Arquivos de Tag: textos

DO TREINADOR E DO HERÓI por jorge lescano / são paulo


Domingo é o dia em que Deus perdeu a imaginação

então o homem criou a bola.

Livro das Cinzas e do Vento; 11-10

Aconteceu no Monumental de Núñez, impressionante construção capaz de abrigar mais de 80 mil almas, embora naquele domingo vastos setores das tribunas se vissem despovoados. Disputava-se a justa entre Argentina e Peru pelas eliminatórias da Copa do Mundo de 2010, o vazio era conseqüência da péssima campanha da seleção local. Esta ganhava por um gol a zero, o que lhe permitia sonhar com a participação na fase final do certame na África do Sul. O jogo parecia estar decidido. O time peruano não queria voltar para casa derrotado, apesar de já estar fora da competição tentava recuperar a honra nacional, perdida em Rosário em 1978 (Argentina 6 Peru 0).

No estádio todos lembravam do primeiro jogo desta edição em Lima. Argentina ganhava um a zero e a partida estava no fim quando, naquela que viria a ser a última jogada, na ponta esquerda peruana alguém recebe a bola sozinho e como se fosse salvar a mãe da forca dispara que nem foguete tumultuando a defesa argentina. Ao chegar à metade da profundidade da área, ainda fora dela, fez uma pequena curva rápida com a bola colada no pé. A confusão de corpos não permite lembrar se ele ultrapassou a linha de cal, o fato é que chutou com potência e precisão provocando o delírio peruano. Para desespero dos argentinos a bola penetrou no ângulo inferior direito do gol. O juiz apitou duas vezes e apontou o centro do campo com os braços esticados. A TV mostrou rostos congestionados, bocas escancaradas, olhos arregalados, punhos em alto. O Peru estava apto à classificação e mais, mantinha-se invicto em seu território. Esta foi a última partida do Louco Bielza à frente do time argentino.

Agora Diego Armando Maradona não convence como técnico, a imprensa o ataca impiedosamente, os torcedores misturam sua vida pessoal ao trabalho em campo. Oitenta jogadores convocados e um time diferente em cada disputa, assim ninguém se conhece. Era como se um general quisesse avaliar cada um dos seus soldados individualmente para depois definir sua estratégia de combate. Imperícia! Não faltava quem maldosamente afirmasse que sendo Maradona o técnico não faltaria craque na seleção. A calúnia iguala políticos e treinadores. Como os políticos, don Diego se deixa levar pelas palavras, seus discursos ficam difíceis de contornar. Antes da desastrosa derrota contra a Bolívia (6 a 1) havia dito que a altura de 3600 metros de La Paz não seria fator decisivo na partida, tal afirmação descartou a única desculpa do vexame, segundo com esse resultado na historia do futebol argentino. A primeira foi em 1958, na Suécia, contra a Tchecoslováquia. Curiosamente os goleiros de ambas derrotas tinham o mesmo sobrenome e jogavam no mesmo time, Carrizo e River Plate, respectivamente. Nos anais do futebol boliviano esta foi sua maior vitória, para os argentinos a pior derrota; levar goleada da Tchecoslováquia há meio século, vá lá, mas da Bolívia, depois de dois títulos mundiais!… A torcida argentina pedia em altos brados o afastamento de Maradona, já os torcedores brasileiros achavam injusta a medida depois das alegrias que o ex-craque deu ao Brasil nestas eliminatórias. Os brasileiros esquecem que a torcida argentina teve oportunidade de gritar o nome do Dunga em partida memorável. A coisa pode extravasar do continente se a esquadra albiceleste sair desta enrascada.

Tais os antecedentes da atual disputa em Buenos Aires.

Aos dois minutos do segundo tempo Higuarán abre o marcador para os argentinos. Aos catorze minutos começa a chover. Aos vinte o ataque peruano perde um gol com impedimento não marcado. Aos vinte e sete a chuva aumenta. Os dois técnicos recusam as capas e gesticulam como fantasmas na névoa formada pela água nas lentes das câmeras. Aos trinta minutos a ventania balança as câmeras e seus operadores. O time argentino se encolhe. Ataca esporadicamente. Aos trinta e dois minutos o vento conspira contra o time albiceleste, joga-se em meio ao dilúvio. A torcida canta, vocifera, ruge.

Faltavam dois minutos para completar o tempo regulamentar. Argentina 1 Peru 0. Rajadas de oitenta quilômetros por hora criavam redemoinhos no centro do campo atirando a bola a esmo, independentemente da vontade dos jogadores. A torcida argentina orava pelo término da partida, os peruanos queriam operar seu milagre. Este ainda poderia acontecer pois o juiz determinara mais três minutos de tempo suplementar. Estava-se no quadragésimo quarto minuto, o peruano Rengifo cabeceia e gol. Gol-Gol-Gol! Argentina 1 Peru 1. Cruéis, os sinos da derrota dobram a finados, a seleção argentina pode se despedir da Copa, os peruanos deitam e rolam na piscina improvisada, comemoram como se fosse o título mundial.

O temporal redobra sua fúria vingativa, talvez desesperada. Nesse palco trágico, aos quarenta e sete minutos, Martín Palermo, que entrou no segundo tempo, parcialmente restaurado da hemorragia nasal que o havia proscrito por alguns minutos além das fronteiras do campo da batalha, com um chumaço de gaze ensangüentada a pingar da narina direita, sob a inclemência dos elementos que empanavam os olhos da multidão, surge do tumulto dentro da pequena área peruana e com um toque sutil corrige a trajetória da bola lançada do outro extremo da grande área, a esfera, obediente ao desígnio do herói, penetra nas traves adversárias, no mesmo lugar do gol peruano em Lima. O momento é de epifania. O herói desnuda o torso na comemoração pagã desafiando a intempérie e o regulamento, nas arquibancadas gritos, risos, lágrimas, mãos juntas em agradecimento ao criador; o druida Maradona mergulha no gramado. A chuva não diminui, antes aumenta, raios e trovões somam-se à comemoração pátria. O jogo continua, para desespero dos jogadores, da comissão técnica, da torcida argentina encharcada no estádio e daquela parcela que optara por acompanhar o provável desastre pelo rádio familiar.

Os peruanos não se rendem e colocam em perigo o reduto argentino. Os deuses autóctones e os do futebol disputam o tempo, Cronos, impassível, rege no pulso do juiz. No minuto que resta ainda cabe uma segunda bola na trave argentina e a dúvida sobre uma irregularidade em sua área. Pênalti?! Agora? Com o céu a desabar sobre suas cabeças? O árbitro apita e assinala o círculo central, um imenso suspiro acompanha seu gesto. Palermo e Maradona choram abraçados. Argentina está salva até a próxima quarta-feira, em Montevidéu.

Alguma rua da cidade será rebatizada com o nome do herói, epónimo do herói popular criado por José Hernández – Martín Fierro?  Antecipando a imortalidade já existe em Buenos Aires um bairro com o seu sobrenome, até parece que a vida copia o esporte. Martín Palermo, o homem que pode ter feito a Argentina ressurgir de suas cinzas é o mesmo que dias antes garantira sua celebridade ao marcar um gol de cabeça do meio do campo, em jogo do Boca Juniors contra o Vélez Sarsfield.

Quarta-feira 14 de outubro de 2009, aproximadamente 20h50, horário de Brasília. Aos 35 minutos do segundo tempo Argentina e Uruguai empatam sem gols no Estádio Centenário. Um jogador uruguaio é expulso por cometer falta grave contra Gutiérrez. O jovem Messi cobra lançando sobre a pequena área. Depois de um bate-rebate, aos 39 minutos, o volante Bolatti, que estréia na seleção, coloca a gorduchinha no fundo do ninho e entra para a história. A sorte está lançada: Uruguai disputará a repescagem contra Costa Rica, Argentina carimba seu passaporte para o continente negro. Don Diego dedicou a classificação a todos os argentinos, menos os jornalistas. O próximo capítulo será na África do Sul, resta saber se os protagonistas serão os mesmos.

É possível ainda duvidar das alternativas do heroísmo? Talvez o herói contemporâneo não seja apenas o conquistador de postos de chefia nas empresas multinacionais nem o consumidor classe A. Talvez herói seja aquele que os povos admitem como tal.

Quem Cortou o Meu Queijo* – por “o ruminante” / belem


Me diz uma coisa, você já teve a oportunidade de ler o livro infantil “Quem Mexeu No Meu Queijo” de Spencer Jonhson? Se leu acredito que percebeu que este clássico da auto-ajuda menospreza totalmente nossa inteligência. Caso não tenha lido, vou te passar a mensagem de forma respeitosa: Mudanças podem ser positivas, quando algum panorama estiver alterando, procure alternativas para seu dia-a-dia, não fique preso a conceitos arraigados que não te permitem ver novos horizontes, você precisa se adaptar. Pronto não precisa mais ler o livro. Tudo bem, eu sei que tem mais detalhes, mas não vale a pena perder tempo com isso.

Conforme um resumo bem básico que achei na internet, o conto ocorre com essa base:

“Os quatro personagens imaginários descritos nesta história os ratos: Sniff e Scurry, e os duendes: Hem e Haw – tem a intenção de representar as partes simples e complexas de nós mesmos, independentemente de nossa idade, sexo, raça ou nacionalidade.

Às vezes podemos agir como Sniff que percebe a mudança logo, ou Scurry que sai correndo em atividade, ou Hem que rejeita a mudança, resistindo-lhe, assim como teme que ela leve a algo pior, ou Haw que aprende a se adaptar a tempo, quando percebe que a mudança leva a alguma coisa melhor !

Quaisquer que sejam as partes de nós que escolhemos utilizar, todos nós dividimos algo em comum: a necessidade de encontrar nosso caminho no labirinto e ser bem-sucedido em períodos de mudanças.”

A mensagem do texto nos é apresentada como uma estórinha para criança, por isso fico chateado com esse tipo de literatura, pois trata as pessoas como se elas não tivessem crescido. Não é que o autor esteja errado em sua opinião (pode até ser que esteja), só não gosto da forma como é passada. Com toda sinceridade, se é para utilizar este livro, eu usaria para ensinar minha filha (nem fudendo), jamais para um adulto.

Não entendo a razão de tanta alarde sobre este livro, pois a mesma mensagem poderia ser passada de forma bem humorada e direta, com exemplos práticos de nossa vida. Se alguém precisa de contos infantis para entender uma mensagem como essa, me desculpem, mas tem algo errado com essa pessoa.

Vocês precisam de um livro para ajudar a entender como se comportar diante de uma mudança drástica e necessidade de adaptação? Leiam “Robson Crusoé” de Daniel Defoe. Um texto inteligente e muito mais interessante que dois duendes e dois ratinhos. Pode ter certeza que você tem senso crítico para ler este livro e encontrar lições para lidar com as mudanças de seu dia-a-dia.

* Só um pequeno desafio (muito pequeno mesmo): a primeira pessoa que explicar corretamente o trocadilho que fiz com o título no post em referência ao título do livro ganha um exemplar de Robson Crusoé. Eu mando direto para casa do vencedor, é garantido!

PASSEIO SOCRÁTICO por frei betto

    
Ao visitar em agosto a admirável obra social de Carlinhos Brown, no Candeal,
em Salvador, ouvi-o contar que na infância, vivida ali na pobreza, ele não
conheceu a fome. Havia sempre um pouco de farinha, feijão, frutas e hortaliças.
 
“Quem trouxe a fome foi a geladeira”, disse.
 
O eletrodoméstico impôs à família a necessidade do supérfluo: refrigerantes,
sorvetes etc. A economia de mercado, centrada no lucro e não nos direitos da população, nos submete ao consumo de símbolos. O valor simbólico da mercadoria figura acima de sua utilidade. Assim, a fome a que se refere Carlinhos Brown é inelutavelmente insaciável.
 
É próprio do humano – e nisso também nos diferenciamos dos animais – manipular
o alimento que ingere. A refeição exige preparo, criatividade, e a cozinha
é laboratório culinário, como a mesa é missa, no sentido litúrgico. A ingestão
de alimentos por um gato ou cachorro é um atavismo desprovido de arte. Entre
humanos, comer exige um mínimo de cerimônia: sentar à mesa coberta pela toalha,
usar talheres, apresentar os pratos com esmero e, sobretudo, desfrutar da
companhia de outros comensais.
 
Trata-se de um ritual que possui rubricas indeléveis. Parece-me desumano
comer de pé ou sozinho, retirando o alimento diretamente da panela.
 
Marx já havia se dado conta do peso da geladeira. Nos “Manuscritos econômicos
e filosóficos” (1844), ele constata que “o valor que cada um possui aos olhos
do outro é o valor de seus respectivos bens.
 
Portanto, em si o homem não tem valor para nós.” O capitalismo de tal modo
desumaniza que já não somos apenas consumidores, somos também consumidos.
 
 
As mercadorias que me revestem e os bens simbólicos que me cercam é que determinam meu valor social. Desprovido ou despojado deles, perco o valor, condenado ao mundo ignaro da pobreza e à cultura da exclusão.
 
Para o povo maori da Nova Zelândia cada coisa, e não apenas as pessoas, tem
alma. Em comunidades tradicionais de África também se encontra essa interação
matéria-espírito. Ora, se dizem a nós que um aborígene cultua uma árvore
ou pedra, um totem ou ave, com certeza faremos um olhar de desdém.
 
Mas quantos de nós não cultuam o próprio carro, um determinado vinho guardado
na adega, uma jóia? Assim como um objeto se  associa a seu dono nas comunidades
tribais, na sociedade de consumo o mesmo ocorre sob a sofisticada égide da
grife.
 
Não se compra um vestido, compra-se um Gaultier; não se adquire um carro,
e sim uma Ferrari; não se bebe um vinho, mas um Château Margaux. A roupa
pode ser a mais horrorosa possível, porém se traz a assinatura de um famoso
estilista a gata borralheira transforma-se em cinderela…
 
Somos consumidos pelas mercadorias na medida em que essa cultura nos faz
acreditar que delas emana uma energia que nos cobre como uma bendita unção,
a de que pertencemos ao mundo dos eleitos, dos ricos, do poder. Pois a avassaladora
indústria do consumismo imprime aos objetos uma aura, um espírito, que nos
transfigura quando neles tocamos. E se somos privados desse privilégio, o
sentimento de exclusão causa frustração, depressão, infelicidade.
 
Não importa que a pessoa seja imbecil. Revestida de objetos cobiçados, é
alçada ao altar dos incensados pela inveja alheia. Ela se torna também objeto,
confundida com seus apetrechos e tudo mais que carrega nela mas não é ela:
bens, cifrões, cargos etc. Comércio deriva de “com mercê”, com troca. Hoje
as relações de consumo são desprovidas de troca, impessoais, não mais mediatizadas
pelas pessoas.
 
Outrora, a quitanda, o boteco, a mercearia, criavam vínculos entre o vendedor
e o comprador, e também constituíam o espaço das relações de vizinhança,
como ainda ocorre na feira.Agora o supermercado suprime a presença humana.
Lá está a gôndola abarrotada de produtos sedutoramente embalados. Ali, a
frustração da falta de convívio é compensada pelo consumo supérfluo. “Nada
poderia ser maior que a  sedução” – diz Jean Baudrillard – “nem mesmo a ordem
que a destrói.”
 
E a sedução ganha seu supremo canal na compra pela internet. Sem sair da
cadeira o consumidor faz chegar à sua casa todos os produtos que deseja.
 
 
Vou com freqüência a livrarias de shoppings. Ao passar diante das lojas e
contemplar os veneráveis objetos de consumo, vendedores se acercam indagando
se necessito algo. “Não, obrigado. Estou apenas fazendo um passeio socrático”,
respondo.
 
Olham-me intrigados. Então explico: Sócrates era um filósofo grego que viveu
séculos antes de Cristo. Também gostava de passear pelas ruas comerciais
de Atenas. E, assediado por vendedores como vocês, respondia:
“Estou apenas observando quanta coisa existe de que não preciso para ser
feliz”.
no dia do consumidor 15/03/08.

“LUA CAOLHA” o livro POETRIX “explode” e já faz adeptos

a poeta marilda confortin “estourou” no mercado editorial com o lançamento de seu livro LUA CAOLHA. com o espaço da BPP completamente ocupado, marilda, autografou mais de  duas centenas  de “poetrix”, que a cada leitura engrossava a fila dos adeptos. com a presença da secretária municipal de educação eleonora fruet, artistas, poetas, músicos e seu publico, já considerado, um dos maiores da atualidade, o ato marcou o início de grandes lançamentos literários para o ano de 2008. independentemente da vontade do estado e da mídia, esta…bem, já sabemos, não faz a menor idéia do que se passa no meio cultural.  

marilda-e-outro-009.jpg

——————————-

marilda-publico-001.jpg

—————————-

marilda-publico-004.jpg

———————————

EM LUARADA

                           Nossa!

     a lua está tão cheia

que nem cabe na poça

 ———-

Vá, idade…

                        dobra os joelhos

                         doma a vaidade

aceita os conselhos do espelho

——————–

Mènage a trois

Papa, Bocage e Dalai Lama

    amontoados na cabeceira

                   da minha cama

“HENFIL – O HUMOR SUBVERSIVO” o livro – pela editoria

ao-cartunista-nico-henfil-imagem.jpg

Um livro, programado para ser lançado neste ano, vai mostrar a trajetória do humor político de Henrique de Souza Filho, o Henfil.

“Henfil – O Humor Subversivo”, nome da obra, vai ser uma espécie de homenagem ao eclético desenhista. Nesta sexta-feira, completam-se exatos 20 anos da morte dele.
 
O livro, escrito pelo sociólogo e cartunista carioca Márcio Malta, também conhecido como Nico, vai ser publicado pela editora Expressão Popular.
 
A obra vai integrar a coleção “Viva o Povo Brasileiro”, voltada a biografias de personalidades brasileiras.
 
A coleção é destinada ao público mais jovem. Por isso, o livro sobre o criador da Graúna e dos Fradins terá uma linguagem mais acessível e preço mais em conta.
 
Assim como os outros títulos da série, foi planejado para custar R$ 3. A obra deve ter em torno de 80 páginas. Todos os volumes da coleção são produzidos em formato de bolso.
Segundo Malta, a publicação vai mostrar a biografia de Henfil. Mas esse não será o mote principal da obra. O enfoque será na atuação política dele.
 
“É impossível dissociar o Henfil da obra política [dele]”, diz Malta, por telefone. “A geração de Henfil foi muito marcada pela ditadura militar.”
 
Para o pesquisador carioca, a atuação política de Henfil teve muita influência dos frades dominicanos -que inspiraram os fradins- e do irmão, Herbert José de Souza, o Betinho, morto em 1997.
 
Esse lado político, no entender dele, é deixado um pouco de lado nas antologias mais recentes de obras de Henfil.
Malta, hoje com 25 anos, diz que se interessa pela obra do desenhista há quase uma década.

A presença de Henfil influenciou, inclusive, em sua escolha profissional.
 
O interesse se converteu também num acervo de revistas, desenhos, estudos e entrevistas dele, base da pesquisa para o livro.
 
“Teve uma fase da minha vida que eu entrava em sebos e perguntava se tinha Henfil”, diz ele, que defendeu no ano passado mestrado na Universidade Federal do Rio de Janeiro sobre charges de Jeca Tatu.
 
Henfil começou a publicar os primeiros trabalhos na revista “Alterosa”, de Minas Gerais, no começo da década de 1960. Em 1967, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde fez cartuns esportivos para o “Jornal dos Sports”.
 
Dois anos depois, ainda no Rio, foi convidado a integrar a equipe do jornal alternativo “Pasquim”, que se tornou a principal janela de suas críticas ao regime militar.
 
Nessa fase, também publicou revistas em quadrinhos com seus personagens.
 
“Ele abordava temas atuais e conjunturais nos quadrinhos que fazia”, diz.
 
“Essa linguagem do Henfil, mesmo com a censura do regime militar, conseguiu dar voz a uma geração.”
 
Um caso emblemático é Ubaldo, o Paranóico. O personagem vivia com medo de ser pego pelos militares e os via em qualquer situação. Juntava humor e crítica na mesma história.
Um dos pontos que chamava a atenção era seu traço, sintético e extremamente expressivo.
 
Segundo Malta, a velocidade no desenho -chamado de “caligráfico” por Millor Fernandes- era conseqüência de dores no joelho, que o impediam de ficar sentado por muito tempo.
 
O problema seria causado por problemas de coagulação. O desenhista e os dois irmãos eram hemofílicos, doença genética que causa hemorragias. Os três contraíram Aids em transfusões de sangue.
 
Foram complicações causadas pelo vírus HIV que causaram a morte de Henfil, em 4 de janeiro de 1988, no Rio de Janeiro.
Márcio Malta pretende ampliar a homenagem ao desenhista com uma exposição chamada
“20 Anos sem Henfil”. Ele já começou a contatar um grupo de desenhistas para fazer uma
releitura da obra de Henfil.
 
A primeira idéia é inagurar a mostra em agosto, mês em que Henfil completaria 64 anos.
O pesquisador planeja lançar o livro na mesma ocasião.
 

FEZES e poiésis – a antipoesia de joão cabral de melo neto – por osmar soares

Em homenagem a Cecília Meireles, abrimos este artigo com o desenho feito pela poetisa em Canção excêntrica:

Ando a procura de espaço,
para o desenho da vida.
Em números me embaraço
e perco sempre a medida.
Se penso encontrar saída,
em vez de abrir um compasso,
projeto-me num abraço
e gero uma despedida.
(MEIRELES, C. Vaga música. Rio de Janeiro: Record, (s.d), p. 153)

A fixação ceciliana no desenho e na construção lírica do desenho poderia se assemelhar à consciência antilírica da construção poemática em João Cabral de Melo Neto. Em vez de simplesmente procurar e contemplar a poesia e desgastar-se numa atividade ideal-joao-cabral-de-melo-neto-foto-de-01.jpgabstrata de fazer poético, Cabral se lança à nova concepção de poiesis. Cabral não crê na inspiração das musas, não crê na atividade poética como expressão fluida dos sentimentos humanos – ele não advoga o discurso do eu. Sua posição, na procura do desenho da vida, e do espaço para o desenho, é uma posição de trabalho e ação. A poesia dele se inscreve na categoria de poesia-ação: “Nenhum poema meu acontece, baixa. Essa excitação, que faz certos poetas registrarem ocorrências poéticas em determinadas circunstâncias, é, para mim, completamente inexistente ou tão fraca que nem me anima a pegar no lápis. Outra coisa: escrever para mim é trabalho braçal, e se eu não tiver um estímulo exterior qualquer, não levo o meu trabalho ao fim” (19). Assim, o que Cecília parecia buscar é justificado no que Cabral chamou de trabalho braçal. O teórico Roland Barthes diz que a maior quimera da literatura como obra de arte é o alcance do real:

a segunda força da literatura é a sua força de representação. Desde os tempos antigos até as tentativas das vanguardas, a literatura se afaina na representação de alguma coisa: o real. O real que não é representável, somente demonstrável. (…) Real e linguagem sem paralelismo produzem no homem afã de representação pela linguagem: a literatura produto/processo desse delírio constante
(BARTHES, Roland. Aula. (s.l.), 1994)

A literatura, na concepção barthesiana, tem a força de jogar com a linguagem, desestabilizando as forças da trivialização e do senso comum, do código utilizado pelo senso comum. O jogo em que se engaja a literatura é o de envolver-se com o código e seus signos sem destruí-los. Nesse jogo, a literatura assume o poder de tirar o poder da língua, tirando a vida da vida. A literatura reconhece o poder que está nos mecanismos de intercâmbio social que se encontram no Estado, nas opiniões correntes, nos espetáculos, nos jogos, esportes, informações e relações familiares privadas, e, por sua força desrealizadora, logra alcançar o status de construtora de um outro sistema que diferentemente do senso comum não oprime nem prende a todos numa rede de regras a serem obedecidas. A literatura para Barthes é por essência uma trapaça salutar das regras viabilizadoras da compreensão do real em que a evolução da linguagem que desvela o mundo está em constante reflexão. Assim, o texto literário dota-se da característica principal do aflorar da linguagem contra as forças de representação que constituem o jogo de regras sociais intercambiadas que se entende por simulacro. A língua na comunidade que a executa e, consequentemente, obedece a suas regras é nada mais que um teatro em que as máscaras escondem significados, estabelecendo-se como significantes arbitrários do que não é. Assim, a literatura, como prática de desrealização do real, tem por empresa libertar e desinstituir o mecanismo do simulacro. Nessa função utópica e contraditória de alcance e desrealização do real, a literatura inscreve-se como faculdade humana de re-criação.

Assim como Barthes, Benjamin (1986) confere à literatura o status de trabalho manual, árduo, como o de um artífice que, ao moldar a argila, deixa a marca de sua compreensão da vida, sua experiência. O narrador/poeta assemelha-se àquele que visa muito mais ao trabalho exigente de experimentação e criação laboral que à mecanização da escrita e à automatização das técnicas. O que se aponta como uma das causas da decadência do texto literário é exatamente o esquecimento da etimologia da palavra texto: tecer (o que é trabalho do artesão).

Artesão, tecelão e trabalhador, João Cabral de Melo Neto não foge à procura da perfeição do desenho – sem justificar o lirismo, obviamente; lembremos a antipoesia cabralina – tentando se desvencilhar dos “embaraços” dos números, da dificuldade da coisa poética, sem gerar, por fim, a despedida enfadonha (e por enfado) apontada por Cecília:
“Se volto sobre o meu passo,
é já distância perdida.

Meu coração, coisa de aço,
começa a achar um cansaço
esta procura de espaço
para o desenho da vida.
Já por exausta e descrida
não me animo a um breve traço:
• saudosa do que não faço,
• do que faço, arrependida.”
(MEIRELES: 153)

Para ele, no entanto, O engenheiro, a poesia, comparada a uma flor, revelaria uma falsidade velada. Cabral admite que escreveu que a poesia é flor, mesmo que soubesse, estranhamente, que ela não passava de fezes:

Poesia, te escrevia:
flor! Conhecendo
que é fezes. Fezes
como qualquer,
gerando cogumelos
(raros, frágeis cogu-
melos) no úmido
calor de nossa boca.

Delicado, escrevia:
flor! (Cogumelos
serão flor? Espécie
estranha, espécie

extinta de flor, flor
não de todo flor,
mas flor, bolha,
aberta no maduro.)

Delicado, evitava
o estrume do poema,
seu caule, seu ovário,
suas intestinações.

Esperava as puras,
transparentes florações
nascidas do ar, do ar,
como as brisas.

(MELO NETO, J. C. João Cabral de Melo Neto, (s.l), (s.d), 225)

A experiência da construção ou (des) construção do poema é feita por Cabral no texto em apreço na comparação nada habitual da poesia às fezes, fezes geradoras de cogumelo. Nada desenhada, nem necessitada de espaço para o desenho da vida, a poesia para Cabral não é canção, mas é, como, para Cecília, excêntrica. Essa excentricidade é aquela que gera o estranhamento que causa o conhecimento da arte da palavra, que gera, como qualquer outra os fungos, os cogumelos, parasitas alocados em lugares úmidos, vidas em meio à putrefação do meio, sinais da putrefação. A putrefação de uma verdade sempre falseada em favor do simulacro gera cogumelos então. Talvez estivesse na busca de um desenho perfeito e espaçoso a causa do cansaço ceciliano e a condição agressiva cabralina que constata a não-poesia como única maneira de construir um objeto poético, como confirma Benedito Nunes: “João Cabral fez uma escolha oposta à que levou os seus coetâneos (os da geração de 45) a se fixarem numa poesia, que se tornou representativa da geração de 45, de refinamento formal e de aprofundamento interior”. Ele escolheu o antilirismo, a reação ao Modernismo, a negação da introspecção ingênua como forma de expressão de um mundo cindido. Seu fazer poético é, em A psicologia da composição, por exemplo, um trabalho de poética negativa que visa a trabalhar a palavra como unidade impossível de se decompor e “vencer” com a simples transformação de expressões e impressões subjetiva e sujeitas em poesia. Como diz Benedito Nunes, Cabral lançou-se na busca responsável dos “poemas que esperam ser escritos” (de Drummond) e encara essa procura de forma tão retilínea que não se pode temer dizer que o poeta é vanguardista na geração de 45. Assim, não cabe a ele Heidegher nem Hegel. Em Cabral, não se exalta menos que a mortificação cotidiana da verdade falseada. E Laocoonte e seus filhos, com sua dor falseada para sempre e celebração do grotesco para sempre, tomam novo sentido como premissa do fazer artístico:

A poesia é uma fez! Gera uma subvida, uma microvida de cogumelos raros, frágeis, mas nada delicados como flores. Cogumelos não são flores porque flores não passam de órgãos sexuais de plantas; cogumelos são eles todos: “espécie estranha”, não-flor, “estrume do poema”, “intestinações”. O poema-flor não era nada menos que aquela, símbolo de combate e indignação social. Se a literatura realmente agrega saberes, como admitia Barthes, o poema é e se afirma flor. Mas se é uma experiência que determina um falseamento da verdade e revelação da verdade, como recomendava – por ser vanguardista – Pablo Picasso é fezes geradoras de parasitismos: emoções extintas, obras-registro da emoção.

O poema é construção, da salvação contínua dos monstros que são as palavras, como em A lição de poesia:

“A noite inteira o poeta
em sua mesa, tentando
salvar da morte os monstros
germinados em seu tinteiro.

Monstros, bichos, fantasmas
de palavras, circulando,
urinando sobre o papel,
sujando-o com seu carvão.

Carvão de lápis, carvão
da idéia fixa, carvão
da emoção extinta, carvão
consumido nos sonhos.”
(MELO NETO, J. C., 240)

Como não ver a produtividade da poesia negativa e a destreza do período da construção como interligadas e como a mesma coisa na poesia cabralina? Cecília dizia que andava à procura de espaço para desenhar a própria vida, Cabral faz o desenho a carvão. Em “A lição da poesia”, poema de O engenheiro (que, segundo Benedito Nunes é livro pertencente à sua fase de “poesia negativa”), vemos o prestígio cabralino ao fazer literário segundo uma constatação de desenho, uma consciência de desenho, que aparece mais explicita no poema 1: “Já não podias desenhar/ sequer uma linha;/ um nome, sequer uma flor/ desabrochava no verão da mesa:”. A consciência de desenho é uma mistura, a nosso ver, das experiências do antilirismo bem como a canônica teoria do período da construção, que apontou Nunes como sendo presentes em “O cão sem plumas” (1966), “O Rio” (1953), “Morte e Vida Severina” (1954-1955), “Paisagens com Figuras” (1954-1955), “Uma Faca só Lâmina” (1955), entre outros. Nunes diz que a poesia negativa em Psicologia da composição são alas que se abrem para a experiência construtiva na explicação do belo em Morte e vida Severina :

• “- Belo por que tem do novo
a surpresa e a alegria
• Belo como a coisa nova
na prateleira até então vazia.
• Como qualquer coisa nova
Inaugurando o seu dia.
• Ou como caderno novo
Quando a gente o principia.
• E belo porque com o novo
todo o velho contagia
• Belo porque corrompe
com sangue novo a anemia.
• Infecciona a miséria
com vida nova e sadia.
• Com oásis, o deserto,
com ventos, a calmaria.”
(MELO NETO, J. C. 101)

Referências Bibliográficas:
BARTHES, Roland. Aula. São Paulo: Cultrix, 1994.
BENJAMIN, Walter. Obras escolhidas I. São Paulo, 1986.
MEIRELES, Cecília. “Canção Excêntrica”. In: —-. Vaga música. Rio de Janeiro, Editora Record, (s.d)
MELO NETO, João Cabral. João Cabral de Melo Neto. (s.l) (s.d)
NUNES, Benedito. Poetas modernos no Brasil: João Cabral de Melo Neto. Petrópolis: Vozes, (s.d)

João Cabral de Melo Neto
Nascimento: 9 de janeiro de 1920, Recife
Morte: 9 de outubro de 1999, Rio de Janeiro
Atividades: poeta, diplomata, membro da Academia Brasileira de Letras
Prêmios: Prêmio Camões em 1990; Prêmio Neustadt em 1992; Prêmio Rainha Sofia de Poesia Ibero-Americana em 1994.
Bibliografia:
Pedra do Sono (1942)
Os Três Mal-Amados (1943)
O Engenheiro (1945)
Psicologia da Composição com a Fábula de Anfion e Antiode (1947)
O Cão Sem Plumas (1950)
O Rio ou Relação da Viagem que Faz o Capibaribe de Sua Nascente à Cidade do Recife (1954)
Dois Parlamentos (1960)
Quaderna (1960)
A Educação pela Pedra (1966)
Museu de Tudo (1975)
A Escola das Facas (1980)
Auto do Frade (1984)
Agrestes (1985)
Crime na Calle Relator (1987)
Primeiros Poemas (1990)
Sevilha Andando (1990)

Livros de João Cabral de Melo Neto selecionados:
Morte e Vida Severina e Outros Poemas para Vozes – JOÃO CABRAL DE MELO
João Cabral de Melo Neto: Poemas Sevilhanos – JOÃO CABRAL DE MELO NETO
Sibila: Revista de Poesia e Cultura 03/2002 – JOÃO CABRAL DE MELO NETO
Museu de Tudo e Depois (1967-1987) – JOÃO CABRAL DE MELO NETO
A Educação pela Pedra e Depois – JOÃO CABRAL DE MELO NETO
Auto de Frade – JOÃO CABRAL DE MELO NETO

ALEXANDRE FRANÇA – sábado (hoje) e domingo – leituras dramáticas

 alexandre-franca-foto.jpg

LEITURAS DRAMÁTICAS: textos de alexandre frança  com márcio mattana, michelle pucci, helena portela, claudete pereira jorge, paulo ugolini e marcos damaceno.

quando: dias 14, 15 e 16 de março as 21:00 e 20:00 no domingo.

onde: CASA do DAMACENO, rua 13 de maio 991, (em frente ao colégio anjo da guarda)

quanto: vá sem medo. você terá o valor.

MARILDA CONFORTIN lança “LUA CAOLHA” livro de poetrix (poemas curtos)

Convite

Araucária Cultural editora e Biblioteca Pública do Paraná, têm a satisfação de convidar Você e seus amigos,  para o LANÇAMENTO do livro LUA CAOLHA
de Marilda Confortin.
altair-de-oliveira-luacaolha1.jpg
Trata-se de um livro de tercetos estilo “poetrix”,  realizados com a fina tecitura da linguagem bem humorada da autora.
Data: 14 de março de 2008 (Dia da Poesia)
Hora: das 18 às 20 horas
Local: Hall da Biblioteca Pública do Paraná
            Rua Cândido Lopes, 133 – Centro – Curitiba
Gratos pelo prestígio.
araucária cultural & BPP

E BRILHA O “LUA CAOLHA” por altair de oliveira

Eu, tu, ele e ela,  nós não podemos perder,  neste dia 14/03/2008 (quinta-feira) a partir das 19hs na biblioteca estadual do Paraná,  o lançamento deste delicioso “Lua Caolha” o livro de poetrix da grande poeta curitibana Marilda Confortin.
Quando conheci Marilda, no início do século, recordo-me de como ela fascinou-me de imediato com a sua capacidade de imantar poesia na fala. Arguta, exercia a semiótica com uma habilidade espantosa, tinha sido amante de livros, tinha conhecido Paulo Leminski pessoalmente, tinha por vários anos cometido poemas meio que escondida. Menos um, um tal de “O Largo Esquerdo da Ordem”, que ela declamou ali mesmo. Este, pude verificar depois, trata-se de uma das mais bela declarações de amor que já ouvi dedicada à nossa amada e odiada Curitiba. Como eu, a poeta também viera da roça e trabalhava com tecnologia de ponta e insistia mais de quarenta anos no mundo, redundando, procurando deixas onde deixar sua fala. Trocamos tracadilhos, bonito de ver!
Depois, quando a poeta enviou-me um arquivo com poemas para ler (“Contém quase toda poesia que escrevi até agora, ela disse.), apesar de eu ter gostado menos de um ou outro poema,  pude constatar tratar-se de uma bela poeta. “Curitiba bem que poderia te adotar como a poeta da hora!”, eu lhe disse. “Você escreve melhor que a Helena Kolody!”, acrescentei. Do pódio de sua humildade, a poeta rodou a baiana e disparou: “Você não deve entender mesmo de poesia, seu poeta! Os poemas meus que criticaste são os que as pessoas mais elogiam!  E coitadinhos dos meus versinhos diante dos poemas da mestra!”. Mas mesmo assim, mais calma depois, ela perguntou-me se eu achava seus poemas publicáveis. Rebati que sim e que sim e que sim! Desde então, para alegria de todos nós,  Marilda tem publicado seus livros de poemas e de prosa sempre que possível, e o mundo tem ficado mais bonito por causa deles. Típico de quem sempre precisou batalhar no mundo par sobreviver, a autora escreve pouco e em horários improváveis (em suas luas, vai ver…) mas escreve também contos, crônicas, canções e textos para teatro.
Na época que a conheci, Marilda Confortin já estava em contato com grupos de poetas através da internet onde discutiam e praticavam uma espécie de epigrama de 3 versos, (espécie de filho bastardo do haicai, como costuma dizer a poeta) e hoje internacionalmente conhecido, que denominavam “poetrix” (Veja o manifesto de número 2 do “Movimento Poetrix” no livro “Lua Caolha” e também o site http://www.movimentopoetrix.com/). Quando a poeta me explicou as regras de composição do “Poetrix” eu não me interessei muito, simplesmente para não trair a única regra poética que tento seguir, a de que a poesia não obedece regras. Mas pude degustar alguns “poetrix” que ela tinha ali. Portanto Marilda foi uma das fundadoras deste movimento poético,  participou do setor de desenvolvimento do mesmo, contribuiu para a sua normatização e esteve em alguns países da América Latina divulgando-o, juntamente com a sua poesia e com a poesia de outros autores brasileiros. Já era tempo do livro de poetrix dela reluzir no céu da pátria literária neste instante como uma “Lua Caolha”! E fez bonito.

O LIVRO

Independentemente de realmente conter poemas de 3 versos e com  até 30 sílabas reconhecido como “Poetrix”, o livro “Lua Caolha” contém uma série de pequenas pérolas (POETRIXANDO: Brinco/ de colar/ perolas.) que, advertidamente, irão deixar o leitor de poesia que o ousar, deliciado. A poeta, que também é uma das responsáveis pelo movimento de ressurreição de bibliotecas nas escolas municipais de nossa cidade,  mostra aí que é uma perita em significar espaços mínimos. Este “Lua Caolha” é brilhante,  não subestima o leitor embaçando com um palavreado difícil uma pretensa poesia, ele toca, nele tem como ver poesia! E comover, em arte, é a maior e melhor parte, amigos e inimigos meus!

POEMAS do livro:

A OUTRA

Hoje uva
Amanhã passa
eu vinha.

(GR)ÁVIDA

Pensa que tem
O rei na barriga
        …e tem!

ABSTRATO

Nunca vens nu
Vens sempre envolto em nu
vens.
 

 Marilda Confortin, In: “Lua Caolha”

LETICIA SABATELLA recebe carta de CIRO GOMES

“Letícia, ando meio quieto por estes tempos, mas, ao ver você visitando o bispo em greve de fome no interior da Bahia, pensei que você deveria considerar algumas informações e reflexões. Poderia começar lhe falando de República, democracia, personalismo, messianismo…
Mas, sendo você a pessoa especial que é, desnecessário. O projeto de integração de bacias do Rio São Francisco aos rios secos do Nordeste setentrional atingiu, depois de muitos debates e alguns aperfeiçoamentos, uma forma em que é possível afirmar que, ao beneficiar 12 milhões de pessoas da região mais pobre do país, não prejudicará rigorosamente nenhuma pessoa, qualquer que seja o ponto de vista que se queira considerar.
Séria e bem intencionada como você é, Letícia, além de grande artista, peço-lhe paciência para ler os seguintes números: o Rio São Francisco tem uma vazão média de 3.850 metros cúbicos por SEGUNDO (!) e sua vazão mínima é de 1.850 metros cúbicos por SEGUNDO (!). Isto mesmo, a cada segundo de relógio, o Rio despeja no mar este imenso volume de água.
O projeto de integração de bacia, equivocadamente chamado de transposição, pretende retirar do Rio no máximo 63 metros cúbicos por segundo.
Na verdade, só se retirará este volume se o rio estiver botando uma cheia, o que acontece numa média de cada cinco anos. Este pequeno volume é suficiente para garantia do abastecimento humano de 12 milhões de pessoas.
O rio tem sido agredido há 500 anos.
Só agora começou o programa de sua revitalização, e é o único rio brasileiro com um programa como este graças ao pacto político necessário para viabilizar o projeto de integração. No semi arido do Nordeste setentrional, onde fui criado, a disponibilidade segura de água hoje é de apenas cerca de 550 metros cúbicos por pessoa, por ANO (!). E a sustentabilidade da vida humana pelos padrões da ONU é de que cada ser humano precisa de, no mínimo, 1.500 metros cúbicos de água por ano. Nosso povo lá, portanto, dispõe de apenas um terço da quantidade de água mínima necessária para sobreviver.

Não por acaso, creia, Letícia, é nesta região o endereço de origem de milhões de familias partidas pela migração.

Converse com os garçons, serventes de pedreiros ou com a maioria dos favelados do Rio e de São Paulo. Eles lhe darão testemunhos muito mais comoventes que o meu.

Tudo que estou lhe dizendo foi apurado em 4 anos de debates populares e discussões técnicas. Só na CNBB fui duas vezes debater o projeto. Apesar de convidado especialmente, o bispo Cappio não foi. Noutro debate por ele solicitado, depois da primeira greve de fome, no palácio do Planalto, ele também não foi. E, numa audiência com o presidente Lula, ele foi, mas disse ao presidente, depois de eu ter apresentado o projeto por mais de uma hora (ele calado o tempo inteiro), que não estava interessado em discutir o projeto, mas “um plano completo para o semiárido”.

As coisas em relação a este assunto estão assim: muitos milhões de pessoas no semiarido (vá lá ver agora o auge da estiagem) desejam ardorosamente este projeto,esperam por ele há séculos. Alguns poucos milhões concentrados nos estados ribeirinhos ao Rio não o querem. A maioria de muitos milhões de brasileiros fora da região está entre a perplexidade e a desinformação pura e simples. Como se deve proceder numa democracia republicana num caso como este? O conflito de interesses é inerente a uma sociedade tão brutalmente desigual quanto a nossa. Só o amor aos ritos democráticos, a compaixão genuína para entender e respeitar as demandas de todos e procurar equacioná-las com inteligência, respeito, tolerância, diálogo e respeito às instituições coletivas nos salvarão da selvageria que já é grande demais entre nós.

Por mais nobres que sejam seus motivos — e são, no mínimo, equivocados —, o bispo Cappio não tem direito de fazer a Nação de refém de sua ameaça de suicídio. Qualquer vida é preciosa demais para ser usada como termo autoritário, personalista e messiânico de constrangimento à República e a suas legítimas instituições.

Proponho a você, se posso, Letícia: vá ao bispo Cappio, rogue a ele que suspenda seu ato unilateral e que venha, ou mande aquele que lhe aconselha no assunto, fazer um debate num local público do Rio ou de São Paulo.

Imagine se um bispo a favor do projeto resolver entrar em greve de fome exigindo a pronta realização do projeto.

Quem nós escolheríamos para morrer? Isto evidencia a necessidade urgente deste debate fraterno e respeitoso.

Manda um abraço para os extraordinários e queridos Osmar Prado e Wagner Moura e, por favor, partilhe com eles esta cartinha. Patrícia tem meus telefones.”
Um beijo fraterno do Ciro Gomes”

fonte: o globo.

IRRIGAÇÃO – DESEMPREGO ZERO – por manoel bonfim ribeiro

Não é a terra que gera o fruto, mas a água.
                                                                                      Provérbio turcomano
                  

Uma das grandes soluções para o desemprego que assola o nosso Brasil, sobretudo na região nordeste, é, indubitavelmente, a agricultura irrigada. Difere da construção civil, da indústria naval e outras atividades temporárias e periódicas que só oferecem empregos adventícios e com datas predeterminadas.
 O lote de terra irrigado gera trabalho permanente, atividades para a vida toda, de pai para filho, tendo, portanto, um profundo cunho social.
                 As atividades agrícolas em terras irrigadas caracterizam-se pela sua sustentabilidade produtiva, pela segurança presente e futura do homem que amanha a terra. Segurança de vida para si e sua família.
                Como exemplo, o Perímetro Bebedouro, em Petrolina-Pe, implantou 2.500 hectares em 1968 e 40 anos depois continua firme, arrancando riquezas do ventre da terra, empregando milhares de pessoas. Lá, como nos demais projetos do vale do São Francisco, não há pobreza, não há misérias, não há greves nem salários baixos.
    O potencial irrigável do Brasil é estimado em 29 milhões de hectares, mas só possuímos 2,9 milhões irrigados,  10% desta grande área. O Japão, um pouco maior que o Maranhão – 377.000 km² – formado de ilhas vulcânicas, dispõe apenas 14% de terras agricultáveis e possui 3,1 milhões de hectares irrigados, área maior que os 2,9 do nosso País.
              O vale do rio São Francisco dispõe de 3 milhões de hectares de solos agricultáveis de excelente qualidade já possuindo 330 mil irrigados, 11% da sua potencialidade. Devido à turbinagem das suas águas no sistema energético de Paulo Afonso só podemos irrigar mais 700 mil hectares de terras em toda sua bacia. O vale do rio Parnaíba com sua grande rede de tributários tem potencialidade disponível para irrigar mais 300 mil hectares.
             Nestes dois sistemas hidrográficos que banham boa parte do Semi-Árido brasileiro, podemos implantar, sobejamente, um milhão de hectares irrigados, áreas que se espalham por sete estados da Federação – Minas Gerais, Bahia, Pernambuco, Alagoas, Sergipe, Piauí e Maranhão.
           Os grandes impactos econômicos gerados pela irrigação materializam-se no fantástico desenvolvimento do dipólo Juazeiro–Petrolina. São 120.000 hectares irrigados produzindo 1,7 milhões de toneladas, anualmente, de frutas e outros produtos agrícolas, 95% das exportações nacionais de uva e manga, faturamento bruto acima de 450 milhões de dólares. O vale do São Francisco já é, hoje, o 2º pólo vitivinícola do País produzindo 8 milhões de litros de vinhos e faturamento anual de US$ 280 milhões de dólares. A FENAGRI que ocorre anualmente nos dois municípios é, atualmente, a maior feira de fruticultura irrigada da América do Sul. É o milagre da água na região mais árida do Brasil.
            A irrigação, entretanto, exige água de boa qualidade, bons latossolos. e tecnologia de ponta. Irrigar sem as exigências necessárias, o fracasso, com certeza, bate á porta.
            .Para cada projeto implantado há uma grande convergência de novas tecnologias e um mundo de atividades: intensa movimentação comercial, máquinas, equipamentos, fertilizantes, veículo de carga, hotéis, restaurantes, padarias, postos fiscais, escolas, unidades de saúde, ensino básico, centros profissionalizantes, hospitais, bancos, cooperativas, rodovias, eletrificação rural, vilas, parques agroindustriais, cidades e enfim, cria-se um denso nucleamento de populações na circunvizinhança do projeto. Esse grande efeito multiplicador gera mais de dez empregos por hectare entre diretos e indiretos, promovendo uma expansão de progresso sustentável sem precedentes na vida de uma região.
            A Codevasf possui, nas suas prateleiras, projetos que somam mais de 200.000 hectares estudados, detalhados, prontos para serem implantados. Isto representa dois milhões de empregos permanentes absorvendo uma parcela do contingente de desempregados do nosso País. Afora os 200.000 guardados nas prateleiras do Órgão, temos, só nas barrancas do rio São Francisco, os seguintes projetos iniciados e paralisados e que estão sendo corroídos pelo abandono e pela  tempo:
Projeto Jaíba, no estado de Minas Gerais,  iniciado em 1973 para irrigar 100 mil hectares. Passados 35 anos irrigou pouco mais de 10% e a outorga de 80m³/s de água do rio está caudalosamente aguardando o momento de uso.
O Projeto Baixio de Irecê, estado da Bahia, foi iniciado no ano 2000 para irrigar 59 mil hectares. Passados 8 anos  ainda não irrigou 1,0 m². Canais e equipamentos hidroelétricos estão esquecidos e a outorga de 50 m³/s de água na espera, à disposição.
O Projeto Salitre em Juazeiro da Bahia para irrigar 29 mil hectares, iniciado há cerca de 15 anos, eivado de greves e protesto de uma população revoltada, também não irrigou ainda 1,0 m² de terra. Os 25 m³/s de água outorgados pelo Governo continuam disponíveis até  para emprestar à  tal Transposição.
 O Projeto Pontal em Petrolina, PE para irrigar 7.500 hectares iniciado há 10 anos tem a mesma situação.
               São 200 mil hectares  de irrigação  que estão deixando de gerar uma grande economia no Vale do Velho Chico, afora os outros 200.mil das prateleiras que totalizam 400 mil hectares, entretanto um fabuloso caudal de verbas já foi consumido sem nada produzir.
            Como dissemos, estes dois vales – São Francisco e Parnaíba possuem solo e água compatibilizados para irrigar um milhão de hectares, geratriz básica para os dez milhões de desempregados que o Presidente Lula  desejava  resolver.
            Um milhão de hectares irrigados custa, para sua implantação, nunca menos de cinco bilhões de dólares quando bem administrados. É um programa ousado, programa para estadista, que o Brasil há muito não vê, o último ocorreu há 48 anos atrás, a epopéia da construção de Brasília, no Governo JK. É  meta para dois quatriênios. É outra epopéia, obra que consagra um governo neste Brasil de desempregados. É o desemprego zero.

OS CHATOS por lula vieira

 Não  me lembro direito, mas li numa revista, acho que na Carta Capital,
 um artigo levantando a hipótese de que todo o cara que tem mania de fazer 
 aspas com os dedinhos quando faz uma ironia é um chato.                   
                                                                           
 Num outro artigo alguém escreveu que achava que jamais tinha conhecido um 
 restaurante de boa comida com garçons vestidos de coletinho vermelho.     
                                                                           
 Joaquim Ferreira dos Santos, em “O Globo” de domingo, fala do seu profundo
 preconceito com quem usa “agregar valor”.                                 
                                                                           
 Eu posso jurar que toda mulher que anda permanentemente com uma garrafinha
 de água e fica mamando de segundo em segundo é uma chata. São             
 preconceitos, eu sei. Mas cada vez mais a vida está confirmando estas     
 conclusões.                                                               
                                                                           
 Um outro amigo meu jura que um dos maiores indícios de babaquice é usar o 
 paletó nos ombros, sem os braços nas mangas. Por incrível que pareça, não 
 consegui desmentir. Pode ser coincidência, mas até agora todo cara que eu 
 me lembro de ter visto usando o paletó colocado sobre os ombros é muito   
 babaca.                                                                   
                                                                           
 Já que estamos nessa onda, me responda uma coisa: você conhece algum      
 natureba radical que tenha conversa agradável? O sujeito ou sujeita que   
 adora uma granola, só come coisas orgânicas, faz cara de nojo à simples   
 menção da palavra “carne”, fica falando o tempo todo em vida saudável é   
 seu ideal como companhia numa madrugada? Sei lá, não sei. Não consigo me  
 lembrar de ninguém assim que tenha me despertado muita paixão.            
                                                                           
 Eu ando detestando certos vícios de linguagem, do tipo “chegar junto”,    
 “superar limites”, essas bobagens que lembram papo de concorrente a big   
 brother. Mais uma vez, repito: acho puro preconceito, idiossincrasia, mas 
 essa rotulagem imediata é uma mania que a gente vai adquirindo pela vida e
 que pode explicar algumas antipatias gratuitas.                           
                                                                           
 Tem gente que a gente não gosta logo de saída, sem saber direito por quê. 
 Vai ver que transmite algum sintoma de chatice. Tom de voz de operador de 
 telemarketing lendo o script na tela do computador e repetindo a cada     
 cinco palavras a expressão “senhoooorrr”,  me irrita profundamente.       
                                                                           
 Se algum dia eu matar alguém, existe imensa possibilidade de ser um       
 flanelinha. Não posso ver um deles que o sangue sobe à cabeça. Deus que me
 perdoe, me livre e me guarde, mas tenho raiva menor do assaltante do que  
 do cara que fica na frente do meu carro fazendo gestos desesperados       
 tentando me ajudar em alguma manobra, como se tivesse comprado a rua e    
 tivesse todo o direito de me cobrar pela vaga.                            
                                                                           
 Sei que estou ficando ranzinza, mas o que se há de fazer?                 
 Não suporto especialista em motivação de pessoal que obrigue as pessoas a 
 pagarem o mico de ficar segurando na mão do vizinho, com os olhos fechados
 e tentando receber “energia positiva”.                                    
                                                                           
 Aliás, tenho convicção de que empresa que paga bons salários e tem uma boa
 e honesta política de pessoal não precisa contratar palestras de motivação
 para seus empregados. Eles se motivam com a grana no fim do mês e com a   
 satisfação de trabalhar numa boa empresa.                                 
                                                                           
 Que me perdoem todos os palestrantes que estão ficando ricos percorrendo o
 país, mas eu acho que esse negócio de trocar fluidos me lembra putaria.   
                                                                           
 E para terminar: existe qualquer esperança de encontrar vida inteligente  
 numa criatura que se despede mandando “um beijo no coração”?  ”           
                                                                        

DESTESSITURA por zuleika dos reis

Parecem galos tecendo a manhã. De galos que tecem manhãs só conheço os exemplares do poema de João Cabral. Se, para nascer, minha manhã dependesse de galos, tudo aqui seria uma perpétua Noruega no inverno, porque o único habitante de crista, morador no último quintal dos arredores, só mantém um fiapo de fôlego. Ao contrário dos velhos, dia-a-dia desprende, mais e mais, as cantigas da infância.
  Não, não se parecem com o cantor decadente, tampouco com os tecelões de Cabral. Assim, nada sobra da primeira afirmação. Nada, sequer a palavra tecendo teiatecidotela… Tela evoca retrato e eles, no momento incomparáveis, de modo algum se deixam aprisionar mais que no ensaio de um esboço.
   Talvez não surja tal pedra no caminho, com este recomeço: Parecem andorinhas fazendo verão. Mas, é preciso negar, imediatamente, que se pareçam com andorinhas fazendo verão, negação a trazer de volta o branco inicial onde se havia tecido a imperfeita seqüência de tês, que apenas conduzira o texto a intrigas mínimas e não a um tête-à-tête com os que não se parecem com galos. Forçosa se torna a fuga efetiva do tititi sem sentido que continua a lembrar mais o trabalho de um pica-pau que o de um tecelão.
  Eles não urdem manhãs, não parecem andorinhas nem galos. Às vezes proferem monólogos e aí se assemelham ao exemplar quase afônico ou àqueles que se acham plenos de veredas perdidas. Não alcanço que nome lhes dar, sei apenas suas vozes se erguendo, coro de pouca afinação, que acorda o insone do sono de segundos, com habilidade não comparável à dos galos cabralinos nem à das andorinhas fazendo verão. Não, não se assemelham, deveras, a um coro de querubins.

OS NOVOS PECADOS CAPITAIS da IGREJA CATÓLICA por joão batista do lago

ou
Do encanto ao desencanto das religiões

Uma das muitas lembranças que carrego comigo, que é ao mesmo tempo “alma” e “espírito” do meu biotipo cognitivista, muito embora, hoje, tenha consciência plena de não fazer parte de quaisquer religiões ou tê-las como foco de primazia para o meu desenvolvimento intelectual – seja na esfera privada ou pública, ou profissional -, é a minha proximidade com a religião católica. Durante toda a minha infância e parte da minha adolescência fui “espiritualmente” ligado a este campo do sagrado. Tão ligado que um dia imaginara ser sacerdote ou, no mínimo, um Imão Marista. Contudo a Natureza (sobretudo a minha natureza pessoal) me encaminhara para outros mundos.

E antes que me acusem de Ateu ou de ateísmo devo sustentar que, hoje, sou Agóstico ou agnosticista, isto é, imagino-me no campo de uma (1) doutrina que considera impossível conhecer ou compreender, e portanto discutir, a realidade das questões da metafísica ou da fé religiosa (embora admita existirem, como a existência de Deus, por exemplo), por não serem passíveis de análise e de comprovação racional ou científica; ou dentro do campo do (2) conceito (de Thomas H. Huxley) de que só o conhecimento adquirido e demonstrado racionalmente é admissível.

Assim sendo, portanto, posso inferir que o agnosticismo, como atitude intelectual, tem duas vertentes: (a) no terreno filosófico consiste em negar qualquer possibilidade de conhecimento fora do terreno da ciência e do pensamento racional; (b) no terreno religioso consiste não em negar a fé ou as afirmações nela baseadas, mas em negar que essa fé e essas afirmações tenham ou possam ter suporte racional. Em ambos os casos o pensamento agnóstico se baseia na razão, na racionalidade e no conhecimento científico. No segundo caso, especificamente, ao não negar a Metafísica, a Fé e os fenômenos supranaturais está-se, racionalmente, deixando aberta a possíbilidade de aceitá-los, se e quando explicáveis pela razão.

Bem, feitas as ressalvas, partamos para o que se nos interessa, de fato e de direito, neste artigo: no último final de semana, no L’Osservatore Romano, órgão oficial do Vaticano, foi divulgado pelo arcebispo Gianfranco Girotti, o número 2 da alta cúpula da Igreja Católica, que a partir de agora os católicos de todo o mundo passam a viver e a conviver com mais três tipologias de pecados capitais – a poluição, a manipulação genética e as desigualdades sociais -, pois, “se ontem o pecado tinha dimensão mais individualista, hoje possui uma ressonância principalmente social em razão do amplo fenômeno da globalização”.

Monsenhor Girotti, nesta sua entrevista dominical, deduz, produz e reproduz uma crítica vaticanicista contundente ao fenômeno da globalização, sobretudo quando assinala que “há diferentes setores nos quais revelamos comportamentos culpáveis em relação aos direitos individuais e sociais”; ou quando diz que “os pobres tornam-se sempre mais pobres, e os ricos sempre mais ricos”.

Evidentemente não se pode deixar de aplaudir tais palavras vindas do Vaticano. Elas soam e ressoam no mundo terrestre, que se nos é real, além do que elas refletem preocupação que não é só do catolicismo, mas de todos segmentos que, em sã consciência, não admitem a ideologia do “deus-mercado”, assim como os seus ideólogos conservadores, autoritários e ditatoriais.

Pode-se dizer (até!) que a Globalização é uma tipologia de céu dos capitalistas, ou que é (ou seria) a afirmação e reafirmação dum processo de dominação em marcha que se pretende construir como se fora uma verdade absoluta, ou seja, no mais íntimo pensamento capitalista e de seus formuladores, assim como de seus ideólogos, sempre houve, há e haverá o desejo, a necessidade mesma, de construir um mundo futuro no qual os pobres e os desiguais possam um dia alcançar. Isto sugere uma similaridade com um enunciado famosíssimo do cristianismo e do catolismo a respeito desse possível mundo futuro utópico: “não se preocupe, você é pobre aqui (na terra), mas na outra vida (no céu) você será uma pessoa rica”. Em ambos os casos o que se percebe é a afirmação de um Ideal metafísico. Em ambos os casos o que se vê a constituição de um idealismo pós-moderno ou modernamente tardio sobre condições efetivas de uma realidade mais que real, de uma verdade que não precisa ser conceituada no campo da sagrado como um “novo pecado capital”. De pecado capital nada tem. Tem-o, em verdade mesmo, de “pecado” capitalista.

Ao mesmo tempo é sempre muito bom ter vivo na memória que a Igreja Católica é a precursora da globalização. Mas não só isso! É preciso entender, com clareza imparcial, que o Estado do Vaticano (cidade-estado para alguns historiadores) foi um dos mais violentos na implantação, implementação e institucionalização do seu projeto ideológico: o catolicismo – uma ideologia fundamentada em bases metafísicas (céu, paraíso, etc.) e com um forte apelo do medo, isto é, do pecado que era, então, o “Sujeito” da dor, do infortúnio, da infeliciade, enfim, do inferno… Diga-se mais: foi com esse projeto de globalização que a Igreja Católica tornara-se uma das instituições mais ricas e poderosas do mundo (ainda hoje!), tanto financeiramente quanto economicamente.

Contudo, o que mais contribuíra para o “desenvolvimento e progresso” da Igreja Católica fora a adoção do “Pecado”. Este fora, ao longo dos tempos, a principal moeda de negociação entre o catolicismo e os fiéis. E ainda hoje o é, como o faz crer o Monsenhor Girotti, introduzindo, no campo pecaminoso, portanto no campo do sagrado, ou seja, no campo da metafísica, temas da realidade terrestre – mais que real! – como a poluição, a manipulação genética e as desigualdades sociais. E neste ponto cabe observar o vaticinare do arcebispo com relação ao campo científico, ou seja, com relação ao desenvolvimento da engenharia genética, no qual traduz e retraduz o pensamento do Vaticano, reduzindo esse conhecimento científico à simples condição de “manipulação genética”.

Pergunte-se: por quê a Igreja Católica tem tanta resistência, tem tanto medo em admitir a verdade científica? (Ouso fazer aqui algumas inferências como respostas a esta questão).

Pode-se dizer que tanto a resistência quanto o medo da Igreja Católica na admissão da verdade científica se fundamentam em (i) conservadorismo, (ii) poder político-religioso, (iii) eliminação do sagrado. No mínimo essas três hipóteses são o “inferno” para o catolicismo; assim como o é para o capitalismo o (I) conservadorismo, (II) o poder político-capitalista, (III) a eliminação do “deus-mercado”.

Enfim, transformar essas realidades terrestres e humanas (por demais humanas!) em pecados é não querer resolver nada. É, em verdade, querer continuar mantendo a tocha do “espírito” da opressão sobre as cabeças dos fiéis; é continuar o processo secular de dominação de um catolicismo tosco e atemporal; é continuar mantendo a espada do pecado apontada para os corações dos fiéis indefesos, “sempre mais pobres”, sempre “mais desiguais”, que podem ser condenados para todo o sempre a serem torrados ao fogo do inferno, que jamais poderão estar próximo (seja do lado direito, seja do lado esquerdo) de um Deus que já os esquecera ou que jamais existira, a não ser como fonte de de dominação e de opressão do catolicismo cristão.

É disso tudo que nasce o desencanto às religiões. É por isso que as religiões estão perdendo fiéis. É em consequência dessas absurdidades que a Igreja Católica é a igreja que mais perdeu adeptos nos últimos 25 anos do século XX, e continua perdendo nestes primeiros anos do século XXI.

DE MORTOS e MONUMENTOS por osmar soares

A relação entre morte e memória tem uma de suas representações mais interessantes na Grécia. Há os que digam que morrer é deixar-se esquecer e que a entrega do corpo ao sepulcro é irremediavelmente adentrar a última instância (e estância) humana. Há os que afirmam ser o homem sempre desejoso pela eternidade, mas nunca facilmente a alcançando. Há os que afirmam muito sobre o corpo, sobre a memória, a morte, a verdade e o esquecimento – os gregos.

Primeiramente, Gaia se une a Urano – Éter e Terra dão à luz a titãs e titanesas, dentre os filhos, Mnemosine, a guardiã de toda a lembrança, produtora da eternidade e mantenedora dos feitos dos homens. Mais tarde, após a vitória de Zeus na batalha pelo Olimpo, o pai dos deuses se une à Memória e dá à luz mais verdades, as musas, feitoras das artes, formas de memória de construção poética. Em Memória está fundamentalmente guardada a verdade dos fatos; contra Memória é impossível manter-se o falto e o falso; em Memória não se deixa levar o passado – o passado permanece. Mas por quê?

A contribuição dos gregos para a noção de verdade nasce do entendimento do status da deusa e da construção da própria palavra verdade. Letes é o rio da morte, viscoso, lento, por onde leva Caronte todos os mortais – Letes, o rio do esquecimento. Ao navegarem rumo aos Infernos, os mortos deixavam passar, como as águas, todas as suas lembranças, rumando à contestação e ao obscurantismo – Letes, o deus da ocultação: nele está todo o esquecimento, nele reside o apagar das formas e o negativo das coisas; ele é uma força absolutamente de baixo, tudo que mantém em si se apaga. Nasceu para o apagamento da lembrança, nasceu desde o seu parentesco com Nix, a Noite, com Thánatos, a Morte, com Hypnos, o Sono. Esquecer é ocultar, na noite, na morte, no sono. A verdade grega está na contestação radical ao status desses deuses todos, conhecedores da não permanência. Verdade é, pois, aletheia, uma palavra composta por a- prefixo de negação “não” e lethes, a ocultação: assim, verdade é não ocultação, não-esquecimento, memória. O que se lembra do visto, do ouvido, do sentido e do passado é tudo verdade. Os gregos separaram a morte da verdade, a história da falsidade, a lembrança do esquecimento, o mito do esquecimento do mito e instituíram o monumento como uma unidade a ser pensada como verdade, em todas as suas formas de aparecer como monumento: a arte, a palavra, a estátua, a Ilíada, a Odisséia, os despojos de uma guerra qualquer, os filhos de um Imperador – tudo pode ser monumento, menos a morte.

Mas e os mortos monumentais? Onde ficam? E mesmo as fotografias – nova formas de monumento – que militam pelos mortos? Onde estão os mortos em grego? Ao chegarem ao Hades, era a primeira atitude das almas beber de Letes, para esquecer de tudo que lhes houve na terra como havido e pensado, e, como segunda atitude, beber da fonte de Mnemosine, para que toda a sua lembrança (e sua verdade) seja a nova vivência no mundo paralelo dos mortos. Está hoje João Paulo II, no mundo dos mortos, sendo levado por horas por Caronte para o Hades, lá o papa pop e monumental encontrará Cérbero – cão de três cabeças – e horríveis sensações de esquecimento e destinações à lembrança – esquecer: toda a vida; lembrar: só o mundo dos mortos. Fora do mundo dos vivos e católicos, a realidade grega e mítica é assim.

Há tantos mortos monumentais… Eles estão todos suspensos por Letes, mas num esforço contrário e contraditório, suspensos por Mnemosine e pela intenção histórica de manter as verdades à mostra. E como revelava Maria Teresa Horta, a missão de alguns vivos é fazer com que o “homem interrogado” seja pontualmente questionado, massacrado pela opinião, desestabilizado. Os movimentos a que se dedicaram os homens durante toda a sua história foram os de construção e desconstrução, ida e vinda de stati e mentalidades, levante e derrubada de verdades. Mas qual o papel do monumento nisso tudo? Em que ponto Thanatos toca o homem e o leva, entregando-o a Letes? Em que ponto, mais superior e sublime, age Mnemosine para suspender…

O termo monumento, vindo do radical indo-europeu men* > mné (unidade a ser pensada), tem estrita relação com memória, mnese, ato de dar, guardar, eternizar uma unidade. O monumental nada mais é, então, que o único, mantido mnemonicamente e politicamente – pois que para Foucault toda memória é política e para Halbwachs não há memória individual sem contribuição coletiva e, quiçá, do Estado. O Papa é pop – e é um monumento, ao redor deles milhares, ao redor do monumento muita manifestação para que todos lembrem juntos – co-memorem. Ao lado dos monumentos, muita festa; às vezes, muita falta de esclarecimento e verdade. Verdade? Como a verdade, se tudo o que se produz para celebração da aletheia – não esquecimento, não ocultação – é descoberto anos mais tarde como muita ocultação. Como a verdade, se todo monumento, para ali, no tempo, evocado pelos vivos, mas esquecido como morto, está definitivamente no que restou, na reminiscência, no passado.

Para Bergson, filósofo francês revolucionário das noções de percepção, o corpo é um movente que se situa no liame entre o passado, o presente o futuro – o corpo conhece, por se mover, as três instâncias temporais; o corpo que se move está vivo e por isso mesmo é contrário ao monumento. O monumento está morto (é de Thánatos) e sua navegação é pelo esquecimento (é de Letes), mas está, contraditoriamente – eu diria forçosamente – embutido no ventre de Mnemosine, a geradora de poemas, construtos melhores que a vida no Hades. Em Memória reside a construção da permanência; e vivência é permanência.

É investigando e vasculhando o oculto da(s) memória(s) que se encontrarão as verdades. Com a memória verdadeira, não subsistem as contribuições a-históricas e contra-gregárias que se fizeram durante toda os tempos (eternos para Zeus e Memória), debaixo dos panos, debaixo das mesas, debaixo dos olhos dos deuses – e de Deus – já distanciados pelos homens que sustentam a ocultação. E por que não os monumentos de quem não quis ser lembrado, e de quem nem pensou nisso?

O monumento é António Conselheiro.

O monumento é a cabeça de Zumbi (tão na cabeça do Brasil e dos Brasis).

O monumento não pode ser o corpo parado de Mal. Deodoro da Fonseca.

O monumento não pode ser os movimentos patéticos de Hitler.

O monumento não pode ser eu, nem você, senão estivermos dispostos a não vivermos a ocultação.

SORRINDO para COMPRAR e CHORANDO para PAGAR – por antonio brás constante

Como é bom comprar e ao mesmo tempo como é ruim gastar. O problema é que não se consegue comprar sem gastar. As duas coisas andam juntas, nos causando sensações contraditórias ligadas a nossa satisfação por passarmos a possuir algo que queríamos, e pela frustração de nos endividarmos nesse processo.
Há uma falsa idéia de que as mulheres gastam mais do que os homens, mas isto não é verdade. Claro que uma mulher em um shopping parece uma ilha cercada de sacolas por todos os lados. Elas passam horas e horas experimentando roupas, acessórios e sapatos de forma incansável. Quase fanática. Mas se pensarmos que, para cada peça de roupa que olham, elas também têm de cuidar de vários outros detalhes tais como:

Primeiro: se as roupas que escolheu não são iguais as de suas amigas.

Segundo: se o preço é possível de explicar ao marido e se cabe no cartão de crédito.

Terceiro: se aquela peça de roupa é similar ao modelo que ela viu em uma certa revista famosa de moda e que custava dez vezes aquele valor.

Quarto: se vai ficar bem com todos os seus doze vestidos, dez colares e quinze diferentes pares de sapato. Etc.

Tudo isto com apenas um olho, porque com o outro elas ficam cuidando se o safado do seu marido (namorado, ou assemelhado), não está se engraçando com alguma atendente, ou com uma das clientes, ou vendo algum pôster com propaganda de lingerie. Porque mulher sabe que homem é tudo igual.

Agora, se formos analisar os gastos masculinos, podemos começar calculando as cervejas bebidas com os amigos, as vaquinhas pagas pelas canchas de futebol, os lanches saboreados (geralmente o homem come bem mais do que a mulher durante o dia, pois são menos adeptos as dietas, é só olhar a quantidade de homens nos bares comendo pastéis nos finais de tarde), e finalmente, os gastos com ingressos para ver o seu time do coração. Sem esquecer de todos os apetrechos para pescaria que eles compram.

Para conseguir satisfazer a vontade de comprar, comprar e comprar, muitos acabam indo parar nos chamados “templos de consumo”, mais conhecidos como shoppings. Onde são seduzidos por ofertas irresistíveis e uma infinidade de itens expostos com parcelamentos incríveis (recheados de taxas imperceptíveis e horríveis), transformando as pessoas em uma espécie de escravos do vício das compras. Esse vício faz com que elas entrem nesses lugares com os bolsos cheios e as mãos vazias e saiam de lá com os bolsos vazios e as mãos cheias… De contas para pagar.

Em um mundo onde o apelo por consumir está em cada canto, em cada programa, em cada novidade (principalmente nesta época do ano). Talvez seja hora de começarmos a gastar mais o nosso tempo em vez de nosso dinheiro, investindo na amizade, passando a ouvir mais as pessoas que amamos, brincando mais com nossos filhos, visitando nossos pais, reencontrando o diálogo a dois em nossos lares. Assim, poderemos ganhar muito mais do que dinheiro, pois receberemos afeto e alegria, reforçando nossos laços de união. Pois, todo dinheiro do mundo não pode preencher a solidão de uma vida fútil que jaz vazia.

O SANTO OFÍCIO da TV GLOBO por gilson caroni filho

Se o objetivo de uma entrevista é assegurar o direito do público em ser informado, fica difícil definir qual a natureza do exercício praticado pelo repórter Heraldo Pereira ao entrevistar o deputado Luiz Sérgio (PT-RJ), indicado pela liderança do partido para relatar a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) dos cartões corporativos.

O que assistimos no Jornal da Globo (28/02/2008) guarda alguma semelhança com prática jornalística ou obedece a construções simbólicas que têm por objetivo caracterizar parlamentares governistas, em especial os do Partido dos Trabalhadores, como delinqüentes contumazes? Pessoas sob permanente suspeita, que devem ser inquiridas com técnicas policiais de interrogatório.

O que procurava Heraldo Pereira? Um contato informal, sem pré-julgamentos, visando à obtenção de informações relevantes ou estabelecer ligações com o “suspeito”, valendo-se de uma conversa aparentemente descontraída, que não oculta uma atmosfera carregada de intimidação?

A trama começa com William Waack, no estúdio, perguntando ao repórter qual teria sido o cálculo político que levou o governo a aceitar que a presidência da Comissão fosse ocupada por um parlamentar do PSDB. Pereira, em Brasília, desfia uma série de motivos mostrando um “governo acuado”, sem alternativas e em seguida é apresentada a entrevista com o deputado petista.

O tom jocoso reforça a suspeição prévia. O que se pretende é consolidar a premissa da cobertura. Há um parlamentar que, pela própria filiação partidária, não inspira confiança. A postura é inquisitorial como veremos a seguir

A primeira pergunta não deixa dúvidas quanto a motivações “Acordo do PT e PSDB. Vai ter acordo na CPI também”? Estamos diante de um questionamento jornalístico ou de uma provocação política? A desqualificação prévia do entrevistado revela argúcia do entrevistador? Cremos que uma afirmação de Nílson Lage se encaixa como luva nesse caso:

“O comportamento de alguns repórteres de vídeo deixa dúvidas sobre quem deve ser a “estrela” da entrevista. Todos sabem que a “estrela” deve ser sempre o entrevistado, “por mais conhecido e vaidoso que seja o repórter”.

As demais seguirão a mesma toada: “A investigação vai ser mesmo pra valer ou muita coisa vai ser colocada debaixo do pano por causa do acordo político?” Notemos que o entrevistado já havia declarado inexistir qualquer tipo de acordo. Trata-se, portanto, de deixar evidente que o suspeito tem motivos para cometer o crime.

Quando Luiz Sérgio afirma que “não está na CPI para ser advogado de ninguém”, Heraldo indaga: “nem do governo?”. Estamos diante de um profissional que não quer respostas e muito menos aceita objeções. O fundamental é extrair do entrevistado algo que pareça confissão de culpa. O repórter vive seu momento de inquisidor e se diverte com o papel.

O “Tribunal do Santo Ofício” global se revelará por completo nas duas últimas interpelações feitas ao deputado.

“O senhor vai proteger alguém como relator?” Diante da negativa, Heraldo Pereira arremata: “Esse é um compromisso que o senhor assume perante o público do Jornal da Globo?”. Eis um belo momento de auto-representação da mídia. Cabe a ela, e somente a ela, o papel de justiça em última instância. Esqueçamos a supremacia do interesse coletivo sobre o privado. O que conta é elaborado nas grandes oficinas de consenso.

Nos processos da inquisição, a denúncia era prova de culpabilidade, cabendo ao acusado a prova de sua inocência. O “Directorium Inquisitorum”( Manual dos Inquisidores) definia normas processuais, termos e modelos de sentença a serem utilizados. Pelo que temos presenciado – e essa entrevista está longe de ser uma prática desviante- cabe às corporações midiáticas reescrever o direito canônico contemporâneo. Para tanto é preciso audiência e bastante fervor na fé mercantil.

Oremos por todos.

E o HOMEM? por sérgio bitencourt

“Uma única célula do corpo humano faz cerca de seis milhões de coisas por segundo, e ainda sabe o que todas as outras estão fazendo ao mesmo tempo”
 
– Tudo isto para constituir um homem.
– E o Homem?
– Bem… esse…
– Esse o que?
– Parece querer “ser feliz num chevrolet”

OROBURUS – por helena sut

A serpente engolindo a própria cauda atordoa a percepção de quem tenta encontrar o ponto de partida. Com estranhamento, os olhos percorrem a forma circular enquanto o pensamento se deixa serpentear pelas plurais interpretações e se recria nas formas ovais que sustentam as reflexões e lançam as expectativas espiraladas ao mundo.

Oroborus é a imortalidade e também o renascimento, é o infinito… A negação da morte e a sua afirmação mais contundente. A metáfora absoluta da renovação do ser que se consome e alimenta no mesmo ciclo, renova-se fortalecida com a própria exaustão como a sabedoria que amadurece quando se desfaz das folhas secas e fortalece as raízes e galhos para conquistar os novos tempos.

Um símbolo que sobrevive aos extremos. Seja o círculo ou a sinuosidade de um oito vivo, seja a serpente que devora ou a que se lança de si… Sem começos ou fins, a serpente é uma alegoria única, contínua, um elo inquebrantável que quando percebido transforma a compreensão da existência numa perene filosofia, faz a experiência humana se ornar com as sagradas e profanas vestes de um constante principiante e traz à lembrança os sonhos à espera de realizações.

A dinâmica da morte e da vida ressuscitada num andamento musical, numa linguagem reticente, numa pintura que lança o espectador numa viagem labiríntica à própria essência, numa ausência que a saudade cicatriza no corpo num arrepio ininterrupto, numa presença sempre em busca de um novo significado…

Uma carta retorna ao remetente com a emoção do outro. Um livro abandonado num sebo encontra o leitor e um local na cabeceira. Uma carência aporta no olhar amoroso e ganha um novo significado com a profusão de sentimentos. Sincronia de percepções ao resgatar o sonho plural com anima e animus e vivê-lo nas correntes dos rios cotidianos nas superfícies e subterrâneos redescobertos. Renascimento das fontes, do extravaso dos cursos que se completam e reiniciam em mar, salgados pelas vivências profundas, lançados às vestais areias no zênite do encontro harmonioso. Prazer de se reencontrar em busca…

As imagens do mundo reunificadas nas mandalas originais que se propagam nos círculos dos céus e infernos individuais com os enigmas de anseios e ambigüidades. Liames…

O silêncio. A palavra reclusa ganha nova forma nas abissais lacunas que não podem ser verbalizadas e são esculpidas em renovadas e íngremes perspectivas das alvoradas. A linguagem navegante se lança ao vasto oceano, rebatizado em ondas, e recria os horizontes com a magenta luminosidade dos crepúsculos vespertinos.

A COLUNA VERGA MAS NÃO ESTÁ QUEBRANDO – por josé zokner

Constatação I
Ledo engano de quem acha que mulher é o sexo frágil. Basta ver como alguma delas fecha a porta de um carro. Em alguns casos, chega a abrir a porta do outro lado…

Constatação II

Subsídios para a campanha da vacina para idosos: E o senhor ou a senhora que já passaram dos 60 nunca esqueçam. Na Terceira Idade, a gente pega uma gripe com a maior facilidade e cura com a maior dificuldade.

Constatação III (Homenagem).

Não se pode confundir aflora com a Flora, muito embora sejam foneticamente iguais e nas conhecidas Flora’s, deste assim chamado escriba, sempre aflora por parte delas uma simpatia irradiante. A recíproca não é necessariamente verdadeira. É como aquela história de que nem tudo que reluz é ouro, pois, às vezes, aflora simpatia irradiante de outras pessoas, cujos nomes deixamos de enumerar por falta de espaço nesta coluna. Bem, a bem da verdade, às vezes, não…

Constatação IV

A mulheraça,
Uma loiraça,
Uma senhoraça
Raparigaça
Sem barrigaça,
Mas com peitaça
E um par de coxaça,
Coroando uma bundaça,
Deixava qualquer boa-praça
Numa ameaça
Com risco de desgraça
E numa baita nevoaça
Que até saía da narigaça
Sextilhão de fumaraça.
E dá-lhe tonéis de aguaça
Pra acalmar a populaça…

Constatação V

Não se pode confundir ateroma, que, segundo o dicionário Houaiss, quer dizer “depósito lipídico na superfície interna das paredes das artérias” com teorema, muito embora já se tornou um teorema, axiomático, que não se deve exagerar na gordura, fritura e outras “uras” que, se não metabolizadas devidamente, podem acarretar alguma espécie de ateroma. Daí, a semelhança com a violência, em nosso e outros países, que também provoca mortes, sofrimentos e coisas desse jaez. A recíproca não é verdadeira, pois, por exemplo, o teorema de Pitágoras não tem nada a ver com um eventual ateroma. Como já havia sido dito alhures: elementar minha gente!

Constatação VI (De uma dúvida crucial).

A salada de frutas é uma espécie de pot-pourri, ou o pot-pourri é uma espécie de salada musical. Quem souber a reposta, por favor, cartas à redação. Obrigado.

Constatação VII (De outra dúvida crucial).

Em Curitiba, na Boca Maldita,
Quando se quer soltar um boato
Recomenda-se a coisa dita como não dita
E que não se deve contar a ninguém o fato?

Constatação VIII

Rico tem suposto envolvimento; pobre, tem incontestável indiciamento.

Constatação IX

Rico é pesquisador; pobre, é xereta.

Constatação X

Não só de insubstituíveis o inferno tá cheio. De faltosos, também. De omissos, nem falar…

Constatação XI

Quando o obcecado leu na mídia que os brasileiros estão em segundo lugar no ranking dos que fazem sexo com mais freqüência, de acordo com a Pesquisa Global de Bem-Estar Sexual, realizada em 26 países pela fabricante de preservativos Darex, só perdendo para os gregos, cuspiu para o lado e exclamou: “Para nós brasileiros, como diria o jornalista Boris Casoy, isso é uma vergonha!”

Constatação XII (Com sugestão aos filólogos).

Não se pode confundir rebanho bubalino, que se refere aos búfalos, com rebanho bobalino que são todos os bobões dos eleitores brasileiros, até porque o primeiro é quadrúpede e o segundo é bípede. A recíproca é como é, pois nada impede que os bípedes elejam quadrúpedes e aproveitadores, como nos é dado, desde os tempos imemoriais, a constatar.

Constatação XIII

O cabeça-dura
Levou uma surra
Porque, birrento,
Mexeu com certas crenças
Arraigadas,
Consolidadas
E entre si com desavenças
Já que quis misturar,
Aproximar, aperfeiçoar,
Nem que fosse por um momento,
As três religiões monoteístas
Com umbanda,
Com ateístas
Com quimbanda
Tornando tudo comum
Dizendo que não deveriam
Ser exclusivistas,
Mas que a soma de todas seriam
Não mais nem menos igual a um.
E-mail: josezokner@rimasprimas.com.br

TE AMO ESPANHOLA por ewaldo schleder

Antes de falar em Espanha, uma vaga lembrança. Na escola, a cartilha nos ensinava que o mundo teria 4 raças: a branca, a amarela, a negra e a vermelha figuras do dominador, do perigoso, do escravo e do preguiçoso. Sobre a miscigenação os tons chegavam a ser pejorativos: mameluco, sarará, caboclo, mulato. Palavras que se aplicavam ou se aplicam até a xingamentos. Veio o novo tempo, o novo espaço: século 21, globalização. E como sempre o homem segue itinerante. As raízes lhe incomodam, lhe acomodam. Não somos árvores, nem pedra. Se a terra se mexe, as águas se movem, os ares se movimentam; logo o homem ser movediço por natureza não pode ficar parado.
 
Chegamos às correntes migratórias terrestres, marítimas e aéreas. E à Espanha. Na modernidade, só os brancos fundaram novas nações, fincando bandeiras. Mas sempre se valendo das outras cores. E hoje, pelo que se vê, qual é a coloração do antropo-mundo? Um arco-íris antropológico, uma aquarela borrada com direito a preto-e-branco? Quantas nacionalidades há no Brasil, não sei. Contudo, para a Espanha as cores registradas são as do passaporte europeu. Porém, a matéria-prima desse documento em parte vem das selvas tropicais e das pastas de nossas plantas vagabundas. As demais matérias-primas também, do solo e subsolo do terceiro mundo , disto sabemos faz tempo. Todavia, à União Européia o que importa é comprar barato e dinamizar o produto final comprado, importado, por nós. A Espanha nos manda navegadores, aventureiros, investimentos, bancos, azeite-de-oliva, dançarinas de flamenco, vinhos, imagens de touradas, cavalos andaluzes, Almodóvar. Em troca de lucros, da conquista de mercados, da difusão cultural de inigualável beleza, faça-se justiça. Os gols dos Ronaldinhos, do Real, do Barça, não contam nessa hora. No tabuleiro planetário estão os escravos, aqueles aptos a qualquer serviço caso da maioria dos migrantes brasileiros. Pesquisadores, cérebros, artistas (futebolistas à parte, marketing à parte); estes são desconsiderados neste momento. E temos na leitura especializada os iluminados que dão peso ao dinheiro os parâmetros dos valores-do-dia das moedas. Estes investem e lucram. Com pouca margem de risco. E grana pode migrar sem problemas. Sempre bem limpinhas.
 
Encerro este desabafo em nome da Tupinambrás com uma sugestão ao governo brasileiro: propor ao homólogo espanhol que a cada brasileiro barrado na entrada (em Baralhas), lá, fique aqui um milhão de pesetas (mixaria), como recurso compensatório para ser investido na condição de vida estudo, trabalho etc desse imigrante potencial. À européia: o primeiro hispânico que pisou por aqui às margens de Tordesilhas veio em busca de ouro e prata. Jamais esqueçamos disso, hermanos. Sem embargo

MULHER NUA é MENOS PERIGOSA pela editoria

A mulher será sempre o perigo de todos os paraísos.
Paul Claudel

A mulher mais idiota pode dominar um sábio. Mas é preciso uma mulher extremamente sábia para dominar um idiota.
Rudyard Kipling

A mulher é um efeito deslumbrante da natureza.
Arthur Schopenhauer

Mulher: a mais nua das carnes vivas e aquela cujo brilho é o mais suave.
Antoine de Saint-Exupéry

A mulher começa por resistir aos avanços do homem e termina por bloquear a sua retirada.
Helen Rowland

As mulheres estão descobrindo que mulher é bom – coisa que os homens já sabem há séculos.
Chico Anysio

Deus criou a mulher de uma costela, de um osso torto. Se procurares endireitá-la, quebrará. Tenham pois paciência com as mulheres.
Maomé

Ser mulher é algo difícil, já que consiste basicamente em lidar com homens.
Joseph Conrad

Um homem tem sempre medo de uma mulher que o ame muito.
Bertolt Brecht

Nádegas é importantíssimo. Grave, porém, é o problema das saboneteiras. Uma mulher sem saboneteiras é como um rio sem pontes.
Vinícius de Moraes

Aquela mulher resiste ao amor que sente, mas não resiste ao amor que inspira.
Sophie Gay

Uma mulher nua seria menos perigosa do que é uma saia habilmente exibida, que cobre tudo e, ao mesmo tempo, deixa tudo à vista.
Honoré de Balzac

Certas mulheres podem falar horas a fio sobre qualquer assunto. A minha mulher nem precisa de assunto.
Sam Larenson

Se uma mulher tem inclinações eruditas é porque, em geral, há algo de errado na sua sexualidade. A esterilidade predispõe a uma certa masculinidade do gosto; é que o homem, com vossa licença, é de fato «o animal estéril».
Friedrich Nietzsche

No homem há mais amor-próprio do que amor; na mulher, pelo contrário, há mais amor do que amor-próprio.
Paolo Mantegazza

A prostituta só enlouquece excepcionalmente. A mulher honesta, sim, é que, devorada pelos próprios escrúpulos, está sempre no limite, na implacável fronteira.
Nelson Rodrigues

O homen tem tres defeitos iludir,magoar e deixar
e a mulher tem tres qualidades sofrer, amar e perdoar.
Alessandra

A mulher deve ser boa e, mais ainda, deve parecer boa.
Miguel Cervantes

Uma das grandes dificuldades da vida é adivinhar qual é o desejo de uma mulher.
Italo Svevo

Desde Adão que não existe erro em que a mulher não tenha participado de qualquer forma.
Tackeray

Os anos que uma mulher subtrai à sua idade não são perdidos. Ela acrescenta-os à idade de outras mulheres.
Diana de Poitiers

“A cada homem que faz uma mulher de idiota,
Uma mulher faz um idota virar homem!”
Desconhecido

A mulher que se preocupa em evidenciar a sua beleza anuncia ela própria que não tem outro mérito melhor.
Airlane

“a maior covardia de um homen é despertar o amor de uma mulher sem ter a intenção de ama-lá”

Bob Marley

AH ESTAS MULHERES! GUERREIRAS! FANTÁSTICAS!

COM MUITA HONRA, ATRAVÉS DESTAS AQUI PUBLICADAS, O SITE  HOMENAGEIA À TODAS AS MULHERES TRABALHADORAS E DESEMPREGADAS DE TODOS OS PAÍSES.

leticia-sabatella-fot.jpg

LETÍCIA SABATELLA, atriz, militante das causas nobres e mãe.

———————————————————————–

VIRGINIA ROJAS, artista visual e mãe. VENEZUELA.

————————————————————————-

otilia-martel-menina-marota.jpg

OTÍLIA MARTEL, poeta. PORTUGAL.

——————————————————————-

MARILDA CONFORTIN, poeta, técnica em TI e mãe.

———————————————————————–

MICHLLE PUCCI, atriz e cantora.

————————————————————————

LUCI PINHEIRO, artista (cantora), companheira e mãe.

———————————————————————

diego-bi-carol-011.jpg

ROSANGELA STAVIS, professora, companheira e mãe.

—————————————————————————-

joanna-andrade-foto.jpg

JOANNA ANDRADE, pensadora, professora (inglês) e mãe.

——————————————————————————-

helena-sut2-foto.jpg

HELENA SUT, escritora, poeta e mãe.

————————————————————————–

NORMA EMILIA VIDAL trabalhadora e mãe.

__________________________________________________ 

efigenia-foto-a-rainha-de-papel.jpg

EFIGÊNIA, a rainha da reciclagem.

—————————————————————

denise-roman-foto-006.jpg

DENISE ROMAN, artista visual, companheira e mãe.

—————————————————————-

barbara-lia-07.jpg

BÁRBARA LIA, trabalhadora, poeta, escritora e mãe.

A MASSACRANTE FELICIDADE dos OUTROS por martha medeiros

Ao amadurecer, descobrimos que a grama do vizinho não é mais verde coisíssima nenhuma. Estamos todos no mesmo barco. Há no ar um certo queixume sem razões muito claras.
 
Converso com mulheres que estão entre os 40 e 50 anos, todas com profissão, marido, filhos, saúde, e ainda assim elas trazem dentro delas um não-sei-o-quê perturbador, algo que as incomoda, mesmo estando tudo bem. De onde vem isso?
 
Anos atrás, a cantora Marina Lima compôs com o seu irmão, o poeta Antonio Cícero, uma música que dizia: ‘Eu espero/ acontecimentos/ só que quando anoitece/ é festa no outro apartamento’ .
 
Passei minha adolescência com esta sensação: a de que algo muito animado estava acontecendo em algum lugar para o qual eu não tinha convite. É uma das características da juventude: considerar-se deslocado e impedido de ser feliz como os outros são, ou aparentam ser. Só que chega uma hora em que é preciso deixar de ficar tão ligada na grama do vizinho.
 
As festas em outros apartamentos são fruto da nossa imaginação, que é infectada por falsos holofotes, falsos sorrisos e falsas notícias. Os notáveis alardeiam muito suas vitórias, mas falam pouco das suas angústias, revelam pouco suas aflições, não dão bandeira das suas fraquezas, então fica parecendo que todos estão comemorando grandes paixões e fortunas, quando na verdade a festa lá fora não está tão animada assim.
 
Ao amadurecer, descobrimos que estamos todos no mesmo barco, com motivos pra dançar pela sala e também motivos pra se refugiar no escuro, alternadamente. Só que os motivos pra se refugiar no escuro raramente são divulgados pra consumo externo.
 
‘Todos são belos, sexys, lúcidos, íntegros, ricos, sedutores, social e filosoficamente corretos. Parece que ninguém, nenhum deles, nunca levou porrada. Parece que todos têm sido campeões em tudo’.
 
Fernando Pessoa também já se sentiu abafado pela perfeição alheia, e olha que na época em que ele escreveu estes versos não havia esta overdose de revistas que há hoje, vendendo um mundo de faz-de-conta. Nesta era de exaltação de celebridades – reais e inventadas – fica difícil mesmo achar que a vida da gente tem graça. Mas tem.
 
Paz interior, amigos leais, nossas músicas, livros, fantasias, desilusões e recomeços, tudo isso vale ser incluído na nossa biografia. Ou será que é tão divertido passar dois dias na Ilha de Caras fotografando junto a todos os produtos dos patrocinadores?
 
Compensa passar a vida comendo alface para ter o corpo que a profissão de modelo exige? Será tão gratificante ter um paparazzo na sua cola cada vez que você sai de casa? Será bom só sair de casa com alguém todo tempo na sua cola a título de segurança? Estarão mesmo todas essas pessoas realizando um milhão de coisas interessantes enquanto só você está em casa, lendo, desenhando, ouvindo música, vendo seu time jogar, escrevendo, tomando seu uisquinho?
 
Tenha certeza que as melhores festas acontecem sempre dentro do nosso próprio apartamento. 
 
Martha Medeiros, gaúcha, 44 anos,Jornalista e Poeta.

MOA o BLOG do CARTUN – POA/RGS

cartunista-moa-foto-do-blogimagem.jpg 

enviado por celso collares. poa/rgs. www.moadesenhos.com.br

CARTA ao primo CARLIN – por edu hoffmann

 
 
 
 
   Primo, ontem lembrei da terrinha ao encontrar o Tonhão lá na rodoviária. Lembra dele?  É aquele que você dizia ser mais feio que encoxar a mãe no tanque. Lembrou? Ele é irmão da Zuleica, que estudou com você no segundo grau.
   Quando saí da terrinha, a Zuleica estava bem, tinha aberto o negócio dela, que era de juntar gente. Agora anda em petição de miséria, segundo o Tonhão.
   Vou te dizer o que ele falou de você (fiquei preocupado). Não me leve a mal, porque tudo o que vem de mim você pega e leva por trás. É verdade que você procura trabalho no hospital só pra levar leitinho nos quartos? Quando aquele boca-de-burro falou isso, quase dei um tapa no escutador de novela dele, onde já se viu?
   Andei pintando um quadro. Cê ainda pinta como eu pinto? Sacode como eu sacudo? Cai uma chuva, agora. Fui fechar a janela e pensei: dia de chuva é bom pra quem tem terra.
 Agora tenho uma turma boa. Sempre fazemos festa com chope e dança, e às vezes fazemos roda de mate. Quando cê vier pra cá, quer que eu te bote na roda?
   Sabe aquele negócio que você estava agitando? Pode parar que melou. Agora penso em fazer comércio com bicicleta. Topas? Eu compro as peças e monto. Aí você vende quatro que eu te dou uma montada.
   Penso em visitá-lo, sinto falta do churrasco com a turma. Aqui em casa só como se eu cozinho. Vamos assar uma lingüiça na tua folga? Podemos assar uma costela também. Com dez quilos de carne dá pra vinte comer?
   A chuva cai. Ouço um cachorro latindo no quintal. O cão que late na água late em terra? Já que estou falando de comida, sabe o que o passarinho falou pra passarinha? Quer Danoninho ?
   Carlin, pra você que vive gripado, tenho uma receita ótima: chá de raiz de pau-barbado, ou chá de picão preto. Dizem que é tiro e queda!
   Tenho saudade das nossas pescarias. Quando for praí, faço questão de ir pro rio. Cê guardou minha vara? Como fazíamos, se não sair a pescaria, posso enterrar a minhoca?
   Por falta de grana, tenho de vender meu material de pesca aqui de casa. Quer? Quero 30 no molinete e 60 na vara.
   E dos nervos, você está melhor? Sei que é calmo só na frente dos outros. Por trás você é bem estourado.
   Primo querido, lembro que discutimos na última vez que estivemos juntos. Sei que te machuquei por dentro. Desculpe, por ser muito cabeçudo. Águas passadas.
Me telefone ou escreva.
 
 
   ps:  aquele negócio de que você queria, está de pé.
 
 
 
                                                                      abraço do primo Edu Hoffmann

5º CARTUCHO – Encontro dos Cartunistas Gaúchos

CARTUCHO é um encontro entre profissionais e amadores para troca de experiências e idéias na área do humor gráfico. Participam desenhistas de humor, que possuam trabalhos em charge, cartuns, história em quadrinhos, vinhetas e desenho animado, além de amadores, estudantes e admiradores da arte gráfica. Um dos grandes diferenciais do Cartucho é o Reponte Temático. No início do evento é sorteado um tema, um assunto, uma palavra chave. A partir deste momento os cartunistas participantes têm cerca de um dia e meio pra produzir um desenho: charge, Cartum, caricatura, tira, história em quadrinhos. O Rio Grande do Sul é um estado de grande destaque na área de produção de desenhos de humor, inúmeros são os jornais e revistas criados para publicar este gênero. Em nossos dias também a chamada grande imprensa, abre espaço diário para as charges e as tiras, embora de forma ainda não suficiente. No contexto gaúcho Santa Maria é uma cidade de destaque onde já há alguns anos surgem profissionais, publicações e eventos que promovem o humor gráfico. Apesar de todo o potencial existente há uma grande necessidade da ampliação dos espaços de trabalho e para isso é fundamental a realização de encontros que promovam o debate e a organização entre os profissionais. Eventos desta natureza estimulam a criação de novas publicações e o surgimento de novos cartunistas. A 5ª Edição do Cartucho entra na programação cultural da cidade, marcando os 150 anos de emancipação política, desde a programação visual até o tema a ser definido. Também serão organizadas, desde março de 2008, oficinas com profissionais da arte gráfica abordando temas como cartum, charge, HQ, texto de humor, entre outros, tendo como público alunos universitários e das escolas da cidade. 

Chili-comunicação e cultura.

aos-cartunistas-gauchos-edgar-vasquez-donga.jpg

Os cartunistas Edgar Vasquez, Ricardo de Freitas (Donga), Dóro e André Macedo durante o 4º CARTUCHO realizado no Itaimbé Palace Hotel em Santa Maria. Foto sem crédito.

CAMBORIÚ recebe MANOEL de ANDRADE

 na noite de sexta-feira, 07 de março, as 19:00 horas, o poeta Manoel de Andrade faz a apresentação de seu livro “Cantares” na Livraria Catarinense no Balneário Camboriú Shopping.

Radicado no Paraná há 50 anos, o escritor nunca esqueceu o significado poético de suas origens no Vale do Itajaí, presente no rastro comovente de nostalgia, encantamento e no profundo lirismo de sua poesia. Com a saudação dos demais Palavreiros da Hora postamos aqui seu poema “Infância”,  um exemplo eloqüente e um testemunho indelével do que a saudade escreveu na sua alma de poeta.

INFÂNCIA
para meu pai

Lá vai a Dona Biloca levando uma corvina…

Levei uma surra porque peguei um ovo no galinheiro dela

e disse pra minha mãe que achei na rua…

Lá vem a Odair e o Udinho…

eu sei que eles querem brincar na piscina que eu fiz  sooozinho..

— Ei Lelo, lá  vem o Seu Badico lavar os cavalos na praia…

— Eu sei, mas depois ele vai  encher a carroça de tainhas,

vai pôr folhas de bananeira em cima  e vai vender lá em Medeiros.

–Paaaai!… deixa eu ir com o senhor lá em Medeiros???.

Como eu gosta de lavar o Sanho… ele é tão mansinho…!

— Pai… o senhor já nadou até a ilha?

— Pai… depois o senhor me leva até o fundo?

–Pai… eles vão pôr de novo a rede hoje?

— Pai… depois vamos tomar garapa lá no Seu Bebé? 

Infância… a indelével imagem da vida

o território mágico da alma

lembrança viva e peregrina que  flutua pelo tempo.

Ah! essa salgada saudade dos braços fortes de meu pai

a levar-me sobre os ombros entre as ondas.

O salto, o mergulho, o torvelinho das águas

minha festa, meu delírio.

Meu mar, meu céu, meu pão de liberdade

meus sete anos correndo atrás das gaivotas

perambulando entre as canoas que chegavam

meus pés vestidos com  pantufas de espuma

a chutar seus densos flocos pelo ar.

As estrelas do mar semeadas ao longo dos meus passos

os siris entrando em seus buracos

os maçaricos andando ligeirinhos pela praia

as redes chegando lentamente com o  cardume aprisionado

arraias, bagres, cações

espadas, águas vivas, caranguejos

os pescadores repartindo os peixes agonizantes

os baiacus mortos na areia

os restos do arrastão espalhados sobre a praia

meu samburá repleto de peixinhos.

Ah, a canção intermitente das ondas

o poético itinerário das velas levadas pelo vento

o vôo vagabundo das  aves litorâneas

o dorso escuro dos botos surgindo de quando em quando sobre as águas.

a maré alta da tarde apagando  as marcas da manhã

a minha lagoinha lá perto da ponte

o meu mangue povoado de siris-goiá

meu pai tirando ostras

o rio desembocando lá na barra

a chegada das tainhas no inverno.

Ali morava minha infância

ali, e na imensurável morada do horizonte…

Meus olhos despertavam nas pálpebras entreabertas da aurora

e partiam com os mastros que sumiam na distância.

Vagavam no caminho melancólico do crepúsculo

no ocaso das tardes e na penumbra

na sedução da lua cheia sobre o mar.

Ah, Piçarras!… Piçarras!………………………….

Não eras ainda esse moderno balneário

e a tua praia era somente  minha o ano inteiro.

…………………………………………………………………………..

As velas da minha infância,

arriadas pelo tempo, já não saem pra pescar.

As redes daqueles anos,

abertas qual flor nas águas, chegam vazias do mar.

Os cardumes de tainhas,

ligeiras como corisco, já não chegam pra invernar.

As águas vivas do rio,

hoje carregam chorando, 

seu veneno para o mar. 

Meu manguezal de menino,

berçário de tantas vidas,

foi inteiro loteado.

                                                                          

Minhas canoas à vela,

poemas soltos ao vento,

 hoje navegam roncando.

O lago era um ovário

cujo canal dava ao rio, e tudo foi aterrado.

Progresso… que desencanto!!! 

sou um estranho nesse ninho,

sou uma infância chorando.

………………………………………………………………………………..

Ó mar, ó mar

procuro em vão meus rastros na areia

e por isso meus passos já não serão como um regresso…

Me restará, contudo, sempre  a tua eterna imagem,

tua beleza amanhecida e retocada pelo sol e pela brisa,

tuas verdes planícies que espraiam o mundo.

Resta-me o teu sabor primordial

“o sal da vida”

linfa incorruptível

ventre profundo que dia a dia reinaugura a maternidade planetária.

Restam-me tuas noites  pontilhadas pelos faróis do mundo

por Sírius, Antares,  Aldebarã…

por todo o firmamento constelado

e pelo  esplendor dos plenilúnios.

Volto saudoso aos meus mares

porque sempre haverá um leste e um sul magnético no meu peito

apontando-me  o encanto desses íntimos recantos.

Aqui, uma pequenina praia entre pedras e penhascos,

ali, a visão imensa da baía com seus barcos e canoas, 

além,o grito alado das plumagens que voam lentamente sobre as ondas

ao longe, o pesqueiro solitário que demanda as águas fundas.

Relembro este molhe de pedra que avança sobre o mar

do farol da barra  e  desta paisagem soberana

e da minha adolescência cruzando a nado esta corrente.

É o meu Itajaí-Açu desembocando calmamente no oceano

neste mar tão verde desta manhã de sol.

Meu olhar ancora ao longe, nos navios fundeados

e navega, mais além,  pousado no mastro esbelto de um veleiro.

Mar, ó mar

restará sempre o teu murmúrio a embalar o mundo

a voz inaudível das profundidades orientando a  rota dos cardumes

a tua gestação incessante de criaturas

a força imponderável das correntes

a pontualidade das marés

os teus ciclos arquétipos que sustentam a vida.

Mar, ó mar

basta-me hoje o que já me deste desde sempre…

a tua imensidão tatuada nos meus olhos,

verde enseada onde aportou meu lírico destino.

Esses teus encantos, as tuas extensões,  essa totalidade…

todas as tuas medidas eu quisera ter na suprema síntese dos meus versos,

para dá-la ao mundo na  expressão mais bela da poesia:

a face deslumbrante da esperança.                                                            

Manoel de Andrade

Piçarras-Itajaí, fevereiro de 2005 

GROUXO MARX, furioso

sobre ex-mulher:

pagar pensão à ex-mulher é como servir feno fresco a um cavalo morto.

ESTABILIDADE POLÍTICA por walmor marcellino

Por que Chávez e Morales atingiram a preeminência na política da América Latina? Porque sua causa nacional é tão forte que permitiu que a trabalhassem juntamente com a unidade do povo numa “causa social”, para o isolamento do inimigo interno: das “elites” de (“cosmopolitas”) colonizados-colonialistas assumidos e de mãos-postas e mãos-de-frade das “classes médias emergentes”. “Permitiu trabalhar a unidade” é modo de expressão, porque na verdade esses líderes e os agrupamentos sociais que os apóiam (subalternos e/ou excluídos sociais  operários, artesãos, camponeses, empregados, favelados e/ou encortiçados, trabalhadores por peça, obra ou safra, grupos étnicos e civis marginalizados  e seus aliados políticos de várias classes porém também posicionados politicamente por suas diferentes contradições) operaram sua unidade não só por diversas causas “ali historicamente” confluentes (ocasião histórico-social), mas porque “os inimigos proclamavam” (vinham “proclamando”) políticas ostensivas de privilégios de estamento e como agentes de interesses antinacionais. O antagonismo se explicitou no processo da luta social.
Aqui, os inimigos estavam claros, mas os “amigos” não. Tem sido assim: não só pelas ações políticas dos demandantes sociais que marcam o cenário sociopolítico, como também pela reação capitalista-burguesa das oligarquias, do latifúndio, dos estamentos burocrático-políticos que controlam e dominam o Estado (nos aparelhos estatais e suas forças armadas, aparelhos de religião e cultura, de serviços, comércios e indústrias enclavados; em sua representação formal no Parlamento, no governo e na “Justiça”). Esse conflito de classes e grupos sociais de poder resultantes da posição e situação de cada um no sistema (e projeto-de-auto-reprodução) produtivo, bem como na hierarquia de riqueza, propriedade e força, tem sua conciliação e equilíbrio pelo pacto formal e executório de uma Constituinte; a sua vez constantemente fraudada pelos “poderes institucionais” de governo, de Parlamento e especialmente de “Justiça”. E esse pacto tende a ficar obscurecido na ação dos partidos neoliberais de direita e esquerda.
Mas se Evo Morales e Hugo Chávez têm e usaram semelhante base social para se eleger e a estão utilizando para governar, como Lula, por que este não logrou privilegiar nem a causa social nem a nacional?
Embora, aqui os genericamente oprimidos e explorados   “excluídos” e/ou não reconhecidos em seus direitos sociais e políticos   e seus setores de classe (trabalhadores em geral, pequenos empregadores e empregados, servidores públicos, profissionais et liberais, etc.   organizados em variadas entidades abertas e comprometidas com a nação-Estado tenham participado de uma grande frente popular-nacional nas duas últimas eleições do Brasil de forma a assumir o governo; por alguma razão as organizações políticas conservadoras recuperaram seus tradicionais espaços e poder político. Essa reversão política até agora não foi considerada, a não ser como constatação-proposta de um “fazer-se o que puder” pra “não fazer pior”. E com diferença apenas do peso das etnias lá e cá, muita diferença não há, esconde-se o fracasso da direção política “de esquerda” do lulismo.
Como ocorreu o enfraquecimento político de Luiz Inácio Lula da Silva, se as bases sociais que o vêm elegendo até se ampliaram no segundo pleito eleitoral? Ainda que às custas de sua “carismatização” de “self-made-man operário” e “político-bem-intencionado” (que lhe dá homenagens) e/ou pela falta de um movimento social, como de partido político, que propusesse políticas claras, o sustentasse e firmasse as ligações governo-comunidades nacionais-trabalhadores? A presença da “mão-de-frade” no PT é um “neoliberalismo de esquerda”.
Com a certeza de que o grande movimento que elegeu Lula se foi dispersando por falta de direção e de que não deixará sucessores nos próximos anos, nem legados, ressalta-se a traição social e o crime político da direção corrupta do Partido dos Trabalhadores em sua cupidez social e incompetência política.

ERAM OS DEUSES CYBERNAUTAS? por joe rocha rangel

São Francisco, Califórnia – “Chego às 8, coração. Te amo.”

Lia e conjecturava, com o desdém ultrapassado dos românticos nostálgicos, que a geração Google estava assassinando o recado manuscrito. Sim, hoje ele é fornecido de voz viva pelo celular—direto do engarrafamento. Ah, mas as conveniências do progresso, os milagres da fibra óptica, o século das maravilhas, não extraíram do recesso das minhas alegorias certas manias regressistas: sempre fico sentimental com a afeição rabiscada num papel, e a eficácia anacrônica de uma prosáica BIC. E já me aprontava para divulgar ao mundo minha última tese improvisada: tecnologia demais faz mal ao coração.

Mas eis que meu computador enguiça.

Tudo aconteceu com a progressão fulminante da tragédia: O monitor acendeu e, como de todas as outras vezes, as palavras sem sentido, misturadas `a misteriosa fileira de algarismos (códigos numéricos que resumem a história do homem) se estabeleceram na tela. Então, cravei aterrado o olho na mensagem sucinta: “Windows detectou um erro fatal no drive c”.

E tudo parou.

Desliguei a tomada; tornei a ligá-la. O procedimento, embora rudimentar, sempre lhe restaura as funções vitais. Dessa vez não. Tentei outras vezes. Nada.

Uma luz me vazou a retina, e percebi a verdade: a esferográfica e o celulóide já não bastam num povoado global entupido de informação. Havia se criado entre a minha predisposição emocional e o meu PC um relacionamento patológico. Senti um pavoroso medo da solidão.

Vi, pela janela, o crepúsculo entristecer a cidade, a memória da civilização envelhecer na vidraça, e a existência afundar-se no abismo de um inverno escuro e pessimista. O meu apartamento flutuava no vácuo infinito de um dia desolador. Por causa de um erro no disco rígido. Um erro fatal. (Deve ter sido gravíssimo. Mas quem o teria cometido? E quando?).

Foi numa artéria da inteligência artificial que a highway da superinformação incorporou-se ao nosso cotidiano. No meu convívio, o homem sem Internet é um ser primitivo, espécie em extinção. Sabe-se que há pelo menos um computador em 75 porcento dos domicílios urbanos dos Estados Unidos.

De Gutenberg a Bill Gates, dos primórdios da imprensa ao Windows XP, mais de quinhentos anos de loucura, incertezas, e instabilidade emocional nos contemplam.

O mundo encolheu, agora rodopia com a pressa de Nova Iorque; ficou ruidoso, cínico, superpovoado, nervoso. Os computadores foram elevados à categoria de semideuses, indispensáveis `a sobrevivência da raça humana. O maravilhoso mundo novo cibernético é quase uma obrigação social, um dever cívico, uma declaração implícita de que estamos integrados aos tentáculos da rede, e que fora dela adormecem as trevas de um submundo medieval.

Outro dia, na rua, alguém de boa aparência e bem vestido perguntou se havia um telefone público por perto. “Ali na esquina”. Apontei para o infinito. Mas como? O faxineiro do prédio interrompe a atividade do esfregão para falar com a namorada no telefone móvel, e o cara de Pierre Cardin e dentes perfeitos busca um orelhão? Alguém ao meu lado comentou, “telefone público é tão nojento”. Ou seja, coisa de ralé. Será que o cara era terrorista?

Não há um caminho de volta. Estamos inexoralvelmente condenados à ditadura dos célebros eletrônicos, à conversa de bolso digital, à geringonça multimídia que toca música, mostra filmes, manda/recebe/distribui comunicados de um continente a outro em dois segundos. O som, a imagem, e a palavra se deslocam em nossas vidas com a imponência sonora, visual, e verbal de todos os discursos proferidos em todos os séculos da humanidade, todas as sinfonias, sonatas, e samba-enredos, todas as telas, murais, e paineis.

Transportamos Cícero, Platão, Abraham Lincoln, Adolf Hittler, O Papa João Paulo II, Mozzart, Beethoven, os Beatles e os Rolling Stones, Van Gogh, Kandinsky, e Pablo Picasso, nos compartimentos isolados do espírito do homem multidimencional do novo milênio, e os condensamos num porvir digital.

O resultado de tudo que foi dito durante nossas pequenas vidas, hip-hops enraivecidos, favelas interligadas pela agonia comum da falta de esperança, gigabytes loucos, se convergem no calor de nossas paixões, de nossos preconceitos dissimulados. De Faluja `a Rocinha, a Internet une, separa, informa, deprime. Ela é janela e espelho; estrada e despenhadeiro.

Mesmo nos remotos labirintos de cavernas prodigiosamente interligadas na fronteira entre o Paquistão e o Afganistão, terroristas islâmicos, que abominam os excessos da tecnologia ocidental, capitularam à nossa sofisticação, e comunicam-se com laptops; jihadistas da Al Qaeda distribuem clips de decapitações no Iraque através de um web site; na paz contemplativa e gelada do Tibet, monges budistas rezam e meditam— on line..Sim, irmãos e irmãs, a redenção da alma chegará num arquivo anexado a um email sucinto; a segunda vinda do Filho do Homem, num furo de reportagem da CNN, ao vivo, da Mangueira, e o cancelamento do futuro será possível nas asas da bomba atômica, ou na função DELETE do teclado.

Estamos cercados, companheiros de sleeping bags na serra, os vultos de nossa rebeldia não carregam PDA’s, não se reunem em ‘chat rooms’, não se manifestam em blogs pessoais.

O jantar atômico rebola no microondas, cinco mil canais de tv transmitem o tédio dos horários nobres via antena parabólica, Shakespeare arrota uma versão pós-moderna do “Sonhos de uma Noite de Verão” nas ondas digitalizadas do CD-ROM. Não tem mais essa de “ser ou não ser”, a questão (eis a questão) é, “recebestes meu email?”.

E basta um crash no disco rígido para que a existência entre em colapso, e um insaciável desejo de ser pedra assuma os controles do inconsciente mórbido do homem moderno.

Desliguei a tomada e tornei a ligá-la. Nada. Estavam todos mortos: a placa mãe, o pai de santo, o placar eletrônico, os personagens do Walt Disney—minha avó, vocês.

Pois é assim que antevejo o fim da raça humana: uma epidemia de erros fatais penetrando discos rígidos; computadores definhando, micros infectados por um vírus intergalático, as luzes das cidades extinguindo-se uma a uma, de Manhatam à Cidade de Deus, de Amsterdã a Belém do Pará, da Palestina ao outro lado da rua onde moro, onde tremo de frio, com medo de ratos, sem computador, tomado de um pavoroso medo da solidão.

A POESIA das LETRAS da MPB por edu hoffmann

   Poucas culturas populares podem se orgulhar de um representante musical tão rico como a brasileira. Tão grande e magnética que a primeira associação feita no exterior ao nome do Brasil é com a nossa música, junto ao futebol, naturalmente. E as letras merecem um enfoque particular, tema do meu próximo livro, com o título ainda provisório de Frases Musicais.
 
 Tenho pesquisado e anotado as letras mais poéticas, e as mais engraçadas de tudo o que foi gravado na Música Popular brasileira. Mas isso é trabalho para toda a vida, uma vez que os compositores continuam produzindo, sinal que felizmente, e prazerosamente, terei muito o que fazer. Aí vai algumas Frases Musicais selecionadas:
 
          Coragem não está no grito
         nem riqueza na algibeira
        e os pecados de domingo,
        quem paga, morena,
        é segunda-feira
 
Paulo Vanzolini, em Capoeira do Arnaldo, na  voz do bando da Macambira
 
         
        Num relógio é quatro e vinte
        no outro é quatro e meia
        é que de um relógio pra outro
        as horas vareia
 
Adoniram Barbosa, em Tocar na Banda, na voz de Adoniram Barbosa
 
 
          Bahiano não nasce
         Bahiano estréia
 
Moraes Moreira, em Estação Bahia, na voz de Moraes Moreira
 
 
            Meu tesouro é uma viola     
            que a felicidade oculta
           se a vida não dá receita
          eu não vou pagar a consulta
 
Zeca Baleiro em Dindinha, na voz de Ceumar
 
                Esse pobre navegante
                meu coração amante
                enfrentou a tempestade
                no mar da paixão e da loucura
                fruto da minha aventura
                em busca da felicidade
 
Paulinho da Viola, em Coração Leviano, na voz de Paulinho da Viola.
 
 
                   Morena, minha morena
                tire a roupa da janela
                vendo a roupa sem a dona
                eu penso na dona sem ela
 
Popular, adaptação de Tom Zé, em Morena, na voz de Tom Zé
 
        
                  Deixe em paz meu coração
                  que ele é um pote até aqui de mágoa
                  e qualquer desatenção – faça não
                  pode ser a gota d ´água
 
Chico Buarque, em Gota D´água, na voz de Chico Buarque 
 
 
                      Hoje, eu quero a rosa mais linda que houver
                      e a primeira estrela que vier
                      para enfeitar a noite do meu bem
 
Dolores Duran em A Noite do Meu Bem, na voz de Dolores Duran
 
 
                     A esperança dança
                     na corda bamba de sombrinha
                     e em cada passo dessa linha
                     pode se machucar
 
João Bosco/Aldir Blanc em O Bêbado e o Equilibrista, na voz de Elis Regina
 
 
 
 
 
 
 
                 Queixo-me às rosas
                 mas que bobagem, as rosas não falam
                 simplesmente as rosas exalam
                 o perfume que roubam de ti
 
Cartola, em As Rosas Não Falam, na voz de Beth carvalho
 
 
                   Cheguei na beira do porto onde as ondas se espaia
                   as garças dá maia volta, e senta na beira da praia
                   e o cuitelinho não gosta, que o botão da rosa caia
                   Ai, ai
 
Tema recolhido por Paulo Vanzolini e Antonio Xandó, em Cuitelinho, na voz
de Maria Marta.
 
 
                Tire o seu sorriso do caminho
                que eu quero passar com a minha dor
                hoje pra você eu sou espinho
                espinho não machuca a flor
                 eu só errei quando juntei minh´alma à tua
                o sol não pode viver perto da lua
 
Guilherme de Brito/Alcides Caminha/Nelson Cavaquinho em A Flor e o Espinho,
na voz de Nelson Cavaquinho.
 
 
                     Morena se acaso um dia
                     a tempestade te apanhar,
                     não foge da ventania,
                     da chuva que rodopia,
                     sou eu mesmo a te abraçar
 
Toquinho/Paulo Vanzolini em Boca da Noite, na voz de Márcia
 
 
                        Ô mulata assanhada
                     que passa com graça, fazendo pirraça,
                     fingindo inocente
                     tirando o sossego da gente
 
Ataulpho Alves em Mulata Assanhada, na voz de Elizeth cardoso, com
Jacob do Bandolim e Conjunto Época de Ouro.
 
                           Sabão, um pedacinho assim
                          A água, um pinguinho assim
                          o tanque, um tanquinho assim
                          a roupa, um montão assim
                          pra lavar a roupa da minha Sinhá
                          pra lavar a roupa da minha Sinhá
 
Nilo Chagas/Monsueto Menezes/João Vieira Filho em Lamento da Lavadeira,
na voz de Marlene.  
 
                            Ai, ai, ai Izaura
                            hoje eu não posso ficar
                            se eu cair em seus braços
                            não há despertador
                            que me faça acordar
 
Herivelto Martins/Roberto Roberti, em Izaura, na voz dos Demônios da Garoa.
 
 
                            Meu Deus eu ando com o sapato furado
                           tenho a mania de andar engravatado
                           a minha cama é um pedaço de esteira
                           E uma lata velha que me serve de cadeira
 
João da Baiana, em Cabide de Molambo, na voz de João da Baiana
 
 
                           Te  chamei de querida
                           te ensinei todos os auto-reverses da vida
                           e o movimento de translação que faz a terra girar
                           te falei que o importante é competir
                           mas te mato de pancada se você não ganhar
 
Dinho/Bento Hinoto, em Uma Arlinda Mulher, com os Mamonas assassinas.
 
 
                           Amor lá no morro
                       é amor pra chuchu
                       as rimas do samba
                       não são “y love you”
                      e esse negócio de alô
                      alô boy, alô Jone
                      só pode ser conversa de telefone
 
Noel Rosa em Não tem Tradução, na voz de Aracy de Almeida
                      

                       Eu vejo as pernas de louça da moça que passa
                       e não posso pegar
                       tô me guardando pra quando o carnaval chegar

 
Chico Buarque em Pra Quando o Carnaval Chegar, na voz de Chico Buarque
 
 
                           Sonhei toda a noite e pensei
                           nos beijos de amor que te dei
                           Ioiô meu benzinho do meu coração
                           me leva contigo, não me deixa mais não
 
Luiz Peixoto/Marques Porto/Henrique Vogeler em Linda Flor(Ai, Ioiô), na voz de Isaura Garcia.
 
 
   Então, isso é só um pedacinho da boa poesia da nossa MPB.  Aguardem o livro!

CONVITE: HUMBERTO MICHALTCHUK no BRDE

Um retratista no século XXI
O fotógrafo Humberto Michaltchuk lança neste mês a exposição “Retratos” no Espaço Cultural BRDE.
 
“Nada se compara a um rosto humano, ao olhar dos indivíduos”. É dentro desse contexto que o Espaço Cultural BRDE – Palacete dos Leões – abre as portas para o fotógrafo paranaense Humberto Michaltchuk, que no próximo dia 04 de Março, lança a exposição “Retratos”.
A mostra reúne imagens feitas nos últimos sete anos e consiste numa retrospectiva da produção do fotógrafo neste tema. “O retrato é um momento rápido que pode eternizar-se”, fala Humberto que se assume retratista, mesmo sendo esse um gênero pouco comum brde-manguerina_pr_2002.jpgna arte contemporânea. Para ele, o retrato detém um nível particular de intervenção, na relação que se estabelece entre fotógrafo e fotografado, posteriormente, entre público e a imagem resultante da troca de experiências no momento do ato fotográfico.
Com essa intenção, a exposição sugere uma pausa no mundo contemporâneo, um olhar mais atento sobre seus indivíduos, como ressalta Humberto: “Não há nada mais rico que o rosto de uma pessoa. O objetivo é fazer uma viagem pela história e pela cultura através dos rostos retratados”. Todas as obras expostas foram ampliadas pelo próprio fotógrafo, algumas cópias originais de época, em preto e branco em suporte de prata e gelatina.
 
Humberto Michaltchuk é natural de Pato Branco. Formado em fotografia e Laboratório Preto & Branco em San Diego, nos Estados Unidos. É sócio-proprietário da Prata Gelatina Fotografia & Ateliê e atua como professor em algumas instituições de Curitiba. Pós-graduado pela Universidade Cândido Mendes, do Rio de Janeiro, organizou diversos cursos e workshops, além de participar de diversas exposições individuais e coletivas. 
 
Serviço:
RETRATOS por Humberto Michaltchuk
Onde: Palacete dos Leões – Espaço Cultural BRDE –
Av. João Gualberto, 530/570
Quando: De 04 a 23 de Março de 2008
Horário de visitas: De segunda a sexta-feira, das 12h30 às 18h30
Informações: (41) 3219 – 8134
Contatos: Humberto Michaltchuk – (41) 3322-6629/ (41) 9903-3769
Marina Gallucci
Ascom – BRDE
Fone: (41) 3219.8035   Fax: (41) 3219.8020

UM CORPO BEM ENXAGUADO PERDE METADE da SUJEIRA por josé zokner

 RUMOREJANDO:

Constatação I

Dialoga,
Através de posições,
O professor
De ioga
No seu labor
Nas suas lições
Face o aumento
De transgressões
Do aluno birrento
Que merece uma soga.
Que tormento!
Que droga!

Constatação II (Esperando que Rumorejando não fique com a reputação arranhada com esse jogo de palavras).

Na vida, como no futebol,
Se perde, ou se ganha,
Também se pode empatar.
Perdendo, se esconde num aranhol*;
Ganhando, neca em papos-de-aranha**;
Empatando, pode o andamento aranhar***.
*Aranhol = “1. Lugar onde há teias de aranha, onde as aranhas se recolhem”.
**Em papos-de-aranha = “Em estado de grande preocupação e/ou pressa; em situação difícil, embaraçosa”. (Aurelião).
***Aranhar = “1. Andar vagarosamente, como a aranha. 2. Tardar, remanchar****, na execução de um serviço”.
****Remanchar = “1. Tardar, demorar-se”.

Constatação III

Rica tem malemolência; pobre, rebola.

Constatação IV

Não se pode confundir estrita com escrita, até porque, nem sempre a palavra escrita em lei, documentos oficiais, contratos pode merecer, incondicionalmente, a confiança estrita, uma vez que haverá quem dirá: “Não é bem assim”. “Depende de melhor análise”. “Há um furo na lei”. “Não ficou bem claro”. “O texto induz a dupla interpretação”. “A redação é dúbia” e coisas desse jaez. A recíproca, para esses casos ortográficos-jurídicos convictos, firmes, seguros de ordem legal, ou não, pode ser verdadeira, desde que não haja, também embutido, algum furo, falha, mau-caratismo e por aí afora…

Constatação V

Rico tem foro privilegiado; pobre, tem teto de zinco.

Constatação VI (De transcendental importância para o futuro da Humanidade).

Deu na mídia: “Príncipe Charles quer que Camila seja rainha”. Donde se conclui que: Nobre, que vai ser rei, quer que plebéia seja rainha; plebeu, se contenta que a mulher seja, apenas, não mais que apenas, rainha…do seu lar.

Constatação VII

Quando se constata tanta assim chamada autoridade sendo acusada de participar em esquemas de alguns tipos como anões, mensalões, sanguessuga, hurricane, Operação Navalha e as negaceadas e negativas dos acusados, as dúvidas levantadas pelos assim chamados protetores e defensores chega-se, mais uma vez, a conclusão de que, em certos países, os corruptos são sempre os outros…

Constatação VIII (De uma dúvida crucial. Quem souber a resposta, por favor, cartas à redação. Obrigado).

Quando Sylvester Stallone, o Rambo
Ganha uma guerra praticamente sozinho
Trata-se de empulhação, de um ditirambo*
Ou, talvez, nos querem fazer de anjinho?
*Ditirambo = “exaltação exagerada (de um fato, das qualidades de alguém); bajulação, lisonja”. (Houaiss)

Constatação IX

Não se pode confundir placebo, que o dicionário Houaiss dá como “preparação neutra quanto a efeitos farmacológicos, ministrada em substituição de um medicamento, com a finalidade de suscitar ou controlar as reações, geralmente de natureza psicológica, que acompanham tal procedimento terapêutico”, com mancebo, que o mesmo dicionário dá, como uma de suas definições, “que ou aquele que está na juventude; jovem, moço, muito embora haja muito mancebo que, diante de uma gata ansiosamente carente, se comporta como um placebo… A recíproca é como é e tá acabado. Tenho democrática e peremptoriamente dito!

Constatação X

As eternas e infindáveis juras de amor
São como promessas de candidato
Com ambas deve-se ser um acautelador
Para depois não ficar com ar estupefato.

Constatação XI (Princípio do meu grande Amigo Engº. Renato Emilio Coimbra, baseado no de Arquimedes).

“Todo corpo bem enxaguado e imerso em um líquido perde pelo menos metade da sujeira”.
E-mail: josezokner@rimasprimas.com.br
 

“OPERAÇÃO CONDOR” continua na AMÉRICA LATINA por fernanda sucupira.

Nas últimas duas décadas, a América Latina vem passando por um lento processo de redemocratização e aos poucos se recupera das ditaduras militares que durante muitos anos, com o apoio dos EUA, impuseram regimes repressivos a grande parte dos países da região. Esse período, no entanto, deixou uma herança perversa de violação de direitos humanos e de desrespeito a direitos civis e políticos que, em muitos casos, continuam ocorrendo até hoje. A prática sistemática da tortura e os constantes desaparecimentos políticos em alguns países são dois resquícios dos regimes autoritários, mas esse fenômeno não se restringe a apenas isso.

Outras formas mais institucionalizadas dessa permanência também estão presentes, como uma continuação disfarçada da “Operação Condor”. É o que denunciou, numa atividade do VI Fórum Social Mundial, o integrante do comitê executivo da Associação Americana de Juristas e ex-consultor da Unesco para a América Latina, o paraguaio Martín Almada, que vem analisando os arquivos da ditadura em seu país.

Operação Condor é nome dado à ação coordenada dos serviços de inteligência das ditaduras militares na América do Sul, iniciada em 1975, para a prisão, tortura e extermínio de militantes de esquerda principalmente no Brasil, Argentina, Chile, Paraguai, Uruguai e Bolívia. Ela incluía o intercambio de informações e de presos políticos e a possibilidade de realizar interrogatórios e torturas para além das fronteiras de cada país.

Recentemente, conta Almada, foi encontrado um documento militar de abril de 1997, em que o general paraguaio Francisco Ramón Ledezma enviava a “lista dos subversivos” do país a um coronel equatoriano encarregado de uma reunião militar em Quito: a quartel.jpgConferência do Exército Americano, espécie de rede de Forças Armadas da qual participam diversos países da região. A Conferência realiza reuniões periódicas, como as que ocorreram na Argentina, em 1995; na Bolívia, em 1999; e no Chile, em 2001. Chamado pela Justiça paraguaia para prestar esclarecimentos sobre o documento, o tenente Ledezma revelou que a Conferência do Exército Americano, instância criada pelos EUA, em 1961, estava elaborando uma relação completa dos subversivos da América Latina.

Pela lista encontrada, são considerados subversivos os sem-teto, os sem-terra, os defensores de direitos humanos e os jornalistas que fazem matérias investigativas, entre outros. “Atualmente os exércitos da região estão registrando, controlando e assassinando esses grupos. Os índices de assassinato de jornalistas na América Latina, por exemplo, são muito elevados. Isso é preocupante. Por isso dizemos que o condor segue voando, sob o controle dos EUA”, afirma Almada, referindo-se à ave que habita a Cordilheira dos Andes e dá nome à antiga Operação. À luz dos arquivos do terror do Paraguai, segundo ele, verifica-se que as atividades criminais da Operação Condor ainda não terminaram com o fim das ditaduras militares, como seria de se esperar.

Foi encontrado também um documento considerado bastante importante, no qual um general brasileiro diz a Pinochet para enviar pessoas para se formarem em repressão no Brasil, em Manaus, “onde existiu ou segue existindo um centro de tortura”, revela o jurista paraguaio. “É preciso saber a verdade para que atue a justiça e sejam castigados os militares responsáveis pelos crimes. A partir do governo de Bush, e sobretudo depois do ataque de 11 de setembro, essa situação piorou porque ele levantou a guerra ao terrorismo e são terroristas para ele as pessoas que amam a democracia e a liberdade, a justiça social. Bush globaliza o terrorismo de estado e os executores desse programa são os militares”, avalia.

DESAPARECIDOS POLÍTICOS

Desde os anos 60, há registro de aproximadamente 120 mil desaparecidos políticos na América Latina, sendo a Guatemala o país que concentra o maior número de casos (45 mil), seguida por Argentina (30 mil), Haiti (12,5 mil) e Nicarágua (10,5 mil). Ainda que tenha sido bem mais freqüente no período das ditaduras militares que atingiram grande parte dos países nessas últimas quatro décadas, esse crime de lesa humanidade continua acontecendo cotidianamente em diversos locais. Hoje, o maior problema ocorre na Colômbia, onde desaparecem a cada dia de duas a quatro pessoas, em geral lutadores sociais, sindicalistas, campesinos, integrantes de partidos políticos. Há ainda as desaparições massivas, de comunidades completas que são torturadas e assassinadas.

Os dados oficiais colombianos apontam para 7,5 mil desaparecidos desde a década de 80, mas a Associação de Familiares de Presos Desaparecidos da Colômbia (Asfaddes) acredita que o número real pode chegar ao dobro disso, atingindo 15 mil vítimas, já que há um medo generalizado de denunciar, por conta de freqüentes ameaças, perseguições e deslocamentos forçados no país gerados pelo conflito armado. Os responsáveis por esse crime são muitas vezes representantes do Estado ou dos paramilitares. Até mesmo integrantes da Asfaddes estão na lista dos desaparecidos e a organização é alvo de investigações e perseguição por parte do serviço de inteligência de Medellín, já tendo sido descobertas inclusive interceptações telefônicas.

De acordo com Gladis Avila, representante da Asfaddes, as duas últimas décadas foram de total impunidade em relação a esses crimes, por mais que tenham sido apresentadas provas concretas da participação de membros do Estado, totalmente ignoradas ou que conseguiram apenas a exoneração deles. “O governo de Álvaro Uribe tem um compromisso com os paramilitares, tanto que acaba de ser aprovada a lei de Justiça e Paz, que para nós é a lei da impunidade, do perdão e do esquecimento. Ela termina premiando os autores desses crimes e condenando as vítimas”, avalia Gladis. A lei a que ela se refere, aprovada em 2005, estabelece vantagens processuais a membros de grupos armados ilegais que aceitem se desmobilizar, entre elas a redução das penas e restrições a investigações dos crimes cometidos por eles.

Essa nova legislação, que pretende facilitar a negociação entre o governo e os paramilitares, tem sido alvo de severas críticas de diversas organizações colombianas e internacionais porque pode significar uma espécie de anistia aos grupos armados, que vêm cometendo grandes violações de direitos humanos, como desaparecimentos políticos, massacres e deslocamentos forçados. Por conta disso, elas entraram na Justiça com uma ação de inconstitucionalidade contra ela. “Consideramos que o mais nefasto que poderia se passar ao país foi a aprovação dessa lei e esperamos que a Corte Suprema de Justiça a derrube”, defende a representante da Asfaddes.

Essa situação de completa impunidade em relação a desaparecimentos políticos, torturas e assassinatos políticos não ocorre apenas na Colômbia, mas percorre toda a América Latina, principalmente em relação aos crimes que ocorreram nas ditaduras militares. Os familiares das vítimas, no entanto, continuam lutando por verdade e Justiça. “Nossa reparação não é econômica, é moral e política”, afirma a mexicana Judith Galarza Campos, secretária executiva da Federação Latino Americana de Associações de Familiares de Detidos Desaparecidos (Fedefam). “Não queremos que ninguém no mundo volte a passar pelo que passamos, só quando for feita justiça esses horrores deixarão de acontecer”, diz.

RESPONSABILIDADE DOS EUA

Segundo a secretária executiva da Fedefam, a situação da Colômbia e de outros países é, em grande medida, conseqüência do imperialismo norte-americano, que financia e promove toda sorte de violações de direitos humanos para conseguir dominar os povos.

Um exemplo disso é o caso do ex-agente da CIA e terrorista Luis Posada Carriles, autor do atentado a um avião cubano, em 1976, que matou 73 pessoas, e acusado de diversos outros crimes, entre eles duas tentativas de assassinar Fidel Castro e seu envolvimento no assassinato do chanceler chileno Orlando Letelier, em Washington, no mesmo ano, como parte da Operação Condor. Carriles foi preso na Venezuela, no início dos anos 1980, fugiu da cadeia em 1985 e reapareceu ilegalmente nos EUA no ano passado, onde foi detido como imigrante ilegal. A Suprema Corte americana, entretanto, negou o pedido do governo da Venezuela de extradição do terrorista cubano naturalizado venezuelano, contrariando acordo entre os dois países.

Além disso, foram os próprios Estados Unidos que treinaram grande parte dos militares latino-americanos responsáveis por atrocidades cometidas atualmente e ao longo da história recente desses países. Esse treinamento de alguns dos maiores violadores de direitos humanos na região ocorreu na Escola das Américas, instituição do governo norte-americano, cujos manuais ensinavam técnicas de tortura, extorsão, intimidação psicológica e execução, instruindo seus alunos a ter especial atenção a sindicalistas e outros lutadores sociais.

Criada em 1946, no Panamá, ela formou mais de 60 mil soldados de diversos países do continente, em 1984, foi levada para o Fort Benning, no Estado norte-americano da Geórgia, e só em 2000 foi oficialmente fechada, como resposta às críticas que vinha recebendo. Foi substituída então pelo Instituto do Hemisfério Ocidental para a Cooperação de Segurança (WHINSEC, em inglês), que, na verdade, não modificou muito a natureza dos cursos oferecidos. “Os homens treinados na Escola das Américas hoje não são só militares. Muitos estão envolvidos no crime organizado, no narcotráfico ou são donos de empresas de segurança privada”, denuncia Judith.

A argentina Nora Cortiña, uma das fundadoras do movimento das “Mães da Praça de Maio”, que em meio à ditadura militar na Argentina reuniu mulheres exigindo do governo informações sobre o paradeiro de seus filhos desaparecidos, concorda que os EUA têm grande responsabilidade nesses crimes, por isso, defende o não pagamento da dívida externa. “Muitas pessoas dizem ‘como as mães da Praça de Maio se politizaram, agora falam da dívida externa’, mas é um problema que afeta todos os povos. Queremos que essa dívida não seja paga porque ela custou sangue, mortes, torturas, desaparecimentos, perseguições. Só devemos pagar dívidas legítimas, não essas contraídas à base de corrupção, morte e exploração do nosso povo. Também lutamos contra a militarização da região, que leva o terror a diversos países. Não queremos essa dominação”, diz.

OS LIVROS PROIBIDOS do SÓTÃO por viegas fernandes da costa

 

“Ouvir minha dona sempre ler a Bíblia em voz alta despertou minha curiosidade em aprender. (…) Num período de tempo incrivelmente curto, com seu generoso auxílio, dominei o alfabeto e consegui soletrar palavras de três ou quatro letras. Meu senhor proibiu-a de me dar mais instrução… [mas] a determinação que ele expressou em me manter na ignorância apenas me deixou mais decidido a buscar compreensão. No aprendizado da leitura, portanto, não sei se devo mais à oposição de meu senhor ou ao generoso auxílio de minha amável senhora.”
Frederick Douglass1

Farehnheit 451

Dom Quixote enlouqueceu, e não é por acaso que o primeiro livro que o bombeiro Montag encontra na casa de um “leitor subversivo”, em cena do filme “Fahrenheit 451”, é justamente a história do “Cavaleiro da Triste Figura”, de Cervantes – o mesmo livro banido do Chile em 1981 pela Junta Militar comandada pelo general Pinochet2. Na utopia futurista retratada pelo diretor francês François Truffaut neste seu clássico de 1966, os livros devem ser queimados porque provocam a infelicidade. Segundo o personagem Montag, livros são lixo, são perigosos porque perturbam as pessoas e as tornam anti-sociais. Já o Capitão dos Bombeiros amplia esta visão nociva sobre a leitura, afirmando que os livros tornam as pessoas “diferentes”, e diferença é tudo que não se deseja em uma sociedade totalitária.

Alberto Manguel escreve que “como nenhuma outra criação humana, os livros têm sido a maldição das ditaduras. Os poderes absolutos exigem que todas as leituras sejam leituras oficiais; em vez de bibliotecas inteiras de opiniões, a palavra do governante deve bastar.”3. A sociedade retratada em “Fahrenheit 451” constitui-se como uma metáfora das ditaduras, potencialmente do império soviético, que polarizava sua influência econômica, ideológica, política e bélica com os Estados Unidos naquilo que a história convencionou chamar de Guerra Fria. A década de 1960, período em que este filme foi produzido, notabilizou-se pela consolidação de diversos regimes ditatoriais, com ideologias tanto à esquerda quanto à direita, em diversos países do mundo, incluindo-se o Brasil, cujo golpe de 1964 deu início a longos 21 anos de governo militar e de censura prévia da imprensa e das manifestações culturais.

Também Sijie Dai vai falar de leituras clandestinas e perigosas em seu filme “Balzac e a costureirinha chinesa”, de 2002, que conta a história dos amigos Luo e Ma, dois jovens estudantes chineses que serão enviados para o interior do país a fim de passarem por um programa de reeducação ideológica. Após a Revolução Cultural chinesa, e a implementação da ditadura Maoísta, a cultura ocidental é tratada como elemento a ser banido do Império, e teremos então o “Fahrenheit” chinês interditando livros de autores ocidentais ou qualquer outro que viesse de encontro aos ideais de Estado propugnados pelo Comitê Central do Partido Comunista. No interior, e trabalhando como camponeses, Luo e Ma descobrem uma mala contendo diversos livros de autores como Flaubert e Balzac. A leitura secreta destas obras irá transformar o sentido de vida dos dois amigos, bem como de uma personagem feminina, a filha de um importante alfaiate local, que passará a conhecer um outro mundo a partir dos romances que os dois amigos lêem para si.

“Fahrenheit 451” e “Balzac e a costureirinha chinesa” não são os únicos filmes que trabalham com o tema das leituras clandestinas, porém são aqui citados porque explicitam duas das três categorias de leitores apresentadas por Alberto Manguel, a saber:

a) leitores autoritários: aqueles que impedem os outros de ler;
b) leitores fanáticos: decidem o que pode e o que não pode ser lido;
c) leitores estóicos: que se recusam a ler por prazer.4

No filme de François Truffaut vemos retratado o “leitor autoritário”. É função dos bombeiros salvar as pessoas da infelicidade, queimando todos os livros. Em “Fahrenheit 451” ninguém pode ler, mas alguns lêem, clandestinamente, e na impossibilidade de ler, há aqueles que decoram livros e os guardam na memória, de onde não poderão ser retirados pela força do Estado – são os “homens-livro”. Já Sijie Dai retrata o “leitor fanático”. Na China de “Balzac e a costureirinha chinesa” há livros permitidos, como o “Livro Vermelho” de Mao Tsé Tung, leitura não só desejada, mas obrigatória, e os livros ocidentais, que retratam “valores burgueses” e “contra-revolucionários”, portanto proibidos.

“Leitores autoritários” e “leitores fanáticos” são recorrentes na História, e surgem com muita força na literatura e no cinema. Em 1980 Umberto Eco publica seu romance “O nome da rosa” (também transposto para o cinema em título homônimo). Na história de “O nome da rosa” teremos mais um exemplo de “leitores fanáticos”. O enredo se passa no interior de um mosteiro beneditino medieval, famoso por abrigar uma das mais famosas bibliotecas da cristandade, cujo acesso aos livros era restrito e permitido somente quando autorizado pelo bibliotecário chefe. Nesta ficção, diversos monges morrem depois de lerem o segundo volume da “Poética” de Aristóteles, dedicado ao riso, cujas bordas das páginas estavam envenenadas. O veneno é a metáfora dos riscos representados por determinadas leituras para uma Igreja Católica que se constitui a partir da segunda metade da Idade Média. Cabia à Igreja zelar pela alma dos seus fiéis, impedindo-lhes o acesso a leituras que pudessem abalar a fé e desviar o crente do caminho imposto pela Igreja. O catolicismo do ocaso da Idade Média e de boa parte da modernidade é o catolicismo da mortificação do corpo e da expiação pelo fogo. É o catolicismo dos Tribunais do Santo Ofício e do “Index Librorum Prohibitorum”, relação de livros proibidos editada entre 1559 e – pasmem! – 1966. No entanto, toda esta interdição aos livros não impede a prática das leituras clandestinas, como nos mostra o historiador italiano Carlo Ginzburg, em seu livro “O queijo e os vermes”. Nesta obra da historiografia italiana vamos conhecer a história do moleiro friulano conhecido como Menocchio, julgado e condenado pela Inquisição católica no século XVI por ter criado uma interpretação heterodoxa da Teologia cristã. Acreditava, por exemplo, que o mundo surgiu do caos, “isto é, terra, ar, água e fogo juntos, e de todo aquele volume em movimento se formou uma massa, do mesmo modo como o queijo é feito do leite, e do qual surgem os vermes, e esses foram os anjos (…) e entre todos aqueles anjos estava Deus, ele também criado daquela massa”5. Menocchio chama a nossa atenção justamente porque era uma pessoa ligada aos setores mais populares da sua sociedade. Era alfabetizado, tinha certo grau de instrução e chegou a ocupar os cargos de magistrado e administrador da sua aldeia, o que não significa que gozasse de grande ilustração. No entanto, teve acesso a alguns livros, todos em língua vulgar, e a maior parte deles lhe foram emprestados, e aqui temos um aspecto que nos interessa. Ao se deparar com a história deste moleiro do século XVI que ousou interpretar o mundo a sua maneira, Carlo Ginzburg descobre que, apesar de todas as interdições ao livro, e do alto custo econômico do mesmo, existia “uma larga rede de circulação que envolve não só padres, mas até mesmo mulheres (…)”, e que “para essas pessoas o livro fazia parte da experiência comum: era objeto de uso, tratado sem muitos cuidados, exposto ao risco de se molhar e desfazer”6. Livros circulavam, portanto, clandestinamente, passados de mão em mão, lidos em grupo em um tempo em que quase todos eram analfabetos e, pior, além de lidos podia ser interpretados. Daí a grande heresia de Lutero ao traduzir a Bíblia para o alemão: o poder de interpretar a palavra de Deus deixaria de ser privilégio da Igreja, como o foi no caso de Menocchio: “mais do que o texto, portanto, parece-nos importante a chave da sua leitura, a rede que Menocchio de maneira inconsciente interpunha entre ele e a página impressa – um filtro que fazia enfatizar certas passagens enquanto ocultava outras (…)7.

No Brasil Marisa Lajolo e Regina Zilberman estudaram as irrupções das leituras clandestinas nas obras de autores clássicos da literatura brasileira do início do século XX 8, como Graça Aranha, Raul Pompéia, José Lins do Rego entre outros. Autores que, quando jovens, freqüentaram colégios internos que lhes impunham leituras obrigatórias e, na lógica do “leitor estóico”, conforme Alberto Manguel, interditavam leituras que remetessem ao lazer, à fantasia e ao prazer. Interdição burlada com a circulação clandestina de romances franceses que iam de Molière a Júlio Verne, materiais pornográficos e histórias em quadrinhos. Segundo as autoras, “o fato de incendiarem a imaginação explica e reforça a clandestinidade dessas leituras, que pouco ensinam de prático, mas que provocam consumo contínuo”9. A literatura a ser estudada devia ser “coisa séria”, que ensinasse algo prático e reforçasse valores morais. E é neste contexto do “leitor estóico” que quero inserir minha experiência enquanto autor e, principalmente, leitor. Assim como os autores estudados por Marisa Lajolo e Regina Zilberman, e apesar de não ter estudado em colégio interno na minha infância, também me submeti às práticas do “leitor estóico”, e também burlei suas regras.

Os livros do sótão

Na crônica “Pangaré dos tempos”10 falo da adolescência vivida no início da década de 1990 na casa dos meus avós maternos, em Blumenau, município do interior catarinense e de colonização notadamente germânica. Eram estes meus avós também descendentes de alemães, luteranos engajados, de origem humilde e semi-alfabetizados. Talvez o perfil ajude a entender a relação que se estabelecia com a cultura letrada naquela casa. Tiveram seis filhos, quatro homens e duas mulheres, todos educados na fé protestante, e os homens, especialmente, incentivados a seguir faculdade (às mulheres bastava o ensino médio), o que aconteceu com três deles: Direito, o mais velho; Teologia, o segundo; Ciências Sociais, o caçula. Também cada um deles educou-se em algum instrumento musical, incluindo-se aqui as mulheres: violino, órgão, flauta doce, acordeão. Para a família dos meus avós maternos, incentivar os filhos a se apropriarem dos bens culturais significava incorporar uma nova condição social a sua história familiar. Meu avô era pedreiro, minha avó dona-de-casa, mas ostentavam filhos “doutores”. Isto significava uma casa com muitos livros e revistas cuja leitura orgulhava e provocava temor, paradoxo que acompanhou minha avó até sua morte. Quando passei minha adolescência na casa dos meus avós, seus filhos já não moravam mais lá, porém muitos livros, revistas, fotos e jornais estavam guardados no sótão, e o acesso a eles era algo restrito, quando não proibido:

Novamente a lembrança do velho sótão onde morava meu quarto; a casa, uma mansarda que abrigava nos cantos do telhado pequenos depósitos de coisas velhas dos tempos de juventude dos meus avós e tios. Quartinhos quentes e escuros, teto baixo e inclinado, onde investia horas e horas das minhas adolescentes tardes de ócio fuçando naquelas malas… Sim, aquelas malas de madeira, enormes, empilhadas no fundo do quartinho. Afastava as telhas para que o dia pudesse clarear os seus segredos: antigas cartilhas e cadernos escolares, as revistas Cruzeiro, as primeiras edições das Seleções e o número um da Manchete, traças, muitas traças, e os enormes negativos das fotos tiradas na antiga “América Box” – quem seriam os personagens nas imagens desbotadas e nunca mais reveladas? Então… também as cartas, de amor, de paixão, escritas em alemão e péssima caligrafia de homem do campo – meu avô – semi-alfabetizado , empilhadas a um canto, ao lado dos postais, das revistas em quadrinhos e dos almanaques de farmácia com suas propagandas de xaropes e laxantes. Ah… os almanaques! Neles descobri: como sofriam de sífilis os castos homens de antanho! Sífilis e prisão de ventre, que o digam os tantos anúncios! Mas como a casa, também este tesouro particular que escavavam meus olhos e mãos em segredo – proibida que era esta arqueologia pelo zelo de um passado desejado morto que cultivava minha avó – foi perdido na rapinagem familiar. Muito acabou no lixo reciclável, o que sobrou, sumiu. Ficaram mesmo foram estas lembranças de um arqueólogo mirim escavando o passado da família e o sentimento de sacrilégio: o devassar dos segredos esquecidos, das vergonhas escondidas. Naqueles quartinhos descobri o fascínio que o antigo exercia sobre mim, e me deixei seguir atrás dos ácaros, traças e manchas de mofo. E também nisto aqui estamos. Quixotescamente, sim, também nisto aqui estamos!11

Além destes materiais que encontrei nos cantos do sótão, havia também em meu quarto um velho guarda-roupa abarrotado de livros e com as portas sempre fechadas à chave. Abrir secretamente aquelas portas, depois de furtar a chave que minha avó escondia em seu quarto, para poder acessar aqueles livros proibidos, é lembrança que me excita até hoje, e que talvez tenha contribuído para o fetiche que o livro exerce sobre mim. O fato é que tais livros, apesar de interditados, não eram destruídos; por quê?

Uma das lembranças mais antigas de leitura clandestina que preservo, é a dos meus tios lendo em secreto gibis de Walt Disney no início da década de 1980. Seus insistentes pedidos para que eu não falasse das revistas para a “Oma” – forma como chamávamos minha avó – despertou na criança que eu era o entendimento de coisa proibida. Meus avós entendiam que gibis e outras formas de literatura que não aquelas indicadas pela Igreja Luterana ou que ensinassem coisas práticas, desviariam a atenção do trabalho, da vida útil, além de produzirem idéias erradas e moralmente perigosas. Também acreditavam que ler demais poderia enlouquecer a pessoa, a mesma crença afirmada pelo padre à família de Dom Quixote para explicar os desvarios do contumaz leitor das novelas de cavalaria. No entanto, havia uma sacralização do texto impresso, principalmente em seu suporte livresco, e por isso a necessidade da sua preservação. Até porque uma casa cheia de livros testemunhava que apesar das origens da família, e do ofício do meu avô, ali havia uma família diferente, letrada e que por isso deveria ser respeitada. E foi esta relação paradoxal com a literatura que me obrigou a afastar telhas e furtar chaves para acessar o texto que me interditavam na adolescência. Se estas interdições a determinadas leituras contribui (como o afirma para a sua vida o escritor estadunidense Frederick Douglass na epígrafe que abre este pequeno ensaio) para a minha formação de leitor e autor, é coisa que não posso afirmar; mas certamente posso dizer que contribuiu para despertar em mim o fetiche pelo impresso e o entendimento de que textos poderiam guardar segredos importantes.

Daquilo que pretendi

Neste breve ensaio procurei mostrar, a partir da categorização de leitores apresentada por Alberto Manguel e do trabalho desenvolvido por Marisa Lajolo e Regina Zilberman a respeito das leituras clandestinas em alguns escritores brasileiros, como a literatura, o cinema e a historiografia apresentam a interdição à leitura em suas diferentes formas, e de como estas interdições não se limitam apenas a um projeto político totalitário, mas se perpetuam na história e se misturam às práticas e imaginário das pessoas. Que estas interdições criam também estratégias de transgressão e contribuem para o fortalecimento da fetichização não só do objeto “livro”, mas da cultura letrada enquanto um todo. E, por fim, entender como nossa experiência pessoal com a leitura insere-se, também, neste debate, contribuindo com ele.

Referências bibliográficas
– Cervantes Saavedra, Miguel de. Dom Quixote de la Mancha. Tradução por Viscondes de Castilho e Azevedo. São Paulo: Abril Cultural, 1978.
– Costa, Viegas Fernandes da. Pangaré dos tempos. Cronópios, http://www.cronopios.com.br/site/prosa.asp?id=291 , 25 jun. 2005.
– Eco, Umberto. O nome da rosa. Tradução por Aurora Fornoni Bernardini e Homero Freitas de Andrade. Rio de Janeiro: O Globo; São Paulo: Folha de S. Paulo, 2003.
– Ginzburg, Carlo. O queijo e os vermes: o cotidiano e as idéias de um moleiro perseguido pela Inquisição. Tradução por Maria Betânia Amoroso. São Paulo: Companhia das Letras, 1987.
– Lajolo, Marisa & Zilberman, Regina. A formação da leitura no Brasil. São Paulo: Ática, 1996.
– Manguel, Alberto. Uma história da Leitura. Tradução por Pedro Maria Soares. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.

Filmografia
– Dai, Sijie (Dir.). Balzac e a costureirinha chinesa. 2002.
– Truffaut, François (Dir.). Fahrenheit 451. 1966.

Notas
1 – Frederick Douglass (1818-1895), pseudônimo de Frederick Augustus Washington Bailey. Escritor estadunidense, nascido escravo. Fundou diversos periódicos políticos e defendeu ideais abolicionistas. A epígrafe citada consta da sua autobiografia e foi citada em: Manguel, Alberto. Uma história da leitura, (1997), p. 313.
2 – Alusão ao personagem Dom Quixote, de Cervantes Saavedra, Miguel de. Dom Quixote de la Mancha, [1978].
3 – Manguel, Alberto. Idem, p. 315.
4 – Ibidem, p. 322.
5 – Ginzburg, Carlo. O queijo e os vermes, 1987, p. 46.
6 – Ibidem, p. 85.
7 – Ibidem, p. 89.
8 – No capítulo Leituras Clandestinas, A formação da leitura no Brasil, 1996, p. 218-233.
9 – Ibidem, p. 227.
10 – Publicada na revista eletrônica Cronópios em 25 de junho de 2005.
11 – Ibidem.

NO BAR do BIGODE, BH por darlan cunha/mg

Somos, os homens, um somatório de imaginações espúrias, simplistas, repetidas à exaustão, quando se trata de mulheres (sim, no plural). Para nós, toda mulher está disponível, dá, dão o consentido e, com algum esforço, o inconsentido. Os homens ocos e seus tocos de vela. Palavreiros de todas as horas, hordas de palhaços, macaqueantes figuras perdidas entre o eco da finitudede e os fios de alguma tara que, certamente, os levará de cara ao barranco da solidão (Põe álcool nisso, masturbação ! Recicla esta água, choro das madrugadas ! Escorre para lá o teu negrume, insônia !)
**
Ainda ontem, após muitos anos, encontrei um conhecido – um tolo –, com dois casamentos fracassados às costas. Desses que, quando se sentam num boteco (sempre em cadeiras no passeio), não sossegam, enquanto não se entopem de graçolas e ecoam gestos acerca disso e daquilo que fizeram com uma e com outra, e também o que fariam com a vizinha que acaba de passar dirigindo, ou seja, são daqueles que “falam mais do que puta na chuva, de madrugada”.
**
No bar se pode encontrar retificações e ratificações variadas, e logo me lembrei que o povo chinês está comemorando o ano novo – ano do rato (shu), ano 4706 -, o qual lhes sugere abundância. No bar, gatos e ratos abundam. Ovíparos, ovívoros, onívoros se locupletam. Por isso mesmo fiz esta analogia entre a abundância e a escassez de miolos em tipos assim: sempre tensos atrás do que nunca conseguirão: a intimidade (psique ou discernimento) de uma mulher.
**
Compare: aoristo e oaristo.
**
Sim, os homens ocos, cobrindo de camas os prados. Jardim, cinzas.

INCRÍVEL, o cérebro – pela editoria

De aorcdo com uma peqsiusa   de uma

uinrvesriddae ignlsea,   não ipomtra em qaul

odrem as   Lteras de uma plravaa etãso,   a

úncia csioa iprotmatne é que  a piremria e

útmlia Lteras etejasm  no lgaur crteo. O rseto

pdoe ser  uma bçguana ttaol, que vcoê anida

pdoe ler sem pobrlmea. 

  Itso é poqrue nós não lmeos   cdaa Ltera

isladoa, mas a plravaa   cmoo um tdoo.  

 Sohw de bloa.

ao-cerebro-cerebro.jpg 
Fixe seus olhos no texto abaixo e deixe que a sua  mente leia corretamente o que está escrito.


 35T3 P3QU3N0 T3XTO 53RV3 4P3N45 P4R4 M05TR4R COMO NO554 C4B3Ç4 CONS3GU3 F4Z3R CO1545 1MPR3551ON4ANT35! R3P4R3 N155O! NO COM3ÇO 35T4V4 M310 COMPL1C4DO, M45 N3ST4 L1NH4 SU4 M3NT3 V41 D3C1FR4NDO O CÓD1GO QU453 4UTOM4T1C4M3NT3, S3M PR3C1S4R P3N54R MU1TO, C3RTO? POD3 F1C4R B3M ORGULHO5O D155O! SU4 C4P4C1D4D3 M3R3C3! P4R4BÉN5!  

meux amiguinhux tão disaprendenu a ixcrever – por jaciara carneiro

Em termos de boa escrita no nosso idioma, não sou “sequer digna de desatar as sandálias” de um Luis Fernando Verissimo, e, portanto, não tenho autoridade para criticar a redação de ninguém.

Entretanto, em “zapeadas” por blogs de diversos portais hospedeiros (Weblogger, Blogger, Zip.Net, entre outros), tenho ficado abismada com os maus tratos sofridos pela Língua Portuguesa. Os carrascos cibernéticos do nosso idioma são em sua maioria “blogueiros” computador-meninoestudantes-usando-computadores-escola-computador-laboratorio-73013870.jpgem idade escolar (muitos deles, prestes a prestar vestibular) ou já cursando uma faculdade.

É fato que a rapidez e o poder de síntese exigidos pela comunicação on line fazem com que, aos poucos, vamos “desaprendendo” a escrever as palavras por extenso. Eu mesma cometo esse cacoete, principalmente ao me comunicar através de programas de mensagens instantâneas. Não raro, me pego usando atalhos tais como: vc, ñ, enqto, msg ou finde. Também é fato que a Internet faz com que o galicismo finque cada vez mais estacas no coração do “Português Brasileiro” (a própria palavra blog é o exemplo mais atual disso).

Porém, ver a garotada postar em seus blogs aberrações como ti adolu, quelidu e meux amiguinhux, é preocupante. Como será que esse pessoal vai encarar processos de seleção a emprego que requerem provas de redação? E os professores que corrigem as redações dos vestibulares? É certo que sempre tiveram muito trabalho, mas, atualmente, este deve estar sendo redobrado, dada a ampla difusão, entre os jovens internautas, do “escrevo-como-falo”.

Penso que, para ajudar a combater esse problema, deveria ser realizado um esforço de “educação de base”: nas escolas em que os alunos tenham poder aquisitivo para manter blogs, poderia ser feito um concurso para aquele escrito com menos erros de Português. Não seria nem questão de verificar se o aluno blogueiro sabe escrever de forma articulada: apenas seria avaliada a capacidade de ele “postar” respeitando regras mínimas de ortografia e concordância.

Já nas escolas em que os estudantes tenham poucas oportunidades de acesso à Internet – geralmente fornecidas dentro da própria instituição de ensino -, tal concurso poderia contemplar o fanzine (outro galicismo aqui!) ou o mural / cartaz com menos erros de escrita.

Enfim, acredito que medidas simples e de baixo custo podem incentivar a garotada internauta a se interessar pelo uso correto da nossa língua. No entanto, é evidente que, para que tais ações sejam levadas a termo, são fundamentais a boa vontade e o envolvimento de pais e professores – e, logicamente, um razoável conhecimento das regras do nosso idioma por parte destes, coisa que já não é lá muito corriqueira entre os adultos de hoje.

MULHERES TRAÍDAS por joanna andrade / miami.usa

Como se traição fosse somente o homem sair com outra(s) apenas.
Quando a mentira , a falsa ideologia, a palavra que não é cumprida, as calúnias contadas aos amigos, a falta de tolerância, a falta de valoração se passam por verdades?????
Apesar de tudo ainda há amor?
Quantas vezes ha de se dar a face do rosto para bater?
Quantas vezes as portas serão batidas e trincarão os corações?
Quantas vezes as chaves serão trocadas por falta de confiança?
Até quando os homens poderão errar mais com a desculpa de que sair com outra mulher é a pior coisa que poderia acontecer?
Quantas outras coisas erradas pelas costas são feitas todos os dias?
A falha de caráter está na educação social emocional de seu povo.
A musica não pode parar, a vida há de continuar nessa baladinha de sexo drogas e rock and roll?
Não quero ser cúmplice dessa idiotice alheia a mim.
As mulheres e os homens precisam quebrar esses padrões impostos pela sociedade, caso contrario viverão sofrendo os revezes de uma sub cultura dominadora a procura de poder.
O verdadeiro amor por nós mesmos está cada vez mais difícil de ser encontrado, vem sendo confundido com esses instintos de defesa animalescos como mostram os fatos diários.
O amor próprio só faz bem e impede que façamos ao outro o que não gostaríamos que fizessem a nós. Se conseguirmos pensar assim, muita coisa insalubre deixará de acontecer.
Por amor próprio não se mata, não se destrói, ama-se cada vez mais a vida dentro e fora de nós.

Ama o próximo como a si mesmo.

( As vezes brinco que crime passional faz bem ao ego, contratar um advogado ou um psicólogo não teria o mesmo efeito.)

EDGAR WALLACE, furioso.

o que é um intelectual? apenas um homem que descobriu alguma coisa mais interessante do que mulheres.

GLOBOCOLONIZAÇÃO por bárbara lia

Quando o tema é globalização, Frei Betto simplifica e coloca o adendo nítido do que vivemos nestes novos tempos – Globocolonização. Esta realidade é tão implícita que não dá mais para desvincular globalização de colonização, o que não acontece apenas pela via econômica, ela se processa de forma mental, através de uma postura pré-estabelecida, made in Usa. Isto lembra um poema de Fausto Wolff:
 
DOCE LAR
 
Nos anos quarenta
Quando as mocinhas
Queriam se chamar Mary
E os rapazes Joe,
Como os americanos
Escondiam bem
Os planos horríveis
Que tinham
Para os anos noventa. (1)
 
Antes era o velho oeste, belos índios sendo assassinados, diante do delírio da garotada no cinema, fiz parte destas cenas e me perdôo. Perdôo a inocência dos meus oitos anos, da aurora da minha vida, da minha infância querida que os anos não trazem mais. (2) Hoje as crianças não sabem declamar Casimiro de Abreu e sua aurora é uma jornada nas estrelas, seu astro é um super-man que salva o planeta inteiro, menos os três estrangeiros (vilões) com nítidas fisionomias árabes, ou um Rei Leão que tem como rival um Leão cruel com feições do deserto. Pílulas da mentira plantadas no dia-a-dia. Muitos morrem sem saber que não existem bandidos ou mocinhos, apenas uma Humanidade que deveria encontrar um caminho e dividir a Terra, suas fontes, mares e desertos.  Nas Leis e nas Cartas Magnas dos Países, poeticamente se propala a igualdade. Basta lançar um olhar sobre os acontecimentos para ter certeza que as Leis existem apenas na grafia, não no dia a dia. A exploração do mais fraco é gritante.
 
Os grandes laboratórios farmacêuticos utilizam africanos em seus experimentos, como se eles fossem ratos de laboratório. As grandes plantações com sementes geneticamente modificadas vicejam na pobre África, e em outros países, mais notadamente na África com a desculpa de exterminar a fome e a pobreza, breve um continente exterminado, pela AIDS, a fome, a alienação. As grandes corporações, como Nike implantam fábricas em países subdesenvolvidos, utilizando e escravizando a mão-de-obra, e uma centena de outras manobras legais, mas, totalmente desumanas, imorais, e prejudiciais ao equilíbrio global. Totalmente na contramão de todos os Grandes Sonhos dos Grandes Homens, que parecem a cada dia, mais extintos – tantos os sonhos, quantos os homens.
A colonização enraizada, aquela que citei – a mental – que se fixa em eternidade nos costumes e desejos e sonhos de consumo.
 
Não surgem pacificadores – como Gandhi – um líder que consiga alterar a rota da Humanidade. Ninguém tem força ou voz para fazer retroceder o caos, re-estabelecer os acordos, aqueles que floriram ao final da Segunda Guerra. Que não veríamos mais campos de concentração. E eles existem e somados a eles um número imenso de refugiados pelo mundo inteiro, sem lar, sem pátria.
 
Em uma palestra, Adolfo Pérez Esquivel – Prêmio Nobel da Paz – contou sobre sua ida a Bagdad, e de que foi chamado a uma outra cidade do Iraque. E ele foi ver com seus olhos o apocalipse. Um galpão e muitas famílias abrigadas, e enquanto as mães saíram para lavar a roupa e buscar uma forma de abastecer os filhos um míssil americano atingiu o abrigo e seiscentos meninos e meninas iraquianas foram mortas. Não me recordo de uma notícia sobre seiscentas crianças iraquianas mortas, não se propala como a morte de um único soldado americano.
 
Em março deste ano me vesti de verde e fiz a cobertura do evento da ONU sobre biodiversidade que aconteceu em Curitiba. No coração do evento pude perceber como se definem os rumos da História do Mundo, os caminhos. Quem barra interesses mundiais, humanitários e primordiais. Os não signatários do Protocolo de Cartagena fazendo o seu lobby, que resultou em adiar por mais seis anos acordos que ajudariam a amenizar a rota da degradação, mesmo sabendo, após um relatório que a ONU encomendou a 1.300 cientistas do mundo inteiro, que se não determos a agressão ao Meio Ambiente, o Planeta Terra entrará em colapso dentro de trinta anos. Isto focando apenas a questão do Meio Ambiente, e deve ser assim, em cada setor em escala mundial, um retrocesso à evolução do homem como Ser, como o Centro, única forma de evitar o dano, a deterioração de uma raça inteira.
 
Como membro voluntário da Anistia Internacional, em alguns dias se materializa em minhas mãos aquela pequena vela branca, símbolo da Anistia, cercada de arames farpados ferindo as mãos em teclas eriçadas, nesta tarefa de tentativa de ajudar os que lutam pelos Direitos Humanos. Única que posso realizar por ser tão pobre quanto os pobres do mundo. Enviar e-mails mundo afora em nome de todos que estão presos por lutarem ainda. Tomada por certo desencanto, passeando pelos escombros do mundo, que a mídia não mostra. Ouvindo os resistentes que são tão poucos, os lúcidos que são calados pelo poder, os guerreiros do arco-íris e os médicos sem fronteiras, lavando as chagas do Universo com sua alma de água eterna. Apenas ali, nos pequenos focos de resistência se pode conhecer e se desencantar e ao mesmo tempo queimar as últimas esperanças neste rastro dos iluminados acreditando que um dia a dominação vai dar espaço à Humanidade repartida.
 
Quantos caminhos um homem deve andar até que seja aceito como homem? (3)  A globalização é uma forma de colonização, mais que econômica, ela é mental, o mundo todo é cúmplice deste momento negro da Humanidade, considerando que nenhuma voz se levanta e que todos apenas dizem seu sim.  Vamos dormir depois de uma coca-cola gelada e um enlatado americano. Os selvagens são na verdade os únicos verdadeiramente livres. Os povos da Floresta, guardiões da respiração da Terra, da água de suas veias, de toda a sua grandeza infinita. Eles se reúnem em Fóruns Indígenas de resistência à globalização econômica, vivem em comunhão com a Natureza, e são os nossos anjos neste paraíso perdido.  Enquanto os civilizados, à sombra da águia estranha se contentam em salvar a sua pele. Até amanhã, até amanhã, antes que o Sul seja sugado inteiro pelo Norte: petróleo, água, rios e florestas, e nós ocos como as crianças da Etiópia, de olhar vazado espiando o fim. Se diluindo diante da colonização mais cruel.
 
A conscientização política e até mesmo os Direitos Humanos não chega até a grande maioria da população carente, destes países subdesenvolvidos.
 
Sem acesso aos conhecimentos básicos, tendo dentro de si apenas aquela centelha de grandeza que todo ser humano tem. Poucos conseguem romper esta corrente, e trilhar uma vida que lhe permita analisar, discutir, questionar. Esta falta de conhecimento da realidade circundante, esta alienação promovida via massificação que distribui as pílulas do consumismo, via rádio, televisão, cinema. Este pensamento em bloco, de uma humanidade que vive em bloco, comunidades, cada dia mais centrados em temporalidades, sem olhar como os Grandes Homens, do alto, feito mesmo um Deus, todos os caminhos intrincados, daquilo que Borges uma vez confidenciou a sua amada Estela Canto – que ele acreditava que um homem é a Humanidade Inteira. E a globalização cortou o Planeta Terra ao meio, enquanto Deus dormia, e alguém está sugando até o fim a parte sul desta laranja, seu sangue, seu néctar imprescindível.
 
Ontem li uma frase de Mia Couto, e fiquei com esta impressão de que Deus cochilou um tempo e permitiu que a globalização se instalasse, em forma de colonização mesmo. Fiquei meditando a frase do Escritor “A terra é a página onde Deus lê” (4). Ou, talvez Deus esteja interessado em um pequeno filme de horror, ou quem sabe ele altere tudo, e se arrependa de ter colocado dentro da centelha da alma humana o livre arbítrio, quando acreditou que viveríamos ansiosamente em busca do Éden Perdido.
 
Vemos os interesses econômicos serem colocados acima de tudo. Vemos que a colonização se faz necessária para que alguns países detentores deste poderio consigam atingir seus objetivos. Sem um organismo de repressão que tenha força suficiente para barrar, nem mesmo a ONU, que nasceu dos escombros da Segunda Guerra Mundial, quando surgiu a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Ouvi uma palestra de Saramago e ele dizia que se os países obedecessem ao primeiro artigo da Declaração não haveria guerras. Mas, a ONU ignora a imparcialidade.
 
A Onu adotou como símbolo uma projeção azimutal centrada no pólo norte. Um ideal de neutralidade sem colocar nenhum país no centro, apenas o pólo norte onde só existe gelo. No entanto, o pêndulo na hora das decisões oscila e não detém a ofensiva contra os Direitos Humanos, e permite que o forte explore o fraco, invada seus territórios, aniquile tudo enquanto não cessar a fome da negra águia e seus adeptos, presos em suas penas metálicas e frias, seguindo o indiferente e cinza olhar cifrado da águia estranha.
 

*
 
1. Do livro – O pacto de Wolffenbüttel e a recriação do homem. Fausto Wolff (2.001, Bertrand Brasil)
2. Verso do poema – Meus oito anos – Casimiro de Abreu.
3. Verso de Bob Dylan  da canção –  Blowin’ in the wind –
4. Do livro – O outro pé da sereia – Mia Couto (Companhia das Letras)
 

ESPIRITISMO e CARTESIANISMO por ademário silva

A relação cartesiana com o Espiritismo é  fundamental na compreensão da lógica Kardequiana, que nos ensina que para compreendermos o que se estuda, ou seja, o objeto de pesquisa há que se partir do simples para o composto. Para conhecermos a árvore há que se conhecer a semente que é sua célula primária.
Assim como o próprio Kardec demonstra no estudo da Doutrina Espírita é preciso antes conhecer a causa para compreender os seus efeitos.
Nesse sentido podemos cogitar que o espírito é a causa da realidade que conhecemos, assim como o Universo em sua plenitude e infinitude é o efeito das emanações do Pensamento Divino. E daí com certeza derivam todos os outros fenômenos conhecidos por nós e aqueles também que se nos escapam ao entendimento ainda. 
Sabemos hoje que tudo é energia, que a própria matéria é energia condensada ou solidificada, surgida da mesma fonte que a energia do elemento espiritual. Isso nos leva também a entender que os subprodutos do fluido universal são os efeitos que podemos compreender.
E que tudo nessa infinitude e eternidade têm como útero causal a Suprema Inteligência do Universo que é Deus.
Os subprodutos que conhecemos, na ordem das descobertas ou revelações (aqui no sentido mediúnico codificante) são o corpo e o perispírito. Aliás, Moisés também vislumbrou contundentemente isso ao narrar em sua Gênese: “… que o espírito do Senhor estava em meio aos caos e ainda mais: … que Deus disse para separar os elementos por suas importâncias, utilidades e funcionalidades e disse mais: “Faça-se a luz e esta não se fez de rogada, instantaneamente obedeceu. Esse caos na verdade era a ignorância sobre ciências e matemáticas, químicas e biologias que mais tarde tirariam as cortinas de sobre o espelho, ou a luz debaixo do alqueire. Kardec nos mostra em todos os seus efeitos em a Gênese que: “… em torno de um foco inteligente se junta o fluido universal”, dando origem ao perispírito e que esse elemento sutil em suas características fisio-eletro magnéticas é pertinente a cada planeta, surgindo assim aos nossos olhos às leis de afinidade e atração compulsória ou amorável. Permitindo ao espírito uma relação íntima com a matéria.
Partindo do Velho Testamento para frente, caminhamos simplesmente do simples para o composto. Em o Novo Testamento Jesus o Cristo dá mostras outras desses fenômenos, nos incitando a compreender o quanto mais cedo, qual status espiritual a ser alcançado, quando prodigalizou ao povo suas curas e fenômenos, hoje perfeitamente explicável pela ciência espírita.
Pela força de sua mente reposicionou as moléculas da água e com seu magnetismo espiritual deu-lhe a cor e o sabor do vinho. Aqui o magnetismo aplicado pela força da vontade. E atentemos para o fato de que Jesus utiliza a água em sua simplicidade química.
Quando mergulhamos no leito da reencarnação e se nos escondemos por assim dizer nas cortinas da matéria e, pela própria natureza alcançamos a infância, pais e mestres se nos apresentam os fonemas básicos do idioma pátrio, às vezes de tão difícil assimilação, eles que serão na verdade nossos primeiros passos e degraus que nos levam a ciência e a literatura, pequenas investidas para uma aquisição maior.
Jesus ao selecionar os discípulos na verdade escolhe as sementes da boa nova, antevendo a propagação do Cristianismo nascente, por que seus ensinos germinavam dentro da consciência daqueles pescadores. Ele o Mestre afirma ainda uma vez sua humildade quando enfatiza em suas preleções: “Ninguém vai ao Pai senão por Mim.”
Um outro fenômeno que se me emociona ao racionar sobre sua causa e efeito é que os espíritos amigos e benfazejos cultivam com respeito e humildade o ensinamento do Mestre ao fluidificarem a água nas casa espíritas. Introduzindo na intimidade da mesma, também por redisposição molecular da água, o fluido magnético eivado de propriedades medicinais laboradas no seio das naturezas físicas e espiritual, que interagiram na essência do perispírito.

1.ª) Só admitir como verdadeiro o que parece evidente, evitar a precipitação assim como a prevenção;
A intuição é o conceito, fácil e distinto, de um espírito puro e atento, de que nenhuma dúvida poderá pesar sobre o que nós compreendemos.

1 – PROVA DA EXISTÊNCIA DE DEUS: descubro em mim próprio, ser finito, a idéia do infinito. Ora, como não posso ser autor dessa idéia, é necessário que o autor seja Deus e que, portanto, ele exista. Daí surge o famoso cogito ergo sum, ou seja, “penso, logo existo”.

3 – UNIÃO DA ALMA E DO CORPO: prova que a alma é distinta do corpo. Para Descartes, a alma existe e isso deveria ser o suficiente. (Jerphagnon, 1982)

1 – PROVA DA EXISTENCIA DE DEUS: os Espíritos informam a Allan Kardec que Deus é inteligência suprema causa primária de todas as coisas. Para o Espiritismo, não há efeito sem causa. Tudo enquadra-se na lei natural. Ao “Penso, logo existo” de Descartes, J. H. Pires escreve “sinto Deus em mim, logo existo”. Quer dizer, Deus não é percebido pelo pensamento, mas pelo sentimento.

3 – UNIÃO DA ALMA E DO CORPO: partindo-se de que alma e corpo são distintos Allan Kardec, com o auxílio dos Espíritos, informa-nos que o perispírito – matéria quintessenciada – é o elemento de ligação entre a alma e o corpo físico.
Assim a espiral Cartesiana manifesta enquanto base do pensamento filosófico os acordes da sintonia cultural de ordem transcendental codificado por Denizard Rivail. E aí quando enxergamos o pensamento filosófico no método cartesiano é mesmo como se estivéssemos revendo a própria filosofia espírita em sua base de concepção, vazada numa literatura mais rebuscada e meio ao largo dos ecos mediúnicos banhados na luminosidade dos Espíritos Superiores.
A cultura semeada no mundo ao tempo de nossas necessidades e na medida de capacidades compatíveis para o aprendizado e assimilação, nos permite entrever nos postulados da Doutrina Espírita que o método de ação instrutiva parte dos Espíritos Superiores, mas, precisa de canais isentos das vaidades humanas para veicular a vontade do Mestre Jesus. Assim encontramos em Kardec o pedagogo por excelência a orientação de que a mediunidade é a liga insofismável nos campos da inspiração e da intuição que se nos patenteia que a Misericórdia do Altíssimo não nos abandona, mas que busca e infiltra nos canais disponíveis a luz que a nossa capacidade de compreensão permite-nos captar. Se por um lado, por mais que busquem outras palavras, os grandes pensadores não conseguem fugir a grandes distâncias do ensino universal dos Espíritos Superiores, ou seja, à vontade de Deus ninguém escapa, por outro lado, por serem respeitados pela elite pensante, estes pensadores propagam o Espiritismo apenas por outras palavras.
A Plêiade de espíritos de Scol, chamados por Jesus para a codificação de tão profunda quanto abrangente Doutrina fincada numa trilogia transcendental entende que ela não podia mesmo ser escrita de um só fôlego, de uma mente só e muito menos ter sido desenvolvida de afogadilho.
E para que alcançasse tão vertiginosa importância, tudo foi exaustivamente selecionado, experimentado e inclusive o método, que ganha importância incomensurável a ponto de mais tarde, pela própria universalidade do ensino superior dos espíritos, das suas raízes culturais, influenciar a filosofia, o pensamento Humano, que até nem se apercebe disso nesse método utilizado a força de um veículo disseminador. Desse modo podemos compreender porque em o Livro dos Espíritos Kardec analisa e avalia aos vários sistemas e suas fragilidades do pensamentos do homem terreno. Porque em sua sábia intuição antevia os resultados dos embates.
Do mesmo modo que Jean Jacques Rousseau e Henri Pestallozi ditam-lhe as veias da pedagogia, René Descartes geometriza a base do pensamento filosófico e Hippolyte Léon Denizard Rivail transcendentaliza-lhe o método sob as doces e exigentes influências dos Espíritos Superiores.  O pensador terreno, ao longo do tempo assistiu ao bloqueio de suas rotas de fugas, que eram Av. Preconceituosa esquina com a Pré-concepção que desembocava na Praça das Vaidades em Desvarios. E hoje, quando percebemos a similaridade do método Cartesiano com o Espiritismo podemos concluir que: quanto mais o pensamento da criatura humana evoluir, mais ele se aproximará do pensamento universal, tão bem traduzido por Kardec na codificação da Doutrina Espírita. Daí a insistência do mestre para estarmos atentos a uma fé raciocinada.

FELIZ ANO NOVO em GAUCHÊS pela editoria

Que o próximo ano seja… bueno como namoro no começo. Que o sucesso… caia bem como gaucho-casal.jpgchuva em roça de milho. Que não seja… como tosa de porco: muito grito e pouca lã. Que tu fiques… contente como cusco de cozinheira. Que não fiques… contrariado como gato a cabresto. Que nestas férias tu… durmas atirado que nem lagarto. Que tu não fiques… judiado como filhote de passarinho em mão de piá.Não fiques… apressado que nem cavalo de carteiro. Que tu não fiques no próximo ano… mais assustado que véia em canoa. Que tua herança seja… mais comprida que esperança de pobre. Que tu passes a virada de ano… mais enfeitado que burro de cigano em festa. Que tu passes a virada de ano… mais faceiro que gordo de camiseta. Que tu não… sofras como joelho de freira na Semana Santa. Que tu não fiques… solito como galinha em gaiola de engorde. Que tu aprendas a… virar-te mais que minhoca na cinza. E fiques… vivo como cavalo de contrabandista. Que o próximo ano seja… mais gostoso que beijo de prima.

MARQUES de SADE e SEU PENSAR – pela editoria.

A ideia de Deus é, confesso, o único erro que não posso perdoar ao homem.

Não há outro inferno para o homem além da estupidez ou da maldade dos seus semelhantes.

Tudo é bom quando é excessivo.

A primeira lei que a natureza me impõe é gozar à custa seja de quem for.

Só me dirijo às pessoas capazes de me entender, e essas poderão ler-me sem perigo.

Quando o ateísmo quiser mártires, que o diga, o meu sangue está pronto.

A tolerância é a virtude do fraco.

Antes ser um homem da sociedade, sou-o da natureza.

Todo o universo poderia ser conduzido por uma única lei, se essa lei fosse boa.

As paixões humanas não passam dos meios que a natureza utiliza para atingir os seus fins.

É sem qualquer terror que eu vejo a desunião das moléculas da minha existência.

Nunca devemos admitir como causa daquilo que não compreendemos algo que ainda entendemos menos.

Quem sabe se não teremos de ultrapassar muito a natureza para perceber o que ela nos quer dizer?

Quando defendemos os nossos amigos, justificamos a nossa amizade.

Em vão procuramos a verdadeira felicidade fora de nós, se não possuímos a sua fonte dentro de nós.

O disse-que-disse da TV GLOBO por gilson caroni filho

O ano de 2008 ainda não conta dois meses e já vemos o aparato informativo redobrar seus esforços para intensficar uma ofensiva que tem dois alvos claros: a sua própria credibilidade e o governo Lula.

A imprensa brasileira, tal como o diabo, pode ser melhor apreciada nos detalhes. Em pequenas trucagens, direcionamento de coberturas e editorialização de textos que não disfarçam seus propósitos, a marcha batida continua. O ano de 2008 ainda não conta dois meses e já vemos o aparato informativo redobrar seus esforços para intensificar uma ofensiva que tem dois alvos claros: a sua própria credibilidade e o governo Lula. Se há paradoxo, ele é secundário para uma mídia opera na lógica dos fins que justificam os meios.

A cobertura dada pela TV Globo ao depoimento do publicitário Marcos Valério, acusado de ser o principal operador daquilo que a imprensa chama de “o esquema do mensalão”, merece um breve registro sobre o tipo de jornalismo praticado pela emissora da família Marinho.Estamos diante de um noticiário que, objetivando reforçar axiomas, abre espaço para temas repisados, subtraindo qualquer coisa que contrarie a coerência interna das premissas construídas para “explicar” crises políticas recentes. É o reforço necessário para reiterar o dogma da “infalibilidade global”.

Trata-se de um jogo de espelho que, confundindo o leitor/telespectador, busca colonizar o seu imaginário através de representações simplificadoras. É o que chamamos de persuasão pelo reducionismo. Um procedimento que tem marcado a prática narrativa do campo informativo de tal forma que, aos profissionais mais jovens, já afeitos à ideologia do jornalismo de mercado, soa com “operação técnica” admissível.

Em seu clássico Ideologia e técnica da notícia, Nilson Lage chama a atenção para dois aspectos constitutivos básicos que não devem ser esquecidos quando se busca uma definição correta da produção noticiosa: a) “uma organização relativamente estável, ou componente lógico”; e, b) “elementos escolhidos, segundo critérios de valor essencialmente cambiáveis, que se organizam na notícia – o componente ideológico”.

O telejornalismo global ilustra bem como se dá a seleção de elementos e como eles conformam proposições seqüenciadas pelos interesses políticos do veículo. Mostra, com clareza cristalina, a que estão sujeitos os que já foram condenados pelo tribunal midiático, sem qualquer direito a apelação em colunas ou editoriais.

Interrogado pela Justiça Federal, em Belo Horizonte, Marcos Valério disse, como registra a Folha de S.Paulo (2/2), que “que nunca conversou sobre empréstimos com o ex-presidente do PT, José Genoíno, nem tratou do tema com Dirceu, cuja trajetória política disse respeitar e admirar”. Não está em questão a credibilidade ou não do depoente, mas o objeto do fato noticiado.

Preferindo omitir esse trecho do depoimento, o Jornal Nacional de sexta-feira (1/2), informa que “segundo Marcos Valério, o ex-secretário-geral do PT, Sílvio Pereira, disse a ele que o ex-ministro-chefe da Casa Civil do governo Lula, José Dirceu, sabia dos empréstimos ao PT”. Mas, tal como destaca o ex-ministro em seu blog, a edição se esqueceu de um dado crucial: Sílvio Pereira nega que tenha dito qualquer coisa.

O “disse-que-disse” e a supressão de algo favorável a um desafeto político não constam das boas regras de cobertura jornalística. Corroboram mais ainda a tese que aponta para a crescente partidarização da imprensa, com destaque para a emissora hegemônica e monopolista.

É sempre bom destacar que o contexto da notícia se dá em lugar, espaço e tempo definidos. Relatos que prescindem de exigência de demonstração têm sentido no campo religioso. Quando se trata de jornalismo, é procedimento ideológico tosco. E de eficácia duvidosa. Temos um longo ano pela frente. A militância das redações não precisa de manuais.

 Gilson Caroni Filho é professor de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), no Rio de Janeiro, e colaborador do Jornal do Brasil e Observatório da Imprensa. 

PATIFES ILUSTRES X 22 MILHÕES por walmor marcelino

O fato e o fiat? Um programa de obras que opôs o governo à nação. A nação de todos os nacionais (exceto a elite política e as oligarquias brasileiras) representados por moradores do semi-árido nordestino (912 mil km2) e abrangendo (não albergando) 22 milhões de pessoas apoiadas em estudos científicos e técnicos, mais competentes e aptos (entre eles da Agência Nacional de Águas) do que Lula-Gedel, do que os “notáveis” da base aliada e do PT de Berzoini-Tatto e do que cada ente aplastronado do Supremo Tribunal Federal.Então, como um patife ilustre se instrui sobre assunto de tal natureza? Com a Agência Nacional de Águas (ANA), cientistas e técnicos independentes e lideranças sociais que não recebem do propinoduto? Ou com projeto econômico de governo e sócios, contra a sociedade nacional?

Quem indica, quem decide? Mais do que a credibilidade IBOPE de Luiz Inácio da Silva, do Lula nordestino ou do Lulu estadista, o capitalismo “social” desse novo gerente de marketing do sistema econopolítico propende os aristocratas deste país a creditar-lhe a bipolaridade da administração cabocla globalizada, de superávits primários e déficits secundários. Assim, Luiz Inácio sugere, induz, alicia a aristocracia judiciária àquilo que a plutocracia já convocara: equilibrar os poderes da República com o fazimento de coisas que não só dêem os lucros excedentes como civilizem essa bastarderia nacional.A feitoria: Para reajustar salários, vencimentos e estipêndios equalizando os poderes; para “aperfeiçoar” a Constituição Federal quando os negócios e os contratos discrepem do texto dessa “Cartilha nacional do cidadão”; para lapidar a convivência entre os produtores de bens e serviços e a turba famélica de modo a garantir os negócios; enfim, para sobrestar proteção e salvaguardas contra o poder e o arbítrio, lá está El Supremo, vulgarmente chamado Supremo Tribunal Federal ou, para os íntimos, o STF majestático.

Poderosos aristocratas e inclementes senhores, reunidos no Aerópago, determinaram o destino de 22 milhões de moradores do semi-árido nordestino, para satisfazer 2 mil/20 mil empresários/beneficiários da apropriação do regime de águas do Rio São Francisco. Tudo no conúbio do sestroso burguês Luiz Inácio Lula da Silva e seu capitalismo “social” (enquanto Brás é tesoureiro… ou nem o cavaleiro conduz a besta) associado ao latifúndio (ansioso de ser “mais” produtivo), sob os gedéis e bedéis especuladores das finanças e da política; e com a insigne adesão de todos os patifes ilustres.

Homem judicante com residência (modesta) de escassos 450 m2, com água potável, esgoto ejetável, luz esfuziante, aportes e lazeres (em águas termais), decidiu que ignotos viventes de inóspitos ingressarão nesse capitalismo pela pocilga do quintal, guiados por Lula, em “plantations” agronegociantes, que de sáfaras caatingas farão belas canaãs.

MANOEL de ANDRADE lança seu livro CANTARES em CAMBORIÚ por garcia de garcia.

 

Depois do surpreendente sucesso de lançamento de seu livro   em Curitiba, Manoel de Andrade  relança agora “Cantares” em Santa Catarina, sua terra natal. A obra, fruto da sua maturidade poética, foi publicada pela Editora Escrituras, de São Paulo e tem sido comentada em vários  jornais do pais e em muitos blogs locais. A sessão de autómanoel-de-andrade-foto-dele-img_7355.jpggrafos, na noite de 7 de março, será o primeiro lançamento literário de poesia na Livraria Catarinense, recém inaugurada  no Balneário Camboriu Shopping.

Chamado de poeta maior pelo jornalista Aroldo Mura e elogiado pelo crítico Wilson Martins pela sua “grande poesia”, Manoel de Andrade fugiu do Brasil em março de 69, quando era procurado pela Ditadura pela panfletagem de seus poemas políticos. Deixava o país justamente numa época em que sua poesia começava a ser conhecida no Paraná e no Brasil, sobretudo pelo fato de ter seus versos publicados pela Revista Civilização Brasileira, em cujas páginas somente pontificava a elite da intelectualidade brasileira e internacional.

Peregrinou durante muitos anos pela América Latina escrevendo e declamando seus poemas  bem como debatendo a importância do engajamento político da arte e da literatura. Sua poesia revolucionária estreou em janeiro de 70 nas edições panfletárias mimeografadas pelos estudantes peruanos de Cuzco e Arequipa. Em setembro daquele ano, no Teatro da Universidade Maior de San Andrés, em La Paz, seu primeiro livro “Poemas para la libertad” é lançado com prefácio do escritor Jorge Suarez e discurso de apresentação do poeta Pedro Shimose, duas das maiores expressões da  literatura  boliviana.

Pela força declamatória da sua ideologia poética foi “convidado” a sair da Bolívia em fins de 69, depois de participar do Congresso Internacional de Poetas em Cochabamba.

Posteriormente foi preso e expulso do Peru e da Colômbia, sempre pelo caráter destemido de seus versos, marcados pela denúncia política  e social do seu testemunho itinerante e, sobretudo, pela  sua visibilidade pública e participante como intelectual de esquerda.   Jamais se intimidou diante de um roteiro continental marcado por perseguições, torturas e prisões, numa América controlada pela “inteligência” das ditaduras militares.

Persistiu sempre em sua saga viandante de jogral  por todos os países  da América, dando palestras, promovendo debates e oferecendo recitais nas maiores universidades do continente e nos seus mais variados recintos de cultura política e popular. Deixa, com seu livro, “Canção de amor a la América y otros poemas”,  publicado em Manágua, um rastro desafiador em plena ditadura de Somoza, e em fevereiro de 1971, a convite de revolucionários nicaraguenses exilados no México, declama seus versos  nas Comemorações do 37º  Aniversário de Morte de César Augusto Sandino”, em Tampico.

Ainda em fevereiro daquele ano, o brasileiro Francisco Julião, fundador das Ligas Camponesas em Pernambuco e exilado no México, faz a apresentação da sua poesia, no Instituto Mexicano-Cubano, abrindo seus recitais na Cidade do México. À convite de organizações políticas de esquerda mexicanas, parte em seguida para a Califórnia para levar aos Chicanos  — minoria norte americana de origem mexicana que, na época, como os negros, lutavam  por direitos políticos e civis —   a notícia dos movimentos de liberação nacional que, desde os Tupamaros, no Uruguai, até as montanhas de Guerrero, no México, incendiavam a América com seus sonhos de justiça e liberdade. Seus versos foram publicados em revistas, jornais, panfletos e cartazes e muitos deles ilustrados por grandes pintores do continente. Atuou como jornalista, defendendo, na década de 70, em grandes reportagens,  a vergonhosa situação dos Chicanos no sudoeste do Estados Unidos e denunciando o colonialismo português na África.

Depois de uma trajetória poética incansável e intensamente vivida, volta ao Brasil em 72 e por razões de segurança passa a viver no anonimato social e literário. Localizado, em Curitiba, pelos agentes do DOPS, transfere sua OAB para Santa Catarina, mas por estas e outras razões  acaba não exercendo sua profissão de advogado. Com o tempo, a árdua luta profissional pela sobrevivência, bem como o exercício da liberdade sempre ameaçado pelo condicionamento político daqueles anos que precederam a abertura democrática, lhe foram impondo, involuntária  e naturalmente, o afastamento da vivência literária nos atos e nos fatos. Outras inquietudes de ordem intelectual ocupam suas leituras e reflexões, levando-o gradativamente ao esquecimento quase completo da sua condição de poeta e mesmo daqueles anos de peregrinação nos quais, com a poesia, cumprira uma das mais belas missões da alma humana: aquela que nos impõe a realização de um ideal. Pela química do seu lirismo político expressava a plena identificação com um sonho grandioso configurado um processo revolucionário que, a partir da Revolução Cubana, em 1959, passou a recrutar ideologicamente a América Latina inteira. Neste sentido seus “Poemas para la libertad” são a mais legítima expressão desse sonho incorruptível e inegociável, porque nasceram em pleno parto continental de um tempo semeado de esperanças, e porque cumpriram sua missão despojados de qualquer interesse pessoal, direitos autorais e veleidades literárias e, sobretudo, por serem o fruto de sua legítima indignação por tudo o que, naqueles anos, estava acontecendo no Mundo, na América Latina e no Brasil.

Seu primeiro livro, “Poemas para la libertad”,  com três edições  em espanhol e ainda inédito em português, consta de vários catálogos da literatura política latinoamericana, na Internet. Por outro lado as marcas indeléveis da sua poesia revolucionária, escritas há 30 anos, estão vivas e espalhadas pelo continente. No ano 2000 a Epsilon Editores, do México, publicou a importante coletânea Poesia Latino americana – Antologia Bilíngüe” em espanhol e inglês, numa primorosa edição cuja capa e interiores é ilustrada com fragmentos da obra “La destrucción del viejo orden”  do grande pintor mexicano José Clemente Orozco.  Suas páginas são compartilhadas pela poesia de 36 celebrados poetas hispano-americanos, entre eles uruguaio Mario Benedetti e a poetisa equatoriana Sara Vanégas Coveña e por apenas um brasileiro, o poeta catarinense Manoel de Andrade.

A seguir publicamos seu poema “Memória”  um lírico e comovente grito de saudade do Brasil, escrito em agosto de 70 no Equador. Numa época em que lá, a imagem da pátria lhe chegava “como uma mãe em lágrimas”. Chegava “pelos gemidos e os estertores da bravura…e pelos sonhos que a morte silencia”. Chegava “pelo  inquietante dossiê dos tempos e por uma sombra imensa aquartelada sobre o povo.”

 

  MEMÓRIA

De onde venho e por quem sou
desterrado da face do meu povo
desterrado dos amores e do meu sangue…
pelo meu coração de êxodo e batalhas
e pelo nostálgico lirismo da poesia,
eu te saúdo, pátria minha.

Por onde venho e rumo ao norte
sobre o dorso iluminado da América
por minha fé
pelo mágico idioma da utopia
e pelas páginas clandestinas do meu canto, 
pátria minha… eu te saúdo.

Avançando entre o mar e a cordilheira
estrangeiro, bardo e peregrino
semeando a flor do bom combate
aprisionado
silenciado no meu canto
banido pelas tiranias do altiplano
e hoje… enfim…
recebido pelas mãos da liberdade…
passageiro da brisa e do encanto…
hoje, pátria…
é para ti meu canto aberto e solidário.
 
Com  a alma povoada de caminhos
partilhando  meus punhos e meus sonhos
e respirando o ar dessas trincheiras…
daqui,
onde não me alcançam as mãos que te torturam
repartido  entre a dor e a esperança
e pela estrofe combativa dos meus versos,
levanto  minha voz por teu martírio.

Hoje eu  canto com a memória dos caídos,
escrevendo teu nome  ensangüentado
e do meu refúgio latino e americano
e pelo tempo que te dure esta noite
e este silêncio,
há de ouvir-se o testemunho implacável dos meus versos.

Hoje escrevo sobre a água
e sobre o vento
mas um dia há de voltar meu desterrado canto.
Hei de voltar um dia
levando nos lábios uma canção de trigo
há de voltar minha alma de cigarra
e o marinheiro antigo.

Ó pátria minha…
hoje  te sigo pelos mares mais longínquos
pelos  portos  onde  tua bandeira chega navegando
e pela notícia de uma ação política,
e o impasse de um seqüestro,
sinto no peito que  tua ferida está aberta. 

Eu nunca quis cantar-te assim,
com amargura…
mas hoje me lembro de ti, do teu regaço …
e a tua imagem me chega como uma mãe em lágrimas.
Chega pelos gemidos e os estertores da bravura…
por esses sonhos que a morte silencia.
Chega pelo inquietante dossiê dos tempos
e por essa sombra imensa aquartelada sobre o povo.
E aqui, onde a Terra em duas latitudes se reparte,
pelo que sei e o que não sei,
em dois pedaços…
meu coração aqui também se parte.

Hoje eu canto pelo amanhecer luminoso que te espera
e te deixo em verso essa memória…
hoje escrevo a palavra: companheiros…
para que não se extinga a fé nesse combate.

Quito, agosto de 1970

RICO tem AMIGOS; pobre, comparsas (Rumorejando) por josé zokner

Constatação I (De um diálogo assaz frustrante, decepcionante).

-“Você é um lírio,
Querida.

Um colírio,

Que me faz ir ao delírio,

E não é um falar gírio”.

-“E você é um tolo.

Meu desconsolo.

Suma-se!

Se não vai dar rolo!

Aí, você entra no rebolo”.

Constatação II

O João Cruz, pai de poucos filhos e muitos netos, conhecido por Vô Cruz, era um sujeito muito pão-duro. Comparado com ele, o pai Grandet, personagem de Balzac, seria considerado um perdulário. Toda vez que a família e/ou algum estranho ou parente que porventura estivessem fazendo alguma refeição na casa de João Cruz, constatava que ele ia logo tapando algum vidro ou lata para que as pessoas não se servissem, segundo ele, demais. Daí, nasceu, na família e fora dela, o verbo, um eufemismo, de “vocruzar”, dado por um dos netos, não significando vou cruzar, mas fechar, cerrar, tapar, atarraxar que se espalhou por todos os que com ele conviveram. Coitado! Coitados!

Constatação III

Rico tem amigos; pobre, comparsas.

Constatação IV (Entreouvido numa manada, quando a mãe elefante tava educando o filhinho de só 300 quilos, via duplo pseudo-haicai)

Quem zomba

Da pomba

Cresce a tromba;

Quem mente pra alguém

Cresce também.

Ouviu bem?

 

Constatação V (De uma dúvida crucial).

Será que o sujeito que vende um rim tem que pagar imposto de renda sobre o valor auferido? Quem souber a resposta, por favor, cartas à redação. Obrigado

Constatação VI (De uma dúvida crucial).

Será que algum dia não vai haver mais escândalos estourando com pessoas pertencentes aos três poderes da nossa República? Quem souber a resposta, por favor, cartas à redação. Obrigado.

Constatação VII

Quando ela passou do limite,

Derivada de uma paixonite

E passou a uma perseguição

Nada infinitesimal

Fiz um cálculo integral

A fim de resolver tal equação,

Por geometria analítica,

Ou por geometria

Descritiva estável,

Como na estabilidade da construção,

De como me livrar

Da sua sucessiva aproximação

E concluí, determinante,

Com certo ar glacial,

Que seria mais viável,

Que a melhor política,

Seria desfrutar

Da topografia

Do seu corpo escultural.

Constatação VIII

O meu time, o Paraná, tem algo em comum com o Real Madrid da Espanha. Ambos não foram bem quando o técnico Wanderley Luxemburgo treinou essas duas grandes e, indiscutivelmente, notáveis equipes…

Constatação IX (Passível de mal-entendido).

Deu na mídia: “Obama encosta em Hillary após vitória em Maine”.

Constatação X

Também deu na mídia: “Acordo abranda CPI sobre uso de cartão corporativo. Governo consegue incluir gestão FHC e aceita CPI mista; PSDB já não fala em investigar gastos de Lula e Marisa”. Com relação a essa notícia, vale a máxima do jornalista Tutty Vasques: “CPI mista é que nem pizza: meia Lula, meia FHC”.

Constatação XI

Por que será que o ex-deputado Roberto Jeferson, ao denunciar o esquema do mensalão e que deitou falação contra a cúpula do PT, em depoimento recente à Justiça e nos anteriores, aceitou deles os quatro milhões que recebeu? E que será que ele fez com os quatro milhões? Quem souber a resposta, por favor, cartas à redação. Obrigado.

Constatação XII

O presidente Bush, segundo a mídia, disse que “não é tortura ‘afogamento’ utilizado em prisão”. Quanto à pimenta nos olhos dos outros ser refresco ou não, parece que nada foi dito pela maior autoridade da maior Potência do Planeta… 

o autor escreve no jornal o estado do paraná aos domingos.

CURITIBA perde HENRIQUE MOROZOWICZ por nájia furlan

Nájia Furlan [24/02/2008]

Arquivo
morozowics240208.jpg
O pianista e compositor
era conhecido internacionalmente.

Por último, tristeza pela perda. Porém, antes disso, reencontro, surpresa, inspiração e satisfação. É o que se ressalta. Esta semana, Curitiba perdeu, aos 73 anos, o pianista e compositor Henrique Morozowicz. Pouco antes de partir, em novembro, Henrique de Curitiba, como é conhecido internacionalmente, fez Constatação fatal. Como ele mesmo a apresentou: uma música de canto. Esta, inspirada nos versos do colaborador José Zokner, publicados em agosto, na coluna Rumorejando, em O Estado. É o próprio autor da ópera que assim a explica.A música foi produzida em setembro. Na introdução, os detalhes da produção: “imediatamente recortei e guardei aqueles versos para usá-los numa obra vocal, pois eles me soaram como uma letra feita de encomenda para uma ária de ópera buffa. Representaram muito bem o humor especial de Zokner, autor que tive a satisfação de reencontrar”.Como lembra Zokner, lisonjeado com a lembrança, Henrique era seu contemporâneo (a partir de 1948) no Colégio Estadual do Paraná. “Não tínhamos contato, mas eu lembro, da adolescência, aquele rapaz magrinho e alto que tocava piano”, conta. O colunista ainda completa que, de longe, acompanhou as notícias sobre o sucesso do compositor assim como do irmão, flautista, Norton Morozowicz, com quem Henrique, muitas vezes fez duo. Ele ainda conta que depois de muito tempo, em setembro do último ano, recebeu do músico um e-mail. Na mensagem, Henrique contava do tempo que passou fora de Curitiba e da cirurgia no joelho. E ainda revelava o que para Zokner e para o jornal foi uma satisfação: “nunca deixei de ser seu leitor, pois volta e meia eu recebia O Estado do Paraná. Sempre admirei sua veia de humor que é especial”. Foi quando contou a Zokner da sua nova produção, talvez a última. “Nesta semana da pátria, escrevi a peça para barítono (ou baixo) e piano, como uma espécie de ária independente para cantar em recital”, traz a mensagem enviada a Zokner. A partitura foi apresentada ao autor da letra em novembro. Porém, como Henrique havia adiantado, “não sei quando poderemos ouvi-la, pois não há -que eu saiba – um cantor apropriado em Curitiba. Tem que ser uma voz lírica com uma personalidade vocal apropriada para o humor”. Zokner conta que, tempo depois, em um novo e-mail, Henrique contou-lhe que havia encontrado tal pessoa para cantar a peça. Como Henrique Morozowicz orientou, na mensagem a Zokner, “esta é a terceira peça que faço com letras de autores de Curitiba. A primeira foi 6 Poemas de Helena Kolody (1999), a segunda Poema Claro do João Manuel Simões (2002) – cantadas no Festival de Londrina – e agora a sua. Nos últimos anos, tenho me dedicado a obras vocais, de canto e de coral”.

Henrique

De família de tradição artística, Morozowicz começou a estudar piano com a mãe, mas logo passou a ser orientado por Renée D. Frank, pianista da França, radicada em Curitiba, onde lecionava na Escola de Música e Belas Artes do Paraná (Embap). Ele foi para São Paulo, em 1954, onde estudou na Escola Livre de Música, com H.J. Koellreute e Henry Jolles. Durante a formação, o pianista ainda aperfeiçoou-se com Margherita Trombini Kazuro, na Escola Superior de Música de Varsóvia, em 1960. Nessa época ele participou do IV concurso Internacional Frederico Chopin. O compositor voltou a Curitiba em 1965, onde foi professor na Embap e da Universidade Federal do Paraná.


mozorowiks-letra-240208.jpg
jornal o estado do paraná

MISTÉRIO: POTY LAZZAROTTO desenha para a capa do livro CARPE DIEM já editado!

    PAINEL EM AZULEJOS DO MESTRE POTY NO LARGO DA ORDEM EM CURITIBA

poty-lazzarotto-paineis-do-largo-da-ordem-1.jpg

EM ALGUM LUGAR DO PASSADO:

 

ao-carpediem-poty-foto.jpg

 

o artista visual, já falecido, poty lazzarotto fez um desenho (acima), adequadíssimo diga-se, para a capa da coletânea de poesias CARPE DIEM lançado em 1990, é a data impressa, entretanto, o ano que se vê junto a assinatura do artista é de 91 (1991). é no mínimo curioso. esta capa foi escaneada de uma cópia xerox fornecida pelo poeta e pesquisador edu hoffmann. com quem estará o original dessa raridade? o grande poty teria desenhado a capa para um livro que já havia sido editado? quem quiser esclarecer o site está a disposição.

 

ESTA AQUI É A CAPA DO LIVRO IMPRESSO em 1990 de JAIR MENDES (TERESA CRISTINA MONTECELLI?):

 

carpe-diem-foto-da-capa.jpg

 

ESTA TURMA AQUI EM BAIXO PARTICIPOU DA COLETÂNEA:

 

ao-carpediem-foto.jpg

da esq. para a dir. o artista visual jackson ribeiro (de óculos), o fotógrafo haraton maravalhas (fazendo sinal com a mão), a jornalista adélia lopes, o poeta gerson maciel (de boné), o poeta reinoldo atem (de cavanhaque), o artista visual jair mendes, a poeta nadiege almeida, a poeta bia de luna, o poeta edu hoffmann, o produtor do livro luis carlos cabanas, o poeta sergio bitencourt (época do habeas coppus), a poeta magali miranda (atrás do sergio), o poeta marcos terra, a poeta desirê da costa (atrás do marcos) e a poeta marise manoel.

_____________________________

o poeta e então proprietário do “habeas coppus bar” sérgio bitencourt, que participou como um dos incentivadores da obra e como poeta, esclarece, depois de ver o post, que a capa editada é do artista visual jair mendes. o site publicou como de teresa cristina montecelli porque é como consta na página interna do livro. acrescenta que nunca viu esta capa desenhada por poty.

________________________

há comentários interessantes neste post.

 

PAPEL do JORNALISMO CULTURAL por marcelo de castro.

As páginas de cultura dos jornais, de circulação local, regional ou nacional, trazem na grande maioria das vezes, matérias, reportagens ou artigos voltados para uma cultura que segrega parcela da população. Ora, se um faminto não tem acesso à comida, quiçá ao teatro, ao cinema, aos grandes eventos! Se não tem acesso ao “bê-a-bá”, quiçá às obras euclidianas, machadianas ou quaisquer outras obras de grande vulto!
 
Cultura para nós, chamados “letrados”, pode ser tudo isso citado acima. E, nos deliciamos com tais objetos. Porém, cultura também é saber “juntar as letrinhas”. Soletrar. Contar até dez. Pintar com giz-de-cera.
 
Porque os jornais não separam um pequeno espaço, na seção de cultura, para tentar estimular essa cultura primária? Essa resposta é fácil: pobre não compra jornal. O espaço do jornal é caro. Ou qualquer outra desculpa que atinja o vil metal. Pobre não compra jornal, mas o abastado compra. E, estimulando esse abastado a fazer algo pela cultura primária, pode surtir algum efeito, mesmo que pequeno. Onde está o caráter social do jornalismo? Ficou nos primórdios? O espaço é caro? Não precisa abdicar. Conquiste parceiros nessa idéia! As empresas têm seus projetos sociais e o espaço do jornal pode ser aproveitado por elas. Até incentivo fiscal existe para facilitar essa troca.
 
O que não é admissível é a desfaçatez, o mascaramento, o apartheid cultural que é promovido pelos impressos diários, semanais ou mensais.
 
Os espaços destinados à cultura tornaram-se uma grande agenda, onde até se paga para que matérias sejam publicadas. A revisão desse papel do jornalismo cultural deveria ocorrer de imediato, para que os meios de comunicação possam ajudar tirar o atraso que se encontra a educação brasileira.
 
 

OSCAR NIEMEYER está entre os MAIORES do MUNDO pela editoria.

A Synectics conferiu a Niemeyer o 9º lugar em seu ranking dos 100 maiores gênios da atualidade.

Oscar Niemeyer Soares Filho, carioca, nascido em 1907, formou-se em 1934 pela Escola  Nacional de Belas-Artes. Foi discípulo de Lúcio Costa. Fez parte do grupo internacional que engendrou e projetou o antigo Ministério da Educação e Saúde (situado na cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro), atual Palácio da Cultura.
Substitui o seu antigo mestre em 1939, quando elaborou o Pavilhão Brasileiro da Feira Internacional de Nova York, afirmando a arquitetura moderna no exterior. Com a experiência de fora, introduziu no país algumas das mais avançadas técnicas arquitetônicas de então.
Vários são os seus projetos notáveis: o Conjunto da Pampulha, em Belo Horizonte (1942-1943); o Instituto Tecnológico da Aeronáutica , em São José dos Campos (SP,1947); Edifício das Nações Unidas (1947); o Conjunto do Ibirapuera, em São Paulo (capital, 1951-1952); o Museu de Arte Moderna de Caracas (Venezuela, 1955); reconstrução do Quarteirão Hansa (Berlim, 1955) etc. Suas realizações estendem-se,ainda, por países, como: Itália, Israel, Argélia, Portugal, França, Rússia e Gana.
No entanto, o ápice de suas obras consiste na série de construções oficiais que realizou em Brasília, onde participou como arquiteto-chefe. Lá projetou, dentre outros: o Palácio da Alvorada, dos Despachos, o Teatro Municipal etc.
Niemeyer, durante a sua longa existência, vem estabelecendo novos critérios de utilização do espaço e inovando no uso de materiais. Agora, aos cem anos de idade, recebe o prêmio conferido pela Synectics de nona personalidade genial, ainda, viva. Surpreende com uma boa declaração existencialista a respeito: “O que eu posso fazer? Eu me sinto como outro ser humano qualquer, que trabalha, vive e que vai embora daqui a pouco”. 

Fonte: Jornal de Londrina.

TRANSPOSIÇÃO e as ÁGUAS DO NORDESTE por manoel bonfim ribeiro.

 ENGENHARIA É, AS VEZES, A ARTE DE NÃO CONSTRUIR.

                                                                                           arthur wellinton.

Antonio Conselheiro, o taumaturgo dos sertões nordestinos, que se notabilizou na região de Canudos, estado do Bahia, desenvolveu o seu messianismo profetizando acontecimentos para o povo paupérrimo do vale do Vaza Barris. No final do século XIX, em Outubro de 1897,a 4º Expedição do Exercito Brasileiro  dizimou o ultimo reduto do fanático cearense, numa luta sem precedentes, que custou a vida de 5 mil homens. Este messiânico profetizava, por onde passava, que “o sertão vai virar mar”.  .
O Projeto da Transposição de águas do rio São Francisco prioridade do Governo, traz a imagem de um banho de água no Semi-Árido, mitigando a sede de 12 milhões de nordestinos sequiosos.  Pretende-se matar a sede de uma população, levando uma pouca d’agua  para a região setentrional do Nordeste.
A maior baía do litoral brasileiro é a Bahía de Todos os Santos . A segunda maior é a Baia da Guanabara que é, por sua vez, a terceira maior do Mundo em volume de água.  Esta Baía tem  uma área  de  413 Km² e recebe a contribuição de 55 rios  O seu volume de água  é  de 2,4  bilhões de metros cúbicos.
 Comparemos, agora, com a fantástica rede de açudagem do Semi-Árido .
O Nordeste, mais precisamente o  Semi-Árido brasileiro, é a região mais açudada do Planeta. Mais que a Índia, mais que o Egito, mais que os E.U.A. Os nossos açudes são os melhores do Mundo, melhores projetos, melhores construções. Os engenheiros do DNOCS-,Departamento Nacional de Obras contra as Secas- foram e são os melhores barrageiros do Globo, só comparados aos grandes hidrólogos do Egito. Açude do DNOCS não se arromba.
O século XX, foi o século da açudagem no Semi-Árido. Assim como tivemos a Civilização do Ouro, a Civilização do Algodão da qual nos fala Câmara Cascudo, a Civilização do Couro, comentada e analisada  por Capistrano de Abreu, tivemos, também  a Civilização do Açude, por todo um  período de 100 anos. Quando da grande seca de 1877/80, o Semi-Árido quase não possuía açudes, uma meia dúzia, nem poços tubulares, nem estradas, o veículo não existia, só o telégrafo em pouquíssimas comunidades. Os retirantes, famélicos, perambulavam pelos caminhos, sem destino. Nesta seca foram ceifadas 500.000 vidas, o gado foi dizimado. Calamidade total. O Governo Imperial se comoveu e o Conde d’Eu criou uma Comissão Científica para fazer estudos topográficos, geológicos, hidro-geológicos, meteorológicos, fitogeográficos,  faunísticos, bem como, estudos  das bacias hidrográficas dessa grande região semi-árida. Logo após, em 1886, o Governo autorizou o inicio do grande açude do Cedro, em Quixadá, Ceará, rio Sitiá, afluente do Banabuíu, do Sistema Jaguaribe , que só foi concluído no ano de 1906, já no Governo Republicano. Cem anos de construído, este açude , armazenando 126.000.000 de m³, continua prestando seus serviços relevantes a milhares de nordestinos.
 Foi o passo inicial para o programa de construção da grande rede de açudes espalhados pelo Semi-Árido. Foi um trabalho hercúleo do Governo e da sociedade nordestina, chegando ao final do século XX com a construção, de cerca, de 70.000 açudes, públicos, particulares e de  cooperação. Mais de 10% são açudes plurianuais, construídos para suportar as grandes travessias estivais, projetados, alguns, com geração de energia hidrelétrica e  muitos outros com projetos de irrigação. São açudes que não secam, apesar da fortíssima e drástica evaporação processada pela radiação solar nesta região, próxima ao equador. Perdem até 60% do seu volume, mas renovam nos anos seguintes, total ou parcialmente. Assoreamentos existem nos açudes diminuindo a sua  capacidade volumétrica, como existem, também, no talvegue do rio São Francisco e em todos os açudes e rios do Mundo. É questão de conservação, e manutenção. O maior açude dos EEUU, o Elephant Bute, capacidade de 3 bilhões de metros cúbicos, está quase totalmente assoreado. O açude Vale do Inferno, na Espanha, está entulhado. O Gokak, em Bombaim, Índia, a mesma coisa.
As regiões áridas do mundo se caracterizam por sua baixa  pluviosidade. No caso do Semi-Árido esta pluviosidade  é de 600 mm/ano. Quando as precipitações ocorrem abaixo desta média, instala-se uma seca.  A cada século temos, em média, 1/3 de anos  secos, 30 anos.  Os açudes plurianuais foram construídos tendo em vista esta série histórica das grandes secas.
Hoje, existe um gigantesco cubo de água armazenado no Semi-Árido, capaz de resistir às estiagens mais severas da região, desafiando as leis fatais da natureza. É a vitória do homem sobre o meio.
Dos grandes lagos construídos pelo homem, com a avançada engenharia hidráulica nacional, temos exemplos dignificantes como na bacia do rio São Francisco, a barragem de Três Marias, acumulando um volume de 21 bilhões de m³ de água , representando 8,7 vezes o volume da Baia da Guanabara. O Lago Sobradinho, também no Vale, o maior do mundo em superfície, detendo um volume de água de 35 bilhões, representa 14,6  vezes  a  Baia da Guanabara.
 Agora vejamos o Semi-Árido brasileiro, sem as águas do São Francisco: O açude ORÓS, no vale do Jaguaribe, Ceará, construído, em 1960, inaugurado pelo Presidente J.K, reserva no seu bojo, 2,5 bilhões de m³ (2,5 Km³ ) de água, igual  ao volume da Baia da Guanabara, aliás, um pouco maior. O Açude ARMANDO RIBEIRO GONÇALVES, construído no Rio G. do Norte, inaugurado pelo Presidente Figueiredo em 1983, reserva na sua bacia hidráulica o volume de 2,4 bilhões de m³ (2,4 Km³) de água, igual ao volume da Guanabara. O BANABUÍU e o ARARAS, ambos no Ceará, juntos somam 2,7 bilhões (2,7 Km³), volume superior à Guanabara. O CASTANHÃO, no vale do Jaguaribe, CE, concluído no ano de 2003, inaugurado pelo Presidente Lula, é um açude oceânico, maior do mundo, construído pela mão do homem, orgulho da engenharia hidráulica nacional. Reserva na sua concha hidráulica, 6,7 bilhões de m³ (6,7 Km³), 2,8  vezes, quase 3 vezes, o volume da baia da Guanabara. Os 8 grandes açudes dos 3  estados (Ceará, Rio G. do Norte  e Paraíba), que irão receber 2,1 bilhões de m³  das águas aduzidas do rio São Francisco, já  possuem um volume de 12,6 bilhões( 12,6 Km³ ), equivalente a 5,3 vezes  o volume da Guanabara. O total da água acumulada nos 3 estados, representa 72% de todo o estoque do Semi-Árido, 26,7 bilhões ( 26,7 Km³ ) , equivalente a 11 vezes a Baia da Guanabara.
Totalizando, as águas de todos os açudes do Semi-Árido  somam 37 bilhões de m³ ( 37 Km³ ) superior a 15   vezes a  Baía da Guanabara. O SERTÃO JÁ VIROU MAR. Cumpriu-se a  profecia do Conselheiro.
Diante desta gigantesca riqueza de águas acumuladas, estocadas nos seus 70.000 reservatórios, a solução para o problema hídrico do Nordeste é somente distribuição e tão somente distribuição através um robusto e potente sistema de adutoras. A infra- estrutura hídrica já está pronta. Só falta a gestão.
Assistimos protestos, reivindicações e greves de movimentos organizados como o  dos Sem Terra (MST), dos Sem Teto, dos Sem Salários, dos camponeses sem crédito para o amanho da terra, dos índios vindos dos confins do País, das Associações e Federações deste nosso Brasil, só não assistimos protestos dos Sem Água, logo a água que é vital na sua essencialidade. É curioso que o nordestino pobre e sequioso não grite por água.
Conclamamos os engenheiros do Brasil, arquitetos, agrônomos, meteorologistas, os demais profissionais das ciências exatas. Conclamamos os clubes de engenharia; os  Conselhos Regionais de Engenharia (CREAs), conclamamos  o Conselho Federal de Engenharia, Arquitetura, e Agronomia (CONFEA), órgão máximo da engenharia nacional, a exigir do Governo da Republica, participação e acompanhamento nas análises técnicas e econômicas  deste  Projeto de Transposição O Semi-Árido não suporta mais projetos de  resultados duvidosos, muito menos  de um projeto,  hidrologicamente,  errado.

CAMALEOA CURITIBANA prosa poética de marilda confortin


 
Eu uso óculos escuros e ela de grau. Faz ponto nos degraus da Rua da Cidadania. Quem a vê, pensa que ela fica vendo navio.
– Não vendo navio, não moça. Só relógio, calculadora, brinquedo, creme de mão e rayto de sol direto del  Paraguai pra praça Rui Barbosa
– O águia de Haia…
– Quem?
– O Rui, ora.
– O Hara?
– Não. O Barbosa.
– É ruim… Só conheço um Rui, fiscal da Urbs, um surd  filho da…
– Kama sutra?
– Não vendo livro, não. Ninguém compra. Mas tenho camisinha maide in taiuan e bolinha tailandesa. Uma beleza. Vendo de dúzia. Faço por oito real.
 – Quero não. E cigarro, tem?
–  Só fri.
– Eu também sofri.
– É loca. Qué uiski. Legítimo. Bem novinho. Truxe domingo. Num trago coisa veia. 
– Sacoleira…
– Sacolera, não! Cameloa! Das boa. Dá licença?!
– Desculpe.
– Vai comprá ou ficá me enrolando outra veiz?
– Vou andando, obrigada.
– Eita conversa fiada que nunca dá em nada.
– Prá mim dá poesia.
– Virgi Maria. Mais uma doida na cidade, né muié?
– É…. Até.
– Inté.

DESISTEM DE SEXO POR UMA TV DE PLASMA (Rumorejando) por josé zokner

   

PEQUENAS CONSTATAÇÕES, NA FALTA DE MAIORES.


Constatação I
Quando o obcecado leu na mídia que a passista da São Clemente, Viviane Castro, de 25 anos, perdeu o tapa-sexo de 3,5 centímetros, o que foi, mais tarde, desmentido por ela, colado com super bonder, o que fez a escola perder meio ponto, ficou indignado e disse: “Deveria, isso sim, pelo evento involuntário e tão auspicioso, ganhar 5 pontos. Assim, a São Clemente permaneceria no desfile das Escolas Especiais e não teria caído. Injustiça!”  

Constatação II (Colaboração do Amigo Renato Emilio Coimbra). Deu na mídia: “Lei sancionada em Cascavel no Paraná obriga o emplacamento de carroças, carteiras de habilitação para carroceiros, placas tatuadas a fogo nos cavalos (e também nos burros…) e uso de fraldas, com o objetivo de manter a cidade mais limpa”.
Os deputados deveriam seguir o exemplo e criar lei semelhante para que os envolvidos em todos os escândalos no Brasil e os que votaram pelas suas absolvições também usassem fraldas, pois assim teríamos um país mais limpo.
Constatação III

Rico cumpre com o seu dever; pobre, vive no seproc a dever.

Constatação IV (Quadrinha repreensiva, dedicada a todos que são sempre do contra, que sempre estão querendo, de alguma forma, aparecer).
 

Quando no carnaval antigo,
Cantou-se “Mamãe eu quero”,
Eu tive um chato dum amigo
Que a cantava em ritmo de bolero.

Constatação V

Ela fez um estardalhaço
Chamou-o de palhaço
E mais um calhamaço
De impublicáveis palavrões.
Aí, ele, cansado de confrontações,
Depois de contar seus tostões,
Resolveu se mandar
Pra nunca mais voltar
E debaixo da ponte foi morar
Onde instalou seu novo lar
Com geladeira, rádio, televisão
Cobertor elétrico, violão,
Liquidificador, batedeira, acordeão
Porém não havia tomada
Pra toda essa bagulhada
Que lhe pareceu não valer nada.
Mas mesmo assim
Ele comemorou esse fim
Porque ali perto havia um botequim
Que era pra ele o mais importante
Bem mais aconchegante
De ter ela como sua amante.
Ficou um ex-apaixonado,
Um ex-bem morado.
Coitado!

Constatação VI
 

Deu na mídia: “Quase metade dos homens britânicos desistiria do sexo por seis meses em troca de uma TV de plasma de 50 polegadas”. Vai gostar de TV de plasma assim no, na… Deixa pra lá. Afinal, gosto não se discute, segundo os entendidos em mídia eletrônica…

Constatação VII (Quadrinha para ser recitada por quem quiser e para quem quiser ouvir).
 

Tomei um mate amargo
Com espinheira santa
Para espantar o letargo
E controlar a jamanta*.
* Fica a critério do leitor a qual tipo de jamanta ele pretende se referir, pois conforme o dicionário Houaiss, se uma “carreta”, ou “pessoa de volume avantajado”.

Constatação VIII (Um pingo de reminiscência).
 

Quando a Rádio do Colégio Estadual do Paraná, por iniciativa do saudoso Aluízio Finzetto, pai do nosso grande Amigo Newton Finzetto, passou a Rádio Estadual do Paraná, tocava essencialmente música clássica. Seu estúdio ficava na Rua André de Barros. Era comum que as músicas, tocadas somente em discos, ficassem engatadas, repetindo o mesmo trecho até mais de meia-hora, sem que houvesse quem as desengatasse porque o operador/locutor se esfumava, se escafedia. Hoje em dia, a música clássica foi praticamente abolida da programação da emissora. Que será que os atuais titulares da emissora e os daquele tempo tinham e têm contra tal tipo de música? Quem souber, por favor, etc. Obrigado.

o autor publica aos domingos no jornal o estado do paraná.

A IGREJA, O TRÁFICO E A ESCRAVIDÃO por rafael diehl

Proponho-me aqui a tratar da visão da Igreja Católica acerca da escravidão, bem como o papel desta nesse processo. Para isso, introduzirei o texto tratando da questão escravista nos pensamentos que influenciaram a ideologia cristã: a teologia hebraica antiga e a filosofia clássica greco-romana.

  1. A escravidão no pensamento greco-romano e no pensamento hebraico

Para a mentalidade greco-romana, a escravidão era considerada lícita, concedendo ao senhor amplo domínio sobre seus escravos, inclusive o direito de vida e morte sobre os mesmos. Havia duas justificativas principais:

Aristóteles considerava que a escravidão era determinada fisicamente, ou seja, ele cria que alguns seres humanos nasciam com condições físicas propícias ao ofício escravo: com muita força física e pouca inteligência. Para tanto, cria-se que os homens eram desiguais quanto à natureza e aos acidentes.

Já a filosofia estóica pregava uma explicação metafísica: a do Destino. Para eles, alguns indivíduos nasciam destinados à escravidão e não poderiam alterar sua sorte.

Por outro lado, os hebreus consideravam lícito escravizar estrangeiros, mas não outros hebreus. Isso porque os gentios eram considerados acidentalmente, não naturalmente, inferiores ao “povo escolhido” da Revelação Divina.[1] A escravidão de hebreus eram permitidas apenas temporariamente.[2]

  1. A doutrina Cristã sobre a escravidão

A doutrina cristã, de modo geral, era contrária à escravidão e ao comércio de escravos. Já nos primórdios do Cristianismo, São Paulo Apóstolo (séc. I d.C.) ensinava a igualdade de natureza entre os homens, judeus e gentios (não-judeus), visto que a Nova Aliança possuía um caráter universalista. Entretanto, não tendo grande influência na sociedade romana imperial, a Igreja recomendava aos escravos serem obedientes e não se revoltarem contra os seus senhores, mas também admoestava os senhores ao bom trato com seus escravos.

A escravidão, era também vista como uma conseqüência acidental do pecado, tal como expõe Santo Agostinho de Hipona (século IV-Vd.C.) que dizia ser todo homem escravo de seus pecados, e que alguns também eram castigados tornando-se escravos de senhores temporais.[3] Mas também considera que os escravos devem aceitar sua condição como punição pelos seus vícios, bem como serem obedientes e amarem seus senhores para não darem razão aos maus-tratos por eles provocados.[4] Pensa, contudo, que a condição escrava era temporária e chegaria um tempo na qual não seria mais necessário o escravismo.[5]

Durante a Antiguidade Tardia (séculos IV-VII), apesar de ainda existir (inclusive fundamentada no direito da época) no Oriente, o escravismo foi, aos poucos sendo substituído pelo sistema do colonato, que por volta do ano 1000 gerou o feudalismo. No senhorio feudal, alguns camponeses estavam submetidos ao regime de servidão, que difere-se da escravidão propriamente dita, já que o servo medieval recebia um pequeno lote de terra para cultivar e possuía um vínculo semi-voluntário com seu senhor.[6] Possuindo um ligação de dependência com sua terra, o servo não poderia ser vendido separado de sal terra.

Voltemos, pois as medidas da Igreja. Em 873, o papa João VIII em uma carta a um príncipe da Sardenha diz:“Há uma coisa a respeito da qual desejamos admoestar-vos em tom paterno; se não vos emendardes, cometereis grande pecado, e, em vez do lucro que esperais, vereis multiplicadas as vossas desgraças. Com efeito, por instituição dos gregos, muitos homens feitos cativos pelos pagãos são vendidos nas vossas terras e comprados por vossos cidadãos que os mantêm em servidão. Ora consta ser piedoso e santo, como convém a cristãos, que, uma vez comprados, esses escravos sejam postos em liberdade por amor a Cristo, a quem assim proceda, a recompensa será dada não pelos homens, mas pelo mesmo Nosso Senhor Jesus Cristo. Por isto exortamo-vos e com paterno amor vos mandamos que compreis dos pagãos alguns cativos e os deixeis partir para o bem de vossas almas.”[7]

De igual forma, as condenações serão reafirmadas pelo papa Pio II em 1462. Em uma época que o tráfico escravo estava ressurgindo na Europa, principalmente devido às conquistas portuguesas[8], Pio II afirma que o tráfico escravo é magnum scelus, um “grande crime”.[9] Outras censuras ao escravismo e ao tráfico serão reforçadas pelos papas como Urbano VIII (1639) e Bento XIV (1741), sendo que o último prescreveu excomunhão para os senhores que maltratassem seus escravos.[10] Gregório XVI, em 1839 dirá em uma epístola que:“

Admoestamos os fiéis para que se abstenham do desumano tráfico dos negros ou de quaisquer outros homens que sejam.” Também o papa Leão XIII, no século XIX apoiará as tendências abolicionistas no Brasil, que obtiveram êxito com a lei Áurea em 1888.

  1. Igreja e escravidão no Brasil

Para tratar acerca das relações entre a Igreja Católica e o Brasil utilizarei de três fontes principais: A obra Economia Cristã dos Senhores no Governo dos Escravos (fins do século XVII) do padre jesuíta Jorge Benci, os Sermões do Padre jesuíta Antônio Vieira (século XVII) e As Constituiçoens primeyras do Arcebispado da Bahia (1707).

Importante recordar que a Igreja no Brasil, estava submetida ao padroado e ao beneplácito da Coroa Portuguesa, o que reduzia em parte sua autonomia na região, pois a mesma ficava sujeita ao poder régio lusitano. Não tendo poder suficiente para aplicar as determinações papais que sugeriam o fim do tráfico e da escravidão, limitam-se a exortar os senhores no bom trato aos escravos e estabelecer sanções canônicas contra os abusos.[11]

Nos sermões do Padre Vieira podemos observar a reprovação ao tráfico e à escravidão. No Sermão XIV, por exemplo, reafirma a igualdade natural dentre os homens.[12] No mesmo Sermão diz que os negros não são inferiores, mesmo tendo sito gentios e cativos.[13] Sobre o tráfico escravo considera no Sermão XXVII que:“Nas outras terras, do que aram os homens e do que fiam e tecem mulheres se fazem os comércios: naquela (na África) o que geram os pais e o que criam a seus peitos as mães, é o que se vende e compra. Oh! trato desumano, em que a mercancia são homens! Oh! mercancia diabólica, em que os interesses se tiram das almas alheias e os ricos são das próprias” (destaques nossos).[14]

Para Vieira, a escravidão além de ilícita atrai pragas e desastres para o Brasil, conforme conclui no Sermão XVII.[15]

Em fins do século XVII, o padre Jorge Benci escreve a sua Economia Cristã dos Senhores no governo dos escravos, onde procura formular quais os deveres dos senhores para com os servos a partir das palavras do capítulo 33 do Eclesiático: panis, disciplina et opus servo – pão, disciplina e trabalho para o servo. Nesta obra, Benci defende que os senhores devem fornecer aos escravos o sutento material (comida e vestuário) e espiritual (catequese e o não impedimento do usufruto dos Sacramentos); a disciplina (ensinando-os e castigando-os, sem, contudo cometer excessos); o trabalho condizente com as condições e capacidades físicas do escravo. (para que não fiquem ociosos, que segundo o autor seria ocasião para pecados) e o descanso durante as noites, Domingos e dias santos.

Embora lembre que nos primeiros tempos do cristianismo era comum os recém-convertidos alforriarem seus escravos, o autor considerando que tal coisa era difícil de ser conseguida da parte dos senhores de seu tempo insiste no bom tratamento que os senhores devem aos escravos, pois para ele é tirano o senhor que não se compadece dos sofrimentos de seus servos.[16]

Passemos, pois às Constituições primeiras do Arcebispado da Bahia, de 1707. Estas constituições forma promulgadas pelo Primeiro Sínodo Diocesano do Brasil, em Salvador. Suas determinações estiveram em vigor durante os séculos XVIII e XIX.

Estas Constituições dedicaram vinte e três tópicos à questão dos escravos, sendo que as principais determinações foram: exortar aos senhores no bom trato dos escravos fornecendo-lhes sustento necessário em alimentos e vestuários, bem como o descanso nos Domingos e dias santos. Também regulamentou a catequese ministrada aos escravos, bem como proibiu os batismos forçados.[17] Além disso, o Sínodo defendeu o direito dos escravos ao usufruto do Sacramento do Matrimônio, mesmo contra a vontade dos senhores, conforme permitia o Direito Canônico.[18]Outra determinação foi a obrigação dada ao senhores de concederem aos seus falecidos escravos Missas de corpo-presente e sétimo dia de falecimento, bem como uma sepultura cristã.[19] Como pode-se ver, as determinações deste Sínodo episcopal foram fortemente influenciadas pela obra de Jorge Benci.[20]

Por fim, destaco a ação das Irmandades, Confrarias e Ordens Religiosas no Brasil. Muitas destas além de congregar brancos e negros empenhavam-se na arrecadação de dinheiro para comprar alforrias de alguns escravos. Haviam também confrarias específicas para os negros, não só no brasil, mas também em várias partes da África, como a Venerável Ordem Terceira

[1]Levítico XXV, 44-46.

[2] Êxodo XXI, 2-7.

[3] “Esse nome [o de servo, escravo] mereceu-o, pois, a culpa, não a natureza. […] Tornavam-se servos; palavra derivada de servir. Isso também é merecimento do pecado.” Santo Agostinho de Hipona. A Cidade de Deus. São Paulo: Vozes , 2001, parte II. p. 406. Para aprofundar esta questão vide A Cidade de Deus, parte II, Livro XIX, capítulos XV e XVI.

[4] “A causa primeira da servidão, é, pois, o pecado, que submete um homem a outro pelo vínculo da posição social. É o efeito do juízo de Deus, que é incapaz de injustiça e sabe impor penas segundo o merecimento dos delinqüentes. O Senhor supremo diz: Todo aquele que comete pecado é escravo do pecado. Por isso muitos homens piedosos servem patrões iníquos, mas não livres, porque quem é vencido por outro fica escravo de quem o venceu.” Ibid.p. 406.

[5] “Por isso, o Apóstolo aconselha aos servos que estejam submissos aos respectivos senhores e os sirvam de coração e bom grado. Quer dizer, se os donos não lhes dão liberdade, tornem eles, de certa maneira, livre sua servidão, não servindo com temor falso, mas com amor fiel, até que passe a iniqüidade e se aniquilem o principado e o poder humano e Deus seja tudo em todas as coisas.” Ibid. p. 406.

[6] Utilizo a expressão semi-voluntário devido ao fato de que um camponês vinculava-se voluntariamente a um senhor de terras, mas estes contratos geralmente obrigavam os descendentes do dito camponês a vincularem-se ao senhor em servidão.

[7] Denzinger-Sch’ánmetzer.Enquirídio dos Símbolos e Definições nº 668 citado em: BETTENCOURT, Dom Estevão Tavares, OSB. O Tráfico Negro no Brasil e a Igreja. Artigo digitalizado, disponível em URL: http://www.presbiteros.com.br/Hist%F3ria%20da%20Igreja/Trafico.htm

Acesso em 09/05/2007, às 24 h e 34 min.

[8] A expansão portuguesa em direção a territórios muçulmanos teve para a Igreja um caráter cruzadístico e foi incentivada e legitimada pelo Papado através das bulas Romanus Pontifex (1455) de Nicolau V e Inter Caetera (1456) de Calixto III. Vide MARTINS, Manuel Gonçalves. O Estado Novo e a Igreja Católica em Portugal (1933-1974). p. 1. Versão digitalizada, disponível em URL: http://www.aps.pt/ivcong-actas/Acta191.PDF

Acesso em 09/05/2007, às 24 h e 46 min.

[9] BETTENCOURT, Dom Estevão Tavares, OSB. Op. Cit.

[10] Ibid.

[11] “Neste panorama, observamos que, no projeto colonizador e evangelizador, Igreja e Estado Português, andavam juntos, uma vez que estavam interligados pela instituição do Padroado Régio; o Rei era a maior autoridade da Igreja, no território português e em suas colônias, e tinha direitos e deveres religiosos que muitas vezes se confundiam.” CASIMIRO, Ana Palmira Bittencourt Santos. Constituições Primeiras do Arcebispado da Bahia: Educação, Lei, Ordem e Justiça no Brasil Colonial. p.3. Versão digitalizada disponível em URL: http://www.histedbr.fae.unicamp.br/navegando/artigos_frames/artigo_005.html

Acesso em 13/05/2007, às 21 h e 42 min.

[12] “Saibam os pretos, e não duvidem, que a mesma Mãe de Deus é Mãe sua porque num mesmo Espírito fomos batizados todos nós para sermos um mesmo corpo, ou sejamos judeus ou gentios, ou servos ou livres” (Sermão XIV, em Sermões, vol. IX Ed. das Américas 1958, p. 243). Citado em: BETTENCOURT, Dom Estevão Tavares, OSB. Op. Cit.

[13] Ibid.

[14] VIEIRA, Antônio, SJ. Sermão XXVII, em Sermões, vol. IX Ed. das Américas 1958, p. 64. Citado em: Ibid.

[15] Ibid.

[16] BENCI, Jorge, SJ. Economia Cristã dos Senhores no Governo dos Escravos. São Paulo: Editorial Grijalbo, 1977. pp. 223-224.

[17] CASIMIRO, Ana Palmira Bittencourt Santos. Op.Cit. p.6.

[18] Em seu Discurso II § 3, o Padre Jorge Benci demonstra que ao contrário do Direito Imperial Antigo que permitia apenas o casamento para os livres, o Direito Canônico o estendia também aos escravos. Para tanto, vide Ibid. p. 102.

[19] BETTENCOURT, Dom Estevão Tavares, OSB. Op. Cit.

[20] CASIMIRO, Ana Palmira Bittencourt Santos. Op.Cit. p. 9.

SURUBA E SEXO “CULTURAL” NA CAMA DA TV GLOBO. VEJA AGORA NA PÁGINA “VÍDEOS”

NÃO É MORALISMO, NÃO É INGENUIDADE, NÃO É BABAQUICE, é apenas entendendo que os milhões de crianças brasileiras, e nos países de língua portuguesa, não necessitam de estímulo sexual dessa natureza, sem assistência de um(a) sexologo para lhes orientar. elas, as crianças, irão desenvolver sua sexualidade normalmente, como até então, com a colaboração da familia e da escola. entendemos como uma ofensa à dignidade familiar esse tipo de atitude da TV GLOBO e a permissividade por parte das autoridades do setor. a dignidade que vá as favas pois “os senhores da mídia” estão faturando milhões e milhões com momentos como esse que nada mais é que um ” treinamento” para o ensino do sexo à distância da pior forma possível. um ensaio à prostituição. por favor senhores, respeitem seus filhos, suas filhas, seus netos, suas netas já que não respeitam os nossos e as nossas. já temos prostituição infantil acima dos índices não suportáveis. vejam, amigos leitores, que até os rapazes que aparecem nas cenas sentem-se envergonhados para tocar em um assunto que ainda não está maduro em suas consciências. esta é a cultura que jornais, rádios e outros meios aplaudem diariamente, estimulando o “clic” num canal aberto, cuja concessão é do governo federal, portanto, nossa. o governo, por sua vez diz: NÃO PODEMOS CENSURAR, claro temos eleições este ano.

o vídeo de que trata este texto ficará apenas para que os leitores tomem consciência da gravidade e por alguns dias.

O EDITOR (que não gostaria de editar este post)

CHAVES PARTIDAS por helena sut

Como uma percepção tardia e inquietante, o pensamento é dominado pela imagem de chaves quebradas. A mão anônima me entrega os pedaços. Com os olhos trêmulos, observo o brilho do metal, dividida entre a perplexidade e a angústia. A lembrança do fragmento do sonho não revela a continuidade, apenas me devolve a chave partida e domina o presente. Restituíram-me as chaves, mas já não encontro os cadeados ou as fechaduras. Sou guardiã de uma ruptura definitiva que não poderá ser descerrada com a lembrança. Sou refém de uma percepção onírica que abre algumas fechaduras na tentativa de se encontrar como o todo.

Perco-me numa primeira interpretação. As chaves partidas poderiam ser o tempo desvirginado, a imortalidade ou a morte; a impossibilidade de dar corda no relógio, a negação ao domínio do tempo. Mas por quê as chaves retornam como reflexões recortadas, como uma interrupção metafórica para as amarras do esquecimento? Por quê quebrar as peças se não há engrenagens badalando a consciência?

As interrogações acompanham as fluentes aflições. Chaves? A memória é rastreada, alguma chave perdida, alguma chave reencontrada… O tempo percorre o leito em busca das fontes primárias e do destino liberto dos cursos: um território clandestino que fecha a estratégia contra as próprias fraquezas, um horizonte ostensivo que dispersa o olhar com o brilho do fragmentado artefato de metal. Sou a chave partida ou a fechadura que não se encontra? Sou o recorte do sonho ou a narrativa não concluída denunciada num ato falho?

Tantas chaves sem encaixe são entesouradas na gaveta da cabeceira. Troquei alguns segredos ao fechar portas, desisti de destrancar algumas confissões…

Novos questionamentos montam e desmontam realidades como princípios e desfechos poéticos. As chaves de um poema que não escrevi, as chaves de uma leitura que abandonei, as chaves de uma decisão que não assumi, as chaves de um olhar que não retribuí, as chaves partidas que não me deixam esquecer…

Com chaves falsas tento encarcerar o que não domino, guardar a sete chaves os segredos denunciados nos fragmentos e completar as reticências olvidadas com um novo parágrafo a ser reconstruído em novos portais. Talvez amanhã a realidade desperte para ações destrancadas e jogue ao vento a vida sem obstáculos.

O VERDADEIRO PROBLEMA de HILLARY com MARTIN LUTHER KING por barbara ehrenreich.

Os direitos civis dos negros não foram conquistados por homens (ou mulheres) trancados em escritórios. Foram ganhos por um movimento de massas de milhões de pessoas que marcharam, ficaram sentadas, suportaram prisão, tiros e surras pelo direito ao voto e a transitar livremente.

Barbara Ehrenreich*

No começo pensei que era outra trapaça branca com a cultura negra e a criatividade: os Rolling Stones apropriando-se do Bo Diddley beat, Bo Derek praticando esporte com o cabelo cheio de trancinhas e agora Hillary, dando crédito a Lyndon Baines Johnson para votar a lei de direitos de 1965. Se essa honra já foi concedida a um branco, LBJ era uma curiosa opção desde que passou toda a convenção democrata de 1964 manobrando para evitar que o Partido Democrata pela Liberdade do Mississippi conseguisse ocupar sequer uma cadeira dos dixiecrats. Segundo os critérios de Clinton, em 1972 deveríamos ter confiado em que Richard Nixon ia legalizar o aborto.

Mas o comentário de Clinton sobre LBJ revela algo ainda mais preocupante do que a surdez racial: uma teoria da mudança social que é tão elitista como incorreta. Os direitos civis dos negros não foram conquistados por homens (ou mulheres) trancados em escritórios. Foram ganhos por um movimento de massas de milhões de pessoas que marcharam, ficaram sentadas, suportaram prisão, tiros e surras pelo direito ao voto e a transitar livremente. Alguns eram estudantes e pastores, muitos eram agricultores pobres e trabalhadores urbanos. Ninguém tentou ainda fazer uma lista com seus nomes. Também é problemático, evidentemente, que se reduza o movimento pelos direitos civis a dois nomes: Martin Luther King Jr. e Rosa Parks. O que aconteceu com Fannie Lou Hammer, que chefiou a delegação do Partido Democrata pela Liberdade do Mississippi na convenção de 1964? E com Ella Baker, Fred Hampton, Stokely Carmichael e centenas de outros líderes?

A teoria da história das grandes personalidades pode simplificar a escrita de livros didáticos, mas não lança luz sobre como a mudança realmente ocorre. Os direitos das mulheres, por exemplo, não foram obtidos por Betty Friedan e Gloria Steinem enquanto elas tomavam chá. Tal como Steinem seria a primeira em reconhecer, o movimento feminista dos anos setenta fincou suas raízes em volta de mesas de cozinha e de cafés, impulsionado por centenas de milhares de mulheres anônimas e fartas de serem chamadas de meu bem no trabalho e de serem excluídas dos trabalhos “de homens”. As estrelas da mídia, como Friedan e Steinem fizeram um brilhante trabalho de proselitismo, mas precisaram de um exército de heroínas anônimas para encenar os protestos, organizar conferências, repartir pasquins e difundir a mensagem para a vizinhança e os colegas de trabalho.

Mudança, este ano, é um grito de guerra democrata, mas se eles não sabem como ocorre a mudança, não estão preparados para promovê-la por si mesmos. Um caso ilustrativo é o plano de “reforma sanitária” de Clinton, de 1993. Ela não fez nenhuma viagem pelo país para ouvir o que as pessoas tinham a dizer a esse respeito, nem teve reuniões televisionadas apresentando comoventes testemunhos locais. Em vez disso, juntou durante meses uma tropa de especialistas e palacianos em reuniões a portas fechadas, algumas rodeadas de tanto segredo que até os próprios participantes foram proibidos de usarem lápis ou caneta. Segundo David Corn, de The Nation, quando Clinton foi informada de que 70% dos americanos pesquisados eram favoráveis a um sistema de pagamento individual, respondeu com sarcasmo: “agora me diga alguma coisa interessante”.

Poderia ter feito as coisas de maneira diferente, de um modo que não deixasse os 47 milhões de americanos sem cobertura sanitária que existem atualmente. Poderia ter começado percebendo que não ocorrerá nenhuma mudança real sem a mobilização das pessoas comuns que querem a mudança. Em vez de seqüestrar a si mesma com economistas e consultores de negócios, poderia ter se reunido com organizações de enfermagem, grupos de médicos, sindicatos de trabalhadores sanitários e advogados de pacientes. E, depois, poderia ter ido até a população e dizer: estou trabalhando por uma mudança séria na forma de fazer as coisas e será necessário vencer duras resistências, ou seja que vou precisar de todas as formas possíveis de apoio.

Mas ela fez do seu jeito e acabou com um plano de 1300 páginas do qual, de um lado e de outro, ninguém gosta e que ninguém sequer compreende, o que demonstra que a mudança histórica não é feita pela garota mais elegante, mesmo que ela divida a cama com o presidente. Da mesma maneira, ignorou o movimento contra a guerra desta década e perdeu, com isso, um incalculável número de votantes democratas, feministas incluídas.

Eu gostaria de pensar que Obama, com sua experiência na organização da sua comunidade e com sua insistência em estimular as pessoas, entende tudo isto um pouco melhor. Mas, seja qual for o presidente eleito este ano, não haverá nenhuma mudança real de cunho progressista sem um movimento social de massas para trazê-la, seja pedindo contas ao presidente ou à presidenta, seja impondo a ele, ou ela, uma verdadeira prova de fogo. E um movimento social não começa na cúpula. Começa exatamente agora, com vocês.
_________________________

*Barbara Ehrenreich é uma jornalista norte-americana de grande reputação como pesquisadora das classes sociais nos EUA. Esta atividade de pesquisa tem ocupado toda sua vida desde que se infiltrou, usando um disfarce de si mesma, na classe operária que recebe salários de miséria, em seu já clássico Nickel and Dimed [Por quatro centavos], um relatório exaustivo das enormes dificuldades pelas que passam muitos norte-americanos que precisam trabalhar duramente para sair adiante.

Depois, anos mais tarde, repetiu essa operação colocando o foco na classe média, mas desta vez, para sua surpresa, não acabou trabalhando de incógnito entre trabalhadores, senão que, basicamente, teve que tratar com desempregados mergulhados no desespero de terem sido expulsos do mundo empresarial. O resultado desta recente incursão é outro livro, mais recente, Bait and Switch. The (Futile) Pursuit of the American Dream. [Gato por lebre. A (fútil) busca do sonho americano]. Atualmente dedica muito tempo a viajar por todo o país com o propósito de contar suas experiências para diversos públicos que compartilham suas mesmas vivências. Escreve freqüentemente em seu blog e está muito envolvida em montar uma nova organização dedicada a articular os desempregados de classe média.

Tradução: Naila Freitas / Verso Tradutores

carta maior.

PALHAÇO RA-FACISTA por walmor marcellino

Eu não deveria ocupar o meu e o tempo de vocês com tais assuntos, porém o destino nos cobra ágios, deságios e espantos: Dia 28 último, noite avançada, o palhaço trivial Arnaldo Jabur foi convocado a expender suas considerações filosófico-políticas sobre sociedade, política, cultura e o mundo, a moralidade e seus costumes, o bem e o mal; pois essa é a tarefa prioritária numa “imprensa livre e democrática”  e isso lhe é perfeitamente ajustado. A gente não deveria estranhar essas esdrúxulas coisas, mas existem fatalidades…
E ele então, que vive se excedendo como a Shell, atirou mais última: não disse que os árabes e jabures seriam uma sub-raça comparada com a anglo-saxônica, nem mesmo se referiu dessa vez aos negros, esquimós e curdos, ao modo depreciativo; deixou até asiáticos, chicanos, latinos e brasileiros de lado e… tcham, tcham!… apostrofou os índios bolivianos.
Sabemos que Arnaldo Jabur, Diogo Mainardi et al. são aberrações de circo e ganham notoriedade para sardonizar não ao Sarcosy, que é patife novo no cenário decadente da França, nem ao Uribe, que é um bandoleiro autorizado a traficar com os Estados Unidos em cima. Esses como alguns outros rapazes da imprensa notória têm sido induzidos agentes da civilização ocidental cristã, introduzidos no noticiário das cotações da Bolsa de Nova York, Frankfurt, Londres e Tel-Aviv, o que é uma nobérrima missão ultra-secreta. Porém, sendo trêfegos palafreneiros, bandeirolas ao alto e matracas à frente, das idéias “politicamente confiáveis”, essa escória intelectual a soldo se excede como a Exxon e a Shell.
Não é que o patife do Jabur disse altissonante que os “cholos” (como eles são apontados desprezivelmente pela “aristocracia altiplana” até agora dominante), isto é, os índios bolivianos jamais poderão se igualar a feitos e obras da “sociedade superior boliviana”, ou agir e pensar produtivamente como “seres humanos normais” (brancos, ricos e fâmulos cosmopolitas, quis dizer). Sei que diante de tal acinte racista, os “cholos” bolivianos, o Evo Morales nem os nossos indígenas ou todos nós não vamos invocar a Lei Afonso Arinos contra o pilantra da Rede Globo. Todo mundo anda ocupado com a subsistência honesta.
Pode ser inusitada, mas a expressão ra-fascista é tão só uma síncope de racista e fascista, como deveríamos indexar e condensar esses conceitos chulos (não cholos)… Pois o dia 28 foi uma dessas fatalidades dificilmente explicáveis ao bom-senso, quando eu vi e ouvi à noite mais um aberrante jornalismo da TV-Globo. Imperdoável!

O CÁLICE SAGRADO e a LINHAGEM SAGRADA – de lázaro curvelo chaves.

Ao final do século XIX a pequena cidade de Rennes-le-Château, no sul da França, recebeu um novo pároco, Bérenger Saunière. Dando início a obras de reforma na nave da igreja precisou escavar mais fundo e encosanto-graal.jpgntrou alguma coisa que o projetou internacionalmente dando-lhe incríveis poderes sobre seus pares e superiores da época, além de lhe granjear espantosa fortuna. Desenvolveu um sistema de crenças peculiar e foi tratado com calmo desdém pelo Vaticano. Já em seu leito de morte pediu um sacerdote. Após a confissão o padre chamado estava aos prantos, não lhe concedeu absolvição e deixou a batina pouco tempo depois.

Tudo isto é história. Fato concreto. A partir daí, Michael Baigent, Richard Leigh e Henry Lincoln fazem profunda, bem documentada e demorada investigação buscando pistas ao que não ficou formalmente registrado nos anais da história: o que teria o pároco encontrado? Um tesouro? Pergaminhos? De que natureza? Como aquela descoberta lhe granjeou tamanha fortuna?

Quando em busca de respostas, frequentemente nos deparamos com questões ainda maiores e mais profundas. Foi o que ocorreu com os pesquisadores ingleses.

Os cátaros
No século XIII desenvolveu-se no sul da França um cristianismo diferente. Acreditava que Jesus de Nazaré tinha uma natureza primordialmente humana e a interpretação das Escrituras era feita de maneira independente do Vaticano que, intolerante, ordenou o massacre dos desobedientes. A história dos Cátaros, riquíssima e bem tratada no livro, leva-nos quase a ver pessoas desenvolvendo uma estrutura societária diferente e, por isso, pagam com a vida. O papa ordenou que se passasse a todos os hereges a fio de espada. “Como discernir os católicos fiéis dos hereges?” – ao que o papa teria respondido: “matem a todos. Deus reconhecerá os dele!” Foi o maior genocídio bem documentado da história da Europa. Os Templários tinham simpatias com as crenças dos Cátaros e, mesmo por isso, não participaram do massacre.

Mas… Como essa fé se desenvolveu naquela região? Baigent, Leigh e Lincoln discorrem sobre a tradição ligada à vinda de Maria Madalena e muitos dos primeiros cristãos àquela região, cheia de Igrejas e esculturas a Santa Maria Madalena num período em que, para se contrapor a uma tendência a equipará-la a Maria, mãe de Jesus, o Vaticano difundiu a extravagante idéia segundo a qual Madalena teria sido uma prostituta. Nada exista nas Escrituras a corroborar esta versão que, contudo, ganhou o imaginário popular.

Com quem mais veio Madalena ao sul da França? Que documentos ou que idéias portava consigo? Há inúmeros vestígios – todos criteriosamente arrolados nesta Obra – e uma rivalidade entre o cristianismo paulino e aquele desenvolvido pelo núcleo de que Madalena fazia parte e que, quase com toda a certeza, estava na raiz dos primeiros lustros da fé cristã. A consideração da mulher, não apenas como “vaso sagrado”, mas como indivíduo humano com os mesmos direitos que os de sexo masculino, suprema ofensa para o machismo que imperou na tradição do Vaticano. Se entre os cátaros as mulheres podiam ser sacerdotes e debatiam as Escrituras em igualdade com os homens, para o Vaticano isto era supremo escândalo.

Mas… Como compreender a devoção dos Templários a Maria Madalena e a São João? Por que se recusaram ou, de qualquer forma, encontraram meios de não participar do infame massacre de cristãos no sul da França no genocídio que entra para a história como Cruzada Albigense? Para isto foi necessário visitar a história dos Templários e, nela, os pesquisadores encontraram referências a uma Ordem que precederia os Templários e teria mesmo sido uma com a Ordem do Templo até o corte do olmo.

O Priorado de Sião
Como rastrear uma Organização Secreta milenar que, sobretudo, luta por manter-se secreta? De novo, há inúmeros vestígios e, mesmo relutando em aceitar esta teoria os Autores precisaram arrolá-la e registrá-la pelo menos até que surja uma explicação mais convincente aos fatos descobertos.

A obra dos britânicos é uma investigação pioneira que Dan Brown utilizou em seu romance “O Código Da Vinci”, escrevendo de maneira mais fascinante, mas sem o compromisso investigativo de Baigent e companheiros.

Fato é que, partindo de premissas diferentes e abordando aspectos distintos, um número cada vez maior de Autores concorda em alguns pontos:
•  Os Templários fizeram escavações nas ruínas do Templo de Salomão e encontraram pergaminhos preciosos;
•  Nove cavaleiros iniciais estiveram por nove anos na Terra Santa dedicados mais à escavação do que propriamente à proteção de peregrinos;
•  A Ordem foi organizada em teoria antes de existir na prática;

O AUTISTA e DESTINO – dois contos de raymundo rolim

O autista

Chamavam-no o Louquinho da Rua. Outros juravam que era assim desde pequeno. E havia também quem afirmasse que o mesmo ficou daquele jeito por desconhecer o paradeiro da mulher de seus amores que simplesmente desaninhou-se num dia de tempestade entre raios e trovões. O certo é que o pobre homem escapava ao largo da imaginação e da percepção da gente do lugar. Ninguém nunca o ouvira pronunciar palavra. Sempre cabisbaixo, aparência desleixada, um chapéu posto de qualquer jeito sobre a cabeça grande. Saía pela manhã e só retornava quando o dia vinha transpondo a linha do horizonte. Muitos creditavam ao Louquinho a façanha de fazer sumir o sol – tamanha à fidelidade do tempo decorrido em que ele aparecia quando a bola vermelha de fogo se jogava por detrás dos montes e dos olhos de todos dali -. Uma vez, a estrela do dia, alongou-se um pouco mais em seu curso, (Josué 10:12). * Saíram às ruas. Em vão esperariam que lá, no topo da colina, o autor de único e assombroso feito se apresentasse, ele o Louquinho da Rua, o grande prestidigitador burgo. E não se deitava nunca o luzeiro-mór pras bandas de sua caverna incandescente. Dúvidas e indagações sem palavras se chocavam no ar. Entreolhavam-se atônitos. Os que mexiam nervosamente os dedos não eram os mesmos que se sentavam no fio da calçada e colocavam as mãos sobre a cabeça. Houve ainda quem, naquelas horas, armado de um terço, começasse a mexer os lábios numa prece ininteligível a homens e deuses. Um místico ajoelhou-se e elevando os olhos aos céus interiores, abriu os braços ao conceber no vórtice do tempo, as muralhas de Jericó tombarem em ruínas, enquanto o Louquinho da Rua, na pele do bravo guerreiro, instigava ainda mais os seus homens para que não ficasse pedra sobre pedra; nem ovelhas, nem cabras, mulheres, idosos ou crianças. E sob a égide da fumaça infausta, ouvia-se o rigor da canção das espadas nas carnes tenras e frágeis. Por fim, cada qual com uma história insólita, ruminativa, a coçar-lhes internamente os crânios, retornou à sua casa. O sol adormecia lentamente junto ao vilarejo.         

 citação: Josué 10:12 – Biblia  

              

  

Destino

 Ademais o tempo andava frio, chuvarento, às avessas.     Poucos se arriscavam a enfrentar-lhe os punhos – principalmente à noite – quanto mais visitar o casarão que ficava do outro lado da cidade e que era alvo de muitas e veladas especulações por quem lhe conhecia as histórias     Dizia-se de tudo       De sua varanda adornada com filetes de ouro e que ficava de frente para um bosque que se movia dependendo da lua    E também sobre o choro intermitente e lastimoso de uma moça que vez por outra aparecia – cabelos ao vento – de perfil. Dela conta-se que até hoje murmura o nome daquele que lhe foi tão caro e que alegrara os seus poucos dias de juventude, mas que desapareceu assim como havia chegado     Os vizinhos benziam-se quando passavam em frente sem arriscar ao menos a olhadela disfarçada – de viés – para que cultivassem grato e bom sono E corria ainda uma outra história acerca de um cocheiro e sua carruagem mágica cuja antiga rota passava defronte ao casarão todas as noites e que para evitar desconfortos maiores incitava com gritos os pobres animais que vinham de longe arfando e os obrigava ao galope até que num vôo desapareciam entre multidões de nuvens (não sem antes ele, o cocheiro, virar o rosto para o lado oposto ao da varanda) quando então puxava sobre si a sua capa e com ela ocultava urgentemente a cabeça.Mesmo assim ele foi     Armou-se de coragem o forasteiro e foi sabedor dessas e doutras tantas, apeou-se.  Amarrou a montaria na cerca coberta pela hera espessa cujo peso forçava os ferros retorcidos e enferrujados.   Impressionava aquele lugar infinitamente cru e desolado Entrou pé ante pé por um caminho estreito por onde grassava um caramanchão secular cujas pontas da ramagem se estendiam e se esparramavam para todos os lados e aos jorros para baixo Empurrou o portão que rangeu doído ao toque da mão destra e firme  Levantou a cabeça e olhou por entre as frestas dos galhos     Afastou algumas folhas da frente do rosto A lua cheia brilhou por um instante no fundo daqueles olhos que incandesceram suaves     Avançou alguns passos…     Ouviu ao longe tonitruante galope de muitas parelhas que calcinavam o chão em que pisavam  Os sons vinham de todos os lugares e de lugar algum  Respirou fundo…     A mão pousada sobre o arbusto experimentara um leve estremecimento   O coração pulsou-lhe forte acelerando a circulação Chegavam-lhe rumores cada vez mais próximos como o estalar de um chicote     Seu cavalo relinchou empinado sobre as patas traseiras Balançou a crina enquanto na varanda inclinada apareceu a silhueta de uma moça – cabelos ao vento – que soluçava baixinho e murmurava um nome familiar algo parecido ao seu próprio nome     Um frio traspassou-lhe dos pés à cabeça e os seus pelos se crisparam.Entre sussurros e lamentos a moça virou-se lentamente e ele o forasteiro a viu de frente     O ruído das patas dos cavalos parecia vir agora de dentro da sua cabeça     Retrocedeu trêmulo Silencioso e reverente o cocheiro curvou-se     Apanhou o corpo abandonado e acomodou-o no interior da carruagem     A moça da varanda desceu então as escadas que oscilaram leve ao quase inexistente peso Um vento gélido e intempestivo irrompeu súbito e rodopiou em volta e sobre os cabelos dela que auxiliada obsequiosa e gentilmente pelo condutor da carruagem adentrou e tomou assento e entre as mãos num gesto de profunda adoração a cabeça do forasteiro Sorveu delicadamente com a pontinha da língua cada gotícula de suor que emergia daquelas têmporas afogueadas e úmidas     Aspirou profunda e ternamente aquele cheiro que tão bem conhecia enquanto carruagem e passageiros elevavam-se do solo disparando entre nuvens eletricamente carregadas e significativamente baixasNo outro dia antes de aparecer o sol achou-se um cavalo que jazia atado junto à cerca com olhos abertos e fixos no profundo vazio Punhados de capim ainda viçosos e frescos pendiam no viés da boca inerte e fria. 

HIS MASTER’S VOICE! – e nóis? – por frederico fullgraf

Crônica da televisão arcaica  

nipper-rca-foto.jpg
Lembra-se de Nipper? Se eu lhe mostrar a fotografia, você dará um suspiro, virá à tona metade de sua vida, ele alegrou multidões. Nossa fábula começa em 1888, ano em que o alemão Emil Berliner sacudiu o mundo enfadado de saraus, com a invenção do gramofone e do famoso vinil. Foi a apoteose. E com luminosa intuição, Johnson, seu sócio, compraria ao pintor Francis Barraud os direitos de reprodução do quadro intitulado His Master´s Voice – voz e golpe de mestre. O logotipo converteu-se na mais célebre marca da historia fonográfica: o enfeitiçado cão Nipper, de Barraud, orelhas perguntantes, olhos nervosos, faro rastejante, buscando o dono da voz no gargalo da engenhoca à sua frente – e nada! Foi mundialmente identificado como “o cachorrinho da RCA”, símbolo de alta fidelidade, uma gracinha! Ironicamente, este é um entrecho de inominável – cachorrada, não, patifaria bípede! – pois, como todos os fiéis, de tanto ouvirem a voz do dono, os Nippers confundem-se com o dono da voz.  E logo descobriram que gramofone também dava poder: a imagem de Nipper como alegoria da comunicação de mão única, com tinturas autoritárias.  Pioneira na tecnologia, a Alemanha do pós-guerra de 1918 instituía também o primeiro sistema de radiodifusão pública. E cobria-se de louvores a democrática República de Weimar. Democrática, mas instável. É quando um intelectual inquieto começa a perceber ruídos na linha – o Nipper aprisionado pelo “discurso único”. E, prevendo o pior, escreve: Na minha opinião, o sr. deveria tentar fazer do rádio uma coisa verdadeiramente democrática (…) Se isso lhe parece utópico, peço-lhe refletir sobre o motivo por que considera  isso uma utopia (…). A provocação era de Bertolt Brecht, dirigida a um superintendente virtual, em sua memorável Teoria do Rádio. Publicada em 1928, é de tal acaçapante atualidade, que – mudança de cenário – cai como uma luva, sobre a arrastada crise das rádios e TVs ditas “públicas”, da qual a Paraná Educativa é exemplo tumultuado. Síntese da teoria de Brecht é de que “todo receptor é também seu próprio transmissor” – vindicação democrática perigosa nos recônditos do poder, onde campeia a alma penada do espírito autoritário. E já advertia Hannah Arendt, com a sensibilidade que lhe era própria: “O que a esfera pública considera impróprio, pode ter um encanto tão extraordinário e contagiante, cabendo que o adote todo um povo, sem perder por tal motivo seu caráter essencialmente privado” (A Condição Humana, 1981).  E o ano novo na capital das poucas, vexadas araucárias, surpreendeu-nos com vomição sem fim das nuvens, prenhes de efeito-estufa, e um barraco. Que refúgio da trovoada não era, antes foi própria morada do demo, forja de raios e palavrório faiscante: após enxovalhar, anos afora, através da Paraná Educativa, canal concessionário da União, um sem número de desafetos e servidores do próprio Estado, o governador do Estado sofreu embargo e advertência de um juiz federal: está proibido de usar os canais de rádio e TV para a veiculação de vitupérios, a TV obrigada a veicular mensagem de desagravo ao Judiciário desrespeitado, e, sob pena de salgadas multas em progressão geométrica, proíbe-se ao notificado usar a emissora para promoção pessoal.  Na réplica, o governador lançou campanha contra a “volta da censura prévia”. Fazendo leitura dramática de receita de ovos fritos, teceu doidivanas associações com a longa noite das ditaduras militares, a vigência da doutrina de segurança nacional, as prisões, a tortura, a destruição, enfim, do Estado Democrático de Direito. Mas não teve adesões de peso: assustado, seu próprio partido abotoou-se feito esfinge. Cessar-fogo imposto, não se esclareceu o mais importante: a função social, a missão genuína, outorgada às emissoras ditas “públicas”. E eis a má notícia: a Paraná Educativa não é pública, ela é estatal.  Algumas conclusões são inevitáveis. A crise da Paraná-Educativa reverbera a diversidade e as disparidades do estatuto jurídico das rádios e tvs educativas do país: confundidas como entidades de Direito Público, são majoritariamente canais estatais. “Canais” ou instrumentos? A ambigüidade encontra amparo na própria lei. Embora o artigo 37 do parágrafo 1o. da Constituição Federal estipule que a publicidade dos atos, programas, obras, serviços e campanhas dos órgãos públicos deva ter caráter educativo, informativo ou de orientação social, e seja enfático ao estabelecer que da propaganda de governo “… não [podem] constar nomes, símbolos ou imagens que caracterizem promoção pessoal de autoridades ou servidores públicos”, os abusos são praticados com a certeza da impunidade. Abusos como os do alarife e ex-governador Paulo Maluf, ao apropriar-se, nos anos 90, da TV Cultura de S.Paulo para fins espúrios, abriram a crise naquela emissora, blindada, desde então, com um Conselho, no qual o Estado tem voto, mas não é hegemônico – eis aí, indicadores para a reforma do Estatuto da Paraná Educativa: a criação ou reativação de sua fundação, seu controle por um Conselho Consultivo misto (forças representativas da sociedade civil, com assento para o governo estadual) e eleição democrática de seu superintendente. Ato contínuo, debate público sobre o formato da programação, que deverá privilegiar sua função social e seu perfil pluralista, valorizando criadores culturais de notório saber do Paraná, hoje marginalizados. E formas mistas, públicas-privadas, de financiamento. Mais ao fundo, a crise não deixa de espelhar a República imatura e vilipendiada: Brasil afora as TVs Educativas são cabides de emprego e o regime presidencialista-clientelista tem pendores para perigosos desvios autoritários. Não por acaso o Ministro Gilberto Gil opôs-se ao projeto da TV Brasil com pronunciamento de rara lucidez: “Estatal, não, precisamos de uma TV Pública!”. Fruto de insistentes pressões da opinião pública, a emissora vai ao ar, regida por um conselho e a promessa de não ecoar apenas o ponto de vista do governo federal – o que justifica a pergunta: e no Paraná? A notícia de Brasília não chegou ao Brasil profundo. As “educativas” são ventríloquas: estréiam com o dono da voz, repercutem o discurso único e terminam como a voz do dono – eis o “efeito Nipper”. Sociedade do espetáculo e latifúndio eletrônico detêm a hegemonia da comunicação eletrônica no Brasil. A primeira é reverberada 24-horas-on-line pela medusa de emissoras privadas, comerciais e idiotizantes, que reduzem informação e cultura à “mercadoria” e o ouvinte-telespectador a otário “consumidor”.  A segunda é o trem da alegria das concessões: FHC autorizou 239 rádios FM e 118 TVs educativas em oito anos; em apenas três anos e meio de seu primeiro mandato, o Governo Lula aprovou 110 emissoras educativas, sendo 29 televisões e 81 rádios. “Levando em conta somente as concessões a políticos, significa que ao menos uma em cada três rádios foi parar, direta ou indiretamente, nas mãos deles”( Elvira Lobato, Folha de S. Paulo, 18/06/06). O que fazer? Dotar o Brasil de rádios e TVs alternativas à repulsiva Babel eletrônica, significa avançar na modernidade. Quem vai fazê-lo? Parece razoável que a sociedade civil organizada deva tomar a iniciativa e o Estado limitar-se a estimular e monitorar o processo. De forma generosa: ele está a serviço e não “no lugar” do cidadão. Como fazer? Remédios há: desobediência civil, plebiscitos (e, se não lhe ofende, Calac, alter-ego que Julio Cortázar me empresta como auxiliar de arbitragem, recomenda ligeiro lustro na linguagem: – Francês moderno, Excelência!: agora diz-se l´État sommes nous!, que l´État c´est moi  é coisa feia, fora de moda…). Por último, a distorção de uma Paraná Educativa sem projeto e sem audiência. Sua crise evidencia a incompreensão dos direitos adquiridos do ouvinte / telespectador. Levantamento encomendado ao Ibope pela TVE (RJ) em 2003, já apontava instrutivo comportamento de audiência: 49% dos telespectadores das chamadas classes A e B, haviam sintonizado programas da TVE “em algum momento”, respectivamente 34% da classe C (média-baixa a baixa) e 16% das classes D e E. Traduzindo: quanto mais a pirâmide social se amplia na base, menos o povo se liga em TV pública; mas se ligaria mais, se aquela contemplasse suas necessidades culturais.  Qual é então, seu público cativo? Hoje, dez por cento dos habitantes da região metropolitana de Curitiba, isto é, 250 mil ouvintes -espectadores são “órfãos” de pai e mãe, se preferirem: de rádio e televisão de boa qualidade. É um público que se vincula às manifestações da produção cultural e artística, seja como criador, intermediário (patrocinador, mecenas) e ouvinte-espectador. Além do cabo, é nas TVs “públicas” que busca suas referências de conteúdo, estética, comportamento e política; atitudes que dizem da construção de sua identidade cultural. Ironicamente, ao tentar diferenciar-se do atoleiro da sociedade do espetáculo, este público pró-ativo sofre o desprezo histórico de sucessivos governos estaduais. Esta é, pois, a extenuante crônica da televisão arcaica – agora se faz imperiosa a televisão inevitável. Depois da “era Lerner” era de se esperar um governo sintonizado não apenas em sua própria freqüência, perspicaz e com coragem de escrever a história do país, como agente democratizador da TV Pública. Invertendo o sentido do eixo. Transformando o Paraná de importador, em pólo de produção e exportação cultural – eis a excruciante dívida cultural e social do Governo Requião. Entende-se que depois da receita de ovos fritos, o resto é silêncio, como diria Hamlet… Contudo, Calac acha que nem tudo está perdido: – cá entre nós, Excelência, que tal botar a viola e o gramofone no saco, e convidar o homem para um debate sobre a Teoria do Rádio na escolinha? Como lembrou o próprio, se isso lhe parece utópico, não se avexe, conte pra gente. Se não convidar, estimamos que a utopia ganhe as ruas, aquela baita faixa, assinada Bertolt Brecht – com o perdão pela expressão chula, Excelência, mas: já imaginou a cagada?  

SHOW “30 ANOS SEM LÁPIS” no guairinha – é hoje

 Apresentação é uma homenagem aos trinta anos de falecimento do cantor paranaenselapis-foto.jpg

O show “30 anos sem Lápis”, é um tributo do Centro Cultural Teatro Guaíra a Palminor Rodrigues Ferreira, conhecido como Lápis, compositor, instrumentista e cantor paranaense, que este mês completa 30 anos de falecimento.A apresentação será segunda (11), no Guairinha, às 20h, com ingressos a R$ 10,00.Participam do espetáculo os artistas: Jazomar Rocha, no violão, cavaquinho e voz, Rubem Rolim para cantar “Estranha saudade”, música de sua extensa parceira com Lápis, Galdino Junior, Marlus Coelho, Priscila Rocha, Eliane Bastos e Antonio Eugênio Ferraz (o “Pelicano”) para interpretarem as canções de Lápis e parceiros como Paulo Vítola, José Carlos Miceli e Kaká Buono. Os músicos Rubens Holzmann (violão/guitarra), Nelson Damiani (faluta/saxofones), Jeff Sabbag (piano), Jonas Cella (contrabaixo), João Charmak (bateria), Luciana Sicupira (surdo) e Fernando Loko (pandeiro/percussão), resgatam os arranjos escritos por Rubens Holzmann e Jazomar Rocha.

Durante o show será apresentada uma seleção com os melhores sambas do Lápis e seus parceiros: “Paticumbá” de Lápis e Nicolatte, “Silêncio”, “Samba de ap” e “Leva essa saudade”, de Lápis e Jorge Segundo, “Nada” de Lápis, Rubem Rolim e Bráulio Prado e “Vestido branco”, de Lápis.

O comunicador Sérgio Silva anunciará, durante o show, as músicas, intérpretes e as projeções com depoimentos e fotografias desenvolvidas por Nilson Muller Filho.

fonte: bem paraná.

FÚRIA (2)

se existe uma coisa que me faria terminar um caso seria se minha garota me pegasse com outra mulher.

eu não poderia tolerar isso.

steve martin.

PRIMEIRO, 0 VIBRADOR. (Rumorejando) por josé zokner

[09/02/2008]

Constatação I (Quadrinha para ser recitada em chás beneficentes). Exibindo com triunfo, como um troféu,Às amigas, o mais novo e rico marido

Dizia a ricaça: “Este me caiu do céu:E ele não precisa me amar sendo fingido”.

                                      Constatação II

Deu na mídia no dia 30 de janeiro de 2008: “Jovem é preso com 220 gramas de crack na cueca”. Pelo jeito, o irmão do deputado José Genoino tá fazendo escola…

                                     Constatação III

As fotos da fotógrafa Lina Faria que, em quase sua totalidade, retratam Curitiba (Cruelritiba), ou eventos da cidade, podem ser vistas no blog www.olhodarua55.com Imperdível.                                        Constatação IV

Quando o obcecado leu na mídia que cientistas britânicos criaram espermatozóides a partir de células-tronco da medula óssea feminina, o que pode representar o fim da necessidade do pai na reprodução exclamou indignado: “Primeiro, o vibrador. Agora, para complementar, essa das células-tronco. Cada dia que passa nós, homens, estamos sendo mais descartados”. Socorro!

                                         Constatação V

E como bravateava o obcecado convencido: “Conquistar mulher casada que tem marido violento é o meu esporte radical preferido”.

                             Constatação VI (Quadrinha para ser recitada como alerta às moçoilas desavisadas e respectivos pais).

Tudo não passou dum simulacro:O noivo era um convicto ateuResolveu passar por pio e sacroCasou com a ricaça e se escafedeu.

                                         Constatação VII

Rico é respeitador; pobre, é descumpridor.

                                        Constatação VIII (Quadrinha para ser transcrita nos formulários do imposto de renda).

Por causa do infausto leão,A gente fica assaz ferrado.Tiram-nos até o último tostão.E o governo nem fica atormentado.

                                            Constatação IX

Rico chama a atenção; pobre, apela.

                                       Constatação X Dúvida crucial via pseudo-haicai).

Corporativismo dos deputados

Para não condenar um colega

É para que todos não acabem cassados?

                                     Constatação XI

Não se pode confundir apenas com amenas, até porque, por exemplo, se um pastor que pastoreia ovelhas no campo e ainda toca uma flauta com músicas amenas ele traz certa paz a todos, às ovelhas principalmente, ao ambiente, enfim à fauna e a flora da redondeza; já o pastor, àquele que faz marketing para conquistar as almas dos pobres viventes e que se queixa da pouca arrecadação das contribuições profere frases do seguinte jaez: “A fidelidade dos fiéis deixou de ser fiel. Apenas isso, vocês deram?!!!”

                                                 Constatação XII

Deu na mídia: “Jérôme Kerviel, operador do banco francês Société Générale, acusado de ter causado perdas de US$ 7 bilhões (cerca de R$ 12,3 bilhões) com operações fraudulentas, tornou-se um fenômeno na internet, cultuado em sites e blogs e com admiradores que chegaram a criar uma linha de camisetas em sua homenagem”. Data vênia, como diriam nossos juristas, não é que sejamos favoráveis à fraudes, mas esse cidadão faz por merecer os encômios que está recebendo, por ser um único, enquanto que, em certos países, está disseminado em muitas, mas muitas mesmo, pessoas…

                                                  Constatação XIII

Data vênia, como diriam nossos juristas, mas a ex-ministra da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, Matilde Ribeiro, provavelmente esqueceu, ou não lembrou, que para combater o preconceito racial, ou de qualquer espécie, a gente não deve ter preconceito de pagar contas com o seu próprio dinheiro. Quando for o caso, é claro…

o escritor josé zokner publica sua coluna no jornal “o estado do paraná” aos domingos.

JAIRO PEREIRA, JOÃO BATISTA DO LAGO, MARILDA CONFORTIN, KIMBERLY e JA COMENTAM EM : “COMA” poema de jb vidal

 

 

 COMENTÁRIO

jairo | IP:         em setembro 17, 2007 às 10:51 pm

Grande poema (COMA) de meu amigo Vidal. Eis o homem na antesala da morte. Matéria e pensar. Conhecimento & experiência. Signos fortes, altamente subjetivos. Indagações q. só um poeta é capaz de lançar no laboratório-vida.

Um poema pra ler reler transler.

jAirO pEreIra

 

 

  

COMENTÁRIO em “COMA –  poema de jb vidal” feito por JA Anonymous | IP:

Ele não é mais o mesmo, desconhece suas pegadas, são tão vazias. Essa tão inusitada leveza em que se encontra faz olhar o mundo como se fosse desconhecido e a ele nunca pertencido. Encontra o oco do corpo enquanto procura as emoções registradas e não as acha e perplexo fica boquiaberto, deixou que tudo assim transcorresse. Em jogo, perdeu a admiração, aquela que fazia seus olhos brilharem noite e dia, agora opacos apercebem-se do escuro. Acabou ficando inerte olhando o pássaro a voar através da vidraça do quarto que o acolhe. Acabou no presente contínuo do verbo e, talvez, nunca mais volte para onde esteve uma vez comigo e outra consigo.
Acabou de acabar com a vida nesse estiro de um suspiro fugaz e acabando com aquele olhar funesto e satisfeito, volta em carne e osso para contar um passado pretérito do perfeito presente.
Não existe mais explicação para esse desatino, a morte do errante se faz necessária, mas há o apego com esse inimigo e a questão se torna contra ele mesmo sobre o que fazer. Morrer sem perceber seria a dádiva vinda dos céus e matar conscientemente seria um ato contingente que requer astúcia, tempo e disposição.
Amar a si próprio até que a morte o separe do corpo venerado exige, de certa forma, a quebra do espelho que o amarra. A procura, constante, da beleza o faz cego, a feiúra passa a ser a concretização de seus erros e de suas falhas inaceitáveis, e o desejo da posse de seu próprio corpo se desfaz. A solidão o ataca de vez, dissimula sua realidade encantadora e o joga longe do espelho, debatendo-se por ver-se corrompida a própria imagem foge com o eco da feiúra, atormentado.
Sem o auto-desejo, sente-se impotente, sem controle, sem poderes de manipulação, sem ninguém, sem direção. Busca o desconhecido como afirmação para lançar sobre ele sua imagem na expectativa de retro alimentar-se devidamente. Alimenta-se, infla-se e volta contra o passado e a favor de um futuro cheio de efemeridades satisfatórias.
O circulo de narciso, a morte e a vida, a paixão pela própria sombra, a cegueira, a surdez, o pouco caso, a insensibilidade benfeitora que tentando destruir o outro quando quem acaba é ele mesmo. Macabra vida essa que não sabe se morre ou se mata.
JA

Set 19, 6:46 PM  

  

  

COMENTÁRIO em “ A INTELECTUAL PELADA conto de jb vidal” feito por joão batista do lago 

João Batista | IP

Belíssima crônica, meu caro JB Vidal. Despregada de artificialismo academicistas que os frescos e obtusos críticos querem – ainda hoje – impingir a uma forma lírico-pessoal – e só pessoal – de escrever. Vá em frente.
Bem sejas.

Set 12, 7:33 PM

  

  

COMENTÁRIO em “MANUTENÇÃO (editoria)” feito por marilda confortin: 

marilda confortin | IP:

Não sei de quem é esse blog, mas está muito legal. Tem uma penca de amigos aí… tem até poema meu.

Mas esse aviso, “EM MANUTENÇÃO”, me remeteu a uma gaiatice que escrevi. Segue aí pro dono do blog rir um pouco:

lógica

Meu computador precisava de manutenção.
Formatei o disco rígido,
instalei a última versão do sistema operacional,
programas novos,
fiz upgrade,
passei anti-vírus,
reconfigurei,
reinicializei.
Parabéns!
A instalação foi um sucesso!
Beleza! Parece que isso funciona.
Eu também preciso de uma manutenção.
Formatei o coração mole,
aceitei viver nesse sistema moderno,
programei rotinas novas,
deletei velhos amores,
fiz plástica,
abandonei os vícios,
tá legal, tudo de novo!
Recomeço!.
Fracasso total!
Não me reconheço!

(Marilda Confortin)

Parabéns pelo conteúdo do blog, seja lá quem for você.

Out 30, 7:58 PM  

 

 

 

 

 

 

 

  

COMENTÁRIO em “A CRIAÇÃO DA XOXOTA poema de mário quintana” feito por KIMBERLY:

kkkkkkkkkkkkkk morri!
Cade a criação do penis? aquela coisa estranha que mais parece algum marisco ou um dedão gigante?

aoieoeiaoeiaoejhoiajeaoioie ;D

Dez 15, 10:57 PM  

 

 

 

  

COMENTÁRIO no poema “ONDE É de jb vidal” feito por JA      

JA

 

O corpo, a mente, a alma liberta.
O corpo, a mente, o inerte.
A mente, embriagada.
O corpo abandonado
Onde se encontra o corpo e a mente nem sempre a alma habita.

Set 27, 4:06 PM

 

TRABALHEMOS MENOS, TRABALHEMOS TODOS por emir sader

Muitas coisas nos diferenciam dos outros animais mas nada é mais marcante do que a nossa capacidade de trabalhar, de transformar o mundo segundo nossa qualificação, nossa energia, nossa imaginação. Ainda assim, para a grande maioria dos homens, o trabalho nada mais é que puro desgaste de suas vidas. Na sociedade capitalista, a produtividade do trabalho aumentou simultaneamente a uma tão forte rotinização, apequenamento e embrutecimento do processo de trabalho que já não há nada que mais nos desagrade do que trabalhar. Preferimos, a grande maioria, fazer o que temos em comum com os outros animais: comer, dormir, descansar, acasalar.Não foi descoberta de Marx e sim de Adam Smith e de David Ricardo que o valor dos produtos não vem da terra, nem dos metais preciosos, nem da tecnologia, mas do trabalho humano. Daí o lugar essencial que ele tem nas nossas sociedades, ou que deveria ter.