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ÁFRICA de nelson padrella / curitiba

Os rios eram azuis na folha de cartolina. Tão azuis quanto os olhos de Margot. Ela ficou de vir estudar aqui em casa, ela e seus olhos muito azuis.

Os garotos vieram me procurar para a gente ir brincar. Bem que eu estava com vontade de descer a rua no carrinho de rolimã, mas a menina era muito mais importante.

Quando a campaínha tocou meu coração mudou de lugar. Margot entrou sobraçando cadernos. Nem um beijo à porta.

Sentados na sala grande como crianças comportadas. a África era nossa, onde sonhávamos safáris. Os faraós nos aguaravam, deitados pacientemenmte em seu sono de pó. O pó dos séculos deve ser como a areia do Sahara. O Nilo foi criado no papel, sem ameaça de crocodilos. Só o azul das águas ameaçava.

– Quando desenhei o rio pensei nos teus olhos.

Ela, concentrada na leitura de um texto.

Falo de maneira diferente:

– Teus olhos me lembram o Nilo.

Ela deixou o interesse pela leitura.

– Meus olhos estão cheios d’água?

– Não – eu disse.

– Cheios de faraós?

Abaixei a cabeça não envergonhado, abaixei para sorrir melhor.

A menina continuava me provocando:

– Então, meus olhos…(fez uma grande pausa, inventado o que dizer)…eles são os maiores do mundo?

– Sim – respondi.

Ela se admirou. Olhou séria para mim:

– Tenho olhos tão grandes assim?

– Não, Margot. Os olhos de você são os maiores do mundo em beleza.

Ela continuou seria. Retomou o texto, como se o que eu tivesse dito não importasse. Depois, apanhou a ecoline e ia pincelando savanas na África inventada. Parou nas margens do Nilo.

– Por que você disse aquilo?

O cheiro de Margot me inebriou. Flores da África ofereciam perfume. O siroco me sufocava com seu ar quente.

– Disse porque é verdade.

Agora, era ela quem se perdia. Retomou o desenho, mas a caneta parada na mão era como a caravana indecisa nas areias, que não sabe o rumo a ser tomado. Ela olhava para fora, o jardim onde verdes se insurgiam.

– E se fossem verdes?

– O quê?

– Meus olhos. Se fossem verdes?

Pensei um pouco, mas ela respondeu antes que eu falasse.

– Iam lembrar o lodo do fundo do Nilo?

Ela estava contrariada e eu não atinava o motivo. Era quase agressiva quando olhava daquele modo para mim.

– Não, Margot. Se fossem verdes me lembravam das florestas da África.

Paramos de falar. Da rua, gritos alegres de crianças. Um perfume vindo não sei de onde. A vontade de tocar na menina.

– Um dia queria ir pra África – eu disse.

Ela não respondeu. Talvez não tivesse o que dizer. Eu me enchi de coragem.

– Queria navegar no rio Nilo.

Ela ergueu o rosto e estava sereno. Era um sorriso nascendo no canto dos lábios?

– Queria navegar nos teus olhos – eu disse.

Ela abaixou a cabeça e fez que sim. Eu toquei com a mão em seu ombro e ela suspirou. O segredo da esfinge desvendado. Trouxe a cabeça da menina até perto da minha.

MATAR UM POETA de nelson padrella / curitiba

Quando um poeta morre uma estrela se perde no infinito

uma lâmpada se apaga

o caminho fica mais escuro.

Quando você mata um poeta

o mundo fica mais pobre

você fica mais miserável

e o sangue do poeta nas tuas mãos

manchará para sempre teu caminhar.

Morto, o poeta não se transforma em flor

ou em qualquer dessas formas passageiras

ele será sempre a luz que assombra

a voz que cala na tua consciência.

Você pode matar um poeta. A Poesia não morre.