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HOJE É DIA DE CECÍLIA por zuleika dos reis / são paulo

Cecília era um passarinho quieto; de repente, ei-la pássaro canoro. Cecília ouvia-me histórias, agora sonha contá-las, ela própria, para as crianças. Outras histórias, por certo, com heróis e vilões, bruxas e fadas, início, meio e fim, final feliz. Cecília sabe que os olhinhos surpresos, arregalados, em suspenso, têm direito sempre a um final feliz.

Cecília estuda Pedagogia. Está no 1° semestre, mas se sente estudando há séculos. Já é líder em seu grupo, também na classe. Já se dá conta dos custos-benefícios de ser líder.

Ouço a chave na porta. Cecília entra. Hoje não é dia de faxina nem de forno: hoje é dia de Cecília. É bem verdade que, mal chegando da Faculdade, só teve tempo de beber um copo d’água antes de sair de novo, para acompanhar a mãe ao Mercado. A pé, e entre a casa e o Mercado, há uma ladeira… quê ladeira! É verdade também que ontem, até a madrugada, Cecília esteve a construir brincos e anéis, todos lindos, todos disputados. Cecília sabe muito de tudo, jamais teve por hábito hierarquizar tarefas, essencialmente quando se trata de servir aos outros.

Mas, não nos esqueçamos: para além das variáveis, hoje é dia de Cecília. Seus olhos brilham ao contar que o trabalho sobre Literatura Infantil foi tão bom, que até o professor, via de regra impassível, aplaudiu de pé. De pé, imaginem só! Cecília vibra enquanto conta. Percebemos ambas, que seu grupo e a classe toda vão aprendendo e crescendo com ela, com seu entusiasmo. Cecília é puro entusiasmo, um deus feliz lhe habita a alma, os gestos. É fácil imaginá-la contando histórias às crianças, despertando nelas não o hábito – hábito é escovar dente, dormir cedo, cumprir tarefa… – mas a paixão pela leitura, coisa muito diferente.

Enquanto olho Cecília, enquanto a ouço, revejo uma de mim, apaixonada também, apaixonada assim. Quantas maluquices fazíamos juntos, eu e meus meninos! Quando a aula não estava boa, todos gritavam, em coro: “Canta, Ana! Canta!” A aula se interrompia, Ana cantava, eles aplaudiam e logo nosso coral se erguia na sala de aula. Isso tudo se passou noutro século, noutro mundo.

Sinto que o Milagre é possível. Todos os dias muitos morrem, nascem outros tantos. Tudo está sempre pronto para uma Nova Ressurreição.

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ZULEIKA DOS REIS, “PALAVREIRA DA HORA” recebe os cumprimentos por mais um ano no processo da vida! / pela editoria

a escritora e poeta ZULEIKA DOS REIS, autora de FLORES DE OUTONO (artepaubrasil) entre outros livros, aniversaria hoje. ZULEIKA é uma daquelas pessoas, que a gente gosta à primeira vista e que parece a conhecemos a longo tempo, e isto tudo, só pelo meio virtual onde podemos ser e nos mostrar como quisermos. os PALAVREIROS DA HORA, seus colegas e companheiros de viagem, te desejam muita saúde e milhões de alegrias e que teus sonhos e tua fé se renovem a cada dia te dando forças para percorrer o novo ano. obrigado pelas colaborações enviadas porque enriqueceram o conteúdo do nosso site. FELIZ ANIVERSÁRIO ZULEIKA!

ZULEIKA DOS REIS - FOTO - Sorriso 17 Ago 07

a escritora, poeta e haicaísta ZULEIKA DOS REIS.

champanhe

SOBREVOO RASO POR TRECHOS DO NOVO MILÊNIO poema de zuleika dos reis

 

                                                                      à memória de José Paulo Paes

               

                           

 

    

 

Tabuleiro medieval.

As tochas iluminam a Morte e o cavaleiro

no jogo que prossegue…

 

 

Algumas torres se preparam para a morte

outras, não. Enquanto isso, desde o primeiro lance,

os peões tremem.

 

Sem os peões, o jogo não existe.

 

O morto no campo de batalha

Olha o inimigo ao lado e pensa:                            O outro morto:

Esse está mais morto do que eu.                          Você se engana.

                A seguir se quedam calados sobre a terra:

                É impossível dialogar com o inimigo.

 

 

 

Atravessamos o milênio, e daí?                            Eu vejo:

Não vejo qualquer diferença no rio.                     Acaba de passar

                                                                           um cardume

                                                                           morto.

 

 

 

Se você pretende atravessar comigo                    Você consegue

neste barco                                                          ver esse

até o outro lado da linguagem                               outro lado

é mais seguro ir nadando.                         da linguagem?

 

Que nada!Parece que o rio vai longe!

 

Talvez – ainda é tempo –                                      Ou

sábio seja deletarmos rio                                      permanecermos

barco fazendo água                                              no ínfimo

passageiros…                                                       do deus

                            tal os múltiplos

                            os tantos

                            ainda aqui

                            reinventando liras

                            reinventando perguntas

                            reinventando o pânico dos antigos.

 

 

 

Pelas ruas, o pânico dos velhos caminha lento…

 

 

 

Minha eternidade pelo reinado de um dia.

Só libélulas são felizes.

 

As diversas tribos, cada qual balançando

em seu ritmo próprio

vão puxando alegremente a passeata

por aumento de salários.

 

 

 

Meu corpo silicônico absoluto perfeito

não precisa de futuro. Identidade?

Excesso de bagagem, problemas na Alfândega.

 

 

Me vendo na TV, no cruzamento da Ipiranga

com a São João.

Na telinha também os meus guris

os demais companheiros

os nossos piolhos

os carros estacionados.

Que belo enquadramento! Estamos ótimos!