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LUZES DA TARDE – de tonicato miranda / curitiba

TONICATO MIRANDA - Luzes da Tarde 2

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para os palavreiros

antes que a tarde acabe

dúvida que de mim duvida

mais um desenho a fazer

ou num poema me fazer

.

não falo de fazer como quem

veste o ego ou uma roupa

mas de fazer o corpo-casa

o espírito obrando sua casa

.

olho à janela e vejo a luz

apraz-me este ar parado

o calor manso desta tarde

borboletas belas na tarde

.

a vontade de desenhar perdeu

para a vontade do poema

foi bom não perder a tarde

farei desenhos mais tarde

Chuva com Velhos na Cabeça! – por tonicato miranda / curitiiba


Por aqui chove um oceano.

Da rua vem o barulho dos pneus chiando no asfalto com tanta água.

Vozes soltas aqui e por lá, além das pombas voando meio perdidas junto à janela do Escritório das Penas Eternas. Todos estão meio desorientados em meio a este momento diluviano. Interessante dizer que estou há pouco mais de 24 horas para retornar para Curitiba. Chega. Já estou cansado de estar ausente de casa. Por mais que existam parentes por aqui, lar é sempre o lar.

É certo que tenho mais amigos aqui do que por aí. Daqueles amigos que se pode falar mal da companheira, dos filhos e até mesmo falar mal de nós mesmos. O ouvido é surdo e escuta tudo calado. Pressente que o momento é de desabafo e se presta à condição de fossa. Claro que não abusamos da amizade nestes momentos, é só um vomitozinho pequeno. Logo nos recompomos e seguimos viagem junto à amizade tão querida. Está claro que têm pessoas que exageram e fazem do ouvido alheio uma Fossa de Java. Destila o fel e a amargura interminável. Acabam por se tornar chaaatos!. Os velhos são dados a esses papéis. Deus e o Diabo livrem-me deste vício. Chamo os dois porque desta pecha não quero ser lembrado. Uma vez que os dois, segundo a mitologia da igreja católica, andaram juntos no começo de tudo, invocando-os em dupla não estou nem pecando, nem sendo ingrato.

Mas falava dos velhos.

Puxa, que chuva incrível!

Sigamos nesta crônica oceânica.

Interessante as queixas do meu pai sobre minha mãe, hoje pela manhã.

Disse-me ele:

__ Sua mãe não me dá descanso. Imagine que se abro a janela um pouco mais ela reclama. Ela quer que a janela fique aberta dois palmos, nem mais nem menos. E a toalha? Se penduro no varal da esquerda, ela reclama porque isto tampa a claridade que entra na cozinha. Pior ainda quando vou comprar verduras e legumes. As batatas têm que ser quase do mesmo tamanho. Caso traga para casa uma grande em meio a um monte mais ou menos do mesmo tamanho, lá vem o esbregue. É difícil, meu filho.

Posso dizer que tenho sido vítima também do humor e das manias da minha mãe.

Do alto dos seus 82 anos, ela tem lá as suas razões, mas tem exagerado um pouquinho. Ontem, antes de dormir lembrou do meu Tio Geninho, espécie de patriarca da Família Mattos. Ele morreu aos 95 anos e 3 meses. Mesmo assim ainda deu algumas ordens a todos aos 95 anos e 1 mês. Minha mãe, citando-o, disse que toda a casa deve dormir arrumada, pois se houver a necessidade da visita de um médico durante a noite ou na madrugada, o que iria pensar o médico sobre uma família desorganizada que dorme sem arrumação?

Dá para imaginar uma colocação dessas? Isto ocorreu a propósito das minhas sandálias que estavam sob uma mesinha de centro quando a minha mãe entrou no quarto da TV para arrumá-las antes de eu dormir. Como estou passando um período aqui em Brasília, na condição de hóspede, engoli em seco. Carona e hóspede prolongado não dão pitaque. Têm de ficar calados.

Ainda bem que passo o dia inteiro longe da casa dos meus pais, somente chegando mais de 21h, todos os dias.

Mas tenho uma pena danada do meu pai!

Coitado do velho, vítima de uma pobre e adorável velhinha.

Caso fechasse o olho e pensasse um pouquinho, acho que não casaria com ela não.

Isto hoje, um momento em que já a conheço há muito tempo.

Mas teve época que a aceitava de forma integral.

Agora, pensaria duas vezes.

Putcha lá vida! Como dizem os curitibocas do interior do município, que chuva lazarenta! Travou a pesquisa de campo no seu último dia, adiando o fecho do trabalho e o reboliço dos estagiários aqui no Escritório das Penas Eternas. Quem sabe amanhã chova menos?

Eu preciso voar em asas de aço, no rumo de Curitiba.

Vou sentir saudades da mãe arrumadinha.

E conto uma última.

Diz meu pai que quando a diarista está limpando a casa ela sai andando atrás da coitada e vai passando a mão sobre os móveis para ver se não sobrou um resquício de poeira.

Ah minha pobre mãe!

Ah mais ainda, meu pobre pai!

Quando um mendigo mendiga… de tonicato miranda / curitiba

TONICATO MIRANDA - Sophia e Catherine


para Sophia Loren e Catherine Deneuve

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Se eu

lambesse com a língua curva

o parafuso mais recurvo de uma nave estelar

seria muito mais do que um boi estrelado

seria um quadrúpede intergaláctico e alado

Mas não,

sou touro do campo mesmo

lambendo chão, remoendo gramíneas

trespassando o corpo de porteira em porteiras

chifrando os horizontes e as segundas-feiras

Se eu

babasse a baba do ódio com o olho turvo

seria um demo de carranca na cara

meu frontispício assustando o espelho

a cara fugindo da imagem, qual coelho

Mas não,

tenho a cara santa e limpa

sorriso suave, noves fora da maldade

e até dizem tenho um rosto suave

que até confiança produz à pequena ave

Se eu

fosse um jacaré com dentes pontiagudos

ansiando o estômago por carne dilacerada

de frango, de galinhas e suas ninhadas

penas apenadas seriam na boca trituradas

Qual o quê…

sou quase vegetariano e verde

meus dentes e as bocas do meu olhar

miram mais os peixes e os frutos do mar

uma dúzia de camarões já me serve um manjar

Se eu

fosse um rude de queixo duro

gestos imprecisos, mãos e pés calejados

monossílabos frios e curtos no canto da boca

teria a voz sem cantares e arte, totalmente rouca

Qual o quê…

meu canto também é rouco

a voz, do princípio ao fim de um louco

apenas ressoa o muito brilho de um cântico

porque sou irremediavelmente romântico

Se eu

fosse o pergaminho de uma era

teria apenas poucos versos impressos

um poema de pedra e tons de verdes

na umidade da gaveta criando musgos mais verdes

Mas pra quê?

ninguém se interessa por poemas e poesias

nem por bois voadores e jacarés comedores de galinhas

muito menos por musgos e liquens

o mundo continua atrás dos verdes e seus níqueis

Se eu

fosse um mago da palavra

que um gesto da vara e no abracadabra

pudesse mudar o olhar da atriz

fa-la-ía mirar-me na platéia, deixando-me por um triz

Mas pra quê?

se a personagem e os atores da peça

somente à atriz seu olhar interessa

não vê que este pobre ser pedalador de bicicleta

não é homem, boi ou musgo, apenas um mendigo poeta

PEQUENA ODE AO SUICÍDIO de tonicato miranda / curitiba

para 4 “Js”: Joplin, Hendrix e Morrison

Pensar no suicídio como esconderijo

A raposa acuada na busca da toca

Pensar no suicídio como o baque rijo

O corpo vindo ligeiro ao beijo do cimento

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Pensar no suicídio como o balido da voz

A carne dura do bode ferindo a faca

Pensar no suicídio como o rio na sua foz

Afogando-se nas águas ele feito de água

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Pensar no suicídio como bebida amarga

O absinto sem sentido e fora de nexo

Pensar no suicídio e a descarregada carga

A arma prenhe de pólvora a explodir o ego

.

Pensar no suicídio como tropel de cavalos

Assustando a platéia meu corpo sob cascos

Pensar no suicídio como o sangue nos ralos

A gilete no chão, o pulso gotejando vermelhos

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Pensar no suicídio como o vôo de asa delta

O precipício na montanha é sua eternidade

O corpo voando ao nada e à música celta

Mas no átrio da descida perguntei:

Oh, mãe de verdes e de pedras:

__ Por quantos anos meu corpo esteve por aqui?

__ Por que perguntas? Não cabe entender,

por que medras?

A montanha sempre será mais do que a carne.

MEU NARIZ MUSICAL de tonicato miranda / curitiba

para Moana

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Quem tem a companhia da música

pode viajar parado

visitar as estrelas faiscantes

provar no vento a maresia

beber o vinho e o sabor do travo

na boca do amado

pode dançar cirandas na praia

dançar com a Rosa e com a Lia.

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Na companhia da música

pode-se viajar num segundo

visitar terras, continentes

ser todo o comprido da serpente.

rastejar em Saaras distantes

ou no Cariri despelado.

girar na roda gigante ou no gospel

da igreja do crente.

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Quem vem de trem com uma música

viaja mais devagar

tão distraído com ela está

que não vê o cinema na janela

está tão feliz com seu nariz

que até um beija-flor cumprimenta

não percebe estar errante no mundo

andando no sapato dela.

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Quem pára para ouvir

a poesia debulhada no bordão

não sabe da força da cordoalha

no peito do compositor

desconhece quantos fluxos de sangue

jorraram no coração

para produzir perfumes musicais

roubados de uma flor.

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Somente tu, ó colibri

que voou sobre minha cabeça

anunciando a luz do dia

espantando o frio madrugadino

poderia levar de volta a ela

quando uma tarde amanheça

o sol do meu olhar.

lá onde está, preso no acorde

meu sorriso ainda menino.

FUGA PICTÓRICA OPUS 2002 – 4 / de tonicato miranda – curitiba

para Régis Duprat

20 de Março de 2002

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pim, pim, pam, pingos pingam e re-pingam na lata

tam, tam, tam, tooommm, dedos pingam no piano

pim, pim, pam, o pingo regular não me arrebata

tam, tam, tum, toommm, pingos leves e soltos, atonais

quem escuta delicia-se, aplaude, assobia, pede mais

o gênio nos emociona com seu gorro de um azul ciano

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é um urso, um gorila, um orangotango, ou um Monk?

está claro, falo de Thelonious Monk e seus pianos

com seus dedos de martelo nos dá algo mais que ronque

nós dá a delícia da música pulsante e suas surpresas

comida virtual a nos encher os ouvidos e as mesas

thank you Thelonious, por sua música em todos estes anos

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Monk é primata e gênio, símio sem similar entre humanos

qualquer ambiente noturno ou de tarde querendo escurecer

onde haja num canto de sala, modestos e afinados pianos

debaixo de vasos e seus panos – é preciso parar e ouvir

tam, tam, tooommm, dedos respingam no nosso sorrir

a magia do Deus musical Thelonious, algo além do viver

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muita fumaça no ar, contraste de sons do piano e da caixa

tam, tam, tooommm, continua a viagem por Round Midnight

tempos atrás parávamos, por horas repetindo a mesma faixa

viajávamos de Istambul ao Hemisfério Sul, e ao gueto

numa rua de Nova York onde jamais estivemos, nem em libreto

nossa ópera era mesmo aqui, com Monk, sob a luz difusa da “light”.

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Monk nos deu a paciência no pulo dos acordes levemente feridos

a pausa das notas machucando a dor de amores platônicos – puro funk

pingando na alma, vagarosamente, como o vagar dos convencidos

tam, tam, tooommm, jazz. Sal Peanuts – Charlie Park ainda por aqui

como o buquê de flores musicais debaixo de um grande pé de pequi

árvore goiana habitante da minha juventude, irmã dos acordes de Monk.

Para começar a Semana – de tonicato miranda / curitiba


TONICATO MIRANDA - Semana de Julho

para todos amigos

(e espero ainda preencher uma barca de Noé com eles)

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Ainda não fui.

Ainda trabalho desesperadamente.

E ainda não totalmente amei ninguém, não matei ninguém.

Ainda não consegui deixar de gostar de “My funny Valentine“.

Ainda me extasio com a música, com o sax e os trompetes.

E sinto muito frio.

Ainda morro de amores pelos amigos.

Ainda estou preso ao Rio de Janeiro, seus morros, meus parentes.

Deslumbro-me com as barcas cruzando a Baía de Guanabara.

Das barcas miro o Cristo, e ele mira o Pão de Açúcar que mira Copacabana e Botafogo.

Ainda continuo torcedor do Fluminense.

Ainda o Pico do Papagaio, há todo um Grajaú dentro de mim.

Saudades do bonde, da Borda do Mato, dos tamarindos estalando na língua.

Ainda Lúcio Alves cantando “Valsa de uma cidade“.

Ainda fiel a Curitiba, ao Rio Marumbi do Cardoso.

Fiel ao Bife Sujo, ao Bar da Mara, ao Metrô, ao Stuart e ao Hermes.

Ainda o Passeio Público de outrora, seus macacos e os pés de amora.

Ainda que viva mais do que Matusalém, que dizem viveu 300 anos, não serei rei.

Mesmo que viva como ele, não encontrarei palavras mais fortes do que a música, eu sei.

Ainda que seja gentil, tomarei porradas, sentirei dores.

Ainda que pense em todas mulheres, não terei seus amores.

Mesmo que viva ou não viva, a vida passará na estrada.

E mesmo que não vá com ela, serei testemunha do vento que ela faz.

Ainda que não vá ao Barigüi, sei do bem que a paisagem me faz.

Ainda que a palavra seja forte, ela não trina no bico do passarinho.

Tenho carinhos na caixinha, dedos gentis sob a luva

E mesmo que goste mais do vinho, aceito mordiscar a uva.

E sendo apaixonado por pães, aceito um chá quente com cuca.

Ainda gosto mais do calor, peitos expostos, dos corpos seminus.

Ainda gosto de Gauguin, Toulouse Lautrec e Dalí.

Estou morrendo por aqui, voando em palavras a Parati.

Ainda admiro Bashô, Whitman, Maiakovski, Pessoa e Gerson Maciel.

Ainda me transporto com Neruda, Chico, Lorca e Mallarme.

Ainda “Yesterday“, “Summertime“, Joplin, Hendrix, Coltrane, “My favourite things“.

Não queria terminar, mas o amargor do trabalho diz muitos sins.

Ainda me despeço com Valentine, Bill Evans e Chet Baker na agulha.

Ainda desejo a você um Bom dia!

E um dia será mais do que bom, será terno.

Ainda vestirei um terno e casarei com o dia, com a noite e a madrugada por testemunhas.

Ainda cortarei os cabelos e a barba, totalmente careca de pelos e unhas.

Deixarei “Angel eyes” me acompanhar ao inferno dos sentimentos.

Wynton Marsalis me devolverá a ilusão.

Ainda tomarei com prazer um chimarrão.

Ainda irei preferir a amizade de um cão.

Serei dos tolos e tordos um simples irmão.

Ainda me despedirei de todos ou não.

Ainda prefiro as conversas durante a sobremesa.

sempre prefiro sair da reunião à francesa…

Ainda…

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ilustração do autor.

PLANTA DE PEDRA DE RUA poema de tonicato miranda

                                                                                  para Baden Powell e as mulheres esquecidas

 

Vem de manso

Vem de mansinho

Um dedilhado na alma

Quase um ruído na calma

É assim que vem o violão

Ele e ela vêm brotando do chão

Ela planta daninha, ele todos meus ais

Ela, planta sem semente e sem pais

 

Ninguém chegou bem perto

Ninguém voou do seu deserto

Para ver entre tantas plantas

Esta planta e outras mais e tantas

Oh, planta santa, tu planta puta e bela

Nasceste nesta pobre ruela

Nasceste assim quase nua

Parece que cresces com o sorriso da lua

Tu a olhar, chega mais perto, veja

Acho ali tem pequenina cereja

Se fores mais atento verás

Um quê de novo nos meus ais

Verás uma beleza tão natural

Toda uma manhã de Carnaval

A delicadeza que ela carrega

Para dentro do meu olhar a amar

Como carga de bateria

Acendendo eletricidades em meu ar

Brotando-me mais onde não queria

É assim esta pequenina planta

Que quase canta e me encanta

Eu que ao sabor do violão, escuto

Este som que em mim dá fruto

Quão suave é este amor tão delicado

Na planta de minha mão tuas nervuras

Este teu corpo querido e amado

Acredita sinto todas tuas curvaturas

 

Deixa-me correr a regar-te

Para nunca mais esquecer-te

 

Curitiba, 31/01/2009