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S E N H O R – de jamil snege

Senhor

Hoje amanheci insatisfeito.
O pão estava amargo
e até o jornal que leio
todos os dias me pareceu de
uma insipidez atroz.
De repente, Senhor, lembrei-me
dos que não lêem jornais –
mas os usam para embrulhar
restos de pão que os paladares
amargos deixam no prato
após uma noite insatisfeita.
Como deve ser delicioso
esse pão, Senhor,
depois que tu o adoças com
tua própria boca!

Às vezes lamento minha
má sorte – e o que me espera
em seguida é um dia luminoso.
Às vezes bendigo minha
fortuna – e logo após um
furacão desaba sobre minha cabeça.
Brincas comigo, Senhor?
Ou será que devo lamentar
a minha fortuna e bendizer
a má sorte como se o avesso
e o direito fossem iguais
para ti?

Quando eu era pequeno,
topava contigo a cada instante.
Adolescente, passei
a encontrar-te cada vez menos.
Adulto, duvidei que
algum dia tivesse visto o
brilho de tua face e
te busquei incessantemente
por todos os caminhos.
Não te encontrei,
Senhor, nem poderia.
O piolho que segue na juba
do leão jamais terá
consciência de que possui um
leão inteiro.

Tenho procurado por
todos os meios me destacar
dos demais.
É minha a intervenção mais
inteligente, o lance
intelectual mais audaz.
Procuro as luzes do palco
com o mesmo fervor
com que o peregrino procura
a tua face.
Que tolice, Senhor.
Dentro de alguns anos, numa
tumba escura, que
artifícios usarei para
chamar a atenção sobre o meu
pobre crânio descarnado?

Para onde vai o canto,
depois que os
lábios se fecham?
Para onde vai a prece,
depois que o coração silencia?
E os rostos que amamos
para onde vão, senhor,
depois que nossas
pupilas se transformam
em gotas de lama?
Ontem vi uma andorinha
que devia ter uns
cinco milhões de anos.
Será que eu também
sobreviverei
ao que restar de mim?

Quando menino, nascido
serra acima, o que
mais eu desejava era o mar.
Eu queria apenas o mar
a mais nada – para nele
desfraldar meus
sonhos marinheiros.
Fui crescendo e ampliando
meus desejos.
Uma casa junto ao mar,
um barco a motor, festas,
empregados, piscina.
Obtive tudo isso, Senhor.
Mas aí então o mar dentro de
mim já havia secado

Não sou melhor que
uma pedra, uma folha,
a madeira de uma ponte,
o pó das estradas.
Sou apenas mais frágil,
Senhor, pisa-me com carinho.

Na minha infância, havia
um jogo que consistia
em se colocar um porquinho-da-índia
no interior de um círculo
formado por
casinholas numeradas.
Vencia aquele cuja
aposta correspondesse ao
número do esconderijo
escolhido pelo animalzinho.
Nunca mais vi esse jogo,
Senhor, mas eu sei que
alguns religiosos continuam
a praticá-lo contigo.
Cercam-te com suas
igrejas almiscaradas –
e correm a vendar apostas
aos seus fiéis.

A última tentativa
de me entrevistar contigo
foi um grande fracasso.
Acendi incensos, decorei com flores
– e nada de ti, Senhor.
Amanheci frustrado e
fatigado como se dançasse
a noite inteira nos infernos.
Resolvi então fazer
tudo ao contrário: dancei,
me embriaguei, libertei
fantasmas, invoquei
demônios.
Tive um sono embalado
por anjos em doces paragens
celestiais.
És sempre assim, Senhor?
Imprevisível? Desconcertante?

O velho índio foi encontrado
vagando pela floresta,
aparentemente perdido.
Perguntaram-lhe. Respondeu
cheio de brios: “Perdi
foi minha casa; não consigo
encontrá-la”.
Quanta lição, Senhor.
O homem pode perder sua casa,
sua rua, os rostos que
ama – sem jamais se perder
de si mesmo.

Um dia tu sras demonstrado
cientificamente,
como o eletromagnetismo e
a gravitação universal.
Professores te reproduzirão
em laboratório,
crianças enfeitarão com tua
fórmula suas mochilas
e os grafiteiros rabiscarão
teu princípio pelos muros
da cidade.
Nesse dia, Senhor, alguém
estará restabelecendo
teu mistério… à luz
de uma vela, numa galáxia
bem distante.

Ontem não fui solicitado
como gostaria de ser.
Ninguém me pediu conselhos,
ninguém fez caso
de minhas opiniões –
até pareceu que o mundo
e as pessoas poderiam viver
bem melhor sem mim.
Sensação terrível, Senhor.
E pensar que já passei
dias e meses da minha vida
infligindo idêntico
tratamento a ti…


Não ouças qualquer
juízo que eu faça sobre
meu semelhante.
Amordaça-me.
Corta minha língua.
A pessoa que acusei
de furtar minhas luvas
não tinha mãos.

Ontem vi um jovem preso
a uma cadeira de rodas.
Mãos, pernas, tronco –
imobilizados numa rigidez
de pedra.
De vivo apenas seu olhar –
atento, vigilante,
como se contemplasse tudo
das alturas.
Que expressão, Senhor,
que força poderosa…
Tua puseste todos os seus
músculos ali.

Tenho pensado ultimamente
em comprar um carro novo.
Trabalho com afinco,
faço tudo o que devo fazer,
mas nunca me sobra dinheiro.
Outro dia, fazendo
minhas contas, cheguei a
botar a culpa em ti: “Deus
não tem me ajudado”.
Que vergonha, Senhor.
Tantos homens trabalharam
com afinco a vida toda,
fizeram tudo
o que podiam fazer,
e jamais te pediram sequer
a passagem do ônibus…

Dois meninos, magrinhos,
irmãos, aproximam-se
do balcão de pães.
Escolhem um bem pequeno –
o que pode comprar a moeda
que um deles guarda no
côncavo da mão.
Saem os dois com seu
pãozinho – uma fome tão
antiga, entre acrílicos
e colesteróis.

Eu gostaria de ajudar
todas as crianças pobres,
carentes, desnutridas.
Gostaria, Senhor…
mas tenho a alma fatigada
de proteínas.
Ontem, por uma fraqueza
de caráter, resolvi
separar as pessoas de meu
convívio em dois blocos distintos
– os bons e os maus.
Que terrível, Senhor.
Depois de muito ajuizar,
os bons me fitavam com
expressões demoníacas
enquanto os maus, todos,
me exibiam a tua face.

Um homem mata outro e
tu o consentes.
O perverso agride o inocente
e tu não o fulminas.
O poderoso humilha o fraco
e tu aumentas-lhe o poder.
Que Deus és tu,
Senhor, que tudo podes
e tudo permites?
Que deus extermina órfãos
e ilumina a face dos
tiranos com os carmins
da longevidade?
Não respondas, Senhor,
não digas nada.
É esse mistério que me atrai
irremediavelmente a ti.

Toma a máquina do meu
corpo e nela
transporta socorro para
os teus aflitos.
É de pouca serventia,
Sei – o coração me arde,
meus músculos estão
fracos – mas podes
usá-la à exaustão.
E quando não mais prestar,
Senhor, escolhe uma tíbia
e faze uma flauta.

Hoje sairei à caça de lucros,
exatamente como o faço
todos os dias.
Tentarei ser o mais astuto,
o mais sagaz, e a terra
tremerá sob meus pés.
No entanto, Senhor, vai
comigo um menino magrinho,
olhos distraídos, que
não consegue entender por
que meus interesses
são mais importantes que
as nuvens e as borboletas.

Conserva-o assim, Senhor.
Mesmo que ele me atrapalhe,
mesmo que
me obrigue a ceder
no momento em
que preciso ser duro e inflexível,
conserva-o comigo.
E se um de nós não voltar,
Senhor, que seja eu – não ele.
Posso viver bem melhor
sem mim.

Já inspecionei a proa,
amarrei a carga,
desatei a vela.
O vento sopra forte e
enfuna meu coração de alegria.
Agora é contigo, Senhor.
Toma o leme e risca
o rumo do meu barco – não
penses que irei por
este mar sozinho.


TERRA PROMETIDA por walmor marcellino + / curitiba



“Sempre fui palestino.
Era palestino
antes de saber meu destino,
e que existiram
Nabucodonosor, Ciro
seu pai Cambises
ou seu neto Artaxerxes
o que eles sentiram,
ou o que dizes do rito
agora dos reis a quem serves.

Sempre fui um palestino,
e tempos depois abissínio,
pele negra, sangue tinto
derramado em 1935.
Fui judeu estrelado em 40
e a cada seqüente ano;
depois, moreno cigano,
ditos indigitados estranhos
a qualquer núcleo humano.

Tornei-me vietnamita
numa povoação calcinada;
desde a porta de entrada
procurei defender nossa vida
com fraternidade ativa.
Bombas e napalm rasantes
à morte, traçantes
tentamos
a resistência massiva
ante o terror imperialista.

Hoje, é o mesmo inimigo,
pouco distinguimos ao vê-lo,
impondo ao povo castigo
quer arrasar a Palestina.
É um amargo pesadelo.

Novas tábuas do Sinai, a sina
vêm na luz “starfight” do céu, na
estrela de seis pontas no tanque,
vai retornando essa malsina
com todo o poderio ianque.”

(Curitiba, julho de 2002)

VIA CRUCIS – de alceu wamosy / uruguaiana.rs

Ó calvário do Verso! Ó Gólgota da Rima!
Como eu já trago as mãos e os tristes pés sangrentos,
De te escalar, assim, nesta ânsia que me anima,
Neste ardor que me impele aos grandes sofrimentos…

Esta mágoa, esta dor, nada existe que exprima!
Sinto curvar-me o joelho a todos os momentos!
E quanto falta, Deus, para chegar lá em cima,
Onde o pranto termina e cessam os tormentos…

Mas é preciso! Sim! É preciso que eu carpa,
Que eu soluce, que eu gema e que ensangüente a escarpa,
Para esse fim chegar, onde meus olhos ponho!

Hei de ascender, subir, levando sobre os ombros,
Entre pragas, blasfêmeas, gemidos e assombros,
A eterna Cruz pesada e negra do meu Sonho!

OTTO NUL e sua poesia VI / ilha de santa catarina

OS ECOS IMORTAIS

Que venham das alturas

Os ecos imortais

E das planuras

As formas abissais

Que perambulem à noite

Os bêbados trágicos

Na madrugada sofram

Os poetas mágicos

Que adormeçam

No seio das putas

Os filhos das putas

Que desfrute a paz

No meio da lama

O réprobo contumaz


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INCÓGNITA

Me envolvo com a manhã,

Com a tarde,

Com a noite;

Tiro daí uma lição

Quanto à manhã, à tarde

Ou à noite;

Na manhã sou mais eu,

À tarde menos eu,

À noite sou em plenitude;

De que me valem, porém,

A manhã, a tarde, a noite,

Se não sei quem  sou?

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POEMA SEM TINO

Nunca mais farei

Um poema como manda

O bom figurino

Meio sem tino

Debochado e torto

Meio vivo, meio morto

Sem alma nem palma

Sem dama nem ama

Sem rima

Sem prima

Sem metro

Sem treta

Poema para dizer tudo

De ficar-se mudo

MESTIÇA de jairo pereira / quedas do iguaçu.pr

MESTIÇA

Mestiça afronta ao estabelecido.

Mestiço, abro clareiras na mata.

Mestiço, mastigo folhas

amargas.

Mestiço, arremedo macacos no topo

das altas árvores.

Mestiço, um peso

o peso das eras

me puxa pra trás

puxa relança

ao infinito.

Assim

é que também faço

e persisto.

No espaço duma vertigem e outra

embatem forças ocultas. Teu espíritho, meu espíritho, de sóis e luas repartidos, sofrem as vis agressões. É de tempera boa essa ferradura. É de tempera boa essa espada. São de tempera especial, esses golpes milenares em defesa pessoal.

As ogivas da morte, não estouram no meu chão. Não estouram na minha sede, não estouram na minha fome, não estouram na minha persistência de criador.

Acrescente

uma moeda de cobre

um metal qualquer

um adereço

no teu sonho

teu fazer

espectre a lua de frente

e subverta todos os sóis

dos dias seguintes

só pra ver como é

que fica.

Vem pelos séculos

nosso olhar

transternecido

nosso ver

crer, transfigurar

os transfinitos

almas perpassando

objetos.

Descalabro

do pensar

beligerante, eclético

trúnfico e imperial

a palavra vindo

e destruindo os sóis

arremessados de lado

e a voz fosforeando

céu acima na escuridão.

O fósforo

de tuas palavras

acende

iracriadora

no meu

coração.

A iracriadora

repercute no sempre

de todas as épocas

porque é voz lançada

ao infinito

transdiz o indizível

e revela os espaços

ocultos do orbe

em transe

de altosonhar.

Existe

o baixo sonhar

e sempre andei ali

escaravelhando

pós ardidos

de contigo, reergui

o gesto, a voz

o ímpeto e agora laboro

magmas alternados

de beleza e furor

explícitos zêlos

atônitas investidas

nos fatos.

Espírithos invictos no labor dos livros me desafiam

:golpes baixos no dizer:

agridem por mero deleite

a voz que poéticocircunda o entrelivros e delibera e torce as coisas de razão desrazão.

Comigo é assim despachado o despacho do dizer nos pacotes endereçados pra alguém no futuro que pouco ou nada me diz.

Na luta de facas, tu vinhas e eu me defendia com golpes marciais

as facas lampiavam na escuridão dos muquiviras e eu me defendia defendia. As lâminas finas, cromadas lampiavam na escuridão dos muquiviras e eu me defendia

defendia.

Em poeta e anjo e semioticista eu lançava mão de signos espérios ágeis no gatilho e mesmo assim tu te chegavas ostensivo, lampiando as facas afiadas no meu brilho.

Acrescente um punhado de feijão no prato, um punhado de arroz e um ovo frito fenomenal. Sacias a tua fome. Um poema como esse prato cheio, interfere em outras espheras. Interfere

educa o trauseunte peregrino. Um signo vive dum prato feito. Um signo, um homem, um centauro, um ente libertino. Dum prato feito a nossa fome. Dum prato feito, a nossa ira santa. Dum prato feito, o nosso amor. Dum prato feito, a imagem da musa crescida de sóis insuspeitos. Em poeta e centauro e ente reciclínio não me deixo abater pela cantilena negra do baixo espíritho. Uma proeza, a voz que poéticocircunda nossas ações de inventor

criador, filósofo pré promaduro, no caminho de todos os caminhos.

Luas e luas, sóis e sóis espelhos nos espelhos

linhas de pensar o impensado, tresandos de verbos novos fazendo pecado. Em poeta, me tentam imagens lindas. Me tentam, conceitos complexos, construções do alto espíritho. Mitigo

a dor maior, mitigo a ilusão esplêndida que dói

frente ao objetário vida.

TRAVESSIA – de manoel de andrade / curitiba

A praia quase deserta

a manhã despertando na luz dos elementos

o céu e o mar buscando os seus azuis

as águas que se iluminam lentamente

o vôo preguiçoso das gaivotas

a serenidade de uma vela na distância

as ondas que se quebram mansamente

o enigma dessa paz que só o mar nos concede.

Meus olhos perscrutam o impossível

na invisível beleza marítima da vida.

Minha alma penetra no âmago majestoso da paisagem

e viaja longamente pelo instante mágico do tempo.

Mar, imenso mar

meu olhar flutua na imobilidade do teu corpo iluminado

nestas canoas batidas pela luz ao largo da baía

nestes pescadores curtidos pelo sol e pelo azul

a recolher, de longe em longe, seus frutos de escamas coloridas.

Beijo-te na salgada madeira destes  barcos  recolhidos,

te abraço no velho homem remendando sua rede.

Caminho neste estuante cenário de água e areia

recordo-me menino neste banquete de espumas flutuantes

na frescura das ondas que morrem aos meus pés

mergulho no teu ritmo

e danço contigo no encanto desta valsa milenar.

Atlântico, meu Atlântico

águas que não conheço nas distâncias do horizonte

esse mar visto apenas das areias

da foz exuberante das correntes

da barra destes rios que tu acolhes

águas fundas, águas rasas

águas doces que cruzei.

Recortados litorais do sul

meu norte

minha praia

meu idioma açoriano

meu salgado fruto

minha fritura, meu peixe, meu pirão

roteiro prematuro dos meus passos

itinerário incansável em meus pés descalços

íntimos recantos de baías e enseadas

antigo esconderijo dos corsários

história nas estórias de velhos habitantes.

Mar, imenso mar

planície total e palpitante

miragem  e sedução

misteriosa  superfície  nos caminhos do destino

o mar de todas as proas

esse território dos meus sonhos.

Navegar, não naveguei…

as águas do Titicaca foram minha gota de oceano no alto da Cordilheira

navegar como quisera navegar, nunca naveguei…

rota costeira de Quayaquil à Callao,

minha única travessia

meu mar sem horizontes

minha comovida migalha de aventura.


este poema consta do livro CANTARES da Escrituras

O BRUXO – de jairo pereira / quedas do iguaçu.pr

(extraído de um sonho)

o Douglas Diegues é um bruxo

:meço seu supertalento:

graphar poemas nas peles das rãs

num átimo a gente pensa:

ah é simples! isso também faço!

é só pegar as bichinhas pelas longas pernas

estendê-las em uma tábua

e pronto!

com um fino ponção pontear

a epiderme com versos rasteiros

pior q. não!

a coisa não é bem assim

o tranho escreve por dentro da pele das

ditas :::micro-poemas lúminos:::

pra se observar a noite

depois as solta sãs e belas (no charco)

na fronteira Brasil/Paraguay

entes sígnicos saltitantes

em portunhol salvaje.

À LUZ DE UMA VELA – de jamil snege / curitiba

Um dia tu serás demonstrado

cientificamente,

como o eletromagnetismo e

a gravitação universal.

Professores te reproduzirão

em laboratório,

crianças enfeitarão com tua

fórmula suas mochilas

e os grafiteiros rabiscarão

teu princípio pelos muros

da cidade.

Nesse dia, Senhor, alguém

estará restabelecendo

teu mistério…à luz

de uma vela, numa galáxia

bem distante.

VACA SAGRADA de ewaldo schleder / ilha de santa catarina

foto de ewaldo schleder

Vaca sagrada

.

Fui morar perto do mar

numa tal Praia Brava

ganhei foi uma vaca

o mugido do animal

grata, ao que pastava

Naquela santa Ilha

curti praias e brisas

sua doçura e sais

entre dunas e campos

pedras raios temporais

De perto nunca a vi

jamais desejei dela

as tetas ou os cornos

muito menos a carne

o couro ou a vitela

Bicho de estimação

nem lembro haja tido

não conto minha vaca

Catarina, seu nome

sagrada é apelido

NOTURNO – ariano suassuna / joão pessoa

Têm para mim Chamados de outro mundo
as Noites perigosas e queimadas,
quando a Lua aparece mais vermelha
São turvos sonhos, Mágoas proibidas,
são Ouropéis antigos e fantasmas
que, nesse Mundo vivo e mais ardente
consumam tudo o que desejo Aqui.

Será que mais Alguém vê e escuta?

Sinto o roçar das asas Amarelas
e escuto essas Canções encantatórias
que tento, em vão, de mim desapossar.

Diluídos na velha Luz da lua,
a Quem dirigem seus terríveis cantos?

Pressinto um murmuroso esvoejar:
passaram-me por cima da cabeça
e, como um Halo escuso, te envolveram.
Eis-te no fogo, como um Fruto ardente,
a ventania me agitando em torno
esse cheiro que sai de teus cabelos.

Que vale a natureza sem teus Olhos,
ó Aquela por quem meu Sangue pulsa?

Da terra sai um cheiro bom de vida
e nossos pés a Ela estão ligados.
Deixa que teu cabelo, solto ao vento,
abrase fundamente as minhas mão…

Mas, não: a luz Escura inda te envolve,
o vento encrespa as Águas dos dois rios
e continua a ronda, o Som do fogo.

Ó meu amor, por que te ligo à Morte?

João Pessoa, 16 de junho de 1927

VOZES DE UM TUMULO de augusto dos anjos / sapé.pb

Morri! E a Terra – a mãe comum – o brilho
Destes meus olhos apagou!… Assim
Tântalo, aos reais convivas, num festim,
Serviu as carnes do seu próprio filho!

Por que para este cemitério vim?!
Por quê?! Antes da vida o angusto trilho
Palmilhasse, do que este que palmilho
E que me assombra, porque não tem fim!

No ardor do sonho que o fronema exalta
Construí de orgulho ênea pirâmide alta…
Hoje, porém, que se desmoronou

A pirâmide real do meu orgulho,
Hoje que arenas sou matéria e entulho
Tenho consciência de que nada sou!

AUGUSTO DOS ANJOS

Sapé, Paraíba, 20 de abril de 1884 — Leopoldina, Minas Gerais, 12 de novembro de 1914

DESCOBRIMENTO – de mario de andrade / são paulo


Abancado à escrivaninha em São Paulo
Na minha casa da rua Lopes Chaves
De supetão senti um friúme por dentro.
Fiquei trêmulo, muito comovido
Com o livro palerma olhando pra mim.

Não vê que me lembrei que lá no Norte, meu Deus!
muito longe de mim
Na escuridão ativa da noite que caiu
Um homem pálido magro de cabelo escorrendo nos olhos,
Depois de fazer uma pele com a borracha do dia,
Faz pouco se deitou, está dormindo.

Esse homem é brasileiro que nem eu.

MARIO DE ANDRADE

São Paulo, 9 de outubro de 1893 — São Paulo, 25 de fevereiro de 1945

OFERENDAS VIVAS de jairo pereira / quedas do iguaçu.pr


lançamentos de poemas-peixes

no azul do mar

lançamento de flores nos bordegãs de vime

lançamento de vidas vegetais ao mar

uma guirlanda de conceitos

crescida na minha fala

uma guirlanda adornada com frutos vivos

da grande molécula acqüe

os epiogros vencem as correntes

e bailam estruturas fosfóreas

semânticas almas de nada e muito dizer

no meu viver de mar

não se pode do indizível do inescrito

extrair verdades matutinas

não há lógica teleologia preleção

nessas ondas de imagens

identifico apenas sal nos não-conceitos

sal iodo sopros e hálitos

nas incongruentes sentenças

do megaespíritho.

ALVO de solivan brugnara / queda do iguaçu.pr

Mirei na nódoa do imaculado

atirei onde não tem alvo.

Sei que feri

aquilo que não vi.

Foi fácil, por que de tanto

não era nada.

E se eu me distanciar.

E se ele diminuir.

E se eu me aumentar.

Será que vou saber?

o que e aquilo que feri?

Será que era inferno ou paraíso?

Será que matei ou apenas irritei?

Será que revidará?

Será que sabe que também sofri?

Porque queria ver e não vi.

Desculpe-me,

Queria mesmo é matar minha sina

de só acertar

quando atiro a esmo.

ESCULTÓRICO de joão batista do lago / são luis


Mais um final de tarde!

Nele, teu corpo fixa em minhas pupilas

– para além da infinitude! – halo de luzes douradas.

Os suores que escorrem do teu corpo

Borboleteando a sagração do cais

Revelam poros dum azul-anil de saudades.

Tua escultura sagrada hipnotiza meus olhos,

Agora reféns do círculo de luz

Que contorna teu corpo luminoso,

Revelando toda tua imagem sagrada

No espelho mágico da minha imaginação,

Onde, – eu e tu –, navegamos em direção ao amor.

Se, porventura, morresse agora

Levaria comigo a bendita sorte de te ser amante,

Mas, antes, no Cais da Sagração,

Beberia do santo graal,

Junto aos peixes,

O ouro das tuas chagas crucificadas.

MARÍTIME de jairo pereira / quedas do iguaçu.pr


com o Sr. Cruz e Souza andei

nessa miséria de signos

nesses bares q. o mar vomita pra fora

e eram de estar longe em alto azul

cercados de peixes frescos

brancas almas do mar cobertas de

espumas ácidas

::os peixes:: escamas-vidas

recobertos de mares etéreos

os peixes presas fáceis de se pegar com as mãos

com um poeta de negrísse extrema atordoei

sóis açoreanos e amei lindas mulheres ébanos

negríssimas almas ao meu terno branco de linho

importado do Paraguay

alvo imaculado um legítimo linho chinês

com um poema de terra inscrito na lapela

há um linho asiático como imagino

a vestir-me assim tão bem

há um poeta uma poesia uns peixes

e mulheres lindas no meu dizer de mar

um feitiço nas pedras da cidade

& e um trabalho honesto no coração

do signo q. não dê trabalho.

QUADRO DESCRITO PARA CEGOS – de solivan brugnara / quedas do iguaçu.pr


Botticelli: O Nascimento de Vênus (1485) 1,72 x 2,78 m – Galeria Degli Uffizi, Florença.

Está no mar

quase tocando a ilha.

E é como uma música longínqua

o olhar distante de Vênus.

Sua nudez tem gosto salgado de lágrimas secas.

Seus cabelos claros e imensos

parecem ter movimento marinho, de algas nas marés.

Uma mão, como folha de parreira cobre

a maçã sensual do coração.

A outra com seu cabelo esconde o púbis,

um esconder que é mais uma carícia velada.

Seus pés sentem o prazer de tocar a borda e os drapejados

de uma concha,

sobre a qual está

com leveza de asa sobre o corpo da borboleta.

No ar, contra seu vento

Zéfiro sopra Vênus, com um hálito de maresia

não o sopro que apaga, nas o sopro que reavive.

Seu corpo flutua

e sustenta asas apenas decorativas.

Seu véu enleia, mas seus membros o dominam

como mão de pescador, a rede.

Clóris o enlaça

e trança os dedos de junco em sua cintura.

Flores brancas em torno deles,

cheias de perfumes mornos pelo sol mediterrâneo.

Ambos têm pés de pavão.

Ante às árvores,

com odor de jardins

Flora vestida de primavera.

Vinda numa dança

de gestos musicais,

espera Vênus tocar a terra

para cobrir sua nudez.

Mas o manto, parece, se recusa

esconder algo tão belo.

MULHER, meu nome é MULHER ! de fátima de souza / rio de janeiro

No princípio eu era Eva
Nascida para a felicidade de Adão
E meu paraíso tornou-se trevas
Porque ousei libertação!

Mais tarde fui Maria
Meu pecado remiria
Dando à luz Aquele
Que traria a salvação!
Mas isso não bastaria
Para eu encontrar perdão!

Passei a ser Amélia
“A mulher de verdade”
Para a sociedade!
Não tinha a menor vaidade
Mas sonhava com igualdade!

Muito tempo depois
Decidi: “Não dá mais!
Quero minha dignidade,
Tenho meus ideais!”
Mas o preconceito atroz
Meus 129 nomes queimou
Então o mundo acordou
Diante da chama lilás!

Hoje não sou só esposa ou filha;
Sou pai, mãe, arrimo de família;
Sou ourives, taxista, piloto de avião,
Policial feminina, operária em construção!
Ao mundo peço licença
Para atuar onde quiser!
Meu sobrenome é Competência
O meu nome é Mulher!

OTTO NUL e sua poesia IV – palma sola.sc

A PEDRA PURA

A pedra dura

A dura pedra

A flor in natura

Que madruga

Que matura

Na brancura

Na planura

De sua postura

A hora que passa

Soa prematura

O vento que sopra

Irrompe na rua

No meio da chuva

E da pedra pura



.

A VOZ DO POEMA

A voz do poema

Fez-se ouvir

Em meio à praça

Clara como a luz

Nada pretendia dizer

Era apenas uma voz

Sem pretensões

Que ecoava forte

Uma voz bela

Distinta de tudo

“Clamantis in deserto”

O povo em volta

Alheio a tudo

Não a ouvia


.

NUMA MANHÃ TRISTE

(a Jeanne Hebuterne)

Foi assim como se contou

Numa manhã cinza

Em que garoava

Estava meio friorenta

Tinha-se sabido da morte

De Modigliani dia antes

Você estava grávida

De um filho dele

Foi até à janela

Numa rua miserável

Olhou o céu triste

Tudo era triste

Depois de considerar tudo

Ou nada jogou-se da janela

E resolveu partir com ele

Com seu filho recém-nato

VOLTANDO DO INTERIOR DA BRASIL de tonicato miranda / curitiba


para Jane

longe de casa, na estrada distante

entre urubus e pombos desconhecidos

voando rasante sob o sol escaldante

vou singrando a pele do sertão Brasil

entre curvas e retas, verdes e barros

a saudade pulsando o peito e a camisa

sem chuva fina, nem vento, nem brisa

a curiosidade do olhar rodando o pescoço

para ver a casa da fazenda tomando sol

nua e branca, toda exposta em pele e osso

minha voz tão muda, quilômetros depois

balbucia teu nome como quem faz uma reza

triste pensar como as pessoas viajam tão sós

vida estrangeira no próprio país, vida lesa

oh saudade sem remédio, sem receita ou bula

não bula comigo assim, tira da boca o travo

laranja azeda chupada na beira da estradinha

rumar pra casa voltando ao doce e ao amargo

é mais que preciso, é tudo que esta vidinha

deseja de nós ao ouvir a voz do coração

São José do Rio Preto

9/8/2009.

ÔNTICO de joão batista do lago / são luis



Onde me encontro no teu mundo,
Onde o caos que organiza sobras (e),
Que desvela a lamparina dos dias,
Que revela a ventura de não me ser-te,
Que transgride o ardor da ânsia de viver a
Eternidade de sempre ser o eterno ser?

Não me sei como teu outro na desventura do mundo,
Nem me sei tranquilo no verso escondido, que soçobra das
Noites claras e mal dormidas, um silenciar agudo e miserável,
Conjugando verbos sânscritos pelas noites que me varam,
Que me açoitam e vergastam a alma perdida de todos os tempos.

A arte em mim é um mundo possível!
É lá que guardo todos os meus gritos,
Todos os meus silêncios,
É lá que se me faço guerra,
É lá que se me vejo: ser da paz.

Meu mundo – de existência concreta e múltipla –
Vagueia pelos interiores recônditos,
Ignoto, incógnito…
Existente no âmago mais profundo e íntimo de me ser
Apenas um na poeira do tempo e do ser.

DUAS ALMAS de alceu wamosy / uruguaiana.rs

Ó tu, que vens de longe, ó tu, que vens cansada,
entra, e sob este teto encontrarás carinho:
eu nunca fui amado, e vivo tão sozinho,
vives sozinha sempre, e nunca foste amada…

A neve anda a branquear, lividamente, a estrada,
e a minha alcova tem a tepidez de um ninho.
entra, ao menos até que as curvas do caminho
se banhem no esplendor nascente da alvorada.

E amanhã, quando a luz do sol dourar, radiosa,
essa estrada sem fim, deserta, imensa e nua,
podes partir, ó nômade formosa!

Já não serei tão só, nem irás tão sozinha.
Há de ficar comigo uma saudade tua…
Hás de levar contigo uma saudade minha…

.

Alceu de Freitas Wamosy (Uruguaiana, 14 de fevereiro de 1895 — Santana do Livramento, 13 de setembro de 1923) foi um jornalista e poeta brasileiro.

Filho de José Afonso Wamosy, de origem húngara e Maria de Freitas, foi um poeta simbolista publicou seu primeiro livro de poesia, Flâmulas, em 1913, enquanto já trabalhava como colaborador no jornal fundado por seu pai, A Cidade, em Alegrete.

Poeta simbolista,escreveu poemas cheios de desencanto, em uma produção que se destacou no sul do país e é uma das mais significativas do Simbolismo brasileiro.

Em 1917 adquiriu o jornal O Republicano, no qual permaneceu trabalhando até seu falecimento em 1923. Republicano ferrenho, lutou na Revolução Federalista, combatendo em Santa Maria Chica, Pontes do Ibirapuitá e Ponche Verde, onde foi ferido mortalmente.

É patrono de uma cadeira da Academia Rio-Grandense de Letras. Foi homenageado como patrono da Feira do Livro de Porto Alegre em 1967.

wiki.

REI E RAINHA de rodrigo de haro / florianópolis


Os reis estão fatigados

Rei e Rainha dormem lado a lado

Na urna de vidro

Estreitamente unidos debaixo da nuvem.

.

Em algumas estampas

A mulher enlaça o homem pela cintura

Com pernas delgadas de rã

E seu leito por ser uma corrente

Que suspeito de enxofre

Suas almas são estes dois pássaros

Que sobem para o sol

Endoidecidos

Rei e Rainha cintilam caninos pontiagudos

Já partido o prato em que comiam

Já partida a urna em que dormiam.

se eu morrer ontem… – de julio saraiva / são paulo


se eu morrer ontem

e você por acaso acordar

hoje cedo com vontade

de chorar

não chore não

esquece

não vou estar por perto

e nem ninguém vai

reparar

ponha um vestido

indiano

ouça um samba do adoniran

ou do paulo vanzolini

não passe de 2 dry martinis

pra coisa não desandar

pense que vivi o bastante

pra quem viveu por

engano

como um sincero

farsante

poeta

não fui dos piores

menos príncipe mais sapo

dei cores aos meus

horrores

se eu morrer ontem

diga

aos interessados

que os convites para o

enterro

estão todos

esgotados

ENXURRADA de tonicato miranda / curitiba


para Jane

.

Muitos erros cometi na vida

Não tivesse me unido a você, mulher…

nem tivesse vivido tantos anos até…

ou fugido de certas oportunidades…

nos mudado de tantas cidades

Não tivesse feito aquela promessa

nem tivesse viajado a beça…

ou aberto Escritório em Blumenau…

longe de você, meu bem, meu sal…

Enfim…

…se não tivesse vivido.

Pois esta é minha vida,

com ela você desce

Desce o rio do tempo comigo,

como numa grande enxurrada

Não, não sou o rio, apenas a

árvore arrancada da margem

Meu erro?

Ter deixado a semente cair

muito perto da margem

Queria olhar o rio passando,

mirar o horizonte sem nada à frente,

olhar seu olhar passando de barco,

e acompanhar as promessas dele

que se foi com o barco, mas depois voltou

para se plantar comigo, na margem do rio

Assim pudemos olhar muito pôr-do-sol

até esta enxurrada nos arrancar

levando-nos rio abaixo em direção ao mar

Quem sabe ainda não ancoremos

próximos da praia depois de muito rolar?

Quem sabe caranguejos venham mais tarde

se abrigar junto às nossas raízes?

Quem sabe o mar não venha com conchas

e elas conversem quando ele se retirar?

Por isto, não quero mais ficar a cantarolar

esta é minha vida, seja bem vinda, mulher

Ao longo dela você é a bela passageira

Saiba que como condutor ou piloto tenho,

por vezes, ótimo serviço de bordo, aproveita

Apenas não sei como lhe abraçar e proteger

quando o rio desce pelas barrancas

e o mundo parece de cabeça para baixo virar

Mesmo assim terei minha mão e meu olhar

para lhe segurar ainda que afundemos

e depois finquemos nossas raízes nas margens

para virar na eternidade dois belos jatobás

O ANJO VINGADOR de jairo pereira / quedas do iguaçu.pr


anjo vingador tenho planos

contra o deus capital

planos ações exercícios de vida e morte

muito suor e sangue pelos poemas

golpes no vazio com catanas de bambu

estilhaços nos espelhos coices nos

pit bulls

pedradas em piscinas ricas

inócuos teus tentáculos polvo

estrangulador

inócuas tuas babas no café da manhã

inócuos teus cartões de crédito

sendas senhas

ao fundo do mar destino tua lábia

uma urna de concreto em lacre

circulada de peixes lemptos

como um navio naufragado

anjo vingador anjo do paraíso na terra

depois do intenso trabalho

vivo grandes momentos do espíritho

componho odes singulares

silogismos poéticos criptogramas

nada te mostro dessa vez

:segredos erigidos em armas:

não sobrará papel sobre papel

de teus vis engenhos.

O ASSINALADO de cruz e sousa / florianópolis


Tu és o louco da imortal loucura,

O louco da loucura suprema.

A terra é sempre a tua negra algema,

Prende-te nela a extrema Desventura.

Mas essa mesma algema de amargura,

Mas essa mesma Desventura extrema

Faz que tu΄alma suplicando gema

E rebente em estrelas de ternura.

Tu és poeta o Poeta, o grande Assinalado

Que povoas o mundo despovoado,

De belezas eternas, pouco a pouco…

Na Natureza prodigiosa e rica

Toda a audácia dos nervos justifica

Os teus espasmos imortais de louco!

.

Cruz e Sousa faleceu em 1898 na Ilha Nossa Senhora do Desterro, hoje Ilha de Santa Catarina no município de Florianópolis.

VEM, VENTO de otto nul /palma sola.sc

vem, vento,

na asa de um catavento,

vem, chuva,

leve como uma pluma,

vem, sol,

acender o arrebol,

vem, céu,

fazer todo o escarcéu,

vem, trovão,

com teu bordão,

vem, tristeza,

e põe tua mesa,

vem, alegria,

acabar com a agonia.

Banho de Sol – de solivan brugnara / quedas do iguaçu.pr

Numa manhã fria

tomando sol

num pedaço de quintal

entre uma jabuticabeira

e um resto de horta abandonada,

velhas roseiras

e entulhos.

Fechei meus olhos

fiquei ali,

o ardente amarelo

transpassando

minhas pálpebras fechadas,

inerte,

só sentindo

o calor agradável,

sem pensar em nada,

sem ser nada.

Não existir

foi delicioso.

Quando abri meus olhos,

pensei:

Talvez

a jabuticabeira

seja feliz.

Debruçada na Prancheta – de tonicato miranda /curitiba

para aquela arquiteta

.

quando foi que me despedi de você

em qual gaveta perdi seu retrato

em qual lenço está o perfume não lavado

armário revirado, papéis sobre a mesa

você não está aqui, estou perdido, desamado

uma bala me persegue na arma do caçado

será ele seu novo amor em busca do passado

ou sou eu querendo atirar em mim por vingança

você tão brejeira

.

água de bica

brisa ligeira

palmeira rica

com muitos cocos

meu café da manhã

comido aos poucos

leite, aveia e avelã

.

você sorridente

vestido estampado

comprido, diferente

silhueta linda ao lado

da minha lembrança

meu mais gostoso

sorriso de criança

meu gesto amoroso

.

onde a perdi

em qual gaveta

quando não mais a vi

debruçada na prancheta

esta louca pintura

meu retrato espelhado

minha maior iluminura

que me fez andar de lado

A VIAGEM de jb vidal / florianópolis


no trem

as paisagens se repetem

uma a uma se repetem

a velocidade torna-as iguais

tédio

tédio das paisagens que não vi

porque lia um livro

que não li

no trem

tédio do que vivi

na viagem

viagem conhecida

angustiantemente conhecida

lucidez angustiante

minh’alma tórrida

sofre no trem

o cobrador conhecido

pede a passagem

que ficou no guichê

olho-o com olhar vazio

nada tenho para dar

se me pedir

dou-me

NÃO é nada diz

quer o bilhete

ofereço as paisagens que não vi

lindas imagino

NÃO

o valor da viagem

no trem

vale

o que tu sentes

lá fora

as paisagens

repetidas

doloridas

deserticamente repetidas

velozes

dentro

o cobrador eu  tu

e o êxtase possível

na Estação

BIOGRAFIA – de manoel de andrade / curitiba

Para Marco Pólo Passos

Cheguei com dezessete anos de esperança…

sem recurso

sem norte

sem uma referência sequer.

Passageiro de destino,

trazia uma ferida aberta pela súbita orfandade

e na memória um coração paterno destroçado.

Trazia uma única saudade,

o coração ancorado na distância

e um sonho prometido no sacrário da alma.

Numa mala de papelão

trazia os meus tesouros:

um terno de formatura azul-marinho,

o diploma ginasial,

minhas primeiras letras

e uma certidão de nascimento desbotada.

Uma escada lúgubre e empinada

o quarto mais barato da pensão

seis metros enquadrados

partilhados com um motorista de ônibus urbano… rude e desonesto.

O telhado inclinado sobre as camas

o arrulho amoroso das pombas

uma clarabóia que se abria para o céu

um aluguel adiantado

a matrícula no colégio público

o “sortido” dos primeiros dias

o pão nosso dos últimos dias

o derradeiro centavo.

A fome

o terceiro dia

o desencanto

e a imensa solidão do mundo.

Um banco solitário

um pânico silencioso, resignado e calmo

a morte na alma.

As horas passam

os transeuntes passam

indiferentes à minha dieta de água e impotência.

À luz do meio dia… uma discreta agonia

e de repente… um grito…

meu apelido da infância…

um abraço inesperado, fraterno e conterrâneo…

quando…? onde…? como…? venha comigo Lelo…

obrigado Marco Polo por aquela bandeja farta

pelos primeiros amigos

por tudo…

e sobretudo…

obrigado

pela tua mão invisível, Senhor…

que desde sempre amparou meus passos.

.

Curitiba, junho de 2003.

Do livro “Cantares” publicado por Escrituras

OTTO NUL e sua poesia (II) – palma sola.sc

A POESIA EM RECESSO

Nada mais para dizer

O poeta está em crise

Ou as musas estão em greve

Ou traem o poeta;

Onde o belo verso?

Onde o grande poema?

Em que nuvens

Ou brenhas se escondem?

O poeta está triste,

Despojado de sua musa;

A alma vazia

E empobrecida;

O poema relaciona-se à vida

E a vida está em recesso.


A BRISA E A LUA

No sidéreo a brisa

Encontra a lua;

Ambas tão trêmulas

Não chegam a dialogar;

A lua vai longe já,

A brisa devagar;

Em certo ponto

Convergente

Põem-se a conversar,

A lua nada tem a dizer

À brisa, esta muito

Menos àquela;

Caminham juntas

De par em par.


RIO DE SONHOS

Esse rio de sonhos

Que canto em versos

Pelo qual atravesso

Pena seja de fantasia;

É, porém, um rio

De verdade, que só

No fundo é irreal

E é meu delírio;

A toda hora me

Invade e domina

Pior, me desatina,

Rio de curso lento

Qual um vento

Que me fascina

NAURO MACHADO e sua poesia / são luis

Maldita a vida me seja,
três vezes maldita seja
a vida que me desastra
e que por ser-me finita,
três vezes seja maldita
e amaldiçoada madrasta.

Quem me fez como um qualquer,
dormindo aonde estiver,
saiba deste desprazer,
para sempre e desde saiba,
para que o seu Ser não caiba
na pequenez do meu ser,

que eu não pedi para estar
com minhas pernas no andar,
com minha emoção a sentir
este universo que tapa
a minha boca num tapa
e a minha língua sem Ti,

essa coisa que fede a iodo,
como a água do mar ou do
envelhecimento o rim,
essa coisa que derrama
seu púbis velho de chama
a extinguir-se quase ao fim,

corpo de Deus! Corpus Christi!
Viste-O algum dia? Tu O viste
sequer um dia como tu?
Integral e à dor exposto,
desde o cio ao suor do rosto,
desde impotente até nu?

Os meus membros são crepúsculos!
São sangue e iodo os meus músculos,
é iodo e sangue a minha cruz.
Por que não nasci não sendo?
Por que, ao amanhecer, acendo,
noutra treva, cega luz?

Se além da terra existe ar,
se além da terra ainda há
por menor que seja, um seja,
como à noite volta o dia,
como, ao corpo, o que o procria,
como, em mim, meu ser esteja!

Dentro ou fora, qual gaveta,
para que, em mim, o ser meta
quem, em mim, é este meu ser,
olho, em volta, à minha volta,
e olho nada — só o que solta
de qualquer um: quem ou o quê?

Nada é, pois tudo se sonha.
E se alguém me falar: ponha
tudo o que lhe resta, e resta
no que, ao pôr-se, se me põe,
para que em mim meu ser sonhe,
vivo morto — e a morte empesta!

Como dar à vida pôde
o nada ser que sou de
outro feito pelo ser?
De outro ser, igual a mim,
mas de outro início a outro fim,
noutra vida até morrer?

Ó envelhecer do meu estar!
Da leitura de Balzac,
de La Comédie Humaine,
se passaram tantos anos
nos malogros desenganos,
sem disfarce ou mise-en-scène.

Bela Eugénie Grandet:
sois lembrança a anoitecer
pelas tardes do meu Carmo,
quem me traz a quem não sou
na usura do pai Goriot
que me a mim dá, para dar-mo

no meu duplo a ser mais dois,
quais búfalos que são bois,
ao mar meu a ser mais mar de
ontem que ao ser-te, alma, foi-te,
nas noites que são mais noite,
nas tardes que são sem tarde.

Só me lembro das andorinhas,
que hoje são luas-vinhas
que iam e vinham às seis,
só me lembro das sequazes
na imprecisão de alguns quases,
na distância de vocês!

Róseas ruas da memória,
róseas ruas hoje escória
que a soçobrar mais me sobe,
afundai-me na lembrança
hoje cravos da criança
que meu cadáver descobre.

Como, à noite, acendo a lâmpada,
para imitar (rampa da
noite) uma inútil manhã,
como o como que mais como,
assumo, na idéia, o pomo
da primitiva maçã.

Assumo o dia original.
Nascimento à morte igual,
nascimento em morte assumo
nesta página onde, em branco,
minha vida inteira arranco
do nada em que subi. E sumo.

E sumo a sós. Mas prossigo:
“na idéia é bem maior o trigo
que na boca o próprio pão,
na idéia janto a sós, comigo,
o pão real que mastigo
feito de imaginação”.

Azul manhã em contumácia!
Negra noite, azul, te amasse
a idéia sem pensamento,
te amasse a própria Idéia
reduzida a uma hiléia
sem ar, floresta, rio, vento.

Locador de um condomínio
frustrador de um hímen híneo,
frustrador de um hímem são,
locador que loca um louco,
de carne e ossos sou reboco
deste barro em maldição.

Tudo é farsa, menor dor.
Sou, em mim, o que me sou
desde o ventre que me fez.
E contemplo a arraia, e raia
dela, como de uma praia,
a noite toda. Ei-la aqui. Eis:

andaime, sucata, ferro,
vagido, vagina e berro,
viatura e papelório,
passa tudo, e é a viatura
conduzindo à sepultura
meu ser morto. E sem velório.

Pois viu a terra e além bebeu-a,
pois viu o tempo e disse: é meu, à
solidão cerzindo a roupa
onde, se me dispo, visto
o sexo nu de algum Cristo
que, despido, não me poupa.

Dez anos de coito cego
são as metáforas que lego
à solitária da escrita,
aonde não chega ninguém
exceto o vazio que vem
de uma montanha infinita.

Ao ouvir da tarde: fracasso!,
conquanto, vergando, os braços
dissessem: pára, enfim finda!
e morre, ó alma desgraçada,
eu ousei retornar do nada,
ousei retornar ainda.

Abandona, ó rei, abandona
o abono de qualquer cona
além do sangue e da queixa.
Cerca a tua casa e a mura
com o suor da tua estatura,
e deixa o remorso, deixa-o!

Senhor do teu sofrimento,
vai-te com o diabo e o vento,
vai-te com a noite e o monte.
E fala, ainda que mudo,
que, do nada, igual a tudo,
sobre ambos nasces. E põe-te!

Elimina todo se
da pretensão de existir
na existência que é demérito,
e no não haver nascido
elimina-te existido,
elimina-te pretérito!

Eliminar o talvez.
Não saber dia, hora ou mês,
não saber até o minuto
em que me vim sendo feito
plantando a morte no peito
e o espinhaço no meu fruto.

Por que o vemeversoverbo
da herbívora erva que eu erbo
no meu plantio masculino,
inverte o chão do seu galho
arrancado do assoalho
repicando como um sino?

Ter olhos-Deus! olhos-sóis
tem-no o Deus que cego a sós,
tem-no o horizonte a pôr-se
como colírio em dordolhos,
tem-no quem me olha nos olhos
como se cego eu já fosse!

Ah!, se a pedra me fizesse
fazer-me cobrir quem desce
à região do ser meu se,
para não haver nascido
ou o houvesse enfim já sido
sem que eu dissera: nasci!

ETERNAMENTE TERNA NO ÉTER ou MORFEU SABIA – de ewaldo schleder / curitiba

Eternamente terna no éter

ou

Morfeu sabia

(para Bia de Luna, dois anos depois)

Danem-se os escrúpulos

deixa-me beijar sua boca fria

e ressuscitá-la para dançar

este sonho de valsa desesperada

agora que o salão está vazio

aparecem as purpurinas

do público em particular

brilham as lantejoulas

(ainda mais sob os spots)

do corpo de baile insensato

desencarnados por engano

acolhem-na bem por certo

Ana Cristina César, Rita Pavão

Bond, Leminski, Raul, Janis Joplin,

Hendrix, Dolores, Elis, Maysa

numa roda de tempo quebrado

em seus botões de poesia tenra

eternamente terna no éter

agora que o salão está vazio

conta-nos sem medo, Bia

conta-nos como foi

como o mar e o luar (ecce homo)

conta-nos, aí do céu

como, afinal, Caim matou Abel?

.

a poeta BIA DE LUNA. in memoriam.a poeta BIA DE LUNA. in memoriam.

ilustração do site.

GÊNESE de solivan brugnara / quedas do iguaçu.pr

No inicio existia apenas Deus o escultor

e a palavra.

E foi a palavra

a massa que Deus usou para moldar o universo.

Dize Deus, luz

e o som da palavra luz

se corporificou, iluminou

e se fez sol.

Dize Deus, terra

e o som da palavra terra

se corporificou,

e se aconchegou perto do sol

Dize Deus, água

e a palavra água se transformou

em oceanos e nuvens, em rios

e  nascentes.

Dize Deus, ar

e a palavra ar  envolveu e protegeu a terra

como uma pele e se preparou

para ser o mais farto e o mais precioso  dos alimentos.

Dize Deus, vida

e a palavra vida

tomou inúmeras formas e se desenvolveu

e frutificou como uma arvore generosa.

E a vida

se aqueceu ao sol,

habitou a terra

bebeu e respirou.

Só então

pode Deus, o escultor

tocar na terra e na água

e deste barro fazer o homem,

e da  mais linda costela a mulher.

Dize Deus, bendita e cheio de olor

seja para sempre esta mistura da qual

foi feito Adão.

A chuva será o sêmen

com a qual fecundarei o universo.

À ESQUINA de otto nul / palma sola.sc

Só à esquina

A vida escoou

O vento soprou

Triste à esquina

A luz apagou

Um homem passou

Isolado à esquina

O sol se evaporou

O dia murchou

Indeciso à esquina

O tempo parou

A sorte voou

Mudo à esquina

O barulho cessou

O mundo acabou

pergunto ao sal – de ewaldo schleder / curitiba

pergunto ao sal

olho o mar e as ondas quebram na praia

uma, duas, três…a sétima bate na pedra

algas espumam na areia à espera do sol

depois a lua – atrás das nuvens

lençóis brancos entre a tarde e o céu

velas tremeluzem embaladas pelas águas

curvas se perdem além do breu

certezas iluminam as mãos do pescador

a iscar o anzol na linha do horizonte

braços fortes fisgam – e sangram – o sol

ewaldo schleder

(floripa, dez. 09)

MORCEGOS AMARELOS de tonicato miranda / curitiba


para Marilda Confortin

a poesia

quando

vem a mim

vem assim

aos poucos

de manso

para mansinho

de um ganso

para o patinho

contornando tocos

desviando dos loucos

ativando meus sentidos

mudando minha cor interior

recuperando dados perdidos

a poesia

quando

vem a mim

bem assim

vem bailando

de vestido rodado

saia de chita e fitas

pés descalços

amassando o tablado

fandango pulsando

meu coração e o sangue

jorrando em todos meus rios

arrastando tudo das margens

enchente forte em todas as imagens

a poesia

quando

vem a mim

tem assim

aranha vistosa

às vezes lânguida

às vezes cândida

quase sempre cheirosa

mas pode também ser

revolucionária, guerreira

mesmo quando vem da mulher

arrebatando meu olhar e este mar

que há dentro de mim qual concha

abrigando pérolas que desconheço

a poesia

quando

vem a mim

cem assim

muda meu jeito

açoita meu peito

deixa-me triste ou quieto

passeando por bem perto

quase recolhido, na gruta escondido

eu e meus morcegos amarelos e belos

debaixo do cobertor, querendo um amor

para passear em caminhos imaginários ao sol

colher flores nos jardins das cores do teu olhar

aí onde gosto de sentar para ler simples jornal

POEMA DE NATAL de vinicius de moraes / rio de janeiro

Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos —
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos —
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai —
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte —
De repente nunca mais esperaremos…
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.

MEU CERRADO de aureo sérgio

A que me comparar? Ao que me comparar?
Essas árvores respiram bem devagar…
Quase morrem sequiosas e sedentas,
permanecem vivas no seu sofrimento.
O Sol resseca, as formigas trabalham.
Um intenso controle de seivas…
Xilema e floema compactados.
Um céu azul reflexo marítimo sem mar.
Ao que me comparar?
Uns caminhos trilhados de cristais,
Tucanos, sabiás, bem-te-vis, corujas,
Preguiças, tatus, capivaras, lobo guará.
Tudo há nesse paraíso de poeira e pedra.
Nesse deserto oásis de coqueiros buritis.
Um manto azul ao despertar planalto.
E acordar morrendo arrebol celeste.
Lado a lado, de leste a agreste…
Meu cerrado, meu NOROESTE.

A BELEZA DO NADA de otto nul / palma sola.sc

(A Zuleika dos Reis)

Sigo em frente

Um pé aqui

Outro ali

A cada passo dado

Um vislumbre

Ou nem isso

Depara-se-me o mero

Acaso ou o fortuito

Nos meandros do destino

Aqui colho uma palavra

Ali uma impressão

E tudo se soma

Em meu rumo aventureiro

Tudo se espera

Ou tudo pode ocorrer

Com um pé aqui

Outro ali

Dou com a beleza do nada

EM DEZEMBRO de eunice arruda / são paulo



a lenta
iluminada
agonia

retorna a
voz esquecida sob a
pele

em dezembro

águas passadas movem
moinho

UTÓPICA INTUIÇÃO (v) – de joão batista do lago / são luis.ma

Rasgo meu coração atormentado

Viscerado pelas madrugadas indormidas

Cálido dos calores humanos

Destruídos pelos hinos das insônias

Soçobradas dos cansaços vomitados pelas almas

.

Hoje à noite quero o sono mais profundo

Adormecer no colo da utopia que me segreda

Como a criança ‘inda não nascida

Como a esperança ‘inda que desesperada

De todas as vidas desaparecidas nos campos de guerras

.

Hoje à noite quero a eternidade de todas minhas paixões

Quedá-la no meu peito com profundidade

Qual punhal (!)

Estraçalhando meu coração em mil paixões

E desta visceral volúpia arrancar-me de dentro como antihumano

.

Quero, enfim, nesta noite sacrossanta

Batizar-me de todos meus desejos

Tomar o corpo da minha amada, minha Temis!

E deitá-lo no mais profundo dos meus gozos

E sabê-lo eterno no tempo da eternidade que me restara

ZULEIKA DOS REIS e seus HAIKAIS, com “kigos” perfeitos / são paulo


De primavera

Chega a primavera.

Perfumes transpõem muros

destes casarões.

.

Os guris perseguem

breves bolhas de sabão.

Ah! Vida translúcida.

.

As flores do ipê.

Até o cachorro cego

parece feliz.

.

Da página aberta

salta a pétala seca.

Primavera antiga.

.

De verão

Os trovões ribombam.

O pequeno cão Valente

treme no meu colo.

.

Cartão de Natal.

Jesus ainda está dormindo

no colo de Maria.

.

Vejo, do sombral,

o rendilhado das folhas.

Ah! Sol tecelão.

.

Saída da feira

pausa na primeira banca:

Pastel e água de coco.

.

De outono

Dia da Paixão.

Mãe com o filho, na calçada,

e uma cruz no olhar.

.

Boca cheia d’água.

A trouxinha de pamonha

sendo desatada.

.

Relâmpago azul.

Crescem os olhos da criança

no colo da mãe.

.

Pelas alamedas

o falatório dos grilos.

Segredos nas árvores.

.

De inverno

A garoa cai.

Cintilam poças na rua

À luz dos faróis.

.

Velho de bengala.

Mesmo frágil, o sol de inverno

aquece-lhe as mãos.

.

Fogos de artifício.

As crianças batem palmas

ao voo de estrelas.

.

Os pés dos passantes

marcam as folhas caídas.

Assim, certas vidas.

RECADO À MULHER AMADA de manoel de andrade / curitiba

Eu te juro, amor meu

que eu amava o canto das cigarras em dezembro,

o aroma dos bosques e da chuva,

mas o tempo, como uma lança,

fez sangrar minha ternura

e era preciso devolver os golpes cara a cara.

Era preciso partir

e inaugurar a vida novamente.

.

Era preciso partir

eu te asseguro.

Partir de busca em busca até morrer.

Agora…, eis-me  aqui,

entre a poesia e um estandarte;

e contudo, desde o primeiro dia,

tu conheceste esse pedaço de minh’alma.

Tu sabias do meu despojamento

e da minha esperança;

sabias das minhas navegações

e que eu vinha com uma infância de barcos e marinheiros.

.

Sim… é verdade…

por algum tempo tu me fizeste ancorar por tanto amor,

mas eu sempre fui um habitante do vento e da distância

e somente te pude amar com um coração feito caminhos.

Ai amada…

eu nunca aprenderei a regressar…

a vida me ensinou a partir sempre

e a dizer adeus ao que amei.

Meu próprio canto é uma despedida…

é sempre um passo a mais para o combate.

Talvez eu volte quando comece a florescer a rubra messe

quando sentir que cessaram os tambores

e que regresso entre os sulcos de uma aurora.

.

Mas agora… amor

eu sou a voz e o sangue de um guerreiro

e bem quisera incendiar-te com esse sol que trago dentro.

Eu bem quisera

e já quis tanto

que além desta ternura

e da espera,

fosses também a companheira do meu sonho

e uma península do meu punho

e do meu canto.

Cali, setembro de 1970

Do livro POEMAS PARA A LIBERDADE, Editora Escrituras, 2009

HAICAIS de EDUARDO HOFFMAN /curitiba

Ao Reinoldo Atem:

 

 

 

tigre de bengala

 

de soslaio na soleira

 

da porta do bar

 

 

 

 

queria carne de onça

 

 

=

 

 

 

habeas coppus

 

 

graças

 

ao som

 

das taças

 

 

=

 

 

o céu

 

refletido na água

 

 

se passar uma peneira

 

 

quantas estrelas !?

 

 

=

 

 

arrimo

 

 

 

 

quanto eu

 

 

quanto in

 

 

quanto ai

 

 

assim murmurava

 

o samurai

 

 

=

 

 

mi Tarzan

 

 

you Jane

 

 

vamos dançar um orangotango ?