Arquivos de Tag: senado

O CANTO – terceto de léo meimes

Que canto em dó pode

Ser acalanto ao sonho da

Mãe de um filho morto?

ASAS CHAMANDO OS CACHORROS poema de darlan cunha


Um homem que voa é um antípoda (mais que um
mísero milagre, um pífio entender de medos)
da fé, ou seria mesmo natural em nós
a esquecida e real capacidade

de voar, de
nos transladarmos para além-lá do princípio
do prazer, além-lá do bem
e do mal, prontos a

azeitar montanhas com a nossa saliva
e a nossa urina, de lá de cima
dar bom-dia ao capinzal e às vacas doidas lá em baixo, no cio

ou não.

POEMA de carolina correa*

(…..)

Os lhos azuis são doces
Os negros verdadeiros
Os castanhos calmos e tristes
E os verdes feiticeiros.

Dos azuis quero fogo
Dos pretos eu quero viver
Achar consolo nos castanhos
Mas nos verdes morrer.

Nos azuis o céu se encontra
Nos negros vulcões de amor
Há muita paixão nos castanhos
Nos verdes mágoas e dor.

*a autora tem 17 anos e faz parte do grupo de novos do blog.

CONFLITO: JUDEU X JUDEU por fausto wolff

Outro dia recebi a visita rápida de meu velho amigo e colega Mário Augusto Jakobskind. Acabamos falando em Hugo Chávez, porque não há nada no mundo – desde as nevascas em Oklahoma até o preço do pão no Rio de Janeiro – pelo qual este inca não seja responsável. Mário estava irritado, porque uma das maiores autoridades sionistas do Brasil, Mário Gomlewsky, assinara na revista Menorah algo que Bush subscreveria.

E respondeu:

“Esta é uma pequena crítica ao pensamento único e à mesmice em relação à Venezuela. Vocês seguem o senso comum e o pensamento único de criminalização de um processo revolucionário. Na verdade, se orientam pelas mentiras e meias verdades da mídia conservadora. Por que nunca se pronunciaram contra as torturas em Guantánamo e a ocupação do Iraque? Por que apóiam incondicionalmente as atrocidades que sucessivos governos de Israel têm cometido na Palestina? Por favor, não usem o argumento de que o autor destas críticas é anti-semita, como fazem habitualmente contra quem não aceita o jogo do pensamento único que vocês costumam jogar. Saibam também que nem todos os judeus são sionistas, como vocês, e fazem críticas ao procedimento dos sucessivos governos de Israel não por anti-semitismo”.

Gomlewky respondeu a Mário:

“Diga você se alguma vez se pronunciou a favor do Estado de Israel. Mesmo quando foi ameaçado por Nasser de ser arrastado com todos os habitantes para o mar. E quanto ao que diz o presidente do Irã sobre o Holocausto? Vá pregar na Venezuela essa ladainha velha, surrada, que já virou pó na história, e tomar porrada dos estudantes de lá. Eles sabem quem é o Hugão melhor do que você. Será que você tem vergonha da história do seu povo? Eu sou sionista. Você, como se define? Cego, surdo político? Ou verdadeiramente mal intencionado? Não tenha vergonha de ser judeu. Nós dois iremos para a mesma câmara de gás, se depender de gente como o Chávez. Você certamente irá, alegremente, cantando o hino da Internacional. Você rotulou no seu pronunciamento. Faz parte da prática de gente que pensa torto como você. Fazer e acusar os outros de terem feito. Leia o que você escreveu e veja quantos rótulos escrotos você dedicou a nós”.

E eis o último round.
É a vez de Mário Augusto:

“Sua resposta confirma exatamente o que escrevi. Seu sionismo só contribui para o incremento do anti-semitismo. Meu sobrenome não esconde minha origem. Nunca neguei, como o senhor idiota e sectariamente tenta induzir. O resto é elocubração de um autoritário de direita, vinculado a sei lá o quê. O senhor não polemiza, não tem argumentos. É um colonizado mental, como tantos neste seu mundo globalizado. A agressão verbal é a marca da mediocridade. Continue sintonizado na mídia conservadora e de direita, pois lá é seu mundo. Não vou polemizar com quem se comporta dessa forma colonizada mental. Mais uma vez, não use seu sionismo de direita para chantagear. Aliás, o senhor não entende o que é isso. Antes de defender ou atacar os governos de direita de Israel, que o senhor defende incondicionalmente, minha opção é ficar ao lado das classes populares brasileiras, latino-americanas, palestinas, israelenses e do mundo inteiro. Este, claro, não é o seu mundo sionista de direita. O senhor está do outro lado da história. Está com Bush e com os fundamentalistas, sejam eles judeus, cristãos, muçulmanos e o diabo a quatro que pululam no mundo globalizado, onde a pensamento único, que também é um dogma, predomina. Quanto ao holocausto, não use essa tragédia histórica também para chantagear tal qual Bush e seus sionistas. Mais respeito pelos que morreram, que muitas vezes eram de esquerda e das classes populares. O senhor nunca ouviu falar de judeus de direita que transacionaram com o fascismo italiano? A maioria deles seguia o seu ideário dogmático. Quanto ao Irã, não baseio meus posicionamentos em informações de agências internacionais comprometidas com o esquema fundamentalista cristão-sionista que ocupa fraudulentamente a Casa Branca. Minhas fontes do Irã não são oficiais, e sim da colônia judaica, não-sionista, que vive há mais de três mil anos nesse país e se nega a emigrar para Israel, a ‘terra prometida’. Será que eles negam a sua origem? Será porque a mídia conservadora omite essa informação? Não seja um analfabeto político. Não confunda o Estado de Israel com os governos de direita de Israel, que o senhor defende”.

O DESEJÁVEL VELHO MUNDO por marcio markendorf

aldous-huxley.jpg a distopia em Aldous Huxley
 

A etimologia da palavra utopia, em grego, significa o não-lugar, e é o termo pelo qual podemos conceber o plano desejável de uma sociedade extremamente harmônica, estável e funcional, comprometida com o bem-estar da coletividade. Plano e desejo que se fundem com o sonho e a fantasia, por isso as sociedades utópicas sempre estão circunscritas em ilhas imaginárias. A ilha sendo tomada tanto como metáfora do isolamento, para um local geograficamente afastado, cercado, protegido, quanto como um fragmento do imaginário coletivo, do mito do paraíso e do eterno da felicidade. A literatura utópica descreve um equilíbrio geral das coisas sem qualquer explicação histórica ou demonstrativa de como a progressão dos valores sociais criou uma sociedade perfeita. No entanto essa impropriedade cronológica de desenvolvimento parece ser justificada pela própria escolha da localização geográfica: na representação mítica de várias culturas, a ilha é um mundo em miniatura, completo e perfeito porque possui um valor concentrado, além de ser tomada, também, como a representação do paraíso terreno. A sociedade utópica, portanto, por estar fundamentada no ideal, não escapa de permanecer situada num para-lugar e na descontinuidade histórica, como o é a cidade de Platão ou as ilhas de Thomas More e de Francis Bacon.

O que parece ficar explícito nas utopias é uma aura de profilaxia, como se fosse possível expurgar destes mundos imaginados todo o tipo de prática social que fosse nociva, proibida ou indesejável à sociedade. O projeto inalcançável da utopia está nessa fragilidade um tanto paradoxal, de homogeneização de princípios e valores, de fazer ausência definitiva do que antes era presença, de conceber um Jardim do Éden sem serpente. Com qualidades pouco objetivas e quebráveis, o projeto estaria ameaçado pela subjetividade do sujeito, que não se (con)funde com a comunidade porque é singular, e pelo convívio social, no qual a própria natureza política do homem é responsável pelo aflorar de vícios e excessos. Afinal era assim que Jean-Jacques Rousseau compreendia a sociedade: como um jogo de poderes corruptos. Para ele o homem nasce bom, mas a sociedade o corrompe, o que quer dizer que, na dinâmica dos interesses individuais, a comunidade fica comprometida. E este não é um conceito anacrônico, reduzido apenas ao contexto iluminista, porque mesmo antes ou depois de Rousseau teorizar a esse respeito, as estruturas sociais revelaram modos de dominação, subversão e opressão político-social. Por isso o sonho de equilíbrio das utopias só poderia funcionar de um modo localizado, restrito e mínimo. Não há lugar para um projeto utópico fora da ilha, porque seria insustentável se aplicado a sociedades continentais e globalizadas, profundamente dependentes umas das outras, e em constante crise política. No entanto, o mais assustador é que o inverso desse caráter localista, irrealizável e abstrato da utopia, parece ser mais provável de ser atingido: as distopias operam dentro do presumível e assumem contornos mais concretos, executáveis em longo prazo, com impacto de amplitude mundial.

O sentido distópico para sociedade, ao invés de operar com a exclusão de componentes negativos para o funcionamento de uma sociedade, isola algumas dessas categorias e exagera sua negatividade. O plano da distopia parece ser realizável se esses mesmos componentes foram tomados pelo excesso, num tipo de previsão sombria do futuro. Enquanto a utopia concebe uma sociedade extemporânea, sem existência física no tempo e no espaço, a distopia fica ancorada na contemporaneidade, em espaços geográficos reconhecíveis e num tempo prospectivo. Se a utopia descreve como tudo deveria vir a ser, o sentido da distopia, por natureza, reside num pessimismo histórico, por conta das conjecturas de como o rumo desordenado da realidade pode comprometer a vida mundial.

É nesse viés que podemos ler o romance Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, como o engendrar do imaginário numa sombria prospectiva histórica. Publicado em 1932, no período entre-guerras, o romance faz uma suposição do que em longo prazo poderia acontecer com a sociedade através do crescimento desumanizado do progresso científico e material. De certa forma o sentimento de aniquilação, a deliberada exploração científica e tecnológica, a depressão econômica dos anos 30 contribuíram para a criação dessa sociedade fictícia no qual as convenções sociais são reordenadas por um estado aparentemente utópico. Sensação contraída apenas por quem faz parte do sistema, pois qualquer olhar estrangeiro poderia perceber o quanto de ilusão e alienação está por trás do que parecer ser uma sociedade perfeita. Perfeito disfarce para um regime totalitário que eliminou para sempre o passado, a subjetividade e a liberdade dos indivíduos.

O apagamento da subjetividade é o princípio norteador de todo Estado Mundial criado por Huxley, no qual comunidade, estabilidade e identidade determinam o funcionamento de um sistema rígido de estruturação social. Mas ao contrário do caráter extemporâneo das utopias, a distopia deste romance é localizada num tempo determinado, o ano de 635 depois de Ford, o que no nosso calendário oficial corresponderia ao ano de 2545. Para demonstrar como o impacto da ciência alterou o mundo e seus valores, até o tempo é reorganizado, o nascimento de Jesus Cristo como marco inicial do calendário cristão é substituído pelo ano de implantação da linha de montagem na indústria, por Henry Ford. Nesse futuro não apenas Deus não existe mais, o que se louva é a ciência e sua capacidade de trazer benfeitorias à civilização. Ford ocupa, ao mesmo tempo, o lugar sagrado de Deus e Jesus nesse soturno futuro previsto por Huxley, no qual o impacto profundo da ciência sobre o indivíduo inverte uma série de valores e o torna elemento facilmente substituível de uma sociedade tecnocrata.

Nesse sentido podemos perceber a importância de Henry Ford para o sistema, porque a combinação da linha de montagens e da engenharia genética permitiu a extinção completa da família, do indivíduo, dos valores afetivos e pessoais. Em 2545 as pessoas são inteiramente geradas em laboratórios, predeterminadas geneticamente, produzidas em série, padronizadas, uniformizadas e predestinadas socialmente antes mesmo de nascerem. Esse princípio de produção em série aplicado à biologia não somente produz um grande número de seres de modo completamente artificial, como o faz por um a técnica de clonagem que gera quase uma centena de pessoas idênticas. Nesse sentido o homem está para a reprodução artificial tanto quanto a obra de arte está para reprodutibilidade técnica: perde-se a aura e o caráter único do indivíduo, propriedades que seriam parte de uma qualidade humana inalienável e indestrutível.

Por isso o sentido de identidade perde seu significado enquanto caracteres próprios de um indivíduo que o distinguem de outro para adquirir um permanente sentido de indiferenciação, de igualdade e conformidade assumidas como naturais. O que permite que conceitos como comunidade e identidade acabem sustentando a estabilidade social. Não somente as classes sociais a que o indivíduo deve pertencer são predestinadas nos centros de incubação, mas a conformidade às funções e aos valores sociais é condicionada por técnicas hipnopédicas. Na fase de crescimento, durante o sono, as pessoas ouvem frases axiomáticas que substituirão o superego e a própria consciência do indivíduo. Num mundo de pessoas massificadas intelectualmente, a estabilidade torna-se uma constante porque garante a manutenção de um governo que lida com pessoas sem opinião própria.

O sentido de comunidade acaba contaminando de forma viral todos os outros valores. Família, amor e monogamia, por exemplo, tornam-se obscenidades, a liberdade sexual é incentivada, cada um é de todos. E para não afetar esse equilíbrio artificial da comunidade, mesmo com a predestinação genética e a hipnopedia, o Estado controla possíveis oscilações de humor por meio de uma poderosa droga psicoativa: o soma. Equivalente ao ecstasy ou prozac de hoje, o soma era uma droga lícita fornecida como ração diária. Por meio desse aparato conformador, manifestado em duas instâncias — genética e psicológica —, a comunidade parecia viver uma utopia na qual todos eram felizes. No entanto essa felicidade apenas pode ser garantida por meio da redução do indivíduo a um objeto humano profundamente alienado.

De certa forma a alienação e a supressão de liberdades individuais parece ser uma constante tanto nas utopias quanto nas distopias. O conhecimento é um direito reservado apenas aos detentores do poder o que significa dizer que pertence a poucos. Em livros como A República, de Platão, 1984, de George Orwell, e em Admirável Mundo Novo, a literatura fora banida ou despersonalizada por ser considerada um perigoso veículo de expressão, de pensamento e de conhecimento. Mas se n’ A República permanecem os filósofos, que dão conta do poder e das generalidades do conhecimento, em Admirável Mundo Novo esse tipo de saber é localizado. Os cidadãos não têm capacidade para responder nada do que esteja fora de sua especialidade. A combinação de conhecimentos pode ser nociva ao equilíbrio e ao progresso. Do mesmo modo, o passado também o é, só existindo um tempo presente, instantâneo, e o futuro, no máximo, pertence a uma conjugação do presente ou do pretérito: a história e a memória são extintas do novo mundo. Não existem museus, monumentos históricos ou livros, o passado está destruído e condenado.

Tanto as cidades utópicas de Callipolis, Amaurota ou Bensalém, quanto as duas distopias mundiais narradas na perspectiva londrina concordam que para o equilíbrio de um sistema é necessária a profilaxia dos elementos que o afetam. Nas cidades utópicas, o homem parece retornar a um estado de integração com a natureza, recuperando o sentido do bom selvagem e de nação virgem e estável. No entanto, não significa que esse retorno à natureza seja de todo positivo, porque tolhe liberdades, cria uma moral pouco flexível e gera o conformismo para uma sociedade em estagnação. Por outro lado, nas distopias a estabilidade social parece ser apenas garantida pela estabilidade individual. Por isso a necessidade do apagamento da memória e dos valores emocionais ligados à recordação, da supressão dos pais para a cura das neuroses identificadas pela psicanálise, da felicidade monitorada pelas drogas psicoativas ou da educação moral hipnopédica que torna a inteligência irracional e instintiva. O homem da distopia rejeita a natureza e volta-se para a tecnologia, a modernidade, o consumo e o progresso. Não existe tensão entre o real e o ideal porque a individualidade foi dissolvida no corpo social e proscrita de sua qualidade humana. Por trás da aparente felicidade do sistema, existe o futuro lúgubre da artificialidade do homem, da imortalidade patológica dos clones, da assepsia geral das coisas, do minimalismo do pensamento.

O irônico em distopias como Admirável Mundo Novo ou 1984 e, é desenvolver uma história a partir do ponto de vista de alguém que desliza para margem e moderadamente questiona as impropriedades do sistema. Bernard Marx, o protagonista da primeira, é torturado com o isolamento de tudo aquilo que seu condicionamento moral o fazia amar enquanto Winston Smith, o protagonista da segunda, acaba sendo exemplo de como o aparato estatal de controle conforma e reforma o indivíduo. Duas histórias que mostram o quanto a consciência crítica, o desejo e os valores afetivos podem provocar distúrbios numa ordem estabelecida. Talvez ainda mais se pensarmos que foi por amor que nossos protagonistas estranharam a ordem do mundo, e em meio ao caos do coração, intuíram que algo estava perdido para sempre. Mesmo que o passado já não exista mais, o tempo seja uma subtração, o espaço seja tão transitório e a vida tão sem sentido. A literatura das distopias parece apenas dizer que o amor a si e ao outro é o mais importante da vida E perdê-lo na tecnocracia e na virtualidade do mundo é esperar por essa solidão tão fria, essa sensação tão gasta de estar em todos os lugares e não estar em ninguém, mesmo sem poder perceber o quão admirável era o velho mundo e o antigo coração.

A CRIAÇÃO da XOXOTA poema de mario quintana

Sete bons homens de fino saber
Criaram a xoxota, como pode se ver:

Chegando na frente, veio um açougueiro
Com faca afiada deu talho certeiro. 

Um bom marceneiro, com dedicação
Fez furo no centro com malho e formão.

Em terceiro o alfaiate, capaz e moderno
Forrou com veludo o lado interno.

Um bom caçador, chegando na hora
Forrou com raposa, a parte de fora.

Em quinto chegou, sagaz pescador
Esfregando um peixe, deu-lhe o odor. 

Em sexto, o bom padre da igreja daqui.
Benzeu-a dizendo: “É só pra xixi!”

Por fim o marujo, zarolho e perneta
Chupou-a, fodeu-a e chamou-a…
Buceta!

SONETO DESPEDIDA de florbela de itamambuca

comunique ninguém pro funeral
não tenho consciência a insana juíza
não conheci a bebê — não quis — precisa?…
te peço então que a entregue a algum casal
 
daquela filha o único sinal
que ainda guardo debaixo da camisa
são os restos dos gestos da sua bisa
e este velho cordão umbilical
 
economize o chão do cemitério
esqueça meu cadáver nalgum brejo
a lápide: o silêncio o luar mistério…
 
cultive esse segredo e eu te protejo
do verme pesadelo que digere-o
morrer foi o meu último desejo
 

ESSÊNCIAS VERDES MASTURBADAS por benny franklin

Frasco n° 7

Por mais
Que as parábolas do mormaço
Gozem flâmulas em porções metafísicas,
Ou em medidas poucas se enervem;
Ou se dêem repartidas
Como etílicas boulevards belemitas;
Ou se dêem esqueléticas às madrepérolas despedaçadas
Embrenhadas de ponta cabeça
Em grande-profundas gretas,
É nelas que o pingar desbotado
De São Paulo se dá —,
Onde as flôres surrealistas do poeta
Prostituem-se em bando
(E sem tempo definido),
Copulam-se em prédios e praças,
Como as libélulas bissexuais
De São Petersburgo
Que veneram a gula sem desdizer das broxas enervadas,
Já que, entre si, todas,
Não se suportam,
Nem temem a fomedez
Do ovário.

A NOSSA IMPRENSA o LOBO MAU e o CHAPÉUZINHO VERMELHO pela editoria

Vejam como os diferentes jornais, revistas e TVs dariam a mesma notícia sobre o caso Chapeuzinho Vermelho:

JORNAL NACIONAL (William Bonner):

“Boa noite. Uma menina chegou a ser devorada por um lobo na noite de ontem…”.
(entra Fátima Bernardes): “… mas a atuação de um caçador evitou uma tragédia”.
 

FANTÁSTICO:(Glória Maria):

” … que gracinha, gente. Vocês não vão acreditar, mas essa menina linda aqui foi retirada viva da barriga de um lobo, não é mesmo?”

CIDADE ALERTA: (Datena):

“… onde é que a gente vai parar, cadê as autoridades? Cadê as autoridades?
A menina ia para a casa da avozinha a pé! Não tem transporte público!
Não tem transporte público! E foi devorada viva… Um lobo, um lobo safado.
Põe na tela!!! Porque eu falo mesmo, não tenho medo de lobo, não tenho medo de lobo, não.”

REVISTA VEJA:

Lula sabia das intenções do lobo.

REVISTA CLÁUDIA:

Como chegar à casa da vovozinha sem se deixar enganar pelos lobos no caminho .

REVISTA NOVA:
Dez maneiras de levar um lobo à loucura na cama.

REVISTA MARIE-CLAIRE:

Na cama com o lobo e a vovó.

FOLHA DE S. PAULO:

Legenda da foto: “Chapeuzinho, à direita, aperta a mão de seu salvador”. Na matéria, box com um zoólogo explicando os hábitos alimentares dos lobos e um imenso infográfico mostrando como Chapeuzinho foi devorada e depois salva pelo lenhador.

O ESTADO DE S. PAULO:

Lobo que devorou Chapeuzinho seria filiado ao PT..

O GLOBO:

Petrobrás apóia ONG do lenhador do PT que matou um
lobo pra salvar menor de idade carente

ZERO HORA:

Avó de Chapeuzinho nasceu em Camacuã, RS.

AQUI:

Sangue e tragédia na casa da vovó

REVISTA CARAS:

(Ensaio fotográfico com Chapeuzinho na semana seguinte):
Na banheira de hidromassagem, Chapeuzinho fala a CARAS:
“Até quase ser devorada, eu não dava valor para muitas coisas da vida.
Hoje sou outra pessoa”

PLAYBOY:

(Ensaio fotográfico no mês seguinte): Veja o que só o lobo viu.
 

REVISTA ISTO É:

Gravações revelam que lobo foi assessor de político influente.

REVISTA G MAGAZINE:

Lenhador mostra o MACHADO!
 

A CONSTRUÇÃO do DEMÔNIO por alicia castilla

Ao longo da historia, o recurso mais utilizado para manter as sociedades coesas e sob controle, tem sido a construção de demônios. Já que o próprio, com sua cor vermelha e seus chifres, há muito tempo não intimidava mais ninguém, foi necessário se construir outros estereótipos, na medida do poder dominante.

Assim, no tempo, a ameaça a combater foram os cristãos, séculos depois as bruxas, mais tarde os judeus, os comunistas, ente outros. A função social destes demônios era e ainda é, a de poder manter a população amedrontada, condição necessária para que esta aceite mecanismos de repressão que precisam de verbas extraordinárias e que na maioria das vezes se utilizam de fundos destinados originariamente à educação ou à saúde.

Outra utilidade importante do demônio é a de servir de justificativa para os abusos do Estado nas constantes invasões à intimidade das pessoas.

Nos Estados Unidos, nas primeiras décadas do século XX, o demônio de turno era o álcool. A fabricação, distribuição e venda estavam penadas por lei o que significava enormes despesas no combate à produção, ao tráfico e ao consumo. Somam-se a isso, inúmeras mortes não somente em ações policiais como também devido à falta de controle de qualidade do álcool consumido pela população.

Quando a razão venceu a intolerância e o país como um todo, entendeu e aceitou o fracasso da “guerra contra o álcool”, iniciou-se uma política de descriminalização, que permitiu controle de qualidade da produção, acesso ao sistema de saúde para aqueles que tivessem problemas com o álcool, boa arrecadação tributária e geração de empregos.

Como nada é necessariamente bom para todos, aqueles que viviam e lucravam com a proibição ficavam desempregados. Toda a inteligência a serviço do combate ao álcool, a possibilidade de se imiscuir na vida privada das pessoas, iria se perder por falta de um novo demônio.

Tornou-se necessário fabricar às pressas, outro inimigo. Ao mesmo tempo, havia uma necessidade xenófoba de hostilizar a população de migrantes mexicanos. Foi cunhado assim, o termo marijuana e deflagrado o maior lobby (ate então) no congresso dos Estados Unidos. Os congressistas que nem sabiam que a tal marijuana era o mesmo e inofensivo cânhamo, votaram pela proibição dessa nova e verde ameaça.

Desta forma, a planta que durante milênios vinha acompanhando a humanidade, como remédio, como fibra têxtil, como alimento, como elemento recreativo e inócuo foi transformada em poucas semanas no assassino das juventudes, na maior de ameaça de todos os tempos… E todos os integrantes das forças de repressão ao álcool mantiveram seus empregos e o Estado manteve a sua ferramenta de controle social, que serviria para atropelar as liberdades individuais e, em muitos casos, os direitos humanos.

A partir de então, milhares de pessoas têm sido condenadas pelo crime de fumar um baseado, atitude considerada um “delito sem vitima”, já que o consumo de Cannabis não significa risco para o usuário nem para o entorno.

Pessoas de bem e traficantes eram então presos, indistintamente, por este “crime”. Esta situação gerou em alguns paises, como Holanda ou Espanha, uma militância de cidadãos que se empenharam junto aos poderes públicos, para encontrar uma normativa própria que acabasse com o ônus dessa guerra contra a maconha.

Com exceção dos mencionados paises, no resto do planeta a situação ainda é muito ambígua, já que o narcotráfico acaba fazendo um poderoso lobby contra a descriminalização e sempre há políticos dispostos a serem corrompidos.

Segundo as estatísticas, há no mundo entre 400 e 600 milhões de consumidores de maconha. Uma grande parte deles não acredita nas expectativas de descriminalização e, cansados de lidar com o narcotráfico e suas implicâncias, partem para uma das mais interessantes formas de desobediência civil: o autocultivo “indoor”.

O comércio de materiais para desenvolver esta atividade, muitas vezes através da web, cresce vertiginosamente.  No mesmo ritmo, os foros virtuais com troca de informações, os concursos com premiações, os cursos e seminários sobre esta curiosa forma de jardinagem, são hoje uma realidade em todos os paises proibicionistas.

Moral da historia: os tempos mudaram. Hoje a cidadania não aceita ser manipulada nem receber informação tingida de preconceitos. Não há mais possibilidade de cercear informação, nem de evitar que ela seja disponibilizada. Há cada vez menos espaço para os demônios.

UTOPISTAS RACIAIS: A VOLTA da LUTA de RAÇAS por luis bistulfi

A história da humanidade é a história da luta entre as raças”. Parafraseando Marx, este poderia ser o resumo de toda a teoria exposta por Hitler no Mein Kampf. Hitler relacionava todos os conflitos sociais aos conflitos raciais. Assim como os marxistas, o autor de Mein Kampf também prega a superação dos conflitos sociais. Porém, enquanto para os primeiros tal superação se dará quando o proletariado se tornar a classe hegemônica, para os nazistas ela se dará quando a raça ariana se tornar hegemônica. As teorias eugenistas e as idéias de homogeneização racial há muito foram execradas pela ciência e pelas principais correntes políticas do mundo ocidental. No entanto, a concepção de que a história da humanidade é a história da luta entre as raças volta à tona, porém com uma nova roupagem e com novos objetivos.

O racismo científico teve seu início de fato com os estudos do antropólogo alemão Johann Friedrich Blumenbach. Sua obra, De generis humani varietate nativa (“Das variedades naturais da humanidade”), publicada em 1795, busca definir quais são as raças humanas existentes. Através de estudos de antropologia física, que se utiliza principalmente da biometria e da morfologia, Blumenbach buscou encontrar um instrumento de medida capaz de estabelecer critérios para classificação das diferentes raças. O principal critério utilizado foi a medição craniana (craniometria). O antropólogo concluiu que existem cinco raças humanas: caucasiano, mongol, etíope, americano e malaio.

Ironicamente, o primeiro cientista racista de relevância da história, foi também um dos primeiros teóricos a “humanizar” os negros e as demais raças não-brancas. Na época, a teoria predominante era a poligenista, que dizia que cada raça partia de uma origem diferente. Para Blumenbach, as diferenças raciais eram resultado das relações com o clima, alimentação, epidemias, promiscuidade dos indivíduos, etc. Essa é a teoria monogenista, que alega a existência de uma unidade na espécie humana. Apesar de dizer que todos os homens possuem a mesma origem, Blumenbach elabora uma hierarquia racial, na qual os caucasianos estão no topo da pirâmide e os negros na base. O próprio termo caucasiano possui forte viés ideológico. Blumenbach escolheu essa nomenclatura porque “a vizinhança (do Cáucaso), principalmente a vertente sul, produz a mais bela raça humana, quero dizer os georgianos; e porque todos os raciocínios fisiológicos convergem para a conclusão, que é nessa região, se é em algum lugar, que aparentemente devemos colocar o provável ponto de origem da humanidade”. Para os cristãos do século XVIII, o sul do Cáucaso era o lugar onde a humanidade teve início, o Jardim do Éden. Para eles, quanto mais próximo o homem de sua origem, mais perfeito ele seria. Curiosamente, a raça que mais se aproximava da perfeição era justamente a raça dos cientistas racistas.

O racismo científico abriu portas para o nascimento de teorias sociais que condicionavam o sucesso da sociedade ao grau de “branqueza” ou de pureza racial. São inúmeras as atrocidades cometidas contra seres humanos ao redor do mundo por projetos eugênicos. Milhares de norte-americanos foram esterilizados. Na Suécia houve um extenso programa de esterilização que durou 40 anos cujo alvo era pessoas mentalmente debilitadas e certos tipos de criminosos. Importantes líderes ao redor do mundo eram declaradamente a favor da eugenia ou acreditavam na hierarquia racial. Entre eles pode-se incluir Emma Goldman e Margaret Sangers, líderes do movimento feminista no início do século XX, líderes conservadores, libertários e das mais diversas correntes políticas. No Brasil, houve uma política de branqueamento da população que se iniciou no final do século XIX e se perpetuou até metade do século XX. Tal política não consistia em esterilização ou extermínio, mas sim em estímulos a imigração e seleção de imigrantes favorecendo europeus. O decreto 7967 de 1945, assinado pelo Presidente Getúlio Vargas – sobre a imigração – diz: “Atender-se-á, na admissão dos imigrantes, a necessidade de preservar e desenvolver na composição étnica da população, as características mais convenientes de sua ascendência européia, assim como a defesa do trabalhador nacional”. Hitler levou a eugenia e a luta de raças ao extremo, causando o holocausto judeu.

Hoje em dia o racismo científico foi desmoralizado pela genética e execrado pela ciência. O próprio conceito de raça humana se mostrou falso, as diferenças entre os homens não são suficientemente grandes para que se possa dizer que existem várias raças. As políticas eugenistas e a hierarquia racial foram praticamente banidas das principais correntes políticas do mundo ocidental. No entanto, a luta de raças e as propostas de políticas raciais voltam à tona. Mas dessa vez não se trata de melhorar a espécie, mas sim de engenharia social.

A engenharia social está fortemente ligada à idéia de Estado paternalista. Nela o Estado é uma extensão da família, assumindo o papel de “pai”, e como tal, deve ensinar aos cidadãos o melhor meio de se comportarem, quais convicções devem ter, etc. Remete a concepção orgânica de sociedade, a mesma a que Aristóteles se referia quando disse: “a cidade, portanto, é por natureza anterior à família e a cada homem tomado individualmente, pois o todo é necessariamente anterior à parte; assim, se o corpo é destruído, não haverá mais nem pé nem mão, a não ser por simples analogia, como quando se fala de uma mão de pedra, pois uma mão separada do corpo não será melhor que esta”. Dessa forma, a função do Estado e das organizações políticas é garantir a “saúde” do todo, como se ele fosse um ente superior capaz de moldar a sociedade. Baseando-se nessa concepção, teóricos reacionários, reis e ditadores justificaram e embasaram filosoficamente a necessidade e a legitimidade do uso do poder coercitivo de forma irrestrita por parte do Estado.

A garantia dos direitos individuais e a própria democracia moderna nasce da quebra da concepção orgânica do Estado. Os autores contratualistas, como Locke, dizem que os indivíduos são anteriores a sociedade civil e ao Estado. Locke diz que os homens são dotados de direitos naturais e que o Estado Civil tem como função garantir esses direitos. A partir de então, o Estado deixa de ser considerado como uma extensão da família e perde sua função de moldar a sociedade. Os indivíduos passam a ter maior importância que o todo, e a função do Estado passa a ser preservar os direitos individuais como liberdade, propriedade, vida, etc. Dessa forma, não é função do Estado dizer como os cidadãos devem pensar, agir ou serem felizes, pelo contrário, tais ingerências são consideradas inapropriadas e ilegítimas. Apenas sob essas premissas é possível a existência da preservação dos direitos humanos e da democracia. Se a concepção individualista da sociedade for eliminada não há como justificar a democracia como boa forma de governo. Afinal, se o Estado é fixo e anterior ao indivíduo, que por sua vez só existe dentro do Estado e é passageiro, não há porque submeter o governo a discussão individual. O indivíduo deve se entregar e obedecer cegamente às leis para manutenção ou melhoramento do todo. De fato, não há nenhuma constituição democrática que não parta do pressuposto da existência de direitos individuais, ou seja, primeiro vem a liberdade de cada cidadão considerado singularmente, e só o poder do governo, que os cidadãos constituem e controlam através de suas liberdades. Todas as sociedades que abandonaram essa concepção caíram no despotismo ou totalitarismo, vide o fascismo, o nazismo e o comunismo.

De certo, ao menos por enquanto, não corremos nenhum risco real de cairmos em um iminente sistema totalitário. Mas pouco a pouco a idéia de que o Estado pode superintender o que é bom para o povo e de que é um ente capaz de moldar a sociedade reaparece nos meios políticos. A luta entre as raças retorna a agenda dos partidos junto com todas as justificativas para implementação de políticas específicas cujo objetivo é a superação dos conflitos sociais que dela derivam. Trata-se do Estatuto da Igualdade Racial. Incrivelmente os que defendem as cotas raciais e demais proposições desse projeto de lei fazem associações raciais muito semelhantes as que os nazistas faziam, embora seus fins sejam completamente diferentes.

Assim como no pensamento de extrema-esquerda, Hitler acreditava na existência de um conflito de classes. Sua obra alerta para a necessidade da eliminação da burguesia e da lógica da exploração pelo capital internacional. O ponto-chave da teoria nazista é que a figura do burguês é encarnada numa figura racial, no caso, o judeu, e somente com o nacionalismo, expropriação dos bens e expulsão dos estrangeiros é que o povo alemão poderia se livrar das cadeias e grilhões que o fez mero instrumento na mão da burguesia judaica. Dessa forma o conflito de classes estava intrinsecamente ligado ao conflito de raças. A classe dominante é substituída ou está estritamente ligada a uma raça exploradora, a judaica, e o “proletariado”, caracterizado pela maioria explorada pela classe dominante são os alemães, mais especificamente, os arianos, já que para Hitler a nação era unida por elementos raciais. O nazismo nasceu como oposição e alternativa ao comunismo.

Alguns defensores do Estatuto da Igualdade Racial e mais especificamente os que apóiam a política de cotas raciais tendem a fazer associações semelhantes as dos nazistas entre classe e raça. Em defesa – e como motivo de legitimidade – das ações afirmativas favoráveis aos negros é alegado a existência de uma elite branca exploradora que tem interesse em manter os negros à margem da sociedade para assim preservar seus privilégios históricos. De tal modo que as posições contrárias a tais políticas visam atender a esses interesses. Em suma, é alegada a existência de uma burguesia branca que explora o proletariado negro, de modo que a classe social passa a estar essencialmente ligada a raça. De fato, há razões históricas para que a elite brasileira seja formada predominantemente por pessoas de cor branca, mas essas não abrem brechas morais para que se legitime um revanchismo racial. A escravidão dos negros se deu, antes de tudo, devido à necessidade do sistema econômico vigente na época e foi embasada por critérios científicos de hierarquia racial que hoje se mostraram falsos. Atualmente, com os direitos individuais garantidos constitucionalmente e com o conceito de raça desmoralizado pela ciência, não é aceitável tolerar tamanho retrocesso, voltando a classificar as pessoas pela raça. A evolução da sociedade não aparece na forma de revanchismo racial, mas sim na superação do conceito de raça junto com o desaparecimento do racismo institucional.

Entre os principais pontos do Estatuto da Igualdade Racial estão: a obrigação do cidadão em declarar sua raça em todos os documentos oficiais, reserva de cotas raciais que vão desde o serviço público até programas de TV e uso do dinheiro público para criação de uma programação de interesse do público afro-descendente. Esses pontos são especialmente danosos à sociedade. Eles promovem uma divisão da população em raças, ferindo o princípio da igualdade, estabelece privilégios a um determinado grupo racial, sem contar que não é possível definir com exatidão o que vem a ser de interesse do público negro. No fim, alguém acabará tomando uma decisão arbitrária sobre o que interessa ao público afro-descendente. Segundo o geógrafo Demétrio Magnoli, “A nação, como um contrato entre cidadãos iguais em direitos, será substituída por uma confederação de ‘raças’. Evidentemente estão sendo plantadas as sementes dos conflitos étnicos no futuro”.

Fica clara aqui a intenção de colocar nas mãos do Estado o dever de impor aos cidadãos valores considerados como virtuosos e a capacidade de moldar a sociedade através de políticas específicas. Não bastasse isso, a lei propõe que os cidadãos deixem de ser tratados individualmente coletivizando-os a força de modo a serem tratados de acordo com o grupo racial a que pertencem. Estipulou-se até mesmo uma diferenciação entre discriminação negativa e positiva. A primeira refere-se ao tratamento de um grupo de maneira diferenciada com o objetivo de menosprezá-lo. A segunda se refere a ações que visam equiparar pessoas ou grupos que são discriminados negativamente. A diferenciação é artificial. Cada cidadão deve ser tratado singularmente e de maneira igual aos demais independente de credo, cor, sexualidade, etc. O que esse projeto de lei propõe é a pura e simples institucionalização do racismo, algo jamais visto no Brasil no período pós-abolição.

O Estado tem como dever proteger os indivíduos e suas propriedades de possíveis agressões. Nada tem a ver com os vícios e virtudes de seus cidadãos. Essa é uma questão subjetiva e compete a cada a cada pessoa em particular decidir o que é moralmente aceitável ou não. As leis têm como função garantir uma convivência minimamente pacífica. Os direitos individuais são instituídos como uma proteção contra o poder do Estado sobre o particular. Portanto, sua aplicabilidade restringe-se à relação Estado-particular. Não há direitos entre cidadãos, apenas um valor supremo, a proibição de iniciar uma agressão contra as outras pessoas. Desse modo ninguém deve ser coagido a beneficiar o outro, como no caso das cotas, pois estará perdendo sua liberdade. Se o Estado deve cuidar para que não haja discriminação, as leis com esse propósito devem apenas punir a limitação de acesso ao trabalho, à obtenção de serviços ou bens, à livre locomoção e à educação em virtude de preconceito, seja ele de qualquer tipo. Desse modo a lei estará atuando para garantir uma convivência minimamente pacífica, sem separar a nação em raças, sem coagir um indivíduo a beneficiar outro e sem o objetivo de introduzir novos valores na sociedade. Apenas assim poderemos dizer que abandonamos de vez as retrógradas e danosas políticas racistas.

CLAUDIO, PABLO e Dr. HENRY por frederico füllgraf

uma crônica de Natal

Para Jan Pablo 

Reeditasse sem comentários esta crônica publicada há quatro anos, e quem se lembraria? No entanto, o Natal está às portas. Mas as portas aqui referidas são metáfora de tempos sombrios, que meu filho Jan não conheceu. Botafoguense de nascimento, conhece Curitiba e a Ilha do Mel como a palma da própria mão. Contudo, por inusitadas e insólitas razões, que as separações de pais soem construir, por breve tempo ainda vive com sua mãe no Palermo Viejo de Buenos Aires. E movido não sei por qual intuição, numa quinta feira à tarde de um dos últimos meses, chama um colega da escola, empunha uma velha câmera VHS, atravessa a cidade e – de chofre – entrevista algumas Madres da Plaza de Mayo. Pai, pede-me por e-mail, me ajuda com alguns contatos!  Em janeiro de 2008 meu filho completará dezesseis anos – o resto era silêncio, mas o leitor associará. Pasmado, leio no jornal a confissão de Dr. Henry: sempre desmentida, em 2003 a conspiração é admitida. Fria, burocrática, desata em mim a irrefreável viagem à ré no tempo. Faz trinta anos. Agora alguns rostos são apenas feições embaciadas. O de Cláudio, por exemplo, estudante de engenharia e companheiro da associação de estudantes latino-americanos. Naquele momento o argentino Cláudio é como eu, Ruiz, Alícia, João e Marina: estamos confortavelmente instalados na Alemanha  dos anos 70 e por isso nos sentimos “culpados”, em dívida com “o chamamento”.  Por isso Cláudio se despede à francesa. Meses mais tarde saberemos que trabalha numa fábrica, a 12 mil quilômetros de distância, no labirinto entre La Boca e Avellaneda. É o início de 1976 e depois disso Cláudio Zieschank some do mapa.

Retomo o jornal, mergulho na trama paralela: 7 de outubro de 1976, outono em Nova York. Imagino o cenário. Uma suave brisa toca álamos, carvalhos e castanheiras, despindo-os de sua última folhagem. Enquanto fala com seu interlocutor sul-americano, Dr. Henry levanta-se da poltrona e acompanha pela janela da suíte, a elipse de uma folha em queda-livre, que vai juntar-se ao cintilante e fofo tapete ocre-bordô em formação no Central Park; ali aos pés do Waldorf-Astoria. Absorto, com as mãos cruzadas às costas, por um momento deixa-se cativar pela lerdeza dos elementos. Intui que o ciclo se completa. Reincorporado, volta-se abruptamente para seu interlocutor, disparando seco: “Quanto mais rapidamente vocês agirem, tanto melhor!”. O almirante César Augusto Guzzetti retorna à embaixada argentina em Washington e de lá transmite a senha para seus pares: “Se conseguirmos acabar com eles antes que o Congresso americano volte a reunir-se, em dezembro, eles nos darão as armas e o crédito!”.
Duas semanas mais tarde, madrugada do dia 23 de outubro de 1976 em Buenos Aires, derrubam a porta da casa da família Meijide. Na frente dos pais aflitos agarram Pablo, um garoto com apenas dezesseis anos de idade. É Graciela Meijide, a mãe, que me narra o episódio – faz sete anos, mas sua emoção é de ontem. No vinco das rugas em seu bonito rosto, percebo a falsa velhice de oitenta e cinco meses de vigília.  Enrique Fernández Meijide, o pai, mergulha em duas mil e quinhentas noites de insônia, para dar forma ao choque, ao terror, à náusea, à cólera represados. Troca a arquitetura pela poesia,  para dar um sentido à própria impotência: “Te fuiste por el lado de las sombras / Sin mirar hacia atrás.
Juntando el miedo, / que te sobraba, / con todo el nuestro. // Intentando dejarlo a nuestro cargo / porque debías parecer sereno. / Cinco gorilas / y vos en medio…”. E eles virão sempre de madrugada: primeiro, os paramilitares de uma certa Triple A, depois, tropas regulares; se é que neste ofício de carniceiros se pode falar em “regularidade”… Em deferência à tradição cristã, no final do ano batizam o operativo de “Missão Natal Feliz”.  Outubro de 1983. Caminho em ziguezague entre as valas reabertas do cemitério de La Chacarita. Somos trinta pessoas que seguem um coveiro errante, guiado por uma bússola falha: segura nas mãos o mapa oficial das covas com nome, sobrenome, data de nascimento e morte dos finados. Neste mapa, não há, contudo, registro de “NNs”, os non nominati varridos da geografia, expropriados de identidade, engolfados pelo anonimato silente. Cláudio, Pablo e os demais vinte e nove mil, novecentos e noventa e oito desaparecidos não existiram – diz a “história oficial”. Por isso, na Praça de Maio as Madres e Abuelas caminham em círculos, repetem há anos o rosário da dor, insistem em devolvê-los à vida. O Poder se cala e então os fantasmas tagarelam através das frestas desta história adulterada e pervertida, como o personagem do paisano em “La Ciudad Ausente”, de Ricardo Piglia:  (…) Eu vi coisas tais, que preferiria começar outra vida, sem recordações, se já estive a ponto de deixar minha mulher e os filhos, tomar um trem, ir-me a Lomas (…)Fuzilavam-nos a dois metros de distância e atiravam os corpos em poços, depois andavam com topadoras, abrindo valas, e às vezes aos mesmos desgraçados obrigavam a cavar a tumba para matá-los em seguida. Via-os como num sonho, nus, os cristãos cavando a própria sepultura (…). Último ato. Há uma estância em Bariloche, aos pés da Cordilheira. Dr. Henry adquiriu-a em troca de sua vilania. Pressionou a Argentina para livrar-se de suas paisagens, após assinar a ata do extermínio de seus filhos. Sugeriu que entregassem a Patagônia para pagar uma dívida mil vezes quitada. Obsceno, aqui instalou seu pouso de guerreiro. Dr. Henry: fugitivo do Holocausto e mago da Solução Final no Prata. Dr Jekill & Mr Hide. Sabotou uma conferência de paz em Paris e meio milhão de vietnamitas morreram em vão; junto com eles, vinte mil norte-americanos. Para garantir o poder a Nixon. Determinou a invasão do Timor Leste e a soldadesca de Suharto perpetrou uma carnificina. E nenhum mea-culpa. Consentiu o assassinato do general Schneider no Chile e preparou o golpe contra Salvador Allende. Disse: “Não vejo por que agüentar um país que se torna comunista devido à irresponsabilidade de seu próprio povo”. Dr. Henry não sente remorsos. Prêmio Nobel da Paz & Criminoso de Guerra. Para o mercado, as bênçãos, para os adversários: o extermínio. O médico e o monstro. Para o Village Voice não passa de  “Milosevic do Big Apple”: durante os bombardeios dos EUA morreram 350 mil civis no Laos. No Camboja foram 600 mil; sem contar os mutilados e para sempre aleijados.  O indignado Christopher Hitchens dedicou-lhe The Trial of H.K., mas o Império não permitirá que arrastem Dr.Henry (aliás: Heinz Alfred Kissinger) à Corte Internacional.  Se apesar da neve, todavia o chão esquentar demais em Nova York, a Besta encurralar-se-á em seu último refúgio – Natal em Bariloche, mas no céu nenhuma estrela.  Em tempo: Natal também na Sierra de Chibiriquete, nas profundezas da Amazônia, onde Ingrid Betancourt aguarda sua libertação. Seu céu é o teto de uma barraca, infestada de mosquitos. Como Jan Pablo, ela não acredita mais em Papai Noel, mas el loco Chávez já vestiu seu camisão vermelho. E não venham me dizer, que a estrela na boina das FARC – luzeiro morto de um narco-universo decadente – é a Estrela de Belém…

HEURES SOLITAIRES poema de lucie laval

 a Emiliano Perneta
 
J’ aime, par-dessus tout, les heures solitaires
Ou nous mettons à nu notre coeur douloureux,
Où nous versons des pleurs amers, mais salutares,
Ayant pour seul témoin la majesté des cieux.
 
Les cris partant de l’ âme, alors, sont bien sincères;
Le secret de chacun gisant au fond des yeux,
En larmes se traduit, nullement mensongères,
Car il faut, pour mentir, tout au moins être deux.
 
J’ aime l’heure si triste ou l’on pleure, ou l’on souffre,
Où l’on sent s’ouvrir, devant soi, comme un gouffre
Où sont ensevelis l’amour et le bonheur.
 
L’ heure de solitude, où toutes nos misères
Disent l’ inanité de nos folles chimères,
Est celle où l’on n’est ni dupe trompeur.
 
 Curitiba 16 September 1913

 Lucie Laval nasceu em Dakar, Senegal, em 19 de abril de 1895, filha de Maurício Laval e Alix Laval. Nascida na África do Norte, quando seu pai ali estava no desempenho de suas funções de diplomata francês, Lucie voltou à França para receber instrução primária. Deixou o seu país em 1908, aos 13 anos de idade, vindo para o Brasil. Com seus pais, residiu algum tempo em Minas Gerais, para, em 1911, fixar residência em Curitiba, onde viveu três anos incompletos, no entanto repletos de fulgurantes lampejos de sua criação poética.
 A menina inteligente, só aqui, aos 17 anos, encontrou sua alma de poetisa, e o livro “Dans l’ombre”, com os seus quarenta e nove poemas, foi escrito de um jato, de abril a outubro de 1913, em Curitiba, e publicado postumamente no Rio de Janeiro em 1924.
 A sua descobridora foi a intelectual Georgina Mongruel que, acompanhada pela moça, compareceu a uma reunião do Centro de Letras do Paraná.
 Morreu, no dia 21 de janeiro de 1914, em Curitiba, vítima de moléstia cardíaca, aos 19 anos, “pedindo ao médico, já às portas da morte, que a salvasse, porque ela queria viver, queria cantar todas as estações da vida e a sua página única era apenas uma primavera cheia de tempestades” [1].

EL SOL DE MIS MANOS poema de clara cuevas

Sucede que me canso de ser mujer.
Sucede que no quiero más los pájaros,
los cuervos, los soles, los sonetos
El cariño mórbido del dia a dia.

Sucede que mis lunes no sucedem.
Sucede que la sonrisa ya no quiere ser vista.
Solo el corazón pulsa, pero solo para si.
Y así siento que mi vida ya está lista.

Sucede que el camino está nublado,
y lo que veo son versos vacíos.
Y las flores que ya no coloren,
están marchitas de frío.

Esta es la juventud humana que vivo.
Lejos de ser la vida que soñé
Pero está en mis manos el camino
Para seguir el sol que tanto deseé.
 
Sucedome.

VELEIRO poema de manoel de andrade

Mar afora, mar adentro
lá vai singrando um veleiro
quem dera ser passageiro
pra correr nas mãos do vento.

Mar adentro, mar afora
como navega ligeiro
cruzando este golfo inteiro
nas cores vivas da aurora..

Onde vais assim tão cedo
rumo à ilha do Arvoredo
levando meu coração…?

Vou navegando contigo
meus olhos te seguem, amigo
perdidos na imensidão.

Baia de Zimbros, janeiro de 2005

do livro CANTARES editado pela Escrituras.

LA CUCARACHA, LA CUCARACHA! por carlos alberto pessoa (nêgo pessoa)

Um espectro ronda a “revolução” comunista do século XXI (AC), comandada pelo “bo(li)variano”-cucaracha sargento chávez – é o espectro do ridículo, o espectro do patético, o espectro do cômico involuntário, perverso como o efeito, aquele.
À PEDRADAS

Somente o gênio do Swift
seria capaz de bolar
cena como a de dias atrás na Bolívia,
quando um grupo de locales rechaçou à pedradas  avião militar do sargento chávez.
Quá-quá-quá.
Os invasores puseram o rabo entre as pernas e vieram pro Brasil.

OLHA O ÍNDIO

O índio idiota pediu desculpas ao sargento idiota.
E atribuiu aos EUA a crescente resistência da oposição boliviana.
Quá-quá-quá.

A NÃO VIDA IMITA A NÃO ARTE

Lá pelos anos 60, 70,
pintou no falecido Arlequim uma sátira
– O rato que ruge.
Não lembro mais de quem nem com quem.
Lembro que um país de merda,
praticamente inexistente,
declara guerra ou invade os EUA.
Guardadas as proporções
é o que fazem cucarachas como
o indio, sargento chávez, o boboca do equador e osenil babão, o mais velho criminoso impune da terra, fidel castro.

PRA QUE OPOSIÇÃO?

Sinceramente:
v acha que precisamos
nos opor seriamente a isso, a essas coisas?
Isso cairá de quatro!
Pelo ridículo!
Ligue as pontas!
Índio segue sargento
sob as bênções de Lulu, o metalúrgico.

La cucaracha/
la cucaracha/
ya no puede caminar/
porque no tiene/
porque no tiene/
las patitas para andar

MUDANÇAS ORTOGRÁFICAS a partir de 2008 – pela editoria

TOME  NOTA !!

A partir de Janeiro de 2008, Brasil, Portugal e os países da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa – Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor Leste – terão a ortografia unificada.

O português é a terceira língua ocidental mais falada, após o inglês e o espanhol.
A ocorrência de ter duas ortografias atrapalha a divulgação do idioma e a sua prática em eventos internacionais.
Sua unificação, no entanto, facilitará a definição de critérios para exames e certificados para estrangeiros.
Com as modificações propostas no acordo, calcula-se que 1,6% do vocabulário de Portugal seja modificado.
No Brasil, a mudança será bem menor: 0,45% das palavras terão a escrita alterada.

Mas apesar das mudanças ortográficas, serão conservadas as pronúncias típicas de cada país.

O que vai mudar na ortografia em 2008:

– As paroxítonas terminadas em “o” duplo, por exemplo, não terão mais acento circunflexo. Ao invés de “abençôo”, “enjôo” ou “vôo”, os brasileiros (e os outros) terão que escrever “abençoo”, “enjoo” e “voo”;

– mudam-se as normas para o uso do hífen no meio das palavras; O hífen vai desaparecer do meio de palavras, com excepção daquelas em que o prefixo termina em `r´, casos de “hiper-“, inter-” e “super-“. Assim passaremos a ter “extraescolar”, “aeroespascial” e “autoestrada”.

– Não se usará mais o acento circunflexo nas terceiras pessoas do plural do presente do indicativo ou do substantivo dos verbo “crer”, “dar”, “ler”,”ver” e seus decorrentes, ficando correta a grafia “creem”, “deem”, “leem” e “veem”;

– Criação de alguns casos de dupla grafia para fazer diferenciação, como o uso do acento agudo na primeira pessoa do plural do pretérito perfeito dos verbos da primeira conjugação, tais como “louvámos” em oposição a “louvamos” e “amámos” em oposição a “amamos”;

– O trema (brasileiro) desaparece completamente. Estará correto escrever “linguiça”, “sequência”, “frequência” e “quinquênio” ao invés de lingüiça, seqüência, freqüência e qüinqüênio;

– O alfabeto deixa de ter 23 letras para ter 26, com a incorporação de “k”, “w” e “y”;

– O acento deixará de ser usado para diferenciar “pára” (verbo) de “para” (preposição);

– No Brasil, haverá eliminação do acento agudo nos ditongos abertos “ei” e “oi” de palavras paroxítonas, como “assembléia”, “idéia”, “heróica” e “jibóia”. O certo será assembleia, ideia, heroica e jiboia;

– Em Portugal, desaparecem da língua escrita o “c” e o “p” nas palavras onde ele não é pronunciado, como em “acção”, “acto”, “adopção” e “baptismo”. O certo será ação, ato, adoção e batismo ;

– Também em Portugal elimina-se o “h” inicial de algumas palavras, como em “húmido”, que passará a ser grafado como no Brasil: “úmido”;

– Portugal mantém o acento agudo no e e no o tônicos que antecedem m ou n, enquanto o Brasil continua a usar circunflexo nessas palavras:
académico/acadêmico, génio/gênio, fenómeno/fenômeno, bónus/bônus;

OFERTÓRIO/corpo poema de jb vidal*

ando a oferecer à quem possa interessar,
este corpo injecto de sensações
das mais puras às mais imundas,
um corpo que sente e dá sentido,
um corpo que ama e odeia,
lamenta, sorri, avança, recua, tem fome e busca outro,

um corpo viril e espartano
vítima de elogios e difamações,
um corpo que treme diante das salivas vaginais
e se entrega à loucura como última saída,
que espermeia bucetas de rainhas e criadas
e se prostra inútil diante do nada,

um corpo que experimenta prazeres e dores,
dos mais sutis às mais diabólicas,
um corpo que sente a agonia dos ossos
anunciando o limite das células cansadas,
um corpo que trabalha e produz falsidades
e termina o dia evacuando ilusões,

um corpo perfumado e fétido
abalado e abatido,
com a boca sangrando de  beijos infernais,
um corpo que interrompe o vento e faz a sombra,
que semeia gente e colhe iras
cai, rasteja, levanta e vomita ladainhas,

um corpo pronto para morrer,
pois sentiu de toda podridão,
carrega consigo os vermes que limparão seu esqueleto
branco-sujo pelas carnes amoldadas,
um corpo que, apodrecendo, levanta o braço com dedo em riste
acusa a humanidade de ter falhado

* poema do livro OFERTÓRIO a ser publicado em 2008.

SURPRESA do EQUILIBRISTA poema de sergio bitencourt*

Na profusão dos dias, aventureiro
Na difusão das trajetórias,dinheiro
Nas aparentes escapatórias, prisioneiro.
 
De súbito no centro da corda, bamba
Na percepção acorda e tomba,
Na queda aborda e bomba!!!
 
Eclode aos pedaços,
Junta-se, enlaça-se, flui e ligeiro
A ventura chama para tomar altura
No Verdadeiro.
 
Feliz fluxo, não transborda,
Não há, Não houve, Não Haverá
Corda.
 
TUDO INTEIRO!!!

*o autor é engenheiro civil e poeta.

APELAÇÃO poema de altair de oliveira*

Cauteloso, silente e lentamente
faço coisas que sei que Deus duvida
me divido por quatro e sofro um pouco…
fico louco pra tudo se acabar
vejo o mundo rodando e penso penso.

E medito no dito por não dito
e me dito meu grito mais imenso
e ensaio o que digo e o que não digo
se desmaio, se corro ou se gargalho
qualquer coisa que afaste do perigo
que mendigue derrota aos inimigos
mas me safe na hora do sufoco

*poema do livro O Embebedário Diverso – 1996

O SINTOMA é a DOENÇA por walmor marcellino

Pode parecer alucinação ou mera alienação, mas existem sintomas que são as próprias doenças. Melhor, como na psicanálise, a forma do encobrimento é a razão de ignorar qual a falta; ou, como diria o Conde de Abranhos, a existência é a própria essência, e a manifestação é o fenômeno. Depois dessa enxúndia, vou obrigado a tratar a questão: o Paraná é uma falcatrua intelectual; é uma farsa cultural engendrada pelos políticos. Aqui, os políticos são pobres de espírito; e acusam a população iletrada.
Que me perdoem os estudiosos tantos que há, os cientistas e professores dedicados ao saber e a ensinar; os profissionais (e mesmo os amadores da sabedoria) ainda que ocupados e centrados nas especializações   que assim marcham com os videotontos e celularizados das notícias ligeiras e informações “de passagem”. Que me desculpem os ex colegas da informação e da crítica nos meios macluhanianos; e os intelectuais que perderam a bússola ante as variações de ímãs (não imãs ou xamãs!). Escusem-me a veleidade tardia de comentar aspectos das relações sociais, no ensejo de uma autocrítica; porém não se apoquentem porque são nímias observações, às vezes contundentes, sobre a incultura do Paraná, ou o tratamento que os poderes jurídico-políticos — governo,  prefeituras e entidades interventoras na prática cidadã e sua criação cultural — dão ao que chamamos criação, organização e produção de cultura.
Executivo estadual e prefeituras escolhem espaços onde assentam um coxo com farelo e água, e ali a alimária se espoja, e a saparia deve cultuá-los até que se dê o coroamento — uma homenagem: um retrato, um busto, o nome de uma pocilga em reconhecimento ao imbecil que nem tem consciência de que “sua cultura” é uma incultura pedante, e sua atitude de regente político da sociedade um resultado do famulismo e familismo a que foi submetido o Paraná nos últimos 25 anos.
Esperava-se que dos novos partidos políticos, como das escolas superiores, viesse o sopro renovador, mas qual! Os vícios se entranharam em todas as instituições, e a intelectualidade tornou-se mais servil e oportunista, dando maus exemplos para os disputantes à cidadania. Quem souber diga, relate que estudo universitário se debruça sobre as realidades institucionais e seus agonistas? Que projeto governamental aponta possibilidades sociais nas ciências e nas artes; que instituição especializada mostra o horizonte e descortina os caminhos para as Índias?

FÚRIA

SOBRE A LIBERDADE

a liberdade é uma coisa tão preciosa que deve ser racionada.
 v. i. lenin

CIBERCULTURA e INCLUSÃO DIGITAL por hugo laboran

a-cibercultura-e-inclusao-digital-foto-cd.jpg“Nenhum homem é uma ilha isolada; cada homem é uma partícula do continente, uma parte da terra; se um torrão é arrastado para o mar, a Europa fica diminuída, como se fosse um promontório como se fosse a casa dos teus amigos ou a tua própria; a morte de qualquer homem diminuiu-me, porque sou parte do gênero humano. E por isso não perguntes por quem os sinos dobram; Eles dobram por ti…” Jonh Donne

O corpo cibernético

O que distingue o espécime humano dos demais animais é a sua capacidade de criar cultura. A partir da comunicação, das formas mais distintas de linguagem, nossa espécie pode viver em sociedade e interagir, sempre de acordo com os padrões culturais estabelecidos em cada agrupamento social.

Não se pode datar ou compreender exatamente como e onde esse processo teve início, pois essas culturas se perderam na história, restando poucos resquícios que apenas nos permite exercitar a imaginação e confabular teorias. Com o avanço da organização social, o que se entendia por pequenos grupos foram crescendo, e produzindo mais valores e costumes, transmitidos por gerações. Esse acúmulo de conhecimentos e sua organização deu início ao que se entende por corpo social. O corpo social é como uma grande colméia, com indivíduos e produções culturais compondo sua estrutura.

Cada corpo social é regido por um sistema de valores tradicionais e mutáveis, sobre o qual o indivíduo isolado recebe mais pressão e influência do que é capaz de exercer. O corpo social é uma cadeia flexível e adaptável, sujeito à assimilação e absorção de conhecimento cultural, porém ligado as suas necessidades urgentes e eminentes de manutenção da espécie.

O ser humano, a partir do surgimento da rede mundial de computadores, ou simplesmente internet, reproduz o conceito de corpo social em uma estrutura muito mais complexa e intangível, sujeita a desavenças e especulações inconclusas, por vezes incompreensíveis, onde o único solo fértil que encontra na atualidade é o da conjectura e ficção. Surge o conceito do espaço cibernético, ou ciberespaço, que consiste no conjunto de informações e caminhos virtuais que circulam pelas redes, sob a forma binária (1 e 0), e transmitidos por ondas de fótons através de condutores e semicondutores eletromagnéticos. Esses elementos compõe o soma cibernético, ou simplesmente, cibersoma, que é o canal onde tais informações viajam, trata-se de um canal virtual, pois ele não possui forma física e tampouco pode ser situado no espaço, existindo somente enquanto informação numérica.

Para que haja funcionalidade no cibersoma, é necessário que exista o elemento humano, capaz de interagir e comunicar-se por intermédio deste. Quando o ser humano atua sobre o cibersoma, têm-se o conceito de cibercultura, que é tudo aquilo produzido a partir do espaço cibernético, e para o espaço cibernético. O princípio básico para a cultura de redes é a conexão, a ligação entre eminentes humanos por meio das redes virtuais e sua interação a partir desse espaço.

A explosão tecnológica no final do século XX ultrapassou as expectativas de muitas pessoas, mesmo tendo sido prevista pela Lei de Moore, proposta em 1964, que predizia que a cada 24 meses a capacidade de armazenamento de um processador dobrava, enquanto que seu custo permanecia o mesmo. Essa explosão repentina teve repercussões tanto construtivas, ampliando o espectro da comunicação, refletiu-se na situação política do globo, encurtando distâncias antes inatingíveis, como destrutivas, emergindo em segmentos sociais uma espécie de tecnofobia, nos Estados Unidos, comunidades inteiras uniram-se, estabeleceram cultos religiosos, predizendo a tecnologia como causadora da destruição humana, estando alheios a quaisquer formas de tecnologia, inclusive a luz elétrica. O mesmo pode-se evidenciar em comunidades na Bolívia, para as quais centenas de emigrantes mexicanos mudaram-se receando a industrialização do México.

O corpo social assume aspectos biológicos quando sujeito a elementos novos e surpreendentes como a tecnologia, tal como uma farpa sob a pele, é rapidamente envolvida por líquidos inflamados, que contém agentes combativos, isolando o corpo estranho e expelindo-o. Em contrapartida o advento da internet possibilitou à organização social vislumbrar um conceito de globalização de mundo, o mundo como um todo, holístico e uno, onde cada indivíduo é parte constituinte e atuante, onde quer que se situe, a localização passa a ser um mero detalhe ante as possibilidades de interação social oferecidas pelo novo corpo, sobreposto e exterior ao corpo social, o corpo cibernético.

Esse novo, incompleto e ilimitado corpo, representa para a humanidade possibilidades além de sua débil compreensão, ele pressupõe mudanças drásticas no corpo social, a partir da interação de diversas culturas por meio de equipamentos conectados ao espaço cibernético. A indução de um sistema de tradução universal. É a predição da comunicação global sem fronteiras, onde a linguagem distinta deixa de ser uma barreira para a interação humana, e a partir da linguagem a cultura sofre fusões internacionais, inter-relacionais, onde o indivíduo isolado, o eremita urbano, rural e social assume e reassume suas características humanas.

O sistema ou modo de produção social isolou e fragmentou a sociedade em detrimento da indústria cultural, essa fragmentação cria especialidades e centralização entre o indivíduo, e este se torna alheio ao todo, pois é induzido a observar somente a parte e conduzido pelo aparelho, um transporte que o priva do movimento, seja o movimento físico, seja o movimento das sinapses cerebrais.

Essa fragmentação do tecido social produz culturas estáticas e pouco mutáveis, em detrimento do status quo que as rege. O movimento é definido pela mobilidade da matéria, ou seja, o corpo está em determinado lugar e pelo gasto de energia transporta-se para um lugar distinto. Na cibercultura o movimento do corpo depende de sua interface, o indivíduo estático é munido de movimentação, de transporte pelo espaço cibernético, ele não encontra barreiras, sua velocidade é incomensurável e sua dimensão é intangível.

O desfragmentador de disco

No corpo cibernético, a fragmentação do aparelho de interface (Hardware, Software), recebe a interferência de um programa do sistema conhecido como desfragmentador de disco, um utilitário que analisa discos locais, localiza e consolida arquivos e pastas fragmentados, revertendo o processo de fragmentação, que pode gerar perda de dados, lentidão do sistema e inconsistência no volume. O problema da divisão exagerada de componentes do sistema encontra solução no espaço cibernético, mas no corpo social e no sistema social não existem alternativas semelhantes.

Assimilar a experiência organizacional e desfragmentada do corpo cibernético para o corpo social é uma tarefa hercúlea, e as próximas gerações poderão perceber cada vez mais essa influência, na medida em que tiverem toda a sua vivência permeada por uma interface digital, conectando-as a tudo e a todos. No século XXI, a Era da Conexão apresenta a junção do espaço urbano e espaço virtual, trazendo mobilidade, uma janela com vista para todo o conhecimento e informação produzidos pela nossa cultura.

Os críticos da cibercultura apontam um vitalismo social baseado no hedonismo proporcionado pelo entretenimento, um ativismo global em torno do nonsense (ausência de sentido em todas as coisas), uma micro-política em torno do anarquismo e de revoluções anárquicas, onde o sentido de posse, e de direitos autorais, quaisquer que sejam tornam-se nulos. O advento do sistema operacional linux, o primeiro exemplo de software corporativo e livre, com distribuição aberta a todos, é o maior exemplo da anarquia cibernética, onde o que se entende por “linuxização do acesso”, é a possibilidade dos usuários construírem uma sociedade de informação livre, onde a comunicação agrega todos os aparelhos comunicativos, como diz Lemos:

“Cria-se, na era da conexão, um ambiente de acesso e troca de informações que envolve os usuários. A fase atual da computação ubíqua, dos objetos sencientes, dos computadores pervasivos e do acesso sem fio mostra a emergência da era da conexão e da relação cada vez mais intrínseca entre os espaços físicos da cidade e o espaço virtual das redes telemáticas. O desafio da gestão informacional, comunicacional e urbanística das cidades passa pelo reconhecimento dessa era da conexão e da mobilidade.” Lemos, 2004

O consumo de informação assume então dimensões práticas, assim como a sociabilidade, de forma jamais experimentada pela história humana. O valor material da informação assume valores binários, a anarquia corporativista e libertária do ciberespaço derruba as ditaduras culturais, noticiarias e informacionais, enquanto em um canal de tevê ou emissora de rádio o espectador apenas recebe informações, na universo cibernético ele as escolhe, ele as constrói, no universo cibernético o indivíduo têm o poder da integração.

A distância existente entre os usuários da internet e o acesso ainda é o maior obstáculo para a denominada inclusão digital. Felizmente, grande parte das pessoas sentem a necessidade de entrar em contato com o mundo digital, em oposição ao ostracismo cultural gerado pela tecnofobia. Mas esse acesso, principalmente nos países mais pobres e desiguais, também caracterizado pelo preço inacessível dos computadores, representa a maior barreira para a inclusão. Os 54 países africanos já possuem acesso à internet, mas apenas 1% da população do continente vivenciam essa realidade, ainda assim de modo bastante tímido. A concentração dos mecanismos digitais nas mãos de poucos revela a timidez prática da inclusão. A ONU (Organização das Nações Unidas) considera a inclusão como fator primordial na visibilidade dos países pobres, pois quando conectados ao ciberespaço, sua capacidade de representação e voz ante ao mundo global pode aumentar significativamente, assim como a resposta da comunidade internacional.

O corporativismo internacional, aliado ao capital estrangeiro, já prevê a inclusão digital como uma possível arma da rebelia anárquica, e os grandes grupos já se mostram prontos a fazerem aquisições de servidores, que promovem a informação, e veículos de notícias e controle da internet, subsidiada aos EUA, que detém o controle dos portais. As grandes corporações já assumem uma linha ofensiva no intuito de deter, controlar e restringir o universo de informações dos servidores e dos usuários. Mas elas ainda encontram fortes restrições ante a liberdade do ciberespaço, que não é regido por códigos de leis, mas pelos usuários e suas vontades.

A restrição legal do uso da internet é um assunto polêmico e muitas vezes indiscutível para muitos usuários, que consideram uma utopia tentar controlar sua liberdade de acesso. Os governos, por seu lado, sofrem pressões multilaterais para prover soluções para o tráfego descontrolado e desenfreado dos usuários, a partir de fatos cruciais como a pedofilia, racismo e dezenas de outros fatos da crueldade humana.

Para que seja livre o espaço cibernético precisa de valores, valores humanos, mas tal liberdade não pode ser restringida por fatos isolados, porém devem ser identificados e punidos aqueles que destroem esses valores. O ciberespaço não pode estar acima o espaço humano, mas tornar-se uma ferramenta para ampliá-lo, para dotá-lo de uma unidade total e irrestrita, onde os espaços físicos deixem de ser entraves para a interação entre povos e culturas, assim como seus costumes, linguagem e sentimentos, todos eles humanos e fundamentais.

Schopenhauer diz em seu livro A Arte de Insultar: “O Mundo é o pior de todos os mundos possíveis”, talvez ao se referir ao mundo dos homens, ao mundo mortal e cruel dos sistemas sociais que fragmentam a vida humana. O cibermundo, o mundo digital, é antes de tudo a superação do nosso mundo tão terrível aos olhos do filósofo alemão, é a esperança humana de que o nosso sistema operacional seja desfragmentado, como um disco, unindo pedaços partidos e perdidos, para que nenhum valor e virtudes humanas se percam na infinita dimensão espaço-temporal do universo. O corpo cibernético, deve se assimilar ao corpo social, promovendo a revolução da compreensão, para que o espaço passe a ser universal e o tempo, o tempo de todos, o tempo da vida.

O conceito de corpo cibernético é relativamente novo e necessita de constantes mudanças, tanto de ordem tecnológica quanto de aceitação humana. A aversão que ainda se mostra presente a esse novo conceito poderá ser combatida com o tempo, a partir da politização das futuras gerações, advento de maiores possibilidades de vivencia do mundo digital por parte de todos.

A inclusão digital é determinante desse processo, que também pode medir como o crescimento da internet irá afetar a participação política e o poder político, talvez a internet não transforme pessoas apolíticas em pessoas politizadas, não transforme o individuo passivo em ativo, e tampouco o desinteressado em interessado, mas ela representa todo o poder dessa transformação, o poder das possibilidades, dos sonhos e dos sentimentos de liberdade, acessibilidade e encurtamento de distâncias, além da quebra de muitas barreiras. A revolução cibercultural pode não ser tão revolucionária, mas como toda revolução, representa a maior necessidade do mundo: a mudança.

DOENÇA NACIONAL por maria lucia victor barbosa

Se você, caro leitor, não tem o hábito de ler jornais e sua informação deriva apenas do que é veiculado pelas redes de televisão, irá crer com fé inquebrantável que Deus é brasileiro porque nosso país é o próprio paraíso na terra depois que Lula da Silva ascendeu ao poder.  A Saúde, disse o presidente, está perto da perfeição. O desemprego caiu. Os pobres comem três refeições por dia porque o programa Fome Zero deu certo. O mundo se curva para o Brasil, mesmo porque, ganhamos o jogo contra o Uruguai. Portanto, essa coisa de caos aéreo, caos da Saúde, caos do gás, impostos escorchantes, entre eles a famigerada CPMF apresentada como salvação nacional, falta de infra-estrutura, fracasso de políticas públicas, violência urbana chegando a níveis insuportáveis, violência praticada pelos chamados movimentos sociais ligados a Via Campesina, como o MST e congêneres, não existem. São intriga da oposição, mentiras dos que não aceitam que o Brasil deu certo. Tão pouco existe corrupção no governo, apesar da queda constante de ministros ou de casos escabrosos onde petistas, diante de montanhas de provas e evidências se declaram inocentes, enquanto seu líder afirma que nada vê, de nada sabe. Afinal, ele é apenas um pobre presidente da República.  

Assim, idiotizados pela propaganda, enlevados pelo mito do “pobre operário” cuidadosamente construído pelo PT, aceitamos com naturalidade a total inversão de valores que aos poucos vai erodindo o que resta de nossa civilidade. Temerosos de infringir o politicamente correto damos por certo que elite é um termo pejorativo ao invés de significar produto de qualidade. Nos curvamos ao veneno destilado pelos seguidores dos novos donos do poder que, usando a velha tática de dividir para dominar, a qual por sua vez é indutora de simplismos maniqueístas, divide a sociedade entre maus (aqueles que não são do PT) e bons (os que são petistas); elites (ricos maus e exploradores, em que pesem as doações dos grandes empresários para as campanhas milionárias do mitológico pobre operário e do fato deste e de seus mandarins da cúpula petista terem chegado ao paraíso da burguesia) e pobres (classe majoritária que foi resgatada das garras do capitalismo selvagem por LILS, o iluminado salvador da pátria); brancos (transgressores dos direitos humanos e opressores dos negros) e negros (cujo direito de odiar brancos e agredi-los é algo natural, como disse uma ministra do bondoso pai Lula). E temos apenas dois partidos: PT e PSDB (quem não pertence ao Partido dos Trabalhadores fatalmente é tucano, ainda que não faça parte de nenhum partido).

Acentua-se no Brasil, portanto, o etnocentrismo, ou seja, o julgamento que tudo o que é de alguns é bom e de outros é mau. É o radicalismo do “meu” e do “seu”. Não temos meios termos. Não existem morenos, mulatos, cafusos. Ou se é negro ou se é branco. Ninguém se salva fora do PT e todos que pertencem ao PT são cidadãos acima de qualquer suspeita, façam o que fizerem.

A chamada base governista, ou adesistas de ocasião, capazes de se vender a qualquer preço, mesmo por um “chinelinho novo”, não possuem tanta imunidade. São usados e depois jogados fora. Que o diga o PMDB, partido cujos integrantes, segundo uma amiga internauta, trazem na testa um código de barra, é só passar em qualquer maquininha que sai o preço. Aliás, os mais experientes políticos de diversos partidos nunca aprendem que o PT possui leis próprias, entre elas, esmagar os que não pertencem à casta dos companheiros, triturar os que ajudam o partido e ao seu líder máximo.

Caminhamos rumo ao atraso e a decadência, sob o comando do espaçoso Hugo Chávez, mas vamos felizes entre uma partida de futebol e outra. Afinal, não vamos sediar a Copa do Mundo? Querer mais o quê?

E enquanto o povo se alegra assistindo futebol, gesta-se nos bastidores do poder o terceiro mandato do amado avatar, Lula da Silva. Quem poderá impedi-lo? E que outro mito o PT possui para se perpetuar no poder? Como o próprio presidente afirma que seu comandante Hugo Chávez é um democrata, basta seguir seus passos, como, aliás, vem acontecendo de forma mais branda, conforme a marca registrada brasileira da dubiedade. Calmamente, cuidadosamente o PT fabrica sua ditadura sob aplausos gerais e toques de tambores de guerra de seus estridentes e fanáticos militantes e simpatizantes. Alertas parecem soar inutilmente enquanto triunfa a ignorância, a truculência, a incompetência, a corrupção. A decadência da nossa sociedade já é uma doença que parece incurável, pois progrediu muito. Perdemos nossa elite no sentido dos melhores, dos mais virtuosos e isso faz lembra o portentoso pensamento de José Ortega y Gasset em Espana Invertebrada: “quando a massa nacional chega a determinado ponto, são inúteis os argumentos racionais. Sua enfermidade consiste, então, no fato de que a maioria não se deixará influenciar, fechará freneticamente os ouvidos e pisoteará com mais força naqueles que queiram contrariá-la”. A partir daí se segue o triste espetáculo dos piores suplantando os melhores”.

*Maria Lucia Victor Barbosa é socióloga

CATARATAS DEL YGUAZÚ conto de josé alexandre saraiva

Sutil Teatro de la Vida

Es noche, noche alta. Estoy solo en las Cataratas del Yguazú. El virginal aire del Parque Nacional – señor de todas las tonalidades de los distintos verdes de las hojas – y el arcoiris en plenilunio, en silencio, filtran mis sentidos hacia un lujoso espectáculo. Por un momento, cierro los ojos. Me detengo en la ruidosa sintonía de las invencibles aguas. En velos perennemente alineados, ellas se arrojan de las majestuosas alturas, escenario de magnífico teatro diseñado por Natura en una inconmensurable pantalla semicircular.
 La sensación es la de estar frente al show de los tiempos. Anhelante, escucho más allá de mi respiración, de una sola vez, columpiados en intangibles sábanas de espumas, a un paso de distancia, el murmullo de todos los siglos; los estallidos  de todas las bombas; el silbar de todos los azotes; el silencio de todas las lágrimas; el “arroz con leche”de todas las criaturas; la orquestación de la caricia de todas las manos en la apoteosis del amor y de la paz. Oigo nitidamente el despertar  de las azucenas; el adiós de todas las hojas caídas; la disonancia de todas las ambiciones y mentiras; el rastreo de los lacayos; el estallido de Hemingway. Repercuten el diapasón de la verdad; el eco de todos los verbos; los versos de todos los poetas; el suplicio de todas las ejecuciones y de todas las selvas en llamas; el cantar de todas las aves y grillos; el zumbar de todas las cigarras y la sinfonía de todos los sapos. Puedo distinguir  aún los motores de todas las fábricas; el silbido de todos los vientos; el  ladrido de todos los perros; la ondulación de los océanos; el ruido de todas las puertas; las gotas de todas las lluvias; los minuteros de todas las horas; los pregones de todas las bolsas. Voces fuertísimas acusan, otras, pianísimas, perdonan.  También arrullan allí los suspiros, muchos suspiros de esperanzas perdidas; sollozos postreros de los que parten, llantos de los que quedan y la triste melodía de todas las añoranzas. Todo delante de mí, vibrando rítmicamente y desparramándose para siempre, irreversiblemente, en sonora y armónica sincronía rumbo a la eternidad de todos los más allás, de todos los misterios, de todas las dudas, de todas las búsquedas. Y yo, público espectador.
En una mezcla de éxtasis y miedo, dominado por la sinergia existencial, resuena dentro de mí el temblor de abisal distancia entre lo que pensaba ser y todo lo que existe más allá de los remansos de los ríos. Abro los ojos y miro al arcoiris envuelto en espesa niebla , que flota, acunando el baile de la golondrina nocturna.

Él me dice:-        
Es todo.  Con todos los colores visibles e invisibles…

Arrebatado, me dejo aletear en las alas de una mariposa azul. Flotando más adelante, allí cerca, veo las candilejas silenciosas del encuentro de las aguas de los ríos Yguazú y Paraná. Luego del profundo abrazo – hermanadas  en nuevo y único lecho, que conduce el auriverde de Brasil para márgenes de otros parajes -, velos plateados lentamente ocultan la luna, oscureciendo la noche y quitándole  a las aguas su color de plata. Miro de reojo el arcoiris que se desvanece. Las luces del teatro se van apagando inapelablemente y las primeras luciérnagas sentinelas  se presentan, titilando el encanto de sus bujías en los imperceptibles vericuetos de la oscuridad.            
Las hojas  de la arboleda bajo la cual me encuentro desde el comienzo del espectáculo hace mucho están  lloviznando sobre mí los copos emanados de espumas tiradas por soberbias piedras. Estoy  mojado, y mi cigarrillo, amargo, exhala su veneno, ahuyentando los afables y receptivos quatíes  que estaban merodeando. Estoy de vuelta.  Siento el mal aliento de la Civilización.            

Y una vez más, Dios fue aplaudido.

INVENÇÃO de LF conto de luis felippe leprevost

E se eu o chamar de LF? Parece-me bem, é justo. Aqui entra na história LF. Explico: Lembra que teve um momento lá atrás (ler Fagulhas, irrelevantes fragmentos de narração) em que me levantei e fui ao banheiro? A propósito dessa ida farei agora um flashback para o interior do banheiro.

O barulho do mijo na água da privada. Alguém que tivesse usado antes de mim aquele sanitário também não havia dado à descarga. A água suja, amarelada de um amarelo espesso e escuro. Preciso diminuir o café. Chacoalho o membro (como naqueles textos que a gente pode ler no http://www.contoseróticos.com.br). Ele mesmo, o pau, está um tanto encolhido, em respeito ao frio, espero, o que dificulta um pouco a manobra. Caem pingos na cueca. Levando o zíper da calça. Preciso decidir se lavo as mãos ou não. É líquido o sabonete que tem ali, odor de morango. Ok, excepcionalmente as lavo. Minúcias de decisões que devemos tomar nos banheiros. Depois faço um bochecho com água da pia. Enxáguo o rosto, a barba fica empapada. Enxugo-os com a toalha de papel. À força arranco do maldito suporte mais uma folha. E enquanto esfrego o rosto com uma terceira toalhinha me sinto culpado, meus olhos acabam de se deparar com a frase duas toalhas são suficientes para secagem das mãos. Mas estou secando a boca e o queixo babado, menos mal para o meu lado, é, afinal, uma boa justificativa à meu favor. Droga, com a quarta toalha penso não em enxugar o rosto, mas em apagá-lo.

É, estou me olhando no espelho. O que vejo? Barba, muita barba, como fosse um terreno baldio tomado por vegetação o meu rosto. Em meio aquela fauna e flora meus óculos se anunciam cheios de rancores em relação ao que me ajudam a ver. Por trás dos óculos, olhos verdes. Olhos verdes com chuva de granizo dentro. Meus cabelos são aloirados, alguns fios brancos. É uma vasta cabeleira que ainda não decidiu se vai cair ou embranquecer.

Visto um pulôver claro, cor magenta, manchado de café. Um corpo. Um corpo que nos últimos seis meses perdeu uns trinta e poucos quilos e mesmo assim ainda está mais para Pingüim do que para Batman. Pelo menos não sou um daqueles idiotas do Clube Curitibano que ficam disputando para ver quem é que agüenta correr por mais tampo encima de uma esteira ergométrica, para depois no Bar do Tênis se vangloriar por ser o novo campeão da Olimpicc.

Espelho espelho meu será isto aqui um filme de Jim Jarmusch? É a chance que tenho para me inventar. Talvez seja bom me ver assim tão turvo, desfocado. As deformações estão mais por trás da imagem que vejo. A máscara não é a própria cara, porém não é capaz de não traí-la repetindo suas feições e expressões de impiedosa auto-denúncia. Não sei se sou capaz de me construir em detalhes, e não me importo. Sei que informar a um leitor que o personagem não reagiu, que o personagem é todo ele a ausência de um sorriso, sei que tais detalhes dirão mais sobre ele do que construí-lo minuciosamente osso a osso.

Dou outra olhadela no espelho, a última, antes de sair do banheiro. Sei que construo de mim alguém que poderia ser chamado Solidão. E a meu ver tudo isso é menos que diabólico, menos que angelical. Devo ser um personagem que ficará no meio do caminho. As medidas daquilo que invento estão em meu punho doído, na força que os dedos têm que fazer para manter a caneta correndo no papel. As que estão ali em minha frente certamente são feições de tristeza.

Penso: Admita, paspalho, admita que você aprendeu direitinho a mimese da tristeza. Você é um canastrão, o melhor papel que faz é de macho condoído. Todas as ausências de caras-e-bocas, todas as faltas de entusiasmo se assiste em tua cara. Nem essa overdose de inconsciência te salva. Você é um cachorro, um dog, dos mais desprezíveis, você e tua cara de carente profissional, abanando o rabo para primeira garotinha um pouco esperta que aparece na tua frente.

Agora me pergunto se cachorros morrem de amor. Não, cachorros não morrem de amor. Cachorros morrem atropelados. Morrem da falta de ração. Mas não morrem, não mesmo, de amor. Se ao menos eu fosse um cachorrão fodedor, teria uma mandíbula temida e desejada. Deixaria minha marca indelével em cicatrizes eternas.

Será esse o personagem que busco? O sujeito que fará par romântico com S? Será essa triste figura o meu LF? Devo temê-lo? Quanto tempo de pesquisa frente a um espelho para extrair algo real de dentro daquela imagem, algum sinal de que ali há vida? Mas espelhos não guardam nada, espelho não guardam nem borrões de lembranças. Só um kamikaze procuraria um personagem onde seus piores sentimentos vieram à tona. 

ESPERANÇA poema de joão batista do lago

(Para o poeta Manoel Andrade)  

Disse-me o Poeta:
– ainda não encontraste a porta da Esperança!

– De fato, Poeta, ainda não atravessei a porta!
E confesso-te, ó Mago das Palavras:
Sou deveras criança a caminho do Sol.
Não tenho pressa…

Nos meus umbrais, ó Poeta,
Ôntica é a Esperança, que se
Lança na eternidade do em-mim de si
Sendo não Ser para sempre Ser.

Não tenho dúvidas, contudo, há-de a
Esperança um dia tornar-se presença…

Estrela que se fixará no céu da eternidade,
Donde, como Zeus, amarei a humanidade!
Donde, como Dionísio, sorverei do vinho da sanidade!
Donde, como Apolo, iluminarei toda dignidade!
Donde, como Deus, serei eu-em-si por toda eternidade!
__________

QUANDO CHEGA O VERÃO – pombos

Pombos trazem micose que pode matar. Perigo aumenta no verão

pombos-levantar-entre-pombos-apontar-lhes-1718012.jpg

Calor e umidade aumentam o risco de doenças transmitidas por animais que vivem em bandos, como aves e morcegos. Temperaturas elevadas e umidade excessiva criam um ambiente propício para a maior incidência de casos de doenças transmitidas por animais de hábitos gregários (que vivem em bandos), como aves e morcegos. Uma das complicações que podem se tornar comuns nesta época do ano é a criptococose, mal que atinge o aparelho respiratório e o sistema nervoso central, podendo levar à morte. Temperaturas elevadas e umidade excessiva criam um ambiente propício para a maior incidência de casos de doenças transmitidas por animais de hábitos gregários (que vivem em bandos), como aves e morcegos. Uma das complicações que podem se tornar comuns nesta época do ano é a criptococose, mal que atinge o aparelho respiratório e o sistema nervoso central, podendo levar à morte.

FÁBULA CONFABULADA por josé zokner

Numa pequena aldeia chinesa vivia uma família ídem, quer dizer, também pequena. O pai, Byl Kha Leh; a mãe, Ple Tza Leh e uma filha, San, que, em japonês, quer dizer “senhor”; em espanhol, “são”; em inglês, foneticamente, é “sol” ou “filho” mas, em chinês, carregando o esse, quer dizer “Vitória”. Os pais haviam dado esse nome à filha em homenagem à vitória de quem e daquilo que eles, ideologicamente simpatizavam e defendiam.San era uma moça muito bonita e não faltavam pretendentes para namorá-la. Dentre eles, Meh Zeh Men, um rapaz muito trabalhador e ordeiro, mas que tinha a – segundo alguns a má, segundo outros a boa – fama de conquistador.Meh Zeh Men, depois que conheceu San, afastou-se das outras namoradas. O que a deixou bastante satisfeita. E também a seu pai, embora com uma certa reserva, já que Byl Kha Leh, na sua época, não havia sido muito diferente de Meh Zeh Men. “Conheço muito bem essa raça”, pensava Byl Kha Leh, “e com muito conhecimento de causa, ou de ‘know how’, como costumam se expressar os imperialistas americanos”.O namoro transcorreu sem incidentes. Sentados no sofá da sala de visitas, conversando em voz baixa para que uma tia solteirona, designada como sentinela, enquanto fazia um tricô, ou crochê – isso não foi possível averiguar –, apurando os ouvidos para captar algum assunto que, eventualmente poderia ser dissonante para os padrões comportamentais daquela época. De agarramento, então, nem pensar…O noivado ocorreu com a presença das duas famílias, durante um jantar íntimo, quando, após um breve discurso, proferido com voz firme e olhando a todos bem nos olhos, no qual Meh Zeh Men assegurava suas pretensões de proporcionar uma vida feliz para San, através dos proventos que iria ganhar, fruto do seu árduo trabalho; que gostava muito de San; que não poderia viver sem ela, enfim, disse tudo aquilo que se costuma dizer em tais ocasiões.O casal começou a se preparar para o casamento. Inicialmente iriam viver nos fundos da casa do pai de Meh Zeh Men. Uma meia água de duas peças. Posteriormente, comprariam um terreninho para construir seu próprio ranchinho. E assim por diante que o leitor já está cansado de ouvir falar nesse tipo de ascensão social. O quarto de casal se constituía numa cama e um guarda-roupa, doado pelos pais de San. Cada vez que o casal entrava no quarto ou, mais liberado da fiscalização da tia, se encontrava a sós, Meh Zeh Men roubava um beijo de sua noiva e começava a se alvorotar o que San repudiava com muita graça e recato. “Mas a gente vai casar mesmo, por que não, agora ?”, argumentava Meh Zeh Men, parecendo ter l00l mãos ao procurar alisar o corpo de San. “Só depois de casarmos. Você sabe que eu não abro mão, pé ou seja lá o que seja das minhas convicções”, contestava San. E quanto mais estavam juntos, maior era o assédio. Diretamente proporcional, portanto, o que, convenhamos, que, nesse momento ou nessa altura do relato, absolutamente não vem ao caso. San, que não era de ferro e que sentia abalada suas já parcas resistências, foi se aconselhar com sua mãe, Ple Tza Leh, para saber como tinha sido no seu tempo. Ple Tza Leh, que não havia resistido aos assédios de Byl Kha Leh, mentiu para a filha que só depois de unidos pelos laços do matrimônio indissolúvel, etc. etc.A noite, Ple Tza Leh, deitada ao lado de Byl Kha Leh, comentou com o marido o diálogo que havia tido com a filha. Este, como se costuma dizer no Ocidente, ficou uma arara, uma fera, possesso, pê da vida: “Onde já se viu ? Onde é que estamos ? O que é que esse Don Juan de meia tigela está pensando ?, etc. etc. E tamanha foi a indignação que se levantou da cama e foi recapitular as artes marciais que havia aprendido na sua juventude. Na manhã seguinte, conhecendo o caminho que Meh Zeh Men fazia para ir ao serviço, esperou-o atrás de uma esquina e quando o rapaz passou deu-lhe um pito, mas estava preparado para uns safanões, se necessário fosse. Mais que isso não, porque, afinal de contas o rapaz teria que estar em forma para o casamento que estava próximo. Meh Zeh Men, que havia aprendido com seu pai que, por sua vez, havia aprendido com o dele, que se deve respeitar os mais velhos, o que é muito seguido na China, ao contrário dos países do decadente Ocidente, não reagiu. E a coisa ficou por isso, quer dizer, na base do “deixa pra lá”. Veio o casamento e os dois viveram felizes, que se saiba pelo menos nos primeiros anos. Atualmente, somos obrigados a confessar que não sabemos.Moral: Nunca se deve cantar a Vitória antes do tempo. 

A ARQUITETURA do DESEMPREGO por bruno edson dos santos

 

Hoje em dia, o desemprego desponta como um dos mais graves problemas das sociedades urbanas. Em face a essa chaga das sociedades pós-modernas, listam várias causas, e um motivo bastante apontado é o uso da tecnologia em geral, e em particular a automação de processos industriais alcançado com a informática. Mas, seria interessante analisar até que ponto isto é uma realidade e não um lugar comum que, de tão repetido não há mais questionamentos.Em primeiro lugar, não se deve esquecer que a história da evolução tecnológica é a história da própria evolução humana. Veja que, a tecnologia aqui referida é qualquer invenção de instrumentos que venha a facilitar a vida prática do homem.Acredita-se que a primeira grande revolução tecnológica tenha acontecido há cerca de 700 mil anos, e consistiu na descoberta da primeira fonte de energia: o adestramento do cachorro. Efetivamente, o homem descobriu que poderia utilizar esses animais como fonte de energia, isto é, puxar trenós durante as eras glaciais. Mas por que cachorros? É que esses animais acompanhavam as hordas humanas nas caçadas a fim de se alimentarem dos restos deixados. Aliás, a invenção da roda foi tardia por causa de uma simples questão prática: a roda sobre o gelo não serve para nada. E daí para frente o homem sempre procurou saber em que suas invenções e descobertas poderiam melhorar a sua qualidade de vida.

Nas primeiras civilizações urbanas surgidas na região mesopotâmia a aproximadamente 3.000 A.C., ocorreram então um gritante salto tecnológico, com invenções que melhoraram a qualidade de vida e a organização social, como por exemplo, a invenção da escrita, o desenvolvimento da agricultura, adestramento do gado, a evolução da arquitetura, da matemática, da astronomia – possibilitando as viagens noturnas – o comércio.

Bem, apesar de todos esses avanços, o problema do desemprego aparece como doença social somente na sociedade pós-industrial. Por quê?

Primeiramente, precisamos ver a importância das mudanças nas relações humanas, nos fatores de poder, nas economias, nos sistemas de produção, distribuição e propagandas ocorridas nos últimos 20 anos e que cunhou o termo sociedade pós-industrial. É um tanto difícil detalhar as mudanças, mas uma que parece saltar a vista é a mudança no trabalho, e é aí que entramos na sensível relação desemprego-automação.

Indubitavelmente, o desenvolvimento da automação industrial, tirou inicialmente o homem dos lugares perigosos do chão-de-fábrica e forçou-os a se deslocar para o terceiro setor, o de serviços. Assim, a nova sociedade se funda mais no tempo vago e não no trabalho, mais na criatividade do que na produção, mais nas idéias do que no esforço físico. Até então a mudança andava num processo gradual e em equilíbrio. Só que o desenvolvimento da eletrônica, da informática e em especial, dos microprocessadores, rompeu o equilíbrio simplesmente robotizando as indústrias, fato que acabou melhorando a qualidade do produto, baixando seu custo, e se configurando como um “grande causador do desemprego em massa”.

Grande causador do desemprego? Nem tanto.

Na sociedade contemporânea, o problema do desemprego parece se alastrar por todos os países, desrespeitando fronteiras entre o mundo desenvolvido e o subdesenvolvido. Numerosas são as explicativas e incontáveis são os fracassos nas estratégias para conter esse flagelo. Seria conveniente, ao menos analisar aqui algumas razões que, sem dúvida, motivam em algum grau esse desemprego crônico.

Muitos países subdesenvolvidos e em desenvolvimento sofrem um sério desaquecimento da economia, com cada vez menos investimentos no setor produtivo, principalmente na indústria, e conseqüente falta de criação de postos de trabalho. Baixos salários, forçados pelas freqüentes flexibilizações dos contratos de trabalho a fim de reduzir custos de produção, provocam uma sensível queda no nível de consumo da população, que por sua vez, provocam queda na produção por falta de vendas, e portanto demissões por falta de produtividade. Esse ciclo maligno ocorre em diversos mercados em alguma medida, e mais claramente em algum produto, tal como no mercado automotor, mas a maioria dos países ocidentais sofreu esse ciclo vicioso nos últimos anos com uma redução latente no nível de consumo.

Em muitos desses países, juros altos são implementados pelos Banco Centrais (o Brasil é campeão nesse quesito), a fim de atrair investimentos estrangeiros, que na maior parte das vezes, são aplicados no setor financeiro e não no produtivo, justificado pelo retorno fácil e rápido assim como pela liquidez imediata. Esses juros altos aumentam a dívida interna dificultando a aplicação de recursos no setor público e até estrangulando os investimentos no social. Além disso, dificultam, quando não impedem, o acesso ao crédito para as empresas em geral, principalmente para as indústrias que precisam de um alto capital de instalação a fim de adquirir os ativos necessários para o seu funcionamento e para o agronegócio que precisa de crédito para as colheitas.

Outro fator é a globalização, aliás, essa globalização “assimétrica”. Os mercados subdesenvolvidos acabam (por imposição dos órgãos internacionais como FMI, Banco Mundial e OMC) diminuindo alíquotas de importação, desprotegendo então, suas indústrias internas que acabam fechando porque não puderam competir com igualdade contra mercadorias produzidas com mão-de-obra barata (às vezes semi-escrava) ou com fortíssimos subsídios, vantagens fiscais, isenções de tarifas, ou outro fator que constituem “dumping”. Já os países poderosos protegem-se com altas alíquotas, cotas, subsídios ou simplesmente proibição de comércio, como é o caso que acontece com Cuba.

Nos anos 80, com o auge do neoliberalismo, e sob a filosofia do Estado mínimo, ou seja, com o mínimo de déficit fiscal e, portanto muito eficiente, diversos países privatizaram suas empresas. Essas empresas, que em muitos casos eram verdadeiros “cabides” de emprego, passaram por “reestruturações”, procurando aumentar a eficiência, o que na maioria das vezes significou, demissões em massa.

Vale também verificar que, principalmente nos países industrializados, os próprios empresários não aplicam seus lucros nos reinvestimentos produtivos, e sim no mercado financeiro pelas mesmas razões explicadas anteriormente.

No meio de todo este contexto, é óbvio que o uso da tecnologia é o agente menos nocivo do desemprego. Mas também é inegável que, principalmente nos países desenvolvidos, ocorre sim um processo de substituição da mão-de-obra humana por robôs, computadores e máquinas em geral que realizam o trabalho de modo mais rápido, eficiente e preciso.

Sem dúvida o alto desemprego é um produto direto e proposital dessas ideologias neoliberais e economias de mercado. Isso por que o desemprego tem uma função estrutural na economia de mercado, precariza o emprego existente através da ameaça ao empregado de que ele é facilmente substituível, possibilitando assim diminuição do salário e dos direitos trabalhistas em geral, aumentando os lucros das empresas.

Há tempos o desemprego deixou de ser um problema econômico para se tornar num dos mais urgente e grave problema social. O desempregado fica exposto à miséria, sem acesso à bem nenhum e, portanto, na prática, sem direitos. Principalmente o mais importante deles, o direito a vida. Exato, pois nenhuma providência é tomada para lhe fornecer acesso à saúde, alimentação, moradia e outras coisas dos quais o estado neoliberal cada vez mais se “esquece”. O indivíduo fica dependente somente de suas próprias forças, que no caso do desempregado é simplesmente nenhuma. Quando ele tenta se apossar desesperadamente desse direito, então passa a ser um marginal, alguém que não merece viver junto aos demais cidadãos “civilizados”.

Bem, os Estados não fazem nada? Eles tentam diversas armas. Uma das principais, que é imposta pelo mesmo sistema que deseja o desemprego, é a tal flexibilização dos contratos de trabalho. Vislumbraram um dia, magicamente, que as dificuldades de contratação e demissão eram onerosos para as empresas, encareciam a produção, impedia a concorrência e portanto geravam desemprego. Então vamos a solução! Extinguiram quase totalmente os direitos trabalhistas, jogaram no lixo o salário mínimo, acabaram com a jornada máxima de trabalho, faltaram apenas retornar novamente a escravatura e, no entanto as empresas beneficiadas (muitos vezes os próprios estados) com essas tais flexibilizações não geraram um único emprego. Apenas por uma simples razão: não precisavam de mais trabalhadores. Talves acreditam ainda que a prosperidade da empresa resulta na prosperidade dos trabalhadores, só que às empresas se oferecem todo o tipo de vantagem, subsídios, contratos vantajosos, incentivos fiscais entre outras coisas. Ela aceita, e, no entanto não abrem sequer um posto de trabalho e ainda por cima fecha ou ameaça fechar se tudo não ocorrer conforme sua vontade. Os órgãos internacionais, eternos protetores do mundo livre, defendem e incentivam as flexibilizações dos contratos.

Pelo que se viu até aqui, diversos são os fatores que provocam o fim do emprego, mas principalmente nos países industrializados o avanço tecnológico provocou fato inédito: Para se produzir todos os tipos de bens e serviços, já não fazem falta todos os trabalhadores. Portanto sonhar com o pleno emprego, como no período pós Segunda Guerra até os anos 80, é UTOPIA. Não estamos vivendo uma crise passageira no qual o próprio sistema – como se um dia tivesse conseguido – inventará um remédio.

A visão mais terrível disso é que, sem uma justa distribuição de renda e bens produzidos pela tecnologia, uma quantidade cada vez maior de seres humanos não será mais útil a uma pequena parcela que molda a economia e detém o poder. Segundo a lógica reinante, essa multidão toda não tem razão para viver neste mundo.

Para que a máquina, como bem de capital e consumo, cumpra o desejo de Orwell em seu clássico 1984: “Num mundo em que todos trabalhassem pouco, tivesse bastante que comer, morasse numa casa com banheiro e refrigerador, e possuíssem automóvel ou mesmo avião, desapareceria a mais flagrante e talvez mais importante forma de desigualdade”, é necessário que a riqueza gerada seja justamente distribuída. Que todas as pessoas tenham acesso a esses benefícios, e não só agentes econômicos, os donos de empresas e burocratas, enquanto que o trabalhador desempregado fica sem acesso a bem nenhum.

Será que a saída é impedir que as tecnologias possam melhorar os produtos em qualidade e quantidade em nome do emprego total? Acho que essa não é a saída. A justa distribuição da riqueza é sim, um assunto de amplo debate em toda a sociedade e os Governos tem o dever de dar respostas a seus povos.

VIVA! RENAN ABSOLVIDO!

renan-calheiros-ensaiomonica1.jpg Depois da absolvição do Renan, só sonhando mesmo….
  
”QUANDO TUDO VOLTAR AO NORMAL…

– Haverá um dia em que todos voltaremos a ser Felizes! 

– Será o dia em que:

– GENUÍNO será algo puro, verdadeiro;

– GENRO apenas o marido da filha; – SEVERINO apenas um nome usado no nordeste,– FREUD voltará a ser só o criador da Psicanálise; – LORENZETTI será só uma marca de chuveiro; 

– GREENHALGH voltará a ser um almirante;

– Dirceu, Palloci, Delúbio, Silvio Pereira, Berzoini, Gedimar, Valdebran, Valdomiro, Bargas,  Expedito Veloso, Gushiken, Marcos Valerio, etc, serão simples PRESIDIÁRIOS .

– MÔNICA for apenas a da turma. 

 – E LULA, APENAS UM ANIMAL MARINHO ! 

Agora, quando olho meu titulo de eleitor entendo o verdadeiro significado  da palavra ‘ZONA ELEITORAL’!!!