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JOSÉ SARAMAGO pelo olhar do poeta brasileiro C. RONALD /santa catarina

ARREMATE

Ninguém Saramago, inventa Deus para sua miséria; você teve pai e mãe, você não se inventou. Seus livros embalam o erro, a inocência e também o pecado.

Constância e tumulto sem quebra de visão na árvore, a figura humana é transferida, a morte é só ressonância. O desconhecido não deve ser impresso na presa, o medo mede todo o discurso do pavor, a eternidade passa além se a perdemos de vista. Se o homem inventou Deus, como o homem poderia inventar você?

A diferença é grande, não é? Quantas vezes foi Saramago o amor de Deus, perdido. O sentido é uma consequência sem memória. Havia distância que não sabia o seu tamanho, hibernação no contorno sem alma,leveza ritmada, dança! Quem chegar à vida só por si mesmo ganha Saramago de graça.

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poemas de C.RONALD:

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OS  SEMPRE

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a demora do vidente precipita-se
naqueles que o esperam

novamente um princípio para o erro
caso contrário mastiga a norma como alimento
conhecíamos o destino quando vinha só
no ar como o enigma
sobreposto ao susto
e de repente alguém aderiu-se
à língua e fez-se prédio

por que os mortos não se tornam
excessivos e nem excitam a forma excetuada
houve espera na melancolia onde
o fundamento desapropriado
pelo rigor da claridade pode
alterar o riso análogo

a existência favorece o medo
partes variadas da distração com molas arriadas
e o pecado no meio
deve dar para quatro aventuras
quatro são as mãos do homem
quando dá e tira
depois vários quadradinhos de suspeita
e Abel no meio
se era mesmo a religiosidade
na parte crua do bife
faca e garfo sonolentos
sem que o prato justifique
mudança no percurso do Caim
ou dança simplesmente
o espírito mais ereto que liso
“Senhor eu não sou digno”

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CUIDADOS DO ACASO poemas (II)

Tenho o nó na garganta, o tiroteio
no peito da criança, essa bagagem de ossos
próxima de um semáforo, esquecida
do tráfego sangrento numa noite sussurrada.

Um plaft para o homem sem aniversário.
As duas partes do rosto
fazem uma concha fechada pela indiferença.
Asas derretidas depois de derrubadas
entre a inquietação e a banalidade dos pardais
no asfalto exposto. Sinceramente

a morte não é coisa de mortos.
Estão podres os que representam
o personagem que nunca foram. O sonho
sai dos alvos alagados diante da porta,
alguns trazem sementes fumegantes,
farpas cravadas no luar,
o aquecimento da comunhão
no vermelho da maçã.

I

Que isto resuma toda a importância do homem:
não ficou pronto pela carne, mas viveu.
Animais escorregam do universo e sentem
apenas o momento veloz que une garras e dentes.

Desiguais na aparência, espelham o mundo
entre átomos sofridos quando Deus separa
na eternidade as árvores e os próprios bichos.
Os outros são defeitos da existência. O nada,

que o efêmero revela de um estranho fundo,
a realidade exige. Mas engulo Jonas,
como baleia, e o anzol, curva para nós mesmos,

é cuspido na aurora de um ser descontente.
Inconsciência e apogeu, cada qual com seu caos,
dobra de temporal desde o início do tempo.

C. RONALD, considerado o maior poeta da atualidade brasileira, em sua fantástica biblioteca.

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Em 2 de Dezembro de 1935, nasce em Florianópolis, Carlos Ronald Schmidt, filho de Lourival H. Schmidt e Ana Ernestina Kersten Schmidt. Em 1942, aos 7 anos de idade, C. Ronald faz o pré-primário na escola particular Jurema Cavallazi. Em 1946, com 11 anos de idade, Ronald ingressa no Ginásio Catarinense. Aos 20 anos, em 1955, presta serviço militar no CPOR de Curitiba (PR), logo depois aos 21 começa a colaborar no jornal “O Estado” de Florianópolis (SC).

Em 1957 assina, entre outros, o Manifesto do Grupo Litoral. Com 23 em 1958, ingressa na Faculdade de Direito em Florianópolis, em 1959, publica o livro Poemas (Edições Litoral), mais tarde repudiado. Em 1960, com 25 anos, sai em edição do autor o livro Cantos de Ariel , também repudiado. Em 1962 recebe o grau de Bacharel em Direito e muda-se com a família para o Rio de Janeiro.

Com 30 anos, em 1965 casa-se com Neide Maria Campos, natural de Biguaçu (SC), logo após ocorre o falecimento de sua mãe, em Petrópolis, Estado do Rio. Em 1966 ingressa na Magistratura Catarinense, sendo nomeado Juiz Substituto da Comarca de Concórdia (SC), ocasião em que nasce sua filha Ariadne. É promovido para a Comarca de Guaramirim (SC).

Em 1967, nascimento do filho Cristiano, falecido quatro meses após, logo após, em 1968 Nasce sua filha Amarílis, e em 1969 Nascimento do seu filho André. Aos 36 anos de idade, em 1971 É promovido para a Comarca de Braço do Norte (SC); é editado no Rio(RJ) o livro As origens (Ed Livros do Mundo Inteiro/MEC).

Em 1973 Nasce seu filho Bernardo; e muda-se com sua família para a Comarca de Biguaçu(SC). Em 1975 Sai em São Paulo(SP) o livro Ânua (Ed. do Autor / Udesc): considerado o melhor livro do ano pelo Conselho Estadual de Cultura. Recebe o título de Personalidade Maior do estado de Santa Catarina; em 1978 É publicado em São Paulo o livro Dias da terra (Ed. Quíron/INL).

Aos 46 anos, em 1981 falece seu pai em Florianópolis(SC). Começa a colaborar no suplemento “Cultura” do jornal “:O Estado de São Paulo”.

Em 1982, é publicado o livro Gemônias (FCC/UFSC), em Florianópolis(SC). Em 1986, sai em Portugal na antologia Poesia Brasileira Contemporânea, coleção “Escritores dos Países de Língua Portuguesa” editada pela Imprensa Oficial — Casa da Moeda, Lisboa; Edição do livro As coisas simples (Arte Hoje Editora/INL), Rio.

Em 1993, é publicada em São Paulo (João Scortecci) o livro A cadeira de Édipo; Na mesma ocasião sai em Florianópolis seu livro Como pesa! (Editora Paralelo 27. coleção “Poesia de Santa Catarina”). Em 1995, C.Ronald publica o livro “Cuidados do Acaso” (Scortecci Editora, São Paulo, 1995), Em 1997, publica o livro “Todos os Atos (Scortecci Editora, São Paulo, 1999), Em 1999, o poeta publica o livro “Ocasional Glup” (Scortecci Editora, São Paulo, 1999), Em 2001, publica o Livro “A Razão do Nada (Scortecci Editora, São Paulo,2001), Em 2003, pela Editora Bernúncia Florianópolis-SC, o poeta publica “OS SEMPRE”. Em 2006 publica pela mesma editora o Livro “Caro Rimbaud”;

RONALDINHO por hamilton alves / ilha de santa catarina

Vou dar uma de cronista esportivo, função que exerci na distante juventude, nos bons tempos da Rádio Guarujá e de uma folha no jornal Diário da Manhã, que era dirigido por Zedar Perfeito da Silva, tradicional nome do nosso jornalismo, para cujo trabalho fui convocado pelo Pedrinho Luz, meu particular amigo.

Hoje, vi uma notícia na TV que o organizador da Copa estranhou (e lamentou) que Ronaldinho, que é fora de dúvida um craque (diga-se o que se quiser dizer dele), não foi convocado.

Burrice de Dunga.

Houve a burrice histórica de Felipão, que não convocou Romário, que se hoje joga ainda a bola que joga, imagine-se naquele tempo. Quanto poderia ter sido útil à seleção. Felizmente, o escrete, sem Romário, foi campeão do mundo. Não fosse, Felipão teria seu ingresso de retorno ao Brasil vetado. Provocaria a revolta da torcida, de certo. E bem feito para ele. Torci para o Brasil perder por essa inominável burrada. Mas tudo deu certo, no fim, para o teimoso Felipão. Alegou que Romário era indisciplinado. Não admitia que um jogador o fosse. Ora, para que tem psicólogo dando sopa por aí. Era só conversar com Romário e lhe dizer que no time de Felipão quem dava as cartas era ele. Romário chorou para figurar na seleção. Mas as lágrimas dele não comoveram o coração de pedra do técnico.

Agora, repete-se a história. Dunga não convocou Ronaldinho. Corre um risco enorme. E, pior, enfraquece o poderio do time. A seleção ainda precisa do futebol de Ronaldinho.

É um craque consumado.

Ainda há pouco, num jogo do Milan, na Copa dos Campeões da Europa, vi o lance magistral de dar um passe para o Pato, apenas com um leve toque na bola, sem deixar que tocasse o chão, de bate pronto; colocou o companheiro em condições de marcar um belo gol. Que outro jogador seria capaz de executar um lance com essa categoria? Pouco, pouquíssimos.

Mas o diabo é que os técnicos se arvoram em donos da verdade. Quando batem pé numa decisão, mesmo que seja burra, não há o que os demova.

Dunga vai se arrepender de bancar o teimoso.

Felipão ainda teve a sorte de levar o caneco para o caso de não ter convocado Romário.

E como é que vai ficar Dunga se o Brasil não se classificar nem para as quartas de final?

Terá seu retorno vetado ao Brasil, certamente.

Ou na melhor das hipóteses a torcida vai ficar de mal com ele. E vaiá-lo à chegada.

CARTA A UM POETA – por hamilton alves / ilha de santa catarina

Prezado amigo,

Aí vai esse poema de Yves Bonnefoy, que um amigo teve a gentileza de me mandar de Recife, PE.

Trata-se de um poema que reflete o tema  sempre inquietante  da perfeição e/ou da imperfeição, de como ambas se situam dentro de um plano de relativismo. Ou de como, em certo sentido, a imperfeição suplanta a perfeição.

Ou que de algum modo a imperfeição se impõe para que se enseje a perfeição.

Ou de como uma surge ou tem origem na outra ou de como uma precisa da outra para subsistir.

Quem atacou muito bem essa questão foi Wallace Stevens em seu belíssimo poema “O homem do violão azul”, inspirado numa tela de Picasso, quando colocou magistralmente o verso “the imperfect is our paradise” (o imperfeito é nosso paraíso).

Isso soa de forma metafísica.

O que seria de nós se tudo fosse perfeito neste mundo? Não houvesse a imperfeição para que, por ela ou através dela, se buscasse (ou tentasse) a forma perfeita?

Ou o poema perfeito? Ou a obra de arte que assim fosse considerada? Sempre temos de combater, de certo modo, a perfeição ou recusá-la. Como diz bem Bonnefoy, em seu poema, “a imperfeição é o cimo”. Como querendo dizer que ela é a busca de alguma coisa que desconhecemos. Ou só descobrimos quando, através dela ou por via dela, conseguimos alguma coisa que possa ser a perfeição.

Esse poema, “A imperfeição é o cimo” (lê-lo abaixo) diz tudo ou expressa tudo isso melhor que estas poucas palavras.

“A IMPERFEIÇÃO É O CIMO

Ocorria que era preciso destruir, destruir e destruir

Ocorria que só há salvação a esse preço

Arruinar a face nua que se alça no mármore,

Martelar toda a forma, toda a beleza,

Amar a perfeição porque ela é o limiar,

Mas negá-la assim que conhecida, esquecê-la morta,

A imperfeição é o cimo”.

Um abraço.

NO ANO PASSADO… de mario quintana / porto alegre

No ano passado…

Já repararam como é bom dizer “o ano passado”? É como quem já tivesse atravessado um rio, deixando tudo na outra margem…Tudo sim, tudo mesmo! Porque, embora nesse “tudo” se incluam algumas ilusões, a alma está leve, livre, numa extraodinária sensação de alívio, como só se poderiam sentir as almas desencarnadas. Mas no ano passado, como eu ia dizendo, ou mais precisamente, no último dia do ano passado deparei com um despacho da Associeted Press em que, depois de anunciado como se comemoraria nos diversos países da Europa a chegada do Ano Novo, informava-se o seguinte, que bem merece um parágrafo à parte:

“Na Itália, quando soarem os sinos à meia-noite, todo mundo atirará pelas janelas as panelas velhas e os vasos rachados”.

Ótimo! O meu ímpeto, modesto mas sincero, foi atirar-me eu próprio pela janela, tendo apenas no bolso, à guisa de explicação para as autoridades, um recorte do referido despacho. Mas seria levar muito longe uma simples metáfora, aliás praticamente irrealizável, porque resido num andar térreo. E, por outro lado, metáforas a gente não faz para a Polícia, que só quer saber de coisas concretas. Metáforas são para aproveitar em versos…

Atirei-me, pois, metaforicamente, pela janela do tricentésimo-sexagésimo-quinto andar do ano passado.
Morri? Não. Ressuscitei. Que isto da passagem de um ano para outro é um corriqueiro fenômeno de morte e ressurreição – morte do ano velho e sua ressurreição como ano novo, morte da nossa vida velha para uma vida nova.


Alegrete, 30 de julho de 1906 — Porto Alegre, 5 de maio de 1994

DOIS HOMENS DIANTE DO POR DO SOL – por hamilton alves / ilha de santa catarina

Findava a tarde, o sol ia se pondo atrás do morro, com a terra em seu curso em volta de si mesma e do sol, nos conhecidos movimentos de rotação e translação, quando um homem de meia idade (poderia ter uns 60 anos) sentara-se num banco talvez com o fito de apreciar esse momento de passagem entre o dia que se finda e a noite que chega.

Há quem não dê a menor importância a esse fato singelo cheio de mistério e beleza.

O homem tinha os cabelos grisalhos e compridos, vestia uma camisa de manga comprida, uma calça escura, um boné e calçava um chinelo meio cambado e já de muito uso. Olhava fixamente para o sol, vendo-o pouco a pouco sumir mais uma vez.

Havia uma boa sombra de uma amendoeira e sentar-se no banco para apreciar esse espetáculo me pareceu a única coisa interessante que, naquele momento, no bulício da cidade, se poderia fazer.

O banco era o único disponível num raio de duzentos metros, razão porque me sentei ali sem qualquer constrangimento ou cerimônia. Poderia se sentir molestado no momento em que me alojei ao lado dele.

Mas percebi que não moveu um músculo quando isso ocorreu.

Agora, frente ao por do sol, éramos dois a assistir a esse espetáculo cósmico.

Podia provocá-lo para um papo, mas sua aparência não era muito simpática ou não revelava nenhuma disposição para uma conversa leve, até poética ou mesmo filosófica sobre o fenômeno.

Enquanto isso, pessoas e veículos iam e vinham pela longa avenida.

Éramos os únicos, àquela hora, que nos ocupávamos do por do sol.

Ardia-lhe certamente os olhos de tanto fixá-los no sol. O mesmo me sucedia. Mas não arredava os olhos dele, parecendo-lhe ser algo de extraordinário, que só em um único momento no dia se podia ver.

Ocorreu-me lembrar-lhe que o Pequeno Príncipe, personagem de Saint-Exupéry, amava o por do sol e não cansava de vê-lo por-se.

Mas logo me adverti que o homem, na sua simplicidade, tal qual o via na forma de vestir-se, nada saberia da existência de Zéperri. Ou de seu personagem famoso, conhecido em todos os quadrantes da terra.

Não trocamos nem uma só palavra.  Ficáramos os dois, em nosso mutismo, deparando-nos com esse esplendor do por do sol.

Quando escureceu e já então o sol baixara, o homem ergueu-se (ou saiu de seu êxtase) e, tão silente como se revelara, silente se foi pela ampla avenida.

O CRÉU e a nova língua – por sérgio da costa ramos / florianópolis

Ao contrário desses economistas que vivem embrulhando pacotes para desfalcar o nosso bolso, o velho mestre dos dicionários, Antônio Houaiss, assegurava que as palavras têm alma.

Elas podem engordar, ganhando novas sílabas ou acepções, ou emagrecer, por supressão etimológica – como a palavra episcopu, que migrou do latim para o português, transformada em bispo.

E quem não gostar que vá reclamar ao dito cujo.

A língua portuguesa do Brasil, degradada ou não, multiplica seus neologismos com uma velocidade semelhante ao real perdendo décimos para o dólar em crise.

Investidos na presunção de que são os proprietários da língua, pelo considerável fato de já a falarem na sua forma quinhentista, nossos caros patrícios da “matriz” condenam a degradação desse patrimônio. Estaríamos a malbarataire a Flor do Lácio, a insultá-la, a despetalá-la.

É como se queixa, de Portugal, um amigo patrício, contrariado com as gírias novelescas:

– Agora deram de falar numa tal “dança do Créu! Um horror. Uma dancinha que imita as “relações”, só que em pé!

Aí já passamos para o incontrolável terreno dos costumes e – mais imprevisível ainda – ao reino monocórdico, obsessivo e sinistro do funk carioca.

– Pois é – concedi. Lá no Rio as coisas estão mesmo “ruças”, “descontroladas”.

O amigo luso protestou de novo, sem entender a velha gíria:

– Ruço? O que é isso? Uma nacionalidade dos Urais?

Ora, se o meu amigo português comprasse o novo Dicionário Ortográfico da Língua Portuguesa, sempre atualizado pela equipe do saudoso Houaiss, ficaria sabendo que “ruço” é sinônimo de “difícil, árduo, penoso, complicado, intrincado”.

Estar “ruço” é estar “feio”, “sinistro”. Mas aí já estamos explicando gíria com gíria, as palavras acabam como as nossas adolescentes – gestantes precoces.

Os meus queridos amigos d’além mar que me perdoem. Língua é um ser vivo e pulsante, um “credo” dinâmico, falado e ditado por quem tem mais bocas. Somos 180 milhões falando o “brasileiro”, com “créu” ou sem “créu”.

A última edição revista e atualizada do Aurelião incorpora algumas pérolas lapidadas pela verve popular, depois de admitidas numa espécie de “vestibular”. A palavra tem que provar a sua “eternidade” para merecer o registro na “bíblia” de mestre Aurélio Ferreira. Não basta ser uma “coqueluche”, como o dito “créu”. Há que ser um verbo já veterano, provado na sua acepção mais cristalina, como “malufar”, à guisa de “afanar”, “subtrair sorrateiramente”.

Já aprovadas até nos vestibulares, lá estão, por exemplo, “dançar”, “mordomia” e “marajá”.

Dançar: “Sair-se mal; não alcançar o que se esperava. Fez exame vestibular e dançou. Ser preso, detido”. Mordomia: “Bem-estar, conforto, regalia. Vantagens tidas como moradia, condução, criadagem e alimentação”. Marajá: “Funcionário a quem se atribui salário exorbitante; pago a servidor pouco escrupuloso, que, muitas vezes, legisla em causa própria”.

Bem se vê que “mordomia” e “marajá” são verbetes já desatualizados pelos fatos. O “corporativo” que gasta com o ilimitado cartão dourado da República já merece figurar na acepção de um e de outro.

Tudo bem, as novas palavras são sempre bem-vindas, pois não somos tão avessos às mudanças quanto nos mansos tempos de um Almeida Garrett, um Camilo Castelo Branco, um Alexandre Herculano.

Esperemos, com resignação, a incorporação do “créu” aos dicionários.

Créu: “Dancinha energética do funk carioca, o tronco balançado num ritmo semelhante ao do intercurso sexual.”

Ou, “mão grande” que um funcionário da nossa hilária República aplica no contribuinte, mediante o uso abusivo do cartão corporativo.

O funcionário chega no contribuinte e, ó, créu”!

MANUEL MARÍA lança seu livro de trovas “MEU PEQUENO MUNDO” e convida:

Após o sucesso alcançado no lançamento do livro de trovas “Meu Pequeno Mundo”, realizado na Livraria Letras (Shopping Palladium – Ponta Grossa), a pedido da renomada Livraria Curitiba, estaremos realizando também o seu lançamento na cidade de Curitiba. A data já está definida para o dia 05/05, às 19:00 horas, nas dependências da Livraria Curitiba, filial do Shopping Estação. Será servido nesta data um coquetel. Ainda serão realizadas breves homenagens aos representantes das Academias de Letras presentes, escritores e imprensa, bem como alguns convidados especiais e autoridades, a serem confirmadas. Neste evento Manuel María, espera fazer da reunião uma noite de agradável convivência e disseminação da cultura paranaense.

O CRONISTA ORAL por hamilton alves / ilha de santa catarina

Cronistas somos todos, tanto os que se apresentam por escrito em livros e jornais quanto os orais, que são mais numerosos, e compõem uma fauna mais estranha mas não menos interessante.

Lembro-me de um desses tipos que, de manhã cedo, no refeitório de um hotel, ainda com os pulmões congestionados, descrevia as peripécias que tinha vivido em certa cidade, em que guardara a mala no aeroporto, esquecendo-se dela na hora do embarque. Promoveu uma busca depois infrutífera. Empenhou para isso todos os funcionários da empresa aérea e o resultado foi que não foi recuperada. Aí emendou um assunto noutro, de um amigo que, em Buenos Aires, colocara a mala no bagageiro do taxi. Saltara antes da mulher, que ficaria à espera dele no hotel. O taxista, sem querer, levara a mala. Procurara se lembrar do número da placa do taxi, mas lá se fora a mala. O que trouxe não poucos incômodos ao casal, que, por isso mesmo, com a perda de valores, teve que encurtar a temporada na cidade. Fora mais longe. Contara de uma viagem à Europa, em que num metrô fora surripiado por um punguista, que o deixou numa séria encruzilhada de permanecer os dias a que se propusera ou vir de volta.

As pessoas, em volta o ouviam, ora interessadas, ora enfastiadas. Não era um momento propício para revelar tais desventuras, mas mandava brasa em seus temas, pouco se importando quem gostasse ou não. Além de que tinha o dado de que sua voz era rouquenha e tornava às vezes difícil acompanhar o desenrolar das estórias.

Havia ainda o detalhe de que, enquanto desenrolava a narrativa, soltava perdigotos à esquerda e à direita para desagrado geral.

A certa hora, afastou-se do grupo, onde certamente as pessoas já demonstravam certo desprazer de ouvi-lo. Percebi que se arrastava para os meus lados e certamente procuraria continuar a desenrolar suas desditosas viagens por este mundo.

Vi-o, súbito, deitar os olhos em mim.

– Que farei? – angustiado me perguntei. – É

agora que vai iniciar outra fase de seu repertório de desditas e me escolherá para vítima.

O cara era seco, comprido, calvo, era o tipo dessas pessoas que aparecem em todos os locais imbuidos desse propósito de falar sobre qualquer coisa, seja o que for, em ocasiões as mais inoportunas.

Fingi que não o tinha visto. Fugi para um canto do refeitório.

Mas com a mesma voz rouquenha desfilava numa mesa próxima outro episódio igualmente aborrecido. A voz se fazia ouvir destacadamente no recinto, pairando sobre todas as demais.

Deduzi, assim, que cronistas somos todos, orais ou verbais, temos que levar o tema de nossa imaginação ao primeiro que se dispor a ouvir as nossas bem urdidas mentiras.

BIANCHON por hamilton alves / ilha de santa catarina

Bianchon, na obra de Balzac, é o estudante de medicina que conhecemos na novela “O pai Goriot”, um dos momentos culminantes na obra do grande escritor.

Sabemos que, na hora da morte (ou muito doente), Balzac o chamou para socorrê-lo.

Delirava? Ou enlouquecera?

Creio que não.

Um escritor às vezes imprime vida de tal forma as suas criaturas que as concebe como se fossem de carne e osso.

Na minha obra literária, embora autor de quatro novelas (uma das quais editada há pouco), não me acode um único personagem a que pudesse atribuir uma existência real como Balzac fez com Bianchon, a ponto de, no momento mais crucial de sua vida, convocá-lo para que lhe amenizasse o transe por que estava passando da vida à morte.

Difícil é, para o leitor, sair das páginas de uma novela dessa grandeza sem experimentar que os personagens, a maioria deles, ganhem vida em sua imaginação – e Bianchon, ainda estudante, na pensão Vauquer, na rue Saint Genovève, na Paris do século XIX, é seguramente uma dessas que permanecem vivas ou assim se tornam para nós.

Não será, apenas, o caso de Bianchon, que mais tarde aparece, já médico profissionalizado, nos demais romances do escritor, mas de tantos outros que se recolhem à grande literatura, como, só para citar alguns, Madame Bovary, Ana Karênina, Mildred e Phillip (de Servidão Humana, de Maughan), Conceição, de “Missa do Galo”, de Machado de Assis, Gustav Aschembach, de “Morte em Veneza”, de Thomas Mann, para não falar de Dom Quixote, que se alçou talvez às alturas na fantasia popular, mas, no caso dele, bem diferente dos demais citados. Quixote incorporou-se na memória coletiva como símbolo da grandeza do heroísmo sem causa ou de uma causa produto de uma loucura.

Com Madame Bovary, (como contei numa breve narrativa), sonhei que tivéramos um encontro num bar de Santo Antonio de Lisboa. Súbito, surgiu, não sei de onde, a figura de um de seus amantes, o que lhe havia recusado todo o apoio no seu final dramático.

Chamou-me a atenção para sua presença ou aproximação nefasta (ela o detestava) e tivemos que sair sem dar-nos a perceber.

Sonhar com uma criatura ficcional é o mesmo que lhe imprimir vida (o sonho é uma forma, ainda que precária, de expressá-la).

Quando Balzac apela por Bianchon, na hora da agonia, reflete bem o que se passa em seu espírito. Na visão dele, fascinado por esse personagem, ou sabendo-o vivo como quem mais vive, considera-o como o médico (produto de sua imaginação), que lhe pode trazer conforto aos últimos momentos.

Bem curiosa, sem dúvida, essa relação entre realidade e ficção, em que, em certos momentos, torna-se bastante difícil lhe traçar os limites.

PÁSCOA DIETÉTICA por sérgio da costa ramos / ilha de santa catarina

Antigamente, as criancinhas passavam a manhã do domingo procurando ovos de Páscoa no jardim, acompanhadas pelos pais, que se divertiam com os bordões Está frio! Está quente!

Hoje, os “produtos” de Páscoa entram pelos olhos e pelos poros de adultos e crianças, nunca se comeu tanto chocolate, nem tantas calorias concentradas nesse néctar de cacau.

Por isso, vou logo avisando: não aceito ganhar barras de chocolate recheadas com amendoim e castanhas – as minhas preferidas.

Mal-acostumado pelos políticos, que nos habituaram à palavra volátil, e a renunciar às renúncias, suspeito que“aquele” meu regime só vá começar mesmo na segunda-feira, pois amanhã é dia de bacalhau – e… chocolate de sobremesa.

Toda Páscoa entreguei-me, como uma criança, à orgia do cacau. Sem falar na grande comezaina e na libação ilimitada – tudo em homenagem ao Ressuscitado. Aleluia! – afinal, não é apenas um refrão repetido nas assembleias de Deus. Aleluia quer dizer alegria, júbilo, regozijo, exultação.

Pois eis me aqui, recusando o saboroso chocolate que me ofereceis, o opíparo almoço, a adega generosa. Estou mesmo disposto a inverter o calendário litúrgico, fazendo do domingo de Páscoa o meu dia de jejum. Aliás, se tivesse algum juízo ou senso de estética, jejuaria durante os próximos 365 dias, precisamente até a Páscoa de 2011.

Seria o jejum do asceta e do anacoreta. Sem querer ser blasfemo, aspiro a um corpinho assim como o de São Francisco de Assis, que se satisfazia em dividir o pão e o alpiste com os seus passarinhos – e, entre os humanos, com aquele senador de Pernambuco, o transparente Marco Maciel, o único político-faquir, que, estando de “frente”, parece estar de “perfil”.

Meu ideal de magreza, mais do que de misticismo, se alimenta, também, de romantismo. Confesso-vos que me sentiria muito bem acomodado na carcaça de um poeta do século 19, mórbido como um Beaudelaire, esquálido como um Gonçalves Dias ou um Castro Alves. Sou aspirante – remoto, é bem verdade – a um honrado par de saboneteiras, única garantia de que não estarei ingressando na dinastia dos Momos e que o regime iniciado nesta Páscoa “estará funcionando”.

Pena que este mundo seja feito de gordos dilemas e de adiposos paradoxos. Ao lado desse ascético ideal de magreza, cultivo em cada célula uma obscena compulsão pelos prazeres da boa mesa. Comer bem sempre foi uma das boas coisas da vida, uma das festas permanentes do palato. Pena que os coelhinhos da Lacta e da Nestlé, e os deuses da gastronomia, como Henrique VIII, e da libação, como Dionísio (o nome grego de Baco), não me tenham contemplado com uma saudável e quilométrica “Taenya Saginata”, a popular “bicha solitária”, que me permitiria comer todo o chocolate que quisesse sem engordar.

Regimes – cada vez mais exóticos – abundam por aí. Um deles receita comer-se só abacaxi, segundo o livro e os conselhos de uma certa Judy Mazel – cuja única serventia, para ela, é engordar a sua própria conta bancária. De tanto comer abacaxi, sem perder um grama, amanheci, um dia, com a calça do pijama rasgada. Um espanto: lá de dentro, como uma hemorroida ecológica, vicejava uma espinhenta coroa de abacaxi, que ia me saindo cola afora…

Só esta espinhosa metamorfose já seria suficiente para que abandonasse o insólito método. Acabei desistindo no dia em que, convidado para uma churrascada, cheguei com o meu abacaxi debaixo do braço. Sem vocação para “Carmen Miranda”, caí em mim. Joguei fora a fruta tropical e me reconciliei com todas as picanhas da festa, com a voracidade de quem satisfazia um amor longamente reprimido.

Minha salvação está mesmo no ascetismo, na devoção. Começo hoje mesmo – neste sábado de Aleluia e neste domingo pascal – a comer alfaces, brócolis e rúculas. Hei de chegar ao verão esbelto como um atleta olímpico, os músculos rajando a pele como rijos cipós.

– Me Tarzan! You, pobres chocólatras…

A R E C O N Q U I S T A D O I M P É R I O – por jorge lescano / são paulo

— Meu fiel Pancho, devo dizer-lhe que o seu romance é um amontoado de dislates, mera perda de tempo. Se a intenção foi troçar do leitor temo que não consiga o seu objetivo: nenhum editor correria o risco de manchar sua reputação publicando este original — Alonso Gómez falava voltando da escrivaninha de onde retirara um bloco de papel encadernado com espiral. Sentou-se, apoiando o volume no colo e abandonou a mão sobre a capa de plástico transparente.

A mão era suntuosa, dedos finos e pálidos, obra de um maneirista italiano, Pancho Escudero olhava-a fascinado, como se estivesse exposta no teatro de Madame Tussaud ou tivesse fugido de uma antologia de contos.

— Sua Reconquista do Império é impossível, uma empreitada condenada ao fracasso, um verdadeiro absurdo! Entendo o que pretende mas não posso dizer que o tenha conseguido, em todo caso, não o aprovo. Você me conhece, sou rigoroso, não dogmático. Penso que não basta reler o passado, é necessário extrair dele algo de positivo para as futuras gerações — batia com a unha esmaltada do indicador nas grandes letras vermelhas do título.

O vidro escuro da janela abafava o rumor do mundo: enchentes, desmoronamentos, terremotos, tiros, promessas eleitorais…  Gómez abriu o volume ao acaso e apontou o início de um parágrafo.

— É necessário e justo identificar o Império Britânico com Jack, o Estripador? E o que simboliza o Papa  tentando seduzir Joãozinho na Alemanha? O autor não deve explicar sua obra, isto é de praxe, contudo, meu amigo, na oficina todo movimento e cada ferramenta têm que ter uma função precisa no árduo trabalho de fazer a máquina andar.

— O que escrevo não deve ser considerado literatura — disse Escudero soturnamente –, a menos que incluamos nesta categoria os manuais de circuitos elétricos, ou, se quiser, os vasos sanitários no ramo das belas artes.

— À medida que o texto se desenrola multiplicam-se as incongruências. — a mão alabastrina regia o ritmo das palavras —             O desleixo invade e deforma a trama. — apontava a capa do volume onde um rei de farsa parecia dialogar com o verdugo numa paisagem paradisíaca. — Onde o estilo, a …  ah!…? — engasgou.

A Reconquista do Império era um espetáculo, no mínimo, curioso. Nele se encontravam todas as estéticas havidas desde a Grécia Clássica — invenção da Itália renascentista, na opinião de Escudero — até os primeiros exercícios do curso básico das escolas profissionalizantes de teatro. Isto, bem mirado, era absolutamente coerente com o significado da obra. A crítica, porém, obstinava-se em não perceber, ou se negava a admitir, que o império do título estava no palco e abarcava todas as acepções de tempo e espaço. As locações se davam em pólos turísticos, à maneira dos best-sellers mais vendidos (sic), os personagens eram figuras exóticas, ou excêntricas ao gosto da época, tudo isto saciava a fome de novidade reclamada pelo público saturado dos mexericos dramatizados pelo telejornal.

— Manco Cápac contracena com Eróstrato na Macedônia, o ministro Goebbels aconselha Confúcio sobre democracia em Cabul e bons costumes na Bagdá ocupada, enquanto o matemático inglês estupra Alice mil e oitocentas e trinta e três vezes nas gélidas Ilhas Argentinas. Por que, valha-me Deus?!

— O absurdo tem uma lógica própria, e não é, como se acredita comumente, um amontoado de incongruências. Estas, aliás, podem servir para pôr em evidência a lógica do absurdo. Sintetizando: neste caso o Absurdo se manifesta por oposição à incoerência do texto. Sutil demais? É Absurdo porque não respeita a lógica do incongruente e age de acordo com suas próprias leis, que podem mudar segundo as necessidades da ação. Yes!, meu caro Gómez, há algo de método nesta loucura.

O autor da trama sabia muito bem que o público olharia para outro lado quando o fato  acontecesse, a bem da verdade, nesse contexto o fato era o menos interessante. Vulgar como a vida cotidiana, disse um cronista. Erro crasso, o que se interpretava como mimese era o verdadeiro. Até a noite do crime e talvez depois, os críticos consideravam esta cena a pior de todas porque introduzia elementos de realismo onde, segundo eles, só havia loucura e incompetência. O brilhante detetive recrutado numa universidade italiana interpretou o fato como seqüela do enredo: o crime aconteceu porque a cena criou a ocasião. A partir daí toda sua teoria é correta, porém, a premissa, falsa. O crime não aconteceu porque a cena o permitia senão porque a cena fora criada intencionalmente.

Ali não havia nada da cortesia do ator que para não ofender os colegas preferia brigar com o porteiro do teatro e assim desatar a fúria de Lear no palco, nada do rigor daquele outro, que extraíra quatro dentes para que o seu chimpanzé fosse convincente ao informar à Academia, sutilezas dramáticas geradas pela leitura deficiente do russo. Nada havia da superficialidade dos seriados de televisão, que banalizam o narcotráfico, tema épico da atualidade, na opinião de Escudero. Nada, enfim, que aproximasse A Reconquista do Império de certos filmes de ficção interplanetária onde os alienígenas que visitam ou invadem a terra, se bem são capazes de criar imensas e sofisticadas naves, preciosismos que desafiam a engenharia de efeitos especiais, não portam cabelo nem orelhas nos crânios, isto, vá lá, é a moda dos maquiadores ETs, mas tampouco possuem traje algum, sequer gravata, suas vestes são conforme às dos indígenas visitados pelos europeus na América. Como foi dito e visto, nada disto acontecia no original em pauta.

A seqüência do crime, não esqueçamos, fora criada a partir de uma sugestão do coadjuvante, telespectador ferrenho, que alegou que seu papel era secundário e se sentia relegado pela companhia. Não esqueçamos que o autor contava com o sucesso da peça para garantir a sobrevivência. O ator viola sua interpretação realista — isto não foi esquecido pelos críticos — e enxerta um à parte no qual declara, no círculo de luz do palco escuro, que é um homem invisível. A platéia ri nesta passagem. De fato o ator nega  o principio de identidade, segredo de sua interpretação, trata-se de um caso de ser e não ser. O crime contra o teatro ocultava o verdadeiro crime, disse o assassino em sua confissão televisionada.

— Este o Absurdo porque único momento verdadeiro da novela — explica o autor.

Eu, por mim, entre as armas e as letras dou uma de Miguel: sou sempre pelas letras — Gómez sorri, divertido pelo próprio engenho –, contudo, meu filho, no caso o uso de citações e a morte do protagonista são excrescências. — Neste momento você percebe que o que parecia um cachimbo nas mãos de Pancho Escudero é um revólver.

— Desta vez você errou, papai  — diz Escudero, a mão firme, sorriso matreiro –, pensou que ele apenas estava citando o belga, correto?

Alonso Gómez ouve estas palavras com o rosto submerso nas primorosas mãos e eu deponho a pena de ganso no tinteiro, pois como o intrépido leitor já terá deduzido, esta é uma história do século XIX.

NILTON DE OLIVEIRA CUNHA lança seu livro “PENSAMENTO e VERDADE – uma nova maneira de pensar a realidade” – CONVIDA:

CIDADE SEM “CIVITAS” por sérgio da costa ramos / florianópolis

Será que a velha definição latina de cidade ainda está valendo? Civitas-civitatis. Reunião de cidadãos, nação, pátria, lugar onde se respeita o direito do cidadão. Aglomeração humana de certa importância, localizada em área geográfica circunscrita, com numerosas casas próximas entre si e destinadas à moradia ou a atividades culturais, mercantis, industriais, financeiras e outras não relacionadas com a exploração direta do solo.
Hoje, a “cidade moderna” vai perdendo o seu significado institucional. Avança sobre todos os solos e tornou-se vítima de outras atividades sinistras, como o furto, o roubo, o assassinato.

Eça de Queiróz não gostava das cidades, como deixou claro no seu libelo contra essa “criação antinatural”, em A Cidade e as Serras. Na comparação entre as selvas, a verde e a de pedra, o monóculo do escritor só tinha olhos para a primeira:

Na natureza, nunca se descobriria um contorno feio ou repetido. Nunca duas folhas de hera se assemelharam na verdura ou no recorte. Na cidade, pelo contrário, todos repetem servilmente a mesma casa, todas as faces reproduzem a mesma indiferença ou a mesma inquietação.

Dizem os pragmáticos que esse hábito de condenar as cidades e enaltecer a natureza é apenas “uma licença para a poesia”, uma chispa para o gênio criador do homem romântico. A cidade é a “realidade” – que a maioria das pessoas acha “um Inferno”, embora recuse o Paraíso do meio do mato.

As pontes de Floripa foram concebidas para um fluxo de 40 mil veículos/dia. Já recebem mais de 80 mil. Trata-se do próprio Inferno (Ro)Dante…

É o progresso, dizem. E o homem vai atrás, cada vez mais absorvido por esse mundo de gases, óleos, resinas e misturas químicas que envenenam os poros, a alma, a mente.

Sempre que o ser humano aspirou pela paz de espírito procurou um jardim – pois se ressente de um, desde que foi expulso do Éden. Não por acaso os lugares de paz e meditação religiosas se assentam em jardins: o claustro dos mosteiros, os canteiros das casas muçulmanas, as fontes dos jardins hindus, símbolos do Paraíso.

Sempre que se deixou subjugar pela cidade, o homem perdeu o melhor dos seus dons – a capacidade de continuar humano, como lamentou Eça, contemplando as vinhas da Serra da Estrela:

– Os sentimentos mais genuinamente humanos se degeneram nas cidades. Nelas, os rostos humanos nunca se olham.

Muitas vezes, não se olham para não testemunhar a violência. Transita pela internet uma denúncia preocupante. A de que Floripa há muito deixou de ser um jardim de paz. A cada grupo de 100 mil habitantes, nada menos do que 3.926 já teriam sofrido perda patrimonial por furto – números que, proporcionalmente, equivaleriam aos desumanos prontuários do Rio e de São Paulo.

Dou a Floripa o benefício da dúvida, recusando-me a aceitar para a Ilha o mesmo e cruel destino de cidades que lhe são irmãs em beleza natural, como o Rio de Janeiro.

Mas o sinal vermelho está ligado. Assaltos no Sul e no Norte da Ilha. Até na doce Santo Antônio de Lisboa. Recentemente, ladrões aterrorizaram o bucólico “Caminho dos Açores”, para a suprema indignação do pioneiro, major Manoel Manso de Avelar, antigo senhor daquela pacífica freguesia.

É como se a graciosa vila açoriana tivesse perdido a inocência, como no romance de Edith Wharton –The Age of Innocence.

O Manoel Manso ameaça abdicar de sua mansuetude, descer de seu celestial mirante e “justiçar” os que ali perturbam a paz secular.

Um Manso “furioso”, condenando a omissão dos que deveriam zelar pela segurança pública:

– Ai de vós, autoridades inertes, mandatários sem voz de comando!

A BELA DA TARDE por hamilton alves / florianópolis

O título desta crônica é o mesmo que o do filme de Buñuel, que foi estrelado por Catherine Deneuve,  com muito sucesso. Não gostei do filme, mas isso não impediu que tivesse colhido boa crítica.

Uma moça, cabelos revoltos, compridos, soltos, de uma silhueta fascinante, sentou-se a um banco de uma pracinha.

Tinha o ar de entediada.

Mas não, me enganava, pelo que sucedeu a seguir, abanando a mão para uma pessoa que a interposição de uma planta alta me impediu de ver de quem se tratava. Seria um namorado ou amante ou marido?

Não, era um grupo de amigas, que a chamava.

Ao sentar-se no banco, olhou a sandália, os dedos dos pés. Ficou assim, por um tempo, contemplando-os.

Trazia uma casaquinho branco em cima de uma  blusa sem mangas, verde clara. Sentiu calor. Tirou o casaquinho. E deixou ver os braços claros e lindos. Cena que me lembrou Machado de Assis, que era fixado em braços femininos. Tem até, em homenagem a esses membros, um conto com o título “Uns braços”, que mostra a fixação de um estudante, Inácio, um jovem de boa aparência, que não tira os olhos dos braços de Dona Severina, que vive maritalmente com o estouvado Borges. Volta e meia, quando lhe permitiam as circunstâncias e as distrações do marido, fixava-os neles.

Quando se ergueu do banco, encaminhando-se em direção ao grupo de moças (tinha um sujeito colhendo fotos do grupo), só então percebi seu porte de princesa.

Todo o conjunto do corpo (cabeça, torax e membros) balançava harmoniosamente, como se fora constituido de delicados mecanismos que lhe permitissem essa dança de carne e músculos.

O que faria àquela hora numa praça praticamente nua?

Fui a um bar nas redondezas. Na volta, ainda a vi soberana entre as demais, de certo modo cônscia de sua realeza.

Não a vi de perto. Nem me aproximei para observar os detalhes de sua figura esbelta.

Seria indiscrição.

Segui meu caminho, convencido de que a beleza, onde quer que surja, ocupa um lugar de realce, impondo-se a tudo. É um fenômeno que chama a atenção e estabelece uma certa hierarquia.

Algum filósofo já afirmou que “a beleza é um mistério”.

Era o caso daquela bela da tarde, que irradiava seu viço juvenil por toda a praça.

EROS e TANATOS NA AMÉRICA PLATINA – por ewaldo schleder / florianópolis

foto de ewaldo schleder

DIÁRIOS INTERMITENTES


Não há como viver sem eros: erotismo. Amor à vida. Fé na vida. Essa que nos dá paixão e nos traz a morte e aquela que nos leva além – ateu ou não. E não falo em reencarnação. Xô.

Opto por viver livre – se isso fosse possível – de tempo e espaço. Nada de Suiça, Escandinávia. Vejo no horizonte o Paraguay. Com y. Nação guarani. Hoje entre chipas e chips. O Chaco e a cibernática. Mercado liberto das atrocidades da lei. Cesta de vime repleta de bolos de polvilho. O tererê (mate gelado), a mandioca, a chipa. A muamba. Terra de contraste entre a história ibero-americana e as tentações da China e das Arábias. Guerra do Paraguai.

Além do rio, a Argentina. O mate, a água quente para o chimarrão – cerveja quilmes, bife de chorizo, empanada, medialuna, água dos Andes, de lá, Mendoza, o vinho. Os argentinos apenas consomem o sumamente necessário – para eles. Pois têm cultura de restrição econômica, de fome, de luta na rua, de guerra das Malvinas, recente, remanescente.

Vertedouro dos rios que se encontram – o Iguaçu, o Paraná – o Brasil passa pelas margens do entrevero luso-hispânico, Tordesilhas, Guairá. Nossos índios são tropicais. Nus ou de tanga, calção, tênis, nike. Nas cidades, o boom de tudo. A nós nada falta. O bem e o mal, urbe et orbi. Hoje, “vamo que vamo”. Ninguém nos segura. Afinal deus é daqui mesmo. E vai muito à Bahia.

Contudo há uma sombra sobre o sul das Américas – uma sombra a cobrir o novo mundo. Não: à ilusão da integração latino-americana – por que ilusão? –, ao grito da insanidade, à violação da consistência do povo. Vamos combinar uma coisa: jogar fora os espelhinhos e celebrar um Tratado Geral da América Platina. Regado a vinho, tererê, uísque barato, água do aqüífero guarani, cachaça, eros e rock’n roll.

DANTE MENDONÇA lança seu livro: “SERRA ABAIXO, SERRA ACIMA o Paraná de trás pra frente” / curitiba

BAILARINA – de lívia sganzerla jappe / são paulo

” Duas batalhas pareciam estabelecidas. A da luz que saltava dele numa face onde o vermelho prevalecia. E a do cheiro do perfume dela. Incendiando o vento primeiro.”

O homem acordava os olhos, fechados ainda do resguardo da noite, e lá fora o céu era de todo azul, num fundo cobalto dos mais lindos. Vestiu-se à perfeição. Enrolou no pescoço alongado uma gravata e a seda acentuou a ardência do vetiver que lhe havia mentolado a pele. A delicadeza do tecido logo se associou ao macio algodão da camisa. Branca.

Entrou no carro. Dirigiu quilômetros vários. Estacionou. Juntou as plantas dos dois pés no barro do meio fio. Deslizando o brilho dos olhos na paisagem, viu uma mulher, enfeitando a calçada. Conforme ela amansava, com uma das mãos, os cachos dos cabelos, ia ele também amansando a alma. Que os olhos dele já se iam comprimindo. Olharam-se. Ela, alheia. Ele, trágico.

Uma avezinha, das miúdas, cruzou o céu, pipilando. Ele caminhava, oblíquo. Ela, em linha reta, na direção oposta. A ave, longe. Pipilando, agora, uma oitava abaixo. Correu ele a cabeça para trás e, rápido, voltou outra vez a olhar obliquamente. Ela cruzou a rua. Ele deu a volta no quarteirão. E então a abordou, seco:

– Tia Amélia? Amélia Rossi Vargas?

– Sim, sou eu – disse, disposta.

– Quem descerrar a cortina / da vida de bailarina / há de ver cheio de horror / que no fundo do seu peito / abriga um sonho desfeito / ou a desgraça de um amor

– Os que compram o desejo

– Pagando amor a varejo

– Vão falando sem saber

Ele gaguejou. Ela o incitava a ir em frente, com os olhos gastos. Ele não foi. Então ela disse, peremptória, citando o verso sem musicá-lo:

– Que ela é forçada a enganar.

E o embrulhou num abraço duro. Encharcado. Estavam ali os corpos, o tio, a tia, o amante, o alfanje, a gritaria, o quarto cheirando azedo, a cama. A cama. A cama.

– Tia, eu nunca – não chorava, rompia-se. Espichou os olhos muito negros e muito fortes nos dele, sentenciando:

– O tempo. O tempo leva tudo. Levou os discos da Ângela Maria.

Ele caiu aos prantos num jorro de segundos poucos. Vida de bailarina rodava na vitrola da cabeça do menino morando nele. Oito anos. O tio aos berros. Os que compram o desejo. A tia nua. Pagando amor a varejo. Ângela Maria enchendo o quarto. A bailarina. A bailarina. A bailarina.

– Me desculpe. Tia, eu.

Uma gota, levíssima, fez com que o homem se desprendesse do passado recente da infância para levar a mão esquerda à testa. Os cabelos branqueavam em mechas esparsas. Organizou-os com a mão direita. A tia sorriu, olhando para frente. Ele não. Ele não sorriu. Duas batalhas pareciam estabelecidas. A da luz que saltava dele numa face onde overmelho prevalecia. E a do cheiro do perfume dela. Incendiando o vento primeiro.

Tia e sobrinho se olharam. E o sobrinho desviou, lânguido, a vista para baixo. O horizonte tomava conta, infindável,daquele negrume que se foi consumindo na pira das lembranças. 38 graus. Mesmo à sombra.

Oito anos. A bailarina. A bailarina. Que o menino sabia que era desvio do coração, ah, isso sabia. O tio e a tia tinham lá um amor dos mais bonitos e o menino tinha fincado a cisma num rapaz que muito frequentava o quarto da tia. Sem ser o tio. Mas ele não disse. Escondeu o segredo do que viu. Não quebrou com sua fala a descoberta fininha do que era a paixão. Que o tio já vinha entrando, alfanje na mão. Atirou no intruso. O menino correu para debaixo da cama. Dois olhos acesos. Coração apagado. Azeda. A bailarina. A bailarina. Berros. O disco riscado. A tia parada. O tio descabelado. O menino acuado. O rapaz estirado. Com os cabelos deslizando em sangue.

Abrasado, o menino foi da cama ao armário. Escancarou a porta. Uma caixa luxuosa guardava o que só o instinto parecia ler. Suava em bicas. Abriu o quadrado de segredos, envoltos todos em papel de seda. No reflexo dos movimentos, a luz sugeria cor. Era o turquesa dos olhos de uma boneca horrorosamente triste. Cabelos poucos num rosto encardido, que sustentava um olho vítreo sem par. Naquele buraco em plástico, lugar de sentidos ausentes, um outro papel, engordurado pelo que só podiam ser dedos inquisidores, abrigava, num exercício de treva em letras pretas, uma carta.

Abriu, trêmulo, a folha. Eram alma, coração e sangue num frágil equilíbrio de letras. Da tia. Escorrendo, licorosas, naquelas mãos suadas. Azedo. A cama. O rapaz estirado.

Não há esperança. Uma única vez lhe procurei. O filho que você me fez se foi há muito. O seu leite forte, incandescente, não me machucou a carne como aquela criatura frágil vazando de dentro de mim. Espessa. Num vermelho dos mais vivos. Foi numa tarde fria. Você havia marcado a ferro o seu lugar no mundo e eu tinha os cabelos tinturados e as unhas descascadas. Eu não cabia na sua medida de mundo. Mas você coube na medida do meu desejo. E me cravou um filho no ventre.

Você apontava o dedo para a minha dor com aquelas letras de bolero que eu não entendia. Mamava no território dos meus seios, trancado a sete chaves. Sorvia o meu corpo molhado com o seu silêncio, umedecendo nomes de mulheres que não eram o meu. Me atirava um “burra” na cara quando eu perguntava quem era Torquato Neto. E depois acentuava o carmim do meu rosto com a sua boca furtiva.

Eu fiz o amor com você e a guerra com aquela criança. Era menina. Eu sei que era menina. Vazou de mim um dia inteiro. Era você que eu expulsava do meu corpo com urgência. Era do seu visgo forte que eu me desfazia com pressa.

A criança foi embora sem jamais ter ganhado forma. Mas você não foi. Você ficou entranhado nas minhas umidades. Eu procurei meu marido em silêncio. Me deitei com ele. Bebi a justa ausência do seu gozo. Fingi a rubra cadência do meu prazer.

E você não foi.

Você é o talho na carne daquela criança morta. Arroxeada. Num vermelho vivo. É a sua entranha que eu rasgo num corte reto agora”.

Ele redobrou o papel. Há de ver cheio de horror. A bailarina. A bailarina. Pagando amor a varejo. A cama. A cama. Azedo.

O vento balançou a copa de uma árvore lá fora. A tarde caiu.

OS SEM-VERGONHA por sérgio da costa ramos / florianópolis

No Brasil é assim: para se mudar o status quo é preciso que tudo fique exatamente como está. Há tantas resistências entre os corruptos que a corrupção continua viva e saudável, mesmo depois do afastamento das saúvas. Parece ser o caso do Distrito Federal. Em nome da saúde democrática, forças políticas se mobilizam para evitar a intervenção federal, única medida capaz de interromper a podridão sistêmica instalada no poder.

O presidente da Câmara Distrital – e governador de “plantão” – pertence à mesma grei de ordenhadores dos cofres públicos do mandatário preso, o indigitado Arruda.

Em nome do “purismo” institucional, os corruptos defendem o continuísmo. Lá, como cá, maus exemplos há. Mesmo apanhados com a boca na botija, praticando “malfeitos”, os políticos são conservadores: querem “conservar” os seus privilégios e a “proximidade” com o cofre…

O que diz em seu benefício aquele vice-governador cuja voz foi gravada “avisando” quadrilheiros de que eles “estavam sendo investigados pelo Ministério Público”?

Não diz nada. Apenas sustenta que “não há provas”. Ou seja: renega a própria voz.

Não faz muito tempo, destacou-se um prefeito de Bento Gonçalves (RS). De público, perfilhou o nepotismo. E assumiu que não via nada de mais em nomear parentes:

– Eu sou radicalmente a favor do nepotismo. Essa história de concurso público só traz pessoas estranhas ao serviço público!

Achava-se com toda a razão. Para ele, “o primeiro nepotista do Universo tinha sido ninguém menos do que o Criador:

– Nomeou para o seu sagrado ministério o próprio Filho e o Espírito Santo, que era seu enteado. E nomeou os dois pela confiança que tinha em ambos os familiares…

Por acaso ele, prefeito, deveria nomear Lúcifer para o cargo de secretário de Obras? Ou algum Satanás para a Secretaria de Finanças? Que mal havia em nomear um filho ou a própria mulher? Tal prova de confiança seria um atributo de todo bom político e uma prova de respeito ao público e de zelo para com a “coisa pública”.

O papa Alexandre VI, Bórgia na vida civil, fez do seu filho Cesare arcebispo e cardeal de Valência, sem que o rapaz soubesse rezar o “Pai Nosso”. Foi a partir da dinastia corrupta dos Bórgia que se simplificou o termo designativo do favorecimento para os “parentes”. Como os papas, canonicamente, não podiam ter filhos, nomeavam os “sobrinhos”…

Como se vê, trata-se de um sacrilégio antigo. Para erradicá-lo, no Brasil, só inventando o homem público sem parentes, ascendentes ou descendentes. Mas claro que a solução não sobreviveria por muito tempo. Logo os políticos acabariam inventando o “nepotismo adotivo”, como já inventaram o “nepotismo cruzado”. Fica tudo em famiglia. Como pregam os políticos de Brasília, escolhendo entre os “da mesma cepa”, o substituto de um corrupto.

Aos brasileiros, eleitores e contribuintes, resta lamentar que nunca adotaremos entre nós a moral social do “bushido”, o código de honra japonês que estimula os apanhados em degradação ou vergonha pessoal à prática do autojustiçamento. O sujeito é flagrado recebendo propina ou traindo a representação popular – em nome da qual foi eleito? O político se apresenta ao público, pede desculpas e… se mata de pura vergonha na cara.

Aqui, o propineiro afirma que “declarou” (!) a propina no seu Imposto de Renda! E pronto. E ainda a justifica como “recursos de campanha oficialmente não contabilizados”.

Nossos códigos são assim: não têm vergonha de transgredir. Preparemo-nos, pois, para ser governados pelos sem-vergonha.

SONHOS DE UM MARINHEIRO SUECO por jorge lescano / são paulo

Bergman contou muito bem como lhe veio o final de um argumento (ou seja, como descobriu o que queria contar):

Primeiro vi quatro mulheres vestidas de branco, sob a luz do alvorecer, em um quarto. Movem-se e se falam ao ouvido, são extremamente misteriosas e eu não consigo entender o que dizem. A cena me persegue durante um ano inteiro. Finalmente, compreendo que as três (sic) mulheres esperam que morra uma quarta, que está no outro quarto. Revezam-se para velá-la.

Trata-se de Gritos e Sussurros. (Schwartz, 26)

A citação consta num artigo sobre a narrativa de Jorge Luis Borges. Vem a calhar, então, a lembrança de El Sueño de Coleridge, em que um palácio é sonhado e construído (de forma fragmentária) em diversos tempos e lugares por diferentes sonhadores e com materiais heterogêneos. A história é assim resumida por Borges:

Un emperador mongol, en el siglo XIII, sueña un palacio y lo edifica conforme la visión; en el siglo XVIII un poeta inglés que no pudo saber que esa fábrica se derivó de un sueño, sueña un poema sobre el palacio. (Borges, 144)

O caso referido por Piglia aproxima Ingmar Bergman de Fernando Pessoa. A cena descrita pelo sueco remete a esta rubrica escrita pelo português algumas décadas antes:

Um quarto que é sem dúvida num castelo antigo. Do quarto vê-se que é circular. Ao centro ergue-se, sobre uma essa, um caixão com uma donzela de branco. Quatro tochas aos cantos. À direita, quase em frente a quem imagina o quarto, há uma única janela, alta e estreita, dando para onde só se vê, entre dois montes longínquos, um pequeno espaço de mar.

Do lado da janela velam três donzelas. A primeira está sentada em frente à janela, de costas contra a tocha de cima da direita. As outras duas estão sentadas uma de cada lado da janela.

É noite e há como que um resto vago de luar. (Pessoa. 441)

É digno de nota o fato de Coleridge sonhar com o palácio depois de ter lido un pasaje de Purchas, que refiere la edificación de un palacio por Kublai Khan. (Borges. p.142)

En una página (do Compendio de Historias de Rashid ed-Din, que data del siglo XIV) se lee:  ‘Al este de Shang-tu, Kublai Khan erigió un palacio, según un plano que había visto en un sueño y que guardaba en la memoria’. (Borges. ibidem)

Apesar do palácio ser da matéria de que são feitos os sonhos, foi revelado através da escrita.

Bergman poderia ter lido O Marinheiro de Fernando Pessoa e tê-lo “esquecido”, conservando a imagem sem a referência literária. Assim, ele vê primeiro quatro mulheres que falam algo que ele não entende, depois três, pois a quarta está à morte, justificando a presença das outras, exatamente como na peça estática do português.

Suspeito que a Borges agradaria mais pensar que Bergman não conhecia a obra de Pessoa. Neste caso, a alma dO Marinheiro sonhado pela Segunda Veladora teria penetrado na alma de Bergman para lhe revelar a cena que lhe deu origem. Menos convincente seria a versão em que o personagem sonhado tivesse criado Bergman para que reproduzisse o momento fundador. Menos convincente, dissemos, não impossível. Todos criamos personagens que por sua qualidade onírica chamamos de ficcionais, por que um destes personagens não poderia criar personagens aos que chamássemos de reais?

Segundo esta alternativa, a equação é a seguinte: Fernando Pessoa imagina a Segunda Veladora que imagina O Marinheiro que imagina sua autobiografia para incluir Bergman, a quem revelará a cena que lhe deu origem para que a conte ao seu modo.

Assim como o palácio de Kublai Khan persiste em ser arquitetura, O Marinheiro persiste em sua natureza literária, pois:

Spinoza entendió que las cosas quieren perseverar en su ser; la piedra eternamente quiere ser piedra y el tigre tigre. (Borges. p. 347)

O périplo deste sonho sueco-português talvez seja mais breve para oferecer ao leitor contemporâneo uma visão panorâmica do funcionamento do sistema. Atenderia, também, à poética de Borges, que sempre preferiu resenhar romances não escritos a escrever o próprio romance.

Desconfio que este marinheiro não deve ser aquele muito jovem do Nordstjärnan, de Malmö, descartado por Emma Zunz. Sequer o outro, mais baixo do que ela e grosseiro, que sem saber colaborou com a vingança frustrada desta discípula de Sófocles. Com certeza este marinheiro menos que o outro, pois não é improvável que seja finlandês. (Borges. p. 49) Demais, isto aconteceu numa Buenos Aires mítica e O Marinheiro de nossa história faz a rota Lisboa-Estocolmo.

BIBLIOGRAFIA

BORGES, Jorge Luis. Prosa Completa.  Barcelona: Bruguera, 1980, vol. 2.

PESSOA, Fernando. “O Marinheiro” in Obra Poética. R.J.: Aguilar, 1965.

PIGLIA, Ricardo. “Borges: a arte de narrar”. In: Schwartz, Jorge (org.). Borges no Brasil. São Paulo: UNESP, 2001, pp. 17-34.

VENDO a BRIGADA STEGOMYA – por lima barreto*

No Brasil tudo é grande, assegurava Tobias Barreto, exceto o homem, o que ele corroborava com a imagem feliz que bem parecíamos um moço com cabelos brancos. Fora verdade o que sentenciara o tudesco da Escada.

Tudo definha sob o nosso céu de fogo: as auras embalsamadas das florestas parecem trazer sobre as nossas cidades o letárgico veneno da mancenilha; os eflúvios ardentes do nosso sol derramam sobre nós o princípio entorpecedor do ópio; a natureza esmaga-nos – pensamento e corpo.

Que são entre nós as grandes instituições dos Argus?

A filosofia – um bimbalhar de frases ocas e campanudas ou um citar pasmoso de autores estrangeiros de quarta ordem.

A nossa literatura e arte são planetas mortos que gravitam para intermitentes e variáveis sões da estranja.

A política resume-se num descaroçar de atas falsas, na expressão de um profissional, ou numa discurseira vazia de inteligência mas cheia de palavrões e sentenças acacianas.

As grandes obras do pensamento humano, chindo nos nossos intelectos, não proliferam em outros maiores – estiolam-se: o Plutarco, por exemplo, foi lido pelo Sr. Pelino Guedes para afirmar que “a biografia é a história da vida de um homem” ou que “a idéia de Deus não é incompatível com o amor à pátria”; o que dá padrão para imaginarmos o que dirá ele se conseguir por milagre ler a Crítica da razão pura ou a Política de Aristóteles.

Somos uma gente que definha e decresce como aquele cadáver conservado à Índia, que vai, com o tempo, diminuindo, encarquilhando até ficar reduzido a proporções diminutas…

E vieram-me vindo essas idéias, ao ver nas ruas, às calhas trepadas, os rodamentos da Diretoria de Saúde.

Tinham todos o ar galhardo de campeões em batalha; nas suas faces havia a satisfação sadia de um hiplita que venceu em Maratona, as de Aquiles, garanto, não exprimiriam tão feroz júbilo, após ter arrastado sete vezes, em torno de Íon,

os despojos sagrados de Heitor vencido.

E o chefe?… Que belo estava! Jovial e sorridente, manifestava, nos largos gestos em que sublinhava as ordens dadas em voz alta ao adjudante o contentamento feliz do estratego de cujos planos dependera o ganho da batalha mortífe-

ra. Era como um Napoleão vencedor dos mosquitos; parecia um Alexandre que viesse de esmagar pernilongos em Arbelles.

E se, porventura, alguma dor n’alma lhe vier ter, provinda da perda de peleja, a badine delgada, que transporta, abrirá entre dous tijolos de uma cimalha a brecha de Roncesvales.

Ao começo vendo aquela fúria sagrada e aquele garbo no guerrear mosquitos – pensei com Frei Luís de Sousa vendo a carantonha hedionda de um leão a escorrer as fauces límpidas e tranqüilas águas: “é de ver aquele rosto feio coberto de guedelhas crespas e medonhas, que ameaça sangue e morte, feito ministro de mansas águas”.

É de ver…

Mas, por fim, fazendo as considerações expendidas e convencido que a nossa exuberante natureza custa-nos o pensamento e nos comprime o corpo, descobri que já tempo era nesse estiolar e definhar sem fim, de estarmos reduzidos à proporção de mosquitos zumbidores. Desse modo era bem razoável que, com os chefes e soldados da Brigada Stegomya, houvesse aquele contentamento e aquele furor de guerrear pernilongos, pois, se poetas por poetas sejam lidos, mais razoável será que mosquitos sejam [por] mosquitos combatidos.

Tagarela| 9-7-1903.

O MULHERÃO – por martha medeiros / porto alegre


Peça para um homem descrever um mulherão.Ele imediatamente vai falar do tamanho dos seios,na medida da cintura,no volume dos lábios,nas pernas,bumbum e cor dos olhos.Ou vai dizer que mulherão tem que ser loira,1,80m,siliconada,sorriso colgate.Mulherões,dentro deste conceito,não existem muitas:Vera Fischer,Leticia Spiller,Malu Mader,Adriane Galisteu,Lumas e Brunas.Agora pergunte para uma mulher o que ela considera um mulherão e você vai descobrir que tem uma a cada esquina.

Mulherão é aquela que pega dois ônibus por dia para ir ao trabalho e mais dois para voltar,e quando chega em casa encontra um tanque lotado de roupa e uma família morta de fome.Mulherão é aquela que vai de madrugada para a fila garantir matricula na escola e aquela aposentada que passa horas em pé na fila do banco para buscar uma pensão de 100 Reais.
Mulherão é a empresária que administra dezenas de funcionários de segunda a sexta, e uma família todos os dias da semana.Mulherão é quem volta do supermercado segurando várias sacolas depois de ter pesquisado preços e feito malabarismo com o orçamento.Mulherão é aquela que se depila, que passa cremes, que se maquia, que faz dieta,que malha,que usa salto alto, meia-calça,ajeita o cabelo e se perfuma,mesmo sem nenhum convite para ser capa de revista.Mulherão é quem leva os filhos na escola,busca os filhos na escola,leva os filhos para a natação,busca os filhos na natação,leva os filhos para a cama,conta histórias,dá um beijo e apaga a luz.Mulherão é aquela mãe de adolescente que não dorme enquanto ele não chega, e que de manhã bem cedo já está de pé, esquentando o leite.
Mulherão é quem leciona em troca de um salário mínimo,é quem faz serviços voluntários,é quem colhe uva,é quem opera pacientes,é quem lava roupa pra fora,é quem bota a mesa,cozinha o feijão e à tarde trabalha atrás de um balcão.Mulherão é quem cria filhos sozinha, quem dá expediente de oito horas e enfrenta menopausa,TPM,menstruação.Mulherão é quem arruma os armários, coloca flores nos vasos,fecha a cortina para o sol não desbotar os móveis, mantém a geladeira cheia e os cinzeiros vazios.Mulherão é quem sabe onde cada coisa está, o que cada filho sente e qual o melhor remédio pra azia.

LUMAS,BRUNAS,CARLAS,LUANAS E SHEILAS:Mulheres nota dez no quisito lindas de morrer, mas MULHERÃO É QUEM MATA UM LEÃO POR DIA

Afora-aforismo – de lucas paolo / são paulo


Ato I – De se anunciar na iminência

Cena 1 – A Imensa sentença

(Três atores devem calar)

HOMERO – Silêncio! Cadavérico, cadaver-se-á em versos.

Cena 2 – A empapada pomposa proposta

(Entra em cena o Rei Humberto III)

TORCEDOR RUBRO-NEGRO – Emanuel Humberto Atalarico, para desempenhar seu árduo papel, deves se apedantar, se glorificar, se agigantalhar, e etc…, por conseguinte, deve ultrajar os vizinhos, esbofetear a mulher, queimar dinheiro ensebado de suor perfunctorial, deve se sultanizar em sumptuosas roupas, se arrinitiar da poeirenta escória social, se ensotaquear de mon amour, se atirar em tiranias, e enfim, e etc., e és o tal.

(Afronta-se com o reflexo do não-eu sem entender o eu-não)

HUGO PAQUECK – Sumir-se-ão tuas faces: Humberto Atalarico. Serás mais brilhante que ouro e mais repugnante que bosta. Meu nobre Atalarico.

Cena 3 – Furúnculos Furosos Fazem

(Entra em cena Dentuçinho)

EMBUSTOS DOMECQ DOMADOR – Apenas ser. Entrar em contato com o cosmo. Em chama animalizar-se.

(Desliza a sombra cinzenta e sem massa cinzenta pelo tablado florestal)

TIRADENTES – Arranquemos esses, embotemos aqueles maiores. Prontinho!

(Analisa-se um rabo)

Cena 4 – O maravilhoso muro Shakespeariano

(Entra em cena A Bota e Dani Figura. Dani Figura prepara o cenário em azul-marinho e recorta A Bota em suas lateralidades)

A BOTA – La poltrona e pantofole sono i rest dell’uomo!

Não-Ato I – Luz, câmera, ação!

Cena 1 – Englobado o universo

(Entram em cena A Bota, Dentuço e o Rei Humberto III. Gesticulam e falam simultaneamente com o cuidado meticuloso de pronunciarem ao mesmo tempo o final das frases)

DENTUÇO – Não vamos perder tempo com discussões inúteis! Vamos fazer alguma coisa, não é todo dia que precisam de nós. Outros poderiam tratar o assunto tão bem, ou melhor, que nós. Esses gritos de socorros que ainda me reboam nos ouvidos foram dirigidos à humanidade inteira! Mas neste momento, neste lugar, a humanidade inteira se resume a nós. Queiramos ou não. Vamos fazer o melhor que pudermos, antes que seja tarde demais! Vamos representar com dignidade, pelo menos uma vez na vida, O papel que um destino cruel nos reservou. Que é que você me diz? É evidente também que, se ficarmos de braços cruzados e sem fazer nada, pesando os prós e contras, também faremos justiça à nossa condição. O tigre se precipita em socorro de seus congêneres. Sem a menor reflexão. Ou então, esconde-se no recesso mais fundo da floresta. Mas a questão não é essa! O que estamos fazendo aqui? Essa é a questão! E nessa imensa confusão, uma coisa é clara: O rato roeu.

REI HUMBERTO III – O que é mais nobre? Sofrer na alma as flechas da fortuna ultrajante ou pegar em armas contra um mar de dores pondo-lhes um fim? Morrer, dormir, nada mais. E pôr ponto final aos males do coração e aos mil acidentes naturais de que a carne é herdeira, num desenlace devotadamente desejado. Morrer! Dormir. Dormir, dormir, sonhar talvez. Mas aqui está o ponto de interrogação: no sono da morte que sonhos podem assaltar-nos uma vez fora da confusão da vida? É isso que nos obriga a refletir. É esse respeito que nos faz suportar por tanto tempo uma vida de agruras. Pois quem suportaria as chicotadas e o escárnio do tempo, as injustiças do opressor, as afrontas dos orgulhosos, a tortura do amor desprezado, as demoras da lei, a insolência do oficial e os pontapés que o paciente mérito recebe do incompetente quando o próprio poderia gozar da quietude dada pela ponta de um punhal? Quem tais fardos suportaria, preferindo gemer e suar sob o peso de uma vida fatigante, a não pelo medo de algo depois da morte? Esse país desconhecido de cujos campos nenhum viajante retornou, e que nos baralha a vontade e nos faz suportar os males que temos, em vez de voar para o que não conhecemos? Assim a consciência nos faz a todos covardes. E assim as cores nascentes da resolução empalidecem perante o frouxo clarão do pensamento. E os planos de grande alcance e atualidade, por via desta perspectiva, perdem a roupa do rei.

A BOTA – Denomina-se: “A Constipação”. É assim: meu cunhado tinha do lado paterno, um primo alemão, cujo tio materno tinha um pai em segundo grau, cujo avô paterno tinha se casado em segundas núpcias com uma jovem indígena, cujo irmão tinha encontrado, numa de suas viagens, uma moça pela qual se apaixonou e com a qual teve um filho que se casou com uma farmacêutica intrépida que não era outra senão a sobrinha de um inspetor de quarteirão que a Marinha Britânica não conhecia e cujo pai adotivo tinha uma tia que falava correntemente o espanhol e que era talvez, uma das netas de um engenheiro que morreu jovem, sendo ele próprio neto de um proprietário de vinhas, que produzia um vinho ordinário, mas que tinha um sobrinho-neto caseiro, ajudante, cujo filho havia desposado uma mulher jovem e muito bonita, divorciada, cujo primeiro marido era filho de um patriota de Roma.

Cena 2 – Um solipsismo realista

(FIM).

CONVERSA COM UM VELHO RIO – de marilda confortin / curitiba

Toda vez que passo na frente daquele riozinho

Ele pergunta:

– Passeando dona louca?

Atiro uma pedra nele e continuo minha caminhada.

Mais adiante ele se enfia debaixo de uma pinguela

E me provoca novamente:

– Ô dona doida, ainda não parou de falar com as coisas?

Nem tenho tempo de responder.

Ele já entra numa enorme manilha e se esconde outra vez.

Uma pedrinha curiosa se solta da mão da mãe

e rola até meus pés para brincar.

A velha rocha silenciosa, apenas observa.

Somos velhas amigas. Cúmplices dos tempos.

Um bando de garças adolescentes

faz cocô na minha cabeça.

Os bem-te-vis caem na gargalhada.

Um ipê florido, me xinga de careca.

Pode deixar… Eu me vingo na próxima estação…

Cumprimento uma roseira solitária.

Nem me dá bola.

Sempre esqueço que as rosas não falam.

Em compensação,

os beijos brejeiros se enfileiram

para me mostrar suas novas flores.

Como se multiplicam!

São como ratos, pombas e crianças de rua.

Antigamente era raro vê-los por aqui.

Aqui era um mato.

Agora virou um canteiro urbano.

Asfaltaram os carreiros,

arrancaram árvores,

prenderam o rio.

Por isso ele ficou sujo e malcriado desse jeito.

Antes, corríamos livres

e conhecíamos cada pé de amora que morava aqui.

O pé de chorão e eu ficávamos horas debruçados sobre ele,

ouvindo suas histórias de águas passadas.

Ele me chama de louca, mas quem perdeu o rumo foi ele.

Tem que andar por onde mandam,

parar onde querem que pare,

se fingir de morto, de surdo, de mudo, de bobo…

Se eu não te conhecesse, meu velho rio Belém…

– Vá tomar banho, sua doida varrida!

Não posso mais tomar banho contigo, querido.

Não posso nem me sentar ao teu lado.

Tudo é proibido.

E se me pegarem falando contigo,

me  internam num manicômio.

Ele me chama de doida que fala com as coisas,

mas ambos sabemos que insanos mesmo,

foram aqueles que nos represaram,

nos poluíram,

expulsaram as gralhas,

cortaram as araucárias,

plantaram pinus pra dar luz elétrica

em vez de pinhão.

Aqueles que taparam nossa boca

e nossos caminhos com asfalto

para que perdêssemos o rumo.

Aqueles que nos condenaram a esse…

… esse barulho ensurdecedor.

NEUROSE por hamilton alves / florianópolis

Neurose cada qual tem a sua, menor ou maior. Convive-se com ela como quem convive com qualquer outra coisa, um animal doméstico, uma planta, um livro (bom ou ruim), um amigo, e por aí vai.

Pode dar-se o caso de até se dialogar com ela.

– Vê se me abandonas ao menos por hoje.

Tenho muita coisa pela frente a fazer. Não estragues meu programa.

Tem muito doido que conversa nesses termos com sua neurose.

Leio numa revista que dois escritores namoraram por longo tempo e uniram também suas neuroses.

Ivan Lessa, que acompanhou de perto o caso, teria comentado: “em matéria de neurose nasceram um para o outro”.

Tratava-se de dois monstros sagrados de nossas letras, Clarice Lispector e Paulo Mendes Campos (quem diria, com aquela cara de santo?).

Pouco tempo depois, quando foram pilhados juntos, Paulo foi passar uma temporada em Londres (a mulher dele era inglesa), a bem de salvar a unidade familiar e escapar à sedução irresistível de Clarice, que, segundo ainda os amigos mais íntimos, o amou até o último dia.

Pergunto-me como conviveram com suas neuroses?

Não os conheci de perto. Tenho apenas vagas referências de sua conduta.

Ele era boêmio (alcoólatra?). Não chegava a tanto, mas era chegado a um copo. E perdulário.

Ela curtia uma fossa inenarrável. Tinha vindo de uma separação do marido, com quem teve filhos, numa convivência de 16 anos.

A seguir, teve um caso com Lúcio Cardoso, por quem (comenta-se) teria se apaixonado. E depois encontrou Paulo em seu caminho. Também não deu certo. Paulo era casado, beberrão, estróina e, por paradoxal que pareça, católico.

Juntaram suas neuroses em determinado momento, como bem ressaltou Ivan Lessa.

Será a neurose um componente mau do amor ou de uma relação amorosa?

Os dois, a meu ver, precisavam de sua neurose, sem o que não encontrariam o ritmo necessário a um bom relacionamento.

– Como vou casar minha neurose com a sua? – perguntou-lhe Paulo num dia em que tinha bebido demais.

– Sempre há um jeito (respondeu Clarice); afinal, minha neurose não é assim tão…tão… (como direi?) tão hostil à convivência ou ao amor.

Teria até dito:

– Minha neurose é uma aliada que tenho para desenvolver uma relação amorosa.

As neuroses de ambos podem ter se entendido (quem é que sabe?), mas havia o componente de que Paulo era casado. E isso acabou por complicar tudo.

Clarice voltou à solidão, amiga costumeira, e dedicou maior atenção a compor um romance inacabado, “A paixão segundo HG”.

BALANÇO COM NOEL por sérgio da costa ramos / florianópolis

Abri um Johnnie Caminhador, selo azul, coisa rara, e enchi os copos de gelo, do jeito David Niven: on the rocks. Lembrei-me de um pub em Edimburgo, num janeiro gelado, neve para uns duzentos Papais Noéis. Pedi uísque e gelo pelo pescoço do copo alto. Recebi um olhar de desprezo e o único gelo que concederam foi um cocozinho de cabra, boiando dentro de um copo de conhaque!

Tive que xingar a rainha Mary da Escócia, William, o Coração Valente, e o próprio sir Walther Scott para conseguirmais umas duas pedrinhas, até ouvir a sentença:

– Os distillers levaram mil anos para depurar as águas, escolher as turfas certas e a melhor cevada pra vir um bárbaro aqui exigir água da torneira e estragar o nosso blend!

Pois é. Meu uísque é assim, com bastante gelo – e pronto. Meu convidado neste dia 24 é ninguém menos do que o Papai Noel, com quem tenho uma certa intimidade desde “rapaz pequeno”:

– Senta aí, old man… Vai um uisquezinho?

A Ave Maria de Gounod já anunciara a hora do ângelus e, à medida que o sol declina por trás da Serra do Mar, as papilas pedem “umazinha” pra celebrar a Natividad.

Para minha frustração, Papai Noel pediu uma “aquavita”, destilado dinamarquês, que mistura cereais, aniz, coentro, cravo e canela – mais algumas alquimias aromatizantes. Fazer o quê? Gosto não se discute. Providencio a bebida do bom velhinho, espero pelo seu primeiro gole, não sem antes trocarmos um caloroso Salut!

– O que houve com a árvore de Natal da cidade? Vinha fazendo o voo de aproximação com as minhas renas e não percebi qualquer sinal de árvore natalina…

– É uma longa história, meu velho. Coisas do Brasil e das administrações transparentes…

Dedicamo-nos, então, a “passar a limpo” esse 2009, que já agoniza no seu leito temporal, pronto pra virar história. O velhinho lamentou – lamentamos – o desaparecimento do astro pop, Michael Jackson, o gênio do rock-thriller, o inventor do jeito moonwalker de dançar, mas um menino que se perdeu na obsessão (de que também sofria o sublime poeta Cruz e Sousa) de querer se tornar um branco. Gostava mais do Michael genuíno, sem máscaras, dos tempos do Jackson Five…

Como sempre, o ano foi cruel, levou gente justa e famosa – e deixou por aqui tantos patifes, mensaleiros e corruptos, dos quais esse Arruda lá de Brasília é verdadeiro “emblema”.

Todo ano cobra a sua quota de injustiças e catástrofes – suspirou o bom velhinho –, lamentando as enchentes do Vale do Itajaí, as chuvas, os deslizamentos, a morte de inocentes pela natureza desregrada.

– E ninguém faz nada pra melhorar a saúde ambiental do planeta, a natureza está “enferma” – e ela mesmo se “vinga”… Olha o que acabou de acontecer na Dinamarca, durante a COP15! Não fizeram nada, além de tomar umas aquavitas, é claro…

– Mas esse 2009 foi glorioso para o futebol – não é mesmo, Papai Noel? Pra mim, que torço pelo Avaí e pelo Mengão, nessa ordem, foi simplesmente glorioso! Pra quem é que o amigo torce, além de usar essa roupa do Inter de Porto Alegre?

– Sou Barça, meu amigo! Fui seis vezes campeão neste ano de 2009, estou comemorando o título mundial até agora!

– Foi ótimo pro futebol. Aqueles botinudos retranqueiros da Argentina, os Estudiantes, precisavam mesmo voltar pra escola…

Despedimo-nos com um abraço e o consenso de que o ano não foi de todo mal. Depois do desastre de Wall Street, o Brasil vai se recuperando bem e já não há tanto desemprego. Os shoppings estão cheios e a missão do velhinho está bem encaminhada.

Todo mundo assume a sua porção Noel e sai por aí a escolher presentes para os afetos e até para os desafetos. Uma gravata para o patrão, um videogame para a criança, uma bola para o futuro craque, um biquíni para a “Uva”, um óculos de sol para a namorada, um uísque para o pinguço – sem esquecer de um “autopresente”. Sim, será que o Papai Noel não reserva naquele saco um presente para si próprio?

O próprio Noel me confessou, naquela sua arrevesada língua do Ho-Ho-Ho, qual seria o “seu” presente:

– Quero me mudar da Lapônia pra Floripa! Aceito qualquer cobertura com vista pra Praia Mole!

NOITE DE REIS por hamilton alves / florianópolis

Num distante ano, num dia de Reis (ou Reis Magos), que se festeja a 6 de janeiro, apareceu, frente a minha casa, no interior da Ilha, um Terno de Reis, que, em vez de três (para ser caracteristicamente terno), era formado de quatro músicos. Dois tocavam violão, um cavaquinho e outro pandeiro (se me lembro bem). O vestuário dos quatro era de impressionante beleza, não que fosse de qualquer modo para fim de exibição pública, e, sim, do dia a dia. Nada poderia lhes calhar tão bem para o espetáculo a que se propunham. Eram afinadíssimos tanto na música quanto no canto que produziam.

Queria me deter especialmente no pandeirista, um velhote baixinho, com um paletó bem comprido, que lhe ia até abaixo do joelho, um chapéu de abas bem curtas, que lhe dava um ar típico e que o fazia se casar tão bem ao conjunto dos demais e até com algum realce quanto à indumentária.

Os quatro permaneceram, sob a luz de um poste público, por largo tempo, em torno dos quais logo se formou um grande número de pessoas, que se mostravam encantadas com a beleza improvisada dos cantadores.

– Quem me dera ter uma máquina de filmar – disse para mim mesmo na ocasião – para guardar essa imagem incomparável em beleza.

Eram artistas amadores (saídos do seio do povo), inteiramente ignorados quanto a sua grandeza, importância artística ou fosse lá o que fosse que poderiam, eventualmente, torná-los famosos ou populares.

Nem fizeram coleta de dinheiro dos expectadores, como é comum nesses casos.

Estavam ali brindando a Noite de Reis, que era, na realidade, uma noite belíssima, de um céu estrelado, de um ar tépido.

Como reproduzir essa cena tão bonita?

Lembrei-me de sugeri-la a um de nossos pintores para expressá-la.

Conversei com Tércio da Gama, que é mestre em trabalhar em temas semelhantes. Depois de um tempo, dera por concluido o trabalho, presenteando-me com a tela.

A ilha, a uns tempos passados, tinha um caráter mais rústico (hoje toda a nossa paisagem foi de alguma forma afetada (e piorada) pela urbanização desenfreada e mal planejada. Não há mais um cenário adequado para esses cantadores populares em Noite de Reis. E em outras manifestações semelhantes de nosso folclore, que é , sem dúvida, um de nossos traços culturais marcantes e ricos.

Tudo isso, que devia ser preservado como peculiar à vida ilhoa, vai pouco a pouco desaparecendo, até o dia que só nos restará esse furor de sons promovidos pelas bandas de rock, que nada têm a ver com nossas tradições culturais.                                                  Lembro-me com nostalgia desse grupo de grandes artistas populares, anônimos e belos, que enfeitavam nossas Noites de Reis.

LITERATURA PARA QUÊ ? – por marcelo spalding / porto alegre

Eis uma questão recorrente em salas de aula e mesas de bar: afinal de contas, literatura para quê? Respostas prontas temos várias: ler é viajar, ler é conhecer a si mesmo, ler é trilegal, ler é tudo. Mas raros são os textos sérios sobre o tema, textos que abordem de frente a diminuição do tempo de leitura, do gosto pelos livros, especialmente os literários, do desinteresse social por uma instituição milenar como a literatura. Por isso indico a leitura do livro de Antoine Compagnon Literatura para quê?(Editora UFMG, 2009, 57 págs.), resultado de uma conferência do autor no Collège de France.

Logo num primeiro momento percebemos que essa problemática não é própria do Brasil e sua educação deficiente: Compagnon fala do “berço da civilização” para um público de letrados franceses que um dia estudaram ou conheceram Barthes, Lévi-Strauss etc. E diz:

“Hoje, mesmo se cada outono vê a publicação de centenas de primeiros romances, pode-se ter o sentimento de uma indiferença crescente pela literatura ou mesmo de um ódio à literatura, considerada como uma intimidação e um fator de ‘fratura social’. (…) Toda menção ao poder da literatura era julgada obscena, pois entendia-se que a literatura não servia para nada e que somente o domínio dela contava. Mas em nossa época de latência em que o progressismo como confiança no futuro não está mais na ordem do dia, o evolucionismo sobre o qual a literatura repousou durante todo um século pode ter chegado a seu termo”.

Preciso nos diagnósticos, o autor não consegue, porém, responder de forma convincente sua própria indagação, embora aponte alguns “para quês” fundamentais. Lembra uma frase de Sartre, por exemplo, que dizia: “mesmo que não haja livro que tenha impedido uma criança de morrer, seu poder nos faz escapar das forças de alienação ou de opressão”. “Contrapoder”, dirá Compagnon, “[a literatura] revela toda a extensão de seu poder quando é perseguida. Por conseguinte, o enfraquecimento da literatura no espaço público europeu no final do século XX poderia estar ligado ao triunfo da democracia: lia-se mais na Europa, e não somente no Leste, antes da queda do muro de Berlim”.

O deleite, é claro, também aparece como um motivo importante para a existência da literatura, mas Compagnon ressalta que “a recusa de qualquer outro poder da literatura além da recreação pode ter motivado o conceito degradado da leitura como simples prazer lúdico que se difundiu na escola do fim do século”. Adiante, o autor arrisca que “a literatura deve ser lida e estudada porque oferece um meio de preservar e transmitir a experiência dos outros, aqueles que estão distantes de nós no espaço e no tempo, ou que diferem de nós por suas condições de vida”.

A evolução tecnológica e o surgimento de outras mídias para a ficção, como o cinema, não passam desapercebidos pelo autor, que afirma, entretanto, que “a literatura inicia superiormente às finesses da língua e às delicadezas do diálogo”, para concluir sua fala, adiante, dizendo ser a literatura não a única, mas mais atenta que a imagem e mais eficaz que o documento, o que é suficiente para garantir seu valor perene. “Ela é A vida: modo de usar, segundo um título impecável de Georges Perec.”

Até aqui me ative ao precioso texto de Compagnon, que não poderia mesmo ser definitivo, mas expõe uma ferida aberta e nos permite, também, pensar sobre ela. Afinal, literatura para quê? Agora me proponho a arriscar algumas respostas.

Primeiro, não sou daqueles que acham que a literatura torna o homem ou a humanidade melhores. Meu pai deve ter lido meia dúzia de livros em toda sua vida e é uma pessoa boníssima, enquanto pessoas de ética duvidosa têm estantes abarrotadas de clássicos (lidos ou não), e por vezes se jactam em citá-los (Fausto O Príncipe, não por acaso, entre eles).

Segundo, não acho que seja impossível vivermos sem literatura. Uma vez uma professora comentou, na faculdade, que era impossível vivermos sem poesia. Contestei, dizendo que muitas pessoas jamais abriram um livro de poemas, e ela me respondeu que na sociedade moderna muitas vezes as músicas, com suas letras, suprem esse papel. Bela resposta, me convenceu. Assim também nenhuma pessoa pode viver sem narrativas, mas pode viver sem ler romances, pois as narrativas estão no cinema, no teatro, nas telenovelas, nos quadrinhos.

Terceiro, não acredito que a literatura ajude alguém a “vencer na vida”. Não por culpa da literatura, mas porque “vencer na vida”, hoje, significa ter mais dinheiro ou mais poder ou mais respeito, e a literatura por si só não torna ninguém mais rico ou poderoso ou influente. Não por acaso policiais ganham muito mais que professores, e aspirantes a modelos são muito mais valorizada$ que escritores. Sem falar nos jogadores de futebol…

Ou seja, parte desse questionamento de literatura para quê tem a ver também com questionamentos mais amplos que devemos fazer sobre a vida. Viver para quê?, pergunto eu. Se for para acumular riquezas e porres e cargos, a literatura não serve para nada mesmo. Não se iluda. Agora se vivemos para conhecer, ampliar os horizontes, descobrir o outro e nós mesmos, explorar aquela enorme fatia do cérebro inexplorada pela maioria dos homens, a literatura é, sim, fundamental. Se valorizamos a liberdade e a diversidade, a literatura é, sim, fundamental. Se queremos indivíduos críticos e ativos socialmente, a literatura é, sim, fundamental.

Não só a literatura, claro. E está aí, aliás, uma grande confusão: a literatura perdeu muito espaço de 100 anos para cá, de 50 anos para cá, porque seu espaço era exagerado, superestimado. A literatura havia se institucionalizado de tal forma que se confundiu com a arte em si, mas a arte abriga o cinema, a música, o teatro, a ilustração, a pintura, a escultura e, inclusive, a literatura. Nem mais nem menos importante: a literatura é a arte da palavra.

Aliás, talvez responder para quê literatura seja olhar com atenção essa definição: a literatura é a arte da palavra. Ou seja, enquanto existir arte ou enquanto existir palavra, fatalmente haverá alguém fazendo literatura e alguém buscando literatura.

Outra resposta mais afinada com nossa sociedade materialista seria a de que a literatura é uma “vantagem competitiva”, porque um leitor de literatura sempre será um leitor melhor, mais preparado para as leituras técnicas, os concursos, os contratos… Mas deixo esse tipo de argumentação para os leitores de Maquiavel.

O SILÊNCIO DOS INOCENTES por sérgio da costa ramos / florianóplois

Uma boa democracia não poderia jamais dispensar três cláusulas pétreas: liberdade de imprensa, alternância no poder e políticos honestos.

Nem será preciso repetir, aqui, a nunca assaz citada máxima de sir Winston Churchill, segundo a qual a democracia é o pior dos sistemas de governo – “com a exceção de todos os demais”.

Nem todos pensam assim, principalmente os autocratas, os caudilhos do continuísmo e os políticos que fazem da cueca o seu cofrinho.

Neste momento, no Brasil, os três pilares da democracia estão sob feroz ataque. A imprensa vive, no Hemisfério Sul, um momento de semiescuridão: os governos mal escondem a “comichão” pela censura prévia, a saudade dos tempos em que os borzeguins entravam numa redação e lá penduravam o seu Index Proibitorum. Houve época, na ditadura, que noticiar um surto de meningite meningocócica “era proibido”. A notícia era considerada mais perigosa do que a doença. Hoje, a imprensa está proibida de publicar a “advocacia administrativa” do filho do senador José Sarney, Fernando, gravado, mediante autorização judicial, quando “negociava” nomeações para o feudo do pai, inclusive a do novo namorado da netinha senatorial.

A imprensa não deve, jamais, substituir a Justiça – e, infelizmente, como tantas instituições, a imprensa também falha. Mas uma boa democracia prefere correr esse risco. Pois o preço da liberdade, bem sabemos, é muito maior. Não foi à toa que Thomas Jefferson, um dos fouding fathers da pátria americana, proclamou, há mais de 200 anos:

“Se me fosse dado escolher a existência de um governo sem jornais, ou jornais sem um governo, não hesitaria um momento em preferir a segunda hipótese.”

O segundo pilar, a alternância no poder, está sob fogo cerrado dos que “não querem largar o osso” – e, aqui, é “ânimo geral” entre os políticos que se consideram “grandes benfeitores”, primeiro, de si mesmos, e, depois, dos seus partidos sem nenhuma tradição ou compostura. A perpetuação no poder, ou a reeleição ad infinitum, é o primeiro requisito dos regimes liberticidas. Adolf Hitler só existiu na lamentável história de sangue e opressão da primeira metade do século 20 porque cultivava a sua própria perpetuação no “Reich dos Mil Anos”. A Alemanha não sairia incólume do estigma de ter transigido e “permitido” a instalação de um Estado-Bandido – e muito se deve à omissão dos bons, ao silêncio dos “inocentes”, aqueles que ouviam falar dos pogroms (massacres) étnicos, do horror dos campos de concentração, ou dos que aceitaram o Parlamento do partido único, da única verdade e da única imprensa, a oficial…

O último dos pilares, talvez o mais importante – o espírito público dos políticos de uma verdadeira democracia –, nunca esteve “antes neste país” tão corroído, corrompido e arrasado.

O primeiro filtro da honestidade deveria estar nos partidos – desde que esses fossem instituições respeitáveis e autênticas representantes das três ou quatro correntes do pensamento político, gradações entre um liberalismo mitigado e um socialismo democrático. O que esperar de 40 partidos, a maioria “provisórios”, dispostos a alugar a legenda? O que move um partido nascido na ditadura – e, portanto, conservador, a aceitar a inscrição de facínoras, como Hildebrando Paschoal, o ex-deputado federal da motosserra? Ou os Delúbios do mensalão, agora revigorados – no outro extremo – pelos cuecões e meias desse inefável José Roberto Arruda, ainda governador do Distrito Federal?

Acredito na existência de políticos honestos. Inteiros. Homens públicos para os quais a independência moral é o esteio da dignidade. O problema – para o Brasil e para sua tenra e hesitante democracia – é o silêncio desses honestos. Se não se manifestam, levam à crença de que não existem. Aí, a própria democracia corre o sério risco de morte. Hitler só foi factível porque a democracia de Weimar “apodreceu”, no meio da inflação e da corrupção.

Os inocentes precisam falar, protestar, dizer “Não!” aos que sujam as águas do rio democrático. Antigamente, quando um governador ia assumir o seu cargo, o cerimonial do palácio programava para a primeira hora da manhã uma Missa em Ação de Graças – na Catedral Metropolitana.

Hoje, o cerimonial remete o novo mandatário para os ofícios de um indiciamento no Código Penal – na catedral da Polícia Federal.

Os cordeiros de Deus não podem se calar.

ANGÚSTIA de joão batista do lago /são luis.ma


Dobram os sinos na minha catedral!

Aguardo os fiéis

Mas eles não chegam…

Passam as horas

Passa o tempo e todos os Tempos

Mas eles não chegam…

Para quem direi o meu sermão?

Há multidão dentro de mim

E ela está mouca!

E (também) não chega…

Então estou só

Guardado no sacrário das

Minhas angústias

Esquecidas como o velho vinho

Agora tornado vinagre

Que só a mim

Cabe-o sorver

Às 06:00 horas

Dum Tempo qualquer

Tornarei aos sinos da catedral

E os tocarei

E esperarei, por fim,

Que todos regressem

Rumorejando (Será que efetivamente vão lançar no mercado cuecas e meias com fundo falsos, perguntando). – por juca (josé zokner) / curitiba

PEQUENAS CONSTATAÇÕES, NA FALTA DE MAIORES.

Constatação I (De diálogos desencontrados).

Exclamou a mulher que estava ao telefone: -“Caiu a ligação”.

Quis saber o marido que estava lendo o jornal: -“E ela se machucou ?”

Constatação II (De diálogos esclarecedores).

-“Afinal, aquele esquema de reencontros, de aproximações sucessivas para reatar com a tua ex-mulher acabou ocorrendo ?”

-“Que nada. Arrumei uma outra, muito melhor”…

Constatação III (De elucubrações, com conselhos úteis).

A palavra caduca pode ser escrita também da seguinte maneira 2k+du, senão vejamos:

Caduca, colocando em evidência “ca”, segue-se: ca(1+1)+du = 2ca+du; ca = a constante k,  donde caduca = 2k+du, c.q.d.*

*Se você ainda não aprendeu c.q.d. quer dizer como queríamos demonstrar, conforme Rumorejando já andou divulgando em tempos imemoriais.

Constatação IV (De resposta “bazofiamente” “gabola”).

“Você conseguiu resolver aquele problema que eu depois de mil e uma tentativas não consegui ?”

“Claro! Não só resolvi como achei a solução muito fácil, muito elementar”…

Constatação V (Via pseudo-haicai).

Procurou, com acuidade,

Uma rua, sem buraco, lá,

Na sua “desadministrada” cidade.

Constatação VI

Quando a gente estudava no ginásio, a Cadeira de História do Brasil, os livros e os professores, da época, enalteciam os Bandeirantes, sob a alegação que eles desbravaram o interior, abrindo novos caminhos, quando, na verdade, iam em busca de riquezas, como qualquer povo colonialista fez em todos os tempos, seja na América, Ásia, África, nesses continentes todos, enfim. O que os Bandeirantes escravizaram, torturaram e mataram índios, dificilmente é abordado, como a  História Oficial deveria. Tá na hora, pois, de revisá-la. Mormente, levando-se em conta que já comemoramos os 500 anos do descobrimento que só foi na base de oba-oba.

Constatação VII (De respeitosa mensagem aos senhores filólogos).

Assim como existe a figura do livreiro – não me refiro somente ao vendedor de livro, mas aquele que te orienta, uma vez que também costuma ler as obras do seu estoque –, existe, também, o “videolocadeiro”. A sugestão, do neologismo, fica aqui consignada para a sua respectiva adoção. De nada!

Constatação VIII

Não se deve confundir faturamento com futuramente, muito embora todo e qualquer faturamento que seja contra a nossa douta e ilustre pessoa poderia e deveria ser feito futuramente, isto é, adiadas sine die e sem juros. No caso do faturamento ser feito por nós, seria de bom, muito bom, de ótimo alvitre que fosse para pagamento a vista, sem desconto. Aliás, foi agindo dessa maneira que um comerciante descobriu como “tirar proveito em tudo”, tão em voga hoje em dia em vários setores…

Constatação IX (Via pseudo-haicai).

O gerente ficou tiririca:

Ao invés de assinatura

Uma ilegível rubrica…

Constatação X (Ah, esse nosso vernáculo).

Eles foram educados, para serem educados. Qual o quê !…

Constatação XI (Via pseudo-haicai).

Esgueirou-se do hospital.

Assim, sobreviveu

A mais de um carnaval…

Constatação XII

As estações do ano estão se antecipando em um mês. Talvez pelo fato da Terra estar se inclinando. Mas, com toda a segurança, não deve ser pelo peso da consciência da Humanidade. Principalmente daquela que se considera civilizada. Muito menos, da dita que se arvora a civilizar os outros…

Constatação XIII

A fim de, em tempo algum, não ser acusado de machismo, Rumorejando sugere que nas conjugações dos verbos também sejam incluídos os pronomes femininos “ela” e “elas”. Exemplo:

Eu rabisco

Tu digitas

Ele escreve

Ela datilografa

Nós garatujamos

Vós “vernaculais”

Eles redigem

Elas transcrevem.

Outro exemplo:

Eu digo

Tu sussuras

Ele declara

Ela resmunga

Nós falamos

Vós exclamais

Eles balbuciam

Elas fofocam.

Constatação XIV

A amiga da japonesa grávida, que há muito tempo não a via, perguntou simpaticamente:

-“É um japonesinho que vem vindo aí ?”

-“O Kenitiro, meu marido, que você ainda não conhece e que também é japonês, espera que sim”…

Constatação XV (Teoria da relatividade para principiantes, não necessariamente apenas pros vetustos, óbvia).

É muito melhor sofrer de priapismo – excitação sexual excessiva – do que de impotência – “desexcitação” sexual excessiva.

Constatação XVI

Efetivamente, num aspecto, as mulheres já se igualaram aos homens: as mesmas barbaridades que eles cometem no trânsito, elas também estão cometendo…

Constatação XVII

Sob condições normais

De pressão e temperatura,

Ela, sem seus percais,

Mereceria uma moldura…

DÚVIDAS CRUCIAIS

Dúvida I

Foi o fabricante de parafusos, aquele que tinha um parafuso a menos, que, com as medidas governamentais, entrou em parafuso ?

Dúvida II

Se, eventualmente, o psicanalista conhece e não gosta da pessoa de quem a gente, na sessão, está se queixando e/ou falando mal, não é ele que nos deveria pagar a consulta ou, pelo menos, fazer um razoável desconto ?

Dúvida III

“Me diga, prima: Prima pela ausência a prima do teu primo ?”

Dúvida IV

É mentira, ou verdade, que é mentira ?

Dúvida V

Se os franceses fossem tão apaixonados por futebol como nós, brasileiros, e se não existisse no seu hino nacional o “le jour de gloire est arrivé”, o dia de glória chegou, será que, depois de haverem levantado a Copa do Mundo – vencendo na final, estrondosamente, o Brasil –, será que eles acrescentariam esse tão patriótico trecho ?

Dúvida VI

A alternativa para fugir dos remédios com efeito colateral é recorrer à medicina alternativa ou existe alguma outra alternativa ?

Dúvida VII (De um diálogo com a famosa rima em “ão”, tão raramente usada…)

-“Não é a televisão

Que deixa teu patrão

Mais bobão ?”

-“Meu caro irmão,

Se isso não,

O que, então ?”

Dúvida VIII

Sabendo-se que as ostras somente elaboram uma pérola quando doentes, se alguma espirasse perto de você, você exclamaria “saúde!”, com sinceridade ?

Dúvida IX (Via pseudo-haicai).

Uma derrota do Brasil

Ou do teu time, também te deixa

Uma sensação de vazio ?

Dúvida X (Via pseudo-haicai).

À perspectiva de eleição,

Você também considera

Uma encheção ?

Dúvida XI

Era a atriz que, esperando sua vez de entrar no palco, ficava, no bastidor, bordando com bastidor?

PROFESSOR de marilda confortin / curitiba

Não fale grego comigo!

Não sabes o perigo que estás correndo!

Eu não entendo!

E um mal entendido pode despertar

a ira do minotauro adormecido

do livro de Tolentino que ando lendo.

Mestre, mestre…

Tu sabes que odeio línguas (exceto a tua).

Elas só dizem o que já foi sentido.

E se não sinto na tua ou na minha língua,

não faz sentido.

Beije-me!

Deixe que eu entenda

o que dizem as estrelas

do céu de tua boca.

Não preciso de idiomas

para ouví-las, sentí-las

vê-las cintilando a olho nu,

em nosso olhos,

nus.

Esquece a classe, professor.

Traduza-me enquanto te devoro!

O MAR SECRETO de otto nul / palma sola.sc

À noite o mar

Tem segredos

Tudo se resume

A um esplendor

Ante o mar fico

Mudo e quedo

O mar à noite

É um degredo

Tão secreto

De dar medo

O mar sem rumo

Sem sossego

CRÔNICA DE NATAL – por jorge lescano / são paulo

O senhor me ama? – indagou a bela.

De modo algum – ripostou o Fama*.

Então tira! – exigiu a donzela.

Na longa noite de inverno (caprichar na cor local), apesar da névoa e do mau tempo normais, após termos sido espetados diversas vezes por galhos de pinheiros congelados, darmos de chofre em chifres de renas, sermos despistados pelos latidos de cães São Bernardo e acompanhados de perto por uma escalofriante matilha de lobos em jejum, chegamos à aldeia.

Tiritando, nem só de frio, manipulamos a aldrava – todos juntos, não! Esperamos poucos minutos, porém gélidos, na escuridão circundante. A porta é aberta por uma anciã corretamente vestida à moda dela. Dona (sic) de olhos cinzentos e de cabelos brancos como o tapete que cobre a Lapônia (boa a relação da personagem e o seu meio ambiente).

Segundos de incerteza separam nossa pergunta em esperanto de sua resposta numa língua do grupo ugro-fínico (esta é fina, hein, J.L?). O intérprete nos diz que ela  vai “ver se o patrão tá por aí”. Hum, pensei berlitzianamente. A nativa volta; adentramos na humilde choupana.

A decoração é encantadoramente rústica. Paredes de madeira, poltronas forradas com peles de urso e, defronte a nós, aconchegante lareira acesa. Tapeçarias minuciosamente bordadas mostram cenas natalinas em várias partes do mundo. (A cor local tá jóia! Agora um toque de nacionalismo.) Para nossa surpresa, o Brazil também está ali representado: à sombra de uma bananeira nevada, um simpático Mickey, dono (sic) de olhos azuis, alva barba e pijama vermelho cheio de babados, carrega, num trenó, sacos de vários tamanhos e variegadas cores. De um deles caem artisticamente algumas frutas típicas: amêndoas, castanhas, nozes… Ficamos comovidos por reencontrar, nas antípodas, um cantinho da  pátria amada.

Repentinamente ouvimos um rufar de motor e hélices planando por cima do telhado, este recoberto de capim, para conservar o calor. Do centro de uma nuvem de cinzas, sorrindo kolynamente e corretamente vestido para a ocasião, Ele surge sobre o fogo da lareira. Esboça uns passos de dança ou de algum esporte desconhecido por nós. A maternal governanta Tove, 983, oferece-nos uma coke gelada. Tanta hospitalidade deixa-nos acanhados. O consagrado idoso afasta nossos receios com sua proverbial bonomia.

– TOC-TOC! – a porta dá à luz um rosto de contínuo:- Na recepção há um ancião maltrajado, presumivelmente ébrio e deficiente auditivo, a julgar pelo modo de inclinar a cabeça, que deseja falar consigo.

– Manda entrar na fila! Estou escrevendo a crônica de Natal.

– Ele porta um saco do Pão de Açúcar vazio e afirma ser Papai Noel.

– Então diz para ele que ele não existe.

– Já foi devidamente informado, mas é surdo ou se faz de tal.

– Que língua ele fala?

– Lusitano de Sarjeta & Banguela.

– Então é nosso Papai Noel! Fala que não estou.

Mi saberr qual serr vossa míssão – diz Papai Noel, 952, empurrando-nos moralmente para o fundo das poltronas macias. Afirma: Serr tudo lorrota, gente boa! – Acende seu cachimbo norueguês e se concentra na contemplação do próprio umbigo. “Pronto, o papo mixou!”,   pensamos  em  mil  novecentas  e  noventa  e  nove  línguas  cultas – incluindo a portuguesa – pois somos dois mil os repórteres à espera da entrevista exclusiva.

Sorry... – diz o inglês; todos entendemos porque a esta altura a tradução é simultânea.

O nórdico levanta uma mão gorducha:

Porr êxemplo: mi nunca estarr em zona suadirige-se ao enviado especial do Kopan Zeitung.

A  revelação é: Otillaten! Magelost! Unglaublich! Incroyable! Incredible! Incredibile! Increíble! Etcétera!

(Esta nem Georgie. Rá!) Quem, então, presenteava as criancinhas da supracitada zona?!, perguntamo-nos à socapa, fitando-nos de esguelha.

Álias, se vôces querrem mesmo sáberr, nunca éstar em zona nênhuma, mi serr  homem caseirro – continuou o escandinavo, implacável.

Pretendia o veterano manter esse tom ambiguo de conversa? Estaria a imprensa disposta a tolerá-lo? Hum!, tornei a pensar, em conseqüência.

O enviado em pauta decidiu mostrar que sou cobra no meu serviço:

– Então o senhor não é?… – pergunsugeri venenosamente.

– Arrrre, quanto a isso!… – as reticências do lendário ser soavam sardônicas.

–  O que o  senhor não quer dizer com isso?

– Toc-Toc! / Ele insiste./- Já falei!/- Mas ele insiste./- Dá o FORA!

– Poderr escrrêverr que não conhêcerr  parrturriente em qüêstão! – chumaços de fumaça saem por todos os orifícios do seu crânio desmatado.

Well!...  – o anglo-americano quer: – Prouvas, míster Claus!

De facto, pois que nas montras estão à mostra meias rendadas, máscaras,  chicotes e  apetrechos diversos…

– Dependurados em pinus erectus, de cujos cumes goteja alva neve

– Assim, até minha mulher, ora!… Está a perceber?

Y su barba brillante, su sonrisa de algodón… Bien…, prometen cosas que las niñas...

As raparigas.../ Le fanciulle…/ Las filles…/The girls/As ninfetas, em suma!

Sem falar dos miúdos

– E dos seus colegas

Tudo fazerr parrte de  plano muito bem bôlado parra envôlverr eu em mêrrcado errótico interrnaciônal. Um jogada de merrchandise, está a se verr – declara o ancião mexendo no saco, e acrescenta, em portinavo:- Mi desâfiarr múlherr provetarr o que dizendo! Todo senhôrrita prrenhe terr önskan!… vôntades, isto!

Ma è fatto che Lei e la ragazza!… – retorquiu furioso o itálico.

Madame Marie et le petit garçon... – intervêm com  charme o haitiano.

Serr  porr  isso  que  mi  querrerr  chamado  serr  de  títio, ou mêlhor, vovôzinho! – sapateia nas pontas dos pés o descendente de Thor, à beira  do pranto em sua língua materna..

Si, si, Il Bambino!…

Todo crriança serr um prroto-dada! – sofismou o patriraca mítico. – Prrova serr que ainda acrreditarr em Pápai Nöel! / toc… toc. PÔ! TOC!!! / E nos despediu abruptamente, em danês (sic): – Féliz Nátal prôces!

Nossa modesta opinião é que Papai Noel, que nunca foi criança, teria bebido manguaça em demasia – como todos, aliás, nesta época do ano – razão pela qual sempre sai nas fotos com o nariz vermelho, ou…

PAI E MÃE (CRÔNICA INSPIRADA EM “PAI E MÃE” DE GILBERTO GIL) – por zuleika dos reis / são paulo

O pai que me habita tenta sempre ser uma mulher amorosa e a mãe em mim, um homem justo mas, às vezes, essa troca de papéis gera apenas uma enorme confusão nos papéis.

Diz Chico Buarque em “Fado Tropical”: “E se meu coração nas mãos estreito, me assombra a súbita impressão de incesto”.

Quando eu te beijo, meu amor, é tanta vez com os lábios de tua mãe, daquelas mães antigas sempre à beira do cais, em noites de calmaria, em noites de tempestade, rezando pela volta dos navios com seus marinheiros a salvo.

Quando me beijas me assombra, às vezes, a súbita saudade de meu pai.

É como se não houvesse senão mães e pais, todos os demais papéis sendo apenas variações dessa potência primeira gerada da união de dois corpos e prolongada através da vida por todos os outros corpos, potência sempre e sempre aparentemente outra.

Pai e mãe tanta vez implacáveis no seu amor e na necessidade ditada pela Lei de restabelecer a Justiça através do Sacrifício. E então o filho se vê só, em hora de Sacro-Ofício e pergunta: PAI, POR QUE ME ABANDONASTE? Mas, pai e mãe mantêm os lábios selados. Então, só resta  ao filho confiar-se à escuridão do Silêncio Que Nada Diz e, apesar disso, esperar. Esperar contra a esperança; esperar sobre a esperança, como sobre um barco à deriva. Esperar, apesar de. Confiar-se a.

E, enquanto isso, a canção fala de um amor sem brechas, sem qualquer fratura. O céu azul é apenas um céu azul. Na árvore, um pássaro canta. É apenas um pássaro que canta e essa é a verdade simples e transparente. Simples e transparentes pais e mães do mundo, um Único a ouvir conosco este pássaro cantando na tarde azul.

SÉRGIO DA COSTA RAMOS faz segundo lançamento do livro PILOTO DE BERNUNÇA no “BOX 32” em Florianópolis

o jornalista e cronista SÉRGIO DA COSTA RAMOS bate papo com o poeta JB VIDAL no BOX 32 do Mercado Municipal, onde fez um segundo lançamento de seu livro PILOTO DE BERNUNÇA. SÉRGIO, no dizer de MILLÔR FERNANDES é o melhor cronista brasileiro da atualidade.  foto do editor do livro VINÍCIUS ALVES. 02/12/09.

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SÉRGIO autografando seu livro para o BETO , ao centro, e JB VIDAL. BETO é o gourmet que comanda o BOX 32 e sua griffe de cachaças de excelente qualidade. ontem, 2/12/09, passaram pela mesa de SÉRGIO mais de uma centena de admiradores e amigos. foto do poeta e editor VINÍCIUS ALVES. 02/12/09.

BALANÇA COMERCIAL de nauro machado / são luis

Troco sóis pelas naus,
os são pelos loucos troco,
na embriaguez com que soco
minha fúria no meu caos.

Tudo é uma questão de troca:
noves fora, restam nove,
até que outro alguém nos prove
que Deus é um dente sem broca,

que Deus é um maxilar
independente do alvéolo
tal como independente é o
ser do seu próprio estar.

Onde estamos não nos cabe,
onde estamos não comporta
a nossa alma que é uma morta
que do corpo nada sabe.

Ó desejo para fora
a romper-nos desde o dentro!
Ah, sairmos do nosso centro
para sempre e desde agora!

Abandonarmos casca e ovo,
abandonarmos a casca,
é um desejo que nos lasca
para quebrar-nos de novo.

Sermos gema, sem ser clara!
Sermos o Ser que É, não o que é
uma coisa chã e qualquer
nesta cara, a mesma cara!

Termos olhos, que são dois,
termos olhos, só dois a esmo:
troco tudo por uns bois
e até a alma comigo mesmo!

Troco tudo, como troco,
se trocar eu me pudera,
esta verdade quimera
do sonho com que me soco.

De O Signo das Tetas (1984)

Florianópolis: BOX 32 e VINÍCIUS ALVES (Bernúncia) CONVIDAM:

SONETO QUEBRADO de joão batista do lago / são luis


Vasos quebrados (e)

Espalhados pela casa

Perseguem meus caminhares

Órfãos de emoções e razões

.

Oh! Madrugadas insólitas

Cosmopolitas

Vagas em mim como putas vagabundas

À procura duma naca de felicidade

.

Mas depois do gozo fatal

Emolduras-me nos umbrais dos esquecidos

Donde todos os meus silêncios são gritos adormecidos

.

Ecos que vibram na minha caverna

Solitária de emoções e razões

Onde apenas flores podres vicejam um pétala já morta

MEUS MORTOS de tonicato miranda / curitiba


 

para Carlos Eustáquio

 

 

.

ouvindo Romeu e Julieta de Tchaikovsky

choro copiosamente sem soluços e águas

elas que sobram lá fora na chuva lavadeira de janelas

seguindo pelas sarjetas e calhas, lavando-me mágoas

choro meus mortos deixados na infância distraída

choro meus mortos porque sinto esta culpa traída

pois deixei-os intactos no barco da saudade

deles tenho uma só lembrança: os sorrisos eternos

sem viagens nas rugas do tempo, na dobra da coluna

este é meu pequeno gesto de imortalidade a eles

MR. KURTZ – por hamilton alves / florianópolis

A Novela de Joseph Konrad, “O coração das Trevas”, sobre a qual Paulo Mendes Campos escreveu possivelmente a melhor e mais bela resenha, indo ao fundo do significado desse personagem misterioso, Mr. Kurtz, um homem que, em busca do marfim, que se colhe das presas dos elefantes, embrenha-se pela mais selvagem selva do Congo, na África, e ali (será só por isso?), envolve-se com o povo indígena nativo, para o fim de comercializar com esse precioso material.

Marlow, que empreende uma viagem para encontrar Mr. Kurtz ou substituí-lo em seu posto, para o que fora contratado pela empresa que se envolve com o marfim, é o narrador dessa história, que antecipa os escritores que virão depois, como Kafka, por exemplo.

O local onde embrenhou-se Mr. Kurtz é de indescritível rudeza. Para ele ou para a sua personalidade se volta a imaginação de Marlow. É impensável que um homem civilizado tivesse abandonado as cidades modernas para viver num meio absolutamente inóspito em troca somente da riqueza que o marfim lhe pudesse proporcionar.

Kurtz era um homem adorado pelos selvagens, como se, para eles, fosse um deus.

Quem é, afinal, esse Kurtz? – é logo a pergunta  que se propõe o narrador. E haverá certamente de formulá-la, logo às primeiras páginas, o ledor, a indagar-se por que um homem vivido no meio civilizado escolheu viver num ambiente hostil, entre silvícolas?

Depois de uma longa viagem pelo rio Congo, cheia de peripécias, de imprevistos, de problemas no motor do barco, que, a certa altura, encalha por problemas mecânicos, tendo que ficar à mercê de que seja conseguida uma peça para de novo seguir sua trajetória, ameaçados seus tripulantes de um ataque, que nunca vem, dos selvagens, consegue-se, a duras penas, um contato finalmente com Mr. Kurtz e realizar a viagem de volta com ele, vindo a sucumbir durante o transcurso.

Marlow entra em contato com a mulher de Kurtz, depois de tentar com dificuldade encontrá-la em Nova York.

A primeira pergunta que lhe é feita por essa senhora é sobre se Kurtz ainda se lembrava dela.

– Sim, disse-lhe, foi a última coisa que ouvi de sua voz a referência, muito amorosa, que fez ao seu nome.

Marlow mentira para que a mulher guardasse de Kurtz uma boa imagem. Ou que sua memória ainda de algum modo estivesse viva em relação a ela.

Mas ao fim e ao cabo, a personalidade de Kurtz, para o leitor, continua um enigma, esse homem que abandonou a civilização para viver na mais aterradora região do planeta.

Na literatura universal, Kurtz é um personagem que não tem paralelo, e “O Coração das Trevas” marca o momento inigualável de Joseph Konrad como escritor.

CLAUDE LEVY STRAUSS – por philomena gebran / curitiba

Reminiscências de um querido Mestre

A triste notícia, dada friamente, como acontece com todas as noticias – afinal é ofício do repórter, apenas informar:

“morre em Paris o grande intelectual Claude Levy Strauss”. Uma notícia como qualquer outra? Para muita gente, sim.      Para mim, não. Ele sempre será uma pessoa muito especial que continua viva, como sempre esteve em minha lembrança e em meus conhecimentos. Muito do que sei devo a ele, quando fui sua aluna em Paris.

Existem pessoas que não morrem. São imortais para nós. Levi Strauss é uma dessas pessoas. A notícia trazia uma lembrança que agora já é saudade. Uma vontade de voltar no tempo e vivenciar tudo outra vez.  A notícia, me fazia mais viva sua presença.

Às vezes é difícil cair na real ou aceitar os fatos e a realidade. A notícia me trazia de volta aquele que foi meu grande e sábio professor no Collège de France Paris. Figura humana impar e muito especial. Para alguns um intelectual polêmico, controvertido, e às vezes, até arrogante e prepotente.

Para mim não.

Impossível não ser reconhecido por todos, como um dos mais lúcidos intelectuais, do século XX; brilhante antropólogo, filósofo, etnógrafo, historiador, enfim, um sábio.

Viajei no tempo e me vi em Paris num pequeno auditório cheios de pessoas, esperando a entrada do famoso        professor. O silêncio era geral. Logo depois entra um homem simpático, muito elegante, terno escuro, óculos, magro, cabelos grisalhos e apresenta-se: “eu sou o professor que vou ministrar esse seminário a vocês”; como se precisasse de apresentação, “meu nome é Levi Strauss”, simples assim. Meu coração bateu descompassado. E acho que nesse dia perdi muito do que foi falado, tal a emoção.

Era o primeiro dia de um Seminário que se tornaria inesquecível para mim. Terminada a aula como é comum entre os franceses, ninguém fala com ninguém, e todos saíram em silêncio. Fiquei perturbada. Não sabendo direito o que fazer, timidamente, falei para mim: é “agora ou nunca”; tomada a decisão, fui lentamente, como fazem os tímidos, me aproximando de sua mesa e muito, sem jeito, mas com a ousadia da juventude, a voz quase nem saindo de tão baixa, pois sentia um misto de emoção, nervoso e medo.

Então, de repente cheia de coragem falei, creio que atropelando um pouco as palavras, tal a emoção; “gostaria de falar com o senhor”. Olhou-me curioso, pois na França não é nada comum alunos se dirigirem ao professor, sem antes, terem agendado um encontro.

Enfim, falei: – mesmo porque, já era tarde, para qualquer arrependimento: _conheço e já li seu livro Tristes Trópicos; gosto muito dele. E imediatamente, antes de perder a coragem, emendei: – sou brasileira e estou estudando aqui.          Passada sua surpresa pela ousada interpelação, ele perguntou, se eu era da Universidade de São Paulo. Disse-lhe que era do Rio de Janeiro e só então me lembrei de pedir desculpas pela informalidade de minha abordagem.

Para minha surpresa convidou-me a sentar, perguntou o que eu estudava, desde quando estava em Paris, se havia gostado de sua aula, etc., etc., e disse que eu ficasse a vontade para falar com ele sempre que precisasse e que depois das aulas, estaria pronto para esclarecer minhas dúvidas ou para debater questões.

Pronto. Era tudo que eu queria; perguntei se poderíamos conversar sobre seu livro, então ele me revelou que considerava Tristes Trópicos apenas um relato de sua viagem pelo Brasil; assim como, uma longa crônica. Contestei logo. –Pode até ser, mas uma crônica ou relato brilhante!

Dando minha opinião contraria, elogiando o livro que foi muito esclarecedor e que todos no Brasil o utilizavam em suas bibliografias. E ainda admirada de minha coragem, fiz tudo para “segurar” a conversa.      Falamos um pouco do Brasil das comunidades nativas, dos meus estudos lá e aqui, e o gelo foi quebrado. Perdi o medo e me pareceu que já éramos amigos; claro, guardando o indispensável distanciamento; em seguida me passou uma lista de seus livros que eu encontraria na biblioteca ou que poderia adquirir em livrarias, ainda brincando que estudante não tem condições de comprar muitos livros. Pura verdade, até hoje é assim.

Estava aberto um precedente, e quando os colegas mais próximos souberam, ficaram encantados com minha informalidade e logo aproveitaram a oportunidade de se aproximar do grande Mestre. Depois das aulas, ficava um grupo para esclarecer questões e a as perguntas eram muitas; os debates se sucediam sem pressa de ir embora; pois como eu todos queriam saber e saber cada vez mais sobre a nova antropologia e, principalmente sobre o novo método criado por ele; o estruturalismo, cujo estudo eu viria retomar e aprofundar no Mestrado, através de outros pensadores que foram por ele influenciados, como Michel Foucault, Marta Hanecker, Jacques Derrida, Louis Althusser e outros.

Porém, foi com ele que aprendi muito, não só sobre estruturalismo, mas sobre antropologia em geral; as aulas eram mais formais, ao estilo “Frances” mesmo; mas os debates que se seguiam, por pura generosidade sua e grande exploração dos poucos alunos que ficavam eram incríveis.E o papo se tornava mais coloquial, descontraído e, nada formal.

Lévi – Strauss se dizia não marxista, assim como, não se considerava um antimarxista, acho que não queria abrir demais sua ideologia. Tudo bem, graças a isso, estabelecíamos grandes e enriquecedoras discussões, já que a maioria do grupo era marxista. E, também não se dizia o pai do estruturalismo; se bem que insistíamos com ele que todos o viam como tal.

Seu objetivo era a criação de uma teoria “formal”, ou seja, partindo da elaboração mental para a realidade; negando assim, a base empírica. Para ele “estrutura significa o sistema relacional latente no objeto.” Estabelece então diferenças entre a noção de “estrutura social e relações sociais”. Dito em outras palavras, o modelo estrutural é uma construção teórica que não se relaciona com dados empíricos, como na História. É quase uma abstração do real, como explicava em nossas discussões.

O problema não depende da etnologia, mas da epistemologia”, dizia ele.

Atribuía a criação do conceito aos pais da lingüística Saussure e Mauss; mas, está claro que Lévi-Strauss “consagrou” o método no campo das ciências humanas, e mais, enunciou os conceitos de “sincronia e diacronia” para as sociedades sem escrita, o que elucida muita coisa.

Foi com ele que tomei conhecimento das teorias antropológicas, como por exemplo, do funcionalismo de Malinowski, do historicismo de Franz Boas, o evolucionismo (cultural) de Tylor e Morgan, etc., não o evolucionismo de Darwin; mas essa já é outra história;

Eu, particularmente, queria discutir com ele as relações entre História e Antropologia, no meu entender ciências que se completam, e uma influenciam a outra. Mas a questão é que por muito tempo, por “falsas” questões epistemológicas eram tratadas como disciplinas e de forma compartamentalizadas, com práticas e métodos, que mesmo no início do século passado  não contemplavam as exigências acadêmicas.

Consegui expor meu ponto de vista levantado à questão do embricamento entre História e Antropologia, pois para uma pesquisa necessitamos de ambas; e para analise de sociedades diferenciadas seria importante nos livrarmos, para sempre, do “mal” do positivismo e propor, não apenas a interdisciplinaridade, mas a colaboração entre História e Antropologia. Confesso que para meu espanto ele concordou plenamente comigo.

Neste sentido, houve uma abertura de Lévi – Strauss em nossos debates que nos permitiu “entrar” em sua obra para discutir seus livros como “Antropologia Estrutural” “Pensamento Selvagem”.

Sua famosa trilogia: “Mythologiques”, três grandes volumes sobre o homem, alimentação, costumes culturais , mitos, símbolos, enfim sobre como as diferentes  culturas se comportam e realizam a construção de suas sociedades, considerando a organização social, os sistemas econômicos e os sistemas míticos e a cultura material, por exemplo, foi extraordinariamente enriquecedor.

Devo porém, acrescentar, que a discussão sobre sua tese de doutorado: “Les Structures Elementaire de La Parente”, para mim, sua obra mais completa e abrangente, foi o ápice do Seminário e de nossas discussões e dos debates sobre estruturalismo. Foi um Curso que deixou muita saudade e que ninguém ficou feliz quando terminou, ao contrário, a tristeza foi geral.

Mas, a compensação é que todos saíram muito mais ricos em conhecimento científico, e em nossas reflexões; claro que muitas obras, não foram abordadas profundamente, como gostaria, porque nem haveria tempo.

Para mim houve um fator ainda mais rico e importante, que eu viria a formular mais tarde em minhas pesquisas; a reformulação de conceitos que considero equivocados e cheguei rapidamente a falar sobre isso com o grande mestre; apesar de ter discordado comigo em alguns pontos, foi mais positivo sua concordância em outros que agregaram em minhas pesquisas e estudos novos valores.

Só para citar um e não me alongar demasiado nesse ensaio, nada científico, mas apenas a expressão das minhas reminiscências. Consegui ao longo de minha vida profissional mudar o conceito de sociedades “primitivas”, como conceituado historicamente pelos antropólogos para sociedades “ágrafas”.

Desprezando, com a aquiescência de Levy- Strauss: “povos sem história” “povos vencidos”, “aculturados” e o pior, “primitivos” e ainda “sociedades simples”, para diferenciar as culturas que sempre foram marginalizadas pela História, das culturas ocidentais, ditas “complexas” como “culturas inferiores”. Nada mais equivocado.

Existem entre nós, culturas ágrafas que guardam grande sabedoria e são muito mais complexas e sofisticadas em suas organizações sócio, político, econômico e mítica que nossa “bela civilização ocidental”, plena de descriminações e preconceitos.

Por isso, graças ao Seminário com o Grande Levy Strauss adquiri a coragem necessária para mudar meu campo conceitual: “primitivo”? Jamais. “índio”? Nunca. Nativos sim, como somos todos. Sofro contestações? Inúmeras. É difícil  as pessoas  aceitarem novas propostas; o novo é sempre complicado, mais fácil ficar acomodado, não pensar muito e ficar repetindo o que já está cristalizado pelo tempo.

Mas, a exemplo do Mestre insisto, e sigo em frente com minhas inovações.

Não tinha intenção de discutir isso aqui, mas foi apenas uma digressão, para ilustrar o resultado do aprendizado; minha intenção é apenas a de prestar uma homenagem ao cientista, que já no início do século passado, soube tão bem chamar a atenção do mundo acadêmico para o absurdo das idéias positivistas ao considerarem que existem homens melhores do que outros, e sociedades superiores e inferiores, seja pela cor, seja pela escrita, seja pelos mitos, seja pelos símbolos, ou seja, pela cultura.

Para terminar uma sábia frase do sábio Homem:

…“hoje meu único desejo, é um pouco mais de respeito para o mundo, que começou sem o ser humano e vai terminar sem ele.”

 

.

ilustração do site.

DESCONTRUÇÃO de lucas paolo / são paulo


Se eu pensasse hoje

No eu ia feijão

De anteontem tristeza

.

Saudades faixas à mesa

Do não outrora talvez

Minhas tuas pernas contorcidas

.

Ensimesmados olhos teus

Do eterno de quando em quando

Meu remorso esbugalhado

.

Desvirginados cancros

Do chão de nossa torre

Hemoptise de meu marfim

*  *  *

Acultura São Paulo!

De teus ontem bois de agora

À sarjeta: nosso epitáfio

ALEPH NÃO QUER ME DAR O MUNDO – por zuleika dos reis / são paulo

Não sei quantos é Daniel: no mínimo dois. Ao segundo, que identifico, darei o nome de Aleph, nome da primeira letra do alfabeto hebraico, também de um livro e de conto de Jorge Luis Borges, conto no qual o termo Aleph indica o ponto no espaço de onde se podem ver todos os demais pontos do Universo.

Quando vi Daniel pela primeira vez, olhei seu rosto de musgo e neve e não pensei em nenhum profeta bíblico nem no rosto talhado entre os rochedos, nos rochedos do conto de Hawthorne.

O rosto mudo, de pedra, do conto de Hawthorne. Mas este é o rosto de Aleph, não o de Daniel. O rosto mudo de Aleph, ou melhor, a boca muda de Aleph, perdida de algum verbo original.

Não, não é exatamente muda. Dela, um sopro primeiro, leve sopro que vai virando respiração e, dependendo do que lhe digo, o que se tornou respiração vai se alterando muito, quase se transformando num grito, mas não chega a formar uma sílaba, que uma sílaba seria o começo da palavra, e a palavra já é o mundo. Aleph não quer isso, só me ouve como se eu fosse o Demiurgo. Aleph me ouve como se de minha fala lhe pudesse vir o ser, o ser dele mesmo ou o ser de Daniel, Aleph é consciente desta hipótese? Aleph quer que o mundo lhe venha de mim.

Eu tento, tento, mas sei que o que quero é chegar a Daniel, desesperadamente chegar a Daniel, através de Aleph. Chegar a Daniel, que não consegue nunca sonhar plenamente com seu próprio rosto, assim como jamais consigo sonhar plenamente com o meu próprio, coisa que só comecei a compreender de verdade depois da vinda de Daniel.

Qualquer semelhança é e não é mera coincidência. Escrevo tal frase assim como a advertência em um livro ou em novela de TV, para suportar o desespero, esse que me dá vontade de sair gritando pelas ruas ou de gritar a Daniel, pelo telefone, o seu verdadeiro nome, o nome que consta em sua certidão de nascimento, o mesmo pelo qual as pessoas o conhecem. O pavor de ter enlouquecido sozinha ou de ser a presa de uma outra Vontade, em um jogo inimaginavelmente cruel, obriga-me a um quase sobrenatural esforço, a fim de alcançar um mínimo de sensatez, e aí corro para Rubem, para enlouquecer do modo diametralmente oposto, sempre carregando e mantendo a certeza de que o meu pesadelo é maior do que os deles dois, somados. Rubem não sabe de Daniel-Aleph nem Daniel sabe o verdadeiro nome de Rubem e, de mim, cada qual colhe a metade que conhece e que sabe administrar.

O homem chamado Daniel não corre o risco de ser identificado, a não ser pelos seus porta-vozes, esses que ele utiliza para saber se estou aqui, em minha casa, com minha mãe, digamos num sábado à noite. É verdade que jamais descarto completamente a possibilidade de o mundo ter se tornado uma alucinação auditiva, embora tal hipótese seja algo indescritível, à Poe. Ligo todas as possíveis e impossíveis antenas para tentar apreender a verdade e creio que suportaria qualquer uma, qualquer, tendo, no entanto, que me resignar em cada segundo, na eternidade de cada dia, a este suplício inimaginado pelos deuses, até que o homem Daniel se transmute no Anjo da minha vida.

FILHOS, seus medos, meus medos – por marilda confortin / curitiba

Levei anos para convencê-los de que fantasmas não existam e que os barulhos que ouviam eram de seres vivos, inofensivos.

Fiz de tudo para que perdessem o medo do escuro, dormissem sozinhos, seguros.

 

E eles cresceram…

 

Hoje, sou eu quem teme os barulhos da noite.

Sirenes, disparos, gritos, freadas, gemidos, uivos, gargalhadas.

Morro de medo de ficar sozinha e não durmo enquanto não chegam em casa.

Desminto tudo o que eu disse sobre fadas e super-heróis. É pura crendice!

O que existe são homens cruéis, mulheres malvadas, seres invisíveis, drogas, pragas, vírus terríveis, doenças fatais.

O mal existe, meus filhos. E é muito real.

Riem como se meus conselhos fizessem cócegas, os pentelhos!

A menina, fica uma hora na frente do espelho,  diz que o chapeuzinho vermelho não ta com nada, que o lobo mau é um “coisarada”, tudo de bom, um cara legal.

Acha normal usar piersing na orelha, na sobrancelha, na língua, no umbigo, nos lábios (pequenos!), fez uma tatuagem nas costas, gosta de balada, ilha do mel, futebol, cerveja e o escambau. Diz que não é para eu me preocupar porque ela vai casar com um czar e morar num harém. Amém.

O menino, ainda acredita em super-heróis, vampiros, lobisomens, sei lá o quê e continua jogando RPG.

Pensa que aquela ruiva que conheceu na praia é uma sereia de saia.

Tadinho… Ainda não perdeu o medo de dormir sozinho.

Só dorme se for bem agarradinho com aquela cobra que me chama de sogra!

Sereia… Baleia, isso sim! Engoliu o meu filhinho!

Vejam só! Ela me disse que eu vou ser avó de um cardume de peixinhos!

Que hilário: Meus netinhos dentro de um aquário jogando beijinhos…

 

Filhos…  Filhos!

Nunca vêm com nota fiscal nem com manual de instrução.

Não avisam quando crescem e é só piscar, que desaparecem.

Mas uma coisa é certa: Mesmo que partam, quebrem, caiam, ou não saiam bem do jeito que a gente queria, não importa. Amor materno tem validade eterna.

Os filhos, estão sempre na garantia.

MAURICE POLITI lança seu livro ” RESISTÊNCIA ATRÁS DAS GRADES” em CURITIBA dias 26 e 27/11

O MELHOR CRONISTA por hamilton alves / florianópolis

Há pouco, um crítico literário, que mantém uma coluna diária num de nossos jornais, falando de um livro de crônicas, disse considerar o autor o melhor cronista do país.

Cada qual, obviamente, tem o direito de dizer o que quer. Ou o que pensa sobre isso e aquilo.

Mas direitos à parte, há um certo exagero em tal afirmação, até porque não se sabe exatamente quantos cronistas andam por aí, desconhecidos, que não foram devidamente catalogados ou qualificados pelo dito crítico.

Então, a partir daí fica muito vago dizer-se que fulano é o melhor seja no que for.

O autor do livro, ao ser assim distinguido, certamente se babou de vaidade, auto-considerando-se, certamente, o melhor ou que o crítico teria razões de sobra de assim julgá-lo.

A vaidade muitas vezes cega.

Não queria entrar no mérito desse assunto tão desprovido de interesse.

Isso é de uma banalidade de doer nos calos.

Eu, de mim, não me acho melhor em nada. Não acho também que alguém, seja no que for, possa ser tido o melhor no que faz.

Trata-se de uma questão quase sempre imponderável, que não permite um juízo de rigor ou justo sobre as possibilidades de uns e outros.

Por isso, o melhor é não arriscar palpite, que sempre pode levar o endereço errado. Ou esquecer que há valores que estão sempre um pouco acima daquele que somos capazes de perceber ou julgar como sendo o maior.

Já vou longe nessa catilinária inútil.

Preferível não atacar esse assunto tão mofino.

Preferível seria não ter lido a crítica do colunista. Passar por alto por ela.

No meu caso, se fosse me auto-julgar, gostaria de ser considerado o melhor cronista da minha rua. Todos me apontariam por onde diariamente passo:

– Olha, lá vai o melhor cronista de nossa rua.

Ser o melhor cronista de minha rua é já, segundo penso, um enorme galardão ou uma imensa responsabilidade, que carrego sobre as costas, de que o vulgo bem poderia me poupar.

Mas, enfim, que assim seja.

SÉRGIO DA COSTA RAMOS convida para o lançamento de seu livro / florianópolis

O jornalista catarinense Sérgio da Costa Ramos leva a público, dia 24, o livro Piloto de Bernunça. Com selo da Bernúncia Editora, a obra terá lançamento com coquetel e presença do autor, às 18h30, na Fundação Cultural Badesc, em Florianópolis.

Compõem o volume 62 crônicas, algumas inéditas e outras publicadas no jornal Diário Catarinense, onde o escritor tem coluna assinada. Na capa, Piloto de Bernunça traz pintura de Vera Sabino, e no miolo há ilustrações de Dante Mendonça – imagens que serão expostas na noite do coquetel. O pianista Arthur Moreira Lima assina a orelha do livro, prefaciado por Deonísio Silva e com posfácio de Raul Caldas Filho.

Sérgio da Costa Ramos

Filho do também jornalista Rubens de Arruda Ramos, é membro da Academia Catarinense de Letras e Artes. Publicou o primeiro livro em 1986, Os civis pecisam voltar aos quartéis, pela editora da UFSC. Incluindo Piloto de Bernunça, Sérgio da Costa Ramos é autor de dez volumes.

TEMPO BOM por sérgio da costa ramos /florianópolis

Costuma haver uma certa atmosfera de paz, as pessoas recuperam a cordialidade perdida no escaninho de algum burocrata. E há a solenidade ritual da montagem dos presépios. Feitos em casa, com areia fina, papel de embrulho pintado, barba-de-velho, conchas e espelhinhos representando lagos serenos, cercados pela rala vegetação verde de papel crepom.

O espírito do Natal costuma se refletir na cintura dos “fiéis” desses novos tempos. Se, durante a Semana Santa, o jejum é uma forma de penitência, uma espécie de luto pela morte do Redentor, no Natal o seu renascimento é comemorado exatamente por uma celebração antípoda – a comilança.

Imaginem se todo recém-nascido abrisse na família um tal apetite que demandasse a montagem de ceias, opíparos jantares e um festival de proteínas capazes de alimentar a Etiópia por um ano. Ia faltar proteína na terra e peixe no mar, o Menino teria que antecipar o milagre da multiplicação de pães e peixes muito antes de assumir a sua chamada “vida pública”.

Assim será o Natal. A pretexto de celebrar o Menino, daremos de mamar à Menina – isto é, a nossa barriga.

Na base do “Amém, Jesus”, vai todo mundo se forrando, o “renascimento” servindo de pretexto para justificar o pecado da gula – que é o vício de comer e beber com sofreguidão.

Estaremos todos absolvidos. Atire a primeira pedra quem não comeu e bebeu à tripa forra na Noite do Menino Jesus. E que não repetiu a ceia, no dia seguinte. A pretexto de elevar o espírito, ocorre a satisfação da matéria. O próprio Menino já deve ter se acostumado com o apetite dos seus adoradores. E todos os anos perdoa a volúpia dos glutões.

Ao longo da história, e, principalmente, da literatura, a boa mesa sempre esteve presente à boca dos homens de boa vontade e excelente estômago.

A melhor descrição em O Crime do Padre Amaro, de mestre Eça de Queiroz, é a dos talheres, pratos e pratarias na mesa do Abade de Cortegaça, um pio sacerdote, que deveria cultivar as virtudes da abstinência.

Ali se destaca o fornido jantar oferecido pelo abade aos colegas do clero: o caldo de galinha, a famosa Cabidela, uma invenção reivindicada pelo próprio sacerdote. E mais os “bacorinhos” (leitões) ao forno, o porquinho à moda da Bairrada, os vários tipos de bacalhau – o da batata aos murros e à maneira Gomes Sá.

E os vinhos, então? O escritor desfila diante da sede dos leitores os Paços do Cardido, os Covas da Ursa, os Quinta da Bacalhôa, os Duque de Viseu, os “lvarinhos e Ferreirinhas – todos brancos, secos honrados ou tintos de grande linhagem.

Em torno da manjedoura (que se deriva de “manger”), se reúnem os abades e todos nós – os fiéis – para imaginar os pratos que ainda sacrificaremos durante “as festas”.

Até lá comeremos tudo – até mesmo a “Crise”.

Ú L T I M O C A P Í T U L O por jorge lescano / são paulo

Ana cruza as mãos sob o queixo. Os cotovelos fincados na estante das partituras servem de tripé ao olhar, distante, e ao mesmo tempo, fixo no vidro da janela. Por cima do bosquezinho de pinheiros que isola a  casa, nuvens arroxeadas semelham vastas cenografias em movimento.

As luzes do grande lustre, no centro da biblioteca, são acesas.

No quadrado de vidro reflete-se a cena vivida às costas de Ana. Por um momento ela tem a sensação de não estar ali, ou de ver e ouvir as vozes como se viessem de um romance. Não estivesse o vidro secionado em quatro triângulos por finas ripas de madeira, o brilho lembraria um aparelho de televisão. Sorri ao se imaginar personagem invisível. Para captar toda a cena inclina a cabeça sobre o ombro esquerdo.

As figuras se deslocam com soltura. Cada gesto afirma a familiaridade com o espaço e as outras pessoas. A luz é generosa para a observadora. Sem dificuldades percebe traços de fadiga e irritação nos rostos que não devem expressar emoções. Atendem a um compromisso e pretendem cumpri-lo com ar de negligência ou, quando menos, não demonstrando excessivo interesse no desfecho.

Ana sabe que cada um deles guarda motivos para desconfiar, invejar ou odiar os outros. Mesmo os casais têm receios do parceiro. Cada qual esconde uma culpa em relação ao seu par, ou desejos para cuja realização o outro é um empecilho.

Abelardo e sua irmã Beatriz mostram hostilidade recíproca sem se preocupar com as convenções. Camila, a companheira de Abelardo, finge observar atentamente os títulos dos livros fechados num móvel envidraçado. A atenção, no entanto, permanece presa aos acontecimentos. O cristal revela a cena às suas costas, incluindo a contemplação estática de Ana.

Num ângulo da sala está Drummond, o anacoreta, sóbrio no terno escuro. Talvez por causa da estatura elevada e do rosto de intelectual de início do século, gosta de não ser notado. Mantêm-se de pé, a cabeça calva inclinada, como se observasse as pontas dos seus sapatos. Camila sabe que ele preferiria não estar ali. Na outra extremidade, Fernández, o macedônio. Esta mistura de filósofo socrático e violeiro autodidata, duplica a imagem de Drummond. Indo de um para o outro, vagarosamente e como para consultá-los ou confirmar uma informação, Erikssen, o iconoclasta. Pressentem-se nele paisagens frias e desoladas. Seu aspecto´é de jovem envelhecido prematuramente ou de velho que se recusa a admitir a idade. Difícil acreditar que alguma vez foi criança. Ana não sabe o quê poderá vinculá-los aos demais, sequer tem clara a relação entre si. A presença dos três parece-lhe arbitrária, como se obedecesse ao capricho ou a uma secreta noção de simetria de algum encenador onisciente. Confia em que, após a leitura, ficará conhecendo as razões da convocação deles.

Genoveva deve apropriar-se de um segredo de Heitor. Ibraim espera ansioso que ela o prejudique na ascensão vertiginosa dentro da empresa para pular ao posto que considera seu de direito. Genoveva   deseja-lhe   sucesso.  Desse  modo  a  harmonia  do  casamento  estará  a  salvo,  pois  não

duvida  do reconhecimento do seu marido, para quem é indiferente se ela acrescenta uma nova traição às muitas que se obrigou a cometer em troca de um lugar na sociedade. Heitor não ignora o perigo e já arquitetou seu plano de defesa, que implica vários dos presentes.

Jéssica tem uma dívida e não poderá saldá-la no prazo estipulado. Não é improvável esta seja a última vez que use o colar de pérolas;para salvá-lo, tem a alternativa de ceder aos insistentes requerimentos de Beatriz, a qual não ignora a chantagem de Abelardo. Entre Jéssica e Lena encontra-se Kelly, a bela taverneira vinda do norte. Sua cutis morena  e o cabelo negro contrastam com a palidez doentio das outras duas. Kelly sorri a alguém invisível para Camila. Talvez o sorriso apenas seja de satisfação por estar entre pessoas que sua origem social, até bem pouco tempo, lhe fazia ver como personagens de ficção. Lena leva o cigarro aos lábios e a luz rebrilha, rubra, na pedra do anel.

Múcio, Nemo, Otacílio; é quase impossível imaginar antagonismo entre eles, são como partes de um mesmo ser. Nemo, retratista da sociedade, é notório conspirador. Acredita-se que mais de uma associação, incluindo casamentos, teve fim prematura graças à sua arte oratória, capaz de destruir sólidas reputações. Múcio é seu discípulo ou valete, segundo alguns, sua eminência parda, na versão de outros. Em todo caso, espécie de sombra do pintor. Otacílio vive à procura de informações que o localizem nesse universo de interesses e forças opostas, no qual ingressou em virtude do seu nascimento. Alguma vez cogitou tornar-se artista. Talvez não seja de todo gratuito o comentário de que seu senso estético se realiza pagando as dívidas de Nemo. O futuro deste e do seu duplo poderá estar comprometido se Otacílio não agir com tato. Isto explicaria o comparecimento do trio à reunião e as mesuras de Nemo, que não pára de circular pela sala com sério risco de colidir com Erikssen.

O velho Administrador da família deposita à sua frente, na mesa central, um cofrezinho de metal dourado. Ana vê como coloca, aos lados das mãos, um envelope de papel marrom e um pacote retangular, não maior que um livro em brochura. Um romance, pensa Camila. Um jogo de xadrez, acredita Ana.

Todos conhecemos a desmedida ambição destas pessoas, e Ana não é exceção – escreveu há tempos o Autor convidado. – Porém não somos unânimes quanto ao valor que atribuem à hierarquia social; são ambíguas como as manchas de nanquim de uma pintura chinesa. Isto faz com que as tratemos com deferência ou respeito. Podem ser perigosas ou aliadas inestimáveis.

Ana e o Autor convidado se aproximam do Administrador, que está ajustando os óculos. Os quatro espelhos triangulares do teto, dispostos de maneira a formar a cúpula interna de uma pirâmide, na qual o lustre cria iridescências de luxo e prazer, duplicam a localização de todos os presentes em torno da mesa.

Ao empunhar o estilete e o envelope, os dedos do velho Administrador tremem. Ana lhe adivinha a emoção. Também a sorte dele depende da leitura que se dispõe a iniciar, deduz Camila.

O grande lustre se apaga. Ouve-se um tiro e o som de um corpo que cai.

No laudo policial, a vítima está corretamente vestida e segura nas mãos um livro aberto no último capítulo.

A INSUSTENTÁVEL LEVEZA DO SER por joão henrique vieira / teresina

abriu a porta. entrou. pôs sobre a mesa o livro que trazia. ficou pensando. gozar de olho aberto ou fechado?

– oi meu amor

– olá minha querida

depois de uma conversa sobre como foi o dia. começa a conversa que vai desaguar no amor. na hora do gozo. a duvida. gozar de olho aberto ou fechado? no meio do sexo oral, sentindo todo o delicioso gosto do cheiro, se perguntava: olho aberto ou fechado. deslizava os dedos na barriga, sentia os arrepios. olho aberto? olho fechado? roçou o rosto no púbis, na barriga, entre os seios, mordeu o queixo, lambeu os lábios. olhou nos olhos de seu amor. fechar os olhos, abrir os olhos. um riso cínico no instante em que seu pau deslizava nas curvas a procura da buceta.

o deslize a dentro.

beijava. gemia. respirava. roçava. esfregava-se. ora de olhos abertos, ora de olhos fechados.

vinham os sussurros que antecedem o gozo. o frenesi. o não saber e ser guiado pelo instinto. aquilo que guia o homem quando ele pára de tentar ser racional.

olhos abertos. olhos fechados.

no instante do gozo fechou os olhos de desespero, sentido desmanchar-se dentro da fêmea. do amor. do sexo. do gozo.

dali a instantes estaria deitado olhando o teto. suado. deslizando os dedos nos mamilos, brincando de círculos.

– meu bem, o Milan Kundera está me enlouquecendo

– meu amor, você é doido, mas eu te amo.

depois que a amada caiu no sono. ele levantou e foi ao banheiro. lavou o rosto e se olhou no espelho. disse à própria imagem:

– tu vai ver Kundera, amanhã eu gozo de olho aberto.

voltou a cama. viu as curvas de um belo corpo. deitou-se junto. quase dentro. dormiu grilado. gozar de olho aberto ou fechado?

sobre a mesa repousava A insustentável leveza do ser

OTTO NUL e sua poesia / palma sola.sc

A LADEIRA

Quando desço a ladeira

Quando a subo

São dois momentos

Que parecem iguais;

É que tanto na descida

Quanto na subida

Há um componente

De significativa beleza;

Há umas árvores

E pássaros na ladeira;

Dir-se-á que isso

Há em toda parte;

Na ladeira, porém,

É diferente – árvores

E pássaros têm

O feitiço da ladeira.


-.-


PREMONIÇÃO

Apanha no ar

Ainda fresca

A idéia luminosa

A sombra indefinida

O resto que sobrou

Ao dia que se foi

A alegria que findou

A tristeza que ficou

A palavra consoladora

Com que se empolgou

A paixão que desvaneceu

Na tarde que esmoreceu

Uma leve premonição

Que tolda o coração

-.-


ERA UMA RUA

Era uma rua

Não tinha nada

Minha amada

Nela morava

Era uma rua

Que dava medo

Que assombrava

Como um degredo

Era uma rua

De pouca luz

Sem quase gente

Com uma cruz

Era uma rua

Sem muita paisagem

Tão sossegada

Parecendo miragem

Era uma rua

Onde te conheci

Em certo tempo

Ali nasci

Era uma rua

De muita flor

Nela se vivia

Com paz e amor

A TRISTEZA PERMITIDA por martha medeiros / porto alegre

Se eu disser pra você que hoje acordei triste, que foi difícil sair da cama, mesmo sabendo que o sol estava se exibindo lá fora e o céu convidava para a farra de viver, mesmo sabendo que havia muitas providências a tomar, acordei triste e tive preguiça de cumprir os rituais que faço sem nem prestar atenção no que estou sentindo, como tomar banho, colocar uma roupa, ir pro computador, sair pra compras e reuniões – se eu disser que foi assim, o que você me diz? Se eu lhe disser que hoje não foi um dia como os outros, que não encontrei energia nem pra sentir culpa pela minha letargia, que hoje levantei devagar e tarde e que não tive vontade de nada, você vai reagir como?

Você vai dizer “te anima” e me recomendar um antidepressivo, ou vai dizer que tem gente vivendo coisas muito mais graves do que eu (mesmo desconhecendo a razão da minha tristeza), vai dizer pra eu colocar uma roupa leve, ouvir uma música revigorante e voltar a ser aquela que sempre fui, velha de guerra.

Você vai fazer isso porque gosta de mim, mas também porque é mais um que não tolera a tristeza: nem a minha, nem a sua, nem a de ninguém. Tristeza é considerada uma anomalia do humor, uma doença contagiosa, que é melhor eliminar desde o primeiro sintoma. Não sorriu hoje? Medicamento. Sentiu uma vontade de chorar à toa? Gravíssimo, telefone já para o seu psiquiatra.

A verdade é que eu não acordei triste hoje, nem mesmo com uma suave melancolia, está tudo normal. Mas quando fico triste, também está tudo normal. Porque ficar triste é comum, é um sentimento tão legítimo quanto a alegria, é um registro de nossa sensibilidade, que ora gargalha em grupo, ora busca o silêncio e a solidão. Estar triste não é estar deprimido.

Depressão é coisa muito séria, contínua e complexa. Estar triste é estar atento a si próprio, é estar desapontado com alguém, com vários ou consigo mesmo, é estar um pouco cansado de certas repetições, é descobrir-se frágil num dia qualquer, sem uma razão aparente – as razões têm essa mania de serem discretas.

“Eu não sei o que meu corpo abriga/ nestas noites quentes de verão/ e não me importa que mil raios partam/ qualquer sentido vago da razão/ eu ando tão down…” Lembra da música? Cazuza ainda dizia, lá no meio dos versos, que pega mal sofrer. Pois é, pega mal. Melhor sair pra balada, melhor forçar um sorriso, melhor dizer que está tudo bem, melhor desamarrar a cara. “Não quero te ver triste assim”, sussurrava Roberto Carlos em meio a outra música. Todos cantam a tristeza, mas poucos a enfrentam de fato. Os esforços não são para compreendê-la, e sim para disfarçá-la, sufocá-la, ela que, humilde, só quer usufruir do seu direito de existir, de assegurar seu espaço nesta sociedade que exalta apenas o oba-oba e a verborragia, e que desconfia de quem está calado demais. Claro que é melhor ser alegre que ser triste (agora é Vinícius), mas melhor mesmo é ninguém privar você de sentir o que for. Em tempo: na maioria das vezes, é a gente mesmo que não se permite estar alguns degraus abaixo da euforia.

Tem dias que não estamos pra samba, pra rock, pra hip-hop, e nem pra isso devemos buscar pílulas mágicas para camuflar nossa introspecção, nem aceitar convites para festas em que nada temos para brindar. Que nos deixem quietos, que quietude é armazenamento de força e sabedoria, daqui a pouco a gente volta, a gente sempre volta, anunciando o fim de mais uma dor – até que venha a próxima, normais que somos.

PROFESSOR CORUJA – por barbosa lessa / porto alegre

De família bastante pobre, Antônio Álvares Pereira nasceu em Porto Alegre em 1806. Seus pais conseguiram matriculá-lo na escolinha do Padre Tomé – onde os alunos costumavam ganhar um apelido que os diferenciasse dos não-estudantes – e lá chegou o guri, para a primeira aula, vestindo uma casaquinha marrom muito feia, quase horripilante. Estava pedindo para ser chamado de “Coruja”. E assim ganhou um nome que perdurou não só durante o curso, mas para o resto da vida.

Por trás da casaquinha marrom, porém, batia um coração muito forte e, sob a firme orientação do Padre Tomé, o menino foi desenvolvendo uma inteligência incomum. E, ao despedir-se da escola, já decidira: iria ingressar na carreira de professor.

Por essa época, na Corte do Rio de Janeiro, vinha sendo adotado, como novo sistema de ensino, um revolucionário método de Lancaster – destinado a solucionar o problema da escassez de professores. Se, pelo sistema tradicional, o mestre precisava dar atenção individual a cada aluno – atendendo, vamos supor, a uns dez guris – pela nova fórmula ele se fazia assessorar por alguns de seus melhores alunos, então nomeados “decuriões”, e essa prática de ensino mútuo já permitia que se atendessem, vamos supor, a uns quarenta guris. Que genial solução!

Para tirar a limpo se esse tal de “ensino mútuo” realmente funcionava bem, lá se foi para a Corte o jovem Pereira Coruja. E voltou para Porto Alegre aos 21 anos de idade, em 1827, alardeado seu diploma de professor régio. Abriu sua escola, aqui pioneira no método Lancaster, e foi em frente.

A par do magistério, Pereira Coruja passou a desempenhar atividades complementares que logo o projetaram na sociedade sul-riograndense. Em 1831, redator do jornal “Compilador de Porto Alegre”. Pouco depois, lançava seu primeiro livro didático, de ampla repercussão: “Compêndio de Gramática da Língua Nacional”. Em 1835, eleito deputado à Assembléia Provincial. Não escondia sua simpatia para com a grei dos farroupilhas e, em 1836, por ocasião da reação legalista, teve o castigo de ser um dos deputados deportados para a Corte do Rio de Janeiro.

Privado de realizar seus sonhos no Rio Grande do Sul realizou-os, porém, no Rio de Janeiro, com uma eficácia notável. Começou por fundar e dirigir sua própria escola, o Liceu Minerva. Depois, deixou marcos tais como a Sociedade Imperial Amante da Instrução, a Sociedade Literária do Rio de Janeiro e – congregando a colônia gaúcha – a Sociedade Sul-Riograndense. Não tardou a obter o reconhecimento público, atingindo o grau de Comendador da Ordem da Rosa.

Incansável autor de livros didáticos. Além do já citado “Compêndio de Ortografia da Língua Nacional”, “Aritmética para Meninos”, “Lições de História do Brasil” e “Manual dos Estudantes de Latim”. Mas suas obras de mais ampla adoção nacional foram o “Manuscripto”, as “Taboadas” e o “Livro de Leitura”, podendo-se afirmar que, por mais de meio século, as gerações de jovens brasileiros se ampararam, em boa parte, em tais livros. E, quando algum aluno cometia um erro feio, logo comentavam: “Deu uma facada no Conja”.

Embora vivendo afastado do Rio Grande do Sul, jamais esqueceu sua terra natal e enriqueceu-se com notáveis obras de pesquisa e divulgação. Pelas páginas do “Anuário da Província do Rio Grande do Sul”, de Graciano Azambuja, publicou lindos ensaios tais como “Senadores e Deputados da Província”, “As Ruas de Porto Alegre”, “Alcunhas de Porto Alegre”, etc. E alcançou projeção com sua “Coleção de Vocábulos e Frases Usados na Província de São Pedro do Rio Grande do Sul”, com 1ª edição em Londres (1856) e mais três por aqui mesmo. Ali apareciam, por primeira vez em letra de fôrma, verbos tais como “acolherar”, “amadrinhar”, “abombar”, “apojar”, “bombear”, e por aí afora.

O Comendador Coruja faleceu no Rio de Janeiro em 4 de agosto de 1889.

“O TEMPO e o ESPAÇO” e “DE REALEZA e de LOUCO…” por raymundo rolim / morretes.pr

O tempo e o espaço

 

A manhã passava depressa apesar do sol radiante. Veloz como uma corrida de bigas. O jardineiro não conseguiu colher mais que uma dúzia de flores (quando a média beirava às dezenas de dúzias). O padeiro conseguiu vender apenas um quinto do pão costumeiro e o homem que ordenhava as vacas não chegou ao final do segundo balde de leite. O relógio andava na mesma balada, mas, algo não estava bem. Era preciso descobrir o que houvera, pois os telefonemas eram interrompidos assim que chamavam. Um físico acusou uma rachadura no tempo que se dividiu em dois: antes e depois. Os que ficaram com o antes, adquiriram a primeira parte da manhã e por lógica simples, a outra parte com os que optaram pelo depois. Não sem muitas e exaustivas negociações, (explica-se): O fato suspeito teve desdobramentos nas relações interpessoais, pois partilhar as manhãs, não era tarefa de pequena monta. Os que tinham mais urgência do tempo compravam-no dos que dele dispunha, e passou-se a comercializar até mesmo semanas futuras de anos bissextos. Alguém teve uma grande e luminosa idéia e convocou os concidadãos a opinarem. Em conseqüência, fizeram relógios que andavam para trás. Assim o dia começava tarde e terminava com todos no berço e no colo do espaço, à medida que o tempo engatinhava rumo ao sol nascente.

 

De realeza e de louco…

 

Por mais que se tentasse extrair do infeliz uma confissão feliz, ele jurava inocência. E dizia sempre a mesma história e tão repetidas vezes e de tal modo nos mesmos detalhes, que a sua versão passou a ser aceita como a mais completa até então. O júri havia se reunido pela décima sétima vez. Fazia-se necessário e urgentemente por um final àquelas sessões infindas. Entrariam num acordo, desde que o sacana não expusesse desta vez como dantes, as suas lágrimas, que a todos comoviam para finalmente entrarem num choro compulsivo e coletivo. Passaram aos autos do processo que se sabia de cor parágrafo a parágrafo, volume a volume, quando o danado teve uma idéia. Mudou o curso de tudo até então dado por certo e definitivo. Disse que desta vez falaria a verdade! Houve tumulto, tentaram adiar a sessão. Juízes eram acometidos por chiliques e cacoetes pessoais. Não havia quem se conformasse! Ninguém queria outra versão por ser a atual de interesse geral – segundo alguns – e particular segundo outros. Além do que, a todos agradava o final que o confesso autor deitava à própria história de um realismo fantástico, cujo fecho de ouro, apontava para uma série de dúvidas que ainda pairava sobre o caso. Absolveram-no por exclusiva falta de provas conclusivas, por mais que ele insistisse em dizer que era uma espécie de mordomo clássico e único culpado pelos deslizes amorosos dos súditos e que se esforçava sempre pelo reino e por todos que estavam presentes naquela sala! Internaram-no com uma certa urgência. O rei delirava!

O PAGADOR DE IMPOSTOS por sérgio da costa ramos / florianópolis

O ilhéu, assim como todo o povo brasileiro, cedo se acostumou a pagar o quinto, o dízimo, a parte de César, chame-se César de Visconde de Barbacena, Marquês de Pombal, Lula ou Dário.

O IPTU engorda todo mês de janeiro, a uma taxa sempre superior ao IPCA. O preço das passagens de ônibus também seSÉRGIO DA COSTA RAMOS 1 reajustam por um número cabalístico, quase sempre uma pancada de “dois dígitos”. O único interesse que não é consultado é o do “pagador”. Aquele deserdado que um dia, na cabine eleitoral, imaginou estar bem protegido, ao passar “uma procuração” ao presidente, ao governador, ao prefeito.

Que lógica preside a majoração de um imposto, de uma passagem de ônibus em nível muito acima da inflação? A lógica de uma tirania fiscal, como a que inspirou o Marquês de Pombal.

Os impostos chegaram ao Brasil com as caravelas, os selos, as taxas, os emolumentos e as obrigações reinóis – tudo compondo uma imensa carga fiscal, infligida aos súditos de uma monarquia tão cartorária quanto a portuguesa.

Próximo dos 40% do PIB, o volume de impostos sugados do brasileiro já beira os US$ 400 bilhões – algo como R$ 1 trilhão –, “tesouro” este retribuído em “magníficos” serviços, ótima assistência médica e previdenciária, excelente base educacional e impecável segurança, com direito a “apagões” periódicos.

Mas até mesmo a Metrópole hoje se constrangeria em admitir que, entre 1790 e 1795, criou “impostos” especialmente dirigidos à Vila do Desterro, “para ajudar na reconstrução de Lisboa”, arrasada por um terremoto em 1755.

Toda a “baixa” Pombalina, junto ao Tejo, foi reconstruída com as gotas do nosso suor, num momento em que a vila padecia de endêmica pobreza.

É como registra mestre Oswaldo Cabral, em sua saborosa Notícia de Nossa Senhora do Desterro:

“Equivalia a, nada mais, nada menos, do que retirar o couro de quem já perdera a camisa…”

A mesma autoridade que comunicou o “imposto para Lisboa”, o vice-rei, Conde de Resende, não satisfeito com a “féria”, mandou à Câmara da vila uma pesada crítica ao povo desterrense, exatas 3.757 almas:

“Parece-me útil dizer a vosmicês que, sendo de sua obrigação cuidarem do bem comum e da utilidade desse povo, não o perca de vista para o apartar do ócio em que vive, obrigando-o, ao menos, à plantação dos mantimentos de sua subsistência.”

Além de colocar a mão no bolso dos ilhéus, o vice-rei – certamente um “trabalhador” – ainda chamava o povo de “vadio”. E o mandava plantar mais batatas…

Sábio, o desterrense não teve medo de perder o pescoço, como Tiradentes. E boicotou o “quinto” de Lisboa, guardando os seus parcos caraminguás.

A vila enfrentou a escassez praticando a desobediência civil – e festejando como podia. Durante a “grande fome”, Desterro possuía 666 casas, 18 lojas de fazendas e… 44 tavernas.

Se não havia muito o que comer, a turma se esmerava em encher a caveira. Só na Rua Menino Deus – caminho obrigatório para quem fosse rogar a bênção do Senhor dos Passos – havia 11 botecos com alambiques próprios, onde a “caninha” rolava solta.

Como aperitivo, a “raça” se virava com carne de macaco, um petisco para a época de vacas magras, saboreado com os “carás” e os “inhames” fritos.

As pestes não eram incomuns – a febre amarela, o cólera, a sífilis bubônica –, mas a visita mais temida era a das caravelas de sua majestade, trazendo impostos.

Fora essa “peste tributária”, a vida na Vila do Desterro podia ser vagarosa e despreocupada, do tipo “ganha-se pouco, mas é divertido”.

O ATEU D’ARCAIS por hamilton alves / florianópolis

O filósofo ateu Paolo Flores D’Arcais submeteu-se a uma entrevista, intermediada por um jornalista, Gad Lerner, com o Papa Bento XVI. Naturalmente, sem querer resvalar à parcialidade, no cômputo geral de que um e outro disseram pode-se concluir, sem muita dificuldade ou esforço intelectual, que o Papa Bento XVI passou-lhe à frente folgadamente.

Houve um momento em que, por exemplo, na discussão do aborto, D,Arcais mostrou as unhas de nihilista materialista:

– “A mim, por exemplo, parece até repugnante a ideia de considerar um aborto como homicídio; nunca, jamais o consideraria equivalente, e até acho – eu, pessoalmente – imoral quem sustenta uma coisa dessas”.

O Papa Bento XVI lhe deu o troco:

– “Flores D’Arcais disse que quem considera o aborto um homicídio comete um ato imoral. Não aceito isso”.

Em outra ocasião desse debate, que poderia ter sido mais brilhante se D,Arcais estivesse um pouco mais à altura do Papa Bento XVI, procurou-se situar o momento decisivo em que o aborto devesse ser praticado.

Para D,Arcais nos dezesseis primeiros dias o embrião não está sequer constituído… são células indiferenciadas. Ora, como aceitar que, para uns, o homicídio se caracterize desde a concepção.

A essa objeção novamente as palavras do Santo Padre foram, a meu ver, perfeitas:

“Para Santo Agostinho e espero que para todos nós, é absolutamente certo que, se alguém é homem, é intocável. Depois, vem a outra questão, que é: a partir de que momento se é um homem?”.

E concluiu:

“Segundo meus conhecimentos de biologia, na realidade, esse ser leva consigo, desde o primeiro momento, um programa completo do ser humano, que mais tarde se desenvolve. Mas o programa já está lá, e por isso se pode falar de um indivíduo”.

Seria oportuno lembrar-se que todos os códigos penais da grande maioria dos países civilizados, inclusive o do Brasil, inclui o aborto como crime por estar envolvido o problema da violação do direito à vida do feto, que não pode ser de modo algum interrompido, seja qual for a fase em que se encontrar.

Pretender demarcar, por exemplo, como quer o Sr. D,Arcais, em que momento se pode dar a eliminação do feto, que Aristóteles, em sua doutrina, dizia poder-se falar da existência de uma alma entre os três até seis meses, como querendo dizer que antes disso não existe a formação de um ser humano, é uma teoria que não vinga mais em nosso tempo – e hoje se consagra tal crime independentemente de saber-se o estágio do embrião.

Mas para o Sr. d,Arcais é até imoral quem pense em termos de homicídio no caso do aborto. E, assim, com ele, se alinham todos os ateus materialistas, certamente.

O que, em última análise, revela a diferença abismal entre a posição cristã relativamente à materialista sobre um tema que ainda agora tem sido longamente debatido pelas mais diferentes correntes de pensamento.

Rumorejando (Que pena que o apagão não apagou os políticos, lamentando). – por juca (josé zokner) / curitiba

Constatação I (Sem apelar…)

E quando a pobre da mulher vinha se aproximando do bar para bronquear e levar o marido pra casa que, naquelas alturas, como de praxe, já estava com o “caco cheio”, ele se agarrou na ponta da mesa e, pseudohaicaimente, se pôs a gritar:

“Me acuda!JUCA - Jzockner pequenissima (1)

Lá vem a miss bocona,

A bocuda!”

Constatação II (Passível de mal entendido).

“Ela estava com o Chico”.

Constatação III (De conselhos úteis, óbvios).

Para curar a sua dor de garganta, minha senhora, não tome a medicação indicada pelo seu médico com água gelada. De nada !

Constatação IV (De conselhos úteis, não tão óbvios).

Nunca subestime o teu interlocutor. Afinal, o vigarista que passa o conto do pacote ou o do bilhete premiado se faz de bobo para ser “enganado” e passado para trás pelos “espertos”, ou melhor, pelos incautos. De nada!

Constatação V

Rico fala das condições meteorológicas; pobre, do tempo.

Constatação VI

Não se pode confundir receio com recheio, muito embora quando se come um pastel sempre se tem receio de que o recheio seja de vento e, com isso, arrisca de, já na primeira mordida, se apanhar um resfriado, gripe, ou algo desagradavelmente similar.

Constatação VII

E como dizia, pseudo-haicaimente, aquele operário, salário mínimo, que passou sua vida sem amealhar um p. centavo, depois de se politizar por esforço próprio, naturalmente:

“Do trabalho, o fruto

Resulta pra outrem

O usufruto”…

Constatação VIII

Não se deve confundir talento com tá lento, muito embora muita gente de talento viva escutando: “Tá lento”.

Constatação IX

Não se deve confundir gama com cama, muito embora exista uma gama de tipos e modelos de cama para todos os gostos. Ressalte-se, ainda, a bem da verdade, que a finalidade de todas é – mais ou menos: mais menos do que mais, ou, talvez, até mais, mais do que menos – a mesma, isto é, dormir. Creio, caro leitor, que ficou mais ou menos claro essa tão didática explicação.

Constatação X (Ah, esse nosso vernáculo).

Súplice,

A tréplica

Do cúmplice,

Embestou.

Não contestou

A réplica.

DÚVIDAS CRUCIAIS

Dúvida I (Cuja resposta é de transcendental importância para o futuro da Humanidade…)

Tem gente que, quando espirra, não diz “atchim”, como é de praxe, mas apenas “atchi”, suprimindo o “m”. Seria o que se pode chamar de um espirro capenga ?

Dúvida II

Sob condição

Normal

De pressão

E temperatura,

Ela, afinal,

É candura,

E ternura,

Quando carente,

Somente

Na posição

Horizontal ?

Dúvida III (Via pseudohaicai).

Urdiu uma trama

Pra levá-la*

Pra cama ?

*A coberta, prezado leitor, apenas a coberta. Não o que o prezado leitor estava pensando. Aliás, prezado leitor, vamos parar de pensar só naquilo, tá ?

Dúvida IV

Quem será que inventou essa mentira de “quem com ferro fere, com ferro será ferido” ? E também aquela outra: “Quem semeia ventos, colhe tempestades” ?

Dúvida V

Os candidatos que se apresentam na televisão são atores – alguns maus; outros péssimos – e nunca se deram conta disso ?

Dúvida VI

-“Opa!

Cadê a sopa ?

Será que enfurnou

O cozinheiro ?

Ou, por ser ligeiro,

O caldo entornou ?”

Observação: Em certos países, as palavras “sopa” e “cozinheiro” podem ser substituídas por outras mais condizentes com a situação local.

Dúvida VII (Via pseudo-haicai).

Fazer regime,

Em dia de festa,

É, de lesa-pátria, um crime ?

Dúvida VIII (Via pseudo-haicai).

Orgulhosa, impávida,

Foi a invicta

Que apareceu grávida ?

Dúvida IX (Via pseudo-haicai).

Preciso do seu préstimo:

Daria para me fazer

Um pequenino empréstimo ?

Dúvida X (De cultura geral, via pseudo-haicai).

Foi o Tarzan

Que esgrimou com o pirata ?

Ou foi o Peter Pan ?

Dúvida XI

Rumorejando está constituindo um concurso para ver qual foi o político que mais mudou de partido em termos mundiais, Brasil, Paraná, etc. Quem você acha que ganha ? (Cartas à redação). Como prêmio, o vencedor fica dispensado de assistir o programa de propaganda política.

Dúvida XII

Sinceramente, o que é que você pensa do motorista que não te agradece quando você “cede o passo”, o deixando passar na sua frente ao sair duma garagem, entrar na preferencial, ou algo assim ?

Dúvida XIII

Para que é que serve mesmo a bomba atômica ?

Dúvida XIV

Plutocrata é o sujeito que só assiste desenho animado do Pluto ?

Dúvida XV

Quem afirma que até hoje não perdeu um texto que havia batido no computador é um refinado mentiroso ?

Dúvida XVI

Foi o Homem das Trevas que, ao ver pela primeira vez a luz do sol, não só ficou ofuscado como, também, levou um baita susto da sua própria sombra ?

Dúvida XVII

O suspeito era um cidadão confiável. Tava acima de qualquer suspeita ?

Dúvida XVIII (Lucubrativa).

Você não acha, prezado leitor, que a palavra “porciúncula”, que quer dizer pequena porção, porçãozinha, por ser polissilábica, deveria significar grande porção, porçãozona ?

Dúvida XIX

Por que será que tem tanta gente com cara de caricatura ?

Dúvida XX

Será que não foi um disco voador que provocou o apagão?

De Todos os Genros a Todas as Sogras – de “o ruminante” / belém

Eu, aqui representando todos os infelizes que tem a obrigação de conviver com suas sogras, venho por meio desta expressar toda a realidade que existe por trás desta guerra, sim se trata de uma guerra que por milênios sobrevive de batalha em batalha e, creio eu, esta  só terminará com o findar da humanidade.

Sou sabedor que todas as sogras negarão o que revelarei aqui, mas não me importo, pois é uma parte da guerra necessária à sua adequada continuidade.

Desde os primórdios da sociedade existe a notícia da existência da sogra, inclusive nos mitos da criação não é incomum termos a alegoria de um representante deste ser tão desprezível aos olhos dos genros.

Quem não conhece a história de Adão, Eva e a “serpente”. As pessoas que brincam que Adão que foi feliz por não ter tido sogra é que se enganam, a desgraçada está representada na serpente que influenciou sua esposa e desgraçou de vez com a vida dele.

As batalhas acontecem no dia-a-dia, não existe a chance de um só momento de paz. Trata-se de uma guerra silenciosa por parte delas, mas cheia  influências e jogos sinuosos incrivelmente inteligentes. Nós genros somos menos habilidosos em esconder a guerra, daí nossa declarada aversão a sogras, somos assim, sempre transparentes.

Essa transparência nos impede de ganhar esta guerra, pois enquanto vamos ao embate frontal, estas víboras se aproveitam disso para se fazer de vítimas e nos colocar como tiranos que tiraram a sua filha do melhor caminho que outro homem poderia ter dado a nossas esposas.

As sogras são tão hábeis em suas artimanhas que conseguem, por vezes, levar membros do mundo dos genros para seu lado, então ouvimos absurdos como: “Eu adoro minha sogra! Ela é uma mãe para mim!”

Pior ainda é quando as sogras treinam suas filhas para se tornarem excelentes cozinheiras, engordando e enfraquecendo um combatente que, por fim, acabara morrendo cedo por problemas de saúde.

Os genros, por outro lado, fazem de tudo para que elas sempre vejam em nosso grupo tudo o que elas jamais desejaram para suas filhas. Desta forma tornamos suas vidas um desgosto total.

Essa luta não gera vítimas diretas, pois as mortes que ocorrem não são por conta de ataques frontais, mas pelas coisas que ocorrem naturalmente na vida. O prazer de um genro é que sua sogra viva muito, assim ele pode atormentá-la por mais tempo. Para uma sogra, o prazer está em viver o suficiente para ficar totalmente dependente dos cuidados de suas filhas, atazanando incrivelmente a vida do casal que elas tanto querem separar.

Para vocês sogras, digo-lhes que não adianta separar sua filha de seu genro, pois outro será recrutado ao lugar do derrotado, porém agora mais voraz nos ataques, pois um companheiro de batalha fora derrotado.

Por fim, gostaria de dizer-lhes que, se acaso um de nós venha a perecer antes de sua sogra, saibam que foi uma grande honra lutar contra tão poderoso oponente. Caso contrário, uma péssima morte para vocês (isso nós vamos tentar garantir).

 

De Todas as Sogras a Todos os Genros*

*Carta em resposta ao texto: De Todos os Genros a Todas as Sogras

Aos nossos prezados genros.

Gostaríamos de expressar nosso espanto ao receber tão ameaçadora carta, pois desconhecemos qualquer guerra em curso que envolva nossas pessoas.Brincadeirinha! Isso foi só para garantir que vocês leiam o resto da carta totalmente irritados com nossa mais poderosa habilidade: a dissimulação.

De fato, desde o princípio da sociedade estamos disfarçando nossas artimanhas, estratégias e truques para mantê-los acuados na posição de defesa que todos vocês vivem. Enquanto isso, seguimos vitoriosas em saber que nenhuma de nós jamais se rendeu verdadeiramente, pois não há entre nós alguém que realmente gostou de um genro.

Quanto à história de Adão e Eva que vocês citam, saibam que assumimos a responsabilidade por tal evento, pois como poderíamos permitir que um ser tão deprimente vivesse em tão belo paraíso. Inadmissível!

Nossa maior vitória é ouvir de um genro que ama a sua sogra. É uma doce e prazerosa vitória que nenhum de vocês jamais poderá ter.

Não entendo quando dizem que em nossa guerra não há vítimas diretas. É só ver as estatísticas que apontam que os homens morrem mais cedo que as mulheres, que a maioria das mortes “acidentais” é de vítimas masculinas.

É claro que adianta separar vocês de nossas filhas, pois o estresse gerado e a pensão que vocês terão que pagar acabará por adiantar sua morte. Enquanto nossas garotinhas buscam outra vítima outro marido.

Não nos importa quem venha a morrer primeiro, pois nossa missão há sempre de ser cumprida. Não gostaríamos que vocês morressem cedo, mas não há como evitar diante a tanta estupidez. Quando um de vocês se vai, uma companheira nossa de guerra fica um bom tempo sem diversão.

Ficamos felizes por vocês nos reconhecerem como grandes oponentes. Infelizmente, para nós vocês são apenas inimigos medianos que servem para nos divertir. Que graça teria a vida sem importunar vocês.

Desde já agradecemos a abertura que nos deram para expressar nossos desafetos, dos quais continuaremos a negar. Inclusive acho que foi um de vocês que escreveu esta carta para nos incriminar, não foi?

Com muito amor e carinho.

De Todas as Sogras

 

TONICATO MIRANDA e seus poemas / curitiba

TONICATO MIRANDA - Barquejanto

 

-.-

 

A Voz da Rã

 

Começo o ano com Janis Joplin

começo o ano com saudades minhas

e da goela dela reverberando no meu peito

nos botões da camisa, nas pregas das linhas

fechando-me o sangue nas veias do coração

 

“Summertime” não é deste mundo

uma lápide de mármore dura e branca

Janis quase não canta, quase se encanta

Negra voz sibilante, em breve castidade

Sussurro rouco, bafejando-nos sua imortalidade

 

Mas todos os sobreviventes

ainda estão por aqui

querendo se despregar da cruz

morrendo no dia-a-dia, na ponta das espadas de luz

sob o sol que teima em furar o cerco das nuvens

 

Os sobreviventes são bandos de mentirosos

Calem-se, calem-se, façam-se mudos

nada mais quero ouvir além da canção

quero da voz de Janis, a sua benção

quero ouvir os porões da minha mente

 

“Summertime” don’t me “cry”

“Summertime” o amor chora-me um ai

porque o amor é uma forma de sofrimento

o corpo perdendo o movimento

quando toda a máscara arrancada da cara, cai

 

“Summertime” escorre em meu peito um verão de saudades

e já não me reconheço no turbilhão de fatos, anos depois

não sou eu chorando por meu passado, mas o retrato do que fui

e fujo como sapo ligeiro, nos charcos dos campos de arroz

fujo da rã cantora agonizando-me a dúvida da sobrevivência

 

“Summertime”

Ahhh! Por que já não me reconheço?

Onde enterrei meu passado?

Ahhh!! Janis!! Ahhh! Janis Jasmim!

Quantas ausências sinto dentro de mim!

 

-.-

 

O Bicho da Goiaba

às poetas das noites Curitibanas, anos 80

 

Ela quer arrancar do meu coração

as angústias que pastam nos meus relvados

ao calar e sumir serra abaixo, pras bandas de Morretes

no rumo dos rios pedregosos e encachoeirados

 

Ela não sabe dessa dor que rói

traça que depois de mariposa

mastiga as madeiras e até os próprios dentes

comendo a si mesma antes de ser esposa

 

Ela não sabe que as cigarras passam

cinco anos debaixo da terra, raízes a comer

até que brotando do chão cantam e chamam

os companheiros para fornicar e logo morrer

 

Ela não sabe que estou pronto para a morte

mas queria ao menos me deleitar no malho

roupas arrancadas aos urros e nos sussurros

ser o rei, a besta, o coringa, todo o baralho

 

Não sabe ela que estou pronto para o jantar

e não mais importa quem vai comer ou beber quem

se minha boca vai comer ou beber a comida

serve também que ela mesma seja a comida

 

Não sabe ela que comprei um vinho especial

para esta particular folia fora de época, meu carnaval

onde sou o Rei Momo, o Arlequim, o passista

vinho amoroso, para saciar meu lado menos animal

 

Não sabe ela que morro de saudades dela e de mim

eu, tão idiota, que não sei de morros e de morretes

de estradas lamacentas, de marimbondos e goiabas

ela tão airosa, alucinando minhas pontas e aríetes

SINAL DE ETERNO de otto nul / palma sola.sc

 

 

 

Entro no bar sem

Cogitar de eterno

Antes olhei à direita

E à esquerda

Na leve suposição

De encontrá-lo

De um lado uma rua

Infinitamente longa

De outro, o céu

Sem nuvem

Ali, sim, havia

Todos os motivos

Para que, enfim,

O eterno se mostrasse

Um sabiá trinou

Numa árvore

De um certo modo

Era uma canção eterna

Aqui e ali despontava

Algo pretensamente eterno

Mas no fundo de tudo

Havia um sinal de eterno

 

MINHA POESIA de julio saraiva / são paulo


minha poesia não foi educada

na escola de bilac

e nunca será convidada para o chá

dos imortais da academia brasileira de letras

minha poesia anda descalça pelas ruas

do centro velho de são paulo

nenhum tradutor francês perderá seu tempo

debruçado sobre ela

nem será lembrada nos saraus familiares

não a dirão nas escolas

nos dias de festas cívicas depois que a

bandeira nacional onde se lê Ordem e Progresso

for hasteada por uma menina loura

minha poesia sai todos os dias

muito cedo da favela de heliópolis

pega ônibus lotado

desce pela porta da frente sem pagar a passagem

e vai vender balas no cruzamento da brasil com

[a rebouças

 

minha poesia é aquela mulher despudorada

que se oferece a qualquer um sem cerimônia

se bobear assalta e é capaz até de matar

minha poesia se alimenta do lixo das palavras

podres proibidas que não cabem na boca

das pessoas de bem e por isso deve ser execrada

de todas as antologias e condenada a trinta anos

[de silêncio

“HONORÁVEIS BANDIDOS” do jornalista palmério dória, JÁ está nas livrarias do país / belém.pa

a saga do senador da república brasileira e presidente do senado federal, JOSÉ SARNEY, contada pelo jornalista PALMÉRIO DÓRIA, já se encontra nas livrarias do país. um trabalho de longa pesquisa que vem confirmar tudo aquilo que sabemos e que nada fazemos. “tudo isso acontecendo e eu aqui dando milho aos pombos” (RAUL SEIXAS).

sarney

CRONTOS ou CÔNICAS por omar de la roca / são paulo

 

Atravessei a miniatura da Via Lactea, riscada de estrelas multicores esperando que uma delas passasse de raspão e levasse com ela esta dor de cabeça imensa.Fui garimpar um pouco de energia com o Pedreira.Aprendi que amigos são para isso mesmo.Um dia a gente apóia e em outro nos apoiamos.As pedras coloridas e a conversa me aliviam.Mas a dor esta forte e não consigo participar direito.Preciso pedir desculpas da próxima vez.Momentos preciosos de amizade não podem ser desperdiçados.Mas a cabeça lateja e lateja.Começou assim : Sai do prédio gelado e vazio,como um grande tumulo congelado.Fui andar ao sol.O sol que me encarou de frente e me fez buscar sombra acolhedora que não encontrei.Não é um longo caminho até o Pedreira e eu sempre vou com prazer.Espero que para ele minha presença seja tão bem vinda,tanto quanto eu gosto de estar lá.Mas não com dor de cabeça,que lateja,lateja.Estou aprendendo a observar mais.Aprendendo a olhar para cima,para a borboleta inexistente ,vendo o pássaro que não passou e vou registrando tudo ou quase tudo.Será que escreverei um conto? Uma crônica ? Acho que seria melhor escrever um cronto mistura de conto e crônica. Não uma cônica que me lembra formas geométricas.Todas diferentes,como as pessoas e as pedras.Lateja.No caminho querem pegar em minha mão,quase deixo para sentir o toque,mas a conversa que vem depois já conheço de cor.Continuo caminhando ao sol,que me ofusca e cubro os olhos para diminuir seu brilho.Ajuda,mas quem poderá ofuscar o sol ?As folhas de carvalho na pedra.Que eu sempre quis fotografar.Mas para que? Bonitas  sim,mas de uma inutilidade absoluta. Continuarão na pedra até que o prédio venha abaixo.Lateja,lateja.Passo pelas árvores que me cumprimentam e eu me curvo perante elas.Vou caminhando,mas devagar,que lateja. Já foram quatro comprimidos.E a dor que multiplica o sangue bombeando,latejando.Fechou o farol.Atravesso ainda com o sol no rosto,fazendo o possível para ignora-lo, mas ele não deixa. Precisei dar uma pequena corrida que uma moto não respeitou o farol.A cabeça explode.Vou andando devagar,preciso de energias boas.Energia das pedras coloridas.Muitas coisas me passam pela cabeça,vejo um pequeno jardim sem flores,sem grama.Um jardim?Ao menos me pareceu que era um jardim.Um pedaço de terra revirado.Sem uma planta sequer.Lateja.Ali,um jato de água tímido querendo vencer a queda e se lançar no espaço.E eu passo por ele esticando a mão para molhar a testa. Mas esta longe.E eu continuo pela praça quase deserta.Latej.Isto mesmo latej,esta melhorando,e eu me animo.Começamos a conversar e eu a tocar nas pedras.Lat,quase bem mas ainda confuso dos comprimidos.E falamos e falamos.Lateja forte.La.Chega a hora de ir embora.Quase bem agora.De costas para o sol volto a caverna fria.No caminho abro o guarda chuva para me proteger de minhas memórias mas num inacreditável movimento antigravitacional elas contornam a beirada do guarda chuva sobem pelas varetas e vão pingando sobre mim.Agora que cheguei,abro o Word.Palavras e mais palavras que quero brincar com vocês.L,quase bem.Mas com o gosto dos comprimidos na boca.Comprimo os lábios contendo o riso ao lembrar…Sacudo as gotas que a memória deixou em meu paletó e o penduro para secar.Quanto ao resto farei o que puder.” Serei sempre aquele que espera que lhe abram uma porta,ao pé de uma parede sem porta?” Ou um juntar e rejuntar de cacos que se unem e se desfazem todos os dias ? Tentando Se reinventar numa forma diferente, mais agradável talvez? Mas que nunca é deixado na estante,quieto como um bibelô? E se por acaso me esquecerem lá,saberei resistir a imobilidade , já que não fui feito para exposições? Agora sim,a dor passou.Nem mesmo um l minúsculo para registra-la. Mais uma vez chegou a hora de juntar os cacos.Sorrindo os apanho depressa coloco um aqui,outro ali,sem me importar muito se estão no lugar.Opa ! Um deles caiu e o apanho depressa apertando com mais força para ficar preso desta vez.E vou andando,feliz com meus cacos,esperando que não vejam as emendas que fiz no conjunto,procurando mostrar mais o lado azul da porcelana do que o branco onde as fraturas aparecem mais.Se doem ? Tanto quantas outras múltiplas coisas,como a mão que para no meio do caminho de um afago.Ou os braços que rejeitam um abraço.Os lábios que desviam.Mais cacos.E vou virando e revirando memórias para achar um pouco de cola e mante-los no lugar.

ONDE – de jb vidal / florianópolis

percorro trilhas transpassadas por outras

segues comigo por onde não há sinais

.

sigo sem dor e corro

.

não vens

vacilas e cais

.

esperar-te é não querer

.

temo o veneno do vinho

bebo-o

a mente se abre e explode

.

o instinto é rota

que sigo e não sei

.

sinto-me só, não penso, apenas avanço

o escuro da floresta é o manto protetor

percorro caminhos feitos a noite

.

escravo da decisão

busco o lugar onde deveria estar

na tua desistência, encontrei fôrças

.

há dúvidas que eu chegue

mas haverá trilhas para ti

ANSELMO DUARTE por hamilton alves / florianópolis

Soube agora há pouco pelo noticiário da imprensa da morte de Anselmo Duarte, aos 89 anos, realizador de um dos maiores filmes no plano mundial, “O Pagador de Promessa”, tanto é que foi ganhador da Palma de Ouro, em Cannes, em que figuraram grandes atores, que competiu com filmes da repercussão e qualidade de “O anjo exterminador”, de Buñuel, o que, sem dúvida, enaltece ainda mais seu feito.

A notícia divulgada dá conta que Anselmo desde o dia 27 de outubro estava internado no Hospital das Clínicas em São Paulo para tratamento de problemas vasculares e outros, e recebeu alta médica para tratar-se em casa, quando veio subitamente a ser atingido por um AVC, que o matou nesta madrugada de sábado, 7 de novembro.

Além do prêmio em Cannes, que o consagrou como um dos melhores diretores de cinema do mundo, Anselmo assinou outros filmes, com um dos quais tentou concorrer à premiação noutro festival de cinema mas foi barrado pela má vontade que, de certa parte em diante de sua atividade de cineasta, acompanhou-o como uma praga. Não houve (entre notoriamente os cinemanovistas, tipo Glauber Rocha, Arnaldo Jabor, Cacá Diegues e outros) quem não quisesse questionar os méritos de
“O pagador…”, considerando-o de uma estética ultrapassada. Então estava em voga o cinema do autor ou da linha godardiana, que era apregoada como o modelo a seguir – ou “uma máquina na mão e uma idéia na cabeça”, que Anselmo jocosamente traduziu, em seu livro, “Adeus, cinema”, por “uma máquina na mão e merda na cabeça”.

O fato é que, no cinema brasileiro, bem poucas vezes realizou-se um filme da envergadura de “O pagador…”, ainda que as línguas ferinas (e invejosas) sempre tratassem de menosprezá-lo, não obstante a consagradora vitória num certame da importância do festival de Cannes e com cineastas concorrentes do valor do já citado Buñuel.

Nesse livro de Anselmo, referido, narra-se o que passou, em matéria de agruras, depois do triunfo em Cannes, os conflitos vividos, as incompreensões, que o deixaram na maior decepção frente ao fato de ter sido o ganhador de um festival da importância do que tinha participado e levado o prêmio. Os cinemanovistas, principalmente, nunca lhe perdoaram essa vitória, e trataram de enxovalhar, quanto puderam, a grande expressão artística, sob todos os aspectos, que merecera internacionalmente “O pagador de promessa”, que é, hoje, incluido no rol dos melhores filmes já produzidos no universo da sétima arte.

Se outro fato não fizesse por destacar Anselmo Duarte, por sua atividade de cineasta e também de ator de tantos filmes em que apareceu, a vitória em Cannes seria suficiente para guindá-lo a uma posição igual à de tantos outros grandes mestres do cinema.

Ave, Anselmo.

 

POJO de joanna andrade / miami.usa

Hipócritas horas extras

Quando o amor beija a boca como nada

Num sorriso podre em face seca deformada ao chão

Corre um fio de baba gorda

– Ao longe, uma lagrima de dor.

VOVÓS LOLITAS por sérgio da costa ramos / florianópolis

 

No imaginário popular, vovó sempre foi aquela velhinha encarquilhada de Monteiro Lobato, a Dona Benta, inimaginada como alguém proprietária de algum sex-appeal. Que não se choquem os pudicos, mas jantá-la… nem mesmo o lobo mau.

Pois esta imagem da avó “maracujá-de-gaveta”, enrugada como uma Alena Ivanovna, de Dostoievski, ou uma babuskha de Tolstoi, caducou ao talho do bisturi da modernidade.

“Toda mulher devia ter 14 anos”, proclamou, certa vez, o sociólogo-dramaturgo Nelson Rodrigues.

Na sua época, era impensável a beleza na idade meã, de 50 pra cima:

– Marilyn Monroe morreu dessa enfermidade terrível que é a beleza. E o que é mais sofrido: a beleza jovem.

Isso nos tempos em que os bichos falavam e Nelson vivia de escrever paradoxos. Hoje as vovós estão tão jovenzinhas e enxutas – para usar uma gíria antiga – que, de vez em quando, uma vovó dá à luz, com mais de sessenta e tantos. Em vez de vovós, são as “momós”… As vovós mamães.

Doutora Anna Aslan – a primeira grande geriatra – e as artes disseminadas pelo cirurgião plástico brasileiro Ivo Pitanguy fizeram milagres pelas vovós de hoje, que malham nas academias e se submetem a tratamentos ortomoleculares para conservar a carroceria sempre saudável – “com tudo em cima”, como gostam de dizer.

Já se desvaneceu aquele antigo horror das mulheres muito vaidosas, em briga permanente com a palavra “avó”.

As vovós precoces de antigamente só faltavam amordaçar os netinhos, para que eles não atirassem em sua direção o dissílabo fatal:

– Vovó!

Atrás de uma bola, alertava-se, sempre vinha uma criança. E atrás de um netinho, uma velhinha. Isso, antigamente.

Hoje, atrás de um netinho podem muito bem vir as atrizes Marieta Severo e Betty Faria, ou a empresária Lígia Azevedo – que acaba de chegar aos 65 com uma silhueta digna da “Receita de Mulher” do mulherólogo Vinicius: Que haja uma hipótese de barriguinha, mas que a mulher se alteie em cálice, e que seus seios sejam uma expressão greco-romana.

As vovós já não são aquelas velhinhas em cadeira de balanço, tricotando sapatinhos.

Elas curtem os netos, as netas, e até rivalizam com estas, usando calças três quartos, de cintura baixa e umbigo à mostra…

Marieta Severo confessa “alguns sustos” ao ser considerada “símbolo sexual” em plena maturidade:

– Acho que andam me confundindo com a Vera Fischer. Mas sou amiga dos amigos das minhas filhas porque sou muito animada. Acho muito engraçado ser considerada “uma gata” aos sessenta e “alguns”.

Mais do que cremes esfoliantes, as vovós gostosas precisam de “emoções”, ensina Marieta.

Como o olhar de um homem, torcendo o pescoço para reparar no seu “movimento de quadris”, a verdadeira revolução francesa do erotismo.

A verdade é que as Vovós Lolitas andam merecendo o nosso assobio. Até o quase pedófilo Vladimir Nabokov (Lolita) se apaixonaria por elas.

 

 

CONCEITOS de rosa de souza* / portugal / florianópolis


Olho este mundo virado ao revés.

Conceitos crueis Humanidade desmentindo.

Germinamos sem cabeça nem pés.

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Tanto sofrimento, lágrima e frustração,

ensinados somos na ilusão sem sentido.

Mágoa e dor glorificando sadismos sábios.

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Mulher coberta para homem não ser tentado.

Viúva de sexo ou companhia – unida a avelhentado.

Obrigada a ver pai em namorado.

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Ele escolhe. Ela procria resignada, vilipendiada.

Ele sacia, ela se envergonha – assexuada.

Ele escolhe pela idade. Ó calamidade…

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Cometas e girassóis seguem rotas,

o sol caminha ao encontro de outra estrela.

Homem sem objetivo come e arrota fazendo guerra.

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Sem liberdade, negando a individualidade,

do púlpito gritam “o coletivo salva a alma”.

Para os seguirmos – sem sabedoria ou qualidade!

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Galáxias se cruzam além do firmamento…

O Homem vegeta sem discernimento.

Sobrevive em dogmas aumentando o tormento.

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Evolução é lei universal. A única finalidade.

Sobreviver é instinto. Viver é direito.

Glória à mulher que nega antigo preceito.

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Mais ínfima que um grão de areia a Terra brilha,

entrelaçada em dimensões e paralelos.

Existência manchada por desdouro conceito.

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O bom, espontâneo e puro – condenado.

O ignóbil, torpe, desprezível – beatificado.

Grito chorando – daqui não sou, aqui não pertenço.

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* a escritora e poeta portuguesa rosa de souza tem sete livros editados nos estados unidos, onde morou por 30 anos, e no  brasil onde vive agora na ilha de santa catarina. prepara novos lançamentos para o próximo ano nos dois países.

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A AUTORA

A AUTORA

POLANSKI por hamilton alves / florianópolis

Roman Polanski, o cineasta de tantos filmes que marcaram época e se constituem alguns deles clássicos do cinema, como, só para citar alguns, Chinatown, O bebê de Rosemary e outros, vem de ser preso, quando chegava num dia desses ao aeroporto de Zurique, por ordem da justiça americana, sob a alegação de que tivera relação sexual com uma menor.

O crime foi cometido em 1977. Há, portanto, 32 anos.

Para qualquer justiça de país civilizado, esse crime não poderia provocar mais qualquer tipo de efeito contra o infrator por se lhe aplicar a figura da prescrição, pelo qual o Estado não tem mais interesse em punição (nem pode moralmente aplicá-la) pelo decurso de certo tempo previsto nas legislações penais desses países.

Será tão caduca assim a legislação penal dos EUA, que lá não se aplique idêntico preceito?

Ou será o crime sexual contra menores imprescritível por aquelas bandas?

No Brasil, não há exceção pela natureza do crime para efeito de prescrição, que eu saiba.

O efeito retardatário da pena apresenta-se, à primeira vista, como uma coisa anacrônica. É evidente que, no decorrer do tempo prescricional (assim fixado expressamente na lei), o infrator mudou a forma de ver as coisas, regenerou-se ou passou por uma transformação moral ou psíquica, arrependeu-se ou qualquer coisa dessa ordem, que sugere que a pena por um crime passado não tem mais sentido. Ou perdeu a razão de ser ou de sua aplicabilidade.

A adotar-se tal medida, a imprescritibilidade da pena, resulta que o infrator de um crime (ou infração) nunca deixará de ser perseguido pela justiça, mesmo que o decurso do tempo lhe tenha produzido profunda modificação no comportamento. Ou outro seja seu padrão moral. Ou tenha havido substancial mudança em sua índole ou conduta.

O processo estará em seus calcanhares até que a pena seja aplicada, mesmo que, como o caso de Roman Polanski, os efeitos ainda durem depois de 32 anos de ter praticado o delito pelo qual fora imputado.

O que, a bem dizer, é uma velharia da lei penal dos EUA, em descompasso com as demais legislações de outros países, como o Brasil, por exemplo, em que, no caso, a pena há muito teria prescrito. A não ser que na legislação americana (o que não ocorre com a nossa) haja determinados tipos de infrações imprescritíveis, como será a de manter congresso carnal com uma menor, de cujo crime é imputado o cineasta.

Mas como quer que seja, após 32 anos, nenhuma pena pode ser sensatamente aplicada a um infrator, independentemente da natureza do crime, pois o processo de erosão do tempo sobre os efeitos da pena se operou, a contra-indicar que o Estado ainda revele interesse em sua adoção.

O caso que agora se dá de prisão de Roman Polanski, que tem uma série de grandes filmes em seu currículo (o que não o isentaria de responder por um crime, fosse qual fosse)

é revelador, antes de mais nada, do desatualização da legislação penal americana. O que é, em última análise, de provocar pasmo.

AMANHECER em SANTA ROSA (RS) por tonicato miranda. curitiba

TONICATO MIRANDA - Periferia de Santa Rosa


Quantos já repararam numa cidade amanhecendo? Muitos, com certeza.

Mas agora, aqui, no alto do quinto andar do Hotel Rigo, em Santa Rosa, assisto um tanto solitário, a este amanhecer de verão, no extremo oeste do Rio Grande do Sul.

De início tudo era penumbra, e as luzes nas ruas eram pontos brilhantes desenhando os traços feitos pelos homens. Depois, com a claridade, as luzes ficaram boiando no espaço, penduradas por árvores de cimentos como estrelas mortas.

À minha frente passa um ciclista, sofrendo no pedal na subida da ladeira. Outro desce tranquilo.

E mais outro vem, regulando a freada na descida. Aquele vai olhando a manhã, sereno como ela. Com pedaladas ritmadas, mochila às costas, segue no rumo do trabalho. Nesta hora, bem cedo na manhã têm mais bicicletas do que automóveis nas ruas. Certamente são os operários rumando em direção à labuta de mais um dia.

Abençoados sejam esses trabalhadores matutinos de Santa Rosa, ou de Horizontina, que visitei ontem, de Arraial do Cabo, de Joinville, de Teresina, de Arapongas, de Monlevade, e tantos, em tantas cidades brasileiras; e todos que vão ao encontro do trabalho montados nas suas magrelas.

O hotel, numa de suas laterais, faz frente com a Rodoviária da cidade. Exatamente a fachada do apartamento onde estou e que tem esta sacada e eu dentro dela. Lá embaixo, uma mãe atenciosa aponta para cima indicando a um dos três filhos que algo acontece aqui em cima. Acho que aponta para mim. Deve estar a dizer: __ Olha que estranho, lá em cima tem um homem a escrever! – O filho certamente não entende nada, pois isso não lhe parece tão estranho, nem tampouco tão normal. Como pássaro não escreve e homem não se dependura no céu, as possibilidades estão empatadas. A situação é somente inusitada.

Por via das dúvidas, diante do interesse, como pássaro ou como escritor maluco, ensaio um tímido adeus que fica sem resposta.

Mais tarde para o alto do telhado da Rodoviária – começando a se alvoroçar com o povo que não para de chegar – tenho a visão de três a quatro bairros da cidade de Santa Rosa e de um dos seus principais acessos viários. Também posso ver algumas plantações de soja, de milho e outras culturas não identificáveis à distância e, ainda, tufos de matas remanescentes exigidos no interior das fazendas pelo IBDF.

Os raios de Sol que vêm chegando iluminam primeiramente as torres dos silos mais distantes. Depois, arrancam da penumbra um trecho de mata, todo um bairro situado na parte alta da cidade. Para, mais tarde, cambiar do escuro para o claro o verde das plantações. Uns vinte minutos depois, os raios já um pouco mais inclinados, permitem-me a visão da primeira sombra de uma árvore sobre um relvado distante. É o sol fazendo parceria com o tempo para produzir formas com a luz e assim enaltecer a geometria.

Passada a primeira meia-hora que o Sol pareceu seus raios já atingem em cheio um prédio lá embaixo, fazendo janelas abrirem-se de par em par. Mas ao longe as chaminés de um fábrica iniciam o lançamento de rolos de fumaça ao ar. Pode-se ouvir agora mais fortes os ruídos da cidade e dos homens a trabalhar.

Os passarinhos ainda cantam aqui e acolá, porém seus trinados soam perdidos no interior da sinfonia urbana do homem. Santa Rosa agora está de pé, já acordou. Perdeu um pouco a graça da Santa e o Róseo tom da manhã; é mais amarela e um pouco mais movimentada. E eu tenho de tomar café, como todos os outros que levantam mais tarde na manhã.

PENSAMENTOS RESIDUAIS de joanna andrade / miami.usa

Momentos que sufocam,

dor no peito, sem cura, o unico remédio é esquecer à conta gotas.

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Cada  gota  é como chumbo,

tão pesada é a dor.

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Novo método contra cena  amortecida,

sensação, sem paladar e insonsa.

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O coração ao chão desenhado,

para nunca ser esquecido ao ser pisado.

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A  sola do sapato trilha a fama da vida,

vermelho carmim ululante.

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Rastros cirúrgicos perseguem a sombra das sombras,

criando as cicatrizes históricas.

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As lágrimas alvejam o caminho,

acionam todos os fantasmas para a super ação.

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São esses os momentos que sufocam,

quando a chuva lava as almas deixando-as novinhas em folha.

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Os momentos que sufocam o velho coração,

povoam as aortas com o sódio caustificante dos pensamentos residuais.

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……… dor no peito, sem cura, o unico remédio é esquecer ao contar as gotas.

DO TREINADOR E DO HERÓI por jorge lescano / são paulo


Domingo é o dia em que Deus perdeu a imaginação

então o homem criou a bola.

Livro das Cinzas e do Vento; 11-10

Aconteceu no Monumental de Núñez, impressionante construção capaz de abrigar mais de 80 mil almas, embora naquele domingo vastos setores das tribunas se vissem despovoados. Disputava-se a justa entre Argentina e Peru pelas eliminatórias da Copa do Mundo de 2010, o vazio era conseqüência da péssima campanha da seleção local. Esta ganhava por um gol a zero, o que lhe permitia sonhar com a participação na fase final do certame na África do Sul. O jogo parecia estar decidido. O time peruano não queria voltar para casa derrotado, apesar de já estar fora da competição tentava recuperar a honra nacional, perdida em Rosário em 1978 (Argentina 6 Peru 0).

No estádio todos lembravam do primeiro jogo desta edição em Lima. Argentina ganhava um a zero e a partida estava no fim quando, naquela que viria a ser a última jogada, na ponta esquerda peruana alguém recebe a bola sozinho e como se fosse salvar a mãe da forca dispara que nem foguete tumultuando a defesa argentina. Ao chegar à metade da profundidade da área, ainda fora dela, fez uma pequena curva rápida com a bola colada no pé. A confusão de corpos não permite lembrar se ele ultrapassou a linha de cal, o fato é que chutou com potência e precisão provocando o delírio peruano. Para desespero dos argentinos a bola penetrou no ângulo inferior direito do gol. O juiz apitou duas vezes e apontou o centro do campo com os braços esticados. A TV mostrou rostos congestionados, bocas escancaradas, olhos arregalados, punhos em alto. O Peru estava apto à classificação e mais, mantinha-se invicto em seu território. Esta foi a última partida do Louco Bielza à frente do time argentino.

Agora Diego Armando Maradona não convence como técnico, a imprensa o ataca impiedosamente, os torcedores misturam sua vida pessoal ao trabalho em campo. Oitenta jogadores convocados e um time diferente em cada disputa, assim ninguém se conhece. Era como se um general quisesse avaliar cada um dos seus soldados individualmente para depois definir sua estratégia de combate. Imperícia! Não faltava quem maldosamente afirmasse que sendo Maradona o técnico não faltaria craque na seleção. A calúnia iguala políticos e treinadores. Como os políticos, don Diego se deixa levar pelas palavras, seus discursos ficam difíceis de contornar. Antes da desastrosa derrota contra a Bolívia (6 a 1) havia dito que a altura de 3600 metros de La Paz não seria fator decisivo na partida, tal afirmação descartou a única desculpa do vexame, segundo com esse resultado na historia do futebol argentino. A primeira foi em 1958, na Suécia, contra a Tchecoslováquia. Curiosamente os goleiros de ambas derrotas tinham o mesmo sobrenome e jogavam no mesmo time, Carrizo e River Plate, respectivamente. Nos anais do futebol boliviano esta foi sua maior vitória, para os argentinos a pior derrota; levar goleada da Tchecoslováquia há meio século, vá lá, mas da Bolívia, depois de dois títulos mundiais!… A torcida argentina pedia em altos brados o afastamento de Maradona, já os torcedores brasileiros achavam injusta a medida depois das alegrias que o ex-craque deu ao Brasil nestas eliminatórias. Os brasileiros esquecem que a torcida argentina teve oportunidade de gritar o nome do Dunga em partida memorável. A coisa pode extravasar do continente se a esquadra albiceleste sair desta enrascada.

Tais os antecedentes da atual disputa em Buenos Aires.

Aos dois minutos do segundo tempo Higuarán abre o marcador para os argentinos. Aos catorze minutos começa a chover. Aos vinte o ataque peruano perde um gol com impedimento não marcado. Aos vinte e sete a chuva aumenta. Os dois técnicos recusam as capas e gesticulam como fantasmas na névoa formada pela água nas lentes das câmeras. Aos trinta minutos a ventania balança as câmeras e seus operadores. O time argentino se encolhe. Ataca esporadicamente. Aos trinta e dois minutos o vento conspira contra o time albiceleste, joga-se em meio ao dilúvio. A torcida canta, vocifera, ruge.

Faltavam dois minutos para completar o tempo regulamentar. Argentina 1 Peru 0. Rajadas de oitenta quilômetros por hora criavam redemoinhos no centro do campo atirando a bola a esmo, independentemente da vontade dos jogadores. A torcida argentina orava pelo término da partida, os peruanos queriam operar seu milagre. Este ainda poderia acontecer pois o juiz determinara mais três minutos de tempo suplementar. Estava-se no quadragésimo quarto minuto, o peruano Rengifo cabeceia e gol. Gol-Gol-Gol! Argentina 1 Peru 1. Cruéis, os sinos da derrota dobram a finados, a seleção argentina pode se despedir da Copa, os peruanos deitam e rolam na piscina improvisada, comemoram como se fosse o título mundial.

O temporal redobra sua fúria vingativa, talvez desesperada. Nesse palco trágico, aos quarenta e sete minutos, Martín Palermo, que entrou no segundo tempo, parcialmente restaurado da hemorragia nasal que o havia proscrito por alguns minutos além das fronteiras do campo da batalha, com um chumaço de gaze ensangüentada a pingar da narina direita, sob a inclemência dos elementos que empanavam os olhos da multidão, surge do tumulto dentro da pequena área peruana e com um toque sutil corrige a trajetória da bola lançada do outro extremo da grande área, a esfera, obediente ao desígnio do herói, penetra nas traves adversárias, no mesmo lugar do gol peruano em Lima. O momento é de epifania. O herói desnuda o torso na comemoração pagã desafiando a intempérie e o regulamento, nas arquibancadas gritos, risos, lágrimas, mãos juntas em agradecimento ao criador; o druida Maradona mergulha no gramado. A chuva não diminui, antes aumenta, raios e trovões somam-se à comemoração pátria. O jogo continua, para desespero dos jogadores, da comissão técnica, da torcida argentina encharcada no estádio e daquela parcela que optara por acompanhar o provável desastre pelo rádio familiar.

Os peruanos não se rendem e colocam em perigo o reduto argentino. Os deuses autóctones e os do futebol disputam o tempo, Cronos, impassível, rege no pulso do juiz. No minuto que resta ainda cabe uma segunda bola na trave argentina e a dúvida sobre uma irregularidade em sua área. Pênalti?! Agora? Com o céu a desabar sobre suas cabeças? O árbitro apita e assinala o círculo central, um imenso suspiro acompanha seu gesto. Palermo e Maradona choram abraçados. Argentina está salva até a próxima quarta-feira, em Montevidéu.

Alguma rua da cidade será rebatizada com o nome do herói, epónimo do herói popular criado por José Hernández – Martín Fierro?  Antecipando a imortalidade já existe em Buenos Aires um bairro com o seu sobrenome, até parece que a vida copia o esporte. Martín Palermo, o homem que pode ter feito a Argentina ressurgir de suas cinzas é o mesmo que dias antes garantira sua celebridade ao marcar um gol de cabeça do meio do campo, em jogo do Boca Juniors contra o Vélez Sarsfield.

Quarta-feira 14 de outubro de 2009, aproximadamente 20h50, horário de Brasília. Aos 35 minutos do segundo tempo Argentina e Uruguai empatam sem gols no Estádio Centenário. Um jogador uruguaio é expulso por cometer falta grave contra Gutiérrez. O jovem Messi cobra lançando sobre a pequena área. Depois de um bate-rebate, aos 39 minutos, o volante Bolatti, que estréia na seleção, coloca a gorduchinha no fundo do ninho e entra para a história. A sorte está lançada: Uruguai disputará a repescagem contra Costa Rica, Argentina carimba seu passaporte para o continente negro. Don Diego dedicou a classificação a todos os argentinos, menos os jornalistas. O próximo capítulo será na África do Sul, resta saber se os protagonistas serão os mesmos.

É possível ainda duvidar das alternativas do heroísmo? Talvez o herói contemporâneo não seja apenas o conquistador de postos de chefia nas empresas multinacionais nem o consumidor classe A. Talvez herói seja aquele que os povos admitem como tal.

A CARA DA OSTRA – por sergio da costa ramos / florianópolis

SÉRGIO DA COSTA RAMOS 1A Feira da Ostra começa, mais uma vez, a provar aquela verdade gastronômica, segundo a qual o feio pode, muito bem, ser o gostoso. Cá pra nós, como dizem os manezinhos e olhando bem uma ostra na sua cara , com uma franqueza que descreva só a aparência, não o sabor:

– É bicho feio…

Digamos que o molusco, mais uma vez na vitrina, com a inauguração da Fenaostra, mereça a defesa apaixonada de algum apaixonado gourmet – e que esse admirador sustente gloriosa argumentação, contra os impropérios de algum serrano adepto das carnes vermelhas, tão irresistíveis, mas nem sempre belas para o sentido da visão.

– A ostra – começaria o fã das conchas premiadas – é um coquetel de proteínas maravilhoso. Um verdadeiro e saudável “drinque do mar”…

O lageano, bom bebedor, já se animou:

– Se é bebida…

– A ostra é um organismo vivo e, pode crer, é “hermafrodita”, traz lá no seu epicentro os dois sexos ao mesmo tempo – e por isso se autofecunda.

– O quêêê!? Come a si mesmo?

– É um ser do mar, que se nutre do plâncton. É um presente de Deus, um organismo vivo. Uma “bebida” vital. Nunca comeste uma ostra na vida, homem de Deus?

– Já fui apresentado… Mas tem aquela gosma esbranquiçada e, no meio, uma crosta escura.

– Tem estômago e intestino, é verdade. E um coração, cujos batimentos se pode observar.

– Barbaridade! Prefiro uma picanha, uma maminha, até um matambre! Pelo menos o bicho tá morto e assado! Quem é que gosta de comer o intestino dos outros? Como o caracu, o miolo do boi, o rabo ou o pé de porco. Mas intestino?

– Não se preocupe. Até chegar à sua boca, bem lavada, é mais pura do que água filtrada. Uma concentração de hormônios e vitaminas. Melhor Viagra não tem! Caracu e pé de porco é pra baixo! Ostra é pra cima!

– Sei não. Só de olhar uma já me dá um negócio aqui no grugumilho. Já não me arrisco a ir com a, digamos, Letícia Sabatella, pr’um Motel…

– Pois vá sem medo. E ofereça ostras pra ela. Dará uma prova de sofisticação e bom gosto. Leve umas ostras Bienville. Ou uma Rockfeller. Levanta até defunto. Quando houve uma crise de escargots nos EUA, anos 1920, os ricos e famosos adotaram a Rockfeller em Nova York, fartando-se de ostras do Maine na Central Grand Station.

– Prefiro viajar para o Texas e comer uma costela de zebu. Um baby-beef mal passado. Ou uma picanha ao ponto, pra lá de buena!

– Pois é. É por essas e outras que o mundo está ficando obeso. É a gordura da carne animal. As ostras têm calorias, sustentam, mas não dão barriga. E fortalecem os músculos! Principalmente “aquele”!

– Estou quase tentado a provar… Como é que se come esse bicho?

– Dez mil maneiras. Cozida em ensopado, como moqueca. Ou frita, grelhada, temperada com ervas, alho e azeite de oliva. Mas a minha preferida é a “natural”. Cruinha. Em cima de um colchão de gelo, pingada no suco de limão. E regada a um vinho branco Muscadet, geladinho. Melhor do que isso, só “aquilo”!

ACOMPANHE O RITMO DO DIA por eloi zanetti / curitiba

Quando gostava de usar gravatas, mantinha um estoque de umas duzentas e cumpria um ritual todas as manhãs. Após o banho e a barba, ao me vestir, ia à janela e olhava para o céu, para o tempo e conforme eu me sentia no momento, escolhia a gravata do dia. Dava sempre certo. Havia gravatas para dias escuros, primaveris, ensolarados, tristes, festivos e, principalmente, para os dias de grandes momentos. Hoje já não uso mais gravatas com tanta assiduidade, elas ficam esperando, quietinhas, acho que até suplicando, me use, me use. Aquele era um ritual bom, pois me ajudava no ajuste do dia a ser vivido, uma espécie de pontapé inicial da jornada. 

Os romanos tinham uma frase sábia sobre os dias: carpe diem – que quer dizer aproveite o dia. Poucos de nós sabemos viver com sabedoria os dias que temos pela frente. Ficamos enclausurados em reuniões, amuados por questões mesquinhas, de beiço caído porque brigamos com a mulher, amargurados por desejos não realizados ou pressionados por compromissos inadiáveis. O tempo vai passando e a soma dos dias acumulados para trás vai se tornando maior do que a soma daqueles que ainda temos a viver. Quem sabe? 

Percebi que com os dias o trato tem que ser o seguinte: adapte-se ao ritmo apresentado, não queira forçar a barra, porque não vai dar certo. Para os dias lentos e agonizantes puxe o freio de mão e vá devagar. Para os dias de sol, saia para o jardim, dê um passeio com o cachorro, cuide das plantas, vá buscar as crianças na escola. Para os dias chuvosos, fique mais introspectivo, vá ler um livro ou simplesmente dormir. Para os dias de outono, olhe para o céu, curta o calorzinho da tarde e encante-se com as cores do poente. Para os dias escaldantes, alimente-se de maneira frugal, durma depois do almoço e não saia na hora de maior calor. Para os dias tumultuados, não entre em pânico, fique na sua, observe o burburinho do seu canto e procure não tomar parte dele. Para os dias apressados, acompanhe o ritmo, corra, despache, mas se mantenha dono da situação. Para os dias tristes e melancólicos, entre na tristeza e curta a melancolia. E, como dizem os caboclos, para os dias aziagos, aqueles em que nada dá certo, em que tudo é azar, tenha paciência, não faça mais nada, sente e espere o dia findar. Avançar o sinal será uma péssima ideia. E para os dias de sorte, abuse dela, porque a deusa da fortuna deve estar olhando para você neste momento, se puder jogue na Mega Sena. 

Assim é a vida, tudo tem a sua cadência e nada tem mais ritmo do que um dia depois do outro. Eles sempre foram assim e assim será por todos os séculos e séculos, amém.


* Eloi Zanetti é publicitário, escritor, palestrante e consultor de marketing e comunicação.

AUTORRETRATO de joão batista do lago / são luis.ma

Como se me parece

Cansativa

Esta caminhada solitariamente

Só com o sol na cabeça

Varando estradas pelas madrugadas

.

Como se me parecem longas

Estradas de precipícios

Entre montanhas de espíritos

Que uivam como lobos de florestas

Encarnadas nas almas dos humanos

.

Como se me parece

Eu

Tristonhos e acabrunhados

Entre sarjetas viscerais

Que promulgam o advento da passagem

.

Como se me parecem

Tudo e todos

Diante do altar dos condenados

À espera da santa hóstia

Que nos conduzirão aos infernos

.

Como se me pareceram

Pedro e Madalena

Diante do sagrado

Prostrados à cruz

O beijo do escárnio final

A ODISSÉIA ou O ERRO DO PAVÃO de solivan brugnara / quedas do iguaçu.pr

O pavão

de olhinhos nervosos

irrequieto bípede

tirou dolorosamente

suas queridas penas

uma a uma

e colou

em folhas de papel sulfite.

Despiu-se de suas jóias

transgrediu o pudor

sentiu frio

ficou só

sua família não agüentou

a verdade nua.

Não satisfeito

regurgitou a pouca quirela

do jantar

e vendo o vômito convulso e amarelo

lembrou-se de Van Gogh

e chorou.

Colou sua bile no sulfite

e com as folhas e penas e vômitos

profissionalmente encadernados,

a pobre ave implume

saiu a procura de editor.

Seria mais fácil, pássaro

achar editor

se deixasse as penas no corpo

e levasse as folhas em branco

profissionalmente encadernadas

sempre

profissionalmente encadernadas.

CHUVA por omar de la roca / são paulo

“Tenho medo de trovões”,ela me confessou,enquanto tomávamos néctar diretamente dos cálices das flores.Estava quente e estávamos sentados num banco suspenso por correntes de ar.”mas anseio pela chuva como anseio pela luz.Mas não aquela garoa gelada que só incomoda e não molha nada,ou molha tudo.Anseio pela chuva forte,com ventos indiferentes e cortantes que penetram em todas as frestas.Quero a chuva forte que me faça ajoelhar para o prazer,que me force a deitar e me penetre profundamente como se eu fosse feita de terra.A chuva que me domine a força e me faça rir enquanto me afoga aos poucos.Que desmanche meus medos como se fossem torrões teimosos,mas me deixe fértil  e preparada.Espalhe as ervas daninhas para que escorram pelo ralo.Deixe a semente plantada para que a planta cresça forte com suas raízes,caule e flores.Que frutos só saberei mais tarde.Que percorra todo o meu corpo com suas línguas rápidas e ávidas e me deixe as pernas bambas, me fazendo rir ou chorar,não importa.Que me mostre o que o numero quatro pode fazer comigo,me sacudindo ,me levantando para fora do chão e depois me colocando suavemente de pé,mais fraca agora ( a chuva ) quase garoa ( a chuva ) gotejando lentamente pelos meus cabelos,peito,coxas e pés, até meu corpo secar.Depois, que eu possa me sentar entre as folhas,vestindo minha túnica de vento,puxando as franjas para cobrir os pés frios.”E eu ,atônito,sem saber o que dizer depois de tanta poesia pluvial,ofereci minha mão.E  eu disse : Joguei a corda para o teu lado do abismo.Você pegou,olhou bem para ela e a deixou cair nas sombras sem entender que eu precisava de você.” Ela me olhou como se não entendesse aonde o que eu disse se encaixava.E riu,um riso de deboche.” Acaso não percebes a proposta que te faço?” Ela disse. E respondi “ Sou fraco e não conseguiria te dominar como desejas que a chuva te faça. Apenas jogo minha corda para mantermos contato e quem sabe achar uma saída juntos.Mas imagino que você queira a plenitude da luz.Que te recorte em tiras,penetre no âmago de teu ser,te fazendo sentir completa.Que te faça rodopiar e dar cambalhotas enquanto  prende teus braços  e te possui cegamente.Ofuscando ate teus próprios sonhos de prazer indo e voltando dentro de ti,indo e voltando enquanto estiras a cabeça para trás e gritas ao vento,explodindo.E abraças a luz e a brisa do mar como abraçastes a tempestade e seus ventos.Com  prazer .E depois te deixe só na escuridão com as gotas de luz secando pelo corpo,enquanto te deitas em folhas secas com tua túnica de  espuma do mar.”Você me olhou,como se olhasse alguém que lia um livro de poesias em voz alta.Como se eu pudesse te dar o que você queria,precisava.” Sou apenas um amante mediano,com pouca chuva e pouca luz.Posso de dar o que posso te dar.Se esperas plenitudes de mim,repito, sou apenas mediano.” Trovejava forte agora,e ela se achegou a mim.Abracei-a como pude e fiz um carinho tímido.Beijei-lhe os cabelos encharcados de chuva e brilhantes de gotas de luz e a tomei delicadamente,como sou,com jeito.Passei as minhas mãos pelo corpo dela,passei os lábios.E a penetrei  sem pressa.Cuidando para que seu prazer fosse antes do meu.Mais uma vez.Até que poucas gotas molhassem sua fronte e refletissem o brilho da Lua no céu.Um reflexo de um reflexo. E choramos juntos por reconhecer nossa pequenez diante do que sonháramos.Um sonho de chuva e luz,de ventos fortes e brisas do mar.Nos sentamos de novo no banco suspenso pelas correntes, ajeitando nossas túnicas imateriais e voltamos a conversar sobre nossos sonhos exaustos,mil vezes sonhados. Admirando a transparência turva da água que caia.

HOJE é dia de HELENA KOLODY, homenagem dos PALAVREIROS DA HORA

Arco-Íris

Arco-íris no céu.
Está sorrindo o menino
que há pouco chorou

Sonhar

Sonhar é transportar-se em asas de ouro e aço
Aos páramos azuis da luz e da harmonia;
É ambicionar o céu; é dominar o espaço,
Num vôo poderoso e audaz da fantasia.

Fugir ao mundo vil, tão vil que, sem cansaço,
Engana, e menospreza, e zomba, e calunia;
Encastelar-se, enfim, no deslumbrante paço
De um sonho puro e bom, de paz e de alegria.

É ver no lago um mar, nas nuvens um castelo,
Na luz de um pirilampo um sol pequeno e belo;
É alçar, constantemente, o olhar ao céu profundo.

Sonhar é ter um grande ideal na inglória lida:
Tão grande que não cabe inteiro nesta vida,
Tão puro que não vive em plagas deste mundo.

.
Helena Kolody nasceu em 1912, em Cruz Machado, Paraná, no dia 12 de outubro. Filha de Miguel e Vitória Kolody, passou a infância na cidade catarinense de Três Barras. Em 1926, concluiu o curso de guarda-livro e, no ano seguinte, mudou-se com a família para Curitiba, onde residiu até sua morte. Em 1928, publica seu primeiro poema, “A lágrima”. Em 1931, conclui o curso da Escola Normal Secundária. No ano seguinte iniciou uma brilhante carreira nokolody magistério, paixão que só dividiria com a poesia. Em 1941 publicou a primeira obra, “Paisagem interior”, que seria seguida por outros treze títulos. Já nesta obra de estréia constavam três haikais, algo raro à época. Estava presente em seu projeto poético esta busca, como disse mais tarde, “da síntese para traduzir o pensamento”. Em 2001, foi publicado o livro “Viagem no Espelho e vinte e um poemas inéditos”, pela Criar Edições, de Curitiba, Paraná (PR). Essa edição comemorou os 60 anos da publicação de seu primeiro livro.

A poeta morreu em 15 de fevereiro de 2004.

Outras obras da escritora:

Música submersa (1945)
A sombra no rio (1951)
Vida breve (1965)
Tempo (1970)
Infinito presente (1980)
Poesia mínima (1986)
Ontem, Agora (1991)
Reika (1993)
Caixinha de música (1996)
Poemas do amor impossível (antologia – 2002)

Prêmios e homenagens:

1985 – Recebe o “Diploma de Mérito Literário da Prefeitura de Curitiba”.

1987 – Recebe o título de “Cidadã Honorária de Curitiba”.

1988 – Criação do “Concurso Nacional de Poesia Helena Kolody”, realizado anualmente pela Secretaria da Cultura do Paraná, em sua homenagem.

1989 – Gravação e publicação de seu depoimento para o Museu da Imagem e do Som do Paraná.

1991 – Eleita para a Academia Paranaense de Letras.

1992 – O filme A Babel de Luz, do cineasta Sylvio Back, homenageia os 80 anos da poetisa, tendo recebido o prêmio de melhor curta-metragem e melhor montagem, do 25° Festival de Brasília.

2002 – Exposição em homenagem aos 90 anos da poetisa, na Biblioteca Pública do Paraná.

2003 – Recebe o título de “Doutora Honoris Causa” pela Universidade Federal do Paraná.


Os poemas acima foram extraídos do livro “Viagem no Espelho e vinte e um poemas inéditos”, Criar Edições – Curitiba (PR), 2001, págs. 23 e 209.

A POETA HELENA KOLODY é homenageada por TONICATO MIRANDA no dia de seu aniversário de nascimento.

Hoje, além de ser o Dia da Padroeira do Brasil e Dia da Criança, é dia de se reverenciar a maior poeta do Paraná.

No dia 12 de Outubro de 1912, nasceu em Cruz Machado, aquela que viria a ser a maior poeta paranaense de todos os tempos, faleceu em Curitiba no dia 15 de fevereiro de 2004.

Helena, se ainda estivesse entre nós estaria completando 97 anos. não deu. como ela mesmo dizia já no fim da sua presença entre nós, as pernas já não aguentavam mais, e ela, quando saía à rua, ía “manquitolando”, se ajeitando no seu grande corpo alquebrado, que já não conseguia acompanhar sua cabeça lúcida e sábia.

Deixou-nos, mais do que poemas, uma sabedoria e alegria de viver sem igual.

Para comemorar o seu aniversário, publico uma carta inédita sua endereçada a mim, assim como dois poemas inéditos também enviados a este Palavreiro da Hora.

Folha 1

Folha 2

Folha 3

Tinha o olhar distante,

cheio de saudade.

Um olhar perdido

numa outra idade.

HK/1987

Trova

Para muitos, aventura

é clarão que vem e passa,

um sorriso que não dura,

um reflexo na vidraça.

HK/1988

HELENA KOLODI

HELENA KOLODI

ZULEIKA DOS REIS, “PALAVREIRA DA HORA” recebe os cumprimentos por mais um ano no processo da vida! / pela editoria

a escritora e poeta ZULEIKA DOS REIS, autora de FLORES DE OUTONO (artepaubrasil) entre outros livros, aniversaria hoje. ZULEIKA é uma daquelas pessoas, que a gente gosta à primeira vista e que parece a conhecemos a longo tempo, e isto tudo, só pelo meio virtual onde podemos ser e nos mostrar como quisermos. os PALAVREIROS DA HORA, seus colegas e companheiros de viagem, te desejam muita saúde e milhões de alegrias e que teus sonhos e tua fé se renovem a cada dia te dando forças para percorrer o novo ano. obrigado pelas colaborações enviadas porque enriqueceram o conteúdo do nosso site. FELIZ ANIVERSÁRIO ZULEIKA!

ZULEIKA DOS REIS - FOTO - Sorriso 17 Ago 07

a escritora, poeta e haicaísta ZULEIKA DOS REIS.

champanhe

E A CRÔNICA SE FOI! por hamilton alves / florianópolis

Não sei atribuir a que motivo, acordei hoje e logo me deparei com um tema que poderia bem aproveitar para uma crônica.

Na vida de um cronista (ou de um poeta) a inspiração ocorre num repente, oriunda não se sabe de onde.

Não tomei nota do tema (poderia fazê-lo, se fosse mais cuidadoso); nunca o faço; deixei para tratá-lo depois do desjejum.

Um pouco depois, quando me sentei diante do computador para desenvolvê-lo, cadê o tema. Tinha se esboroado sem deixar um único vestígio.

Por mais que, ainda agora, me esforce para recuperá-lo (e se tratava de um bom assunto para explorar em lauda e meia digitada – ia dizer datilografada – lá se foram os bons tempos da máquina de escrever, da qual de vez em quando lanço ainda mão), tudo resulta baldado.

A solução é me conformar, embora sinta muito pesar de não me lembrar dele, que ficará sepulto para  sempre na minha memória. Podia ser uma boa página de crônica, quem sabe lá?

Ocorreu o mesmo fenômeno com o poeta Manuel Bandeira, certa vez. Como conta em seu livro “Itinerário de Pasárgada”. Só no caso dele aconteceu não com uma crônica, no que ele era bom também, mas com um poema.

Estava em determinado local quando subitamente um poema se desenvolveu em sua mente por inteiro, do primeiro ao último verso. Vasculhou os bolsos atrás de um toco de lápis e de um pedaço de papel; não os encontrou para seu desespero.

Perguntou a uma pessoa, que por ali passava, naquele momento, se podia lhe conseguir um mísero instrumento de escrever, qualquer que fosse; nada.

Bandeira saiu esbaforido em busca de um lugar onde encontrasse o tal lápis ou outro objeto que lhe permitisse dar corpo ao poema.

Finalmente, num bar (ou em outro lugar semelhante) encontrou o tão desejado lápis (nem era lápis, era uma caneta esferográfica). Mas decepção das decepções. Era tarde demais. Assim como o poema se compôs inteiro em sua mente, desapareceu como uma nuvem ou um sonho.

Ficou certamente supondo que aquele teria sido um de seus grandes momentos como poeta, que se perdera ou ficara no ar com sendo algo que se tornou de beleza sem igual (um poema abortado na mente).

Assim aconteceu-me com a crônica, que, igual ao poema de Bandeira, nunca virá à luz. E constituirá um motivo de amargura ou frustração.

dor estranha – de charles silva / florianópolis

na sombra da tua alma
forjo meu álibi
mesclado de desejo
e despudor

o mar instiga
por demais
minha lascívia

sussurros dolentes
tua boca profana
também faço ouvir
meus insultos

cor e prazer são letais
em corpos iridescentes
e meus instintos tribais
são ritos de amor reluzentes

unhas dissolutas
arrancam nosso orgasmo
das entranhas

manchamos de amor
os lençóis do poente
gozar foi uma dor muito estranha

DESISTI DE LER “O MONGE E O EXECUTIVO” por “o ruminante” * / belem

Tentei com todo meu apreço terminar de ler o Livro “O Monge e o Executivo“, mas infelizmente não foi possível. Nunca mais eu abro esse livro. Meu objetivo era tentar fazer uma crítica ao mesmo, mas o livro é tão ruim que eu desisto de analisar capítulo a capítulo buscando uma exegese sensata do texto, evitando que eu parecesse um idiota que não entendeu a mensagem do livro.

O que mais me irrita é que somos tratados como imbecis pelo autor, o qual ao invés de discorrer sobre o assunto, tenta nos levar a uma sessão de terapia em grupo com os personagens representando os tipos de líderes mais comuns, os quais precisam de conselhos profissionais. A pior parte é que essa terapia é dirigida por um monge que trabalhou tanto a ponto de não ter aproveitado bem família, se isolou no monastério após perder a esposa e, conforme o livro, quer orientar as pessoas como serem melhores líderes para poderem trabalhar mais e melhor. Um contra-senso que deveria chamar a atenção de todos.

Em outro texto me expressei por não gostar de livros de auto-ajuda, o que certamente influenciou minha leitura deste exemplar. Ainda sim, afirmo que um pouco de bom senso e uma explanação direta sobre liderança pode ajudar muito mais as pessoas que estão em dificuldades no assunto, é melhor do que a tentativa de tratá-los como indivíduos que não tem capacidade de pensar sozinhos.

Não entendo muito bem como esses tipos de livros acabam por fazer tanto sucesso, talvez seja uma grande angústia trazida pelas pressões exacerbadas da vida profissional contemporânea, ou uma exigência ainda maior pela produtividade cada vez mais aprimorada com custos cada vez menores. Acredito que isso só está piorando as pessoas, ao contrário do que a grande mídia carreirista vem pregando.

Outro ponto que me irrita é o fato de haver um grupo enorme de aproveitadores explorando os fãs do livro através de palestras, artigos, livros que analisam o livro, entre outras coisas que tem por objetivo único o lucro.

Andei conversando com um amigo meu, chegamos a conclusão que hoje não é mais necessário escrever um bom livro para ganhar dinheiro. Na verdade basta esperar que alguém escreva um livro que faça sucesso e depois lançar um outro livro sobre como usar o primeiro. Tivemos a idéia de lançar o nosso, o título vai ser: “O Monge Que Mexeu no Meu Queijo e O Executivo que Transformou o Suor em Ouro”. Vamos ficar ricos!

Falando sério agora, acredito que se quisermos mesmo melhorar como pessoas através da leitura, é muito melhor lermos autores Jorge Amado, Carlos Drummond, Kafka, Shakespeare, Dostoiévski, Monteiro Lobato, além de muito outros que nos trazem muito mais mensagens que devemos levar para vida do que livros de auto-ajuda.

Não leve minha mensagem como arrogante. Na verdade eu apenas acredito que as pessoas são muito mais capazes do que vemos pregado por aí, basta darmos a chance para pensarem sozinhas. Ninguém precisa sofrer uma lavagem cerebral para viver bem.

.

o site tem a verdadeira identidade do autor.

MEU AMIGO QUINTANA por hamilton alves / florianópolis



Lembro-me saudosamente o dia em que fui ao encontro do poeta Mário Quintana, num apartamento, no Hotel Royal, muito bem acomodado ali, que o jogador de futebol Falcão lhe emprestou para morar. Pouco tempo antes disso, a Prefeitura de Porto Alegre o despejou de um cômodo, pertencente à municipalidade. Não fosse Falcão, Quintana teria amargado horas ruins.

Mario me recebeu muito bem. As prateleiras de seu quarto eram recheadas de livros. Mário sempre viveu à volta deles.

Nossa entrevista foi curta. Não tratamos de literatura, como se poderia supor.

Trocamos algumas palavras dessas corriqueiras, comuns entre amigos que se visitam.

Mário era servido por uma secretaria, que, na hora em que o visitei, lhe preparava um lanche.

Além dos livros, que ocupavam algumas das estantes já referidas, vi um quadro de muito mau gosto a uma parede. Mas, claro, não cheguei a tocar nesse assunto para o Quintana. Só fiquei julgando que provavelmente não se interessasse por pintura. Devia ser um quadro que fora dado por um amigo ou amiga ou um visitante inesperado como eu.

Fui lhe mostrar um livro de crônica. Fora a Porto Alegre à procura de editor.

Disse-lhe das dificuldades de um escritor pouco ou nada conhecido de conseguir publicar um livro de crônicas, ainda mais se tratando desse gênero maldito. Ele replicou:

– Os editores sempre criam dificuldades para editar um livro, mas no fim acabam editando.

Não lhe mostrei os manuscritos, que trazia numa pasta. Ele, obviamente, não teria o menor interesse de ler minhas crônicas.

De-repente, sem mais aquela, Mário se esticou numa poltrona (acima da qual estava o dito quadro). E entendi que dava por encerrada a entrevista comigo.

Não ficamos só nisso na passagem por seu apartamento.

Deu-me de presente um de seus livros de prosa e poesia (mais deste do que daquele gênero). Fez-me uma dedicatória:

“Para Hamilton Alves de seu colega e amigo Mário Quintana – Natal de 84”.

Nesse livro, desponta um poema que é representativo do estilo de Quintana de compor versos. Intitula-se “Poeminha do contra”. Ei-lo:

“Todos esses que aí estão

Atravancando o meu caminho,

Eles passarão…

Eu passarinho!”

Perdi o contato com esse belo livro, que me fora dedicado pelo Quintana, editado pela “Mercado Aberto”, de Porto Alegre, sob o título “Sapo Amarelo”.

Hoje, percorrendo a minha biblioteca atrás de um livro de outro poeta, acho-o escondido entre outros numerosos livros.

Veio-me à lembrança a tarde de 84 em que vim a conhecer Quintana, esse poeta de poemas tão leves e que parecem voar como se fossem passarinhos, como bem expressa esse que transcrevi nesta crônica.

Ele mesmo, tal qual me surgiu aos olhos nesse dia,  parecia-me um pequeno e frágil passarinho.

(out/09)

SEM VOCÊ – de charles silva / florianópolis

amar assim de longe

a parte que me cabe

não faz de mim um monge

você sabe

eu só rezo

quando o seu sorriso abre

.

amar assim sem tempo

a arte que lhe cobre

é todo sentimento

você sabe

eu só sinto

com o seu milagre

.

eu tô dentro do jogo

a saudade sobra

ficar sozinho é fogo

não ter você é solda!

CABEÇA – de solivan brugnara / quedas do iguaçu.pr

Saia apenas para fazer compras

pela rua pavimentada

com ovos de avestruz.

Sempre vestido com roupas fúnebres.

Acima do paletó não tinha face

só a palavra cabeça.

Uma maça mordida nasceu no antebraço.

Em sua casa

há um altar com severos

livros de contabilidade vermelhos.

Nas tardes lembrava da pedra

que foi sua ama-de-leite.

Quando sua cadeira quebrou uma perna

fez de uma pomba velha o calço.

Araras saem

do congelador de sua geladeira.

Sempre calado,

boca empoeirada

e língua mumificada.

Sua mão de abutre com tendinite

bicam o controle apodrecido da tv.

Tentou escrever poemas

mas as folhas ficavam velhas e amareladas

quebradiças como os manuscritos do mar morto.

Da janela olha as ruínas de Olímpia

que parece-lhe um cemitério de elefantes.

Todo o dia

espera pela volta da morte reclamando da demora,

resmungando sempre:

Morremos duas vezes

antes de nascer e depois de viver.

PORTA-RETRATO de joanna andrade / miami.usa

Sou o que os olhos podem ver

Minha historia num calice chapiscado com gotas de Chardonnay

No fim

Os albuns de fotografia continuam intocaveis

O balanço da árvore de Cinamomo traz entre um vai e vem os contos todos

Pluralidade em vida singular

Ilhada vida atribulada

Zerada

Todo dia uma disputa comprovada

Às custas de alguém.

LUZES DA TARDE – de tonicato miranda / curitiba

TONICATO MIRANDA - Luzes da Tarde 2

.


para os palavreiros

antes que a tarde acabe

dúvida que de mim duvida

mais um desenho a fazer

ou num poema me fazer

.

não falo de fazer como quem

veste o ego ou uma roupa

mas de fazer o corpo-casa

o espírito obrando sua casa

.

olho à janela e vejo a luz

apraz-me este ar parado

o calor manso desta tarde

borboletas belas na tarde

.

a vontade de desenhar perdeu

para a vontade do poema

foi bom não perder a tarde

farei desenhos mais tarde

Impressões – de delinar pedrinho

Ferve meu corpo toda vez que a tenho em meus braços

Respiro fundo…, ofego

Arquitetando sonhos encontro-me eu, todos com um mesmo fim, sermos um.

Néscio, cá me encontro.

Com desvairos me exprimo por tela como “amiga intima”

Intento nos átimos em que nos vemos ter sua alma o mais possível

Espero fundir-me a tu, primeiro no breves momentos em que me declaro em tua boca, teu ser…, e após em tudo o mais

Lânguido não ei de estar, o seu amor me alimenta

Espiriteio-me quando a vejo, alouqueço de desejo por ti.

AI DE MIM – de otto nul / palma sola.sc

De hora em hora

A desoras

Ora ora ora

Estou por fora

Blasfêmias

Abstêmias

Sistêmicas

Abantesmas

Mesmo galho

No baralho

Com outro alho

Que esbugalho

Numa guinada

À rapaziada

Dou uma pernada

Na madrugada

E por fim

Diga sim

Ai de mim

Querubim

DE LANTERNA NA MÃO por sergio da costa ramos / florianópolis

Acendo uma lanterna, e como um Diógenes no meio de uma floresta de letras, procuro uma boa notícia nos jornais. É como procurar um varão de Plutarco no Senado.

Aliás, a primeira má notícia é exatamente a da próxima votação, já marcada no Senado: a PEC dos Vereadores, pelaSERGIO DA COSTA RAMOSqual será alterada a relação de “edis per capita”.

As manchetes dos jornais refletem a realidade escabrosa:

– Casal Kirchner persegue Clarín com fiscalização!

– Sarney esquece malfeitorias e quer liberdade na internet!

– Piquet confessa que bateu de propósito!

O foco da lanterna de Diógenes vai derramando seu círculo de luz sobre uma coleção de más notícias:

– PMs são presos por tráfico no Rio.

– Gangue mata desafetos e depois bebe o sangue.

– PCC e Comando Vermelho querem fundar “fraternidade”.

– Argentina vai importar trigo e pãozinho de 50 gramas já custa R$ 0,30.

– Brasil não está imune a terremotos.

Meu Deus, até essa. Atravessei a infância e a adolescência com os mais velhos enaltecendo essa “qualidade” brasileira. “Trata-se de um país abençoado por Deus. É o único lugar do mundo que está livre de terremotos”, repetia o velho realejo patrioteiro, no mais puro estilo do conde Afonso Celso.

Pois agora vem o geofísico Lucas Vieira, da Universidade de Brasília, e garante que não é bem assim:

– Foram descobertas 48 falhas na placa tectônica brasileira, locais que podem ser vítimas de terremotos a qualquer momento.

O mito da intangibilidade era “falta de informação e de conhecimento técnico”.

Depois dessa, qualquer má notícia não chega a ser surpreendente. E elas se sucedem, distribuídas entre monstrinhos que espancam velhinhas, esfolam bebês, assassinam pais e mães. A mãe que jogou a própria filha num rio, netinhos drogados que esfaqueiam avós, famílias inteiras que traficam drogas até na porta de um jardim de infância.

Parece que o vaso da sensatez quebrou-se em mil pedaços na consciência do Brasil.

Agora, de manhãzinha, chega mais esta:

– Santa Catarina terá mais 287 vereadores!

Está na hora de alguma providência.

Por exemplo: procurar um “telefone vermelho”, daqueles que interligava as grandes potências na época da Guerra Fria, e ligar diretamente para Ele, o Todo-Poderoso, buscando uma fórmula caridosa de desarmar tragédias.

E perguntar, sem papas na língua:

– Acaso esquecestes que és brasileiro?

TRILHAS E CAVALGADAS de marilda confortin / curitiba

Hora dessas, solto o freio

e laço este tordilho

sento no teu arreio

e te boto nos trilhos.

Nem que eu leve um tombo
e rasgue as a meias finas,

eu galopo no teu lombo
agarrada nas tuas crinas


Um dia ainda amanheço
“decorando tua geografia”

viro este guapo do avesso

ou não me chamo Maria

Pra te deixar feliz da vida,

uma noite, ainda eu laço

aquela lua exibida

e boto ela em teus braços.

Mas depois, juro que faço

um picadinho daquela china

porque, eu mando aqui em baixo

ela que fique lá em cima.

Uma hora dessas, qualquer

quando me bater a fome

vou querer ser tua mulher

e tu vais ser o meu homem

Depois?  Ah, depois tu voltas pra ela
e tudo fica em seu lugar
afinal, porque fizeram janelas

senão pra gente pular?

NAURO MACHADO e sua poesia / são luis.ma

Como te massacraram, ó cidade minha!
Antes, mil vezes antes fosses arrasada
por legiões de abutres do infinito vindos
sobre coisas preditas ao fim do infortúnio
(ânsias, labéus, lábios, mortalhas, augúrios),
a seres, ó cidade minha, pária da alma,
esse corredor de ecos de buzinas pútridas,
esse vai-e-vem de carros sem orfeus por dentro,
que sem destino certo, exceto o do destino
cumprido por estômagos de usuras cheios,
por bailarinos bascos sem balé nenhum,
por procissões sem deuses de alfarrábios velhos,
por úteros no prego dos cachos sem flores,
por proxenetas próstatas de outras vizinhas,
ou por desesperanças dos desenganados,
conduzem promissórias, anticonceptivos,
calvos livros de cheques e de agiotagem,
esses lunfas políticos que em manhãs — outras
que aquelas já havidas, as manhãs do Sol —
saem, quais ratazanas pelo ouro nutridas,
apodrecendo o podre, nutrindo o cadáver.
Se Caim matou Abel e em renovado crime
Abel espera o dia de novamente ser
assassinado em cunha de rota bandeira,
que inveja paira em Tróia ou em outro nome qualquer
da terra podre e azul de água e cotonifícios?
Mutiladas manhãs expõem-se nas vitrinas
de sapatos humanos mendigando pés,
de vestidos humanos mendigando peitos,
de saias humanas mendigando sexos.
Esta é Tróia!, o vigésimo século em Tróia,
blasfemam as fanfarras de súbito mudas
nos ouvidos mareando a pancada da Terra.

DOMINGO É UM NOME E UM DIA PODE SER DOMINGO por joão henrique / teresina


Assustado levantou-se pensando ser manhã quando já passara à tarde. Onde ela estará?, pensou em ligar, mas havia perdido o aparelho celular com todos os números. Passou os dedos pelo novo aparelho com a impotente certeza de não haver ali os números que lhe importam.
– porra, merda, telefone idiota.


Seu cinismo não impede uma ida aos caminhos virtuais. Não há encontro, ela não se encontra. É como se uma mulher gorda, dessas balofas mal vestidas, de bobes na cabeça, óculos de lentes grossas, e cara feia, dissesse a um pobre garotinho de treze anos, que lhe bate à porta a procura da garotinha neta dessa velha, que diz, a quase meio riso, “ela não está”. Não tem nada disso, nem mulher gorda ou netinha. Que viagem, pensa. Mas ela não está, deveras aqui ela não se encontra.
não lhe resta mais nada.
toca Chico aos fones de ouvido. Lá fora o sol das quatro horas começa a emprestar um brilho cansando que ensolara os domingos. Os carros passam indo ou vindo de algum programa dominical. Ele com esse semblante de ontem.
– cara de sábado em domingo, e esse dia que não começa, merda!


Almoça. Fuma o cigarro pós-almoço. Mais um pedaço da tarde, já às cinco horas, esse laranja, essas pessoas, esse riso de ida à sorveteria.
– eu deveria ir à sorveteria lembrar dela comendo um sorvete. Que idiota, lugar de lembranças é mesa de bar e não sorveteria. Eu poderia pegar um ônibus e dá umas voltas pela cidade, eu poderia fazer tanta coisa e não faço nada, diz-se a si.
Ouve Chico e anda pela casa. A mãe lhe pergunta o que tem. A avó lhe oferece algo pra comer,
– não, obrigado, responde.
– também, não para de beber, de fumar… perdeu até a fome, lhe diz a mãe.
– obrigado. Apenas responde como se ainda fosse parte da primeira resposta.


A tarde de domingo se vai.
olha os vizinhos às portas.
– quem será a manchete da vez, fala baixinho a si mesmo.
Fuma outro cigarro. Ao fundo ainda se pode ouvir, mesmo baixinho, vindo do quarto, os versos de Chico, “a dor da gente não sai no jornal”.
– porra, o Chico é foda.
Entrou a casa. Banhou-se. Vestiu-se, tendo o cuidado de pôr uma roupa que lhe desse sorte.
– vai com essa camisa branca, fica tão bonito, diz-lhe a mãe.
– essa não me dá sorte.
A mãe compreende porque sofre da mesma sandice.
– não dá sorte como?
– não é que não dê sorte, é que não acontece do jeito que era pra acontecer, mas isso com assuntos sérios, mas pra fuá dá certo. Não sei como é, mas não dá certo o que eu iria fazer, porém acontecem outras coisas boas. Dá errado, mas dá certo.
– tem coisa que é assim, dá certo, mas dá errado também.
– e isso é foda, né mamãe?
– é… é foda, responde a mãe.
Veste a camisa branca, se olha no espelho, “certo, mas errado”, pensa.
Frente ao espelho, assanha o cabelo do modo que lhe apraz. Sorrir Abre a boca. Manda um beijo a si mesmo. Sorri um riso mais evidente. Olha os dentes e as rugas. Entra no quarto e despede-se.
– não beba muito, hoje é domingo, lembra-lhe a mãe.
– pode deixar, eu sei que hoje é domingo. E quem não poderia saber que hoje é domingo minha mãe.
– vai sair com essa camisa mesmo?
Olha pra si, como se já houvesse esquecido com que roupa estava.
– é, vai que não dá certo de eu chegar na hora marcada, mas que eu chegue na hora certa.
– hora de quê?
– nada mamãe, até mais tarde
– não beba, não fume, não…

Dobra a esquina. Pára e olha.
Hoje é domingo. Eu não sei onde ela está. Não tenho pra onde ir, a não ser para minha noite de ontem, mas hoje é domingo, pensa. Logo surge uma caravana balançando bandeiras e apitando. Mais um candidato passa e fica a rua suja como prova do apreço que tem com a cidade que ele promete melhorar.

A rua. A réstia de sol.
Ela, certo e errado. Blusa branca, corpo sem rumo.


– bonita camisa, Pedro, diz uma velha vizinha de sua infância.
– obrigado

A rua não leva ninguém que não ande. Pedro fica a contemplar os últimos raios de luz do domingo.
Fuma outro cigarro. Volta pra casa.
– já chegou meu filho. Deu certo o que você ia fazer?
– deu. Quer dizer, ainda não. Deu certo porque deu errado
– como assim?
– deu certo porque deu errado. Deu errado porque eu não fui.
– e que deu certo?
– deu certo em dá errado, eu não sei, mas agora eu vou a outro lugar. Vou tomar uma cerveja como meu amigo Charles. Sabe mãe, deu certo porque eu não tinha pra onde ir. E ela não está nesses lugares que eu alcanço.
– quem é ela, eu conheço?
– não. Ainda não
– mas todo mês tu te apaixona…
– mãe, isso é bom ou ruim?
– não sei
– mas agora é serio, mãe
– mas toda vez é … acho que isso é como a camisa branca
– como assim?
– certo e errado, é bom e é ruim
– é… mas até eu gastar isso, é muito bom
– sabe Pedro…

A mãe ainda falava, mas Pedro já trocava de roupa. Assanhava os cabelos. Despedia-se da mãe e dá avó
– já vai sair de novo
– até mais tarde mamãe, vou ali que hoje ainda é domingo
– não demore
– tá.
Respondeu e saiu pra curar-se do domingo. Já estava na correria de segunda-feira ao fim daquele domingo.
Atravessou a rua em direção ao bar de sempre. Sentou-se. Pediu uma cerveja e cumprimentou o dono do bar.
– amanhã é segunda
– o quê?, perguntou o dono do bar, pensando ter ouvido o cliente falar-lhe algo.
– Amanhã é segunda-feira, Vicente. Segunda é um dia mais fácil de encontrar quem queremos.
Vicente se afastou. Entrou ao bar e pôs Chico pra tocar. Pedro recostou-se na cadeira. Acendeu outro cigarro. Deitou a saudade num verso de Chico.

Ao passar dos goles, Ela foi chegando às lembranças até a madrugada de segunda-feira, ainda na mesma noite de domingo.

Já à madruga de segunda-feira Pedro atravessa a praça rumo a sua casa, vestindo uma camisa típica de domingo.

SARAVÁ, WALMOR! por hamilton alves / florianópolis

Conheci Walmor Marcelino há muitos anos, quando ainda a escola, que freqüentávamos, era, como se costuma dizer, risonha e franca. Falo da escola de jornalismo em que iniciamos praticamente juntos, no Diário da Manhã, do Zedar Perfeito da Silva, velho jornalista e escritor.

Ali ensaiamos os primeiros passos dessa atividade para a qual éramos vocacionados e que só largaríamos, como o fez Walmor, no fim da jornada. Carregou bravamente a tocha até o último suspiro.

O jornalismo que fez foi diferente do meu – um jornalismo de linha de frente, de combate pela justiça social, como bem assinala o necrológio feito na edição de ontem deste “blog”.

Marcelino pensava o mundo por um viés humaníssimo. Queria que todos tivessem acesso aos bens da vida e notadamente aos mais preciosos: educação, saúde, habitação, etc. Por isso, sempre combateu ao lado dos fracos e oprimidos com destemor. Pagou alto preço quando imperou neste país o regime militar, sendo preso várias vezes.

Walmor foi sempre fiel aos seus ideais, Não tinha temperamento nem muito menos formação para aderir, por exemplo, à linha burguesa de ação, na qual sabia que militavam os oportunistas, os que querem os cargos não para exercê-los no bem de todos mas no interesse de grupos (tipo Sarney, p. ex.) – só para citar um lídimo representante dessa corrente.

Walmor era um idealista e seu ideal estava colocado acima do cidadão Walmor Marcelino. Colocava-o muito alto, a uma altura quase inalcançável pela maioria de seus concidadãos. Era meio quixotesco na forma como encarava sua brava luta. Sabendo-se quase só ou um dos poucos que ainda alimentavam esse sonho de transformação do mundo pela perseverança ou pela doutrinação desses ideais puros.

Marcelino editou meu primeiro livro – uma pequena novela – a que dei o título de “O velho da aldeia”. Ele o alterou para “O velho e a aldeia”, que lhe dava uma semelhança com a novela de Hemingway “O velho e o mar”. Mas não fez isso deliberadamente; nunca o faria. Deve ter se equivocado. Acompanhei-o até sua casa, em Curitiba, para pegar os trezentos exemplares do livro. Antes havíamos nos encontrado na Ilha e me perguntou: – “Tens alguma coisa para editar?”

Guardava os originais datilografados dessa novela na gaveta fazia um bocado de tempo.

Mostrei-os para o Walmor. Levou-os para editar. Poucos meses depois entrou em contato comigo, informando-me que concluira a edição por sua editora “Hoje”. Fiquei radiante com a beleza, embora artesanal, da edição desse livro.

Há pouco, o Vidal , editor deste “blog”, me convidou para um encontro com ele em Santo Amaro da Imperatriz, onde fora descansar. Mas subitamente       teve que retornar a Curitiba. Perdemos essa chance de voltar a nos ver e relembrar os velhos tempos.

Walmor fez grandes amigos aqui na Ilha e certamente em Curitiba, onde morou longos anos, vindo a falecer há pouco.

Era um dessas raras figuras de combatente,  de uma só têmpera, de uma só linha, de um caráter inquebrantável na defesa destemida de seus sonhos.

Legará seu exemplo de retidão e de espírito de luta.

Saravá, Walmor!

O CASO TOFFOLI por hamilton alves / florianópolis

Os golpes baixos não param nunca de detonar neste país. Agora, apresenta-se aos olhos dos espectadores da cena nacional o caso do advogado José Antonio Dias Toffoli, advogado geral da União, e ex- (ou ainda é?) advogado do PT, que foi ungido por Lula (não consigo chamá-lo de presidente depois do conhecido episódio Lina Vieira x Dilma Rousseff) ao cargo de Ministro do Supremo Tribunal Federal. O caso é que a justiça do Amapá condenou-o (ao eleito de Lula) com uma sentença condenatória de devolução aos cofres públicos da vultosa soma de R$420 mil reais por ter havido, segundo se divulga, afronta à Lei das Licitações e ao princípio da moralidade administrativa (Estado de S. Paulo, de 21/09/09). Sustenta-se ainda que Toffoli teria sido reprovado duas vezes em concurso para Juíz de Direito e que, por isso mesmo, põe-se em dúvida sua competência ou capacidade profissional para ser investido nas funções de Ministro do Supremo Tribunal Federal. Acusa-se o advogado ainda de firmar contrato irregular para representar o Estado do Amapá nos tribunais superiores, em Brasília, à época do governo de João Capiberibe (PSB).

Toffoli é tido como inexperiente e despreparado para ocupar o STF, além de ligado ao PT (não seria outro o motivo pelo qual Lula o teria indicado ao cargo), especialmente ao ex-deputado José Dirceu. A condenação sofrida pelo advogado pela justiça do Amapá à devolução da importância referida representa mais um desgaste para vir a ser efetivado no cargo de Ministro do Supremo, segundo algumas opiniões que analisam o caso.

Num dia desses, o presidente do STF, José Mendes (que é conhecido por posições jurídicas discutíveis, que vêm assumindo frente a algumas questões debatidas bem recentemente, defrontando-se com oposição no seio do próprio STF, como no caso das denúncias formuladas contra José Sarney, que foram todas arquivadas. Liderou a corrente a favor de tal decisão ou fez parte do grupo que as rejeitou), saiu em defesa de Toffoli, minimizando a decisão da justiça do Amapá. Para ele, Mendes, na condição de advogado militante é absolutamente rotineiro alguém sofrer ações e eventuais condenações na justiça. E salientou: “Até me surpreende que não tenha havido mais processos”. Ó, senhor dos céus, onde chegamos!

Segundo o Ministro Presidente, tudo isso não constitui motivo para que o Senado recuse a indicação ao Supremo do nome de Toffoli. Ó, senhor dos céus, para onde vamos?!

Anuncia-se que aliados, no Palácio do Planalto, estariam defendendo a aprovação do nome de Toffoli ao STF. Ó, senhor dos céus, por que novos descaminhos segue este país!

Tudo como dantes no quartel de Abrantes. Nenhuma novidade à vista. Tudo sob o império do facilitário.

AINDA SOBRE O OPOSTO DO CONTRÁRIO de osvaldo wronski /curitiba

de longe a proximidade os altera
quando eles se retocam
a faísca é inevitavelmente indelével
choque anato-térmico que crepita
arrepiando os pelos
arrancando suas raízes

quando se encostam
as palavras poliglotam
impossível mantê-los unidos
diante de tamanha atração contrária
ou se diz pára
os se separam
para drasticamente
se anularem

Escrita em iminência – por lucas paolo / são paulo

Ou será que, sendo tão fraco de visão quanto tímido de espírito,

ele sentia menos prazer com o reflexo do mundo sensível e

brilhante através do prisma de uma linguagem multicolorida e

ricamente lendária do que com a contemplação

de um mundo interior de emoções individuais perfeitamente

espelhadas em uma prosa periódica, lúcida e flexível?

James Joyce, um retrato do artista quando jovem

Preâmbulo Ostensivo

Inconclusivo, mas ele decidira experimentar as teclas do computador:

<PALAVRAS>

A sugestão estaria dada. Algum hipotético leitor (absolutamente necessário) poderia facilmente influir que era um azarão: apenas alguns pouquinhos professores ineficientes a mais e duas mil, duas mil e duas páginas de literatura fantástica a menos [leitor criativo adicione a esta conta vivências artísticas e humanas a seu bel-prazer] e pronto! seria ele um futuro físico-quântico, acadêmico, político, médico, engenheiro, talvez um pedagogo, que poderia confortavelmente viver de forma satisfatória duas, talvez  três vezes por semana. [mais uma vez fiquem à vontade para complementar a sugestão à monotonia]

* Reflito agora e percebo que alguns leitores poderão se sentir subestimados, ou, superestimados com as liberdades oferecidas acima, sendo assim, do próximo parágrafo em diante, poderia eu correr o risco de não sugerir complemento imaginativo nenhum; mas por achar divertida a idéia  de uma possível antecipação redundante do leitor, continuarei com minhas sugestões totalmente desnecessárias. [Porém deixo a seu critério: se quiser, leia o que esta dentro das chaves; se não quiser, não leia!]

Por essas e aquelas palavras já se pode alumbrar um axioma:

Ele é inextricavelmente um pensador!

Pensador! mas é um filosofador bem ruinzinho – da pior espécie – daqueles que congenitamente saem sempre do nada para dar em lugar nenhum. [Aqui há espaço para a implementação fátua de alguma situação vivida pelo próprio leitor – algo como: uma conversinha de buteco, um simpósio sobre a estética de tal parágrafo de tal autor sobre a estética de outro autor, …]

Deixando de preâmbulos, havia ele de escrever alguma coisa.

Redenção da Introdução à Crônica

Antes de me desenrolar (e me enrolar) em reflexões acerca de algum assunto, gostaria de tentar muito perfunctoriamente imergir o leitor em minha problemática. De antemão peço desculpas por meu escasso repertório, mas com as singelas ferramentas que tenho tentarei dizer alguma coisa.

Introdução à Crônica

Pode-se escrever sobre tudo (e muitos aspirantes-pseudo-pensadores-picaretas como eu são a prova escrita disto). Ao mesmo tempo é absolutamente incontestável que tudo já foi escrito, pensado ou imaginado por algum ser humano. Que nenhuma idéia é nova ou inteiramente auto-referente. Desta forma, um bom leitor jamais escreveria uma palavra sequer de qualquer tipo de literatura. Entretanto a vida nos impregna de uma poesia completamente inquietante [peço que se dê a poesia o infindável sentido que a palavra possui e merece] que anseia por transbordar em sons, cores, cheiros, sabores, gestos, enfim, palavras.

Não há como resistir ao comichão ansioso que vive a cutucar a imaginação e o ego, pedindo para virar mais uma refletida expressão do nada. Por isso, é irrevogável desnudar a mente e o coração em mais uma manifestação do eu que muitíssimo raramente acrescentará ou melhorará algo em Nós.

Penso que julgar intenções e méritos de pobres almas mortais que pensam exprimir algo através da palavra é sandice das mais ignóbeis. Tanto faz ler 1.500 livros para descrever a ignorância de dois homenzinhos ou tirar da própria ignorância material para escrever 1.500 livros. (Que se divirta que tem saco para tanto! Hoje minha ignorância cabe muito bem em três páginas redigidas em letras grandes). [Transportem o exemplo do conhecimento literário para os vários âmbitos da existência humana: a vivência amorosa, o conhecimento sobre as duras realidades e injúrias da vida, e por aí vai…].

Um problema imponente e de insondáveis divagações existencialistas é a vaidade literária. Todos os escritores querem escrever o Quixote, (os que desistem da imortalidade se contentam em ser o best-seller semanal). Como se contentar em ser mais um autor-sem-editora ou blogueiro-potencial?

Apesar de tudo, toda palavra quer ser lida, imaginada, colorida, musicada, saboreada, profanada, respeitada, sussurrada, adjetivada, citada, ensotaqueada, silabeada, esmiuçada, aguçada, emporcalhada, mal-tratada, esgotada, …

Talvez o pior entrave seja, finalmente, o esgotamento da criatividade. Quando ela esgota esgotou… E muitas vezes não se disse nem um tiquinho do que se ansiava dizer.

Resumo da tentativa de Crônica

[Ao fim, algo foi realmente dito?

O que havia me feito começar a escrever?

Consegui explicar a primeira palavra?

Minha existência foi justificada?

Nos divertimos?

Pensamos?

Entrarei eu agora para a infinita Biblioteca?]

*

Hei de escrever outros textos?

UMA IMENSA AVENTURA AMARELA EM VAN GOGH por omar de la roca / são paulo

Ou ( Como encontrei o amarelo imenso e correto para uma tela inacabada de Van Gogh)

.

( Para a borboleta que existe em todos nós e as vezes não sabemos)

Eu descia a Consolação ( pois é,no meu conto tambem era a Consolação) e minha consolação é que eu a estava descendo,que ainda não corro a São Silvestre.Não preciso falar do cinza da Consolação,da poluição do barulho.Eu desci tentando me distrair do sol forte vendo, se é que via alguma coisa nas vitrines esparsas.Entrei na loja de CD’s e DVD’d usados o famoso sebo empoeirado e mal cheiroso e percorri as vitrines vazias para mim já que pouca coisa me interessava.Não encontrei a Julia Roberts.Sai para o sol quente,já falei que era pleno verão? pois era.E o som dos carros me ensurdeceu,a poluição me travou a garganta, o vazio o vazio a tontura.”DE REPENTE,não mais do que de repente” o escândalo.Fiquei aterrorizado e paralisado.De repente desceu de um beiral uma imensa,se é que elas podem ser imensas,uma imensa borboleta amarela!!!Ela vinha alegre batendo suas asas amarelas deixando um rastro de purpurina por onde passava.Que coisa louca,pensei,quando poderia pensar em ver uma imensa,imensa borboleta amarelo Van Gogh na Consolação!Aturdido fiquei a segui-la com os olhos pra la e pra cá.Pra lá não ,pensei, olha o onibus despencando pela avenida abaixo.Mas ela esperta e amarela,desviava e encontrou o ramo de uma arvore para descansar.Eu pensei em seguir em frente mais sossegado,já que ela havia encontrado refúgio.Mas a danadinha da borboleta amarela imensa Van Gogh desprendeu-se do ramo verde e pos se a voar de novo.Ai meu Deus,olha o onibus.Mas ela desviava subia e descia com suas asas,bom voce ja sabe que eram amarelo Van Gogh.E imensas.Ou ainda não falei? Com o coração aos pulos comecei a segui-la como a uma dama da qual se quer favores.Seu vestido amarelo arrastava-se sem se sujar,e ela dançava com uma graça propria dela sem se deixar tocar.Incitando a perseguição e esquivando-se a tempo.De repente não estava mais ao alcance da minha mão.Continuei a segui-la com olhos avidos para consumar o ato. De fato parece que ela percebeu que eu estava interessado nela e aproximou-se sorrindo.E ai perguntei vamos conversar?e ela logo fugiu.

De repente pensei em possui-la como um tesouro que não pode ser dividido.Ai olhei em volta e pensei,com quem eu a dividiria?Quem mais prestou atenção naquela ridícula borboleta imensa e amarela que nem Van Gogh quis pintar ?Na verdade eu a queria só para mim e pensei em captura-la com minhas mãos vazias.Então todo meu ser prático se apossou de mim,como vai alimenta-la, aonde vai mante-la?Como ira transporta-la ate o trabalho e de lá ate em casa.Irás amestra-la e leva-la ao ombro?Não,seria uma impossibiliade absoluta.Esta sim uma verdade absoluta ao contrario das outras não é ?Humildemente tive que me render ao meu lado pratico.A borboleta pertence a Natureza.Ou será que a Natureza pertence a ela ? Pobre ser amarelo e imenso como uma tela de um pintor holandes condenada a vagar como um espirito dourado pela avenida da Consolação sempre a procurar, sempre a procurar um lugar ,nunca se conformando com o cinza,a fuligem o barulho…um lugar verde e refrescante, se possivel florido para descansar. Só posso desejar que ela encontre o ansiado refugio,o porto seguro a flor perfeita para acolhe-la.Ou então querida,se te fores,tenho certeza que encontraras um bom lugar no céu das borboletas.Aliás um lugar onde as asas batendo fazem um barulho maravilhoso.A poluição visual é colorida e o cheiro de plantas nos espanta.Opa!Ela subiu a atravessou a rua e ainda dançando feliz como uma bailarina amarela dançando primavera, deixando uma pincelada de tinta amarelo Van Gogh no ar desapareceu atras de uma fachada cinza.Cinzenta,poluida como meus pensamentos antes dela aparecer.Mas agora não,o Cinza de Payne se misturou ao amarelo borboleta e a paleta mostra uma cor mais suave,aceitável, socialmente e ecologicamente correta.E o sol,a poluição o barulho perderam sua importancia diante daquela minúscula mancha colorida que ousou atravessar a rua da Consolação.Ela deixou em meu coração uma impressão forte,de sobrevivencia,de garra.Uma impressão de borboleta amarela de Van Gogh que insiste em sobreviver apesar de tudo.E tudo isto ela fez sem o saber,inconsciente de seus poderes curativos.Ela, que só queria passear,se alimentar ao sol,sobreviver me mostrou uma lição de fugacidade ( fugir da cidade também ) mas tambem de fortaleza nesta mesma delicadeza amarela,porque não, amarela e imensa como um sol de Van Gogh.

KAPRYXO por jorge lescano

Não cheira, apesar do seu peso e, preservando a cor natural, é frio nos meses ímpares é arredondada quando não áspero. Possui sabor próprio em torno, mas ao entardecer é agudo com pintinhas dodecafônicas. Para conservá-la, é bom, porém não exageradamente. No entanto, se for necessário, pode ser salpicado com si bemol, ocre ou multas. Neste caso é conveniente sair da sala. O uso de argamassa ou paletó é opcional, não assim a preposição. Como seu nome indica, existem os que são contra as comichões da pele e as estatais. Outros tipos crescem tacitamente a ambos lados das margens, no entanto, não dispomos de informações detalhadas a respeito. É certo, contudo, que não suportam a temperatura se imersos cautelosamente. Isto é válido apenas para as de cume furta-cor, os de rodinhas e as que pagam juros: os mais comuns apresentam características diferenciadas segundo os graus de rigidez e uso. Em todos os casos, aconselha-se ficar atenta, embora não seja de todo inexpugnável. A observação anterior só faz sentido, obviamente, quando tem os pés bem conservados ou estão vazias. Pelo avesso, seu aspecto é peculiar ou semelhante, o que facilita a manipulação e melhora sensivelmente o moto mortis e a vida convexa. Outrossim: importa muito bem os acentos de sábado. Sua sombra tem poderes abrasivos ou refratários, salvo exceções: não precisa contra-indicação e tem alvará na versão infantil. Apenas esta advertência deve ser feita: cuidado com suas metamorfoses, cópias e falsificações; quanto ao resto: é eterna.