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A CARA DA OSTRA – por sergio da costa ramos / florianópolis

SÉRGIO DA COSTA RAMOS 1A Feira da Ostra começa, mais uma vez, a provar aquela verdade gastronômica, segundo a qual o feio pode, muito bem, ser o gostoso. Cá pra nós, como dizem os manezinhos e olhando bem uma ostra na sua cara , com uma franqueza que descreva só a aparência, não o sabor:

– É bicho feio…

Digamos que o molusco, mais uma vez na vitrina, com a inauguração da Fenaostra, mereça a defesa apaixonada de algum apaixonado gourmet – e que esse admirador sustente gloriosa argumentação, contra os impropérios de algum serrano adepto das carnes vermelhas, tão irresistíveis, mas nem sempre belas para o sentido da visão.

– A ostra – começaria o fã das conchas premiadas – é um coquetel de proteínas maravilhoso. Um verdadeiro e saudável “drinque do mar”…

O lageano, bom bebedor, já se animou:

– Se é bebida…

– A ostra é um organismo vivo e, pode crer, é “hermafrodita”, traz lá no seu epicentro os dois sexos ao mesmo tempo – e por isso se autofecunda.

– O quêêê!? Come a si mesmo?

– É um ser do mar, que se nutre do plâncton. É um presente de Deus, um organismo vivo. Uma “bebida” vital. Nunca comeste uma ostra na vida, homem de Deus?

– Já fui apresentado… Mas tem aquela gosma esbranquiçada e, no meio, uma crosta escura.

– Tem estômago e intestino, é verdade. E um coração, cujos batimentos se pode observar.

– Barbaridade! Prefiro uma picanha, uma maminha, até um matambre! Pelo menos o bicho tá morto e assado! Quem é que gosta de comer o intestino dos outros? Como o caracu, o miolo do boi, o rabo ou o pé de porco. Mas intestino?

– Não se preocupe. Até chegar à sua boca, bem lavada, é mais pura do que água filtrada. Uma concentração de hormônios e vitaminas. Melhor Viagra não tem! Caracu e pé de porco é pra baixo! Ostra é pra cima!

– Sei não. Só de olhar uma já me dá um negócio aqui no grugumilho. Já não me arrisco a ir com a, digamos, Letícia Sabatella, pr’um Motel…

– Pois vá sem medo. E ofereça ostras pra ela. Dará uma prova de sofisticação e bom gosto. Leve umas ostras Bienville. Ou uma Rockfeller. Levanta até defunto. Quando houve uma crise de escargots nos EUA, anos 1920, os ricos e famosos adotaram a Rockfeller em Nova York, fartando-se de ostras do Maine na Central Grand Station.

– Prefiro viajar para o Texas e comer uma costela de zebu. Um baby-beef mal passado. Ou uma picanha ao ponto, pra lá de buena!

– Pois é. É por essas e outras que o mundo está ficando obeso. É a gordura da carne animal. As ostras têm calorias, sustentam, mas não dão barriga. E fortalecem os músculos! Principalmente “aquele”!

– Estou quase tentado a provar… Como é que se come esse bicho?

– Dez mil maneiras. Cozida em ensopado, como moqueca. Ou frita, grelhada, temperada com ervas, alho e azeite de oliva. Mas a minha preferida é a “natural”. Cruinha. Em cima de um colchão de gelo, pingada no suco de limão. E regada a um vinho branco Muscadet, geladinho. Melhor do que isso, só “aquilo”!

SOU DO TEMPO por sérgio da costa ramos / florianópolis

Não espalhem, mas sou do tempo em que o pão e o leite chegavam à porta da freguesia entregues em domicílio pelo leiteiro e pelo padeiro um a pé, o outro a bordo de uma carrocinha, com bagageiro de madeira, em cujos batentes eraSÉRGIO DA COSTA RAMOS 1produzido o aviso de sua chegada.

Sou do tempo – acreditem – do primeiro filme em cinemascope projetado em Florianópolis. Confessar um arcaísmo desses equivale a ser confundido com o primeiro a ser fotografado pelo “daguerreótipo”, o primeiro a tomar Coca-Cola no Brasil, com aquelas garrafinhas imortalizadas por Andy Warhol, junto com as sopas Campbell.

Tenho, sim, a coragem histórica de confessar que assisti a O Manto Sagrado, com Richard Burton, Victor Mature e Jean Simmons. Foi no Cine São José, em 1956 – três anos depois do filme passar em Hollywood como o primeiro em tela alongada, no sistema “cinemascope”. Meu Deus! Está fazendo 53 anos!

Como atenuante, devo dizer que o filme era “proibido para menores de 10 anos” e que, apesar de envelopado numa calça curta marrom e de exibir o quengo meio raspado – moita no alto da testa, como era moda pra “rapaz pequeno” –, consegui enganar, gloriosamente, o porteiro. Rejubilei-me por isso, pois em 1956 tinha nove anos.

Sou do tempo em que Florianópolis ainda conservava os seus carrinhos de cavalo, e até escrevi que adoraria ser cocheiro de um deles. No verão, arriaria a tolda para que os fregueses desfrutassem, ora do calor do sol, ora do fulgor das estrelas. Nas noites quentes seria cúmplice dos boêmios, de suas serenatas e de suas “beberatas”. Levaria uma vida muito mais emocionante do que esta que levei, de regrado cumpridor dos meus deveres. O “carrinho” seria meu lar, os cavalos, meus irmãos, até que a morte nos separasse.

É preciso admitir, também, que sou do tempo do pastel do Bar Rosa e da empada do Chiquinho. E que devorava os “folheados” da confeitaria A Soberana, esquina de Praça XV com Felipe Schmidt.

Sou do tempo da “matinada” no São José, aos domingos, logo depois da missa das 10. Dois jornais da tela: Atualidades Atlântida e Les Actualités Françaises, o cinejornal da Art-Films. Desenhos de Mister Magoo, Tom & Jerry, comédias dos Três Patetas e O Gordo e o Magro. Um seriado do Zorro ou do Superman. Cada idade tinha seus prazeres, seu espírito, seus costumes. Duvido muito que me atraísse, hoje, passar duas horas a fio ouvindo os rocks traduzidos de Celly Campelo – Biquíni de Bolinha Amarelinho, Estúpido Cupido e Oh, Carol.

Devemos obediência ao tempo. Tempo houve em que era imperioso ir ao “Encontro dos Brotinhos”, no Lira, das sete às 11 da noite, aos domingos. E encharcar-se de cuba libre antes de “tirá-la pra dançar”. Teria sido bem mais agradável se o cavalheiro tivesse a coragem de beber menos. Assim, a favorita não teria sido tão cortejada e pisoteada ao mesmo tempo.

O tempo, aliás, é um rio veloz , formado pela caudalosa corrente dos fatos. Mal se vive o momento – e lá vai ele, corredeira abaixo, juntar-se ao manso lago das lembranças – as boas e as más.

Nadando “rio” acima, reencontrei o galã da época, outra vez jovem e atlético, um eleito pelas jovens dos anos 1950, ao som de Bernardine, do hoje pastor evangélico Pat Boone.

O rapaz está transformado num senhor barrigudinho. E careca. Encontrei-o na fila da padaria – já não se entregam pães em casa. Lutava pelo pão e pelo leite de cada dia com o mesmo zelo com que, antigamente, cultivava na testa uma caprichosa vírgula capilar, à semelhança de Bill Halley e seus “cometas”.

DE LANTERNA NA MÃO por sergio da costa ramos / florianópolis

Acendo uma lanterna, e como um Diógenes no meio de uma floresta de letras, procuro uma boa notícia nos jornais. É como procurar um varão de Plutarco no Senado.

Aliás, a primeira má notícia é exatamente a da próxima votação, já marcada no Senado: a PEC dos Vereadores, pelaSERGIO DA COSTA RAMOSqual será alterada a relação de “edis per capita”.

As manchetes dos jornais refletem a realidade escabrosa:

– Casal Kirchner persegue Clarín com fiscalização!

– Sarney esquece malfeitorias e quer liberdade na internet!

– Piquet confessa que bateu de propósito!

O foco da lanterna de Diógenes vai derramando seu círculo de luz sobre uma coleção de más notícias:

– PMs são presos por tráfico no Rio.

– Gangue mata desafetos e depois bebe o sangue.

– PCC e Comando Vermelho querem fundar “fraternidade”.

– Argentina vai importar trigo e pãozinho de 50 gramas já custa R$ 0,30.

– Brasil não está imune a terremotos.

Meu Deus, até essa. Atravessei a infância e a adolescência com os mais velhos enaltecendo essa “qualidade” brasileira. “Trata-se de um país abençoado por Deus. É o único lugar do mundo que está livre de terremotos”, repetia o velho realejo patrioteiro, no mais puro estilo do conde Afonso Celso.

Pois agora vem o geofísico Lucas Vieira, da Universidade de Brasília, e garante que não é bem assim:

– Foram descobertas 48 falhas na placa tectônica brasileira, locais que podem ser vítimas de terremotos a qualquer momento.

O mito da intangibilidade era “falta de informação e de conhecimento técnico”.

Depois dessa, qualquer má notícia não chega a ser surpreendente. E elas se sucedem, distribuídas entre monstrinhos que espancam velhinhas, esfolam bebês, assassinam pais e mães. A mãe que jogou a própria filha num rio, netinhos drogados que esfaqueiam avós, famílias inteiras que traficam drogas até na porta de um jardim de infância.

Parece que o vaso da sensatez quebrou-se em mil pedaços na consciência do Brasil.

Agora, de manhãzinha, chega mais esta:

– Santa Catarina terá mais 287 vereadores!

Está na hora de alguma providência.

Por exemplo: procurar um “telefone vermelho”, daqueles que interligava as grandes potências na época da Guerra Fria, e ligar diretamente para Ele, o Todo-Poderoso, buscando uma fórmula caridosa de desarmar tragédias.

E perguntar, sem papas na língua:

– Acaso esquecestes que és brasileiro?

VOAR, SEM GLAMOUR por sérgio da costa ramos / floranópolis

Viajar, ser outro em outros países, como poetou Fernando Pessoa, já não desperta os mesmos prazeres dos tempos dourados.

Os acordes de Fly Me to the Moon, ou Come Fly with Me, como festejava Frank Sinatra, resumindo a alegria de voar, transformaram-se em Missa de Réquiem depois do 11 de setembro de 2001. Os terminais se tornaram sucursais do SÉRGIO DA COSTA RAMOS 1hospício, com passageiros tresnoitados, overbookings e hordas de viajantes indignados, entregues à má sorte. As companhias aéreas e os aeroportos simplesmente não conseguiram crescer com a mesma velocidade do “mercado” e naufragam ao peso da incompatibilidade de custos: terminais malconservados ou inadequados, companhias aéreas falidas.

Voar, a partir de qualquer aeroporto rotulado como busy ou “muito ocupado” transformou-se num pequeno calvário. Se o aeroporto se hospeda nos Estados Unidos, onde voaram os “pilotos” de Bin Laden, então, a experiência é ainda mais desagradável. E acaba revogando todos os direitos individuais já conquistados pelos homens nos dois séculos e meio que se seguiram à Constituição de Filadélfia. Até ministro brasileiro já ficou descalço para as autoridades da alfândega, em Nova York…

Voar perdeu o glamour, depois da grande tragédia das torres gêmeas, na mesma Manhattan antes festiva, durante aqueles anos dourados de muito jazz, paz, fleuma e vida mansa.

Os aeroportos estão travestidos num grande formigueiro de moscas assustadas – os passageiros – submetidas aos “zangões” da imigração ou da segurança. Só no segundo trimestre de 2009, cerca de 900 brasileiros tiveram seu acesso negado pelas autoridades do Aeroporto Internacional Roissy-Charles de Gaulle, em Paris.

Foi de brasileiros a nacionalidade mais barrada na França, depois dos chineses – e isto, em pleno Ano da França no Brasil! Por conta desse minueto cultural, as autoridades francesas concordaram em refrear o seu controle draconiano. Mas os aeroportos estão transbordando de mau humor e de intolerância.

As estatísticas comprovam que ainda é muito seguro voar. Mas nunca tantos estiveram tão à mercê de acidentes fatais, como os passageiros da geração “digitalizada”, seus destinos cruzados com os dados de um supercomputador que voa a 10 mil metros de altitude. Quando um desastre aéreo acontece, a tragédia desaba sobre homens e mulheres emboscados no meio da noite – o breu gélido e assustador invadindo os charutos metálicos e os desintegrando ares abaixo, rumo ao cume das montanhas ou ao inóspito assoalho dos oceanos.

Nem por isso o verbo “viajar” deixará de ser conjugado pela humanidade – pois, a despeito dos terroristas ou do mau funcionamento de algum computador, o homem só foge do tédio se o passar dos dias lhe trouxer novos horizontes.

Pena que o preço seja cada vez mais alto. Se não em dinheiro, em dignidade e cidadania. Glamour, nos aeroportos de hoje, só se o passageiro brincar de ser um astro hollywoodiano e desempenhar o papel do “hóspede forçado”, como o Tom Hanks de O Terminal.

OS INIMPUTÁVEIS por sérgio da costa ramos / florianópolis

Se pudesse invocar a Deus, o Senhor não deixaria de tomar uma divina providência. O Todo-Poderoso entendeu que aquele era um caso pessoal, de intervenção imediata. Num lugar exótico do planeta Terra, homens e mulheres transgrediam a lei, a moral social e os bons costumes e não lhes cabia qualquer tipo de penitência.SERGIO DA COSTA RAMOS

O primeiro desses “anjos caídos” habituara-se a tomar o público como privado. Apropriava-se dos bens do povo com a desenvoltura de um Lúcifer. Nomeara parentes e amigos, distribuíra empregos e benesses sem a devida contraprestação em trabalho. Pior: amealhara dinheiro de falsos convênios, subtraíra recursos que poderiam socorrer um carente, manter um hospital, salvar uma vida.

Ironia: chamava-se José, como o carpinteiro do Novo Testamento, em cujo abrigo nasceu o Salvador.

O segundo desses anjos decadentes era um “administrador de obras públicas”. Ou melhor: um “sugador” de recursos orçamentários. De uma única avenida, chupou nada menos do que US$ 400 milhões. Fortuna que viajou pelo mundo e, devidamente “lavada”, voltou ao domínio desse Ali Babá. O político – brasileiro, é claro – já foi condenado em duas instâncias do Judiciário, mas ainda não conhece penitência. Naquele bizarro país, trambiqueiros costumam viver soltos e impunes.

Num país da reforma de Lutero, os que “subtraem”, pagam. Como aquele financista do mal, Bernard Madoff. Condenado a 150 anos de prisão.

Nesse outro país da contrarreforma, o “administrador em causa própria”, Maluf, acabou ungido como o deputado federal mais votado – apesar de condenado a 23 anos de prisão. Estranha condenação – que o condenado cumpre em total liberdade, fundado na onírica presunção de que “mesmo os culpados, havendo recurso, são considerados inocentes e não se obrigam à penitência”…

E havia ainda aquela menina de rosto angelical, belas feições de “anja” numa persona dissimulada. Aquela jovem havia reunido representantes de Satanás, a quem abriu as portas de sua casa, para que massacrassem seu próprio pai e sua própria mãe, enquanto eles dormiam.

Naquele país, tristemente conhecido como “O Limbo dos Inimputáveis”, as forças do mal estão prontas para libertar a ré desse crime hediondo, depois de cumprido apenas um sexto da pena que lhe destinaram, já de si branda e “compreensiva”.

Está nas mãos do Senhor visitar esse “Limbo” e justiçar José Sarney, Paulo Maluf e Suzane Von Richthofen – os Inimputáveis.

A GRIPE SARNEY por sérgio da costa ramos / florianópolis

Epidemias são como penitências que o Todo-Poderoso providencia para que o homem purgue as suas culpas e se defronte com a sua frágil natureza.

Sempre que a humanidade se entregou ao vício dissoluto da luxúria ou da corrupção, Deus enviou alguma praga para fazê-lo reconhecer as suas fraquezas e a fugacidade da própria vida – espécie de “concessão” por tempo limitado.SERGIO DA COSTA RAMOS

Houve época em que a besta do Apocalipse foi a peste bubônica, em Sodoma e Gomorra. Houve a peste negra na Roma de Nero e a febre espanhola no Brasil da Primeira República. Agora, é a vez da gripe suína. Imagino um porco invadindo a carcaça dos humanos – e disseminando a gripe porcina, com seus vírus mutantes e resistentes ao antiviral Tamiflu.

De repente, a medicina se revela impotente, desarmada e desorientada diante de um vírus que não tem asas, mas que se revela onipresente.

Desde que Alexander Fleming descobriu a penicilina, em 1928, a ciência de Hipócrates imaginava ter encontrado o caminho para todas as curas – e o próprio atalho para a imortalidade. Não há, hoje, peça do organismo humano que não possa ser recriada em laboratório. Com as células-tronco e as pesquisas com tecidos humanos, a ciência começou a reinventar o homem e a reescrever a Bíblia.

A engenharia do gene é a mais desenvolvida do mundo, e já pode realizar o que, há poucos anos, seria concebido apenas como um “milagre”. Se a humanidade desejar reproduzir seres rigorosamente iguais, em série, isto já é possível. Um “clone” é como uma muda capaz de gerar gêmeos em todos os caracteres. Mas por que a medicina não consegue “clonar” todos os tipos de vírus de uma gripe, deles extraindo uma vacina universal?

Talvez porque os vírus sejam tão mutantes quanto o caráter dos senadores. No Senado, viceja o “vírus Sarney”, e nem todo o esforço da sociedade, ameaçada por essa nova gripe, parece ser capaz de erradicá-la.

Se nem a vacina do Butantan resolve contra a resistência do vírus, o paciente chamado “Brasil” ainda amargará meses – quem sabe anos – tendo que conviver com os males dessa gripe virulenta, cujos principais sintomas são:

– Compulsão para apropriar-se do que é público; nomear toda a parentada – e ainda fundar e administrar a mais misteriosa das sociedades “dos atos secretos”.

Como uma das manifestações mais agudas dessa gripe é pendurar a conta na bolsa da “viúva”, o Tamiflu, claro, vai pra conta do SUS…

MENOS CIVITAS por sérgio da costa ramos / florianópolis

Será que a velha definição latina de cidade ainda está valendo? Civitas-civitatis. Reunião de cidadãos, nação, pátria, lugar onde se respeita o direito do cidadão. Aglomeração humana de certa importância, localizada em área geográfica circunscrita, com numerosas casas próximas entre si e destinadas à moradia, ou a atividades culturais, mercantis, industriais, financeiras e outras não relacionadas com a exploração direta do solo.

Hoje, a “cidade moderna” vai perdendo o seu significado institucional. Avança sobre todos os solos e tornou-se vítima de outras atividades sinistras, como o furto, o roubo, o assassinato.SERGIO DA COSTA RAMOS

Eça de Queiróz não gostava das cidades, como deixou claro no seu libelo contra essa “criação antinatural”, em Cidade e as Serras. Na comparação entre as selvas, a verde e a de pedra, o monóculo do escritor só tinha olhos para a primeira:

“Na natureza, nunca se descobriria um contorno feio ou repetido. Nunca duas folhas de hera se assemelharam na verdura ou no recorte. Na cidade, pelo contrário, todos repetem servilmente a mesma casa, todas as faces reproduzem a mesma indiferença ou a mesma inquietação.”

Dizem os pragmáticos que esse hábito de condenar as cidades e enaltecer a natureza é apenas “uma licença para a poesia”, uma chispa para o gênio criador do homem romântico. A cidade é a “realidade” – que a maioria das pessoas acha “um Inferno”, embora recuse o “Paraíso” do meio do mato.

As pontes de Floripa foram concebidas para um fluxo de 40 mil veículos/dia. Já recebem mais de 80 mil. Trata-se do próprio Inferno (Ro)Dante…

É o progresso, dizem. E o homem vai atrás, cada vez mais absorvido por esse mundo de gases, óleos, resinas e misturas químicas, que envenenam os poros, a alma, a mente.

Sempre que o ser humano aspirou pela paz de espírito procurou um jardim – pois se ressente de um, desde que foi expulso do Éden. Não por acaso os lugares de paz e meditação religiosas se assentam em jardins: o claustro dos mosteiros, os canteiros das casas muçulmanas, as fontes dos jardins hindus, símbolos do Paraíso.

Sempre que se deixou subjugar pela cidade, o homem perdeu o melhor dos seus dons – a capacidade de continuar humano, como lamentou Eça, contemplando as vinhas da Serra da Estrela:

“Os sentimentos mais genuinamente humanos se degeneram nas cidades. Nelas, os rostos humanos nunca se olham.”

Muitas vezes, não se olham para não testemunhar a violência. Transita pela internet uma denúncia preocupante. A de que Floripa, há muito, deixou de ser um jardim de paz. A cada grupo de 100 mil habitantes, nada menos do que 3.926 já teriam sofrido perda patrimonial por furto – números que, proporcionalmente, superariam os desumanos prontuários do Rio e de São Paulo.

Dou a Floripa o benefício da dúvida, recusando-me a aceitar para a Ilha o mesmo e cruel destino de cidades que lhe são irmãs em beleza natural, como o Rio de Janeiro.

Afinal, “Casa de Horrores” já basta o Senado, naquela cidade ao mesmo tempo medieval e futurista, chamada Brasília.

PÁTIO DE HORRORES por sérgio da costa ramos / florianópolis

Não há aperfeiçoamento que não possa piorar o horror em que se transformou o aterro da Baía Sul, a partir dos anosSERGIO DA COSTA RAMOS1970. Os prefeitos e os arquitetos do caos conseguiram ali um efeito pior do que a desgraça que se abateu dos céus sobre a cidade alemã de Dresden, reduzida a pó na Segunda Guerra Mundial.

Às margens das águas cristalinas do Rio Neva, no estuário do Báltico, os russos se orgulham de São Petersburgo e de seus monumentos, como a Catedral de Santo Isaac e o Hermitage, o mais belo museu do mundo.

À beira do Tâmisa, ergue-se a gótica e milenar Torre de Londres, onde Henrique VIII fez decapitar Ana Bolena, para esconder o seu próprio alpinismo sexual.

À beira do Sena, deita-se uma antiga estação de trem, transformada no belo Museu D’Orsay, casa e albergue dos gênios do Impressionismo.

Às margens da Baía Sul, em Floripa, ergue-se a subestação da Casan, conhecida mundialmente pela insensatez dos que plantaram aquele liquidificador bem ali, ao lado do que deveria ser um jardim de Burle Marx.

Trata-se da admirável Chernobyl do “chorume” e faz lembrar o aroma emanado dos antigos “pés de loiça” do Colégio Catarinense, porcelana sobre a qual os rapazes depositavam o seu produto em estado bruto e não processado.

Ali, à beira-baía, só nos resta rogar ao São Vento Sul que use o seu eólio látego para depurar a atmosfera do local, como, aliás, tem feito com proverbial regularidade desde o século 19.

Na falta de qualquer estrutura de saneamento, era o vento sul o principal “spray” que depurava aquele ambiente, espécie de aerosol mitigando a catinga que se desprendia dos barris de carvalho, penicos ambulantes da classe abastada, transportados por escravos.

Os moradores da Rua do Príncipe, depois Conselheiro Mafra, jogavam os seus dejetos nas praias próximas ao atual Mercado Público. Já o pessoal “melhor de vida” contava com o “esgotomóvel”: negros plásticos e ornamentais, à semelhança dos crioulos de Debret, de ombros largos o bastante para suportar o recipiente, chamado “Tigre”.

Serviço infame e infamante, que só era executado depois de um “toque de recolher”, às 20h em ponto. Hora em que os pobres escravos deixavam as casas senhoriais com o “Tigre” às costas, rumando para a Prainha ou para o ancoradouro da Arataca, próximo ao Forte de Sant’Ana.

Continuamos dependendo do “gari” chamado vento sul.

Sem ele, o parque imaginado por Roberto Burle-Marx cada vez mais se parecerá com uma cloaca urbana. Repleta de garajões, cortiços, puxados, estações de esgoto, sambódromos, camelódromos – e outras passarelas onde possa desfilar a insensatez humana.