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VERA LÚCIA KALAARI e sua poesia / portugal

Não.

Não poderei fazer de ti

Um só poema.

Não poderei jamais cantar

Este desejo,

Este anseio que tenho por ti.

Desvendar-te tudo qu’escondo

E obter de ti,

Palavras de plenitude e d’esperança.

Porque p’ra ti,

Seria como trair um bem

Seria  matar essa imagem

Que não vive no teu corpo

Mas só no teu coração.

Seria desejar… e não amar…

Seria enganar tanta imensidão…

Seria dar corpo a uma alma

E tirar a vida à própria vida.

Ah… Como desejava que  quedasses à minha espera,

Logo, ao cair da noite,

Não com a fé de quem espera uma miragem

Mas com a ânsia férrea dum macho qu’espera a sua fêmea

Para juntos rolarem pelos espaços infinitos

Corpos unidos, lábios colados,

Na agonia lenta que explode num turbilhão d’estrelas.

Por isso, amor, não…

Não poderei escrever de ti um só poema…



.

Senhor:

Embora não creia que m’escutes,

Embora não entenda a tua voz,

Embora te procure e não t’encontre,

És ainda a palavra escutada de menina,

Que invoco, que invoquei,

E volto a repetir agora.

Senhor:

Qu’eu seja um campo virente

Coberto de erva e flores viçosas…

Ou vento uivante…Ou aragem que corre mansamente.

Que seja chuva caindo nos beirais

Ou nuvem correndo pelo céu…

Que seja rio cantando sem destino,

Ou barco vogando

Que seja um raio rasgando a escuridão,

Que seja tudo ou nada

Tudo o que se veja

Ou tudo o que não se veja.

Que seja terra ou seja ar,

Que seja alegria ou seja dor

Que seja ódio ou seja amor

Que seja tudo, tudo, tudo,

O que tu quiseres

Por muito humilde que seja.

Mas não me deixes ser fraca nas minhas convicções

Não me deixes deixar de acreditar naquilo em que acredito

Deixa-me continuar a ser eu, sempre, eu mesma…

CÂNTICO DOS CÂNTICOS de vera lúcia kalaari / portugal


Queria ter confiança na eternidade

E na terra da verdade…

Queria nunca m’esquecer

Que volta sempre a primavera

Qu’entre pedras faz nascer rosas…

Queria deixar de ser este mar morto

Mar sem ondas e sem portos…

Queria deixar de mendigar

No silêncio das noites escuras

Caminhando por ermas estradas

Sem saber p’ra onde vou.

Queria saber quem me roubou minha coroa de rainha

Quem pisou minhas ilusões desfolhadas…

Queria ser a manhã qu’apaga estrelas

E encontrar amor em todas elas…

Queria ser a perdida, a que não s’encontra

Aquela que ninguém conhece,

A rutilante luz dum impossível…

Queria deixar de segurar nas mãos

O bem que nunca é meu

E encontrar no caminho o meu bordão d’estrelas…

Queria encontrar a água que procuro e de que estou sedenta…

Queria não pensar nos que andam descalços pela vida…

Nos que choram em insanas guerras…

Nos que mentiram e nos que mentem…

Não ter pena dos que em má hora nasceram…

Queria ter asas para voar e ser a fé

Na agonia dum moribundo…

Queria ser tudo…e não sou nada.

O VENTO de vera lucia kalaari / portugal


Quando em meu frio leito

Recordo com deleite

Os passos da minha vida,

O vento que bate

Nas paredes corroídas

Pede também guarida

No meu louco coração.

Num triste lamento

Que sai da imensidão

Do negro firmamento

De manso vem surgindo…

Depois, negado o refúgio pedido,

Segue rugindo, increspando o mar

Em vagas alterosas,

Rompendo o ar

Em brisas furiosas.

E a noite serena,

Acorda perene…

Esconde-se a lua,

Fogem as estrelas,

O céu se turva

Ao vento que passa,

Que mata o tempo

Que apaga a vida

E tenta, em vão,

Parar o meu coração.

PERGAMINHO de vera lúcia kalaari / portugal

MUITO ALÉM DA ILUSÃO de rosa DeSouza / ilha de santa catarina



A Verdade é o amor puro.
Sentimento livre de malícia;
a força que gera o mundo.

Que o neguem, que o sujem de moral,
Jamais algo será capaz de o macular.
Ele existe, persiste; constante; causal.

Pobre de espírito quem nunca amou.
Incapaz de entender do cosmos a vibração
Alma moribunda, cega vastidão.

Esses veem lodo na flor, grito no suspiro,
Prece na certeza; temem enfrentar-se,
Repugnam a beleza; desvirtuar-se.

Mesmo magoada, sem o ver, sem esperança.
Sem entrega, sem calor, sem brilho, sem vento
A lua escura ama o sol porque o sabe por dentro.

Silencioso é o amor verdadeiro,
Nutre-se emanando partículas sutis,
Purgatório feliz…

O caminho é rico nas translações,
A razão satisfaz o vazio inspirando paz,
na harmonia de um amor superior.

Tranquilo, incondicional…
O que os outros sentem? Tanto faz…
Nem passional, nem circunstancial,
somente inalterável e imortal…

SONHO PAGÃO de vera lúcia kalaari / portugal

De noite,

Nessas noites mornas e lentas,

Iluminadas pela lua sensual,

Quando as flores se abrem languescentes,

De corolas abertas, carnais,

Como corpos que se entregam

Vou, como uma deusa pagã em desvario,

De narinas dilatadas,

Procurar o excitante odor da tua pele.

A boca sedenta, quer beber-te no ar em brasa…

Ávido o olhar, busco encontrar-te

Nas trevas que m’envolvem…

Vejo-te em cada sombra que se adensa…

Ouço no canto das fontes,

A tua voz, que desconheço…

Tem o langor deste desejo que voa até ti…

Quebro de raiva os ramos que me ferem,

sôfrega dos teus beijos…

Piso…Mastigo as folhas secas que m’acolhem

Com a ilusão de morder-te a carne ardente…

Depois, caída na realidade da minha solidão,

Clamo por ti…

Berro na noite teu nome d’amor…

Aperto em meus braços a forma do teu corpo

E mergulho meus lábios nessa imagem,

Soltando uivos de prazer e desespero…

APOCALIPSE de vera lúcia kalaari / portugal

…E verás o mar erguer-se

Em calemas insanas, em marés de equinócio.

…E verás os ventos loucos surgirem

Queimando as últimas flores da tua esperança.

…E ficarás sozinha sentindo a ânsia de fugir, correr…correr…

Deixar para trás os teus desejos

E esquecer tua alma saqueada.

…E eis que passarás, entristecida

Contemplando os rios que secaram  com lágrimas brotando

Do teu coração.

Porque o presente será a porta que nunca p’ra ti se abrirá.

…E virão pássaros agourentos pela escuridão sem fim,

Pássaros que poisarão olhando para ti

Aguardando a tua morte.

…E o vento te trará canções de saudade,

De amores enfeitiçados.

…E verás tudo e tudo passará.

Passarão Outonos e primaveras

E dias e noites de agonia.

Quedas dolorosas no passado

E voos quebrados no futuro.

Como uma náufraga lutarás p’ra te afundares

No mar sem ondas do esquecimento.

…E voltarás à tona, saindo das entranhas do olvido.

Jamais deixarás de ser escrava…

Escrava sem visíveis grilhões…

Apenas serás livre na hora em que a tua estrela

Brilhar, pela ultima vez,

Na noite da eternidade.

TEMPO – de vera lúcia kalaari / portugal

AOS COMBATENTES DE TODO O MUNDO – de vera lucia kalaari / portugal


Àqueles

Cujos olhos se erguem confiantes fitando sem medo

Os reinos distantes da morte,

Eu venho…Com a aurora esperançosa

Dos meus olhos luminosos de crente

Envolvê-los

Em mantos radiosos de amor.

Àqueles

De cujo peito uma onda de amargor

Se espalha cruelmente,

Àqueles

Que procuram paz

Através de nuvens de pó e trevas

Levantando as mãos aos céus

Numa prece a um Deus, seja ele qual fôr,

Eu dou os meus sonhos:

Todo um bosque em flor.

Àqueles

Que são menos do que ovelhas

Seguindo sem pastor,

Que estão sentados

Mirando o ar sem fazer nada,

Como sacerdotes a recordar

O drama da redenção.

Àqueles que têm coração,

Têm olhos florescendo

Como um garoto

E lábios trementes

A ensaiar

Um sorriso esperançoso,

Eu dou a minha alma,

Aberta como os pórticos duma catedral,

Onde vós todos, homens,

Amados e não amados,

Conhecidos, desconhecidos,

Desfilareis cantando,

Bandeiras multicores

Passando lado a lado,

Brilhando sob as cores de mil arco-íris diferentes,

Jogando fora as cargas dos canhões,

No olhar levando a alegria duma aurora,

Cabeças erguidas de entusiasmo e orgulho,

Sãos e salvos

Na senda dos vossos lares.

P.S.-Poema inspirado num cenário de guerra.

AMOR SACRÍLEGO de vera lúcia kalaari / portugal



No meu negro pretérito já passado

Há a sombra triste dum amor imenso.

Imenso mas cruel por ter deixado

O perfume doce do seu incenso.

Amei-o, sim, em doce chama

Meu coração de menina lhe concedi.

Perdi a fé, a paz, perdi a alma,

E era um sacrilégio amar assim.

Era um sacrilégio, mas no seu todo,

Nosso amor era um raro sortilégio…

Criamo-lo neve e era lodo,

Criamo-lo santo e era sacrilégio.

Esse amor, esse amor, foi todo meu.

Em mim, seus laços ficaram impressos.

Nosso amor era luz e era sombra

E eram prantos e risos os nossos beijos.

E foi um sacrilégio e foi loucura

Foi loucura de amor, foi um lamento,

Como um hino imenso de amargura

Como um imenso, lento tormento.

AMOR SACRÍLEGO de vera lúcia kalaari / portugal

AMOR SACRÍLEGO


No meu negro pretérito já passado

Há a sombra triste dum amor imenso.

Imenso mas cruel por ter deixado

O perfume doce do seu incenso.

Amei-o, sim, em doce chama

Meu coração de menina lhe concedi.

Perdi a fé, a paz, perdi a alma,

E era um sacrilégio amar assim.

Era um sacrilégio, mas no seu todo,

Nosso amor era um raro sortilégio…

Criamo-lo neve e era lodo,

Criamo-lo santo e era sacrilégio.

Esse amor, esse amor, foi todo meu.

Em mim, seus laços ficaram impressos.

Nosso amor era luz e era sombra

E eram prantos e risos os nossos beijos.

E foi um sacrilégio e foi loucura

Foi loucura de amor, foi um lamento,

Como um hino imenso de amargura

Como um imenso, lento tormento.