Arquivos de Tag: manoel de andrade

SAUDAÇÃO A CHE GUEVARA – de manoel de andrade / curitiba

Este poema, Saudação a Che Guevara, escrito em outubro de 1968, para comemorar o primeiro ano da morte do CHE, na Bolívia, teve suas 3.000 cópias panfletadas em ambientes estudantis e sindicais, no fim daquele ano, de Curitiba. O poema,colocando liricamente a sua imagem de Comandante no centro de todos os movimentos revolucionários do continente, convocava a luta armada e saudava a sua imortalidade como uma consigna triunfante na conquista de um mundo novo. Alguns panfletos foram aprendidos pelo DOPS (Delegacia de Ordem Política e Social) e seu autor, passou a ser procurado. Em razão disso deixou o Brasil em março de 1969 iniciando sua trajetória poética ao longo de 15 países da América Latina. Em outubro de 1969 a Federación Universitária de Cochabamba, na Bolívia, publica o poema em centenas de exemplares de um cartaz anônimo, ilustrado com a arte de Atílio Carrasco. Só agora, 40 anos depois, é que este poema, que correu o Continente, nas várias edições, em espanhol, do seu livro POEMAS PARA A LIBERDADE, aparece no Brasil editado este ano pela Escrituras. Este site, registrando os 42 anos da morte do grande guerrilheiro, publica em primeira edição virtual o poema do palavreiro Manoel de Andrade.

O EDITOR.

SAUDAÇÃO A CHE GUEVARA


No sonho da liberdade

onde cada mártir renasce,

onde não há homem sem terra

onde não há povo sem face,

num tempo, gesto de sangue

no sangue, gesto de amor,

no amor de quem se deu

como um perfume de flor

e nessa flor de montanha

aberta pro continente

nesta beleza tamanha

na minha fé deslumbrante

tu estás meu Comandante

numa saudade bem clara

dos que morrem e que renascem

contigo, Ernesto Guevara.

.

No nosso ódio indigesto

na voz da conspiração

na passeata de protesto

em cada homem sem pão

em cada cidadão livre

que é metralhado na rua

no seio de cada greve

no salário de quem sua

na opressão e na fome

nesse mal que nos consome

como farol claro e forte

surge tua imagem, teu nome

teu braço de guerrilheiro

como um fuzil justiceiro

nos apontando o roteiro

em busca da liberdade.

.

Nas pátrias negociadas

desta América sofrida

na ditadura instalada

na terra não repartida

em toda prisão injusta

em todo estudante morto

em cada homem sem rosto

de quem outro vive à custa

no estômago agonizante

nos punhos que desabrocham

pra rubra flor do combate,

tu estás, meu Comandante.

.

Enquanto a noite se escorre

na garganta da ampulheta

as gerações se preparam

para a estação da colheita.

A semente está brotando

na flor da revolução

e a consciência do povo

vai tomando posição.

Tu semeaste a bom tempo

os grãos dos frutos por vir

que levados pelo vento

no estampido dos metais

brotam nos campos ao sul

das terras continentais.

.

Adios, adios, hasta siempre

meu imortal Comandante,

na terra há flores se abrindo

no peito a fé triunfante

no tempo um caminho aberto

e nele os homens sorrindo

num largo gesto de hermano

na busca de um mundo novo

da pátria purificada

para a alegria do povo.

Curitiba, Outubro de 1968

saludo a Che Guevara

o poema, em espanhol,  publicado em cartaz  da Federacion Universitaria Local (Cochabamba) na Bolívia, em outubro de 1969, ilustrado por Atílio Carrasco.

MANOEL DE ANDRADE comenta em: “SIETE PUÑALES EN EL CORAZÓN DE AMÉRICA” por fidel castro / cuba

Comentário:
Sete punhais no coração da América. Que poética imagem para relembrar as incontáveis punhaladas cravadas no corpo inteiro da América desde que os saqueadores europeus chegaram aqui há quinhentos anos.

Em 1519, no México, o Imperador Montezuma II acolhe os espanhóis como enviados divinos e recebe o ingrato punhal  da prisão e da  morte com grande parte do seu povo,  pela cobiça de seu ouro por Fernão Cortez,  Pedro de Alvarado e seus prespostos.
MANOEL DE ANDRADE - FOTO DELE - IMG_7355Em 1532, o Imperador do Peru, Atahualpa,  é traído e aprisionado em Cajamarca por Francisco Pizarro, que toma seu ouro e depois manda executá-lo por estrangulamento.

No Chile os indomáveis araucanos resistiram às crueldades e as fogueiras de Diego de Almagro e ao conquistador Pedro de Valdívia e seus sucessores, mas resistiram por 350 anos. Muitos caíram com  o punhal da crueldade espanhola…,como Galvarino, que teve as mãos cortadas e Caupolicán, que foi empalado vivo. Conheci seus sobreviventes, nas montanhas de Arauco, no sul do Chile,  onde se isolaram da “civilização” e mantém ainda viva a memória heróica do passado.

Artigas, San Martin, O’Higgins, Sucre, Bolívar, Hidaldo e Juarez, os pais de tantas pátrias e que arrancaram os punhais do domínio espanhol da América.

Mas depois viriam os punhais dos comerciantes ingleses a sangrar, com a usura e a ganância comercial  a nossa independência política.
Viriam os punhais yanques da United Fruit para engolfar-se no sangue dos camponeses guatemaltecos, hondurenhos e salvadorenhos.
E essa Cuba heróica,  bloqueada  pelo poder do império e apunhalada, há cinco décadas, pelos representantes bastardos do sangue latino-americano.
E vieram  os punhais da CIA para assassinar nossos revolucionários.

Sim…, há que tomar partido diante destes sete punhais a serem cravados no coração da América. Ali…, onde  em o6 de  dezembro de 1928,  a praça principal da cidade colombiana de Ciénaga, tingiu-se de vermelho no já esquecido “Massacre das bananeiras”. Sob as ordens yanques da United Fruit os velozes punhais de chumbo silenciaram o protesto de  mais de mil camponeses que caiam abraçados com suas mulheres e seus filhos.. Alí…, na pátria do “Bogotaço” onde assassinaram a voz de Eliécer Gaitán  e depois caiu  Camilo Torres.

RESISTÊNCIA …, SIM….   “los pueblos pueden resistir y ser portadores de los principios más sagrados de la sociedad humana. De lo contrario el imperio destruirá la civilización y la propia especie.”
Veja a matéria comentada  AQUI.

A ONDA de manoel de andrade / curitiba

MANOEL DE ANDRADE - ondas-fotoarte-clark-little-att00008foto de clark little.

Canto a onda…
amazona das águas e dos ventos
a cavalgar esbelta sobre o dorso do oceano
pelas planícies tropicais dos mares
a cavalgar sob o sol e sob a lua
até a longínqua solidão dos hemisférios
a cavalgar sua cadência fugidia
pelo imenso território dos silêncios.
.
Canto a onda
salgada crista
verde brancura sempre erguida
e sempre despejada
canto teus canteiros borbulhantes de frescor e de açucenas
teu sorriso derramado em pétalas de espuma
canto teu beijo sugado ardentemente pela Terra
úmida fragrância espalhada nas areias do tempo
ritmo incessante dessa dança milenar.
.
Canto a onda
guardiã do mar e dos mistérios
atlética miragem que caminha sem descanso
vigiando as inumeráveis multidões de vidas
a caminhar sobre a imensa solidão das águas
a caminhar nos passos de lépida gazela
ou no galope da vaga majestosa.
.
Canto a onda
a grande onda
potência elementar
coluna insustentável que anuncia o precipício
súbita cascata, túnel e turbilhão
força imbatível, peso imponderável
filha do ventre ancestral das águas
vulto encoberto que avança obstinado
até surgir qual serpente coleante
galgando o planalto submarino
empinando a cabeça para o bote
tentáculo de sal, insólita medusa
invencível lâmina cortada por afiadas proas
sedução e pavor dos navegantes.
.
Longe… longe sobre as águas,
pairando na calmaria,
surge no céu um negrume…
e tudo é brusco e fantástico na paisagem que ressurge
são nuvens redesenhadas num borrão assustador
vem alargando seus passos
invadindo o horizonte
desterrando as claridades
turvando as ondas vadias
vem vindo no verde mar qual corcel em disparada
assanhando os elementos sobre a linha do horizonte
é o céu baixando à Terra
chegando na ventania, na rajada, no aguaceiro.
.
Um raio risca a penumbra e mergulha no oceano
e num frêmito aquoso se enruga a superfície.
Há uma tensão sob as águas
há um prenúncio nos ventos
as vagas se levantando
ressurgindo poderosas
no punho emerso do abismo
nos bramidos da procela colossal
na indomável fúria da tormenta
na invasão que avança.
.
Eis onda…
ora calma e deslumbrante
e agora o vulto apavorante
a galopar, qual indomável centauro sobre o mar,
avançando em sua marcha soberana
qual extensa muralha em movimento
alçando seu punho inumerável
exibindo seu pesado látego de espumas
chicoteando a muralha, o arbusto e a penedia
bramindo no poder dos elementos
chegando no estrondo, no vendaval, na fantástica sinfonia
invadindo, inundando e espalhando seus despojos.
.
Praias varridas
orlas de vida e de sonhos afogados
os imensos litorais tragados
os restos desfigurados da invasão
pedaços de barcos destroçados
lágrimas que ainda esperam
pescadores que não mais voltarão.
.
Contém, ó mar
teus passos sobre a Terra
tua reconquista
teu apocalíptico destino.
Já são tantos os sinais dos tempos
tanta irreverência ante tantos pressentimentos.
Ó mar…
são tão grandes teus domínios
escavados na origem desta concha planetária.
Deixa intacta esta nossa única terça parte
este verde agonizante que nos resta
esta solitária relva de esperança.
.
Curitiba, março de 2004
Este poema consta do livro CANTARES  editado por Escrituras

JULIO DAIO BORGES entrevista o poeta MANOEL DE ANDRADE / são paulo

América Latina foi minha grande universidade

Hoje gerente de uma empresa da área médica, o poeta brasileiro Manoel de Andrade se destacou nos anos 70 pelos versos nos quais expressava o sentimento do homem latino-americano no livroPoemas para a Liberdade, reeditado recentemente em edição bilíngue no Brasil (Escrituras Editora).

Sua forte ligação com a América Latina começou no final dos anos 1960, quando saiu do Brasil devido à perseguição política pela luta estudantil contra a ditadura e, especificamente, por um poema que escreveu em homenagem a Che Guevara.

Na viagem, percorreu 15 países latino-americanos, onde viveu, segundo ele, sua universidade poética, apesar de termanecosido preso e expulso de alguns deles. Em cada cidade, aproveitava o tempo para estudar, aprender o idioma espanhol e ler grandes escritores.

Os frutos da empreitada resultaram em reconhecimento internacional, com o livro Poemas para la Libertad publicado na Bolívia, Colômbia, Equador e Estados Unidos, além de edições panfletárias no Peru, Nicarágua, El Salvador e México.

De volta ao Brasil, em 1972, não exerceu mais sua vocação e só voltou à poesia mais de 30 anos depois, com a publicação do livroCantares, em 2007.

Qual foi o impulso para reeditar Poemas para a Liberdade (1970) hoje?

Primeiramente pela grata recepção que teve meu livro Cantares, lançado em 2007. E, depois, pela memória de 1968, relembrando as bandeiras da luta estudantil empunhadas por minha geração. Recordar toda nossa corajosa resistência, como porta-vozes da sociedade contra o regime militar, me fez relembrar também meus anos de luta pela América Latina, onde minha trincheira e meu fuzil foram os meus Poemas para la Libertad, finalmente editados no Brasil.


Você é um dos únicos casos que conheço de poeta brasileiro que escreveu para a América Latina inteira (e obteve êxito) – como aconteceu essa sua ligação tão forte com o idioma de Cervantes?

A ligação antiga foi a leitura dos clássicos espanhóis na juventude e a imediata foi a convivência diária com o idioma castelhano em meu imenso caminhar. Ao longo dos 15 países que percorri, tinha o hábito de reservar as primeiras semanas para ler, nas melhores bibliotecas, sua história política e literária e seus principais poetas e prosadores. Aprendi muito rápido: lendo muito, falando e escrevendo.

Sua saída do Brasil está relacionada a um poema seu em homenagem a Che Guevara. Quando ele morreu, era tão perigoso assim homenageá-lo no Brasil?

Quando ele morreu, em 8 em outubro de 1967, ainda não existia o AI-5 [Ato Institucional nº5]. Saudação A Che Guevara foi escrito para comemorar o primeiro ano de sua morte. O poema colocava, liricamente, a sua imagem de comandante no centro dos movimentos revolucionários do continente, convocava a luta armada e saudava a sua imortalidade como uma consigna triunfante na conquista de um mundo novo.

Quatro mil cópias foram panfletadas até o início de dezembro, quando a nação já respirava uma atmosfera carregada pelo pressentimento de uma surda e sinistra ameaça por trás dos biombos do poder. No dia 13 de dezembro, a edição do AI-5 sufocou os últimos suspiros da democracia.

Em março, o DOPS [Departamento de Ordem Política e Social] já tinha em mãos cópias do meu poema, e a caça às bruxas já havia começado no país inteiro. Eu já estava sendo procurado nos recintos universitários, e os suspeitos de subversão eram presos, mantidos incomunicáveis, e alguns começaram a sumir. Nesse perigoso contexto, eu saí do Brasil.

Como foi percorrer 15 países por conta da sua obra, que foi, finalmente, editada em livro na Bolívia em 1970? Hoje seria possível algum poeta brasileiro experimentar uma acolhida remotamente parecida?

A América Latina foi minha grande universidade. Com meus versos na garganta, muitos percalços e alegrias pelos caminhos, preso e expulso de alguns países, mas avançando sempre rumo ao norte, meus poemas atravessaram o continente, cruzaram o Rio Bravo e foram cantar a justiça e a liberdade nas próprias entranhas do “monstro” livro capaimperialista. Ecoaram na Califórnia de 40 anos atrás, para dizer da saga revolucionária latino-americana aos nossos irmãos chicanos, cuja latinidade, maculada pelo esbulho da própria pátria mexicana, buscava forças em suas raízes para lutar contra a discriminação, as humilhações e as injustiças após 150 anos de genocídio cultural, com a anexação, em 1848, do Novo México, Arizona, Califórnia, Utah, Nevada e Colorado ao território estadunidense.

Por outro lado, não creio que hoje se possa experimentar uma acolhida tão solidária como aquela fraternidade ideológica que envolveu a América Latina nos anos 70. A Revolução Cubana acendeu uma fogueira que iluminou a tantos e nos sulcos das suas trincheiras muitos nos alinhamos, segurando o mesmo estandarte. O mundo mudou e hoje eu não cantaria mais a mudança do mundo com as armas na mão. O muro de Berlim se despedaçou sobre nossos sonhos. A Rússia centralizou sua “democracia” e a China negociou o socialismo com o “Capitalismo de Estado”. É triste dizer que, hoje, não temos mais uma utopia.

Mas a consagração, aqui, só veio em 1980, graças a Moacyr Félix e Wilson Martins… Como foi esse reconhecimento tardio?

Na verdade esse foi um reconhecimento solitário e prematuro. Meu primeiro livro publicado no Brasil foi Cantares, em 2007. Meu nome começou a surgir no cenário poético paranaense em 1965, quando minha poesia foi premiada num  concurso literário, e por minha participação na Noite da Poesia Paranaense no Teatro Guaíra, onde lancei, solitariamente, minhas primeiras farpas contra a ditadura. O destaque para minha poesia chegou, em fins de 1968, pelas amplas portas que o jornalista Aroldo Murá abriu no “Diário do Paraná” e  pela minha longa “Canção para os homens sem face”, publicada em dezembro daquele ano na Revista Civilização Brasileira, onde pontificava a elite intelectual de esquerda brasileira e mundial. Mas em março de 1969 deixei o país e me coloquei no olho do imenso furacão ideológico que agitou o continente. Minha poesia amadureceu nesse embate e frutificou nas edições de meu livro na Bolívia, Colômbia, Equador e Estados Unidos, além de edições panfletárias no Peru, Nicarágua, El Salvador e México. Quadros, cartazes, revistas, jornais, panfletos, recitais, palestras e debates foram os caminhos por onde transitaram os meus versos, partilhando também páginas de antologias com Mario Benedetti, Juan Guelmann e Jaime Sabines entre outros. Mas tudo isso fora do Brasil.

Apesar de você já ser uma promessa, nos anos 60, ao lado de Paulo Leminski e Dalton Trevisan, se ressente de não ser considerado, pela crítica especializada, tão importante quanto eles?

E nem poderia sê-lo. Voltei a ocupar esse espaço há dois anos, depois de 40 anos de ausência. Os que se lembram do poeta que fui têm hoje mais de 50 anos. Eu era uma promessa? Talvez literariamente realmente fosse. Mas esse tipo de importância nunca o foi para mim. Encaro o significado da vida numa dimensão muito maior que a literária. Quanto à crítica especializada de hoje, não crio expectativas em relação ao reconhecimento da minha poesia.

Meu livro Poemas para a Liberdade não é apenas mais um livro no mercado editorial, mas um documento histórico e político. Sua verdadeira importância está na expressão literária de um sonho que transcendeu as fronteiras do espaço e do tempo, e a crítica atual, com raras exceções, despreza a ideologia.

Meu respeito pelas palavras, a reverência do meu estilo e a clareza cartesiana com que escrevo meus versos não fazem concessões ao mero intelectualismo e aos paradigmas da pós-modernidade.

A crítica que me gratifica são os comentários sinceros que fazem na Internet aos meus poemas. Como me gratifica ver este meu livro citado publicamente por um grande escritor como Domingos Pellegrini, com dois Jabutis nas costas, e que, em mensagem a mim enviada, relembra a mesma bandeira que desfraldamos no passado e confessa que meus Poemas para a Liberdade lavaram sua alma.

E o que andou fazendo de 1980 pra cá?

Voltei em meados de 1972, quando o país passava pela sua mais aguda fase de repressão. Era a época da Guerrilha do Araguaia e quando a Anistia Internacional revela ao mundo o nome de centenas de torturadores e de milhares de torturados no Brasil. Depois de alguns meses, os agentes do DOPS já estavam à minha procura. Transferi minha [carteira da] OAB para Santa Catarina, na esperança de advogar em meu estado. Também lá não foi possível assumir publicamente qualquer trabalho.

Neste anonimato voltei para Curitiba e fui vender a Enciclopédia Delta Larousse. Era uma forma itinerante de trabalhar pelo interior sem que os agentes do DOPS me localizassem. Profissionalizei-me rapidamente, cheguei ao topo na hierarquia dos títulos nacionais e tive um grande sucesso financeiro.

Em 1987, já na abertura democrática, ingressei na área gerencial de uma empresa de medicina de grupo onde estou até hoje. Durante todo este período, embora não tenha escrito poesia, fui sempre um leitor insaciável e sempre envolvido com o voluntariado.

Foi difícil retomar o caminho da poesia em Cantares (2007)?

O caminho pelo qual retornei à poesia deu-se de forma intrigante em termos de inspiração poética: em setembro de 2002, durante a campanha eleitoral para governador no Paraná, meu velho amigo Roberto Requião foi covardemente atacado, na mídia, com uma série de infâmias e inverdades pelos seus inimigos políticos.

Indignado com tanta mentira, comecei a rabiscar um poema relembrando sua coragem, depois do golpe de 1964, quando partilhamos sua afiada oratória e minha poesia nos protestos estudantis contra a ditadura. Relembrei, sobretudo, seu gesto solidário quando, em março de 1969, me ajudou a sair do país, num dos momentos mais difíceis da minha vida. Este poema chama-se Tributo e consta do livro Cantares, e foi com este poema que voltei a escrever poesia depois de 30 anos.

E aquele sonho, dos anos 60, acabou mesmo – como disse John Lennon?

O sonho tem a dimensão que lhe queremos dar e sempre acreditei que o DNA dos poetas é feito de sonhos. Embora aquele sonho dos anos 60 tenha acabado, nos restou a indignação por termos que arriar tantas bandeiras. E essa indignação, que caracteriza toda a humanidade contemporânea, é a nova tese no misterioso processo dialético da própria vida que se renova, sobrepondo-se a todos os reveses. Em algum lugar sempre haverá alguém sonhando, ou nascendo para sonhar com um mundo novo, assim como Colombo um dia sonhou com o Novo Mundo.

Leia poema de Manoel Andrade:

Por que Cantamos*

Se tantas balas perdidas cruzam nosso espaço
e já são tantos os caídos nesta guerra…
Se há uma possível emboscada em cada esquina
e temos que caminhar num chão minado…

“você perguntará por que cantamos”

Se a violência sitia os nossos atos
e a corrupção gargalha da justiça…
Se respiramos esse ar abominável
impotentes diante do deboche…

“você perguntará por que cantamos”

Se o medo está tatuado em nossa agenda
e a perplexidade estampada em nosso olhar…
Se há um mantra entoado no silêncio
e as lágrimas repetem: até quando, até quando, até quando…

“você perguntará por que cantamos”

Cantamos porque uma lei maior sustenta a vida
e porque um olhar ampara os nossos passos.
Cantamos porque há uma partícula de luz no túnel da maldade
e porque nesse embate só o amor é invencível.

Cantamos porque é imprescindível dar as mãos
e recompor, em cada dia, a condição humana.
Cantamos porque a paz é uma bandeira solitária
a espera de um punho inumerável.

Cantamos porque o pânico não retardará a primavera
e porque em cada amanhecer as sombras batem em retirada.
Cantamos porque a luz se redesenha em cada aurora
e porque as estrelas e porque as rosas.

Cantamos porque nos riachos e lá na fonte as águas cantam
e porque toda essa dor desaguará um dia.
Cantamos porque no trigal o grão amadurece
e porque a seiva cumprirá o seu destino.

Cantamos porque os pássaros estão piando
e ninguém poderá silenciar seu canto.
Cantamos para saudar o Criador e a criatura
e porque alguém está parindo neste instante.

Pelo encanto de cantar e pela esperança nós cantamos
e porque a utopia persiste a despeito da descrença.
Cantamos porque nessa trincheira global, nessa ribalta,
nossa canção viverá para dizer por que cantamos.

Cantamos porque somos os trovadores desse impasse
e porque a poesia tem um pacto com a beleza.
E porque nesse verso ou nalgum lugar deste universo
o nosso sonho floresce deslumbrante.

(*) Manoel de Andrade escreveu estes versos motivado pelo poema “Por que Cantamos”, do uruguaio Mario Benedetti.

LEIA TAMBÉM ARTIGO SOBRE MANOEL DE ANDRADE: clicando AQUI.

CANÇÃO PARA OS HOMENS SEM FACE de manoel de andrade / curitiba

panfleto do poema, na Colombia (1970), com arte de atilio carrasco.

o poema publicado na revista LETRAS BOLIVIANAS (1970), com arte de atilio carrasco.

Canção para os homens sem face
De Manoel de Andrade
para  José Macedo de Alencar
Não canto minha dor…
dor de um só homem não é dor que se proclame.
Canto a dor dos homens sem face
canto os que tombaram crivados
os homens escondidos
os que conheceram a nostalgia do exílio
para os encarcerados.
Canto aos párias da vida…
aos bêbados, aos vagabundos e aos toxicômanos.
Canto as prostitutas
e as mulheres que foram embora com o homem amado.
Canto à multidão que entra e sai pelos portões das fábricas
aos que vêem o dia nascer no asfalto das rodovias
e aos lavadores de carros e aos que vendem a loteria
canto aos coletores de lixo e aos guardiões noturnos
as longas filas de pessoas que esperam os ônibus nas praças
e aos estrangeiros que aqui vieram viver.
Canto os homens sem raízes, sem família, sem pátria
canto meu sonho quando canto os que viveram o mar
que aportaram em países distantes
e conheceram homens de muitas raças…
e quando canto os navios,
canto ao meu coração de barco.
Gosto de cantar tudo o que vejo
os homens que conheço
e os que ainda não começaram a existir para mim.
Gosto de caminhar sozinho e de mãos nos bolsos pelas ruas e pela vida
gosto de falar com os homens dos armazéns
dos mercados, das oficinas,
dos postos de gasolina,
das bancas de revistas, das agências de viagens,
com os ascensoristas, com os que consertam os esgotos da cidade,
e outros homens, outros.
E canto as crianças que brincam nos parques
e pulam corda nas calçadas
e os que vão ao palco representar o drama dos outros homens.
Eu canto para todos os homens…
meus irmãos em todas as raças, nacionalidades e crenças,
canto além de todas as fronteiras
porque sob a bandeira da paz eu canto;
e pela fé que me ilumina
e por essa canção escrita no meu peito,
eu canto a humanidade inteira.
Canto a vergonha de ser brasileiro num tempo defecado
canto meu povo
e se ainda não canto meu país,
é porque não sei cantar na presença de homens indecentes;
eu canto sobretudo para aqueles que preservaram seu sonho,
para os que ousaram lutar e morrer por ele,
canto a memória de um guerrilheiro argentino.
E eis que meu verso se endurece
para que  eu cante meu melhor combate
e só assim posso cantar para os irmãos e  camaradas
recrutando companheiros para a luta…
e quando meu canto é feito para os ouvidos dos justos,
eu canto sem temor,
para que minha canção palpite solitária e solidária
no coração daqueles que se preservaram da lama.
Canto sem medo e sem brinquedo
e enfileiro meus versos para a luta
prontos para ferir como baionetas
prontos a morrer se for preciso.
Como guerreiros invisíveis
meus versos se infiltrarão no país dos corruptos pelas fronteiras das entre-
/linhas
e renascerão nos lábios dos militantes
ora como uma flor, ora como um fuzil.
Ah, que tempos são esses!?
já não reconheço nestes versos os versos de poeta que fui;
meu canto é hoje um canto transtornado pelo pacto desumano dos homens,
pelo triste dever de indignar-se,
pela violência estampada nas manchetes dos jornais…
e eis que um poeta não canta sem que seu verso quase desfaleça.
E hoje…
nestes dias encardidos de atos e decretos,
neste tempo suspenso num mastro sem bandeiras,
nesta nação de homens que ingerem caldo de galinha,
neste momento tísico
em que somente os finórios se regozijam,
nestes anos em que o sangue da América é um imenso canto de esperanças,
este poema chega assim tão de repente
rogando uma audiência para falar comigo,
como se soubesse que estou para morrer,
e me encontra prostrado num bacanal de coisas fúteis,
um inconsciente talvez…
um homem inútil
quase um desertor
meu Deus, quase um desertor.
Ah, meus  versos
minha absolvição…
neles  renasço transfigurado e forte
e cavalgo o universo inteiro;
e caminho cheio de amor por todos os seres
e por todas as coisas;
cheio de asco pelos tiranos
e pelos homens hipócritas
e sinto o coração limpo e maciço de ternura
meu canto crescer e explodir mais forte que a bomba.
Ah, meus versos,
meus versos que não são meus,
que são de todos os homens e de todas as mulheres que eu canto;
que são de todos os que se aproximam de mim
e que falam comigo.
Meus versos que afinal nunca serão de ninguém,
caminhando pela terrível solidão branca do papel,
pelo itinerário clandestino das gavetas;
estampados nas palavras escarlates da minha revolta pública,
impressos no meu olhar solitário de samurai.
Eu canto para todos os homens
contudo, neste tempo,
eu canto para os homens sem face…
aqueles que se perdem na multidão das grandes cidades,
e que amadurecem, a cada dia,
os punhos para a luta.
Curitiba, Setembro de 1968
Este poema consta do livro  POEMAS PARA A LIBERDADE  editado por Escrituras

para José Macedo de Alencar

Não canto minha dor…

dor de um só homem não é dor que se proclame.

Canto a dor dos homens sem face

canto os que tombaram crivados

os homens escondidos

os que conheceram a nostalgia do exílio

para os encarcerados.

Canto aos párias da vida…

aos bêbados, aos vagabundos e aos toxicômanos.

Canto as prostitutas

e as mulheres que foram embora com o homem amado.

.

Canto à multidão que entra e sai pelos portões das fábricas

aos que vêem o dia nascer no asfalto das rodovias

e aos lavadores de carros e aos que vendem a loteria

canto aos coletores de lixo e aos guardiões noturnos

as longas filas de pessoas que esperam os ônibus nas praças

e aos estrangeiros que aqui vieram viver.

Canto os homens sem raízes, sem família, sem pátria

canto meu sonho quando canto os que viveram o mar

que aportaram em países distantes

e conheceram homens de muitas raças…

e quando canto os navios,

canto ao meu coração de barco.

.

Gosto de cantar tudo o que vejo

os homens que conheço

e os que ainda não começaram a existir para mim.

Gosto de caminhar sozinho e de mãos nos bolsos pelas ruas e pela vida

gosto de falar com os homens dos armazéns

dos mercados, das oficinas,

dos postos de gasolina,

das bancas de revistas, das agências de viagens,

com os ascensoristas, com os que consertam os esgotos da cidade,

e outros homens, outros.

.

E canto as crianças que brincam nos parques

e pulam corda nas calçadas

e os que vão ao palco representar o drama dos outros homens.

Eu canto para todos os homens…

meus irmãos em todas as raças, nacionalidades e crenças,

.

canto além de todas as fronteiras

porque sob a bandeira da paz eu canto;

e pela fé que me ilumina

e por essa canção escrita no meu peito,

eu canto a humanidade inteira.

.

Canto a vergonha de ser brasileiro num tempo defecado

canto meu povo

e se ainda não canto meu país,

é porque não sei cantar na presença de homens indecentes;

eu canto sobretudo para aqueles que preservaram seu sonho,

para os que ousaram lutar e morrer por ele,

canto a memória de um guerrilheiro argentino.

.

E eis que meu verso se endurece

para que eu cante meu melhor combate

e só assim posso cantar para os irmãos e camaradas

recrutando companheiros para a luta…

e quando meu canto é feito para os ouvidos dos justos,

eu canto sem temor,

para que minha canção palpite solitária e solidária

no coração daqueles que se preservaram da lama.

Canto sem medo e sem brinquedo

e enfileiro meus versos para a luta

prontos para ferir como baionetas

prontos a morrer se for preciso.

.

Como guerreiros invisíveis

meus versos se infiltrarão no país dos corruptos pelas fronteiras das entre-

/linhas

e renascerão nos lábios dos militantes

ora como uma flor, ora como um fuzil.

.

Ah, que tempos são esses!?

já não reconheço nestes versos os versos de poeta que fui;

meu canto é hoje um canto transtornado pelo pacto desumano dos homens,

pelo triste dever de indignar-se,

pela violência estampada nas manchetes dos jornais…

e eis que um poeta não canta sem que seu verso quase desfaleça.

.

E hoje…

nestes dias encardidos de atos e decretos,

neste tempo suspenso num mastro sem bandeiras,

nesta nação de homens que ingerem caldo de galinha,

neste momento tísico

em que somente os finórios se regozijam,

nestes anos em que o sangue da América é um imenso canto de esperanças,

este poema chega assim tão de repente

rogando uma audiência para falar comigo,

como se soubesse que estou para morrer,

e me encontra prostrado num bacanal de coisas fúteis,

um inconsciente talvez…

um homem inútil

quase um desertor

meu Deus, quase um desertor.

.

Ah, meus versos

minha absolvição…

neles renasço transfigurado e forte

e cavalgo o universo inteiro;

e caminho cheio de amor por todos os seres

e por todas as coisas;

cheio de asco pelos tiranos

e pelos homens hipócritas

e sinto o coração limpo e maciço de ternura

meu canto crescer e explodir mais forte que a bomba.

.

Ah, meus versos,

meus versos que não são meus,

que são de todos os homens e de todas as mulheres que eu canto;

que são de todos os que se aproximam de mim

e que falam comigo.

Meus versos que afinal nunca serão de ninguém,

caminhando pela terrível solidão branca do papel,

pelo itinerário clandestino das gavetas;

estampados nas palavras escarlates da minha revolta pública,

impressos no meu olhar solitário de samurai.

.

Eu canto para todos os homens

contudo, neste tempo,

eu canto para os homens sem face…

aqueles que se perdem na multidão das grandes cidades,

e que amadurecem, a cada dia,

os punhos para a luta.

.

Curitiba, Setembro de 1968

Este poema consta do livro POEMAS PARA A LIBERDADE editado por Escrituras