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A CANALHA SE ESPOJA – último texto escrito por WALMOR MARCELLINO enviado, hoje, por sua esposa ELBA

O povo é bom, mas é interesseiro e ingênuo, para não ser visto como burro. Este apotegma, a sua vez, é primarista, apofântico e cruel, mas a ele somos conduzidos pela atitude de classe e sua presunção de verdade. Essa “verdade” é o pensamento politicamente correto e conforma a ideologia civilizatória com que nos afagam.

Sem uma rigorosa análise de classe, de dentro das lutas sociais e com a responsabilidade de discerni-las do ponto de vista do trabalho, de sua dinâmica produtiva e de sua força inovadora, o discurso ideológico passou a ser o poder artificioso com que se explicam e garantem a hegemonia de classes e a justiça de sua imposição a todos.

(Walmor Marcellino, em 07/9/2009)

WALMOR MARCELLINO, jornalista, poeta, escritor, filósofo e dramaturgo.

WALMOR MARCELLINO, jornalista, poeta, escritor, filósofo e dramaturgo.

UM ARTIGO DE WALMOR:

REDOBLES A ERNESTO SERNA

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E a política como atitude e conduta; como ética, vivência e recompensa? Saiu do calendário porque não é mais valor ou nunca o foi na sociedade de classes; um farisaísmo de mercado para obrigar exação de negócios? E então, para ganhar credibilidades e confianças, assumimos compromissos senão incorporamos doutrinas sociais para alcançar vantagens?

A epopéia presente é para cada um apenas a busca de sobrevivência, como aventura existencial já não ante a natureza inóspita, não só ante as faltas pessoais e atrasos comunitários, mas sob a esperança que nos impele adiante e exalça por virtudes, e como cultura da dignidade de que dizem somos portadores: tenhamos mercê ou destino.

Remanesce em nossa cultura política a idéia vã de entrega e martírio, e então acreditamos em caudilhismos nas lutas sociais e martírios de uma causa comum; queremos, precisamos crer; seja porque existem exemplos e eles estão sufragados no imaginário coletivo, seja porque se multiplicam as tentativas de salvaguardar nosso compromisso da mutualidade.

O que tem a ver Gilgamesh com (São) Sebastião Arqueiro, martirizado em Roma no Século III, com Sebastião (Dom), o Desejado, XVI rei de Portugal, desaparecido aos 24 anos na batalha de Alcácer ? Talvez o espírito de Masaccio (Tommaso de Ser Giovanni, 1401) em busca das formas puras, quem sabe o Sebastianismo como um tropo (translação historicista do sentido martiriológio); ou, ainda, como quixotismo reinol em sua nobreza montada, ou poderia ser simples quixotada de estultas grandezas, por teimosias e caturrices, de obscurantismos cruzados em paranóias? Quem souber explique a este pobre Sancho Panza (Vida de Don Quixote y Sancho, ensayos, Don Miguel de Unamuno) que com utopias, grandezas e vilezas nos enredamos:

“Advirtas-te, irmão Sancho, que esta aventura e aquelas a esta semelhantes não são aventuras de ilhas (*fortuna), senão de encruzilhadas, nas que não se ganha outra coisa que decepada a cabeça ou uma orelha a menos.” Esse então seria o bom combate, sob regras de cavalaria, ou gigantismo do ego no atropelo a cada um?

Mas sem a altanaria do “Cavaleiro da Figura Triste” nem o despojado sensualismo de Sancho, o que faremos? Apenas advertir à Unamuno: “creio que se pode tentar a santa cruzada de ir resgatar o sepulcro de Don Quijote do poder dos bacharéis, curas, barbeiros e canônicos (vigários e regras) que o ocuparam”…

Alvitrarão: o que tem a ético-política e o socialismo que ver com os sentimentos, aspirações e utopias? Tudo o que pudermos encontrar na encruzilhada quando nos avulta grandioso Don Quijote de La Mancha a olhar para o horizonte.

WALMOR MARCELLINO, continua repercutindo a morte do poeta, jornalista, escritor, filósofo e dramaturgo / agência do governo do pr

Morreu nesta sexta-feira (25), aos 79 anos, o poeta, escritor e jornalista Walmor Marcellino. Militante contra a ditadura militar nas décadas de 70 e 80, Marcelino estava internado na Santa Casa de Misericórdia de Curitiba com problemas renais e cardíacos. “Walmor Marcelino foi um militante persistente, que nunca se desviou de seu caminho. Alguns o chamavam de fundamentalista, mas eu sempre entendi suas atitudes como integridade”, afirmou o governador Roberto Requião.

Marcellino será velado a partir das 15h desta sexta-feira (25) na capela 3 do Cemitério Municipal de Curitiba, no bairro São Francisco. Seu corpo será cremado sábado (26), às 9h. Ele foi casado duas vezes e teve quatro filhos, um deles já falecido. Nascido em Araranguá (SC), em 1930, morou em Florianópolis, Porto Alegre e fixou residência em Curitiba. Escritor com forte atuação política, publicou mais de 30 livros, entre poesia, ficção e textos de opinião.

Na década de 70, participou do Centro Popular de Cultura em Curitiba, e de grupos de teatro da UFPR, sempre em oposição à ditadura militar. Preso político, nunca se furtou da crítica ao governo militar e das suas posições políticas. “Era um homem de extrema coragem e todos que lutaram pela democracia sabem o  papel que teve este grande intelectual”, afirmou o advogado Geraldo Serathiuk, que o conheceu na década de 70, na Casa do Estudante.

“Ele foi um dos responsáveis pela reorganização do movimento estudantil e sindical durante a ditadura militar e um grande orientador para minha geração”, contou Serathiuk. Marcellino trabalhou em diversos órgãos de comunicação, entre eles a Gazeta do Povo e o jornal Última Hora, e também na Assembleia Legislativa do Paraná e no Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul (BRDE).

“Ele era um dramaturgo, repórter policial de alto nível e um líder da resistência durante a ditadura militar”, afirmou o jornalista Cícero Cattani, que contou que conviveu com Walmor já no início da década de 60, na redação do jornal Última Hora. “Apenas quem conviveu com ele sabe mensurar esta perda”, disse.

PROFESSOR – Segundo Cattani, uma das grandes qualidades de Walmor era a de transformar a redação em uma sala de aula. “Era um intelectual e um verdadeiro professor de jornalismo. O Paraná perde um dos seus maiores valores.”

O jornalista Luiz Geraldo Mazza, destacou  a militância, tanto política quanto cultural de Walmor. “Ele foi uma pessoa de firmeza e caráter,  guerreiro que participou dos movimentos importantes do nosso Estado, e um dos grandes desencadeadores do desenvolvimento cultural”, contou.

De acordo com o poeta e escritor Ewaldo Schleder, que publicou um livro a quatro mãos com Marcellino, destacou a responsabilidade do colega, mesmo com quem criticava. “Sempre polêmico, mesmo assim nunca fez uma crítica não embasada, por isso, era respeitado mesmo por aqueles que tinham posições contrárias”, afirmou.

O procurador-geral do Estado, Carlos Marés, era presidente do movimento estudantil e Walmor, um intelectual ligado aos estudantes, quando se conheceram. “Era muito respeitado, ele dirigia o Teatro do Estudante Universitário e eu ajudava na contra-regra. Era um grupo chamado de engajado, contra a ditadura e contra o capitalismo. Walmor teve uma vida muito coerente nas suas idéias e no modo de agir, isso só se vê no fim da vida.”

O jornalista Nego Pessoa comentou que as diferenças políticas entre os dois eram enormes. “Mas a nossa amizade era justamente pela ligação com a arte. Walmor era um grande conhecedor de poesia e amante do jazz”, contou. Nego Pessoa destacou os livros de poesia do amigo, segundo ele, a melhor produção de Marcellino.

O advogado Edésio Passos também conheceu Walmor na década de 60. “Era de um caráter sensacional, grande jornalista e um dos mais importantes escritores paranaenses. Autêntico e também um teatrólogo sensacional, atuou contra a ditadura militar de maneira ímpar. Ele é uma pessoa que vai ficar inscrita na nossa história”, disse.

Amadeu Geara, político e advogado, lembrou que  Walmor foi um dos colaboradores na organização do MDB no Paraná. “Nunca dizia uma palavra de agrado que não fosse sincera, muito menos fazia uma crítica que não fosse fundamentada. Foi o pensador que nos auxiliou, na formação dos quadros do partido.”

WALMOR MARCELLINO entregou as moedas para o barqueiro na manhã de hoje / pela editoria

faleceu nesta manhã o jornalista, escritor, filósofo e dramaturgo WALMOR MARCELLINO. WALMOR era colunista deste site para assuntos politicos. os PALAVREIROS DA HORA rendem suas homenagens ao grande batalhador pela justiça social no planeta e com ênfase no nosso país. foi um lutador incansável contra a ditadura militar sendo preso em diversas oportunidades. nasceu em Araranguá (sc) e morou em Porto Alegre onde juntou-se ao grupo QUIXOTE de poesia. WALMOR era também editor e estimulava os novos autores, que tivessem uma visão critica e social da vida moderna, publicando, às suas expensas, diversos deles. com a Editora QUEM DE DIREITO uma das suas ultimas publicações foi a antologia Iª REUNIÃO DOS POETAS DO SUL – ” PRÓXIMAS PALAVRAS” onde participaram os PALAVREIROS manoel de andrade, jb vidal e  o colaborador e artista visual nelson padrella.

desejamos fôrça à Elba, sua esposa, e aos seus familiares, para enfrentar este momento dolorido.

o velório ocorrerá na capela nº 1 do Cemitério Municipal de Curitiba a partir das 16:00 havendo a cremação amanhã as 09:00.

Walmor marcellino fotoWALMOR MARCELLINO.

VIRANDO À DIREITA por walmor marcellino / curitiba


NÚCLEOS POLÍTICOS, CORPORAÇÕES E MOVIMENTOS SOCIAIS

Não por acaso o individualismo burguês que interpenetra a “esquerda” e o movimento social assume um coletivismo “prático” como padrão, onde predomina, mais que “o coletivo”, o conforto de “formar um conjunto popular contra o WALMOR MARCELLINO FOTO 1inimigo à vista”, e que se transformou em “o grande obstáculo ao avanço social”. Dentre as lideranças intelectuais, desde aí, predominará o grupismo “heroico” com o “relativismo das alianças conjunturais” contra os inimigos “expressamente ideológicos” — sem discernimento da luta de classes e da necessidade de fortalecer atitudes e posições científico-políticas, para uma longa e difícil batalha de formação de lideranças conscientes e de militâncias esclarecidas.

Nossa visão dialética errou na compactuação com um movimento operário-intelectual “de esquerda” apropriado por uma cúpula oportunista do PT que fez de Lula (não socialista e de ideologia “confusa à esquerda”) a vaca madrinha de um movimento capaz de substituir o antigo trabalhismo e os programas reformistas dos “comunistas”. Todavia, não restavam muitos caminhos claros no caos da “esquerda heroicizada” pela resistência estilhaçada que fizera à ditadura; o desmonte dos intentos socialistas-reformistas ficou no mostruário da anistia de 1979.

Perdão, por voltar a esse assunto. Quem não conhece história fica ofuscado pelo presente; ou fará de seu clubismo político a satisfação de todos os dias e a oportunidade de reconhecimento público. Mas, independente de maiores estudos, a grande crise brasileira, social, política e institucional está sendo vista e desvirtuada em lulismo x fernandismo, em partidos da “afirmação nacional” x partidos liberal-conservadores, nesse primarismo nacional-populista. O liberalismo governista Meirelles-Lula, a substituição dos “sem-terra’” pelos aventureiros capitalistas no São Francisco e na Amazônia, as obras e serviços “público-privados”, o petróleo nacional “compartilhado” até no pré-sal; enfim, a farsa do fortalecimento dos serviços públicos de educação, saúde, segurança (que não concentra seus esforços na ação do Estado), e, acima de tudo, as alianças à direita para “manter o necessário”. A lista é muito grande do que faz a nova classe “nem direita nem esquerda” (só o Obama jura que é “esquerda”).

Sem quadros revolucionários a militância social é cega ‑ os quadros revolucionários são a expressão de qualidade na quantidade de militância. Esse truísmo as pessoas estudiosas da política sabem, até eu, o aprendiz de realidades. Porém, no movimento social, a formação de militantes políticos em coexistência com partidos de experiência histórico-concreta na luta de massas e com o horizonte definido para uma revolução socialista sempre foi o grande desafio, debaixo do dispersionismo, do voluntarismo e espontaneísmo das massas e, de outro lado, o revolucionarismo pequeno-burguês querendo impor-lhes “disciplinas” autoritárias.

O PROJETO LULA por walmor marcellino / curitiba


APAGÃO DA INFLUENZA

Assisti constrangido ao debate no Senado sobre crimes e irregularidades praticados pela Mesa da Câmara Alta sob o comando de José Sarney (com antecedentes em Renan Calheiros e outras figuras “de escol”). Sem qualquer pudor, os amorais Wellington Salgado, Fernando Collor de Mello, Epitácio Cafeteira et caterva defenderam a quadrilha deWALMOR MARCELLINO FOTO 1concussionários e atacaram seus opositores Pedro Simon e Cristóvão Buarque

O espetáculo está sob as luzes do Palácio do Planalto e sob a inspiração de Lula, que engendrou uma aliança PT-PMDB que é decisiva para a virtória de Dilma. A ética política da esquerda e da direita será a mesma?  José Sarney está acima do bem e do mal ou só a direção do PT afirma isso? Renan Calheiros, Gilmar Mendes, Nelson Jobin, Fernando Collor, Gedel Vieira, José Sarney e Paulo Malluf são a democracia em movimento? Sim! Há uma canalha da esquerda justificando tudo menos o Meirelles e a reforma agrária. Ah!, os eternos radicais oportunistas!..

Os tempos estão bicudos, as teses da esquerda gorda  somam com as idéas da direita “compreensiva”, pelo menos com sua estratégia dominante desde a redemocratização. Somos todos democratas, só que ao nosso jeito.

Bem… grande crise político-institucional à parte, soube-se que Lula e seus ministros retiraram do orçamento da Saúde parcela ponderável para ampliara política do “bolsa-família”. Daí seja assustador que a infra-estrutura de saúde esteja tão precária para enfrentar a gripe suína e outras ocorrências, e com a consequente ameaça de “apagão” de UTIs e hospitais, enquanto são negociados acordos eleitorais, pedágios de rodovias, canais de telefonia e toda a Amazônia.

Agora, se Lula e Sarney ganharem, o Brasil perde; e se Lula e Sarney perderem, nós continuaremos perdidos. Esse dilema continuará graças a quem e a quê? À banda de música do “eleitoralismo inteligente”.

Desde já me declaro culpado de ter somente emitido grasnidos contra o peleguismo de esquerda e a voracidade criminosa da direita. Enfim, quem não for politiquista atire a primeira pedra.

Curitiba, 4/8/2009

PATIFES ILUSTRES “AGAIN” por walmor marcellino

Os “patifes ilustres” continuam construindo o seu Estado brasileiro. Agora chegou a vez de um imbecil fazer dos arquivos “mortos” de crianças e adolescentes um agravante de criminalidade; com o aplauso da associação dos idiotas da aristocracia judiciária. De vez em quando, em vez de atacar especialmente a corrupção no seio do Legislativo, do Judiciário e do Executivo, um bilontra faz um projeto de lei para aumentar seus privilégios e elevar a repressão sobre as classes sociais subalternas, acusando-as de lamentáveis matrizes do crime. Não explicitamente o crime institucionalizado, de que é parte, o que é o mais grave no país, mas sim os crimes das classes sociais modeladas pelo poder de classe.

É tal nossa indigência político-cultural que às escâncaras qualquer patife da “justiça” usa sua “formação cultural-social” e seu “consenso aristocrático” para coitar-se e coabitar com essa “lei geral” — que em si é a civilização dos privilégios em nome da ordenação social. Paradoxalmente, alguém então estranhará que grileiros-assassinos na Amazônia sejam sócios de governadores, prefeitos, senadores e deputados e protegidos pelo Poder Judiciário? Confraria do seja grileiro e/ou político.

E assim não é de espantar que o patife ilustre-governador do Rio de Janeiro ande matando meia dúzia de cidadãos da periferia para cada acusação de que por ali existem bandidos armados; ou um juiz “ilustre” dê seu habeas corpus baseado em tecnicalidades jurídicas para um grileiro ou bandoleiro seu par social, como consócio no poder de classe e do projeto de civilidades…

“Crescei e multiplicai-vos” – diz um brocardo da mitologia religiosa. E então os meritocratas decidiram que à doença do bacharelismo somariam o equus-eqüi-burocratismo como “agente especial” na democratização de classe e sociedade, com foro tão mais elevado quanto a diplomacia conquistada. Esse funcionário nobiliárquico pode até fazer greve.

E toda essa patifaria política imitiu-se no poder — até por desavisada tradição na forma constitucional, de que lhes compete fazer e mandar cumprir suas leis, desde que esse “consenso” non sense lhes concede “a liberdade da esperteza”, com a unanimidade em seus iguais nos poderes Legislativo, Judiciário e Executivo. Vai daí que o Supremo não decide que é anticonstitucional a existência de foros privilegiados para altos bandidos, foros especiais para outros, prisão especial para as classes de “saber e formação”. E cana para “essa savandija”, essa malta malthusiana de espaços públicos e da produção direta, naturalmente.

A grande dúvida então aparece: essas classes de bosta estão no poder “que arduamente conquistaram” ou este é um país de bosta, cuja população se vai modelando pelo crediário e pelas vitualhas que caem ao chão durante o epulatio, nesse grande festim, fraternizando a horda com o patriciado.

O PODER ILIMITADO por walmor marcellino / curitiba

A função senhoriagem e a adesão patrimonialista do Poder Judiciário só é percebida quando de uma agressão aos direitos sociais; em casos de grande repercussão pública. Enquanto ele se vai jubilando na “consentida violência” do poder social WALMOR MARCELLINO FOTO 1contra a sub-cidadania ‑ em que esta é submetida ao aramado das imputações, ações, mandados e repressões num longo itinerário das acusações, “atestados”, interditos e provimentos ‑, essa mordomia de toga e capelo se fantasia como uma cidadania de luxo que estaria a nos “civilizar pelo rigor das leis”, ao mesmo tempo que apascenta pela conveniência do poder de classe a alimária que somos nós. “La Boétie” explica essa aberração social a que nos levam os costumes da supremacia jurídico-política.

Você não pode analisar e caracterizar decisões judiciais como ajuste e conveniência dessa corte de “patifes ilustres”, pois estará sujeito “às penas da lei” por desacato; ainda que esse togado seja uma besta e não você o inquinado de animal irracional. “Patifes ilustres”, volto a explicar, foi a magistral descrição do filósofo David Hume das ações e decisões de régulos e togados “investidos na representação da Justiça, das leis e normas”, rêmoras da corte que aproveitam a oportunidade para “livrar o barato”, a passos largos, isto é, sempre ajustando também seus interesses senhoriais e patrimoniais; com seus pares do reino.

O bispo Ladislau Biernasky tachou de absurda e inconstitucional a decisão de um juiz federal de impedir manifestações públicas de protesto nas praças de pedágio no Paraná. E de onde surgiu essa luminosa estupidez jurídica ‑ perguntam os cidadãos ativos?

Vamos por partes: um rábula qualquer vai a um jornal do Estado e combina com o editor a propina para a boataria ou difusão de “uma conspiração” contra as “empresas”, digo quadrilhas do pedágio. O lheguelhé  publica a “matéria”; e o advogado desses quadrilheiros vai ao juiz apresentando “as evidências” de uma conspiração” contra a indigitada “empresa vítima”. E o que faz o juiz? O “patife ilustre” dá uma “penada preventiva”, cassando o direito social-popular de manifestar seu repúdio ao confisco de seu direito constitucional de ir-e-vir. E onde tal fato ocorre? Aqui na província republicana! E quem vai punir os três escusos e mancomunados? O poder de Estado jurídico? Quem protestará contra o tríplice abuso? Nós, a sociedade inerme contra esses bandidos associados; afinal somos pobres republicanos.

O fato nos leva a uma indagação: o que é o Poder Judiciário de uma República Inacabada, perante a nação e o povo brasileiros, nestes começos do século XXI? Sua legitimidade, se não provém diretamente do povo soberano, ou mesmo de um autocentrado conceito de “nação”, é o quê? Um conluio de sumidades jurídicas, como um cenáculo aristocrático a tripudiar e ofender a democracia que construímos? Respostas para o Supremo Tribunal Federal, Brasília.

O IMBECIL RETÓRICO por walmor marcellino

 

Estranhos e perigosos

Cultura essencialmente ágrafa ou insinuantemente letrada para os efeitos de exibir-se em público ‑ na verdade, só por ter ouvido falar de questões profundas e participado de aulas e comícios, e de fraternizar num clube ideológico-político de auto-apreciação-e-estima ‑ ele é o controverso perfeito idiota que não perdoa o Lula por ser inteligente demais sem diploma e lamenta que Fernando-Henrique Color Cardoso seja cultura das ciências sociais com verniz internacional de falar cinco idiomas, porém não passando de um gangsterzinho barato nas lides capitalistas. Onde você esteja, qualquer que seja o tema, a besta não se avexa de lhe ocupar a paciência com o que leu no noticiário de O Estado de S. Paulo, na Folha de S. Paulo, em “O Globo” e nas revistas Veja e Isto É,  ou ouviu algum jornalista comentando questão em entrevista momentosa. O imbecil “prêt-a-porter” da política, à direita ou à esquerda, quer ser notado e nomeado, porque se julga “um seu igual” em preocupação, compromisso e estudo.

1 – Ele é um produtor primário que filosofa: “não cresce uma planta ou um ‘pé-de-pau’ sem que Deus queira” (ou alguém que mande mais); “não se muda metal sem competência e ambiência”, e com apoio na sorte vamos buscando resultados”. O que pensa sempre lhe serviu aos usos e assim leva seu farnel de fatuidadesl. 

2 – Ele tem uma profissão conceituada; é “técnico” e reputado sapiente no fazer produtivo para seu circuito de relações sociais interativas; e assim por que o ele ajuíza sobre sociedade e política pode ser tão constrangedor, exceto nele? 

3 – Ele tem alguma herança na prática transformadora, da matéria prima em úteis ao mercado; mas desde nunca se sujeitou a aprendiz-técnico nem se entregou à manufatura; para poder manter livre a criatividade, a idéia de produtividade em seu sentido artesanal. Suas opiniões culturais e políticas constituem uma estultice independente e alegre com que se incha de preceitos. 

4 – Ele tem uma atividade liberal sacramentada no convencionado “círculo superior” da sociedade civil e na política, porém um universo de interesses inextricados atou-lhe uma presilha ao umbigo com o qual dialoga sua estupidez e vitupera seus dissentimentos. À vista de todos que o invejam de sua prosódia fluente. 

5 – Ele é da organização experimentada desse sistema e da produção capitalistas. E não são importantes os fatos que vão sendo vistos e julgados e sim como ele desempenha sua interveniência magistral: como pensa e procede na avaliação do que ocorre para convencer interlocutores, produtores e alvores e propor-lhes práticas produtivas, economicidades alterativas e políticas públicas subsidiárias. Sua palavra impositiva é a articulação dos lugares-comuns com as novas tecnologias virtuais. 

6 – Ele é um processador intelectual, um demiúrgo dos acontecimentos que só poderão ir aparecendo necessariamente ressaltados pela significação que lhes empresta sua inteligência. Entrementes, ele reflete sobre a singularidade de sua função social, com o privilégio do seu entendimento e na esplendência de sua iluminação sobre o que lhe toca (sua radiante weltanschaaung!) Sua compreensão é inexcedível e sua valorização soberba.

Qualquer desses filhos das classes em conflito pode ser o cretino que lhe cospe ideologia da “classe privilegiada”, que tem um pensamento “científico-filosófico” peculiar porque “politicamente adequado senão “correto”, na justificação de todos os crimes e iniqüidades. E ele será um dos merdas com que tropeçamos todos os dias nas ruas, casas e repartições; e que lhe dirá algumas “palavras definitivas” sobre qualquer assunto do momento.

 

SATURAÇÃO NA CAPACIDADE DE EXPANSÃO CAPITALISTA por walmor marcellino

 

 

“Amigos 25 anos” tem capeado informações e artigos instrutivos, ou meramente ilustrativos quando não ultrapassam meras constatações, às vezes sem uma perspectiva crítica; quer dizer sem tocar o cerne das contradições ou desvelar o antagonismo. Um destes é o de Limites do Crescimento (comentados por Enrique Leff). Questões como a substituição dos insumos correntes e, em conseqüência, dos seus processos produtivos; enfrentam contradita do poder econômico-político nas sociedades e no mundo (com especial destaque para o forte complexo industrial-militar que se mostrou endógeno às estruturas políticas engendradas pelo “capitalismo de vanguarda” nas sociedades imperialistas).

Outra relevância é que a saturação produtiva é horizontal e vertical, em reciprocidades, dependentes de tecnologias mutantes e vórticas que não admitem a ilusão de “voltar ao pequeno” (Il Piccolo è bello), não bastasse o poder inalterável de empuxo do próprio capitalismo.

Assim, se não está no horizonte do possível um “consenso” de auto-controle capitalista-imperialista e a extinção, sponte sua, do próprio sistema capitalista de produção, o que se apresenta nesse enigma, de predação da natureza‑saturação do meio humano ambiental, como racionalidade e sua razão política?

István Mészáros em “Produção Destrutiva e Estado Capitalista”, uma parte de seu “Para Além do Capital” (não apenas “Além do Capitalismo”), coloca e debate a transformação da “Destruição Produtiva”, que formou o capitalismo com a transformação de bens naturais para o uso humano, em “Produção Destrutiva” como processo-limite nesse processo de transformação de insumos.

O cientista marxista húngaro nos impõe uma análise sistêmica do capitalismo contemporâneo a partir da sua dinâmica concreta de expansão e poder na sociedade contemporânea. Não creio que possa aqui suscitar os temas do antagonismo capitalista com as forças sociais postas na produção, senão remeter os interessados para o estudo de sua magistral obra, que resgata as idéias e o espírito de Karl Marx e adverte contra as simplificações políticas que administram a sobrevida desse sistema de opressão, exploração e destruição que vai sendo mantido por um sistema mundial “jurídico-político” de forças e fomentado pela positividade da estultice “politicamente correta” de dominação das mentes.

Quanto aos caminhos da superação dialética dessa crise incontornável do sistema capitalista, além do forum social mundial de práticas e idéias políticas e da resistência a todas as formas de opressão, exploração e destruição, cada qual encontre sua comunidade organizada e se descubra no processo político com um agir comunicativo, aglutinante.

POLITICA EM FRAÇÕES por walmor marcellino

REESCREVENDO UM PROJETO

 

 

Fui a Caldas da Imperatriz rever um ambiente natural para quem deseja combinar trabalho silente em descanso de águas termais e com a natureza; e revisar meu ensaio-novela-história “Ulciscor” que empatou na ducentésima-quadragésima página. Temperado pela natureza e com a presença de mulher, filha e neto só me adverti de que “ligeira indisposição física” em perturbação de saúde desde o início da viagem vingara em pneumonia, obrigando-me a antecipar o regresso, sem visitar o Salim Miguel, o João Paulo, o Vidal, o Hamilton e o Vinicius Alves, o Boos Jr. e tantos outros maratonistas dessa incrível excursão que vamos fazendo. Peço-lhes desculpas pela ameaça da visita, embora os considere figuras raras do “interlocutor paciente e promitente” nestes tempos em que faltam referências culturais: para quem tem interesse e boa intenção, falta humildade aos ignorantes para perguntar o que não sabem e existe presunção em demasia para todos aqueles que são “seus concorrentes em potencial” nalgum projeto tecó que não começa “hoje” nem terminará nunca.

Sei que é muita pretensão, num relato de tantos anos de circunstâncias políticas e emocionais, no que me aproxima do ensaio e contém episódios históricos e acomoda ficções, produzir um livro fundamentalmente político ‑ fracionado em três CDs, à espera de críticas, sugestões, correção e contestações reveladoras, assim acreditando que nem os intelectuais se tornaram “nerds” a trocar cumplicidades e festividades pelo computador e que outros intelectuais mais capazes tenham seus interesses e parâmetros pela ofuscagem do “best-seller” ou mesmo sejam empalados pelas relações sociais de sujeição e proveito. A palavra está aberta; naturalmente se o tema, a escritura e a “distinção da mídia” permitirem.