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FOGOS PÓSTUMOS por hamiltom alves / ilha de santa catarina

Nunca vi um livro de Wilson Bueno, que vem de morrer há pouco assassinado, com vários golpes de faca, por um bandido, que o surpreendeu à porta de sua casa, à noite, (não sei de maiores detalhes), ser resenhado. Nem vi seu nome alcançar, em vida, a notoriedade de como ocorre agora depois que se foi, em que se anuncia a edição da última novela que escreveu, “Mano, a noite está velha”, que, em breve, a editora Planeta lançará. O encarte Sabático, do Estadão, publica uma breve resenha assinada por Antonio Gonçalves Filho, que já havia publicado uma outra faz  tempo sobre “Cachorros no céu”, quando previra que um dia seria reconhecido como um dos grandes reinventores do panorama literário brasileiro. Wilson, como ainda se anota nesse comentário recente de Gonçalves, acabou sendo uma figura importante do cenário literário nacional. No entanto, diz o jornalista, o que produziu jamais recebeu o merecimento de prêmios, sempre ocupando segundos lugares, com diferença para o chileno Roberto Bolano, que ganhava todos, cuja notoriedade subiu nos últimos dez anos neste continente como um dos seus expoentes.

Evidentemente ganhar prêmios, em última análise, não é a única maneira de um escritor se consagrar. Se fosse assim, todos os ganhadores do prêmio Nobel estariam na boca de todo o mundo – e não estão, alguns até se apagaram totalmente. Sem contar os que mereciam ser premiados e, por motivos desconhecidos, a critério dos velhinhos integrantes da Academia de Ciências de Estocolmo, nunca viram a cor de prêmios, ou desse em particular, que foram os casos de Guimarães Rosa, que o merecia antes de Garcia Marques ou mesmo de Saramago, e de Jorge Luis Borges, cuja preterição na obtenção dessa láurea continua sendo inexplicada.

Referia-me ao fato de Wilson Bueno não ter sido, em vida, objeto de melhor exame por resenhadores, apesar de ter lançado vários livros, (novelas, contos, crônicas, etc). Além de ter sido também um bom resenhista de jornal (colaborava com vários, inclusive no Estado de S. Paulo).

Agora, o Sabático (último número de sábado do Estadão) lhe abre uma página inteira, com reflexões de Antonio Gonçalves Filho sobre sua obra e sobre seu livro póstumo, “Mano, a noite está velha”, ocupando meia página. Outros jornais abriram espaço para se ocuparem da obra de Wilson, que é constituida de vários títulos, “Mar Paraguayo”, “Cachorros no céu”, “Jardim Zoológico”, “Meu tio Roseno a cavalo” e o póstumo, que já referi. Desse último livro, o “Estadão” publica um pequeno trecho, com boa ilustração, que revela a forma madura com que esse texto é produzido. Wilson morreu possivelmente quando alcançava o melhor de sua condição de escritor. Teria ainda muito que produzir, se um assassino não lhe tivesse roubado a vida num dia desses.

Sempre será ocasião de lembrar-se da obra de um escritor ou de um outro qualquer artista, ainda que seja depois de morto, sonegando-se-lhe o reconhecimento ainda vivo.

O que de qualquer modo é assunto que dá o que pensar. Por que o reconhecimento póstumo da glória?

UMA NÊNIA A WILSON BUENO de ivan justen santana / curitiba

Nossa Santa já não pode mais ser Cândida

Nossa vida assassinada e cada vez mais bandida

Facada que vem sem nem falar pra que vinha

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Mas as frases não acabam no final da linha

Um sangue de poeta grava toda a escrivaninha

O BOM BUENO por hamilton alves / ilha de santa catarina

Conheci Wilson Bueno, escritor, poeta, jornalista (com colaboração em vários jornais, sempre escrevendo sobre cultura, literatura em especial) num lançamento de seu livro “Mar Paraguayo”. Estava passando uma curta temporada nas praias de São Francisco do Sul (SC) e veio à Ilha só para lançar esse livro e voltaria para lá em seguida, segundo me revelou nessa noite. O lançamento se deu num espaço cultural que havia (e sumiu pouco depois) num prédio da Avenida Rio Branco (área central da cidade). Um grande número de amigos e interessados na obra de Bueno ali compareceu.

Me recebeu como se já fôssemos velhos amigos, com o detalhe que me revelou que acompanhava as crônicas que publicava, à época, num jornal local, que me dissera apreciar muito, no que fiquei muito lisonjeado.

Lia Wilson em suas boas resenhas publicadas no Estadão, aparecidas de vez em quando, em que revelava sempre um conhecimento profundo e bem atualizado de literatura.

Sei que colaborava em outros jornais. Fora fundador do famoso jornal paranaense de cultura, “Nicolau”. Amigo de Paulo Leminsky, com quem privou na intimidade, que o lançou praticamente no fogo cultural que ardia à época em Curitiba, inclusive com o aparecimento do “Nicolau”, por onde passou também outro nome de grande projeção da literatura paranaense, Dalton Trevisan.

– Leio suas crônicas, Hamilton. – disse-me – levantando os olhos do livro que lançava, assinando-me um exemplar com dedicatória.

Agora, abro o computador, no “blog” do Vidal (João Bosco) e o que deparo? A notícia do brutal assassinato de Bueno. Como e por que? Fica a pergunta no ar. Quem teria suficiente coragem de matar uma pessoa humaníssima como Bueno?

Nada se sabe ainda com clareza  sobre os fatos.

Apenas dou-me conta, nessa hora inicial do dia, ao abrir o blog do Vidal – Palavras Todas Palavras – dessa notícia trágica e ao mesmo tempo brutal, que de certo modo atinge com uma dor imensa todas as pessoas que conheciam Bueno, eram seus amigos, seus admiradores, sua família.

A todos minhas condolências por essa perda sem nome que ora sofremos.

De Bueno lembraremos de sua figura humana pouco igualada e da contribuição que deu à cultura de seu Estado e do país.