ao vivo, todas as quartas, às 21 horas.

Quatro meses depois, janeiro de 1951, Mazzaropi é convidado para a inauguração da TV Tupi no Rio de Janeiro. No alto do Pão de Açúcar, onde se achava instalada a torre transmissora, acontece a grande festa com a presença do Presidente, General Eurico Gaspar Dutra.

A apresentação do show inaugural coube a Luis Jatobá, primeiro locutor da Tupi carioca.

Mazzaropi também passou pela TV Excelsior fazendo parte de um programa de sucesso na época, apresentado por Bibi Ferreira, Brasil 63.

VERÃO com RELÂMPAGOS e MACACOS conto de tonicato miranda

(Breve conto escrito num celular entre Joinville e Curitiba)

Quanto mais o ônibus se aproximava da morraria, mais intensos os clarões dos relâmpagos.
E eles pulsavam no breu da noite, sem aviso, sem ritmo ou compasso. Impossível adivinhar o intervalo entre o último e o próximo – este que já caiu. E eles continuaram riscando a anágua preta da noite, lá longe, no sopé da montanha.

De súbito, um estrondo. O raio rompeu a janela do ônibus deixando passar a chuva de granizo e uma pedra caída sobre a poltrona, felizmente vazia, ao lado do homem. Enrolada nela um papel amarfanhado e agora mais molhado ainda com a chuva que passava pelo buraco na vidraça. Mesmo assim era possível ler a grafia borrada, em azul:

__ Se não me amas, por que não me esqueces?

Ficou o homem pensando, curvas e curvas estrada afora, até que num impulso louco se atirou pelo buraco da janela, no exato momento em que o ônibus passava sobre uma ponte, vindo a cair no vazio.

Três macacos se assustaram com aquele turbilhão de estrondos, e muitos galhos crepitando como se fora um incêndio violento e não um aguaceiro que já caia há algum tempo. Depois de galhos e folhagens que primeiro chegaram ao solo, chegou o corpo do homem.

Depois de alguns segundos de desconfiança, os macacos se aproximaram e foram tentando cheirar o corpo, com seus focinhos compridos, mexendo nos braços do homem para se certificar se ainda estava vivo. Ao constatar estarem definitivamente diante de um morto, começaram com dentes ágeis a dilacerar o corpo do homem.

Não demorou cinco dentadas para que a macaca grunhisse para o macaco mais velho, afirmando: Gruuuhhhh!!!! Argruunnnnhh asfgrgrggr!!! (e que rapidamente pudemos traduzir em – “seres humanos apaixonados têm melhores gosto e fragrância”).

BANHO de LINGUA, OPS! por edu hoffmann

As palavras têm mistérios e são cheias de sutis complexidades. Todo homem é um animal etimologista, o que significa que as pessoas apresentam um interesse natural por conhecer a origem das palavras que usam no cotidiano. Carlos Drumond de Andrade: “lutar com palavras / é luta mais vã / entanto lutamos / mal rompe a manhã “.

Para melhor sabermos do significado das palavras da nossa língua, pincei alguns exemplos de três livros: De Onde Vêm as Palavras – Frases e Curiosidades da Língua Portuguesa, de Deonísio da Silva, Editora Mandarim; A Origem Curiosa das Palavras,de Márcio Bueno, Editora José Olympio , e finalmente A Casa da Mãe Joana – Curiosidades nas origens das palavras, frases e marcas, de Reinaldo Pimenta, Editora Campus.

Do livro De Onde Vêm as Palavras:

Assassino: do árabe ashohashin, bebedores de haxixe. Durante as cruzadas, integrantes de uma seita, embriagados dessa droga, matavam a quem seu chefe lhes indicasse. Por isso, passou a significar homicida.

Conchavo: do latim conclave, designando qualquer das dependências da casa que se fecham com uma só chave, como o quarto, a alcova, a sala. Passou a denominar acordos porque estes são feitos em recintos fechados, ainda que depois sejam discutidos também em lugares públicos, como acontece com as combinações políticas.

Faísca: do alemão antigo falaviska, em cruzamento com o latim favilla, ambos significando fogo pequeno. Por isso, alguns pesquisadores viram neste vocábulo a origem de favela: vistas de longe, as luzes dos barracos eram foguinhos. Entretanto, há controvérsias, pois o amontoado das toscas construções poderia ter esse nome devido à forma de favo, lembrando uma abelheira.

Ficção: Do latim fictione, declinação de fictio, de fingire, fingir, modelar, inventar. A ficção literária, em prosa ou poesia, é um faz-de-conta com a realidade, um fingimento que cria paradoxalmente, uma outra realidade, tal como aparecem nos famosos versos de Fernando Pessoa: “O poeta é um fingidor / finge tão completamente / que chega a fingir que é dor / a dor que deveras sente”.

Do livro A Origem Curiosa das Palavras:

Banguela: Desdentado, indivíduo cuja arcada dentária é falha na frente. A origem do nome é a cidade de Benguela, situada na baía de Santo Antonio, em Angola. A população negra dessa região tinha o costume de limar os dentes incisivos das crianças O estrago era grande, pois os incisivos são os oito dentes da frente, que ficam entre os caninos. O termo é usado também na expressão “na banguela”, com o significado de “com a marcha do veículo desengatada, ou desengrenada”. O mesmo que “em ponto morto”. A origem seria o fato de engatar, ou engrenar uma marcha, é o mesmo que “endentar”. Significa fazer com que as engrenagens da marcha se engatem com as do eixo do motor, ou que os dentes se encaixem, para que haja a tração. Quando está em ponto morto, geralmente em descida de ladeira, o carro se movimenta sem ajuda dos dentes, ou sem os dentes, o que teria gerado a expressão “na banguela”.

Baitola: Termo de uso mais freqüente no Nordeste do Brasil, denominando, com conotação pejorativa, homossexual masculino. A palavra, que se pronuncia Baitôla, teria surgido durante a construção de ferrovias na região por uma companhia inglesa. A mão-de-obra qualificada, como os engenheiros, eram ingleses, e os operários, brasileiros. Os ingleses, entre os quais havia alguns homossexuais, em vez de dizer `bitola` (distância entre os trilhos), pronunciavam `baitola`. Por isso, os operários passaram a brincar entre si com essa palavra arrevesada, chamando de `baitola` quem fazia algum gesto afetado.

Dizimar: Atualmente o termo é usado principalmente no sentido de exterminar ou destruir parte de um grupo ou população. O vocábulo tem relação com “dízima” ou “dízimo” que designa o imposto ou contribuição correspondente à décima parte do rendimento. A origem foi o costume de se punir uma tropa militar por indisciplina, sublevação ou outro crime militar, fazendo destacar um soldado em cada grupo de dez e executá-lo à frente de todos. Tratava-se, portanto, da execução da décima parte da tropa. Com o tempo, o termo passou a incorporar vários outros significados, como exterminar, aniquilar de uma maneira geral em relação a pessoas, animais, plantações etc.

Vinheta: Em rádio e televisão, vinheta é uma peça curta utilizada para abrir e fechar programas, ou blocos, e também para identificar a emissora, o programa ou o patrocinador. A origem é o francês vignette, que significa “pequena vinha” ou “pequena plantação de uvas”. Mas qual a relação de uma coisa com outra? Originalmente, era chamado de vignete, em francês, o desenho em forma de folhas e cachos de videiras que ornamentavam louças ou peças de mobiliário. Depois, passou a denominar ornamento do início e do alto da página de um livro ou capítulo – na imprensa escrita passou a designar letra ornamentada ou pequena ilustração para marcar, como um símbolo, diversas matérias que tratam do mesmo assunto. Daí, o termo foi adotado por outro veículo como rádio e a televisão, para designar peça que tem alguma relação com o símbolo utilizado pela imprensa escrita, mas que está a uma distância infinita do significado primitivo, de “pequena vinha”

Do Livro A Casa da Mãe Joana:

Bocó: A palavra francesa boucaut (um saco feito de pele de bode para transporte de líquidos) veio de bouc (bode) e deu no espanhol bocoy. Daí chegou ao brasileiro bocó para designar um saco feito de couro de tatu. Como o bocó não tem tampa, ficando sempre aberto, a palavra passou a se aplicar à pessoa palerma, tola, que vive de boca aberta, em pasmo permanente.

Camarada: Do francês camarade, que veio do espanhol camarada. Era como se tratavam os soldados espanhóis porque comiam e dormiam juntos na mesma câmara, no mesmo quarto.

Óculos: O latim oculu, olho, originou em português olho e óculo. Óculo é sinônimo de luneta ou qualquer instrumento com lentes para auxiliar ou aumentar a visão. Daí binóculo – formado de bi (dois) + óculo – duas lunetas. Óculos (no plural) é o resultado de duas lentes paralelas para auxiliar a visão. São dois óculos. Por isso deve-se dizer, no plural, “Onde estão meus óculos?”, e não “Onde está meu óculos?”, que é tão errado quanto “Onde está minha calças?”.

Saravá: É a interjeição umbandista equivalente a salve! Saravá era como os escravos africanos pronunciavam a palavra salvar, com influência da fonética do banto, sua língua nativa.

Trivial: Do latim triviale, comum, vulgar, derivado de trivium (tri + via), cruzamento de três caminhos, praça pública, um lugar em que as pessoas se encontravam para bater papo, fofocar, enfim para tratar de trivialidades.

burra eu te amo – poema de jorge barbosa filho

deves sonhar jegues
saltando cerquinhas prá lá pra cá
pelo curral da imaginação,
para que farfalhes tantos
charmes de odor capim.
deves dar com os pensamentos n’água…
ainda que penteies as idéias
conforme a ocasião:
burra te amo!
meu coração é um vasto pasto,
confesso que teu férreo passo
é minha sorte, meu talismã.
ainda mais que acertei no bicho
e na intenção,
nem vou contar-te,
vou contemplar-te com cangalhas,
luas-de-feno e buquês-de-alfafa
na melhor estrebaria da região.
vem cavalgar, no meu vasto…
vasto mundo…
deleitar esporas e chicotes sensuais
zuzurrando e empacando,
amor…

“SANDYNIGHT” poema de sérgio bitencourt

Champagne com cerejas e calma,
São um complemento
Para o alimento
Do corpo e da alma.

Além de que aos pouquinhos,
Você vai fazer biquinhos,
Que acolho com brilho nos olhos,
Pelo frescor que cura,
De tanto charme e doçura.

Ainda mais se toda esta beleza,
Se fizer acompanhada
Do Amor da Mulher Amada,
E da Música Francesa.

À SOMBRA DOS MURAIS EM FLOR poema de bárbara lia


(para Frida Kahlo)
 

(Cravos na pele
os seios
a coluna jônica
a pele tolteca
os pregos
os pregos
via-crucis
expiação)
Pinto em palavras
A tua dor.

Sonho teus sonhos.
Vivo os
 maremotos sutis.
As espinhosas horas
Que nos traz o amor.
Pinto girassóis de aço.
Espumas.
Estrelas.
Vou colorindo
Com vulcânicos
Abraços
A solene tela
(Riso-sol de meu Diego,
À sombra
Dos murais em flor)

A BURRA por carlos alberto pessoa (nêgo)

A constituição de 88 é moinstruosa no tamanho, na redação, na pretensão e na burrice. Feita nas coxas e pouco antes da queda da fraude socialista, ela acolheu todo o besteirol anti-64, pré-64, mais o besteirol gestado nas más cabeças sociais-democratas.

Um horror. Que teve como líder a “besta do Ulisses”, terceiro time à época anterior a 64. E que só veio à boca da cena por gravidade. Ulisses assessorado pelos bobocas esquerdistas tipo FHC, Covas e outros. Deu nesse cocô que aí está. Certo?

GREVE

Entre outras asneiras está o direito de greve amplo, geral e irrestrito. Inclusive pro funcionalismo público. É de uma estupidez sem tamanho essa permissão. Pela simples e boa razão seguinte: na greve da vida real quem se ferra é a empresa; na greve do serviço público quem se ferra é o distinto público, sacou? É por isso que não pode haver greve no serviço público, sacou? Porque não é greve, é chantagem! Os grevistas miram suas armas pras nossas cabeças. E o governo, claro, baixa as calças. Ok, empresa estatal é diferente. Desde que não esteja na linha de frente de uma atividade essencial ao País. Entre outras razões, essa é mais uma contra a concessão de monopólios à empresas públicas. O país pode virar refém de meia dúzia de chantagistas.

IDADE MÉDIA RENASCE por walmor marcellino

A seita dos templários renasce; agora, capeando Karl Marx, como farsa, ou, como Groucho Marx, uma comédia para quem à seriedade prefere o vaudeville. Não bastasse a depressão em que está mergulhada a esquerda desconexa ‑ que se agarra à burocracia oficial e, no mercado paralelo, à escrivania de uma “revolução ao tempo” ‑está na moda endiabrar Bush, Gordon, Merkel, Sarcozy e toyotistas asiáticos, juntando-se-lhes Uribe e Fernando-Henrique e aproveitar o hiato político nacional não para exigir a República e a democracia social mas para formar uma seita de idiotas que se identificam e comprazem na defesa do protelário Luiz Inácio Lula da Silva e suas políticas do capitalismo social. Quem os contestar passará ao índex do momento histórico ou empoado livro negro no “hagiológio da história”.Quanto mais exaltado pela bruxuleante luz socialista de Brasília e alteado na missão de salvar seu “Santo Sepulcro” da revolução política, social e cultural brasileira ‑ onde a revolução econômica (até a reforma real) foi inumada pelo reino das multinacionais e agronegócios “nacionais”, e onde pastejam os felizes mutuários do crédito e bolsistas avulsos, em seu esplendente brejo das almas ‑ os novos templários dividem os créditos de sua militância à esquerda, isto é, pelos lados das massas que fazem o IBOPE de São Sebastião, aquele que pereceu no combate aos hereges ocupantes das terras transmontanas.A nova ordem dos templários, formada pelo p(i)etismo de São João à base do Apocalipse, dirige sua fúria pentecostal e homicida para aqueles que sabem a que servem realmente essas cruzadas: Por trás do milenarismo exaltado da fé o pedágio do poder estratégico (prático e ideológico, claro!) e o tráfico de especiarias e mensalidades. Virou grife e paixão apostólica endiabrar os adversários e até os alheios à ordem desse satanismo; basta a dúvida que dirá a suspeita, quanto mais a certeza de que o bom povo está sendo enganado. À atoarda da horda se fundem os gritos dos templários: o Santo Sepulcro estará salvo da revolução dos hereges; até que se convertam todos ao rebanho do Senhor das Moscas. A miséria da política é a desesperança nacional (dos trabalhadores, bem entendido). 

IMIGRAÇÃO E TORTURA em PORTUGAL por luis carlos lopes

DEBATE ABERTO

O caso da jovem brasileira presa e torturada em Portugal é um dos fatos mais pavorosos da onda emigratória recente. Ana Virgínia é só uma entre muitos que buscam resolver seus problemas, buscando trabalho fora do Brasil. Não há registro de que tenha cometido qualquer crime e, mesmo que assim fosse, nada justificaria o tratamento que recebeu e vem recebendo.

Ana ainda está presa, já tentou o suicídio e sua situação ainda não foi resolvida. Este caso está fartamente documentado na Internet (*).
É bom lembrar, que o Brasil recebeu os portugueses por décadas. Eles imigraram para cá, ao longo do século XX e da crise social provocada pelo fascismo salazarista e suas guerras coloniais. Jamais um português foi expulso do Brasil por ser português, rico ou pobre. Encontraram por aqui uma nova pátria, sempre bem tratados, respeitados e amados como `patrícios´. A grande maioria veio para cá pobre e, não poucos, melhoraram de vida.
Alguns enriqueceram a custa do trabalho dos brasileiros, outros galgaram posições de classe média. Todos puderam viver por aqui e considerar a ex-colônia Brasil como um eldorado.É verdade que muitos deles sempre imaginaram os brasileiros como indolentes, `pretos´ e imprestáveis. Isto não os impediu de se misturarem, constituindo novas famílias inter-raciais com bastante ou algum sucesso vivencial.
O racismo e o conservadorismo político e social dos portugueses jamais lhes deram dores de cabeça. Os brasileiros, com a imensa tolerância que lhes caracterizam, passaram por cima e deixaram para lá. Por vezes, os xingavam de `galegos´, sabendo que isto era uma ofensa aos brios lusitanos. Reclamavam dos seus modos agressivos, principalmente com as mulheres, e de seus hábitos de asseio pessoal incompatíveis com os trópicos. Quase sempre, tudo isto não passava de galhofa. Raramente, superava o nível da agressão verbal, quase sempre em resposta e defesa.
Os brasileiros jamais boicotaram o comércio e outros negócios dos portugueses. Aceitaram candidamente que eles dominassem por muito tempo, em algumas cidades do país, principalmente nos setores alimentícios e imobiliários. Seus descendentes estão por aí. Continuam sendo comerciantes, rentistas, dentre outras atividades do velho capitalismo. Não foram molestados por décadas. Continuam vivendo por aqui, com seus descendentes, sem nenhum problema. Hoje, não mais atravessam o Atlântico para ficar.
Depois da Revolução dos Cravos (1974), Portugal percorreu a senda tortuosa que o transformou em um país `europeu´.
No Brasil, adora-se o progresso português. Muitos de nós vibraram com o 25 de abril. Ai!, como se quis, guiados por Chico Buarque, que o Brasil viesse a ser `um imenso Portugal´. Talvez, o poeta sensível, vendo o caso da Ana, que não é das loucas, reescrevesse o seu `fado tropical´. É uma pena que não se tenha, hoje, grandes mobilizações, que se viva em um momento de apatia e profundo individualismo.
Este caso é um exemplo dos desrespeitos aos direitos humanos que os brasileiros emigrados vêm sofrendo pelo mundo afora.
Cadê o Tribunal de Haia? Onde está a ONU? Quando vão parar estas novas formas de genocídio? Por que não se exige do governo português a imediata libertação, reparação econômica e repatriação de nossa compatriota?
Será que Salazar renasceu do monte de excrementos de sua história?
A PIDE foi refundada?
Quando os culpados serão de fato julgados?

USINA MOVIDA A ENERGIA SOLAR NA ESPANHA por editoria

Um projeto gigante, que gera tanto eletricidade quanto resultados positivos para o meio ambiente, foi inaugurado no sul da Espanha: a primeira usina do mundo movida inteiramente pela energia do Sol.
No meio do terreno árido da região, a usina se destaca pela magnitude e imponência. Do chão brotam os raios que convergem no topo da torre de 160 metros, mais alta que um prédio de 50 andares. É radiação solar em estado puro, concentrada em um único ponto.

Calor natural que aquece a água que corre para dentro da torre até virar vapor a 400ºC, para mover as turbinas que produzem energia elétrica sem poluir o meio ambiente.
Novecentos espelhos gigantes se movem lentamente como girassóis. Nem dá para perceber a mudança de posição, mas eles estão sempre alinhados com o Sol para refletir o máximo de luz, direto para a torre de captação. É a maior usina solar com produção de energia em escala comercial do mundo.
Daqui sai eletricidade para abastecer 180 mil casas, uma cidade do tamanho de Sevilha, que fica a 30km.A construção ocupa uma área do tamanho de 60 campos de futebol. E custou o equivalente a meio bilhão de reais. Cada centavo saiu da iniciativa privada, um consórcio de empresas espanholas que planeja recuperar o investimento em apenas dois anos.
“Trocamos o gás, o carvão e o petróleo pelo Sol, que brilha 240 dias por ano na região sul da Espanha. E é de graça”, diz o engenheiro responsável pela produção de energia.A segunda usina, ainda maior, já está em construção.
Outras sete completarão o projeto da plataforma solar de Sevilha até 2014. O plano é fornecer eletricidade para todo o sul da Espanha. E o melhor de tudo: evitar que sejam despejadas 600 mil toneladas de dióxido de carbono por ano na atmosfera.
“É um tecnologia que pode servir a sociedade, em qualquer parte do planeta”, diz o engenheiro. “Inclusive no nordeste do Brasil, onde o que não falta é Sol”.
Trata-se da fonte de energia mais antiga do mundo, mas ainda considerada por muita gente um negócio do futuro. Não na Espanha, onde já é, claramente, um sucesso.
fonte: ambiente brasil

SÉTIMO DIA SEM BIA por jb vidal

hoje faz sete dias que BIA DE LUNA entregou as moedas para o barqueiro e navega, com mar de almirante, em direção aquele lugar que todos sonhamos, de volta às origens.

nestes dias fui envolvido por um sentimento de perda e de saudades que jamais imaginei fosse senti-los em tal intensidade.

o blog, deixei à disposição da BIA, e parece-me, que soube usa-lo: 238 e-mails, até o momento, de amigos, poetas, conhecidos, desconhecidos, foram encaminhados para o site a partir da comunicação da sua viagem.

BIA amada, no silêncio, agora revelado.

bem que a BIA poderia ter sabido que tantas pessoas a amavam, ainda viva, pensei. mas, as gentes são assim, amam em silêncio, sentem vergonha (?) de dizer, a não ser bem baixinho, no ouvido e de preferência a sós, no quarto escuro.

passa a idéia de que o amor é perigoso, comprometedor, ofensivo para quem sente.

porque? só os ofendidos podem responder.

BIA não, sabia revelar a quem amava, o seu profundo amor, o seu carinho, para seus companheiros ou para seus amigos e amigas a qualquer hora ou momento, revelava quando sentia. lindo. não tinha medo nem vergonha de amar. por isso sentia com muita força. por isso seus poemas exprimem o que exprimem. por isso as cautelas para com BIA. medrosos, infantis. BIA jamais ofereceu risco a quem quer que fosse. com a palavra os seus companheiros.

mas, sua estampa se impunha, sua presença tornava insignificante o ambiente. BIA  forte. BIA meiga. BIA  doce. BIA  amarga.

BIAAAAAAAA, sua presença era um grito no infinito.

ah BIA como me arrependo de não ter dito, todos os dias, a você, que te amava (e amo), com o melhor do meu amor, aquele simples, do respeito, do amigo. medroso talvez.

hoje, infeliz, por não ter dito.

pois sofra, sofra jb, quem sabe poderás depurar-te e, assim, conhecer o amor em sua plenitude.

obrigado BIA pela lição. 

beijo e até, 

jb vidal

BÁRBARA LIA ESCREVE PARA BIA DE LUNA

Beatriz Hyuda de Luna Pedrosa – Bia de Luna, foi enterrada ontem. Bia lançou o livro Clivagens e a conhecia mais através dos outros poetas, nunca convivi com Bia. Quando os poetas se reuniam no Bife Sujo em uma época efervescente, que gerou uma coletânea de poesias com este título – Bife Sujo – com as poesias de todos que ali conviviam, eu estava apenas colocando os pés na margem do Lago da Poesia. Mas, sempre vi a Saldanha Marinho como um rio de carvão escuro onde a vida incendiava aqui e acolá em chispas que floresciam ao sopro da beleza, como florescem as brasas na lareira ao vento, como floresce o chão carvão. Ando pensando carvão, este que de tão escuro é azul. Lembro que era a cor dos cabelos de Bia. E ela incendiou brasas azuis na cidade morta. Na Saldanha Marinho, no Sal Grosso, estes lugares onde transitam os artistas, pessoas que vivem livre sem correntes. E a poesia que flanava nas mesas do Bife Sujo e, mais recentemente, no Palco do Kapelle transborda para calçadas tortas, de um tijolo escuro, um rio. Um rio chamado Tempo, uma casa chamada Terra. Ontem vi Mia Couto no Roda-Viva e pensei na poesia como esta coisa abensonhada. Quem viveu abensonhadamente, nem morre. Vi Bia de Luna uma vez, uma única vez, no Hermes Bar, nem faz muito tempo. Hoje li que ontem ela foi enterrada, que faleceu na madrugada do dia 13. Guardo um retrato dela, tecido por outros. Tem um texto do Raymundo Rolim que a evoca, e está no site Palavras, todas palavras… Bia foi uma das personagens da peça de Raymundo Rolim – Ópera da Cidade. A finitude é matéria pouca, a matéria é pouca, a alma sempre fica gravada, vai reascender vez por outra, um braseiro santo, vai brilhar nos corações de quem ela tocou quando soprar o vento da saudade.Todas palavras para Bia de Luna.

RENATO ENVIA FOTO PARA BIA DE LUNA

renato, irmão de BIA de LUNA, enviou esta foto como mais uma homenagem. se dizendo não ser poeta mas amante da fotografia, tenta exprimir desta forma, o sentimento que lhe toma conta. 

 

PARA VOCÊ AMIGO DA BIA DE LUNA o editor

como agradecimento do PALAVRAS, TODAS PALAVRAS às centenas de mensagens, que continuam chegando, de consternação pelo desaparecimento da nossa poeta e amiga BIA DE LUNA, o blog oferece o poema a seguir de VITOR HUGO: 

Desejo primeiro que você ame,
E que amando, também seja amado.
E que se não for, seja breve em esquecer.
E que esquecendo, não guarde mágoa.
Desejo, pois, que não seja assim,
Mas se for, saiba ser sem desesperar.
Desejo também que tenha amigos,
Que mesmo maus e inconseqüentes,
Sejam corajosos e fiéis,
E que pelo menos num deles
Você possa confiar sem duvidar.
E porque a vida é assim,
Desejo ainda que você tenha inimigos.
Nem muitos, nem poucos,
Mas na medida exata para que, algumas vezes,
Você se interpele a respeito
De suas próprias certezas.
E que entre eles, haja pelo menos um que seja justo,
Para que você não se sinta demasiado seguro.
Desejo depois que você seja útil,
Mas não insubstituível.
E que nos maus momentos,
Quando não restar mais nada,
Essa utilidade seja suficiente para manter você de pé.
Desejo ainda que você seja tolerante,
Não com os que erram pouco, porque isso é fácil,
Mas com os que erram muito e irremediavelmente,
E que fazendo bom uso dessa tolerância,
Você sirva de exemplo aos outros.
Desejo que você, sendo jovem,
Não amadureça depressa demais,
E que sendo maduro, não insista em rejuvenescer
E que sendo velho, não se dedique ao desespero.
Porque cada idade tem o seu prazer e a sua dor e
É preciso deixar que eles escorram por entre nós.
Desejo por sinal que você seja triste,
Não o ano todo, mas apenas um dia.
Mas que nesse dia descubra
Que o riso diário é bom,
O riso habitual é insosso e o riso constante é insano.
Desejo que você descubra ,
Com o máximo de urgência,
Acima e a respeito de tudo, que existem oprimidos,
Injustiçados e infelizes, e que estão à sua volta.
Desejo ainda que você afague um gato,
Alimente um cuco e ouça o joão-de-barro
Erguer triunfante o seu canto matinal
Porque, assim, você se sentirá bem por nada.
Desejo também que você plante uma semente,
Por mais minúscula que seja,
E acompanhe o seu crescimento,
Para que você saiba de quantas
Muitas vidas é feita uma árvore.
Desejo, outrossim, que você tenha dinheiro,
Porque é preciso ser prático.
E que pelo menos uma vez por ano
Coloque um pouco dele
Na sua frente e diga `Isso é meu`,
Só para que fique bem claro quem é o dono de quem.
Desejo também que nenhum de seus afetos morra,
Por ele e por você,
Mas que se morrer, você possa chorar
Sem se lamentar e sofrer sem se culpar.
Desejo por fim que você sendo homem,
Tenha uma boa mulher,
E que sendo mulher,
Tenha um bom homem
E que se amem hoje, amanhã e nos dias seguintes,
E quando estiverem exaustos e sorridentes,
Ainda haja amor para recomeçar.
E se tudo isso acontecer,
Não tenho mais nada a te desejar.

BIA DE LUNA E SEU “CLIVAGENS” POESIA QUE VENCE A MORTE por jairo pereira

…quando Clivagens saiu do forno, fiz (acho que a primeira resenha) sobre o livro. Sempre aceito, uma poética que se faz densa, e quando o poeta é alguém de quem você conhece o existencial (como no caso de Bia) desregrado. “Meus olhos são bordados/Por miçangas vidrilhos paetês/CRISTAIS./Não ouse um mau/Olhado.” A poeta amalgamou todas as emoções do ser que está condenado a ser livre e perde-se na noite da urbe. Amou, sonhou, descreu, litigou, contorceu-se como as linguagens, na forja do poema-vida. A vida não é limpa e cristalina. Por trás do olhar calado, contemplativo do poeta, se represam signos sujos, causticantes. A Bia de Luna, detinha esse represar de águas paradas, thurvas, pontuado por uma ametista ou outra. Nos porões da lira, des-enthusiasmada, a objetalidade, impregnada de Bia, sujeito que se atira de cabeça nos precipícios da des-razão, para haurir poesia da melhor qualidade. “E uma ametista se acrescenta/Incrustada entre meu olhar./Colorido/Calado/Horizontal”. A Bia de Luna, era a imagem (física) de sua própria poesia. Um artesanato de linguagens. Versos curtos, certeiros. Extremamente simbólica, mezzobarroca até na pegada, que servia apenas para dar uma aura sombria ao poema. Do seu perambular pela noite de Curitiba, em lunáticas aparições, a poeta angariou admiradores. Claro que o conteúdo denso de sua poesia, refletiu longe. Personalíssima no dizer, Bia de Luna, nunca relegou sua vida, pra fora do poema. Estava ali, irmanada com a palavra (vida) em toda vida que vivera intensamente. “Vai meu derradeiro sonho/De vida. Basta – agora aos/Ímpios um lugar frio e/Distante, onde tais almas/Algumas por vezes causticantes,/Que nos gelam o sangue tão/Quente e próspero.” Tudo era é causticante em Bia de Luna, os signos, a vida, as amizades, os amores, as urgências que nunca levavam a lugar seguro. Muitos comprimidos, muitas cápsulas e doses de uísque nessas noites frias e pressagiosas de Curitiba. Na noite as mesmas caras, os mesmos conflitos, as mesmas buscas e o assombro da poesia, ente brusco de vida-morte, perpassando as mesas. A poesia-mulher, femilúnica de Bia de Luna rompe qualquer convenção de linguagem e significação. É lânguida, sutil, laminar, como já disse anteriormente no texto crítico que escrevi sobre Clivagens. “Apague essa vela/Que você acendeu/Na minha sala de jantar/Me deixe no escuro/A ver estrelas/Ou um céu cinzento/Espocado de flores roxas”. O signo furioso, o signo-simples-palavra, arremete fazendo a mais bela poesia. Com a poeta, as coisas aconteciam assim, fortes, carregadas de roxos e cáusticos, reflexo de uma vida plena no poético. Certamente, a Bia de Luna deixou poemas, ou livros inéditos, e esses vão uma hora aparecer pra desafio dos críticos. Pelo visto, essa tarefa ficou para os próprios poetas, eis que os críticos de poesia, são espécie em extinção no país. Guardei a chave da porta./Antes, tranquei. Choveu limão/E orquídeas escorriam pelos/Meus seios febris. Lavei as/Mãos com sal./Não sou estátua./Sou sal. Bia de Luna e seu Clivagens, poesia que transcende a vida e a morte, e marca na sua lira eterna o roxo, o cáustico e o urgente.

BIA DE LUNA: A POETA DA LUA por rosana albuquerque

 

Com o falecimento da amiga e poeta BIA DE LUNA perdi uma referência na noite da cidade, pois sentirei uma imensa falta da sua presença exótica, feminina, insone, elegante e solitária. BIA era uma pessoa de bom caráter, muito intensa e verdadeira tanto na vida como em seus poemas. Gargalhava quando queria e se fechava como caramujo quando bem entendesse, sempre na sua.
A poesia da artista, é permeada de profundo lirismo, feitiço e doçura, assim como BIA. Seus poemas são viscerais, corrosivos, transbordam desassossego, abandono e perturbação; esfaqueando o olhar do leitor com toda a dor e o desespero que houver nesta vida. Seus livros Morfeu Gargalha e Clivagens são feitos de amor com desamor,  sangue  e lágrimas, carregados de escuridão e cheiram a inverno. Sendo BIA DE LUNA, a primeira poeta genuinamente PUNK curitibana. Muitas Saudades!

Em um poema dedicado a Bruno Vasconcelos, intitulado Palavras Cruzadas, incluso no livro Clivagens, BIA diz assim:

 

Palavras urgentes
Transbordando a urgência
De um mergulho
Da lucidez o transporte.
– Palavras que açoitaram até a
exaustão do momento.
despertando as extremidades e
aquecendo as eternidades
translúcidas.

Outra poesia,extraída do livro Clivagens:

É poesia russa a noite paulistana. Da garoa
faço flocos de vodka que me embebedam cada
poro. E assim justifico a covardia da minha
insônia.
Na avenida carótida desfilam palhaços monges
bruxas num samba enfeitiçado pela prece da
palhaçada cardíaca.
O sol espera ávido a hora de desnudar a
floresta e cerrar de vez os olhos em fresta.
Morfeu gargalha.

São Paulo -1.9.79

 

 

Obrigada pelo apoio à poeta BIA DE LUNA.
Abraços,

Rosana Cavalcanti de Albuquerque
Bibliotecária e
Feira do Poeta / Fundação Cultural de Curitiba

IRMÃO HOMENAGEIA BIA DE LUNA.

 

Caro Vidal,

fico feliz em saber que a Bia tinha amigos como você. Eu, o irmão de longe (moro fora de Ctba há mais de 30 anos), não vinha tendo muito contato direto com ela. Sou o Renato que aparece em algumas dedicatórias nos poemas de Clivagens.

Dei a ela, de Natal, a coletânea do Borges de poesias, ed bilíngue recém-publicada. Pelo que minha sobrinha que entregou o livro me disse, ela ficou muito feliz com o presente, o que me alegra, pelo menos nos últimos dias eu estive, de alguma forma, perto dela.

Eu tenho muitos negativos com fotos dela, desde 1974, quando comecei a fotografar mais seriamente (depois parei, recentemente voltei a fazê-lo). Vou ver se acho e depois passo para você, se houver interesse. Estou sem laboratório em casa agora, mas acho que você conseguiria alguém para fazer as fotos, não?

Meu e-mail está aí para contato.

Um abraço, Renato.

POETAS SE REUNEM PARA HOMENAGEAR BIA DE LUNA.

 
 BIA no habeas coppus em 31 de outubro de 1990 no lançamento da coletânea. foto de rosana albuquerque.
pois é, BIA faleceu no domingo (13/01/08) a tarde, segundo informações, e o sepultamento foi marcado para segunda feira as 11:00, como nenhum de seus amigos foi avisado, ninguém sabia, óbvio. eu fui avisado pela gazeta do povo as 9:50, por mera casualidade, pois não é meu costume ler o obituário, ali encontrei o nome dela. confirmei com o ewaldo, que estava em londrina, o nome completo e me dirigi para a capela 04 da luz. levei alguns minutos para me recuperar do choque emocional e passei a avisar, com alguma dificuldade, o máximo de amigos. mas, a esta altura já eram 10:40. a proximidade do sepultamento e o elemento surpresa dificultou o deslocamento do pessoal, poucos, que consegui avisar. estiveram presentes: elaine, que se encontrava próxima, mauro, que também estava nas redondezas e eu, graças à gazeta do povo. a poeta marize manoel, que chegou para o velório de uma outra amiga, tomou conhecimento, por meu intermédio e, também, foi despedir-se da amiga BIA. só. não por culpa de seus inúmeros amigos, mas pelo prazo curto para que a notícia se espalhasse até o sepultamento. diante deste fato, com muita tristeza e consternação, alguns amigos se reuniram no final da tarde e decidiram que irão convidar os demais amigos de BIA para homenageá-la em diversos lugares da cidade a serem definidos. estavam presentes, luis felipe leprevost, luis alceu (lulo), kambé, miranda, denise, alexandre frança, lurdes, marilda confortin e eu. ficou agendado para o dia 24/01 a primeira manifestação no hermes bar, a partir daí, serão programadas as demais. todos lá! nunca me imaginei escrevendo sobre tal fato.
jb vidal

POETAS FAZEM HONRAS À BIA DE LUNA

 

 

 O FIGURANTE SORRIDENTE

de altair de oliveira
 

Diante de Dante, Bia só me ria
Quando me via rir-lhe radiante
No mesmo instante, eu ressorindo lia
O riso lindo que Bia fazia…
De tão bonito inibia o Dante!
 
Eu no meu canto, Dante no seu canto
Cantava Bia que me via e ria
O riso dela, que era bela, ardia
Todos eternos céus de meus espantos
Pondo distantes os infernos de Dante.
 
E eu comedia o riso desmedido
Retribuído à Bia sorridente
Que prometendo o fogo dos amantes
Deixava Dante a cantar no seu canto
Enquanto eu, dissimulante,  ria
Desinibindo rios que me ardiam
Pra nos lançar num mar de fogo eterno
e por ao léu o belo céu de Dante.

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POR QUE MENTIAS? poema de álvares de azevedo

 

Por que mentias leviana e bela?
Se minha face pálida sentias
Queimada pela febre, e minha vida
Tu vias desmaiar, por que mentias?
Acordei da ilusão, a sós morrendo
Sinto na mocidade as agonias.
Por tua causa desespero e morro…
Leviana sem dó, por que mentias?
Sabe Deus se te amei! Sabem as noites
Essa dor que alentei, que tu nutrias!
Sabe esse pobre coração que treme
Que a esperança perdeu por que mentias!
Vê minha palidez- a febre lenta
Esse fogo das pálpebras sombrias…
Pousa a mão no meu peito!
Eu morro! Eu morro!
Leviana sem dó! por que mentias?

 

—————————————————–

 

SOLIDÃO poema de jb vidal
                   
                                                                                                                                                                              
                                  

andava por andar
não havia nada a dizer

as palavras agarravam-se aos meus cadarços
como se fosse o último a dar-lhes vida

os pensamentos voaram para longe,
atormentar outras mentes

a alma,
bem, a alma sofria  o compromisso com o corpo

o corpo,
ora o corpo,

retive um sorriso,
…e tudo era só

 

————————————————————–

O INCONFORMADO  de léo meimes

 

Que sou dentro desta
Prisão, se não o nu infame da
Carne sempre a definhar?

————————————————

 

 

SOLILÓQUIO DO CASTIGO poema de alexandre frança
 
A gelosia aprisiona os olhos
E a súplica da sacristia,
Prostrada ao pé do desavergonhado
Recebe um tchau sarcástico da morte.
 
Na lembrança moços de estampas florais
Escolhem quem deflorar
No peito o metrô vazio
Nas mamas bocas sujas a sugar seu leite
A noite, como sempre, reluta a cair hipnotizada
Pensa demais. Raciocina demais…
…até o cigarro pegar carona com a varejeira.
 
Na mesa a cruz,
A navalha,
O cinza-avermelhado que geralmente envolve este tipo de cena…
 
…e o preto dos olhos que novamente escolhe a vingança como remédio para dormir.

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CORPUS poema de joão batista do lago
 
 
A argila
Carne que perambula
Vermes – e alma –
Só tornará calma
Se argila tornar Ser
 
O barro não morre o corpo
Sedento de espírito vira anti-corpo!
 
E quando a morte se dera
Na alma do corpo que se fizera
Verás desta vida apenas quimera
 
Santificada seja a morte que me retorna à vida da terra!
 
Somente lá estarei concluído
Somente lá jamais serei vencido
Somente lá terei a paz sem guerra

POEMA de nelson padrella

   

Com a alegria que outrora possuia
    construí meu planeta. Pedra a pedra
    edifiquei o lar e os caminhos
    que levam ao lar.
    Respeitei as estradas das formigas
    e sobre riscos de água criei pontes.
    Abri a porta da casa para amigos
    e as janelas para que entrassem pássaros
    com seus vermelhos e gritos de alegria.
    E quando olhei pra mim eu era deus
    e gozava o recém criado paraíso.
    Ah! Quanta alma bela flutuava
    na vastidão do planeta que eu criara.

 

 

 

OS LOUCOS de mário quintana

 

“Nossa loucura é a mais sensata das emoções, tudo o que fazemos deixamos como exemplo para os que sonham um dia serem assim como nós:

Loucos, mas felizes!”

 

 

 

PASSAGENS  poema de luis felipe leprevost

 

confirmei que o barulho dói no slogan dos hospitais
onde se recuperam as balas doentes dos xerifes
e senti dores musculares como os papéis
que panfleteiros do centro
batem uns contra os outros de modo a imitar o inseto
zunindo nossa atenção de madrugada

eu pude percorrer as linhas da minha própria mão nos olhos
de Mãe Oriva de Oxossi, suas cartas e búzios distraídos
sem conseguir prever aquele tiro
e adivinhando o retorno da pessoa amada em três dias
quando não haveria o terceiro dia

eu ceguei para crer na chuva, ossos das nuvens
eu deitei no veneno como deitasse na cama do xerife
mas todos os jardins findaram
plantar e colher nuvens é o que me resta

e é tão difícil descrever uma presença
mesmo com lentes visionárias

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TARDE DEMAIS poema de jorge do irajá

velo esta tarde engomada
florida com tanto alinho
que parece que o homem
é o último dentro do inútil agora.

meu olhar vestido de terno
acompanha o cortejo
e tenta crer com respeito
no suspiro final da cidade.

o sol que eternamente enterro
na carne de minhas palavras
é o nosso morto presente

e feito fóssil fogo-fátuo.
sussurra baixinho meu epitáfio:
– tarde de mim, tarde de tudo, tarde demais.

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 POEMA de carolina correa

 

Deitada no sofá
Ela, e um mero copo de vinho.
O cheiro de cigarro
Ainda impregna sua camiseta.
Desilusão é sua cegueira
Asneiras sua surdez.
Cansada,
Cambaleia até sua cama
Lá, deposita suas forças.
Para sempre.
Fecha os olhos
E vê que foi tudo um lindo sonho.

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DOS IMBECIS COMO DONOS DO MUNDO  poema de jairo pereira

   os imbecis na midiosfera investidos de sóis

deuses da mediocridade os imbecis

os imbecis supremos

carnavalizam a vida como podem

enquanto trabalhamos sofremos pensamos

os imbecis resistem dionisíacos

a melhor porção da nathureza pra nós criada

aos imbecis se consagra como totem do supercapital

imbecis: os imbecis estão vencendo

já ganham nossos espaços bebem do melhor vinho

roubam nossas mulheres festejam

os imbecis do mundo inteiro estão vencendo

palavras cobertas de cal :augúrios de má-fé:

soberba nos atos perfídia no modus q. contemplam. 

POEMA de cora coralina 

 

Não te deixes destruir…
Ajuntando novas pedras
e construindo novos poemas.
Recria tua vida, sempre, sempre.
Remove pedras e planta roseiras e faz doces. Recomeça.
Faz de tua vida mesquinha
um poema.
E viverás no coração dos jovens
e na memória das gerações que hão de vir.
Esta fonte é para uso de todos os sedentos.
Toma a tua parte.
Vem a estas páginas
e não entraves seu uso
aos que têm sede.

POEMA de batista de pilar 

 

Inédito é o poema
Que a gente nunca
Escreveu
Aquele que passa
De relâmpago pelo sonho.
No acordar some
Como a cerração
Sobre a colina.
E vai construindo
Em nada
Aos poucos tornando-se
O reflexo de um raio de sol
Sobre a água cristalina.

BIA DE LUNA morreu

A ARTE PARANAENSE ESTÁ DE LUTO.
faleceu ontem, domingo 13 de janeiro de 2008, e
foi sepultada, hoje, as 11:00 no cemitério municipal
de curitiba a GRANDE e queridíssima poeta e
amiga BEATRIZ HYUDA de LUNA PEDROSA – BIA
DE LUNA autora do livro-sucesso CLIVAGENS.
todos os palavreiros da hora já sentem sua
ausência permanente.
boa viagem BIA.
até o nosso reencontro.

  

  

De tudo restou
Uma solidão amarga
E corrosiva. Poro a Poro.
-E é quando suor e lágrimas
Se encontram numa pororoca
Larga e amiga que
A saudade bate. Choro.
poema de bia de luna no livro CLIVAGENS.

PARA SABEREM QUE FALEI DAS FLORES por jb vidal

03h15min e uma coceira irrestível me acordou. estava localizada entre a coluna e a omoplata, localização difícil para um braço curto como o meu. alcancei-a com uma régua que estava na mesinha de cabeceira. alívio. nada melhor do que acabar com a coceira no momento em que ela está no auge. voltar a dormir. 03h40min ainda aguardava o retorno do sono quando me veio a idéia – salve as flores – o quê? o pensamento indagou, reposta do pensamento – salve as flores -; mente vazia ferramenta para o capeta, pensei. tentei novamente dormir, agora, fechando os olhos. –salve as flores – uhm? –salve as flores – salve as flores – salve as flores -!!!
irritadíssimo, levantei e fui ao banheiro, não havia nada a fazer ali; abri as portas que existem na cozinha, geladeira, armários enfim todas. nada. não queria nada. – salve as flores – salve as flores – a idéia martelava impiedosamente o cérebro em detrimento do tão esperado sono. arrastei-me pela área de circulação do apartamento como se carregasse uma tonelada nos ombros. cheguei na biblioteca e aboletei-me na cadeira da escrivaninha. e veio, veio como rajada de ciclone, devastadora, ocupando todos os espaços do combalido cérebro:

“ …maravilhosas, indescritivelmente divinas, ornamentos dos olimpos, cheias de energias que te transmitem descanso, paz interior, beleza no feio, calma na dor, lágrima na alegria, fragrâncias no lodo…assim são as flores! elas existem para isso e muito mais, para acolher nosso olhar ainda que cheio de ódios e amarguras, tristezas e frustrações e nos devolvem  todo o seu encanto de cores, formatos e brilhos que se fixam nas retinas como imagens  apacentadoras de nossa alma inquieta e sofrida. ah soubessem os homens a força tranquilizadora que elas dedicam a quem sabe observa-las, admira-las, senti-las…

ah se soubessem! curativos da alma é o que são.

companheiras de caminhada, solidárias aos penosos, alegria dos infantes, brincadeira dos namorados, símbolo dos amantes, carregam em si a nossa esperança que desconhecemos.

divinas.

vieram das estrelas para enfeitar nossa rude vida. para sorrirem de nosso orgulho e vaidades, e, ao nosso olhar, devolverem certeza de passos mais firmes e decididos.

ah estas flores, as flores do meu planeta, quantas transformações ao longo dos milênios para permanecerem ao nosso lado, ao alcance do nosso olhar, gerando imagens que nos levam para mais próximos do ser”. 

mas não ! isto não é verdade. isto é fantasia de poetas inúteis! 

que fez o homem? arrancou-as das florestas, dos matagais, dos caminhos que percorriam e as  aprisionaram em fazendas de cultivo, produção em série, com código de barras, fora do seu habitat natural  perderam o brilho, o perfume. quanto sofrimento para elas!

e para quê?

para vendê-las em mercados fedorentos, lojas de acrílico a milhares de idiotas que “faça o buquê mais lindo possível” porque ele vai terminar de matá-las num vazo de cristal na sala da residência de uma mulher que dentro em pouco as colocará no lixo!

flores para minha amada! nem sequer pensou em admirá-las antes do corte fatal da tesoura.

então… o amor leva à morte a beleza das flores? que triste constatação. 

mais, você as vê agonizando nos salões de festas, todos se divertem com os arranjos florais ao som das valsas e não percebem o sofrimento de quem lhes oferece beleza mesmo nos últimos momentos de vida.

muito triste seus destinos traçados pelo homem civilizado.

mais, não satisfeitos em  extingui-las nas festas, mandam mata-las para enfeitar, por poucas horas o túmulo de ente sepulto, querem demonstrar sua admiração pelo cadáver com os cadáveres florais.

oferecem a morte para a morte. incrível. 

recolho-me tomado de grande tristeza pela sina destruidora do homem.

a barbárie é agora.

CARTA À HUMANIDADE QUE VIRÁ por deborah O’lins de barros

Meu nome é Deborah. Embora de família cristã, eu e minhas irmãs (Rachel e Sarah) fomos batizadas com nomes judaicos, por opção de nossos pais. Antes de começar o relato propriamente dito, gostaria de deixar uma colocação às gerações vindouras (outros relatos de meus contemporâneos podem confirmar): viver na época em que vivo é muito chato. A a-prece-esperanca.jpgminha história é a micro-história da minha geração; minhas raízes nasceram, foram arrancadas, replantadas, arrancadas novamente e assim por diante.

Eu realmente espero que alguém leia isso em algum futuro, por que não me deparei, até agora, com nenhuma admoestação das gerações que tanto invejo. Todas as guerras, guerrilhas e conflitos do século XX, foram o estopim para a desestruturação política, social e moral desse novo século XXI. A cada dia eu fico com mais medo de presenciar o “admirável mundo novo”, previsto pelo escritor Aldous Huxley.

Bem, vamos por partes, vou tentar deixar vocês a par das coisas que acontecem nessa era pós-moderna de intolerância. Há uma metáfora que diz que se alguns jornais forem espremidos, escorrerá sangue por eles. Acreditem. Se eu juntar numa folha as centenas de acontecimentos que ocorreram a partir do ano em que nasci, 1983, e apertá-la, uma poça de sangue venoso se formará junto a meus pés. Mesmo assim, tenho orgulho de ter assistido ao vivo (embora pela literalmente globalizada tevê): a queda do Muro de Berlim, quando eu tinha seis anos; e o que me despertou para a política, os atentados de 11 de setembro de 2001, no World Trade Center.

Sabe o que me deixa mais irritada nesses “tempos modernos”? Parece que não aprendemos nada. Não aprendemos nada com os “erros” do passado, não aprendemos nada na escola. E o pior, ou irônico, é que as pessoas que menos sabem, parecem ser as mais felizes, pois não se preocupam. Como afirmou um personagem do filme que marcou a geração, Matrix, “a ignorância é maravilhosa”. Porém, certa vez eu escrevi num caixote, quando me mudei do Rio de Janeiro para Santa Catarina: se a ignorância é uma bênção, eu amo ser desgraçada. E quem opta pela busca do conhecimento se torna um desgraçado mesmo; somos angustiados, poucos, espelhados, impotentes. A grande massa que nos apoiaria numa revolução não pode perder o capítulo inédito da novela.

Não sou de esquerda. Nem de direita. Acho os que se dizem socialistas, piegas, utópicos; os capitalistas burgueses, ridículos; os que se dizem “centro”, hipócritas. Considero-me apenas uma sonhadora. Outra coisa interessante na minha geração é que somos um bando de indecisos. Não somos (mesmo que às vezes proclamemos) 100% nada. Combinamos camisa do Che Guevara com tênis All Star; somos católicos e acreditamos em encarnação; praticamos esportes e nos drogamos regularmente; somos mestiços, bissexuais e musicalmente ecléticos.

A música e arte, bem, em geral estão capengas. Na verdade, qualquer coisa (“coisa” mesmo) que for feita por algum famoso ou descendente (o sucesso não é mais mérito, ele é hereditário) e for bem divulgado, terá um bom retorno. Parece que estamos levando a sério aquela piadinha do Andy Warhol de fazer a “arte do comum”. E o pior, vende que nem água e custa os olhos da cara. Só um exemplo: os cantores mais populares do século XX, Frank Sinatra e Elvis Presley nunca cantaram nada de instrutivo ou interessante.

É isso. Eu, daqui do passado, espero ter cooperado em alguma coisa para o futuro, isso é, se ele houver; se não acabarem com o mundo antes. Espero que vocês, de fora do paradigma da minha geração, aprendam o que eu nunca aprenderei. Quanto a mim, vou continuar imaginando como seria bom se eu tivesse vivido na época, ou melhor, tivesse sido o Álvares de Azevedo, ou o Edgar Allan Poe, ou a George Sand, ou o Oscar Wilde…

MARQUÊS de SADE por editoria

marques-de-sade-011.jpgDonatien Alphonse François de Sade, mais conhecido como Marquês de Sade (Paris, 2 de junho de 1740; Saint-Maurice, 2 de dezembro de 1814) foi um aristocrata francês e escritor marcado pela pornografia violenta e pelo desprezo dos valores religiosos e morais. Muitas das suas obras foram escritas enquanto estava em um hospicio, encarcerado por causa de seus escritos e de seu comportamento. De seu nome surge o termo médico sadismo, que define a perversão sexual de ter prazer na dor física ou moral do parceiro ou parceiros. Foi perseguido tanto pela monarquia (Ancien Régime) como pelos revolucionários vitoriosos de 1789 e depois por Napoleão.
Além de escritor e dramaturgo, foi também filósofo de idéias originais, baseadas no materialismo do século das luzes e dos enciclopedistas. Era adepto do ateísmo e obcecado por fazer apologia do crime e afrontas à religião dominante. Em seu romance Os 120 Dias de Sodoma, por exemplo, nobres devassos abusam de crianças raptadas encerrados num castelo de luxo, num clima de crescente violência, com coprofagia, mutilações e assassinatos – verdadeiro mergulho nos infernos, sem nenhuma concessão ao bom-gosto. Esse romance foi produzido durante sua prisão, manuscrito em letras miúdas num rolo feito de papéis colados, e teve sugestões dadas pela mulher do marquês, Renné, que passou parte da vida defendendo o marido nos tribunais e só se separou dele quando o marquês foi libertado da cadeia, num breve intervalo de vida livre pós-Revolução Francesa.

CRONOLOGIA:

1740. Dia 02 de junho, nasce em Paris, Donatien-Alphonse-François de Sade, Marques de Sade. Dos quatro aos 10 anos, primeira infância no “Comtat-Venaissin”.
1750. Colégio “Loius-Le-Grand” e preceptor particular.
1754. Escola de cavalaria leve.
1755. Sub tenete no regimento de infantaria do Rei.
1757. Serve na “guerra dos Sete anos”.
1759. Capitão do regimento de infantaria da Bourgogne.
1763. Desmobilização. Casamento com Renée-Pélagie de Montreuil. Quinze dias de encarceramento na prisaõ de Vincennes, sob acusação de práticas libertinas agravadas por atos de blasfêmea.
1764. Recepção no parlamento da Bourgogne, nas funções de tenente geral das províncias de Bresse, Bugey, Valromey e Gex.
1765/66. Ligações públicas com atrizes e dançarinas.
1767. Morte do Conde de Sade, seu pai. Nascimento de seu primeiro filho.
1768. Processo Rose Keller em Arcueil. Quinze dias de detenção em Saumur e mais sete meses em Pierre-Encise, próximo a Lyon. Festas e bailes em seu castelo de “La Coste”, na região de Provence.
1769. Nascimento de seu segundo filho.
1771. Nascimento de sua filha.
1772. Processo a partir do caso das quatro jovens de Marseille. Condenação à morte à revelia. Fuga para a Itália, acompanhado de sua cunhada(?). Execução simbólica na cidade Aix-en-Provence, no dia 12 de setembro. Preso em Chambéry é transferido para Miolans na Savoie.
1773. Fuga de Miolans. A senhora de Montreuil, sua sogra, obtém ordens do Rei para prendê-lo e seqüestrar seus documentos e escritos. Sem resultados.
1774. Ele se esconde em seu castelo de “La Coste”.
1775. Processo a partir do caso das cinco jovens de Vienne e de Lyon. Nova fuga para a Italia, com estadias no seu castelo de “La Coste”.
1777. Morte da senhora Sade, sua mãe. Detido em Paris, é mantido prisioneiro em Vincennes.
1778. Anulação, na sua presença, do julgamento de Aix-en-Provence. Escapa e é detido em “La Coste” e reencarcerado em Vincennes.
1782. Conclusão do Dialogue entre un prêtre et un moribond.
1784. Transferido para a Bastilha.
1785. Redige a última versão da obra Cent vingt journées de Sodome.
1787. Redação de Contes et d’historiettes.
1788. Redação de Eugénie de Franval e do romance Infortunes de la vertu.
1789. Redige provavelmente a última versão da obra Aline et Valcour. Transferido às pressas para Charenton na noite de 03 para 04 de julho. Tomada da Bastilha e pilhagem de seus pertences e documentos.
1790. É libertado da prisão de Charenton. Estabelece relações com Marie-Constance Quesnet, que não o abandonará até a sua morte.
1791. Publicação (clandestina) de Justine, ou les malheurs de la vertu. Primeiro texto político. Primeira representação de Oxtiern.
1792. É nomeado membro da “section des Piques”. Textos políticos. Representação do Suborneur.
1793. Textos políticos. Nomeado jurado de acusação e em seguida presidente da “section de Piques”. Intensa atividade anti-religiosa. Detido.
1794. É conduzido à prisaõ “Carmes”, “Saint-Lazre” e finalmente à casa de saúde de “picpus”. Condenado à morte é após Thermidor posto em liberdade.
1795. Publicação-clandestina- da La philosophie dans le boudoir, e- oficial- de Aline et Valcour, ou le roman philosophique.
1796. Publicação(clandestina) do romance L’histoire de Juliete.
1799. Remontagem da peça teatral Oxtiern em Versailles onde Sade mora em condições de pobreza. Ele representa o papel de “Fabrice”.
1800. Publicação oficial da peça Oxtiern e dos Crimes de L’amour e publicação clandestina de La Nouvelle Justine.
1801. Detido e conduzido à prisão de Sainte-Pélagie” e posteriormente à “Bicêtre”, sob a acusação de ser o autor do romance L’histoire de Juliette. A edição de L’histoire de Juliette é recolhida.
1803. A família consegue a transferência de Sade para o hospício de Charenton. Lá ele organizará espetáculos.
1807. Redação da obra Journées de Florbelle. Os manuscritos são seqüestrados de seu quarto.
1813. Publicação oficial da obra La Marquise de Ganges.
1814. No dia 02 de dezembro, Sade morre no hospício de Charenton. 

 

DISCURSO conto de josé alexandre saraiva

Nos idos de 1970, fui convidado para assistir a memorável e merecida homenagem prestada pela municipalidade do Rio de Janeiro ao consagrado teatrólogo Olavo de Barros. Curitibano, nascido em 1892, em plena Rua XV, Olavo de Barros foi pioneiro do rádio-teatro, prestigiadíssimo no Brasil e no exterior, atuou na Europa e obtendo aplausos da crítica especializada. Escreveu oito livros e dirigiu as principais companhias teatrais de sua época. Conquistou o público e a crítica como autor, ator, galã, professor da arte cênica e mestre em prosódia.
Na ocasião, também recebia idêntica homenagem (título de cidadão carioca) um general da reserva, pelos relevantes serviços prestados à Nação. Foi o primeiro a falar. O esplendoroso Teatro Municipal estava lotado.
Às dezessete horas em ponto, nosso general inicia seu discurso —o mais longo e enfadonho que meus ouvidos, por força das circunstâncias, tiveram que suportar.
A atriz Henriquieta Brieba e o crítico de teatro Jota Efegê, convidados de honra pelos vínculos que mantinham com o homenageado civil, sentaram-se ao meu lado – ela à esquerda, ele à direita. A atriz Cordélia Ferreira, irmã de Olavo, também sentou-se na mesma fileira.
O general dispara o verbo, valorizando pausada e paulatinamente cada palavra. Mais ou menos assim (aqui, me permito o recurso da síntese e da imaginação para não repetir os mesmos enfados):
“Em 1914, cheguei a esta Cidade Maravilhosa em busca da sobrevivência. No Nordeste, deixei os folguedos da juventude e, já no primeiro semestre, alistei-me no exército, cumprindo meu sagrado dever cívico. No mesmo mês, consegui emprego numa fábrica de biscoitos.”
“No segundo semestre de 1914, concluí os estudos secundários, que antes havia interrompido por força maior.”
“Ainda no segundo semestre de 1914, comprei a prazo um dicionário, uma enciclopédia e uma coleção de obras literárias, incluindo uma biografia de Napoleão Bonaparte, para enriquecer meus parcos conhecimentos.”
“Corria o mês de janeiro de 1915 e numa noite de torrencial tempestade, relâmpagos e trovões…”
E assim foi indo o orador, em meio a flores, holofotes. Cada ano, cada estação, cada mês, cada dia, cada noite, cada alvorada, cada pôr-do-sol, cada pingo de chuva, cada estrela, cada marechal.
As horas não passavam… Henriquieta Brieba entrou em sono profundo. Jota Efegê, com aquele ar de tolerância por dever do ofício, fazia círculos silenciosos com os polegares em movimento, enquanto os demais dedos, rígidos, permaneciam contidos e entrelaçados, comprimindo a barriga.
O general seguia firme e determinado, dissecando as horas e os minutos constantes de sua rica e fantástica trajetória.
“Em 1926..”.
“Em 1927…”
“Em 1928…”
E os anos foram arrastando-se lentamente, sofridamente para “nosostros”. Lá pelas tantas, um súbito ruído de uma poltrona na fileira de trás fez Henriquieta despertar.
Atônita, ela se virou para mim, deu uma gostosa bocejada, encostou os dedos em meu ombro e perguntou:
— Meu filho, em que ano ele está?
— Em 1953, faltam 21 anos para 1974 – respondi.
— Obrigada — disse ela, acrescentando: quando ele chegar em março de 1964, por favor, me acorde. E voltou a dormir.

RETIFICAÇÃO e AGRADECIMENTO da editoria do blog

OBRIGADO LUCIANA ELLER!!

que possa este mundo virtual, sério e desonesto, ao mesmo tempo, contar com outros milhões de Lucianas atentas e sempre dispostas a corrigir injustiças, denunciar plágios, falcatruas e outras merdas que os frustrados, os picaretas, os covardes que se escondem no anonimato para expor as suas vísceras nojentas que ocupam seus cérebros raquíticos.
obrigado luciana.


jb vidal

Equipe palavreiros da hora


NOTA da EDITORIA:

este site (em outro host pois este teve inicio em 01/12/07) publicou em 06 de novembro o texto: CIRURGIA de LIPOASPIRAÇÃO? como sendo de autoria do sempre grandioso HERBERT VIANNA, que com certeza nem imagina o fato, enviado através de email por um leitor do blog, o qual já foi notificado do caso para suas considerações que esperamos sejam convincentes.
a “navegadora” luciane eller detectou a fraude e postou um comentário, no post, apontando a irregularidade e enviando por email o original de autoria de ROSANA HERMANN a quem solicitamos, de público, as suas desculpas. apesar de todo o rigor e atenção que tomamos com referência aos autores, na internet pode ocorrer tais fatos em razão das pessoas mal intecionadas que habitam o mundo virtual. segue o texto original constante do email de luciana eller:


Mais um da Rosana Hermann . Este texto foi roubado do blog da Rosana, adulterado e postado no orkut como se fosse de Herbert Vianna e ganhou o título “Vaidade” (leia mais aqui ). Aí vai a versão original:

“no trabalho e.. chocada”
Rosana Hermann

Cantor do LS Jack é internado em coma no Rio após lipoaspiração É possível isso? É admissível isso? Um rapaz de 27 anos ter uma parada cardíaca e entrar em coma após uma cirurgia de lipoaspiração?
Pelo amor de D’us, eu não quero usar nada nem ninguém, nem falar do que não sei, nem procurar culpados, nem acusar ou apontar pessoas, mas ninguém está percebendo que toda essa busca insana pela estética ideal é muito menos lipo-as e muito mais piração?
Uma coisa é saúde outra é obsessão.

O mundo pirou, enlouqueceu.
Hoje, D’us é a auto imagem.
Religião, é dieta.
Fé, só na estética.
Ritual é malhação.
Amor é cafona, sinceridade é careta, pudor é ridículo, sentimento é bobagem. Gordura é pecado mortal.
Ruga é contravenção.
Roubar pode, envelhecer, não.
Estria é caso de polícia.
Celulite é falta de educação.
Filho da puta bem sucedido é exemplo de sucesso.
A máxima moderna é uma só: pagando bem, que mal tem?

A sociedade consumidora, a que tem dinheiro, a que produz, não pensa em mais nada além da imagem, imagem, imagem.
Imagem, estética, medidas, beleza. Nada mais importa. Não importam os sentimentos, não importa a cultura, a sabedoria, o relacionamento, a amizade, a ajuda, nada mais importa. Não importa o outro, a humanidade, o coletivo.
Jovens não tem mais fé, nem idealismo, nem posição política.
Adultos perdem o senso em busca da juventude fabricada.
Ok, eu também quero me sentir bem, quero caber nas roupas, quero ficar legal, quero caminhar correr, viver muito, ter uma aparência legal mas… uma sociedade de adolescentes anoréxicas e bulímicas, de jovens lipoaspirados, turbinados, aos vinte anos não é natural. Não é, não pode ser.

D’us permita que ele volte do coma sem seqüelas.
Que as pessoas discutam o assunto. Que alguém acorde. Que o mundo mude. Que eu me acalme. Que o amor sobreviva.

PS – Desulpe o desabafo, o texto em um fôlego só. Mas sabe, isso é um blog.”

NOTA DO EDITOR: em 13/01/08 luciana eller envia este email para o blog:

Bom dia.Muito obrigada por sua nota de agradecimento, no entanto, creio que ela não seja justa.
Gostaria de pedir que a altere, se possível. Eu explico:
O texto que constava no e-mail que lhe enviei, conforme referência contida no mesmo, foi retirado do blog ” autordesconhecido.blogger.com.br“. É Vanessa Lampert, autora do blog e ávida pesquisadora,  que merece os créditos, por ter tido todo o trabalho, não só neste texto, como em inúmeros, como você pôde constatar no blog.

Gostaria que os créditos fossem dados a quem é de direito, visto que, do jeito que está atualmente, parece que a plagiadora sou eu, roubando textos alheios.

Repito: o trabalho de pesquisa que eu tive foi mínimo (Google e afins), se comparado ao da autora. Por favor, peço-lhe para corrigir esta injustiça. Eu creio na seriedade do seu blog e que, assim como você não quis cometer uma grande injustiça à verdadeira autora do texto em questão, eu não gostaria de fomentar mais uma.
Todos os créditos devem ir para o blog autordesconhecido.blogger.com.br, de autoria de Vanessa Lampert, não pra mim.
Desde já agradeço,
Luciana Eller
publicamos com grande prazer o seu email, e tenha certeza que o trabalho realizado pela vanessa lampert é de um valor inestimável para o mundo virtual, entretanto, quem acendeu a luz vermelha, aqui no site, foi você, por isso, reiteramos nossos agradecimentos.

jb vidal

EDITOR

CERVEJA COM SABOR DE CHIMARRÃO pela editoria

   ESTA MATÉRIA É DE UTILIDADE PÚBLICA!

                                                                

kit da cerveja de chimarrão tem copo em formato de cuia e suporte para copo em couro.

 

EMPRESÁRIO GAÚCHO CRIA CERVEJA COM SABOR DE CHIMARRÃO 

Uma das maiores tradições gaúchas, o hábito de tomar chimarrão, foi parar dentro de uma garrafa de cerveja, ou melhor, virou cerveja com sabor de chimarrão. A criação é do empresário gaúcho Eduardo Bier Corrêa, de 42 anos, que lançou a bebida em dezembro do ano passado no Rio Grande do Sul.

 

Segundo o empresário, a DaDo Bier Ilex é a primeira cerveja no Brasil produzida com erva-mate (Ilex paraguariensis). A bebida ainda traz ingredientes como lúpulo, água mineral e um blend de maltes importados. “A cerveja é diferenciada, de baixa fermentação, tem alto teor alcoólico e a coloração esverdeada”, disse.Corrêa levou a idéia de produzir a cerveja usando erva-mate para o mestre-cervejeiro Carlos Bolzan. “Foi um trabalho desenvolvido durante um ano e meio. A erva-mate tem algumas semelhanças com o lúpulo, como o amargor e o sabor semelhante ao da cerveja. Apesar disso, os dois ingredientes são completamente diferentes do ponto de vista químico.

Mesa de bar

O projeto da cerveja começou depois de uma conversa com outro amigo cervejeiro, Marcelo Carneiro, em 2006. Ele me confidenciou que tinha vontade de fazer uma cerveja com erva-mate. Eu disse que a história poderia ser interessante e maturei a idéia”, disse Corrêa.Segundo ele, um dos problemas para se chegar ao resultado final da cerveja Ilex foi a falta de referência para testes. “Não tínhamos como comparar os resultados das análises com as amostras feitas com cerveja de lúpulo. Foi uma mistura complexa. Fizemos alguns testes experimentais em restaurantes no Rio Grande do Sul e percebemos uma boa receptividade do consumidor.”

Slogan

A campanha publicitária destinada ao público gaúcho faz alusão à cultura gaúcha. Em um dos outdoors, a mensagem é a seguinte: “Se beber, não galope”. “A receptividade foi impressionante. Inicialmente chegamos a ter receio dos gaúchos mais tradicionalistas, pois mexemos com um dos maiores ícones da região, que é o chimarrão. Foi tudo fascinante”, disse Corrêa. Em outro trabalho de divulgação, aparece a seguinte mensagem: “Mais gaúcha que isso, só se viesse em garrafa térmica”.

Produção

A DaDo Bier Ilex foi colocada no mercado nacional em garrafas de long neck e em um kit com copo em forma de cuia e um suporte para copos feito de couro. “Produzimos oito lotes de três mil litros cada, de dezembro para cá. Isso nos permite fazer 2,5 mil caixas com 24 garrafas long neck”, disse o empresário.O foco da produção é o público nacional, mas a cerveja Ilex foi lançada preliminarmente no Rio Grande do Sul. “Já estamos levando o produto para São Paulo. Também queremos atingir o consumidor da Argentina e Uruguai.”

divulgação: eduardo carneiro

 

DESABAFO por “comentário anônimo”

“pelo ritmo em que estão surgindo e fechando pra balanço essa infinidade de supostos sites e blogs literários, será que o que está faltando não é um pouco mais de humildade e semancol e menos pretensão aos candidatos a escritor? Eles têm certeza de que tem alguma coisa de relevante a dizer? Não tenho visto relevancia nenhuma na maioria desses escritos. Que tal viver e ler mais antes de se meter a encher páginas e páginas de coisas nenhuma? Poesia? juntar palavras a esmo não é poesia…”

comentário feito no site ALGARAVÁRIA que está dando um tempo. dá o que pensar.

O NOVO ACORDO poema de remisson aniceto

Uma longa viagem me inspira,
porquanto enjoado e absorto
é quando a palavra transpira.
Tomei um avião para o Porto.

Essa história de uniforme
que tentam vestir na grafia
vai deixá-la mais disforme
pra quem – leigo – escrevia.

Do soneto não me enjôo
e a mudança deu-me a idéia
de escrevê-lo em pleno vôo.

Amanha, em outro voo,
talvez tenha outra ideia
quando tiver outro enjoo.
                               

SOU POETA poema de ítalo agra de oliveira silva*

Como um músico tocando sem retorno
Hesitando que o tempo se disperse
Um pintor distraído que esquece
Dos pormenores contornos,
De suas idéias iludíveis
Nos símbolos incompreensíveis
Que para muitos são meros adornos.

Sou poeta…
Que escreve, mas receia
Pois espera a grande ceia
No porvir que ser arvora
E enquanto a alma não chora
Cumpro vícios e caprichos
Nos pequenos interstícios
Que a intransigência devora.
 

o autor vive em gameleira/pe

DIÁLOGO em NOITE FRUSTRADA por alexandre frança

Ela diz – eu sou um redemoinho de sentimentos e sensações, uma alma pronta para alçar vôos cada vez mais profundos por entre os galhos rotos que a vida nos impõe, pois esta é a minha vida, um rio transbordando e transbordando e transbordando um céu de sentimentos múltiplos, de cores nunca antes vistas queimando o que é diáfano e lacrimoso.

Eu digo – você está carente.

Ela diz – você nunca vai entender o que se passa nesta alma-fênix de mulher rasgada pelas artimanhas ferinas da vida, já que esta sua forma machista de impor a sua opinião será sempre uma barreira entre esta represa tórrida de sentimentos, que sou eu, e esta sua mania irritante e reducionista de limitar todo e qualquer assunto que diga respeito a mim.

Eu digo – você está carente.

Ela diz chorando – você nunca vai me entender. você com este seu ar de pseudo-intelectual, com este cigarro entre os dedos, com este brilho irritante no olhar. sabe o que mais, você é um bêbado, eu nunca deveria ter me envolvido com um tipo escroto como você, já que você, com esta sua enpafiazinha de moleque, nunca irá entender uma mulher de verdade, uma pantera desvairada no cio dos mais puros e impuros sentimentos, uma estrela cadente do eterno brilho da sexualidade feminina de uma fera em extinção

Eu digo – você já não está falando coisa com coisa

Ela diz – e o que você entende disso, seu merda?

Eu digo – me dá um abraço?

O ASSASSINATO de BENAZIR BHUTTO por tariq ali

benazir-bhutto-foto_mat_20993.jpgDomínio militar é tragédia paquistanesa

É difícil imaginar que algo de bom possa surgir dessa tragédia, mas existe uma possibilidade. O Paquistão precisa desesperadamente de um partido político que fale em nome das necessidades sociais da maioria de seu povo. A análise é de Tariq Ali.

Mesmo aqueles dentre nós que criticavam severamente o comportamento de Benazir Bhutto e as políticas que ela adotou quando estava no poder e depois de perdê-lo se sentem atônitos e enraivecidos diante de sua morte. Indignação e medo tomam o país uma vez mais. Foi essa estranha coexistência entre despotismo militar e anarquia que gerou as condições que resultaram no assassinato de Benazir.No passado, o governo militar tinha por objetivo preservar a ordem. Mas isso deixou de ser verdade. Hoje, o domínio militar cria desordem e destrói o domínio da lei. Que outra explicação poderíamos encontrar para a demissão do presidente e de oito outros juízes da Suprema Corte paquistanesa por terem tentado sujeitar a polícia e os serviços de informações aos ditames da lei? Os substitutos não têm firmeza moral para tomar providência alguma, quanto mais conduzir a investigação sobre os delitos das agências, a fim de encorajar a revelação da verdade por trás do assassinato cuidadosamente organizado de uma importante líder política.De que maneira o Paquistão seria outra coisa que não uma conflagração de desespero hoje? Presume-se que os assassinos sejam jihadistas fanáticos. Pode ser verdade, mas agiram por conta própria?

EUA e coragem
Benazir, segundo fontes próximas a ela, sentiu-se tentada a boicotar as falsas eleições, mas não teve coragem política de desafiar Washington. Tinha muita coragem física, e recusava-se a ceder às ameaças de seus oponentes locais. Bhutto estava discursando em um ato em Liaquat Bagh. É um espaço batizado em homenagem ao premiê que formou o primeiro governo paquistanês, Liaquat Ali Khan, assassinado por um atirador em 1953. O matador foi imediatamente abatido a tiros por ordem de um policial envolvido no complô.

Não muito longe dali, existia uma estrutura da era colonial que servia de prisão aos militantes nacionalistas. Era a prisão de Rawalpindi, o local em que Zulfikar Ali Bhutto, pai de Benazir, foi executado em 1979.

O tirano militar responsável por seu assassinato fez desaparecer o lugar da execução. A morte de Zukfikar Bhutto envenenou o relacionamento entre o seu Partido do Povo do Paquistão e o Exército; ativistas do partido foram torturados, humilhados e, ocasionalmente, mortos.

A turbulenta história do Paquistão, como resultado de contínuo domínio militar e de alianças internacionais impopulares, agora apresenta sérias escolhas à elite governante, que parece não ter qualquer objetivo positivo. A maioria esmagadora do país desaprova a política externa. O povo também se sente irritado pela falta de uma política doméstica séria, se excetuarmos os esforços para enriquecer ainda mais uma elite insensível, cujas fileiras incluem as Forças Armadas, superdimensionadas e parasitárias -as mesmas que assistem, impotentes, ao assassinato de líderes políticos.

Benazir foi atingida por tiros e logo houve uma explosão. Os assassinos garantiram duplamente a operação, dessa vez. Queriam-na morta. Agora, é impossível a realização de uma eleição, ainda que fraudulenta. O pleito terá de ser adiado e as Forças Armadas estão contemplando a imposição de um novo período de domínio militar direto caso a situação se agrave, o que pode facilmente ocorrer.

O assassinato representa uma tragédia multidimensional em um país que está na estrada para novas tragédias. Há despenhadeiros e cataratas à frente. E há a tragédia pessoal. A família Bhutto perdeu mais um membro. Pai, dois filhos e agora a filha.

Morte do pai
Fui apresentado a Benazir na casa de seu pai, em Karachi, quando ela era uma adolescente que só queria se divertir, e voltei a encontrá-la mais tarde, em Oxford. A política não era sua inclinação natural, e ela desejava ser diplomata, mas a história e suas tragédias pessoais a conduziram em outra direção. A morte de seu pai a transformou. Ela tornou-se uma pessoa nova, determinada a enfrentar o ditador militar daquela era.

Estava instalada em um pequeno apartamento em Londres, no qual discutíamos o futuro do país. Ela concordava quanto à necessidade de uma reforma agrária, grandes programas educativos e uma política externa independente, como passos cruciais para salvar o país dos abutres que estavam à espreita, com ou sem uniforme. Sua base eleitoral eram os pobres, e ela se orgulhava disso. Mas Benazir mudou de novo, ao se tornar primeira-ministra.

No início de seu governo costumávamos discutir, e ela dizia que o mundo havia mudado. Ela não podia se colocar ”do lado errado” da história. E, como outros, fez as pazes com Washington. Foi isso que a levou, por fim, a fechar um acordo com Musharraf e voltar ao país. Em diversas ocasiões ela me disse que não temia a morte. Era um dos perigos inerentes da vida política paquistanesa.

É difícil imaginar que algo de bom possa surgir dessa tragédia, mas existe uma possibilidade. O Paquistão precisa desesperadamente de um partido político que fale em nome das necessidades sociais da maioria de seu povo. O Partido do Povo, fundado por Zulfikar Ali Bhutto, foi criado pelos ativistas do único movimento popular de massa que o país já viu: estudantes, camponeses e trabalhadores que lutaram durante três meses, em1968/9, pela derrubada do primeiro ditador militar do país. Os militantes consideravam a organização como o seu partido, e o sentimento persiste ainda hoje em determinadas áreas do país.

A morte horrível de Benazir deveria fazer com que seus colegas parem e reflitam. Depender de uma pessoa ou família talvez seja ocasionalmente necessário, mas isso representa uma fraqueza estrutural, e não uma vantagem para uma organização política.

O Partido do Povo precisa ser recriado como organização moderna e democrática, aberta ao debate e discussão honestos, defendendo os direitos sociais e humanos, por meio da união dos muitos grupos e indivíduos paquistaneses dispersos que estão desesperados por qualquer opção de governo minimamente decente e que apresente propostas concretas para estabilizar o Afeganistão, ocupado e dilacerado pela guerra. Isso pode e deve ser feito. Não deveríamos solicitar novos sacrifícios à família Bhutto.

* Escritor, historiador anglo-paquistanês e editor da revista New Left Review

agência Carta Maior.

A VILÃ HIPERATIVIDADE por paula lameu

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foto de hélio rocha/br

Carlinhos é hiperativo. A todo momento sua atenção é chamada pelas mais simples coisas: o fechar de porta, o cair do lápis, o cantar do passarinho, o ponteiro do relógio. “Tiiiiiiaaaaaaaa!”. Sempre me chama para mostrar alguma coisa super interessante. Vejo nos seus olhos a indignação por eu não dar a mesma importância. “Me desculpe, mas você pensa muito rápido!”. Desculpo-me sorrindo e confortando-o. Na verdade, gostaria que pintasse o desenho e ficasse sentado como os outros. Mas que chatisse! Nem eu gosto de pintar desenhos. Que besteira a minha.

Carlinhos gosta de desafios. Em seu período pré-silábico, fiz um ditado com ele, em português, inglês e espanhol. A cada escrita, berrava de satisfação. “Coche, termina com E!” E escrevia com um sorrisão de orelha à orelha.

Suas bochechas rosadas pedem muitos beijos todas as vezes que o vejo no recreio. Na escola é feliz: brinca, ri porque é respeitado.

Sua hiperatividade foi diagnosticada com menos de um ano de vida, pois era “esperto demais para a idade”. Foi quando o pesadelo começou. Dois, três dias sem dormir, só querendo brincar. Pais estressados, avós que não queriam ouvir falar. Até que chegaram os “roxos”. Mas não faz mal, porque era para ele deixar tudo sair pela janela que amanhã seria outro dia…

Mas e a medicação? As doses são dadas de acordo com o comportamento do menino, chegando a ficar dias sem tomar, se foi “mau”. Daí começamos novamente desde o início, surto após surto. Quantos Carlinhos não existem por aí em salas de 40 alunos? Seu QI está bem acima da média, só precisa de um educador que antes de tudo o ame como ele é, para depois orientá-lo nas descobertas do aprender.

NAZISMO BÍBLICO ou ARIANO? por walmor marcellino

Acusam-me de não facilitar a leitura quando o assunto é de alta complexidade; e eu reconheço minha máxima culpa, porém afirmo que os temas são complexos e/ou inextricáveis aos conhecimentos de um desvalido e entediado. Como vocês sabem, a “civilização ocidental-cristã” — abichornada pelo remorso do que o capitalismo imperialista alemão fez na Segunda Guerra Mundial contra comunistas, eslavos, judeus, ciganos, deficientes físicos e mentais, homossexuais e enfim contra os “não-heróicos arianos” e os supostos “traidores” e “algozes” dos alemães na Primeira Guerra Mundial… — bem, um bonachão grupo “democrático” hecatômbico ou holocaustiano deu de presente para uma organização sionista a Palestina. Creio ser esse um final “grotesco” É difícil escrever brevemente sobre tal assunto, embora seja obrigação diária desasnar o gentio sobre a origem do que vai pelo conluio imperial-colonialista Estados Unidos-Grã Bretanha-Israel. Pensar cansa quem como eu não é bem formado (no sentido mental). Daí dou sumário exemplo de uma tentativa de síntese: O nazismo “é um movimento chauvinista [nacionalista exacerbado] de direita, alemão [ou judeu-sionista], nos moldes do fascismo italiano [ou do Partido Likud, apoiado no agressivo e criminoso rabinato de Israel], imperialista [ou da “Eretz” ou “Grande Israel”], belicista [como o colonialismo imperialista de Israel] e cuja doutrina consiste numa mistura de dogmas [como no “Mein Khampf” de Adolf Hitler e nos “tributos” ao Talmude e/ou mandamentos da Torá] e preconceitos [de “povo eleito”, semita, “destinado” às terras que vão do Eufrates ao Nilo, e com predestinação divina ao poder, desde sempre, até antes que Zoroastro inventasse essa fundamentação mística judaico-cristã] a respeito da pretensa superioridade da raça “ariana” [a) invenção paranóica oriunda da etimologia sânscrita “nobre”;b) consta que os árias, esse belo povo da Ásia Central, teriam migrado para a Índia; porém o imbecil do Hitler os relacionou com os nórdicos;c) conforme outro tipo de cretinismo (o arianismo), Jesus Cristo seria uma criatura de natureza intermediária entre a divindade e a humanidade… ufa!]; existência a que se atribuem os nazistas [e os sionistas]…”, cf. registra o dicionário Aurélio e acentuam os parênteses meus.O rebanho político judeu afirma que sua “diáspora” lhe deu os direitos transcendentes à terra palestina [com ou] sem a concordância dos ancestrais moradores palestinos. Também Adolph Hitler afirmava ter direito à expansão territorial [com ou] sem concordância dos austríacos, poloneses, tchecos e periecos.Esses fanáticos judeus falam de um conchavo entre o Ente Superior e o povo semita, mesmo que a ciência diga que eles não passam de filhos da negra Lucy, como nós. Já o ex-cabo Shickelgruber, alcunhado Adolf Hitler, prendeu, seqüestrou, concentrou e torturou todos os que considerava inimigos, especialmente comunistas, eslavos e judeus; os judeus porque ‑ ao contrário do que afirmava Max Weber em “o espírito do capitalismo”‑ teriam sido eles “e sua cobiça” e não os protestantes e a seita calvinista em especial que desenvolveram o capital e a usura. E se Hitler teve uma pré-ciência de que o precípite capitalismo desata coisas incontroláveis, não poderia imaginar que os sion-nacionalistas, alentados pela “Lebensraun” tardia, iriam mais tarde prender, seqüestrar, concentrar, torturar e matar semitas, jafetitas e camitas que se opusessem à Grande Israel. Pelo menos, hoje sabemos que o rabinato fascista e o militarismo colonialista, associados à matriz imperialista, é que dirigem a “democracia judaica” no Oriente Médio. Pra cientista nenhum botar defeito.Curitiba, 2/12/2007