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TRILHAS E CAVALGADAS de marilda confortin / curitiba

Hora dessas, solto o freio

e laço este tordilho

sento no teu arreio

e te boto nos trilhos.

Nem que eu leve um tombo
e rasgue as a meias finas,

eu galopo no teu lombo
agarrada nas tuas crinas


Um dia ainda amanheço
“decorando tua geografia”

viro este guapo do avesso

ou não me chamo Maria

Pra te deixar feliz da vida,

uma noite, ainda eu laço

aquela lua exibida

e boto ela em teus braços.

Mas depois, juro que faço

um picadinho daquela china

porque, eu mando aqui em baixo

ela que fique lá em cima.

Uma hora dessas, qualquer

quando me bater a fome

vou querer ser tua mulher

e tu vais ser o meu homem

Depois?  Ah, depois tu voltas pra ela
e tudo fica em seu lugar
afinal, porque fizeram janelas

senão pra gente pular?

Prêmios – de marilda confortin / curitiba


Tenho na minha sala, uma lareira velha toda enfeitada de troféus e diplomas que ganhei pela vida afora. Modéstia a parte, sou foda.

Aquele troféu bonito ali na frente é de TIRO ao ALVO. A mosca morta no centro, sou eu.

E aquela taça dourada é de quando fui campeã mundial de BOLA FORA. Não dei uma dentro.

O crânio rachado, em gesso, revestido de bronze, ganhei num torneio de CABEÇADAS.

A miniatura de vaso sanitário em cerâmica branca é um troféu de CAGADAS HOMÉRICAS.

Aqueles barcos em latão são vários primeiros lugares que tirei nos campeonatos de CANOA FURADA e por sempre ter entrado de GAIATO NO NAVIO.

O diploma azul, que parece uma passagem aérea para lugar nenhum é de TEMPO DE VÔO. Tenho acumulado milhares de milhagens de horas com a cabeça nas nuvens.

Ao lado do Atestado de Burrice, você pode ver a Certidão de Casamento e a Declaração de Divórcio. Fazem parte do mesmo Festival de Besteiras que participei.

Aquela bola branca, maciça,  no canto esquerdo da lareira, é de torneios de SINUCA. Vivo numa sinuca de bico constante.

Aquelas cédulas emolduradas, são dos MICOS que paguei e os galos de bronze, são das BRIGAS  que comprei.

Aquela dama no porta-retrato sou eu: UMA CARTA FORA DO BARALHO.

Tenho também um punhado de medalhas de desonra, luta inglória, maratonas de trabalho, levantamento de peso inútil,  prêmio iBesta, nadação, danação  e por aí vai.

No momento estou disputando o primeiro lugar no FENAESBO – Festival Nacional de Escrita de Bobagens.  Apesar do imensurável número de concorrentes, minhas chances são enormes.

Guapo – de marilda confortin / curitiba

Encontrei-o todo encilhado,

Amarrado dos pés a virilha

Completamente adestrado

Preso na própria armadilha

.

Vestindo caros apetrechos

Argolas de prata e de ouro

O dorso coberto de adereços

Escondiam marcas no couro

.

O olhar daquele potro

Parecia fazer-me um apelo:

Desencilhe-me deste fardo

Cavalgue-me nua em pelo

.

Palavras são como rosetas

Cravadas na pele da gente

Pontiagudas picaretas

Ferindo o coração do vivente

.

Seguindo o instinto amazona

Afrouxei as cordas do arreio

E fingindo ser sua dona

Intentei tirar-lhe o freio

.

Mas o potro corcoveou,

Feito fera ainda xucra

Deu um coice, empinou,

Expulsou-me da garupa

.

Decidi então ir-me embora.

Afinal, um chicote ele merecia,

Só que em vez de espora

Tentei amansá-lo com poesia.

.

Devia ter apertado a barrigueira

Ter me fingido de perua

Usado espartilho, peiteira

E não mostrado a alma nua.

.

Poesia é como chincha no abdome:

Aperta, mas não machuca

Para prender aquele homem

Só era preciso ser puta.

Mendiga cibernética – de marilda confortin / curitiba


Tens um poeminha para me dar?

Adoro poesia, mas tenho preguiça de fazer.

Fugi da escola literária e virei marginal.

Vivo de esmola.

.

A frieza assola, a insônia ronda,

a realidade esfola, a noite sonda.

Tenho medo, sinto fome.

Cadê teu altruísmo, homem?

Me dá um poeminha, pelo amor de Deus!

.

Um poema, por misericórdia!

Tens tantos. Custa dar-me um?

Nem precisa ser grande.

Pode ser uma trova, um poetrix, um haikai,

um verso inacabado,  usado,

velho, roto, vago,

um soneto fora de moda

que não uses mais…

.

Porque te escondes, poeta?

Temes que eu te delate ou te delete?

Que eu te plagie ou te copie?

Despreocupa-te!

Conheço o avesso e o direito autoral.

Sei do não dito, do bem dito

e do maldito verso implícito

nas reticências desse mundo virtual.

.

Não te iludas… Sou uma mulher infiel.

Só quero uma poesia para dormir essa noite.

Amanhã te esqueço e me aqueço

nos braços de outro anônimo qualquer.

NA MORADA de marilda confortin / curitiba

externa12

Na minha casa

não tem compartimento secreto

nem lugar proibido.

Minha casa é um livro aberto

Com meus amigos divido.

Na minha casa tudo combina

Com qualquer clima, qualquer astral.

O chinelo havaiana não reclama

De morar debaixo da cama

Com um velho sapato social.

As fotos dos filhos estão por toda parte

Exibo sim, são minhas obras de arte

Não importa que partam

Sou porto,

São partes de mim.

Uma erva daninha nasceu na floreira

E cresceu trepadeira, não posso arrancar

Um pé de gerânio abriu a cortina

E na surdina deixou o sol entrar.

Lá em casa tem creme pra cabelo seco,

molhado, pixaco, loiro, ruivo e preto.

Tem óleo, toalha e escova de dente

vá que alguém de repente resolva pernoitar.

Os livros povoam a sala, banheiro,

armários, gavetas e estantes.

São meus companheiros,

eternos amantes

nunca vão me abandonar.

Na parede não tem uma rede,

Mas tem um desenho de lápis de cor

Feito por minha mãe, num papel almaço.

Tem muito mais valor

Do que qualquer obra do Picasso.

Tenho tudo que preciso

No meu Cinema Paradiso:

Poderoso Chefão, Telma e Louize

Chico, Betania, Cartola e Gil

A Rita está ali, mas o Milton sumiu

Na cristaleira não tem taça de cristal

Mas tem cachaça, tequila e mescal

Um vinho barato, licor de pequi

E uma última dose de bacardi.

Na minha casa

Não tem compartimento secreto

Nem lugar proibido.

Minha vida é um litro aberto

que trago com meus amigos.

.

ilustração da autora.