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“PENSAR É TRANSGREDIR” por mari palmieri

 

“Pensar é transgredir”…sim…realmente! Me lembro que fiquei totalmente maluca quando li este livro da Lya Luft há alguns anos. Existem alguns livros que realmente nos marcam profundamente, e este certamente foi um deles… 

Neste mundo de bundas, BBB, superficialidade, consumo predatório, individualismo, etc, etc, pensar parece um ultrage, algo para o “freaks”, chato e fora da moda…rs 

Pensar pode mesmo ser um peso muitas vezes, principalmente pq começamos a observar e enxergar um mundo em que dá mesmo vontade de ser alienado…

Deve ser mais leve só se preocupar com a balada do dia, ou com o engov de amanhã, quantas (os) pensar-e-transgredir-cultura10eu “peguei” e quanto bebi. Quem foi para o “paredão” do Big Brother ou a última fofoca do escritório. De quem eu vou “tirar vantagem” hoje e qual vai ser a minha mais nova aquisição para “parecer” cool… Posso estar na merda, mas compro um estilo, uma ilusão, afinal a sensação de pertencer a este mundo, de “ser”alguém é extasiante.

E nesse contexto, formam-se os modelos em que deve ter essa atitude, estudar aquilo, almejar ser gerente, ter uma carreira perfeita à la Você S.A.,etc etc, mesmo que isso te foda. Será que as pessoas não percebem que não existem fórmulas mágicas e  how-to guides? Executivos precisam ter infartes aos 40 anos para perceberem que não vale a pena trabalhar 14 horas por dia e ferrar sua vida??

Bom, mas tmb temos um lado que vale a pena…nem tudo é ruim, mas como no filme “O dia em que a Terra parou” ainda somos muito muito imaturos e aprendemos batendo as nossas cabeças ou às vezes nem assim… Ainda somos crianças nesse caminho de evolução…

Agora que já saí totalmente sa linha que queria seguir, tento voltar para Lya Luft…. Segue um trecho especial do livro:

Não lembro em que momento percebi que viver deveria ser uma permanente reinvenção de nós mesmos – para não morrermos soterrados na poeira da banalidade embora pareça que ainda estamos vivos.
Mas compreendi, num lampejo: então é isso, então é assim. Apesar dos medos, convém não ser demais fútil nem demais acomodada. Algumas vezes é preciso pegar o touro pelos chifres, mergulhar para depois ver o que acontece: porque a vida não tem de ser sorvida como uma taça que se esvazia, mas como o jarro que se renova a cada gole bebido.
Para reinventar-se é preciso pensar: isso aprendi muito cedo.
Apalpar, no nevoeiro de quem somos, algo que pareça uma essência: isso, mais ou menos, sou eu. Isso é o que eu queria ser, acredito ser, quero me tornar ou já fui. Muita inquietação por baixo das águas do cotidiano. Mais cômodo seria ficar com o travesseiro sobre a cabeça e adotar o lema reconfortante: “Parar pra pensar, nem pensar!”
O problema é que quando menos se espera ele chega, o sorrateiro pensamento que nos faz parar. Pode ser no meio do shopping, no trânsito, na frente da tevê ou do computador. Simplesmente escovando os dentes. Ou na hora da droga, do sexo sem afeto, do desafeto, do rancor, da lamúria, da hesitação e da resignação.
Sem ter programado, a gente pára pra pensar.
Pode ser um susto: como espiar de um berçário confortável para um corredor com mil possibilidades. Cada porta, uma escolha. Muitas vão se abrir para um nada ou para algum absurdo. Outras, para um jardim de promessas. Alguma, para a noite além da cerca. Hora de tirar os disfarces, aposentar as máscaras e reavaliar: reavaliar-se.
Pensar pede audácia, pois refletir é transgredir a ordem do superficial que nos pressiona tanto.
Somos demasiado frívolos: buscamos o atordoamento das mil distrações, corremos de um lado a outro achando que somos grandes cumpridores de tarefas. Quando o primeiro dever seria de vez em quando parar e analisar: quem a gente é, o que fazemos com a nossa vida, o tempo, os amores. E com as obrigações também, é claro, pois não temos sempre cinco anos de idade, quando a prioridade absoluta é dormir abraçado no urso de pelúcia e prosseguir, no sono, o sonho que afinal nessa idade ainda é a vida.
Mas pensar não é apenas a ameaça de enfrentar a alma no espelho: é sair para as varandas de si mesmo e olhar em torno, e quem sabe finalmente respirar.
Compreender: somos inquilinos de algo bem maior do que o nosso pequeno segredo individual. É o poderoso ciclo da existência. Nele todos os desastres e toda a beleza têm significado como fases de um processo.
Se nos escondermos num canto escuro abafando nossos questionamentos, não escutaremos o rumor do vento nas árvores do mundo. Nem compreenderemos que o prato das inevitáveis perdas pode pesar menos do que o dos possíveis ganhos.
Os ganhos ou os danos dependem da perspectiva e possibilidades de quem vai tecendo a sua história. O mundo em si não tem sentido sem o nosso olhar que lhe atribui identidade, sem o nosso pensamento que lhe confere alguma ordem.
Viver, como talvez morrer, é recriar-se: a vida não está aí apenas para ser suportada nem vivida, mas elaborada. Eventualmente reprogramada. Conscientemente executada. Muitas vezes, ousada.
Parece fácil: “escrever a respeito das coisas é fácil”, já me disseram. Eu sei. Mas não é preciso realizar nada de espetacular, nem desejar nada excepcional. Não é preciso nem mesmo ser brilhante, importante, admirado.
Para viver de verdade, pensando e repensando a existência, para que ela valha a pena, é preciso ser amado; e amar; e amar-se. Ter esperança; qualquer esperança.
Questionar o que nos é imposto, sem rebeldias insensatas mas sem demasiada sensatez. Saborear o bom, mas aqui e ali enfrentar o ruim. Suportar sem se submeter, aceitar sem se humilhar, entregar-se sem renunciar a si mesmo e à possível dignidade.
Sonhar, porque se desistimos disso apaga-se a última claridade e nada mais valerá a pena. Escapar, na liberdade do pensamento, desse espírito de manada que trabalha obstinadamente para nos enquadrar, seja lá no que for.
E que o mínimo que a gente faça seja, a cada momento, o melhor que afinal se conseguiu fazer.

Lya Luft
Fonte do texto (ver site)

Este texto é ótimo, e digo o que gosto dele: é verdadeiro, profundo e nos provoca inquietação. Já falei de não gosto de pessoas que tem muitas certezas? Gosto mesmo da dúvida, daqueles que questionam e se questionam, daqueles que pensam e procuram enxergar até as mesmas coisas sob outras perspectivas. Tentam sair da caixa, mesmo que saibam que ainda estarão “lendo”o mundo através de suas próprias lentes. E que admitem que, por mais que estejam certos de algo, no próximo instante tudo pode mudar… Não existe verdade absoluta…