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FOGÃO COM COMPUTADOR DE BORDO de otaciel de oliveira melo / fortaleza

– E o senhor quer comprar um fogão? – perguntou-me o vendedor da loja, olhando desconfiado para os meus cabelos brancos.

– Sim. O meu está todo enferrujado, anda vazando gás e, antes que alguma explosão danifique o prédio onde moro ou mate a minha empregada, eu vou trocá-lo.

– Então o senhor nos procurou na hora certa. Esta semana recebemos um modelo de fogão que é aquele que o Bill Gates usa em sua casa informatizada de 25 milhões de dólares, situada no Estado de Washington, USA.

– Vala-me, Deus! Homem, eu quero um fogão só para cozinhar, compreendeu? Desses que agente usa um fósforo, ascende uma das bocas, coloca a cuscuzeira em cima e pronto. Nada de muito sofisticado, desses que um assalariado pode pagar em suaves prestações mensais.

– Não se preocupe, meu amigo: todos os nossos fogões são vendidos à prestação. Agora, esse tipo de fogareiro que o senhor quer nos comprar já deixou de ser fabricado há muito tempo. Para começar, fósforo é uma coisa obsoleta, e todos os nossos fogões são dotados de um COMPUTADOR DE BORDO que gerencia uma quantidade enorme de funções indispensáveis a uma perfeita fritura.

E continuou o nosso diligente vendedor, mostrando-me uma brochura com os últimos lançamentos:

– Veja, por exemplo, esse maravilhoso termômetro conectado diretamente ao Windows XP: ele é capaz de medir variações de temperatura da ordem de milésimos de graus centígrados, deixando o seu frango no ponto. Isso mesmo: nem mal passado nem bem passado, mas à temperatura que o cliente desejar. Além desse termômetro, o forno dos nossos fogões tem um sensor de fumaça que percebe se a carne que foi colocada para assar encontra-se ou não em bom estado de conservação. Este sensor é gerenciado por um software chamado smoke-feeling, programado para detectar variações infinitesimais de odores estranhos em decorrência de pequenas alterações no tecido animal ou vegetal, alterações estas reveladas pelo cheiro da fumaça.

E provocativamente eu perguntei:

– E fumaça tem cheiro?

– Não tem para aquelas narinas que estão sempre obstruídas – respondeu com certa irritação o perspicaz vendedor. E arrematou:

– O senhor já passou a 5 km de um aterro sanitário sem sentir o cheiro de borracha queimada? Pois saiba que os computadores dos fogões de última geração têm um olfato muito mais sensível do que o de qualquer ser humano. Estou começando a perceber que o senhor é uma pessoa pouco informada sobre os últimos avanços tecnológicos, mas continuarei atenciosamente com a minha explicação, só que de agora em diante usando uma linguagem muito mais simples. O senhor já ouviu falar em um dispositivo chamado grampola da pirumbeta?

– Eu? Nunca! Nem num fogão nem em coisíssima nenhuma. Para mim isto é palavrão, se não for sacanagem.

– Pois eu explico do que se trata: a grampola da pirumbeta é um dispositivo que regulamenta a distribuição do tempero desejado possibilitando uma perfeita homogeneização do sabor do alimento. Nada daquelas manchas localizadas de colorau, sal em excesso em alguns pontos, pimenta do reino e cuminho em outros. Tudo agora é distribuído de tal maneira a espalhar o tempero de maneira uniforme por todo o corpo em fritura. A grampola emite raios laser que penetram no tecido animal ou vegetal e promove esta homogeneização. Não me diga que o senhor não está maravilhado com esta fantástica invenção? Quem gerencia a grampola é um soft chamado hot-dog, criado por um cozinheiro brasileiro que, com a crise financeira mundial, trabalha também como garçom no restaurante da NASA.

– Você até agora só falou do forno. E as bocas, são também computadorizadas?

– É claro que sim. Tanto as bocas quanto a chama. A boca é acesa graças a uma célula fotoelétrica que aciona um dispositivo chamado fire on. Assim que o senhor abrir a tampa do fogão, e assobiar uma música programada qualquer (“perfume de gardênia”, por exemplo), se formará uma chama no interior de uma película transparente. A chama como um todo se espalhará no interior desta película na forma de um pequeno cogumelo, semelhante em design ao desenvolvido pela explosão da bomba atômica de Hiroshima. Esta película transparente fará com que o recipiente onde se esquenta o leite, por exemplo, pareça flutuar sobre um colchão de raios luminosos. É a coisa mais linda do mundo. Não é à toa que Bill Gates mexe os ovos que ele come todos os dias no café da manhã só pelo prazer de contemplar esta chama fulgurante e multicolorida. Disseram-me que e a música que ele assobia para acender uma das bocas do fogão é “I’ve spent my money”. Não me peça, por favor, explicação sobre esta escolha, pois eu não conheço os hábitos de consumo da mulher do homem mais rico do mundo.

– Me diga mais uma coisa: é verdade que vocês dão de brinde um exemplar da Bíblia Sagrada para quem comprar um desses fogões?

– Meu amigo, não confunda as coisas. Este livro de 730 páginas que acompanha o fogão não é a Bíblia Sagrada, mas o seu manual de instrução. Ele ensinará ao comprador a tirar o máximo de proveito desta extraordinária revolução tecnológica que é este fogão computadorizado.

– Só mais uma curiosidade: e para apagar o fogo, o que eu devo fazer.

– Simplesmente assobiar a música “perfume de gardênia” de trás para frente. Fácil, não?