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FERNANDO PESSOA EM “PRECE”

Senhor, que és o céu e a terra, que és a vida e a morte! O sol és tu e a lua és tu e o vento és tu! Tu és os nossos corpos e as nossas almas e o nosso amor és tu também. Onde nada está tu habitas e onde tudo está – (o teu templo) – eis o teu corpo.

       Dá-me alma para te servir e alma para te amar. Dá-me vista para te ver sempre no céu e na terra, ouvidos para te ouvir no vento e no mar, e mãos para trabalhar em teu nome.

       Torna-me puro como a água e alto como o céu. Que não haja lama nas estradas dos meus pensamentos nem folhas mortas nas lagoas dos meus propósitos. Faze com que eu saiba amar os outros como irmãos e servir-te como a um pai.

       […]

       Minha vida seja digna da tua presença. Meu corpo seja digno da terra, tua cama. Minha alma possa aparecer diante de ti como um filho que volta ao lar.

       Torna-me grande como o Sol, para que eu te possa adorar em mim; e torna-me puro como a lua, para que eu te possa rezar em mim; e torna-me claro como o dia para que eu te possa ver sempre em mim e rezar-te e adorar-te.

       Senhor, protege-me e ampara-me. Dá-me que eu me sinta teu. Senhor, livra-me de mim.

 

Fernando Pessoa em “O Eu Profundo“.

ÁLVARES DE AZEVEDO o jovem grande poeta brasileiro morto aos 20 anos – editoria

 

Em 12 e Setembro de 1831, nascia em São Paulo, Manuel Antônio Álvares de Azevedo. Filho de Inácio Manuel Álvares de Azevedo e Maria Luiza Mota Azevedo, o poeta, contista e ensaísta Álvares de Azevedo, teria nascido na sala da biblioteca da Faculdade de Direito de São Paulo; porém, foi constatado que o nascimento se deu na casa do avô paterno, Severo Mota.

Filho de família ilustre, mudou-se para o Rio de Janeiro em 1833, e em 1840 ingressou no Colégio Stoll; retornando a São Paulo em 1844. Regressou para o Rio de Janeiro no ano seguinte e

o poeta

o poeta

 matriculou-se no Colégio Pedro II. Finalmente, em 1848 entrou para a Faculdade de Direito de São Paulo. Tendo uma vida literária intensa, Álvares de Azevedo foi fundador da Revista Mensal da Sociedade Ensaio Filosófico Paulistano.

Fortemente influenciado por Lord Byron e Musset, Álvares de Azevedo inseriu em suas poesias elementos da linguagem desses escritores. A melancolia e a presença constante da morte eram temas perenes em suas obras.

Álvares de Azevedo era de pouca vitalidade e o desconforto das repúblicas aliado ao esforço intelectual intenso, enfraqueciam sua saúde. Entre 1851 e 1852, manifestou-se a tuberculose pulmonar, agravado por uma lesão ocasionada numa queda de cavalo ocorrida no mês anterior. Sofreu uma intervenção cirúrgica que não surtiu efeito, e faleceu às 17 horas no dia 25 de Abril de 1852. Seu corpo foi enterrado no cemitério Pedro II, na Praia Vermelha; em 1854, foi transladado para o cemitério São João Batista.

Se eu morresse amanhã foi escrita dias antes de sua morte e lida no enterro por Joaquim Manuel Macedo. Álvares de Azevedo era amigo de Bernardo Guimarães, Aureliano Lessa e José Bonifácio; com que dividiu as acomodações da Chácara dos Ingleses, em São Paulo.

Entre 1848 e 1851, publicou alguns poemas, artigos e discursos. Depois da sua morte surgiram as Poesias (1853 e 1855), cujas edições sucessivas uniram-se aos outros escritos, alguns dos quais publicados antes em separado. As obras completas, como as conhecemos hoje, compreendem: Lira dos vinte anosPoesias diversasO poema do frade e O conde Lopo, poemas narrativos; Macário, “tentativa dramática”; Noite na taverna, contos fantásticos; a terceira parte do romance O livro de Fra Gondicário; os estudos críticos sobre Literatura e civilização em Portugal, Lucano, George Sand, Jacques Rolla, além de artigos, discursos e 69 cartas.

Preparada para integrar As três liras, projeto de livro conjunto de Álvares de Azevedo, Aureliano Lessa e Bernardo Guimarães, a Lira dos vinte anos é a única obra de Álvares de Azevedo cuja edição foi preparada pelo poeta. Vários poemas foram acrescentados depois da primeira edição (póstuma), à medida que iam sendo descobertos.

A característica intrigante de sua obra reside na articulação consciente de um projeto literário baseado na contradição, talvez a contradição que ele próprio sentisse, na condição de adolescente.

Perfeitamente enquadrada nos dualismos que caracterizam a linguagem romântica, essa contradição é visível nas partes que formam sua obra principal, Lira dos Vinte Anos. A primeira e a terceira partes da obra mostram um Álvares adolescente, casto, sentimental e ingênuo. Já a segunda parte apresenta uma face irreverente, irônica, macabra e por vezes orgíaca e degradada de um moço-velho, isto é, um jovem em conflito com a realidade, tragado pelos vícios e amadurecido precocemente.

A obra de Álvares de Azevedo apresenta linguagem inconfundível, em cujo vocabulário são constantes as palavras que expressam seus estados de espírito, a fuga do poeta da realidade, sua busca incessante pelo amor, a procura pela vida boêmia, o vício, a morte, a palidez, a noite, a mulher… Em Lembranças de morrer, está o melhor retrato dos sentimentos que envolvem sua vida: “Descansem o meu leito solitário/ Na floresta dos homens esquecida/ À sombra de uma cruz e escrevam nela:/ – Foi poeta, sonhou e amou na vida.” 

 

Lembrança de morrer

 

Quando em meu peito rebentar-se a fibra,
Que o espírito enlaça à dor vivente,
Não derramem por mim nenhuma lágrima
Em pálpebra demente.
E nem desfolhem na matéria impura
A flor do vale que adormece ao vento:
Não quero que uma nota de alegria
Se cale por meu triste passamento.
Eu deixo a vida como deixa o tédio
Do deserto, o poento caminheiro, –
Como as horas de um longo pesadelo
Que se desfaz ao dobre de um sineiro;
Como o desterro de minh’alma errante,
Onde fogo insensato a consumia:
Só levo uma saudade – é desses tempos
Que amorosa ilusão embelecia.
Só levo uma saudade – é dessas sombras
Que eu sentia velar nas noites minhas…
De ti, ó minha mãe, pobre coitada,
Que por minha tristeza te definhas!
De meu pai… de meus únicos amigos,
Pouco – bem poucos – e que não zombavam
Quando, em noites de febre endoudecido,
Minhas pálidas crenças duvidavam.
Se uma lágrima as pálpebras me inunda,
Se um suspiro nos seios treme ainda,
É pela virgem que sonhei… que nunca
Aos lábios me encostou a face linda!
Só tu à mocidade sonhadora
Do pálido poeta deste flores…
Se viveu, foi por ti! e de esperança
De na vida gozar de teus amores.
Beijarei a verdade santa e nua,
Verei cristalizar-se o sonho amigo…
Ó minha virgem dos errantes sonhos,
Filha do céu, eu vou amar contigo!
Descansem o meu leito solitário
Na floresta dos homens esquecida,
À sombra de uma cruz, e escrevam nela:
Foi poeta – sonhou – e amou na vida.
Sombras do vale, noites da montanha
Que minha alma cantou e amava tanto,
Protegei o meu corpo abandonado,
E no silêncio derramai-lhe canto!
Mas quando preludia ave d’aurora
E quando à meia-noite o céu repousa,
Arvoredos do bosque, abri os ramos…
Deixai a lua pratear-me a lousa!

 

ALLEN GINSBERG – entrevista com um ícone da geração BEAT

 

INTRODUÇÃO
 
Em janeiro de 1973, a revista Gay Sunshine, essencialmente cultural e literária, de São Francisco, da qual sou diretor, iniciou esta já célebre série de entrevistas. Desde então, publicamos [até 1978, data de publicação do primeiro volume de entrevistas] 22 conversas com artistas gays: onze poetas, cinco romancistas, dois dramaturgos, dois compositores, um ator de cinema e poeta underground, e um poeta e libretista.
 
Se bem que muitas revistas literárias tenham publicado entrevistas nos últimos anos, nenhuma, na minha opinião, foi totalmente satisfatória. Por exemplo, as publicadas pela Paris Review são demasiadamente áridas e acadêmicas e, em muitos casos, consideram o artista uma persona. As entrevistas de Gay Sunshine têm uma proposta muito distinta. Em meu papel de editor [no sentido anglo-saxão do termo] de toda a série, e entrevistador em nove oportunidades, sou pessoalmente responsável pela forma que essas entrevistas assumem. A exemplo dos outros entrevistadores, destaquei os aspectos culturais e pessoais e neles insisti, elaborando assim as reflexões e os pontos de vista dos artistas sobre a relação entre sexualidade e criatividade, bem como extensas discussões sobre técnicas literárias. As entrevistas com Allen Ginsberg e John Giorno foram especialmente bem-sucedidas neste aspecto.
 
As entrevistas recolhidas nos dois volumes demonstram a existência de uma sensibilidade gay nas artes que me parece muito definida. Devemos buscar suas origens mais recentes na obra de escritores como Walt Whitman, Oscar Wilde, John Addington Symonds, Edward Carpenter e Constantin Kavafis. O atual momento de liberação gay, que tomou ímpeto a partir das manifestações de Stonewall, em 1969, em Nova York, catalisou muito particularmente essa sensibilidade gay. O aumento e a expansão da tomada de consciência gay, depois de Stonewall, repercutiu sobre muitos escritores, liberou-os de coerções sociais ou auto-impostas. Sob este aspecto, temos um exemplo concreto: os temas homossexuais sempre estiveram presentes nos poemas de Allen Ginsberg e Harold Norse durante muitas décadas. Entretanto, desde 1969, estes dois escritores escreveram e publicaram poemas muito mais abertamente gays (como nas duas antologias homossexuais Angels of the Lyre e Orgasms of Light). Muitas dessas entrevistas ilustram o impacto da liberação gay na literatura e nas artes. 
 
Em sua crítica a esta antologia, Jacob Stockinger escreve: “Levados por sua fascinação e sua absoluta normalidade, esquecemos que a entrevista é uma forma recente de comunicação. Se bem que as crônicas, diários, cartas e outras formas de memorabilia literal ou figurativa nos cheguem desde tempos remotos, a entrevista é essencialmente um invento do nosso tempo. E quando é de boa qualidade, é realmente valiosa por sua capacidade de entreter e instruir. Constitui um intercâmbio de informações simples e sincero. Mesmo assim, a entrevista é paradoxal. Tenta converter uma figura pública numa pessoa acessível na sua privacidade, anulando a distância necessária para que a admiração se mantenha; propõe-se a satisfazer nosso gosto contemporâneo e a nossa perspectiva histórica; e gratifica nossa necessidade de frivolidade, embora também nos traga dados psicológicos, sociológicos, históricos e culturais muito importantes. Entrevistas bem conduzidas conseguem tudo isso e, talvez, algo mais: indiretamente, nos ajudam a entrevistarmos a nós mesmos.
 
O eixo em torno do qual gravita cada uma das entrevistas desta coletânea é, naturalmente, a sexualidade gay. Muitos hão de se perguntar se essa é base suficiente para entrevistar personalidades proeminentes, já que não há muito mais a acrescentar, uma vez que a condição de gay foi assumida. Uma das ironias com que nos defrontamos – se é que já não a esperávamos desde o início – é a de que, assim como os mais refinados artistas não diferem muito do resto dos mortais no que se refere à sua sexualidade, esses mesmos artistas se diferenciam em relação à arte que exercem. Isso posto, cria-se a necessidade de questionar certas pessoas a partir de uma perspectiva gay, diante das reticências de entrevistas anteriores e até as vacilações do próprio entrevistado. É precisamente esta situação o que torna a publicação desta seleção de Entrevistas de Gay Sunshine um acontecimento importante no cenário cultural contemporâneo.”
 
Desejo agradecer aqui a todos os entrevistados por terem nos cedido tempo e energia na realização deste projeto. Acredito que esta publicação é uma iniciativa crucial para a compreensão e valorização da sensibilidade artística homossexual, e também uma contribuição para o desenvolvimento do Renascimento Cultural Gay. 
 
Winston Leyland
São Francisco, primavera de 1978
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ENTREVISTA COM ALLEN GINSBERG
 
BIOGRAFIA
 
Allen Ginsberg nasceu em 1926, em Paterson, Nova Jersey, filho de Naomi Ginsberg, imigrante russa, e de Louis, poeta lírico e professor. Em 1943, abandonou Paterson ao ingressar na Universidade Columbia, onde permaneceu cerca de cinco anos. Durante esse período, manteve estreita amizade com Jack Kerouac, William S. Burroughs, Neal Cassady, Herbert Huncke e Lucien Carr. Em 1954, conheceu Peter Orlovsky em São Francisco, com quem iniciou uma longa relação amorosa. Particularmente excitante é o poema Howl (“Uivo”), publicado pela City Lights Press em livro que leva o mesmo título (vide To Eberhat from Ginsberg: A Letter About “Howl”, de 1956, Penamen Press, 1976). A partir dessa época, viajou ao redor do mundo participando de leituras e festivais, sempre na companhia de Peter Orlovsky.
 
A coleção “Poetas de Bolso”, da City Light Press, inclui as seguintes obras de Allen Ginsberg: Kaddish, 1961; Reality Sandwiches, 1963; Planet News, 1968; The Fall of America, 1972; e Mind Breaths, 1977. Outras obras de Ginsberg: Ankor Wat, 1968; Airplane Dream, 1968; TV Baby Poems, 1968; Iron Horse, 1972; The Gates of Wrath: Rhymed Poems, 1948-1952, 1972; Improvised Poetics, 1972; Visions of the Great Rememberer, 1972; First Blues, 1976.allen_ginsberg1
Allen Verbatim, 1974, é uma coletânea de conferências sobre poesia, arte poética e estados de consciência. Em 1977, publicou Journal Early Fifties – Early Sixties e a correspondência com Neal Cassady, sob o título As Ever. Uma seleção da correspondência e dos poemas gays de Ginsberg e Orlovsky foi publicada pela Gay Sunshine Press.
 
A entrevista a seguir foi realizada no sítio de Ginsberg, em Cherry Valley, Nova York, a 25 de setembro de 1972. Foi publicada pela primeira vez no número 16 de Gay Sunshine (janeiro de 1973) e no número 17 (março do mesmo ano) numa versão editada por Winston Leyland. Mais tarde, em 1974, foi publicada pela Grey Fox Press em edição popular.
 
Allen Young, autor da entrevista, era na ocasião ativista do movimento gay, co-editor, ao lado de Karla Jay, das antologias Out of Closets: Voices of Gay Liberation, 1972, e de After You’re Out, 1975. Na época da entrevista, vivia na área rural de Orange, Massachussetts.
 

 

 

ALLEN YOUNG ENTREVISTA ALLEN GINSBERG
 
YOUNG – Uma das coisas que deu origem a esta nossa conversa foi a minha leitura de Dharma’s Bums [“Os Vagabundos do Dharma”, de Jack Kerouac, publicado em 1958, no verão passado. Nesse livro, o personagem Alvah, você, no caso, obviamente, é representado por Kerouac como heterossexual. Ocorrem ali vários encontros sexuais, mas não há o menor indício de homossexualismo entre aquelas pessoas.
 
GINSBERG – Esse era o problema de Kerouac. Você sabe que dormi com Kerouac muitas vezes. E Neal, seu herói, e eu fomos amantes por muitos anos. Pelo menos eu desejava que fôssemos e, desde 1946, em alguns períodos, fomos para a cama com freqüência; mas tudo deu em nada… Finalmente, ele já não quis saber de sexo comigo e me rejeitou! Foi isso o que ele acabou fazendo! Mas ainda o fazíamos na metade dos anos 60, depois de ter-nos conhecido na metade dos anos 40, de modo que foi uma amizade muito longa e íntima, no que diz respeito a Neal e Jack.
 
YOUNG – Jack Kerouac definiu-se como gay?
 
GINSBERG – Não, isso ele não fez. Muito do que falei ocorreu numa cabana que mantínhamos em comum e, nessa época, já fazia alguns anos que eu vivia com Peter. Peter, Jack, Gary [Snyder] e eu, e mais alguns outros, trepávamos com uma ou duas garotas que freqüentavam o local. Jack me viu fodendo com uma delas e surpreendeu-se com a minha virilidade. Acredito que foi então que ele decidiu escrever um romance no qual eu era um herói grande e viril, em vez de uma bicha judia e comunista.
 
YOUNG – Como você reagiu diante disso? Acreditou que ele fez isso para se ocultar?
 
GINSBERG – Não percebi. No manuscrito original de On the Road, há uma cena em um motel na qual Dean Moriarty trepa com um viajante com quem tinha ido a Chicago num grande Cadillac, e há uma descrição de duas linhas que matiza e dá dimensão ao personagem de Cassady. Na metade dos anos 50, Malcolm Cowley eliminou essa passagem do livro, com a anuência de Jack. Como você pode ver, Jack abordou o tema na sua obra.
 
Num livro que está para ser publicado, Visions of Cody, há uma descrição mais ampla da mesma cena; Kerouac a escreveu em 1950/51; foi seu primeiro livro depois de On the Road, e conseqüência deste. Foi um grande livro experimental que inclui umas duzentas páginas de conversas gravadas e transcritas entre ele e Neal, enquanto fumavam baseados à meia-noite em Los Gatos, ou em San José, e falavam da vida, da primeira vez que mantiveram relações sexuais, da primeira vez em que se masturbaram e das suas aventuras em Denver.
 
YOUNG – E por que só agora esse texto é publicado?

 
GINSBERG – Kerouac sempre desejou que fosse publicado. Mas o mundo das publicações comerciais não estava preparado para um livro tão aberto, de um espírito tão estranho e uma estrutura tão complexa. Está mais para Making of Americans, de Gertrude Stein, do que para um vertiginoso Kerouac.
 
YOUNG – Você teve de brigar com Kerouac por sua publicação?
 
GINSBERG Ah, sim. On the Road foi escrito em 1950 e só foi publicado em 1957, apesar de que ele já tinha publicado seu grande livro Town and the City. O critério comercial exigia que ele escrevesse algo simples e agradável, que todos pudessem entender, que explicasse tudo sobre a geração beat. De modo que escreveu Dharma’s Bums sob medida para o seu editor, uma espécie de exercício de virtuosismo e magnanimidade bodhisattva. Redigiu o texto em orações curtas que todos podiam entender, com a descrição da revolução espiritual tal como a enxergava, usando Gary Snyder como herói; porque, na realidade, Japhy Ryder é Gary Snyder.
 
YOUNG – De modo que a sua caracterização como heterossexual não tem relação nenhuma com o desejo de ocultar?
 
GINSBERG – Não, saí do armário em Columbia, em 1946. A primeira pessoa a quem falei a respeito foi Kerouac, porque eu estava apaixonado por ele. Às vezes, ele ficava no meu alojamento e dormia na minha cama e eu numa enxerga no chão. Eu lhe disse: “Jack, sinto tesão por você e quero trepar com você. Eu gosto mesmo é de homem.” E ele respondeu: “Ah, não…” Fazia mais ou menos um ano que nos conhecíamos e até então eu não havia dito nada a respeito.
 
Naquela época, Kerouac era muito bonito, muito charmoso e muito meigo – meigo no sentido de infinitamente compreensivo, como Shakespeare ou Tolstói ou Dostoievski, infinitamente compreensivo. Em certo sentido – há uma expressão que ouvi de Robert Duncan a respeito da poesia, e outros acerca das relações entre mestre e discípulo – como uma pessoa um pouco mais velha, alguém que sentia com mais autoridade, e sua compreensão me autorizava a me abrir e a falar, porque, sabe, eu sentia que havia espaço para me abrir. Ele não ia me rejeitar; ele aceitaria minha alma com todas as suas emoções, ternuras e preocupações, todas as suas obscuras aflições e misérias, angústias e alegrias, seu gozo e insana consciência da mortalidade, porque tudo isso também lhe ocorria. De fato, ao cabo de um ano terminamos dormindo juntos umas duas vezes. Fiz uma chupeta uma vez, pelo que me lembro, e, em certa ocasião, mais tarde, ele me chupou. Foi um ato de ternura e sem complicações.
 
YOUNG – Você experimentou algum tipo de ruptura com o seu círculo hipster ao envolver-se com gays e ao se assumir como tal?
 
GINSBERG – Está num poema (In Society) que li no julgamento de Chicago Seven. Trata-se de um sonho que tive em 1947, quando estava em Columbia.
 
“Entrei na casa da cocktail party
e dei de cara com três ou quatro maricas
que conversavam no jargão das bichas
Tratei de ser sociável mas me escutei
falando com um deles no jargão hipster.
“Prazer em conhecer”- ele disse e
desviou o olhar. “Hmm” – resmunguei. A casa
era pequena e tinha um beliche
e aparelhos de cozinha:
geladeira, armário, torradeira, cozinha;
parecia que os meus anfitriões só tinham
espaço para dormir e cozinhar.
O comentário que fiz sobre isso
Foi compreendido mas não apreciado.
Ofereceram-me refrescos, aceitei.
Comi um pouquinho de carne pura; um
Grande sanduíche de carne humana;
percebi, enquanto o mastigava,
de que também incluía um cu sujo.
 
Chegaram mais convidados, inclusive uma
fêmea que parecia
uma princesa. Olhou-me com raiva e
no mesmo instante disse: “Não me apeteces”,
voltou o rosto e recusou-se
a ser apresentada. Eu disse: “O quê!”, 
cheio de indignação.
“Vá se foder sua estúpida com cara de merda!” 
O que atraiu a atenção de todos.
“Estou cagando para você, sua cadela narcisista! Como
pode saber se nem sequer
me conhece?”, e prossegui num tom violento
e messiânico, enfim inspirado,
e dominando toda a casa
 
Naquela época, havia um grupo de bichas na área de Columbia que gostava de fazer coisas como ir ao Hotel Plaza para ouvir a cantora Edith Piaf, bichas interessadas em conseguir status e dinheiro. Tinham interesses culturais que remontavam a Lotte Lenya e faziam coisas em nome do estilo, mas ao mesmo tempo, eram demasiadamente aristocráticas e elitistas.
 
YOUNG – Você associava isso também a Columbia?
 
GINSBERG – Havia um ou dois tipos em Columbia que faziam parte desse tipo de coisa e não de uma homossexualidade whitmaniana, aberta e democrática, porque ser aberto, democrático e whitmaniano significava beijar todos os jogadores de futebol aberta e amigavelmente! E em público! Nem mais nem menos. Mas o rebanho de bichas enrustidas só se reunia para ir ao Plaza.
 
YOUNG – E beijar os jogadores de futebol era uma realidade ou apenas uma fantasia whitmaniana?
 
GINSBERG – Naquela época eu beijava Jack Kerouac que pertencia à equipe de futebol da Universidade Columbia. Era uma fantasia whitmaniana que, como todas as fantasias whitmanianas, era uma realidade prática. Naturalmente, naquela época, um cara da faculdade não podia fazer isso, mas hoje um cara da faculdade pode fazer esse tipo de coisa, sim.
 
No primeiro ano que passei em Columbia, entre os 16 e 17 anos, eu mantinha em segredo a minha homossexualidade. Aos 17, uma coisa fez com que eu escapasse do autoritarismo cultural de Columbia. Acho que foi a prisão de um amigo muito querido, que conhecia bem o Jack. Nessa época, eu também me interessava por Rimbaud e Whitman e já conhecia Burroughs. Com Burroughs, eu passaria a conhecer Blake e Spengler (“A Decadência do Ocidente”) e, naqueles dias, a semântica era importante, era importante separar as palavras dos objetos que representavam e não se deixar confundir por rótulos como gay ou bicha.
 
Sair do ensino intermediário, da puberdade, do isolamento e tornar-me um adulto foi uma mudança total. O isolamento não era uma atitude enrustida da minha parte, eu não tinha estilo para isso. Era apenas timidez e medo da rejeição. Durante todo o curso intermediário estive secretamente apaixonado por uma infinidade de garotos – particularmente de um que freqüentava o curso intermediário do East Side, em Paterson, a quem segui até Columbia.
 
YOUNG – O nome dele começa com “R”. É mencionado num dos seus poemas.
 
GINSBERG – Sim. Até certa época falei através de códigos. A convivência com Burroughs e Kerouac me permitiu uma abertura. Ambos tinham a mente aberta, eram internacionais, hip, Jacks Londons, Doutores Mabuses, tudo.
 
Kerouac era muito divertido, extraordinário, um tipo heróico, uma figura inspirada de muitas idéias e atitudes. Teve muitos problemas; bebeu até morrer. E terminou, como tantos velhos escritores, tornando-se reacionário de um jeito engraçado, interessante e original; de uma maneira mais instrutiva do que negativa. Mas o que o diferenciava dos outros era o caráter, com “C” maiúsculo; era de uma enorme ternura, de uma sensibilidade compreensiva e confiante. E por isso é tão magnífico escritor e observador. Assumia tudo ternamente, como um cara jovem e sensível, até mesmo as minhas atribulações de bicha. E de fato, terminamos na cama.
 
YOUNG – Você quer dizer que, no caso de Jack, não era esta a sua praia?
 
GINSBERG – Ele estava confuso sexualmente. Tinha problemas com a fixação que nutria pela mãe e com a atitude dependente dela em relação a ele. Jogava futebol e gostava de garotas. Gostava de chupar bocetas e era obcecado por elas. Era isso o que o excitava: virilhas negras! Meio negras! Também gostava de garotos bonitos e nutria um apreço completamente novelesco e pessoal por mariconas – o que significava compartilhar uma humanidade comum, as emoções e até o erotismo, embora ele não achasse correto, no seu caso, participar do erótico.
 
Como romancista, abriu-se para a arte homossexual e para algumas das suas posturas e estilos literários. Em alguns dos seus poemas, há muitos elementos sobre si mesmo e também todo tipo de exageros e afetações. Naquela época, chamávamos de high teacup uma referência ao gesto do dedo mindinho levantado. O que não posso deixar de dizer é que, algumas vezes, ele tinha sentimentos contraditórios mas acho que eu difamaria a sua natureza se o apontasse com um dedo acusador e dissesse: “Você é uma bicha!” Havia uma tendência entre os gays de colocar rótulos em tudo, inclusive neles mesmos, em vez de ver o amor sem nome que existe em todo mundo. Assim como havia uma tendência de colocar rótulos entre os heterossexuais masculinos, também entre os homossexuais havia uma tendência compensatória que consistia em reagir exageradamente contra isso e mostrar as plumas; de modo que ele estaria atento se o apontassem como bicha em circunstâncias nas quais ele não era. [Dirigindo-se a Peter Orlovsky, que se achava na outra extremidade da casa, de onde não podia ouvir a conversa]: Jack era bicha?
 
ORLOVSKY – Jack, bicha? Não, no menor sentido da palavra.
 
GINSBERG – Perfeito, no menor sentido da palavra. [A Peter] Todos nós dormimos com Jack em alguma ocasião.
 
ORLOVSKY – Certa vez estava tão bêbado que nem sequer conseguiu se levantar.
 
GINSBERG – [Rindo] Dessa vez ele gozou. Estávamos na casa Clellon Holmes, te lembras? Eu o chupei enquanto me davas o cu. 
 
ORLOVSKY – E aquela vez na Second Street, te lembras? Jack estava muito bêbado e começaste a chupá-lo. Nem se levantou. E ele falava que tinha o pau tão pequeno, tão reduzido, enrugado e triste.
 
GINSBERG – Deu todo tipo de explicações. Mas há dez anos pediu que eu o chupasse. Por volta de 1964/65, dizia: “Estou velho, feio, com o rosto afogueado, tenho barriga de bebedor de cerveja, sou um bêbado e ninguém me quer. Não posso arranjar garotas; vem aqui e faz uma gulosa bem gostosa.” Houve ocasiões em que se embriagava e insistia muito nisso. Nessa época ele já tinha uma barrigona de bebedor de cerveja, o rosto avermelhado e eu já não o via como o jovem elegante e romântico, o príncipe encantado das trevas, maldito e demencial do reino hippy spengleriano do pós-guerra. Ele fez com que eu enlouquecesse com todas aquelas idéias sobre corpo e sexo e foi uma das minhas primeiras lições de castidade. Há um verso de Yeats que diz “Terão os velhos amantes o tempo negado, sepulcro sobre sepulcro terão ao fim gozado.” Na realidade, percebi que, com o tempo, todas aquelas pessoas que eu havia amado e com quem eu tinha desejado trepar foram para a cama comigo. Pode ter demorado vinte ou trinta anos, e talvez nós dois estivéssemos transformados numa ruína, carecas e desdentados, mas o desejo sempre encontrou o seu caminho, mesmo depois de dezenas de anos. Há uma lição nisso tudo. Uma vez que tenhas tido a capacidade de um pouco de desapego, uma vez que tenhas perdido o apego neurótico, obsessivo, então, quando as coisas flutuam suavemente, os objetos amorosos que certa vez adoraste vão à deriva levados pela maré e vêm na tua direção. E isto é demais, porque saem do mar horrivelmente apodrecidos.
 
Um elemento na luta e na metafísica da liberação gay, que entretanto nunca foi considerado, é o que se refere à desilusão com o corpo. Não quero aprofundar demasiadamente o tema – apenas refiro-me à velha realidade dos 40, 50, 60, 70 e 80 anos e, por último, ao velho esqueleto sorridente, com sua lição espiritual sobre o desapego ao desejo neurótico que ficou para atrás. Acho que há um autêntico Eros entre os homens, que não depende do apego neurótico ou da obsessão; que é livre, leve, santo e luminoso – algo que de certa forma obtemos durante os nossos primeiros amores, fantasias e devoções. Alguns de nós têm a felicidade de poder se expressar e receber de um lado ou de outro. Mas isto, a exemplo da maré, só pode ocorrer quando se está livre para flutuar nela. Se há excesso de tensão neurótica pelo desmame, pela ruptura e mesmo pela liberação gay, isto faz com que tudo seja demasiadamente tenso e perde-se a leveza do amor. Em outras palavras, mais cedo ou mais tarde, o movimento de liberação gay terá de aceitar as limitações do sexo.
 
Se considerarmos o sexo sob o ponto de vista hindu, budista, hare krishna e até mesmo cristão fundamentalista – uma advertência sobre o corpo e sobre o apego em si – então ele se torna interessante. Burroughs escreveu extensamente sobre o assunto, de tal maneira que os hippies e até mesmo os radicais acharam o tema muito interessante: o sexo como “hábito” – o sexo como outra droga, mais um produto cujo consumo o Estado estimula para manter as pessoas como escravas dos seus corpos; pois enquanto forem escravas dos seus corpos pode-se insuflar-lhes temores, sobressaltos, sofrimentos e ameaças para, dessa forma, mantê-las em seu lugar. Segundo ele, esse caminho conduz ao grande palácio da massa verde, ao jardim da massa verde, à armadilha da massa verde, onde todos chapinham numa substância verde.
 
À medida em que envelheço, noto em minha barriga e no meu ventre que a agitação desses deliciosos apetites não diminui. Mas também tolero melhor a idéia de que, além do sexo, pode haver entre as pessoas outra maneira de se relacionar.
 
Quando estive na Austrália, fiquei louco por um jovem e belo dobrista [tocador de dobro, instrumento hindu] que me acompanhou durante toda a viagem. Ele me procurava e me esperava o dia inteiro no hotel e colocou-se à minha disposição para tocar música comigo. Ele queria tocar mantras e logo descobri que se tratava de um intérprete magnífico de blues e me ensinou a tocar blues. Trepou comigo na primeira noite e fiquei fascinado diante do seu… ânimo de servir, sua disponibilidade, generosidade, seu temperamento e sentido de dever. Depois não quis mais trepar comigo, embora me amasse. Fui o primeiro homem com quem trepou. Como posso me relacionar com alguém que me deseja, mas não quer brincar com o meu pau e se nega a chupá-lo? No entanto, ele não se importava em dormir nu comigo na mesma cama, ao meu lado, porque me desejava e amava. Havia nisso algo de excepcional, mas isso era mais excepcional do que os meus desejos?
 
E foi assim que me vi finalmente envolvido numa situação muito parecida à que esteve tão em moda no século 19, recomendada por Edward Carpenter e Whitman para pessoas que dormiam juntas. Chama-se carezza e trata-se de uma amizade platônica em que as pessoas dormem juntas nuas, se acariciam mutuamente, mas não há penetração e o sêmen é guardado por razões de yoga ou coisa semelhante. E foi o que fiz com aquele garoto.
 
Nas duas semanas seguintes percorremos toda a Austrália. Percebi que a intensidade da minha devoção por ele, na região do coração – uma sensação cálida e dolorosa o coração – crescia, crescia, crescia e se transformava em algo mais desejável e narcotizante e passou a ser mais satisfatório levá-lo dentro de mim. E notei que ele correspondia da mesma forma e percebi que abrigava no peito essa mesma sensação cálida em relação a mim e que ela era intensificada pela nua castidade que praticávamos juntos. Quando subíamos ao palco e tocávamos em duo – eu cantava mantras, blues, tocava harmônica e ele tocava o dobro – a comunicação erótica entre nós tornava-se estática, delirante e incontível. Continuamente nossa paixão explodia em canções e olhares que excitavam o público, me excitavam e o excitavam. Então cheguei a sentir outro tipo de orgasmo, muito sutil e etéreo, que parecia ocupar a parte superior do meu corpo em vez da área genital. Apesar de ter sempre nutrido preconceitos contra esse tipo de sublimação, se a considero como uma espécie de sublimação primária, como impulsos sexuais sagrados, a experiência torna-se tão deliciosa que nenhuma razão moral pode obscurecê-la. Eu a recomendo, todos deveriam ter essa experiência. Podes te aproximar intimamente das pessoas que amas, mesmo que não queiram manter relações sexuais contigo. Podes ter algo como uma relação completa. Sob qualquer uma das formas que assuma, “Abaixo o sexismo!”
 
Conheço muitos homens que pensam da mesma maneira. Talvez não cheguem a dormir juntos e nus, mas sentem e compartilham sentimentos de amor; no entanto, são completamente heterossexuais. Não me surpreenderia se isto fosse, na maioria dos homens, uma experiência universal, totalmente aceita, absolutamente comum, realmente compartilhada.
 
A idéia de um companheiro é apenas o rótulo frágil, a vulgarização disso. Desde a tradição de camaradagem, de companheirismo da qual se fala na Bíblia entre David e Jônatas, até as relações físicas tais como as conhecemos, provavelmente são relações de amor intenso que os grupos de liberação gay – na sua fase política – ainda não aceitaram nem integraram como gratificantes manifestações de comunicação humana, satisfatórias para todos. Em outras palavras, há muitas tendências políticas e comunais que se abrem ao movimento de liberação gay à medida em que são incluídas mais e mais variedades de amor, além do genital, e pode ser que a ponte entre a liberação gay e liberação dos homens esteja no mútuo reconhecimento da ternura masculina, negada em ambos os grupos por tanto tempo.
 
YOUNG – Em Kaddish você diz alguma coisa relativa ao peso da sua homossexualidade: “Montes Cervinos de rola, Grandes Canhões de cu”. Você usou essas metáforas porque a sua homossexualidade pesava demais?
 
GINSBERG – Quando eu era uma criança sensível coagida, que não podia tocar em ninguém ou expressar meus sentimentos, nem podia prever os incontáveis amantes que eu teria, a enorme carga de amor, a enormidade do escárnio em que eu entraria e acabava por tornar-me porta-voz da homossexualidade. Esse era o sentido de “Montes Cervinos de rola, Grandes Canhões de cu”. Ter conseguido despir-me em público e estar na lista do “Quem é Quem” como consorte de Peter.
 
YOUNG – Em alguns poemas a sua homossexualidade flui muito naturalmente. As coisas ocorreram da mesma forma na realidade?
 
GINSBERG – Por volta de 1953, escrevi um extenso, grandioso e belo poema de amor para Neal Cassady, chamado “O Automóvel Verde”. Expressei o meu amor. Não falei da parte genital e sim de todos e cada um dos outros aspectos: ternura, o abraçar-se de mãos dadas, viajar juntos e, por último, a separação.
 
O poema seguinte em que voltei a ser explícito foi um pequeno poema escrito entre 1953/54, que se refere à “cultura da minha geração, de chupar rolas e verter lágrimas”.
 
Quando eu vivi na casa de Neal Cassady, escrevi um pequeno poema extraído de um verso de Whitman, sobre a relação sexual entre um noivo e uma noiva. Esse é um dos grandes momentos de Whitman. Na minha fantasia, fiz uma descrição do meu sonho amoroso e do que faria sexualmente entre Neal e a mulher dele, se a tolerância deles me permitisse. O momento crucial da abertura, em termos de manifestação, veio enquanto eu escrevia Uivo. “Deixem que os santos motociclistas dêem o cu e gritem de dor.” Normalmente a reação do macho diante da idéia de ser enrabado seria como nesse novo filme de James Dickey, Deliverance, no qual supõe-se que é a pior coisa que poderia acontecer.
 

 
YOUNG – Há um verso em que você diz: “Quem realmente deseja ser enrabado?”
 
GINSBERG – Isso está em Kaddish, no poema “Mescalina”. Para começar, quando se está sob o efeito da mescalina, quem deseja existir no universo? Quem anseia por um nome? Quem deseja ter um ego? E quem deseja ser bicha? Quem deseja ser machucado tomando no cu, quando, sabe-se, às vezes dói? Isso também faz parte da cena. Às vezes não sabemos de antemão. As coisas parecem ir muito bem e, de repente, tornam-se dolorosas. De modo que a pergunta é: quem realmente deseja ser enrabado? Numa extravagante apresentação de Uivo, percebi de repente como seria gracioso se, no meio daquele grande poema, eu dissesse: “Deixem que tomem no rabo…. e que gritem de prazer”, em vez de “e que gritem de dor”. Aí está a contradição. O público norte-americano espera que eu diga “dor”, mas em vez disso digo: “e que gritem de prazer”. O que é cem por cento verdade.
 
Em outra passagem, tenho outro verso: “Quem chupou e foi chupado por esses serafins humanos, os marinheiros, e suas carícias de amor atlântico e caribenho”, aliás numa referência a Hart Crane. Foi uma aceitação das realidades básicas do prazer homossexual. Isso foi um desabafo, na medida em que foi uma declaração pública de sentimentos, emoção e atitudes que antes eu não teria desejado que o meu pai ou a minha família soubesse, e que eu mesmo vacilei em tornar públicas. Mesmo limitada, foi uma válvula de escape: literalmente o sair do armário.
 
YOUNG – Alguma vez a crítica, ao falar de você, mencionou a sua condição de homossexual?
 
GINSBERG – Sim, Norman Podhoretz, na Partisan Review, atacou violentamente toda a literatura beatnik: “Esses boêmios arrogantes”. Disse que apesar de a minha poesia não ser de todo má, sua maior força repousava na “declaração pública” da minha homossexualidade ser, “de certa forma, questionável e insistente”. Bicha em todas as circunstâncias; o que, embora honesto, não era tão interessante do ponto de vista social. Foi um golpe baixo, ao mesmo tempo um reconhecimento e uma rejeição, sem mencionar que ele chama Kerouac de “bruto”.
 
Walt Whitman é muito importante no que diz respeito à ternura masculina. Nunca foi considerado um ídolo ou um profeta, nem pelo gay lib, tampouco pela esquerda radical apesar de algumas declarações muito precisas que fez sobre o tema da liberação masculina; isso está em Democratic Vistas, no qual fala sobre a probabilidade de a competição materialista nos Estados Unidos transformá-los na lendária “maldita entre as nações”, algo que já pode ser constatado atualmente. É possível que “estejamos já a caminho de um destino, um status, equivalente no mundo ao dessa lendária nação maldita”. Ele diz: “A estreita e amorosa camaradagem, o afeto pessoal e apaixonado de um homem por outro homem – o qual, embora seja difícil de definir, sustenta os ensinamentos e os ideais dos profundos salvadores de cada nação e época, e que parece prometer, uma vez desenvolvido, cultivado e reconhecido cabalmente nos costumes e na literatura, a esperança e a segurança no futuro desses Estados – serão então expressos em sua totalidade”.

 
A seguir, numa nota de rodapé, diz: “É no desenvolvimento, na identificação e preeminência generalizada desta fervorosa camaradagem (…), na qual busco o equilíbrio e a compensação à nossa democracia americana materialista e vulgar e, conseqüentemente, sua espiritualização. Muitos dirão que é um sonho e seguirão os meus postulados, mas espero confiante o momento em que percorrerão, como vibrações subterrâneas, como miríades audíveis e visíveis através dos interesses mundanos dos EUA, correntes de amizade masculina, terna e amorosa, doce e pura, forte e eterna, elevada a graus desconhecidos, não apenas dando colorido ao caráter individual, nas também tornando-a emocional até um ponto sem precedentes, carnal, heróico e refinado, nas conservando as relações mais profundas com a política geral. Digo que na democracia se origina essa camaradagem amorosa, como sua alma gêmea indispensável, sem a qual seria incompleta, inútil e incapaz de completar-se.”
 
Depois, o prefácio da edição de 1876 de Leaves of Grass acrescenta uma grande nota de rodapé.
 
“Poderíamos acrescentar – já que estamos aqui, farei uma confissão completa. Também publiquei Leaves of Grass para despertar e pôr em movimento o coração de homens e mulheres, jovens e velhos (meus leitores futuros e atuais) intermináveis correntes de amor e amizade, vivas e palpitantes, diretamente deles até mim, agora e sempre. A este desejo terrível e reprimido (sem dúvida presente no funda da alma da maioria dos homens), a este apetite pela afinidade nunca satisfeito, a este oferecimento infinito de afeto, a esta camaradagem universal e democrática, a este velho, eterno e, não obstante, sempre renovado intercâmbio de adesões, tão apropriadamente simbólico da América, brindei neste livro, abertamente e sem hipocrisia, à expressão mais sincera… A literatura foi, desde sempre, a guardiã formal e convencional da arte e da beleza, e de uma certa manifestação de amor estreita, mesquinha e limitada. Afirmo que o laço mais sutil, mais doce e mais seguro entre ‘eu’ e ‘ele’ ou ‘ela’, que consigo estabelecer nas páginas de Calamus e em alguma outras obras da minha lavra – embora nunca nos vejamos, mesmo que tenham se passado muitos anos – deve ser amoroso e pessoal. E estes – sejam poucos ou muitos – são, de qualquer maneira, meus leitores embora não sejam – e nunca serão – meus melhores e mais notáveis poemas.
 
“Além disso, por importantes que sejam, em meu propósito de expressar meus sentimentos pela humanidade, o significado especial da coletânea de Calamus em Leaves of Grass (o mesmo sucede com Drum Taps) repousa principalmente em seu Sentido Político. Na minha opinião é graças a um fervoroso e consciente desenvolvimento da camaradagem, ao belo e saudável carinho do homem pelo homem, latente em todos os jovens do Norte e do Sul, do Leste e Oeste é que, direta ou indiretamente, os Estados Unidos do futuro (jamais o direi com a freqüência desejada) deverão ser realmente soldados, consolidados e temperados numa Unidade Viva.”
 
Por isso, acredito ser este o caminho para a liberação gay, para a liberação dos homens e para todo o resto: a liberação de sentimentos e liberação da ternura, que foi o mais reprimido.
 
YOUNG – Alguns ativistas do movimento gay, que se autodenominam “efeminados”, diriam que este tipo de romantização do amor masculino é misógino, mais uma expressão da supremacia masculina, na mesma linha do amor grego; porque a sociedade grega, que tolerava e nutria a homossexualidade, era, em seus fundamentos e raízes, uma sociedade de supremacia masculina.
 
GINSBERG – Não sei. Não creio que com o passar do tempo seja assim. Parece-me um sentimento muito genuíno. No caso de Whitman, não parecia interferir em suas relações com as mulheres, porque mantinha amigas que sentiam como ele e que eram, suponho, lésbicas casadas e donas de casa.
 
Whitman dizia que a relação entre homens, a aceitação entre homens não foi desenvolvida na América. Hoje eu diria que foi reprimida pelo espírito de competição e rivalidade característico da economia capitalista. A relação potencial com uma fraternidade comum seria pelo menos a ternura entre irmãos. Essa ternura foi negada ao branco do sul e é a causa da sua incapacidade de relacionar-se com homens e mulheres. Ainda não sabemos qual é o alcance da formação de laços mais fortes entre homens, ou do fato de fazê-los conscientes desses laços e de sua aceitação como significado político.
 
Qual é a alternativa? Destacar o espectro do amor grego e suas implicações antifeministas e apontar seus pontos de contato com o comportamento dos beatniks: medo das mulheres, pelo que posso perceber. Mas também é preciso encarar a questão como uma conseqüência real e natural de emoções produzidas pelo medo e pelas restrições próprias da situação em que crescemos: desconfiança, ódio, paranóia e competição entre os homens em vez de cooperação; o mesmo vale entre homens e mulheres.
 
Whitman era muito consciente e estava sensibilizado por tudo isso, por seu amor reprimido pelos homens, porque não podia manifestá-lo abertamente e em público. Teve de encontrar uma maneira de expressar seu “afeto”.
 
Acho que uma liberação emocional entre os homens conduziria também a uma liberação entre homens e mulheres, porque eles não teriam de ser mais homens em sua relação com as mulheres, no sentido de serem fortes e conquistadores. Poderiam ter uma relação muito mais relaxada, na qual não estariam constantemente obrigados a sentirem-se sexuais e sim apenas amigos ou afetuosos. A amizade não sexual entre homens e mulheres ainda é considerada imprópria para um homem. O incremento de amizades puramente emotivas e não genitais com homens poderia também significar um progresso, uma abertura na direção de amizades puramente criativas e não genitais com mulheres.
 
Qual é a alternativa que os “efeminados” propõem? Além de dizer: “Não, não deves te sentir bem com o teu próximo, os heterossexuais não devem incrementar relações emotivas com outros heterossexuais”? Na realidade, estão defendendo um clube exclusivo, mas já tivemos esse clube exclusivo de outra maneira, com a história machista protagonizada por Hemingway ou com a história machista do tipo musculoso e militar. Afirmo, a exemplo de Whitman, que o antídoto para esses cenários machistas hemingwayanos e militares é o incremento da ternura honesta e emotiva e um reconhecimento da ternura como base da emoção genital ou não genital. Isto poderia ser resolvido através de mais camaradagem entre os homens, com uma democratização da amizade, de modo que não se limitasse exclusivamente a uma amizade entre homens e mulheres baseada no sexo. Acho que isto solucionaria grande parte do conflito machista e suas contradições.
 
Acho também que uma das definições de “viadagem” ou homossexualidade é a de que ela ocorre como uma situação inerente, desde muito cedo, na qual tanto o fluido genital como o emotivo, orientam-se mais na direção dos homens do que na das mulheres, como seria natural. Penso que o objetivo da liberação gay é aceitar essa diversidade de incremento como algo viável e, conseqüentemente, dar-lhe espaço. Do contrário, o que é um homossexual? A menos que você queira ter uma frente de liberação homossexual que proponha aos homens um desenvolvimento fora do homossexualismo, numa relação mais igualitária e democrática, com homens e mulheres. Mas acredito ser possível afirmar: deixe que a flor mais pura manifeste o seu verdadeiro propósito, que é o de orientar-se na direção da luz; e deixe que a flor mais retorcida manifeste, em sua inclinação, seu propósito de orientar-se na direção da luz. A flor retorcida tem de rodear as pedras para buscar a luz. Mas o propósito é chegar à luz do amor, embora a flor reta cresça diretamente rumo ao amor e à luz. Das duas uma: ou você tem o amor-humano-biológico-condicionado, ou um movimento de liberação gay que deseja liberar e tornar públicas estas emoções. Uma das coisas que o movimento poderia promover seria derrubar a barreira de medo que as bichas levantam em relação às mulheres. Botar abaixo a barreira entre homem e homem, o que provavelmente levaria ao mesmo resultado.
 
Outro ponto que eu gostaria de mencionar é a possível e tradicional objeção dos efeminados acerca das relações “sexistas” entre homens mais velhos com homens mais jovens. Vi em Berkeley manifestos sobre o assunto. Mencionei a questão a Gavin Arthur, falecido este ano em São Francisco. Era um cavalheiro, de maneiras delicadas; era astrólogo, um mestre, um guru e neto do presidente Chester Arthur. Neal Cassady trepou com ele algumas vezes, quando buscava refúgio em São Francisco depois de suas aventuras com Kesey pelas estradas de ferro. E Gavin Arthur já havia trepado com Edward Carpenter, e Edward Carpenter com Walt Whitman. De certo modo, em linha de transmissão, é um fato interessante a ser registrado na mitologia. O herói heterossexual de Kerouac também trepou com alguém que, por sua vez, trepou com Whitman e recebeu a Tradição Sussurrada (com “T” e “S” maiúsculos) daquele amor.
 
YOUNG – O herói heterossexual de Kerouac? A quem você se refere?
 
GINSBERG – Neal Cassady, Dean Moriarty, o que trepou com Gavin Arthur que, por sua vez, trepou com Edward Carpenter que, por sua vez, trepou com Whitman. E eu trepei com Dean, de modo que….falando nessa linha de transmissão… O que me foi sussurrado nessa linha de transmissão por Gavin Arthur, sobre a relação encantadora entre homens mais velhos com jovens, a exemplo do que ocorria na Antigüidade, é uma coisa que você entende melhor à medida em que envelhece, uma coisa da qual você não precisa se envergonhar, e nem contra a qual precisa ficar na defensiva, e sim uma coisa a ser estimulada – uma relação saudável e não uma dependência neurótica e doentia.
 
O principal é a comunicação. Os mais velhos têm sabedoria, experiência, história, memória, informação, referências e também poder, dinheiro e tecnologia. Os mais jovens têm inteligência, entusiasmo, sexualidade, energia, vitalidade, mente aberta, atividade física – todas estas características, além dos conhecimentos doces e puros da juventude – e ambos se beneficiam do intercâmbio. A coisa converte-se em algo mais do que uma relação sexual; passa a ser um intercâmbio de talentos, sucessos e de dons naturais. Os mais velhos ganham em vigor, frescor, vitalidade, energia, esperança e alegria por meio dos mais jovens; e os mais jovens ganham em experiência, conselhos, ajuda, consolo, sabedoria, conhecimentos e ensinamentos através da sua relação com os mais velhos. A exemplo do que se verifica em outras relações, a combinação de antigo e novo é funcionalmente proveitosa. Isso difere muito de ser “sexista”, no sentido de que o interesse direcionado ao jovem não é totalmente sexual; vale mais pela relação em si e pela sabedoria a ser obtida. Na teoria de Edward Carpenter e Whitman, o mais velho chupa o pau do mais jovem e dessa forma absorve o seu magnetismo elétrico e vital –segundo uma teoria encantatória e teosófica do século 19. É uma coisa que eu, como sou mais velho, experimento como um ato natural. Quando você trepa com alguém mais jovem, você ganha um pouco de vitalidade, de frescor e de auto-estima.
 
YOUNG – Você referiu-se a Whitman e Carpenter e em alguns dos poemas menciona García Lorca. Para mim foi uma descoberta muito recente o fato de que esses escritores famosos fossem gays como eu, o fato de que eu tivesse este laço de união com eles. Tenho curiosidade em saber como você descobriu isso.
 
GINSBERG – Em Ode a Walt Whitman, Lorca fala do sol “que canta nos umbigos dos rapazes que jogam beisebol sob as pontes” e esta imagem contém tanta beleza erótica que imediatamente percebemos que ele entendia, estava envolvido nisso, havia realmente experimentado aquele sentimento. Algum tempo depois, encontrei uma pessoa no Chile que o havia conhecido e me disse que ele gostava de rapazes. De fato, alguma coisa relacionada com um garoto pode ser a causa do fuzilamento de Lorca. Não acho que seja um fato a aparecer em nenhuma das suas biografias.
 
Esta epifania do sexo é completa nos livros de Whitman; sua rapsódia homoerótica inclui uma descrição de como deitou-se com um amigo – na parte 5 de Song of Myself:
 
I mind how once we lay such a transparent summer morning,
How you settled your head athwart my hips and gently turn’d over upon me
And parted the shirt from my bossom-bone, and plunged your tongue to my bare-stript heart
And reach’d till you felt my beard, and reach’d till you held my feet.
 
YOUNG – Isso não é ensinado no curso secundário.
 
GINSBERG – A escola é de todas as maneiras irrelevante para a poesia, e para qualquer coisa. Quero dizer que a escola é uma herança do século 19. A poesia remonta a 15000 antes de Cristo. Veja o poema “We Two Boys Together Clinging”:

 
We two boys together clinging.
One the other never leaving,
Up and down the roads going, North and South excursions making,
Power enjoying, elbows stretching, fingers clutching,
Arm’d and fearless, eating, drinking, sleeping, loving.
No law less than ourselves owning, sailing, soldiering, thieving, threatening,
Misers, menials, priests alarming, air breathing, water drinking, on the turf or the sea-beach dancing,
Cities wrenching, ease scorning, statutes mocking, feebleness chasing,
Fullfilling our foray
 
Em “No Labor-Saving Machine”, ele escreve:
 
(…) But a few carols vibrating through the air I leave,
For comrades and lovers.
 
E Whitman diz em “A Glimpse”:
 
A glimpse through an interstice caught,
Of a crowd of workmen and drivers in a bar-room around the stove late of a winter night, and unremark’d seated in a corner,
Of a youth who loves me and whom I love, silently approaching and seating himself near, that he may hold me by the hand,
A long while amid the noises of coming and going, of drinking and oath and smutty jest.
There we two, content, happy in being together, speaking little, perhaps not a word.
 
Perfeito! E absolutamente real. Isso é a vida. Inclusive a vida heterossexual. É a realidade indescritível das relações humanas na América do Norte. Não podemos chamá-la de gay…. Tem a ver com o que eu dizia antes, em relação ao que deve ser… O afeto de que Whitman falava, agora latente em todos nós, e que está pronto para aflorar sabe lá Deus em quantas pessoas nos últimos dez anos, quantos rapazes com quem me encontrei e com quem me sentei e com quem enlacei as mãos e pelos quais nutri sentimentos de amor e vice-versa, na universidade ou em qualquer outro lugar e que nada teve a ver com viadagem entre aspas, nem mesmo com o que se chama de gay. O gay tem excesso de categoria!
 
YOUNG – Pelo que você disse antes, isso aconteceu até certo ponto entre os boêmios e os hipsters…
 
GINSBERG – Ah, isso existe desde o homem de Cromagnon!
 
YOUNG – Parece-me que há atualmente uma tensão entre os gays freak (gays hippies) e os gays straight (gays conformistas). Há pessoas no movimento de liberação gay que dizem “tenho mais coisas em comum com um heterossexual hippy do que com um gay de cabelo curto e alcoólatra. E há outros gays que dizem “devo minha lealdade a outros gays e a cultura freak é demasiadamente machista”.
 
GINSBERG – Senti isso na tradição homossexual sincera, populista, humanista, meio heterossexual, whitmaniana, boêmia, livre, afetuosa como verificamos em Sherwood Anderson, Whitman e talvez um pouco em Genet, em oposição à bicha louca meio histérica, privilegiada, exageradamente efeminada, mexeriqueira, endinheirada e money-style-cloth-conscious [consciente do estilo e da roupa cara]. Não há nada mais ancestral, e em certo sentido mais respeitável, do que o velho travesti xamanista que vemos fazendo o trottoir na Greenwich Avenue, ou mesmo entre os índios norte-americanos a figura do xamã, que se veste de mulher e até arranja marido. Há alguma coisa de muito ancestral e encantador na jovem bicha louca; uma companhia fantástica, de expressividade e individualidade absolutas – às vezes chegamos a recear que se trata do exterior histérico e escandalosos de alguém à beira de um colapso nervoso e que terminará na igreja ou algo parecido. Mas nela há também algo de disciplinado, frívolo, ressentido e de complexo anal.
 
Quando eu era mais jovem, a divisão era feita entre os beatniks sujos de coração grande – não posso me definir exatamente como uma bicha… Homossexual? Tenho usado este termo, mas nunca encontrei a palavra justa… Inúmeros amantes, amantes gnósticos sem nome – e as bichas monopolizadoras, endinheiradas e privilegiadas. Era esta a diferença.
 
YOUNG – Você encontrou os dois tipos nos bares gays de Nova York?
 
GINSBERG – Decididamente havia representantes dos dois grupos. Havia muitos desbocados, divertidos e velhas bichas marujas dos anos 20; também todo tipo de executivos publicitários de boca franzida, paranóicos, assustados, conservadores, reacionários e de cabelo curto. E tudo o mais que vier à tua imaginação. Há um grupo de bichas que depende do dinheiro, é afetado, chique, privilegiado e exclusivo, de alta classe monopolizadora e geralmente acompanhado de más intenções, maus modos e amor desleal. Prefiro a homossexualidade na qual os amantes são amigos por toda a vida, com direito a muitos amantes e amigos.

EUNICE ARRUDA convida:

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BERNARDO GUIMARÃES – SATÍRICAS E BOCAGEANAS

SATÍRICAS E BOCAGEANAS DE BERNARDO GUIMARÃES

 

 

AO LEITOR

D’un pinceau delicat l’artifice agreable

Du plus hideux object fait un object fait aimable

Boileau

 

No intuito de perpetuar estes versos de um poeta nosso bem conhecido, os fazemos publicar pela imprensa, que, sem dúvida pode salvar do naufrágio do esquecimento poesias tão excelentes em seu gênero, e cuja perpetuidade alguns manuscritos, por aí dispersos e raros, não podem garantir do tempo.

A lira do poeta mineiro tem todas as cordas; ele a sabe ferir em todos os tons e ritmos diferentes com mão de mestre.

Estes poemas podem se chamar erótico-cômicos. Quando B.G. escrevia estes versos inimitáveis, sua musa estava de veia para fazer rir, e é sabido, que para fazer rir são precisos talentos mais elevados do que para fazer chorar.

Estes versos não são dedicados às moças e aos meninos. Eles podem ser lidos e apreciados pelas pessoas sérias, que os encarecem pelo lado poético e cômico, sem ofensa da moralidade e nem tão pouco das consciências pudicas e delicadas.

Repugnam-nos os contos obscenos e imundos, quando não têm o perfume da poesia; esta, porém, encontrará aceno e acolhimento na classe dos leitores de um gosto delicado e no juízo destes será um florão de mais juntado à coroa de poeta de que B.G. tem sabido conquistar à força de seu gênio.

 

Ouro Preto, 7 de maio de 1875

 

A ORIGEM DO MÊNSTRUO

De uma fábula inédita de Ovídio, achada nas escavações de

Pompéia e vertida em latim vulgar por Simão Nuntua

 

 

‘Stava Vênus gentil junto da fonte

Fazendo o seu pentelho,

Com todo o jeito, p’ra que não se ferisse

Das cricas o aparelho.

 

Tinha que dar o cu naquela noite

Ao grande pai Anquises,

O qual, com ela, se não mente a fama,

Passou dias felizes…

 

Rapava bem o cu, pois resolvia,

Na mente altas ideias:

    Ia gerar naquela heróica foda

O grande e pio Enéias.

 

Mas a navalha tinha o fio rombo,

E a deusa, que gemia,

Arrancava os pentelhos e, peidando,

Caretas mil fazia!

 

Nesse entretanto, a ninfa Galatéia,

Acaso ali passava,

E vendo a deusa assim tão agachada,

Julgou que ela cagava…

 

Essa ninfa travessa e petulante

Era de gênio mau,

E por pregar um susto à mãe do Amor,

Atira-lhe um calhau…

 

Vênus se assusta. A branca mão mimosa

Se agita alvoroçada,

E no cono lhe prega (oh! caso horrendo!)

Tremenda navalhada.

 

Da nacarada cona, em sutil fio,

Corre purpúrea veia,

E nobre sangue divino como

As águas purpureia…

 

(É fama que quem bebe desta águas

Jamais perde o tesão

E é capaz de foder noites e dias,

Até no cu de um cão!)

 

    “Ora porra!” — gritou a deusa irada,

E nisso o rosto volta…

E a ninfa, que conter-se não podia,

Uma risada solta.

 

A travessa menina mal pensava

Que, com tal brincadeira,

Ia ferir na mais morosa parte

Da deusa regateira…

 

    “Estou perdida!” — trêmula murmura

A pobre Galatéia,

Vendo o sangue a correr do róseo cono

Da poderosa déia…

 

Mas era tarde! A Cípria, furibunda,

Por um momento a encara,

E, após instantes, com severo acanto,

Nesse clamor dispara:

 

“Vê! Que fizeste, desastrada ninfa,

Que crime cometeste!

Que castigo há no céu, que punir possa

Um crime como este?!

 

Assim, por mais de um mês inutilizas

O vaso das delícias…

E em que hei de gastar das longas noites

As horas tão propícias?

 

Ai! Um mês sem foder! Que atroz suplício…

Em mísero abandono,

Que é que há de fazer, por tanto tempo,

Este faminto cono?…

 

Ó Adonis1 Ó Júpiter potente!

E tu, mavorte invicto!

E tu, Aquiles! Acode de pronto

De minha dor ao grito!

 

Esse vaso gentil que eu tencionava

Tornar bem fresco e limpo

Para recreio e divinal regalo

Dos deuses do Alto Olimpo,

 

Vede seu triste estado, ó! Que esta vida

Em sangue já se esvai-me!

Ó Deus, se desejas ter foda certa

Vingai-vos e vingai-me!

 

Ó ninfa, o teu cono sempre atormente

Perpétuas comichões,

E não aches quem jamais nele queira

Vazar os seus culhões…

 

Em negra podridão imundos vermes

Roam-te sempre a crica,

E à vista dela sinta-se banzeiro

A mais valente pica!

 

De eterno esquentamento flagelada,

Verta fétidos jorros,

Que causem tédio e nojo a todo mundo,

Até mesmo aos cachorros!!!”

 

Ouviu-lhe estas palavras piedosas

Do Olimpo o Grão-Tonante,

Que em pívia ao sacana do Cupido

Comia neste instante…

 

Comovido no íntimo do peito,

Das lástimas que ouviu,

Mandou o menino que, de pronto, acuda

À puta que o pariu…

 

Ei-lo que, pronto, tange o veloz carro

Da concha alabastrina,

Que quatro aladas porras vão tirando

Na esfera cristalina

 

Cupido que as conhece e as rédeas bate

Da rápida quadriga,

Co’a voz ora as alenta, ora co’a ponta

Das setas as fustiga.

 

Já desce aos bosques onde a mãe aflita,

Em mísera agonia,

Com seu sangue divino o verde musgo

De púrpura tingia…

 

No carro a toma e num momento chega

À olímpica morada,

Onde a turba dos deuses, reunida,

A espera consternada!

 

Já Mercúrio de emplastros se aparelha

Para a venérea chaga,

Feliz porque naquele curativo

Espera certa paga…

 

Vulcano, vendo o estado da consorte,

Mil pragas vomitou…

Marte arranca um suspiro que as abóbadas

Celestes abalou…

 

Sorriu a furto a ciumenta Juno,

Lembrando o antigo pleito,

E Palas, orgulhosa lá consigo,

Resmoneou: — “ Bem feito!”

 

Coube a Apolo lavar dos roxos lírios

O sangue que escorria,

E de tesão terrível assaltado,

Conter-se mal podia!

 

Mas, enquanto se fez o curativo,

Em seus divinos braços,

Jove sustém a filha, acalentando-a

Com beijos e com abraços.

 

Depois, subindo ao trono luminoso,

Com carrancudo aspecto,

E erguendo a voz troante, fundamenta

E lavra este Decreto:

 

—“Suspende, ó filho, os lamentos justos

Por tão atroz delito,

Que no tremendo Livro do Destino

De há muito estava escrito.

 

Desse ultraje feroz será vingado

O teu divino cono,

E as imprecações que fulminaste

Agora sanciono.

 

Mas, ainda é pouco: — a todas as mulheres

Estenda-se o castigo

Para expiar o crime que esta infame

Ousou para contigo…

 

Para punir tão bárbaro atentado,

Toda humana crica,

De hoje em diante, lá de tempo em tempo,

Escorra sangue em bica…

 

E por memória eterna chore sempre

O cono da mulher,

Com lágrimas de sangue, o caso infando,

Enquanto mundo houver…”

 

Amém! Amém! Com voz atroadora

Os deuses todos urram!

E os ecos das olímpicas abóbadas,

Amém! Amém! Sussurram…

OFERTÓRIO – ÓDIO / poema de jb vidal

ainda ofereço este ódio

que se alimenta da inveja e do ciúme

da ganância e do poder

que macera sobre fracos e inúteis

ri do sucesso e do fracasso

e reina absoluto no tempo

 

 

 

um ódio total,

solícito, voluntarioso e polido,

cínico e exuberante,

com elegância faz as guerras e dizima pela fome,

que, em nome de Deus, pune, mata e destrói,

timoneiro único, em seu barco de chamas, navega os corações

 

 

 

um ódio que elimina obstáculos e é espelho maior

um ódio eterno que se disfarça em glórias e orações,

penitências, óbolos, ladainhas e procissões

que surge lentamente, lentamente, lentamente

para aflorar como um vulcão impiedoso e destruidor

derrotando sentidos, sentimentos, esperanças e pulsações

 

 

ofereço pois a quem nunca estendeu a mão

a quem ofendido não perdoou

agredido não esqueceu

esquecido não lembrou

a quem a inveja e a calúnia foram santos no altar

a quem a morte é o momento de saber que não viveu

SOLIDÃO poema de otto nul

 

Estou só

Sempre só

Solidão que insiste

Que resiste

 

De tal modo só

Nada mais existe

Tomo assim pos-

Se de mim

 

Pouco mais desejo

Que ser apenas eu

Comigo num so-

Lilóquio sem fim

 

Que bom ser assim

Nessa fala infinda

Tudo vem de mim

Embora só ainda.

 

 

        x x x

 

(abril/09 – Otto Nul)

 

 

 


SOBREVOO RASO POR TRECHOS DO NOVO MILÊNIO poema de zuleika dos reis

 

                                                                      à memória de José Paulo Paes

               

                           

 

    

 

Tabuleiro medieval.

As tochas iluminam a Morte e o cavaleiro

no jogo que prossegue…

 

 

Algumas torres se preparam para a morte

outras, não. Enquanto isso, desde o primeiro lance,

os peões tremem.

 

Sem os peões, o jogo não existe.

 

O morto no campo de batalha

Olha o inimigo ao lado e pensa:                            O outro morto:

Esse está mais morto do que eu.                          Você se engana.

                A seguir se quedam calados sobre a terra:

                É impossível dialogar com o inimigo.

 

 

 

Atravessamos o milênio, e daí?                            Eu vejo:

Não vejo qualquer diferença no rio.                     Acaba de passar

                                                                           um cardume

                                                                           morto.

 

 

 

Se você pretende atravessar comigo                    Você consegue

neste barco                                                          ver esse

até o outro lado da linguagem                               outro lado

é mais seguro ir nadando.                         da linguagem?

 

Que nada!Parece que o rio vai longe!

 

Talvez – ainda é tempo –                                      Ou

sábio seja deletarmos rio                                      permanecermos

barco fazendo água                                              no ínfimo

passageiros…                                                       do deus

                            tal os múltiplos

                            os tantos

                            ainda aqui

                            reinventando liras

                            reinventando perguntas

                            reinventando o pânico dos antigos.

 

 

 

Pelas ruas, o pânico dos velhos caminha lento…

 

 

 

Minha eternidade pelo reinado de um dia.

Só libélulas são felizes.

 

As diversas tribos, cada qual balançando

em seu ritmo próprio

vão puxando alegremente a passeata

por aumento de salários.

 

 

 

Meu corpo silicônico absoluto perfeito

não precisa de futuro. Identidade?

Excesso de bagagem, problemas na Alfândega.

 

 

Me vendo na TV, no cruzamento da Ipiranga

com a São João.

Na telinha também os meus guris

os demais companheiros

os nossos piolhos

os carros estacionados.

Que belo enquadramento! Estamos ótimos!

miedos humanos – poema de francisco cenamor/ Espanha

 


no entiendo ser humano

golpe violencia y bomba

no entiendo el lamento

ingratitud patada y tumba

 

no no precario preso y extraño

presidio genocidio y moro

no entiendo cada arañazo

fusilamiento violación infarto

 

me siento tumbo me levanto

y siento miedo por ti

pequeño humano

JORGE (rapsódia) de jorge barbosa filho

( para meu pai jorge barbosa)

antes que ele morra

 

 

 

meu nome é jorge.

filho

de uma feiticeira circe,

amante de ulisses

e do prazer suíno

de seus amigos.

 

filho

de um pai também

jorge.

criou-me no samba,

no culto das madrugadas

pra mais além,

batucou-me grogue

com o gênio das garrafas.

e em ambas

aprendi a mágica:

 

e sôo

jorge,

o caborje

louco cego

como borges.

prego ego solto

no eterno,

o anjo e o diabo

nas esquinas do eco,

onde peco e rebato,

e mimético

meu vôo disfarço.

 

 

jorge,

acima do ben e do mautner.

filho

de gerações de sensuais e místicos

da laia dos velozes e fatais

e nos bares recito:

não gosto dos ritmos do mundo

por isto

inventei os meus.

assim sou o seu

 

jorge

portugal que descobre

áfricas na língua

da ginga brasileira.

e desfila acordes

escambos e o escambau

pelas bahias das minas

de salomão

 

jorge

que amadurece barbosa

o sol de cabo verde.

filho

da luz do precipício.

lorde

no país do carnaval,

e neste hospício

bispo do rosário

 

jorge

amado e odiado

bamba do império que lapido

nas madureiras, o âmbar

das terras do sem fim

e com meu verso inconsútil

invento orfeu

filho

dessa negra fulô.

 

 

 

 

jorge

de lima e grosa,

dilapido as horas

do fútil mistério

que cobre o meu sexo:

confesso,

sou lésbico com as palavras

e a túnica de minha poesia, dilacero.

eu sou bem safo!

 

 

ou meu santo é forte

filho

de ogum

e a sorte de ser são

jorge.

eu e meu cavalo

no subúrbio da lua

à galope no que valho,

cravo pelas ruas

o dragão

de meu epitáfio:

sou poeta, foge!

 

jorge

que bebeu dionísio

na barrica de diógenes

e na fonte de belerofonte:

meu mito escorre

pela boca maldita

ao largo da ordem

onde tomei porres, daqueles

babacas,

que não fodem

e não saem de cima.

 

 

 

 

 

 

 

meu nome é jorge

nem agora josé

nem enfim joaquim.

filho

do tempo

e suas relações naturais

um parto de campos

e matos

onde caetano, modesto

encanta o leão

e dá o compasso

ao nosso qorpo santo,

nefasto.

 

e eu sou

jorge barbosa filho.

branco, negro e índio,

xamã dos meus xarás

e minha tribo me espera lá

alto lá!

jorge de bar e bossa

fio da véia teia,

na festa da cumeeira

aonde brota o mel

no mar, no céu de yemanjá:

a fina vela blues de buzuca

e a pipa gay de jorge do kaká.

 

ou como me chamam cá

jorge barbosa filho,

um agnóstico aflito

com espelhos vastos…

jorge de qualquer lugar!

ninguém me deixa sonhar

porque sou portela, boêmio,

um jorge e um diabo do irajá

que  acena

um salve jorge

apenas num olhar.

 

e a minha vó… zilpa!

MOMENTO QUE EVAPORA poema de osvaldo wronski

A palavra da hora

Deve ser escrita e lida sem demora

Muito tempo na dispensa

E perderá a flora

O vento vai virar

A folha agora

Aquele raro instante

Logo irá embora

Intrigante encontro

Com a vida dando o fora

LARVÁRIO poema de jairo pereira

Larvo misógino até outro poema

que se inscreva em mim furioso

poema de proliferar inverdades poema

de colecionar mnemônicos objetos

larvo lavro nas embiras rasgadas

uma vida de intenções megacósmicas

larvo cor de erva-mate moída na cuia

a salada de maionese tava ótima

neste domingo de dia dos pais

tranço eclipsemas vários

os pés no chão agora úmidos

da horta úmida

anis expostos sálvia mastruz

de pôr na cachaça

tenho sede de biodiversidade

uma joana ilustrada ilustra

a gola de minha camisa

na água da pia escorrida na terra

a lesma gorda túmida

lâmia lêmea límia estacionada

um rastro prateado de signos diluídos

a lesma esma resma vesma

tenho sede de biodiversidade

sede dos amplos espaços azuis

no cipó-açu

improscrito liquem-rosa atrai insetos

a aranhinha negra tece sua teia núbia

vertigo vezdigo vertrigo velíquo

meu corpo

de estar no dentro de tudo

que vejo e sinto

pensamento e extensão

:extensão: os longos

braços do pai provedor no tempo

o pai de matas mares rios tempestades de

areia nos desertos o pai de tudo que é

toca-se

:pensamento: pensar imaginar sonhar

emoções essências do ser e estar no mundo

aqui existem as emoções verdadeiras

aqui tudo é de se azulescer reverdescer

mosqueio descarregos de coisas guardadas

mosqueio o lixo reciclado mosqueio

vidros mascados

trabalhos nos fundos das minas

mosqueio mosqueio

passos inacertados

inseto construtivista

erijo prédios repartidos na significação

sobrepostos nas tentações erijo com signos

cagados de pássaros meu dizer rural rurícola

atabalhoado cego pra tudo quanto é lado

inseto construtivista traço linhas brancas

no nada nas telas planas do .invisível-indizível

um pedaço de dois centímetros

de meu cipó-açu

por aquele casaco de couro argentino

lembro do dia que construi

com os pequenos ossos

do animal morto ou melhor

reconstrui o bicho vértebra sobre vértebra

parecia um Et meio metro braços longos

pernas curtas: não seria um grande

bugio amarelo!?

na toca escura sem claridade alguma

olho pro negro do nada nada a terra fresca

meu corpo morno no fresco da terra fresca

pisanças de bichos no porcima um bicho na toca

o outro eu ali estático extático

semente na casca do fruto

o grão de terra na terra

eu na toca nua e escura

pra que ficar sempre ali

no tempo e no vento

meu outro eu entocado

livre de quaisquer relações

com os outros homens e mulheres!?

uma vida na toca ampla confortável

no resto de mata

sobrevivida q. sobrevivi

a filosofia do estar só e nu

estar só e nu no mundo entre as coisas

aiayaculerêdurimdyé aiayaculerêdurimdyé

:vida q. se perdeu nos objetos:

me perco e me reencontro pés no chão unhas

encardidas fiapos de idéias fieiras de eclipsemas

novos para materializar nos pêlos do tapir

eclipsemas de se brincar

e arranjar significação

pra entreter a vida.

 

 

 

jaIrO  pEreIrA

MÁRIO QUINTANA e RUDI BODANESE em FOTO POEMA

rudi-bodanese-poemafoto7

MAS NÃO PARA MIM poema de tonicato miranda

sou mesmo um tolo

adoro este seu jeito solto

brincando com as pessoas

soltando encantos ao ar

mas parece de mim caçoas

 

sou bobo demais, pobre de mim

lobo velho com coleira e amarras

mas adoro este seu olhar à toa

que por todas as paredes voa

mas ele não voa para mim

 

sou um idiota aprisionado sim

pelo seu doce sorriso de algodão

esfregando o branco dos dentes

nos entusiasmos mais dementes

mas ele não vem até a mim

 

sou eu o vento sul, sim

passo de leve por seu pescoço

e você rola a cabeça, sorri

aos forasteiros e aos homens daqui

mas não sorri para mim

 

sou mesmo um tolo

acreditando que chapeuzinho

um dia poderia se perder comigo

mas você jamais se perderia assim

pelo menos não para mim

 

não sou mais nenhum tolo

aprendi – você não é de ninguém

sorri porque gosta de ser assim

um sorriso solto ao prazer da noite

mas não para mim

 

TM, 26/03/2009.

A VÓS JUVENTUDE! poema de vera lúcia kalaari / Portugal

A vós, 
Juventude incompreendida, 
Á vossa voz, 
Á vossa sede incontida 
Da vida, 
Eu dou os versos que faço. 
A vós, 
Que quereis tudo e não quereis nada… 
Que sonhais sonhos acordada 
Meus irmãos heróis, 
Meus irmãos loucos, 
Eu ofereço quanto tenho: 
Estes sonhos, este andar de estrela para estrela. 
Escutai! 
Rir-nos-emos do mundo que não vale nada! 
Porque nós, juventude transviada 
Estamos acima de todos! 
Estamos lado a lado com o céu firme, brilhante, 
Sob as cores dum arco-íris. 
E abaixo de nós 
Está o bando de gente dispersa, superior, 
Que arrasta os pés, tacteando, 
No crepúsculo das ruelas. 
A nós, o sol da esperança, 
Aquece-nos as mãos, reacende-nos os olhos. 
Hoje, tu, mocinha louca 
Tens o próprio sol nas mãos! 
Qu’importa o amanhã? Um amanhã que talvez nunca virá? 
Um amanhã com carga de canhões, com nuvens de fumaça, 
Com ondas púrpuras de sangue 
E gemidos de queixas e prantos? 
Vivamos o hoje! 
Sigamos um só caminho! 
O caminho sem preconceitos! 
Um caminho em pontes erguidas 
Sobre pântanos, sobre estradas abertas 
Entre corrupções e ódios. 
Ninguém sabe, ninguém, 
Se a primeira gota de sangue dos nossos corpos, 
Gotejará amanhã. 
Porque a terra, as águas, o ar, 
Estão transformados! 
Porque por toda a parte, 
Há almas enlouquecidas, implorando: “Paz”! 
Porque a terra está nua! 
Porque o mundo todo, é uma orgia sangrenta 
Sem auroras puras iluminando rostos de crianças! 
E talvez, sim, talvez, jamais volte cor 
Sobre o estertor do mundo sem alento! 
E nós, crianças, nós, juventude revoltada, 
Ovelhas negras dum rebanho de ovelhas negras, 
Cruzaremos os braços d’espanto e gemeremos: 
-Senhor, que fiz eu? 
E teremos, revoltados, os pensamentos parados! 
Guardaremos no peito, o ódio e o desespero. 
Perderemos a esperança duma felicidade futura! 
Pisaremos com rancor as flores, 
Embriagados pelo sangue, os dentes rangendo d’ódio! 
E os nossos olhos verão o dia transformar-se em noite! 
Veremos as estrelas que se acenderam para nós 
Sufocadas pelo brilho ardente das armas nucleares! 
(Oh tristeza! Oh horror d’um céu sem estrelas!) 
Por isso somos a juventude revoltada. 
Por isso caminhamos de rua em rua, de cidade em cidade, 
Jogando sem preconceitos a alegria e o riso, 
Como o bimbalhar de sinos festivos, tocando a finados! 
E tentamos a mente embriagar. 
Tentamos que o mar, imponente, se deite a nossos pés. 
Que a terra, a humanidade, nos tema, nos odeie. 
Mas vede: Tudo é uma farsa! 
Porque sob o menino orgulhoso, 
Se esconde o temor da redenção. 
Se alastra a solidão entre imagens de pedra, indiferentes, 
Que nunca estendem a mão ao vagabundo que passa. 
Porque o suspiro dos nossos peitos, é o suspiro, 
Duma estrela moribunda! 
Porque somos os filhos do vazio, 
Porque nossas vozes secas, são fracas, insignificantes! 
São preces de vento, rolando em erva seca! 
Porque somos os homens d’amanhã, 
Carne para canhão, corpos sem forma, sombras sem cor, 
Aqueles que nasceram já no reino da morte: 
Os guardados em conjunto, os empalhados, 
Para uma luta final, 
No reino crepuscular. 
E nesta derradeira jornada, 
Neste caminhar por um vale sem estrelas, 
Continuaremos cegos, independentes, 
Um rebanho sem pastor 
Caminhando… caminhando… 
Entre o desejo e a revolta, 
Entre a emoção e a decepção, 
Entre a claridade e a sombra, 
Entre o sonho e a realidade, 
Nas asas dum tempo, 
Sem ontem nem amanhã.

SE EU NÃO TIVESSE ALGUÉM PARA AMAR poema de joanna andrade

Se EU não tivesse alguem para amar,

Eu não pararia nem um minuto, continuaria em busca dos objetivos e nao perderia tempo,

Eu não saberia o que é chorar de saudade ou de medo de perder a pessoa tão importante e rara,

Eu só conheceria  a dor.

Se EU não amasse ninguém,

Eu não precisaria deixar de comer o maior pedaço de bife no prato,

Eu  não poderia levar café na cama de manha cedo esperando que o dia, que o ano, que a vida pudesse ser maravilhosa só por esse ato tão simples

 Eu teria ficado estática em minha vida

Se EU não amasse voce,

Eu não tentaria ser mais forte que Hercules para diminuir a distancia que nos separa,

Eu não esperaria ve-lo todas as tardes,

Eu não teria que parar no tempo para ver voce passar,

Eu não pediria tanto, indiretamente, para me incluir em sua rotina,

Eu seria fraca e não teria tido a coragem de lutar pelo que sinto,

Eu não saberia mais o seu telefone de cor e salteado como sei,

Eu não precisaria de sua mão, estendida, pois não amaria voce.

Eu teria todas as horas e minutos e segundos de todos os dias, livres, sem sequer lembrar de sua existência,

Eu levaria em consideração todas as malvadas combinações de palavras lançadas sobre mim

Eu usaria a força que tenho nao para amá-lo e sim para destruí-lo.

Se EU não amasse ninguem……..

Se EU não amasse voce……

Se……

JA/2008

 

 

DANÇA PARA UMA ALEGRIA MÍNIMA poema de altair de oliveira

Lembro do modo que a morte me convida

pra fazer vida consigo no pós-morte.

Penso comigo no medo que consigo

quando me vejo esquecido pela sorte

fico menor que o menor ser dividido

meio sem porto, sem norte, sem abrigo…

 

Sempre que sumo, espero e me procuro

sei que comigo amigo uns inimigos…

Sinto que a fome me come parasita

e cedo à sede em segredo, comovido.

Quero que o belo futuro me visite

e me permita o instante enfestecido:

desenharei alegria em surdos gritos

desdenharei os  demais dias vividos!

 

Altair de Oliveira – In: O Embebedário Diverso

 

PLANTA DE PEDRA DE RUA poema de tonicato miranda

                                                                                  para Baden Powell e as mulheres esquecidas

 

Vem de manso

Vem de mansinho

Um dedilhado na alma

Quase um ruído na calma

É assim que vem o violão

Ele e ela vêm brotando do chão

Ela planta daninha, ele todos meus ais

Ela, planta sem semente e sem pais

 

Ninguém chegou bem perto

Ninguém voou do seu deserto

Para ver entre tantas plantas

Esta planta e outras mais e tantas

Oh, planta santa, tu planta puta e bela

Nasceste nesta pobre ruela

Nasceste assim quase nua

Parece que cresces com o sorriso da lua

Tu a olhar, chega mais perto, veja

Acho ali tem pequenina cereja

Se fores mais atento verás

Um quê de novo nos meus ais

Verás uma beleza tão natural

Toda uma manhã de Carnaval

A delicadeza que ela carrega

Para dentro do meu olhar a amar

Como carga de bateria

Acendendo eletricidades em meu ar

Brotando-me mais onde não queria

É assim esta pequenina planta

Que quase canta e me encanta

Eu que ao sabor do violão, escuto

Este som que em mim dá fruto

Quão suave é este amor tão delicado

Na planta de minha mão tuas nervuras

Este teu corpo querido e amado

Acredita sinto todas tuas curvaturas

 

Deixa-me correr a regar-te

Para nunca mais esquecer-te

 

Curitiba, 31/01/2009

INEFÁVEL poema de cruz e souza

Nada há que me domine e que me vença  
Quando a minha alma mudamente acorda…  
Ela rebenta em flor, ela transborda  
Nos alvoroços da emoção imensa. 

Sou como um Réu de celestial sentença,  
Condenado do Amor, que se recorda  
Do Amor e sempre no Silêncio borda  
De estrelas todo o céu em que erra e pensa. 

Claros, meus olhos tornam-se mais claros 
E tudo vejo dos encantos raros  
E de outras mais serenas madrugadas! 

Todas as vozes que procuro e chamo  
Ouço-as dentro de mim porque eu as amo  
Na minha alma volteando arrebatadas