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TOTALITARISMOS, SOCIALISMO, CAPITALISMO…e depois? – por márcio salgues

“A revolução mais necessária parece ser a mais improvável” Herbert Marcuse.

Nesses tempos em que os noticiários falam de milhões de reais – ou de dólares – trocando de mãos – normalmente inescrupulosas – com uma frugalidade tal que parece se tratar de um prato de alface, uma ninharia qualquer, a única impressão que me resta é a da falência dessa democracia inerte, de vitrine, bem como do, já ruim, Estado de Bem Estar social.

Referi-me à nossa democracia como sendo “de vitrine” pelo seu aspecto meramente decorativo, freqüentemente exibido ao mundo como um belo exemplo de democracia. Ainda que esse “belo exemplo” seja forjado a cada eleição, quando somos forçados, sob a pena da Lei, a “escolhermos livremente” aqueles que irão legislar sobre nossas vidas, nos governar e cuidar da nossa sociedade, administrando o dinheiro que nos é cobrado para fazer funcionar o sistema de “bem estar social” que não funciona, visto que os cidadãos comuns, por sua própria posição dentro do organograma social, alijados que são da estrutura do poder, apenas tentam se manter vivos, em busca de alimento e manutenção da prole.

Para essa “livre escolha” nos são oferecidos candidatos previamente fabricados, forjados numa retórica enganosa, maquiados com recursos hollywoodianos de som e luz, cheios de efeitos especiais e interpretações dramáticas. Ora, não são gente como a gente. São personagens irreais, tão fictícios quanto seus programas promocionais que, como toda boa produção cinematográfica, custa bem caro e alguém tem que pagar a conta. Como aprendemos desde crianças que dinheiro não nasce em árvores, não sei porquê a sociedade não protesta contra esse espetáculo carnavalesco cuja conta será paga por ela mesma. Ou seja, dentro desse modelo de democracia que nos é imposto, apertar o botão “Confirma” tem sido um gesto parecido com o apertar o botão da descarga do vaso sanitário só que, despejando algo com pelo menos seis zeros.

Referi-me também ao Estado falido não em termos financeiros, pois, como lembrei no início, dinheiro em caixa existe, nos dois. Mas, falido na sua missão precípua de promover o tal bem estar social do seu povo. Sendo assim, o Estado deixou de ser, perdeu o rumo ou está vivendo uma crise de legitimidade – e não estou falando a respeito do governo – compelido pelas forças de mercado em torno das quais o mundo gira como se fosse uma das Leis da Física.

O Estado tornou-se, assim, apenas mais uma empresa capitalista que não compete apenas com suas concorrentes mundiais, mas, e também sob a pena da Lei, com seus cidadãos, drenando seus recursos na forma de impostos. Pior ainda, uma empresa que não gera renda nem bem estar, apenas consome como uma praga, gasta, desvia as riquezas que deveria produzir em benefício comum. O Estado tornou-se uma máquina de engorda para os que o administram e nós os carvoeiros que alimentam as caldeiras.

O Socialismo sucumbiu à corrupção humana, os regimes totalitários sequer merecem alguma consideração, o Capitalismo fincou suas raízes. E este, por sua vez, já traz em sua natureza a necessidade de corromper como ferramenta adicional para a obtenção do lucro. Uma social-democracia de fato, nunca saiu do campo das idéias. O que nos reserva o futuro? Definitivamente, não sei.

Rumorejando (Ciclones, temporais, tempestades, cá na terra brasileira, constatando). por josé zokner (juca)

PEQUENAS CONSTATAÇÕES, NA FALTA DE MAIORES.

Constatação I (De uma quadrinha de dúvida crucial que incomoda os pais).

Começar por onde

Para educar bem os filhos?

Talvez mostrando um bonde

Que nunca sai dos trilhos…

Constatação II

Rico é realista; pobre, ainda acredita em Papai Noel.

Constatação III

Rico faz amor; pobre, malcriadez.

Constatação IV (De uma dúvida crucial via pseudo-haicai) 

O mal de um improviso

É que, quando ele vem,

Ele vem sem prévio aviso?

Constatação V (Democracia não é o Parlamento ter a oportunidade de fazer o que eles estão fazendo).

Estadismo e estadistas este assim chamado escriba, nos seus 71 anos de idade, não conhece ou conheceu em nosso país. Talvez muitos não concordem. Estão no seu direito.

Porém será que governantes são capazes de imaginar o mal que fizeram para pessoas, os dramas familiares, as doenças psicológicas e psicossomáticas e, mesmo, os suicídios, os que apelaram, no desespero, para o alcoolismo, drogas etc. Quantas pessoas o presidente Collor de Melo prejudicou com a surrupiada do dinheiro e que não levou a conter a inflação? Quanto dinheiro foi parar da corrupção com os eternos mensalões da vida que deveriam ir para Educação e Saúde que, ao longo do tempo vem matando gente nas filas do SUS e nos prazos protelatórios de marcar uma consulta, operação, etc.? E os prefeitos que desviam até a merenda escolar. A lista é interminável. No Brasil, a vida das pessoas, da fauna e da flora não é respeitada.

Constatação VI

Rico é impulsivo; pobre, engrossa.

Constatação VII (Exemplos de vantagens e desvantagens de ser septuagenário, ex-sexagenário, ex-qüinquagenário, etc.).

Vantagens: não é mais obrigado a votar; fila no banco junto às gestantes para atendimento prioritário.

Desvantagens: As gatas te chamam de “tio”, definindo bem a tua condição de vetusto; Os joelhos ficam travados por causa da artrite e, onde é necessário, não trava mais.

Vantagem e desvantagem: As jovens te oferecem lugar no ônibus o que te enseja viajar sentado. O fato apresenta desvantagem, pois você é considerado necessitado de atenções especiais e não é bem àquela almejada.

Constatação VIII (Quadrinha para ser recitada em ambiente que comporte uma espécie de patriotada).

Seja na minha cara Balsa Nova

Em Curitiba, ou em Mongaguá

Mesmo que o time leve uma sova

Eu sempre torcerei pelo Paraná.

Constatação IX

Rico renúncia; pobre, é despedido.

Constatação X (Passível de mal-entendido).

O sucesso daquela bailarina dependia do ângulo de abertura de suas pernas.

Constatação XI (Quadrinha assaz laudatória).

Ela pareceu muito sensata

Ao não fazer escândalo

Quando cruzou com uma barata

No seu perfume de sândalo.

Constatação XII

Rico freqüenta a própria piscina ou a do clube; pobre alguma cava alhures.

Constatação XIII

Rico vai pro tudo ou nada, mas não tem nada a perder; pobre vai pro tudo, mas não pega nada.

Constatação XIV (Dúvida crucial via pseudo-haicai).

Ninguém providencia

Que os jovens aprendam

Um pouco + de geografia?

Constatação XV (Outra dúvida).

E ninguém providencia

Que os alunos dominem,

Do plano, a geometria?

Constatação XVI (De uma dúvida ingênua).

E, ainda, ninguém providencia

Que em lugar da violência,

Um pouco mais de cortesia?

Constatação XVII

Não é por nada, não, mas o que é que a bola andou fazendo para os três times, considerados grandes da capital do nosso estado, para ser tratada como vinha sendo? Será que a coitadinha tem culpa? Quem souber a resposta, por favor, cartas ao cuidado do e-mail deste assim chamado escriba josezokner@rimasprimas.com.br

Constatação XVIII (Perdão, antecipadamente, caros leitores).

Quando a gente leva o material, colhido de manhã cedo, para o seu respectivo exame, no laboratório de análises clínicas, será que nele estão também contidos as nossas virtudes?

Constatação XIX

A Alessandra Ambrósio

E a Juliana Paes

Deveriam participar

Do meu simpósio,

De assuntos transcendentais,

Com participação

De representações

Federais,

Estaduais

E municipais

Que acabei de preparar

Para que a chatice

Dessas tais reuniões

Onde se ouve só tolice

Atenuar.

Constatação XX

Rico refreia os maus impulsos; pobre dá plena vazão a eles.

E-mail: josezokner@rimasprimas.com.br

 

OLAVO TENÓRIO está no site

OLAVO TENÓRIO

 

A. H. Fuerstenthal

Consultor em Ciências Comportamentais

 

 

 

Este artista é um mestre de formas. Seja num móbile, num corpo de luz, numa composição de estruturas contrastantes, na simbolização de um animal, num broche, num desenho, numa pintura ou em outra coisa que ainda não fez, mas certamente fará, ele se destaca pela originalidade, pela inspiração, pela simplicidade e pela espontaneidade estética.

 

O que impressiona em Olavo é a ausência de comprometimento. É moderno só no sentido de não seguir nenhum estilo historicamente marcado: não é gótico, nem barroco, nem renascentista e muito menos expressionista ou impressionista. O seu estilo pode ser chamado de “musical”, uma vez que cada uma das suas figurações toca o espectador como se fosse um som, ou, melhor, uma harmonia que agrada os sentidos sem que se saiba exatamente o porquê.

 

Outro traço característico do Olavo é a “unidade”. A obra e a pessoa são uma e a mesma coisa, tendo a mesma elegância genuína, o mesmo alongamento, a mesma sinuosidade e significação.

 

E não é só isso. A unificação estende-se também ao meio em que vive e cria este artista. O Olavo expressa o melhor do Brasil, suas danças, seus cantos, seus sorrisos, seus abraços e sua gentileza que atrai os visitantes, apesar de desavenças sociais, desordem e insegurança.

 

Olavo tem a resposta certa para todos aqueles embaraços do meio tropical: pega a madeira, o metal, o acrílico, o cristal e raios de luz para criar um mundo de pequenos milagres, capazes de dar à pessoa sensível um impacto de beleza em plena existência cotidiana.

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os palavreiros da hora dão as boas vindas para o amigo e brilhante artista visual olavo tenório que com sua página vem oferecer mais opções de lazer e oferta para nossos leitores.

 

 

VIDA: O JOGO poema de jairo pereira

Jogas paciência

no computador

zelas a casa reges o tricô

as agulhas os novelos recém-

abertos

faço poesia tiro signos

inusitados do criatório

faço poesia preciso disso

vivo disso

teus tricôs em mim

sempre inéditos em composição

faço poesia por ofício de quando

nada o que fazer faço poesia

tiras pontos entreteces significas

teus tricôs no espaço contingente

que habitamos

faço poesia só poesia

isolas minhas canções

que não sei tocar violão

faço poesia sempre perdi

a maratona de final de ano

teus tricôs policrômicos

terços rezados pra dentro

fluem belos textos sígnicos

faço poesia não explico

faço poesia leio invento

tiranizo

faço poesia no vento no tempo

tranço cestos de taquaras na fala

meus tricôs invisíveis terços rezados

pra dentro faço poesia

expando (acho!) linguagem

consciência

conheço calo admito

pontos errados meu tricô

desfigurado faço poesia

acredito universos na língua

faço poesia configuro formas

inusitadas faço poesia

protopia poesia entropia

enredo linhas contrárias

faço poesia

tricoto significantes/

significados faço poesia

ardo na fogueira acesa

                                               da fala.

 

SILÊNCIOS poema de julio almada

“Há silêncios bem vindos,

outros indecifráveis,

alguns polidos e esperados,

Há os indesejáveis.

Há silêncios de hora inteira,

outros de uma vida a devorá-la.

Há os de esperar-lhe. Há os de desprezar-lhe.

E se tanto silêncio há…Há o de silenciar-me…

Para escutar o que seu silêncio diz,

além das palavras silenciadas.”

O FOTÓGRAFO NANI GÓIS EXPÕE e convida (hoje 02/05/08 as 19:00hs)

 

O fotógrafo Nani Góis comemora 35 anos de carreira com grande exposição nesta sexta-feira no restaurante O Portuga, que fica no Centro Cívico. As fotos de Nani destacam lugares e pessoas do Paraná e algumas das principais personalidades do Estado, como Paulo Leminski, Roberto Requião, Álvaro Dias, Rafael Greca, Jaime Lerner, José Richa, entre outros.
Não deixe de visitar a mostra!

FECUNDAÇÃO poema de gilka machado

Teus olhos me olham
longamente,
imperiosamente…
de dentro deles teu amor me espia.

 

 

Teus olhos me olham numa tortura
de alma que quer ser corpo,
de criação que anseia ser criatura 

 

Tua mão contém a minha
de momento a momento:
é uma ave aflita
meu pensamento
na tua mão. 

 

Nada me dizes,
porém entra-me a carne a persuasão
de que teus dedos criam raízes
na minha mão. 

 

Teu olhar abre os braços,
de longe,
à forma inquieta de meu ser;
abre os braços e enlaça-me toda a alma. 

 

Tem teu mórbido olhar
penetrações supremas
e sinto, por senti-lo, tal prazer,
há nos meus poros tal palpitação,
que me vem a ilusão
de que se vai abrir
todo meu corpo
em poemas.
 

 

(in Sublimação, 1928)
 

FOI DEUS QUE ASSIM QUIZ conto de lázaro parellada

              

             Foi durante minhas férias de verão, após a conclusão do terceiro ano de engenharia, quando aquele grande empresário, e grande fazendeiro também, apareceu em casa procurando meu pai. Precisava urgentemente retificar a divisa de umas terras, lá na beira do Paranapanema.

 

            Eu já havia cursado a cadeira de topografia, pois era disciplina dada no segundo ano e isto me dava direito, pela legislação em vigor à época, de tirar uma carteira provisória de topógrafo. Com tal documento poderia assinar os trabalhos realizados pelo meu pai, o que nos economizaria os pagamentos que tínhamos de fazer aos profissionais que os assinavam – os tais “calígrafos” como depreciativamente eram apelidados. Para melhor esclarecer cabe colocar que nos serviços de agrimensura haviam os “diplomados”, categoria que em geral não trabalhava no campo, pois isto era muito pesado, mas que por possuírem habilitação a lei lhes facultava fazer tais trabalhos, e os “práticos” que a baixo preço faziam os levantamentos que esses primeiros lhes assinavam. Nesta última classificação a competência era extremamente variável, desde aqueles “cursados” que como meu pai tinham um diploma estrangeiro, mas que a burocracia não lhes permitia reconhecer, até os “curiosos” que muitas vezes não entendiam direito o porquê técnico do que estavam fazendo…

 

Pois bem, anteriormente meu pai havia feito os trabalhos de levantamento e demarcação de tal propriedade. E, ele até o comentara comigo. Mais, as plantas correspondentes fora eu quem as desenhara. Agora surgira um acerto de limites com o vizinho, e ele tinha ‘precisão’ de apartar em certa baixada úmida, uma determinada área para permuta. Assim trazia num papel as referências dos marcos próximos, aqueles deixados lá por meu pai, e um par de ripas pregadas conforme os rumos combinados com o vizinho, e de acordo à nova cerca erguida separando esse local. Queria deixar o assunto resolvido rapidamente, e ao saber que meu pai estava viajando apelou para mim:

 

– “Você não poderia fazer esse serviço para mim?

 

Mais do que perguntar, ordenava… Eu até podia, mas não tinha equipamento. Todavia pois ele insistia, e era um bom, ótimo, cliente, acabei concordando.

 

            Casualmente pouco depois um “prático”, conhecido por sua esperteza, apareceu lá em casa pedindo-me serviço. Comentei o caso com ele. Ele me informou de um engenheiro que tinha um aparelho disponível. Trabalhava na Prefeitura de Ibiporã. Peguei um ônibus e me dirigi para lá. Apresentei-me a ele. Pessoa acessível e simpática não criou obstáculos e o emprestou em confiança: “que eu o devolvesse quando pudesse, de momento não o estava utilizando”. Todavia impunha: “que eu mesmo o usasse, pois ele não aceitaria que o repassasse para um prático”. O que fazer? Assumi o compromisso. Me passou o instrumento, era um Vasconcellos, nacional. 

 

            O serviço duraria um dia, afora a viagem. Exigia um certo tempo, não apenas lançar o rumo, mas acompanhar a ‘picada’ até o ponto atingido na divisa e confirmar o lugar alcançado.  Puseram à minha disposição um jipe com motorista, aproveitando para lotá-lo, e bem, de mantimentos. Levei o “prático” como ‘baliza’, pois ele o pedira. Queria ganhar uns trocados. Quando chegamos na fazenda já pelo fim da tarde, encontramos nos esperando o tal empresário.  Ao nos sentir surpresos, nos explicou que decidira vir também e chegara de avião algumas horas atrás. E lá estava o bichão, quase novo, brilhando à luz do poente. E um cidadão de botas pretas, que nos apresentou como piloto e que sem ter o que fazer, ficava aguardando, à sua disposição.

 

 

            Enquanto conversávamos chegou-se até nós um senhor forte, de faces curtidas. Usava bigode, aparentava uns quarenta e poucos anos, e tinha o jeito de falar característico das boas gentes do interior paulista. Notei que parecia pesaroso, quase que a ponto de chorar. Ele nos foi apresentado como sendo o responsável pela fazenda:

 

            – “É o Fulano (esqueci-lhe o nome). É o nosso capataz. Muito competente. Ele cuida da fazenda e a mulher dele, a Sicrana, da sede, da casa. Minha mulher gosta muito da Sicrana. Estamos muito satisfeitos com eles. Vocês vão ver no jantar como ela cozinha bem!”.

 

            Mais tarde dirigindo-se a ele, perguntou:

 

            – “E a criança, como está?”

 

– “Está piorando, doutor!…  Está piorando!”, foi a condensada resposta.

 

            Quando nos separamos soube através dos rapazes que descarregavam o veículo que a criança estava doente havia alguns dias. Começara com vômitos, hoje amanhecera com febre… E a explicação caipira: “não se acostumara com o leite de vaca”. É que como secara o leite da mãe, davam-lhe deste. Um par de horas atrás havia piorado. Justo quando o proprietário aterrissara. O sangue me subiu à cabeça: “E o que esse avião está fazendo parado aqui? Por que não levaram essa criança para Londrina?”

 

O ‘prático’ e eu fomos ver a criança. Era uma menina pequenina, magrinha. Estava num bercinho rústico, num quartinho escuro de uma casa de colônia, ambiente quente que mais se assemelhava a um forno… O choro nem se ouvia, ficara quase que um suspirar… Pensei que aquela criatura nem mais forças tinha para chorar… Para mim estava claro que a criança ficara subnutrida, e provavelmente acabara desidratada com aquele calorão. Coloquei minha mão, ou o que dela cabia sobre a testa daquele ser tão miúdo. Ardia em febre, devia estar acima de 40o C! E minha revolta não só continuava, como que aumentava. A avó, que cuidava dela enquanto a mãe preparava nossa janta, me olhava desconcertada. O bom ‘prático’ me segurava:

 

– “Fica quieto, você não tem nada com isso!”

 

E eu jovem, universitário, vocação de salvador, mas inexperiente do mundo:

 

“Mas nós todos temos! É cedo! Ainda está claro! Se colocar no avião dá tempo de chegar em Londrina! Essa criança pode ser salva, sim!”

 

            À noite enquanto jantávamos sob uma fraca luz, via através da pequena passagem que na parede permitia passar os pratos, aquela senhora silenciosa, que com uma criança gravemente doente tão boa e farta comida nos preparara. Observava de relance sua filha mais velha nos servindo, uma criança ainda… E o pai, o capataz, tudo fazendo para nos agradar. Ele nem à mesa sentou, ficou distante, embalando a filhinha, apreciando-nos comer gulosamente.

 

            Levantamos com o raiar do sol, tomamos como é costume entre os trabalhadores que no interior se distanciam muito das cozinhas durante os serviços, mais do que um café com pão, uma primeira refeição completa: arroz, feijão, frango, ovos fritos, mandioquinha cozida…

 

Saímos ainda cedo para o local de trabalho, levados pelo jipe. Lá, dispomos o aparelho, lançamos os rumos, acompanhamos o ‘picadeiro’ abrir as trilhas, verificamos que alcançáramos os pontos desejados e retornamos. A claridade declinava. Seriam umas cinco e meia da tarde.

 

                   Quando chegamos à sede percebemos a tristeza. Na sala se acendiam velas, a criança recém havia falecido. Pensei: “quase dezoito horas, está no horário do Angelus…”

 

O avião e o seu piloto continuavam à espera da decisão do fazendeiro-proprietário para voltar a Londrina.

 

– “Foi Deus que assim quis!” comentou o pai desolado…

 

– “Paciência, Fulano. Foi Deus que assim quis.” confirmou o fazendeiro.

 

Indignado, quase estourando, virei-me para meu companheiro, o ‘prático’, e lhe disse:

 

– “Vamos embora!”

 

E, despedindo-me rapidamente, subi de novo no jipe.

 

 

 

NÓS e as FARC – por maria lucia victor barbosa

A patética foto de Ingrid Betancourt, prisioneira das Farc, possivelmente correu o mundo. É o retrato da dor, da profunda solidão, do sofrimento infindo que essa mulher padece há seis anos nas mãos dos impiedosos e sanguinários terroristas e narcotraficantes das Forças Revolucionárias da Colômbia – Farc. E aquela face transfigurada pelo padecimento tornou-se emblemática de tantos que, como ela, foram arrancados do convívio familiar e amargam no cárcere asfixiante e insalubre da selva a desumanidade dos que, a principio se investindo de guardiões do paraíso na terra se tornaram os carrascos do inferno.

Betancourt não sofre sozinha as inenarráveis humilhações que um ser humano é capaz de suportar antes de enlouquecer.  Aproximadamente 700 pessoas dormem acorrentadas em árvores, não recebem tratamento médico necessário, são obrigadas a caminhar pela selva mesmo sem condições físicas. No cativeiro das Farc onde a misericórdia não existe prolifera a mesma essência maléfica dos campos de concentração, pois em tal miserável sobrevivência homens e mulheres, além dos agravos físicos, são despidos de sua dignidade.

As Farc seqüestram, torturam, matam os pobres que não têm dinheiro para pagar resgate, mantêm entre centenas de prisioneiros alguns que, tendo relevância política podem funcionar como moeda de barganha para libertar os companheiros capturados pelo Estado Colombiano que tem à frente o presidente Álvaro Uribe, um estadista, algo raro na América Latina.

Há pouco tempo uma missão médica francesa, apoiada pela Espanha é pela Suíça esteve na Colômbia na tentativa de socorrer e resgatar Ingrid Betancourt e outros três reféns cuja saúde precária inspira cuidados. Em vão o presidente Álvaro Uribe anunciou a suspensão das atividades militares no sudeste do país para possibilitar a ação da missão médica. Em vão o presidente francês, Nicolas Sarkozy dirigiu apelo ao chefe das Farc, Manoel Marulanda, para que libertasse a senadora Ingrid Betancourt, seqüestrada em 23 de fevereiro de 2002, em plena campanha para a presidência de República.

Todavia é necessário, é urgente, é imprescindível que a França retome seu objetivo, insista nele, persista no afã de salvar Ingrid e quantas vítimas puder das garras de seus algozes.

Aliás, não só a França, a Espanha e a Suíça devem se empenhar nessa meta. A questão é humanitária e não pertence a esse ou aquele país. Estranhamente os países sul-americanos permanecem indiferentes diante do horror perpetrado em sua vizinhança. Parece que o entendimento das Farc como sendo de esquerda dá glamour ao terrorismo. Exemplo disso é o presidente Lula da Silva, companheiro das Farc no Foro de São Paulo, que se negou a classificar os bestiais guerrilheiros e narcotraficantes como terroristas, conforme apelo feito pelo presidente Uribe. Talvez Lula prefira para as Farc o falso rótulo de “forças insurgentes”. Assim estaria mais uma vez de acordo com a vontade de outro de seus maiores companheiros, Hugo Chávez.

Silenciaram os “bons revolucionários” latino-americanos enquanto Chávez, o ditador de fato da Venezuela, simulou gestos humanitários ao negociar a soltura de algumas vítimas das Farc, enquanto as financia e lhes dá respaldo político. Aos demais governantes da América Latina, incluindo o brasileiro, é mais cômodo culpar o presidente Uribe pela situação, em que pese ele estar fazendo há tempos todos os esforços para combater aqueles celerados. Condenar Uribe, tática comum dos esquerdistas que são exímios em alterar, distorcer, manipular fatos, na verdade equivale a condenar a vítima e absolver os criminosos. Tudo indica que a esquerda latino-americana aprendeu direitinho a lição com o mestre Stalin.

Em trecho da carta, exigida pelos facínoras para provar que estava viva Ingrid escreveu:

“A vida aqui não é vida, é um desperdício lúgubre de tempo. Tudo está sempre pronto para partirmos às pressas. Aqui nada é seu, nada dura, a incerteza e a precariedade são a única constante. A cada dia resta menos um pouco de mim mesma”.

No Brasil, o embrião das Farc, o MST, está exacerbando sua violência. O chamado movimento social agora invade não só terras produtivas, mas propriedades da Vale do Rio Doce (maior mineradora do mundo), hidroelétricas, Assembléias Legislativas, agências de Banco, praças de pedágio, além de bloquear estradas. O flagrante desrespeito ao Estado de Direito, o esbulho da propriedade particular, o prejuízo causado ao País avançam impunemente sob o olhar complacente das autoridades constituídas, que até financiam as ricas e vistosas manifestações do MST.

Como afirmou Edmund Burke: “Tudo que é necessário para que o mal triunfe, é que os homens de bem nada façam”

Maria Lucia Victor Barbosa é socióloga, escritora e professora universitária.

 

CONTRA O BRASIL, duas vezes – por walmor marcellino

Porta-vozes do imperialismo se vêm mostrando humilhados e ofendidos com o governo brasileiro porque este país se vai desenvolvendo na busca do equilíbrio entre o Estado de Direito e o Estado Social, ainda que permaneça nas águas do neoliberalismo depenado desde 1964. A descoberta de reservas petrolíferas nas águas brasileiras, no aceso da crise internacional de abastecimento dos combustíveis fósseis, prenuncia possível auto-suficiência do produto, podendo o Brasil passar à condição de exportador de óleo mineral combustível.

No mesmo tempo em que o Brasil vem reorganizando seu sistema produtivo, modo a aumentar a produção de óleos vegetais, com variedade de plantas oleaginosas em extensas terras agricultáveis. Entrementes, a compatibilidade da produção para consumo humano e a produção de insumo energético tem sido causa interna de constantes atritos sociais, em que terras em desuso, terras pouco aproveitadas e terras disponíveis para a reforma agrária se contestam através dos líderes conservadores (à procura da ampliação descontrolada das frentes agrícolas, empenhados no desmatamento de áreas protegidas de lei mais do que na produtividade das áreas já em desgaste) e líderes trabalhistas, que, afinal, vêm perdendo a batalha política porque o governo se tornou refém das forças rapinantes conservadoras.

Os agentes do imperialismo se têm mostrado “preocupados” com a racionalidade sócio-ambiental em nossas terras agricultáveis, denunciando mau uso das terras e más políticas de produção. Com que farisaísmo e hipocrisia esses subsidiadores de agriculturas em terras já sem viço, sitiadas pelos preços da industrialização e da urbanização rural, nos atacam como seu competidor mais forte, enquanto também demonstram enorme ressentimento por sua absoluta falta de alternativas na produção rural.

   Sabemos que os países de tradição ruralista, com terras qualificadas e com mão-de-obra barata podem e necessitam produzir para exportar commodities (e não foram a isso levados?). Então mesmo que não subsidiem (mas assegurem condições e garantam os riscos agrícolas) podem competir, desde que com preços promissores (como hoje).

Enquanto isso, um general Augusto Heleno decide contestar a legitimidade do governo Luiz Inácio Lula da Silva. Estupefato, ouvi o caudilhete discursar sociologia de caserna, na distinção entre o Estado de Direito (pra preservar as liberdades individuais porém principalmente garantir o status quo) e Estado Social de Direito (que é a expressão da sociedade em desenvolvimento, nas relações econômicas, sociais e políticas, continuamente reguladas). Disse o provocador imbecil que obedece ao Estado (leia-se o status quo ante, ou ditadura da canalha militar) e não ao governo (atual). Tanto bastou para que a escória dos capitães-de-mato em pijama saísse de matracas à mão exigindo a privatização da Raposa do Sol. A democracia brasileira continua ameaçada pela Cia.

Não foi por falta de aviso, o pessoal da CIA faz a cabeça de muita gente, com pagamento em espécie ou com promoção na imprensa.

 

BOM de BICO e A PRÓXIMA ATRAÇÃO dois mini contos de raymundo rolim

Bom de bico

 

Depois daquela, da penúltima rodada, jurara ir direitinho para casa. O carteado seguia animado e contribuía fortemente com a falta de fidelidade às promessas (antigas) de que jogaria só mais alguns trocados. Quem sabe a sorte estava depositada justamente naqueles níqueis que até então, teimosamente, insistiam em ficar enfiados numa dobra qualquer do bolso extra lateral da calça que mais cobria do que aquecia, mais identificava que vestia. Sim, seria a penúltima rodada, disso não se descuidaria para que não passasse um anjo e dissesse amém e o pegasse com a boca na botija, descumprindo promessas. Não, isso não iria acontecer de novo. Da última vez que assim procedera e passara um anjo, manquejara por mais de mês depois de ter tropeçado na calçada, logo à saída daquele cassino que funcionava semiclandestino. Mas dessa vez não! Seria diferente. Sairia direto para casa, de mãos dadas com o anjo que já o estaria esperando lá fora, e velaria para que não acontecesse novamente de ele voltar a se enterrar em dívidas! A última carta, de virada, mostrou-lhe que, além da sorte estar ao seu lado, o seu anjo ria-se satisfeito e semi-oculto num canto, acima da mesa de pôquer e já o esperava com a mão estendida para acompanhá-lo pelas águas mansas e tranqüilas do caminho que o levaria direto para casa. Desta vez, para a casa do anjo! Para sempre. Amém.

 

 

 

 

A próxima atração

 

O anúncio em letras enormes e garrafais convidava a todos que se inscrevessem para um final de semana à beira mar, do outro lado, no oriente próximo e distante. Tudo pago pela nova rede de hotéis que prometia ser a mais nova sensação em resorts. Casais e outras parelhas (muitos dos quais em gozo de lua de mel) se apresentaram munidos de documentos e esperanças. O atendimento era de primeira. Moças bonitas, risonhas, bronzeadas, com saias curtas sobre pernas esbeltas, desfilavam dentes e aparência em apurado esmero, açulavam os interessados para que não deixassem nenhum campo do formulário em branco. Preencham, preencham tudo, repetiam com voz pausada, não deixem de responder a nenhuma das questões, não deixem espaços vazios, por favor! O documento solicitava desde renda familiar a preferências sexuais e outros mimos tais que: esporte preferido, livros lidos nos últimos seis meses, diretores de filmes clássicos, tipo de academia de ginástica que freqüentavam, nomes de restaurantes e os respectivos menus preferenciais, boates e shopping, além de uma infinidade de enunciados que insistia em descobrir os meandros da vida dos interessados. Tinha de preencher! Data e local de nascimento, doenças contraídas ou não, vacinas, saúde bucal. Tudo estava lá! Como é que não se esqueciam de nada? Quem aporia tantos e minuciosos itens com tais e específicos detalhes? Eram homens ou máquinas pensantes? Bem, fosse lá quem ou o quê fosse, sabia-o e muito bem o que queria; conhecia o que procurava. O tipo de pessoa que desejava selecionar. O resultado seria divulgado no outro fim de semana e os escolhidos receberiam, em casa, o restante das instruções necessárias para a então fabulosa viagem. Estava claríssimo que tudo se daria no mais completo e absoluto sigilo e quaisquer dúvidas, seriam dirimidas pelos telefones de número e senha secretos que receberiam junto com as novas ordens para que pudessem acessá-los. Deveriam guardar tudo de memória, (e “memória”, neste caso, concernia estritamente a um dos itens da seleção). Chegou o grande dia! O avião belíssimo e cheio de turbinas (que fora fretado a uma empresa cujo nome era mantido em absoluto e poderoso círculo confidencial) aguardava. Taxiara sem alardes ou ruídos pela pista. Pessoal de bordo habilmente treinado para a ocasião com todos os vínculos e gentilezas próximas e prontas. Impressionavam os requintes e iguarias da cozinha: molhos, bebidas, gratinados e flambados entre outras trutas e frutas. E lá estavam eles, os venturosos e escolhidos em fila indiana. Roupas e chapéus, falatório geral, alegria e perfume no ar. O mundo daquele aeroporto era algo recomposto, asséptico e perfeito. O comandante do vôo, mais a tripulação, os aguardavam com olhos, bocas, caras e gestos profissionais ao desejarem os bons dias e boas viagens, além das flores que a todos eram ofertadas. Um botom-ship era-lhes afixado na pele e desaparecia em fração de segundos, deixando no local uma sensação de frescor. Tudo lindo, extraordinário, magnífico, demais! Finalmente, quando já se encontravam nos devidos lugares, acomodados, os motores foram acionados, (isto é, na verdade, nem tinham sido desligados – isentos de ruídos que eram ). Cintos apertados, as mímicas de praxe das comissárias e o avião rolou suave pela pista macia, para em seguida ganhar um céu de brigadeiro. Não houve um solavanco, nuvem alguma apareceu! Um zumbido desconhecido e agudo quase feriu os ouvidos dos incrédulos passageiros. A aeronave principiou por alargar-se na base e ganhar formas de losango-trapézio no seu interior. As poltronas se afastaram umas das outras e o espaço entre as mesmas foi preenchido por matéria e cores desconcertantes. A próxima atração aconteceu imediatamente, quando a um gesto do comandante, toda a tripulação deixou cair as vestes, permitindo-se que pequenas antenas (que lhes saía do alto da cabeça) e a cor acinzentadas de suas peles, contrastassem com imensos olhos negros e oblíquos acima do quase ausente nariz. Muitas bocas se abriam ao mesmo tempo em que a nave, numa velocidade inconciliável com a experiência terrestre, desaparecia das esferas da região solar para aterrissar tranqüila no interior de uma plataforma anos-luz distante, que ostentava siderais ensejos de boas vindas.

EMILIANO PERNETA o poeta – pela editoria

Poeta brasileiro, Emiliano Perneta, nascido a 3 de Janeiro de 1866, em Curitiba, no Paraná, e falecido no mesmo local, a 19 de Janeiro de 1921, é considerado um dos grandes nomes do simbolismo do Brasil.
Com 17 anos, publicou os seus primeiros poemas em O Díluculo, de Curitiba. Dois anos mais tarde Emiliano Perneta mudou-se para São Paulo, onde, em 1988, foi um dos fundadores da Folha Literária. Ainda nesse ano, publicou as obras poéticas parnasianas Músicas, assim como Carta à Condessa d’Eu. Paralelamente, dirigiu a Vida Semanária e colaborou no Diário Popular e na Gazeta de São Paulo.
Em 1889, fez o bacharelato em Direito e foi viver para o Rio de Janeiro no ano seguinte. Aí continuou a colaborar na imprensa, nomeadamente em a Folha Popular, onde surgiram as primeiras manifestações do simbolismo, movimento literário ao qual viria a ficar ligado.
Emiliano Perneta regressou ao Paraná, onde fundou a revista Victrix, em 1902. Foi o primeiro a divulgar,no Paraná, os poemas de Charles Beaudelaire AS FLORES DO MAL.
Lançou as obras poéticas Ilusão, em 1911, Papilio Innocentia (destinada a uma ópera), em 1913, e Pena de Tailão, em 1914).
Após a sua morte, em 1921, foram ainda lançados os inéditos Setembro e Poesias Completas.

 

 

 

PRINCIPAIS OBRAS:

 

·                       Ilusão (poemas – 1911)

·                       Setembro (poemas – 1934)

·                       Pena de Talião (teatro – 1914)

No soneto seguinte, um outro tema bastante recorrente na obra de Emiliano Perneta: a idéia de partir

O BRIGUE

Num porto quase estranho, o mar de um morto aspecto,

Esse brigue veleiro, e de formas bizarras,

Flutua há muito sobre as ondas, inquieto,

À espera, apenas, que lhe afrouxem as amarras …


Na aparência, a apatia amortece-lhe o esforço;

Se uma brisa, porém, ao passar, o embalsama,

Ei-lo em sonho, a partir e, então, empina o dorso,

Bamboleia-se mais gentil do que uma dama …


Dentro a maruja acorda ao mínimo ruído,

Deita velas ao mar, à gávea sonda, o ouvido

Alerta, o coração batendo, o olhar aceso …

 

Mas a nau continua oscilando, oscilando …

Ó quando eu poderei, também, partir, ó, quando?

Eu que não sou da Terra e que à Terra estou preso?

 

DARCY RIBEIRO sobre seu “CONFISSÕES” pela editoria

o prólogo das Confissões (1996):

“Escrevi estas Confissões urgido por duas lanças. Meu medo-pânico de morrer antes de dizer a que vim. Meu medo ainda maior de que sobreviessem as dores terminais e as drogas heróicas trazendo com elas as bobeiras do barato. Bobo não sabe de nada. Não se lembra de nada.Tinha que escrever ligeiro, ao correr da pena. Hoje, o medo é menor, e a aflição também. Melhorei. Vou durar mais do que pensava.

Se nada de irremediável suceder, terei tempo para revisões. Não ouso pensar que me reste vida para escrever mais um livro. Nem preciso, já escrevi livros demais. Mas admito que tirar mais suco de mim nesta porta terminal é o que quisera. Impossível?

Este livro meu, ao contrário dos outros todos, cheios de datas e precisões, é um mero reconto espontâneo. Recapitulo aqui, como me vem à cabeça, o que me sucedeu pela vida afora, desde o começo, sob o olhar de Fininha, até agora, sozinho neste mundo.

Muito relato será, talvez, equivocado em alguma coisa. Acho melhor que seja assim, para que meu retrato do que fui e sou me saia tal como me lembro. Neguei-me, por isso, a castigar o texto com revisões críticas e pesquisas. Isso é tarefa de biógrafo. Se eu tiver algum, ele que se vire, sem me querer mal por isso.

Quero muito que estas minhas Confissões comovam. Para isso as escrevi, dia a dia, recordando meus dias. Sem nada tirar por vexame ou mesquinhez nem nada acrescentar por tolo orgulho. Meu propósito, nesta recapitulação, era saber e sentir como é que cheguei a ser o que sou.

Quero também que sejam compreendidas. Não por todos, seria demasia. mas por aqueles poucos que viveram vidas paralelas e delas deram ou querem dar notícia. Nos confessamos é uns aos outros, os de nossa iguala, não aos que não tiveram nem terão vidas de viver, nem de confessar. Menos ainda aos pródigos de palavras de fineza, cortesãos.

Quero inclusive o leitor anônimo, que ainda não viveu nem deu fala. Mas tem coração que pulsa, compassado com o meu. Talvez até me ache engraçado, se alegre e ria de mim, se tiver peito. Não me quer julgar, mas entender, conviver.

Não quero mesmo é o leitor adverso, que confunde sua vida com a minha, exigindo de mim recordos amorosos e gentis, apagando os dolorosos, conforme sua pobre noção do bem e da dignidade. O preço da vida se paga é vivendo, impávido, e recordando fiel o que dela foi dor ou contentamento.

Termino esta minha vida exausto de viver, mas querendo mais vida, mais amor, mais saber, mais travessuras. A você que fica aí, inútil, vivendo vida insossa, só digo: ‘Coragem! Mais vale errar, se arrebentando, do que poupar-se para nada. O único clamor da vida é por mais vida bem vivida. Essa é, aqui e agora, a nossa parte. Depois, seremos matéria cósmica, sem memórias de virtudes ou de gozos. Apagados, minerais. Para sempre mortos’.”

 

CARNIFICENTE poema de joão batista do lago

Vem!

Rasga meu peito sem medo

Toma em tuas mãos meu coração (e)

Bebe todo o sangue…

Sangue que sangra como rio

Sangue que dá vida ao corpo frio (e)

Que se faz larva do fogo da paixão

Deixa-o correr por entre veias

Vazias.

Deixa-o lavar o esgoto

Deixa-o penetrar as profundezas

Do teu corpo-mar

Deixa-o, enfim, embriagar…

Até – (quem sabe!?) – que o doce tédio dos teus lábios

Alcance a sarjeta do verdugo (e)

Beije silenciosamente a terra que te é pó (mas)

Que nunca se dera como palavra – nem verbo!

E quando sóbrio te encontrares

Com o gosto do sangue à boca

Verás que tens por alimento

A desdita de ser o que nunca fostes

Sendo o que jamais serás

Na eternidade dos tempos – e das almas sem espírito:

Deus maldito que professo fogo

Planta fome (e)

Mergulha no mar de lama

Onde almas sem ser dançam a valsa apocalíptica num

Balé de águas que se vão e que se vêem

Sem jamais serem passageiras da mesma viagem

 

BRASILIA 48 ANOS poema de josias de souza

JK

Céu

Ermo

Sonho

Cerrado

Alvoroço

Niemeyer

Dá, não dá

Lúcio Costa

Modernidade

Mexe, remexe

Risca e rabisca

Ah! Plano Piloto

Ou vai ou racha!

Lobbies, trejeitos

Jeitinhos, arranjos

‘Quanto levo nisso?’

Início do novo Brasil

O público privatizado

Desbravamento moral

Canteiro de obras: lama

Máquinas e tratores: lama

Movimentos pesados: lama

Uma cleptocracia emergente

País de inocentes e cúmplices

De repente, o cerrado vira mar

Mar de gente; humilde e ingente

Gente punjente; daqui, dali, d’acolá

Cimento, tijolo, ferro, aço e vidro

Suor, lágrima, ‘concreto amado’

Grita, sussurra, bate e levanta

Horizonte largo, tempo curto

Correria, pressão, algaravia

Avenidas, prédios, euforia

Munumentos curvilíneos

Teatro, eixos, Catedral

Supremo e Congresso

O Palácio do Planalto

Praça dos ‘poderes’

Lá se vão 48 anos

A cidade é duas

A modernidade

A Idade Média

Absenteísmo

Clientelismo

Espertezas

Culpados?

Ora, nós!

O voto

Vesgo

Torto

Cego

Oco

CLIMA poema de jorge barbosa filho

nu vejo

 

nu vais

 

nu vem

 

nu vemos

 

nu vinde

 

nu vão

 

NADA SERÁ COMO HOJE, AMANHÃ por maria lucia victor barbosa

 

Nada dura para sempre, tudo está em constante mudança, mesmo assim, nossa sede de infinito dá aquela falsa sensação de que viveremos indefinidamente. Os moços não cogitam da velhice que lhes parece remota. Os velhos não pensam na morte que se aproxima. Os que estão no poder não imaginam que mais dia menos dia perderão seu domínio e seus privilégios.

Se não há mal que dure para sempre o bem também não dura. Aliás, o bem traduzido em termos de felicidade dura menos que o mal que é o locatário do mundo. Basta observar que a história mundial registra mais déspotas do que governantes benfazejos, mais tiranias do que democracias.

Ao mesmo tempo, isso parece demonstrar que, apesar da instabilidade das formas ilusórias da existência há uma essência que traduz a única coisa imutável da natureza humana: a ignorância com seu séqüito de desgraças tais como o desamor, a inveja, a ganância, o culto da mentira, o egoísmo, o hedonismo, a ambição desmedida, enfim, essas características do animal mais evoluído e mais cruel do planeta: o homem.

Em determinadas épocas os traços negativos da humanidade se acentuam em determinadas sociedades e, em alguns casos, contaminam o mundo. Esse tipo de pestilência tem como núcleo certas formas de poder. No século passado, por exemplo, o mal esteve por excelência não tanto nas duas guerras mundiais, mas nos totalitarismos representados pelo nazismo e pelo comunismo.

Terminada, porém, a Guerra fria, derrubado o Muro de Berlim, o mal continuou a despontar aqui e ali com outras formas. Na América Latina, que parecia expurgada de seu histórico autoritarismo, emergiram populistas sedentos de poder que pensam durar para sempre no comando arbitrário de seus povos.

Em Cuba, pequenas mudanças já são perceptíveis na medida em que Fidel Castro se encontra praticamente mumificado. Se isso é bom para os cubanos, não se pense que o sucessor de Fidel no cenário latino-americano é seu irmão Raúl Castro. O herdeiro do tirano da Ilha atende pelo nome de Hugo Chávez e este tem seguidores na Bolívia, no Equador, na Nicarágua, agora no Paraguai e, porque não, na Argentina e no Brasil. E quanto mais sobe o petróleo, mais Chávez, o bem armado, amplia sua influência sobre seus comandados e sobre os muy amigos.

Gira o mundo e sinais de mau agouro se desenham no horizonte das transformações. Em termos políticos, nos Estados Unidos a vitória de Barack Obama, tido por muitos como anti-semita, mulçumano e de esquerda traria conseqüências imprevisíveis para o planeta globalizado.

Na economia fala-se em fome mundial, especialmente para os mais pobres, ressuscitando-se, em pleno século 21, a tese de Malthus segundo a qual o crescimento populacional seria maior do que a produção de alimentos. Sobe absurdamente o barril de petróleo. A crise da economia americana turva o céu de brigadeiro que possibilitou a calmaria, inclusive, dos países subdesenvolvidos.

No Brasil algo começa a mudar na economia, como não poderia deixar de ser. Um velho filme de terror está sendo reprisado e tem como título a volta da inflação, que o Plano Real havia eliminado. Inútil se torna a costumeira manipulação de dados pelo governo, pois o povo já percebe a subida do preço dos alimentos, sendo que já há previsão de alta da gasolina. Reivindicações do Paraguai relativas à Itaipu, que possivelmente serão atendidas pelo governo brasileiro, elevarão ainda mais o preço da energia. E torçamos para que Evo Morales não resolva fechar de vez a torneira do gás, pois as conseqüências para nós seriam as piores possíveis.

Para além da economia, outras coisas vão mudando no Brasil, e para melhor. Significativa e importante foi a opinião do Comandante da Amazônia, general-de-exército Augusto Heleno Pereira, que durante palestra no Clube Militar do Rio de Janeiro se declarou contra a demarcação de imensas terras indígenas na fronteira, portanto, contra a reserva Raposa Serra do Sol, “uma ameaça a soberania nacional”. O general criticou também a política indigenista que considera lamentável e caótica, e ainda ousou afirmar, muito apropriadamente, que o “Exército serve ao Estado e não a governos”. Sua voz ecoou na mídia e se destacou do coro dos medíocres, dos estultos e dos acovardados que pululam nas diversas instituições do País.

Também a posse do ministro Gilmar Ferreira Mendes na presidência do STF ressuscitou a esperança de se encontrar na Justiça a verdadeira e legitima autoridade, aquela que se faz respeitar ao respeitar as leis. O ministro criticou o “modelo de edições de medidas provisórias” que paralisa o Congresso, a ação de movimentos sociais, a idéia do terceiro mandato e ainda defendeu o papel do Judiciário na consolidação da democracia.

Alguma coisa está, portanto, mudando. Afinal, “nada será como hoje amanhã”.

 

 

Maria Lucia Victor Barbosa é socióloga

1968, A SEXTA-FEIRA SANGRENTA – por manoel de andrade

esta é a 1ª das 4 partes da matéria onde o poeta manoel de andrade relata, 40 anos depois, os fatos mais relevantes de 1968, no Brasil e no mundo. na época, estudante de história, e com sua poesia sendo reconhecida nacionalmente, ele foi um observador atento dos graves acontecimentos que marcaram todo aquele ano, e que terminou, em 13 de dezembro, com a edição do sinistro AI-5, oficializando o pânico e a brutal repressão política, lotando as prisões do regime  e obrigando milhares de brasileiros a entrar na clandestinidade ou a fugir do país, como ele mesmo teve que fazer, em conseqüência da panfletagem dos seus poemas contra a ditadura.

 

o editor.

 

1968- Uma revisão

 

1ª/4ª parte: A sexta-feira sangrenta

 

          O ano chegava ao seu último quartel respirando o pressentimento de uma surda e sinistra ameaça por trás dos biombos do poder. O País, desde o golpe militar de 64, seguia sua trajetória nebulosa e imprevisível. Sentiam-se os  agudos sintomas sociais de uma crise potencial que, dia a dia, ia cavando suas imperceptíveis  trincheiras e radicalizando suas posições para o enfrentamento. As palavras, no plano político, haviam perdido a sua opção pelo diálogo e os atos e os fatos iam desfigurando sempre mais a face institucional da Nação. Sob o pano de fundo deste cenário inquietante, um fenômeno social surge desafiante na ribalta nacional. O movimento estudantil que a partir de 1964 fora sistematicamente reprimido, com a própria sede da União Nacional dos Estudantes saqueada e incendiada no mesmo dia do golpe, retoma gradativamente o seu espaço político.

          A UNE, a partir de 1966, desafiando proibições e ameaças, passa a realizar clandestinamente seus congressos e, a partir de 1968,  integrando-se a uma onda mundial de protestos estudantis, ocupa no Brasil o principal papel no palco das grandes manifestações populares contra a Ditadura Militar.

     O ano de 1968 foi um marco indelével em minha vida e creio que na vida de qualquer cidadão consciente, no Brasil e no Mundo. Eu terminara o curso de Direito em 66 e cursava o segundo ano de História na Universidade Federal do Paraná. Nosso calendário estudantil iniciara o ano letivo marcado pelo luto nacional. Ele tinha apenas 17 anos e seu sangue de infante tingiu, indelevelmente, nossas vidas. Edson Luis de Lima Souto foi morto em março, no Rio de Janeiro, marcando o início de uma movimentação estudantil que envolveria, ao longo do ano, toda a vida nacional e que culminaria com a invasão e ocupação militar da Universidade de Brasília, em setembro e, em outubro, com a prisão de 920 estudantes no Congresso da UNE, em Ibiúna.

          Na sexta-feira, 29 de março a cerimônia do seu sepultamento  partiu da Cinelândia  com um acompanhamento calculado em 50 mil pessoas. A vanguarda do cortejo ostentava uma faixa onde se lia: “Os velhos no poder, os jovens no caixão”.O país estava perplexo. Como que acordava de um longo pesadelo. Parecia que aquela revolta, por tudo o que estava acontecendo no Brasil desde 64, fora preguiçosamente protelada, que cochilara por quatro anos e que agora finalmente despertava.                                                

          No dia 4 de abril, muitos de nós, estudantes e intelectuais, aqui em Curitiba, aguardávamos, apreensivos, o desfecho do que seria a tão anunciada missa de sétimo dia pela alma de Edson Luiz, na Igreja da Candelária.. Às 18 horas, a Praça  Pio X estava totalmente tomada pelos cavalarianos  da P.M. e por fuzileiros navais, somando cerca de 2.000 soldados e mais os agentes do DOPS, todos em volta da Igreja sitiada.

          A celebração começou tranqüila com um estudante lendo o segundo versículo do capítulo 12, da Carta de Paulo de Tarso aos Romanos:

 

E não vos conformeis com este tempo, mas transformai-vos moralmente, renovando     vosso espírito para compreender a vontade de Deus, que é boa, agradável e perfeita.

 

          Se estas recomendações evangélicas  tiveram alguma importância para um ateu como Otto Maria Carpeaux, para um trotskista como  Mário Pedrosa, para um comunista como Oscar Niemeyer ou para os incrédulos, agnósticos, e esquerdistas de tantas dissidências ali presentes, é apenas uma singela ilação e, por isso mesmo, sem nenhuma relevância. Contudo é relevante afirmar que todos estavam ali reunidos num gesto grandioso de solidariedade, acima de qualquer confissão religiosa ou ideologia política. Ali entraram, arriscando a própria pele, para prestar a última homenagem ao primeiro jovem mártir da Ditadura que, uma semana atrás,  lutando contra o fechamento do restaurante Calabouço, tombara com o peito perfurado pela bala de um PM.

          Dentro da igreja se comprimiam 600 pessoas amedrontadas, divididas entre as que confiavam no amparo divino, no bom senso da polícia ou magnetizadas por maus pressentimentos. Quando a missa chegava ao fim, os ruídos dos cascos dos cavalos e o ronco de um avião se ouviam entre as altas naves do templo, como  se ouvia também um surdo murmúrio  prenunciando o angustiante calvário da saída. Na cabeça de muitos ali presentes, pairava a lembrança da missa daquela mesma manhã, encomendada pela Assembléia Legislativa em memória de Edson Luis, e cuja saída, calmamente iniciada, foi subitamente cercada pela Cavalaria, numa sinistra e calculada operação de encurralamento ante as portas já fechadas da Igreja. Foi uma pancadaria ou um massacre, segundo os jornais da época.

          Agora, ao anoitecer, se redesenhava uma nova via crucis. Os portões da igreja são novamente bloqueados pela Cavalaria da Polícia Militar. Na saída o bispo auxiliar da cidade pede calma e os quinze padres  de mãos dadas, formam dois cordões  por onde a multidão começa a sair espremida.  As pessoas deixam a igreja com os olhares fixos nos cavalos e nos cavaleiros. Há em toda praça uma tensão insuportável, alimentada pelo  pânico das “vítimas” e a impaciência dos “algozes”. E eis que surge o impasse, uma fronteira intransponível. Um limite para todos os passos. Ouve-se a ordem:

          Desembainhar! 

          Em seguida os gritos ordenam:

          Recuem, recuem…! Aqui ninguém passa…!

          Diante da massa humana acuada, os padres, num gesto de imensa coragem, levantaram os braços e, em nome de Deus, se dirigem ao major dizendo que aquela manifestação não era uma passeata, que todos queriam apenas voltar para suas casas. Foram minutos intermináveis entre virtuais ofensores e ofendidos. Ninguém mais ousou intermediar o diálogo. Havia ali dezenas de intelectuais ilustres, políticos, líderes estudantis, professores universitários. Todos estavam paralisados. Finalmente, ante a iminência de um massacre, ouviu-se uma frase que soou como uma graça recebida, como uma resposta a tantas preces, explícitas ou inconfessáveis, mas que por certo foram  ali silenciosamente pronunciadas, no imperscrutável sacrário da alma:

          Dispersar, dispersar… A ordem é dispersar.

          Os sacerdotes, como que assistidos por uma força invisível, coordenaram a saída disciplinada e silenciosa pela calçada. Postados num cruzamento da Avenida Rio Branco,  todos paramentados, ali permaneceram até que passassem, sãos e salvos, todos os “sobreviventes” do ato religioso. Por certo, em suas orações, daquela esquina pra frente entregavam a sorte daqueles rapazes e moças, nas próprias mãos de Deus, sem imaginar que mais adiante muitos deles seriam brutalmente espancados e presos.

            

          A classe estudantil em 68, simbolizava o mais belo estandarte de luta que se empunhava contra a Ditadura Militar. No embalo dos acontecimentos de maio, em Paris, que acendeu o pavio da revolta estudantil no mundo inteiro, aqui também tivemos, em junho daquele ano, no Rio de Janeiro, as nossas barricadas de Nanterre, levantadas na  Avenida Rio Branco e nas ruas México e Graça Aranha.

           Os protestos contra a repressão começaram no dia 19, e chegaram ao auge do enfretamento no dia 21, que ficou conhecido como a “sexta-feira sangrenta”.

          Logo depois das 13 horas os fatos se precipitaram num desesperante torvelinho de violência. Os ânimos, sobrecarregados pela repressão oficial de três dias, uniram populares e estudantes que avançaram contra os batalhões da polícia. O centro do Rio se transformou num original cenário de batalha, com gente correndo em todas as direções. Em dado momento surge a Cavalaria e depois os batalhões de choque que, que pari passo, vão ocupando a Avenida Rio Branco até encontrar as barricadas.  A polícia, sob a chuva dos mais variados objetos atirados do alto dos edifícios, avança abrindo fogo e ultrapassa a primeira barricada. Os agentes do DOPS chegam atirando contra os manifestantes, em disparada pela rua, e contra os que se postam nas janelas dos prédios. Zuenir Ventura, numa das mais dramáticas referências que se escreveu sobre aquele ano, ao registrar a memória daquele dia, no seu livro “1968 – O ANO QUE NÃO TERMINOU”, relata que:

 

Ao contrário do movimento francês, não se lutava no Brasil contra abstrações como    a

“sociedade de opulência ou a “unidimensionalidade da sociedade burguesa”, mas contra uma ditadura de carne, osso e muita disposição para reagir. As barricadas de Paris talvez não tenham causado  tantos feridos quanto a “sexta-feira sangrenta” do Rio, para citar apenas um dia de uma semana que ainda teve uma quinta e uma quarta quase tão violentas.(…)  Durante quase dez horas, o povo lutou contra a polícia nas ruas, com paus e pedras, e do alto dos edifícios, jogando garrafas, cinzeiros, cadeiras, vasos de flores e até uma maquina de escrever.

 

          O saldo doloroso dos fatos ocorridos na “sexta-feira sangrenta” deixou uma declarada indignação entre estudantes,  intelectuais e  em muitas categorias profissionais da população carioca. Como conter tanta revolta? Aquilo não poderia ficar por isso mesmo. Artistas, jornalistas, escritores, professores começaram a articular alguma forma de manifestação que lavasse a alma de tantos ofendidos. Naquela mesma noite algumas reuniões paralelas foram feitas e nelas protagonizaram as idéias de Ferreira Gullar, Gláuber Rocha, Arnaldo Jabor, Hélio Pellegrino, Cacá Diegues, Luís Carlos Barreto, Ziraldo  e outros.

          Na manhã seguinte, no Salão Nobre do Palácio Guanabara, o psicanalista e escritor Hélio Pellegrino, a frente de 300 intelectuais, entre os quais Oscar  Niemeyer, Clarice Lispector, Paulo Autran, Tônia Carrero, Milton Nascimento, Nara Leão, etc., solicitava ao Governador Negrão de Lima a autorização oficial para realizar uma passeata pacífica, no centro do Rio, sem a presença dos policiais na rua. Depois de uma longa e difícil negociação, em que foi exigida, também, a libertação de presos políticos  — numa referência ao diretor de teatro Flávio Rangel e ao arquiteto Bernardo Figueiredo – o Governador, esmagado pela argumentação  de Pellegrino, concordou em liberar a passeata. Na quarta-feira, 26 de junho de 1968, depois de três dias de tensas negociações com  autoridades municipais e federais pela segurança do trajeto, o Rio de Janeiro iria assistir  uma das maiores, senão a maior, manifestação popular de sua história: A Passeata dos Cem Mil.  ( Segue na segunda parte a ser publicada).

 

estudantes velam o corpo de EDSON LUIS SOUTO. foto sem crédito. ilustração do site.

 

2ª/4ª parte: A Passeata dos Cem Mil – publicada aqui:  

https://palavrastodaspalavras.wordpress.com/2008/05/05/1968-a-passeata-dos-cem-mil-por-manoel-de-andrade/

 

3ª/4ª parte:  Partidão versus Foquismo

https://palavrastodaspalavras.wordpress.com/2008/05/12/1968-partidao-versus-foquismo-por-manoel-de-andrade/

 

1968: Uma Revisão  – 4ª Parte:

 

 

 

 https://palavrastodaspalavras.wordpress.com/2008/05/29/as-barricadas-que-abalaram-o-mundo-por-manoel-de-andrade/

A VERGONHA por eugenio mussak

Eu tenho um filho já adulto, engenheiro. É homem feito, mas vai morrer de vergonha ao ler este texto (desculpe, filhão, mas não encontrei história melhor para ilustrar este artigo). Quando ele tinha uns 3 anos de idade, seu pediatra, o doutor Nelson, recomendou que o menino fizesse uma postectomia – uma rápida cirurgia para retirar o excesso de pele que envolve a glande peniana, procedimento que facilita a higiene. E lá foi o pequeno.

 

Como costuma acontecer com as crianças, sua recuperação foi rapidíssima e, alguns dias depois, ele estava totalmente bem e feliz com seu “novo pipi”. Foi quando encontramos o doutor Nelson numa festa de aniversário. Ao vê-lo, o menino correu em sua direção, abraçou-o e, sem a menor cerimônia, baixou as calças e mostrou seu troféu, todo orgulhoso, provocando espanto e riso entre as pessoas, encantadas com a maravilhosa espontaneidade infantil.

 

Então – não poderia faltar –, um adulto qualquer, provavelmente uma avó, lhe disse: “Menino, você não tem vergonha?” Não, ele não tinha vergonha. Ele estava feliz com sua conquista, satisfeito com seu corpinho perfeito, alegre com os amiguinhos da festa, seguro com a companhia de sua família. Ele estava vivendo intensamente, e ninguém, ninguém mesmo, deve envergonhar-se de viver e ser feliz. Mas o mundo que construímos, infelizmente, não é bem assim. Sempre tem alguém nos perguntando se não temos vergonha de alguma coisa, nem que seja de sermos nós mesmos.

A expressão “força de ego” é bastante utilizada em psicologia. Referese a uma noção freudiana clássica em que o bom funcionamento psicológico das pessoas pode ser avaliado de acordo com a maneira como elas lidam com o conjunto de fatores controladores do meio onde vivem – os códigos sociais e culturais, as regras sociais. Controles sempre existem, e é bom que existam, pois o equilíbrio das relações depende, em grande parte, deles. Se cada um fizesse o que lhe dá na telha, viveríamos em anarquia, o que contraria o princípio da civilização.

 

Até aí, tudo bem. Eu preciso entender meus limites e respeitar os ditames do bom convívio com os demais. Caso contrário, posso ser acusado de ser anti- social, egoísta, desagradável. Um verdadeiro sem-vergonha. Por isso, na educação de uma criança, faz parte ensinar- lhe os limites, até onde se pode avançar sem ferir o espaço dos outros, seja o espaço físico, seja o moral.
A noção da força do ego está atrelada ao equilíbrio entre o primitivismo dos desejos humanos e a sofisticação das regras sociais. Só que esse equilíbrio é o que, em física, poderia ser chamado de equilíbrio instável. Qualquer esforço ligeiramente maior, de um lado ou do outro, gera o desequilíbrio, a ruptura psicológica, o sofrimento emocional.

 

A espontaneidade de um menino que mostra seu “pipi” para o médico em uma festa pode se transformar em um trauma com repercussões sexuais se ele for severamente repreendido. E, se não o for, pode colaborar para um comportamento irresponsável no futuro. Mas há outra possibilidade.

Um fato como esse também pode ser utilizado como um momento pedagógico sobre normas de conduta, desde que a comunicação usada pela pessoa em que a criança confia seja natural e clara, como a educação em geral deve ser.


O psicólogo alemão Erik Erikson, uma referência quando o tema é infância, adolescência e os reflexos dessas fases na idade adulta, dizia: “Na vida social, a pessoa está completamente exposta e está consciente de que está sendo vista. A vergonha surge quando a pessoa ainda não se sente pronta para ser vista”. Como a cobrança social é cada vez maior – em termos de sucesso, realização, estética e posses –, é muito difícil alguém se considerar totalmente pronto para ser visto. E dálhe vergonha. Por outro lado, se alguém não demonstra vergonha jamais, pode ser acusado de ser alienado.


Não há vergonha em sentir vergonha. A questão central não é essa, pois a vergonha é normal. O importante é a análise da relação entre a vergonha que sentimos e o motivo que a fez aparecer. Às vezes, a vergonha é desproporcional e pode provocar traumas. O menino que mostra o “pipi” e é repreendido ou humilhado não entende o que há de errado em seu ato. E, pior, poderá envergonhar- se de seu corpo para sempre.

Se um garoto sente vergonha de fazer uma pergunta ao professor durante a aula, pois tem medo da violência do controle do meio – no caso, as gozações dos colegas –, pode ser um sinal de que ele se sente inadequado no meio em que está inserido. Ele não se sente pronto para ser visto. Por outro lado, o garoto que desrespeita o professor e os colegas com atitudes de indisciplina constante pode estar no extremo oposto. É arrogante porque nega o controle social e faz questão de explicitar sua revolta com a autoridade. Ele poderia ser chamado, facilmente, de sem-vergonha. Mais uma vez, estamos lidando com o equilíbrio instável da força do ego.

 

O tema da vergonha normalmente é analisando sob a ótica da psicologia ou da sociologia, entretanto ele também pode ser visto por outras lentes, como a da biologia. Em seu livro ‘A Expressão das Emoções no Homem e nos Animais’, Charles Darwin afirma: “Enrubescer é a mais especial e a mais humana de todas as emoções”. E conclui dizendo que sua causa, a vergonha, é a peça-chave para a vida em sociedade.

 

Enquanto as sociedades de animais são regidas pelos instintos, a sociedade humana é regida por regras construídas intencionalmente. Darwin explica que o rubor é uma conseqüência fisiológica causada pela preocupação com o que os outros pensam de nós mesmos. A função do rubor é embaraçar quem ruboresce e constranger quem observa. E, assim, seguimos na vida, dançando a valsa da humanidade em um salão decorado com as regras da sociedade.


Em seu estado natural, o homem não se envergonha de nada, mas ele só está nesse estado na infância. Na própria infância da humanidade, metaforicamente descrita nas escrituras bíblicas, o homem não se envergonhava de andar nu. Foi só quando se viu expulso do paraíso que ele tratou de esconder seus genitais, “suas vergonhas”. Talvez isso seja apenas um símbolo da vergonha de ter traído a confiança do criador e comido o fruto proibido. A partir de então, teve início a humanidade controlada pela vergonha. Hoje, as religiões e o Estado valem-se do sentimento da vergonha para controlar as pessoas e manter o mínimo de equilíbrio social.

 

Portanto, a vergonha tem lá sua importância. Está ligada ao equilíbrio social e ao convívio humano. Sendo assim, estamos falando de algo humano, tanto do ponto de vista psicológico, quanto social e até biológico, como vimos. O problema está na vergonha desproporcional, tóxica, descabida, paralisante. Esta pode precisar de apoio profissional, mas pode também ser controlada à medida que o ego vai ganhando força, encontrando seus alicerces na maturidade, no autoconhecimento, na auto-aceitação.


Eu, por exemplo, que sou professor, perdi a conta das vezes que senti vergonha diante de meus alunos. Hoje, me parece ridículo, mas, no início da carreira, a insegurança era o precursor de fatos que me envergonhavam. Meu grande medo era que um aluno me fizesse uma pergunta para a qual eu não tivesse resposta. Já pensou na vergonha? Para controlar isso, eu falava sem parar, praticamente eliminando a chance de os alunos se manifestarem. Terminava a aula e saía quase correndo em direção ao porto seguro da sala dos professores.


Com o tempo, veio a segurança. Com ela, desapareceu o temor das perguntas e, mais, o temor de não ter uma resposta. Entendi que dizer que eu não sabia, mas que iria pesquisar e responderia na próxima aula, só aumentava a confiança que meus alunos tinham em mim. A vergonha sumiu. Foi substituída pela auto-suficiência.

 

Talvez você não acredite, mas devo ao fato de sentir vergonha de uma possível falha a qualidade pedagógica que desenvolvi e que me transformou em bom professor. Se eu não estivesse nem aí para a opinião de meus alunos e colegas, provavelmente não teria buscado o aprimoramento e a superação. A vergonha me salvou. Hoje eu me envergonharia de ter construído uma carreira sem compromisso, sem responsabilidade, sem excelência.

Que bom seria se a vergonha se fizesse mais presente em algumas esferas de nossa sociedade. Teríamos políticos mais responsáveis, profissionais mais ciosos, pais mais cuidadosos, cidadãos mais respeitadores. Quando assisto constrangido a um ato de vandalismo – como lixo jogado na rua, muros pichados, motoristas inconseqüentes e autoridades displicentes –, lembro-me de Rui Barbosa, que alegou, ironicamente, sentir vergonha de ser honesto, por tanto ver triunfar as nulidades, crescer a injustiça e prosperar a desonra.


Vamos concordar que a vida tem de ser vivida intensamente, mas não irresponsavelmente. Tentar ser feliz não é vergonha, a não ser que com sua felicidade você provoque a infelicidade de alguém mais. Mas isso, acredite, não é necessário, absolutamente.


Lembremos nosso grande Gonzaguinha, que cantou “Viver, e não ter a vergonha de ser feliz/ Cantar e cantar e cantar/ A beleza de ser um eterno aprendiz/ Ah, meu Deus, eu sei, eu sei/ Que a vida devia ser bem melhor e será/ Mas isso não impede que eu repita/ é bonita, é bonita e é bonita”.

 

O MAL-ESTAR no VISUAL por flávia albuquerque

Na atual sociedade em que vivemos, com o subentendido lema de ‘seja belo e consuma’, o corpo se insere no mercado primordialmente como capacidade de consumir e ser consumido. Vivemos em um crítico momento em que vigora a padronização de comportamentos onde o corpo se encontra como máquina de dor e prazer para responder à exigência maciça de permanecer jovem e belo.Tal promessa de juventude eterna acaba por nos reduzir aos quilos de nossos corpos e às curvas de nossas silhuetas. Os que não respondem ao modelo atual ‘sarado’, seios siliconados, ‘barriga tábua’, quilos abaixo da média estão desabrigados na ‘sociedade do espetáculo’ em que só desfilam os que ostentam imagem de sucesso.

A televisão é um desfile de corpos ditos perfeitos com peças de roupas ditadas pela moda tendo um apelo estético fora do alcance dos pobres mortais: meninas cada vez mais jovens nos afrontam com sua magreza indecente desafiando a morte. O que se consegue, por exemplo, ao ler uma revista de beleza é sentir-se feio, tamanha a diversidade de propostas de mudança corporal que ali se encontram. Em virtude desse ideal estético, muitos se submetem a inúmeras plásticas, cirurgias de redução de estômago, se entregam às anfetaminas ou desencadeiam distúrbios alimentares causando uma verdadeira mutilação no próprio corpo, tornando-os masoquistas por imposição. Tamanha maratona tem um único objetivo: ser aceito por uma sociedade atual, portadora de olhares exigentes, que vive no engodo excessivo, para além da ilusão fundamental que uma imagem qualquer já transmite.

É notória a ‘conspiração’ da indústria da beleza aliada aos meios de comunicação de massa em busca de cifras a serem gastas com cosméticos, plásticas, vestuário e academias de ginástica. A mídia banalizou valores e sexualidade usando imagens ideativas alimentando um falso ideal de completude num verdadeiro culto ao corpo. Essa reivindicação normativa oferece uma crença, uma ilusão de uma felicidade inexistente transformando o homem de hoje no contrário de um sujeito. Quanto mais a sociedade se encerra na lógica narcísica, em que transforma os homens em objeto, mais foge da idéia de subjetividade. Afinal, em que momento o desejo poderá emergir no meio de tanto tempo gasto para satisfazer a demanda alheia deveras exigente?

Como um simples objeto de consumo na sociedade contemporânea, o sujeito é visto apenas como um corpo que existe somente para consumir e ser consumido. Afinal, o voyeur é também um exibicionista, como bem especificou Freud: na satisfação que se tem de olhar, ele também se colocará na posição de ser olhado.

Muitas vezes o sujeito reconhece sua alimentação incorreta e vive num ciclo vicioso de culpa, raiva e depressão. Não é à toa que uma bulimia consiste em comer o que se tem vontade e depois eliminar tudo o que foi ingerido, experimentando uma verdadeira ressaca moral.

A maior doença do ser humano é querer ser amado, o que, no contexto social em que vivemos, infelizmente significa, para muitas pessoas, aderir a padrões de beleza utópicos. Essa necessidade de ser aceito faz com que o sujeito coloque seu ideal acima do respeito a si mesmo, ao seu próprio corpo, sob o risco de ser condenado a sentir-se deficiente ou deformado. Quanto mais a sociedade apregoa a padronização, a igualdade de todos, mais ela acentua as diferenças. Condenado ao esgotamento pela falta de uma aceitação, o sujeito busca no ‘culto ao corpo’ o ideal de uma felicidade impossível.

As anfetaminas não fazem nada além de suspender sintomas de obesidade ou sedentarismo. Elas fabricam um novo homem que coloca de lado seus desejos, se sente envergonhado por não corresponder ao ideal imposto e passa a viver alienado à cura da própria essência da condição humana. Quanto mais se objetiva o fim do sofrimento psíquico através da ingestão de remédios, mais o sujeito decepcionado com as ‘soluções’ apenas momentâneas, volta-se para os consultórios analíticos.

Se hoje a psicanálise concorre com essas promessas de ideal é porque os próprios pacientes percebem que o orgânico é, muitas vezes, causado pelos sintomas psíquicos e passam a preferir falar de seus sofrimentos a se entregar a tal exigência de padronização sem se questionar o que está em jogo. Verbalizam o sofrimento para, ao menos, procurar saber de sua origem.

O que não faltam são orientações de médicos e especialistas na área nutricional e esportiva a respeito de uma melhor qualidade de vida em termos de saúde. Mas não há regra para melhor qualidade de vida psíquica. E ignorar que a saúde mental tenha interferência na saúde corporal é, no mínimo, preocupante. Hoje em dia, viver o melhor possível, significa sobreviver o menos pior possível. A psicanálise, após mais de 1 século de sua invenção, permanece em vigor, numa insistência de que o sujeito viva num constante questionamento contra uma alienação devastadora. 

 

 Flávia Albuquerque é Psicanalista, pós-graduada em Teorias da Clínica Psicanalítica. (21) 9792-8326 fmaa@uol.com.br

NOVAS CASAS-GRANDES e novas SENZALAS por paulo alexandre filho

No Recife há certa louvação ao aristocrático Gilberto Freyre, que escreveu Casa-Grande & Senzala e achava até que havia certa harmonia entre os senhores e os que não eram nada. Nem vou discutir aqui sobre as percepções sobre a sociedade brasileira ou sobre as relações raciais na obra de Freyre, pois não é este meu propósito, mas acho que ele, mesmo considerando todas as críticas sobre sua obra (e eu mesmo tenho muitas), foi um notável escriba e é justificável sua influência. Só me detive a tratar de Freyre porque em função de sua influência aqui no Recife, “Casa-Grande” e “Senzala” são nomes que acabam batizando um monte de coisas na cidade, desde restaurantes a motéis. No tradicional e elitista bairro de Apipucos, local onde viveu o escritor, há vários estabelecimentos ou logradouros que receberam nomes que fazem alguma referência a Freyre e sua obra. Na mesma rua onde ele morou há o Motel Senzala, que, pelo que ouvi falar, é um dos bons estabelecimentos de sua categoria na cidade, embora quem o batizou não leve em consideração que nas senzalas os escravos passavam horrores (a menos que o tal motel seja especializado em atender a praticantes de sado-masoquismo).Alguns dos edifícios sofisticados onde residem os bem vividos da cidade não deixam de prestar suas homenagens ao autor, pois há aqui e ali algum chamado Casa-Grande, Casa-Grande “Disso” ou Casa-Grande “Daquilo”, enfim, estes edifícios incorporaram bem a nova dimensão de casa-grande como espaço destinado à elite. Curioso para mim foi encontrar mais uma pérola em matéria nomes para edifícios residências: achei no bairro de Boa Viagem, freguesia típica de casas-grandes, um edifício luxuosíssimo chamado Senzala dos Suassunas.

Claro que acabei parando para dar uma olhadinha nesta senzala cercada por grades e vigiado ostensivamente por seguranças de alguma empresa privada que presta serviços de vigilância privada e patrimonial. Tudo ali parecia ser ciosa típica de casa-grande e nada lembrava senzala, apesar do nome do edifício. Casa-grande e senzala eram dois ambientes grotescamente antagônicos e dois símbolos no Nordeste canavieiro de um regime social regido pela cana-de-açúcar plantada nas posses de senhores de terras e de gente, sobretudo gente escravizada. Senzala era o local onde viviam os escravos e era o ambiente que fazia o contraponto com a casa-grande, local onde viviam os senhores – proprietários dos moradores das senzalas. A casa-grande e a senzala (posteriormente o sobrado e o mocambo) simbolizavam exatamente as diferenças tão drásticas entre pólos que fazem de nós uma das sociedades mais assinaladas por diferenças.

Vi que na Senzala dos Suassunas não vivem somente senhores, pois percebi que lá existem muitos serviçais que habitam umas pequenas senzalas – uns cubículos, na verdade – que recebem uma denominação que procura desmontar um pouco do tom pesado e desqualificativo de cativeiros de serviçais: chamam estes espaços de dependências de empregadas. Nestas senzalinhas vivem ou alojam-se (eis um termo mais apropriado) as empregadas domésticas em meio a um ambiente totalmente impessoal, com mobílias que não lhes pertencem e outras bugigangas que são guardadas nestes espaços para não se empilharem nas áreas “sociais”, isto é, dos senhores (empregados não ocupam espaços “sociais”, não usam elevadores “sociais”, nem acessam as entradas “sociais” dos edifícios). Os objetos depositados nas dependências das empregadas não prejudicam a decoração e não entopem com sua inutilidade as gavetas e armários dos senhores, fica exatamente no cubículo próximo a área de serviço – no quartinho da empregada. As empregadas da Senzala dos Suassunas usam uniformes para que se deixe bem claro que quem anda uniformizada não é a senhora ou a sinhazinha – é a empregada. As empregadas costumam entrar e sair da Senzala dos Suassunas pelo acesso de serviço (local por onde costuma também ser deslocado p lixo dos apartamentos dos senhores) e elas ainda passam o dia inteiro dedicando-se ao conforto alheio e não ao seu próprio conforto, oferecem aos senhores aquilo que não podem ter para si mesmas e servem mesas com iguarias que faltam nas refeições de suas famílias.

A Senzala dos Suassunas tem um importante valor como síntese bizarra de uma sociedade que não se vê tão distante da sociedade das casas-grandes e senzalas escravistas sobre as quais escreveu Gilberto Freyre. A Senzala dos Suassunas é didática e é patética, um micro-cosmo quase perfeito de uma sociedade que vê natural e cruelmente que há um fosso abissal entre castas de bem-aventurados e miseráveis, um fosso que é contemplado por uns, aprofundado por outros e vivido por muitos. As favelas não são nada se não uma expressão disso: são senzalas potencializadas, que cercam as casas-grandes e são suas vizinhas, mas ainda continuam a distâncias sociais incalculáveis.

Casas-grandes e senzalas ainda existem nas formas do novo binômio da injustiça: condomínio e favela.

 

PALESTRA: “ALOE VERA CURA CÂNCER” por frei romano zago

Autor de dois livros publicados pela Editora Vozes, um deles em sua 27ª edição, Frei Romano Zago vem a Curitiba no próximo dia 29 (terça-feira) abril de 2008, às 19h, na Biblioteca Pública do Paraná, a convite da revista Bem Público, para falar sobre as propriedades curativas do Aloe Vera, a popular babosa, uma planta milenar utilizada por imperadores, faraós, conquistadores e, na atualidade, pela indústria de cosméticos e pelo conhecimento tradicional. Segundo o frei, a babosa pode curar até mesmo o câncer e reduzir em muito as despesas dos sistemas públicos de saúde. As inscrições para a palestra são gratuitas, mas limitadas e devem ser feitas através do telefone (41) 3332-7580 ou e-mail bempublico@bempublico.com.br. para mais informações entre em contato pelo mesmo email.
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A RECEITA DO FREI ROMANO ZAGO: postada em 25 de maio de 2009.
Ingredientes:
– Folhas grandes de babosa com pelo menos 5 anos de idade. As folhas devem medir um metro se colocadas em fila indiana. Este é o ingrediente ativo da receita.
– 50 ml de bebida destilada (cachaça, vodka, whisky, conhaque, etc)
– 1 / 2 quilo de puro mel de abelhas
– 1 garrafa de vidro escuro com capacidade para um litro (para armazenar)

Antes de Preparar
Colher a babosa no escuro, após 5 dias sem chuva. Não colher com orvalho. Preparar no escuro e logo depois de colhida. Depois de feito o remédio, guardar em vidro escuro na geladeira. Tomar o remédio no escuro. O motivo de se evitar a claridade é que na babosa a substância que age contra o câncer perde seu efeito ao entrar em contato com a luz.

Como Preparar
Tire os espinhos das folhas de babosa e limpe-as com um pano úmido em álcool. Corte-as e coloque no liqüidificador juntamente com a bebida destilada e o mel.

Como tomar
Para curar o câncer – tomar duas colheres de sopa três vezes ao dia, durante 10 dias; parar por 10 dias e tomar mais 10 dias, assim sucessivamente até se obter a cura total.
Observação: a cura do câncer será obtida com êxito quando ele estiver na fase inicial, pois quanto mais velho, mais difícil será a cura.

Contra-indicações
O Dicionário das Plantas Úteis do Brasil, obra do botânico Pio Corrêa, editado pelo Ministério da Agricultura, diz que a babosa é contra-indicada durante a gravidez, para pessoas com propensão a hemorragias, para aquelas com menstruação excessiva ou com debilidades da bexiga. Tais limitações são decorrentes da grande ativação renal resultante do amplo espectro depurativo do remédio, ao filtrar milimetricamente o sangue. (Fonte – Frei Romano Zago)

ONDE ENCONTRAR O PRODUTO PRONTO:

Av. Presidente Franklin Roosevelt, 1241 loja 3

Porto Alegre/RS – CEP: 90230-002

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Email: proaloe@proaloe.com.br

S.A.C: xx.51. 3395.1978

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O primeiro caso de cura registrado por frei Romano Zago foi o de um homem com câncer de próstata, já em fase terminal, segundo os médicos. “Tão desesperador era seu caso que os filhos já haviam providenciado os papéis assinados para evitar o inventário dos bens”, conta o frei.

O cidadão freqüentava a paróquia dos franciscanos, razão pela qual frei Zago foi chamado para ministrar os sacramentos da igreja para quem está à beira da morte.

Além dos sacramentos, o frei deu-lhe também o remédio. “Hoje o homem está com mais de 80 anos de idade, completamente curado”, conta emocionado o frei. Geraldito, um garoto argentino de cinco anos, chegou à Espanha acompanhado dos pais e do irmão na esperança de encontrar no transplante de medula a cura para o seu mal: a leucemia. A cirurgia não funcionou; a doença voltou. Desenganados pelos médicos espanhóis e abandonados ao destino, acabaram na Terra Santa, em busca de um milagre. Em Belém, na Gruta da Natividade, enquanto derramavam lágrimas, encontraram um padre que os aconselhou a procurar o “frade brasileiro”, no Convento da Natividade, ali mesmo em Belém. O frade era frei Romano Zago, a serviço da Congregação Franciscana na terra de Jesus Cristo.

O ESTUPRO por zuleika dos reis

                                          Paisagens de um pós-ser, de um vir-a-pó, de comércio entre ambos. Signos de vidro, papéis e passos perdidos. Signos de espelhos vislumbrados sempre de passagem. As arestas das mesas. As partilhas impossíveis. As paredes. Os segredos. Os presentes passados futuros virtuais. As baratas e o pó. A ferrugem. Os brilhos repentinos e inúteis. As cirandas sem saída. Mover-se por ele até amá-lo, que amar não é coisa espontânea tal o mar ou uma nuvem. Andar como turista por seus esconderijos percorridos à exaustão. Percorrê-lo como espiã de si mesma. Assaltá-lo sem estardalhaço para que os vizinhos não percebam, invadir-lhe as entranhas, encharcar-se de gozo, sair de dentro dele, erguer-se, vestir-se rápido, abrir a porta do apartamento cheio de digitais em cada canto, as marcas de outros assassinatos cometidos por descuido. Andar pelos corredores em silêncio carregando, na bolsa, as nódoas das feridas dele. Atingir a rua onde a aguarda a primeira punhalada da manhã.

MAGNÍFICO poema de solivan brugnara

Magnífico, é o milho que a pomba come.

O milho, essa forma simples, quase mineral,

mas que dentro do corpo da pomba é miraculoso,

transforma-se em penas, olhos, que vira vôo.

 

Magníficas são as cores primárias,

a sua miraculosa multiplicação.

E as sete notas que formam as sinfonias

e tudo que tem sempre em si o múltiplo.

 

Magnífica é a velocidade

que dá fluidez ao metal, o deixa incorpóreo.

A bala de tão rápida, invisível

e quanto mais rápida e portanto

mais fluida, mais sólida, mais fere.

 

Magnífico!

É o suicida poeta que

antes de atirar em sua cabeça,

achou o gatilho parecido com a lua minguante.

 

Magnífico é o corpo humano.

A rigidez dos músculos masculinos,

o viril suor, seu doce membro,

a nobreza de seu envelhecimento.

E a forma suave do corpo feminino

a elegante linha da gravidez

e a maciez de seu sexo.

 

Magníficos são os veículos,

seus intestinos de aço, o perfeito encaixe das peças

dos motores, a sede prazerosa de combustível.

Os carros retorcidos como papel amassado nos acidentes.

A magnética beleza dos acidentes automobilísticos

atraem homens, que olham detalhes

e discutem sobre o certo e o errado, sobre

o destino, sobre o tempo e a morte.

 

 

 

POESIAS AMENAS por manoel antonio bonfim

Palavras dispersas
Falando de encanto…
O encanto do olhar
Um olhar sobre a vida
Uma vida pra amar
De maneiras diversas
 
São tantos olhares
Fitando o amor
Tantos amores
Dispersos na vida
Rodeados de flores
E de belos cantares
 
Diversos poemas
De sabores diversos
De doces sabores
Sabores de vida
Vidas cheias de amores
E de poesias amenas

PRECONCEITO LINGUÍSTICO por leonardo meimes

 

Sabemos que hoje, se repudia qualquer tipo de preconceito como sendo uma atitude imoral e desumana. As comunidades, etnias, culturas, religiões têm sua liberdade acima de tudo. Agora é a hora de colocar mais um preconceito em cheque. Você já ouviu falar sobre o PRECONCEITO LINGÜÍSTICO?

Quantas vezes você foi já foi corrigido enquanto falava ou corrigiu a fala de alguém? Pois saiba que na maioria dos contextos corrigir a fala de uma pessoa e julga-la por este “erro” pode ser considerado um preconceito. A língua portuguesa, como todas as línguas, é heterogênea e intrinsecamente variável. Isso quer dizer que nenhuma língua é estática, pelo simples fato de que ela é um “organismo em constante evolução”. Os conceitos de variação, variante e mudança, foram introduzidos pela lingüística para abarcar as diferentes formas de se dizer uma mesma coisa, formas que ocorrem em todos os idiomas existentes e que são sim uma grande qualidade das línguas. Se as línguas não se adaptassem constantemente se tornariam inúteis a cada instante que algo fosse criado ou modificado no mundo social ou real. Para diferentes realidades existem diferentes formas de se comunicar e isto fica evidente se pensarmos na extensão do Brasil e na quantidade de dialetos regionais que temos. Mesmo assim dentro destes dialetos existem variações, nem todo gaúcho diz “Bá”. Então devemos pensar muitas vezes antes de corrigir a fala de alguém, pois ela pode estar apenas usando uma variedade não padrão da língua, ou até mesmo uma variedade padrão com um nível de formalidade diferente. O que é importante frisar e destacar é:

 

NENHUMA VARIEDADE, OU LÍNGUA, É MELHOR, MAIS CORRETA, MAIS BONITA OU MAIS RICA, DO QUE AS OUTRAS

 

A noção de “ERRO” está sendo revista pela lingüística à algum tempo. Dizer que uma pessoa está errada quando fala algo como “bicicreta” e “os home”, prevê uma noção de língua sendo empregada (no caso a noção de língua como código), e só se faz este julgamento quando se considera uma das variedades como sendo “melhor’ ou mais “correta”. É o que acontece quanto se coloca a gramática normativa como a única variedade certa do português. Esta variedade foi, por fatos econômicos e históricos, escolhida para ser a base comum do ensino de língua em nosso país, isto não quer dizer que ela está certa (podem-se encontrar inúmeras incoerências em suas definições) e as outras erradas. Elevar a gramática a este estatus de “correta” cria vários problemas de ordem social que poderiam ser evitados se fosse explanado dês do começo do ensino da língua que existem variedades e que elas coexistem e são todas apropriadas para seu contexto. Um “erro” na verdade pode não passar de uma inadequação de estilo ou gênero, ou apenas de uma variação de dialeto falado pelo interlocutor. Se um interlocutor diz “os home”, não se considera um erro, pois na comunidade em que ele vive esta é a gramática internalizada dos moradores e a variedade comum, não adianta você impor sua variedade que ele vai voltar a anterior quando entrar em contato com um parente, por exemplo.

A gramática normativa já não é mais a única sendo estudada atualmente, existem pelo menos três gramáticas em uso em nosso país. A normativa ou padrão, que é subjetiva e arbitrária (pois tenta congelar o sistema lingüístico e em uma variedade que não existe mais em uso); a gramática descritiva, que não prescreve nem normatiza, apenas descreve o que é visto na língua; a última e mais difícil de ser estudada é a gramática internalizada, a que cada falante tem em seu cérebro e que nos permite adquirir a língua antes mesmo de ter aulas sobre ela. A gramática normativa (norma padrão) é a mais distante da realidade, pois congelou no tempo uma variedade, como dito, inexistente e passada, que não corresponde as necessidades de hoje. Ela ainda tenta fazer o que os filósofos tentaram ao criar uma gramática para o latim, congelar a língua, porém como vimos o latim evoluiu para as línguas românticas (português, italiano, francês, etc.) e agora não passa de uma língua morta.

 

A GRAMÀTICA NORMATIVA ESTÀ EM PRINCÍPIO ERRADA, POIS TENTA CRIAR REGRAS PARA UM SISTEMA QUE MUDA CONSTANTEMENTE

 

Sendo assim, deixemos de lado nossas diferenças lingüísticas, todos nós brasileiros falamos português, certo e rico, e “arretado” de bonito, não existe diferença entre nós ao que cabe a língua, pois todos a usamos da melhor forma, respeitando as necessidades de nossa realidade e adaptando-a ao que é necessário. Se você entendeu o que o outro falou, estão falando a mesma língua, ninguém é melhor do que ninguém, nem mais “burro” por falar diferente. Deixe este preconceito desaparecer, como todos os outros.


IMA GIQUÁRIO poema de jasmin druffner

IMA GIQUÁRIO 

“Ímpar.
Meu coração bate,
Sem enfarte.
Bate descolor,
Sem amor.
Apar.  

Suspiro e fecho os olhos.
Assim me refugio,
Assim te vigio.
Nos únicos momentos
Nem um pouco cinzentos,
Por sussurros amamo-nos.  

Você dança uma canção,
A palpites meus,
Que também já são seus.
Música no meu cérebro,
Mas te digo que desconsidere-o,
Era apenas minha imaginação.”

XALE por jorge lescano

É sempre longe em minha alma,

 porque estás como ausente y mi voz no te toca

 Este es un puerto: aqui te amo

– escreveu no xale de Maryeva e assinou:

 Fernando Pablo Pessoa Neruda

 

 

a moça ocupava na mesa o mesmo lugar que ocupavas há exatamente duas semanas, e ignorava a leitura que eu fazia do seu xale

 

 na rua, ininterrupta, continua a chuva oblíqua

 

como naquele anoitecer de há duas semanas, cheguei com os cabelos úmidos, as calças coladas às pernas, nos olhos uma distância turva

 

sentei-me no fundo do salão. Sabes que aqui me escondo quando espero que não venhas. Cá ninguém pode ficar às minhas costas como eu estou em relação à desconhecida do xale cinza, em cuja simétrica urdidura vou descobrindo a tua ausência

 

corpo de mulher que amo: país de ásperos perfumes

 

no porto silencioso onde eu só faço sentido para mim, como se este canto existisse apenas para a espera – minha – de quem não chegará até a figura solitária à beira do cais, pois nada a mim te prende

 

no desenho regular de vaga geometria esboçava escorços de tua figura  

 

quando ávida a minha língua busca a vida em tuas entranhas

 

na penumbra do motel não esperávamos nenhum trem para partirmos juntos rumo a destinos diferentes, embora, nos momentos do descanso necessário em nosso  encontro, eu fosse  passageiro ocasional de uma estação ferroviária inominável

 

mulher minha passageira do trem invisível que de mim te afasta e não deixa que te entregues ao furor do vento que por dentro te sacode

 

do outro lado da névoa, além das vagas, fico a ver-te, pequena, surgindo da espessura da neblina, teu sorriso vindo para mim como vinhas a este, meu acanhado porto, e tua voz, deste lado, não me aquece

 

e a espera é minha apenas, pois que a mim nada te prende

 

naquele fim de tarde em que te lembro, assim deverias ter ficado para um outro que não eu, a quem esperavas com o sorriso ainda no estojo dos teus dentes

 

os lábios vermelhos destacam o negrume dos teus olhos quando o sorriso aflora para envolver meus ombros

 

menina, se  te escondes fechando os olhos para não ser vista brincando de mulher

 

não sei se é a postura da cabeça, uma sutil inclinação do busto, o livro nas mãos, abandonado, ou o irrequieto diagrama do xale o que me diz que a moça agasalhada em brumas

 

de tremores de urgências genitais e gemidos e sussurros e gritos presos

 

 

 espera alguém, como naquele anoitecer chuvoso me esperavas

 

tua voz me chama

 

no curto espaço entre as duas mesas, flutuavas na indecisa luz do quarto invadido pelo dia vagaroso fundindo em sépia tuas fronteiras

 

vou ao encontro ansioso e breve

 

no outro lado do planeta reconheces a floresta que guarda a tua casa, e as palavras, não mais estranhas: teus ouvidos já não sentem a neve do outro idioma

 

teu sorriso acende minhas veias

 

um suave movimento desloca o friso de diagonais quebradas sobre o espaldar da cadeira e o calor de tua nudez, a maciez das coxas, o morno aroma do teu hálito e o penetrante perfume do pescoço, a brisa do teu silêncio, o sotaque de distância – parada obrigatória ou fim do itinerário daquele trem que não deixo de esperar-, são a urdidura do xale

 

e tua voz é mais uma no coral de vozes que não ouço

 

         teus olhos decoraram paisagens onde nunca estive – assim, não estou em tuas lembranças quando delas lembras -, paisagens que nunca virei a ver/?

 

Não rodeia a doce curva dos teus ombros e no entanto minhas mãos náufragas se abrem para sentirem as tuas, que não mais estão onde as deixara naquele oblíquo fim de tarde. Além da cadeira que comigo se defronta, as pregas assimétricas agasalham um perfume que permanecerá secreto, porém, eu sei, não provocaria lembranças de ribeiros, nem de selvas penumbrosas, nem de flores negras, tampouco risos abafados ou murmúrios antes da fúria genital e do cansaço      que   fecha teus   olhos   e faz  com  que reclines a cabeça e abandones teu perfil ao meu olhar; mergulhas com placidez na urdidura do sonho, libertando entre os lábios um som indefinido que ilumina teus dentes e que eu, para meu prazer enquanto dormes, quero interpretar como algo próximo à felicidade, como aquilo que poderias sentir se eu te presenteasse com um xale

 

anoitece em teu país de sombras, dispões o jantar na mesa, uma criança fala em torno de tua saia. Ignoro se ainda está nevando em tua cidade – minúscula, automática – ou se um raio deste  sol que a mim me cega, aquece alguma aresta de tua sala ou brilha tenuemente sobre tuas mãos de cobre antigo

 

do meu refúgio brinco de adivinhar o nome. Embaralho possibilidades. Ensaio nomes para fugir do teu – Fairuz? Kelly? Sebastiana? Quem eras naquele entardecer? -; talvez seja tão somente Maria, como o tango 

 

como em nossa primeira noite, antes  que os passos no corredor – mensageiros de uma culpa? – fixassem teu olhar no espaço e fizessem teu corpo congelar minhas carícias

 

sorris ao ler meu xale, ou recolhes a mirada pensativa para me enxergar melhor em  tua lembrança?

 

O PEQUENO ANJO pela editoria

Kenadie Jourdin-Bromley, conhecida ao redor do mundo como “o pequeno anjo”, nasceu em fevereiro de 2003, pesando pouco mais de um quilograma e com 22 centímetros. À época, os médicos consideraram que ela não passaria da primeira noite. Não foi o que aconteceu.

Ela continuou desafiando a medicina e a todas as expectativas e à idade de 8 meses, Kenadie foi finalmente diagnosticada como com nanismo primitivo, uma condição genética que crê-se que afeta a somente 100 pessoas em todo o mundo.

 

Não se espera que ela cresça mais que 70 centímetros ou que tenha mais que 5 quilos. O estado de Kenadie inspira cuidados constantes e da presença atuante e carinhosa dos pais Brianne Jourdin e Tribunal Bromley agora que está completando 4 anos.

Ela adora passeios, corridas e começa a falar as suas primeiras palavras. Dizem que o mais impressionante é que pessoas que de uma forma ou outra estiveram em contato com a menina, tem a sua vida radicalmente mudada por acreditarem que foram tocadas por um pequeno anjo com um enorme coração.

 

AS ORIGENS DA ESPANHA MODERNA por luiz parellada ruiz

 

 

 

A Península Ibérica, por sua localização geográfica e clima ameno em relação ao norte da Europa, foi habitada desde o início da ocupação deste continente pelo gênero Homo. O fóssil humano mais antigo da Europa, com datação de 800.000 anos, foi encontrado recentemente no norte da Espanha e classificado como Homo antecessor.

Avançando no tempo chegamos ao Homo sapiens e ao período glacial quando é possível que populações centro-européias tenham migrado para o sul em busca de melhor clima. Na região banhada pelo mar Cantábrico povos caçadores Cro-Magnon nos deixaram as maravilhosas pinturas rupestres da arte franco-cantábrica que na Espanha atingem seu ápice na gruta de Altamira e na França na de Lascaux. Autores bascos afirmam  baseados na língua da região, sem muita relação com os idiomas atuais, que os bascos modernos seriam os descendentes desses povos.

No Neolítico o clima melhora, os homens se tornam agricultores sedentários e isto se reflete num incremento da população. A laboriosidade destes povos vai originar a grande riqueza de restos arqueológicos que fazem a alegria dos estudiosos modernos, hoje que felizmente há dinheiro para custear estas pesquisas. Há túmulos megalíticos que lembram a arquitetura do Egeu, mas muito anteriores a estes; há indícios de atividades que indicam um alto grau de organização social, como a mineração em túneis; há enterramentos luxuosos com jóias sofisticadas, e há uma grande variedade de culturas relacionadas à técnica de fundição do bronze. Estes povos, muito numerosos, são chamados iberos.

No início do primeiro milênio AC tribos indo-européias (celtas) entram na península e em parte se integram aos iberos dando origem aos celtiberos. Quase imediatamente chegam por mar os comerciantes fenícios fundando colônias principalmente na atual Andaluzia. Traziam produtos manufaturados que trocavam por minérios. Introduziram o alfabeto e a tecnologia do ferro. Possivelmente são eles que dão origem ao nome Hispânia, que significaria “costa de coelhos”.

No séc. VI AC os gregos fundam colônias no litoral norte, na atual Catalunha. A mais importante, Emporion, serviu mais tarde de ponto de desembarque para as legiões romanas.

Cartago, uma colônia fenícia no norte da África (atual Tunis), se transforma na potência comercial do Mediterrâneo ocidental e entra em choque com Roma na ilha de Sicília. Ao fim de três guerras Cartago será destruída. É na Segunda Guerra Púnica, em 218 AC que os romanos desembarcam na península ibérica onde os cartagineses tinham criado fortes raízes e dispunham dum excelente porto chamado Cartago Nova (atual Cartagena). A romanização da Hispânia, como passou a ser chamada a península, leva dois séculos, mas é completa. O nome Espanha, como passaremos a chamá-la agora, compreende toda a península, inclusive a Lusitânia, atual Portugal e, posteriormente, uma parte do atual Marrocos. Grandes imperadores: Trajano, Adriano e Teodósio o Grande, filósofos, como Sêneca, e literatos, como Lucano, nascem na Espanha. E o latim será a base para o desenvolvimento de línguas importantíssimas.

 

 

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A partir do séc. III povos germânicos invadem o Império e no séc. V os visigodos se instalam no território tentando revitalizar a Espanha romana após o chefe godo Ataulfo ter-se casado com Gala Placídia, irmã do imperador Honório. Os visigodos fazem de Toledo sua capital e durante dois séculos a cultura romana é mantida na península. O rei Recaredo se converte ao catolicismo, a Igreja se torna muito poderosa e o latim absorve e modifica a língua germânica dos invasores, prenunciando as futuras línguas peninsulares.

Em 711 guerreiros norte-africanos, os mouros como serão denominados, são convidados por nobres visigodos descontentes e sob liderança árabe derrotam o rei Roderic ou Rodrigo. A seguir conquistam toda a península, que eles denominam Al Andalus, e invadem o sul da França até serem contidos por Carlos Martell na batalha de Poitiers. Os invasores, apesar de contar com uma arma poderosíssima, o cavalo árabe, tinham deixado sua linha de apoio vulnerável demais e desistem de expandir seu território.

A Reconquista cristã começa imediatamente no norte da península a partir dos mesmos grupos montanheses que anteriormente tinham criado problemas para os romanos, e ao leste, no Mediterrâneo, com a criação da Marca Hispânica, atual Catalunha, por Carlomagno. Muitos casamentos, traições e lutas serão necessários até a completa expulsão dos mouros da região carolíngia, que se transformará num foco de cultura cristã. A piedosa crença de que o apóstolo Santiago estaria enterrado na Galiza leva milhares de peregrinos, principalmente da França, a cruzarem o norte da Espanha de leste a oeste seguindo a Via Láctea, espalhando seus conhecimentos e sua língua que vai influenciar o galaico-português. (Hoje, graças ao Paulo Coelho, milhares de turistas brasileiros alegram o Caminho de Santiago.) Mais tarde os frades cistercienses encheriam a Catalunha de mosteiros góticos sem saber que estavam gestando um outro roteiro turístico, que eu pessoalmente recomendo.

De novo, casamentos, traições e batalhas moldam a nova geografia peninsular. Todo o mundo quer conseguir um pedaço de terreno e ser nobre ou, melhor ainda, rei. O rei das Astúrias funda o Condado Portucalense, mais tarde o seu reino desaparecerá e Portugal se transformará em reino. Catalunha se funde com Aragão e se transforma no estado mais poderoso do Mediterrâneo, dominando as principais ilhas deste mar, o leste da península ibérica, Nápoles e parte da Grécia. Castela vai crescendo e brigando com Portugal. E todos aproveitam as horas vagas para guerrear os infiéis e ganhar o céu.

Os mouros no séc. X representavam a máxima expressão cultural da Europa. Córdoba era um modelo de higiene, civilização e arquitetura avançada. Matemáticos, médicos, filósofos e poetas se movimentavam numa cidade que tinha calçamento e iluminação pública. As mulheres tinham bastante liberdade. Os judeus e os árabes se davam muito bem. O palácio do Califa deslumbrava os embaixadores estrangeiros. Os nobres cristãos acostumados a partilhar seus aposentos com o cavalo, enviavam os filhos para que apreendessem boas maneiras naquela corte de sonho, onde o titular tinha um harém que podia acolher seis mil mulheres. Súditos invejosos, inimigos mais invejosos ainda e clérigos raivosos colaboraram para volatilizar tudo isso, e no séc. XV o domínio árabe tinha se reduzido ao pequeno reino de Granada, pequeno, mas organizado, produtivo, e lindo como podem verificar hoje os visitantes da “La Alhambra”.

 

 

 

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Chegamos assim aos Reis Católicos: Fernando, rei de Aragão e Isabel, rainha de Castela. Fernando estadista, diplomata e guerreiro, muito admirado por Maquiavel; Isabel, bondosa e amável com todos, mas dura e cruel para combater a heresia. O título de Reis Católicos, dado pelo papa espanhol Alexandre VI, vai marcar o futuro do país que eles estão querendo fundar. Seu casamento junta as duas maiores forças políticas da península. Fora de suas mãos está Granada que eles conquistam em 1492, o mesmo ano em que Colombo sob suas ordens chega a América; Navarra, que Fernando invade e anexa ao novo reino, e Portugal que deveria ser incorporado por vias matrimoniais – projeto que a prematura morte dos futuros nubentes frustra. O objetivo era a unidade peninsular, ou seja, a Espanha do tempo dos romanos.

Para o pensamento dos Reis a unidade inclui uma só religião e em 1478 é restaurada a Inquisição na Espanha. Logo mais, um fanático sincero e incorruptível, Tomás de Torquemada assume sua chefia e deixa um rastro de sofrimento humano como poucas vezes se viu na história da humanidade. Os judeus são expulsos em 1492 e os mouros não convertidos em 1499.

Possivelmente como fruto de séculos de lutas contra os mouros, cada cidade tinha um conselho e todas eram muito ciosas de seus privilégios. Poderíamos falar de um verdadeiro “patriotismo municipal” – anos antes da Carta Magna inglesa, cidades da península já tinham documentos semelhantes. Todos os privilégios vão se perdendo durante consecutivos reinados absolutistas, resultando num centralismo castelhano extremado – até a hierarquia eclesiástica os reis controlam, e produzindo mágoas profundas presentes até hoje.

Por enquanto Portugal tinha ficado fora da unificação, mas os Reis Católicos mudam o foco e passam a intervir na política européia. Começam pela Itália, onde Fernando tinha interesses em Nápoles e Sicília, e casam a filha Joana com Felipe de Habsburgo, cujo filho Carlos será Imperador do Sacro Império Romano Germânico.

Para o historiador francês Fernand Braudel, que na década de 1930 foi professor na USP, a intervenção na política européia foi um grande erro. Para ele Espanha deveria ter-se voltado para a África. O desinteresse dos Reis Católicos pela África cria por primeira vez na história uma fronteira no Estreito de Gibraltar. Dom Sebastião tentará consertar isto.

Como resumo deste período podemos citar as palavras do historiador e filósofo americano Will Durant: ”A Espanha perdeu um tesouro incalculável com o êxodo dos comerciantes, artesãos, sábios, médicos e cientistas judeus e muçulmanos, e as nações que os receberam lucraram econômica e intelectualmente. Conhecendo dali em diante apenas uma religião, o povo espanhol submeteu-se completamente ao seu clero, e desistiu de todo o direito de pensar a não ser dentro dos limites da fé tradicional. Com ou sem razão, a Espanha resolveu permanecer medieval, enquanto a Europa, pelas revoluções comercial, tipográfica, intelectual e protestante, corria para a modernidade.” Resta saber se foi evitada uma outra Bósnia no século XX.

Mas a Espanha está crescendo e o neto dos Reis Católicos, Felipe II, será o homem mais poderoso de seu tempo. Simultaneamente estão lançadas as sementes da decadência e dos problemas, fanatismo, perseguições, centralismo e exploração, que criando ódios seculares impedirão aos futuros espanhóis se integrarem na unidade almejada.

 

 

 

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Carlos V da Alemanha e I da Espanha foi um homem esmagado por seu tempo. Ele teve que enfrentar a Reforma, o papado, os turcos e Francisco I da França. Os recursos humanos e materiais necessários eram demais para a Espanha. Já no início de seu reinado enfrentou uma guerra de classes, a Revolta dos ”Comuneros”, ou seja, dos membros das comunas. Estes plebeus, como habitualmente acontece, foram esmagados pelos nobres e pelas dissensões entre eles, com o resultado de que ambas as partes, nobres e plebeus, ficaram enfraquecidas, o que aumentou o poder real e diminuiu ainda  mais o poder dos municípios.

Carlos V conseguiu devastar a Itália, instalar um feudalismo anacrônico na Alemanha, reforçar a Inquisição na Espanha e enfraquecer o Sacro Império. Morreu retirado num mosteiro na Espanha, não sem antes confirmar a pena capital para uns protestantes espanhóis dizendo que os arrependidos deviam ser decapitados e os que não se mostrassem arrependidos, queimados.

Felipe II filho do Imperador e de Isabel de Portugal realizou o sonho da unidade peninsular. D. Sebastião pediu sua ajuda para conquistar o Marrocos; ele lhe fez ver que Espanha já tinha muitos problemas para resolver e Portugal não dispunha de recursos suficientes. Como D. Sebastião insistisse, Felipe declarou ao seu Conselho: “Se ele ganhar teremos um bom genro; se perder teremos um bom reino”. Perdeu e Felipe se transformou num dos homens mais poderosos de todos os tempos. No centro geográfico da Península existia uma vila chamada Madri, Felipe a fez capital do reino por fim unificado. Fernand Braudel considera isto um erro estratégico, pois Lisboa era a cidade mais importante da Península e deveria ter sido escolhida para capital. Isto diminuiria o espírito separatista português, sempre estimulado pela Inglaterra.

Felipe, avesso a luxos cortesãos e a multidões, edifica perto de Madri o “Mosteiro do Escorial”, onde passa a ocupar o quarto mais modesto do edifício, tão pobre como a cela de um ermitão. Segundo Will Durant o edifício, majestoso – sua fachada tem 226 m, simbolizava o poder de Felipe; o quarto exprimia seu caráter. Para governar o mundo desde seu retiro desenvolveu uma burocracia que até hoje nos atormenta.

Embora respeitando a Igreja, mantinha a religião sujeita ao Estado espanhol. Achava a unidade religiosa fundamental e dizia preferir não governar a ser príncipe de hereges.

Assim proibiu todos os costumes mouriscos, o uso da língua árabe e a posse de livros nesse idioma. Isto originou muitas revoltas e atrocidades de ambas as partes. Seu sucessor, Felipe III, por solicitação do arcebispo de Valência, expulsou os mouriscos cristianizados do leste da Espanha, repetindo as cenas desumanas de um século antes.

No reinado de Felipe IV seu competente ministro conde-duque de Olivares trava uma luta de titãs com o não menos competente cardeal Richelieu, ministro de Luis XIII da França. Ganha Richelieu; se completa a destruição da marinha espanhola pelos ingleses e holandeses; acaba a invencibilidade dos exércitos espanhóis que, mantendo frentes em uma dúzia de lugares diferentes da Europa, consumiam mais ouro do que chegava de América; Portugal declara sua independência e no mesmo ano (1640) também Catalunha se separa e durante 19 anos, ajudada, primeiro pela França e depois pela Inglaterra, fica guerreando com Castela.

Carlos II, doentio filho de Felipe IV, morre sem sucessor e dá origem à Guerra de Sucessão Espanhola, na realidade guerra européia, pois durante dez anos a Europa se envolve num morticínio exemplar. Ganha a parada o neto de Luis XIV, que inaugura a

 

 

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dinastia Bourbon na Espanha como Felipe V, mas a Espanha perde suas possessões européias e, vergonha das vergonhas, o rochedo de Gibraltar. O empobrecimento do país continua. O novo rei ocupa a Catalunha e proíbe o uso oficial do catalão.

Um dado curioso: Charles Castel, abade de Saint Pierre, da delegação francesa que negocia a paz de Utrecht (1713), para pôr fim à Guerra de Sucessão, apresenta um “Projeto para perpetuar a paz” que recomenda que os países da Europa se unam numa “Liga de Nações” com um congresso de representantes permanente, uma força militar combinada, e medidas e moedas uniformes para toda Europa. Os congressistas devem ter disfarçado o riso, mas a bomba atômica  conseguirá tudo isto no séc. XX.

Os monarcas subseqüentes continuam o centralismo exacerbado e aí chegam as guerras napoleônicas. Em 1808 Napoleão decreta uma nova constituição para a Espanha, a Inquisição é abolida, o poder da Igreja é cortado drasticamente e as alfândegas interprovinciais são suprimidas. Num gesto simpático à Catalunha, em 1810 lhe concede autonomia e dá caráter oficial à língua catalã. Na queda de Napoleão torna a monarquia absoluta e volta tudo ao normal, ou seja, o atraso e a intolerância continuam.

O séc. XIX é marcado por brigas sucessórias, as Guerras Carlistas, e revoltas de toda ordem que espelham o tripé da tragédia espanhola: conflitos de classe, autoritarismo versus liberdade e centralismo contra regionalismo.

A Espanha, num clima de corrupção e de injustiça social incrível, perde suas últimas colônias numa guerra com os Estados Unidos no fim do séc. XIX e se envolve junto com a França numa intervenção no Marrocos, no início do séc. XX. Esta intervenção vai produzir alguns desastres militares com graves repercussões internas.

Em 1931 se instala a II República. É um período de grande agitação social. São discutidas as autonomias de diversas regiões, mas a demora nas discussões e a brevidade da República, onde parece que ninguém se entende, farão que nada seja resolvido. O assassinato do líder da oposição, o monarquista Calvo Sotelo, por forças de segurança fornece o pretexto para o início da Guerra Civil de 1936, na verdade o clímax de um século e meio de guerra civil não declarada.

O que era para ser um golpe militar, por falta de organização, excesso de otimismo, ou sinistros interesses externos, se transforma numa guerra de três anos e um milhão de mortos, muitos assassinados na retaguarda e outros no pós-guerra – parece que todo o ódio acumulado por séculos vem à tona. É uma guerra civil com grande intervenção estrangeira, principalmente da Alemanha, Itália, França e Rússia. É um conflito onde são testadas armas e estratégias para uso na briga de grandes proporções que será travada a seguir. Ganha a parte que apresenta maior organização e coesão das forças que a compõem. Perde a República, fragmentada em numerosas correntes políticas aparentemente incompatíveis e fragilizada pela perseguição dos estalinistas (donos das armas) a troksquistas, anarquistas e voluntários internacionais idealistas, entre eles intelectuais como Saint Exupéry e George Orwell, visionários que queriam ajudar a Espanha a sair de seu marasmo medieval.

O líder dos vencedores, general Francisco Franco, adota a postura de católico fervoroso, e retoma o ideal dos Reis Católicos: a Espanha só pode ter uma religião e uma língua e deverá ser uma monarquia. Mesmo sendo galego abraça o centralismo castelhano com o maior entusiasmo e como qualquer monarca absoluto não abre mão de nomear os bispos nem de punir exemplarmente qualquer ameaça à sua autoridade.

Mas desta vez a Espanha tem sorte: a guerra fria a transforma numa peça essencial na

 

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política dos Estados Unidos, que cedem a todas as exigências do General; a Europa Ocidental tem uma recuperação acelerada e a Alemanha absorve levas de humildes trabalhadores espanhóis transformando-os em consumidores; o país  é pacificado após séculos de conflitos; são criadas leis trabalhistas que valorizam o trabalho – tão desprezado pelas classes altas espanholas; a alfabetização dá um pulo significativo, assim como a higiene; ministros competentes – diziam que a metade dos ministros de Franco eram de botas (militares) e a outra metade “devotos” (da Opus Dei), criam uma base energética que fará possível a industrialização e preparam o caminho que transformará a Espanha numa potência turística. Isto último me parece ser a porta que fez entrar a Espanha no mundo moderno.

Em 1975 morre o ditador. Dois anos depois 17 regiões espanholas são declaradas autônomas, cada uma podendo falar a língua que quiser. A boa sorte do país, que está numa situação difícil, continua: a Europa cresce a pesar da primeira crise do petróleo; a democracia se afirma: o rei Juan Carlos em quem poucos faziam fé é um bastião da monarquia parlamentarista; em 1986 Espanha e Portugal entram na Comunidade Econômica Européia (incrível! Parece que Portugal e Espanha por fim estão em paz); governos excelentes fazem da Espanha um país rico com índices de desenvolvimento humano similares aos da Suécia; as vias romanas se transformam em autopistas e trens excelentes, e a Espanha é o segundo país do mundo que mais recebe turistas, com o intercambio de idéias que isto representa.

Tentei mostrar os principais surtos de fanatismo e intolerância que, querendo conseguir a unidade, transformaram-na num sonho irrealizável. Ao contrário, 30 anos de tolerância e compreensão – o exemplo são os “Pactos de La Moncloa”, criaram uma nova sociedade aberta para o mundo.

A história poderia ser diferente? Com certeza. Seria melhor? Não podemos saber, mas qualquer mudança seria desagradável para nós, pois não teríamos nascido. Assim, devemos ser compreensivos com nossos ancestrais.

Mas nem tudo são rosas: há problemas nas duas regiões mais industrializadas do país: no País Basco, uma minoria radical que despertou simpatias apelando ao terrorismo para lutar pela liberdade no tempo da ditadura, o continua usando, sem nenhuma explicação, para tentar impor o desejo de independência de uma minoria; a Catalunha também quer ser independente, mas usando meios políticos. O comportamento diferente dos separatismos basco e catalão os geógrafos o explicariam por serem os bascos montanheses e os catalães habitantes da planície; os etnógrafos, pelo isolamento dos bascos e a miscigenação dos catalães com todos os povos que por ali passaram, criando uma base cultural completamente diferente. Hoje, na era das autonomias e da União Européia, separatismos são difíceis de entender. Por que sair de uma sociedade que garante inequívocas vantagens? Por que deixar de usar uma língua falada por apreciável parte da humanidade? O “patriotismo municipal” é indomável? Ou a desconfiança do centralismo castelhano, decorrente de séculos de opressão é poderosa demais? A última hipótese me parece muito forte.

Saí da Espanha há 50 anos, deixando um país pobre onde a vida do indivíduo parecia ter sentido somente se sua crença fosse a única verdadeira. Hoje as pessoas respeitam e defendem as idéias diferentes dos vizinhos e consideram isso mais importante que a riqueza material que conseguiram. Essa mudança me deixa otimista: se aconteceu lá pode suceder em outros lugares. Afinal, todos nós vivemos sob as mesmas estrelas, por que não admirá-las juntos?

 

NOSSO FÓSFORO poema de julio almada

Sequestrar tua pupila
É a pira do meu olhar.
Só tua boca tranquila
Pode a minha acalmar.

Eu gosto é de conter
Fogo com gasolina.
Apagar e derreter
O céu desde a retina.

Tempestade de areia e deserto
Lua brilhante em tua mão
Dor no gozo ao certo

Cada carícia: maldição
Nada vejo estando perto
Afio as asas na prisão.

TEATRO e SILÊNCIO – poemas de eliane accioly fonseca

 

 

 

teatro

os personagens

apresentam-se

na flor da carne

 

 

 

 

silêncio

as faces
côncavas
de seu olho,

espelhos
negros micro-
firmamentos

piscinas de estrelas
e peixes abissais:
cegos videntes

 

 

VIVER poema de edu hoffman

 

seria cósmico

se não fosse prático

 

 

seria cômico

se nao fosse frágil

DAS RAÍZES DA FALA por darlan cunha

Energia intelectual e introvisão: eis os atributos da consciência do leitor solitário que mais se desenvolvem através da leitura.
HAROLD BLOOM. Por que ler.

 
Leio porque me enrijece e dana com mil vazões de sono e vigília e, mais ainda, leio pelo fato de que a união com a minha maior fonte de erros e acertos não é a mão do guarda nem a da tua mãe, nem aqueloutra figura arquetípica que, lá no fundo tu quiseste ter e não a tiveste. Saibas que eu sei de ti, que percebo quase tudo, pelo que podem os atos da leitura e da escritura me dar.

Escrevo porque são danações inequívocas, e é preciso pô-las ou superpô-las nalgum lugar ao sol ou nas brasas de algum acampamento, num breu de toca ou numa oca tão gritante quanto uma camisa do tipo habanera, e coisas mais que me fazem escrever (não corrigir) sobre manias & endemias – todas elas matéria de escrita, como se em palpos de aranhas, sobre ovos e vidros eu não andasse. Ora, escrevo para me danar, achar e espalhar mais danações.

CANTIGA do HERÓI RASGADO poema de altair de oliveira

 

Quis ter teu rosto num quadro

depois do estrago do drama

quis ler o rastro da chama

que um dia ardeu-te no esforço

de estar num meio adequado

pra mudar regras do jogo

mas vi somente o desgosto

do teu retrato irritado

por dor de todos os lados:

enfado, aborto de gozo…

 

 

Trouxeste traços de crenças,

de buscas e desistências…

ou eram meras esperas,

      ocultas por aparências,

das horas que se demoram

    rodando a rude existência?

 

Colho do pouco que foste

forçando a história no corpo

colo teus tristes pedaços

olho os teus frutos tão poucos

e sofro certo embaraço

pois deste um morto tão moço!

 

Penso nos loucos que às vezes

atiram pérolas aos porcos

ou lutam contra moinhos

ou matam morte dos outros…

…os que querem com tanta força

e fazem até que desfazem-se

e morrem sempre sozinhos

jazem inimigos do povo.

 

Altair de Oliveira – In: O Embebedário Diverso

 

CADA vez mais ANCIANO e melhores dias ANSIANDO – por josé zokner (juca)

RUMOREJANDO:

PEQUENAS CONSTATAÇÕES, NA FALTA DE MAIORES.

Constatação I

Mirem-se no exemplo das mulheres de Atenas (de uma canção do Chico Buarque de Holanda). Mirem-se, senhores deputados e senadores, no exemplo de alguns jogadores de futebol que estão fazendo algo por crianças carentes.

Constatação II

Rico assiste ao jogo do seu time nas cadeiras numeradas; pobre, dependendo do preço, na geral e em pé, fazendo parte da torcida (des)organizada.

Constatação III

Rico empurra com a barriga suas dívidas de curto prazo pra longo, melhorando o respectivo perfil; pobre vai pro Seproc.

Constatação IV

Quando o obcecado convencido leu na mídia:Um escândalo sexual abalou um hospital em Sarajevo depois que uma enfermeira entregou ao diretor da instituição de saúde uma lista com os nomes de 20 médicos, citando-os como potenciais pais de seu filho”, cuspiu para o lado, estufou o peito e concluiu do alto da sua inabalável convicção e presumida competência: “Pelo jeito o caso dela não foi possível resolver com a terapia recomendada por cada um dos 20 médicos – desculpem o cacófato, meus prezados. Manda ela pra cá que a gente dá um jeito de atendê-la nas suas compreensíveis sublimes ansiedades. Quanto ao filho, o exame de DNA resolve com relação à paternidade”.                                                                                            

Constatação V (Teoria da relatividade para principiantes).

É muito melhor escutar, por exemplo, Delicado e Brasileirinho, do saudoso Valdir Azevedo, do que rock pauleira, heavy metal e coisas desse jaez.

Constatação VI

Os buracos negros são o fim das estrelas; os namorados, de mão dada no banco da praça, olhando para o céu, são a glória delas.

Constatação VII (Poeminha nem um pouco atemporal).

Tem gente que toma uma bebedeira

Toda sexta-feira.

E tem gente que faz bandalheira

A semana inteira.

Constatação VIII (De uma dúvida crucial).

Foi o claudiense* Cláudio que claudicou com a Claudia?**

* Relativo a Cláudio MG ou o que é seu natural ou habitante (Houaiss).

 **Não ficou claro qual e/ou que tipo de claudicada. Quem souber, por favor, cartas à coluna. Obrigado.

Constatação IX (De outra dúvida crucial).

Pior do que uma endoscopia é engolir sapo? Ou uma colonoscopia?

Constatação X

Rico tem brilho próprio; pobre só dá na vista.

Constatação XI (Quadrinha para ser recitada em chás beneficentes das ricaças vaidosas pra quem dinheiro é de somenos importância para elas).

Não é possível!

Ela fica impassível

E não implica

Quando o preço triplica.

Constatação XII

Quando o obcecado leu na mídia que uma pesquisa realizada na Inglaterra concluiu que “programas de abstinência sexual não funcionam”, declarou do alto da sua sapiência: “E quem é que não sabe disso. A pesquisa é pura picaretagem de alguma empresa para faturar algum. E eu que pensei que só em nosso país existe desses trabalhos, cujos resultados são, a priori, óbvios”.

Constatação XIII

A gente só gosta de ser chamado(a) de querido(a), quando o chamamento não é comercial e, evidentemente, depende de quem nos chama. Elementar!

Constatação XIV

Foi a bromélia

Que disse pro bromelio:

“Me trate com amabilidade.

Pare de cheirar o epitélio

Da nossa vizinha camélia

E deixar que ela faça exame

No teu estame.

Respeite minha sensibilidade.

Eu não sou nenhuma Amélia,

A tal que era a mulher de verdade”

Constatação XV (Dúvida crucial via pseudo-haicai).

Foi o provérbio

Que disse: “Tenha modos!”

Para o advérbio?

Constatação XVI

Não se pode confundir franqueza com fraqueza, até porque até quem fala franco demonstra exatamente o contrário de fraqueza. A recíproca não é verdadeira porque uma sogra é franca até demais o que revela certa fraqueza em querer impor os seus eternamente equivocados argumentos…

Constatação XVII (Esclarecimento).

E não esqueça, prezado leitor, que quem toma cerveja em excesso não quer dizer que fica robusto. Quer dizer que fica barrigudo, pançudo e/ou coisas desse nada esbelto jaez.

Constatação XVIII

A perfeita correção

Nos pagamentos

Do nosso exigível

Necessariamente

É obrigação

Tão-somente.

Já o realizável

De quem nos deve

Há momentos,

Alegados,

Não ser possível

Pagar breve.

O que nos deixa

Desesperados

Com muita queixa

E com a sensação

Que fomos ludibriados,

Engabelados

Por um grosseirão.

E-mail: josezokner@rimasprimas.com.br

A MEDIUNIDADE e a PSICANÁLISE entrevista com sérgio felipe de oliveira

Fenomenologia orgânica e psíquica da mediunidade

Há quase um século se estuda os fenômenos orgânicos e psíquicos da mediunidade. No Brasil um dos mais importantes estudiosos nesta área é o neuropsiquiatra Sérgio Felipe de Oliveira, mestrado em Ciências pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e diretor da Clínica Pineal Mind de São Paulo.

Nesta entrevista para a revista “Saúde e Espiritualidade” (“Health and Spirituality”), Dr. Sérgio nos conta um pouco de seus estudos e investigações sobre a glândula pineal e a mediunidade.

A Ciência reconhece o tema da “mediunidade”?

O Código Internacional de Enfermidades (CID) N°10 (F44.3) de certa forma o reconhece; do mesmo modo que o tratado de Psiquiatria de Kaplane e Sadock, no capítulo sobre as teorias da Personalidade, quando se refere ao estado de transe e de possessão pelos espíritos. Carl Gustav Jung, fez um estudo com uma médium possuída por espíritos. Enfim, já é uma abertura para discutir o tema do ponto de vista científico.

No seu curso, como o senhor orienta as pessoas para o estudo da mediunidade?

De início, é necessário apresentar os conceitos de Universos Paralelos e a Teoria das Supercordas, porque essas hipóteses científicas buscam a unificação de todas as forças físicas conhecidas e pressupõem a existência de 11 dimensões, coincidindo com a revelação espírita sobre os diversos planos da vida espiritual. Temos que estudar também outros temas científicos importantes, tal como a energia flutuante quântica do vácuo, prevista por Einstein e desenvolvida por Paul Dirac, o teorema de Gödel e discutir um pouco sobre o tipo de matéria que participam da construção dos corpos sutis do espírito, além da dinâmica da Psicologia Transpessoal. Com isso entenderemos melhor como se dá a comunicação entre os espíritos, quer estejam encarnados ou desencarnados.



Que seria realmente a mediunidade?

A mediunidade é uma faculdade da percepção sensorial. Como qualquer faculdade deste tipo, para ser exercida, a mediunidade necessita de um órgão que capte e o outro que interprete. A nossa hipótese é que a glândula pineal é o órgão sensorial da mediunidade, como um telefone celular, que capta as ondas do aspecto eletromagnético, que vêm da dimensão espiritual, e o lóbulo frontal faz o juízo crítico da mensagem, auxiliado pelas demais áreas encefálicas.


Mas a glândula pineal não se calcifica depois dos 10 anos de idade?

De fato, ocorre o processo bio-mineral da glândula e ela se calcifica. Em minha tese de mestrado na USP, investiguei os cristais da glândula pineal mediante a difração dos raios X.

Eu usei também a tomografia computadorizada e a resonância magnética. Tive a oportunidade de observar nos cristais uma micro circulação sangüínea que os mantinha metabolicamente ativos e vivos.

Acredito que sejam estruturas diamagnéticas que repelem ligeiramente o campo magnético, cujas ondas se deixam ser recocheteadas de um cristal a outro. Isso é como um seqüestro dos campos magnéticos pela glândula. Quanto mais cristais uma pessoa tem, mais possibilidades terá de captar as ondas eletromagnéticas. Os Médiums ostensivos têm mais cristais.

Quais são os sintomas da mediunidade?

Variam dependendo do tipo da mediunidade. Nos fenômenos espíritas, como é o caso da psicofonia, da psicografia, da possessão, etc, há captação pelos cristais da glândula pineal e sua ativação adenergética, quero dizer que pode ocorrer ataque cardíaco, aumento do fluxo renal, circulação periférica diminuída, etc. Nos fenômenos psíquicos, em que a alma do encarnado se afasta do corpo, como em estado de desdobramento, os sintomas são outros: podemos ter distúrbios de sono, sonambulismo, terror noturno, ranger de dentes, angústia, fobia, etc. Encaixam-se aqui também os fenômenos de cura e ectoplasma. Nos psíquicos, ocorrem mais fenômenos colienergéticos: expansão das atividades do aparelho digestivo, diminuição da pressão arterial, etc.


Quer dizer que a mediunidade não se manifesta sempre como fenômeno paranormal?

Correto. Uma boa parte das vezes, se expressa mediante alterações do comportamento psicobiológico. A explicação é a seguinte: a glândula pineal, um órgão sensorial, capta as ondas magnéticas dos universos paralelos; a percepção seria enviada ao lóbulo frontal que a interpretaria. Para isso é necessário se ter um certo treino e, antes de mais nada, a transcendência, do contrário não há desenvolvimento nessa área.

E no caso de a pessoa não conseguir essa trascendência?

Nesse caso as ondas magnéticas vão influir diretamente sobre as áreas do hipotálamo e as estruturas ao seu redor, sem passar pelo juízo crítico do lóbulo frontal e sem receber seu comando. Conseqüentemente a pessoa perde o controle do comportamento psicobiológico e orgânico. É o que acontece em muitos casos de obesidade, quando a pessoa come sem fome ou nos casos de dificuldades nas relações sexuais.

Se o efeito se produz na área da agressividade, haverá talvez um aumento da auto-agressividade (desencadeando depressão e fobia) ou da hetero-agressividade (com violência contra outras pessoas). Se o sistema reticular ascendente é ativado (esse sistema é responsavel pelos estados de sono e vigilia) podem ocorrer distúrbios nessa área. Nos casos citados ocorrem sintomas sem desenvolvimento da mediunidade, com alterações hormonais, psiquiátricas ou orgânicas. Se não há o controle do lóbulo frontal, as áreas mais primitivas predominam. A pessoa não usa a capacidade de transcendência. Essas são hipóteses que acumulei durante as investigações e nos casos clínicos.


Se um paciente lhe perguntasse se o seu problema é espiritual ou orgânico, qual seria a sua resposta?

Não existe uma coisa separada da outra. Eu parto da hipótese de que a pessoa é um espírito. Por isso a influência espiritual tem repercursão biológica e os comportamentos psico-orgânicos têm influência sobre o espírito.

Qual e o caminho para a integração da ciência e da espiritualidade?

O cérebro está, como um embrião, ligado ao coração. Não existe raciocínio sem emoção. Somente a capacidade de amar constrói a verdadeira identidade das pessoas. Somente após a união definitiva entre a Ciência e a Espiritualidade, a humanidade poderá encontrar a paz e o amor.

o entrevistado,Sérgio Felipe de Oliveira, é neuropsiquiatra com mestrado em Ciências pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e diretor da Clínica Pineal Mind de São Paulo.

revista Saúde e Espiritualidade da Associação Médico Espírita.

ilustração do site.

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CLÍNICA PINEAL MIND

Rua Paulo Orozimbo, 916

FONE: 11. 3209-5531

Próxima ao Parque da Aclimação / SÃO PAULO. CAPITAL.

www.redevisao.net

o judiciário e você: é lamentável

é de arrepiar os cabelos, é de ir ao encontro do limite da paciência, é inacreditável! e nós assistindo tudo isso como se não nos dissesse respeito.

 

enquanto escovava os dentes, ouvi através do jornal HOJE (25/04/08 as 13:30) a seguinte notícia:

 

“pessoas portadoras de HIV, CÂNCER e ALZEIMHER, terão seus processos, de qualquer origem, julgados mais rapidamente pelo judiciário brasileiro.”

 

logo pensei “então temos agora mais alguns privilegiados, na rapidez de julgamentos enquanto autores.”

 

mordi a escova com tal força que estraçalhei as cerdas, mais um prejuízo!

enseguida imaginei “vai ter gente procurando parceiro com AIDS, transando até se esfolar para se contaminar, fazer o exame de sangue, entrar com pedido de juntada naquele processo que já rola há 10, 20, 30 ou mais anos no judiciário deste gigante que se nega a acordar.”

fiz o seguinte cálculo: o cara entrou com um processo aos 40 anos, já se passaram 20, ele agora está com 60, se contrair HIV e com os tratamentos de hoje ele vive mais 15! excelente! na mosca! o processo dele será julgado “imediatamente” e ele poderá, então, curtir a sua vitória que só viria caso não se contaminasse daqui mais 20 ou 30 anos, ou seja, estaria com 80 ou 90 anos, se vivo. recebendo agora com 60 tem mais 15 para aproveitar o ganho!

 

os advogados passarão a atender com luvas cirurgicas!

 

aviso “quem não estiver com uma dessas doenças, que deixe responsáveis para pagamento das custas e advogados antes de morrer!”

 

ridículo! simplesmente ridículo. mas a triste e cruel verdade.

 

a justiça que era cega, coisa que nunca acreditei, agora passa a espiar por baixo da venda e com isso eleger privilégios, ainda que com discurso “humanitário” assumindo, assim, que milhares de pessoas com processos nas diversas instâncias MORREM antes do julgamento final!

 

o privilégio, senhores do judiciário, deve ser de todo cidadão brasileiro que, com grande sacrifício paga “o custo Brasil,” os senhores inclusos, bate às portas em busca de uma decisão isenta e rápida, óbvio, antes da morte natural. 

 

sinto-me um “cidadão de segunda classe” como afirmava meu grande e bom amigo Darcy Ribeiro.

 

JB VIDAL

CARTA a um amigo que sofre de “GOTA” por marilda confortin

Ao saber que sofrias de gota, procurei o Aurélio
para saber quão sério era teu problema.
Ele me respondeu de um jeito feio,
que Gota era um avião alemão usado para bombardeio.

Fiquei deveras preocupada…
Um avião do século passado caindo em cima do dedão

do meu amigo do coração?

Que estrago! 

A princípio achei meio ridícula aquela explicação e resolvi então

ler mais um pouquinho.
Mais abaixo estava escrito que gota também podia ser

“uma partícula de líquido em forma de esfera ou pêra”.

Pêra? Péra aí! 

Todo esse tititi por causa de uma gotícula minúscula

Que caiu no dedão do teu pé? qualé? 

O que é uma gota para um oceano?
Isso não pode causar tanto dano!

Os homens são mesmo fracos.
(vai vê que é por isso que Deus lhes deu saco).
Aurélio já perdendo a paciência me disse que gota dolorida

 é outra história, bem mais comprida:
Uma forma hereditária de artrite caracterizada por hiperuricemia e recidivas paroxísticas agudas que ocorre numa articulação periférica.”  

Tem dó, dotô!
Eu sô só uma caipira, pira, porra!

Pelos palavrões que ele me disse, essa tal de gota,

deve dar uma dor da gota serena!
Fiquei com pena de você, gotoso.

Perguntei na internet qual era a causa do castigo que caiu sobre meu amigo:

“Elevação do ácido úrico no sangue com depósito de cristais de monourato de sódio”

Ai cacete! Minotauro não mija, não?
Tem que mijá mais, home.     
E guardar cristais, pra quê? que mania de acumular riqueza! 
Gaste tudo em cerveja que você vive mais. 

“A crise inicial dura 3 a 10 dias e desaparece completamente. O paciente volta a levar vida normal. Fica sem tratamento porque não foi orientado ou porque não optou pelo que foi prescrito”

Que bonito isso. Igualzinho à dor de amor.  

Quando a dor passa, o vivente esquece, até que acontece tudo de novo

e o infeliz entra num círculo vicioso.

“Usar um antiinflamatório não-esteróide  intramuscular ou endovenoso. Quando a dor diminuir, passar para via oral”

Ta aí uma boa notícia: O gotoso pode usar a boca.

Por ora, desejo melhoras desse mal,

mas se precisar de ajuda na fase oral, tô dentro.  

NÓS por friedrich nietzsche

Nós só sentimos agrado para com os semelhantes – ou seja pelas imagens de nós próprios – quando sentimos comprazimento conosco.

 

E quanto mais estamos contentes conosco, mais detestamos o que nos é estranho: a aversão pelo que nos é estranho está na proporção da estima que temos por nós.

 

É em consequência dessa aversão que nós destruímos tudo o que é estranho, ao qual assim mostramos o nosso distanciamento. Mas o menosprezo por nós próprios pode levar-nos a uma compaixão geral para com a humanidade e pode ser utilizado, intencionalmente, para uma aproximação com os demais.

 

Temos necessidade do próximo para nos esquecermos de nós mesmos: o que leva à sociabilidade com muita gente. Somos dados a supor que também os outros têm desgosto com o que são; quando isto se verifica, então receberemos uma grande alegria: afinal, estamos na mesma situação. E, tal qual nos vemos forçados a suportar-nos, apesar do desgosto que temos com aquilo que somos, assim nos habituamos a suportar os nossos semelhantes. Assim, nós deixamos de desprezar os outros; a aversão para com eles diminui, e dá-se a reaproximação.

 

Eis porque, em virtude da doutrina do pecado e da condenação universal, o homem se aproxima de si mesmo. E até aqueles que detêm efetivamente o poder são de considerar, agora como dantes, sob este mesmo aspecto: é que, «no fundo, são uns pobres homens».

AMNÉSIA poema de jb vidal

saio

carros em velocidade

 

freadas atropelos

salto para trás

 

sinal amarelo

e tudo passa

verde e tudo passa

tudo passa no vermelho

 

merda

 

a guerra está declarada

homens e máquinas

em estranhos carinhos

 

trombadas

carnes e ferros retorcidos

num abraço inseparável

entre emoções e o nada

 

nas calçadas

passa a multidão

e não me vê

 

 

 

atiram-me

de um lado para outro

me equilibro e sigo

vacilante

 

com mais ou menos

oito anos de idade

uma fome corre

mãos ágeis

levam minha passagem da volta

 

as lágrimas brotam

de raiva e poluição

chaminés malditas

conjuntivite crônica

pulmões pretos

ar  ar

onde estás

 

a praça

sim na praça

talvez eu possa

repousar este corpo

ferido na alma

 

seringas quebradas

latas vazias

restos humanos

jogados nos bancos

o chão

cheira mijo e merda seca

o sol escaldante

faz ferver o asfalto

fumaça óleo queimado

suor

asfixia

 

as árvores

pedem sombra

procuro com os olhos

encontro o inferno

 

mudaram tudo

 

a praça

já não é mais

 

haja alma

ali

com os pensamentos

reagindo às marteladas

do bate-estacas

a noite

me abraça

 

atento perscruto

famintos pixotes

prostitutas

homicidas

cafetões

bêbados

drogas

mendigos

 

por todo lado

o éter exala forte

 

 

sirenas

corre-corre

gritos

estampidos

junto à mim

um corpo cai

 

seguramente terá

as homenagens das manchetes

 

 

entro num bar

sento à um canto

 

não bebo

 

a fome de oito anos

levou a passagem

que poderia transformar-se

num gole ardente e cremoso

 

observo que ali estão

cantadores violeiros poetas

 

vou sorvendo

um pouco da vida

de cada um

me animo

questiono

reflito

sorrio

percebo que na arte

a vida sofre, suavemente

 

 

saõ paulo 1976.

DOS DEUSES NATHIVOS poema de jairo pereira

o deus menor faz pássaros cantar à força

o deus crescido derruba árvores na floresta dos nossos sonhos

o deus supervivido banha-se no rio de águas limpas

antropomística minha veia artística

antropocênica autoral e desmedida

cresci com os entes iletrados da mata dancei a dança dos ventos sofri as marcas do tempo tangi sons diferenciados nos poemas pendurados nos galhos

sou eu que amo este verde este cheiro de seiva fresca sou eu no interior das madeiras podres

cresço com os deuses de       barro enfibrados de cipós silentes nas tocas escuras.

 

 

 

O FIM DO HOMEM poema de joão batista do lago

 

Finda o Homem!

E finda na sua essencialidade

Quando atinge a capacidade

Do excesso…

E quando atinge a incapacidade

Da falta…

Finda pois, assim,

O Homem.

Nada mais há por Ser

Já que tudo existe no não-Ser.

 

ESSE TREM LOCO poema de gustavo soares de lima

eu zarpei de banda
fui indo, pezando pesado sujo
zoro de tanto espicha
mas que vida tosca essa
que me enrosca pros lados de lá
de tanto guspir forte pro céu
que um dia eu ei de pegá
esse trem loco
buzina um som estranhio
que pega a xente e entrépi os dedo
os dedo que nem tenho mais
perdi na máquina de fazer fóvora
só pra vós me oiár.

 

A ROSA DESMORONADA por bárbara lia

Escrito após assistir ao documentário – Escritores sem fronteira

 

“Potência não é direito”  (Breyten Breytenbach)

“A Palestina é uma zona de linguagem desmoronada”
(José Saramago)

 

As luzes marcam os caminhos que levam à Jerusalém, do alto de um monte em Ramallah, Mahmoud Darwish aponta Jerusalém, e meio a escuridão uma estrada de luzes separa Palestina e Israel.

O poeta ouve as palavras de sol dos amigos que romperam distâncias para abraçá-lo em Ramallah.

Saramago coloca em um mural, na universidade de Bir Zeit, o seu recado. Um a um os escritores deixam uma mensagem ao povo, registro de sua passagem. Escritores de oito paises foram abraçar Mahmoud Darwish, que não pode deixar sua terra para encontrá-los. Todos com o mesmo assombro diante de um país desmoronado. Esta é a palavra, e o mundo só sabe de explosões de homens bombas. Não sabem dos tratados que tornam o dia a dia inviável. Não sabem das pressões, das máculas que impõem a um povo como decisão sem volta, um rastrear sem fim de um território, uma posse sem direito, um ultraje. Saramago desenha uma flor, escreve abaixo o nome Palestina e a frase “Falta água a esta flor”. Falta água, falta abrigo, falta até mesmo o olhar de Deus para secar o pranto do homem que chora, enquanto o soldado de Israel com uma serra elétrica nas mãos corta as oliveiras, uma a uma, com uma tenacidade fria. Entre arbustos tudo chora. O outro soldado vem e encobre a lente que mostra o que ninguém no mundo vê – a dominação que chega e tira a humanidade de um povo.

Saramago, em uma cena do documentário, fala para a câmera dentro de um ônibus. Ele tenta explicar o significado de suas palavras, que correram o mundo, quando, no início dessa viagem, comparou campos de refugiados palestinos com Auschwitz. Saramago diz que não poderia calar sobre o que viu, e o desespero do escritor ao saber que sua declaração poderia gerar um ataque à Ramallah.


Em outra cena, o escritor chinês Bei Dao conta que, quando se apresentou ao consulado israelense, em San Francisco, onde mora, para pedir um visto para viajar para a Palestina, o funcionário disse com um ar “blasé”: “Esse país não existe”.


Dois deles ganharam o prêmio máximo da literatura – Saramago e o nigeriano Wole Soyinko. Os outros são Cristian Salmon, da França, o sul-africano Breyten Breytenbach, o chinês Bei Dao, o norte-americano Russell Banks,o italiano Vincenzo Consolo e o espanhol Juan Goytisolo.

Sabreen é a palavra que ele aprendeu, diz o francês à platéia de um teatro “sabreen – paciência” A primeira palavra que ele aprendeu enfrentando algumas das 763 barreiras que existem na Palestina. O teatro demolido por tanques, dois dias depois de ter recebido os intelectuais do mundo que vieram abraçar Darwish.

Dois escritores à beira do Mediterrâneo e a frase de perplexidade:

– Temos mais de cinqüenta anos de experiências, percorremos todos os paises do mundo. A África, a América Latina, e nunca nos deparamos com um ultraje tão grande contra um povo.

Água de um azul belíssimo, ondas de um branco resoluto, cabelos brancos poucos, as vozes que tentam entender e articular o que nem a palavra, arte tão bem manejada, lapidada, esculpida, consegue. Atordoados diante deste mundo de casas desmoronadas, de estradas esburacadas, dois universos contidos em um espaço, um de caminhos de poeira, pedra e angústia; outro de estradas asfaltadas, de soldados com olhar de pedra. E diante da retaliação, opressão, demolição, e toda ofensa contra um povo inteiro, eles criam kamikazes, e depois apenas os kamikazes surgem como notícia de fogo e explosão e morte. Ninguém mostra a criança morta antes de chegar ao hospital barrada em um posto por militares. Ninguém vê os estudantes que precisam percorrer a pé quilômetros para contornar o muro e chegar à escola, as mães que vendem batata nas feiras para criar os filhos, o homem que trabalhou a terra a vida inteira e vê chegar o exército e derrubar suas oliveiras, símbolo de sua pátria. Ninguém vê um bairro inteiro com as paredes formando um túnel que um tanque ultrapassou lado a lado, tornando impossível a privacidade entre os que ali vivem, e ninguém vê que quando matam um homem bomba, matam também quinze vizinhos de cada lado, e demolem bairros, cidades, escolas…

ANDORINHAS – por zé beto (o do blog)

Elas voavam naquela parede amarela da área. Sempre. Pregadas, mas voavam. Três. Do mesmo tamanho. Simétricas. Vôo em direção ao teto de madeira, pintado de verde. Eu olhava sempre porque achava que um dia furariam aquele teto, o telhado e se juntariam às companheiras que, às vezes, em revoada, transitavam naquele espaço de céu na vila suburbana. Passou pela cabeça um dia bater palmas e pedir para a vizinha de rua para tocá-las. Mas tão misterioso quanto aquele vôo dos três pássaros eram aqueles vizinhos. Sempre tem gente assim nas ruas onde só existem casas. Naquele tempo, nos 60, então… Rua de terra, terrenos descampados que eram imensos parques de diversão para nossa turma, a da Maria do Carmo, e também campos de batalha para os inimigos da “Central’. Até que a gente soube que ali chegou a segunda televisão do pedaço. A primeira foi do doutor Milton, que não era dentista, mas um protético que veio da Bahia e abriu consultório onde se especializou em arrancar qualquer dor com o boticão que era o pavor de todo o bairro. Nunca falou em escovação. Seria o fim do ganha-pão para a família. Mas aquela casa das andorinhas na parede da área recebeu uma televisão e ali não seria tão fácil entrar como na sala do “dentista”, que ficava ao lado do consultório e onde um dia todo mundo viu o Santos bater o Milan duas vezes no Maracanã e se sagrar campeão mundial de clubes. Neste dia o doutor ficou tão doido que explodiu um despertador no teto. O mistério da outra casa era tão grande quanto o daquelas andorinhas a voar eternamente no mesmo lugar. Num 31 de dezembro roubamos uma garrafa de vinho e fizemos uma competição para quem bebia mais e mais rápido. Logo depois a vontade de ver a corrida da São Silvestre na televisão tomou conta do meu mundo bêbado. E só havia a casa misteriosa disponível, pois o protético tinha viajado para sua Bahia. Foram  lá e pediram. Entrei cambaleando e antes de atravessar a soleira da porta vi que os pássaros eram de louça e bem encaixados presos à parede amarela. Vi a largada da corrida. Vomitei no meio da sala. Os donos da casa eram pacientes e atenciosos. Colocaram-me para dormir numa cama deliciosa, depois que me limparam e passaram perfume. No quarto, pintado de rosa, havia andorinhas na parede. Eu achei que as de fora tinham entrado ali para me proteger dos males do mundo.

 

http://jornale.com.br/zebeto/

A LIBIDO por ricardo sehnem

A libido é um conceito muito trabalhado pela psicanálise que se constitui numa carga energética que tem origem na sexualidade. É importante ressaltar que a sexualidade não se localiza apenas no aparelho genital.A libido é uma energia humana que faz os indivíduos buscarem a realização de suas necessidades básicas, como a fome, por exemplo, e também as prazeirosas.

Parte da libido é reprimida a partir do complexo de Édipo, parte é deslocada para outros atos humanos como estudar, fazer arte, trabalhar e outras atividades que temos ao longo de nossas vidas, e uma última parte fica disponível para o prazer sexual.

A libido é a energia que move o homem a se relacionar com os objetos. Se não fosse pela libido o homem não iniciaria sua relação com o mundo. É esta energia que garante que as crianças comecem a brincar, locomoverem-se e explorar a realidade à sua volta.

A capacidade de canalizar a libido para o mundo exterior é fundamental para o equilíbrio do ser humano. Problemas nesta canalização podem ocasionar falhas na socialização, como o autismo, auto-agressão, masturbação compulsiva e outros distúrbios de comportamento. Na linguagem comum, a libido pode ser entendida como “vontade” e para entender melhor este conceito podemos nos remeter a nossas expressões quotidianas: “não estou com vontade”; “sem vontade não há solução”.

Estas formas de expressão sinalizam a importância da libido em todas as nossas ações. Libido é um termo que significa vontade e desejo. De um ponto de vista qualitativo, Freud definiu que a libido é irredutível a uma energia mental não especificada como propunha Jung. Para Freud a libido afirma-se sempre mais como um processo quantitativo, permitindo medir os processos e as transformações no domínio da excitação sexual.

 

 

SUSSURROS (da novela ULSISCOR) de walmor marcellino

 

 

Não desejo, não insisto que façam sempre silêncio; tantas vezes alteei a voz. Até gostaria que as artes e seu convencimento inundassem o universo. Iremos ao afogamento!

Todavia, há uma voz estrênua à distância, um canto esplendente, uma melodia estreme, que constituem nossa razão última, depois da qual nenhuma invocação ou grito deve perturbar. Viva-se essa acalmia enquanto se preparam os combates.

Se não conseguimos olho a olho, a voz semente, ouvido atento, na confabulação das pessoas provadamente reais, tudo o que nos afasta é ruído, é turvação do espírito, alienação do ser. Silêncio, por favor!

Por assim, eu imploro muito silêncio; para que se oiça esse monocórdio; para que se assuma a inquietação sem choros nem clangores. Para ouvir-se o sopro do espírito, a possível comunhão sincrônica, onde dissolvem as vontades desorientadas.

Porque eu sou materialista da antimatéria, atemporal na cronicidade estuante; um objeto circundado de elementos; que somente contradiz nas pulsões.

Tem um filho da puta tocando um disco enrolado na pélvis; tem uma fêmea clamando aos solavancos no celular: “ninguém compra minha bainha!”; tem uma televisão avisando o apocalipse de outrem; tem uma pessoa que me convida a esquecer que não vamos a parte alguma. Como já é sabido, as pessoas com seu eu.

Eles querem, na verdade exigem que você se suicide; porque à falta de notícia, a sensibilidade lhes vai esmaecendo para coisas triviais… Então, não lhes facilite a miserável existência. Grite bem alto: façam silêncio!”

Ficção não é alegria; é uma tristeza suspensa. Mas ficção é a porta de saída do inferno de nossas vidas. Bastaria bater a porta e dar por cerrada, nunca mais, a pugna sedenta; porém as sombras nos acompanham, começam onde inicia o eu, e se bifurcam profusas.

Daí a ficção ser profusa inelutavelmente. Portudo, ficção não se aliena delevelmente; é uma tentativa de liberdade em alguma direção inadvertida. O sujeito vai trocado, é verdade, como fosse um complemento; e o leitor, o prescindível agente, o abjeto figurante é desprezado como um comparsa da aventura possível. Sem os mistérios criados.

Você que é “temporão” como se fala para atenuar seus débitos; ou você “decadente” para acentuar-lhe o passado; ou simplesmente “peregrino” para caracterizar que expatriado não tem sombra, precisa convencer-se de que o rebanho precisa ser nutrido, curado, tosado e disposto. E desde então exsurge o livre arbítrio que o deus da fortuna lhe reserva. Pode escolher a sua vez!


ENTREMUNDOS DA CIA. de DANÇA por raíssa machado

O vazio pode ser como a palavra que se aprende.

Os sons que a gente escuta, a ferocidade das pessoas, as letras unificadas ainda mesmo quando pequenos, ou ainda nem nascidos.

O vazio deve ser mais explícito nos desejos, sonhos, ternura familiar e particular na vida de um escritor. A pessoa que escreve não tem outro recurso, a não ser o de criar com a beleza das suas palavras, o seu mundo, a sua história, ter as suas invenções, a sua fé, o seu estado de humor, de lógica, de simplicidade, de humanidade e de um pouco de inocência quando for falar da verdade na linguagem.

O homem que escreve precisa ser fiel aos caminhos da palavra, falo de não desistir, e de poder escrever coisas boas. De poder descrever os fatos com intensidade e não falsidade que faz os seus leitores não lerem mais, e não agradarem da leitura e da escrita e da não compreensão de uma opinião tão severa e sólida, sem nexo para o universo de escrever, ouvir e falar na existência e batalha atual.

O vazio tem suas especialidades com as pessoas, se você observar a vida de uma dona de casa, de classe média, o seu vazio é de um tipo, com um artista gravador, o seu vazio é outro, o do engraxate, do aposentado de conversa no “Café Nice”, do estudante, da professora, de uma dançarina… Enfim, cada sujeito tem as suas tendências em vista por uma cidade grande e inibida como Belo Horizonte.

Um crítico que diz que um trabalho de dança, que é um processo cristalizado na arte, foi como resultado “um passo para trás”, o que a arte deve fazer com este cenário então? Poluído, frio, deserto, incompreensível e alimentado.

A vida é imagem, transparência, corriqueira aos olhos do que é certo e errado bom e ruim.

A vida não é escrita, ainda… E talvez só as pessoas que se desenvolverem emocionalmente; venham ter capacidades de adquirir o mundo e a bela vista!

 

 

 

 

PARTO PREMATURO conto de otaciel de oliveira melo

 

Encontrava-me na casa de um amigo, no Recife, preparando-me para retornar na madrugada do dia seguinte para Fortaleza. Na noite da véspera da viagem ligo para uma cooperativa de taxistas e, à mulher que me atende, explico que preciso de um táxi por volta das três e meia da manhã, para me levar ao aeroporto dos Guararapes. Confirmo a corrida ao me acordar naquela madrugada, como ficou acertado, e trinta minutos depois me encontro defronte ao prédio da Rua da Hora, Espinheiro, onde me hospedara.

                    Aproxima-se um táxi, um Gol bege, dirigido por uma mulher, que pára e me pergunta:“Senhor Jaciel?”. Meu nome na realidade é OTACIEL, mas como ninguém nunca compreende este nome à primeira vez que o pronuncio, eu respondi “sim”.

                    Acomodei-me no banco traseiro com minha bagagem de mão e, a pedido da motorista, tracei o percurso a ser percorrido: “Estrada dos Remédios, Afogados, Avenida da Imbiribeira, Aeroporto”.

                    Mal tínhamos alcançado a Estrada dos Remédios quando a motorista virou-se para mim e disse que estava passando muito mal. Foi nesse momento que observei que ela estava com uma barriga enorme, e imediatamente perguntei:

– A senhora esta grávida?

– Sim, estou.

– De quantos meses?

– De oito, se não me falha a memória.

        Diante daquela declaração inesperada de aparente sofrimento, conjecturei que aquilo poderia ser um assalto programado e que a qualquer momento ela frearia o carro e apareceria um sujeito com uma arma apontada para minha cabeça, exigindo a entrega de todos os meus pertences, e me deixando, na melhor das hipóteses, numa esquina qualquer daquela estrada, sem remédio. Imediatamente ordenei àquela mulher que parasse o táxi, que me entregasse as chaves do carro e que passasse para o banco dianteiro de passageiros. Ela me obedeceu sem comentários, e seguiu-se o diálogo:

– E por que a senhora, grávida, dirige um táxi numa cidade violenta como Recife, e logo de madrugada?

– Porque o meu marido teve um AVC, está com o braço esquerdo imobilizado, e a única fonte de renda que temos é esse táxi, que é alugado durante o dia para outro motorista, conhecido nosso, por R$ 50,00 a diária; mas como as despesas de manutenção são por nossa conta (pneus, amortecedores, troca de óleo, etc.), sobra muito pouco e eu tenho que me virar à noite.

– Mas por que então a senhora não dirige durante o dia, que é mais seguro?

– Bem, o problema é o calor, já que este carro não tem ar-condicionado, e, além disso, eu NÃO tenho carteira de motorista. Depois das 22 horas é muito mais difícil ser parada por uma blitz.

– A senhora não tem carteira de motorista?

– Não, não tenho.

– E quem lhe ensinou a dirigir?

– A necessidade de sobrevivência.

– Eu nunca ouvi falar dessa auto-escola. Onde a senhora mora?

– Eu me escondo em Prazeres, numa rua que fica aproximadamente a 4 km depois do aeroporto. Não foi à toa que eu peguei esta corrida para um local bem perto da minha casa. Eu já estava me sentindo mal desde uma hora da manhã, mas me agüentei por causa desta corrida.

– Este é o seu primeiro filho?

– É. Apesar de já ter 32 anos, este é o meu primeiro filho.

– Já sabe o sexo da criança?

– Menino.

– E o que a senhora está exatamente sentindo, agora?

– Sinto que vou parir a qualquer momento, e por isso eu peço ao senhor que me deixe ligar do meu celular para o da minha cunhada, para ela colocar numa sacola plástica as coisas que eu preciso pra ficar um ou dois dias na maternidade, que fica próxima da minha residência.

        Ao ouvir tal frase eu fiquei tão nervoso que mal conseguia manter o pé fixo no acelerador do veículo, de maneira a desenvolver uma velocidade aproximadamente constante. Meus pés tremiam mais do que um martelete desses de quebrar asfalto, eu suava mais do que um tirador de espírito (hoje chamado eufemisticamente de exorcista), e, com um misto de pavor e humor, me escapou o seguinte comentário:

– Minha senhora, pelo amor de Deus, não dê à luz esta criança dentro desta viatura. Eu juro pela hóstia consagrada que eu nunca fiz um parto em toda a minha vida. Olhe, eu não tenho nesta bolsa de viagem sequer um cortador de unhas. Como eu poderei então cortar o cordão umbilical? Com os dentes?

        Rindo, ela entrou em contato com a cunhada, esclarecendo a situação. Continuei a dirigir o táxi até Prazeres, e naquele bairro do município de Jaboatão dos Guararapes, depois de circularmos por um labirinto de ruas e vielas apertadas, chegamos finalmente à casa da taxista: uma residência simples, em construção, com tijolos desnudos e piso de barro batido. Cunhada e marido estavam a postos e era notória a dificuldade de mobilização do braço esquerdo deste último.

        Os dois irmãos entraram no carro e eu continuei dirigindo até a maternidade. Lá chegando, eu perguntei quanto era a corrida. Eles não queriam cobrar nada e só depois de explicar que aquele era o meu

primeiro presente para o garoto que nasceria em alguns minutos, resolveram receber os R$ 35,00 registrados no taxímetro. Solicitei à cunhada o número do seu celular e prometi telefonar na tarde daquele mesmo dia, quando chegasse a Fortaleza, para saber das novidades. Peguei um táxi, dos que estavam parados defronte à maternidade, desta vez observando melhor quem o dirigia, e solicitei ao motorista pressa em direção ao aeroporto. Ali cheguei por volta das 4:30 h, mas como carregava apenas uma bagagem de mão, consegui embarcar no vôo programado.

       Na tarde daquele mesmo dia telefono para a cunhada da “minha passageira”:

– E então: como está a nossa mamãe?

– Deu tudo certo: o parto foi prematuro, porém mãe e filho estão passando bem. O menino pesa 3 quilos e seiscentos gramas e tem a cara do pai. A propósito, ela quer saber o seu nome para colocar no garoto.

– Sério?

– É mesmo.

– Meu nome é Otaciel.

– Como?

– O-ta-ci-el.

– Vote (ô), é muito feio! Acho que ela não vai colocar esse nome no meu sobrinho, não.

 

 

 

O DIA DO OUTRO por darlan cunha

Hoje não é dia de se comemorar nada com o Outro, mas farei com que seja, embora não me apeteça agradar por agradar, ou agarrar oportunidades reais e fictícias que me atravessem o caminho. Vivo de mim, e não longe de mim vive o mundo com a sua cabala, seus meandros, suas roupas de baixo.

Fui a um circo, onde fiquei mais tempo do que pode sugerir a simples ida a um divertimento; mas é que em tudo há mais de uma face (ou disfarce), e então entrei de naquele ambiente, arriscando-me talvez a pegar a alegria de algum animal, ou de levar uma mordida, mas

é torrando farinha que se aprende o pão; é fuçando nas latas de lixo que a gente começa a entender de luxo e luxúria, não é mesmo ?

O dia do Outro talvez não se mantenha como uma data a ser repetida por mim, mas não vejo porque não possa fazê-lo quem queira experimentar, e então sair dele com algum novo sestro, nova visão da Vida, do Outro.

 

PALÁCIO VENÂNCIO LÓPEZ por ewaldo schleder

Achei na Internet o Asunción Palace Hotel, na capital paraguaia. A idéia era ficar ali hospedado uma semana. Escolha em função da localização, do preço e da pitoresca história do Palace. Porém, a hospitalidade da casa e o fascínio das horas seguintes me fizeram ficar, prazerosamente, por mais alguns dias nessa caliente cidade.

 

Pouco distante no tempo, há 10 anos, lá mesmo em Assunção conheci outro palácio; também hotel, luxuoso, com seus cristais, pratas e gesso polido. Ali morou madama Linch – a bela irlandesa que Francisco Solano López, apaixonado, trouxe de Paris. Uma grã-fina do Sena para rivalizar, mais tarde, com a nativa Pancha Garmendia, sua outra paixão. Sem dúvida, um duro teste para aquele coração napoleônico.         

 

De volta às surpreendentes colunatas dóricas e coríntias do Asunción Palace. A curiosidade é que na agonia da Guerra Grande (Guerra do Paraguai ou da Tríplice Aliança, 1864-1870) o palacete teve a bandeira brasileira hasteada em suas cumeeiras. Na ocasião, o imponente palácio serviu de hospital aos feridos das tropas de Osório. Nos dias de hoje, a memória se fragmenta pelos corredores do hotel; nos quadros das paredes, na luz, na sombra, nos detalhes de um passado comum.

 

Construída pelos idos do governo (1844-1854) de Carlos Antonio López, a majestosa casa seria a morada do seu filho mais novo, Venâncio López. Carlos Antonio presidiu o Paraguai no auge do seu desenvolvimento, entre dois históricos ditadores: José Gaspar de Francia, el supremo, e seu outro filho, Francisco Solano, el generalito. A obra foi encomendada ao arquiteto italiano Alessandro Ravizza, que já assinara outras importantes construções na pujante Assunção daqueles anos – meados do século 19, antes da guerra.

 

A esperada inauguração foi em 1858, com um grande baile. O ritmo em voga era a polka, novidade musical recém-chegada da Europa. No aprazível local, em companhia de amigos – e amigas – Venâncio promovia o festejado happy-hour. Sentados na varanda que dá para a avenida Colón, os privilegiados comensais tagarelavam, se divertiam, estouravam champagne français e, extasiados, ficavam a admirar o pôr-do-sol no rio Paraguai, até chegar la noche tíbia.

 

De um palacete na esquina da Colón com Estrella, em Assunção, reminiscências românticas velam o drama da guerra. Ali já foi o Hotel Argentino e foi o Cosmos. Nesse local, em 1928, foi apresentada pela primeira vez em público – a um povo entristecido, desacostumado a espetáculos de tal natureza – a tradicional guarânia Jejui, na presença do então presidente da República, o liberal Eligio Ayala.

 

Em 1943, o Palácio Venancio López vem tornar-se o atual Asunción Palace Hotel. Parte viva do cenário urbano da Bacia do Prata. A estética do prédio revela o esplendor da arquitetura de um Paraguai que anseia renascer. O registro do inestimável patrimônio como Bien Cultural de la Nación vem garantir a sua preservação. Sua fachada: símbolo de resistência cultural da cidade e sua sofrida história. A dar boas-vindas aos visitantes de todas as partes. Para ser apreciada, em tempos da paz que se consagra.

 

 

DISCRIMINAÇÃO CONTRA OS BRANCOS por ives gandra da silva martins

Hoje, tenho eu a impressão de que o ‘cidadão comum e branco’ é agressivamente discriminado pelas autoridades e pela legislação infraconstitucional, a favor de outros cidadãos, desde que sejam índios, afrodescendentes, homossexuais ou se auto-declarem pertencentes a minorias submetidas a possíveis preconceitos.

Assim é que, se um branco, um índio ou um afrodescendente tiverem a mesma nota em um vestibular, pouco acima da linha de corte para ingresso nas Universidades e as vagas forem limitadas, o branco será excluído, de imediato, a favor de um deles. Em igualdade de condições, o branco é um cidadão inferior e deve ser discriminado, apesar da Lei Maior.

Os índios, que pela Constituição (Art. 231) só deveriam ter direito às terras que ocupassem em 5 de outubro de 1988, por lei infraconstitucional passaram a ter direito a terras que ocuparam no passado. Menos de meio milhão de índios brasileiros – não contando os argentinos, bolivianos, paraguaios, uruguaios que pretendem ser beneficiados também – passaram a ser donos de 15% do território nacional, enquanto os outros 183 milhões de habitantes dispõem apenas de 85% dele. Nesta exegese equivocada da Lei Suprema, todos os brasileiros não índios foram discriminados.

Aos ‘quilombolas’, que deveriam ser apenas os descendentes dos participantes de quilombos, e não os afrodescendentes, em geral, que vivem em torno daquelas antigas comunidades, tem sido destinada, também, parcela de território consideravelmente maior do que a Constituição permite (art. 68 ADCT), em clara discriminação ao cidadão que não se enquadra nesse conceito.

Os homossexuais obtiveram, do Presidente Lula e da Ministra Dilma Roussef, o direito de ter um congresso financiado por dinheiro público, para realçar as suas tendências, algo que um cidadão comum jamais conseguiria.

Os invasores de terras, que violentam, diariamente, a Constituição, vão passar a ter aposentadoria, num reconhecimento explícito de que o governo considera, mais que legítima, meritória a conduta consistente em agredir o direito. Trata-se de clara discriminação em relação ao cidadão comum, desempregado, que não tem este ‘privilégio’, porque cumpre a lei.

Desertores e assassinos, que, no passado, participaram da guerrilha, garantem a seus descendentes polpudas indenizações, pagas pelos contribuintes brasileiros. Está, hoje, em torno de 4 bilhões de reais o que é retirado dos pagadores de tributos para ‘ressarcir’ àqueles que resolveram pegar em armas contra o governo militar ou se disseram perseguidos.

E são tantas as discriminações, que é de se perguntar: de que vale o inciso IV do art. 3º da Lei Suprema?

Como modesto advogado, cidadão comum e branco, sinto-me discriminado e cada vez com menos espaço, nesta terra de castas e privilégios.

“Uma sociedade só é democrática quando ninguém for tão rico que possa comprar alguém e ninguém seja tão pobre que tenha de se vender a alguém”.
(Rousseau).

 

 

MÁRIO QUINTANA por mário quintana

Nasci em Alegrete, em 30 de julho de 1906. Creio que foi a principal coisa que me aconteceu. E agora pedem-me que fale sobre mim mesmo. Bem! Eu sempre achei que toda confissão não transfigurada pela arte é indecente. Minha vida está nos meus poemas, meus poemas são eu mesmo, nunca escrevi uma vírgula que não fosse uma confissão. Ah! mas o que querem são detalhes, cruezas, fofocas… Aí vai! Estou com 78 anos, mas sem idade. Idades só há duas: ou se está vivo ou morto. Neste último caso é idade demais, pois foi-nos prometida a Eternidade.
Nasci no rigor do inverno, temperatura: 1grau; e ainda por cima prematuramente, o que me deixava meio complexado, pois achava que não astava pronto. Até que um dia descobri que alguém tão completo como Winston Churchill nascera prematuro – o mesmo tendo acontecido a sir Isaac Newton! Excusez du peu… Prefiro citar a opinião dos outros sobre mim. Dizem que sou modesto. Pelo contrário, sou tão orgulhoso que acho que nunca escrevi algo à minha altura. Porque poesia é insatisfação, um anseio de auto-superação. Um poeta satisfeito não satisfaz. Dizem que sou tímido. Nada disso! sou é caladão, introspectivo. Não sei porque sujeitam os introvertidos a tratamentos.

Só por não poderem ser chatos como os outros?
Exatamente por execrar a chatice, a longuidão, é que eu adoro a síntese. Outro elemento da poesia é a busca da forma (não da fôrma), a dosagem das palavras. Talvez concorra para esse meu cuidado o fato de ter sido prático de farmácia durante cinco anos. Note-se que é o mesmo caso de Carlos Drummond de Andrade, de Alberto de Oliveira, de Érico Veríssimo – que bem sabem (ou souberam) o que é a luta amorosa com as palavras.

PÉS: estes órgãos íntimos – por jorge barbosa filho

 

Já pegaram no teu pé? Não? Que tal o seu chefe? O seu amigo? O time ou grupo onde você atua? “Pegar no pé” é uma atitude de reprimenda quando você vacila, falha ou comete algum erro. “Pegar no pé” exige alguma relação próxima de amizade, de trabalho ou íntima. Você não pegaria (declaradamente) no pé de quem você não conhece. Pegaria? Improvável…

Em nossas relações de amizade, amor e intimidade temos acesso a esse ato que a locução “pegar no pé” propõe, mas pegar no pé de alguém, literalmente, ou seja, meter a mão no pé de alguém ou passar a mão no pé de alguém, exige muita intimidade, com exceção dos médicos, podólogos e manicures. Já imaginou um estranho ou uma pessoa com a qual não tenhamos muita intimidade, passar a mão nos pés de nossos filho(a)s, namorado(a)s maridos e esposas? Imaginou? Qual seria a sua reação? No mínimo levantaria alguma preocupação e estranheza, concorda?

Sua reação de estranheza e preocupação não é infundada, pois os pés sãos os meridianos de todos os órgãos. Daí, podemos dizer que os pés são sensíveis, sensuais e sexuais. É a promessa de nudez representada pela carne à mostra. Os pés são os caminhos da tão almejada realização sexual.

Por que as mulheres têm tara por sapatos, ou adornam seus pés com anéis e correntinhas? E os pezinhos das gueixas? Todas sabem que os pés atraem, haja vista que em uma pesquisa 70% dos homens e 30% das mulheres têm atração sensual pelos pés.

Na arte e vida sensualidade e sexualidade “dão pé” e se misturam. Henfil usou Fradim para confessar que gostava de pés; Glauco Matoso, o poeta e andropodólatra gostava de chupar pés. No cinema várias cenas: Bridget Fonda em “Jackie Brown”, Salma Hayek em “Um drink no Inferno”, “Pulp Fiction” também há..Todos de Quentin Taratino confesso amante de pés. E não para por aí, os devotos dos pés estão na pintura e ilustação dos italianos Franco Sandelli e Roberto Baldazzini, do japonês Hajime Sorayama, na poesia de Pablo Neruda (“os teus pés” e “o inseto”) e vai por aí. Pés não faltam pra “deixar o bicho de pé”.

Na minha modesta opinião, pés sempre foram vulvas, seios e bundas. Há cartesianos com pouca imaginação que contestam. É compreensível pois nunca fizeram um “consolo” em forma de pé.

Depois de todo o exposto, leitor(a) você deixaria alguém pegar no pé do(a) seu parceiro(a)?

A MORTE COMO ESPETÁCULO PARA UM PÚBLICO CATIVO – ESTE É O “SISTEMA GLOBO DE CULTURA” DA TV GLOBO

Mal saímos de um programa “cultural” de triste conteúdo, o famigerado BBB 8, e encontramos todo o “sistema da rede globo” empenhado em transformar uma tragédia familiar, o “CASO ISABELLA,” como ela denomina, em um espetáculo com características de novela, anunciando os próximos capítulos da locomoção dos pais, familiares, polícia, aparato de segurança e pior a própria TV indicando os locais de residência dos familiares para o público, que na maioria das vezes, está empenhado em esquecer mais este fato que envergonha o ser humano, indicando assim, para onde os desocupados e “parceiros” da Globo devam se dirigir afim de dar “vida” ao espetáculo.

 

Não se respeita a morte da pequena Isabella e nem a dor e sofrimento porque passam os familiares do casal. Já não podem sair das suas casas, pais, sobrinhos, tios, primos, NINGUÉM, sob pena de serem agredidos pelos “parceiros” em fúria estimulados pela rede. A tragédia e a comoção estão instaladas naquelas famílias, não bastasse isso, a imprensa insufla a população contra elas.

 

Primeiro o espetáculo. Primeiro o IBOPE. Primeiro o dinheiro.

 E, diga-se, em todas as redes de TV o mesmo primado.

 

Notícia sim, óbvio, é preciso informar, ainda que seja um fato brutal como esse. Daí transformá-lo em doses diárias de uma “mini série” angustiante para todos, inclusive para aqueles que, como eu, não estão sedentos de ver a desgraça humana para justificar sua estável existência, é simplesmente um abuso para com o telespectador de boa fé. 

 

Não há programa que não venha o anúncio “veja aqui em instantes, através dos nossos repórteres que já estão no local, as últimas informações do caso Isabella” inclusive em programas de culinária como o da Ana Maria Braga.

 

São simplesmente nojentas, desprezíveis essas atitudes tendenciosas da “democracia da informação.”

 

“Senhor anunciante, diante do alto índice de audiência em razão do “caso Isabella” nossa planilha de preços sofreu modificação.” Provavelmente a “brilhante ordem” do departamento comercial.

 

JB VIDAL

 

 

 NOTA DO EDITOR: o texto acima foi postado as 09:30 do dia 22/04/08.

 

AGORA são 23:00 do dia 22/04/08 e acabamos de receber esta notícia, que ilustra muito bem o que abordamos acima:

 

AGENCIA ESTADO.

 Isabella: detidos 2 por tentar invadir prédio de família

A Polícia Militar (PM) deteve hoje dois homens acusados de tentar invadir o prédio onde vivem os pais de Anna Carolina Jatobá, madrasta da menina Isabella Nardoni. A dupla tentou entrar no edifício em Guarulhos, na Grande São Paulo, por volta das 15h30, quando um carro deixava o imóvel. De acordo com a Rádio CBN, cerca de 40 manifestantes estavam no local no momento da confusão. Eles pediam justiça. Acusados de desacato, os dois homens foram encaminhados ao 2º Distrito Policial da cidade.

 

 

AURORA poema de manoel de andrade

Não direi que me encantas mais do que o silêncio

porque é assim que despertas as aves e os caminhos.

Meus olhos também nascem pelo parto da esperança

porque vivo na imortalidade

renascendo em cada dia.

 

Deixa-me rever em prece tua face ressurgida

porque tua luz é sempre uma catarse.

Teu olhar estende as linhas do horizonte

e toda a paisagem é  então uma ventura

e já não és mais nada

porque desfaleces no seio da beleza.

 

Repara como sou pequeno diante do teu rosto amanhecido

mas como é grande o que em mim te contempla.

Para renascer basta-me apenas teu momento

tua humilde majestade

tuas pétalas de fogo

e essa corola ardente

porque não  peço nada mais que a tua luz

inaugurando o mundo em cada alvorecer

e que nunca me encontres cego ou vencido.

 

                                                         Curitiba, abril de 2004

 

Extraído do livro “CANTARES”, publicado por ESCRITURAS

 

 

 

A POESIA e o POETA poema de manoel antonio bomfim

A poesia é um alimento
Que me nutre noite e dia
Enriquece meus sentimentos
Alaga os meus pensamentos
E me enche de alegria
 
É o melhor passatempo
Com ela eu chego ao céu
Dou cambalhota no tempo
Afasto qualquer tormento
Fico sorrindo ao léu 

Perdoem-me a pretensão
De achar que sou poeta
Escrevo com a emoção
Que vem do meu coração
De uma forma discreta 

O poeta é um sonhador
Grávido de esperança
Um peito cheio de amor
Que se afoga na dor
De uma simples criança 

É uma figura eterna
Uma mala de anseios
De atitude materna
Que até na seca hiberna
Escreve com ou sem rodeios 

O poeta vive de porre
Com tudo se embriaga
Nunca mata e nem morre
A todos ele socorre
Sua fé nunca se apaga

OBSERVANDO – I poema de eunice arruda

sim

as horas de trégua

Quando se afiam
               as facas

 

TRAPEZISTA poema de cecília meirelles

 

 

De que maneira chegaremos
às brancas portas da Via-láctea?

Será com asas ou com remos?
Será com os músculos com que saltas?

Leva-me agarrada aos teus ombros
como um cendal para agasalhar-te!

Seremos pássaros ou anjos
atravessando a sombra da tarde!

Deixaremos a terra juntos
e justapostos como metades,

sem o triste pó dos defuntos,
sem qualquer bruma que enlute os ares!

Sem nada de humanos assuntos:
muito mais puros, muito mais graves!

 

 

NOVOS PALAVREIROS NO SITE! É FESTA! pela editoria

este site a cada dia que passa avança a passos largos em direção aos seus objetivos que são divulgar a arte, a literatura, a poesia e os seus autores.
hoje estamos novamente em festa, as poetas MARILDA CONFORTIN, DEBORAH O’LINS DE BARROS, a escritora HELENA SUT e o poeta e pesquisador EDU HOFFMAN, compreederam o espírito público do site e aceitaram o  convite para se tornarem PALAVREIROS DA HORA, porque natos palavreiros são, e assim, divulgar suas obras por este meio ofertando mais opções aos nossos leitores. de grande valor estes novos âncoras que vem somar aos que já trabalham com os mesmos objetivos. os amigos PALAVREIROS lhes dão as boas vindas.
 

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MARILDA CONFORTIN

 

 

 

GOSTOSA!

 

Bela cantata!

Me allegro,

ma non treppo.

 

2.

A  outra

 

Hoje, uva

Amanhã, passa.

Eu, vinha.

 

 

3.

Bagagem literária

 

Nesta viagem

Leve um coração leve

e sobre tudo, um olhar de veludo.

 

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DEBORAH O’LINS DE BARROS

 

 

 Às vezes tenho certeza

Quase absolutamente,

De que sou meio louca,
Verdadeiramente.
Pois não tenho necessidade
De ácido lisérgico
E nem de lítio.
Mas quando vem reminiscências
De determinados fatos
Há muito ocorridos,
Me vem uma vontade insana

De ausência.

Ausência de pensamentos,

Mas não de sentimentos.

Há uma necessidade

De estar só.

Inclusive a minha própria presença

Me incomoda,

Quando essas reminiscências

Me recordam que

I miss the comfort in being sad.

 

Acho que relembrar

As mazelas do ontem

É como folhear

Um álbum de fotos onde

A trilha sonora escolhida

É a responsável por virar as páginas.

E agora resta a dúvida:

Será que remexer lembranças

É como lembrar da dívida

Que tenho comigo mesma?

Isso, na verdade,

Não importa.

Pois se o Corvo diz Nunca Mais,

Não há portas

Que abram para eu voltar.

E, pensando bem, parece hilário

Pois forjar tristeza

Se tornou, nada mais

Que recurso literário.

A saudade existe para provar

Que o passado não mata

E as reminiscências são só um mote

Para entender que o que não mata

Nos torna mais fortes.

 

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HELENA SUT

 

 

 

 

 

 

 

CAMELO, LEÃO E CRIANÇA

“Três transformações do espírito vos menciono: como o espírito se muda em camelo, e o camelo em leão, e o leão, finalmente, em criança.”

                                                                                                                          Friedrich Nietzsche

 

            Um crime contra a esperança! Sinto a exclamação permear os atos como se fosse incapaz de abrir uma nova janela para o futuro. Sem possibilidade de esquecimento, acumulo vivências afetivas, profissionais, sociais e políticas, recortando e colando os traumas junto às realizações e tentando suportar a longa travessia no deserto.

            Busco em vão os porquês, mas me surpreendo com as ambigüidades que encontro ou com as certezas que perco. Ora me acoberto com leituras para suportar as madrugadas frias, acordar sob o sol escaldante e permanecer viva na aridez do território, ora me escondo na própria releitura e reincido em narrativas que não surpreendem e que pesam excessivamente sobre a possibilidade de ser.

            O espírito sobrecarregado se projeta num corpo rendido ao descampado…

            Assim falou Zaratustra. A obra de Nietzsche me afasta do cotidiano. Transporto-me no tempo sem me importar muito com o espaço e vejo quando Zaratustra desce a montanha rumo às profundas inquietações de todos os seres. As transformações enunciadas em seu primeiro discurso me convencem da necessária metamorfose a que devemos nos submeter para vivermos de forma mais criativa, com mais desejo e força e sem tanta submissão aos “deveres” ou às verdades que não ousamos profanar com indagações.

            O espírito amadurecido percorre o deserto com o peso do seu estar no mundo. A perfeita representação do camelo – ruminante e decadente. Carregado de vivências e sem anseios de mudanças, o espírito permanece submisso à sua representação na sociedade. Um ser cansado e solitário num caminho desértico. Resignação e obediência.

            Tu deves…

            A existência do camelo possibilita a transformação em leão. O impulso e a coragem, expressos no querer pessoal em confronto com o dever coletivo, são características fundamentais para o novo espírito. Ser livre para apropriar-se do próprio deserto. A ferocidade do leão rasga o existente e com ímpeto rompe com os vínculos, mas não tem o poder da criação e se limita aos conhecidos desertos cotidianos.

            Eu quero…

            O espírito seria abatido pelo próprio desejo caso não se transformasse em criança. Eis a terceira metamorfose. O leão, após se libertar e apropriar da vida, torna-se uma criança e, com a inocência e o esquecimento, assume o jogo da recriação. Completo o ciclo de metamorfoses, o espírito livre é “uma roda que gira sobre si, um movimento, uma santa afirmação”.

            Eu sou…

            Apóio o livro na cabeceira enquanto aterrizo na realidade repleta de obrigações e noticiários. Novas metáforas brilham como perspectivas renovadas de céu sobre o deserto. Ainda não iniciei as metamorfoses necessárias a fim de compreender o eterno retorno e a necessidade de recomeçar com criatividade. Busco-me ainda leão…

 

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EDU HOFFMAN

 

 

 Araçás

 

 

 O sol se põe

no horizonte azul

do teu olhar

 

         recolho araçás

         no canto dos teus lábios

 

nem junho é

porém te vejo

em meus balões coloridos

 

          

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

E SE FALTAR ÁGUA? por gil portugal

Todos nós nos lembramos bem do sufoco por que passamos quando a energia elétrica ficou escassa e tivemos que “na marra” deixar de lado uma série de confortos aos quais estávamos acostumados.

Será que, de repente, poderíamos passar por outro sufoco se a água nossa de cada dia ficasse escassa?

Em particular, na nossa região, vocês já notaram os bancos de areia no Rio Paraíba do Sul onde pescadores caminham? Isso significa que o rio está vazio e é dele que os serviços de água retiram a água para tratá-la e colocá-la em nossas torneiras.

Essa água é cara, mas muitos nem ligam para isso. Ela contém cloro e flúor, importantes aditivos para matar bactérias nocivas e servir à dentição de nossas crianças.

Todavia, ela vai esgoto abaixo em abundância na lavagem de carros e calçadas, naqueles banhos demorados e na escovação de dentes com a torneira aberta, nas descargas prolongadas dos vasos sanitários e na rega de jardins. É muito luxo e desperdício.

Se pudéssemos usar água menos nobre para essas finalidades sobraria água para consumo nobre: matar a sede, nossos banhos, para cozinhar, para lavar a louça e a roupa etc.

E onde estaria essa água para consumo menos nobre? Diretamente nos rios ou nos poços, só que com qualidade duvidosa.

Mas existe outra água disponível? Eu diria que sim e muita e ela está em volta da gente, dissolvida no ar e prestes a cair em forma de chuva.

Em toda atmosfera de nosso Planeta se encontra “disfarçada” uma quantidade incrível de água que significa 13.000 km3 (treze mil quilômetros cúbicos) que traduzidos em litros são 13 bilhões, com o particular de que essa quantidade se renova (ou se repõe) a cada oito dias pela evaporação de todas as águas dos corpos d´água (rios, lagos, mares), solos e vegetais.

Para utilização dessa água é só saber como captar e armazenar águas de chuva. No caso das cidades se tivermos um telhado com calhas que conduzam essas águas para uma cisterna, um bombeamento as levará para uma caixa d´água que abastecerá todas as necessidades de uso menos nobres.

Em Volta Redonda temos exemplo disso funcionando no Instituto de Cultura Técnica e deve haver muitos outros.

Como se vê, além de conservar as matas e nascentes de rios, não desperdiçar água nobre, reaproveitar de alguma forma águas servidas e buscar fontes renováveis (água de chuva) são idéias que merecem ser pensadas se não quisermos passar pelo dissabor de ficarmos sem água.

 

 

 

 

ATÉ ONDE A VIOLÊNCIA CONTINUARÁ IMPERANDO, SE PERGUNTADO por josé zokner (juca)

PEQUENAS CONSTATAÇÕES, NA FALTA DE MAIORES.

 

Constatação I

Não se pode confundir vórtice, que o Aurelião dá, entre outros, como redemoinho com vértice, até porque redemoinho forma círculos concêntricos, tipo espiral, e o vértice, em geometria, é o ponto comum a duas ou mais retas. Elementar, minha gente!

 

Constatação II (Ah, esse nosso vernáculo).

Ele ficou de chifre virado porque seu time perdeu de virada.

 

Constatação III (Quadrinha para ser recitada para quem de direito, a fim de mostrar decepção ou satisfação, dependendo do gosto do freguês).

Fui a um concerto

De música clássica.

O repertório, um enxerto

Daquela era jurássica.

 

Constatação IV

Não se pode confundir confusão com contusão, muito embora numa confusão tenha muita gente que sai com contusão. A recíproca é, por vezes, verdadeira. Mormente no futebol, quando um jogador só dá entrada faltosa nos adversários e há reação de quem sofreu a agressão e/ou dos seus companheiros. Ou nos bailes como naquela música antológica: “Na gafieira segue o baile calmamente…”

 

Constatação V

E não se pode confundir conjectura com conjuntura, até porque toda conjectura favorável que se faça em determinados países, sempre entrarão algumas variáveis – a maior ainda é a corrupção – que afetará a conjuntura. Aliás, a palavra já esteve muito na moda, principalmente numa época em que se utilizava a expressão “Brasil é o país do futuro”, como está implícito na constatação anterior e tudo leva a crer que continuará sendo “per saecula saeculorum”.

 

Constatação VI

Não se pode confundir futura com fartura, até porque a gente tá cansado de ouvir, eternamente, em nosso país, que numa era futura teremos fartura de maneira tal que poderemos dividir um quase abstrato bolo que só é visto e usufruído por muitos poucos e a dita cuja fartura nunca se faz presente, nunca chega. A recíproca é como é e tá acabado. Tenho democraticamente dito!

 

Constatação VII

Rico convoca; pobre, convida

 

Constatação VIII (De uma obviedade).

Flor é feminino! E não poderia ser diferente. Seria possível imaginar “o flor”?

 

Constatação IX

Rico tem imaginação; pobre, é mentiroso.

 

Constatação X (Definição aparentemente repetitiva).

Na Câmara e no Senado de certos países se constata um balaio de gatos*, onde se verifica outro balaio-de-gatos** e gatos corporativos sem balaio-de-gatos.

*Conflito entre muitas pessoas; rolo, confusão.

**Local onde reina a desordem.

 

Constatação XI (Quadrinha para ser recitada para quem estiver disposto a ouvir).

Remei contra a corrente

E quase virei o barco

Quando vi que, num repente,

Estava remando num charco.

 

Constatação XII (Ah, esse nosso vernáculo).

O papudo quando bate-papo sobre a visita do Papa não tem papas na língua.

 

Constatação XIII

E como elucubrava o obcecado: “Não é que a gente queira morrer, mas viver um dia sem sexo indubitavelmente não é viver”.

 

Constatação XIV (De uma dúvida crucial via pseudo-haicai).

A pornografia

É um erotismo

Em demasia?

 

Constatação XV (De outra dúvida crucia, via pseudo-haicai).

Ninguém providencia

Que os médicos

Melhorem a caligrafia?

 

Constatação XVI

E ninguém providencia

Que se legalize de vez

A disfarçada poligamia?

 

Constatação XVII (Outra espécie de dúvida crucial).

Quando após a confissão,

O padre passava um sabão

E incontinente dizia:

“Reze um padre-nosso

E uma ave-maria”,

Você se perguntava

Se questionava

Será que eu posso?

Será que é o que eu queria?

E protelava indefinidamente

A oração,

Tão-somente,

Ainda que pensando,

Matutando,

Ponderando,

Não muito preocupado

Será que essa transferência

Não é pecado

Não é uma insolência?

 

Constatação XVIII (Mais uma dúvida crucial).

Será que algum dia

Haverá a primazia

De que seja abolida,

Na volta e na ida,

A patifaria?

 

Constatação XIX

E será que algum dia,

Com toda essa mordomia

Tu, a conta, te darias

Que, com o salário mínimo

Que é mais do que semínimo

Só dá pra quinquilharias?

 

Constatação XX (Quadrinha de seis [sextinha?] para ser recitada numa roda de chimarrão quando se conta causos e mentiras, principalmente de pescarias).

Tomei um chimarrão

Com erva-mate orgânica.

Ele estava tão bom

Que resolvi me aprofundar

No estudo da botânica

E o resultado a todos divulgar.

 

E-mail: josezokner@rimasprimas.com.br

 

 

A ESQUERDA QUE VIROU DIREITA VIA O POPULISMO por thiago de aragão


Existem algumas coisas que só ocorrem na América Latina. A terminologia “esquerda” e “direita” que insistem em utilizar no continente está cada vez mais confusa e defasada.Como latino-americanos, nunca soubemos definir propriamente os termos “esquerdista” e “direitista”. São termos que eram simplesmente atribuídos a um grupo e esse grupo o assumia ou não. Nunca houve a necessidade de se compreender o que os termos realmente significam.

Um caso bastante interessante é o caso do Partido Aprista Peruano, ou simplesmente A.P.R.A. Desde sua fundação por Haya de la Torre, o partido foi considerado um bastião da esquerda, não só peruana, mas latino-americana. Tido muitas vezes como o partido esquerdista mais bem estruturado da América Latina, o Apra serviu de exemplo para a formação do Partido dos Trabalhadores no Brasil e até do Movimiento al Socialismo na Venezuela e na Bolívia. No entanto, os tempos mudaram. Hoje o Apra é o partido do presidente peruano Alan Garcia, grande aliado continental de Álvaro Uribe, presidente colombiano. Seu modelo de governar (se é que há) é visto como opositor ao modo chavista de governar. Hugo Chávez, enxerga em Uribe um súdito do imperialismo americano na América do Sul. Sendo Garcia aliado de Uribe, a matemática é fácil.

Em outros tempos, Hugo Chávez e o Apra andariam de mãos dadas pela região. O que houve para que o principal partido esquerdista da América do Sul se tornasse o abrigo do “direitista” Alan Garcia?

Quando Alan Garcia foi presidente do Peru, entre 1985 e 1990, o seu governo foi caracterizado pelo fracasso econômico e pelo populismo latente.

Em seu retorno à presidência, o populismo permanece e a postura econômica ainda não pode ser avaliada. No entanto, hoje ele é visto como de direita, no entanto, em 1985, ele era visto como de esquerda.

Hoje, ele reconhece a necessidade de realizar um Tratado de Livre Comércio com os Estados Unidos, algo inconcebível para um esquerdista. Além disso, surgiu uma figura no país que representa fielmente o novo esquerdismo a lá Chávez no continente, o candidato derrotado na eleição peruana, Ollanta Humala.

Como Hugo Chávez é quem dá as cartas no continente, aqueles que são a seu favor tornaram-se “esquerdistas”. Logo, os que são contra são neoliberais de direita. Alan Garcia é um populista que não concorda com Chávez, assim ele se tornou um líder neoliberal no mais clássico partido de esquerda da América Latina.

Não demorará muito tempo para que alguém considere um líder vestido de militar, falando de nacionalismo e com medidas econômicas descabidas como sendo de direita. No fundo, o continente se divide entre o populismo e o não populismo.

 

O COLÉGIO e O GATO dois contos de raymundo rolim

O colégio

 

 

 

Um mais um, dois. Dois mais dois quatro. Quatro mais quatro dezesseis. A conta não fechava! Seria preciso papel e lápis, a cabeça não ajudava. Depois de muitos riscos e rabiscos, idas e vindas, raízes quadradas e equações de primeiro e segundo graus, descobriu pela primeira vez que também a questão não era essa! A conta dava certo, mas a conta não tinha razão! Não era um problema matemático, era de ordem semântica, talvez romântica, onde nem sempre a matemática ajuda. Teria de descobrir quando e onde é que a matemática fica muda e não conta de jeito nenhum! Uma nuvem carregada mais uma nuvem carregada não poderiam dar duas nuvens! Seria muita água!!! Aí estava um dos limites desta e doutras operações que não remetiam de maneira nenhuma aos números! Quantas células formavam o fígado? Oras, pra que diabos saber disso? Que ele, o fígado, agüentasse o rum, a feijoada, os amigos mal humorados e coisas do gênero, que já estava bom demais! A mochila pesava-lhe nas costas. Livros, canetas, cadernos, lápis coloridos; agenda cheia para aquela manhã de primeira aula no colégio emaranhado de corredores e salas. Guiou-se pelas setas numeradas e finalmente achou a sala. Olhou para a porta entreaberta, na tentativa de localizar um rabo de saia qualquer. Pronto, agora não tinha mais volta! Ali estava ele, e lá, na primeira fila, depois da mesa do professor, ela! Sentada, mãos repousadas sobre a carteira, distante dos livros e dos exercícios apostos no quadro negro. Uma única certeza: de que entraria por aquela porta e no momento seguinte a escola os uniria para o resto de suas vidas.

 

                 

 

O gato

 

Já eram horas de ir embora. A festa principiava aos finalmente. Os músicos haviam guardado os instrumentos. Um ou outro arrancava ainda umas poucas e tristes notas dos metais para “desligar” o instrumento. O álcool dentro de umas poucas garrafas esquecidas pela metade sobre as mesas. Ah! O maestro! Este não bebia mesmo! Os garçons tratavam de organizar o semicaos que normalmente se instala no avançado das horas. Vozes em tons altos, sonolentas, ébrias, se entremeavam no ar enfumaçado entre risos e risinhos de aconchego e sedução. A moça de cintura fina e mangas largas, abotoava-se ao homenzarrão feio e semiburro de juízo alterado, que empurrava a mesa a fim de alargar o espaço para tornar as bolinações um tanto mais acessíveis. Um outro magro e alto, com bigode e pele transparentes, olhava com insistência para aquela que já passara da idade e que certamente não pariria os filhos que o mesmo tanto queria, nem mais bordaria pacientemente os panos do enxoval. Ainda assim, e apesar do alto teor etílico do qual era possuído, procurava fixá-la com a dificuldade de um olho só, na esperança última do famoso