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OTTO NUL e sua poesia III – palma sola.sc

E AGORA?

Que poema compor agora?

Que sede ou fome saciar?

Que mar atravessar

Ou que ventos arrostar?

Que caminhos seguir?

Que vozes ouvir?

Que palavras dizer?

Que pecados confessar?

Quanto hei de amar?

Ou quanto de emudecer?

Que orações ainda rezar?

Que palavras escrever?

Quanto terei que silenciar?

Quanto de esquecer?


.

ESCURO

De repente, fez-se escuro;

Dentro do escuro

Vi o escuro;

Numa linguagem escura

Tudo se tornou obscuro;

O escuro, como o percebi,

Era negro;

Nada poderia sê-lo mais;

Outra sabe-me a vida

Dentro do escuro;

Só no escuro

É que me encontro.



.

TENHO, TENHO…

Tenho, tenho

Pressa de chegar

Tenho, tenho

Ânsia de acabar

Tenho, tenho

Desejo de te encontrar

Tenho, tenho

Força pra resistir

Tenho, tenho

Vontade de fugir

Tenho, tenho

Lerdeza de ir e vir

Tenho, tenho,

Ímpeto de levitar

Tenho, tenho

O caminho sem fim

Guerrilha em Curitiba nos anos 80 – de tonicato miranda / curitiba


 

Os trens arrebentaram pessoas ao ar e às paredes

na explosão política e suicida de Madrid às 10h 13 minutos

Na mesma hora arrebentou violentamente em mim

a bomba da saudade mortal por amigos, pelo jazz e por lutos

 

Em qual guerrilha da vida perdi os amigos, as minhas histórias?

Ai, esta dor lancinante ferindo-me a alma, açoitando-me a cara

Ela morde-me com sua boca de espinhos todas as memórias.

É a tristeza instalando-se, invasora, no meu pastel de Santa Clara

 

Guerrilheiros demolem prédios que espetam a bunda do céu

arrebentam tudo em nome da causa e do genuflexório a Maomé.

Nessas horas não há flores, nem pássaros, nem da odalisca o véu

tudo justifica a causa – em nome de Alá se mata, se morde, tudo é fé.

 

Mas nada mata mais do que ter sido perdido na agenda dos amigos

Não sabem onde moro, não sabem como estou morrendo saudoso

por um singelo copo de vinho e um resto de pedaço de queijo antigo

não importa se ele está agora, muito tempo depois um tanto rançoso

 

Os amigos me faltam como o ar, não como o alimento, as carradas,

nada é mais importante, estou nas ilhas da solidão, como Abrolhos.

Como me faz falta um bar, e as caras das mulheres descamadas,

com suas máscaras ossudas e sofridas no espelho dos meus olhos

 

Quando lhe faltam os amigos, faltam também os desatinos

e ninguém consegue sobreviver sem dois quilos de loucura.

Falar mal de si deveria ser ensinado na escola aos pequeninos

para terem tolerância e sobrevida quando doentes no parto da cura

 

Todos querem estar um pouco loucos de quando em vez.

Mas como representar no palco sem platéia a sua própria odisséia?

Como trabalhar o choque do trem de Madrid e ainda assim outra vez

entrar no bar, e pedir: dê-me uma dose de vinho, outra, e meia

 

Precisamos dos amigos como ouvintes, como dial do coração

que nos tombem sobre a cama após o nosso mais vergonhoso porre

para suportarmos as grandes catástrofes humanas de emoção

quando guerrilheiros atacam, explodindo tudo que sonha e corre

 

Sinto falta do Gerson Maciel, Helena, Lulo, Desirée, Nádia, Bia de Luna,

e tantos outros poetas que se explodiram nos trens das noites curitibanas

não esperaram a chegada dos guerrilheiros de Madrid, morreram suas lunas

em noites invernais, tornando-se todos cidadãos ocultos de pijamas

 

Sinto falta dos bares aonde se chegava devagar, como rato de cozinha

mordiscando um queijinho aqui, bebericando um aperitivo ali, sorrindo um riso lá

tudo sobre os olhos atentos da dona do boteco tão desamada e comezinha

quase rompemos a sandice do mar que não tivemos para ir até a Porta de Alcalá