Arquivos Mensais: maio \31\UTC 2013

O DIA DO TORTURADO – por mauro santayana / brasilia.df

O DIA DO TORTURADO

A celebração católica do Corpo de Cristo não faz lembrar apenas a Última Ceia e o rito de fé da Eucaristia. Recorda, à margem da liturgia, os açoites, o corpo agonizante de Cristo preso à cruz e os insultos dos soldados romanos, ao feri-lo com a lança, avinagrar os lábios sedentos e a disputar, nos dados, a túnica do morto. A prisão, o açoitamento, a coroação de espinhos, a escalada do Calvário, são atos continuados de MAURO SANTAYANAtortura, infligida a um prisioneiro político do Império Romano e, além disso, acusado de heresia diante da religião vigente na Palestina. Não faria mal à Igreja se viesse a considerar esse dia de ofício religioso também como o Dia do Torturado.

Não é provável que ela vá tão longe, quando há, em sua História, atos semelhantes de ignomínia, na Inquisição Espanhola e nos tribunais do Vaticano, que condenaram, entre outros, o grande pensador Giordano Bruno à fogueira. Mas nada impede aos verdadeiros cristãos lembrar, na mesma data, os que foram assassinados, sob tortura, no mundo inteiro, por suas idéias e seus atos. Embora a mensagem cristã recomende o perdão, a condição humana recomenda a resistência política e o desprezo contra os torturadores.

Assumir o corpo de Cristo, no ato da Eucaristia, é assumi-Lo em sua grandeza maior, na escolha que Ele faz, de absorver, na carne e na alma, a Humanidade sofredora de seu tempo e, no mistério da Fé, a Humanidade de todos os séculos. É, na visão teológica, a contrapartida simbólica da entrega de Cristo ao martírio. Os que são torturados, humilhados e mortos nas masmorras, na defesa de seu verdadeiro evangelho, vivem, em sua agonia, a plena e absoluta Eucaristia.

O mundo de nosso tempo não é muito diferente daquele de que falam os evangelistas. Havia ali a presença de um império mundial, com seus interesses. Havia ali um governo títere, imposto pelos romanos, e delegados do dominador, como o representante do Consulado, com seu pró-cônsul, ou seja, um governador da potência colonizadora. Hoje, as coisas são um pouco diferentes. Como estamos vendo, na divulgação de documentos norte-americanos, em nosso tempo o pró-consulado é exercido pelos embaixadores, com a assessoria ativa de seus adidos militares.

Na cumplicidade com os interesses imperiais, há a permanente guerra interna dos poderosos contra os débeis. Nas delegacias policiais e presídios, longe de testemunhas, homens e mulheres continuam a ser torturados por agentes do Estado. Acusados de delitos comuns, não têm os que podem denunciar o seu sofrimento, nem lhes prestar a mínima solidariedade. Raramente os fatos chegam ao conhecimento do Ministério Público. E nem se fale das execuções sumárias, registradas oficialmente como legítimo exercício da força policial contra a resistência “armada” dos suspeitos.

O Dia do Torturado deve ser o da Memória, com a localização dos mortos e o sepultamento digno, sob a cruz e com as lágrimas dos enlutados – como foi o de Jesus, entregue aos seus familiares. A memória nos servirá para evitar a volta do carrossel diabólico e fortalecer a esperança de que não haja mais o sofrimento dos torturados. O  seu martírio não pede vingança, mas a vigilância contra os golpistas de sempre e pela construção da paz.

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CORPUS CRISTI – Homilia Laica

Hoje, muito simples:  Feriado de Corpus Christi.

“Este é o meu corpo… isto é o meu sangue… fazei isto em memória de mim”.

(Cristo, Ultima Ceia)

CEIA 21

Duvido que alguém saiba exatamente o que isto significa. Dizem que é um feriado religioso, da Igreja Católica. Vou conferir. Também não sei do que se trata. Mas antes de achar o significado da data descubro duas barbaridades cometidas pela mesma Igreja: A morte na fogueira de Jerônimo de Praga e Joana D ‘Arc.  Pura coincidência, pois a celebração do Corpus Christi é uma data móvel , enquanto os assassinatos são datados. Azar da Igreja, que melhor faria enfrentar a coincidência falando sobre o assunto, de resto já consertado ao reconhecer a falha dos processos contra os dois mártires. O silêncio, no caso, é mais um pecado… Ou seria outra? Afinal , não sou muito versado em assuntos religiosos, embora não me faça disso motivo de orgulho. Grandes intelectuais contemporâneos como Max Weber e Karl Yung, além de meu preferido, …, dedicaram longos anos à obras sobre o gênero. Conclusão: O homem não vive sem uma dimensão mística, religiosa, capaz de explicar o que ninguém explica. Daí a fé.

Eis, rapidamente,  os pecados  cristãos desta data há alguns séculos, antes da proclamação da virtude:

1416 – Jerônimo de Praga é condenado à morte na fogueira por heresia, pelo Concílio de Constança, realizado na cidade de Constança, na Alemanha.

Jerônimo de Praga (1379 — 30 de maio de 1416) foi o principal discípulo e o mais devotado amigo de Jan Huss, o célebre reformador religioso  tcheco.

Formação acadêmica

Nasceu em Praga, filho de família de posses. Após tornar-se bacharel na Universidade de Praga em 1398, no ano seguinte iniciou viagens por boa parte da Europa. Em 1402 visitou a Inglaterra e esteve na Universidade de Oxford, onde estudou e copiou as obras Dialogus e CEIA 2Trialogus de John Wycliffe e interessou-se pelo movimento lolardo, inspirado pelo mesmo Wyclif no século anterior. Em 1403 ele foi a Jerusalem e em 1405 estudou naUniversidade de Paris, onde obteve o grau de Mestre. Em 1406 Jerônimo de Praga obteve o mesmo grau na Universidade de Colônia e, um pouco depois, na Universidade de Heidelberg, ambas na atual Alemanha.

Defendendo a Reforma Religiosa

Em 1407 esteve por pouco tempo em Oxford novamente, para voltar novamente a Praga nos anos seguintes, onde suas posições nacionalistas começavam a provocar perseguições por parte da Igreja. Em janeiro de 1410, fez pronunciamentos em favor das filosofias de Wyclif, o que foi citado contra si no Concílio de Constança, quatro anos mais tarde. Em março de 1410, foi editada uma bula papal contra os escritos de Wyclif, o que causou a prisão de Jerônimo em Viena e sua excomunhão da Igreja pelo Bispo de Cracóvia. Conseguindo escapar, voltou a Praga, passando a defender publicamente as teses de reforma da Igreja pregadas por Jan Huss, que por sua vez reforçavam muitas das teses de John Wyclif. Em 1413 Jerônimo de Praga visitou as cortes da Polônia e da Lituânia, causando profunda impressão por seu diferenciado saber e eloqüência.

No Concílio de Constança

Martírio de Jerônimo de Praga, do Livro de Mártires de John Foxe (1563)

Quando Jan Huss viaja para o Concílio de Constança, em outubro de 1414, Jerônimo lhe assegura que o seguiria para ajudá-lo, caso fosse necessário, promessa que logo lhe faria chegar a Constança, em 4 de abril de 1415. Ao contrário de Huss, que obtivera um salvo-conduto para proteger-se, Jerônimo nada possuía para defender-se, razão pela qual os amigos insistiam para que voltasse a Praga. Em 20 de abril foi preso e enviado a Sulzbach, retornando a Constança em 23 de maio para ser imediatamente processado pelo Concílio.

Sua condenação, como a de Huss, já estava pré-determinada, tanto em conseqüência de seu apoio a muitas das idéias de Wyclif (embora discordasse de algumas) quanto por sua aberta admiração por Huss. Assim, não teve a oportunidade de defender-se em um julgamento justo. As condições de sua prisão eram tão severas que ele ficou seriamente doente, tendo sido induzido a retratar-se em duas reuniões públicas do Concílio (11 e 23 de setembro de 1415). As palavras colocadas em sua boca nessas ocasiões fizeram-no renunciar aos ensinos de Wyclif e Huss. A mesma saúde abalada o fez escrever cartas ao rei da Boêmia e à Universidade de Praga em que declarava estar convencido de que era justa a condenação de Huss à morte na fogueira por heresia, o que havia ocorrido em 6 de julho daquele ano. Nem mesmo essa conduta rendeu sua libertação, nem mesmo qualquer diminuição da sua pena. Em maio de 1416 Jerônimo de Praga foi posto novamente em julgamento pelo Concílio. Em 28 de maio, ele veementemente retratou-se de sua retratação, sendo finalmente condenado por heresia em 30 de maio e queimado na fogueira ainda no mesmo dia.

Legado ]

Suas extensas viagens, sua ampla erudição, sua eloquência, sua inteligência e sabedoria fizeram dele um formidável crítico da degenerada Igreja daqueles tempos, que chegou a possuir três papas ao mesmo tempo (ver Cisma Papal). Foram essas qualidades que fizeram repercutir suas profundas críticas à Igreja, contribuindo, mais que qualquer heresia, para sua condenação à morte. Sua morte ocorreu menos de um ano após a morte de Huss, contribuindo para inflamar o movimento nacionalista da Boêmia, que resultou em uma série de movimentos armados conhecidos como guerras hussitas. Jerônimo de Praga, assim como Jan Huss e John Wyclif, é considerado precursor da Reforma Protestante que ocorreria no século XVI. Jerônimo morreu cantando salmos na fogueira.

1431 – Em Ruão, na França, Joana d’Arc é queimada na fogueira aos 19 anos por bruxaria.

Joana foi presa em uma cela escura e vigiada por cinco homens. Em contraste ao bom tratamento que recebera em sua primeira prisão, Joana agora vivia seus piores tempos.

O processo contra Joana teve início no dia 9 de janeiro de 1431, sendo chefiado pelo bispo de Beauvais, Pierre Cauchon. Foi um processo que passaria à posteridade e que converteria Joana em heroína nacional, pelo modo como se desenvolveu e trouxe o final da jovem, e da lenda que ainda nos dias de hoje mescla realidade com fantasia.

Dez sessões foram feitas sem a presença da acusada, apenas com a apresentação de provas, que resultaram na acusação de heresia e assassinato.

No dia 21 de fevereiro Joana foi ouvida pela primeira vez. A princípio ela se negou a fazer o juramento da verdade, mas logo o fez. Joana foi interrogada sobre as vozes que ouvia, sobre a igreja militante, sobre seus trajes masculinos. No dia 27 e 28 de março, Thomas de Courcelles fez a leitura dos 70 artigos da acusação de Joana, e que depois foram resumidos a 12, mais precisamente no dia 5 de abril. Estes artigos sustentavam a acusação formal para a Donzela buscando sua condenação.

No mesmo dia 5, Joana começou a perder saúde por causa de ingestão de alimentos venenosos que a fez vomitar. Isto alertou Cauchon e os ingleses, que lhe trouxeram um médico. Queriam mantê-la viva, principalmente os ingleses, porque planejavam executá-la.

Durante a visita do médico, Jean d’Estivet acusou Joana de ter ingerido os alimentos envenenados conscientemente para cometersuicídio. No dia 18 de abril, quando finalmente ela se viu em perigo de morte, pediu para se confessar.

Os ingleses impacientaram-se com a demora do julgamento. O Conde de Warwick disse a Cauchon que o processo estava demorando muito. Até o primeiro proprietário de Joana, Jean de Luxemburgo, apresentou-se a Joana fazendo-lhe a proposta de pagar por sua liberdade se ela prometesse não atacar mais os ingleses. A partir do dia 23 de maio, as coisas se aceleraram, e no dia 29 de maio ela foi condenada por heresia.

A morte 

JOANNA NA FOGUEIRA

 

 

Joana d’Arc sendo queimada viva.

Joana foi queimada viva em 30 de maio de 1431, com apenas dezenove anos. A cerimónia de execução aconteceu na Praça do Velho Mercado (Place du Vieux Marché), às 9 horas, em Ruão.

Antes da execução ela se confessou com Jean Totmouille e Martin Ladvenu, que lhe administraram os sacramentos da Comunhão. Entrou, vestida de branco, na praça cheia de gente, e foi colocada na plataforma montada para sua execução. Após lerem o seu veredito, Joana foi queimada viva. Suas cinzas foram jogadas no rio Sena, para que não se tornassem objeto de veneração pública. Era o fim da heroína francesa.

 

A revisão do seu processo começou a partir de 1456, quando foi considerada inocente pelo Papa Calisto III, e o processo que a condenou foi considerado inválido, e em 1909 a Igreja Católica autoriza sua beatificação. Em 1920, Joana d’Arc é canonizada pelo Papa Bento XV.

Agora, o  “Corpus Christi”:

A data pretende celebrar o Corpo e Sangue de Cristo na Eucaristia, um momento importante da ligurgia cristã referido à última ceia de Jesus com os apóstolos, na quinta-feira anterior à Paixão,  quando lhes distribuiu o pão e o vinho.  Foi instituída pelo Papa Urbano IV com a bula Transiturus de hoc mundo, em 11 de agosto de 1264 – embora decretada cinco anos depois – ,  devendo cair na quinta-feira após a Festa da Santíssima Trindade que ocorre no domingo depois de Pentecostes ou 60 dias após a Páscoa. Aos leigos, tudo isto soa  entre o desconhecido e o misterioso. Mas a verdade é que a tradição foi se consagrando em toda a Europa Cristã, especialmente na Diocese de Colônia, hoje Alemanha. Em Roma já se tem dela notícia desde 1350

“O papa Urbano IV, na época o cônego Tiago Pantaleão de Troyes, arcediago do Cabido Diocesano de Liège, na Bélgica, recebeu o segredo das visões da freira agostiniana Juliana de Mont Cornillon, que teve visões de Cristo demonstrando desejo de que o mistério da Eucaristia fosse celebrado com destaque.

Por solicitação do papa Urbano IV, que, na época, governava a Igreja, os objetos milagrosos foram para Orviedo em grande procissão, sendo recebidos solenemente por sua santidade e levados para a Catedral de Santa Prisca. Esta foi a primeira procissão do Corporal Eucarístico. A 11 de agosto de 1264, o papa lançou de Orviedo para o mundo católico através da bula Transiturus de hoc mundo o preceito de uma festa com extraordinária solenidade em honra do Corpo do Senhor.”

As procissões de Corpus Christi , no Brasil, iniciaram-se no Período Colonial em Ouro Preto. Hoje disseminam-se por várias cidades nas quais são feitos desenhos litúrgicos com flores, folhas e serragem. nas ruas por onde passam.

No Brasil, a tradição manda enfeitar as ruas com flores e serragem de cores vivas, que formam desenhos simbólicos. Isso acontece principamente nas cidades históricas e nas capitais, como Pirenópolis, em Goiás, São Paulo capital, Jacobina, na Bahia, e Castelo, no Espírito Santo. Mas o costume também se estende por todo o país.

http://dreamguides.edreams.pt/brasil/corpus-christi

A celebração religiosa do Corpo de Cristo merece, porém, uma homilia laica, vez que remete à comunhão de toda a humanidade em torno do pão e do vinho. A homilia é sempre a preleção de um religioso – homiliasta – no decorrer de uma celebração, normalmente após a leitura de alguma parte da Bíblia. Consta que era muito usado do período inicial do cristianismo, seguindo o exemplo do Mestre, tendo sempre um caráter  coloquial no tratamento das questões de fé, Deus e a religião, embora assumindo várias intenções: explicativa, exegética, quando isso é feito através das Escrituras e exortativo, caso em que procura exaltas as verdades aí contidas. Nada impede, porém, que se tome de empréstimo da liturgia esta boa prática que fez com a Igreja Católica tivesse o êxito que teve ao longo dos séculos.

Há na celebração três importantes considerações:

Primeiro, a idéia mesma da comunhão como um ato simbólico da confraternização, em que o sagrado se liga misticamente ao profano – o pão e o vinho – entregando-lhes um significado imaterial. Esta comunhão não se restringe ao Profeta ou seus clérigos mas pretende disseminar-se a todos os fiéis.

E aqui, a segunda observação: Estes fiéis não se restringem ao povo eleito de Deus, como na tradição judaica, de onde nasceu o Cristianismo, mas se estende urbi e orbi, a todos os lugares e a todos, tal como na bênção dominical até hoje feita pelo Papa no Vaticano.CEIA 3 - last supper rafaeli

Sendo destinada a toda a humanidade, a fé cristã, ao contrário da judaica, aqui também, devia ser divulgada através do proselitismo – pregação – , instituído, aliás, por Paulo e levado a cabo depois da Reforma Religiosa com grande afinco por diversas Ordens, principalmente jesuítas.

Muitas das considerações acima foram assumidas, também, por Luthero e os reformadores da Igreja de Roma e se converteram em verdadeiros ideias de reorganização da sociedade O caso mais clássico, curiosamente, foi o das 13  Colônias Americanas que mais tarde dariam origem aos Estados Unidos. Desde sua origem, a sociedade americana foi constituída com base em valores cristãos os quais lhe davam um sentido de conversão da humanidade inteira ao seu modelo de organização e vida. Daí à arrogância do “Consenso de Washington” que consagra pela força a Pax Americana  foi um pulo…

A celebração de Corpus Christi não se esgota, portanto, apenas na valorização da figura de Jesus no campo da doutrina e fé cristãs. Ele remete para a Comunhão da Humanidade como um corpo que deve ser reunido em torno de valores fundamentais, começando pela fraternidade em torno da mesa. Só os mamíferos superiores compartem o produto da caça, muitas vezes obtido pela cooperação coletiva, com sua espécie ou clã. E tivemos que chegar ao Império Romano para aprendermos a comer à mesa. Falta-nos, entretanto, alguns passos para que façamos sentar ao cardápio da civilização, hoje,  a humanidade inteira, com emprego para todos e alimento à mesa sem discriminações e exclusões. Este o verdadeiro sentido do cristianismo, cujo significado é exatamente universalização da condição humana.

Em boa hora, Sua Santidade o Papa, talvez interpretando desta forma a celebração de Corpus Christi, desferiu nos últimos dias 21 de maio, na cozinha ( ! ) do Vaticano e  22, na Casa Dom de Maria (!!), também no Vaticano,  explícita crítica ao capitalismo sem face, selvagem,  que mantém 26 milhões de desempregados na União Europeia enquanto trilhões de dólares, cada vez mais concentrados, não ultrapassando se controle a 0,35% da população mundial são entesourados em Paraísos Fiscais, à salvo de impostos, e de qualquer sentido social. Para não falar no bilhão de pessoas que passam fome no mundo, enquanto os celeiros das tradigns estão repletos de commodities na forma de  alimentos convertidos em fontes de lucro.

Cidade do Vaticano, 22 mai 2013 (Ecclesia) – O Papa deixou críticas ao “capitalismo selvagem” durante uma visita à casa ‘Dom de Maria’, dirigida pelas religiosas de Madre Teresa de Calcutá, que acolhe pessoas necessitadas, no Vaticano.

“O capitalismo selvagem ensinou a lógica do lucro a qualquer custo”, disse Francisco, numa intervenção divulgada hoje pelo portal de notícias ‘news.va’.

A visita, que decorreu na tarde de terça-feira, visou assinalar o 25.º aniversário da entrega da gestão desta casa de acolhimento a Madre Teresa por João Paulo II.

O Papa Francisco elogiou a hospitalidade “sem distinção de nacionalidade ou religião” que se vive na instituição, pedindo que se recupere o “sentido do dom”, da gratuidade e da solidariedade.

A intervenção sublinhou a importância de travar a “exploração que não olha às pessoas”.

“Vemos os resultados nesta crise que estamos a viver”, acrescentou.

                       (http://www.agencia.ecclesia.pt/cgi-bin/noticia.pl?id=95618)

A data, portanto, é um bom momento de reflexão sobre a fé mas, também, sobre a esperança de que o cristianismo, com sua força massiva e inequívoca capacidade de persuasão, ultrapasse os limites da liturgia para ajudar a encontrar uma saída para o difícil momento por que passa a Humanidade.

 

Madonna completamente nua aos 21 anos, fotos vão a leilão, veja estilo

 Fernando Adoka

Algumas fotos de Madonna nua aos 21 anos podem valer mais US$ 30 mil cada em um leilão, que será realizado em Nova York. 
As imagens foram tiradas por Lee Friedlander, quando a rainha do pop era ainda bem jovem, antes de atingir a fama.
Na época, o fotógrafo realizava ensaios nus de modelos com um projeto que durou 12 anos a partir do fim da década de 1970.
As imagens de Madonna nua que irão a leilão foram registradas em 1979, quando a cantora tinha 21 anos, e trabalhava como dançarina. O primeiro álbum de Madonna só foi lançado em 1983.
A venda é organizada pela casa de leilões Philips de Pury, e as fotografias a serem leiloadas serão exibidas a partir de sábado,24, até a data do leilão.Confira com exlusividade todas as imagens de Madonna Nua para o ensaio artístico quando ela tinha apenas 21 anos.


PACO DE LUCIA e Chick Corea

 

Sinais do Espírito no mundo atual – por leonardo boff

Sinais do Espírito no mundo atual

26/05/2013

Desenvolveu-se, já há bastante tempo, toda uma teologia dos “sinais dos tempos” como forma de percepção de um desígnio divino para a história humana. Esse procedimento é  arriscado, pois para conhecer os sinais precisa-se primeiramente conhecer os tempos. E estes nos leonardo boffdias atuais são complexos, quando não contraditórios. O que é sinal do Espírito para alguns pode ser um antissinal  para outros.

Mas há alguns eventos que se impõem à consideração de todos, pois possuem uma evidência em si mesmos. Vamos nos referir a alguns pela densidade de sentido que contém.

O primeiro é sem dúvida o processo de planetização. Esta, mais que um fato econômico e político inegável, representa  um fenômeno histórico-antropológico: a humanidade se descobre como espécie, habitando a mesma e única Casa, o planeta Terra, com um destino comum. Ele antecipa o que já Pierre Teilhard de Chardin dizia em 1933 a partir de seu exílio eclesiástico na China: estamos na antessala de uma nova fase da humanidade: a fase da noosfera, vale dizer, da convergência das mentes e dos corações constituindo uma única história junto com a história da Terra. O Espírito que é sempre de unidade, de reconciliação e de convergência na diversidade.

Outro sinal relevante é constituído pelos Fóruns Sociais Mundiais que a partir do ano 2000 começaram a se realizar a partir de Porto Alegre, RS. Pela primeira vez na história moderna, os pobres do mundo inteiro, fazendo contraponto às reuniões dos ricos na cidade suíça de Davos, conseguiram acumular tanta força e capacidade de articulação que acabaram, aos milhares, se encontrando para apresentar suas experiência de resistência e de libertação e alimentar um sonho coletivo  de que um outro mundo é possível e necessário. Aí se notam os brotos do novo paradigma de humanidade, capaz de organizar de forma diferente a produção, o consumo, a preservação da natureza e a inclusão de todos num projeto coletivo que garanta um futuro de vida.

A Primavera Árabe surge também como um sinal do Espírito no mundo. Ela incendiou todo o Norte da Africa e se realizou sob o signo da busca de liberdade, de respeito dos direitos humanos e na integração das mulheres, tidas como  iguais, nos processos sociais. Ditaduras foram derrubadas, democracias estão sendo ensaiadas, o fator religioso é mais e mais valorizado na montagem da sociedade mas deixando de lado aspectos fundamentalistas. Tais fatos históricos devem ser interpretados, para além de sua leitura secular e sociopolítica, como emergências do Espírito de liberdade e de criatividade.

Quem poderia negar que numa leitura bíblico-teológica, a crise de 2008 que afetou principalmente o centro do poder econômico-financeiro do mundo, lá onde estão os grandes conglomerados  econômicos que vivem da especulação à custa da desestabilização de outros países e do desespero de suas populações, não seja também um sinal do Espírito Santo? Este é um sinal de advertência de que a perversidade tem limites e que sobre eles poderá vir um juízo severo de Deus: a sua completa derrocada.

Em contrapartida ao sinal negativo anterior, está o sinal positivo dos movimentos de vítimas que se organizaram na Europa como os “indignados” na Espanha e na Inglaterra e os “occupies Wall Street” nos EUA. Eles revelam uma energia de protesto e de busca de novas formas de democracia e de organizar a produção, cuja fonte derradeira, na leitura da fé, se encontra no Espírito.

Outro sinal do Espírito no mundo  ganhou forma na  crescente consciência ecológica de um número cada vez maior de pessoas no mundo inteiro. Os fatos não podem ser negados: tocamos nos limites da Terra, os ecossistemas mais e mais estão se exaurindo, a energia fóssil, o motor secreto de todo nosso processo industrialista, tem os dias contados e o aquecimento global que não para de aumentar e que, dentro de algumas décadas, pode ameaçar toda a biodiversidade.

Somos os principais responsáveis por este caos ecológico. Faz-se urgente um outro paradigma de civilização que vai na linha das visões já testadas na humanidade como o ’bem-viver” e o “bem-conviver” (sumak kawsay) dos povos andinos, o “índice de felicidade bruta” do Butão, o ecossocialismo, a  economia solidária e biocentrada, uma bem entendida economia verde ou projetos cuja centralidade é posta na vida, na humanidade e na Terra viva.

Por fim, um grande sinal do Espírito no mundo é o surgimento do movimento feminista e do ecofeminismo. As mulheres não apenas denunciaram a dominação secular do homem sobre a mulher (questão de gênero) mas especialmente toda a cultura patriarcal. A irrupção das mulheres em todos os campos da atividade humana, no mundo do trabalho, nos centros de saber, no campo da política e das artes, mas principalmente com uma vigorosa reflexão a partir da condição feminina sobre toda a realidade, deve ser vista como uma irrupção poderosa do Espírito na história.

A vida está ameaçada no planeta. A mulher é conatural à vida, pois a gera e cuida dela durante todo o tempo. O século 21 será, creio eu, o século das mulheres, daquelas que, junto com os homens, assumirão mais e mais responsabilidades coletivas. Será por elas que os  valores que elas mais testemunham como o cuidado, a cooperação, a solidariedade, a compaixão e o amor incondicional estarão na base do novo ensaio civilizatório planetário.

Veja de minha autoria A civilização planetária: desafios à sociedade e ao cristianismo, Sextante, Rio 2003

Pablo Neruda entrevistado por Clarice Lispector / são paulo.sp

Numa manhã de abril de 1969, a escritora brasileira entrevistou o poeta chileno, que, à época, era considerado um dos mais importantes nomes da poesia em língua espanhola no século 20.

Pablo Neruda

Cheguei à porta do edifício de apartamentos onde mora Rubem Braga e onde Pablo Neruda e sua esposa Matilde se hospedavam — cheguei à porta exatamente quando o carro parava e retiravam a grande bagagem dos visitantes. O que fez Rubem dizer: “É grande a bagagem literária do poeta”. Ao que o poeta retrucou: “Minha bagagem literária deve pesar uns dois ou três quilos”.

Neruda é extremamente simpático, sobretudo quando usa o seu boné (“tenho poucos cabelos, mas muitos bonés”, disse). Não brinca porém em serviço: disse-me que se me desse a entrevista naquela noite mesma só responderia a três perguntas, mas se no dia seguinte de manhã eu quisesse falar com ele, responderia a maior número. E pediu para ver as perguntas que eu iria fazer. Inteiramente sem confiança em mim mesma, dei-lhe a página onde anotara as perguntas, esperando Deus sabe o quê. Mas o quê foi um conforto. Disse-me que eram muito boas e que me esperaria no dia seguinte. Saí com alívio no coração porque estava adiada a minha timidez em fazer perguntas. Mas sou uma tímida ousada e é assim que tenho vivido, o que, se me traz dissabores, tem-me trazido também alguma recompensa. Quem sofre de timidez ousada entenderá o que quero dizer.

Antes de reproduzir o diálogo, um breve esboço sobre sua carga literária. Publicou “Crepusculário” quando tinha 19 anos. Um ano depois publicava “Vinte Poemas de Amor e Uma Canção Desesperada”, que até hoje é gravado, reeditado, lido e amado. Em seguida escreveu “Residência na Terra”, que reúne poemas de 1925 a 1931, da fase surrealista. “A Terceira Residência”, com poemas até 1945, é um intermediário com uma parte da Espanha no coração, onde é chorada a morte de Lorca, e a guerra civil que o tocou profundamente e despertou-o para os problemas políticos e sociais. Em 1950, “Canto Geral”, tentativa de reunir todos os problemas políticos, éticos e sociais da América Latina. Em 1954: “Odes Elementares”, em que o estilo fica mais sóbrio, buscando simplicidade maior, e onde se encontra, por exemplo, “Ode à cebola”. Em 1956, “Novas Odes Elementares” que ele descobre nos temas elementares que não tinham sido tocados. Em 1957, “Terceiro Livro das Odes”, continuando na mesma linha. A partir de 1958, publica “Estravagario, Navegações e Regressos”, “Cem Sonetos de Amor”, “Contos Cerimoniais” e “Memorial de Isla Negra”.

Pablo Neruda

No dia seguinte de manhã, fui vê-lo. Já havia respondido às minhas perguntas, infelizmente: pois, a partir de uma resposta, é sempre ou quase sempre provocada outra pergunta, às vezes aquela a que se queria chegar. As respostas eram sucintas. Tão frustrador receber resposta curta a uma pergunta longa. Contei-lhe sobre a minha timidez em pedir entrevistas, ao que ele respondeu: “Que tolice”. Perguntei-lhe de qual de seus livros ele mais gostava e por quê. Respondeu-me: “Tu sabes bem que tudo o que fazemos nos agrada porque somos nós — tu e eu — que o fizemos”.

A entrevista foi concedida em 19 de abril de 1969 e publicada no livro “De Corpo Inteiro”, Editora Rocco, em 1999.

Você se considera mais um poeta chileno ou da América Latina?

Poeta local do Chile, provinciano da América Latina.

Escrever melhora a angústia de viver?

Sim, naturalmente. Tra­ba­lhar em teu ofício, se amas teu o­fí­cio, é celestial. Senão é infernal.

Quem é Deus?

Todos algumas vezes. Nada, sempre.

Como é que você descreve um ser humano o mais completo possível?

Político, poético. Físico.

Como é uma mulher bonita para você?

Feita de muitas mulheres.

Escreva aqui o seu poema predileto, pelo menos predileto neste exato momento?

Estou escrevendo. Você pode esperar por mim dez anos?

Em que lugar gostaria de viver, se não vivesse no Chile?

Acredite-me tolo ou patriótico, mas eu há algum tempo escrevi em um poema: Se tivesse que nascer mil vezes. Ali quero nascer. Se tivesse que morrer mil vezes. Ali quero morrer…

Qual foi a maior alegria que teve pelo fato de escrever?

Ler minha poesia e ser ouvido em lugares desolados: no deserto aos mineiros do norte do Chile, no Estreito de Ma­ga­lhães aos tosquiadores de ovelha, num galpão com cheiro de lã suja, suor e solidão.

Em você o que precede a criação, é a angústia ou um estado de graça?

Não conheço bem esses sentimentos. Mas não me creia insensível.

Diga alguma coisa que me surpreenda.

748. (E eu realmente surpreendi-me, não esperava uma harmonia de números)

Você está a par da poesia brasileira? Quem é que você prefere na nossa poesia?

Admiro Drummond, Vinícius, Jorge de Lima. Não conheço os ma­is jovens e só chego a Paulo Men­des Campos e Geir Campos. O poema que mais me agrada é o “Defunto”, de Pedra Nava. Sem­pre o leio em voz alta aos meus amigos, em todos os lugares.

Que acha da literatura engajada?

Toda literatura é engajada.

Pablo Neruda

Qual de seus livros você mais gosta?

O próximo.

A que você atribui o fato de que os seus leitores acham você o “vulcão da América Latina”?

Não sabia disso, talvez eles não conheçam os vulcões.

Qual é o seu poema mais recente?

“Fim do Mundo”. Trata do século 20.

Como se processa em você a criação?

Com papel e tinta. Pelo menos essa é a minha receita.

A critica constrói?

Para os outros, não para o criador.

Você já fez algum poema de encomenda? Se não o fez faça agora, mesmo que seja bem curto.

Muitos. São os melhores. Este é um poema.

O nome Neruda foi casual ou inspirado em Jan Neruda, poeta da liberdade tcheca?

Ninguém conseguiu até agora averiguá-lo.

Qual é a coisa mais importante no mundo?

Tratar para que o mundo seja digno para todas as vidas humanas, não só para algumas.

O que é que você mais deseja para você mesmo como indivíduo?

Depende da hora do dia.

O que é amor? Qualquer tipo de amor.

A melhor definição seria: o amor é o amor.

Você já sofreu muito por amor?

Estou disposto a sofrer mais.

Quanto tempo gostaria você de ficar no Brasil?

Um ano, mas depende de meus trabalhos.

Clarice Lispector

E assim terminou a entrevista com Pablo Neruda. An­tes falasse ele mais. Eu poderia prolongá-la quase que indefinidamente. Mas era a primeira entrevista que ele dava no dia seguinte à sua chegada, e sei quanto uma entrevista pode ser cansativa. Espontaneamente  deu-me um livro, “Cem Sonetos de Amor”. E depois de meu no­me, na dedicatória, escreveu:
“De seu amigo Pa­blo”. Eu também sinto que ele poderia se tornar meu amigo, se as circunstâncias facilitassem. Na contracapa do livro diz:
“Um todo manifestado com uma espécie de sensualidade casta e pagã: o amor co­mo uma vocação do homem e a poesia co­mo sua tarefa”. Eis um retrato de corpo inteiro de Pablo Neruda nestas últimas frases.

***

O Defunto 
(Pedro Nava)

Quando morto estiver meu corpo,
Evitem os inúteis disfarces,
Os disfarces com que os vivos,
Só por piedade consigo,
Procuram apagar no Morto
O grande castigo da Morte.

Não quero caixão de verniz
Nem os ramalhetes distintos,
Os superfinos candelabros
E as discretas decorações.

Quero a morte com mau-gosto!

Pablo Neruda (…)


Deem-me coroas de pano.
Deem-me as flores de roxo pano,
Angustiosas flores de pano,
Enormes coroas maciças,
Como enormes salva-vidas,
Com fitas negras pendentes.

E descubram bem minha cara:
Que a vejam bem os amigos.
Que não a esqueçam os amigos.
Que ela ponha nos seus espíritos
A incerteza, o pavor, o pasmo.
E a cada um leve bem nítida
A ideia da própria morte.

Descubram bem esta cara!

Descubram bem estas mãos.
Não se esqueçam destas mãos!
Meus amigos, olhem as mãos!
Onde andaram, que fizeram,
Em que sexos demoraram
Seus sabidos quirodáctilos?

Foram nelas esboçados
Todos os gestos malditos:
Até os furtos fracassados
E interrompidos assassinatos.

— Meus amigos! olhem as mãos
Que mentiram às vossas mãos…
Não se esqueçam! Elas fugiram
Da suprema purificação
Dos possíveis suicídios.

— Meus amigos, olhem as mãos!
As minhas e as vossas mãos!

Descubram bem minhas mãos!

Descubram todo o meu corpo.
Exibam todo o meu corpo,
E até mesmo do meu corpo
As partes excomungadas,
As sujas partes sem perdão.

— Meus amigos, olhem as partes…
Fujam das partes,
Das punitivas, malditas partes …

E, eu quero a morte nua e crua,
Terrífica e habitual,
Com o seu velório habitual.

— Ah! o seu velório habitual!

Não me envolvam em lençol: 
A franciscana humildade 
Bem sabeis que não se casa
Com meu amor da Carne, 
Com meu apego ao Mundo.

E quero ir de casimira: 
De jaquetão com debrum, 
Calça listrada, plastron…
E os mais altos colarinhos.

Deem-me um terno de Ministro
Ou roupa nova de noivo …
E assim Solene e sinistro,
Quero ser um tal defunto,
Um morto tão acabado,
Tão aflitivo e pungente, 
Que sua lembrança envenene
O que resta aos amigos
De vida sem minha vida.

— Meus, amigos, lembrem de mim.
Se não de mim, deste morto,
Deste pobre terrível morto
Que vai se deitar para sempre
Calçando sapatos novos!
Que se vai como se vão

Os penetras escorraçados,
As prostitutas recusadas,
Os amantes despedidos,
Como os que saem enxotados
E tornariam sem brio
A qualquer gesto de chamada.

Meus amigos, tenham pena,
Senão do morto, ao menos
Dos dois sapatos do morto!
Dos seus incríveis, patéticos
Sapatos pretos de verniz.
Olhem bem estes sapatos,
E olhai os vossos também.

A besta na jaula – por amilcar neves / ilha de santa catarina.sc

O ano é 1916.

 Amilcar Neves

O mês: agosto.

 

O dia: a sexta-feira 11.

 

O local: uma sala escurecida, fedendo a cigarro, poeira e tinta, na rua Jeronymo Coelho nº 5. Silenciosa e vazia, os sons e ruídos da cidade, escassos, não conseguem vencer venezianas, vidros, postigos e as gastas cortinas aveludadas, menos ainda as grossas paredes da edificação.

 

Um barulho seco e brusco tira os móveis da modorra noturna. Embaixo, as máquinas silenciaram há muito e o alarido dos moleques vai longe, anunciando as maravilhas espantosas estampadas pelo jornal vespertino. Quase se pode dizer que a cidade honesta se prepara para dormir. Aqui e ali se vão encerrando os serões das famílias, as pessoas a se despedirem respeitosas. Logo o Teatro Álvaro de Carvalho concluirá outra encenação de uma revista musical de vibrante sucesso, escrita por consagrado autor da terra.

 

Nesse silêncio ordeiro de gente devota e virtuosa, de cidade comportada, o barulho embaixo se repete, agora mais seco e impaciente, e a fechadura da porta externa cede sob a pressão, rangendo num guincho agudo que perfura a noite. A Ilha treme um pouquinho, uma luz se acende na casa em frente, uma janela se abre no sobrado e uma dona assoma sonolenta, o roupão descuidado, aberto, deixando à mostra um seio de alabastro que jamais recebeu o calor do sol; coroando-o, um mamilo escuro desponta impudente.

 

Oclândio Ramos faz um sinal para Lindaura Consuelo e lhe dá as costas. Ela, por sua vez, afasta-se do ar frio da noite e, em segundos, a luz do quarto no sobrado está apagada.

 

Para mesas, máquinas de escrever e cinzeiros atulhados de xepas de cigarro na sala do nº 5 da Jeronymo Coelho, porém, a tensão aumenta a tal ponto, com o barulho que vem de baixo, da porta da rua, que nem a poeira suspensa no ar abafado se sente em segurança. Agora são como que passos escalando degrau a degrau. Um vulto surge nebuloso no topo da escada.

 

Dito vulto cruza o local como se conhecesse cada obstáculo como o corpo da amante, mete a mão no trinco da porta de vidro, escancara-a, senta a uma escrivaninha, acende um cigarro, liga um abajur de mesa, da sua mesa, pega uma lauda em branco e alimenta a máquina de escrever. Analisa a folha vazia à sua frente e então datilografa no alto da página, em capitais, as palavras A Besta na Jaula.

 

O vulto é Oclândio Ramos, redator chefe e diretor comercial deO Estado, o “Jornal de maior circulação em Santa Catharina”. Oclândio olha para a mesa vazia da sua secretária, ao lado, e conclui que é melhor assim, “com a Lindaura Consuelo por perto, e sem ninguém na redação, não ia sair matéria alguma”, e ele tinha que trabalhar no furo que iria estremecer a cidade e, em seguida, todo o estado.

 

Oclândio acabara de ver Joaquim Adeodato, recém-chegado à cidade pelo vapor Max, da companhia de navegação de cabotagem do alemão Hoepcke. Mandou fotografar para o jornal o último chefe dos fanáticos no Contestado: descalço, em mangas de camisa, ladeado pelo tenente Cabreira e por um cabo do Regimento.

 

Vai ser o furor do fim de semana!, avaliava Oclândio, a cidade vai falar nisso até o Natal!

 

Entusiasmado, “é isso que o povo quer”, considerou, pôs-se a teclar com fervor quase religioso, numa fúria santificada:

 

“Desde que se soube aqui, por via telegráfica, que havia sido preso, pelo tenente Cabreira, o célebre bandoleiro Joaquim Adeodato, a população está vivamente interessada em conhecer esse homem, sobre quem pesam os mais graves crimes.

 

“Ontem, circulou na cidade a notícia de que o célebre chefe dos fanáticos vinha para esta capital, a bordo do ‘Max’.

 

“A curiosidade pública se acentuou, então, e grande massa popular se avolumou no trapiche Rita Maria, onde atracou o ‘Max’, às 11 horas, esperando ver o indigitado facínora.

 

“Mas, a polícia, previdente, havia partido, em sua lancha, ao encontro do ‘Max’ e, no canal do Estreito, o abordou, recebendo a bordo da ‘Santa Catharina’ o terrível fanático que desembarcou, escoltado, pelo trapiche da Praia de Fora.

 

“Dali Adeodato foi conduzido à cadeia pública, onde está recolhido.

 

“Mesmo assim, pelas ruas por onde transitou a escolta que trazia o indigitado criminoso, foi se reunindo grande número de curiosos que vieram, na retaguarda da escolta, acompanhando Adeodato até a cadeia.

 

“Adeodato será interrogado hoje pelas autoridades.”

 

Oclândio recostou-se satisfeito na cadeira, jogou os olhos sobre o texto fresco, acendeu o oitavo cigarro, pensou com volúpia nos seios brancos de mamilos pretos e atrevidos de Lindaura Consuelo e sorriu de bem com a vida.

 

Sob a mesa, no cesto de lixo, amassado com raiva e picotado em dezenas de fragmentos, jazia o texto de duas colunas da entrevista exclusiva que “esse imbecil do Teotônio Almeida”, correspondente em São Francisco, conseguiu com Adeodato, “o sicário e temível assassino do Contestado”, na cadeia pública da cidade.

 

Começava assim, a matéria: “Nós, que esperávamos ver nesse instante o semblante perverso e hediondo de um bandido, cujos traços fisionômicos estivessem a denotar a sua filiação entre os degenerados e os desclassificados do crime, vimos, pelo contrário, diante de nós, um mancebo em todo o vigor da juventude, de uma compleição física admirável, esbelto, fronte larga, lábios finos, o superior vestido de um buço pouco denso, cabelos negros, olhos de azeviche, pequenos e brilhantes, dentes claros, perfeitos e regulares, ombros largos, estatura mediana, tez acaboclada e rosto levemente alongado”.

 

– Porra! – exclamou Oclândio Ramos no meio da redação vazia. – Por que cargas d’água o bosta desse Teotônio queria fazer de Adeodato um ser humano, caralho?

 

 

 

N.S.Desterro, março de 2013

Tarsila do Amaral – desbravadora do modernismo

Tarsila do Amaral – desbravadora do modernismo

“Eu invento tudo na minha pintura. E o que eu vi ou senti, eu estilizo.”
– Tarsila do Amaral, em entrevista a “Revista Veja”, fevereiro de 1972.

 Auto-retrato 1923  -1
Tarsila do Amaral, Auto-Retrato [Manteau Rouge], 1923
Museu Nacional de Belas Artes (Rio de Janeiro, RJ)

Tarsila do Amaral (Capivari SP 1886 – São Paulo SP 1973). Pintora, desenhista. Estuda escultura com William Zadig (1884-1952) e com Mantovani, em 1916, na capital paulista. No ano seguinte tem aulas de pintura e desenho com Pedro Alexandrino (1856-1942), onde conhece Anita Malfatti (1889-1964). Ambas têm aulas com o pintor Georg Elpons (1865-1939). Em 1920 viaja para Paris e estuda na Académie Julian e com Émile Renard (1850-1930). Ao retornar ao Brasil forma em 1922, em São Paulo, o Grupo dos Cinco, com Anita Malfatti, Mário de Andrade (1893-1945), Menotti del Picchia (1892-1988) e Oswald de Andrade (1890-1954). Em 1923, novamente em Paris, freqüenta o ateliê de André Lhote (1885-1962), Albert Gleizes (1881-1953) e Fernand Léger (1881-1955). Entra em contato como o poeta Blaise Cendrars (1887-1961), que a apresenta a Constantin Brancusi (1876-1957), Vollard, Jean Cocteau (1889-1963), Erik Satie, entre outros. No ano seguinte, já no Brasil, com Oswald de Andrade, Olívia Guedes Penteado (1872-1934), Mário de Andrade e outros, acompanha o poeta Blaise Cendrars em viagem às cidades históricas de Minas Gerais. Realiza uma série de trabalhos baseados em esboços feitos durante a viagem. Nesse período, inicia a chamada fase pau-brasil, em que mergulha na temática nacional. Em 1925 ilustra o livro de poemas Pau-Brasil, de Oswald de Andrade, publicado em Paris. Em 1928, pinta Abaporu, tela que inspira o movimento antropofágico, desencadeado por Oswald de Andrade e Raul Bopp (1898-1984). Em 1933, após viagem à União Soviética, inicia uma fase voltada para temas sociais com as obras Operários e 2ª Classe. Em 1936 colabora como cronista de arte no Diário de São Paulo. A convite da Comissão do IV Centenário de São Paulo faz, em 1954, o painel Procissão do Santíssimo e, em 1956, entrega O Batizado de Macunaíma, sobre a obra de Mário de Andrade, para a Livraria Martins Editora. A retrospectiva Tarsila: 50 Anos de Pintura, organizada pela crítica de arte Aracy Amaral e apresentada no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM/RJ) e no Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo (MAC/USP), em 1969, ajuda a consolidar a importância da artista.

Comentário crítico
 tarsila do amaral - autoretrato
Tarsila do Amaral – auto-retrato
Nascida em Capivari, São Paulo, em 1886, a pintora e desenhista Tarsila do Amaral inicia-se nas artes em 1902, período em que freqüenta o colégio Sacré Couer de Barcelona. Na escola copia imagens religiosas. Em 1904, regressa ao Brasil. Pouco tempo depois se casa com André Teixeira Pinto, com quem tem sua única filha, Dulce. O casamento não dura muito. Contra a vontade da família, Tarsila se separa. Em 1913, muda-se para São Paulo. Aprende piano, copia pinturas e acompanha algumas discussões literárias, sem saber direito a que se dedicaria. O contato com as artes se estreita a partir de 1916, quando passa a trabalhar no ateliê do escultor William Zadig (1884-1952), com quem aprende a modelar. No mesmo ano, tem aulas com o escultor Mantovani. Seu aprendizado continua no curso de desenho com Pedro Alexandrino (1856-1942). Aí conhece Anita Malfatti (1889-1964), já modernista, abrigada na turma do professor acadêmico. Posteriormente ela e alguns colegas do curso de Pedro Alexandrino fazem aulas de pintura com Georg Elpons (1865-1939), que lhes apresenta técnicas diferentes das acadêmicas, como a aplicação de cores puras, diretamente do tubo.
Estimulada pelo maestro Souza Lima, parte para Paris em 1920. Quer entrar em contato com a produção européia e aperfeiçoar-se. Ingressa primeiro na Académie Julian, depois tem aulas com Emile Renard (1850-1930). Nesse período, trava contato com a arte moderna. Vê o que Anita Malfatti já lhe havia contado. Conhece trabalhos de Pablo Picasso (1881-1973), Maurice Denis (1870-1943) e a produção dos dadaístas e futuristas. O interesse coincide com o fortalecimento do modernismo em São Paulo. De longe, Tarsila recebe curiosa a notícia dos progressos do grupo, na correspondência com Anita. Em abril de 1922, dois meses depois da Semana de Arte Moderna, volta ao Brasil para “descobrir o modernismo”.1 Conhece Mário de Andrade (1893-1945), Oswald de Andrade (1890-1954) e Menotti del Picchia (1892-1988). Com eles e Anita, funda o Grupo dos Cinco. O aprendizado europeu será digerido aqui, no contato com o grupo. A artista pinta com cores mais ousadas e pinceladas mais marcadas. Faz retratos de Mário de Andrade e Oswald de Andrade com cores expressionistas e gestualidade marcada.
 Retrato de Tarsila, de Anita Malfatti (Acevo MASP SP)
Retrato de Tarsila, por Anita Malfatti (Acevo MASP SP)
Em 1923 volta a Paris e passa a viver com Oswald de Andrade. Retoma as aulas, mas em outras bases: distância-se da educação convencional, acadêmica. Quer estudar as técnicas modernas. Nesse ano, se torna aluna de André Lhote (1885-1962). Com ele, suas formas se regularizam. Na mesma época, entra em contato com os grandes nomes do modernismo parisiense, como o poeta Blaise Cendrars (1887-1961), que a apresenta a Constantin Brancusi (1876-1957), Vollard, Jean Cocteau (1889-1963), Erik Satie e Fernand Léger (1881-1955). Chega a freqüentar o ateliê deste pintor cubista. Tem aulas também com Albert Gleizes (1881 – 1953). A convivência com os mestres vai influenciá-la profundamente. Nesse período faz uma pintura de inspiração cubista,2 no entanto, interessa-se, cada vez mais pela figuração tipicamente brasileira, de temas nacionais, como em A Negra (1923) e A Caipirinha (1923).
Retorna para o Brasil com interesse voltado para as coisas daqui. Viaja para conhecer o carnaval carioca e as cidades históricas de Minas Gerais. Tarsila utiliza as técnicas aprendidas no exterior para figurar coisas de sua terra. A abordagem geométrica da iconografia brasileira vai originar a pintura Pau-Brasil em 1924. Sérgio Milliet (1898-1966) descreve esses trabalhos como “a captação sintética de uma realidade brasileira sentimental e ingênua, de que haviam se envergonhado antes os artistas do nosso país”.3 Em sua primeira individual, em 1926, na Galerie Percier, em Paris, a artista mostra esses trabalhos.
Em 1928, ela presenteia Oswald de Andrade com o quadro Abaporu (1928) A pintura estimula o escritor a fundar o movimento antropofágico. Neste período, a geometria é abrandada. As formas crescem, tornam-se orgânicas e adquirem características fantásticas, oníricas. Telas como O Ovo [Urutu] (1928), O Sono (1928) e A Lua (1928), compostas de figuras selvagens e misteriosas, aproximam-na do surrealismo.
 Tarsila, por Lasar Segall
Tarsila do Amaral, por Lasar Segall
A partir da década de 1930, a vida de Tarsila modifica-se bastante. No primeiro ano da década separa-se de Oswald. Na mesma época, ocupa, por um curto período, a direção da Pinacoteca do Estado de São Paulo (Pesp). Viaja para a União Soviética no ano seguinte e expõe em Moscou. A partir de 1933, seu trabalho ganha uma aparência mais realista. Influenciada pela mobilização socialista, pinta quadros como Operários (1933) e 2ª Classe (1933), preocupados com as mazelas sociais.
Em 1935, muda-se para o Rio de Janeiro. Sua vida é atribulada. A artista tem uma situação doméstica confusa, repleta de afazeres e afasta-se da pintura. Ocupa-se da disputa de posse de sua fazenda e trabalha muito como ilustradora e colunista na imprensa. A partir de 1936 colabora regularmente como cronista no Diário de São Paulo, função que ocupará até os anos de 1950. Nessa época, seus quadros ganham um modelado geométrico. As cores perdem a homogeneidade e tornam-se mais porosas e misturadas. Em 1938, recupera a propriedade, retorna à São Paulo e sua produção volta à regularidade. Reaproxima-se de questões que animaram o período heróico do modernismo brasileiro. A partir da segunda metade dos anos de 1940, as inquietações do período pau-brasil e da antropofagia são reformuladas, os temas rurais voltam de maneira simples. Em algumas telas, como Praia (1947) e Primavera (1946), as figuras agigantadas evocam o período antropofágico, mas agora aparecem sob forma mais tradicional, com passagens tonais de cor e modelado mais clássico.
 Tarsila do amaral, 1924 auto retrato
Tarsila do Amaral – auto-retrato I , 1924
Acervo Artístico-Cultural dos Palácios do Governo do Estado de S. Paulo.
Palácio Boa Vista (Campos do Jordão, SP)

Em 1950, é feita a primeira retrospectiva de seu trabalho, no Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM/SP). A exposição dá mais prestígio à artista, nela as pinturas da fase “neo pau-brasil” são mostradas pela primeira vez. O retorno a temas nacionais anima Tarsila a pintar dois murais de forte sentido patriótico. Em 1954, termina Procissão do Santíssimo , encomendado para as comemorações do IV Centenário da Cidade de São Paulo. Dois anos depois, entrega O Batizado de Macunaíma, para a Editora Martins. Em 1969, a crítica de arte Aracy Amaral organiza duas importantes retrospectivas do trabalho de Tarsila. Uma no Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo (MAC/USP) e outra no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM/RJ). As mostras consolidam sua importância para a arte brasileira. Tarsila falece em São Paulo em 1973.

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Notas
(1) AMARAL, Aracy. Tarsila: sua obra e seu tempo. 3. ed. rev. ampl. São Paulo: Edusp: Editora 34, 2003. p.70.
(2) Em 1924, ao retornar ao Brasil, Tarsila responde afirmativamente à pergunta: “A Senhora é cubista? “. Cf. AMARAL, Aracy. op. cit. p. 141.
(3) MILLIET, Sérgio. Uma exposição retrospectiva. In: AMARAL, Aracy. op. cit. p. 454- 457.
Fonte: Enciclopédia de Artes Visuais/Itaú Cultural

 abaporu-tarsila-do-amaral
Abaporu, de Tarsila do Amaral, 1928
(Acervo Fundación Costantini)


“Sou muito devota do Menino Jesus de Praga, porque alcancei muitas graças com as orações a ele. É uma novena milagre, eu sei tudo de cor: ‘Oh Jesus que dissestes: Pedi e recebereis, procurai e achareis, batei e a porta se abrirá´.”

– Tarsila do Amaral, em entrevista a “Revista Veja”, fevereiro de 1972.

Antonio Cândido indica 10 livros para conhecer o Brasil – por antonio candido.*

Antonio Cândido indica 10 livros para conhecer o Brasil

13.05.17_Antonio Candido_10 livros para conhecer o Brasil

Quando nos pedem para indicar um número muito limitado de livros importantes para conhecer o Brasil, oscilamos entre dois extremos possíveis: de um lado, tentar uma lista dos melhores, os que no consenso geral se situam acima dos demais; de outro lado, indicar os que nos agradam e, por isso, dependem sobretudo do nosso arbítrio e das nossas limitações. Ficarei mais perto da segunda hipótese.

Como sabemos, o efeito de um livro sobre nós, mesmo no que se refere à simples informação, depende de muita coisa além do valor que ele possa ter. Depende do momento da vida em que o lemos, do grau do nosso conhecimento, da finalidade que temos pela frente. Para quem pouco leu e pouco sabe, um compêndio de ginásio pode ser a fonte reveladora. Para quem sabe muito, um livro importante não passa de chuva no molhado. Além disso, há as afinidades profundas, que nos fazem afinar com certo autor (e portanto aproveitá-lo ao máximo) e não com outro, independente da valia de ambos.

Por isso, é sempre complicado propor listas reduzidas de leituras fundamentais. Na elaboração da que vou sugerir (a pedido) adotei um critério simples: já que é impossível enumerar todos os livros importantes no caso, e já que as avaliações variam muito, indicarei alguns que abordam pontos a meu ver fundamentais, segundo o meu limitado ângulo de visão. Imagino que esses pontos fundamentais correspondem à curiosidade de um jovem que pretende adquirir boa informação a fim de poder fazer reflexões pertinentes, mas sabendo que se trata de amostra e que, portanto, muita coisa boa fica de fora.

São fundamentais tópicos como os seguintes: os europeus que fundaram o Brasil; os povos que encontraram aqui; os escravos importados sobre os quais recaiu o peso maior do trabalho; o tipo de sociedade que se organizou nos séculos de formação; a natureza da independência que nos separou da metrópole; o funcionamento do regime estabelecido pela independência; o isolamento de muitas populações, geralmente mestiças; o funcionamento da oligarquia republicana; a natureza da burguesia que domina o país. É claro que estes tópicos não esgotam a matéria, e basta enunciar um deles para ver surgirem ao seu lado muitos outros. Mas penso que, tomados no conjunto, servem para dar uma ideia básica.

Entre parênteses: desobedeço o limite de dez obras que me foi proposto para incluir de contrabando mais uma, porque acho indispensável uma introdução geral, que não se concentre em nenhum dos tópicos enumerados acima, mas abranja em síntese todos eles, ou quase. E como introdução geral não vejo nenhum melhor do que O povo brasileiro (1995), de Darcy Ribeiro, livro trepidante, cheio de ideias originais, que esclarece num estilo movimentado e atraente o objetivo expresso no subtítulo: “A formação e o sentido do Brasil”.

Quanto à caracterização do português, parece-me adequado o clássico Raízes do Brasil (1936), de Sérgio Buarque de Holanda, análise inspirada e profunda do que se poderia chamar a natureza do brasileiro e da sociedade brasileira a partir da herança portuguesa, indo desde o traçado das cidades e a atitude em face do trabalho até a organização política e o modo de ser. Nele, temos um estudo de transfusão social e cultural, mostrando como o colonizador esteve presente em nosso destino e não esquecendo a transformação que fez do Brasil contemporâneo uma realidade não mais luso-brasileira, mas, como diz ele, “americana”.

Em relação às populações autóctones, ponho de lado qualquer clássico para indicar uma obra recente que me parece exemplar como concepção e execução:História dos índios do Brasil (1992), organizada por Manuela Carneiro da Cunha e redigida por numerosos especialistas, que nos iniciam no passado remoto por meio da arqueologia, discriminam os grupos linguísticos, mostram o índio ao longo da sua história e em nossos dias, resultando uma introdução sólida e abrangente.

Seria bom se houvesse obra semelhante sobre o negro, e espero que ela apareça quanto antes. Os estudos específicos sobre ele começaram pela etnografia e o folclore, o que é importante, mas limitado. Surgiram depois estudos de valor sobre a escravidão e seus vários aspectos, e só mais recentemente se vem destacando algo essencial: o estudo do negro como agente ativo do processo histórico, inclusive do ângulo da resistência e da rebeldia, ignorado quase sempre pela historiografia tradicional. Nesse tópico resisto à tentação de indicar o clássico O abolicionismo (1883), de Joaquim Nabuco, e deixo de lado alguns estudos contemporâneos, para ficar com a síntese penetrante e clara de Kátia de Queirós Mattoso, Ser escravo no Brasil (1982), publicado originariamente em francês. Feito para público estrangeiro, é uma excelente visão geral desprovida de aparato erudito, que começa pela raiz africana, passa à escravização e ao tráfico para terminar pelas reações do escravo, desde as tentativas de alforria até a fuga e a rebelião. Naturalmente valeria a pena acrescentar estudos mais especializados, como A escravidão africana no Brasil (1949), de Maurício Goulart ou A integração do negro na sociedade de classes (1964), de Florestan Fernandes, que estuda em profundidade a exclusão social e econômica do antigo escravo depois da Abolição, o que constitui um dos maiores dramas da história brasileira e um fator permanente de desequilíbrio em nossa sociedade.

Esses três elementos formadores (português, índio, negro) aparecem inter-relacionados em obras que abordam o tópico seguinte, isto é, quais foram as características da sociedade que eles constituíram no Brasil, sob a liderança absoluta do português. A primeira que indicarei é Casa grande e senzala (1933), de Gilberto Freyre. O tempo passou (quase setenta anos), as críticas se acumularam, as pesquisas se renovaram e este livro continua vivíssimo, com os seus golpes de gênio e a sua escrita admirável – livre, sem vínculos acadêmicos, inspirada como a de um romance de alto voo. Verdadeiro acontecimento na história da cultura brasileira, ele veio revolucionar a visão predominante, completando a noção de raça (que vinha norteando até então os estudos sobre a nossa sociedade) pela de cultura; mostrando o papel do negro no tecido mais íntimo da vida familiar e do caráter do brasileiro; dissecando o relacionamento das três raças e dando ao fato da mestiçagem uma significação inédita. Cheio de pontos de vista originais, sugeriu entre outras coisas que o Brasil é uma espécie de prefiguração do mundo futuro, que será marcado pela fusão inevitável de raças e culturas.

Sobre o mesmo tópico (a sociedade colonial fundadora) é preciso ler tambémFormação do Brasil contemporâneo, Colônia (1942), de Caio Prado Júnior, que focaliza a realidade de um ângulo mais econômico do que cultural. É admirável, neste outro clássico, o estudo da expansão demográfica que foi configurando o perfil do território – estudo feito com percepção de geógrafo, que serve de base física para a análise das atividades econômicas (regidas pelo fornecimento de gêneros requeridos pela Europa), sobre as quais Caio Prado Júnior engasta a organização política e social, com articulação muito coerente, que privilegia a dimensão material.

Caracterizada a sociedade colonial, o tema imediato é a independência política, que leva a pensar em dois livros de Oliveira Lima: D. João VI no Brasil (1909) eO movimento da Independência (1922), sendo que o primeiro é das maiores obras da nossa historiografia. No entanto, prefiro indicar um outro, aparentemente fora do assunto: A América Latina, Males de origem (1905), de Manuel Bonfim. Nele a independência é de fato o eixo, porque, depois de analisar a brutalidade das classes dominantes, parasitas do trabalho escravo, mostra como elas promoveram a separação política para conservar as coisas como eram e prolongar o seu domínio. Daí (é a maior contribuição do livro) decorre o conservadorismo, marca da política e do pensamento brasileiro, que se multiplica insidiosamente de várias formas e impede a marcha da justiça social. Manuel Bonfim não tinha a envergadura de Oliveira Lima, monarquista e conservador, mas tinha pendores socialistas que lhe permitiram desmascarar o panorama da desigualdade e da opressão no Brasil (e em toda a América Latina).

Instalada a monarquia pelos conservadores, desdobra-se o período imperial, que faz pensar no grande clássico de Joaquim Nabuco: Um estadista do Império(1897). No entanto, este livro gira demais em torno de um só personagem, o pai do autor, de maneira que prefiro indicar outro que tem inclusive a vantagem de traçar o caminho que levou à mudança de regime: Do Império à República(1972), de Sérgio Buarque de Holanda, volume que faz parte da História geral da civilização brasileira, dirigida por ele. Abrangendo a fase 1868-1889, expõe o funcionamento da administração e da vida política, com os dilemas do poder e a natureza peculiar do parlamentarismo brasileiro, regido pela figura-chave de Pedro II.

A seguir, abre-se ante o leitor o período republicano, que tem sido estudado sob diversos aspectos, tornando mais difícil a escolha restrita. Mas penso que três livros são importantes no caso, inclusive como ponto de partida para alargar as leituras.

Um tópico de grande relevo é o isolamento geográfico e cultural que segregava boa parte das populações sertanejas, separando-as da civilização urbana ao ponto de se poder falar em “dois Brasis”, quase alheios um ao outro. As consequências podiam ser dramáticas, traduzindo-se em exclusão econômico-social, com agravamento da miséria, podendo gerar a violência e o conflito. O estudo dessa situação lamentável foi feito a propósito do extermínio do arraial de Canudos por Euclides da Cunha n’Os sertões (1902), livro que se impôs desde a publicação e revelou ao homem das cidades um Brasil desconhecido, que Euclides tornou presente à consciência do leitor graças à ênfase do seu estilo e à imaginação ardente com que acentuou os traços da realidade, lendo-a, por assim dizer, na craveira da tragédia. Misturando observação e indignação social, ele deu um exemplo duradouro de estudo que não evita as avaliações morais e abre caminho para as reivindicações políticas.

Da Proclamação da República até 1930 nas zonas adiantadas, e praticamente até hoje em algumas mais distantes, reinou a oligarquia dos proprietários rurais, assentada sobre a manipulação da política municipal de acordo com as diretrizes de um governo feito para atender aos seus interesses. A velha hipertrofia da ordem privada, de origem colonial, pesava sobre a esfera do interesse coletivo, definindo uma sociedade de privilégio e favor que tinha expressão nítida na atuação dos chefes políticos locais, os “coronéis”. Um livro que se recomenda por estudar esse estado de coisas (inclusive analisando o lado positivo da atuação dos líderes municipais, à luz do que era possível no estado do país) éCoronelismo, enxada e voto (1949), de Vitor Nunes Leal, análise e interpretação muito segura dos mecanismos políticos da chamada República Velha (1889-1930).

O último tópico é decisivo para nós, hoje em dia, porque se refere à modernização do Brasil, mediante a transferência de liderança da oligarquia de base rural para a burguesia de base industrial, o que corresponde à industrialização e tem como eixo a Revolução de 1930. A partir desta viu-se o operariado assumir a iniciativa política em ritmo cada vez mais intenso (embora tutelado em grande parte pelo governo) e o empresário vir a primeiro plano, mas de modo especial, porque a sua ação se misturou à mentalidade e às práticas da oligarquia. A bibliografia a respeito é vasta e engloba o problema do populismo como mecanismo de ajustamento entre arcaísmo e modernidade. Mas já que é preciso fazer uma escolha, opto pelo livro fundamental de Florestan Fernandes,A revolução burguesa no Brasil (1974). É uma obra de escrita densa e raciocínio cerrado, construída sobre o cruzamento da dimensão histórica com os tipos sociais, para caracterizar uma nova modalidade de liderança econômica e política.

Chegando aqui, verifico que essas sugestões sofrem a limitação das minhas limitações. E verifico, sobretudo, a ausência grave de um tópico: o imigrante. De fato, dei atenção aos três elementos formadores (português, índio, negro), mas não mencionei esse grande elemento transformador, responsável em grande parte pela inflexão que Sérgio Buarque de Holanda denominou “americana” da nossa história contemporânea. Mas não conheço obra geral sobre o assunto, se é que existe, e não as há sobre todos os contingentes. Seria possível mencionar, quanto a dois deles, A aculturação dos alemães no Brasil (1946), de Emílio Willems; Italianos no Brasil (1959), de Franco Cenni, ou Do outro lado do Atlântico (1989), de Ângelo Trento – mas isso ultrapassaria o limite que me foi dado.

No fim de tudo, fica o remorso, não apenas por ter excluído entre os autores do passado Oliveira Viana, Alcântara Machado, Fernando de Azevedo, Nestor Duarte e outros, mas também por não ter podido mencionar gente mais nova, como Raimundo Faoro, Celso Furtado, Fernando Novais, José Murilo de Carvalho, Evaldo Cabral de Melo etc. etc. etc. etc.

* Artigo publicado na edição 41 da revista Teoria e Debate – em 30/09/2000

ECONOMIA BRASILEIRA: PARA ONDE VAMOS? – por paulo timm / torres.rs

A economia brasileira esteve, durante os últimos anos, na berlinda. Dois sucessivos Governos, o de FHC ( 2005/2002)  e  Lula ( 2003/2010) , não só retiraram o país do índex , pouco recomendado a investidores internacionais, como o transformaram no PAULO TIMMfruto cobiçado destes investidores. Mais do que isto: O Brasil virou moda. A tal ponto que brasileiros e brasileiras começaram a ser crescentemente escolhidos para “par perfeito”. Um romance, levado às telas, coroou o sucesso: “Comer, Rezar, Amar”. Um brasileiro madurão confirma as recomendações, fazendo a felicidade conjugal da bela peregrina….Uma propaganda do Governo não deixava por menos, mostrando um montanhoso gigante levantando-se com determinação e peso: “O presente chegou!”

Mas a vida vem  em ondas como o mar. E há tempo para tudo. Para a economia brasileira os tempos, agora, são outros: O PIB está muito baixo, a Inflação preocupa, os déficits de comércio exterior e do setor público disparam. Pior: o país se prostra, novamente, ao modelo primário-exportador, no qual somos inequivocamente mais produtivos do que os outros, malgré a precariedade da infraestrutura de escoamento da produção.   O alento fica por conta dos baixos níveis de desemprego. E o alívio, por conta dos altos índices – jamais vistos – de aceitação do Governo Dilma. Os petistas, seu principal suporte político, exultam, jogando as tensões para debaixo do tapete: “Todo mundo apóia Dilma!”

A inteligência do país, porém, que não se confunde nem com o Povão, nem com a Situação, se inquieta.  Não falo dos tradicionais e pouco recomendáveis comentaristas da Grande Mídia, escrita e televisiva,  convertidos, há muito, a militantes conservadores. Falo da “inteligência” que não outro compromisso senão com as próprias dúvidas.

As duas ou três últimas semanas estão assistindo a um intenso debate entre economistas ortoxos, conservadores, favoráveis à maior abertura do país como condição indispensável à sua sobrevivência num mundo crescentemente competitivo e economistas mais progressistas, ainda partidários de um modelo desenvolvimentista com forte presença nacional e apoio no mercado interno.

Edmar Bacha é um dos mais conceituados economistas neo-liberais do país. Sólida formação acadêmica nos Estados Unidos, carreira acadêmica irretocável, honesto.  Devo a ele o convite para ingressar na Universidade de Brasília, em 1973.  Quando estranhei que convidasse alguém com formação marxista, ele foi incisivo: – “Uma boa Universidade tem que gente com todo o tipo de formação. Os alunos que se decidam. Mas tem que ser bommm! “ Ele foi um dos Pais do Real( só não pode ser chamado de Pai porque se esqueceram de fazer exame de DNA…) e  defensor de uma integração competitiva do Brasil no processo de globalização. Acaba de divulgar um livro , seguido de inúmeras entrevistas na televisão. Para ele a globalização é inelutável. É um marco da organização econômica ao qual os países devem procurar um espaço. Se não o fizerem, anquilosar-se-ão em perfis industriais cada vez menos competitivos e inviáveis.   Bacha defende, então, um Novo Plano Real, agora para a reorganização industrial do país: Definir setores com potencialidade competitiva internacional, reorganizar as finanças públicas e abrir definitivamente a economia brasileira, tradicionalmente fechada em si mesmo, com baixíssimos coeficientes de abertura externa. Para tanto, diz ele, o câmbio tem que voltar a flutuar com mais desenvoltura, o que exigirá, claro! , gente confiável ao mercado. Bacha sintetiza o que deveria ser um Programa de Oposição à Política Econômica do PT.

Do ponto de vista do Governo, tem faltado fôlego não só para rebater as críticas de Bacha e outros economista liberais, como para reanimar uma econo mia virtualmente desfalida. Diz os provérbio que TODOS OS CRIMES TÊM CRIMES, ASSIM COMO OS HOMENS TÊM PECADOS, mas parece ser uma regra mundial também, que TODOS OS GOVERNOS EMBURRECEM, AFASTAM A INTELIGÊNCIA. O próprio PT era um Partido que tinha na sua formação um segmento expressivo da vida acadêmica do país. Mas,  lentamente, esses quadros foram se retirando. Primeiro do Governo, depois até mesmo do Partido. Hoje estão voltados `a reprodução de suas  idéias dentro das Universidades. Na área econômica Governamental, tirando a Dilma, grassa uma verdadeira mediocridade, começando pelo Ministro da Fazenda. Não há argumentos e contra-argumentos, apenas a repetição incansável de slogans e publicidade. O cavalo de batalha é o que o PT fez: incorporação ao mercado de cerca de 30 milhões de pessoas, num resultado combinado  – elogiável -de elevação do salário mínimo, transferências de renda e acesso ao crédito ao consumidor. Neste último item, o papagaio dos consignados já se transformou até em ave de rapina, tal a desenvoltura dos bancos no abuso deste instrumento. Eu mesmo tive que recorrer à Justiça que cancelar uma fraude que acarretou, sem meu consentimento na “renovação automática”de empréstimos anteriores. Indescritível…! Mas, à falta de grandes nomes na defesa do Governo, entram em campo, J.M. Belluzzo , do PMDB, mais sombriamente, Delfim Neto, dois dos melhores economistas do País. Ambos rebatem o argumento da   imperiosidade da integração competitiva no mercado global , mas insistem na necessidade de uma Política Industrial mais sólida. Todo os governistas estão de acordo que a tentativa de criar  “empresas campeãs”, via BNDES, foi insuficiente. Luciano Coutinho, Presidente do BNDES também concorda.

Assim, pois, arma-se o cenário que deverá ilustrar as próximas eleições presidenciais. De um lado, ao qual Aécio  tenderá a se incorporar,  associado ou não à Marina, apesar de nem entender o que está em jogo, haverá um claro discurso de retorno à Era FHC, com maior rigor fiscal, privatizações e abertura industrial. De outro, pontualizará Dilma, em defesa do que o PT já fez , num recurso ao que se denomina argumento de autoridade. Vai insistir: – Podemos fazer mais!”, mas não dirá exatamente como. Eduardo Campos, ainda vacilante, com pouca assessoria na área econômica, vai ziguezaguear, tentando conseguir apoio com descontentes de uma e outra corrente. Contará, entretanto, mais com seu carisma pessoal e juventude, do que com um sólido programa. Nisso Marina, hoje centrada em S.Paulo, com Pedro depois da crucificação, lhe é superior: Tentará erigir sua Igreja com gente de mais peso.

Deus , enfim, não joga dados. Nem os candidatos à Presidência em 2014. Todos estão de olho na economia. Com exceção da Dilma, torcem para que a economia piore um pouco até o fim do ano, de forma a erodir a popularidade da Presidenta e com isso, abrir uma janela de oportunidades para novos tempos.

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No Ceará, dona de cabaré processa igreja evangélica – por diógenes dantas / fortaleza.ce

Rafael Romão
A história da dona de cabaré que processou a igreja evangélica agitou a belíssima Aquiraz, no litoral cearense.

A história é saborosa e chegou a mim por intermédio de um amigo internauta: “No Ceará, dona de cabaré processa igreja evangélica”.

 

Em Aquiraz, no Ceará, Dona Tarcília Bezerra construiu uma expansão de seu cabaré, cujas atividades estavam em constante crescimento após a criação de seguro desemprego para pescadores e vários outros tipos de bolsas.

Em resposta, uma igreja evangélica local iniciou uma forte campanha para bloquear a expansão, com sessões de oração de manhã, à tarde e à noite.

O trabalho de ampliação e reforma progredia célere até uma semana antes da reinauguração, quando um raio atingiu o cabaré queimando as instalações elétricas e provocando um incêndio que destruiu o telhado e grande parte da construção.

Após a destruição do cabaré, o pastor e os crentes da igreja passaram a se gabar “do grande poder da oração”.

Então, Dona Tarcília processou a igreja, o pastor e toda congregação sob o argumento que eles “foram os responsáveis pelo fim de seu prédio e de seu negócio, utilizando-se da intervenção divina, direta ou indireta e das ações ou meios.”

Na contestação à ação judicial, a igreja, veementemente, negou toda e qualquer responsabilidade ou qualquer ligação com o fim do edifício.

O juiz, a quem o processo foi submetido, leu a reclamação da autora e a resposta dos réus e, na audiência de conciliação, comentou:

– Eu não sei como vou decidir este caso, mas uma coisa está patente nos autos: Temos aqui uma proprietária de cabaré que firmemente acredita no poder das orações e uma igreja inteira declarando que as orações não valem nada!

Marilena Chauí: Classe média é facista, violenta e ignorante / depoimento

“A classe média é uma abominação política, porque é fascista, é uma abominação ética porque é violenta, e é uma abominação cognitiva porque é ignorante. Fim”, afirmou a filósofa, durante lançamento do livro “10 anos de governos pós-neoliberais no Brasil: Lula e Dilma”; em seu discurso, ela também grita: “Eu odeio a classe média”; assista

marilena chaui

O ineditismo de medidas governamentais e seus resultados surpreendentes estão sendo analisados durante o lançamento do livro 10 anos de governos pós-neoliberais no Brasil: Lula e Dilma. O primeiro deles ocorreu no último dia 13, em São Paulo, e contou com presença de Lula, Emir Sader, Márcio Pochmann e Marilena Chauí.

Sem as sutilezas filosóficas das aulas emocionantes que costuma dar em eventos desse tipo, ela foi direto ao assunto. Chauí falou sobre o Bolsa Família para exemplificar a “revolução feminista” que vem ocorrendo no país, ao direcionar o recurso para a mulher, e depois o exemplo do ProUni, para explicitar o racismo que emergiu com força na sociedade, ao encher as salas de aula do ensino superior de pobres e negros.

Por fim, fez duras críticas à classe média: “a classe média é uma abominação política, porque é fascista, é uma abominação ética porque é violenta, e é uma abominação cognitiva porque é ignorante. Fim”, concluiu ovacionada.

MARX, FREUD e o MAIO DE 1968 por paulo timm / torres.rs

 Maio de 68 como a porta para a  Sacralização do indivíduo

 

Quando eu era menino,  maio era o Mês das Noivas. Naquele tempo, meados do século passado ( uma  remota antiguidade,  próxima a Ramsés, para os jovens de hoje ou, com melhor vontade, ao tempo em que os cristãos eram devorados por leões famintos no Coliseu) , o  Correio do Povo publicava visíveis anúncios sobre o “Enlace”. Com tal recurso, os noivos passavam a ter um pouco mais de intimidade. PAULO TIMMNada que ultrapassasse um beijo mais ardente com direito à algumas “pegadinhas”. Na verdade, começavam a ser tratados como… indivíduos. Com direito ao prazer…Lembro-me bem de tudo isso porque, “naquele tempo”, minha mãe recortava esses naúncios e me punha a campo para oferecer às famílias da noiva, o sonhado  “enxoval”, que ela preparava artesanalmente. Era ela uma das famosos “Pereiras”, de Santa Maria, célebres pelos bordados. Graças a isto, que  eu obrava meio constrangido, no duplo sentido da palavra, conheci todos os bairros de Porto Alegre. De bonde. Era o melhor do “trabalho”.

Mas há algum tempo a referência às Noivas, em maio,  cedeu lugar às reflexões sobre a Revolta de Paris. Esta começou no dia  2 de maio de 1968 e já produzia embates furiosos no dia 05, com centenas de presos. Daí  se espalharia com rapidez inusitada naquela primavera européia   por todas estações do Globo. O Brasil de 1968 assistiu  o mais “enragé” de todos os  enfrentamentos massivos  contra  a ditadura. O curioso é que aquela  Revolta, tanto lá, como cá,  não clamava por Pão e Terra, mas, principalmente por Liberdade, puxada por estudantes irados mas de feições tão tenras como suas mãos. Eles estavam cansados da cultura do “Mês das Noivas” e queriam livre trânsito nos dormitórios, nas suas casas, nas aulas, no vestir, no andar, no próprio ser,  onde quer que fosse.  “Havia um ar estranho: a revolução inesperada arrastara o adversário, tudo era permitido, a felicidade coletiva era desenfreada.”, segundo um observador, Antonio Negri. O grande filósofo, J.P. Sartre, também tomado de surpresa, dizia , meses depois, não ter compreendido tudo aquilo. Mas associou-se  com entusiasmo juvenil à revolta.”É proibido proibir” reverberava em cartazes  as aulas de Herbert Marcuse,   nos quatro cantos do mundo.

O maio de 68 em Paris durou pouco. Foi políticamente contido. A 30 de maio, o então Presidente De Gaulle convocou eleições para junho, paralelo à promessas de aumentos salarias salariais, desmobilizando os estudantes e docilizando o movimento operário, que a eles se associara. A crise foi controlada. E abriu lugar para a remodelação do “sistema”.

Na verdade, o Maio de 68 foi o vórtice do “Sonho”, que teve antecedentes e conseqüentes. “I have a dream, clamava o Pastor Luther King, à frente da gigantesca manifestação pelos Direitos Civis em Washington, pouco antes. John Lennon foi, entretanto,   um dos  melhores intérpretes daquela fase. Durou pouco. Ele –  a fase e o sonho. Já em 1971, ele sentenciava: “O sonho acabou”. Lennon morreria, vítima de atentado, no fatídico 08 de dezembro de 1980. A ressaca veio com os Governos Tatcher, o Reagonomics e o Consenso de Washington que inaugurariam a Era da Globalização, sob hegemonia exclusiva dos Estados Unidos, e uma verdadeira obsessão pelo indivíduo e seu corpo desejante.  A dura realidade comprovaria que a porta do Inferno estava mais próxima da entrada do Paraíso do que se poderia imaginar. Pior, sem tabuletas indicativas…

Uma das questões suscitadas pelo Movimento se refere à atualidade de Karl Marx, como principal analista crítico de um Modo de Produção estruturado sob a égide do “Capital”e sobre os caminhos do individualismo que viriam a ocupar não só a práxis do mundo contemporâneo, mas  as bases teóricas das Ciências Humanas e da Filosofia  que lhe correspondem.

Há muitos caminhos para discutir tais questões que desembocaram, depois das contorções das epistemologias do processo, da estrutura e da descontrução, na  Teoria da Pós Modernidade. Mas um deles é o da melhor  compreensão do indivíduo , já não mais como abstração iluminista de um sujeito eticamente constituído e capaz de legislar racionalmente sobre  um destino possível , mas como sujeito de prazer. Sacralizado. Trocando em miúdos, a utopia do melhor dos mundos para todos, um projeto coletivo, dado pela razão iluminista, que esteve na base da formulação marxista que empolgou os movimentos populares por décadas, vai cedendo lugar à construção diuturna de um mundo melhor na vida de cada um, a tal ponto de fundá-lo como Projeto.  No fundo, um pessimismo quanto às grandes narrativas de  salvação da humanidade, trocado no varejo pelo direito à  história de cada um : identidade – de gênero, de cor, de etnia, de sexo , de cultura – , base do multiculturalismo atual,  realização profissional , cultura do patrimônio corporal e acesso à sociedade dos objetos.

O individuo nunca teve tanta importância nas sociedades como nos dias de hoje.Entre os povos antigos, pouco valor se dava a pessoa única, a importância do indivíduo estava inserida no grupo que pertencia, apesar das diferenças naturais entre os indivíduos, não havia sequer hipótese de pensar em alguém desvinculado do seu grupo.

http://sociologiajoaogoulart.blogspot.com.br/2013/03/o-individuo-sua-historia-e-sociedade.html

Historicamente, a idéia do indivíduo, como tal, em carne , osso e alma   vinha sendo construída há tempos,  desde os gregos, mas acabou se consubstanciando depois do Maio de 68.

A invenção da alma imortal

Na Grécia, a idéia de alma só apareceu nas festas dionisíacas e celebrações órficas que davam aos participantes momentos de convivência divina no mundo sobrenatural.  Platão aproveita-se desta idéia e cria, sob os olhares críticos de Aristóteles, um conceito de alma como viríamos a conhecer, pela via do cristianismo, que dela se apoderou. Com este conceito o Homem abandona o mundo da natureza e se erige como uma substancia transcendental.

A descoberta do corpo

A  passagem da alma etérea identificadora do humano ao corpo desejante , no sendeiro da individuação foi percebido  muito recentemente. Um pioneiro foi Picco della Mirandola no seu “Discurso Elegantíssimo” no Renascimento italiano. A Revolução Francesa, em 1789,  o consagrou na consigna inscrita na Declaração dos Direitos do Homem que proclamou: Liberdade, Igualdade e Fraternidade. Mas foi Karl  Marx, no Manifesto Comunista, em 1848, abriu os olhos da humanidade para o direito aos corpos mutilados pela exploração capitalista a um mundo alternativo. Mas pensou-os coletivamente, como trabalhadores. Depois dele, Freud foi em busca de fatores orgânicos da alma, reconciliando-a com o corpo. Foi, junto com Marx, como diz um dos grandes filósofos do Século XX, Louis Althusser, os filhos  bastardos do iluminismo, porque capazes de levar a destruição criadora, que lhe é própria, mais a fundo. Ao ponto de ruptura. Outros autores,  mais modestos,   foram, entretanto,  mais adiante na descoberta do Humano  e descobriram, por trás dos trabalhadores, consumidores, cidadãos, ou subjetividades mergulhadas na escuridão  psíquica, todos social ou organicamente instituídos, uma unidade indissolúvel em processos: o indivíduo. Muitos  têm sido os analistas, mas relevam dois autores no Século XX: Norbert Elias (1897/1990), em A Sociedade dos Indivíduos, de 1939  e Luc Ferry (1951/), filsófo francês.

Mas se a Filosofia e a Teoria Social revelam a importância da Sociedade de Indivíduos na Terra dos Homens , os poetas sempre souberam que esse homem  desconhecido existia,. Sigmund Freud, cujo natalício se celebra nestes dias, como também o de Marx, o percebeu. Costumava dizer que em suas peregrinações pela alma humana, sempre encontrava as pegadas de um poeta que por lá já havia passado. Mas Freud teve o mérito de encontrar nesta alma, não a substância metafísica que, primordialmente, havia distinguido o humano do natural, recolocando-a , “naturalmente”, no centro mesmo da condição humana. Com isso , procurou instituir, na Psicanálise, uma Ciência do Homem, capaz de revelar as razões últimas de sua consciência, que esta própria razão desconhece. Talvez até, pela formação médica, tenha exagerado na identificação dos fatores orgânicos condicionantes  desta alma- psiquê, em prejuízo da educação e da cultura, fatores que serão corrigidos por Piaget , Lacan e Habermas oportunamente.

A emergência do indivíduo, portanto, não é apenas um elemento conjuntural da globalização. Ela  tanto está embutida , como possível,  numa sociedade de consumo massas, no Estado Moderno, como está inserida na histórica trajetória do projeto de autonomia humana numa conjuntura em que uma parte significativa, senão maioria da Sociedade, alcançou um nível de instrução, renda e consumo compatíveis com a partilha da sacralização do corpo. Isto, portanto, nada tem a  ver com alienação ou condição de homo sacer, muito embora se possa discutir criticamente o papel da  ideologia , no sentido  marxista, da industria cultural, no sentido da Escola de Frankfurt, e da cultura, no sentido antropológico na constituição de suas idéias e opiniões. Mas no atual estado do processo de comunicação galáctica, isto não tem nenhum caráter de fatalidade. Mas de uma avenida de possibilidades.

Paradoxalmente, o Maio de 68, com seu forte libelo destruidor de velhas barreiras à afirmação do individualismo, revelou-se , com o tempo, numa faca de dois gumes. Revolucionário no método de luta, acabou contribuindo para a entronização de um estilo de vida no mundo ocidental extremamente conservador. Resta  saber, se a liberdade exalada de um corpo agora liberto  será capaz de salvar a humanidade.E aí nada nos apóia, a não  ser uma grande esperança, dando uma reviravolta no espiralado Iluminismo que fundou a Modernidade. Já não é mais a razão a nos amparar no projeto de um mundo mais Justo, mas a própria idéia de Justiça que se converte num leitmotiv da mudança.Voltamos a ser utópicos, utópicos socialistas.

Brava gente, a brasileira – por elio gaspari / são paulo.sp

Brava gente, a brasileira

Atribui-se ao professor San Tiago Dantas (1911-1964) uma frase segundo a qual “a Índia tem uma grande elite e um povo de bosta, o Brasil tem um grande povo e uma elite de bosta”. Nas últimas semanas divulgaram-se duas estatísticas que ilustram o qualificativo que ele deu ao seu povo.

A primeira, revelada pelo repórter Demétrio Weber: Em uma década, o programa Bolsa ElioGaspari1Família beneficiou 50 milhões de brasileiros que vivem em 13,8 milhões de domicílios com renda inferior a R$ 140 mensais por pessoa. Nesse período, 1,69 milhão de famílias dispensaram espontaneamente o benefício de pelo menos R$ 31 mensais. Isso aconteceu porque passaram a ganhar mais, porque diminuiu o número da familiares, ou sabe-se lá por qual motivo. O fato é que de cada 100 famílias amparadas, 12 foram à prefeitura e informaram que não precisavam mais do dinheiro.

A ideia segundo a qual pobre quer moleza deriva de uma má opinião que se tem dele. É a demofobia. Quando o andar de cima vai ao BNDES pegar dinheiro a juros camaradas, estimulará o progresso. Quando o de baixo vai ao varejão comprar forno de micro-ondas a juros de mercado, estimulará a inadimplência.

Há fraudes no Bolsa Família? Sem dúvida, mas 12% de devoluções voluntárias de cheques da Viúva é um índice capaz de lustrar qualquer sociedade. Isso numa terra onde estima-se que a sonegação de impostos chegue a R$ 261 bilhões, ou 9% do PIB. O Bolsa Família custa R$ 21 bilhões, ou 0,49% do produto interno.

A segunda estatística foi revelada pela repórter Érica Fraga: Um estudo dos pesquisadores Fábio Waltenberg e Márcia de Carvalho, da Universidade Federal Fluminense, mostrou que num universo de 168 mil alunos que concluíram treze cursos em 2008, as notas dos jovens beneficiados pela política de cotas ficaram, na média, 10% abaixo daquelas obtidas pelos não cotistas. Ou seja, o não cotista terminou o curso com 6 e o outro, com 5,4. Atire a primeira pedra quem acha que seu filho fracassou porque foi aprovado com uma nota 10% inferior à da média da turma. Olhando-se para o desempenho de 2008 de todos os alunos de quatro cursos de engenharia de grandes universidades públicas, encontra-se uma variação de 8% entre a primeira e a quarta.

Para uma política demonizada como um fator de diluição do mérito no ensino universitário, esse resultado comprova seu êxito. Sobretudo porque dava-se de barato que muitos cotistas sequer conseguiriam se diplomar. Pior: abandonariam os cursos. Outra pesquisa apurou que a evasão dos cotistas é inferior à dos não cotistas. Segundo o MEC, nos números do desempenho de 2011, não existe diferença estatística na evasão e a distância do desempenho caiu para 3%. Nesse caso, um jovem diplomou-se com 6 e o outro, com 5,7, mas deixa pra lá.

As cotas estimulariam o ódio racial. Dez anos depois, ele continua onde sempre esteve. Assim como a abolição da escravatura levaria os negros ao ócio e ao vício, o Bolsa Família levaria os pobres à vadiagem e à dependência. Não aconteceu nem uma coisa nem outra.

Admita-se que a frase atribuída a San Tiago Diante é apócrifa. Em 1985, Tancredo Neves morreu sem fazer seu memorável discurso de posse. Vale lembrá-lo: “Nosso progresso político deveu-se mais à força reivindicadora dos homens do povo do que à consciência das elites. Elas, quase sempre, foram empurradas”.

Maus ventos

O comissariado petista conformou-se com a possibilidade de atravessar a campanha eleitoral de 2014 com mais um pibinho.

Nosso Guia

Em março passado, a doutora Dilma tomou um chá de cadeira de mais de uma hora em Durban, quando o presidente da África do Sul, Jacob Zuma, deixou-a esperando porque continuava reunido com o presidente russo Vladimir Putin. Com toda a razão, Dilma deixou a sala onde estava, no andar de cima, e voltou ao seu hotel.

Na quinta-feira, em Brasília, o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, deu-lhe outro chá de cadeira. Ela esperou por 1h40min pelo visitante, que estava reunido com Lula na embaixada da Venezuela.

Desta vez, a doutora esperou. Novamente, fez bem, pois era a dona da casa.

Nosso Guia não deveria submeter os outros a esse tipo de demonstração de poder.

A mão do Papa

O papa Francisco nomeou o monsenhor José Aparecido Gonçalves da Almeida, de 52 anos, bispo auxiliar de Brasília. O padre Cido, que saiu da periferia de São Paulo para a central jurídica da Cúria Romana, retorna com a bola cheia.

Ainda vai se ouvir falar dele.

Sucessão

Talvez não dê em nada, mas Eduardo Campos poderá beber na fonte que em 2002 produziu uma agenda para Ciro Gomes. Posteriormente ela foi apadrinhada por Antonio Palocci e acabou orientando os primeiros anos do governo de Lula.

Se isso acontecer, o comissariado petista ficará aprisionado na sua arrogante exaustão intelectual em áreas como saúde e educação.

Alckmin, a guilhotina e os ratos

“O povo não sabe de um décimo do que se passa contra ele. (…) Senão, ia faltar guilhotina para a Bastilha, para cortar a cabeça de tanta gente que explora esse sofrido povo brasileiro.”

Quem disse isso foi o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin. Noves fora o fato de a prisão da Bastilha ter sido derrubada em 1789, antes da instalação da guilhotina numa praça de Paris (1792), sua afirmação engrandece-o, até porque tem dez anos de sabedoria acumulada no cargo. Ele sabe. Deveria contar mais, mas pelo menos estimulou o debate.

Alckmin levantou o fantasma da guilhotina três dias depois de o professor João Sayad, ex-ministro do Planejamento, ex-diretor do Banco Interamericano do Desenvolvimento e atual presidente da TV Cultura, uma emissora do governo paulista, ter publicado o artigo intitulado “Taxonomia dos ratos”. Nele, Sayad propõe uma classificação dos larápios. Num grupo ficariam os roedores do “rouba mas faz” No outro, aqueles que mordem aos poucos, o tempo todo. É a turma da “corrupção pequena”. Ela “contrata parentes, compra papel higiênico superfaturado, orienta a criação de empresas de fachada para prestarem serviços, cria cooperativas para pagar funcionários terceirizados, faz acordo de ‘kick back’ com os fornecedores e, principalmente, avacalha, paralisa, lasseia e termina por matar a organização que administra.”

Alckmin poderia perguntar se ele falou em tese ou se, como presidente da TV Cultura, sabe de algo que o governador de São Paulo deveria saber. Como disse Sayad, para os ratos, “o segredo e a confidencialidade passam a ser as regras da organização”.

Por que os médicos cubanos assustam – por pedro porfirio

Por que os médicos cubanos assustam

Elite corporativista teme que mudança do foco no atendimento abale o nosso sistema mercantil de saúde

 

A virulenta reação do Conselho Federal de Medicina contra a vinda de 6 mil médicos cubanos para trabalhar em áreas absolutamente carentes do país é muito mais do que uma atitude corporativista: expõe o pavor que uma certa elite da classe médica tem diante dos êxitos inevitáveis do modelo adotado na ilha,  que prioriza a prevenção e a educação para a saúde, reduzindo não apenas os índices de enfermidades, mas sobretudo a necessidade de atendimento e os custos com a saúde.

Essa não é a primeira investida radical do CFM e da Associação Médica Brasileira contra a prática vitoriosa dos médicos cubanos entre nós. Em 2005, quando o governador  de Tocantins não conseguia médicos para a maioria dos seus pequenos e afastados municípios, recorreu a um convênio com Cuba e viu o quadro de saúde mudar rapidamente com a presença de apenas uma centena de profissionais daquele país.

A reação das entidades médicas de Tocantins, comprometidas com a baixa qualidade da medicina pública que favorece o atendimento privado, foi quase de desespero. Elas só descansaram quando obtiveram uma liminar de um juiz de primeira instância determinando em 2007 a imediata “expulsão” dos médicos cubanos.

No Brasil, o apego às grandes cidades

Dos 371.788 médicos brasileiros, 260.251 estão nas regiões Sul e Sudeste

Neste momento, o governo da presidenta Dilma Rousseff só  está cogitando de trazer os médicos cubanos, responsáveis pelos melhores índices de saúde do Continente, diante da impossibilidade de assegurar a presença de profissionais brasileiros em mais de um milhar de municípios, mesmo com a oferta de vencimentos bem superiores aos pagos nos grandes centros urbanos.

E isso não acontece por acaso. O próprio modelo de formação de profissionais de saúde, com quase 58% de escolas privadas, é voltado para um tipo de atendimento vinculado à indústria de equipamentos de alta tecnologia, aos laboratórios e às vantagens do regime híbrido, em que é possível conciliar plantões de 24 horas no sistema público com seus consultórios e clínicas particulares, alimentados pelos planos de saúde.

Mesmo com consultas e procedimentos pagos segundo a tabela da AMB, o volume de  clientes é programado para que possam atender no mínimo dez por turnos de cinco horas. O sistema é tão direcionado que na maioria das especialidades o segurado pode ter de esperar mais de dois meses por uma consulta.

Além disso, dependendo da especialidade e do caráter de cada médico, é possível auferir faturamentos paralelos em comissões pelo direcionamento dos exames pedidos como rotinas em cada consulta.

Sem compromisso em retribuir os cursos públicos

Há no Brasil uma grande “injustiça orçamentária”: a formação de médicos nas faculdades públicas, que custa muito dinheiro a todos os brasileiros, não presume nenhuma retribuição social, pelo menos enquanto  não se aprova o projeto do senador Cristóvam Buarque, que obriga os médicos recém-formados que tiveram seus cursos custeados com recursos públicos a exercerem a profissão, por dois anos, em municípios com menos de 30 mil habitantes ou em comunidades carentes de regiões metropolitanas.

Cruzando informações, podemos chegar a um custo de R$ 792.000,00 reais para o curso de um aluno de faculdades públicas de Medicina, sem incluir a residência. E se considerarmos o perfil de quem consegue passar em vestibulares que chegam a ter 185 candidatos por vaga (UNESP), vamos nos deparar com estudantes de classe média alta, isso onde não há cotas sociais.

Um levantamento do Ministério da Educação detectou que na medicina os estudantes que vieram de escolas particulares respondem por 88% das matrículas nas universidades bancadas pelo Estado. Na odontologia, eles são 80%.

Em faculdades públicas ou privadas, os quase 13 mil médicos formados anualmente no Brasil não estão nem preparados, nem motivados para atender às populações dos grotões. E não estão por que não se habituaram à rotina da medicina preventiva e não aprenderam como atender sem as parafernálias tecnológicas de que se tornaram dependentes.

Concentrados no Sudeste, Sul e grandes cidades

Números oficiais do próprio CFM indicam que 70% dos médicos brasileiros concentram-se nas regiões Sudeste e Sul do país. E em geral trabalham nas grandes cidades.  Boa parte da clientela dos hospitais municipais do Rio de Janeiro, por exemplo, é formada por pacientes de municípios do interior.

Segundo pesquisa encomendada pelo Conselho,  se a média nacional é de 1,95 médicos para cada mil habitantes, no Distrito Federal esse número chega a 4,02 médicos por mil habitantes, seguido pelos estados do Rio de Janeiro (3,57), São Paulo (2,58) e Rio Grande do Sul (2,31). No extremo oposto, porém, estados como Amapá, Pará e Maranhão registram menos de um médico para mil habitantes.

A pesquisa “Demografia Médica no Brasil” revela que há uma forte tendência de o médico fixar moradia na cidade onde fez graduação ou residência. As que abrigam escolas médicas também concentram maior número de serviços de saúde, públicos ou privados, o que significa mais oportunidade de trabalho. Isso explica, em parte, a concentração de médicos em capitais com mais faculdades de medicina. A cidade de São Paulo, por exemplo, contava, em 2011, com oito escolas médicas, 876 vagas – uma vaga para cada 12.836 habitantes – e uma taxa de 4,33 médicos por mil habitantes na capital.

Mesmo nas áreas de concentração de profissionais, no setor público, o paciente dispõe de quatro vezes menos médicos que no privado. Segundo dados da Agência Nacional de Saúde Suplementar, o número de usuários de planos de saúde hoje no Brasil é de 46.634.678 e o de postos de trabalho em estabelecimentos privados e consultórios particulares, 354.536.Já o número de habitantes que dependem exclusivamente do Sistema Único de Saúde (SUS) é de 144.098.016 pessoas, e o de postos ocupados por médicos nos estabelecimentos públicos, 281.481.

A falta de atendimento de saúde nos grotões é uma dos fatores de migração. Muitos camponeses preferem ir morar em condições mais precárias nas cidades, pois sabem que, bem ou mal, poderão recorrer a um atendimento em casos de emergência.

A solução dos médicos cubanos é mais transcendental pelas características do seu atendimento, que mudam o seu foco no sentido de evitar o aparecimento da doença.  Na Venezuela, os Centros de Diagnósticos Integrais espalhados nas periferias e grotões, que contam com 20 mil médicos cubanos, são responsáveis por uma melhoria radical  nos seus índices de saúde.

Cuba é reconhecida por seus êxitos na medicina e na biotecnologia

Em  sua nota ameaçadora, o CFM afirma claramente que confiar populações periféricas aos cuidados de médicos cubanos é submetê-las a profissionais não qualificados. E esbanja hipocrisia na defesa dos direitos daquelas pessoas.

Não é isso que consta dos números da Organização Mundial de Saúde.  Cuba, país submetido a um asfixiante bloqueio econômico, mostra que nesse quesito é um exemplo para o mundo e tem resultados melhores do que os do Brasil.

Quando esteve em Cuba, em 2003, a deputada Lilian Sá
foi conhecer com outros parlamentares o médico de família,
uma equipe residente no próprio conjunto habitacional

Graças à sua medicina preventiva, a ilha do Caribe tem a taxa de mortalidade infantil mais baixa da América e do Terceiro Mundo – 4,9 por mil (contra 60 por mil em 1959, quando do triunfo da revolução) – inferior à do Canadá e dos Estados Unidos. Da mesma forma, a expectativa de vida dos cubanos – 78,8 anos (contra 60 anos em 1959) – é comparável a das nações mais desenvolvidas.

Com um médico para cada 148 habitantes (78.622 no total) distribuídos por todos os seus rincões que registram 100% de cobertura, Cuba é, segundo a Organização Mundial de Saúde, a nação melhor dotada do mundo neste setor.

Segundo a New England Journal of Medicine, “o sistema de saúde cubano parece irreal. Há muitos médicos. Todo mundo tem um médico de família. Tudo é gratuito, totalmente gratuito. Apesar do fato de que Cuba dispõe de recursos limitados, seu sistema de saúde resolveu problemas que o nosso [dos EUA] não conseguiu resolver ainda. Cuba dispõe agora do dobro de médicos por habitante do que os EUA”.

O Brasil forma 13 mil médicos por ano em  200 faculdades: 116 privadas, 48 federais, 29 estaduais e 7 municipais. De 2000 a 2013, foram criadas 94 escolas médicas: 26 públicas e 68 particulares.

Formando médicos de 69 países

Estudantes estrangeiros na Escola Latino-Americana de Medicina

Em 2012, Cuba, com cerca de 13 milhões de habitantes, formou em suas 25 faculdades, inclusive uma voltada para estrangeiros, mais de 11 mil novos médicos: 5.315 cubanos e 5.694 de 69 países da América Latina, África, Ásia e inclusive dos Estados Unidos.

Atualmente, 24 mil estudantes de 116 países da América Latina, África, Ásia, Oceania e Estados Unidos (500 por turma) cursam uma faculdade de medicina gratuita em Cuba.

Entre a primeira turma de 2005 e 2010, 8.594 jovens doutores saíram da Escola Latino-Americana de Medicina. As formaturas de 2011 e 2012 foram excepcionais com cerca de oito mil graduados. No total, cerca de 15 mil médicos se formaram na Elam em 25 especialidades distintas.

Isso se reflete nos avanços em vários tipos de tratamento, inclusive em altos desafios, como vacinas para câncer do pulmão, hepatite B, cura do mal de Parkinson e da dengue.  Hoje, a indústria biotecnológica cubana tem registradas 1.200 patentes e comercializa produtos farmacêuticos e vacinas em mais de 50 países.

Presença de médicos cubanos no exterior

Desde 1963,  com o envio da primeira missão médica humanitária à Argélia, Cuba trabalha no atendimento de populações pobres no planeta. Nenhuma outra nação do mundo, nem mesmo as mais desenvolvidas, teceu semelhante rede de cooperação humanitária internacional. Desde o seu lançamento, cerca de 132 mil médicos e outros profissionais da saúde trabalharam voluntariamente em 102 países.

No total, os médicos cubanos trataram de 85 milhões de pessoas e salvaram 615 mil vidas. Atualmente, 31 mil colaboradores médicos oferecem seus serviços em 69 nações do Terceiro Mundo.

No âmbito da Alba (Aliança Bolivariana para os Povos da Nossa América), Cuba e Venezuela decidiram lançar em julho de 2004 uma ampla campanha humanitária continental com o nome de Operação Milagre, que consiste em operar gratuitamente latino-americanos pobres, vítimas de cataratas e outras doenças oftalmológicas, que não tenham possibilidade de pagar por uma operação que custa entre cinco e dez mil dólares. Esta missão humanitária se disseminou por outras regiões (África e Ásia). A Operação Milagre dispõe de 49 centros oftalmológicos em 15 países da América Central e do Caribe. Em 2011, mais de dois milhões de pessoas de 35 países recuperaram a plena visão.

Quando se insurge contra a vinda de médicos cubanos, com argumentos pueris, o CFM adota também uma atitude política suspeita: não quer que se desmascare a propaganda contra o  regime de Havana,  segundo a qual o sonho de todo cubano é fugir para o exterior. Os mais de 30 mil médicos espalhados pelo mundo permanecem fiéis aos compromissos sociais de quem teve todo o ensino pago pelo Estado, desde a pré-escola e de que, mais do que enriquecer, cumpre ao médico salvar vidas e prestar serviços humanitários.

Feira da bala: lobby pró-armas nos EUA junta Sarah Palin e pistola para crianças – por federico mastrogiovanni / Houston.usa

este é o absurdo máximo que se possa imaginar em se tratando de educação. é claro que é lá no campeão de invasões e terror nuclear. a ideia é acostumar as crianças a manipularem armas verdadeiras para estarem preparados, psicologicamente  quando forem convocados para mais uma invasão, ainda que isto custe milhares de jovens matando nas escolas, universidade, teatros e shoppings. é lamentável.

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Feira da bala: lobby pró-armas nos EUA junta Sarah Palin e pistola para crianças

Convenção da célebre NRA, a Associação Nacional do Rifle, reuniu milhares de portadores de armas no Texas

Uma jovem de cabelos claros segura um fuzil Beretta como se fosse uma guitarra. Está excitadíssima. Ela o aponta em direção a uma parede, que traz uma foto gigante de uma selva. Talvez imagine que ali estejam escondidos leões selvagens, tigres ou até mesmo perigosos terroristas. Nas mãos, uma Ruger 1022 roxa, “fun gun”, presente da mãe. Rose, que só tem 15 anos, posa para uma foto, enquanto finge que vai disparar. Um homem observa, rindo e orgulhoso, para em seguida dedicar o olhar ao próprio filho adolescente, que segura uma Uzi. Ele fala para o menino: “eu tinha prometido, ela agora é sua.”

Criança testa arma, acompanhada pela mãe, na convenção da NRA em Houston (Texas)/Federico Mastrogiovanni
Centenas de canos apontam simultaneamente para o teto no primeiro dia da 142ª edição da Convenção da Associação Nacional do Rifle (NRA na sigla em inglês), em Houston, Estado do Texas. Na semana passada, se respirava nos pavilhões um ar de festa, de feira popular, mas o que se via eram milhares de armas – e de aficionados por elas.

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Um sujeito explica como posicionar os pés para disparar contra um criminoso. “Sou um ex-militar”, diz, firme, empunhando sua Glock em frente a um pequeno e atento público. “E posso dizer que é fundamental manter a posição exata dos pés, pernas e costas”. A maioria, formada por jovens, o escuta fascinada. De fato, o ambiente na convenção da NRA é familiar, com pais e filhos – quase todos brancos – passeando pelos corredores do evento como se estivessem em um passeio de domingo.

Perto dali, Sandy segura um pequeno fuzil Rascal. Aponta para o teto, concentrada. Fecha um olho. Respira. Dispara. Recarrega. O trabuco é rosa, pequeno, parece um brinquedo. Tem a coronha de plástico, mas o cano é de metal preto. Sandy sorri. Aos quatro anos, ela e o pai, Eric, estão escolhendo seu primeiro fuzil. Faltam poucos meses para o aniversário e, consequentemente, para poder levar o “presente” para casa.

Eric conta que se sente contente por poder dar à filha um fuzil de tão boa qualidade, pagando apenas 180 dólares. Mas a menina não é um pouco pequena para ter uma arma? “Claro que não. Eu vou ensiná-la a usar. Estarei sempre presente. E, além disso, esses fuzis são feitos sob medida. Foram pensados para crianças. Parecem brinquedos, mas têm balas calibre 22”, explica Eric, em detalhes.

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Um fuzil exatamente como o de Sandy provocou uma tragédia em 30 de abril, no condado de Cumberland, Estado de Kentucky. No dia, um menino de cinco anos disparou por acidente na irmãzinha de dois, matando-a. A arma tinha sido dada de presente um ano antes. Eric continua: “É importante que seja eu quem a ensine a disparar. O que os estrangeiros não entendem é que não é através da proibição que se evitam as tragédias, e sim pela educação. É necessário ensinar as crianças a disparar com segurança e transmitir valores justos”.

No terceiro andar acontecem conferências e seminários. Em uma enorme sala, todos se preparam para ver o grande evento do dia, com as “estrelas” Rick Perry, governador do Texas, Rick Santorum, ex-candidato republicano e Sarah Palin, ex-governadora ultraconservadora do Alaska e destaque da campanha presidencial de 2008, quando saiu como vice de John McCain. Ela é aplaudida de pé. Após o frenesi, aos gritos, incentiva os donos de armas a seguir “lutando para defender os valores da América”.

Propaganda de armas para crianças:

“Nós também nos sensibilizamos com as tragédias. Quem de nós não sentiu tristeza ou raiva pelo que acontece na Chicago de Obama, ou em Nova York, ambas cidades nas mãos de criminosos, onde o controle de armas é mais rigoroso”, questiona a plateia. De acordo com a ex-governadora “de aço”, Obama “faz campanha eleitoral em cima dos sentimentos do povo, utiliza a dor para que as pessoas se comovam”, enquanto os portadores de armas são os verdadeiros heróis nacionais, defensores mais valentes da democracia, e, obviamente, da liberdade. Aplausos. Lágrimas.

Em telões gigantes, começa a ser transmitido um vídeo comovente sobre a vida heroica de Chris Kyle, famoso por ser o franco-atirador mais letal da história militar dos Estados Unidos, com 160 mortes nas costas. Em fevereiro do ano passado, um amigo que sofria de estresse pós-traumático o matou em um polígono de tiro no Texas. Chorando, a viúva de Chris, que segura fotos do falecido marido, exalta o papel da NRA, do exército norte-americano, das armas em sua vida e na do marido.

De volta à área da exposição, uma senhora testa uma pistola. Christine se diz indecisa. A Ruger LC380 automática, uma indicação da amiga, Brenda, é difícil de ser carregada. As mãos ossudas da já avó não permitem deslizar o slide. Christine afirma que se sente insegura em sua casa em Woodlands, no norte de Houston. O vendedor a aconselha a usar uma point and shoot, de tambor. Mais rápida, fácil de empunhar e de usar, ressalta. Ele conta que deu uma de presente à esposa porque ela tem mãos fortes. Christine é convencida a levar o produto. “Não vivemos em uma zona perigosa, pelo contrário. É muito tranquila”, responde Brenda. “Por isso é melhor estarmos protegidas”, continua. Chega ao fim o primeiro dia de convenção em Houston, que já dorme armada até os dentes. Assim como o resto dos EUA.

Como os bancos lucram com a fome do mundo – por mauro santayana / são paulo.sp

Como os bancos lucram com a fome do mundo

A insuspeita Fundação Gates divulgou interessante estudo sobre o controle dos preços dos alimentos pelos bancos, por intermédio dos fundos especulativos (hedge). Da mesma forma que os bancos atuam no mercado derivativo com asprimes do mercado imobiliário, fazem-mauro_santayanano com os estoques de alimentos, o que aumenta espantosamente os preços da comida, sem que os produtores se beneficiem. Um exemplo, citado pelo estudo, que tem o título sugestivo dePeople die from hunger while banks make a killing on food — as pessoas morrem de fome, enquanto os bancos se enriquecem de repente, especulando com os alimentos.

Como exemplo, o estudo cita o Fundo Armajaro, da Grã-Bretanha, que comprou 240 mil toneladas de cacau (7% da produção mundial) e as reteve até obter o maior preço da mercadoria nos últimos 33 anos. “Os preços do trigo, do milho e do arroz têm subido significativamente, mas isso nada tem a ver com os níveis de estoque ou das colheitas e, sim, com os traders, que controlam as informações e especulam no mercado”  conforme Olivier de Schutter, relator das Nações Unidas sobre o Direito à Alimentação.      Os neoliberais sempre usam o argumento canalha de que o único caminho rumo ao enriquecimento geral e à igualdade é a do mercado sem  nenhum controle do Estado, dentro da fórmula de Mme. Thatcher: o pobre que quiser viver melhor, que se vire.  A senhora Francine Mestrum, em seu estudo, contradiz a falácia: “Em primeiro lugar, a transferência direta de recursos, que Lula iniciou no Brasil, provou ser efetiva ajuda direta aos extremamente pobres para irem adiante, em busca de empregos; ou para criarem seu próprio emprego; para melhorarem os padrões de saúde e reduzir o trabalho infantil. Este é o principal argumento para o desenvolvimento desses sistemas, e o próprio Banco Mundial os endossa”.

Como sabemos, são vários os países em desenvolvimento que adotaram iniciativas semelhantes. Enquanto a Alemanha obriga os países europeus a cortarem até o osso seus orçamentos sociais  deixando como saldo  o aumento espantoso do número de suicídios ou das pessoas mortas por falta de assistência médica do Estado e, a cada dia, mais trabalhadores  obrigados a buscar, na lata de lixo, o que comer   os bancos continuam acumulando, e de forma criminosa, dinheiro e poder como nunca. O HSBC mundial, que ganhou do governo FHC o Banco Bamerindus, e que tem no Brasil o seu terceiro mercado mais lucrativo do mundo, teve que pagar quase 2 bilhões de dólares de multa, em acordo feito com o governo norte-americano, por ter, comprovadamente, lavado dinheiro do tráfico de drogas. Como se sabe, mesmo depois de ter pedido desculpas públicas pelo crime, o HSBC foi acusado, em março deste ano, de lavagem de dinheiro, evasão fiscal e remessa ilegal de recursos ao exterior pelas autoridades do governo argentino. Enquanto menos de um por cento dos seres humanos controlar, mediante sua riqueza, toda a população do mundo, a igualdade irá sendo empurrada cada vez mais para o futuro, e serão considerados nutridos os que ganharem cinco reais ao dia.

Em 1973, quando o Muro de Berlim ainda dividia o mundo em dois blocos econômicos e políticos, o então presidente do Banco Mundial, Robert McNamara, disse que todas as nações deviam esforçar-se para acabar com a pobreza absoluta  que só existia nos países subdesenvolvidos  antes do novo milênio. Naquele momento os países ocidentais ainda davam alguma importância à política de bem-estar social, não só como um alento à esperança de paz dos povos mas, também, como uma espécie de dique de contenção contra o avanço do socialismo nos países do Terceiro Mundo. A Guerra do Vietnã,  com seu resultado desastroso para os Estados Unidos, levou Washington a simular sua boa vontade para com os povos pobres. Daí o pronunciamento de McNamara.

O novo milênio não trouxe o fim  da miséria absoluta, embora tivesse havido sensível redução  mais em consequência do desenvolvimento tecnológico, com o aumento da produtividade de alimentos e bens de consumo primário, do que pela vontade política dos governos.

Na passagem do século, marcada pelo desabamento das Torres Gêmeas, o FMI, o Banco Mundial  e a própria ONU  reduziram suas expectativas, prevendo, para 2015, a redução da pobreza absoluta à metade dos índices registrados em  1990. Em termos gerais, essa meta foi atingida cinco anos antes, em 2010. A extrema pobreza, que atingia 41,7% da população mundial em 90, caiu para 22% em 2008  graças à fantástica contribuição da China e da Índia, conforme adverte Francine Mestrum, socióloga belga, em recente estudo sobre o tema.

Por outro lado, o número absoluto de pobres na África Negra dobrou no mesmo período. A China que, pelo número dos beneficiados, puxou o trem contra a desigualdade, já chegou a um ponto de saturação. Com o seu crescimento reduzido, como se espera, a China levará muitos decênios para baixar o número de seus pobres absolutos à metade.

Considera-se alguém absolutamente pobre quando tem a renda per capita inferior a US$ 1,25 por dia: mais ou menos R$ 2,50, ou seja, 75 reais ao mês. Esse critério é, no mínimo, cínico. É possível viver com esse dinheiro? Há quem possa: os trabalhadores das multinacionais nas tecelagens e confecções de Bangladesh e de outros países da Ásia do Sul não chegam a ganhar cinco reais ao dia.

O governo de Bangladesh, em seu portal, declara ser o país “de portas abertas“ (open door), com todas as garantias e vantagens legais aos investidores, principalmente nas zonas especiais de produção para exportação (Export processing zones). Em Bangladesh a privatização de empresas públicas chegou à perfeição, e a miséria dos trabalhadores, também  conforme a meta do neoliberalismo.

Só há uma saída para o impasse: a mobilização política dos cidadãos de cada país do mundo, em uma organização partidária e ideológica nítida em seus princípios e objetivos e em sua ação coerente, a fim de colocar coleiras nos banqueiros. E será sempre salutar ver um banqueiro na cadeia, como está ocorrendo, menos do que é necessário, nos Estados Unidos.

O ROUBO e a CORRUPÇÃO GLOBALIZADOS: “Após megavazamento, paraísos fiscais sofrem mais pressão” – por piero locatelli

Após megavazamento, paraísos fiscais sofrem mais pressão

Um mês após reportagens que mostraram o tamanho do problema, políticos dão sinais mais claros de que buscam uma solução
LuxemburgoLuxemburgo, um paraíso fiscal no meio da Europa, começou a tomar atitudes isoladas.

A rede de café norte-americana Starbucks possuía 735 unidades no Reino Unido em 2012. Nos três anos anteriores, lucrou 1,2 bilhão de libras (o equivalente a 3,75 bilhões de reais), mas não pagou impostos no país naquele período, de acordo com reportagem da agência Reuters. Evitar pagar impostos, sem ferir nenhuma legislação, é uma prática possível graças à existência de países com legislação fiscal frouxa e sem transparência, os chamados paraísos fiscais. Além de ocultar beneficiários de práticas ilícitas, eles servem como base de complicadas manobras fiscais. Gigantes como Google, Amazon e Apple, por exemplo, usam deste subterfúgio para evitar o pagamentos de impostos onde suas atividades ocorrem, ainda que de forma legal.

Há um mês, os paraísos fiscais ganharam uma atenção sem precedentes graças a um grande vazamento de dados sobre este tipo de operação. A  ICIJ, uma organização internacional de jornalistas, obteve mais de 2,5 milhões de documentos sobre mais de 120 mil empresas e produziu reportagem em parcerias com jornais como o britânico Guardian e o norte-americano The Washington Post. Entre outras descobertas, mostrou-se como autoridades de países como Rússia, Canada, Azerbaijão e Mongólia usavam os paraísos para esconder a posse de empresas que atuavam em seus próprios países. Os documentos também escancararam uma indústria na qual bancos e outros intermediários ofereciam pacotes de serviços tanto para práticas legais (como evitar o pagamento de impostos) quanto ilegais (como a lavagem de dinheiro).

Allison Christians, professora de tributação na McGill University, no Canadá, acredita que o vazamento fez o antigo problema ganhar uma atenção sem precedentes. “Há muitos anos, vários grupos de ativistas e ONGs vêm tentando chamar a atenção para essas questões. Eles têm mostrado como a evasão fiscal tem causado uma quebra nas receitas, que os governos estão apontando como razão para fazer cortes no estado de bem-estar social,” afirma Christians. Para a analista, o debate a respeito dos paraísos fiscais deve servir para as pessoas comuns, que têm dificuldade de pagar seus impostos, perceberem que as pessoas mais ricas da sociedade “não fazem isso de forma responsável”. “(O debate deve) fazer os cidadãos questionarem o que está acontecendo a sua volta e os políticos serem pressionados a agir.”

Novos esforços devem ser vistos com ceticismo

Com a exposição maior do problema, novos esforços começaram a surgir para solucioná-lo nos últimos 30 dias. O mais contundente deles foi um comunicado dos ministros da Fazenda e diretores do Banco Central do G20, no qual pediram a adoção de um sistema único e global de troca automática de informações bancárias. Atualmente, este tipo de informação só é compartilhada mediante pedidos dos países que conduzem investigações. Além disso, o investigador tem de saber qual informação está buscando exatamente para solicitá-la a outro país.

Com a proposta do G20, as transações de uma empresa que atua fora do seu país de origem seriam todas informadas ao país onde a empresa é sediada sem a necessidade de nenhum pedido, facilitando o trabalho de investigação e também centralizando informações que podem servir para diagnosticar melhor o problema. Os líderes dos países do G20 irão se reunir em junho, quando uma decisão mais clara pode ser tomada.

A Tax Justice Network, principal ONG ligada ao assunto, tem defendido a medida, mas pede que ela seja observada com cautela. “Todos os passos dados até agora são só isso: passos num longo caminho. Não podemos ser tão otimistas porque a troca de informações é uma atitude muito forte. Mas o comprometimento feito pelos ministros é uma grande mudança de filosofia. Eles basicamente disseram: o país que está escondendo o dinheiro de uma companhia não tem mais este direito,” disse o jornalista inglês Richard Dawkins, em depoimento a ONG.

Outras atitudes foram tomadas por países de forma isolada. François Hollande, presidente da França, ordenou que todos os bancos devem declarar as subsidiárias que possuem. Em Luxemburgo, um paraíso fiscal no meio da Europa, o governo anunciou que deve dar publicidade aos donos de companhias no país. Em novembro a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) também deve divulgar um índice do comprometimento de cada país no mundo com a transparência, para que eles possam sofrer mais pressão e possíveis sanções neste sentido.

Christians vê com bons olhos as reações da OCDE e do G-20, mas lamenta que as decisões estejam muito concentradas em países ricos. “Os países mais pobres foram ignorados até hoje na elaboração de políticas fiscais internacionalmente. Como resultado, eles não elaboram regras, mas só seguem regras que normalmente não funcionam em seu favor. Isso precisa mudar de alguma forma,” diz a especialista.

Documentário ‘Carne, osso’ relata o assustador trabalho nos frigoríficos

FILME PRODUZIDO PELA ONG REPÓRTER BRASIL PODE SER VISTO NO FESTIVAL É TUDO VERDADE, ABERTO EM SÃO PAULO E NO RIO DE JANEIRO

Documentário ‘Carne, osso’ relata o assustador trabalho nos frigoríficos

Linha de produção exige movimentos repetitivos que tem consequências drásticas para os trabalhadores (Foto: Divulgação)

São Paulo – Seis segundos para desossar uma peça de frango. Mais de três mil peças por hora em cada esteira. 18 movimentos a cada 15 segundos. Uma carga de trabalho três vezes superior à recomendada como limite. Três vezes mais chances de desenvolver transtornos mentais. O documentário Carne, osso revela que a cadeia produtiva da carne no Brasil é repleta de desrespeitos à legislação trabalhista e um cotidiano de sofrimento, depressão e riscos.

As primeiras imagens da produção da ONG Repórter Brasilsugerem que trabalhar em um frigorífico não é “apenas” chato e massante. A trilha sonora escolhida para demonstrá-lo, por sinal, cumpre perfeitamente o papel ao usar sons repetitivos em uma longa sequência.

Os primeiros depoimentos colhidos, por outro lado, mostram que ficar em uma esteira cortando pedaços de frango, boi ou porco é muito mais arriscado do que imagina quem recebe um bife no prato em um grande centro urbano. Jovens trabalhadores de baixa escolaridade das regiões Sul e Centro-Oeste do Brasil ficam expostos a condições de trabalho que são, no mínimo, assustadoras. Cortes profundos provocados pela lâmina afiada não são incomuns.

“Bota a faca no meio dos dedos dela para trabalhar”, disse um gerente de uma indústria do setor aos colegas de Valdirene, a uma funcionária de uma empresa de Forquilinha (SC), a 210 quilômetros da capital, já não conseguia mexer a mão. Ela relata que foram onze anos até chegar a esse ponto. Como não poderia correr o risco de perder o emprego, Valdirene aguentava a dor e precisava da ajuda diária do marido para esticar os dedos. Músculos e tendões atrofiaram-se pelos esforços repetitivos do trabalho de cortar frangos durante dez, doze, ou até catorze horas diárias.

Hoje sem o movimento das mãos, com menos de 40 anos de idade, ela se arrepende de ter “dado o sangue pela empresa” e lamenta ter se oposto à ação de um sindicato local que pedia melhores condições de trabalho. A vida profissional no setor é curta, revela o documentário. No geral, menos de dez anos de movimentos repetitivos diários são suficientes para acabar com a possibilidade de seguir atuando – nesta ou em qualquer área.

Carne, osso soa como um Tempos modernos da realidade dos frigoríficos que chega com boas credenciais ao festival de documentários É Tudo Verdade deste ano, aberto em São Paulo e no Rio de Janeiro. O filme de Charles Chaplin, de 1936, lançava mão de ironia e sarcasmo para denunciar as más condições do trabalho fabril no início do século XX. O documentário de Caio Cavechini e Carlos Juliano Barros é farto em tristes histórias sobre as condições do trabalho fabril no século XXI.

Assista a trechos do filme Carne, osso

Os funcionários do setor conhecem o médico local pelo nome de “Doutor Diclofenaco”, uma referência ao remédio receitado invariavelmente a quem se queixa de dor. “Precisava dormir com a mão amarrada na cama de tanta dor que sentia”, relata uma outra ex-trabalhadora do setor, igualmente impossibilitada de trabalhar.

O retrato apresentado no longa-metragem é de empresas que parecem não se importar com o cenário. Donas de uma fatia superior a US$ 10 bilhões na balança de exportações brasileira, são indicadas por diversos entrevistados como as grandes responsáveis pela maior parte das ações trabalhistas nas varas das regiões em que atuam – são 750 mil trabalhadores em toda a cadeia produtiva.

Um analista do mundo trabalhista lembra que a contribuição que, por mais impostos que paguem, essas corporações ficam devendo ao Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). Boa parte dos trabalhadores ingressa, cedo ou tarde, na lista de brasileiros obrigados a se afastar do trabalho, temporária ou permanentemente, dependentes da assistência previdenciária. “Qual o verdadeiro déficit da Previdência?”, indaga.

O documentário é rico em explicações sobre o porquê de um trabalho tão esgotante. “Quanto mais tu dava conta, mais queriam”, pontua uma ex-funcionária sobre as metas impostas pelos empregadores. “Tomar show” é o jargão do meio que explica que um trabalhador não deu conta dessa meta. Quando isso ocorre, ele recebe uma cota extra de atividades e muitas vezes vara a madrugada na esteira de corte.

Ir ao banheiro tampouco é uma tarefa simples: é necessário pedir autorização do encarregado de controlar a produção e, segundo os relatos, urinar mais de duas vezes ao dia resulta em uma séria advertência. Por tudo isso,Carne, osso não é fácil de digerir, mas se faz fundamental.

O TAC. De novo?! – por amilcar neves / ilha de santa catarina.sc

Os abris não têm sido benevolentes com o Teatro Álvaro de Carvalho, o nosso TAC. Nosso porque é um bem público, um patrimônio da Amilcar Nevessociedade – e uma bela edificação tombada, um dos poucos resquícios arquitetônicos do século XIX que sobraram na Ilha de Santa Catarina. O resto foi abaixo.

 

Em abril de 2007 o TAC estava na linha de tiro para ser privatizado. Não só o Teatro como a Biblioteca Pública do Estado e dois museus, todos administrados pelo governo estadual, que tem a obrigação legal de mantê-los e fazê-los funcionar. Dispunha de pessoal e orçamento para isso, mas o governador achava que a iniciativa privada tudo resolve melhor e mais eficientemente do que a administração pública. Na verdade, desejava fazer caixa com a venda do terreno da Biblioteca e com o repasse do prédio do Teatro.

 

Notável humorista e exímio nomenclador, Luiz Henrique da Silveira iniciava seu segundo mandato em 2007. Quatro anos antes, para o órgão estadual que “cuidaria” da Cultura deu o nome de Secretaria de Organização do Lazer (o lazer, então, andava que era uma esculhambação só), para a qual forjou a criativa sigla SOL, e propôs a extinção da Fundação Catarinense de Cultura. Não conseguiu matar a FCC e, em 2005, mudou o nome da pasta para Secretaria de Cultura, Turismo e Esporte, à qual atribuiu o mesmo SOL como sigla. Tudo a ver. Quando teve a brilhante ideia de suprimir das obrigações estaduais a Biblioteca, o Teatro e os museus (também não conseguiu matá-los, apesar de lutar bravamente cortando-lhes os repasses de verbas e não repondo o pessoal que saía), renomeou o órgão como Secretaria de Turismo, Cultura e Esporte, uma mudança fundamental refletida já na sigla que lhe conferiu: SOL.

 

A maior piada de LHS foi criar 36 secretarias regionais, idealizadas para abafar ou cooptar lideranças que surgissem em qualquer ponto do Estado, chamando-as “de desenvolvimento”. Outra, recente, foi publicar sexta-feira neste DC o artigo A Capela Sistina, a Torre Eiffel e a Ponta do Coral, onde afirma que a Ilha perderá seu “novo ícone” se continuar opondo-se à construção de um hotel privado, ao estilo Dubai, na Ponta do Coral; esqueceu que o ícone já existe, chama-se Ponte Hercílio Luz e, durante suas duas gestões, ele não a recuperou nem como ponte, nem como monumento. A Ponte só não caiu porque não quis.

 

Agora, neste novo abril, o TAC volta a ser ameaçado. Vazou, e a imprensa local tem publicado, que há um acerto costurado com o SESC para repassar-lhe o Teatro. Gente da SOL e gente da Fecomércio, a federação dos sindicatos patronais dos comerciantes, que administra o SESC, desconversa dizendo que ainda não se chegou aos detalhes operacionais do acordo. Apesar disso, confirma-se que a assinatura do repasse se dará no próximo dia 8 de maio. Onde? No próprio TAC, é claro, de carona em solenidade de lançamento de editais para a Cultura. Era para ser surpresa.

 

Fala-se desde um comodato de 45 anos até algum compartilhamento de pauta durante 100 ou 200 semanas. Pelo uso do bem público, a entidade do Comércio faria reformas necessárias no prédio. Como de hábito, aqui fora ninguém sabe de nada: nem o respeitável público, nem os nobres artistas.

 

Além de se alinhavar essas coisas a portas fechadas, o que é muito feio, o pior é que se ignora a existência de um Plano Estadual de Cultura em gestação (a despeito do governo atual), que deveria orientar esse tipo de iniciativa. Mas seria no mínimo ingenuidade acreditar, aqui, em planos e em Cultura.

NATUREZAS MORTAS – por jorge lescano / são paulo.sp

N A T U R E Z A S   M O R T A S

© Lescano

Com dezessete anos descobri a pintura surrealista e acreditei que o mundo tinha me dado todas as respostas de uma vez; o surrealismo era o fim de todas as incógnitas surgidas com o aparecimento do homem no planeta. Tal ilusão é perfeitamente compreensível num rapaz tão novo, sem experiência de vida e de artista.

Uma das soluções fáceis era apelar para o aspecto literário da obra visual, e isto se conseguia dando títulos paradoxais ou simplesmente obscuros.

Vem-me à mente o Nu esotérico, quadro nunca pintado pelo meu amigo, o artista colombiano Rodrigo Barrientos, que não era surrealista, mas gostava de brincar com as palavras associadas aleatoriamente às imagens virtuais.

Naquela época longínqua pintei uma mulher sentada numa cadeira em atitude de abandono, como se estivesse muito cansada e/ou angustiada, pois o rosto não era visível e as mãos descansavam lassas sobre as coxas. O resto do quadro – em tons de cinza, como correspondia ao tema – era um ambiente indefinido, sem móveis ou utensílios que permitissem identificá-lo. Poderia ser um quarto de hospital ou uma paisagem desolada, sem linha do horizonte. O título: Natureza morta.

Isto intrigou alguns amigos. Para eles a natureza morta era um gênero tradicional que apresentava a reunião de objetos inanimados. A minha obra era do gênero nu, alegavam. Tive então a oportunidade de exibir o meu recente conhecimento das teorias expostas por André Breton e companhia. Atividade cansativa, porém satisfatória para a vaidade do projeto de artista.

Anos mais tarde, curado da soberba do neófito, conheci a pintura expressionista e a obra de Edward Hopper.

Identifiquei no norte-americano algo do sentimento de minha obra juvenil. Suas mulheres solitárias enclausuradas em ambientes domésticos, em roupas de dormir ou nuas, sentadas, reclinadas, de pé, de frente ou de costas a janelas de luz crua, fazem-me pensar em naturezas mortas: seres de vida suspensa pelo pincel do artista. Algumas parecem esperar algo que as transforme, outras já nada esperam. Estas mulheres são a crônica de vidas frustradas em algo que nunca saberemos, mas que retorna toda vez que contemplamos o quadro. Este fascínio paradoxal se repete nas suas pinturas de casarões solitários em paisagens desoladas. Seus quadros param no limiar da revelação, como todas as grandes obras; exatamente o sentimento procurado pelo surrealismo. Sem a parafernália espalhafatosa de um Salvador Dali, estas obras não pretendem desvelar os mistérios da vida, mas os trazem a tona.

Stiglitz: a austeridade leva a Europa ao suicídio

Stiglitz: a austeridade leva a Europa ao suicídio

Em entrevista à Bloomberg, o prémio Nobel da Economia afirma que nunca houve um programa de austeridade que tivesse sucesso num grande país, e que a austeridade acrescentada às restrições do euro são uma combinação letal, que está a destruir o capital humano.

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ARTIGO | 28 ABRIL, 2013 – 11:57

Stiglitz: austeridade acrescentada às restrições do euro são uma combinação letal. Foto de Government of Thailand derivative work: LK , via Wikimedia Commons

O economista Joseph Stiglitz disse à agência de informação económica Bloomberg que a Europa está a caminhar para o suicídio devido às políticas de austeridade. “Nunca houve um programa de austeridade que tivesse sucesso num grande país”, afirmou.

Para o prémio Nobel da Economia, se a Grécia fosse a única parte da Europa a aplicar a austeridade, as autoridades poderiam ignorá-la. Mas se essa política abrange França, Reino Unido, e todos os países que estão a aplicar políticas de austeridade, as consequências económicas são terríveis.

Stiglitz é da opinião que a austeridade acrescentada às restrições do euro são uma combinação letal, que levará a altos níveis de desemprego politicamente inaceitáveis e que farão crescer os défices.

O exemplo da Espanha, com 50% de desemprego jovem, é uma demonstração que “o que se está a fazer é destruir o capital humano, criando uma juventude alienada”.

O economista defende a reorientação para o investimento público, utilizando plenamente instituições como o Banco de Investimento Europeu.


Lula no NYT desperta onda de inveja e preconceito – Brasil 247

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Rancor, ressentimento e o velho ódio de classes contra o retirante que se tornou operário, líder sindical, presidente e um dos estadistas mais reconhecidos no mundo voltaram a aflorar desde que Luiz Inácio Lula da Silva foi convidado a publicar uma coluna mensal no The New York Times. Augusto Nunes, em Veja, já havia dito que Lula não sabe redigir um “tanquiú”. Guilherme Fiúza, emÉpoca, agora afirma que os Estados Unidos decidiram “levar a sério o projeto de decadência do império”. Reconhecido pelo mundo inteiro e candidato seriíssimo ao Nobel da Paz, Lula deveria dizer apenas “sorry, periferia”.

Via Brasil 247

A trajetória de Luiz Inácio Lula da Silva é conhecida. Ex-retirante, tornou-se operário, líder sindical, presidente e, depois disso, aprovado pela grande maioria de seu povo, passou a ser também reconhecido internacionalmente. À esquerda, pelo historiador Eric Hobsbawn, que afirmou que Lula “ajudou a mudar o equilíbrio do mundo, ao trazer os países em desenvolvimento para o centro das coisas”. No mercado financeiro, por Jim O’Neill, da Goldman Sachs, que criou a palavra Brics (Brasil, Rússia, Índia e China) e o definiu como o maior estadista do mundo nas últimas décadas.

Lula, portanto, é um ativo valioso, que interessa a qualquer publicação no mundo. Além disso, com sua agenda internacional focada, sobretudo, na África, ele é hoje seriíssimo candidato ao Prêmio Nobel da Paz. Por isso mesmo, recebeu um convite para publicar uma coluna mensal no The New York Times, maior jornal do mundo, onde poderá defender suas causas e bandeiras. A história de superação de Lula, desprezada por analistas rancorosos e invejosos no Brasil, mas reconhecida até por seus adversários políticos, hoje inspira líderes do mundo inteiro.

Isso não significa, no entanto, que Lula está obrigado a redigir de próprio punho seus artigos. Como colunista, Lula, naturalmente, delegará a tarefa de produzir textos a algum escriba. É assim, sempre foi e sempre será no mundo inteiro. Políticos são homens de ação. Quando transplantam suas ideias para o papel, em geral, contam com auxílio profissional. Afinal, é para isso que existem jornalistas e ghost-writers. Tancredo Neves, por exemplo, que pronunciou alguns dos mais memoráveis discursos da história brasileira, delegava a tarefa ao jornalista Mauro Santayana. Bill Clinton e Barack Obama também têm ghost-writers.

No entanto, de Lula, cobra-se o que jamais foi cobrado de qualquer outro político brasileiro. Em Veja.com, Augusto Nunes classifica o ex-presidente como uma espécie de analfabeto, incapaz de pronunciar um “tanquiú”. Escriba de luxo de seus patrões, Nunes já se prestou a todo tipo de tarefa – entre elas, a de exaltar o “caçador de marajás” Fernando Collor, como está bem detalhado no livro Notícias do Planalto, de Mário Sérgio Conti, ex-diretor deVeja.

Estávamos, no 247, decididos a não comentar o texto de Nunes, uma das peças mais insignificantes já publicadas por algum de veículo de comunicação no Brasil. Mas não se trata, infelizmente, de um movimento isolado. No domingo, dia 28, em Época, Guilherme Fiúza, que se notabilizou por biografias de personagens como Bussunda e Reynaldo Giannechini, além do livro Meu nome não é Johnny, consegue descer ainda mais baixo do que seu concorrente em Veja.

Segundo ele, a coluna concedida a Lula é a prova de que “os norte-americanos estão levando a sério o projeto de decadência do império norte-americano”. Diz ele ainda que Lula se tornou para oNew York Times “um suvenir da pobreza, desses que a esquerda norte-americana ama”. Fiúza sugere que Lula escreva Rose’s storye diz que ele poderá “narrar as peripécias de Waldomiro, Valdebran, Gedimar, Vedoin, Bargas, Valério, Delúbio, Silvinho, Erenice, Rosemary e grande elenco”. Por último, pede a Dilma que proíba a Polícia Federal de ler sua coluna.

O que dizer de personagens como Augusto Nunes e Guilherme Fiúza? Nada, a não ser “sorry, periferia”.

 

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COMENTÁRIO no FACEBOOK:

 

Hélio Aroeira “À esquerda, pelo historiador Eric Hobsbawn, que afirmou que Lula “ajudou a mudar o equilíbrio do mundo, ao trazer os países em desenvolvimento para o centro das coisas”. No mercado financeiro, por Jim O’Neill, da Goldman Sachs, que criou a palavra Brics (Brasil, Rússia, Índia e China) e o definiu como o maior estadista do mundo nas últimas décadas.”

O Mundo vai mal, a Europa pior – por mário soares / lisboa.pt

A crise não é só financeira, é também económica, política, social, ética e ambiental. E se não for atalhada dará origem a um novo conflito

Para qualquer lado que nos voltemos, o Mundo vai mal. A ONU, que nos orientou na segunda metade do século XX, tem hoje uma participação menor. Não intervém em defesa dos Direitos Humanos – o caso da Síria é exemplar – e quase ninguém fala de ecologia. Poucos Estados se dão ao trabalho de pensar no Universo, apesar dos desastres que ocorrem serem cada vez mais graves e preocupantes. As grandes potências só se ocupam dos seus interesses imediatos e, cada vez, querem menos saber do aquecimento da Terra ou das preocupantes mudanças do clima e dos desastres ditos naturais que ocorrem por toda a parte. Recentemente tocou mais uma vez à China.

A ONU, ao que parece, desinteressou-se da ecologia. Os poucos grupos ecológicos que ainda existem, têm pouco apoio dos jornais internacionais, das televisões e das rádios. Parece ser uma temática que deixou de interessar aos atuais dirigentes políticos e que nada lhes interessa o que terão de sofrer os seus filhos e netos. Só o dinheiro – e não as pessoas – preocupa os dirigentes políticos na Europa, na América (dos republicanos) e nos outros continentes, com as honrosas exceções de duas figuras únicas, extraordinárias: Barack Obama e o Papa Francisco, que deixou a inquisição e adotou, ao que parece, o franciscanismo. Olha para os pobres com respeito, quer ajudá-los, visita-os e fala com os católicos mas também com os agnósticos, com os ateus e com os membros de outras religiões.

Mas se o Mundo vai mal, é seguro que a União Europeia (UE) vai pior. Porquê? Porque as duas famílias políticas que construíram a CEE e depois a UE – os socialistas, trabalhistas ou social-democratas e, por outro lado, os democratas-cristãos, partidários ambos de Estados sociais e da solidariedade e igualdade entre os Estados da União – foram substituídos por partidos cuja ideologia política é neoliberalismo e, por isso, são ultraconservadores, só pensam no dinheiro – e na sua importância – e ignoram as pessoas. Daí o empobrecimento dos Estados europeus, o crescimento em muitos deles do desemprego, da emigração, do suicídio e da criminalidade.

Na UE estamos a viver o que se chama uma nova ordem internacional, criada pelo neoliberalismo e pela globalização sem valores – dada a incapacidade dos dirigentes atuais, que só pensam no dinheiro que ganham – que estão a destruir os Estados Sociais e a pôr em causa a Democracia, tal como a pensámos e vivemos antes da crise. Tudo começou pela importância que a chanceler Merkel tomou, luterana, vinda do totalitarismo comunista depois da queda do muro de Berlim e que a pouco e pouco se tornou a figura dominante da União.

O primeiro país atingido foi a Grécia, berço da nossa civilização, graças à importância que os bancos alemães aí tinham. Depois foi a Irlanda, mais por razões financeiras que economicistas e sociais; depois foi Portugal, com um Governo, que dura quase há dois anos e é, em absoluto, subserviente a uma troika, que ninguém sabe bem donde veio e é comandada pelos mercados usurários. A seguir a Espanha que, até agora recusou uma troika, mas cujo regime económico e político está a ficar paralisado. E a Itália, um dos Estados fundadores, apesar de ter um Presidente excecional, o notável Giorgio Napolitano, que está a atingir o fim da carreira (mas foi eleito para novo mandato); e alguns outros Estados, como a Holanda, e mesmo – quem tal diria? – a própria França.

A crise europeia não está só a ser uma nova forma de totalitarismo, mais ou menos fascista. Vai a caminho de destruir a Democracia Europeia e a pôr em causa a existência do Estado Social, da União e do euro. Se não muda de paradigma – como ensina Barack Obama -, vai autodestruir-se e liquidar o euro, como a nossa moeda única (e ainda forte). A crise não é só financeira. É também económica, política, social, ética e ambiental. E se não for atalhada rapidamente – como espero – dará origem a um novo conflito internacional. Haja bom senso e evite-se uma tragédia

Ler mais: http://visao.sapo.pt/o-mundo-vai-mal-a-europa-pior=f725719#ixzz2S5Sn5PKD

AMIGO – de gilda e. kluppel / curitiba.pr

Amigo

 

A vida nos apresenta vários amigos

ou que chamamos de amigos

ou pensamos serem amigos

os meio amigos ou amigos da onça

alguns dedicados, outros fingidos

tantos incompreendidos, mal resolvidos

os amigos do coração e os amigos do alheio

os amigos da alma e os amigos da matéria

os amigos de si mesmos, fechados em seus egos inchados

os que dizem serem nossos amigos por mais de mil vezes

e junto deles não precisamos sequer de um inimigo.

Entre tantos, existe um sentimento sagrado

de irmão, próximo e semelhante

daquele que respeita as diferenças

sabe compreender e rir das nossas bobagens

sem nos acusar de ridículo, sem cobrar atos perfeitos

não necessitamos pedir licença para a nossa existência

diante das falhas e fraquezas recebemos a delicadeza

de quem nos acompanha em coisas importantes

ou sem nenhuma relevância ou até em extravagâncias.

O amigo não está nas relações efêmeras

vencedor e vencido, ilusor e iludido

porque não é para o consumo,

mero material descartável

para se depositar cargas pesadas

e abandonar o fardo em seus ombros.

Amigo não é plataforma para se lançar

é porto para se ancorar

não é consumido pelo tempo

para mais adiante ser esquecido

amigo não tem muita explicação

mas, pode ajudar a explicar muitas coisas.

Cabe num poema, vale uma oração

não precisa ser encantado

apenas proporcionar muitos sorrisos.

Quando saímos da presença de alguém

sentindo a alma mais leve

este é o nosso amigo, simplesmente o abrigo

esteja sempre comigo.