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PONDERAÇÕES e VAI – de raimundo rolim / morretes.pr

Ponderações

Ele andava meio desconsoladaço com a sua vaquinha de estimação. Mas que não era para tanto, para ir tão longe, isto não!! Era verdade que ela já lhe havia escondido o leite umas não sei quantas vezes. Talvez fosse a ração, ou o feno não estava fresco o quanto deveria; a contento, sei lá. Quem sabe era o tempo! Andava mesmo meio úmido e meio frio, chove não chove. Mas os seus olhos, isto é, os da vaquinha, guardavam sempre a mesma aparência tranqüila, apuradissimamente bovinos! Mansos, redondos, meio revirados às vezes, por não ter o que fazer a não ser ruminar infinitamente o bocado que lhe era oferecido pelo seu amo e senhor! E ele passou a mão, vendeu-a pro açougue! Ela ficou lá, dependurada, com seus imensos olhos redondos, meio revirados, já não tinha mais o que fazer.

Vai

Com seu estilo erótico, o poeta anárquico, a convite da madre superiora que não lhe conhecia a fama ou o estilo, ruborizar-se-ia e muito, depois de ouvir dele os satânicos, apoquentados e luxuriantes versos impregnados de todas as intenções possíveis. Eles encheriam de sangue e calor as partes internas e delicadas das mocinhas que lá estavam a aprender dentre outras matérias a etiqueta social e prendas domésticas; além, é claro de muita religião. Algumas seriam freiras mais tarde. E foi lá que o poeta, desferiu-lhes golpes de estupor, volúpia e desejos num sábado, à tarde, no outeiro, um tipo de recital ! Sabedoras que lá estaria um poeta, as noviças já o esperavam entre ardores e suspiros. Ficavam pelas janelas do enorme e retangular prédio, às espreitas, ouvidos aguçados para o pátio interno, onde, a qualquer momento, cercado por flores e pequenos arbustos, o poeta belo e sedutor, estaria a traduzir os delírios amorosos por meio de seus poemas! Chegou-se ele, como elas o imaginavam: doce, lábios rosados, tez pálida e cabelos alourados encaracolados, de olhar divagante e algo triste. Com gestos largos e delicados, voz firme e grave, recitou seus poemas. Falava de todos os sonhos possíveis, da arte de amar e ser amado(a), das intimidades destes amores e do que eles são capazes de provocar na reclusa e faminta alma humana. Quando das derradeiras estrofes do caliente e lírico “Para bem amar” (que por óbvias razões ele deixara por último) as fêmeas do convento, corações em brasa e completamente despossuídas de quaisquer sentimentos da razão, passaram ao desnudamento. Peça por peça esvoaçaram para cair lá, onde estava o poeta, braços abertos, a olhar incrédulo o que acontecia naquele convento. Toda uma santa nudez vista de baixo para cima! Ato contínuo e a um só tempo, começaram as criaturas candidatas a esposas do sagrado, a gemer e a revirar lânguidos e brilhantes olhinhos, com os dedinhos lá, num ato de justiça com as próprias mãos, enquanto o poeta, extasiado, terminava a sua fala: “Para um profundo estado de excitação coletiva, faz-se mister que haja mais de uma pessoa”… E o poeta que nem era tão bom assim, ou seja, era ruinzinho mesmo (como se percebe pelos seus versos últimos), fora expulso do recinto pelas outras sórores antes que a superiora madre o agarrasse sôfrega em pleno estado de ululação e o prendesse numa tesoura de pernas. Ufah! Foi por pouco. Alcunhou-se o lugar, a partir de então, como o “Convento das Possessas Uivantes”.