Arquivos Mensais: outubro \30\UTC 2009

EDITOR EM RECESSO ATÉ DIA 4/11/09

descansar um pouco faz bem para a saúde e para refletir sobre as melhorias do site. enquanto isso façam uma visita “curiosa” e passeiem pelas 2.108 matérias publicadas e 18 páginas (acima).

grande abraço e até lá,

JB VIDAL

PREGUIÇA - O BICHO

o editor dentro de alguns instantes.

A PRAIA LOTADA image

praia em Tóquio. você marcou algum encontro aí?

A QUEM É O MOTORISTA - PELA PLACA carro-01

a quem pertence este automóvel? quem seria o motorista?

A SOGRA - cartum_sogra_54

hehehehehehehehe! é só para rir! não tomem como sugestão!

AMOR ANIMAL - CACHORROS FILHOTES _42570

eles são maravilhosos!

AMOR ANIMAL - GIRAFAS 54886

amor entre girafas é looooooooooooooonnnngo!

Ampulheta

o tempo está passando e eu aqui, ainda. agora vou! tchau! abração à todos e bom feriadão!

UM ADEUS A SATURNO de josé dagostim / criciuma.sc


 

Vai saturno…

Até tenho saudade de tua paciência comigo

Escrevi a alma nos versos da

Carta natal.

Às vezes, não acertei o enredo,

Mas na canção de Florbela encontrei

Neruda.

No ciclone, encontrei a brisa.

No vulcão, encontrei Plutão.

No reinado, encontrei a utopia.

Vai, adeus saturno,

Espero-te na curva do destino.

 

José Dagostim

12/10/2009

 

* Ouvindo Marcos Assumpção cantando os versos de Florbela Espanca (Capricorniana) escrevi estes versos, como “forma” de oferenda ao deus (Cronos), Saturno regente de Capricórnio. Que depois de dois anos dá adeus ao signo de virgem. Agradecer aos deuses que habitam nosso interior é uma generosidade que devemos cultivar para que a flor exterior floresça e a poesia amanheça…

 

MIGUEL BAKUN: homenagem ao seu centenário / curitiba

bakun1[1]

Miguel Bakun era filho de Pedro Bakun – natural da cidade de Sokal – Ucrânia e Juliana Maksymowicz – natural da aldeia de Ripniv – Ucrânia.

O Embaixador da Ucrânia no Brasil Volodymyr Lakomov vira de Brasília a Curitiba para as solenidades organizadas em comemoração ao centenário de nascimento de Miguel Bakun.

No dia 27 de outubro, em razão das comemorações do centenário do artista paranaense Miguel Bakun (1909-2009), a Secretaria de Estado da Cultura, por meio da Coordenadoria do Sistema Estadual de Museus (COSEM), promove uma série de atividades para celebrar a vida e obra do artista. Neste dia, acontecem na Casa Andrade Muricy (Al. Dr. Muricy, 915 – Centro) o lançamento do Museu Virtual Miguel Bakun, apresentações de grupos folclóricos ucranianos, dos quais o artista descende, e a projeção de um filme sobre ao artista, de Sylvio Back.

Os eventos começam pela manhã, às 10h30, com uma solenidade póstuma no Cemitério Municipal de Curitiba (Praça Padre João Sotto Maior, s/n, São Francisco). Lá, o público poderá assistir a apresentação do Coral da Paróquia Ucraíno, uma missa em rito bizantino, além de visitar o túmulo de Bakun.

Na parte da tarde, às 16h, a Casa Andrade Muricy (Al. Dr. Muricy, 915, centro) irá realizar o lançamento do Museu Virtual Miguel Bakun, de vínculo com a rede do Sistema Estadua de Museus do Paraná. Durante o lançamento, o grupo folclórico ucraniano Poltava irá apresentar o espetáculo com banduristas, instrumento típico eslavo.

No final do dia, 18h, ainda na CAM, o público terá a oportunidade de assistir ao filme O Auto-Retrato de Bakun(1984), dirigido e produzido por Sylvio Back. Após a projeção, que terá a duração de 43 minutos, o cineasta irá participar de um bate-papo com a platéia. A produção foi contemplada com o prêmio Glauber Rocha de “Melhor Filme”, na XIII Jornada Brasileira de Curta-Metragem da Bahia.

Museu Virtual

Colocar as obras do artista na internet foi o caminho encontrado pela COSEM para divulgar e facilitar o acesso do público geral ao trabalho e legado artístico de Miguel Bakun. “Claro que não substituem um espaço museológico físico, mas complementam, apoiam a área da museologia por divulgar acervos e contribuir para o conhecimento”, explica Eliana Réboli, coordenadora da COSEM.

Os trabalhos que estarão em exposição na internet tiveram curadoria da equipe da própria COSEM, por intermédio de uma grande pesquisa bibliográfica em conjunto com grupos de estudos do Museu de Arte Contemporânea do Paraná (MAC). “O Museu será sempre alimentado com outras obras e dados sobre Bakun”, garante Eliana.

Miguel Bakun

Rosemeire Odahara, coordenadora de projetos especiais da SEEC, destaca a importância deste artista para as artes plásticas paranaenses, justamente por ele ser uma espécie de elo entre a 1ª geração de artistas paranaenses, de uma época conhecida como Paraná Tradicional, e artistas que dialogaram com o modernismo. “Poucos conseguiram transitar entre estes dois momentos da arte e manter sua própria identidade”, explica.

Nascido em 1909 em Mallet, no Paraná, filho de imigrantes eslavos, Bakun começa sua produção artística na década de 40, quando participa de uma ateliê coletivo ao lado de artistas como Alcy Xavier, Loio Pérsio, Marcel Leite, Esmeraldo Blasi e Nilo Previdi. Ao longo de sua carreira, Bakun participou de diversas mostras coletivas e individuais e recebeu diversos prêmios, dentre eles o Salão Paranense de Belas Artes.

SERVIÇO: Centenário do Nascimento de Miguel Bakun, dia 27 de outubro 2009.

Programação:

10h30 – Solenidade Póstuma

Visita ao túmulo do artista

Oferta de flores

Apresentação do Coral da Paróquia Ucraíno – Católica N.S. Auxiliadora

Cerimonia Ucraniana em rito bizantino

Placa em homenagem ao centenário de nascimento do artista

Local: Cemitério Municipal de Curitiba (Praça Padre João Sotto Maior,          s/n, São Francisco)

16h – Espaço Miguel Bakun

Apresentação Capela de Banduristas Fialka do Grupo Folclórico Poltava

Lançamento do Museu Virtual Miguel Bakun vinculado à rede dos Sistema Estadual  de Museus do Paraná (SEEC)

Local: Casa Andrade Muricy (Al. Dr. Muricy, 915 – Centro)

18h – Exibição do filme, O AUTO-RETRATO DE BAKUN (1984). Roteiro, direção e produção de Sylvio Back; participação do pintor, Nelson Padrella. Co-produção: Embrafilme, Secretaria de Estado da Cultura e Fundação Cultural de Curitiba. Prêmio “Glauber Rocha”, de “Melhor Filme” na XIII Jornada Brasileira de Curta-Metragem da Bahia. Duração: 43 min.; cor/PB. Após a projeção, conversa com o cineasta Sylvio Back. Local: Casa Andrade Muricy(Al. Dr. Muricy, 915 – Centro)

O CASO DOS GENERAIS por jorge lescano / são paulo

O cromo representa o general Beresford (William Carr, vizconde de, 1768-1854 – Nota do Compilador) comandante invencível, entregando o espadim em sinal de rendição. Está de perfil e à esquerda do espectador como corresponde a quem chega – na convenção de nossa escrita — : oferece a arma com as duas mãos. As mãos do outro militar estão espalmadas e juntas, formando uma bandeja digna de receber o símbolo de sua vitória. A farda do invasor é vermelha com textura de veludo (uniforme negro imperial, de escamas brilhantes, com uma única estrela de ouro e esmeraldas no peito, e botas altas de verniz, que contrastavam com a palidez do seu rosto.- Enrique Molina: Uma Sombra Onde Sonha Camila O’Gorman; Editora Guanabara; R.J.; 1986; páginas 76/77). A do seu adversário, de tecido mais leve, azul com alamares dourados e detalhes em branco. Também o branco e o dourado fazem parte da roupa de Beresford, vencido porém orgulhoso súdito de sua Majestade Britânica (Alto, delgado, calvo […] infeliz executor dos desígnios da coroa – E.M.) O outro, anônimo ou de nome esquecido nos bancos escolares, é súdito de Fernando VII, rei da Espanha (Don Santiago de Liniers y Bremond, militar  francês a serviço da Espanha, 1753-1810. Foi vice-rei, governador e chefe da esquadra, simultaneamente, nomeado pela Primeira Junta de Governo que o mandou fuzilar alguns meses mais tarde. Reempossado pelos historiadores, seu primeiro sobrenome   designa um bairro e sua estação ferroviária na capital do país. – N.C.). Ambos militares se encontram em continente estranho e longínquo das metrópoles. Determinou o acaso – que alguns chamam A História –, que estes homens saíssem da Europa e se confrontassem numa geografia neutra, embora o chão que pisam pertença, por direito de ocupação, a Espanha (superfície de terreno coberta por uma multidão desprezível, gauchos, negros e gente de pigmentação subversiva, incapazes de respeitar as bandeiras do mais poderoso império da terra – E.M.).

Sir Home Riggs Popham, almirante de uma esquadra de seis navios “e por iniciativa privada”, lançou-se à conquista do Rio da Prata em 1806. Acompanhavam os barcos tropas de infantaria – 1.635 soldados, “porque o objetivo da Grã Bretanha é a felicidade e prosperidade daqueles países” – comandados pelo general Beresford, que depois seria famoso na guerra da Independência espanhola, isto é, lutando contra os franceses.

Porque a sorte beneficia os audazes, o desembarque foi um sucesso, apenas alguns disparos ao acaso. Em 27 de junho,  as tropas desfilaram pelas ruas de Buenos Aires com bandeiras e tambores, surpreendendo seus habitantes. Em princípio, a esquadra tinha por objetivo Montevidéu, cidade de 15.000 habitantes, contra os 40.000 de Buenos Aires; notícias de uma forte remessa de ouro nesta última, modificaram o filantrópico programa. No forte da praça, residência do vice-rei, o brigadeiro Quintana  lhes entregou a cidade.

Em 12 de agosto daquele mesmo ano, don Santiago de Liniers y Bremond “reconquista” a cidade.  – N. do C.

O quadro original (óleo sobre tela) foi realizado em data incerta para glorificar o vencedor. Talvez por isso o britânico se inclina sutilmente e mantêm os olhos baixos (um olho coberto por um emplastro negro – E.M.); tal atitude permitiu ao artista aumentar a estatura do seu herói, sem que parecesse desproporcionado, ou impertinente seu gesto familiar, a mão  direita sobre o ombro esquerdo do vencido, como Spinola no quadro de Velázquez (Os dois rivais se confundiram num abraço. Uns gauchos próximos  propuseram degolar o general inglês. Liniers os conteve com um gesto. – E.M.).  As cores escolhidas para retratar as tropas em conflito são vistosas, mas deixam margem à dúvida. A farda azul e branca do militar da direita prefigura a bandeira pátria que, no entanto, seria criada mais de uma década depois deste encontro, durante a guerra de independência da Espanha e por um general improvisado.

Se o pintor optou por excluir da paleta o amarelo da bandeira espanhola, poderia ter apresentado o vencedor em farda verde, cor complementar do vermelho, e que contraposto a ele produz intensa vibração na retina. Este contraste cromático reiteraria visualmente as hostilidades cujo epílogo se ilustra. Foi um ato instintivo o que lhe sugeriu a escolha do azul, ou, pelo contrário, trata-se de um anacronismo deliberado? Não é impossível que por ignorância ou esquecimento, tenha pressuposto que estas sempre foram as cores nacionais. Contudo, se a pintura é contemporânea das Invasões Inglesas, conforme recentes pesquisas permitem suspeitar, poderia ter inspirado as cores da bandeira pátria. As opiniões de que as cores da tela teriam sido alteradas posteriormente, e de que o cromo não respeita a obra original (misteriosamente desaparecida) não merecem crédito.

O leitor tem o direito  de perguntar se este símbolo é uma homenagem ao vencedor  do cromo. Se  assim for,  todo o  exercício (vide box) poderia ser interpretado como um eco do primeiro  confronto, na versão de um pintor desconhecido e  onipresente.

As cores azul e vermelho percorreram todo o século XIX, desatando-amarrando nós de ódio na santa guerra fratricida que forjou a nacionalidade. Azuis e Vermelhos irmanados pelo sangue dos degolados. Duas cores com prerrogativas de Destino: nascia-se e já se pertencia a uma das facções, sem que, muitas vezes, se soubesse por quais delas se morria (N. do C.).

Passado mais de um século e meio daquela derrota britânica, nas manobras de treinamento do Exército Nacional, as duas facções em que era dividido adotavam os nomes das cores das tropas representadas no quadro. Tratava-se de uma identificação meramente verbal. Os soldados, para cumprir à risca o exercício, vestiam uniformes de campanha (calça e jaqueta cáqui, estampadas em sépia; capacete de papelão sanfonado por dentro, com incrustações de gravetos e folhas naturais tenras no exterior, coturnos ocre), com a função de se mimetizarem na vegetação onde realizavam as escaramuças. Prática esta assimilada dos exércitos de nações altamente civilizadas e com larga tradição bélica. Porém, as roupas de campanha igualavam as tropas. Assim, para que as manobras alcançassem o fim pretendido com qualidade, sem confusão entre soldados do mesmo país e com fardas semelhantes, os comandos tornaram obrigatório o uso de um bracelete (de cetim) com a cor respectiva à sua facção (azul no braço direito, vermelho no esquerdo). – Roldán Barros:  Primeiro Simpósio da Moda Militar; Curuzú Cuatiá, década de 1990.)

Por cento e setenta e cinco anos Beresford (mantinha sob o braço esquerdo um sabre curto, cuja língua bifendida aparecia intermitentemente pela ponta; na mão direita, preso por uma das pontas, empunhava um emplumado bicorne de oleado. – E.M.) capitulou no cromo. Depois do sacrifício de dois mil Rapazes Azuis, na frustrada invasão às ilhas ocupadas por súditos de Sua Majestade Britânica, é previsível que o General Vermelho, sem homenagens, brindes nem banquetes, receba o atributo da vitória postado na margem direita do vídeo. O Azul se inclina sutilmente para depositar em suas mãos em bandeja o espadim original, retirado sem cerimônias do Museu Nacional.

CONCEITOS de rosa de souza* / portugal / florianópolis


Olho este mundo virado ao revés.

Conceitos crueis Humanidade desmentindo.

Germinamos sem cabeça nem pés.

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Tanto sofrimento, lágrima e frustração,

ensinados somos na ilusão sem sentido.

Mágoa e dor glorificando sadismos sábios.

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Mulher coberta para homem não ser tentado.

Viúva de sexo ou companhia – unida a avelhentado.

Obrigada a ver pai em namorado.

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Ele escolhe. Ela procria resignada, vilipendiada.

Ele sacia, ela se envergonha – assexuada.

Ele escolhe pela idade. Ó calamidade…

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Cometas e girassóis seguem rotas,

o sol caminha ao encontro de outra estrela.

Homem sem objetivo come e arrota fazendo guerra.

.

Sem liberdade, negando a individualidade,

do púlpito gritam “o coletivo salva a alma”.

Para os seguirmos – sem sabedoria ou qualidade!

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Galáxias se cruzam além do firmamento…

O Homem vegeta sem discernimento.

Sobrevive em dogmas aumentando o tormento.

.

Evolução é lei universal. A única finalidade.

Sobreviver é instinto. Viver é direito.

Glória à mulher que nega antigo preceito.

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Mais ínfima que um grão de areia a Terra brilha,

entrelaçada em dimensões e paralelos.

Existência manchada por desdouro conceito.

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O bom, espontâneo e puro – condenado.

O ignóbil, torpe, desprezível – beatificado.

Grito chorando – daqui não sou, aqui não pertenço.

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* a escritora e poeta portuguesa rosa de souza tem sete livros editados nos estados unidos, onde morou por 30 anos, e no  brasil onde vive agora na ilha de santa catarina. prepara novos lançamentos para o próximo ano nos dois países.

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A AUTORA

A AUTORA

O ATEISMO DE SARAMAGO por hamilton alves / florianópolis

Nenhuma pessoa, por mais considerável seja seu cabedal de conhecimentos, cultura, etc., tem condições de afirmar, categoricamente (a não ser que seja muito leviana), que Deus não existe. Assim como, de outra parte, não se pode dizer o contrário. Nem uma nem outra das duas correntes têm suficiente cacife para dizê-lo com profundo conhecimento de causa. Deus continua sendo uma incógnita. Há sábios de nomeada, como Kierkegaard, Chesterton, Unamuno e tantos outros que são acirrados defensores da ideia de que Deus existe. Outros tomam partido contrário e são igualmente nomes notáveis da ciência.

José Saramago, escritor, Nobel de literatura, de vez em quando, molha a sua pena, que vai meio gasta a essa altura (nunca mais escreveu um livro que preste), para tomar partido contra a existência de Deus.

Que sabe um escritor desse assunto?

Será ele um filósofo de alguma escola famosa?

Será um teólogo de formação em alguma universidade ou doutourou-se nesse tema?

É apenas e tão somente um escritor.

Um escritor escreve livros.

Devia se limitar a essa função e não dar palpite sobre o que não conhece especificamente. Ou conhece pouco. Ou nada.

Numa entrevista que concedeu a um jornal, falando do lançamento de seu novo livro, que leva um título bem sugestivo, que deve envolver tema religioso – “Caim” – volta a repetir o que se sabe, sendo ateu de carteirinha – que “as religiões têm feito mais mal do que bem à humanidade e que, por isso, o mais sensato é acabar com elas”.

E remata, a certa altura, o Sr. Saramago:

“O cérebro humano é um grande criador de absurdos. E Deus é o maior deles”.

Seria de responder que o cérebro humano, sim, faz coisas capazes de inspirar um homem aparentemente tão certo do que diz que o levou ao comunismo, mesmo sabendo dos horrores que esse regime causou em todo mundo, especialmente na URSS, onde Stalin imperou longos anos, cometendo toda sorte de atrocidades, ao regime de Castro, com um cartel semelhante de truculências, vindo Saramago declarar-se há pouco contra medida de Fidel por ter assassinado três jovens, que numa balsa pretenderam fugir do “paraíso” cubano. Antes tinha jurado simpatia ao regime de Fidel – “José Saramago, Nobel de literatura, proclama sua adesão à revolução cubana” – foi mais ou menos o que disse quando de sua visita a Cuba.

Acredite-se num homem que assim tergiversa e muda de bandeira da forma como lhe sopram os ventos.

“Deus não existe fora da cabeça das pessoas que Nele creem” – foi outra de suas afirmações nessa entrevista.

Que certeza fundamental terá Saramago de que Deus existe ou não?

Deve tê-la descoberto numa bola de cristal ou na consulta a alguma pitonisa.

Até hoje, que eu saiba, não apareceu nenhum sábio conhecido capaz de afirmá-lo com absoluta segurança de sua veracidade.

Saramago faria melhor se cuidasse de sua literatura, que nesses últimos tempos tem ido tão mal.

O FIO DA MEADA por alceu sperança / cascavel.pr


Neste exato instante milhões de seres humanos estão famintos e doentes, sucumbindo a uma pobreza extrema. OutrosAlceu sperança  - AJC (1) milhões sofrem com o desemprego crescente, que é uma das características mais assustadoras da globalização neoliberal.

Aqui e em boa parte do planeta se acentuam as desigualdades sociais. Arruína-se a natureza através de um processo cruel e injusto chamado “desenvolvimento”. E tudo isso é mantido em nome da “democracia”, veja só!

Os capitalistas neoliberais, aproveitando a seu favor os atentados às torres gêmeas, resvalaram para um novo tipo de autoritarismo, que se dá pela ocupação militar de países “desobedientes” e bases nos obedientes, disseminando uma furiosa paranóia que clama por segurança na exata medida em que a golpeia.

O poder hoje não está ali no Palácio das Araucárias ou em Brasília, mas em instrumentos supranacionais. A guerra e o militarismo surgem, já avisou Lênin em 1916, como resposta de força do imperialismo aos seus limites históricos e às suas próprias contradições.

Os orçamentos militares atingem recordes históricos: o dos EUA sobe na escala do trilhão de dólares. Quanta comida e quanto remédio isso daria? E vem aí a retomada do Projeto Guerra das Estrelas, da era de Reagan, com a instalação do “escudo anti-míssil” na Europa.

Cria-se, em suma, uma “polícia” mundial para manter a situação de pobreza, miséria, fome e doença.

Bush socialista

Não há como ter conhecimento de tudo isso e ficar de braços cruzados. Aqui e em todos os lugares há margem e espaço para a luta de cada um para que o mundo comece de fato a marchar para a democracia, pois o planeta que temos sob os pés não é democrático.

Não há democracia onde falta justiça e pão. Neste mundo de injustiças e opressões, num país governado pelo marketing da engabelação luliberal, das Prefeituras mal administradas ao Palácio do Planalto a serviço de banqueiros e empreiteiras, só indignação não basta, mesmo porque há grandes potencialidades de luta e de avanço progressista.

Um dos truques do domínio neoliberal é criar em laboratório e propagar pela TV líderes políticos locais que falem em socialismo e democracia e pratiquem seu oposto.

No Brasil, e também aqui no Paraná, vemos burguesões liderando partidos “socialistas”. Seguem uma cartilha que até o rei Bush demonstrou ter aprendido: na frustrada viagem à América Latina (e logo Obama fará o mesmo), sua alteza mencionou Simon Bolívar, o libertador, e disse, como nosso Guevara diria, que é preciso “terminar o seu trabalho revolucionário” e garantir “verdadeira justiça social” em toda a região…

Quem diria: Maria Antonieta nos exortando a decapitá-la!

Rejeitar, um começo

O caminho da revolução, no entanto, passa por rejeitar e superar o capitalismo em sua etapa neoliberal.

Passo a passo, os povos latino-americanos vão dizendo não à engabelação da ideologia, como o povo venezuelano fez ao escorraçar do palácio presidencial os vampiros que usurparam o governo, pondo na prisão, ilegal e criminosamente, o presidente Chávez.

É na rejeição às receitas neoliberais que está o fio da meada para a superação das injustiças deste mundo.

Há uma viagem a fazer. O começo dessa viagem está em bloquear a atual ofensiva em curso no País contra as conquistas sociais e os direitos alcançados pelos trabalhadores, através da palavra de ordem “Nenhum Direito a Menos, Só Direitos a Mais!”

Rumorejando (A chegada da estação primavera em Curitiba ainda aguardando). – por juca (josé zockner)

PEQUENAS CONSTATAÇÕES, NA FALTA DE MAIORES.

Constatação IJUCA - Jzockner pequenissima (1)

Rico é aristocrático; pobre, é metido.

Constatação II

Rico é pragmático; pobre, é lunático.

Constatação III

Vai começar o debate,

No horário político,

Terrível e execrável,

Eivado de duvidança

E desesperança.

Prepare-se para ouvir disparate

E argumento nada analítico.

Bem melhor ouvir criança

Incluso na linguagem tatibitate.

Constatação IV

Rica tem o rei na barriga; pobre, todo ano, um filho.

Constatação V

Depois da vitória de Rubinho Barichello, em Monza, o piloto brasileiro, por quem a gente torce e sofre, afirmou e reafirmou que o momento é manter o pé no chão. Data vênia, como diriam nossos juristas, mas Rumorejando acha que é importante manter o pé no acelerador. A propósito das poucas vitórias de Rubinho, vale lembrar que Arquimedes proferiu: “Dai-me uma alavanca e um ponto de apoio que eu moverei o mundo”. Pelo jeito, Rubinho poderia dizer: Dai-me um bom carro na Fórmula 1 que eu serei o campeão do mundo…

Constatação VI (De um estulto perfil).

Era um borra-tintas,

Um exímio sarrafaçal*,

Metido a dar fintas.

Um insigne boçal.

*Sarrafaçal = “1. indivíduo inútil, preguiçoso”.

2. “profissional inapto” (Houaiss).

Constatação VII (Teoria da Relatividade para principiantes).

É muito melhor o nosso time fazer um gol com a mão e o juiz validar, ainda que a gente fique morrendo de vergonha, do que o nosso time sofrer um pênalti e o juiz não marcar.

Constatação VIII

Não se pode confundir barulho com baralho, muito embora no jogo de truco que é jogado com baralho e que onde este assim chamado escriba não encontra adversário, quem faz muito barulho, às vezes, ganha o jogo…

Constatação IX

O detetive

Particular

Contratado

Pra seguir

E flagrar

Um marido,

Acostumado

A desmando,

A trair,

Levou

Azar:

Desligado,

Ficou

Caído,

Ferido

Quando

Escorregou

Num declive

E tropeçou

Num aclive.

Coitado!

Constatação X

O posudo,

Em baixa, estava.

E se achava

Sortudo

E que tava

Com tudo.

Constatação XI (De um pseudo-soneto).

Apresentou uma lista pra ele

Ele ia ter que dormir no paiol

E que ela não era seu lençol

E que não tinha pena dele.

Ele ficou muito triste e azedo,

Dormir naquela espécie de macega

Ali, seria difícil um esfrega-esfrega,

E viu que era sério, não era brinquedo.

Foi consultar uma benzedeira

Dizendo que teria de ficar no estaleiro

E desfilou sua choradeira,

Como era época de nevoeiro

Poderia pegar um resfriado

E que tal jamais acontecera com algum seu antepassado.

Constatação XII

Foi a tartaruga

Mesmo afrouxando o passo,

Que chegou ao destino

Com o sol a pino,

Na casa do namorado

Cansada,

Cheia de ruga,

Um bagaço?

Coitada!

Coitado!

Constatação XIII

Quando meu celular me chama, eu já sei quando é a minha sogra que está chamando. O celular não tilinta, nem vibra. Ele vocifera, esbraveja, impreca, rosna.

Constatação XIV

Pela intenção do Brasil de comprar aviões de combate na França, sem levar em conta as ofertas da Suécia e dos Estados Unidos, o nosso país contaria, dentre outros, com o apoio daquele país para o Brasil fazer parte do Conselho de Segurança da ONU. Este negócio do Brasil ser membro do Conselho de Segurança me deixa numa dúvida crucial que me faz relembrar com o seguinte fato, já contado na coluna: Em 1970, este assim chamado escriba estava estagiando na França, mercê de uma bolsa de estudos, oferecida pelo governo francês. Aproveitando as curtas férias nas festas de fim de ano, resolvi conhecer Londres. Chegando a este país, me dirigi às informações turísticas, em busca de um hotel barato. À atendente, com cara de enfastiada, perguntei: “Do you speak french?” O francês era minha língua estrangeira mais fácil para me fazer compreender e entender. E ela, me olhando de alto a baixo, com desprezo: “What for?” (Para quê?)

Constatação XV

Com relação à constatação anterior, talvez a gente esteja por fora. Quando o presidente Lula disse, no dia 7 de setembro, que o Brasil vai comprar os aviões da França ele, apenas, tão-somente, queria impressionar a mulher do presidente Sarkozy, madame Carla Bruni, que pelos seus dotes merece os encômios respeitosos de todos.

Constatação XVI

Rico é agradável; pobre, censurável.

NAURO MACHADO e sua POESIA / são luis.ma

Maldita a vida me seja,
três vezes maldita seja
a vida que me desastra
e que por ser-me finita,
três vezes seja maldita
e amaldiçoada madrasta.

Quem me fez como um qualquer,
dormindo aonde estiver,
saiba deste desprazer,
para sempre e desde saiba,
para que o seu Ser não caiba
na pequenez do meu ser,

que eu não pedi para estar
com minhas pernas no andar,
com minha emoção a sentir
este universo que tapa
a minha boca num tapa
e a minha língua sem Ti,

essa coisa que fede a iodo,
como a água do mar ou do
envelhecimento o rim,
essa coisa que derrama
seu púbis velho de chama
a extinguir-se quase ao fim,

corpo de Deus! Corpus Christi!
Viste-O algum dia? Tu O viste
sequer um dia como tu?
Integral e à dor exposto,
desde o cio ao suor do rosto,
desde impotente até nu?

Os meus membros são crepúsculos!
São sangue e iodo os meus músculos,
é iodo e sangue a minha cruz.
Por que não nasci não sendo?
Por que, ao amanhecer, acendo,
noutra treva, cega luz?

Se além da terra existe ar,
se além da terra ainda há
por menor que seja, um seja,
como à noite volta o dia,
como, ao corpo, o que o procria,
como, em mim, meu ser esteja!

Dentro ou fora, qual gaveta,
para que, em mim, o ser meta
quem, em mim, é este meu ser,
olho, em volta, à minha volta,
e olho nada — só o que solta
de qualquer um: quem ou o quê?

Nada é, pois tudo se sonha.
E se alguém me falar: ponha
tudo o que lhe resta, e resta
no que, ao pôr-se, se me põe,
para que em mim meu ser sonhe,
vivo morto — e a morte empesta!

Como dar à vida pôde
o nada ser que sou de
outro feito pelo ser?
De outro ser, igual a mim,
mas de outro início a outro fim,
noutra vida até morrer?

Ó envelhecer do meu estar!
Da leitura de Balzac,
de La Comédie Humaine,
se passaram tantos anos
nos malogros desenganos,
sem disfarce ou mise-en-scène.

Bela Eugénie Grandet:
sois lembrança a anoitecer
pelas tardes do meu Carmo,
quem me traz a quem não sou
na usura do pai Goriot
que me a mim dá, para dar-mo

no meu duplo a ser mais dois,
quais búfalos que são bois,
ao mar meu a ser mais mar de
ontem que ao ser-te, alma, foi-te,
nas noites que são mais noite,
nas tardes que são sem tarde.

Só me lembro das andorinhas,
que hoje são luas-vinhas
que iam e vinham às seis,
só me lembro das sequazes
na imprecisão de alguns quases,
na distância de vocês!

Róseas ruas da memória,
róseas ruas hoje escória
que a soçobrar mais me sobe,
afundai-me na lembrança
hoje cravos da criança
que meu cadáver descobre.

Como, à noite, acendo a lâmpada,
para imitar (rampa da
noite) uma inútil manhã,
como o como que mais como,
assumo, na idéia, o pomo
da primitiva maçã.

Assumo o dia original.
Nascimento à morte igual,
nascimento em morte assumo
nesta página onde, em branco,
minha vida inteira arranco
do nada em que subi. E sumo.

E sumo a sós. Mas prossigo:
“na idéia é bem maior o trigo
que na boca o próprio pão,
na idéia janto a sós, comigo,
o pão real que mastigo
feito de imaginação”.

Azul manhã em contumácia!
Negra noite, azul, te amasse
a idéia sem pensamento,
te amasse a própria Idéia
reduzida a uma hiléia
sem ar, floresta, rio, vento.

Locador de um condomínio
frustrador de um hímen híneo,
frustrador de um hímem são,
locador que loca um louco,
de carne e ossos sou reboco
deste barro em maldição.

Tudo é farsa, menor dor.
Sou, em mim, o que me sou
desde o ventre que me fez.
E contemplo a arraia, e raia
dela, como de uma praia,
a noite toda. Ei-la aqui. Eis:

andaime, sucata, ferro,
vagido, vagina e berro,
viatura e papelório,
passa tudo, e é a viatura
conduzindo à sepultura
meu ser morto. E sem velório.

Pois viu a terra e além bebeu-a,
pois viu o tempo e disse: é meu, à
solidão cerzindo a roupa
onde, se me dispo, visto
o sexo nu de algum Cristo
que, despido, não me poupa.

Dez anos de coito cego
são as metáforas que lego
à solitária da escrita,
aonde não chega ninguém
exceto o vazio que vem
de uma montanha infinita.

Ao ouvir da tarde: fracasso!,
conquanto, vergando, os braços
dissessem: pára, enfim finda!
e morre, ó alma desgraçada,
eu ousei retornar do nada,
ousei retornar ainda.

Abandona, ó rei, abandona
o abono de qualquer cona
além do sangue e da queixa.
Cerca a tua casa e a mura
com o suor da tua estatura,
e deixa o remorso, deixa-o!

Senhor do teu sofrimento,
vai-te com o diabo e o vento,
vai-te com a noite e o monte.
E fala, ainda que mudo,
que, do nada, igual a tudo,
sobre ambos nasces. E põe-te!

Elimina todo se
da pretensão de existir
na existência que é demérito,
e no não haver nascido
elimina-te existido,
elimina-te pretérito!

Eliminar o talvez.
Não saber dia, hora ou mês,
não saber até o minuto
em que me vim sendo feito
plantando a morte no peito
e o espinhaço no meu fruto.

Por que o vemeversoverbo
da herbívora erva que eu erbo
no meu plantio masculino,
inverte o chão do seu galho
arrancado do assoalho
repicando como um sino?

Ter olhos-Deus! olhos-sóis
tem-no o Deus que cego a sós,
tem-no o horizonte a pôr-se
como colírio em dordolhos,
tem-no quem me olha nos olhos
como se cego eu já fosse!

Ah!, se a pedra me fizesse
fazer-me cobrir quem desce
à região do ser meu se,
para não haver nascido
ou o houvesse enfim já sido
sem que eu dissera: nasci!

“LULA GIGANTE” apaixona-se por robot da PETROBRÁS no PRÉ-SAL / editoria

UM clique no centro do vídeo:

“Paisagem Especulada”, um triste poema… – convite do jornalista fernando alexandre / florianópolis

P_ntano_do_Sul

PÂNTANO do SUL – foto de FERNANDO ALEXANDRE.

Quem sobrevoar ou passar pela praia do Pântano do Sul, extremo Sul da Ilha de Santa Catarina, neste domingo, dia 25 de outubro, a partir das 10 da manhã, vai perceber uma frase inusitada escrita em grandes letras nas areias de sua praia:

” P A I S A G E M * E S P E C U L A D A “

Não se trata de nenhuma campanha publicitária de lançamento de um novo “resort”; de mais um modernoso campo de golf (com 9 buracos, no mínimo) ou de qualquer mega empreendimento imobiliário “totalmente sustentável” que vai “alavancar o turismo e promover o desenvolvimento” da comunidade.

Trata-se de um poema coletivo escrito nas areias da praia. Um pequeno e triste poema de alerta. E um desesperado aviso aos navegantes: estão destruindo nosso mar, nossas praias, nosso pântano e nossos morros. Estão destruindo nossas vidas.

Esse pequeno poema de alerta vai ser escrito por todos, que podem levar para a praia pás de todos os tamanhos e formas, enxadas, ancinhos, baldes e latas. Ou seja: qualquer ferramenta que sirva para cavar a areia e escrever na praia o alerta.

A idéia do evento surgiu da tensão existente hoje entre aespeculação imobiliária e os anseios de boa parte dacomunidade da região em preservar a Planície do Pântano do Sul, transformando-a em um parque natural protegido.

A manifestação – que será devidamente documentada do alto – ficará visualmente ainda mais interessante se as pessoas puderem vestir roupas amarelas (calça, ou camiseta, vestido, boné, etc).

O ponto de encontro é em frente ao “Bar e Restaurante Pedacinho do Céu“, lado direito de quem chega na praia, as 10 da manhã deste domingo. Onde depois (e durante também) do evento, poderemos confraternizar, cervejar, petiscar e provar uma deliciosa “sopa de siri com letrinhas” preparada especialmente pela Comandante Zenaide para a ocasião.

Promovem o evento o Grupo Rosa dos Ventos (http://gruporosadosventos.blogspot.com, www.gruporosadosventos.com.br);

o Núcleo Gestor Distrital do Pântano do Sul do PDP; Cine-Clube ArmaçãoINMMAR – Instituto para o Desenvolvimento de Mentalidade Marítima;

ABA – Associação do Bairro dos AçoresRádio Comunitária Campeche. Apoio do Bar e Restaurante Pedacinho do Céu.

Para contatos: Silvana Macedo (48) 3233-0083; Gert Schinke: 8424-3060; Raquel Macruz: 8455-5932.

O quê – Evento Cultural Paisagem Especulada.

Onde – Pântano do Sul

Como Chegar – De ônibus até a praia do Pântano do Sul, à direita na praia em frente ao Restaurante Pedacinho do Céu.

Quando – Dia 25/10/09 (domingo)Horário: 10:00 da manhã.

POLANSKI por hamilton alves / florianópolis

Roman Polanski, o cineasta de tantos filmes que marcaram época e se constituem alguns deles clássicos do cinema, como, só para citar alguns, Chinatown, O bebê de Rosemary e outros, vem de ser preso, quando chegava num dia desses ao aeroporto de Zurique, por ordem da justiça americana, sob a alegação de que tivera relação sexual com uma menor.

O crime foi cometido em 1977. Há, portanto, 32 anos.

Para qualquer justiça de país civilizado, esse crime não poderia provocar mais qualquer tipo de efeito contra o infrator por se lhe aplicar a figura da prescrição, pelo qual o Estado não tem mais interesse em punição (nem pode moralmente aplicá-la) pelo decurso de certo tempo previsto nas legislações penais desses países.

Será tão caduca assim a legislação penal dos EUA, que lá não se aplique idêntico preceito?

Ou será o crime sexual contra menores imprescritível por aquelas bandas?

No Brasil, não há exceção pela natureza do crime para efeito de prescrição, que eu saiba.

O efeito retardatário da pena apresenta-se, à primeira vista, como uma coisa anacrônica. É evidente que, no decorrer do tempo prescricional (assim fixado expressamente na lei), o infrator mudou a forma de ver as coisas, regenerou-se ou passou por uma transformação moral ou psíquica, arrependeu-se ou qualquer coisa dessa ordem, que sugere que a pena por um crime passado não tem mais sentido. Ou perdeu a razão de ser ou de sua aplicabilidade.

A adotar-se tal medida, a imprescritibilidade da pena, resulta que o infrator de um crime (ou infração) nunca deixará de ser perseguido pela justiça, mesmo que o decurso do tempo lhe tenha produzido profunda modificação no comportamento. Ou outro seja seu padrão moral. Ou tenha havido substancial mudança em sua índole ou conduta.

O processo estará em seus calcanhares até que a pena seja aplicada, mesmo que, como o caso de Roman Polanski, os efeitos ainda durem depois de 32 anos de ter praticado o delito pelo qual fora imputado.

O que, a bem dizer, é uma velharia da lei penal dos EUA, em descompasso com as demais legislações de outros países, como o Brasil, por exemplo, em que, no caso, a pena há muito teria prescrito. A não ser que na legislação americana (o que não ocorre com a nossa) haja determinados tipos de infrações imprescritíveis, como será a de manter congresso carnal com uma menor, de cujo crime é imputado o cineasta.

Mas como quer que seja, após 32 anos, nenhuma pena pode ser sensatamente aplicada a um infrator, independentemente da natureza do crime, pois o processo de erosão do tempo sobre os efeitos da pena se operou, a contra-indicar que o Estado ainda revele interesse em sua adoção.

O caso que agora se dá de prisão de Roman Polanski, que tem uma série de grandes filmes em seu currículo (o que não o isentaria de responder por um crime, fosse qual fosse)

é revelador, antes de mais nada, do desatualização da legislação penal americana. O que é, em última análise, de provocar pasmo.

BRDE – Palacete dos Leões recebe projetos para exposição até 30 de outubro / curitiba

Palacete dos Leões recebe projetos para exposição até 30 de outubro

Artistas interessados em mostrar o seu trabalho no Espaço Cultural BRDE – Palacete dos Leões – em Curitiba, tem até o dia 30 de outubro para apresentar projeto para o calendário de 2010-2011.  A coordenação do Espaço vai receber projetos para exposições individuais ou coletivas de artes visuais – pintura, desenho, gravura, fotografia, obras tridimensionais, instalações e outras técnicas. As propostas serão analisadas e aprovadas conforme os critérios constantes do regulamento de uso do espaço e de acordo com as vagas disponíveis no calendário de eventos.

Mantido e coordenado pelo BRDE – Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul, o Espaço Cultural iniciou suas atividades em junho de 2005, no Palacete dos Leões, construção histórica de Curitiba, e desde então já recebeu mostras das mais variadas técnicas e linguagens. Além das exposições de artes visuais, também possibilitou apresentações de grupos musicais e lançamentos de livros. Considerado pelos artistas como um espaço nobre, o casarão da Rua João Gualberto, no Bairro Alto da Glória, por si só é uma obra de arte. Concluída em 1902, para ser residência da família de Ermelino de Leão Júnior, a construção é tombada pelo patrimônio histórico e é testemunho do ciclo da erva mate, um dos períodos mais prósperos da economia paranaense.

O regulamento para apresentação de propostas encontra-se disponível no site www.brde.com.br, e maiores informações podem ser obtidas no local.

Espaço Cultural BRDE – Palacete dos Leões
(41) 3219-8056

BRDE Poliana Dal Bosco
Estagiária / ASCOM
Fone: 41 3219.8035
Fax: 41 3219.8153
www.brde.com.br

AMANHECER em SANTA ROSA (RS) por tonicato miranda. curitiba

TONICATO MIRANDA - Periferia de Santa Rosa


Quantos já repararam numa cidade amanhecendo? Muitos, com certeza.

Mas agora, aqui, no alto do quinto andar do Hotel Rigo, em Santa Rosa, assisto um tanto solitário, a este amanhecer de verão, no extremo oeste do Rio Grande do Sul.

De início tudo era penumbra, e as luzes nas ruas eram pontos brilhantes desenhando os traços feitos pelos homens. Depois, com a claridade, as luzes ficaram boiando no espaço, penduradas por árvores de cimentos como estrelas mortas.

À minha frente passa um ciclista, sofrendo no pedal na subida da ladeira. Outro desce tranquilo.

E mais outro vem, regulando a freada na descida. Aquele vai olhando a manhã, sereno como ela. Com pedaladas ritmadas, mochila às costas, segue no rumo do trabalho. Nesta hora, bem cedo na manhã têm mais bicicletas do que automóveis nas ruas. Certamente são os operários rumando em direção à labuta de mais um dia.

Abençoados sejam esses trabalhadores matutinos de Santa Rosa, ou de Horizontina, que visitei ontem, de Arraial do Cabo, de Joinville, de Teresina, de Arapongas, de Monlevade, e tantos, em tantas cidades brasileiras; e todos que vão ao encontro do trabalho montados nas suas magrelas.

O hotel, numa de suas laterais, faz frente com a Rodoviária da cidade. Exatamente a fachada do apartamento onde estou e que tem esta sacada e eu dentro dela. Lá embaixo, uma mãe atenciosa aponta para cima indicando a um dos três filhos que algo acontece aqui em cima. Acho que aponta para mim. Deve estar a dizer: __ Olha que estranho, lá em cima tem um homem a escrever! – O filho certamente não entende nada, pois isso não lhe parece tão estranho, nem tampouco tão normal. Como pássaro não escreve e homem não se dependura no céu, as possibilidades estão empatadas. A situação é somente inusitada.

Por via das dúvidas, diante do interesse, como pássaro ou como escritor maluco, ensaio um tímido adeus que fica sem resposta.

Mais tarde para o alto do telhado da Rodoviária – começando a se alvoroçar com o povo que não para de chegar – tenho a visão de três a quatro bairros da cidade de Santa Rosa e de um dos seus principais acessos viários. Também posso ver algumas plantações de soja, de milho e outras culturas não identificáveis à distância e, ainda, tufos de matas remanescentes exigidos no interior das fazendas pelo IBDF.

Os raios de Sol que vêm chegando iluminam primeiramente as torres dos silos mais distantes. Depois, arrancam da penumbra um trecho de mata, todo um bairro situado na parte alta da cidade. Para, mais tarde, cambiar do escuro para o claro o verde das plantações. Uns vinte minutos depois, os raios já um pouco mais inclinados, permitem-me a visão da primeira sombra de uma árvore sobre um relvado distante. É o sol fazendo parceria com o tempo para produzir formas com a luz e assim enaltecer a geometria.

Passada a primeira meia-hora que o Sol pareceu seus raios já atingem em cheio um prédio lá embaixo, fazendo janelas abrirem-se de par em par. Mas ao longe as chaminés de um fábrica iniciam o lançamento de rolos de fumaça ao ar. Pode-se ouvir agora mais fortes os ruídos da cidade e dos homens a trabalhar.

Os passarinhos ainda cantam aqui e acolá, porém seus trinados soam perdidos no interior da sinfonia urbana do homem. Santa Rosa agora está de pé, já acordou. Perdeu um pouco a graça da Santa e o Róseo tom da manhã; é mais amarela e um pouco mais movimentada. E eu tenho de tomar café, como todos os outros que levantam mais tarde na manhã.

OMS prevê 1,5 milhão de suicídios no mundo até 2020

josé carlos garcia fajardo

Não se trata de uma praga nem é irremediável. É possível controlá-los por meio da educação e da atenção médica. O suicídio e a depressão precisam deixar de ser tabus, como foram as doenças venéreas, a homossexualidade, os preservativos, a masturbação, as uniões estáveis, as relações pré-conjugais, os novos tipos de família, o direito a uma morte digna e à interrupção de uma gravidez indesejada ou perigosa.

A OMS recomenda “fomentar um tratamento responsável do tema nos meios de comunicação e formar os profissionais dos cuidados primários”. A entidade estuda a prevenção do suicídio em culturas diferentes, já que os fatores culturais, religiosos, históricos, filosóficos e tradicionais influem na decisão.

No entanto, alguns afirmam que escrever sobre o tema pode induzir a imitá-lo. Pois então que não escrevam sobre mortes nas estradas, alcoolismo, assassinatos, estupros, maus-tratos, prostituição, e que retirem da TV os filmes e relatos violentos.

Mais que a morte, a maioria dos que tentam o suicídio tenta chamar a atenção em um grito desesperado. Só uma pequena fração de suicídios ocorre sem aviso, e por isso as ameaças de autoflagelo devem ser levadas a sério. Como sinais, a OMS aponta rupturas afetivas e/ou econômicas; falta de comunicação ou indiferença familiar; vício em jogo, álcool e drogas; marginalização social e isolamento por opção ou forçado; doenças terminais e ameaças intensivas à dignidade pessoal; abuso sexual, maus-tratos físicos, verbais ou psicológicos; privação da liberdade; impossibilidade de substituir o objeto perdido (morte de um familiar, aposentadoria, desastre econômico); percepção da decadência geral do organismo e recusa da velhice.

O ato suicida tem “lógica” para o indivíduo e se torna a única saída, o refúgio final, para que ele pare de sofrer. Quando a ideia de culpa é angustiante, a expiação necessária se traduz em suicídio.

“Nosso modo de vida tem algo a ver com o aumento de doentes depressivos?”, questiona o doutor C. Sisto no artigo “O Suicídio”. Ou é uma doença que agora se diagnostica mais que antes? Todo psiquiatra com longos anos de prática observa que há mais deprimidos do que antes; e é sensato supor que as condições atuais da “tarefa” de viver tornam necessárias uma exigência, competitividade, aceleração dos tempos que antes eram desconhecidas.

Há cada vez mais fatores estressantes e menos atenção médica. Isto aumenta os casos de suicídio. Falta-nos tempo para tudo: para ganhar nosso sustento, para a relação com a família, para o descanso. O sujeito se adapta, mas alguns fazem isso pagando o lento preço de um estresse cumulativo, que pode dar lugar a reações de esgotamento, ou de protesto interior, ou de um naufrágio na adaptação do ‘eu’.

Talvez a forma mais frequente desta estafa seja a depressão, vivência sombria da experiência vital. Como diz Kalina, “o tempo na sociedade atual está  contaminado”. Contaminado de urgência, de complicações, de atritos. O viver, antes tranquilo, é agora conflituoso, inseguro. Alguns sujeitos resistem e até transformam esta circunstância em fortaleza; outros claudicam. E então a depressão é a saída.

Se a este quadro soma-se a frequente exortação à “vontade”, à obrigação de “ter energia e ânimo”, agrega-se um novo conflito a este indivíduo que carece justamente de força de vontade.

É preciso romper a crença de que a depressão é uma mera questão de atitude, pois ela confunde o doente, que tenta travar uma batalha solitária. “Falta educação e é preciso romper o preconceito contra a psiquiatria”, diz o doutor J. Molina. Contudo, desde os anos 1950, contamos com um arsenal farmacológico efetivo, e novos medicamentos indicam novos progressos.

“Se tivessem recebido atenção psiquiátrica a tempo, muitas dessas pessoas talvez tivessem sido salvas e levassem vidas normais e tranquilas. Mas não tiveram atenção porque nem sabiam que estavam doentes.” A depressão é uma doença e tem tratamento. O problema é encontrar a ajuda, pois existe muito pouca educação a respeito.

Muita gente pensa que ir ao psiquiatra é coisa para loucos. Além disso, um estigma ronda as pessoas com depressão. Ignora-se que a depressão é uma das doenças mais comuns do mundo. É a quarta doença que mais incapacita no mundo. A depressão afeta quase todas as principais funções do sistema nervoso. Com ela, a pessoa vai perdendo a esperança e acaba incapacitada inclusive de se tratar.

“Faz sentido mostrar a cara, não mostrar o espelho”, dizia Quevedo. Estamos falando de fatos comprovados e avalizados pela OMS, não de meras opiniões.

*Professor emérito da Universidade Complutense de Madri (UCM) e diretor do Centro de Colaborações Solidárias (CCS), na Espanha.

PENSAMENTOS RESIDUAIS de joanna andrade / miami.usa

Momentos que sufocam,

dor no peito, sem cura, o unico remédio é esquecer à conta gotas.

.

Cada  gota  é como chumbo,

tão pesada é a dor.

.

Novo método contra cena  amortecida,

sensação, sem paladar e insonsa.

.

O coração ao chão desenhado,

para nunca ser esquecido ao ser pisado.

.

A  sola do sapato trilha a fama da vida,

vermelho carmim ululante.

.

Rastros cirúrgicos perseguem a sombra das sombras,

criando as cicatrizes históricas.

.

As lágrimas alvejam o caminho,

acionam todos os fantasmas para a super ação.

.

São esses os momentos que sufocam,

quando a chuva lava as almas deixando-as novinhas em folha.

.

Os momentos que sufocam o velho coração,

povoam as aortas com o sódio caustificante dos pensamentos residuais.

.

……… dor no peito, sem cura, o unico remédio é esquecer ao contar as gotas.

SARA VANEGAS e seus poemas / equador

fuego de mares calcinados. voces ardientes

voces que absorben mis palabras como las dunas

voces que me rebautizan con nombres milenarios

y me pierden

——

música violenta y dulce

desde el templo sepultado

(deseas ser aire y eres aire

entre las naves)

alguna vez estuvo aquí el mar

——

acercas tu oído a la roca. un zumbido lejano como de campanas roncas. gargantas resecas …

de pronto, una cascada intermitente. ¿o es la danza de un lirio de mar?

la roca hendida

——–

mansiones lejanas. estatuas. una mano que reparte estrellas diminutas sobre los muslos. tan cerca de la arena y la esfinge. tan lejos del mar y sus lunas. tan solas. tu garganta: el oasis y la sed. el triángulo de la luz

canta el viento sobre rosas minerales

O PANDEIRO e SEM EIRA – de raymundo rolim / curitiba

O pandeiro

O sol já vinha de revirar a noite de boca pra cima quando “o samba descansou, porque um samba, jamais se acaba”! Foi esta a última frase que proferiu o Zé do Morro antes de fechar o paletó. Ele que sabia gingar e entendia da bocada de além fumo e aquém morro. Muitos mares e muitos portos seguros de terras estrangeiras conheceu o Zé. Até sabia falar palavras e frases inteiras em esquisitos idiomas. Largou mão de tudo! Agarrou-se com o samba. E compôs. E ficou alegre. Alegre de morrer.

Sem eira

Estava convicto de que seria alguma coisa na vida; como dizem! Desde que tivesse qualquer importância. Qualquer bobagem lhe soava como sendo uma boa coisa, desde que fosse imediatamente reconhecida como uma bobagem. Já era um reconhecimento e logo tinha importância! Aí, pensou bem e de novo e não achou mesmo lucro algum em se tornar o maior criador de pernilongos. Além do processo da cadeia alimentar, para que é que servia exatamente, na ordem do dia urbano, um pernilongo? Achou tão boba essa historia que não a quis, deixou-a pela metade. E mesmo porque os sapos andavam tão escassos na cidade! E sapos na cidade não tinham lá tanta importância.

DO TREINADOR E DO HERÓI por jorge lescano / são paulo


Domingo é o dia em que Deus perdeu a imaginação

então o homem criou a bola.

Livro das Cinzas e do Vento; 11-10

Aconteceu no Monumental de Núñez, impressionante construção capaz de abrigar mais de 80 mil almas, embora naquele domingo vastos setores das tribunas se vissem despovoados. Disputava-se a justa entre Argentina e Peru pelas eliminatórias da Copa do Mundo de 2010, o vazio era conseqüência da péssima campanha da seleção local. Esta ganhava por um gol a zero, o que lhe permitia sonhar com a participação na fase final do certame na África do Sul. O jogo parecia estar decidido. O time peruano não queria voltar para casa derrotado, apesar de já estar fora da competição tentava recuperar a honra nacional, perdida em Rosário em 1978 (Argentina 6 Peru 0).

No estádio todos lembravam do primeiro jogo desta edição em Lima. Argentina ganhava um a zero e a partida estava no fim quando, naquela que viria a ser a última jogada, na ponta esquerda peruana alguém recebe a bola sozinho e como se fosse salvar a mãe da forca dispara que nem foguete tumultuando a defesa argentina. Ao chegar à metade da profundidade da área, ainda fora dela, fez uma pequena curva rápida com a bola colada no pé. A confusão de corpos não permite lembrar se ele ultrapassou a linha de cal, o fato é que chutou com potência e precisão provocando o delírio peruano. Para desespero dos argentinos a bola penetrou no ângulo inferior direito do gol. O juiz apitou duas vezes e apontou o centro do campo com os braços esticados. A TV mostrou rostos congestionados, bocas escancaradas, olhos arregalados, punhos em alto. O Peru estava apto à classificação e mais, mantinha-se invicto em seu território. Esta foi a última partida do Louco Bielza à frente do time argentino.

Agora Diego Armando Maradona não convence como técnico, a imprensa o ataca impiedosamente, os torcedores misturam sua vida pessoal ao trabalho em campo. Oitenta jogadores convocados e um time diferente em cada disputa, assim ninguém se conhece. Era como se um general quisesse avaliar cada um dos seus soldados individualmente para depois definir sua estratégia de combate. Imperícia! Não faltava quem maldosamente afirmasse que sendo Maradona o técnico não faltaria craque na seleção. A calúnia iguala políticos e treinadores. Como os políticos, don Diego se deixa levar pelas palavras, seus discursos ficam difíceis de contornar. Antes da desastrosa derrota contra a Bolívia (6 a 1) havia dito que a altura de 3600 metros de La Paz não seria fator decisivo na partida, tal afirmação descartou a única desculpa do vexame, segundo com esse resultado na historia do futebol argentino. A primeira foi em 1958, na Suécia, contra a Tchecoslováquia. Curiosamente os goleiros de ambas derrotas tinham o mesmo sobrenome e jogavam no mesmo time, Carrizo e River Plate, respectivamente. Nos anais do futebol boliviano esta foi sua maior vitória, para os argentinos a pior derrota; levar goleada da Tchecoslováquia há meio século, vá lá, mas da Bolívia, depois de dois títulos mundiais!… A torcida argentina pedia em altos brados o afastamento de Maradona, já os torcedores brasileiros achavam injusta a medida depois das alegrias que o ex-craque deu ao Brasil nestas eliminatórias. Os brasileiros esquecem que a torcida argentina teve oportunidade de gritar o nome do Dunga em partida memorável. A coisa pode extravasar do continente se a esquadra albiceleste sair desta enrascada.

Tais os antecedentes da atual disputa em Buenos Aires.

Aos dois minutos do segundo tempo Higuarán abre o marcador para os argentinos. Aos catorze minutos começa a chover. Aos vinte o ataque peruano perde um gol com impedimento não marcado. Aos vinte e sete a chuva aumenta. Os dois técnicos recusam as capas e gesticulam como fantasmas na névoa formada pela água nas lentes das câmeras. Aos trinta minutos a ventania balança as câmeras e seus operadores. O time argentino se encolhe. Ataca esporadicamente. Aos trinta e dois minutos o vento conspira contra o time albiceleste, joga-se em meio ao dilúvio. A torcida canta, vocifera, ruge.

Faltavam dois minutos para completar o tempo regulamentar. Argentina 1 Peru 0. Rajadas de oitenta quilômetros por hora criavam redemoinhos no centro do campo atirando a bola a esmo, independentemente da vontade dos jogadores. A torcida argentina orava pelo término da partida, os peruanos queriam operar seu milagre. Este ainda poderia acontecer pois o juiz determinara mais três minutos de tempo suplementar. Estava-se no quadragésimo quarto minuto, o peruano Rengifo cabeceia e gol. Gol-Gol-Gol! Argentina 1 Peru 1. Cruéis, os sinos da derrota dobram a finados, a seleção argentina pode se despedir da Copa, os peruanos deitam e rolam na piscina improvisada, comemoram como se fosse o título mundial.

O temporal redobra sua fúria vingativa, talvez desesperada. Nesse palco trágico, aos quarenta e sete minutos, Martín Palermo, que entrou no segundo tempo, parcialmente restaurado da hemorragia nasal que o havia proscrito por alguns minutos além das fronteiras do campo da batalha, com um chumaço de gaze ensangüentada a pingar da narina direita, sob a inclemência dos elementos que empanavam os olhos da multidão, surge do tumulto dentro da pequena área peruana e com um toque sutil corrige a trajetória da bola lançada do outro extremo da grande área, a esfera, obediente ao desígnio do herói, penetra nas traves adversárias, no mesmo lugar do gol peruano em Lima. O momento é de epifania. O herói desnuda o torso na comemoração pagã desafiando a intempérie e o regulamento, nas arquibancadas gritos, risos, lágrimas, mãos juntas em agradecimento ao criador; o druida Maradona mergulha no gramado. A chuva não diminui, antes aumenta, raios e trovões somam-se à comemoração pátria. O jogo continua, para desespero dos jogadores, da comissão técnica, da torcida argentina encharcada no estádio e daquela parcela que optara por acompanhar o provável desastre pelo rádio familiar.

Os peruanos não se rendem e colocam em perigo o reduto argentino. Os deuses autóctones e os do futebol disputam o tempo, Cronos, impassível, rege no pulso do juiz. No minuto que resta ainda cabe uma segunda bola na trave argentina e a dúvida sobre uma irregularidade em sua área. Pênalti?! Agora? Com o céu a desabar sobre suas cabeças? O árbitro apita e assinala o círculo central, um imenso suspiro acompanha seu gesto. Palermo e Maradona choram abraçados. Argentina está salva até a próxima quarta-feira, em Montevidéu.

Alguma rua da cidade será rebatizada com o nome do herói, epónimo do herói popular criado por José Hernández – Martín Fierro?  Antecipando a imortalidade já existe em Buenos Aires um bairro com o seu sobrenome, até parece que a vida copia o esporte. Martín Palermo, o homem que pode ter feito a Argentina ressurgir de suas cinzas é o mesmo que dias antes garantira sua celebridade ao marcar um gol de cabeça do meio do campo, em jogo do Boca Juniors contra o Vélez Sarsfield.

Quarta-feira 14 de outubro de 2009, aproximadamente 20h50, horário de Brasília. Aos 35 minutos do segundo tempo Argentina e Uruguai empatam sem gols no Estádio Centenário. Um jogador uruguaio é expulso por cometer falta grave contra Gutiérrez. O jovem Messi cobra lançando sobre a pequena área. Depois de um bate-rebate, aos 39 minutos, o volante Bolatti, que estréia na seleção, coloca a gorduchinha no fundo do ninho e entra para a história. A sorte está lançada: Uruguai disputará a repescagem contra Costa Rica, Argentina carimba seu passaporte para o continente negro. Don Diego dedicou a classificação a todos os argentinos, menos os jornalistas. O próximo capítulo será na África do Sul, resta saber se os protagonistas serão os mesmos.

É possível ainda duvidar das alternativas do heroísmo? Talvez o herói contemporâneo não seja apenas o conquistador de postos de chefia nas empresas multinacionais nem o consumidor classe A. Talvez herói seja aquele que os povos admitem como tal.

OSVALDO WRONSKI e seus haicais / curitiba

HAI CAIS DE ANIVERSÁRIO

.

FELIZ ANIVERSÁRIO

O ANO QUE PASSOU

FOI ALÉM  DO CALENDÁRIO

.

SOM  NA CAIXA

O DIA DE HOJE

MERECE ESTA FAIXA

.

OBRIGADO PELOS PRESENTES

ELES DESATAM

A ALEGRIA CONTIDA

DENTRO DA GENTE

.

UM DIA POR ANO

ELE SERÁ CELEBRADO

CAIA NA SEMANA

OU NO FERIADO

.

O BRIGADEIRO

DEU BOLO

NOS DOIS AMORES

DE OLHO NA SOGRA

.

CRIANÇA EM  FESTA

TENTAÇÃO DE BRIGADEIRO

ESTÁ ESCRITO NA TESTA

.

DEPOIS DE ASSOPRAR A VELA

AINDA RESTOU FÔLEGO

PARA DAR O BOLO NELA

.

CHUVISCO DEBAIXO DO CHUVEIRO

SOBRE A MESA DE DOCES

CÉU DE BRIGADEIRO

.

NÃO QUEIRA SABER A IDADE

ESTA PERGUNTA

PODE ESTAR CHEIA DE MALDADE

.

PARABÉNS PARA VOCÊ

ESTA CANÇÃO

VAI ALÉM DO PORTUGUÊS

.

ESQUECI DE TE CONVIDAR

PARA DIZER A VERDADE

SEQUER VI O ANO PASSAR

OS DONOS DO BRASIL por francisco xarão / porto alegre

A divulgação dos resultados preliminares do censo agropecuário 2006 precisa de muito estudo e análise para “tirar” dos números o seu significado político e sociológico na compreensão da dinâmica de desenvolvimento da estrutura agrária e os resultados da política agrícola das últimas duas décadas. Contudo, alguns elementos são de fácil entendimento, embora de difícil aceitação.

Os números divulgados confirmam o que os movimentos sociais, em especial o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, vêm debatendo e apresentando como causa da alta concentração de terras no Brasil: a ausência de uma política agrária que enfrente as oligarquias do campo e um modelo agrícola centrado na grande empresa capitalista em detrimento do modelo da agricultura familiar.

Gestado pelo mercado, com apoio do Estado, nos anos de ouro do neoliberalismo no Brasil, o agronegócio para produção de commodities se orgulha da modernização que promoveu no campo substituindo o jegue, o boi e o jeca pelo trator, colheitadeira e agrotóxicos em larga escala. No entanto, bastou o governo federal acenar com a possibilidade de cumprir a legislação e rever os índices de produtividade das propriedades rurais para que a bancada ruralista, no senado e na câmara dos deputados, saísse em gritaria uníssona de que querem roubar a terra de quem trabalha.

Essa cortina de fumaça que os deputados e senadores, defensores do arcaico modelo agrário e da “improdutiva” política agrícola baseada na grande propriedade e nos agrotóxicos, montaram serviu para esconder o que o censo agropecuário acabou por revelar: a segurança alimentar dos brasileiros é garantida pela pequena propriedade familiar. Se dependesse do agronegócio, de formato capitalista, o povo brasileiro morreria de fome porque só poderia comer os restos da exportação. A lavoura capitalista não produz alimentos, produz mercadorias.

A novidade do censo agropecuário 2006 foi realizar uma radiografia mais completa e em conformidade com a lei que define agricultura familiar. Com isso foi possível fazer comparações com os resultados de 1985 e 1996 e apresentar uma fotografia onde a agricultura familiar aparece com sua cara própria. Os dados apresentam uma realidade da agricultura familiar que devem servir de base para uma reorientação completa da política agrícola e agrária em curso no país. Senão vejamos: apesar de representar 84,4% do total de estabelecimentos rurais ou 4.367.902 propriedades, a agricultura familiar ocupa uma área de apenas 24,3% da área total dos estabelecimentos rurais cadastrados. Ainda assim, nessa pequena lavoura se produz 38% do valor bruto da produção agrícola do país e emprega 74,4% da mão de obra no campo. As propriedades com menos de 10 hectares ocupavam em 2006 apenas 2,7% (7,8 milhões de hectares) da área total dos estabelecimentos rurais, enquanto os estabelecimentos com mais de 1.000 hectares concentravam mais de 43% (146,6 milhões de hectares) da área total. Se tomarmos o número total de estabelecimentos (cerca de 5,2 milhões de propriedades), próximo de “47% tinham menos de 10 hectares, enquanto aqueles com mais de 1.000 hectares representavam em torno de 1% do total, nos censos analisados” resume o informe do IBGE.

Mesmo cultivando uma área menor com lavouras (17,7 milhões de hectares) a agricultura familiar responde por 87% da produção de mandioca, 70% da produção de feijão, 46% da produção de milho e também é responsável por 50% da produção de frangos, 59% da produção de suínos e 30% da produção bovina, apesar de cultivar uma área menor com pastagens. O censo revela ainda que o valor bruto da produção da agricultura familiar e sua participação no valor bruto da produção total obteve crescimento de 38% para 40% em 10 anos (1996-2006). Segundo informativo do Ministério do Desenvolvimento Agrário – MDA: “A agricultura familiar gera um VBP [valor bruto de produção] de R$ 677,00/ha que é 89% superior ao gerado pela agricultura não familiar (R$358,00/ha).”

Entende-se agora a virulência dos ataques dos latifundiários e seus aliados às propostas da sociedade civil para limitar o tamanho das propriedades no Brasil e a proposta do governo federal (MDA) de rever os índices de produtividade, pois qualquer cidadão medianamente informado é capaz de concluir que existe no país uma concentração absurda da terra que é contra o processo de desenvolvimento sustentável. O índice de Gini do uso do solo no Brasil é de 0,872, muito próximo de um, o que indicaria o nível máximo de concentração.

Portanto, não há o que se comemorar. A tentativa do governo, na divulgação do censo, de “dourar a pílula” apresentando os exitosos números da agricultura familiar como uma prova de que a política de crédito e a reforma agrária começam a dar frutos é outra cortina de fumaça para esconder a ineficácia da política agrária e a quase ausência de uma política agrícola específica para a produção de alimentos da cesta básica. Verdade seja dita, os agricultores familiares é que apesar do mercado e apesar do governo viabilizaram suas propriedades como equipamento altamente produtivo. Evidente que o censo 2006 avalia apenas três anos do atual governo, talvez por isso se possa autorizar o discurso: “se não fosse nós seria pior”. Mas querer atribuir a sobrevivência da pequena propriedade familiar à política agrária e agrícola deste ou dos governos passados é, sem sombra de dúvida, um exagero. Analisando a repartição do orçamento público, especialmente no período pesquisado, verifica-se uma distribuição francamente desproporcional em favor do agronegócio.

Antes mesmo da divulgação do censo agropecuário 2006, um estudo, resultado de tese de doutorado do geógrafo Eduardo Girardi, intitulado Atlas da questão agrária brasileira, lançado no primeiro semestre deste ano, mostrava que “Em 2003, os pequenos imóveis, com tamanho médio abaixo de 200 hectares, representavam 92% do total de propriedades, mas ocupavam apenas 28% da área agrária. As propriedades de médio porte, de 200 a 2 mil hectares, respondiam por 6% do total de imóveis e 36% da área. Já aquelas acima de 2 mil hectares, embora não chegassem a 1% do total, ocupavam 35% da área do setor”. Com pequenas variações regionais que não alteram o quadro geral, o censo 2006 confirma os resultados do estudo de Girardi. O que isso implica para o debate da reforma agrária?

A legislação brasileira proíbe desapropriação de área menor que 15 módulos fiscais (que varia de região para região, mas situa-se, na média, em torno de 500 hectares). Sabendo que existem aproximadamente 5,2 milhões de imóveis rurais cadastrados no país e aceitando que todas as médias propriedades (acima de 500 hectares e menor que 2000 hectares) cumprem sua função social, ou seja estão dentro dos índices de produtividade atuais e respeitam a legislação ambiental, restam para desapropriação os imóveis rurais acima de 2000 hectares, que representam menos de 1% do total de imóveis rurais, ou seja, em torno de 50 mil propriedades.

Então toda a gritaria dos deputados, senadores associações de produtores rurais é para defender o “direito de propriedade” de 50 mil privilegiados contra o “direito de propriedade” de mais de 4 milhões de pequenos e médios proprietários e sem terras? Absurdamente é isso. Na democracia dos atuais deputados e senadores 50 mil proprietários são mais donos do Brasil que os outros quase 5 milhões.

A estrutura agrária tem intima ligação com a política agrícola. A concentração de terra – confirmada pelo Censo 2006 deriva da necessidade que tem o agronegócio voltado para exportação — soja, cana-de-açúcar e pecuária — ocupar grandes extensões em planícies que facilitem o uso intensivo de máquinas e agrotóxicos para produção em escala. Para competir lá fora o agronegócio precisa destruir aqui dentro. Essa concentração continua expulsando os trabalhadores do campo. Em dez anos, deixaram de trabalhar nas lavouras 1,363 milhão de pessoas. Permanecem ainda 16,5 milhões ou 18,9% da população ocupada do país em 2006.

O discurso dominante não vê limites para as “conquistas cientificas” que, descobertas hoje no laboratório, amanhã já se transformaram em tecnologias para produção de mercadorias. Clonagem, transgenia, agrotóxicos, tudo é possível. Não há barreira ética e moral capaz de frear “a marcha do progresso”. A agricultura familiar aparece para estes senhores pseudocientistas e “mudernos” como uma ingênua nostalgia bucólica. Paradoxalmente, aqueles que acham tudo possível na ciência e na moral acreditam ser impensável uma outra estrutura agrária e uma outra política agrícola. Sua condição política e cegueira ideológica, sim, é que atravancam o desenvolvimento de um país com soberania alimentar. É o latifúndio pós-moderno onde tudo é possível e relativo menos a contestação da absurda concentração de terras.

Mas, se “ouvirmos” os números do censo 2006 e imaginarmos um país com distribuição de renda, sem fome, com menos agrotóxicos, preservando as florestas é inexorável mudar de rumo. É uma imposição social e política desconcentrar a propriedade da terra. Sem isso não há desenvolvimento social, apenas mais concentração de terra e renda.

O primeiro passo é resolver rapidamente o problema dos acampamentos da reforma agrária. Segundo dados do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terras existem hoje 230 mil famílias acampadas. Como já avaliamos, se adotássemos uma política agrária determinada a desconcentrar a propriedade da terra teríamos de intervir naquelas com mais de 1000ha que representam menos de 1% do total de propriedades no Brasil. Assim, para assentar as 230 mil famílias, considerando um módulo médio de 25ha por família seriam necessários menos de 6 milhões de hectares o que representa menos de 4% do total da área ocupada pelas fazendas com mais de 1000ha. Só para exemplificar: o paranaense Eraí Maggi Scheffer comanda uma empresa que planta em 250 mil hectares dos quais 100 mil são próprios e o restante arrendado de outros agricultores. Se, ceder 4% da sua área para reforma agrária o “rei da soja” ainda terá ao seu dispor 240 mil hectares e nos 10 mil hectares disponíveis à reforma agrária daria para assentar 400 famílias em lotes de 25ha cada. Pergunto: foi agredido o senhor “rei da soja” em seu direito de propriedade e de produzir? Repartir a produção de 10 mil hectares com mais 400 famílias irá dissolver o negócio do senhor “rei da soja” pela concorrência? Ora, não estamos falando de uma revolução no campo, de uma coletivização forçada, mas de multiplicar o número de proprietários com a clara intenção capitalista de ampliar o número de unidades produtivas e diversificar a oferta de alimentos. Trata-se de uma reforma agrária que é realidade em todos os países onde houve uma revolução burguesa (capitalista). É claro que essa é uma exigência mínima, porque o que deveríamos fazer é cumprir a constituição.

Há muito que a legislação brasileira não reconhece mais o direito de propriedade da terra mas a sua função social, que significa que um pedaço de terra é uma unidade produtiva, ou seja, deve produzir alimentos ou seu dono não pode exigir a propriedade sobre a mesma. Ainda assim, a força desta minoria é tão grande que a própria lei não é aplicada. Tribunais crivados de latifundiários ou de amigos deste seleto grupo de ricos que se acham “donos do Brasil” insistem em interpretar a constituição de acordo com suas conveniências e a criminalizar os movimentos que lutam pela terra.

No entanto, como a constituição do país prevê o direito de produzir, de ter um pedaço de terra que cumpra com sua função social, os movimentos sociais não fazem mais que exigir que se cumpra a lei. Isso os legitima sim a ocupar, resistir e produzir. Mas, para além da lei, a legitimidade e necessidade de sua luta se estriba num direito humano fundamental: o direito a vida; deles e de todos os brasileiros. Porque, como revelou o censo 2006, se não fosse a pequena propriedade familiar e a importação de alimentos (um absurdo para um país como o Brasil) os brasileiros passariam fome.

A sociedade brasileira se quer deixar para trás o desonroso título de país com o quadro de segunda maior concentração da propriedade fundiária em todo o planeta (atrás apenas do Paraguai) e caminhar para uma democracia de verdade, precisa dar um basta a estes privilegiados. É urgente que se estabeleça um limite do tamanho máximo da propriedade rural e que se assente, pelo menos, as famílias acampadas.


* Professor de Filosofia da Rede Municipal de Porto Alegre; Mestre em Filosofia política pela UFMG e aluno do PPG em Filosofia da UNISINOS.

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Referências:

ALMEIDA, Cássia, LINS, Letícia, PINTO, Anselmo Carvalho. Brasil: muita terra na mão de poucos. Publicado jornal O Globo 01/10/2009. Disponível on line:

http://www.biodiversidadla.org/content/view/full/52225 acessado em 08/10/2009

BENJAMIN, Cesar. Impactos do latifúndio. Disponível on line:http://www.ecodebate.com.br/2009/10/06/impactos-do-latifundio-artigo-de-cesar-benjamin/ acessado em 08/10/2009.

BRASIL. Censo Agropecuário 2006. IBGE. Disponível on line:http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/economia/agropecuaria/censoagro/2006/agropecuario.pdfacessado em 05/10/2009

BRASIL. Agricultura Familiar no Brasil e o Censo agropecuário 2006. Ministério do Desenvolvimento Agrário. Disponível on line:http://www.mda.gov.br/arquivos/2246422214.pdf acessado em 05/10/2009

GIRARDI, Eduardo Paulon. Atlas da questão agrária brasileira. Disponível on line:http://www4.fct.unesp.br/nera/atlas/ acessado em 05/10/2009.

INFÂNCIA de paulo mendes campos (Belo Horizonte, 28 de fevereiro de 1922 — Rio de Janeiro, 1 de julho de 1991) / rio de janeiro

Infância

Há muito, arquiteturas corrompidas,

Frustrados amarelos e o carmim

De altas flores à noite se inclinaram

Sobre o peixe cego de um jardim.

Velavam o luar da madrugada

Os panos do varal dependurados;

Usávamos mordaças de metal

Mas os lábios se abriam se beijados.

Coados em noturna claridade,

Na copa, os utensílios da cozinha

Falavam duas vidas diferentes,

Separando da vossa a vida minha.

Meu pai tinha um cavalo e um chicote;

No quintal dava pedra e tangerina;

A noite devolvia o caçador

Com a perna de pau, a carabina.

Doou-me a pedra um dia o seu suplício.

A carapaça dos besouros era dura

Como a vida — contradição poética —

Quando os assassinava por ternura.

Um homem é, primeiro, o pranto, o sal,

O mal, o fel, o sol, o mar — o homem.

Só depois surge a sua infância-texto,

Explicação das aves que o comem.

Só depois antes aparece ao homem.

A morte é antes, feroz lembrança

Do que aconteceu, e nada mais

Aconteceu; o resto é esperança.

O que comigo se passou e passa

É pena que ninguém nunca o explique:

Caminhos de mim para mim, silvados,

Sarçais em que se perde o verde Henrique.

Há comigo, sem dúvida, a aurora,

Alba sangüínea, menstruada aurora,

Marchetada de musgo umedecido,

Fauna e flora, flor e hora, passiflora,

.

Espaço afeito a meu cansaço, fonte,

Fonte, consoladora dos aflitos,

Rainha do céu, torre de marfim,

Vinho dos bêbados, altar do mito.

Certeza nenhuma tive muitos anos,

Nem mesmo a de ser sonho de uma cova,

Senão de que das trevas correria

O sangue fresco de uma aurora nova.

Reparte-nos o sol em fantasias

Mas à noite é a alma arrebatada.

A madrugada une corpo e alma

Como o amante unido à sua amada.

.

O melhor texto li naquele tempo,

Nas paredes, nas pedras, nas pastagens,

No azul do azul lavado pela chuva,

No grito das grutas, na luz do aquário,

No claro-azul desenho das ramagens,

Nas hortaliças do quintal molhado

(Onde também floria a rosa brava)

No topázio do gato, no be-bop

Do pato, na romã banal, na trava

Do caju, no batuque do gambá,

No sol-com-chuva, já quando a manhã

Ia lavar a boca no riacho.

Tudo é ritmo na infância, tudo é riso,

Quando pode ser onde, onde é quando.

.

A besta era serena e atendia

Pelo suave nome de Suzana.

Em nossa mão à tarde ela comia

O sal e a palha da ternura humana.

O cavalo Joaquim era vermelho

Com duas rosas brancas no abdômen;

À noite o vi comer um girassol;

Era um cavalo estranho feito um homem.

Tínhamos pombas que traziam tardes

Meigas quando voltavam aos pombais;

Voaram para a morte as pombas frágeis

E as tardes não voltaram nunca mais.

Sorria à toa quando o horizonte

Estrangulava o grito do socó

Que procurava a fêmea na campina.

Que vida a minha vida! E ria só.

.

Que âncora poderosa carregamos

Em nossa noite cega atribulada!

Que força do destino tem a carne

Feita de estrelas turvas e de nada!

Sou restos de um menino que passou.

Sou rastos erradios num caminho

Que não segue, nem volta, que circunda

A escuridão como os braços de um moinho.

.

PAULO por hamilton alves / florianópolis

Não sei por que motivo tenho para mim que, se tivesse conhecido ou tido no mínimo um leve contato com o cronista e poeta Paulo Mendes Campos, nos  iríamos de imediato reconhecer como duas pessoas com grandes afinidades. Pode ser que me engane, como tantas vezes se dá o caso.

Essa afinidade se revelaria principalmente pelo fato de sermos ambos cronistas (e poetas). Não me julgo à altura de Paulo, que está entre os dez melhores cronistas brasileiros que conheço. Para ficarmos nessa conta. O mesmo diga-se com respeito à poesia. Paulo era um poeta com algum nome. Quando foram julgados os dez melhores poemas do mundo e os dez nacionais, lembro-me que Suassuna, lá de Recife, levantou a voz para protestar pela não inclusão de um poema de Paulo entre os dez poemas brasileiros mais votados. Fui tirar a prova dos noves e reconheci que alguma razão, sem dúvida, cabia a Suassuna. O poema de Paulo, com o título “Infância”, bem merecia sua inclusão entre os dez.

Paulo (não é segredo para ninguém) gostava de um copo. “Meu reino por um trago” – era capaz de ter dito algum dia. Ou de ter alguma vez se expressado assim, sedento que sempre andava. A ponto de certa ocasião ter chegado numa cidade do interior e, no hotel, perguntou ao gerente onde àquela hora (era em torno de dez da noite) se poderia encontrar um bar. O gerente disse-lhe que naquela altura seria difícil descobrir algum bar aberto. Mas Paulo sempre acreditou que, em qualquer lugar do mundo (como o revelou numa bela crônica), sempre há de se encontrar um, independente da hora que seja..

Resoluto, com um amigo, partiu para encontrá-lo.

Andaram um bocado por ruas ermas da cidadezinha. Os dois, Paulo e o amigo, que empreenderam essa busca, estavam a ponto de desistir. Até que, súbito, notaram que, ao longe, uma janela se iluminava.

Para lá, esperançosos, seguiram.

Encontraram o bar redentor, confirmando a crença de Paulo que, mesmo a horas mortas, pode-se encontrar um bar aberto. Lembrou-se do verso do poeta:

“Bendito o bar aberto depois da meia-noite”.

Hoje, não lhe seria mais (como em outros tempos) um parceiro para lhe acompanhar num copo. Minha dose já foi devidamente consumida a seu tempo.

Mas lhe seria companheiro para grandes e infinitas tertúlias sobre poesia e grandes poetas. Falar desse tema sempre interessante de crônicas e de cronistas. E de como que ele mesmo consegue produzir uma. Quais os condimentos de uma crônica poderia me dizer num encontro desses.

Nunca mais o encontrarei. Estive tantas vezes no Rio. Nunca me preocupei de ir aos lugares que costumava frequentar, tal o modo como consumia com outros amigos minhas curtas temporadas cariocas.

Paulo tinha toda a pinta de quem presumivelmente iria com a minha cara no primeiro instante em que batêssemos um com o outro em alguma esquina da vida.

Curto-o lendo seus poemas e suas crônicas, dos quais tenho três ou quatro volumes.

Nada mais poderá ser feito para redimir esse desencontro que tanto poderia se constituir de uma imorredoura lembrança de um dos bons poetas e cronistas brasileiros.

DÚVIDAS QUE ASSALTAM por alceu sperança / cascavel.pr

Por vezes, alguma curiosidade sobre coisas estranhas que acontecem neste País nos assalta. Há mesmo ocasiões em que a curiosidade não só te assalta como te manda ficar quieto pra não levar chumbo.Alceu sperança  - AJC (1)

Sempre vemos no jornal notícias de jovens baleados e esfaqueados, mas nunca se diz por que os misteriosos assassinos atiram nas vítimas. Você não fica sabendo a causa dos tiros ou facadas, mesmo quando o assassino é preso ou condenado. Pior ainda quando foge.

Outra curiosidade que nos assalta e ameaça é também social: para onde vão os invasores despejados de fundos de vale e de imóveis urbanos ociosos?

Como não somos informados sobre a causa do jovem se tornar alvo de balas e facas, poderíamos pensar que eles são atirados e esfaqueados apenas porque são jovens.

E aí se especularia: são alvejados para diminuir as filas de desempregados, por que não pagam o “transador” pelo crack ou porque tentam namorar gurias já comprometidas?

Quanto aos abusados que teimam em ter direito a morar em nossas ricas cidades, com tantos imóveis para alugar e vender (quem não compra também não tem dinheiro para alugar), eles são enxotados pela polícia a chamado dos proprietários. Ou da Prefeitura, quando se trata de lote público.

Nesse caso, a gente até vem a saber que eles de fato são expulsos, mas raramente se vê esses descarados invasores de terrenos sendo empurrados para dentro de um dos imóveis já disponíveis e vagos ou de construções em áreas de adensamento – Plano Diretor é pra quê, afinal?

Volta e meia, por falta de onde morar, os sem-tetos se arriscam a erguer casas ou barracos nas áreas de fundo de vale, pois é mais difícil levar corridão de gente da Prefeitura que se diz “socialista” ou “social-democrata” (ninguém mais se assume como fascista ou direita, coisa estranha!) do que de especulador imobiliário.

Há milhares morando onde não morava ninguém, em caráter precário, pois a ocupação é irregular. Como ninguém lhes regula um lugar regular onde ficar, acabam degradando os fundos de vale com aquele “popular” modo de viver: sem torneiras, bicos de luz, sanitários com botão de pressão, ficam atirados nesses fundões.

E é ali que os “bons cidadãos” despejam porcarias oleosas e plásticas de todos os tipos. Somadas às próprias porcarias dos pobres-diabos ali estabelecidos, elas criam um caldo de cultura bem inculto e doentio.

Claro que a Prefeitura não está alheia a isso, pois vai lá e expulsa. O problema é para onde os pés-rapados vão quando são rapidamente expulsos pelas nossas zelosas autoridades.

Será que os excluídos andam combinando algo no breu das tocas? No caso de uma “invasão relâmpago” em Cascavel, num sábado, a combinação ficou clara: uma família, com a ajuda de várias pessoas, começou a erguer uma casinha numa área pertencente à Prefeitura.

O mutirão acelerado pretendia levantar a casa e criar uma situação de fato, mas a Guarda Municipal agiu rapidamente e acabou com a festa.

O argumento para escorraçar a família é que ela não vivia na desgraça absoluta, pois pagava aluguel. Daí concluímos que se estivessem mesmo na M total, a invasão seria autorizada.

Ou então que quem paga aluguel é criatura feliz, sem direito a querer casa própria. E no vai e vem da nossa rica vida metropolitana, continuamos sem saber por quê os jovens são assassinados e para onde vão os sem-tetos depois de enxotados dos fundos de vale.

Rumorejando (Começou a disputa política. Os candidatos já estão apelando. Quem votar para deputado ou senador pra ir pro inferno ou purgatório estará uma passagem comprando). – por juca (josé zokner) / curitiba

PEQUENAS CONSTATAÇÕES, NA FALTA DE MAIORES.

Constatação I

Tem gente que encobre

De já ter sido nobreJUCA - Jzockner pequenissima (1)

Quando descobre

Que não é mais rico, é pobre.

Constatação II

Enquanto ela rebolava

Num sensual saracoteio,

Por causa de comentários libidinosos

Que se referiam aos seus dotes apetitosos,

O marido, vexado, incomodado,

Se meteu num sururu

Onde muita rasteira,

Muita bordoada rolava,

Por baixo, por cima e pelo meio,

Além de golpes de capoeira,

Que doía mais que rabo-de-tatu.

Coitado!

Constatação III

Dentre os muitos e-mail’s recebidos após a publicação de “O terror que matura”, no dia 11 de outubro, transcrevo do meu amigo e colega Abelardo Perseke Junior:

Juca:

Deixe o futebol, esta loucura,

Que torna em vinagre a água mais pura

Que endeusa vagabundos de feroz feiúra,

E viva a poesia, que esta sim, em ti perdura,

Pois este teu poema, de alvear secura,

Foi para mim, serena criatura,

Motivo de prazer, que dura

A Eternidade que tanto procura…

Abelardo, e, parabéns ( e pêsames pelo Paranito)”.

Constatação IV

E já que falamos no assunto, como disseram os poucos neurônios sobreviventes deste locutor que vos fala, digo digita: “O terror que matura, com as 166 rimas em ura, contadas pelo Amigo Sérgio Antunes de Freitas, no seu site www.reforme.com.br/kitnet, pra nós, pobres neurônios, foi uma radical e sofrida aventura. Hurra! Hurra! Quer dizer, Ufa! Ufa!”

Constatação V

Foi a massa de ar quente

Que disse pra frente fria,

Demonstrando alegria:

“Vamos criar uma chuvinha

Grossa ou fininha

Ou se você quiser um furacão

Com relâmpago e trovão”?

Constatação VI

Data vênia, como diriam nossos juristas, mas Rumorejando acha que a garota que faz a publicidade, na televisão, como funcionária da Caixa Econômica Federal, na cidade de Califórnia, no meu estado, o Paraná, merece um prêmio pelo seu desempenho. Parabéns!!! Rumorejando, sem ter bola de cristal, prevê um futuro brilhante como atriz pra “Mari” ou “Marilyn”.

Constatação VII

Foi uma picuinha,

Uma questiúncula

Ou uma boutade

A pergunta pro rei

Da magra rainha:

Perdoai-me, Vossa Majestade,

Segundo eu sei,

Não deveis

Esquecer

Que os reis

Não devem cometer

Nunca um pecado,

Mormente o da gula.

Coitado!

Constatação VIII (Ah, esse nosso vernáculo).

Os noivos para cortarem o bolo do casamento, cortaram um doce.

Constatação IX (De conselhos úteis).

Não deve ter uma namorada

Quem sofre de ronco na barriga,

Pois pode assustar a coitada

E o bem-bom redundar em briga.

Constatação X

Ríspido, ele foi considerado,

Apenas por falar mal da sogra

Ao considerá-la não mais que uma ogra.

Ele só havia dito a verdade. Coitado!

Constatação XI

Não tem algum sentido

Discutir com a sua Maria

E depois ficar deprimido

Afinal não se briga com a chefia…

Constatação XII (Ainda sobre o gol vergonhoso do meu Paraná).

Considerou a derrota do seu time um baita revés.

E pior, o gol validado tinha sido com a mão.

Comentou: “Talvez eu não tenha razão,

Isso que se chama meter as mãos pelos pés”.

Constatação XIII (Dúvida crucial, com rima não apelativa e passível de mal-entendido).

O rechonchudo

E a rotunda

Rolaram e fizeram de tudo,

Merecendo uma tunda?

Constatação XIV

Quando um médico começa a ficar enfermo (Rico fica enfermo; pobre, doente), ele perde a credibilidade dos seus pacientes ou estes consideram a máxima de que “casa de ferreiro, espeto de pau”.

Constatação XV

Rico é ilibado; pobre, censurável.

Constatação XVI (De um pseudo-soneto).

O condenável caçador de dotes

Que vivia até com puídas calças

Recebeu,do pai da noiva, potes

De uma bolada de notas falsas.

A atitude fez nele um ressentimento,

Mas como a noiva era muito querida

Pesou o custo/benefício do casamento

E pensou: “Vamos enfrentar a nova vida”.

Aí, acabou engolindo o fel do veneno.

Sempre acaba existindo uma boa mulher,

Atrás de um homem grande ou pequeno.

Rejeitou do sogro uma oferta de emprego

Que disse que trabalhar se faria mister.

“Afinal, tenho que preservar o meu sossego”.

Constatação XVII

Quem é bitolado só vislumbra uma única solução, ou nenhuma, diante de um problema, mesmo que neste haja inúmeras variáveis.

Constatação XVIII

Diz a sabedoria popular que “quem não chora, não mama”. Já no caso de político, chorando ou não, mama…

A CARA DA OSTRA – por sergio da costa ramos / florianópolis

SÉRGIO DA COSTA RAMOS 1A Feira da Ostra começa, mais uma vez, a provar aquela verdade gastronômica, segundo a qual o feio pode, muito bem, ser o gostoso. Cá pra nós, como dizem os manezinhos e olhando bem uma ostra na sua cara , com uma franqueza que descreva só a aparência, não o sabor:

– É bicho feio…

Digamos que o molusco, mais uma vez na vitrina, com a inauguração da Fenaostra, mereça a defesa apaixonada de algum apaixonado gourmet – e que esse admirador sustente gloriosa argumentação, contra os impropérios de algum serrano adepto das carnes vermelhas, tão irresistíveis, mas nem sempre belas para o sentido da visão.

– A ostra – começaria o fã das conchas premiadas – é um coquetel de proteínas maravilhoso. Um verdadeiro e saudável “drinque do mar”…

O lageano, bom bebedor, já se animou:

– Se é bebida…

– A ostra é um organismo vivo e, pode crer, é “hermafrodita”, traz lá no seu epicentro os dois sexos ao mesmo tempo – e por isso se autofecunda.

– O quêêê!? Come a si mesmo?

– É um ser do mar, que se nutre do plâncton. É um presente de Deus, um organismo vivo. Uma “bebida” vital. Nunca comeste uma ostra na vida, homem de Deus?

– Já fui apresentado… Mas tem aquela gosma esbranquiçada e, no meio, uma crosta escura.

– Tem estômago e intestino, é verdade. E um coração, cujos batimentos se pode observar.

– Barbaridade! Prefiro uma picanha, uma maminha, até um matambre! Pelo menos o bicho tá morto e assado! Quem é que gosta de comer o intestino dos outros? Como o caracu, o miolo do boi, o rabo ou o pé de porco. Mas intestino?

– Não se preocupe. Até chegar à sua boca, bem lavada, é mais pura do que água filtrada. Uma concentração de hormônios e vitaminas. Melhor Viagra não tem! Caracu e pé de porco é pra baixo! Ostra é pra cima!

– Sei não. Só de olhar uma já me dá um negócio aqui no grugumilho. Já não me arrisco a ir com a, digamos, Letícia Sabatella, pr’um Motel…

– Pois vá sem medo. E ofereça ostras pra ela. Dará uma prova de sofisticação e bom gosto. Leve umas ostras Bienville. Ou uma Rockfeller. Levanta até defunto. Quando houve uma crise de escargots nos EUA, anos 1920, os ricos e famosos adotaram a Rockfeller em Nova York, fartando-se de ostras do Maine na Central Grand Station.

– Prefiro viajar para o Texas e comer uma costela de zebu. Um baby-beef mal passado. Ou uma picanha ao ponto, pra lá de buena!

– Pois é. É por essas e outras que o mundo está ficando obeso. É a gordura da carne animal. As ostras têm calorias, sustentam, mas não dão barriga. E fortalecem os músculos! Principalmente “aquele”!

– Estou quase tentado a provar… Como é que se come esse bicho?

– Dez mil maneiras. Cozida em ensopado, como moqueca. Ou frita, grelhada, temperada com ervas, alho e azeite de oliva. Mas a minha preferida é a “natural”. Cruinha. Em cima de um colchão de gelo, pingada no suco de limão. E regada a um vinho branco Muscadet, geladinho. Melhor do que isso, só “aquilo”!

EDUARDO SUPLICY, senador da república, passeia de CUECAS no senado federal

este senador já foi tido como homem sério, bem intencionado com as coisas relativas à população brasileira, teve preocupações internacionais, foi compenetrado em seus mandatos anteriores, etc. etc. e etc. mas, de algum tempo para cá vem cometendo diversos deslizes na maneira de votar (politicamente), nos discursos, nas atitudes em plenário e fora dele. agora culminou com esta pose e passeio pelo senado da república: de cuecas ! ridículo ! desrespeitoso para com a nação ! usar o cargo para tal desfile é um escárnio contra a instituição ! ou estará todo o senado da república de CUECAS ? será que ele quis mostrar que não leva dolares em seu suporte testicular? ou estará a instituição em completa decadência em absoluta sintonia com a senilidade dos seus pares? lamentavel senador eduardo suplicy, lamentavel.

jb vidal

suplicy

o senador da república brasileira EDUARDO SUPICY “desfilou” pelos corredores do senado federal, em meio ao público, nesta quinta-feira (16/10/09) com uma CUECA vermelha, como se pode ver, jogando sorrisos para todos os lados. demência ? senil-jovial ? protesto ? agredir seus eleitores por pirraça? do “nobre” senador não espero outra atitude que não a renúncia ao cargo. é o mínimo, entrar para a história de cuecas.

ESCRAVOS DO SISTEMA por wellington lisboa de sena / joão pessoa

Ao longo dos séculos o ser humano foi domesticado para viver dentro de um paradigma econômico totalmente equivocado. A pirâmide das necessidades de Maslow refrata inúmeras necessidades, das mais básicas até as mais sofisticadas, que segundo prega a moderna economia diz que o homem possui ilimitadas necessidades. Isso não é bem verdade. Terá o homem que trabalhar toda a vida para satisfazer “necessidades” aparentes em termos de bens e serviços? – Há pessoas que ocupavam elevados cargos da sociedade, eram enormemente bem pagas e tinham um status-quo absoluto quando abandonaram este tipo de vida e foram viver uma rotina totalmente diferente, seja no campo morando numa casinha rústica, seja numa praia isolada até sem linha telefônica. E estas pessoas, ao serem interpeladas sobre sua satisfação atual com o padrão de vida que deixaram e estão a viver, invariavelmente responderam que não se arrependeram nenhum pouco e que sentem-se até mais realizadas. Será que estas pessoas subiram a pirâmide das necessidades e desceram em sentindo inverso e, com essa atitude de vida, deixaram de serem felizes ou de viver plenamente?; A economia sempre pregou que os recursos (bens e serviços) são limitados enquanto que as necessidades humanas são ilimitadas. Desse pressuposto podemos concluir que uma economia baseada em dinheiro, instrumento utilizado para adquirir bens e serviços, será sempre uma doutrina onde haverá os mais beneficiados e os menos beneficiados, os incluídos, os excluídos, os que prosperam e os que, indiscutivelmente, sucumbem. E quem vai produzir estes bens e serviços? Os próprios consumidores, ou seja, o povo. Esse é um circuito medíocre mas bem interessante; o trabalhador, mau remunerado, trabalha todos os dias durantes os melhores 35 anos de sua vida para sua própria subsistência. Daí o estereótipo: “o homem é o que ele faz” (uma alusão à aparência social, o que veste e o que possui). Do valor em dinheiro que recebe ele utiliza para adquirir os bens e serviços que nas mais das vezes são mais valiosos do que o que ele produz (por exemplo: um funcionário de uma empresa de TV produz um aparelho de 32” que custa mais do ele recebe em termos monetários como salário mensal) e ainda terá que pagar imposto sobre a renda (descontados em folha), previdência social (descontado em folha), etc. além dos impostos sobre os bens e serviços que ele adquire.

Este é um ciclo infernal, aterrorizador e escravizante. Nossa geração que nasceu, cresceu e está a viver dentro deste paradigma de comportamento não tem a menor idéia do que é estar do lado de fora. Fomos, desde criança, ensinados pelos nossos pais a sempre obedecer nossos superiores, acatar ordens e seguir como cordeirinhos sem reclamar para não sermos punidos (pois há muitos desempregados que gostariam de estar em nosso lugar). A busca por um “lugar ao sol” e “estabilidade financeira” levam as pessoas a praticar coisas absurdas na vida em sociedade. A competição, a inveja, a acumulação de bens e determinados padrões sociais que são impostos acabam por escravizar completamente as pessoas, forçando-as a deixarem de ser “elas mesmas” no que de melhor elas têm como virtudes e vocação. E quando alcançamos o “emprego dos sonhos” continuamos sendo dependentes do sistema tão mais intensamente quando éramos jovens sonhadores sem compromisso. Sonhos que tínhamos na infância são paulatinamente massacrados e pulverizados no decorrer dos anos pela necessidade de “independência” que somos levados a ter numa sociedade puramente materialista, racional e estagnante. Mas voltando ao assunto das necessidades, gostaria de frisar um outro aspecto: a lei da escassez. A lei da escassez é uma lei férrea e incontornável, que reflete a natureza limitada dos meios disponíveis em relação aos fins que as pessoas tem em suas ações. A economia tem como fundamento o entendimento da noção de escassez. Tecnicamente, escassez é definida como o caso onde num preço nulo a oferta de um bem é menor do que a demanda. Um bem abundante é assim classificado quando num preço nulo sua oferta ainda é superior a procura. A escassez submete os homens ao seu jugo desde sempre, levando-os a se organizarem e a estabelecerem entre sí relações a fim de enfrentá-la ou, melhor falando, conviver com ela atenuando-lhe o quanto possível a severidade. A divisão do trabalho e todas as instituições de natureza economica surgiram para melhor alocar os meios escassos em relação a vários fins possíveis. Quando há escassez os agentes tem que decidir como alocar e usar estes recursos. Daí onde surgem as guerras. Quem governa determina aos “escravos” que lutem e deem suas vidas para a garantia da prosperidade dos “patrões” e a continuidade da economia reinante, com suas moedas, seus bancos e seu jugo escravizador.

A escassez esta intimamente relacionada com a lei da oferta e da procura. A escassez, assim como várias premissas do pensamento econômico dominante, são questionadas por autores como Hazel Henderson. A escassez é refutada em vista da inesgotabilidade da capacidade humana de produzir inovações tecnológicas e da utilização de energias renováveis. Há inúmeros recursos não escassos na natureza que poderiam melhor servir a toda humanidade e reutilizados eficazmente. Tal pressuposto é conveniente em particular para as teorias que priorizam a concorrência, a acumulação individual e a dominação. Talvez seja difícil imaginar uma sociedade sem o jugo escravizador do dinheiro, onde as pessoas ao invés de trabalhar durante anos para subsistência e aquisição de bens e serviços, pudesse produzir o melhor de sí para sua elevação moral, cultural e intelectual. Seria o caso de um artesão que fabrica peças de cerâmica que, vivendo numa sociedade livre de bancos, dinheiro em moeda e especulação, teria como destino o fruto de seu trabalho para trocar com outra pessoa ou mesmo presentear a uma pessoa conhecida ou parente. O horário de trabalho seria planejado conforme sua vontade, sobrando tempo para dedicar à educação dos filhos, por exemplo. Não haveria no mundo assaltos, pois todos poderiam viver tranquilamente sem necessidade de roubar do próximo; não haveria dívidas! Por que não teria a existência do dinheiro como elemento de troca; não haveria fome, pois os bens inesgotáveis da Terra seriam cultivados a tal ponto que a palavra de ordem seria “fartura” para todos; não haveria desemprego, pois todos poderiam trabalhar com mais ânimo de coração e felicidade, pois não haveriam empregados e sim colaboradores-patrões de seus próprios empreendimentos; não haveria guerras nem revolução, pois todos respeitariam o próximo como a sí mesmos e a riqueza seria distribuída de forma equânime. Talvez esse seja um mundo perfeito em teoria, caso não existissem a inveja, o egoísmo e a ambição características do ser humano. Mas isso poderia ser superado caso esta doutrina não tivesse sido levada à cabo por uma minoria que, séculos após séculos, através da força brutal e da lavagem cerebral (através da mídia controlada) vêm realizando nas gerações de pessoas de todos os países. Os que se levantam contra o sistema dominante são severamente dizimados (Jesus o foi, Gandhi, Martin Luter King, etc.) durante a história, também cheia de mentiras, que nos foi contada. Toda a nossa vida atual é muito mais ilusão do que realidade. Infelizmente somos joguetes de uma caricata vida social que não tem lógica. Como o próprio Jesus pronunciou em passagem dos evangelhos: “Daí a César o que é de César”. O dinheiro só tem valor para quem é escravo do dinheiro. É a força motriz deste paradigma cheio de engrenagens que é a economia. Sair dela é um lema impensado para muitos.


ELEGIAS DE DUINO de rainer maria rilke / alemanha (escritas na itália)

PRIMEIRA ELEGIA

Quem se eu gritasse, me ouviria pois entre as ordens
Dos anjos? E dado mesmo que me tomasse
Um deles de repente em seu coração, eu sucumbiria
Ante sua existência mais forte. Pois o belo não é
Senão o início do terrível, que já a custo suportamos,
E o admiramos tanto porque ele tranqüilamente desdenha
Destruir-nos. Cada anjo é terrível.
E assim me contenho pois, e reprimo o apelo

De obscuro soluço. Ah! A quem podemos
Recorrer então? Nem aos anjos nem aos homens,
E os animais sagazes logo percebem
Que não estamos muito seguros
No mundo interpretado. Resta-nos talvez
Alguma árvore na encosta que diariamente
Possamos rever. Resta-nos a rua de ontem
E a mimada fidelidade de um hábito,
Que se compraz conosco e assim fica e não nos abandona.
Ó e a noite, a noite, quando o vento cheio dos espaços
Do mundo desgasta-nos o rosto -, para quem ela não é /sempre a desejada,
Levemente decepcionante, que para o solitário coração
Se impõe penosamente. Ela é mais leve para os amantes?
Ah! Eles escondem apenas um com o outro a própria sorte.
Não o sabes ainda? Atira dos braços o vazio
Para os espaços que respiramos; talvez que os pássaros
Sintam o ar mais vasto num vôo mais íntimo.

Sim, as primaveras precisavam de ti.Muitas estrelas
Esperavam que tu as percebesses. Do passado
Erguia-se uma vaga aproximando-se, ou
Ao passares sob uma janela aberta,
Um violino se entregava. Tudo isso era missão.
Mas a levaste ao fim? Não estavas sempre
Distraído pela espera, como se tudo te ansiasse
A bem amada? (onde queres abrigá-la
Então, se os grandes e estranhos pensamentos entram
E saem em ti e muitas vezes ficam pela noite.)
Se a nostalgia te dominar, porém, cantas as amantes; muito
Ainda falta para ser bastante imortal seu celebrado sentimento.
Aquelas que tu quase invejaste, as desprezadas, que tu
Achaste muito mais amorosas que as apaziguadas. Começa
Sempre de novo o louvor jamais acessível;
Pensa: o herói se conserva, mesmo a queda lhe foi
Apenas um pretexto para ser : o seu derradeiro nascimento.
As amantes, porém, a natureza exausta as toma
Novamente em si, como se não houvesse duas vezes forças para realizá-las.
Já pensaste pois em Gaspara Stampa
O bastante para que alguma jovem,
A quem o amante abandonou, diante do elevado exemplo
Dessa apaixonada, sinta o desejo de tornar-se como ela?
Essas velhíssimas dores afinal não se devem tornar
Mais fecundas para nós? Não é tempo de nos libertarmos,
Amando, do objeto amado e a ele tremendo resistirmos Como a flecha suporta à corda, para, concentrando-se no salto Ser mais do que ela mesma?
Pois parada não há em /parte alguma.

Vozes, vozes.Escuta, coração como outrora somente
os santos escutavam: até que o gigantesco apelo
levantava-os do chão; mas eles continuavam ajoelhados,
inabaláveis, sem desviarem a atenção:
eles assim escutavam. Não que tu pudesses suportar
a voz de Deus, de modo algum. Mas escuta o sopro,
a incessante mensagem que nasce do silêncio.
Daqueles jovens mortos sobe agora um murmúrio em direção /a ti.
Onde quer que penetraste, nas igrejas
De Roma ou de Nápoles, seu destino não falou a ti, /tranqüilamente?
Ou uma augusta inscrição não se impôs a ti
Como recentemente a lousa em Santa Maria Formosa.
Que eles querem de mim? Lentamente devo dissipar
A aparência de injustiça que às vezes dificulta um pouco
O puro movimento de seus espíritos.

Certo, é estranho não habitar mais terra,
Não mais praticar hábitos ainda mal adquiridos,
Às rosas e outras coisas especialmente cheias de promessas
Não dar sentido do futuro humano;
O que se era, entre mãos infinitamente cheias de medo
Não ser mais, e até o próprio nome
Deixar de lado como um brinquedo quebrado.
Estranho, não desejar mais os desejos. Estranho,
Ver tudo o que se encadeava esvoaçar solto
No espaço. E estar morto é penoso
E cheio de recuperações, até que lentamente se divise
Um pouco da eternidade. – Mas os vivos
Cometem todos o erro de muito profundamente distinguir.
Os anjos (dizem) não saberiam muitas vezes
Se caminham entre vivos ou mortos. A correnteza eterna
Arrebata através de ambos os reinos todas as idades
Sempre consigo e seu rumor as sobrepuja em ambos.

Finalmente não precisam mais de nós os que partiram cedo,
Perde-se docemente o hábito do que é terrestre, como o /seio materno
suavemente se deixa, ao crescer.Mas nós que de tão grandes
mistérios precisamos, para quem do luto tantas vezes
o abençoado progresso se origina – : poderíamos passar /sem eles?
É vã a lenda de que outrora, lamentando Linos,
A primeira música ousando atravessou o árido letargo,
Que então no sobressaltado espaço, do qual um quase /divino adolescente
escapou de súbito e para sempre, o vazio entrou
naquela vibração que agora nos arrebata e consola e ajuda?

.

traduções do poeta paraense Paulo Plínio Abreu
publicadas no jornal “
Folha do Norte” entre os anos
de 1946 e 1948, realizadas em parceria com o
antropólogo alemão
Peter Paul Hilbert.

ACOMPANHE O RITMO DO DIA por eloi zanetti / curitiba

Quando gostava de usar gravatas, mantinha um estoque de umas duzentas e cumpria um ritual todas as manhãs. Após o banho e a barba, ao me vestir, ia à janela e olhava para o céu, para o tempo e conforme eu me sentia no momento, escolhia a gravata do dia. Dava sempre certo. Havia gravatas para dias escuros, primaveris, ensolarados, tristes, festivos e, principalmente, para os dias de grandes momentos. Hoje já não uso mais gravatas com tanta assiduidade, elas ficam esperando, quietinhas, acho que até suplicando, me use, me use. Aquele era um ritual bom, pois me ajudava no ajuste do dia a ser vivido, uma espécie de pontapé inicial da jornada. 

Os romanos tinham uma frase sábia sobre os dias: carpe diem – que quer dizer aproveite o dia. Poucos de nós sabemos viver com sabedoria os dias que temos pela frente. Ficamos enclausurados em reuniões, amuados por questões mesquinhas, de beiço caído porque brigamos com a mulher, amargurados por desejos não realizados ou pressionados por compromissos inadiáveis. O tempo vai passando e a soma dos dias acumulados para trás vai se tornando maior do que a soma daqueles que ainda temos a viver. Quem sabe? 

Percebi que com os dias o trato tem que ser o seguinte: adapte-se ao ritmo apresentado, não queira forçar a barra, porque não vai dar certo. Para os dias lentos e agonizantes puxe o freio de mão e vá devagar. Para os dias de sol, saia para o jardim, dê um passeio com o cachorro, cuide das plantas, vá buscar as crianças na escola. Para os dias chuvosos, fique mais introspectivo, vá ler um livro ou simplesmente dormir. Para os dias de outono, olhe para o céu, curta o calorzinho da tarde e encante-se com as cores do poente. Para os dias escaldantes, alimente-se de maneira frugal, durma depois do almoço e não saia na hora de maior calor. Para os dias tumultuados, não entre em pânico, fique na sua, observe o burburinho do seu canto e procure não tomar parte dele. Para os dias apressados, acompanhe o ritmo, corra, despache, mas se mantenha dono da situação. Para os dias tristes e melancólicos, entre na tristeza e curta a melancolia. E, como dizem os caboclos, para os dias aziagos, aqueles em que nada dá certo, em que tudo é azar, tenha paciência, não faça mais nada, sente e espere o dia findar. Avançar o sinal será uma péssima ideia. E para os dias de sorte, abuse dela, porque a deusa da fortuna deve estar olhando para você neste momento, se puder jogue na Mega Sena. 

Assim é a vida, tudo tem a sua cadência e nada tem mais ritmo do que um dia depois do outro. Eles sempre foram assim e assim será por todos os séculos e séculos, amém.


* Eloi Zanetti é publicitário, escritor, palestrante e consultor de marketing e comunicação.

Kotscho: “Guerra suja já começou na blogosfera” / são paulo

Um dos jornalistas mais premiados do país, amigo do presidente Lula, Ricardo Kotscho já trabalhou como repórter em várias campanhas eleitorais, participou da Caravana da Cidadania e, em 2003 e 2004, foi secretário de Imprensa da Presidência da República. Ele foi o autor de algumas das melhores frases de efeito durante o segundo período do seminário “O Efeito Obama”, em São Paulo, o 1º Seminário de Estratégia de Comunicação e Marketing, organizado pela George Washington University.

Uma delas, sobre um dos temas principais do evento, a internet. Ele disse que ela será a ‘torcida do Flamengo’, referindo-se à expressão popular sobre a torcida como termômetro da opinião pública. “A internet tornou-se a grande arena pública de debates políticos”, afirmou.

Em relação ao comportamento dos adeptos de cada pré-candidatura à presidência, Kotscho demonstrou-se crítico na campanha que, segundo ele, já começou. “A guerra suja já começou na blogosfera”, afirmou, em referência a informações distorcidas ou exageradas pelos internautas mais engajados.

Por outro lado, o jornalista considera que a internet pode servir também para a democratização – para a lisura na arrecadação de fundos. “Os candidatos podem ficar menos à mercê dos grandes financiadores, que depois sempre cobram a fatura”, disse.

Os demais participantes da mesa foram Antonio Lavareda, Luiz Gonzalez e Marcelo Simões, todos com experiência em campanhas políticas. Lavareda e Gonzalez participaram de várias campanhas do PSDB. Lavareda criticou as restrições na legislação brasileira– que, em alguns casos, diz, “beira o ridículo” (como na proibição de cenas externas na televisão). Simões exaltou a criatividade dos comerciais brasileiros, que, segundo ele, nada devem aos de Obama.

A poeta EUNICE ARRUDA lança seu livro “DIAS CONTADOS” / são paulo

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a poeta EUNICE ARRUDA é colaboradora deste site com sua produção poética; os PALAVREIROS DA HORA lhe desejam o mais amplo sucesso com seu “DIAS CONTADOS”.

DOS CADERNOS DE UMA POETA AO ESTILO DE MISTER HYDE – de vera lúcia kalahari / portugal

Inútil procurar uma solução…É a vida que não tem solução. Nós vamos indo

Levados pelos acontecimentos. Não há outro remédio…

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Não vivas com amargura. A amargura não resolve nada. Nem faça da sua dor um  poema. Será inútil, inútil também. Como tudo.

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É cobardia mas tranquiliza a nossa vil matéria. Achar alguém responsável pelos nossos erros.

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No pedestal da  estátua da glória há sempre essa mistura de ódio e lama que o despeito amassa, com o suor do teu rosto.

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Se não queres perder um amigo, não lhe peças nada.

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Há dias assim mesmo…Dias em que o único acontecimento interessante fosse talvez o fim do mundo….

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O pessimismo não é uma filosofia. Talvez seja apenas a literatura produzida em dia de azedume.

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O céu está completamente azul…Conclusão: A paisagem não interessa .

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É mais fácil crer do que não acreditar. Por isso a vida está cheia de desilusões.

DAN SUL convida:

DanSul2009_Informativo Tango[1]

LEONARDO MEIMES e seus haicais / curitiba

O Guloso

A carne abatida

Ofusca os olhos gulosos.

Campo de batalha

O Maníaco

Se amo, é mão inglesa

Pé esquerdo de coelho, mas no

Fim, zero à esquerda

O Crime

O garoto corre,

Na mão o pão, no rosto o carma:

O riso roubado

O Sintoma

Estouram as mágoas

Embates, intrigas, são os

Sintomas. Anjo Mau…

O Sentido

Chave de um baú sem fim

Palavra que vive solta

Só presa à forma

O Sábio

Chuveiro de mágoas

De ânsias, de sóbria gana.

Absorves? Reclamas?

O Ciclo

Sambas as folhas no

Vivo, vento. Cheira à chuva

A água me embebeda

O Remédio

De portas fechadas

O medo continua porém

Não sinto mais o frio

O Chiqueiro

Botas na lama, no

Marchar exato e diário do

Moço aquartelado

Fique ligado na Internet pela tomada – por roberto soares costa / porto alegre

As surpresas chegam e surpreendem. Aprovadas as regras para transmissão de internet através da rede elétrica, já podemos crer que em pouco tempo milhões de brasileiros terão mais facilidade no acesso à internet. Principalmente para moradores da zona rural, onde a conexão depende de comunicação móvel e da existência de torres de transmissão.

É uma alternativa que pode diminuir a desigualdade e permitir que um público muito maior seja inserido no mundo digital e que faça uso de todas as ferramentas e oportunidades propiciadas neste ambiente. Os custos dessa nova forma de transmissão ainda não foram definidos, mas os testes já estão acontecendo.

O que lamentamos é o fato de que se essa alternativa já era possível e já funcionava em outros países, por que estamos sempre atrasados? Primeiro pagamos pelos péssimos serviços de internet discada, depois pagamos pelo serviço mal prestado pelas empresas de telecomunicações que detêm o monopólio da banda larga. E somente agora, para muitos uma grande surpresa, temos a aprovação da internet banda larga via rede elétrica.

Mas antes tarde do que nunca. A notícia é boa e real. Através de um modem especial, conectado a qualquer tomada da casa, a conexão se dará por meio de cabos de fibra óptica. Não será preciso nenhuma quebra de parede para colocação dos cabos. As velocidades de conexão estão sendo testadas e, em relação à qualidade, pode ser prejudicada se no momento do uso algum outro aparelho doméstico estiver sendo usado. Mas, para evitar isso, basta utilizar um pequeno filtro que o problema já é solucionado. Então o que devemos fazer é comemorar, mais uma vez o Brasil vivendo as tecnologias de primeiro mundo.

Brasileiros de qualquer cantinho poderão conhecer e fazer parte da vida moderna e veloz. A vida online. Onde a informação não tem limites e os conhecimentos estão disponíveis para quem quiser acessá-los. Poderão usufruir também das gratuidades e facilidades oferecidas na rede, sem discriminação ou limitações.

AUTORRETRATO de joão batista do lago / são luis.ma

Como se me parece

Cansativa

Esta caminhada solitariamente

Só com o sol na cabeça

Varando estradas pelas madrugadas

.

Como se me parecem longas

Estradas de precipícios

Entre montanhas de espíritos

Que uivam como lobos de florestas

Encarnadas nas almas dos humanos

.

Como se me parece

Eu

Tristonhos e acabrunhados

Entre sarjetas viscerais

Que promulgam o advento da passagem

.

Como se me parecem

Tudo e todos

Diante do altar dos condenados

À espera da santa hóstia

Que nos conduzirão aos infernos

.

Como se me pareceram

Pedro e Madalena

Diante do sagrado

Prostrados à cruz

O beijo do escárnio final

ATÉ A NOITE ACABAR de otto nul / palma sola.sc


Queria te encontrar

Na lua, na rua,

Em lugares assim

Sem endereço nem fim

Queria te ver de novo

No meio do povo

Queria te olhar, te ver,

Onde possa ser

Te falar, te falar,

Longamente

Sob o fulgor esplendente

Da rua, da lua

Em lugar solitário

Sem ninguém notar

Na rua, na lua,

Sem parar

Queria te amar, te amar,

Até a noite acabar

A ODISSÉIA ou O ERRO DO PAVÃO de solivan brugnara / quedas do iguaçu.pr

O pavão

de olhinhos nervosos

irrequieto bípede

tirou dolorosamente

suas queridas penas

uma a uma

e colou

em folhas de papel sulfite.

Despiu-se de suas jóias

transgrediu o pudor

sentiu frio

ficou só

sua família não agüentou

a verdade nua.

Não satisfeito

regurgitou a pouca quirela

do jantar

e vendo o vômito convulso e amarelo

lembrou-se de Van Gogh

e chorou.

Colou sua bile no sulfite

e com as folhas e penas e vômitos

profissionalmente encadernados,

a pobre ave implume

saiu a procura de editor.

Seria mais fácil, pássaro

achar editor

se deixasse as penas no corpo

e levasse as folhas em branco

profissionalmente encadernadas

sempre

profissionalmente encadernadas.

CHUVA por omar de la roca / são paulo

“Tenho medo de trovões”,ela me confessou,enquanto tomávamos néctar diretamente dos cálices das flores.Estava quente e estávamos sentados num banco suspenso por correntes de ar.”mas anseio pela chuva como anseio pela luz.Mas não aquela garoa gelada que só incomoda e não molha nada,ou molha tudo.Anseio pela chuva forte,com ventos indiferentes e cortantes que penetram em todas as frestas.Quero a chuva forte que me faça ajoelhar para o prazer,que me force a deitar e me penetre profundamente como se eu fosse feita de terra.A chuva que me domine a força e me faça rir enquanto me afoga aos poucos.Que desmanche meus medos como se fossem torrões teimosos,mas me deixe fértil  e preparada.Espalhe as ervas daninhas para que escorram pelo ralo.Deixe a semente plantada para que a planta cresça forte com suas raízes,caule e flores.Que frutos só saberei mais tarde.Que percorra todo o meu corpo com suas línguas rápidas e ávidas e me deixe as pernas bambas, me fazendo rir ou chorar,não importa.Que me mostre o que o numero quatro pode fazer comigo,me sacudindo ,me levantando para fora do chão e depois me colocando suavemente de pé,mais fraca agora ( a chuva ) quase garoa ( a chuva ) gotejando lentamente pelos meus cabelos,peito,coxas e pés, até meu corpo secar.Depois, que eu possa me sentar entre as folhas,vestindo minha túnica de vento,puxando as franjas para cobrir os pés frios.”E eu ,atônito,sem saber o que dizer depois de tanta poesia pluvial,ofereci minha mão.E  eu disse : Joguei a corda para o teu lado do abismo.Você pegou,olhou bem para ela e a deixou cair nas sombras sem entender que eu precisava de você.” Ela me olhou como se não entendesse aonde o que eu disse se encaixava.E riu,um riso de deboche.” Acaso não percebes a proposta que te faço?” Ela disse. E respondi “ Sou fraco e não conseguiria te dominar como desejas que a chuva te faça. Apenas jogo minha corda para mantermos contato e quem sabe achar uma saída juntos.Mas imagino que você queira a plenitude da luz.Que te recorte em tiras,penetre no âmago de teu ser,te fazendo sentir completa.Que te faça rodopiar e dar cambalhotas enquanto  prende teus braços  e te possui cegamente.Ofuscando ate teus próprios sonhos de prazer indo e voltando dentro de ti,indo e voltando enquanto estiras a cabeça para trás e gritas ao vento,explodindo.E abraças a luz e a brisa do mar como abraçastes a tempestade e seus ventos.Com  prazer .E depois te deixe só na escuridão com as gotas de luz secando pelo corpo,enquanto te deitas em folhas secas com tua túnica de  espuma do mar.”Você me olhou,como se olhasse alguém que lia um livro de poesias em voz alta.Como se eu pudesse te dar o que você queria,precisava.” Sou apenas um amante mediano,com pouca chuva e pouca luz.Posso de dar o que posso te dar.Se esperas plenitudes de mim,repito, sou apenas mediano.” Trovejava forte agora,e ela se achegou a mim.Abracei-a como pude e fiz um carinho tímido.Beijei-lhe os cabelos encharcados de chuva e brilhantes de gotas de luz e a tomei delicadamente,como sou,com jeito.Passei as minhas mãos pelo corpo dela,passei os lábios.E a penetrei  sem pressa.Cuidando para que seu prazer fosse antes do meu.Mais uma vez.Até que poucas gotas molhassem sua fronte e refletissem o brilho da Lua no céu.Um reflexo de um reflexo. E choramos juntos por reconhecer nossa pequenez diante do que sonháramos.Um sonho de chuva e luz,de ventos fortes e brisas do mar.Nos sentamos de novo no banco suspenso pelas correntes, ajeitando nossas túnicas imateriais e voltamos a conversar sobre nossos sonhos exaustos,mil vezes sonhados. Admirando a transparência turva da água que caia.

Quem Cortou o Meu Queijo* – por “o ruminante” / belem


Me diz uma coisa, você já teve a oportunidade de ler o livro infantil “Quem Mexeu No Meu Queijo” de Spencer Jonhson? Se leu acredito que percebeu que este clássico da auto-ajuda menospreza totalmente nossa inteligência. Caso não tenha lido, vou te passar a mensagem de forma respeitosa: Mudanças podem ser positivas, quando algum panorama estiver alterando, procure alternativas para seu dia-a-dia, não fique preso a conceitos arraigados que não te permitem ver novos horizontes, você precisa se adaptar. Pronto não precisa mais ler o livro. Tudo bem, eu sei que tem mais detalhes, mas não vale a pena perder tempo com isso.

Conforme um resumo bem básico que achei na internet, o conto ocorre com essa base:

“Os quatro personagens imaginários descritos nesta história os ratos: Sniff e Scurry, e os duendes: Hem e Haw – tem a intenção de representar as partes simples e complexas de nós mesmos, independentemente de nossa idade, sexo, raça ou nacionalidade.

Às vezes podemos agir como Sniff que percebe a mudança logo, ou Scurry que sai correndo em atividade, ou Hem que rejeita a mudança, resistindo-lhe, assim como teme que ela leve a algo pior, ou Haw que aprende a se adaptar a tempo, quando percebe que a mudança leva a alguma coisa melhor !

Quaisquer que sejam as partes de nós que escolhemos utilizar, todos nós dividimos algo em comum: a necessidade de encontrar nosso caminho no labirinto e ser bem-sucedido em períodos de mudanças.”

A mensagem do texto nos é apresentada como uma estórinha para criança, por isso fico chateado com esse tipo de literatura, pois trata as pessoas como se elas não tivessem crescido. Não é que o autor esteja errado em sua opinião (pode até ser que esteja), só não gosto da forma como é passada. Com toda sinceridade, se é para utilizar este livro, eu usaria para ensinar minha filha (nem fudendo), jamais para um adulto.

Não entendo a razão de tanta alarde sobre este livro, pois a mesma mensagem poderia ser passada de forma bem humorada e direta, com exemplos práticos de nossa vida. Se alguém precisa de contos infantis para entender uma mensagem como essa, me desculpem, mas tem algo errado com essa pessoa.

Vocês precisam de um livro para ajudar a entender como se comportar diante de uma mudança drástica e necessidade de adaptação? Leiam “Robson Crusoé” de Daniel Defoe. Um texto inteligente e muito mais interessante que dois duendes e dois ratinhos. Pode ter certeza que você tem senso crítico para ler este livro e encontrar lições para lidar com as mudanças de seu dia-a-dia.

* Só um pequeno desafio (muito pequeno mesmo): a primeira pessoa que explicar corretamente o trocadilho que fiz com o título no post em referência ao título do livro ganha um exemplar de Robson Crusoé. Eu mando direto para casa do vencedor, é garantido!

CONFEDERAÇÃO DAS MULHERES DO BRASIL convida:

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.

Prezadas (os)

É com grande satisfação que enviamos o convite para V.Sª participar do Congresso da Federação das Mulheres do Paraná, com o tema: Trabalho, Igualdade e Independência, no dia 24 de outubro de 2009, no Hotel Caravele, situado a Rua Cruz Machado, 282, Centro, Curitiba/PR.

No ensejo de contarmos com vossa presença, agradecemos.

Atenciosamente,

Gláucia Morelli

Presidenta da Confederação das Mulheres do Brasil

Conselheira do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher

Alzimara Barcelar

Presidente da Federação das Mulheres do Paraná

Diretora da Confederação das Mulheres do Brasil

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HOJE é dia de HELENA KOLODY, homenagem dos PALAVREIROS DA HORA

Arco-Íris

Arco-íris no céu.
Está sorrindo o menino
que há pouco chorou

Sonhar

Sonhar é transportar-se em asas de ouro e aço
Aos páramos azuis da luz e da harmonia;
É ambicionar o céu; é dominar o espaço,
Num vôo poderoso e audaz da fantasia.

Fugir ao mundo vil, tão vil que, sem cansaço,
Engana, e menospreza, e zomba, e calunia;
Encastelar-se, enfim, no deslumbrante paço
De um sonho puro e bom, de paz e de alegria.

É ver no lago um mar, nas nuvens um castelo,
Na luz de um pirilampo um sol pequeno e belo;
É alçar, constantemente, o olhar ao céu profundo.

Sonhar é ter um grande ideal na inglória lida:
Tão grande que não cabe inteiro nesta vida,
Tão puro que não vive em plagas deste mundo.

.
Helena Kolody nasceu em 1912, em Cruz Machado, Paraná, no dia 12 de outubro. Filha de Miguel e Vitória Kolody, passou a infância na cidade catarinense de Três Barras. Em 1926, concluiu o curso de guarda-livro e, no ano seguinte, mudou-se com a família para Curitiba, onde residiu até sua morte. Em 1928, publica seu primeiro poema, “A lágrima”. Em 1931, conclui o curso da Escola Normal Secundária. No ano seguinte iniciou uma brilhante carreira nokolody magistério, paixão que só dividiria com a poesia. Em 1941 publicou a primeira obra, “Paisagem interior”, que seria seguida por outros treze títulos. Já nesta obra de estréia constavam três haikais, algo raro à época. Estava presente em seu projeto poético esta busca, como disse mais tarde, “da síntese para traduzir o pensamento”. Em 2001, foi publicado o livro “Viagem no Espelho e vinte e um poemas inéditos”, pela Criar Edições, de Curitiba, Paraná (PR). Essa edição comemorou os 60 anos da publicação de seu primeiro livro.

A poeta morreu em 15 de fevereiro de 2004.

Outras obras da escritora:

Música submersa (1945)
A sombra no rio (1951)
Vida breve (1965)
Tempo (1970)
Infinito presente (1980)
Poesia mínima (1986)
Ontem, Agora (1991)
Reika (1993)
Caixinha de música (1996)
Poemas do amor impossível (antologia – 2002)

Prêmios e homenagens:

1985 – Recebe o “Diploma de Mérito Literário da Prefeitura de Curitiba”.

1987 – Recebe o título de “Cidadã Honorária de Curitiba”.

1988 – Criação do “Concurso Nacional de Poesia Helena Kolody”, realizado anualmente pela Secretaria da Cultura do Paraná, em sua homenagem.

1989 – Gravação e publicação de seu depoimento para o Museu da Imagem e do Som do Paraná.

1991 – Eleita para a Academia Paranaense de Letras.

1992 – O filme A Babel de Luz, do cineasta Sylvio Back, homenageia os 80 anos da poetisa, tendo recebido o prêmio de melhor curta-metragem e melhor montagem, do 25° Festival de Brasília.

2002 – Exposição em homenagem aos 90 anos da poetisa, na Biblioteca Pública do Paraná.

2003 – Recebe o título de “Doutora Honoris Causa” pela Universidade Federal do Paraná.


Os poemas acima foram extraídos do livro “Viagem no Espelho e vinte e um poemas inéditos”, Criar Edições – Curitiba (PR), 2001, págs. 23 e 209.

A POETA HELENA KOLODY é homenageada por TONICATO MIRANDA no dia de seu aniversário de nascimento.

Hoje, além de ser o Dia da Padroeira do Brasil e Dia da Criança, é dia de se reverenciar a maior poeta do Paraná.

No dia 12 de Outubro de 1912, nasceu em Cruz Machado, aquela que viria a ser a maior poeta paranaense de todos os tempos, faleceu em Curitiba no dia 15 de fevereiro de 2004.

Helena, se ainda estivesse entre nós estaria completando 97 anos. não deu. como ela mesmo dizia já no fim da sua presença entre nós, as pernas já não aguentavam mais, e ela, quando saía à rua, ía “manquitolando”, se ajeitando no seu grande corpo alquebrado, que já não conseguia acompanhar sua cabeça lúcida e sábia.

Deixou-nos, mais do que poemas, uma sabedoria e alegria de viver sem igual.

Para comemorar o seu aniversário, publico uma carta inédita sua endereçada a mim, assim como dois poemas inéditos também enviados a este Palavreiro da Hora.

Folha 1

Folha 2

Folha 3

Tinha o olhar distante,

cheio de saudade.

Um olhar perdido

numa outra idade.

HK/1987

Trova

Para muitos, aventura

é clarão que vem e passa,

um sorriso que não dura,

um reflexo na vidraça.

HK/1988

HELENA KOLODI

HELENA KOLODI

A MULHER É A ORIGEM DO MAL (O ANTICRISTO) por ewandro schenkel / curitiba

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Não tente entender tudo. É impossível. O certo é que Lars Von Trier é vanguarda. Se procurávamos algo que pudesse descrever o homem atual, já o encontramos. Mesmo que não saibamos muito bem o que está sendo dito. É normal. Leva tempo até assimilarmos o que somos. Muito tempo para saber o que realmente somos.

Ignore o que chamam de geração Y. Besteira pura. Na ânsia de nos classificarmos acabamos dando ouvidos a nerds descerebrados que querem nos empurrar que hoje somos mais egoístas, destemperados, impacientes e anti-hierárquicos. Queremos tudo ao mesmo tempo e sem demora, dizem eles. Uma geração que começa em 1979 e que se definiu pela tecnologia. Pela informação livre, pelo hedonismo do emprego ideal. Sem ele, o trabalho dos sonhos, não sairíamos de casa.

Nasci em 1979 e não consigo me encaixar nessa tal geração. Muito menos no Y. Quem me explica? Certamente sou reflexo de uma maioria que ainda procura explicações para o que sente e não encontra as respostas na televisão, nos livros ou nos rádios. Muito menos no computador, no MP3 player ou no celular. Tenho certeza que essa parafernália toda não pode responder o que tenho a perguntar. Essa é a função da arte, se há a necessidade de uma função. Descrever o que o Ewandro Schenkel é em relação ao mundo em que vive. A arte é o espelho do meu espírito.

Há um hiato. É natural que não consigamos identificar os grandes artistas no momento que eles desovam suas criações. Mas não é sadio quando não conseguimos nem ter uma indicação de quem são eles. O último que conseguiu canalizar o Zeitgeist se matou com um tiro na cabeça em 1994. Desde então enfrentamos um deserto, que começa a ganhar aquíferos com o descobrimento do discurso que o cineasta dinamarquês vem construindo paulatinamente.

Quatro parágrafos de confusão. E vai piorar, acredite.

Deformação da realidade

Em o Anticristo, Lars Von Trier conta a história de um casal que passa por um grande perda, a morte do único filho. O marido, um psicanalista, tenta ajudar a esposa a escapar de uma depressão profunda. Para isso, cria um ranking de medos que devem ser enfrentados. Entre eles está Éden, uma casa no campo onde a mãe e o filho se refugiaram no último verão para que ela pudesse terminar um trabalho acadêmico sobre feminicídio.

O filme se constrói na luta do marido para provar que os medos deformam a realidade. O enfrentamento direto daria a certeza de que o pavor é algo que construímos. Seria uma blindagem para um medo real, como a aceitação da morte de um filho. Uma realidade que não pode ser deformada. O objetivo do psicanalista passa a ser tentar fazer com que a esposa se liberte do medo e, finalmente, possa sentir a dor física e emocional da perda e dar o passo seguinte. O objetivo da mulher é outro, levar o marido para dentro de sua crise depressiva e espiritual. Ela está afundando.

A misoginia clamada na obra de Von Trier se deve ao fato de a personagem interpretada por Charlotte Gainsbourg reunir características que sintetizam o mal: busca o sexo para aliviar a dor, mutila o marido, se mutila e, ainda, descobre-se depois que maltratava o filho às escuras. Já o personagem de Willem Dafoe tenta teorizar o que levou a mulher ao lastimável estado sem pré-julgamentos. Maniqueísta, numa leitura superficial.

O caos reina

O certo é que Lars Von Trier é vanguarda, disse no primeiro parágrafo. A explicação é que o diretor criou um filme que tenta classificar os sentimentos modernos sem maquiá-los. A mulher é, segundo ele, a origem de todo o mal do mundo. Foi Eva quem primeiro mordeu o fruto proibido e acabou com as pretensões divinas para um mundo perfeito. O pecado, desde o princípio, é culpa feminina. O que nos levou a demonizar o prazer feminino durante séculos. Há quinhentos anos resolvíamos isso com fogueiras. Os iluministas detonaram essa visão sem dar respostas. A psicanálise de Freud nos jogou ainda mais para dentro da culpa, que estaria no inconsciente. E não falamos mais nisso.

O diretor parece querer resgatar a discussão do mal. Do que nos faz mal e de onde vem. É um filme profundamente psicológico, com artimanhas para levar o espectador mais sensível a se entregar completamente. A cena da hipnose serve tanto para o personagem quanto para quem assiste. A tese é clara: a mulher, que representa não só o sexo feminino mas também as características humanas mais ligadas aos sentimentos incompreensíveis, é o fruto do mal.

A história já nos deu respostas para as barbaridades que o humano é capaz de cometer: Possessões, distúrbios mentais e psicopatias. E quando tudo isso se torna insuficiente? Com o excesso de informação temos acesso ao mal puro e simples. Quem poderia explicar o que Suzane Richthofen fez? Antigamente poderíamos atribuir os atos dela ao Diabo. Há pouco tempo seria uma psicopata. Mas vê-la na televisão com uma sobriedade e passividade assustadoras nos coloca num terreno de medo. Ela matou os pais por motivos banais: herança e aceitação do namorado. Os médicos não foram claros nos diagnósticos.

Qual a primeira imagem que vem à cabeça quando falamos em tortura no Iraque? Uma integrante do exército americano arrastando um preso iraquiano por uma corda como se fosse um animal. Ela, provavelmente, passou por testes psicológicos para entrar nas forças armadas. Também não temos registro que tenha feito pacto com o Capeta. Não há explicação possível para o ato. É exatamente a ferida que Von Trier quer escarafunchar.

O filme não é uma apologia à demonização da mulher, obviamente. A figura feminina serve como metáfora, como no caso da bíblia, para os sentimentos obscuros e com os quais não sabemos lidar. De uma maneira piegas seria como dizer que todo homem tem uma mulher dentro dele. Todos nós temos sentimentos que não conseguimos explicar. Dói, como mostra Anticristo, fuçar neste terreno. A mulher representa a nossa natureza selvagem. Os genes do mal dos quais não conseguimos nos livrar. E faz mal tentar escondê-los.

Na pirâmide dos medos proposta pelo marido, o primeiro item é a natureza. Depois, a mulher corrige, acrescenta-se o Éden. Ele adiciona Satanás, mas no fim percebe que, lá no topo, está o eu, no caso ela. O que mais ela teme não é natureza, não é a religião e muito menos o Satanás, é o criador disso tudo, a própria vontade humana.

No filme, a mãe revela, em determinado momento, que teve prazer com a morte do filho. Ela estava consciente quando viu o menino subir na cômoda ao lado da janela antes de cair para a morte. Não fez nada pois estava absorta fazendo sexo com o marido. As imagens levam a crer que o momento da queda coincide com o orgasmo. A pergunta que fica: até que ponto esta mãe sentiu prazer com a morte do filho?

Representante da razão, o marido enxerga tudo com olhar abstrato, pois não consegue conceber como é possível alguém ter sentimentos tão detestáveis. Ele a mata, tentando sufocar o que lhe é revelado. Mas esta é uma viagem sem volta. A imagem de milhares de mulheres cercando o personagem no final do filme talvez dê a dimensão do discurso. Até que ponto o prazer da maldade está em nossa natureza? O verdadeiro Anticristo somos todos nós? Poderemos levar algum tempo para decifrar a mensagem de Lars Von Trier, mas já serve como um espelho opaco de uma geração que não se contenta em ser apenas Y.

HOJE É DIA DE CECÍLIA por zuleika dos reis / são paulo

Cecília era um passarinho quieto; de repente, ei-la pássaro canoro. Cecília ouvia-me histórias, agora sonha contá-las, ela própria, para as crianças. Outras histórias, por certo, com heróis e vilões, bruxas e fadas, início, meio e fim, final feliz. Cecília sabe que os olhinhos surpresos, arregalados, em suspenso, têm direito sempre a um final feliz.

Cecília estuda Pedagogia. Está no 1° semestre, mas se sente estudando há séculos. Já é líder em seu grupo, também na classe. Já se dá conta dos custos-benefícios de ser líder.

Ouço a chave na porta. Cecília entra. Hoje não é dia de faxina nem de forno: hoje é dia de Cecília. É bem verdade que, mal chegando da Faculdade, só teve tempo de beber um copo d’água antes de sair de novo, para acompanhar a mãe ao Mercado. A pé, e entre a casa e o Mercado, há uma ladeira… quê ladeira! É verdade também que ontem, até a madrugada, Cecília esteve a construir brincos e anéis, todos lindos, todos disputados. Cecília sabe muito de tudo, jamais teve por hábito hierarquizar tarefas, essencialmente quando se trata de servir aos outros.

Mas, não nos esqueçamos: para além das variáveis, hoje é dia de Cecília. Seus olhos brilham ao contar que o trabalho sobre Literatura Infantil foi tão bom, que até o professor, via de regra impassível, aplaudiu de pé. De pé, imaginem só! Cecília vibra enquanto conta. Percebemos ambas, que seu grupo e a classe toda vão aprendendo e crescendo com ela, com seu entusiasmo. Cecília é puro entusiasmo, um deus feliz lhe habita a alma, os gestos. É fácil imaginá-la contando histórias às crianças, despertando nelas não o hábito – hábito é escovar dente, dormir cedo, cumprir tarefa… – mas a paixão pela leitura, coisa muito diferente.

Enquanto olho Cecília, enquanto a ouço, revejo uma de mim, apaixonada também, apaixonada assim. Quantas maluquices fazíamos juntos, eu e meus meninos! Quando a aula não estava boa, todos gritavam, em coro: “Canta, Ana! Canta!” A aula se interrompia, Ana cantava, eles aplaudiam e logo nosso coral se erguia na sala de aula. Isso tudo se passou noutro século, noutro mundo.

Sinto que o Milagre é possível. Todos os dias muitos morrem, nascem outros tantos. Tudo está sempre pronto para uma Nova Ressurreição.

ZULEIKA DOS REIS, “PALAVREIRA DA HORA” recebe os cumprimentos por mais um ano no processo da vida! / pela editoria

a escritora e poeta ZULEIKA DOS REIS, autora de FLORES DE OUTONO (artepaubrasil) entre outros livros, aniversaria hoje. ZULEIKA é uma daquelas pessoas, que a gente gosta à primeira vista e que parece a conhecemos a longo tempo, e isto tudo, só pelo meio virtual onde podemos ser e nos mostrar como quisermos. os PALAVREIROS DA HORA, seus colegas e companheiros de viagem, te desejam muita saúde e milhões de alegrias e que teus sonhos e tua fé se renovem a cada dia te dando forças para percorrer o novo ano. obrigado pelas colaborações enviadas porque enriqueceram o conteúdo do nosso site. FELIZ ANIVERSÁRIO ZULEIKA!

ZULEIKA DOS REIS - FOTO - Sorriso 17 Ago 07

a escritora, poeta e haicaísta ZULEIKA DOS REIS.

champanhe

E A CRÔNICA SE FOI! por hamilton alves / florianópolis

Não sei atribuir a que motivo, acordei hoje e logo me deparei com um tema que poderia bem aproveitar para uma crônica.

Na vida de um cronista (ou de um poeta) a inspiração ocorre num repente, oriunda não se sabe de onde.

Não tomei nota do tema (poderia fazê-lo, se fosse mais cuidadoso); nunca o faço; deixei para tratá-lo depois do desjejum.

Um pouco depois, quando me sentei diante do computador para desenvolvê-lo, cadê o tema. Tinha se esboroado sem deixar um único vestígio.

Por mais que, ainda agora, me esforce para recuperá-lo (e se tratava de um bom assunto para explorar em lauda e meia digitada – ia dizer datilografada – lá se foram os bons tempos da máquina de escrever, da qual de vez em quando lanço ainda mão), tudo resulta baldado.

A solução é me conformar, embora sinta muito pesar de não me lembrar dele, que ficará sepulto para  sempre na minha memória. Podia ser uma boa página de crônica, quem sabe lá?

Ocorreu o mesmo fenômeno com o poeta Manuel Bandeira, certa vez. Como conta em seu livro “Itinerário de Pasárgada”. Só no caso dele aconteceu não com uma crônica, no que ele era bom também, mas com um poema.

Estava em determinado local quando subitamente um poema se desenvolveu em sua mente por inteiro, do primeiro ao último verso. Vasculhou os bolsos atrás de um toco de lápis e de um pedaço de papel; não os encontrou para seu desespero.

Perguntou a uma pessoa, que por ali passava, naquele momento, se podia lhe conseguir um mísero instrumento de escrever, qualquer que fosse; nada.

Bandeira saiu esbaforido em busca de um lugar onde encontrasse o tal lápis ou outro objeto que lhe permitisse dar corpo ao poema.

Finalmente, num bar (ou em outro lugar semelhante) encontrou o tão desejado lápis (nem era lápis, era uma caneta esferográfica). Mas decepção das decepções. Era tarde demais. Assim como o poema se compôs inteiro em sua mente, desapareceu como uma nuvem ou um sonho.

Ficou certamente supondo que aquele teria sido um de seus grandes momentos como poeta, que se perdera ou ficara no ar com sendo algo que se tornou de beleza sem igual (um poema abortado na mente).

Assim aconteceu-me com a crônica, que, igual ao poema de Bandeira, nunca virá à luz. E constituirá um motivo de amargura ou frustração.

Rumorejando (Pelo jeito que o futebol está se caracterizando, quem fizer mais falta é que ganha a partida?, perguntando) – por juca (josé zokner) / curitiba

O terror que matura

I

Oriunda de respeitável progenitura:

A mãe, professora de corte e costura;JUCA - Jzockner pequenissima (1)

O pai, escriturário na magistratura,

Era, ela, uma formosura,

Uma pintura,

Digna de figurar numa gravura,

Ou numa xilogravura,

Daquelas com moldura,

Trabalhada em artística ranhura.

Mediana estatura,

Cabelos pretos, sem tintura,

Dentes, perfeitos, uma alvura;

Sorriso, sem amargura,

Franco, aberto, uma quentura;

A mirada, uma brandura,

Muito límpida, muito pura,

De olhos de jabuticaba, uma pretura;

E um poço de ternura!

Ah! E a cintura!

Parecia duma tanajura…

Educação, nem falar. Que finura!

Dada a não pouca leitura,

De sutil e elevada literatura,

E um dedilhar, sem partitura,

Além de se dedicar à feitura

De origami, de dobradura.

E, no jardim, à floricultura,

Onde, às vezes, ouvia o canto da saracura.

II

Ele, era só feiúra,

Como uma caricatura.

Duma lividez, duma transparente brancura

Num monte de ossatura

Como se filho fosse de alguém de média estatura,

Mas de não muita largura.

E do Cavaleiro da Triste Figura

Àquele que, até com moinhos, mostrou bravura

Não tendo como vestidura

A respectiva armadura.

Além disso, morando numa lonjura.

E, mais, um escrachado caradura

De péssima postura,

Ou melhor, somente impostura:

Noites a fio, jogava, com fundura,

Em busca de fácil fartura;

À mão, um copo daquela bebida de lúpulo, de levedura

E um eterno cigarro, alterando, dos lábios, a comissura.

Receitas, infalíveis, de fazer estrago em qualquer criatura.

Tal proceder, sem dúvida, merecia ampla censura.

Não confundir com àquela do tempo da ditadura,

Quando até se usou a indefectível tortura,

Nos governos da chamada linha dura,

Bem antes do que se convencionou chamar Abertura.

O salário, parco, da Prefeitura,

Dum trabalho que exercia com sinecura,

Na base de quem não se apura,

Obviamente, redundava numa apertura.

As dívidas, não poucas, proveniente de mordedura,

Mesmo que firmadas numa caprichada escritura,

Fatalmente seguiam o destino da pendura

Que postergava, com ensaboadura,

Para uma época futura

E que, da memória, apagava com uma varredura.

De inteligência, não era nenhuma cavalgadura,

Daquelas que só falta a ferradura.

Era capaz de se pôr a falar, com desenvoltura,

Sobre, do quadrado, a curvatura

Ou, da circunferência, a quadratura.

E, se porventura,

Cometia alguma outra loucura

De imitar, de alguém, a assinatura,

Perfeita e sem rasura,

Em cheque, promissória ou fatura,

Fruto de condenável urdidura,

Resultava, se descoberto, nessa amargura

De ter que conseguir um alvará de soltura,

Alegando, ao delegado, tratar-se duma travessura

E no seu ilibado currículo, uma simples arranhadura;

Que não tinha intenção de viver numa cela escura

E que, afinal, toda a sua vida, agira com extrema lisura.

III

Essa atitude devassa, que o estado físico tritura

E o bolso, a conta corrente do banco, perfura,

Para ele, era adrenalina total, uma aventura,

Que foi obrigado de encerrar, uma fissura,

Quando sua saúde se deteriorou e sofreu uma ruptura.

Logo, ele, que nunca tivera um resfriado, ou uma rasgadura

E, muito menos, alguma forma de rendidura,

Parecendo, tudo, praga, maldição ou esconjura,

De nada adiantando os santos invocados em benzedura.

É que numa amorosa tertúlia, sobreveio uma velhice prematura

Àquela que deixa, um, e a parceira, em desventura,

E provoca na alma e no ego profunda machucadura.

Pouco antes, já vinha sentindo, no estômago, uma queimadura,

Somado a um mal-estar, a uma teimosa tontura,

Que o deixava, por um momento, com a vista obscura

E com a possibilidade de cair e sofrer uma fratura.

O médico, amigo desde a infância, adepto da natura,

Pespegou-lhe um susto, numa sincera e repreensiva secura:

“Não se trata de querer que você viva numa clausura.

No entanto, se dessa vida desregrada não abjura;

Se continuar nessa farra, para você uma gostosura;

Não se livrar do vício, dessa imbecil escravatura,

O teu amanhã nem eu nem ninguém te assegura,

Pois você, bem sabe, está cavando a própria sepultura.

Entretanto, preste atenção, você facilmente se cura:

Primeiro, tem que parar de comer fritura

Que absorve rios de gordura;

Não fumar, nem beber, dormir cedo, nada de diabrura;

Tem que consumir muita verdura,

Muita fibra e fruta não ácida, madura;

Nada de doce tipo quindim ou rapadura,

Se não vai ter – já, já – de usar dentadura”.

Os amigos acharam tudo aquilo uma frescura,

E que a prescrição parecia mais uma absurda propositura,

Ponderando que uma vida, assim, nem santo atura.

De início, o reproche, ele classificou de grossura,

Mas, apavorado, ou como dizem os italianos, numa “paúra”,

Resolveu mudar de vida, para uma mais segura.

Indubitavelmente, foi um tento de bela feitura:

Má alimentação, vícios e toda essa nomenclatura

Foi mudada com força de vontade de quem tem envergadura;

Passou a estudar e ler livros de grossa brochura

E a escutar música clássica e popular de fina tessitura,

Já que havia desenvolvido o bom gosto, por aquela altura;

Optou em fazer uma faculdade, uma Licenciatura,

Visando o almejado canudo, numa cerimônia de formatura.

Chegou até a pensar em Engenharia ou Arquitetura,

Sem descartar Agronomia, dado a discorrer sobre agricultura.

Melhorou o visual, que a gente, a si mesmo, augura:

Cabelo e barba aparados, dois banhos diários, total limpadura;

Entrou numa academia de ginástica para fazer musculatura

Com a intenção de ganhar peso, conforme, por aí, se assegura

E ficar com o tórax como os lutadores na era da gladiatura;

Passou a freqüentar ambientes de pessoas de boa catadura,

Onde o gosto apurado, aliado à boa educação, sempre fulgura;

A usar ternos com tecidos de excelente textura

E gravata, com grife, em camisa de abotoadura;

Pagou os credores, que não desgrudavam como atadura,

E, mais adiante, comprou, do ano, uma possante viatura,

Bem espaçosa, “nada de apertos, nada de miniatura”.

Também, numa pechincha, um apartamento, não de cobertura,

Mas tendo sacada com churrasqueira, para grelhados e assadura.

E suíte com hidromassagem, portaria e tetra-chave na fechadura,

Em imóvel localizado num terreno ajardinado, numa planura.

O pagamento: uma entrada, mais 20 anos, com juros da Lei da Usura,

Aproveitando um desconto graças a famosa Lei da Oferta e da Procura,

Àquela, que político promete revogar ao defender sua candidatura.

Decorou, tudo, com móveis em cedro, com caprichada entalhadura

E tapetes, feitos à mão, de razoável espessura.

IV

Nessa história, em condições normais de pressão e temperatura,

Deveria haver, com a jovem do início, alguma relação ou ligadura.

Mas, não. Ela só foi aqui lembrada por sua beleza, sua candura.

Seu sorriso, seu olhar, sua sensibilidade, sua doçura.

Bem! Cada um seguiu o seu destino, sem se cruzar, sem mistura,

Embora, o mesmo juiz de paz ter efetuado a legal lavratura.

E que passaram, em épocas distintas, a lua-de-mel em Cascadura,

Onde, anos após, retornariam para passar alguns dias em vilegiatura.

Ele, redimido, havia encontrado uma companheira, uma lhanura,

Gentilíssima, amável, cortês, sem um pingo de desmesura.

E ela, um companheiro, muito sério, trabalhador, uma polidura,

Um estudioso aplicado, um autodidata em matéria de cultura.

Obviamente, de todos as partes envolvidas, de amor eterno, muita jura,

Que, nesses casos, quase sempre, ao pé de ouvido se murmura

E, com ardor, se realizam num colóquio de extrema fervura.

Hoje, vivem felizes, com filhos, produto duma fértil semeadura

Numa paixão que, mesmo com a crise econômica, ainda perdura.

ENTREVISTA com o filósofo PIERRE LÉVY – com leopoldo godoy do g1 / são paulo


Estudioso da cibercultura propõe utilização de linguagem universal na rede.

Projeto faz parte de desenvolvimento da chamada ‘web semântica’.


G1 – Você está trabalhando com uma equipe em um projeto novo, o IEML. Qual o problema que o IEML quer resolver?

Pierre Lévy – Digamos que, no curto prazo, há um problema relativamente pequeno, chamado de problema da operabilidade semântica. E também há um objetivo de longo prazo, pra mim, que é resolver o problema da auto-referência e da reflexibilidade da inteligência coletiva.

Então, o primeiro problema é a operabilidade semântica. Obviamente, hoje em dia, todos os documentos e todas as mensagens estão ligadas entre si pela internet, no ciberespaço. Então há uma interconectividade física por conta da internet. Mas ainda há uma divisão semântica, uma fragmentação entre esses documentos.

Essa fragmentação da informação existe, em primeiro lugar, por conta da existência natural de várias línguas. Se alguém escreve um blog em chinês, eu não consigo ler, você não consegue ler e os programas de tradução automática, como do Google, não são muito bons. Portanto, não há comunicação.

Outro aspecto é que temos sistemas diferentes de classificação das informações. Os computadores podem usar um sistema de classificação, e se meu conteúdo é organizado por um sistema diferente, as coisas começam a ficar complicadas. E existem centenas de sistemas diferentes.

Por exemplo, nas bibliotecas, você pode organizar os livros por disciplinas, por ano de publicação, por área geográfica de interesse, e por aí vai. Em outra biblioteca, a divisão será diferente, e aí é uma bagunça.

Os cientistas da computação criaram algo que é bastante poderoso, usado pela famosa “internet semântica”, que é chamado de “ontologia”. A “ontologia” é uma rede de conceitos na qual as relações entre um conceito e qualquer outro da própria “ontologia” é bem definido. Portanto, os computadores são capazes de raciocinar automaticamente sobre os conceitos da ontologia.

Por exemplo, você está lendo um documento e identifica que ele trata sobre os conceitos “x”, “y” e “z”. Se você expressar essas idéias em uma ontologia, o computador é capaz de identificar que este documento está ligado a outros, e te ajudará a filtrar, navegar e expandir seu acesso a conhecimentos correlatos. É algo muito benéfico e poderoso.

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Tecnologia já está pronta para ‘aumentar’ o mundo com realidade virtual

O problema é que há muitos sistemas diferentes de ontologias. Todo esse raciocínio automatizado, o uso de filtros e conexões, geralmente é restrito a uma área do conhecimento. E, às vezes, você esbarra em uma situação na qual em um mesmo domínio de informações há várias ontologias diferentes. Diferentes especialistas podem dividir as informações de formas nem sempre compatíveis. E, esse é essencialmente o problema de operabilidade semântica.

A linguagem que estou propondo pode ser traduzida para diferentes línguas naturais, e pode expressar classificações e ontologias de todas as áreas. Além disso, ela é criada originalmente de uma maneira na qual os computadores podem fazer várias operações utilizando esses termos. E não apenas operações lógicas, como raciocínio automatizado, mas também variações, rotações, conexões diferentes, como se uma expressão fosse um número. Desta forma, é possível fazer transformações geométricas com as informações em um espaço semântico. Essa é a idéia básica.

As linguagens naturais são muito irregulares, e têm um léxico muito ambíguo. Há sinônimos, homônimos, etc. A linguagem que proponho é completamente artificial, segue regras bastante estritas, de modo que permita a manipulação automática das informações.

O que eu espero é que, utilizando essa linguagem, sejamos capazes de fazer traduções automáticas com muita facilidade. Ela funcionará como uma “chave” entre duas línguas naturais, e vai facilitar a navegação e a filtragem de informação, buscas e diversas operações que poderiam ser feitas automaticamente. No final, ela vai aumentar a colaboração entre estudantes e pesquisadores de disciplinas, culturas e línguas diferentes.

Mas, como falei no começo, há um segundo objetivo, que é o de ajudar no registro da inteligência coletiva no ciberespaço. Para colocar de uma forma mais simples, o objetivo é ajudar as pessoas a terem acesso a uma representação do que está acontecendo na internet, do que está se falando, quais são os problemas que as pessoas estão tentando resolver naquele momento, etc.

Hoje em dia, não é possível obtermos uma boa representação da inteligência coletiva da internet. Por exemplo, há uma imagem bastante famosa que tenta representar a internet por meio de diversos pontos ligados por traços coloridos brilhantes (veja ilustração ao lado). As pessoas olham e pensam: “ah, a internet é como um cérebro”. Mas, na verdade, essa imagem representa apenas os nós físicos da estrutura da rede, e como é o fluxo quantitativo de informação entre esses nós.
Mas, pra mim, a representação real da inteligência coletiva não pode ser feita dessa forma, e sim por um mapa qualitativo, que mostre o fluxo de conceitos, ideias, assuntos e tópicos pela rede, e que tipo de relação semântica as pessoas estão criando – por meio de seu comportamento coletivo na internet.

Para essa representação, podemos até repetir a imagem do cérebro e suas conexões, mas em vez de neurônios, temos ideias. No lugar da corrente elétrica entre os neurônios, teremos as relações semânticas de significado entre as ideias. Essas relações são criadas pelas ações dos indivíduos.

É muito fácil criarmos uma representação do que está acontecendo no espaço real, físico, mas no espaço semântico, não sabemos. Não temos um sistema coordenado. Não há uma ferramenta universal para medir, mapear e representar isso. Portanto, o objetivo mais importante dessa linguagem é ser uma espécie de sistema universal coordenado do espaço semântico.

G1 – Isso iria casar bem com o conceito de web em tempo real, que tem como principal representante no momento o Twitter. Você poderia medir como estão se propagando as ideias, mas universalmente. Esse é  o plano?

Lévy – Exato. Atualmente você não pode fazer isso, já que há comunicação em diversas línguas. É completamente fragmentado, você não tem uma ideia global da inteligência coletiva.

Aliás, há pesquisas científicas sobre um mesmo assunto que são feitas simultaneamente, mas em línguas diferentes. Essa linguagem não serviria apenas para unificar o conhecimento global, mas você poderia utilizá-la para pequenas equipes, grupos de pesquisa e pessoas interessadas em um assunto comum. Qualquer comunidade iria lucrar com isso.

G1 – E essa linguagem deve funcionar apenas com documentos estáticos ou pode ser aplicada em algo mais dinâmico, como o Twitter?

Lévy – Não sei exatamente quando poderei fazer minha primeira demonstração da linguagem em funcionamento, pode ser em um ano ou em dois anos, mas o plano é fazê-la funcionar inicialmente no Twitter. Criar um filtro colaborativo de pessoas, documentos e sites citados por pessoas no Twitter. Ou seja, ela será bastante útil para o que chamamos de “fluxo de informações” ou “web em tempo real”.

Isso não quer dizer que ela deixará de ser útil para depósitos de informação de longo prazo. Se você parar pra pensar que quase todas as bibliotecas do mundo estão digitalizando seu conteúdo e vão colocá-lo na internet, e que cada uma dessas bibliotecas terá sistemas de organização diferentes, isso pra mim é um problema.

G1 – O senhor afirma que o que estamos vivendo hoje em dia é uma revolução maior do que a que se seguiu à invenção da prensa tipográfica, e que estamos passando por um salto na produção e divulgação de conhecimento. Do ponto de vista da inteligência coletiva, o que fazem sistemas de organização de conteúdo como o Google já não é suficiente para organizar nossas ideias?

Lévy – Na verdade, são coisas diferentes. Mas há uma semelhança importante: o que algoritmo de organização do Google faz, o famoso “Pagerank”, é levar em conta a inteligência coletiva. Ele decide que um conteúdo é mais importante se tiver mais links levando a esse conteúdo, principalmente vindos de páginas igualmente relevantes, com mais links que levam a essa referência. O Google leva em conta, portanto, a inteligência coletiva das pessoas que estão construindo a web.

Também estou tentando fazer isso. Mas de uma forma diferente. O algoritmo do Google é baseado principalmente em estatísticas. Portanto, é uma análise quantitativa. Eu não sou contra uma computação quantitativa, é claro, mas o que eu quero fazer é uma computação quantitativa em um espaço qualitativo. Esse é meu “twist”, por assim dizer.

Talvez eu esteja enganado, e isso nunca aconteça, mas eu creio que se a humanidade realmente quer viver uma fase de crescimento do conhecimento – e, como você apontou, a grande revolução nas ciências naturais na Europa ocorreu após a invenção da prensa. Não foi a única causa, é claro, mas foi a base.

E eu estou convencido de que haverá, na próxima geração, uma nova revolução científica, mas não nas ciências naturais, mas nas ciências humanas. Hoje em dia, todos os dados sobre o comportamento humano podem ser reunidos no ciberespaço, o único problema é que ainda não temos a capacidade de explorar essas informações. E se não tivermos um sistema coordenado no espaço semântico, o espaço dos significados, não seremos capazes de viver essa revolução.

Isso poderia ajudar na cooperação entre disciplinas diferentes das ciências humanas, como psicologia, sociologia, economia, linguística, comunicação, etc. Em todas essas disciplinas, que atualmente têm conceitos diferentes, e às vezes numa mesma disciplina, teorias diferentes, é muito difícil construir algo capaz de abranger o todo e compreender o que está acontecendo na sociedade.

G1 – O senhor usa o termo ciberespaço, que recentemente foi “aposentado” por parte da comunidade acadêmica, que alega que hoje em dia não há necessidade de diferenciar o que ocorre no mundo “real” e na internet. O senhor concorda com essa avaliação?

Lévy – Sinceramente, eu não tenho certeza que essa discussão seja relevante. Por exemplo: hoje em dia ainda usamos escrita em papel. Há alguma relevância em saber que um texto está escrito em papel ou digitalmente? Pra mim, o virtual fez parte do real desde o início, e quando nos comunicamos pela troca de e-mails, por exemplo, não há uma diferença relevante em relação ao tempo em que trocavamos cartas. Continuamos escrevendo, enviando e lendo textos. É sempre parte de nossa experiência. E a manipulação dos símbolos é uma parte importante da experiência humana.

G1 – Como a indexação da inteligência coletiva pode mudar a maneira que lidamos com o conhecimento?

Lévy – Precisamos de uma grande revolução epistemológica. Os dados estão lá, mas em uma quantidade absurda. Portanto, não temos como explorá-los manualmente, lendo tudo, por exemplo. Precisamos, portanto, automatizar a exploração desses dados. Mas se, por exemplo, os dados estão escritos em 300 línguas diferentes, e estão indexadas em 250 metodologias diferentes, essa automatização não vai funcionar.

Portanto, o que precisamos é de uma metalinguagem, que possa ser completamente manipulável por sistemas automáticos e, ao mesmo tempo, possa ser usada para expressar qualquer tipo de ideia, ponto de vista ou teoria. Se ela limitar a expressão de uma teoria, ou de uma interpretação, não serve. Pelo contrário: ela deve ajudar a aumentar a diversidade de pontos de vista. Talvez não seja a língua que eu criei que será a base dessa revolução científica, mas haverá algo nesses moldes. E eu acredito que devemos iniciar em breve as primeiras tentativas.

A dificuldade dessa tarefa é que é necessário ter um conhecimento muito amplo em ciências humanas, estar ciente da complexidade das culturas, dos significados, e ao mesmo tempo ser capaz de lidar com computação. É preciso ter essas duas habilidades para realizar isso. E, geralmente, os engenheiros são muito bons em matemática e em lógica, e às vezes em física. Mas em termos de semântica, não. Eles confundem lógica e semântica, que são coisas bastante diferentes. A lógica é sobre a verdade de uma proposição particular, e a fusão de verdades que são derivadas de uma verdade original. É uma discussão sobre “verdadeiro” ou “falso”. A semântica é muito mais complexa do que isso, do que “verdadeiro” ou “falso”.

Lévy – No momento, eu chamo essa pessoa de “engenheiro semântico”. Há um lado de engenharia e um lado de ciências humanas. É algo que vai requerer um treinamento especial, provavelmente, mas como todas as profissões. Eu reconheço que, no momento, esses profissionais não existem. Algumas pessoas estão se autodenominando “arquitetos da informação” ou “engenheiros de conhecimento”. Então já surgem, de forma dispersa, os primeiros núcleos de profissionais dessa área, o que significa que não vamos partir do zero. Mas, claramente, mesmo esses profissionais de agora precisarão evoluir. Mesmo porque estou falando do futuro, de coisas que não existem ainda agora.

G1 – No futuro, portanto, haverá uma demanda por esse tipo de profissional. Que tipo de formação deve procurar um jovem que tem interesse em trabalhar nesta área?

Lévy – Um velho filósofo não deve dizer a uma criança o que ela deve fazer…No momento, eu é que estou tentando entender o que elas estão fazendo. Mas eu diria que habilidade técnica não é o suficiente, e o conhecimento sobre as relações humanas é importante. Quando você é jovem, você pode se concentrar em entender as questões técnicas, mas quando você envelhece percebe que as questões humanas são muito mais complexas do que você imaginava antes.

G1 – E o presente da internet? Quais são suas ferramentas prediletas no momento?

Lévy – No momento, eu tenho me interessado bastante pelo Twitter, porque é tecnicamente muito simples, mas social e intelectualmente muito complexo. Você tem que escolher quem você segue, precisa descobrir como ler tudo o que essas pessoas escrevem… No momento eu sigo apenas cerca de 115 pessoas, mas já é difícil pra mim ler tudo.

G1 – Que tipo de profissional será capaz de ajudar a criar essa língua? Quem serão as pessoas que vão trabalhar como “bibliotecários” do futuro?

Outro serviço que eu uso é o Delicious. É uma forma de organizar a memória. Porque o Twitter é bom para o fluxo de notícias, para estar sempre antenado no que está acontecendo, mas o delicious é bom para organizar a memória de longo prazo, e também para descobrir pessoas que estão interessadas nos mesmos assuntos que você.

Também participo do Twine, que é um serviço que utiliza tecnologias da web semântica atual. Eles organizam os assuntos por ontologia, e quis observar, em primeira mão, como o site funciona. E eles não resolvem todos os problemas, de certa forma é um pouco decepcionante.

G1 – Minha impressão é de que o Twine ainda não conta com um número suficiente de usuários para inserir e organizar uma quantidade relevante de informações.

Lévy – Durante vários meses eu era uma das cem pessoas que mais adicionava informações ao Twine. Encontrei pessoas interessantes por lá. Em todos esses serviços você tem um aspecto social muito importante, então você descobre indivíduos. E também é muito útil estar registrado em um “twine” de informações, para se manter atualizado sobre aquele assunto específico. Já descobri coisas no Twine que acabei depois postando no Twitter.

Também participo do Facebook, porque hoje em dia você não pode mais ficar de fora. E é algo interessante, porque as pessoas ficam postanto fotos e vídeos delas próprias, acaba sendo um ambiente para amigos, é menos profissional. Meu Twitter é um ambiente profissional, discuto informações científicas. Já meu Facebook é mais para diversão. Também tenho o hábito de testar novos serviços de busca, para ver o que eles oferecem de diferente do Google.

Para mim, é muito importante estar ativo em todas essas ferramentas para poder sentir o que está acontecendo na internet, e não ficar apenas na teoria. Gasto pelo menos duas horas por dia nessas ferramentas sociais e em blogs.

SOU DO TEMPO por sérgio da costa ramos / florianópolis

Não espalhem, mas sou do tempo em que o pão e o leite chegavam à porta da freguesia entregues em domicílio pelo leiteiro e pelo padeiro um a pé, o outro a bordo de uma carrocinha, com bagageiro de madeira, em cujos batentes eraSÉRGIO DA COSTA RAMOS 1produzido o aviso de sua chegada.

Sou do tempo – acreditem – do primeiro filme em cinemascope projetado em Florianópolis. Confessar um arcaísmo desses equivale a ser confundido com o primeiro a ser fotografado pelo “daguerreótipo”, o primeiro a tomar Coca-Cola no Brasil, com aquelas garrafinhas imortalizadas por Andy Warhol, junto com as sopas Campbell.

Tenho, sim, a coragem histórica de confessar que assisti a O Manto Sagrado, com Richard Burton, Victor Mature e Jean Simmons. Foi no Cine São José, em 1956 – três anos depois do filme passar em Hollywood como o primeiro em tela alongada, no sistema “cinemascope”. Meu Deus! Está fazendo 53 anos!

Como atenuante, devo dizer que o filme era “proibido para menores de 10 anos” e que, apesar de envelopado numa calça curta marrom e de exibir o quengo meio raspado – moita no alto da testa, como era moda pra “rapaz pequeno” –, consegui enganar, gloriosamente, o porteiro. Rejubilei-me por isso, pois em 1956 tinha nove anos.

Sou do tempo em que Florianópolis ainda conservava os seus carrinhos de cavalo, e até escrevi que adoraria ser cocheiro de um deles. No verão, arriaria a tolda para que os fregueses desfrutassem, ora do calor do sol, ora do fulgor das estrelas. Nas noites quentes seria cúmplice dos boêmios, de suas serenatas e de suas “beberatas”. Levaria uma vida muito mais emocionante do que esta que levei, de regrado cumpridor dos meus deveres. O “carrinho” seria meu lar, os cavalos, meus irmãos, até que a morte nos separasse.

É preciso admitir, também, que sou do tempo do pastel do Bar Rosa e da empada do Chiquinho. E que devorava os “folheados” da confeitaria A Soberana, esquina de Praça XV com Felipe Schmidt.

Sou do tempo da “matinada” no São José, aos domingos, logo depois da missa das 10. Dois jornais da tela: Atualidades Atlântida e Les Actualités Françaises, o cinejornal da Art-Films. Desenhos de Mister Magoo, Tom & Jerry, comédias dos Três Patetas e O Gordo e o Magro. Um seriado do Zorro ou do Superman. Cada idade tinha seus prazeres, seu espírito, seus costumes. Duvido muito que me atraísse, hoje, passar duas horas a fio ouvindo os rocks traduzidos de Celly Campelo – Biquíni de Bolinha Amarelinho, Estúpido Cupido e Oh, Carol.

Devemos obediência ao tempo. Tempo houve em que era imperioso ir ao “Encontro dos Brotinhos”, no Lira, das sete às 11 da noite, aos domingos. E encharcar-se de cuba libre antes de “tirá-la pra dançar”. Teria sido bem mais agradável se o cavalheiro tivesse a coragem de beber menos. Assim, a favorita não teria sido tão cortejada e pisoteada ao mesmo tempo.

O tempo, aliás, é um rio veloz , formado pela caudalosa corrente dos fatos. Mal se vive o momento – e lá vai ele, corredeira abaixo, juntar-se ao manso lago das lembranças – as boas e as más.

Nadando “rio” acima, reencontrei o galã da época, outra vez jovem e atlético, um eleito pelas jovens dos anos 1950, ao som de Bernardine, do hoje pastor evangélico Pat Boone.

O rapaz está transformado num senhor barrigudinho. E careca. Encontrei-o na fila da padaria – já não se entregam pães em casa. Lutava pelo pão e pelo leite de cada dia com o mesmo zelo com que, antigamente, cultivava na testa uma caprichosa vírgula capilar, à semelhança de Bill Halley e seus “cometas”.

PARA NÃO NOS LEVARMOS A SÉRIO DEMAIS ! por lucas paolo / são paulo

Para começar achamos de suma importância esclarecer padrões epistolares! Não nos expressaremos em primeira pessoa!  Muito menos em terceira! O primeiro caso traria uma vivência por demasiada pessoal para se tratar a complicada questão a ser abordada! O segundo caso não conseguiria convencer nem Eu nem Ele nem Você! Portanto não passaria de uma farsa ridícula com ares de paródia!  Para uma abnegação completa de qualquer forma de subjetivismo falaremos por Nós!  Isso exclui definitivamente o emissor e o remetente liquidando qualquer tipo de dupla significação! Entretanto é uma carta! De nós para nós mesmos!  O intuito não é ativar a imaginação nem dar margens às suposições! Seremos tão límpidos como água clara! Enfim diretos! Não buscaremos palavras nem expressões diferentes no dicionário! Qualquer erro redundância contradição ou demonstração de sentimentos será com certeza uma falha devida à imperfeição humana! Desejamos a maior perfeição possível para a presente abstração! Seremos absolutamente científicos exatos e indiferentes! Também não usaremos de qualquer simbologia! Apenas será usado o ponto de exclamação para finalizar as frases e dar a devida importância a elas!  Não julgamos necessidade de qualquer paragrafação além da próxima e mais uma no final! Prestem muita atenção ao que se segue o sentido da vida pode estar contido aqui!

Estamos com muita vontade de suicidar palavras e gastar papel! Ou seja queremos por demais escrever qualquer coisa! Porém falta-nos um tema para um possível romance e não sabemos também por onde começar um conto uma crônica um poema o que for! Acreditamos não haver tema neste mundo e na nossa cultura que mereça nossa reflexão! Não! Não desejamos falar de amor! Este tema é por si só mesquinho e pouco metafísico! Não somos românticos e não temos boas experiências para dividir! Achamos que ninguém as tem! Só existe uma supervalorização idiota do momento vivido com alguma outra pessoa que não nós mesmos! Dividir a existência com alguém é estúpido e não é nem um pouco produtivo! Falar de amor é repetir metade da literatura universal já escrita! Não existe amizade verdadeira ou que dure realmente! Sendo assim a amizade é mais um tema que não merece ser especulado muito menos mencionado em algum texto inteligível! A família é uma propriedade cultural e histórica que não daria tema nem para 50 páginas! E outra coisa todo mundo tem uma família e elas são em seu cerne todas iguais! Pra que falar delas! Aliás para que falar de alguma coisa que envolva o convívio humano! Somos todos animais que não sabemos conviver em sociedade nem longe dela! Não nos olhamos! Não nos percebemos! Não nos conhecemos! Enfim não nos merecemos então para que falar de nós mesmos e nossas relações! Estupidez inventar personagens fictícios! Para que botar mais gente egocêntrica no mundo mesmo que literário! Que fique bem claro não desejamos falar do bicho homem e de sua existência tão supérflua e insignificante! Não ansiamos nem por um instante tratar de arte! Música! Música é um banal artesanato infindo e sem qualquer resultado palpável! Produzir movimento em partículas que formam uma onda que causará devido à imperfeição do ouvido humano a errônea impressão de estarmos ouvindo determinada freqüência ou seja um som para o qual buscaremos relação com algum sentimento ou que tentaremos racionalizar até o último ínfimo físico e estético do possível significado de uma movimentação do ar que nada mais tem que significar do que uma coisa que acontece devido à uma movimentação nas coisas que existem na natureza! Uma movimentação do ar caramba! Artes cênicas ou teatro não merecem nosso tempo também! Que babaquice é representar uma coisa que por si só já é uma representação! A vida não tem que ser representada tem que ser vivida e representar uma representação da vida é se afastar cada vez mais dela! Atores são aqueles que mais procuram a perfeição do gesto em suas encenações e são também os que menos prestam atenção em seus próprios gestos! Artes plásticas ou visuais ou como quiserem chamar a produção de alguma coisa para ser contemplada com os olhos! A cor é uma ilusão! A produção de uma imagem é congelar no tempo um momento uma pessoa um objeto uma abstração uma qualquer coisa! Resumindo é parar na seqüente movimentação do espaço cósmico uma asneira qualquer! Interferirmos no fluente curso de nosso texto para falar de intervenções artísticas performáticas seria por si só uma intervenção! Continuemos! O amálgama de coisas que podem ser consideradas arte é muito grande! Se as grandes artes não fogem de um irracionalismo absurdo o que diremos então da Moda da Gastronomia da Numismática e do que mais houver! Finito! Não falemos da produção humana! Muito menos podemos falar do pensamento humano! Toda hora aparece um novo grego falando bobagens e usando da retórica para distorcer e torcer um assunto que já foi tão controvertido pelos homens! Filosofar é parar no tempo para refletir sobre o nada com o intuito de concluir o sentido do lugar nenhum! Quantas bobagens já não foram ditas sobre o nada e o tempo! A junção dos dois resulta na existência da memória e do gênero humano! A junção do homem nessa mixórdia toda resulta no conjunto de coisas chamada Humanidade e conseqüentemente resulta em culturas diferentes e prosseguindo conseqüentemente em guerras! E ainda bem! Conseqüentemente logo logo no fim da raça humana! Ufa! Ufos! Falar de alienígenas verdinhos ou de vida extraterrena é extrapolar para fora de uma realidade que já é desinteressante inferindo nossa visão antropológica do mundo que de nada provavelmente tenha a ver com possíveis culturas marcianas, plutonianas ou seja lá quem for os possíveis cabeçudinhos! Deixando o homem e a suposta outra vida inteligente do universo de lado poderia se falar de todas as outras coisas que existem vivem mas não pensam! Se é que podemos chamar o que os homens fazem de pensar! Podemos escrever mil duas mil três mil páginas sobre uma manga uma pedra um dromedário uma pulga um cristal condensado sobre o ar a terra a água a via lactéa o surgimento de tudo! Mas pensamos que nós temos bem mais o que fazer! Podemos falar da preguiça da gula da luxúria da avareza! Podíamos falar de Deus o ubíquo! Mas tememos muito as heresias e não somos chegados aos gnosticismos! Não acreditamos em nenhuma religião mas tememos constantemente o inferno! Já conseguimos deduzir que não se vale a pena falar de nada sobre o que se possa divagar ou reproduzir com palavras! Podemos falar do niilismo ou da escrita! Pensando bem os dois são uma e a mesma coisa! A justificável desistência do mundo material para o mundo das possibilidades ou não possibilidades! Contudo queremos nos permitir deixar aqui no fim da carta algo de redundante de modesto de conclusivo de irreflexivo escrito! Alguma bobagem que justifique o endereçamento de uma carta a alguém! Um aforismo!

Muitas vezes quanto mais verde se joga mais se colhe leitores maduros!

Observação minha sobre a missiva: Não pretendi alcançar nesta carta o sentido da vida; não busquei um impacto muito grande para minhas palavras e nem as escolhi a dedo; só queria escrever e não sabia sobre o que, então, escrevi de uma maneira esquisita sobre muitas coisas que, NO MOMENTO, não tinha vontade de tratar neste texto. Sei lá do que posso ter tratado nesta epístola! Acho que não tratei de nada, só escrevi. Mas escrever foi por demais bom e divertido. Desculpem a chatice e a possível crítica a alguém ou alguma coisa importante da vida. No mais, agradeço pela leitura de meu texto.

dor estranha – de charles silva / florianópolis

na sombra da tua alma
forjo meu álibi
mesclado de desejo
e despudor

o mar instiga
por demais
minha lascívia

sussurros dolentes
tua boca profana
também faço ouvir
meus insultos

cor e prazer são letais
em corpos iridescentes
e meus instintos tribais
são ritos de amor reluzentes

unhas dissolutas
arrancam nosso orgasmo
das entranhas

manchamos de amor
os lençóis do poente
gozar foi uma dor muito estranha

DRAMA de josé dagostim / criciuma.sc

Sou trágico

Sou destino

Sou líquido

Projeto

o trajeto

da

sina.

Não se aproxime,

acoimo a sombra…

RASTRO DE FERIDA de ana carolina cons bacila / curitiba

Estou chorando por você,
Estou chorando por mim.
Estou chorando por nós.

Derramando lágrimas
pertencentes a ti,
pairam no ar como voz.

Animal ferido se esconde.
Coracão ferido se cura.
Humano ferido se mata.

.

ana carolina cons bacila (16) faz parte do grupo NOVOS POETAS NOVOS deste site.

O ENCANTO DA CARTA ANÓNIMA por vera lúcia kalahari / portugal

Eu gosto de receber cartas anónimas. Não tenho, como muita gente, horror às mesmas. Liga-me a elas uma profunda e viva simpatia. Porque o que é uma carta anónima?

É, de algum modo, a voz que teme ou odeia. De qualquer maneira, uma voz amiga que previne. Porque ela dá-nos a certeza que não estamos sós. Que podemos contar, pelo menos, com os nossos inimigos. Ora vejamos: Não são os nossos inimigos os nossos amigos mais sinceros? Porque todos sabemos que nas horas difíceis, os amigos abandonam-nos, desaparecem… Os nossos inimigos, não. Acompanham  passo a passo a nossa vida. Vivem a nosso lado, hiantes…Como espiões… Vivem espiando todos os nossos movimentos, as garras prontas a agatanharem. Que em boa verdade, os inimigos sinceros são os nossos únicos amigos. Geralmente, calam as nossas boas qualidades,  para  apresentarem só os defeitos. E nós, só lucramos com isto, porque, realmente, os bons que só têm qualidades, nunca se governaram.. Ao passo que os defeitos, impõem sempre respeito. E nós podemos aproveitar a oportunidade para os corrigir, aqueles que nos interessa corrigir, como é obvio.

E depois, o interesse, o tempo que perdem a saber da nossa vida… Já alguém teve um  amigo que se interessasse realmente por si?  Onde mora? O que faz? Com quem vive? Duvido… Mas estes outros, não. Até se dão ao cuidado de escrever cartas anónimas…Imaginem:. Na era da informática, quando já ninguém tem paciência para escrever à mão… Por nós, vejam bem, por nós, irem comprar um envelope…Papel…Selos… Ficarem ali sentados a pensarem, de caneta na boca, naquilo que vão escrever.

Depois, saírem de propósito para irem ao correio mais próximo deitar a carta… Que consolador não é tudo isto para nós…

A carta anónima é útil, sim senhor. Eu, por mim, acho-as interessantíssimas. E até bendigo a santa criatura que a escreveu, que tanto bem me quer.

Vejamos: A carta anónima para a mulher, a dizer que o marido a engana, poderá ser a melhor estratégia para o homem, se este não for parvo. Será como o sal na comida.

Irrita ,mas  depois de muita conversa ,que ,confessemos, em alturas destas os homens são muito convincentes, pode-se chegar à conclusão que há muita gente sem escrúpulos que perdem o seu tempo a escreverem coisas destas. E a mulher acredita e perdoa. E tal perdão é sempre uma pedra no charco no marasmo do casamento, traz uma  nova acção ,outra novidade, a maior parte das vezes bem gostosa…

A carta anónima para o homem, a dizer que não passa dum corno, tem as suas vantagens, sim senhor…Porque ou não sabia e ficou sabendo, ou já sabia e não se rala.

Se o não sabia, foi um óptimo serviço, se o já sabia e não se rala até poderá exclamar, depois de a ler com um sorriso : ‘’…Tão bem intencionado…coitado…’’

A carta anónima vale mesmo uma epopeia… Que venham mais…

E pensar que há ainda quem abomine, as simpáticas, as maravilhosas cartas anónimas… Falta de gosto…

JULIO ALMADA: ENTRE A TRADIÇÃO E A MODERNIDADE, A POESIA – por lívia petry / porto alegre

A poesia surgiu em tempos imemoriais e segundo a história do Ocidente teria se desenvolvido primeiramente na Grécia. Ela é uma forma de cantar a memória dos homens, de exprimir sua alma, suas emoções, suas visões de mundo. Toda vez que surge um novo poeta , o cantar da Humanidade se renova. Este é o caso de Julio Almada. Ele transita entre a tradição da poesia do séc. XIX ( Baudelaire) até chegar à poesia moderna de nossos tempos. Ele dialoga em seus versos com poetas do porte de Fernando Pessoa, Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Mario Cesaryni. Utilizando-se do manancial dos poetas ( as metáforas , rimas, aliterações, assonâncias, anáforas), constrói novas sonoridades e novas formas imagéticas em seus poemas.

T. S. Eliot já dizia num famoso ensaio sobre poesia e sociedade, que a função social do poeta é renovar sua língua, é levar a seu povo uma nova forma de dizer as palavras, fazer com que surja uma nova forma de escrita e expressão e assim, manter a língua materna ( e por que não dizer, a língua dos homens), cada vez mais viva. Pois bem, Julio Almada cumpre com êxito essa função: ele traz à língua portuguesa, novos sons, novos ritmos, novas imagens. Fala-nos em temas recorrentes não só em toda a poesia do Ocidente como também na poesia contemporânea: o amor, a morte, a passagem do tempo, a brevidade da vida, o dilaceramento entre corpo e alma, a fragmentação do indivíduo, a falta de sentido da vida. Através de seus poemas podemos vislumbrar novas paisagens de nossa própria humanidade, de nossa temporalidade e fragilidade ante o caos da realidade moderna. Podemos olhar para o amor com olhos de quem já viu o mundo ou de quem o experimenta pela primeira vez. Julio leva-nos aos extremos da alma, do dilaceramento das emoções, até encontrarmos apenas o vazio, ou o que sobra dele: a linguagem poética. É através da poesia que ele descortina nossa própria essência e dialoga com a tradição. Retomando Baudelaire e seu pessimismo, sua visão estética, Julio nos diz: “ se eu fosse raso e tivesse olhos / Lago com as mãos poluídas / Desenhava chuvas ácidas / em teu corpo em frangalhos”.  Junto com a epifania daquilo que foge à estética clássica para formar a linguagem da modernidade, Almada nos propõe um novo dizer, um novo ritmo, um novo olhar. É com este olhar diverso que ele fala da falta, da dor, das perdas que o coração é obrigado a carregar em si. Assim, o poeta diz em seus versos: “Há uma meia-tinta na palidez hoje / e a dor para doer fala / um idioma estranho/ já não sei nada do que falta / Já me falta saber tudo. ” Falta saber quem somos, para onde vamos, e o poeta trata de inquietar-nos ainda mais com essas questões. Ele não veio trazer respostas, ele veio fazer-nos a pergunta que não quer calar, a pergunta que não ousamos fazer a nós mesmos.

Como bom poeta moderno, ele retoma a linguagem e faz meta-poesias ou seja, poemas que falam sobre o próprio fazer poético como acontece no poema que dá título ao livro ( em um mapa sem cachorros): “o meu verso é dessa / forma: fugidio, inexato / E se o verso me verte algo / me exaspera ser: enfático / sou a metade do caminho/ de um fim que nunca sabe / a que veio, onde termina.” Neste mesmo poema ele torna a dialogar com a tradição, desta vez com Fernando Pessoa e sua poesia “Autopsicografia”: ( o poeta é um fingidor / finge tão completamente / que chega a fingir que é dor/ a dor que deveras sente ). Julio retoma o tema e escreve à sua maneira o desabafo do poeta: “Tudo o que eu antes dizia / hoje me olha estupefato/ frangalhos meu sonho inútil /  outrora meus simulacros / nem fingir mais eu sei .” O poeta é aquele que simula as emoções no papel, e que será dele se já fingir não sabe mais? Ainda assim, ele nos responde valendo-se novamente de Fernando Pessoa, de que o poeta afinal não é um, ele é vários: “os outros e os outros / em mim combatem: / a luz de minha sombra.” Vemos aí, o dilaceramento do eu, a fragmentação do indivíduo na idade moderna, a falta de unidade que a vida nos dias atuais impôs à psique humana. Questões que Fernando Pessoa abordou com maestria como nenhum outro poeta antes dele e que Almada traz à tona de forma original.  Como Pessoa ele também trabalha com imagens marítimas que trazem em si a questão da saudade e da distância: “o barco de pedra/ tem sonhos de mar/ de água entranhada / de alga no olhar. ”

Mas Julio não é apenas um nostálgico, ele também sabe como falar do amor: nisso, torna a dialogar com outros poetas como Carlos Drummond de Andrade e Manuel Bandeira quando fala: “meu coração tem dorso de pedra / navega águas para esconder-se / esfrega com frio os olhos de relva / afogado em sua própria sede.” Ou quando fala-nos de um amor dissolvido: “lavei o rosto com a areia / testemunha fria e morna/ da minha morte de água.” Estes poetas ficam ainda mais evidentes nos versos de poemas como Simbioses e Historinha que reproduzimos a seguir:

“A pedra ruborizada / me amedrontou / Eu que medo / não tinha de nada / tive medo de água / quando a pedra me tocou.”  Ou ainda “comprei uma flor assassina / (…) E hoje a noite é longínqua/ E hoje a flor é incerta.”  Incerta como a vida, a flor assassina deste amor nos remete imediatamente à flor presa no asfalto que Drummond cantava em seus versos. Somos lançados de volta à fragilidade da vida e dos afetos, à imagem quase onírica do poema. Essas imagens que o modernismo e mais tarde o surrealismo utilizaram tanto, são renovadas na poesia atualíssima de Julio Almada.  Assim, ele faz-nos lembrar também do poeta português Mario Cesaryni por ter como ele, versos em que o leitor é levado a imaginar metáforas de sonho. São traços do surrealismo que fazem com que esses poemas tornem-se ao mesmo tempo abertos à interpretação dependendo de quem os lê, e fechados dentro da linguagem. Um desses exemplos encontramos no “Poema para ser breve”:  “braços ruidosos como laços / olhos com a pele de uma lâmpada/ o que era eu: um adeus breve / o que eras tu: nova mariposa.”

Vemos aí o uso de imagens-símbolos em que o leitor pode re-escrever o verso à sua maneira, sob sua perspectiva. Paul Zumthor costumava dizer que somente a poesia era capaz de fazer com que o leitor “ouvisse” as palavras, pois na arte poética, as palavras têm “carne”, têm voz, fazem jogos acústicos, têm sonoridade própria. Ao ler os versos de Almada, escutamos seu grito, ouvimos sua dor, o pulsar de um coração descompassado e vário. Ao terminar seu livro, temos a certeza de que a vida é transitória, a poesia, não.  O poeta morrerá um dia, mas a poesia apesar de “morrer centenas de vezes” não irá “morrer sequer um dia”.

.

Lívia Petry

Mestranda em Literatura Portuguesa e Luso-Africana pela UFRGS, escritora, poeta, contadora de histórias.

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Em um Mapa sem Cachorros

Em um dia fúnebre

Antes da hora

Do Mês dito Agosto

O prato do pranto

Foi a flor que chora

Frio e nunca no ponto

O meu verso é dessa

Forma: fugidio inexato

O sangue não é lágrima

Mas bóia no mesmo prato

E eu de mim tudo perdi

Ao olhar inconformado

Os dias no calendário

Rasgados e putrefatos

Para dizer do tempo: venci

E nunca de fato

Ter o tempo segurado

Umas vezes ele me prendia

Nas outras me degolava

E o sangue doce foi

Uma mesa vazia

De esperar e embaraço

Tudo o que eu antes dizia

Hoje me olha estupefato

Frangalhos meu sonho inútil

Outroras meus simulacros

Nem fingir mais eu sei

De tanto que me zombaram

E se o verso me verte algo

Me exaspera ser: enfático

Sou a metade do caminho

De um fim que nunca sabe

A que veio aonde termina

se depois de tanta armadilha

Compensa todo vil pedaço.

Julio Almada do Livro Em um Mapa Sem Cachorros.

CENSURA e PEDOFILIA – por bráulio tavares / joão pessoa

A Censura da ditadura militar criou, na minha geração, a idéia meio difusa de que Censura é coisa do diabo, que toda censura é coisa ruim, é um valor negativo absoluto. Eu vario de opinião. Hoje, por exemplo, ando meio a favor de Censura sobre obras que divulguem o Nazismo, façam propaganda do Nazismo, incitem ao ódio racial. Sou a favor da existência da censura em casos especiais. Posso até vir a mudar de opinião, mas em princípio acho que esse pessoal tem que ser reprimido.

O escritor Neil Gaiman divulgou há algum tempo um documento contra a Censura que foi exercida contra o quadrinhista Mike Diana, por causa de sua HQ “Boiled Angels”. Diana foi acusado de pedofilia, e, segundo Gaiman, foi condenado a três anos de prisão (com recurso suspensivo), multa de 3 mil dólares, ficou proibido de permanecer no mesmo recinto que qualquer pessoa com menos de dezoito anos, teve que prestar mil horas de serviços comunitários, e foi proibido de desenhar temas obscenos. Além disso, a polícia local recebeu autorização para fazer buscas sem aviso prévio em sua casa, para verificar se ele estava produzindo material pedófilo. Foi neste ponto que Neil Gaiman (ele próprio afirma) decidiu que “assim também é demais também”. E fez um protesto público no seu blog.

Diz Neil Gaiman: “Se eu gosto ou não do que Mike Diana desenha é irrelevante. Mas, por que vale a pena defendê-lo? Porque a liberdade de escrever, de ler, de possuir material que vale a pena defender implica em ter que defender coisas que a gente não gosta e chega a achar desagradáveis, porque as leis são instrumentos sem sutileza que não distinguem entre o que eu gosto e o que não gosto, porque os juízes são humanos e têm seus preconceitos como qualquer humanos, além de estarem sempre disputando reeleições, e porque o que uma pessoa chama de obscenidade outra chama de arte”.

Note-se que, pelo que foi divulgado, o desenhista não seduziu menores nem violentou crianças, ele apenas escreveu e desenhou uma história. Vi alguns quadrinhos de Mike Diana na Internet e achei de mau gosto, mas, tirando o sexo explícito (gente nua, gente transando, etc.), não é nada mais agressivo do que se vê nos quadrinhos e até em algumas coisas da TV, como “South Park”. Comparado a muitos cidadãos respeitáveis (médicos, políticos, etc.), que um belo dia são descobertos violentando ou seduzindo crianças, o que Mike Diana fez foi uma espécie de exorcismo público dos seus próprios fantasmas. Parece que quando o cara tem uma “tendência” e pode se expressar publicamente sobre ela, isso já lhe basta, porque a “tendência” é na verdade uma fantasia puramente mental, que pode ser satisfeita por meios puramente mentais como a criação artística, sem precisar chegar às “vias de fato”. Quando o cara não pode confessar que gosta daquilo, ele reprime, esconde, sufoca, mas a coisa é muito forte, cresce, vira um Monstro, enquanto o Médico continua tocando sua vida de cidadão acima de qualquer suspeita.

* Braulio Tavares é escritor e jornalista.

AMORES – por sergio santeiro / niterói.rj

Há de todo o jeito: curtos, longos, breves, vãos, tensos, intensos,
fugazes, velozes, durazes, de pronto atendimento, a perder de vista.
Algo se produziu na convivência humana que nos faz chegar perto, nos
faz chegar mais de uns ou de outros. Dizem que há explicações, prefiro
não buscá-las: químicas, cheiros, identidades, estranhezas.

Prefiro o mistério, o que se não explica. A rigor, acho que o
acasalamento devia ser mais livre, mais casual. Não era preciso chamar
tanta atenção, nem sonhar tanta promessa, algo mais fluido. E assim é,
de vez em quando. A maior ofensa que se faz às mulheres é não tentar
seduzi-las, principalmente as que se acham. O maior elogio é deixar-se
por elas seduzir, principalmente as que não se acham.

Seduzir ou não, eis a questão. Ficar ou não ficar pra mim é muito
vago, sou da antiga. É ou não é coisa na coisa. Especialmente quando
se chega à decisão, um pergunta pro outro: – Pode ser ou tá difícil? É
preciso perguntar, afinal a mulher é aquela coisa que quando quer
quer, mas quando não quer, não quer.

Quando quer move mundos e fundos, vai até ao inferno, mas, quando não
quer, finge que não viu nem ouviu – o que é um dos mais notáveis
atributos femininos: faz que não entende. Quando quer atravessa o
oceano, quando não, nem a rua.

Coitado ou coitada é condição etimologicamente derivada de coito que
não houve? Acoitar é sinônimo de agasalhar? Agasalhar o croquete é
vulgar? É feio externar as palavras que me acorrem à mente? Entubar
hoje em dia é botar no youtube? Em português, no tutubo? Ou botar no
teu tubo? No meu ainda não. Dizem que, depois de certa idade, tudo é
possível. Pode ser, ainda não cheguei lá.

Pra mim, o doce ainda é navegar nas águas turvas da emoção. Emoção
quer dizer Ê, moção? Moção como moça grande, exuberante, fornida,
aumentativo de moça e não de moço, bem entendido. Aliás, entendido é
também como se chama o parceiro de mesma natureza. Tudo é da natureza.
Na Grécia, em Roma, nos confins da Alexandria, tudo era natural. Hoje
também.

Na Grécia como os gregos, em Roma como os romanos, em Alexandria como
Alexandre, como não como verbo, como como como, menos as romanas, as
gregas e as alexandrinas, que estas são como verbo. Sabemos por outra
que neste quesito a vida não é das mais difíceis. Sempre sobra um bem
querer para o nosso querer bem.

Muitas vezes o erro ou o mal é errar com quem, ou pode-se atirar no
que se viu e acertar onde não se viu, neste caso recomenda-se insistir
e tomar o acerto ao invés de insistir no erro e levar um fora. Levar
um fora não é lá dessas coisas, nem sempre é pra sempre, nada como um
dia após o outro, com uma noite, um sonho, um travesseiro no meio,
talvez quando acordar, hoje dá.

Ser aprazível, aconchegante, insinuante, audaz, desdenhoso, desejante,
gaste o verbo. Tudo o que não sou. Acima de tudo, não perder a
esperança jamais. Afinal, por que não eu?

20/9/2009

INCÓGNITO – de otto nul /palma sola.sc

Move-se

Ou não se move

Ri-se

Ou não se ri

Olha-se

Ou não se olha

Inquire-se ou não

Ouve

Apagou-se

Excluiu-se

Num beco

Aprumou-se

Pertence ao mundo

Não é de lugar algum

CANTAR LO QUE ES – de héctor cisneros / ecuador

No por hoy

más cantos

a la luna,

a la vecina

de al lado,

al cuerpo

de la bonita,

no por hoy

más

bocas lindas,

habiendo tantas cosas

que cantar.

No.

Tiene que ser

poesía.

hoy gritos

mañana cantos,

hoy puños

mañana

balas,

hoy pueblo

mañana pueblos,

poesía siempre

significa pueblo

y pueblo siempre

significa revolución

.

Dicen que lo vieron el 1 de mayo de 1985 por la Diez de Agosto como a mediodía, repartiendo volantes de un grupo político…nunca más fue visto. era un poeta de las calles.

PARA ” EL COMANDANTE CHE” – de jb vidal / florianópolis

quando o fuzil

fizer amor

com a paz,

.

a revolução,

.

estará grávida

da liberdade !

Porto Alegre, inverno de 1970.

che-guevara-1960-posters (1)

EL COMANDANTE “CHE” GUEVARA em 1960. foto feita durante as comemorações da revolução cubana.


SAUDAÇÃO A CHE GUEVARA – de manoel de andrade / curitiba

Este poema, Saudação a Che Guevara, escrito em outubro de 1968, para comemorar o primeiro ano da morte do CHE, na Bolívia, teve suas 3.000 cópias panfletadas em ambientes estudantis e sindicais, no fim daquele ano, de Curitiba. O poema,colocando liricamente a sua imagem de Comandante no centro de todos os movimentos revolucionários do continente, convocava a luta armada e saudava a sua imortalidade como uma consigna triunfante na conquista de um mundo novo. Alguns panfletos foram aprendidos pelo DOPS (Delegacia de Ordem Política e Social) e seu autor, passou a ser procurado. Em razão disso deixou o Brasil em março de 1969 iniciando sua trajetória poética ao longo de 15 países da América Latina. Em outubro de 1969 a Federación Universitária de Cochabamba, na Bolívia, publica o poema em centenas de exemplares de um cartaz anônimo, ilustrado com a arte de Atílio Carrasco. Só agora, 40 anos depois, é que este poema, que correu o Continente, nas várias edições, em espanhol, do seu livro POEMAS PARA A LIBERDADE, aparece no Brasil editado este ano pela Escrituras. Este site, registrando os 42 anos da morte do grande guerrilheiro, publica em primeira edição virtual o poema do palavreiro Manoel de Andrade.

O EDITOR.

SAUDAÇÃO A CHE GUEVARA


No sonho da liberdade

onde cada mártir renasce,

onde não há homem sem terra

onde não há povo sem face,

num tempo, gesto de sangue

no sangue, gesto de amor,

no amor de quem se deu

como um perfume de flor

e nessa flor de montanha

aberta pro continente

nesta beleza tamanha

na minha fé deslumbrante

tu estás meu Comandante

numa saudade bem clara

dos que morrem e que renascem

contigo, Ernesto Guevara.

.

No nosso ódio indigesto

na voz da conspiração

na passeata de protesto

em cada homem sem pão

em cada cidadão livre

que é metralhado na rua

no seio de cada greve

no salário de quem sua

na opressão e na fome

nesse mal que nos consome

como farol claro e forte

surge tua imagem, teu nome

teu braço de guerrilheiro

como um fuzil justiceiro

nos apontando o roteiro

em busca da liberdade.

.

Nas pátrias negociadas

desta América sofrida

na ditadura instalada

na terra não repartida

em toda prisão injusta

em todo estudante morto

em cada homem sem rosto

de quem outro vive à custa

no estômago agonizante

nos punhos que desabrocham

pra rubra flor do combate,

tu estás, meu Comandante.

.

Enquanto a noite se escorre

na garganta da ampulheta

as gerações se preparam

para a estação da colheita.

A semente está brotando

na flor da revolução

e a consciência do povo

vai tomando posição.

Tu semeaste a bom tempo

os grãos dos frutos por vir

que levados pelo vento

no estampido dos metais

brotam nos campos ao sul

das terras continentais.

.

Adios, adios, hasta siempre

meu imortal Comandante,

na terra há flores se abrindo

no peito a fé triunfante

no tempo um caminho aberto

e nele os homens sorrindo

num largo gesto de hermano

na busca de um mundo novo

da pátria purificada

para a alegria do povo.

Curitiba, Outubro de 1968

saludo a Che Guevara

o poema, em espanhol,  publicado em cartaz  da Federacion Universitaria Local (Cochabamba) na Bolívia, em outubro de 1969, ilustrado por Atílio Carrasco.

PARA ERNESTO “CHE” GUEVARA – de eduardo galeano / montevideo.ur

Por que será que o Che
tem esse perigoso costume
de seguir sempre renascendo?
Quanto mais o insultam,
o manipulam o traicionam,
mais renasce.
Ele é o mais renascedor de todos!
Não será porque o Che
dizia o que pensava,
e fazia o que dizia?
Não será por isso,
que segue sendo
tão extraordinário,
num mundo
em que as palavras
e os fatos
raramente se encontram?
E quando se encontram,
raramente se saúdam,
porque não se reconhecem?

– 1967, La Higuera, assassinaram Che, que ainda nasce,
a cada dia nasce.

UM clique no centro do vídeo.

MAQUETE: AS JANELAS DE F.K – por jorge lescano / são paulo

A guisa de prólogo.

Para aqueles que precisam definir o gênero para poder iniciar a leitura; para aqueles que acham que existe o hábito da leitura; para aqueles que pretendem haver entendido o texto quando conseguem classificá-lo, anuncio desde já: isto é uma Maquete, “gênero” ou objeto que passa a existir em forma narrativa a partir deste original.

Ilustres exemplos poderiam ser apresentados para autorizar esta opção ou capricho. Cito apenas dois para não cansar o leitor: o escritor e político peruano Ricardo Palma (1833-1919) batizou de Tradiciones um gênero de crônica que mistura ficção e história do Peru colonial. Johannes Jensen, autor dinamarquês (prêmio Nobel de Literatura de 1944, para os que valorizam tal honraria), chamou de Mitos suas crônicas. O termo ganhou um verbete especial no dicionário danês.

Para aqueles que apreciam a história dos eventos literários; para aqueles que gostam das notas explicativas de pé de página; para aqueles que cultuam as interpretações acadêmicas, descrevo a seguir as circunstâncias em que surgiu esta Maquete.

O Centro de Pesquisa Teatral (CPT), que funciona na Unidade Consolação do Serviço Social do Comércio (SESC), promove neste primeiro semestre de 2003 um Curso de Cenografia e Adereços Teatrais. Requisito para se inscrever na lista de seleção dos candidatos para as poucas vagas oferecidas: projeto cenográfico (maquete ou desenho) para uma encenação de qualquer obra de Franz Kafka.

É claro que a liberdade e dificuldade da proposta desafiam qualquer imaginação!

No primeiro momento a mente percorre o trilho do bom senso e procura no seu arquivo a obra que deseja encenar. Vêm, instantâneas, imagens de encenações das mais freqüentadas obras de F.K.: O Processo; O Castelo; A Metamorfose.

Carta ao Pai, com uma enorme cadeira, espécie de trono pontifício, colocada sobre um pedestal altíssimo, inacessível ao protagonista narrador, no qual estará sentado o Patriarca criado por Kafka, é por si só uma síntese de todas estas obras. Em  cada uma delas há uma figura imponente, inacessível, prepotente, espécie de arquétipo da mitologia contemporânea, povoada de pais, chefes de governo, arquivistas. Qualquer ambientação que remetesse às sórdidas dependências de um escritório de repartição pública, serviria. A impessoalidade de tais ambientes, conquanto fechados, ilustrariam parte do universo kafkiano. As idéias a respeito, por óbvias, foram recusadas. Neste ponto, a inscrição na supracitada lista de seleção estava fora de cogitação.

Não que eu pensasse seriamente em fazer o tal curso, mas a idéia de desenvolver um projetinho como exercício era atraente. Então outra idéia veio à mente.

(Escrevo sem consultar as obras citadas, este recurso dá-me a ilusão de criar um clima poético no texto.)

II – Maquete propriamente dita.

Existe uma curiosa fotografia que mostra a janela do  quarto de Franz Kafka, em Praga, que dá diretamente para o interior de uma igreja católica, perto do altar-mor. Talvez esta janela, e de forma inconsciente, tenha gerado outras janelas que aparecem na sua obra.

A primeira, por ordem de função, está no primeiro capítulo de O Processo. Por ela se assoma uma senhora idosa para observar como Josef K. é informado do seu processo. São duas janelas, se bem me recordo, pois é pela segunda que a dita senhora, vizinha frontal do protagonista, pode ver melhor o quarto deste.

Tal janela, menos como detalhe arquitetônico que motivo literário, reaparecerá no final do romance. É dali que a testemunha, um homem em mangas de camisa, assiste a execução de Josef K. Este homem é também a última imagem que F.K. deixa ao leitor, permitindo supor que esta coincide com a visão final de Josef K.

A terceira janela deve estar em A Metamorfose e por ela se debruçam A Mãe e A Irmã de Gregor Samsa para contemplar a paisagem depois do pesadelo que é o miolo da novela.

(Embora A Metamorfose seja anterior a O Processo, aqui é citada em função dramática, não cronológica: A Mãe e A Irmã sentem-se libertas pela morte de Gregor, este fato crucial coincide com a cena final de O Processo).

Esta janela tem algo como função ritual ou catártica, se associada àquela da moradia de F.K. Ela é o tema da maquete. O reconhecimento de sua  hierarquia em relação aos outros componentes, determinada pela posição central na fachada aparente do fundo do palco, exige que a luz seja interna, isto é, a iluminação do palco terá sua fonte na janela e de lá se projetará  sobre a cena. A janela, ao invês de receber a luz, será a sua fonte. Nada nos impede imaginar que F.K. estará olhando o mundo através dela, como poderia ter olhado o interior da igreja de Praga.

A morte de Josef K. se dá à vista do público que acompanha a execução (como um cão) juntamente com o homem da janela. Já a morte de Gregor Samsa se manifestará como ausência iluminadora. Ironicamente, esta morte libertará a luz e os personagens.

A janela empírica (para o interior da igreja) é a verdadeira personagem desta encenação (cenográfica), motivadora da presente maquete. Os acontecimentos serão reunidos ao seu pé para permitir que se perceba sua mudança. Se há um processo psicológico, será o da janela, símbolo do olhar do dramaturgo Franz Kafka.

Assim se compreende que o palco permaneça nu durante todo o espetáculo, apresentando-se as nuanças psicológicas por intermédio da luz e, talvez, de recursos acústicos: ecos, amplificações, deslocamentos de vozes, passos, etc., do ritmo (ou disritmia) corporal dos atores, a piacere do encenador.

III – De como se fará a transferência da (suposta) poética de Beckett sobre a máscara para a cenografia.

Há um pressuposto (nosso) que diz que Samuel Beckett leva o teatro europeu às últimas conseqüências retornando às suas origens gregas. Tal fato dar-se-ia no seu monólogo NOT I. Nesta obra, o autor irlandês “reduz” a máscara grega ao seu componente essencial: a boca.

É de acreditar que o texto da tragédia grega é continuação da arte do rapsodo – contador de histórias ambulante. Em algum momento este contador deixará de perambular e se estabelecerá na polis, justificando, se não exigindo, a construção do teatro. Parece lógico especular que ele seja uma das raízes do espetáculo teatral, além das festas dionisíacas.

Sabemos que nos seus primórdios, a tragédia era um gênero narrativo mais do que dramático. O único ator em cena dizia seu texto em pose estática sobre um pedestal. As diferenças em relação ao rapsodo estavam no figurino e na máscara e, paradoxalmente, na impossibilidade de representar certas atitudes e emoções dos personagens, como é visto ainda hoje nos contadores de praça pública. Impossibilidades físicas decorrentes dos paramentos e da situação cênica do ator, deram à cena um caráter solene, incorporando sua pose hierática à arquitetura-cenografia e padronizando sua atuação. Tal será o tom dominante das futuras representações.

Em nossa leitura da poética de Beckett em Not I, atribuímos-lhe a intenção de sintetizar este momento fundador reduzindo a máscara à boca. Desenvolvendo esta premissa dramatúrgica, experimentaremos aplicar tal princípio à cenografia com atributos de drama. A tradição escolhida será o palco latino.

De forma esquemática, suficiente para nosso propósito, podemos descrever este palco como a representação do frontispício de um edifício dotado de colunas com capitéis sustentando cornijas, janelas, e três portas. Apenas estas portas tinham função real. Por elas entravam e saiam os atores que representavam seus papéis no espaço compreendido entre o fosso da orquestra e esse fundo.

A questão básica é: como sintetizar este palco, per si tão reduzido?

Valendo-nos das janelas apresentadas, importantes na dramatização das cenas kafkianas, valorizaremos as janelas do fundo do palco. As entradas e saídas dos atores serão feitas pelas laterais. As janelas estarão no nível de um primeiro andar, serão apenas três e somente a do centro terá profundidade real, pois por ela se assomarão os personagens-espectadores do espetáculo que se desenrolará aos seus pés. Uma luz tênue, de abajur, deverá indicar a existência das janelas laterais.

As cenas escolhidas da obra de Kafka serão representadas no pequeno espaço iluminado pela luz crua da janela central, que se projetará sobre o palco propriamente dito. Os personagens-espectadores não serão figuras muito nítidas. A luz virá de detrás deles, permitindo perceber seu volume, mas não as feições, semelhantes a espectros e aos espectadores sentados na platéia vistos do palco. A platéia e o fundo do palco deverão sugerir a idéia de espelho embaçado. Entre estes dois “espelhos” se desenrolará o drama kafkiano, espécie de ponto cego no espaço real do teatro, ponto de partida e final do espetáculo.

Kpn. 4/3/003

Espaço Cultural BRDE abre as portas para a exposição “Imagens da Alemanha”, pela primeira vez no Brasil. / curitiba


Recém-chegada da Bolívia, a exposição “Deutschlandbilder”Imagens da Alemanha desembarca no Brasil e será vista em apenas duas cidades: Curitiba e Porto Alegre. O Espaço Cultural BRDE – Palacete dos Leões foi escolhido pelo Goethe-Institut para receber a exposição que reflete o olhar de oito fotógrafos sobre a Alemanha. “No ano em que o mundo lembra os vinte anos da queda do muro que, entre 1961 e 1989, dividiu a Alemanha em duas partes, o Goethe-Institut Curitibaem parceria com o Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul, através de seu Espaço Cultural, apresenta ao público algumas impressões da Alemanha atual, sem que esses trabalhos caiam numa vertente de fotografia oficial ou representativa. Seguindo o princípio de autoria, os fotógrafos se dedicaram a temas que fossem de seus interesses e de suas experiências pessoais” comenta a diretora do Goethe-Institut Curitiba, Claudia Römmelt.

“Deutschlandbilder”Imagens da Alemanha, única exposição fotográfica do ano no Espaço Cultural BRDE, foram exibidas pela primeira vez no outono de 2005 em Berlim, numa coletiva de todos os 17 fotógrafos da Agência OSTKREUZ. Um tema recorrente é o conceito da pátria, como afirmação geográfica, social e política, e também como expressão de sentimentos e saudade. Desta grande exposição, o Goethe-Institut selecionou oito fotógrafos, em parceria com OSTKREUZ, para rodar o mundo. “A história da OSTKREUZ, de certa maneira, se funde com a história da Alemanha, integrando aos poucos os membros da parte oriental e ocidental. A Agência foi fundada em Berlim, em 1990, por sete renomados fotógrafos da Alemanha oriental. Contando no ínterim com 17 integrantes, da Alemanha oriental e ocidental, ao longo dos anos, a OSTKREUZ tornou-se uma instituição estável e reconhecida”, explica Claudia Römmelt.

Este ano as Imagens da Alemanha já passaram pelo Chile e Bolívia. No Palacete dos Leões elas permanecem até o dia seis de novembro. Depois de Curitiba, “Deutschlandbilder”, segue para a Galeria do Goethe-Institut em Porto Alegre.

Quem são os fotógrafos de “Deutschlandbilder” Imagens da Alemanha

– Thomas Meyer capta o sentimento de pátria em fotografias da Ilha Spiekeroog, no norte da Alemanha.  Para muitos alemães, Spiekeroog significa viver em harmonia com a natureza, respirar ar puro, descobrir o ócio, usufruir de uma bela paisagem, encontrar a si próprio.  A ilha é uma localidade extremamente idílica. Não há automóveis, ruídos, poluição.

– Anne Schönharting direciona seu olhar para uma “pátria substituta” temporária, oferecida a crianças abandonadas que encontraram abrigo em um prédio de uma ex-escola. Seus retratos contam de saudade e solidão, de desilusão e agressões, de perda da esperança e perda de identidade.

– Sibylle Bergemann, por sua vez, se dedica à busca de vestígios no passado da ex-RDA (República Democrática Alemã). Um olhar melancólico sobre uma pátria gradativamente entregue ao esquecimento é transmitido pelas fotografias ampliadas em Polaroid – reminiscências de um mundo que, poucos anos atrás, era cheio de vida.

– Linn Schröder descobre em momentos capturados a qualidade poética do cotidiano. A série Uma parcela é composta de instantâneos. A fotógrafa direciona seu olhar sobre cenários enigmáticos, como, por exemplo, três elefantes em uma paisagem invernal em frente à Igreja ou sobre um homem que acaba de fotografar um motivo invisível, escondido atrás de um monte de pedras.

– Annette Hauschild também fotografa o cotidiano em sua série No domingo.  Nos países de tradição cristã, o domingo é o dia semanal de festas e descanso, mas o significado original deste dia está sendo esquecido. Annette capta, ocupações “clássicas” de domingo, como a ida à igreja ou o piquenique no parque.

Jordis Antonia Schlösser fotografou as regiões de Halle-Neustadt e Garzweiler, duas localidades características pela falta de habitantes que se tornaram sinônimo de “perda de pátria”. Aproximadamente 30% das moradias estão vazias. Sem emprego, os habitantes deram as costas às cidades. O vazio, típico da região oriental da Alemanha, está registrado nas fotografias em preto e branco.

– Ute Mahler, em sua série Novos velhos, registrou pessoas que, apesar da idade avançada, são engajadas e transmitem a impressão de energia e vitalidade. As fotografias são tanto transposições vivas e coloridas como humorísticas de um tema que, em decorrência da procura de juventude e beleza eternas, ganha cada vez maior importância.

– Wolfgang Bellwinkel, em contraposição, se ocupa em sua série Pátria com os projetos de vida da geração jovem.  Bellwinkel viajou pela província alemã e perguntou aos jovens casais sobre suas idealizações de pátria e felicidade pessoal.  Seus retratos cuidadosamente encenados e apresentações precisamente compostas de concepções idílicas são reunidas numa seqüência fotográfica conscientemente sublinhadas (überzeichneten) por “paisagens fantásticas”,  que questionam subjetivamente determinados clichês do conceito pátria, sem jamais expô-las ao ridículo.

Neue Alte

Neue Alte – Ute Mahler

An der NordseeAn der Nordsee – Thomas Meyer

Heimat IIHeimat – Wolfgang Bellwinkel

.

Mais informações sobre a Agência de Fotografia OSTKREUZ no site http://www.ostkreuz.de/

Para saber mais sobre o Instituto Goethe Curitiba e suas exposições itinerantes acessewww.goethe.de/curitiba

“Deutschlandbilder” – Imagens da Alemanha

Abertura

08 de outubro às 19hs

Exposição

De 09/10 a 06/11

Segunda a sexta-feira, 12h30 às 18h30

Espaço Cultural BRDE – Palacete dos Leões

Av. João Gualberto, 530/570 (com estacionamento)

Alto da Glória – Curitiba -PR

Informações: (41) 3219-8056

BRDE

LEMINSKI E O MITO por affonso romano de sant’anna / rio de janeiro

Pedem-me um reflexão sobre os 20 anos da morte de Paulo Leminsky e ponho-me a me lembrar não só de sua pessoa  e obra,  mas   a considerar   a imagem mítica que veio se construindo em torno dele.

A primeira vez que o vi, foi em Belo Horizonte, 1963, quando   inesperadamente ele apareceu na Semana Nacional de Poesia de Vanguarda, que eu e outros organizávamos. Ele havia me escrito perguntando como participar, eu havia lhe respondido que a UFMG infelizmente só tinha verba para uns poucos convidados com obra mais conhecida (Haroldo de Campos, Augusto e Campos, Décio Pignatari, Benedito Nunes, Luis Costa Lima, etc). Um  dia estamos no hotel e aparece lá aquele rapaz de 19 anos dizendo que viera de ônibus de Curitiba e se podia assistir aos debates. Expliquei aos colegas, que não o conheciam, e todos  achamos que se alguém  se desloca  de tão longe, claro, merecia atenção.

Estive com ele em lançamentos de livros e discos no Rio, em mesa de bares e Curitiba, e quando ele se mostrava juvenilmente siderado pelos concretistas eu advertia, que naquele movimento não havia espaço para mais ninguém, ou ele criava sua linguagem própria ou ia ser fagocitado. Felizmente ele tomou o caminho da diferença e partiu através da reinvenção brasileira do hai-kai, para pequenos, ferinos, ágeis, magistrais poemas.

Lembro-me de um seminário em Curitiba, nos anos 70, tempo de ditadura, em que ele adentrou o salão da Biblioteca Pública com uma ou outra pessoa erguendo cartazes contra a ditadura do soneto. Acontece que no palco (onde eu estava) as pessoas também eram até contra o soneto da ditadura…

Quando aos 31 anos, publicou “Catatau”, eu era crítico da “Veja” e  essa revista estava interessada em literatura e não apenas em best-sellers. Abrindo caminho para os novos  (R. Drummond, Sérgio Santana, Luis Vilela, Raimundo Carrero, Adélia Prado, Antonio Torres, João Antonio), fiz uma resenha sobre “Catatau” onde reconhecia seus méritos. Livro dedicado aos concretistas e  feito na esteira do”Finnegans Wake”, dele, eu dizia: “Tem-se a impressão de que desejou começar onde Joyce acabou. E isto  talvez não seja possível. Cada autor deve começar no seu principio e não no fim do outro”. Terminava, dizendo: “Livro sem centro, apesar de circular, “Catatau” é um moto contínuo linguístico. As palavras caminham numa procura órfica. Como a sua personagem -o coronel Cristoff Artyschewsky , o autor também está bêbado- de palavras. Daí se perguntar no final: ‘ Bêbado, quem compreenderá’?”.

Quando vejo exporem pedaços de papel e  maços de cigarro escritos por Leminsky, como  se fossem ” santas relíquias” lembro-me que quando da morte de Joseph Beuys, uma galeria expôs partes de suas unhas, pedaços de barbantes e folhas de jornal largados no seu ateliê. Como a Igreja diante de qualquer osso de um santo ou pedaço da cruz, toda seita tem frenesi diante de “santas relíquias”. Num gesto de pudor a família de Leminsky expressou desejo de que não se publique o que ele não publicou.

Se nem Machado de Assis escapou  da mitificação ( foi até cúmplice), recentemente, para retornarmos à literatura dos anos 70, isto ocorreu  com outra “marginal”-Ana Cristina César. (Esclareço: não só a conheci desde menina, sou meio parente dela, fui eu quem a levou à Puc, etc.- portanto, sou insuspeito). Ela teve um fim patético, como Leminsky.Em torno dela, aos moldes ultraromânticos, que misturam biografia & obra, ergueu-se uma certa necrofilia. Por coincidência, nesses dias li a biografia de Clarice Lispector- escritora excepcional, genial sob alguns aspectos-  num belo livro que Benjamim Moser lançou nos Estados Unidos.  O livro é uma obra de peso sob muitos aspectos. Mas lia o livro e pensava na outra Clarice Lispector, que tão bem conheci. Neste livro há uma sublime mitificação judaica!

Vejo notícias das merecidas homenagens marcando os 20 anos da morte de Leminsky e temo que sua obra continue sendo menos estudada que sua figura mítica ampliada pela imaginação dos pósteros e pelo ímpeto que temos de construir mitos. A antropologia, aliás, está devendo aos estudos literários uma boa interpretação de como os “marginais” de ontem foram entronizados no centro do sistema. E aí há que se analisar o que é mística e antropologicamente “martirológio” e o que é “literatura”.

Ambígua e esperta é essa cultura que transforma iconoclastas em santos, canoniza a seita dos hereges, transforma a contra-cultura em cultura. De paradoxo em paradoxo chega-se ao oxímoro paralisante.   Na superposição e na troca de sinais entre “periferia” e “centro” ocorre o fenômeno de purificação do sujo, de angelização do mal, de entronização do excluído. O estigma passa a ser condição para a salvação. Tanto os Beatles quando os Rolings Stones receberam distinções do Palácio de Buckinghan. O marginal que condenou o consumo é consumido e chega ao céu do capitalismo e da cultura mediática.

Nosso sistema é diabolicamente inteligente.

E a sociedade do espetáculo  tem seus sortilégios.

DO QUE RESTAR por darlan cunha / belo horizonte



Servir os ombros para o descanso
do Outro, os seios nus da Razão,
que mais valem os ardores compartilhados
do que a boca pálida dos solitários, sim,
pavorosa é a solidez
da solidão, algo assim como a água
ao contrário correndo, sem rumo
certo, sem brilho, sem som, água de não se beber,
já sem força para moldar a pedra,
já sem nexo contra os moinhos
(o Mundo, cainho, é um moinho).

ESTIVEMOS ALGUNS DIAS SEM COMUNICAÇÃO COM A INTERNET EM RAZÃO DE PROBLEMAS COM OS CABOS (ADSL) DA OPERADORA DE TELEFONIA.

Morre MERCEDES SOSA, a voz da América – por paulo renato da silva / são paulo

A Argentina alimentou – e alimenta -, a partir de Buenos Aires, a imagem de país europeizado e de classe média. Para muitos, sobretudo estrangeiros, Buenos Aires é a essência do país.

A cantora Mercedes Sosa demonstrou a fragilidade dessa imagem. Tornou-se uma das principais referências da cultura argentina e latino-americana vindo da “distante” Província de Tucumán, localizada no noroeste do país, a mais de mil quilômetros de Buenos Aires.

No país que, proporcionalmente, recebeu o maior contingente de imigrantes europeus em todas as Américas, Mercedes Sosa destacou-se por cantar a cultura indígena e popular, muito presentes em sua07_MVG_cult_mercedesprovíncia natal e em sua história familiar. No país das “loiras magras”, Mercedes Sosa, com sua silhueta variante, mas sempre avantajada, era chamada carinhosamente de “La Negra” por seus traços indígenas, a pele morena e os cabelos negros lisos.

Com o apelido, Mercedes Sosa conseguiu inverter o sentido negativo que a palavra costuma ter na Argentina. O termo “cabecita negra” foi difundido por imigrantes europeus e pelas classes médias e altas de Buenos Aires ao se referirem pejorativamente aos migrantes do interior, muitos dos quais tinham origens indígenas.

Mercedes Sosa nunca escondeu, também, a origem humilde. Certa vez declarou como sua família ficou sensibilizada ao receber da primeira-dama Evita Perón (1919-1952) dois pares de óculos, quando tinham pedido apenas um. No país onde muitos ainda se orgulhavam de sua “qualidade de vida”, Mercedes Sosa já cantava e denunciava, na década de 1970, a pobreza, a opressão e a injustiça. Era uma presença incômoda para a ditadura instaurada em 1976. Em 1979, foi presa durante um show e exilada até 1982.

Na Europa, onde já tinha se apresentado, continuou a divulgar a cultura indígena tantas vezes perseguida pelos “antigos” colonizadores. Virou um dos símbolos do retorno à democracia em 1983. Apesar do avanço da “lógica de mercado” sobre a produção cultural argentina, principalmente durante a década de 1990, manteve-se conhecida como uma artista engajada social e politicamente. Criticou publicamente o governo neoliberal do presidente Carlos Menem (1989-1999). Se por um lado cantava, sim, para as classes médias e altas em apresentações de ingressos caros, por outro nunca deixou de cantar em eventos gratuitos e beneficentes.

O falecimento de Mercedes Sosa no domingo, dia 4, representa uma grande perda para a cultura argentina e latino-americana. Perda, pois continuava ativa, mesmo com 74 anos e a saúde debilitada. Neste ano lançou “Cantora”, um CD duplo indicado ao “Grammy Latino”. Mas sua obra permanecerá, certamente. Alguns argentinos costumam dizer que Carlos Gardel, o ícone do tango, canta melhor a cada dia, apesar de ter falecido em 1935. Mercedes Sosa será assim lembrada por todos os argentinos e latino-americanos que sonham com um continente mais desenvolvido, justo, plural e soberano.

Paulo Renato da Silva é doutor em História pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) e Professor Adjunto da Universidade Federal do Tocantins (UFT), Campus de Porto Nacional

DESISTI DE LER “O MONGE E O EXECUTIVO” por “o ruminante” * / belem

Tentei com todo meu apreço terminar de ler o Livro “O Monge e o Executivo“, mas infelizmente não foi possível. Nunca mais eu abro esse livro. Meu objetivo era tentar fazer uma crítica ao mesmo, mas o livro é tão ruim que eu desisto de analisar capítulo a capítulo buscando uma exegese sensata do texto, evitando que eu parecesse um idiota que não entendeu a mensagem do livro.

O que mais me irrita é que somos tratados como imbecis pelo autor, o qual ao invés de discorrer sobre o assunto, tenta nos levar a uma sessão de terapia em grupo com os personagens representando os tipos de líderes mais comuns, os quais precisam de conselhos profissionais. A pior parte é que essa terapia é dirigida por um monge que trabalhou tanto a ponto de não ter aproveitado bem família, se isolou no monastério após perder a esposa e, conforme o livro, quer orientar as pessoas como serem melhores líderes para poderem trabalhar mais e melhor. Um contra-senso que deveria chamar a atenção de todos.

Em outro texto me expressei por não gostar de livros de auto-ajuda, o que certamente influenciou minha leitura deste exemplar. Ainda sim, afirmo que um pouco de bom senso e uma explanação direta sobre liderança pode ajudar muito mais as pessoas que estão em dificuldades no assunto, é melhor do que a tentativa de tratá-los como indivíduos que não tem capacidade de pensar sozinhos.

Não entendo muito bem como esses tipos de livros acabam por fazer tanto sucesso, talvez seja uma grande angústia trazida pelas pressões exacerbadas da vida profissional contemporânea, ou uma exigência ainda maior pela produtividade cada vez mais aprimorada com custos cada vez menores. Acredito que isso só está piorando as pessoas, ao contrário do que a grande mídia carreirista vem pregando.

Outro ponto que me irrita é o fato de haver um grupo enorme de aproveitadores explorando os fãs do livro através de palestras, artigos, livros que analisam o livro, entre outras coisas que tem por objetivo único o lucro.

Andei conversando com um amigo meu, chegamos a conclusão que hoje não é mais necessário escrever um bom livro para ganhar dinheiro. Na verdade basta esperar que alguém escreva um livro que faça sucesso e depois lançar um outro livro sobre como usar o primeiro. Tivemos a idéia de lançar o nosso, o título vai ser: “O Monge Que Mexeu no Meu Queijo e O Executivo que Transformou o Suor em Ouro”. Vamos ficar ricos!

Falando sério agora, acredito que se quisermos mesmo melhorar como pessoas através da leitura, é muito melhor lermos autores Jorge Amado, Carlos Drummond, Kafka, Shakespeare, Dostoiévski, Monteiro Lobato, além de muito outros que nos trazem muito mais mensagens que devemos levar para vida do que livros de auto-ajuda.

Não leve minha mensagem como arrogante. Na verdade eu apenas acredito que as pessoas são muito mais capazes do que vemos pregado por aí, basta darmos a chance para pensarem sozinhas. Ninguém precisa sofrer uma lavagem cerebral para viver bem.

.

o site tem a verdadeira identidade do autor.

MEU AMIGO QUINTANA por hamilton alves / florianópolis



Lembro-me saudosamente o dia em que fui ao encontro do poeta Mário Quintana, num apartamento, no Hotel Royal, muito bem acomodado ali, que o jogador de futebol Falcão lhe emprestou para morar. Pouco tempo antes disso, a Prefeitura de Porto Alegre o despejou de um cômodo, pertencente à municipalidade. Não fosse Falcão, Quintana teria amargado horas ruins.

Mario me recebeu muito bem. As prateleiras de seu quarto eram recheadas de livros. Mário sempre viveu à volta deles.

Nossa entrevista foi curta. Não tratamos de literatura, como se poderia supor.

Trocamos algumas palavras dessas corriqueiras, comuns entre amigos que se visitam.

Mário era servido por uma secretaria, que, na hora em que o visitei, lhe preparava um lanche.

Além dos livros, que ocupavam algumas das estantes já referidas, vi um quadro de muito mau gosto a uma parede. Mas, claro, não cheguei a tocar nesse assunto para o Quintana. Só fiquei julgando que provavelmente não se interessasse por pintura. Devia ser um quadro que fora dado por um amigo ou amiga ou um visitante inesperado como eu.

Fui lhe mostrar um livro de crônica. Fora a Porto Alegre à procura de editor.

Disse-lhe das dificuldades de um escritor pouco ou nada conhecido de conseguir publicar um livro de crônicas, ainda mais se tratando desse gênero maldito. Ele replicou:

– Os editores sempre criam dificuldades para editar um livro, mas no fim acabam editando.

Não lhe mostrei os manuscritos, que trazia numa pasta. Ele, obviamente, não teria o menor interesse de ler minhas crônicas.

De-repente, sem mais aquela, Mário se esticou numa poltrona (acima da qual estava o dito quadro). E entendi que dava por encerrada a entrevista comigo.

Não ficamos só nisso na passagem por seu apartamento.

Deu-me de presente um de seus livros de prosa e poesia (mais deste do que daquele gênero). Fez-me uma dedicatória:

“Para Hamilton Alves de seu colega e amigo Mário Quintana – Natal de 84”.

Nesse livro, desponta um poema que é representativo do estilo de Quintana de compor versos. Intitula-se “Poeminha do contra”. Ei-lo:

“Todos esses que aí estão

Atravancando o meu caminho,

Eles passarão…

Eu passarinho!”

Perdi o contato com esse belo livro, que me fora dedicado pelo Quintana, editado pela “Mercado Aberto”, de Porto Alegre, sob o título “Sapo Amarelo”.

Hoje, percorrendo a minha biblioteca atrás de um livro de outro poeta, acho-o escondido entre outros numerosos livros.

Veio-me à lembrança a tarde de 84 em que vim a conhecer Quintana, esse poeta de poemas tão leves e que parecem voar como se fossem passarinhos, como bem expressa esse que transcrevi nesta crônica.

Ele mesmo, tal qual me surgiu aos olhos nesse dia,  parecia-me um pequeno e frágil passarinho.

(out/09)

Cortem a cabeça! – por alceu sperança /cascavel.pr

Alceu sperança  - AJC (1)A Rainha de Copas ordenou que cortassem a cabeça de Alice com base na história do Brasil?

O capitalismo se desenvolveu com o “financiamento” do ouro roubado das terras brasileiras e vizinhas, mas antes disso até as idéias libertárias da Revolução Francesa foram “desapropriadas” pelos europeus, recolhidas dos nossos índios, como amostras de sangue para patentear ou exemplares de nossa biodiversidade.

Afonso Arinos defendia essa tese no livro “O índio brasileiro e a Revolução Francesa” (1937) e Darcy Ribeiro batia na mesma tecla.

Viu potencial para uma drástica mudança nas cabeças de “um bando de europeus malcheirosos vindos de cidades devastadas por peste e fome, encontrar aquela indiada nua, paradisíaca”.

Esse paraíso a olho nu certamente poderia inspirar idéias novas em alguém às voltas com os horrores de sua época. Os livros religiosos sempre se referiram à possibilidade de um mundo novo para os homens, sem injustiça e opressão. Encontrar os índios era aprender que esse paraíso é possível.

A coisa toda pode ser rastreada. A carta Mundus novus, de Américo Vespúcio, nos valeu sermos hoje americanos e o fascínio pelo paraíso na terra:

“Todas as árvores são odoríferas e produzem gomas ou óleos (…) cujas propriedades todas, se fossem conhecidas, não duvido que andaríamos todos sãos. E por certo que se o paraíso terrenal existe em alguma parte da terra, creio que não deve ser longe destes países.”

De onde será que tiraram a idéia de vir roubar nossa biodiversidade?…

Os franceses André Thevet (1558) e Jean de Léry (1578) chegaram a exagerar: tínhamos homens marinhos e bichos que se alimentavam de ar. A Igreja Católica se assustou e mandou investigar. Notícias antecedentes, curiosas e necessárias das cousas do Brasil, obra do padre Simão de Vasconcelos, em 1663, deveria historiar essa investigação, mas o capítulo que tratou do assunto foi censurado.

A coisa praticamente teve início com Thomas Morus e seu livro A utopia (1516), que deriva de Américo e sua fabulosa América. O protagonista é um marinheiro europeu que aprende uma linda lição: “A virtude consiste em se viver segundo a natureza”.

O francês Michel de Montaigne, que está voltando à moda outra vez, não deixou por menos no ensaio Sobre os canibais (1572), louvando a vida selvagem para criticar as instituições européias. “A essa gente chamamos selvagem como denominamos selvagens os frutos que a natureza produz sem a intervenção do homem”.

Esse paraíso, pode-se notar pelo que Montaigne escreve, foi para as cucuias:

“É um país (…) onde não existe hierarquia política, nem domesticidade, nem ricos e pobres; (…) o trabalho dos metais aí se ignora; não usam vinho nem trigo; as próprias palavras que exprimem a mentira, a traição, a dissimulação, a avareza, a inveja, a calúnia, o perdão, só excepcionalmente se ouvem.”

Daí, como dizemos aqui, temos Rousseau e suas considerações idealistas sobre o “bom selvagem”. E logo viria a Revolução Francesa, com base na ideia de que seria uma beleza viver sem propriedade nem a exploração do homem pelo homem, como aqueles índios nus que, quando guerreavam, era por um impulso natural.

Inclusive na hora de cortar cabeças!

Depois Marx transformou o cantar da guilhotina ao cortar cabeças em algo mais cabeça. Mas aí, entre os índios nus encontrados em 1500 e os dias de hoje, já são outras 500 revoluções.

E nossas cabeças já não são mais as mesmas.

Rumorejando (Como muitos,com a vitória do Rio de Janeiro vibrando, mas com os super-faturamentos se preocupando…) – por juca (josé zokner) / curitiba

JUCA - Jzockner pequenissima (1)

PEQUENAS CONSTATAÇÕES, NA FALTA DE MAIORES.

Constatação I

Ficou

Arrebatado

De alegria

Parecia

Estar

Num mar

De rosas.

Havia

Acertado

Numa milhar

E passou

A ganhar

A atenção

Das formosas

Atendentes

Do balcão

Que antes sequer

Nele notavam

Nem mostravam

Os dentes.

Vá alguém

Procurar

Entender,

Compreender

O desdém

De uma mulher.

Constatação II [Chuvas no Paraná e nos demais estados do sul do Brasil (I)]

No céu cinzento,

Kafkiano,

O curitibano,

Sentiu-se bolorento,

Fossético,

Patético,

Amuado,

Torvado,

Perturbado.

Coitado!

Constatação III [Chuvas no Paraná e nos demais estados do sul do Brasil (II)].

Um sol atrevido,

Que já havia desaparecido

Despontou

Entre nuvens carregadas

De imagens

Como desenhadas.

Soprou um vento,

Naquele momento

Trazendo

Frescas aragens

Tal deixou

Ele, um quatrolho*,

De humor horrendo,

Com o sobrolho,

Antes carregado,

Desanuviado.

Descoitado!

* De sobrancelhas brancas (Houaiss).

Constatação IV [Chuvas no Paraná e nos demais estados do sul do Brasil (III)].

Ela fez uma desfeita.

Não compareceu

Ao encontro marcado,

O que levantou nele,

Um apaixonado romeu,

Uma incômoda suspeita

De que estava sendo corneado.

Tinha ficado

Debaixo de um aguaceiro

E logo quando ele

Ia pedir a ela algum dinheiro.

Coitado!

Constatação V

Uma imagem vale mil palavras. Se for das sogras vale mil palavras, relacionadas com medo, susto e sobressaltos.

Constatação VI (De uma dúvida crucial).

O Michael Jordan viria a ser o Pelé do basquete e/ou o Pelé ante viria a ser o Michael Jordan do futebol?

Constatação VII (“Poesia” meio forçada).

Foi o clarinete

Que disse pro fagote

Que o oboé

Ao andar de trotinete*

Escorregou ao dar 

E deu um trompaço na trompa,

Que até pareceu abraço de tamanduá,

Quando retornava de ,

Das bodas de fígaro, com pompa,

Mas sem circunstância

Já que não houvera dote

E se fora um casamento

De muita retumbância.

Aí,

Num certo momento,

O noivo descuidado,

Talvez ofuscado

Pelo sol,

Meio fora de si

Tropeçou num fami…gerado

Penetra que não tinha sido convidado,

Já que os convivas só

Era gente de escol

E se machucou de dar .

Coitado!

*Trotinete = patinete (Houaiss).

Constatação VIII

Rico alcança uma idade avançada; pobre, fica um caco.

Constatação IX

Rico cria mitos; pobre, é macaca de auditório.

Constatação X

Chamou o idoso, seu tetraneto, de fedelho.

E passou a lhe dar um sermão, além de conselho.

Era sua tataravó que sempre armava uma querela

Quando ele disse que ia pela nona vez se casar com uma donzela.

Constatação XI

Rico é impetuoso; pobre, vagaroso.

Constatação XII (Via pseudo-haicai).

Seu verso-de-seis-pés*

Ninguém se dispôs a ler

De lés-a-lés**.

*Sextilha (Aurelião).

**De um lado a outro (Aurelião)

Constatação XIII

Rico fica indignado; pobre p. da vida.

Constatação XIV

O jogador paranaense Alex, que foi revelado na equipe de base do Coritiba merecia estar no livro Guiness de recordes por ter sido o único jogador que fez dois gols olímpicos numa mesma partida. O goleiro que levou tais gols também…

Constatação XV

E já que falamos em futebol, vale lembrar e/ou assinalar que o meu time, o Paraná, não tem necessidade de estar mudando frequentemente de técnico. O Paraná precisa, apenas, mudar a Diretoria, os jogadores da defesa, do meio de campo e do ataque. Elementar…

Constatação XVI (“Poesia” quase trágica).

Traição em dobro

Saiu correndo pela rua em trajes de Adão,

Mostrando, entre outros, seu tralalá.

O guarda lhe deu voz de prisão:

“Vosmecê vai tê que me “acompanhá”

O Delegado perguntou a razão

De ele estar andando desnudo.

Ele não quis dar explicação

Daí, ficou todo o tempo mudo.

“Você vai ficar no xilindró

Até que eu telefone pra sua consorte”.

Apavorado, ele falou: “Por favor, tenha dó.

Não faça isso. Se não, será minha morte”.

“Não entendo porque tanto temor

Que mal que ela poderá te fazer?”

“É que eu estava com outro amor

Aí, o marido chegou e eu tive que correr”.

Constatação XVII

Rico sofre de oclofobia*; pobre, almeja a oclocracia**.

*Oclofobia = “medo mórbido da multidão, da plebe” (Houaiss).

**Oclocracia = “exercício do poder ou do governo pela multidão, pela plebe” (Houaiss).

Constatação XVIII

Quem anda no fio da navalha

Não pode nem deve ter uma escorregadela

Porque lhe pode sair caro essa falha

Pois poderá machucar a bun, digo, a costela.

O BRASILEIRO – autor não identificado

– Brasileiro é um povo solidário. Mentira. Brasileiro é babaca.
Eleger para o cargo mais importante do Estado um sujeito que não tem escolaridade e preparo nem para ser gari, só porque tem uma história de vida sofrida;
Pagar 40% de sua renda em tributos e ainda dar esmola para pobre na rua ao invés de cobrar do governo uma solução para pobreza;

Aceitar que ONG’s de direitos humanos fiquem dando pitaco na forma como
tratamos nossa criminalidade…

Não protestar cada vez que o governo compra colchões para presidiários que queimaram os deles de propósito, não é coisa de gente solidária.
É coisa de gente otária.

– Brasileiro é um povo alegre. Mentira. Brasileiro é bobalhão.

Fazer piadinha com as imundices que acompanhamos todo dia é o mesmo que tomar bofetada na cara e dar risada.

Depois de um massacre que durou quatro dias em São Paulo, ouvir o José Simão fazer piadinha a respeito e achar graça, é o mesmo que contar piada no enterro do pai..
Brasileiro tem um sério problema.
Quando surge um escândalo, ao invés de protestar e tomar providências como cidadão, ri feito bobo.

– Brasileiro é um povo trabalhador. Mentira.

Brasileiro é vagabundo por excelência.
O brasileiro tenta se enganar, fingindo que os políticos que ocupam cargos públicos no país, surgiram de Marte e pousaram em seus cargos, quando na verdade, são oriundos do povo..

O brasileiro, ao mesmo tempo em que fica indignado ao ver um deputado receber 20 mil por mês, para trabalhar 3 dias e coçar o saco o resto da semana, também sente inveja e sabe lá no fundo que se estivesse no lugar dele faria o mesmo.

Um povo que se conforma em receber uma esmola do governo de 90 reais mensais para não fazer nada e não aproveita isso para alavancar sua vida (realidade da brutal maioria dos beneficiários do bolsa família) não pode ser adjetivado de outra coisa que não de vagabundo.

– Brasileiro é um povo honesto. Mentira..

Já foi; hoje é uma qualidade em baixa.
Se você oferecer 50 Euros a um policial europeu para ele não te autuar, provavelmente irá preso.
Não por medo de ser pego, mas porque ele sabe ser errado aceitar propinas.

O brasileiro, ao mesmo tempo em que fica indignado com o mensalão, pensa intimamente o que faria se arrumasse uma boquinha dessas, quando na realidade isso sequer deveria passar por sua cabeça.

– 90% de quem vive na favela é gente honesta e trabalhadora. Mentira.

Já foi.
Historicamente, as favelas se iniciaram nos morros cariocas quando os negros e mulatos retornando da
Guerra do Paraguai ali se instalaram.
Naquela época quem morava lá era gente honesta, que não tinha outra alternativa e não concordava com o crime.
Hoje a realidade é diferente.
Muito pai de família sonha que o filho seja aceito como ‘aviãozinho’ do tráfico para ganhar uma grana legal.
Se a maioria da favela fosse honesta, já teriam existido condições de se tocar os bandidos de lá para fora, porque podem matar 2 ou 3 mas não milhares de pessoas.
Além disso, cooperariam com a polícia na identificação de criminosos, inibindo-os de montar suas bases de operação nas favelas.

– O Brasil é um pais democrático. Mentira.

Num país democrático a vontade da maioria é Lei.
A maioria do povo acha que bandido bom é bandido morto, mas sucumbe a uma minoria barulhenta que se apressa em dizer que um bandido que foi morto numa troca de tiros, foi executado friamente.

Num país onde todos têm direitos mas ninguém tem obrigações, não existe democracia e sim, anarquia.
Num país em que a maioria sucumbe bovinamente ante uma minoria barulhenta, não existe democracia, mas um simulacro hipócrita.
Se tirarmos o pano do politicamente correto, veremos que vivemos numa sociedade feudal: um rei que detém o poder central (presidente e suas MPs), seguido de duques, condes, arquiduques e senhores feudais (ministros,
senadores, deputados, prefeitos, vereadores)..
Todos sustentados pelo povo que paga tributos que têm como único fim, o pagamento dos privilégios do poder. E ainda somos obrigados a votar.

Democracia isso? Pense !
O famoso jeitinho brasileiro.
Na minha opinião, um dos maiores responsáveis pelo caos que se tornou a
política brasileira.
Brasileiro se acha malandro, muito esperto.
Faz um ‘gato’ puxando a TV a cabo do vizinho e acha que está botando pra quebrar.

No outro dia o caixa da padaria erra no troco e devolve 6 reais a mais, caramba, silenciosamente ele sai de lá com a felicidade de ter ganhado na loto… malandrões, esquecem que pagam a maior taxa de juros do planeta e o
retorno é zero. Zero saúde, zero emprego, zero educação, mas e daí?
Afinal somos penta campeões do mundo né?? ?
Grande coisa…

O Brasil é o país do futuro. Caramba , meu avô dizia isso em 1950. Muitas vezes cheguei a imaginar em como seria a indignação e revolta dos meus avôs se ainda estivessem vivos.
Dessa vergonha eles se safaram…
Brasil, o país do futuro !?
Hoje o futuro chegou e tivemos uma das piores taxas de crescimento do mundo.

Deus é brasileiro.
Puxa, essa eu não vou nem comentar…

O que me deixa mais triste e inconformado é ver todos os dias nos jornais a manchete da vitória do governo mais sujo já visto em toda a história brasileira.

Para finalizar tiro minha conclusão:

O brasileiro merece! Como diz o ditado popular, é igual mulher de malandro, gosta de apanhar. Se você não é como o exemplo de brasileiro citado nesse e-mail, meus sentimentos amigo, continue fazendo sua parte, e que um dia
pessoas de bem assumam o controle do país novamente.
Aí sim, teremos todas as chances de ser a maior potência do planeta.
Afinal aqui não tem terremoto, tsunami nem furacão.
Temos petróleo, álcool, bio-diesel, e sem dúvida nenhuma o mais importante:
Água doce!

Só falta boa vontade, será que é tão difícil assim?

-.-

CÃOZINHO FELIZ - image

SEM VOCÊ – de charles silva / florianópolis

amar assim de longe

a parte que me cabe

não faz de mim um monge

você sabe

eu só rezo

quando o seu sorriso abre

.

amar assim sem tempo

a arte que lhe cobre

é todo sentimento

você sabe

eu só sinto

com o seu milagre

.

eu tô dentro do jogo

a saudade sobra

ficar sozinho é fogo

não ter você é solda!

CABEÇA – de solivan brugnara / quedas do iguaçu.pr

Saia apenas para fazer compras

pela rua pavimentada

com ovos de avestruz.

Sempre vestido com roupas fúnebres.

Acima do paletó não tinha face

só a palavra cabeça.

Uma maça mordida nasceu no antebraço.

Em sua casa

há um altar com severos

livros de contabilidade vermelhos.

Nas tardes lembrava da pedra

que foi sua ama-de-leite.

Quando sua cadeira quebrou uma perna

fez de uma pomba velha o calço.

Araras saem

do congelador de sua geladeira.

Sempre calado,

boca empoeirada

e língua mumificada.

Sua mão de abutre com tendinite

bicam o controle apodrecido da tv.

Tentou escrever poemas

mas as folhas ficavam velhas e amareladas

quebradiças como os manuscritos do mar morto.

Da janela olha as ruínas de Olímpia

que parece-lhe um cemitério de elefantes.

Todo o dia

espera pela volta da morte reclamando da demora,

resmungando sempre:

Morremos duas vezes

antes de nascer e depois de viver.

PORTA-RETRATO de joanna andrade / miami.usa

Sou o que os olhos podem ver

Minha historia num calice chapiscado com gotas de Chardonnay

No fim

Os albuns de fotografia continuam intocaveis

O balanço da árvore de Cinamomo traz entre um vai e vem os contos todos

Pluralidade em vida singular

Ilhada vida atribulada

Zerada

Todo dia uma disputa comprovada

Às custas de alguém.

LUZES DA TARDE – de tonicato miranda / curitiba

TONICATO MIRANDA - Luzes da Tarde 2

.


para os palavreiros

antes que a tarde acabe

dúvida que de mim duvida

mais um desenho a fazer

ou num poema me fazer

.

não falo de fazer como quem

veste o ego ou uma roupa

mas de fazer o corpo-casa

o espírito obrando sua casa

.

olho à janela e vejo a luz

apraz-me este ar parado

o calor manso desta tarde

borboletas belas na tarde

.

a vontade de desenhar perdeu

para a vontade do poema

foi bom não perder a tarde

farei desenhos mais tarde

CLUBE BILDERBERG, o livro de daniel estulin sobre essa organização poderosa e maligna. leitura indicada / pela editoria

CLUBEDurante os últimos 50 anos, um grupo seleto de políticos, empresários, banqueiros e poderosos tem se reunido secretamente para tomar as grandes decisões que movem o mundo. Por que as pessoas mais poderosas do mundo se reúnem secretamente a cada ano? Por que os meios de comunicação não divulgam esses encontros? Qual o plano do Clube para o futuro da humanidade? O livro responde essas e muitas outras questões.

Autor: Daniel Estulin

Idioma : Português
País de Origem : Espanha
Número de Paginas : 320

Download do livro em arquivo PDF:

http://www.4shared.com/file/107936491/e231dd1a/Daniel_Estulin_-_A_Verdadeira_Historia_do_Clube_BILDERBERG.html

MEIO MILHÃO DE ACESSOS no “PALAVRAS,TODAS PALAVRAS” em um ano e dez meses de existência!!

OBRIGADO LEITORES !

OBRIGADO COLABORADORES !

OS “PALAVREIROS DA HORA” AGRADECEM !

TELA DAS " COBRAS PINTORAS"

TELA DAS " COBRAS PINTORAS"

RAINER MARIA RILKE sobre o poeta/escritor / alemanha

“Procure entrar em si mesmo. Investigue o motivo que o manda escrever; examine se estende suas raízes pelos recantos mais profundos de sua alma; confesse a si mesmo: morreria, se lhe fosse vedado escrever? Isto acima de tudo: pergunte a si mesmo na hora mais tranqüila de sua noite:”Sou mesmo forçado a escrever?” Escave dentro de si uma resposta profunda. Se for afirmativa, se puder contestar àquela pergunta severa por um forte e simples “sou”, então construa a sua vida de acordo com esta necessidade. Sua vida, até em sua hora mais indiferente e anódina, deverá tornar-se o sinal e o testemunho de tal pressão. Aproxime-se então da natureza. Depois procure, como se fosse o primeiro homem, a dizer o que vê, vive, ama e perde. (…)”

Impressões – de delinar pedrinho

Ferve meu corpo toda vez que a tenho em meus braços

Respiro fundo…, ofego

Arquitetando sonhos encontro-me eu, todos com um mesmo fim, sermos um.

Néscio, cá me encontro.

Com desvairos me exprimo por tela como “amiga intima”

Intento nos átimos em que nos vemos ter sua alma o mais possível

Espero fundir-me a tu, primeiro no breves momentos em que me declaro em tua boca, teu ser…, e após em tudo o mais

Lânguido não ei de estar, o seu amor me alimenta

Espiriteio-me quando a vejo, alouqueço de desejo por ti.

MATSUO BASHÔ e seus haicais / japão (1644 –1694)

Não esqueças nunca
o gosto solitário
do orvalho

.-.


A mesma paisagem
escuta o canto e assiste
à morte da cigarra

.-.

Admirável aquele
cuja vida é um contínuo
relâmpago

-.-


Oh anda ver
uma bola de neve
a arder

.

Tradução: Jorge de Sousa Braga