Arquivos Mensais: abril \29\UTC 2009

ESPÍRITO do ARCEBISPO DOM HELDER CÂMARA CONCEDE ENTREVISTA e dá UM CHEQUE MATE nos APOSTÓLICOS ROMANOS

Dom Helder Câmara (espírito).

Recentemente foi lançado no mercado cultural um livro mediúnico trazendo as
reflexões de um padre depois da morte, atribuído, justamente, ao Espírito
Dom Helder Câmara, bispo católico, arcebispo emérito de Olinda e Recife,
desencarnado no dia 28 de agosto de 1999 em Recife, Pernambuco.

O livro psicografado pelo médium Carlos Pereira, da Sociedade Espírita
Ermance Dufaux, de Belo Horizonte, causou muita surpresa no meio espírita e
grande polêmica entre os católicos. O que causou mais espanto entre todos
foi a participação de Marcelo Barros, monge beneditino e teólogo, que
durante nove anos foi secretário de Dom Helder Câmara, para a relação
ecumênica com as igrejas cristãs e as outras religiões. Marcelo Barros
secretariou Dom Helder Câmara no período de 1966 a 1975 e tem 30 livros
publicados.

Ao prefaciar o livro Novas Utopias, do Espírito Dom Helder, reconhecendo a
autenticidade do comunicante, pela originalidade de suas idéias e, também,
pela linguagem, é como se a Igreja Católica viesse a público reconhecer o
erro no qual incorreu muitas vezes, ao negar a veracidade do fenômeno da
comunicação entre vivos e mortos, e desse ao livro de Carlos Pereira, toda a
fé necessária como o Imprimatur do Vaticano. É importante destacar, ainda,
que os direitos autorais do livro foram divididos em partes iguais, na
doação feita pelo médium, à Sociedade Espírita Ermance Dufaux e ao Instituto
Dom Helder Câmara, de Recife, o que, aliás, foi aceito pela instituição
católica, sem nenhum constrangimento.

No prefácio do livro aparece também o aval do filósofo e teólogo Inácio
Strieder e a opinião favorável da historiadora e pesquisadora Jordana
Gonçalves Leão, ambos ligados a Igreja Católica. Conforme eles mesmos
disseram, essa obra talvez não seja uma produção direcionada aos espíritas,
que já convivem com o fenômeno da comunicação, desde a codificação do
Espiritismo; mas, para uma grandiosa parcela da população dentro da
militância católica, que é chamada a conhecer a verdade espiritual, porque
“os tempos são chegados”; estes ensinamentos pertencem à natureza e,
conseqüentemente, a todos os filhos de Deus.

A verdade espiritual não é propriedade dos espíritas ou de outros que
professam estes ensinamentos e, talvez, porque, tenha chegado o momento da
Igreja Católica admitir, publicamente, a existência espiritual, a vida
depois da morte e a comunicação entre os dois mundos.

Na entrevista com Dom Helder Câmara, realizada pelos editores, o Espírito
comunicante respondeu as seguintes perguntas sobre a vida espiritual:

Dom Helder, mesmo na vida espiritual, o senhor se sente um padre?

Não poderia deixar de me sentir padre, porque minha alma, mesmo antes de
voltar, já se sentia padre. Ao deixar a existência no corpo físico, continuo
como padre porque penso e ajo como padre. Minha convicção à Igreja Católica
permanece a mesma, ampliada, é claro, com os ensinamentos que aqui recebo,
mas continuo firme junto aos meus irmãos de Clero a contribuir, naquilo que
me seja possível, para o bem da humanidade.

Do outro lado da vida o senhor tem alguma facilidade a mais para realizar
seu trabalho e exprimir seu pensamento, ou ainda encontra muitas barreiras
com o preconceito religioso?

Encontramos muitas barreiras. As pessoas que estão do lado de cá reproduzem
o que existe na Terra. Os mesmos agrupamentos que se formam aqui se
reproduzem na Terra. Nós temos as mesmas dificuldades de relacionamento,
porque os pensamentos continuam firmados, cristalizados em determinados
pontos que não levam a nada. Mas, a grande diferença é que por estarmos com
a vestimenta do espírito, tendo uma consciência mais ampliada das coisas
podemos dirigir os nossos pensamentos de outra maneira e assim influenciar
aqueles que estão na Terra e que vibram na mesma sintonia.

Como o senhor está auxiliando nossa sociedade na condição de desencarnado?

Do mesmo jeito. Nós temos as mesmas preocupações com aqueles que passam
fome, que estão nos hospitais, que são injustiçados pelo sistema que subtrai
liberdades, enriquece a poucos e colocam na pobreza e na miséria muitos;
todos aqueles desvalidos pela sorte. Nós juntamos a todos que pensam
semelhantemente a nós, em tarefas enobrecedoras, tentando colaborar para o
melhoramento da humanidade.

Como é sua rotina de trabalho?

A minha rotina de trabalho é, mais ou menos, a mesma. Levanto-me, porque
aqui também se descansa um pouco, e vamos desenvolver atividades para as
quais nos colocamos à disposição. Há grupos que trabalham e que são
organizados para o meio católico, para aqueles que precisam de alguma
colaboração. Dividimo-nos em grupos e me enquadro em algumas atividades que
faço com muito prazer.

Qual foi a sua maior tristeza depois de desencarnado? E qual foi a sua maior alegria?

Eu já tinha a convicção de que estaria no seio do Senhor e que não deixaria
de existir. Poder reencontrar os amigos, os parentes, aqueles aos quais
devotamos o máximo de nosso apreço e consideração e continuar a trabalhar, é
uma grande alegria. A alegria do trabalho para o Nosso Senhor Jesus Cristo.

O senhor, depois de desencarnado, tem estado com freqüência nos Centros
Espíritas?

Não. Os lugares mais comuns que visito no plano físico são os hospitais; as
casas de saúde; são lugares onde o sofrimento humano se faz presente.
Naturalmente vou à igreja, a conventos, a seminários, reencontro com amigos,
principalmente em sonhos, mas minha permanência mais freqüente não é na casadom-helder-camara05
espírita.

O senhor já era reencarnacionista antes de morrer?

Nunca fui reencarnacionista, diga-se de passagem. Não tenho sobre este ponto
um trabalho mais desenvolvido porque esse é um assunto delicado, tanto é que
o pontuei bem pouco no livro. O que posso dizer é que Deus age conforme a
sua sabedoria sobre as nossas vidas e que o nosso grande objetivo é
buscarmos a felicidade mediante a prática do amor. Se for preciso voltar a
ter novas experiências, isso será um processo natural.

Mediunidade – Qual é o seu objetivo em escrever mediunicamente?

Mudar, ou pelo menos contribuir para mudar, a visão que as pessoas têm da
vida, para que elas percebam que continuamos a existir e que essa nova visão
possa mudar profundamente a nossa maneira de viver.

Qual foi a sensação com a experiência da escrita mediúnica?

Minha tentativa de adaptação a essa nova forma de escrever foi muito
interessante, porque, de início, não sabia exatamente como me adaptar ao
médium para poder escrever. É necessário que haja uma aproximação muito
grande entre o pensamento que nós temos com o pensamento do médium. É esse o grande de todos nós porque o médium precisa expressar aquilo que estamos
intuindo a ele. No início foi difícil, mas aos poucos começamos a criar uma
mesma forma de expressão e de pensamento, aí as coisas melhoraram. Outros
(médiuns) pelos quais tento me comunicar enfrentam problemas semelhantes.

Foi uma surpresa saber que poderia se comunicar pela escrita mediúnica?

Não. Porque eu já sabia que muitas pessoas portadoras da mediunidade faziam
isso. Eu apenas não me especializei, não procurei mais detalhes, deixei isso
para depois, quando houvesse tempo e oportunidade.

Imaginamos que haja outros padres que também queiram escrever
mediunicamente, relatarem suas impressões da vida espiritual.

Por que Dom Helder é quem está escrevendo?

Porque eu pedi. Via-me com a necessidade de expressar aos meus irmãos da
Terra que a vida continua e que não paramos simplesmente quando nos colocam
dentro de um caixão e nos dizem “acabou-se”. Eu já pensava que continuaria a
existir, sabia que haveria algo depois da vida física. Falei isso muitas
vezes. Então, senti a necessidade de me expressar por um médium quando
estivesse em condições e me fossem dadas as possibilidades. É isto que eu
estou fazendo.

Outros padres, então, querem escrever mediunicamente em nosso País?

Sim. E não poucos. São muitos aqueles que querem usar a pena mediúnica para
poder expressar a sobrevivência após a vida física. Não o fazem por puro
preconceito de serem ridicularizados, de não serem aceitos, e resguardam as
suas sensibilidades espirituais para não serem colocados numa situação de
desconforto. Muitos padres, cardeais até, sentem a proteção espiritual nas
suas reflexões, nas suas prédicas, que acreditam ser o Espírito Santo, que
na verdade são os irmãos que têm com eles algum tipo de apreço e colaboram
nas suas atividades.

Como o senhor se sentiu em interação com o médium Carlos Pereira?

Muito à vontade, pois havia afinidade, e porque ele se colocou à disposição
para o trabalho. No princípio foi difícil juntar-me a ele por conta de seus
interesses e de seu trabalho. Quando acertamos a forma de atuar, foi muito
fácil, até porque, num outro momento, ele começou a pesquisar sobre a minha
última vida física. Então ficou mais fácil transmitir-lhe as informações que
fizeram o livro.

O senhor acredita que a Igreja Católica irá aceitar suas palavras pela
mediunidade?

Não tenho esta pretensão. Sabemos que tudo vai evoluir e que um dia,
inevitavelmente, todos aceitarão a imortalidade com naturalidade, mas é
demais imaginar que um livro possa revolucionar o pensamento da nossa
Igreja. Acho que teremos críticas, veementes até, mas outros mais sensíveis
admitirão as comunicações. Este é o nosso propósito.

É verdade que o senhor já tinha alguns pensamentos espíritas quando na vida física?

Eu não diria espírita; diria espiritualista, pois a nossa Igreja, por si só,
já prega a sobrevivência após a morte. Logo, fazermos contato com o plano
físico depois da morte seria uma conseqüência natural. Pensamentos espíritas
não eram, porque não sou espírita. Sem nenhum tipo de constrangimento em ter
negado alguns pensamentos espíritas, digo que cheguei a ter, de vez em
quando, experiências íntimas espirituais.

Igreja – Há as mesmas hierarquias no mundo espiritual?

Não exatamente, mas nós reconhecemos os nossos irmãos que tiveram
responsabilidades maiores e que notoriamente tem um grau evolutivo moral
muito grande. Seres do lado de cá se reconhecem rapidamente pela sua
hombridade, pela sua lucidez, pela sua moralidade. Não quero dizer que na
Terra isto não ocorra, mas do lado de cá da vida isto é tudo mais
transparente; nós captamos a realidade com mais intensidade. Autoridade aqui
não se faz somente com um cargo transitório que se teve na vida terrena,
mas, sobretudo, pelo avanço moral.

Qual seu pensamento sobre o papado na atualidade?

Muito controverso esse assunto. Estar na cadeira de Pedro, representando o
pensamento maior de Nosso Senhor Jesus Cristo, é uma responsabilidade enorme
para qualquer ser humano. Então fica muito fácil, para nós que estamos de
fora, atribuirmos para quem está ali sentado, algum tipo de consideração.
Não é fácil. Quem está ali tem inúmeras responsabilidades, não apenas
materiais, mas descobri que as espirituais ainda em maior grau. Eu posso ter
uma visão ideológica de como poderia ser a organização da Igreja; defendi
isso durante minha vida. Mas tenho que admitir, embora acredite nesta visão
ideal da Santa Igreja, que as transformações pelas quais devemos passar
merecem cuidado, porque não podemos dar sobressaltos na evolução. Queira
Deus que o atual Papa Ratzinger (Bento XVI) possa ter a lucidez necessária
para poder conduzir a Igreja ao destino que ela merece.

O senhor teria alguma sugestão a fazer para que a Igreja cumpra seu papel?

Não preciso dizer mais nada. O que disse em vida física, reforço. Quero
apenas dizer que quando estamos do lado de cá da vida, possuímos uma visão
mais ampliada das coisas. Determinados posicionamentos que tomamos, podem
não estar em seu melhor momento de implantação, principalmente por uma
conjuntura de fatores que daqui percebemos. Isto não quer dizer que não
devamos ter como referência os nossos principais ideais e, sempre que
possível, colocá-los em prática.

Espíritas no futuro?

Não tenho a menor dúvida. Não pertencem estes ensinamentos a nossa Igreja,
ou de outros que professam estes ensinamentos espirituais. Portanto, mais
cedo ou mais tarde, a nossa Igreja terá que admitir a existência espiritual,
a vida depois da morte, a comunicação entre os dois mundos e todos os outros
princípios que naturalmente decorrem da vida espiritual.

Quais são os nomes mais conhecidos da Igreja que estão cooperando com o progresso do Brasil no mundo espiritual?

Enumerá-los seria uma injustiça, pois há base em todas as localidades.
Então, dizer um nome ou outro seria uma referência pontual porque há muitos,
que são poucos conhecidos, mas que desenvolvem do lado de cá da vida um
trabalho fenomenal e nós nos engajamos nestas iniciativas de amor ao
próximo.

Amor – Que mensagem o senhor daria especificamente aos católicos agora,
depois da morte?

Que amem, amem muito, porque somente através do amor vai ser possível trazer
um pouco mais de tranqüilidade à alma. Se nós não tentarmos amar do fundo
dos nossos corações, tudo se transformará numa angústia profunda. O amor,
conforme nos ensinou o Nosso Senhor Jesus Cristo, é a grande mola salvadora
da humanidade.

Que mensagem o senhor deixaria para nós espíritas?

Que amem também, porque não há divisão entre espíritas e católicos ou
qualquer outra crença no seio do Senhor. Não há. Essa divisão é feita por
nós não pelo Criador. São aceitáveis porque demonstram diferenças de pontos
de vista, no entanto, a convergência é única, aqui simbolizada pela prática
do amor, pois devemos unir os nossos esforços.

Que mensagem o senhor deixaria para os religiosos de uma maneira geral?

Que amem. Não há outra mensagem senão a mensagem do amor Ela é a única e
principal mensagem que se pode deixar. “

Livro: Novas Utopias

Autor: Dom Helder Câmara (espírito)

Médium: Carlos Pereira

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COMENTÁRIO em OFERTÓRIO-VISÃO poema de jb vidal / por rubens scolacieri

COMENTÁRIO:

RUBENS

Você deve ser alguém que pensa profundamente nas pessoas na humanidade e deve ter observado e analisado muito a nossa história (humanidade) para concluir com esse “olhar total”! Um poema para se colocar na parede do living e dar uma “olhadinha” todos os dias. Forte mexe com quem lê, obriga o leitor a pensar. Muito forte por isso belo.

Rubens Scolacieri

 

VEJA o poema comentado: 

https://palavrastodaspalavras.wordpress.com/2008/05/13/ofertorio-visao-poema-de-jb-vidal/#comment-544

FERNANDO PESSOA EM “PRECE”

Senhor, que és o céu e a terra, que és a vida e a morte! O sol és tu e a lua és tu e o vento és tu! Tu és os nossos corpos e as nossas almas e o nosso amor és tu também. Onde nada está tu habitas e onde tudo está – (o teu templo) – eis o teu corpo.

       Dá-me alma para te servir e alma para te amar. Dá-me vista para te ver sempre no céu e na terra, ouvidos para te ouvir no vento e no mar, e mãos para trabalhar em teu nome.

       Torna-me puro como a água e alto como o céu. Que não haja lama nas estradas dos meus pensamentos nem folhas mortas nas lagoas dos meus propósitos. Faze com que eu saiba amar os outros como irmãos e servir-te como a um pai.

       […]

       Minha vida seja digna da tua presença. Meu corpo seja digno da terra, tua cama. Minha alma possa aparecer diante de ti como um filho que volta ao lar.

       Torna-me grande como o Sol, para que eu te possa adorar em mim; e torna-me puro como a lua, para que eu te possa rezar em mim; e torna-me claro como o dia para que eu te possa ver sempre em mim e rezar-te e adorar-te.

       Senhor, protege-me e ampara-me. Dá-me que eu me sinta teu. Senhor, livra-me de mim.

 

Fernando Pessoa em “O Eu Profundo“.

WONKA convida para 30.04.9 (quinta)

QUINTA 30 Abril 2009

Wonka Jazz Project recebe Davi Sartori, Saul Trumpet, Cris Roger e Marilia Giller
A melhor jam session de Curitiba recebe os artistas Davi Sartori piano, Saul Trumpet, Cris Roger baixo eMarilia Giller piano para o muito jazz instrumental, do tradicional ao fusion, com Helinho Brandão saxofone . Fernando Rivabem bateria . JBoldrini baixo acustico . Jeff Sabbag piano.

o Wonka abre às 19h o show começa às 22h

ÁLVARES DE AZEVEDO o jovem grande poeta brasileiro morto aos 20 anos – editoria

 

Em 12 e Setembro de 1831, nascia em São Paulo, Manuel Antônio Álvares de Azevedo. Filho de Inácio Manuel Álvares de Azevedo e Maria Luiza Mota Azevedo, o poeta, contista e ensaísta Álvares de Azevedo, teria nascido na sala da biblioteca da Faculdade de Direito de São Paulo; porém, foi constatado que o nascimento se deu na casa do avô paterno, Severo Mota.

Filho de família ilustre, mudou-se para o Rio de Janeiro em 1833, e em 1840 ingressou no Colégio Stoll; retornando a São Paulo em 1844. Regressou para o Rio de Janeiro no ano seguinte e

o poeta

o poeta

 matriculou-se no Colégio Pedro II. Finalmente, em 1848 entrou para a Faculdade de Direito de São Paulo. Tendo uma vida literária intensa, Álvares de Azevedo foi fundador da Revista Mensal da Sociedade Ensaio Filosófico Paulistano.

Fortemente influenciado por Lord Byron e Musset, Álvares de Azevedo inseriu em suas poesias elementos da linguagem desses escritores. A melancolia e a presença constante da morte eram temas perenes em suas obras.

Álvares de Azevedo era de pouca vitalidade e o desconforto das repúblicas aliado ao esforço intelectual intenso, enfraqueciam sua saúde. Entre 1851 e 1852, manifestou-se a tuberculose pulmonar, agravado por uma lesão ocasionada numa queda de cavalo ocorrida no mês anterior. Sofreu uma intervenção cirúrgica que não surtiu efeito, e faleceu às 17 horas no dia 25 de Abril de 1852. Seu corpo foi enterrado no cemitério Pedro II, na Praia Vermelha; em 1854, foi transladado para o cemitério São João Batista.

Se eu morresse amanhã foi escrita dias antes de sua morte e lida no enterro por Joaquim Manuel Macedo. Álvares de Azevedo era amigo de Bernardo Guimarães, Aureliano Lessa e José Bonifácio; com que dividiu as acomodações da Chácara dos Ingleses, em São Paulo.

Entre 1848 e 1851, publicou alguns poemas, artigos e discursos. Depois da sua morte surgiram as Poesias (1853 e 1855), cujas edições sucessivas uniram-se aos outros escritos, alguns dos quais publicados antes em separado. As obras completas, como as conhecemos hoje, compreendem: Lira dos vinte anosPoesias diversasO poema do frade e O conde Lopo, poemas narrativos; Macário, “tentativa dramática”; Noite na taverna, contos fantásticos; a terceira parte do romance O livro de Fra Gondicário; os estudos críticos sobre Literatura e civilização em Portugal, Lucano, George Sand, Jacques Rolla, além de artigos, discursos e 69 cartas.

Preparada para integrar As três liras, projeto de livro conjunto de Álvares de Azevedo, Aureliano Lessa e Bernardo Guimarães, a Lira dos vinte anos é a única obra de Álvares de Azevedo cuja edição foi preparada pelo poeta. Vários poemas foram acrescentados depois da primeira edição (póstuma), à medida que iam sendo descobertos.

A característica intrigante de sua obra reside na articulação consciente de um projeto literário baseado na contradição, talvez a contradição que ele próprio sentisse, na condição de adolescente.

Perfeitamente enquadrada nos dualismos que caracterizam a linguagem romântica, essa contradição é visível nas partes que formam sua obra principal, Lira dos Vinte Anos. A primeira e a terceira partes da obra mostram um Álvares adolescente, casto, sentimental e ingênuo. Já a segunda parte apresenta uma face irreverente, irônica, macabra e por vezes orgíaca e degradada de um moço-velho, isto é, um jovem em conflito com a realidade, tragado pelos vícios e amadurecido precocemente.

A obra de Álvares de Azevedo apresenta linguagem inconfundível, em cujo vocabulário são constantes as palavras que expressam seus estados de espírito, a fuga do poeta da realidade, sua busca incessante pelo amor, a procura pela vida boêmia, o vício, a morte, a palidez, a noite, a mulher… Em Lembranças de morrer, está o melhor retrato dos sentimentos que envolvem sua vida: “Descansem o meu leito solitário/ Na floresta dos homens esquecida/ À sombra de uma cruz e escrevam nela:/ – Foi poeta, sonhou e amou na vida.” 

 

Lembrança de morrer

 

Quando em meu peito rebentar-se a fibra,
Que o espírito enlaça à dor vivente,
Não derramem por mim nenhuma lágrima
Em pálpebra demente.
E nem desfolhem na matéria impura
A flor do vale que adormece ao vento:
Não quero que uma nota de alegria
Se cale por meu triste passamento.
Eu deixo a vida como deixa o tédio
Do deserto, o poento caminheiro, –
Como as horas de um longo pesadelo
Que se desfaz ao dobre de um sineiro;
Como o desterro de minh’alma errante,
Onde fogo insensato a consumia:
Só levo uma saudade – é desses tempos
Que amorosa ilusão embelecia.
Só levo uma saudade – é dessas sombras
Que eu sentia velar nas noites minhas…
De ti, ó minha mãe, pobre coitada,
Que por minha tristeza te definhas!
De meu pai… de meus únicos amigos,
Pouco – bem poucos – e que não zombavam
Quando, em noites de febre endoudecido,
Minhas pálidas crenças duvidavam.
Se uma lágrima as pálpebras me inunda,
Se um suspiro nos seios treme ainda,
É pela virgem que sonhei… que nunca
Aos lábios me encostou a face linda!
Só tu à mocidade sonhadora
Do pálido poeta deste flores…
Se viveu, foi por ti! e de esperança
De na vida gozar de teus amores.
Beijarei a verdade santa e nua,
Verei cristalizar-se o sonho amigo…
Ó minha virgem dos errantes sonhos,
Filha do céu, eu vou amar contigo!
Descansem o meu leito solitário
Na floresta dos homens esquecida,
À sombra de uma cruz, e escrevam nela:
Foi poeta – sonhou – e amou na vida.
Sombras do vale, noites da montanha
Que minha alma cantou e amava tanto,
Protegei o meu corpo abandonado,
E no silêncio derramai-lhe canto!
Mas quando preludia ave d’aurora
E quando à meia-noite o céu repousa,
Arvoredos do bosque, abri os ramos…
Deixai a lua pratear-me a lousa!

 

O IMBECIL RETÓRICO por walmor marcellino

 

Estranhos e perigosos

Cultura essencialmente ágrafa ou insinuantemente letrada para os efeitos de exibir-se em público ‑ na verdade, só por ter ouvido falar de questões profundas e participado de aulas e comícios, e de fraternizar num clube ideológico-político de auto-apreciação-e-estima ‑ ele é o controverso perfeito idiota que não perdoa o Lula por ser inteligente demais sem diploma e lamenta que Fernando-Henrique Color Cardoso seja cultura das ciências sociais com verniz internacional de falar cinco idiomas, porém não passando de um gangsterzinho barato nas lides capitalistas. Onde você esteja, qualquer que seja o tema, a besta não se avexa de lhe ocupar a paciência com o que leu no noticiário de O Estado de S. Paulo, na Folha de S. Paulo, em “O Globo” e nas revistas Veja e Isto É,  ou ouviu algum jornalista comentando questão em entrevista momentosa. O imbecil “prêt-a-porter” da política, à direita ou à esquerda, quer ser notado e nomeado, porque se julga “um seu igual” em preocupação, compromisso e estudo.

1 – Ele é um produtor primário que filosofa: “não cresce uma planta ou um ‘pé-de-pau’ sem que Deus queira” (ou alguém que mande mais); “não se muda metal sem competência e ambiência”, e com apoio na sorte vamos buscando resultados”. O que pensa sempre lhe serviu aos usos e assim leva seu farnel de fatuidadesl. 

2 – Ele tem uma profissão conceituada; é “técnico” e reputado sapiente no fazer produtivo para seu circuito de relações sociais interativas; e assim por que o ele ajuíza sobre sociedade e política pode ser tão constrangedor, exceto nele? 

3 – Ele tem alguma herança na prática transformadora, da matéria prima em úteis ao mercado; mas desde nunca se sujeitou a aprendiz-técnico nem se entregou à manufatura; para poder manter livre a criatividade, a idéia de produtividade em seu sentido artesanal. Suas opiniões culturais e políticas constituem uma estultice independente e alegre com que se incha de preceitos. 

4 – Ele tem uma atividade liberal sacramentada no convencionado “círculo superior” da sociedade civil e na política, porém um universo de interesses inextricados atou-lhe uma presilha ao umbigo com o qual dialoga sua estupidez e vitupera seus dissentimentos. À vista de todos que o invejam de sua prosódia fluente. 

5 – Ele é da organização experimentada desse sistema e da produção capitalistas. E não são importantes os fatos que vão sendo vistos e julgados e sim como ele desempenha sua interveniência magistral: como pensa e procede na avaliação do que ocorre para convencer interlocutores, produtores e alvores e propor-lhes práticas produtivas, economicidades alterativas e políticas públicas subsidiárias. Sua palavra impositiva é a articulação dos lugares-comuns com as novas tecnologias virtuais. 

6 – Ele é um processador intelectual, um demiúrgo dos acontecimentos que só poderão ir aparecendo necessariamente ressaltados pela significação que lhes empresta sua inteligência. Entrementes, ele reflete sobre a singularidade de sua função social, com o privilégio do seu entendimento e na esplendência de sua iluminação sobre o que lhe toca (sua radiante weltanschaaung!) Sua compreensão é inexcedível e sua valorização soberba.

Qualquer desses filhos das classes em conflito pode ser o cretino que lhe cospe ideologia da “classe privilegiada”, que tem um pensamento “científico-filosófico” peculiar porque “politicamente adequado senão “correto”, na justificação de todos os crimes e iniqüidades. E ele será um dos merdas com que tropeçamos todos os dias nas ruas, casas e repartições; e que lhe dirá algumas “palavras definitivas” sobre qualquer assunto do momento.

 

ALLEN GINSBERG – entrevista com um ícone da geração BEAT

 

INTRODUÇÃO
 
Em janeiro de 1973, a revista Gay Sunshine, essencialmente cultural e literária, de São Francisco, da qual sou diretor, iniciou esta já célebre série de entrevistas. Desde então, publicamos [até 1978, data de publicação do primeiro volume de entrevistas] 22 conversas com artistas gays: onze poetas, cinco romancistas, dois dramaturgos, dois compositores, um ator de cinema e poeta underground, e um poeta e libretista.
 
Se bem que muitas revistas literárias tenham publicado entrevistas nos últimos anos, nenhuma, na minha opinião, foi totalmente satisfatória. Por exemplo, as publicadas pela Paris Review são demasiadamente áridas e acadêmicas e, em muitos casos, consideram o artista uma persona. As entrevistas de Gay Sunshine têm uma proposta muito distinta. Em meu papel de editor [no sentido anglo-saxão do termo] de toda a série, e entrevistador em nove oportunidades, sou pessoalmente responsável pela forma que essas entrevistas assumem. A exemplo dos outros entrevistadores, destaquei os aspectos culturais e pessoais e neles insisti, elaborando assim as reflexões e os pontos de vista dos artistas sobre a relação entre sexualidade e criatividade, bem como extensas discussões sobre técnicas literárias. As entrevistas com Allen Ginsberg e John Giorno foram especialmente bem-sucedidas neste aspecto.
 
As entrevistas recolhidas nos dois volumes demonstram a existência de uma sensibilidade gay nas artes que me parece muito definida. Devemos buscar suas origens mais recentes na obra de escritores como Walt Whitman, Oscar Wilde, John Addington Symonds, Edward Carpenter e Constantin Kavafis. O atual momento de liberação gay, que tomou ímpeto a partir das manifestações de Stonewall, em 1969, em Nova York, catalisou muito particularmente essa sensibilidade gay. O aumento e a expansão da tomada de consciência gay, depois de Stonewall, repercutiu sobre muitos escritores, liberou-os de coerções sociais ou auto-impostas. Sob este aspecto, temos um exemplo concreto: os temas homossexuais sempre estiveram presentes nos poemas de Allen Ginsberg e Harold Norse durante muitas décadas. Entretanto, desde 1969, estes dois escritores escreveram e publicaram poemas muito mais abertamente gays (como nas duas antologias homossexuais Angels of the Lyre e Orgasms of Light). Muitas dessas entrevistas ilustram o impacto da liberação gay na literatura e nas artes. 
 
Em sua crítica a esta antologia, Jacob Stockinger escreve: “Levados por sua fascinação e sua absoluta normalidade, esquecemos que a entrevista é uma forma recente de comunicação. Se bem que as crônicas, diários, cartas e outras formas de memorabilia literal ou figurativa nos cheguem desde tempos remotos, a entrevista é essencialmente um invento do nosso tempo. E quando é de boa qualidade, é realmente valiosa por sua capacidade de entreter e instruir. Constitui um intercâmbio de informações simples e sincero. Mesmo assim, a entrevista é paradoxal. Tenta converter uma figura pública numa pessoa acessível na sua privacidade, anulando a distância necessária para que a admiração se mantenha; propõe-se a satisfazer nosso gosto contemporâneo e a nossa perspectiva histórica; e gratifica nossa necessidade de frivolidade, embora também nos traga dados psicológicos, sociológicos, históricos e culturais muito importantes. Entrevistas bem conduzidas conseguem tudo isso e, talvez, algo mais: indiretamente, nos ajudam a entrevistarmos a nós mesmos.
 
O eixo em torno do qual gravita cada uma das entrevistas desta coletânea é, naturalmente, a sexualidade gay. Muitos hão de se perguntar se essa é base suficiente para entrevistar personalidades proeminentes, já que não há muito mais a acrescentar, uma vez que a condição de gay foi assumida. Uma das ironias com que nos defrontamos – se é que já não a esperávamos desde o início – é a de que, assim como os mais refinados artistas não diferem muito do resto dos mortais no que se refere à sua sexualidade, esses mesmos artistas se diferenciam em relação à arte que exercem. Isso posto, cria-se a necessidade de questionar certas pessoas a partir de uma perspectiva gay, diante das reticências de entrevistas anteriores e até as vacilações do próprio entrevistado. É precisamente esta situação o que torna a publicação desta seleção de Entrevistas de Gay Sunshine um acontecimento importante no cenário cultural contemporâneo.”
 
Desejo agradecer aqui a todos os entrevistados por terem nos cedido tempo e energia na realização deste projeto. Acredito que esta publicação é uma iniciativa crucial para a compreensão e valorização da sensibilidade artística homossexual, e também uma contribuição para o desenvolvimento do Renascimento Cultural Gay. 
 
Winston Leyland
São Francisco, primavera de 1978
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ENTREVISTA COM ALLEN GINSBERG
 
BIOGRAFIA
 
Allen Ginsberg nasceu em 1926, em Paterson, Nova Jersey, filho de Naomi Ginsberg, imigrante russa, e de Louis, poeta lírico e professor. Em 1943, abandonou Paterson ao ingressar na Universidade Columbia, onde permaneceu cerca de cinco anos. Durante esse período, manteve estreita amizade com Jack Kerouac, William S. Burroughs, Neal Cassady, Herbert Huncke e Lucien Carr. Em 1954, conheceu Peter Orlovsky em São Francisco, com quem iniciou uma longa relação amorosa. Particularmente excitante é o poema Howl (“Uivo”), publicado pela City Lights Press em livro que leva o mesmo título (vide To Eberhat from Ginsberg: A Letter About “Howl”, de 1956, Penamen Press, 1976). A partir dessa época, viajou ao redor do mundo participando de leituras e festivais, sempre na companhia de Peter Orlovsky.
 
A coleção “Poetas de Bolso”, da City Light Press, inclui as seguintes obras de Allen Ginsberg: Kaddish, 1961; Reality Sandwiches, 1963; Planet News, 1968; The Fall of America, 1972; e Mind Breaths, 1977. Outras obras de Ginsberg: Ankor Wat, 1968; Airplane Dream, 1968; TV Baby Poems, 1968; Iron Horse, 1972; The Gates of Wrath: Rhymed Poems, 1948-1952, 1972; Improvised Poetics, 1972; Visions of the Great Rememberer, 1972; First Blues, 1976.allen_ginsberg1
Allen Verbatim, 1974, é uma coletânea de conferências sobre poesia, arte poética e estados de consciência. Em 1977, publicou Journal Early Fifties – Early Sixties e a correspondência com Neal Cassady, sob o título As Ever. Uma seleção da correspondência e dos poemas gays de Ginsberg e Orlovsky foi publicada pela Gay Sunshine Press.
 
A entrevista a seguir foi realizada no sítio de Ginsberg, em Cherry Valley, Nova York, a 25 de setembro de 1972. Foi publicada pela primeira vez no número 16 de Gay Sunshine (janeiro de 1973) e no número 17 (março do mesmo ano) numa versão editada por Winston Leyland. Mais tarde, em 1974, foi publicada pela Grey Fox Press em edição popular.
 
Allen Young, autor da entrevista, era na ocasião ativista do movimento gay, co-editor, ao lado de Karla Jay, das antologias Out of Closets: Voices of Gay Liberation, 1972, e de After You’re Out, 1975. Na época da entrevista, vivia na área rural de Orange, Massachussetts.
 

 

 

ALLEN YOUNG ENTREVISTA ALLEN GINSBERG
 
YOUNG – Uma das coisas que deu origem a esta nossa conversa foi a minha leitura de Dharma’s Bums [“Os Vagabundos do Dharma”, de Jack Kerouac, publicado em 1958, no verão passado. Nesse livro, o personagem Alvah, você, no caso, obviamente, é representado por Kerouac como heterossexual. Ocorrem ali vários encontros sexuais, mas não há o menor indício de homossexualismo entre aquelas pessoas.
 
GINSBERG – Esse era o problema de Kerouac. Você sabe que dormi com Kerouac muitas vezes. E Neal, seu herói, e eu fomos amantes por muitos anos. Pelo menos eu desejava que fôssemos e, desde 1946, em alguns períodos, fomos para a cama com freqüência; mas tudo deu em nada… Finalmente, ele já não quis saber de sexo comigo e me rejeitou! Foi isso o que ele acabou fazendo! Mas ainda o fazíamos na metade dos anos 60, depois de ter-nos conhecido na metade dos anos 40, de modo que foi uma amizade muito longa e íntima, no que diz respeito a Neal e Jack.
 
YOUNG – Jack Kerouac definiu-se como gay?
 
GINSBERG – Não, isso ele não fez. Muito do que falei ocorreu numa cabana que mantínhamos em comum e, nessa época, já fazia alguns anos que eu vivia com Peter. Peter, Jack, Gary [Snyder] e eu, e mais alguns outros, trepávamos com uma ou duas garotas que freqüentavam o local. Jack me viu fodendo com uma delas e surpreendeu-se com a minha virilidade. Acredito que foi então que ele decidiu escrever um romance no qual eu era um herói grande e viril, em vez de uma bicha judia e comunista.
 
YOUNG – Como você reagiu diante disso? Acreditou que ele fez isso para se ocultar?
 
GINSBERG – Não percebi. No manuscrito original de On the Road, há uma cena em um motel na qual Dean Moriarty trepa com um viajante com quem tinha ido a Chicago num grande Cadillac, e há uma descrição de duas linhas que matiza e dá dimensão ao personagem de Cassady. Na metade dos anos 50, Malcolm Cowley eliminou essa passagem do livro, com a anuência de Jack. Como você pode ver, Jack abordou o tema na sua obra.
 
Num livro que está para ser publicado, Visions of Cody, há uma descrição mais ampla da mesma cena; Kerouac a escreveu em 1950/51; foi seu primeiro livro depois de On the Road, e conseqüência deste. Foi um grande livro experimental que inclui umas duzentas páginas de conversas gravadas e transcritas entre ele e Neal, enquanto fumavam baseados à meia-noite em Los Gatos, ou em San José, e falavam da vida, da primeira vez que mantiveram relações sexuais, da primeira vez em que se masturbaram e das suas aventuras em Denver.
 
YOUNG – E por que só agora esse texto é publicado?

 
GINSBERG – Kerouac sempre desejou que fosse publicado. Mas o mundo das publicações comerciais não estava preparado para um livro tão aberto, de um espírito tão estranho e uma estrutura tão complexa. Está mais para Making of Americans, de Gertrude Stein, do que para um vertiginoso Kerouac.
 
YOUNG – Você teve de brigar com Kerouac por sua publicação?
 
GINSBERG Ah, sim. On the Road foi escrito em 1950 e só foi publicado em 1957, apesar de que ele já tinha publicado seu grande livro Town and the City. O critério comercial exigia que ele escrevesse algo simples e agradável, que todos pudessem entender, que explicasse tudo sobre a geração beat. De modo que escreveu Dharma’s Bums sob medida para o seu editor, uma espécie de exercício de virtuosismo e magnanimidade bodhisattva. Redigiu o texto em orações curtas que todos podiam entender, com a descrição da revolução espiritual tal como a enxergava, usando Gary Snyder como herói; porque, na realidade, Japhy Ryder é Gary Snyder.
 
YOUNG – De modo que a sua caracterização como heterossexual não tem relação nenhuma com o desejo de ocultar?
 
GINSBERG – Não, saí do armário em Columbia, em 1946. A primeira pessoa a quem falei a respeito foi Kerouac, porque eu estava apaixonado por ele. Às vezes, ele ficava no meu alojamento e dormia na minha cama e eu numa enxerga no chão. Eu lhe disse: “Jack, sinto tesão por você e quero trepar com você. Eu gosto mesmo é de homem.” E ele respondeu: “Ah, não…” Fazia mais ou menos um ano que nos conhecíamos e até então eu não havia dito nada a respeito.
 
Naquela época, Kerouac era muito bonito, muito charmoso e muito meigo – meigo no sentido de infinitamente compreensivo, como Shakespeare ou Tolstói ou Dostoievski, infinitamente compreensivo. Em certo sentido – há uma expressão que ouvi de Robert Duncan a respeito da poesia, e outros acerca das relações entre mestre e discípulo – como uma pessoa um pouco mais velha, alguém que sentia com mais autoridade, e sua compreensão me autorizava a me abrir e a falar, porque, sabe, eu sentia que havia espaço para me abrir. Ele não ia me rejeitar; ele aceitaria minha alma com todas as suas emoções, ternuras e preocupações, todas as suas obscuras aflições e misérias, angústias e alegrias, seu gozo e insana consciência da mortalidade, porque tudo isso também lhe ocorria. De fato, ao cabo de um ano terminamos dormindo juntos umas duas vezes. Fiz uma chupeta uma vez, pelo que me lembro, e, em certa ocasião, mais tarde, ele me chupou. Foi um ato de ternura e sem complicações.
 
YOUNG – Você experimentou algum tipo de ruptura com o seu círculo hipster ao envolver-se com gays e ao se assumir como tal?
 
GINSBERG – Está num poema (In Society) que li no julgamento de Chicago Seven. Trata-se de um sonho que tive em 1947, quando estava em Columbia.
 
“Entrei na casa da cocktail party
e dei de cara com três ou quatro maricas
que conversavam no jargão das bichas
Tratei de ser sociável mas me escutei
falando com um deles no jargão hipster.
“Prazer em conhecer”- ele disse e
desviou o olhar. “Hmm” – resmunguei. A casa
era pequena e tinha um beliche
e aparelhos de cozinha:
geladeira, armário, torradeira, cozinha;
parecia que os meus anfitriões só tinham
espaço para dormir e cozinhar.
O comentário que fiz sobre isso
Foi compreendido mas não apreciado.
Ofereceram-me refrescos, aceitei.
Comi um pouquinho de carne pura; um
Grande sanduíche de carne humana;
percebi, enquanto o mastigava,
de que também incluía um cu sujo.
 
Chegaram mais convidados, inclusive uma
fêmea que parecia
uma princesa. Olhou-me com raiva e
no mesmo instante disse: “Não me apeteces”,
voltou o rosto e recusou-se
a ser apresentada. Eu disse: “O quê!”, 
cheio de indignação.
“Vá se foder sua estúpida com cara de merda!” 
O que atraiu a atenção de todos.
“Estou cagando para você, sua cadela narcisista! Como
pode saber se nem sequer
me conhece?”, e prossegui num tom violento
e messiânico, enfim inspirado,
e dominando toda a casa
 
Naquela época, havia um grupo de bichas na área de Columbia que gostava de fazer coisas como ir ao Hotel Plaza para ouvir a cantora Edith Piaf, bichas interessadas em conseguir status e dinheiro. Tinham interesses culturais que remontavam a Lotte Lenya e faziam coisas em nome do estilo, mas ao mesmo tempo, eram demasiadamente aristocráticas e elitistas.
 
YOUNG – Você associava isso também a Columbia?
 
GINSBERG – Havia um ou dois tipos em Columbia que faziam parte desse tipo de coisa e não de uma homossexualidade whitmaniana, aberta e democrática, porque ser aberto, democrático e whitmaniano significava beijar todos os jogadores de futebol aberta e amigavelmente! E em público! Nem mais nem menos. Mas o rebanho de bichas enrustidas só se reunia para ir ao Plaza.
 
YOUNG – E beijar os jogadores de futebol era uma realidade ou apenas uma fantasia whitmaniana?
 
GINSBERG – Naquela época eu beijava Jack Kerouac que pertencia à equipe de futebol da Universidade Columbia. Era uma fantasia whitmaniana que, como todas as fantasias whitmanianas, era uma realidade prática. Naturalmente, naquela época, um cara da faculdade não podia fazer isso, mas hoje um cara da faculdade pode fazer esse tipo de coisa, sim.
 
No primeiro ano que passei em Columbia, entre os 16 e 17 anos, eu mantinha em segredo a minha homossexualidade. Aos 17, uma coisa fez com que eu escapasse do autoritarismo cultural de Columbia. Acho que foi a prisão de um amigo muito querido, que conhecia bem o Jack. Nessa época, eu também me interessava por Rimbaud e Whitman e já conhecia Burroughs. Com Burroughs, eu passaria a conhecer Blake e Spengler (“A Decadência do Ocidente”) e, naqueles dias, a semântica era importante, era importante separar as palavras dos objetos que representavam e não se deixar confundir por rótulos como gay ou bicha.
 
Sair do ensino intermediário, da puberdade, do isolamento e tornar-me um adulto foi uma mudança total. O isolamento não era uma atitude enrustida da minha parte, eu não tinha estilo para isso. Era apenas timidez e medo da rejeição. Durante todo o curso intermediário estive secretamente apaixonado por uma infinidade de garotos – particularmente de um que freqüentava o curso intermediário do East Side, em Paterson, a quem segui até Columbia.
 
YOUNG – O nome dele começa com “R”. É mencionado num dos seus poemas.
 
GINSBERG – Sim. Até certa época falei através de códigos. A convivência com Burroughs e Kerouac me permitiu uma abertura. Ambos tinham a mente aberta, eram internacionais, hip, Jacks Londons, Doutores Mabuses, tudo.
 
Kerouac era muito divertido, extraordinário, um tipo heróico, uma figura inspirada de muitas idéias e atitudes. Teve muitos problemas; bebeu até morrer. E terminou, como tantos velhos escritores, tornando-se reacionário de um jeito engraçado, interessante e original; de uma maneira mais instrutiva do que negativa. Mas o que o diferenciava dos outros era o caráter, com “C” maiúsculo; era de uma enorme ternura, de uma sensibilidade compreensiva e confiante. E por isso é tão magnífico escritor e observador. Assumia tudo ternamente, como um cara jovem e sensível, até mesmo as minhas atribulações de bicha. E de fato, terminamos na cama.
 
YOUNG – Você quer dizer que, no caso de Jack, não era esta a sua praia?
 
GINSBERG – Ele estava confuso sexualmente. Tinha problemas com a fixação que nutria pela mãe e com a atitude dependente dela em relação a ele. Jogava futebol e gostava de garotas. Gostava de chupar bocetas e era obcecado por elas. Era isso o que o excitava: virilhas negras! Meio negras! Também gostava de garotos bonitos e nutria um apreço completamente novelesco e pessoal por mariconas – o que significava compartilhar uma humanidade comum, as emoções e até o erotismo, embora ele não achasse correto, no seu caso, participar do erótico.
 
Como romancista, abriu-se para a arte homossexual e para algumas das suas posturas e estilos literários. Em alguns dos seus poemas, há muitos elementos sobre si mesmo e também todo tipo de exageros e afetações. Naquela época, chamávamos de high teacup uma referência ao gesto do dedo mindinho levantado. O que não posso deixar de dizer é que, algumas vezes, ele tinha sentimentos contraditórios mas acho que eu difamaria a sua natureza se o apontasse com um dedo acusador e dissesse: “Você é uma bicha!” Havia uma tendência entre os gays de colocar rótulos em tudo, inclusive neles mesmos, em vez de ver o amor sem nome que existe em todo mundo. Assim como havia uma tendência de colocar rótulos entre os heterossexuais masculinos, também entre os homossexuais havia uma tendência compensatória que consistia em reagir exageradamente contra isso e mostrar as plumas; de modo que ele estaria atento se o apontassem como bicha em circunstâncias nas quais ele não era. [Dirigindo-se a Peter Orlovsky, que se achava na outra extremidade da casa, de onde não podia ouvir a conversa]: Jack era bicha?
 
ORLOVSKY – Jack, bicha? Não, no menor sentido da palavra.
 
GINSBERG – Perfeito, no menor sentido da palavra. [A Peter] Todos nós dormimos com Jack em alguma ocasião.
 
ORLOVSKY – Certa vez estava tão bêbado que nem sequer conseguiu se levantar.
 
GINSBERG – [Rindo] Dessa vez ele gozou. Estávamos na casa Clellon Holmes, te lembras? Eu o chupei enquanto me davas o cu. 
 
ORLOVSKY – E aquela vez na Second Street, te lembras? Jack estava muito bêbado e começaste a chupá-lo. Nem se levantou. E ele falava que tinha o pau tão pequeno, tão reduzido, enrugado e triste.
 
GINSBERG – Deu todo tipo de explicações. Mas há dez anos pediu que eu o chupasse. Por volta de 1964/65, dizia: “Estou velho, feio, com o rosto afogueado, tenho barriga de bebedor de cerveja, sou um bêbado e ninguém me quer. Não posso arranjar garotas; vem aqui e faz uma gulosa bem gostosa.” Houve ocasiões em que se embriagava e insistia muito nisso. Nessa época ele já tinha uma barrigona de bebedor de cerveja, o rosto avermelhado e eu já não o via como o jovem elegante e romântico, o príncipe encantado das trevas, maldito e demencial do reino hippy spengleriano do pós-guerra. Ele fez com que eu enlouquecesse com todas aquelas idéias sobre corpo e sexo e foi uma das minhas primeiras lições de castidade. Há um verso de Yeats que diz “Terão os velhos amantes o tempo negado, sepulcro sobre sepulcro terão ao fim gozado.” Na realidade, percebi que, com o tempo, todas aquelas pessoas que eu havia amado e com quem eu tinha desejado trepar foram para a cama comigo. Pode ter demorado vinte ou trinta anos, e talvez nós dois estivéssemos transformados numa ruína, carecas e desdentados, mas o desejo sempre encontrou o seu caminho, mesmo depois de dezenas de anos. Há uma lição nisso tudo. Uma vez que tenhas tido a capacidade de um pouco de desapego, uma vez que tenhas perdido o apego neurótico, obsessivo, então, quando as coisas flutuam suavemente, os objetos amorosos que certa vez adoraste vão à deriva levados pela maré e vêm na tua direção. E isto é demais, porque saem do mar horrivelmente apodrecidos.
 
Um elemento na luta e na metafísica da liberação gay, que entretanto nunca foi considerado, é o que se refere à desilusão com o corpo. Não quero aprofundar demasiadamente o tema – apenas refiro-me à velha realidade dos 40, 50, 60, 70 e 80 anos e, por último, ao velho esqueleto sorridente, com sua lição espiritual sobre o desapego ao desejo neurótico que ficou para atrás. Acho que há um autêntico Eros entre os homens, que não depende do apego neurótico ou da obsessão; que é livre, leve, santo e luminoso – algo que de certa forma obtemos durante os nossos primeiros amores, fantasias e devoções. Alguns de nós têm a felicidade de poder se expressar e receber de um lado ou de outro. Mas isto, a exemplo da maré, só pode ocorrer quando se está livre para flutuar nela. Se há excesso de tensão neurótica pelo desmame, pela ruptura e mesmo pela liberação gay, isto faz com que tudo seja demasiadamente tenso e perde-se a leveza do amor. Em outras palavras, mais cedo ou mais tarde, o movimento de liberação gay terá de aceitar as limitações do sexo.
 
Se considerarmos o sexo sob o ponto de vista hindu, budista, hare krishna e até mesmo cristão fundamentalista – uma advertência sobre o corpo e sobre o apego em si – então ele se torna interessante. Burroughs escreveu extensamente sobre o assunto, de tal maneira que os hippies e até mesmo os radicais acharam o tema muito interessante: o sexo como “hábito” – o sexo como outra droga, mais um produto cujo consumo o Estado estimula para manter as pessoas como escravas dos seus corpos; pois enquanto forem escravas dos seus corpos pode-se insuflar-lhes temores, sobressaltos, sofrimentos e ameaças para, dessa forma, mantê-las em seu lugar. Segundo ele, esse caminho conduz ao grande palácio da massa verde, ao jardim da massa verde, à armadilha da massa verde, onde todos chapinham numa substância verde.
 
À medida em que envelheço, noto em minha barriga e no meu ventre que a agitação desses deliciosos apetites não diminui. Mas também tolero melhor a idéia de que, além do sexo, pode haver entre as pessoas outra maneira de se relacionar.
 
Quando estive na Austrália, fiquei louco por um jovem e belo dobrista [tocador de dobro, instrumento hindu] que me acompanhou durante toda a viagem. Ele me procurava e me esperava o dia inteiro no hotel e colocou-se à minha disposição para tocar música comigo. Ele queria tocar mantras e logo descobri que se tratava de um intérprete magnífico de blues e me ensinou a tocar blues. Trepou comigo na primeira noite e fiquei fascinado diante do seu… ânimo de servir, sua disponibilidade, generosidade, seu temperamento e sentido de dever. Depois não quis mais trepar comigo, embora me amasse. Fui o primeiro homem com quem trepou. Como posso me relacionar com alguém que me deseja, mas não quer brincar com o meu pau e se nega a chupá-lo? No entanto, ele não se importava em dormir nu comigo na mesma cama, ao meu lado, porque me desejava e amava. Havia nisso algo de excepcional, mas isso era mais excepcional do que os meus desejos?
 
E foi assim que me vi finalmente envolvido numa situação muito parecida à que esteve tão em moda no século 19, recomendada por Edward Carpenter e Whitman para pessoas que dormiam juntas. Chama-se carezza e trata-se de uma amizade platônica em que as pessoas dormem juntas nuas, se acariciam mutuamente, mas não há penetração e o sêmen é guardado por razões de yoga ou coisa semelhante. E foi o que fiz com aquele garoto.
 
Nas duas semanas seguintes percorremos toda a Austrália. Percebi que a intensidade da minha devoção por ele, na região do coração – uma sensação cálida e dolorosa o coração – crescia, crescia, crescia e se transformava em algo mais desejável e narcotizante e passou a ser mais satisfatório levá-lo dentro de mim. E notei que ele correspondia da mesma forma e percebi que abrigava no peito essa mesma sensação cálida em relação a mim e que ela era intensificada pela nua castidade que praticávamos juntos. Quando subíamos ao palco e tocávamos em duo – eu cantava mantras, blues, tocava harmônica e ele tocava o dobro – a comunicação erótica entre nós tornava-se estática, delirante e incontível. Continuamente nossa paixão explodia em canções e olhares que excitavam o público, me excitavam e o excitavam. Então cheguei a sentir outro tipo de orgasmo, muito sutil e etéreo, que parecia ocupar a parte superior do meu corpo em vez da área genital. Apesar de ter sempre nutrido preconceitos contra esse tipo de sublimação, se a considero como uma espécie de sublimação primária, como impulsos sexuais sagrados, a experiência torna-se tão deliciosa que nenhuma razão moral pode obscurecê-la. Eu a recomendo, todos deveriam ter essa experiência. Podes te aproximar intimamente das pessoas que amas, mesmo que não queiram manter relações sexuais contigo. Podes ter algo como uma relação completa. Sob qualquer uma das formas que assuma, “Abaixo o sexismo!”
 
Conheço muitos homens que pensam da mesma maneira. Talvez não cheguem a dormir juntos e nus, mas sentem e compartilham sentimentos de amor; no entanto, são completamente heterossexuais. Não me surpreenderia se isto fosse, na maioria dos homens, uma experiência universal, totalmente aceita, absolutamente comum, realmente compartilhada.
 
A idéia de um companheiro é apenas o rótulo frágil, a vulgarização disso. Desde a tradição de camaradagem, de companheirismo da qual se fala na Bíblia entre David e Jônatas, até as relações físicas tais como as conhecemos, provavelmente são relações de amor intenso que os grupos de liberação gay – na sua fase política – ainda não aceitaram nem integraram como gratificantes manifestações de comunicação humana, satisfatórias para todos. Em outras palavras, há muitas tendências políticas e comunais que se abrem ao movimento de liberação gay à medida em que são incluídas mais e mais variedades de amor, além do genital, e pode ser que a ponte entre a liberação gay e liberação dos homens esteja no mútuo reconhecimento da ternura masculina, negada em ambos os grupos por tanto tempo.
 
YOUNG – Em Kaddish você diz alguma coisa relativa ao peso da sua homossexualidade: “Montes Cervinos de rola, Grandes Canhões de cu”. Você usou essas metáforas porque a sua homossexualidade pesava demais?
 
GINSBERG – Quando eu era uma criança sensível coagida, que não podia tocar em ninguém ou expressar meus sentimentos, nem podia prever os incontáveis amantes que eu teria, a enorme carga de amor, a enormidade do escárnio em que eu entraria e acabava por tornar-me porta-voz da homossexualidade. Esse era o sentido de “Montes Cervinos de rola, Grandes Canhões de cu”. Ter conseguido despir-me em público e estar na lista do “Quem é Quem” como consorte de Peter.
 
YOUNG – Em alguns poemas a sua homossexualidade flui muito naturalmente. As coisas ocorreram da mesma forma na realidade?
 
GINSBERG – Por volta de 1953, escrevi um extenso, grandioso e belo poema de amor para Neal Cassady, chamado “O Automóvel Verde”. Expressei o meu amor. Não falei da parte genital e sim de todos e cada um dos outros aspectos: ternura, o abraçar-se de mãos dadas, viajar juntos e, por último, a separação.
 
O poema seguinte em que voltei a ser explícito foi um pequeno poema escrito entre 1953/54, que se refere à “cultura da minha geração, de chupar rolas e verter lágrimas”.
 
Quando eu vivi na casa de Neal Cassady, escrevi um pequeno poema extraído de um verso de Whitman, sobre a relação sexual entre um noivo e uma noiva. Esse é um dos grandes momentos de Whitman. Na minha fantasia, fiz uma descrição do meu sonho amoroso e do que faria sexualmente entre Neal e a mulher dele, se a tolerância deles me permitisse. O momento crucial da abertura, em termos de manifestação, veio enquanto eu escrevia Uivo. “Deixem que os santos motociclistas dêem o cu e gritem de dor.” Normalmente a reação do macho diante da idéia de ser enrabado seria como nesse novo filme de James Dickey, Deliverance, no qual supõe-se que é a pior coisa que poderia acontecer.
 

 
YOUNG – Há um verso em que você diz: “Quem realmente deseja ser enrabado?”
 
GINSBERG – Isso está em Kaddish, no poema “Mescalina”. Para começar, quando se está sob o efeito da mescalina, quem deseja existir no universo? Quem anseia por um nome? Quem deseja ter um ego? E quem deseja ser bicha? Quem deseja ser machucado tomando no cu, quando, sabe-se, às vezes dói? Isso também faz parte da cena. Às vezes não sabemos de antemão. As coisas parecem ir muito bem e, de repente, tornam-se dolorosas. De modo que a pergunta é: quem realmente deseja ser enrabado? Numa extravagante apresentação de Uivo, percebi de repente como seria gracioso se, no meio daquele grande poema, eu dissesse: “Deixem que tomem no rabo…. e que gritem de prazer”, em vez de “e que gritem de dor”. Aí está a contradição. O público norte-americano espera que eu diga “dor”, mas em vez disso digo: “e que gritem de prazer”. O que é cem por cento verdade.
 
Em outra passagem, tenho outro verso: “Quem chupou e foi chupado por esses serafins humanos, os marinheiros, e suas carícias de amor atlântico e caribenho”, aliás numa referência a Hart Crane. Foi uma aceitação das realidades básicas do prazer homossexual. Isso foi um desabafo, na medida em que foi uma declaração pública de sentimentos, emoção e atitudes que antes eu não teria desejado que o meu pai ou a minha família soubesse, e que eu mesmo vacilei em tornar públicas. Mesmo limitada, foi uma válvula de escape: literalmente o sair do armário.
 
YOUNG – Alguma vez a crítica, ao falar de você, mencionou a sua condição de homossexual?
 
GINSBERG – Sim, Norman Podhoretz, na Partisan Review, atacou violentamente toda a literatura beatnik: “Esses boêmios arrogantes”. Disse que apesar de a minha poesia não ser de todo má, sua maior força repousava na “declaração pública” da minha homossexualidade ser, “de certa forma, questionável e insistente”. Bicha em todas as circunstâncias; o que, embora honesto, não era tão interessante do ponto de vista social. Foi um golpe baixo, ao mesmo tempo um reconhecimento e uma rejeição, sem mencionar que ele chama Kerouac de “bruto”.
 
Walt Whitman é muito importante no que diz respeito à ternura masculina. Nunca foi considerado um ídolo ou um profeta, nem pelo gay lib, tampouco pela esquerda radical apesar de algumas declarações muito precisas que fez sobre o tema da liberação masculina; isso está em Democratic Vistas, no qual fala sobre a probabilidade de a competição materialista nos Estados Unidos transformá-los na lendária “maldita entre as nações”, algo que já pode ser constatado atualmente. É possível que “estejamos já a caminho de um destino, um status, equivalente no mundo ao dessa lendária nação maldita”. Ele diz: “A estreita e amorosa camaradagem, o afeto pessoal e apaixonado de um homem por outro homem – o qual, embora seja difícil de definir, sustenta os ensinamentos e os ideais dos profundos salvadores de cada nação e época, e que parece prometer, uma vez desenvolvido, cultivado e reconhecido cabalmente nos costumes e na literatura, a esperança e a segurança no futuro desses Estados – serão então expressos em sua totalidade”.

 
A seguir, numa nota de rodapé, diz: “É no desenvolvimento, na identificação e preeminência generalizada desta fervorosa camaradagem (…), na qual busco o equilíbrio e a compensação à nossa democracia americana materialista e vulgar e, conseqüentemente, sua espiritualização. Muitos dirão que é um sonho e seguirão os meus postulados, mas espero confiante o momento em que percorrerão, como vibrações subterrâneas, como miríades audíveis e visíveis através dos interesses mundanos dos EUA, correntes de amizade masculina, terna e amorosa, doce e pura, forte e eterna, elevada a graus desconhecidos, não apenas dando colorido ao caráter individual, nas também tornando-a emocional até um ponto sem precedentes, carnal, heróico e refinado, nas conservando as relações mais profundas com a política geral. Digo que na democracia se origina essa camaradagem amorosa, como sua alma gêmea indispensável, sem a qual seria incompleta, inútil e incapaz de completar-se.”
 
Depois, o prefácio da edição de 1876 de Leaves of Grass acrescenta uma grande nota de rodapé.
 
“Poderíamos acrescentar – já que estamos aqui, farei uma confissão completa. Também publiquei Leaves of Grass para despertar e pôr em movimento o coração de homens e mulheres, jovens e velhos (meus leitores futuros e atuais) intermináveis correntes de amor e amizade, vivas e palpitantes, diretamente deles até mim, agora e sempre. A este desejo terrível e reprimido (sem dúvida presente no funda da alma da maioria dos homens), a este apetite pela afinidade nunca satisfeito, a este oferecimento infinito de afeto, a esta camaradagem universal e democrática, a este velho, eterno e, não obstante, sempre renovado intercâmbio de adesões, tão apropriadamente simbólico da América, brindei neste livro, abertamente e sem hipocrisia, à expressão mais sincera… A literatura foi, desde sempre, a guardiã formal e convencional da arte e da beleza, e de uma certa manifestação de amor estreita, mesquinha e limitada. Afirmo que o laço mais sutil, mais doce e mais seguro entre ‘eu’ e ‘ele’ ou ‘ela’, que consigo estabelecer nas páginas de Calamus e em alguma outras obras da minha lavra – embora nunca nos vejamos, mesmo que tenham se passado muitos anos – deve ser amoroso e pessoal. E estes – sejam poucos ou muitos – são, de qualquer maneira, meus leitores embora não sejam – e nunca serão – meus melhores e mais notáveis poemas.
 
“Além disso, por importantes que sejam, em meu propósito de expressar meus sentimentos pela humanidade, o significado especial da coletânea de Calamus em Leaves of Grass (o mesmo sucede com Drum Taps) repousa principalmente em seu Sentido Político. Na minha opinião é graças a um fervoroso e consciente desenvolvimento da camaradagem, ao belo e saudável carinho do homem pelo homem, latente em todos os jovens do Norte e do Sul, do Leste e Oeste é que, direta ou indiretamente, os Estados Unidos do futuro (jamais o direi com a freqüência desejada) deverão ser realmente soldados, consolidados e temperados numa Unidade Viva.”
 
Por isso, acredito ser este o caminho para a liberação gay, para a liberação dos homens e para todo o resto: a liberação de sentimentos e liberação da ternura, que foi o mais reprimido.
 
YOUNG – Alguns ativistas do movimento gay, que se autodenominam “efeminados”, diriam que este tipo de romantização do amor masculino é misógino, mais uma expressão da supremacia masculina, na mesma linha do amor grego; porque a sociedade grega, que tolerava e nutria a homossexualidade, era, em seus fundamentos e raízes, uma sociedade de supremacia masculina.
 
GINSBERG – Não sei. Não creio que com o passar do tempo seja assim. Parece-me um sentimento muito genuíno. No caso de Whitman, não parecia interferir em suas relações com as mulheres, porque mantinha amigas que sentiam como ele e que eram, suponho, lésbicas casadas e donas de casa.
 
Whitman dizia que a relação entre homens, a aceitação entre homens não foi desenvolvida na América. Hoje eu diria que foi reprimida pelo espírito de competição e rivalidade característico da economia capitalista. A relação potencial com uma fraternidade comum seria pelo menos a ternura entre irmãos. Essa ternura foi negada ao branco do sul e é a causa da sua incapacidade de relacionar-se com homens e mulheres. Ainda não sabemos qual é o alcance da formação de laços mais fortes entre homens, ou do fato de fazê-los conscientes desses laços e de sua aceitação como significado político.
 
Qual é a alternativa? Destacar o espectro do amor grego e suas implicações antifeministas e apontar seus pontos de contato com o comportamento dos beatniks: medo das mulheres, pelo que posso perceber. Mas também é preciso encarar a questão como uma conseqüência real e natural de emoções produzidas pelo medo e pelas restrições próprias da situação em que crescemos: desconfiança, ódio, paranóia e competição entre os homens em vez de cooperação; o mesmo vale entre homens e mulheres.
 
Whitman era muito consciente e estava sensibilizado por tudo isso, por seu amor reprimido pelos homens, porque não podia manifestá-lo abertamente e em público. Teve de encontrar uma maneira de expressar seu “afeto”.
 
Acho que uma liberação emocional entre os homens conduziria também a uma liberação entre homens e mulheres, porque eles não teriam de ser mais homens em sua relação com as mulheres, no sentido de serem fortes e conquistadores. Poderiam ter uma relação muito mais relaxada, na qual não estariam constantemente obrigados a sentirem-se sexuais e sim apenas amigos ou afetuosos. A amizade não sexual entre homens e mulheres ainda é considerada imprópria para um homem. O incremento de amizades puramente emotivas e não genitais com homens poderia também significar um progresso, uma abertura na direção de amizades puramente criativas e não genitais com mulheres.
 
Qual é a alternativa que os “efeminados” propõem? Além de dizer: “Não, não deves te sentir bem com o teu próximo, os heterossexuais não devem incrementar relações emotivas com outros heterossexuais”? Na realidade, estão defendendo um clube exclusivo, mas já tivemos esse clube exclusivo de outra maneira, com a história machista protagonizada por Hemingway ou com a história machista do tipo musculoso e militar. Afirmo, a exemplo de Whitman, que o antídoto para esses cenários machistas hemingwayanos e militares é o incremento da ternura honesta e emotiva e um reconhecimento da ternura como base da emoção genital ou não genital. Isto poderia ser resolvido através de mais camaradagem entre os homens, com uma democratização da amizade, de modo que não se limitasse exclusivamente a uma amizade entre homens e mulheres baseada no sexo. Acho que isto solucionaria grande parte do conflito machista e suas contradições.
 
Acho também que uma das definições de “viadagem” ou homossexualidade é a de que ela ocorre como uma situação inerente, desde muito cedo, na qual tanto o fluido genital como o emotivo, orientam-se mais na direção dos homens do que na das mulheres, como seria natural. Penso que o objetivo da liberação gay é aceitar essa diversidade de incremento como algo viável e, conseqüentemente, dar-lhe espaço. Do contrário, o que é um homossexual? A menos que você queira ter uma frente de liberação homossexual que proponha aos homens um desenvolvimento fora do homossexualismo, numa relação mais igualitária e democrática, com homens e mulheres. Mas acredito ser possível afirmar: deixe que a flor mais pura manifeste o seu verdadeiro propósito, que é o de orientar-se na direção da luz; e deixe que a flor mais retorcida manifeste, em sua inclinação, seu propósito de orientar-se na direção da luz. A flor retorcida tem de rodear as pedras para buscar a luz. Mas o propósito é chegar à luz do amor, embora a flor reta cresça diretamente rumo ao amor e à luz. Das duas uma: ou você tem o amor-humano-biológico-condicionado, ou um movimento de liberação gay que deseja liberar e tornar públicas estas emoções. Uma das coisas que o movimento poderia promover seria derrubar a barreira de medo que as bichas levantam em relação às mulheres. Botar abaixo a barreira entre homem e homem, o que provavelmente levaria ao mesmo resultado.
 
Outro ponto que eu gostaria de mencionar é a possível e tradicional objeção dos efeminados acerca das relações “sexistas” entre homens mais velhos com homens mais jovens. Vi em Berkeley manifestos sobre o assunto. Mencionei a questão a Gavin Arthur, falecido este ano em São Francisco. Era um cavalheiro, de maneiras delicadas; era astrólogo, um mestre, um guru e neto do presidente Chester Arthur. Neal Cassady trepou com ele algumas vezes, quando buscava refúgio em São Francisco depois de suas aventuras com Kesey pelas estradas de ferro. E Gavin Arthur já havia trepado com Edward Carpenter, e Edward Carpenter com Walt Whitman. De certo modo, em linha de transmissão, é um fato interessante a ser registrado na mitologia. O herói heterossexual de Kerouac também trepou com alguém que, por sua vez, trepou com Whitman e recebeu a Tradição Sussurrada (com “T” e “S” maiúsculos) daquele amor.
 
YOUNG – O herói heterossexual de Kerouac? A quem você se refere?
 
GINSBERG – Neal Cassady, Dean Moriarty, o que trepou com Gavin Arthur que, por sua vez, trepou com Edward Carpenter que, por sua vez, trepou com Whitman. E eu trepei com Dean, de modo que….falando nessa linha de transmissão… O que me foi sussurrado nessa linha de transmissão por Gavin Arthur, sobre a relação encantadora entre homens mais velhos com jovens, a exemplo do que ocorria na Antigüidade, é uma coisa que você entende melhor à medida em que envelhece, uma coisa da qual você não precisa se envergonhar, e nem contra a qual precisa ficar na defensiva, e sim uma coisa a ser estimulada – uma relação saudável e não uma dependência neurótica e doentia.
 
O principal é a comunicação. Os mais velhos têm sabedoria, experiência, história, memória, informação, referências e também poder, dinheiro e tecnologia. Os mais jovens têm inteligência, entusiasmo, sexualidade, energia, vitalidade, mente aberta, atividade física – todas estas características, além dos conhecimentos doces e puros da juventude – e ambos se beneficiam do intercâmbio. A coisa converte-se em algo mais do que uma relação sexual; passa a ser um intercâmbio de talentos, sucessos e de dons naturais. Os mais velhos ganham em vigor, frescor, vitalidade, energia, esperança e alegria por meio dos mais jovens; e os mais jovens ganham em experiência, conselhos, ajuda, consolo, sabedoria, conhecimentos e ensinamentos através da sua relação com os mais velhos. A exemplo do que se verifica em outras relações, a combinação de antigo e novo é funcionalmente proveitosa. Isso difere muito de ser “sexista”, no sentido de que o interesse direcionado ao jovem não é totalmente sexual; vale mais pela relação em si e pela sabedoria a ser obtida. Na teoria de Edward Carpenter e Whitman, o mais velho chupa o pau do mais jovem e dessa forma absorve o seu magnetismo elétrico e vital –segundo uma teoria encantatória e teosófica do século 19. É uma coisa que eu, como sou mais velho, experimento como um ato natural. Quando você trepa com alguém mais jovem, você ganha um pouco de vitalidade, de frescor e de auto-estima.
 
YOUNG – Você referiu-se a Whitman e Carpenter e em alguns dos poemas menciona García Lorca. Para mim foi uma descoberta muito recente o fato de que esses escritores famosos fossem gays como eu, o fato de que eu tivesse este laço de união com eles. Tenho curiosidade em saber como você descobriu isso.
 
GINSBERG – Em Ode a Walt Whitman, Lorca fala do sol “que canta nos umbigos dos rapazes que jogam beisebol sob as pontes” e esta imagem contém tanta beleza erótica que imediatamente percebemos que ele entendia, estava envolvido nisso, havia realmente experimentado aquele sentimento. Algum tempo depois, encontrei uma pessoa no Chile que o havia conhecido e me disse que ele gostava de rapazes. De fato, alguma coisa relacionada com um garoto pode ser a causa do fuzilamento de Lorca. Não acho que seja um fato a aparecer em nenhuma das suas biografias.
 
Esta epifania do sexo é completa nos livros de Whitman; sua rapsódia homoerótica inclui uma descrição de como deitou-se com um amigo – na parte 5 de Song of Myself:
 
I mind how once we lay such a transparent summer morning,
How you settled your head athwart my hips and gently turn’d over upon me
And parted the shirt from my bossom-bone, and plunged your tongue to my bare-stript heart
And reach’d till you felt my beard, and reach’d till you held my feet.
 
YOUNG – Isso não é ensinado no curso secundário.
 
GINSBERG – A escola é de todas as maneiras irrelevante para a poesia, e para qualquer coisa. Quero dizer que a escola é uma herança do século 19. A poesia remonta a 15000 antes de Cristo. Veja o poema “We Two Boys Together Clinging”:

 
We two boys together clinging.
One the other never leaving,
Up and down the roads going, North and South excursions making,
Power enjoying, elbows stretching, fingers clutching,
Arm’d and fearless, eating, drinking, sleeping, loving.
No law less than ourselves owning, sailing, soldiering, thieving, threatening,
Misers, menials, priests alarming, air breathing, water drinking, on the turf or the sea-beach dancing,
Cities wrenching, ease scorning, statutes mocking, feebleness chasing,
Fullfilling our foray
 
Em “No Labor-Saving Machine”, ele escreve:
 
(…) But a few carols vibrating through the air I leave,
For comrades and lovers.
 
E Whitman diz em “A Glimpse”:
 
A glimpse through an interstice caught,
Of a crowd of workmen and drivers in a bar-room around the stove late of a winter night, and unremark’d seated in a corner,
Of a youth who loves me and whom I love, silently approaching and seating himself near, that he may hold me by the hand,
A long while amid the noises of coming and going, of drinking and oath and smutty jest.
There we two, content, happy in being together, speaking little, perhaps not a word.
 
Perfeito! E absolutamente real. Isso é a vida. Inclusive a vida heterossexual. É a realidade indescritível das relações humanas na América do Norte. Não podemos chamá-la de gay…. Tem a ver com o que eu dizia antes, em relação ao que deve ser… O afeto de que Whitman falava, agora latente em todos nós, e que está pronto para aflorar sabe lá Deus em quantas pessoas nos últimos dez anos, quantos rapazes com quem me encontrei e com quem me sentei e com quem enlacei as mãos e pelos quais nutri sentimentos de amor e vice-versa, na universidade ou em qualquer outro lugar e que nada teve a ver com viadagem entre aspas, nem mesmo com o que se chama de gay. O gay tem excesso de categoria!
 
YOUNG – Pelo que você disse antes, isso aconteceu até certo ponto entre os boêmios e os hipsters…
 
GINSBERG – Ah, isso existe desde o homem de Cromagnon!
 
YOUNG – Parece-me que há atualmente uma tensão entre os gays freak (gays hippies) e os gays straight (gays conformistas). Há pessoas no movimento de liberação gay que dizem “tenho mais coisas em comum com um heterossexual hippy do que com um gay de cabelo curto e alcoólatra. E há outros gays que dizem “devo minha lealdade a outros gays e a cultura freak é demasiadamente machista”.
 
GINSBERG – Senti isso na tradição homossexual sincera, populista, humanista, meio heterossexual, whitmaniana, boêmia, livre, afetuosa como verificamos em Sherwood Anderson, Whitman e talvez um pouco em Genet, em oposição à bicha louca meio histérica, privilegiada, exageradamente efeminada, mexeriqueira, endinheirada e money-style-cloth-conscious [consciente do estilo e da roupa cara]. Não há nada mais ancestral, e em certo sentido mais respeitável, do que o velho travesti xamanista que vemos fazendo o trottoir na Greenwich Avenue, ou mesmo entre os índios norte-americanos a figura do xamã, que se veste de mulher e até arranja marido. Há alguma coisa de muito ancestral e encantador na jovem bicha louca; uma companhia fantástica, de expressividade e individualidade absolutas – às vezes chegamos a recear que se trata do exterior histérico e escandalosos de alguém à beira de um colapso nervoso e que terminará na igreja ou algo parecido. Mas nela há também algo de disciplinado, frívolo, ressentido e de complexo anal.
 
Quando eu era mais jovem, a divisão era feita entre os beatniks sujos de coração grande – não posso me definir exatamente como uma bicha… Homossexual? Tenho usado este termo, mas nunca encontrei a palavra justa… Inúmeros amantes, amantes gnósticos sem nome – e as bichas monopolizadoras, endinheiradas e privilegiadas. Era esta a diferença.
 
YOUNG – Você encontrou os dois tipos nos bares gays de Nova York?
 
GINSBERG – Decididamente havia representantes dos dois grupos. Havia muitos desbocados, divertidos e velhas bichas marujas dos anos 20; também todo tipo de executivos publicitários de boca franzida, paranóicos, assustados, conservadores, reacionários e de cabelo curto. E tudo o mais que vier à tua imaginação. Há um grupo de bichas que depende do dinheiro, é afetado, chique, privilegiado e exclusivo, de alta classe monopolizadora e geralmente acompanhado de más intenções, maus modos e amor desleal. Prefiro a homossexualidade na qual os amantes são amigos por toda a vida, com direito a muitos amantes e amigos.

GRUPO TORTURA NUNCA MAIS realizou encontro para lançar o MEMORIAL DA LIBERDADE

 

O GRUPO TORTURA NUNCA MAIS DO PARANÁ  promoveu no dia 22 de abril as 19 horas  no auditório da Rua da Matriz, em Curitiba, o evento cívico-artístico MEMORIAL DA LIBERDADE.
Nesse dia aconteceram varias apresentações culturais, exposições, lançamentos de livros, declamações de poesias, depoimentos, contando um pouco da história acontecida em Curitiba, durante os anos de ditadura militar.memorial-da-liberdade-plateia-2009-261

 O projeto pretende lançar o movimento PRÓ- MEMORIAL e demonstrar que este espaço tem grande importância para a história de nossa cidade e de todo o país. Durante as décadas de 60 e 70, neste local existiu o QUARTEL DA POLÍCIA DO EXÉRCITO, onde todos os prisioneiros políticos, muitos menores, foram cruelmente torturados.

Também, neste mesmo local, estava a AUDITORIA MILITAR, onde aconteceram os “julgamentos” de grande parte dos presos políticos do Estado do Paraná e Santa Catarina.
Por todos esses motivos estamos apresentando este evento,mas, principalmente, para que essa história não fique esquecida e possa servir para educar as novas gerações.

HISTÓRIA

Na década de 1970, as famílias de mortos e desaparecidos durante o regime militar iniciaram a busca, difícil e dolorosa, de informações sobre as circunstâncias dos crimes. A missão era não somente esclarecer os acontecimentos, localizar restos mortais e identificar os responsáveis, mas principalmente preservar a memória do que ocorreu e, assim, contribuir para a difusão de uma cultura de defesa dos direitos humanos. 

“Dossiê Ditadura: mortos e desaparecidos políticos no Brasil (1964-1985)” é resultado desse trabalho incansável e sofrido, empreendido por uma comissão de familiares, muitos deles também vítimas da violência. Trata-se de um levantamento exaustivo e abrangente, cuja segunda edição, com incontáveis acréscimos, foi lançada pela Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos e IEVE (Instituto de Estudos sobre a Violência do Estado) no dia 25 de abril, no Memorial da Resistência, Estação Pinacoteca (Largo General Osório, 66, 5º andar, Luz). Houve debate com o jurista Fabio Konder Comparato, o professor Marcio Seligman Silva e a historiadora Janaina de Almeida Teles.

A primeira edição, após quase duas décadas de buscas por informação e algumas versões preliminares, foi publicada em 1995. A luta por esclarecimentos, porém, nunca cessou. Esta nova edição, revista e ampliada, reúne histórias ilustradas de 436 mortos e desaparecidos durante o regime militar. No Brasil, são 396, sendo 237 mortos e 159 desaparecidos políticos –desde a última edição, novas investigações acrescentaram as histórias de 69 pessoas, além de terem ajudado a corrigir várias das versões anteriores. 

No exterior, há 30 casos, incluindo mortos em decorrência de seqüelas de tortura ou de acidente no exílio. Há, ainda, 10 pessoas que morreram antes do golpe.

“Algumas pessoas que pensávamos terem sido mortas na rua em tiroteios foram na verdade presas, torturadas e executadas. Lembro que foram 132 casos em que provamos serem mentirosas as versões da ditadura de suicídios, atropelamentos e tiroteios”, afirma uma das quatro responsáveis pela redação final do livro, Suzana Lisboa, ex-guerrilheira cujo marido foi a primeira vítima a ser reconhecida oficialmente, em 1979. 

Este número de vítimas ainda não é definitivo. Não foram esgotadas as possibilidades de pesquisa e investigação, como as realizadas nos arquivos do antigo SNI, por exemplo. Nem foi possível, também, o acesso aos arquivos militares. É o que diz Criméia de Almeida, outra das responsáveis pela redação final do livro. Sobrevivente da guerrilha do Araguaia, ela perdeu o marido e o sogro: “Os arquivos nos são sistematicamente negados sob a alegação de que não existem, até mesmo quando ganhamos na justiça esse direito como é o caso do Araguaia, em out ubro de 2003. Até hoje a sentença não foi executada”. 

Grande parte das informações, segundo ela, foi obtida, direta ou indiretamente, com ajuda dos familiares. “Nossa meta futura é fazer com que os arquivos sejam realmente abertos e o país tenha uma Comissão de Verdade e Justiça que esclareça as circunstâncias em que se deram as mortes e desaparecimentos e puna os responsáveis por tais crimes”.

Ao comparar os dois momentos, o da primeira edição do “Dossiê Ditadura” e o atual, Criméia de Almeida diz que houve avanço, mas “num ritmo muito aquém do que seria necessário ou desejável numa democracia”. Para Suzana Lisboa, o Brasil está muito atrás dos países da América Latina. Desde a última edição, as denúncias aumentaram, vale destacar, porque outros países têm pedido a prisão de agentes do estado brasileiro. 

No livro, organizado cronologicamente, cada vítima tem sua história de vida e luta contada. Estão lá membros de partidos, militantes de grupos de esquerda e de movimentos sociais, além de outros que, sem qualquer atividade política, foram mortos “por acaso”, por terem sido confundidos. Existem casos famosos, como o do Capitão Lamarca e Iara Iavelberg, mortos na Bahia no começo dos anos 70, os dos participantes da guerrilha do Araguaia, que resistiram até 1974, e o do jornalista Vladimir Herzog, morto em 1975. O livro inclui também boxes temáticos que ajudam a contextualizar os crimes e a luta dos familiares, tais como aqueles que tratam do AI-5, do Congresso da UNE em Ibiúna, da Campanha pela Anistia, da Crise dos Desaparecidos de 1975 e das tentativas de criar a CPI da Tortura.

No prefácio à nova edição, o jurista Fábio Konder Comparato lembra que, ao ler qualquer das páginas, é praticamente impossível evitar as lágrimas. Porém, acrescenta ele, a consciência ética deve nos levar além de reações emocionais. Afinal, há várias perg untas que permanecem: “Por que razão tudo isso aconteceu entre nós durante anos, sob o olhar indiferente da maioria esmagadora da população? É decente virar as costas para essa fase ignominiosa da história brasileira, sem se importar com a identificação e a punição dos mandantes, financiadores e executantes de todos os crimes aqui descritos?”, diz.

Dom Paulo Evaristo Arns, arcebispo emérito de São Paulo –e, assim como Konder Comparato, uma das vozes mais ativas na luta pelos direitos humanos–, ressaltava já no prefácio à primeira edição que este livro, “de dor e melancolias”, surgia para “fazer pensar e fazer mudar o que deve ser mudado em favor da vida e da verdade”.

Por meio do site http://www.desaparecidospoliticos.org.br, mantido pelos familiares, tem sido possível receber informações. Se a redação final contou com quatro pessoas, o levantamento teve -e continua a ter — a contribuição de incontáveis participantes.

EUNICE ARRUDA convida:

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EÇA DE QUEIROZ – editoria

Os políticos e as fraldas devem ser mudados frequentemente e pela mesma razão.

BERNARDO GUIMARÃES – SATÍRICAS E BOCAGEANAS

SATÍRICAS E BOCAGEANAS DE BERNARDO GUIMARÃES

 

 

AO LEITOR

D’un pinceau delicat l’artifice agreable

Du plus hideux object fait un object fait aimable

Boileau

 

No intuito de perpetuar estes versos de um poeta nosso bem conhecido, os fazemos publicar pela imprensa, que, sem dúvida pode salvar do naufrágio do esquecimento poesias tão excelentes em seu gênero, e cuja perpetuidade alguns manuscritos, por aí dispersos e raros, não podem garantir do tempo.

A lira do poeta mineiro tem todas as cordas; ele a sabe ferir em todos os tons e ritmos diferentes com mão de mestre.

Estes poemas podem se chamar erótico-cômicos. Quando B.G. escrevia estes versos inimitáveis, sua musa estava de veia para fazer rir, e é sabido, que para fazer rir são precisos talentos mais elevados do que para fazer chorar.

Estes versos não são dedicados às moças e aos meninos. Eles podem ser lidos e apreciados pelas pessoas sérias, que os encarecem pelo lado poético e cômico, sem ofensa da moralidade e nem tão pouco das consciências pudicas e delicadas.

Repugnam-nos os contos obscenos e imundos, quando não têm o perfume da poesia; esta, porém, encontrará aceno e acolhimento na classe dos leitores de um gosto delicado e no juízo destes será um florão de mais juntado à coroa de poeta de que B.G. tem sabido conquistar à força de seu gênio.

 

Ouro Preto, 7 de maio de 1875

 

A ORIGEM DO MÊNSTRUO

De uma fábula inédita de Ovídio, achada nas escavações de

Pompéia e vertida em latim vulgar por Simão Nuntua

 

 

‘Stava Vênus gentil junto da fonte

Fazendo o seu pentelho,

Com todo o jeito, p’ra que não se ferisse

Das cricas o aparelho.

 

Tinha que dar o cu naquela noite

Ao grande pai Anquises,

O qual, com ela, se não mente a fama,

Passou dias felizes…

 

Rapava bem o cu, pois resolvia,

Na mente altas ideias:

    Ia gerar naquela heróica foda

O grande e pio Enéias.

 

Mas a navalha tinha o fio rombo,

E a deusa, que gemia,

Arrancava os pentelhos e, peidando,

Caretas mil fazia!

 

Nesse entretanto, a ninfa Galatéia,

Acaso ali passava,

E vendo a deusa assim tão agachada,

Julgou que ela cagava…

 

Essa ninfa travessa e petulante

Era de gênio mau,

E por pregar um susto à mãe do Amor,

Atira-lhe um calhau…

 

Vênus se assusta. A branca mão mimosa

Se agita alvoroçada,

E no cono lhe prega (oh! caso horrendo!)

Tremenda navalhada.

 

Da nacarada cona, em sutil fio,

Corre purpúrea veia,

E nobre sangue divino como

As águas purpureia…

 

(É fama que quem bebe desta águas

Jamais perde o tesão

E é capaz de foder noites e dias,

Até no cu de um cão!)

 

    “Ora porra!” — gritou a deusa irada,

E nisso o rosto volta…

E a ninfa, que conter-se não podia,

Uma risada solta.

 

A travessa menina mal pensava

Que, com tal brincadeira,

Ia ferir na mais morosa parte

Da deusa regateira…

 

    “Estou perdida!” — trêmula murmura

A pobre Galatéia,

Vendo o sangue a correr do róseo cono

Da poderosa déia…

 

Mas era tarde! A Cípria, furibunda,

Por um momento a encara,

E, após instantes, com severo acanto,

Nesse clamor dispara:

 

“Vê! Que fizeste, desastrada ninfa,

Que crime cometeste!

Que castigo há no céu, que punir possa

Um crime como este?!

 

Assim, por mais de um mês inutilizas

O vaso das delícias…

E em que hei de gastar das longas noites

As horas tão propícias?

 

Ai! Um mês sem foder! Que atroz suplício…

Em mísero abandono,

Que é que há de fazer, por tanto tempo,

Este faminto cono?…

 

Ó Adonis1 Ó Júpiter potente!

E tu, mavorte invicto!

E tu, Aquiles! Acode de pronto

De minha dor ao grito!

 

Esse vaso gentil que eu tencionava

Tornar bem fresco e limpo

Para recreio e divinal regalo

Dos deuses do Alto Olimpo,

 

Vede seu triste estado, ó! Que esta vida

Em sangue já se esvai-me!

Ó Deus, se desejas ter foda certa

Vingai-vos e vingai-me!

 

Ó ninfa, o teu cono sempre atormente

Perpétuas comichões,

E não aches quem jamais nele queira

Vazar os seus culhões…

 

Em negra podridão imundos vermes

Roam-te sempre a crica,

E à vista dela sinta-se banzeiro

A mais valente pica!

 

De eterno esquentamento flagelada,

Verta fétidos jorros,

Que causem tédio e nojo a todo mundo,

Até mesmo aos cachorros!!!”

 

Ouviu-lhe estas palavras piedosas

Do Olimpo o Grão-Tonante,

Que em pívia ao sacana do Cupido

Comia neste instante…

 

Comovido no íntimo do peito,

Das lástimas que ouviu,

Mandou o menino que, de pronto, acuda

À puta que o pariu…

 

Ei-lo que, pronto, tange o veloz carro

Da concha alabastrina,

Que quatro aladas porras vão tirando

Na esfera cristalina

 

Cupido que as conhece e as rédeas bate

Da rápida quadriga,

Co’a voz ora as alenta, ora co’a ponta

Das setas as fustiga.

 

Já desce aos bosques onde a mãe aflita,

Em mísera agonia,

Com seu sangue divino o verde musgo

De púrpura tingia…

 

No carro a toma e num momento chega

À olímpica morada,

Onde a turba dos deuses, reunida,

A espera consternada!

 

Já Mercúrio de emplastros se aparelha

Para a venérea chaga,

Feliz porque naquele curativo

Espera certa paga…

 

Vulcano, vendo o estado da consorte,

Mil pragas vomitou…

Marte arranca um suspiro que as abóbadas

Celestes abalou…

 

Sorriu a furto a ciumenta Juno,

Lembrando o antigo pleito,

E Palas, orgulhosa lá consigo,

Resmoneou: — “ Bem feito!”

 

Coube a Apolo lavar dos roxos lírios

O sangue que escorria,

E de tesão terrível assaltado,

Conter-se mal podia!

 

Mas, enquanto se fez o curativo,

Em seus divinos braços,

Jove sustém a filha, acalentando-a

Com beijos e com abraços.

 

Depois, subindo ao trono luminoso,

Com carrancudo aspecto,

E erguendo a voz troante, fundamenta

E lavra este Decreto:

 

—“Suspende, ó filho, os lamentos justos

Por tão atroz delito,

Que no tremendo Livro do Destino

De há muito estava escrito.

 

Desse ultraje feroz será vingado

O teu divino cono,

E as imprecações que fulminaste

Agora sanciono.

 

Mas, ainda é pouco: — a todas as mulheres

Estenda-se o castigo

Para expiar o crime que esta infame

Ousou para contigo…

 

Para punir tão bárbaro atentado,

Toda humana crica,

De hoje em diante, lá de tempo em tempo,

Escorra sangue em bica…

 

E por memória eterna chore sempre

O cono da mulher,

Com lágrimas de sangue, o caso infando,

Enquanto mundo houver…”

 

Amém! Amém! Com voz atroadora

Os deuses todos urram!

E os ecos das olímpicas abóbadas,

Amém! Amém! Sussurram…

OFERTÓRIO – ÓDIO / poema de jb vidal

ainda ofereço este ódio

que se alimenta da inveja e do ciúme

da ganância e do poder

que macera sobre fracos e inúteis

ri do sucesso e do fracasso

e reina absoluto no tempo

 

 

 

um ódio total,

solícito, voluntarioso e polido,

cínico e exuberante,

com elegância faz as guerras e dizima pela fome,

que, em nome de Deus, pune, mata e destrói,

timoneiro único, em seu barco de chamas, navega os corações

 

 

 

um ódio que elimina obstáculos e é espelho maior

um ódio eterno que se disfarça em glórias e orações,

penitências, óbolos, ladainhas e procissões

que surge lentamente, lentamente, lentamente

para aflorar como um vulcão impiedoso e destruidor

derrotando sentidos, sentimentos, esperanças e pulsações

 

 

ofereço pois a quem nunca estendeu a mão

a quem ofendido não perdoou

agredido não esqueceu

esquecido não lembrou

a quem a inveja e a calúnia foram santos no altar

a quem a morte é o momento de saber que não viveu

MÁRIO crônica de hamilton alves

Mário é o nome de um amigo que fiz há pouco. Tem setenta e oito anos, mas aparenta ser ainda um homem disposto para qualquer parada, cabelos grisalhos, bastante lúcido, sem nenhum problema de saúde aparente e dono de um bom humor contagiante. Toma vinho, cerveja, caipirinha. Come com moderação, sem escolha de cardápio. Ou seja, o que vier traça. Exercício físico, segundo deduzi em algumas horas de conversa, não faz nenhum. Ou não se dedica a fazê-lo. Exame médico, não se lembrava mais do último que fez. Consulta a médico, também, só se recordava de ter feito duas ou três durante toda a vida, mesmo assim para doenças passageiras.

                                               Passou o diabo para sobreviver, oriundo de uma família pobre, de oito irmãos (incluindo-se ele). Começou a frequentar a escola com onze anos, mas logo percebeu que tinha que trabalhar para ajudar nas despesas da casa.

Reuniu-se com três outros amigos (dois deles filhos de médicos e um outro de marinheiro) para trabalhar na caça a rãs. Os filhos dos médicos e ele eram caçadores, enquanto o filho do marinheiro tratava de limpá-las para vendê-las. Colhiam sempre uma boa grana nesse comércio. O filho do marinheiro tinha uma destreza incrível no trato das rãs. Tornou-se um perito nessa tarefa. As rãs, depois de devidamente limpas, eram colocadas numa sacola, conduzidas num carrinho de mão, dirigido por ele, depois do que eram comercializadas, especialmente com italianos, que as adoravam para comê-las ou revendê-las.

                                               Com esse trabalho inicial deu os primeiros passos na sua vida trabalhosa.

                                               Casou-se aos 21 anos com uma mulher diplomada em universidade (não me disse qual). Colocou-o nos trilhos (dito por ele), insistindo que voltasse a estudar. Seguiu seu conselho. Com isso, um amigo lhe arranjou um emprego numa empresa que trabalhava na comercialização de arroz. Entrou nela sem saber o salário que ia ganhar de início. Só seria estabelecido depois que provasse sua capacidade de gerenciamento. Trabalhava doze, treze, quatorze horas, sem descanso, nos feriados e domingos, que era quando saía em viagens para no dia seguinte ter contato com adquirentes do produto. No fim de 35 anos, aposentou-se. Abriu seu próprio negócio.

                                               Formou uma família de quatro filhos: dois homens e duas moças, sendo um engenheiro agrônomo, o outro comerciante, uma das moças é dentista,  a outra é enfermeira de grau universitário. Dois deles, o agrônomo e a enfermeira, fizeram mestrado e doutorado na Alemanha, vindo a casar com alemães, do que resultou uma neta alemã, tendo dez netos.

                                               A filha, diplomada em enfermagem, conhece alemão, assim como o filho agrônomo. Dão palestras por toda parte. Ela é professora universitária.

                                               Perdeu a mulher aos cinqüenta e sete anos de casado. Me declarou (alto e bom som)  que lhe deve tudo o que foi e o que é.

                                   – Qual seu estado civil atual?

                                   Fiz-lhe essa pergunta levando em conta sua jovialidade, deduzindo que, por isso, teria se amarrado a algum rabo de saia.

                                   – Sou viúvo. – respondeu com muita convicção, como se assim quisesse revelar que, mesmo depois de morta, guarda fidelidade à velha companheira.

                                   Findou o encontro confessando-me:

                                   – Só se colhe o que se planta.

                                  

 

Nossos criminosos olhos azuis / por alceu sperança

 


 

Joseph Pulitzer achava que um governo enrolão e uma imprensa “cínica, mercenária e demagógica” produziriam um povo igual. Um povo impostor, misto de Pedro Malazartes, Papai Noel, cegonha, Barão de Münchausen e coelhinho da Páscoa. Será que chegaremos a isso – a ter um povo tão canalha quanto as elites espoliadoras? Ou, na verdade, o sofrimento pelo qual o povo brasileiro passa vai servir de lição para não cair mais em conversa fiada eleitoral?

Terão uma função educativa a crescente insegurança, medo de perder o emprego, terror de não poder pagar as dívidas empenhadas nos cartões de crédito, a ameaça de declínio social, a impotência diante da corrupção, a quebradeira dos serviços públicos em cotejo com a mais brutal carga tributária do planeta, preços altíssimos para tudo, como uma indecente tarifa do lotação e o custo do litro de gasolina? 

Como aprendemos no bê-a-bá do marxismo que tudo está ligado, é impossível desligar esse caos urbano e rural que varre o Brasil do desastre da ideologia. Depois de convencer todo o mundo de que estavam certos, eles mesmos estão comprovando que tudo estava errado: o Estado que se queria mínimo vai socorrer os bancos quebrados, reforçar o caixa das empresas falidas, socorrer os ricos com os caraminguás dos pobres.

E agora a polícia desanda a dar borrachada em pobre desde a elegante Londres até o grotão mais miserável da Tailândia. É um tal de baixar o cassetete que a face mais visível do Estado na crise é ele assumir um caráter policial, xerifesco. Descem o pau a cada tentativa de exigir justiça, direitos e benefícios provindos dos impostos embutidos em tudo o que se compra.

Não há como negar que o mundo está submetido a um comando policial, exercido pelos EUA a pretexto de combate ao terrorismo. Isso vai se refletir também nos países dominados pela mão pesada do Grande Irmão do Norte. Aliás, a ditaduras sangrentas que se implantaram em consequência da maldita Guerra Fria eram quentíssimas no lombo dos povos latino-americanos, africanos e asiáticos. Que outro sentido teve a “Operação Brother Sam”, avalista da ditadura do 1º de abril? Os EUA têm sido a polícia do mundo: prendem e arrebentam pelo planeta afora e espalham sua ideologia de perseguição e exclusão. É mera consequência que a violência e a criminalidade aumentem no Brasil.

Já houve um tempo em que os “quinta-coluna”, brancos de olhos azuis, eram rancorosamente perseguidos. Nossos avós italianos eram presos e espancados por qualquer motivo. Os alemães iam para o xilindró por um simples sotaque. Até era possível se fazer de mudo e botar peruca preta para ocultar os cabelos louros, mas não havia como disfarçar aqueles criminosos “olhos azuis”, pois não havia lentes de contato à venda nos bolichos. Esses perseguidos na II Guerra Mundial é que depois fariam a força e o desenvolvimento da economia no Sul.

E o que será dos perseguidos de hoje – os moreninhos e brancos, de olhos de todas as cores, empurrados para as favelas por conta de uma ditadura violenta e governos gastadores? Eles já poderiam ser o grande capital humano para o futuro da economia brasileira, mas os dirigentes e as elites preferem a matança dos jovens da periferia a melhorar a educação, a saúde e a geração de empregos.


….

O autor é escritor.

 

 

lula-de-olho-azulilustração do site. arte digital de néo correia.

RUMOREJANDO (Cota de avião? A próxima legislação de interesse deles algum pai da pátria já deve estar bolando. Até quando? / por juca (josé zokner)


PEQUENAS CONSTATAÇÕES, NA FALTA DE MAIORES.

Constatação I

O abandono dela me deixou sentido.

Meu coração, que era maciço,

Ficou, por tal razão, carcomido.

E parecido com um queijo suíço.

Constatação II

O candidato eleito é a antítese, o antípoda, a dicotomia, a discrepância do candidato em campanha.

Constatação III

Foi a tenista americana Serena Wiliams que um admirador tranqüilo, calmo, sereno fez uma serenata pra ela no meio de um forte sereno, cantando “serenô eu caio, eu caio, serenô deixa cair”…

Constatação IV

Corja é o coletivo

De um pessoal

Muito vivo?

Constatação V (Para os meus amigos Beto Guiz e Marcos Recchia e para Inezita Barroso).

Quando o interiorano foi pela primeira vez assistir um balé que apresentou o Lago dos Cisnes do compositor russo Pyotr Ilyich Tchaikovsky e, mais tarde, contou para os amigos: “Só me alembro de algumas partes que eu assisti. As otras eu drumi. Abriu uma cortina de uma baita janela. Adespois vejam só:

Ela parecia mermo uma garça

Quando na ponta do pé

Tava a dançá

Uma linda varsa.

Será que ela tava

Com dor no carcanhá?

Que deve ter incomodado ela

Bastante?

Um cristão

Ficava

Arrodeando

Ela todo instante

E se agarrava nela.

Devia tá matutando

Arguma má intenção

Arguma má fé.

Tinha jeito de tê

Arguma tara.

Num gostei do infeliz.

Eu até quis

Dá nele um safanão

O fiô duma égua,

Que vá dança

Com aquela

Ropa de cetim,

Cateretê

Com as muié,

Que quisé

Muinta légua

Pra morde longe de mim.

Constatação VI (Dúvida crucial via pseudo-haicai).

É no peritônio

Que se manifesta

O cara ser idôneo?

Constatação VII

E como fabulava o obcecado: “Meus carinhos são sempre sem segundas intenções, mas que elas existem isso lá existem”.

Constatação VIII

Assim como o parvo diz parvoiçada e o besta diz besteirada quem diz disparate é um sujeito resultante da soma do parvo e do besta na tabuada?

Constatação IX (Para o meu Amigo Luiz Ivan de Vasconcellos se recuperando de um acidente).

Foi o lírio

Que disse para a ágata:

“Você é uma gata

Que, como ouro, reluz.

Pros meus olhos uma luz,

Um colírio.

O teu desdém

Me obriga, no jantar,

A tomar

Um chá de mentruz

Pra me acalmar

Você é alguém

Que me induz,

Num vaivém,

A frequentar

O Sus.

Constatação X (Dúvida crucial).

Foi o marisco

Que, para não se molhar,

Por causa de um chuvisco,

Adentrou ao mar?

Constatação XI

Não se pode confundir purista com jurista, até porque nem todo jurista é purista e nem todo purista é jurista. Evidência, evidentemente, evidente, prezados leitores.

Constatação XII

Muita gente reclama porque Noé levou para a sua – dele – arca certos insetos inconvenientes, como, por exemplo, um casal de pulgas. Data vênia, como diriam nossos juristas, mas este assim chamado escriba acha que, por estar muito atarefado em conciliar os lugares para todas as espécies, Noé não tomou tal iniciativa. Elas, as pulgas, devem ter tomado carona no casal de cães. Pelo sim e pelo não Rumorejando se propõe a esclarecer o que realmente ocorreu. Tão logo tenha uma resposta dará a conhecer aos seus estimados leitores. Obrigado pela compreensão.

Constatação XIII

O horroroso

Não se considerava

Pavoroso,

Nem, ao menos, feioso

E não se achava

Mirífico*

Ou magnífico.

Ele se julgava

Meio-termo,

Pois vivia ermo

Só e abandonado.

Coitado!

*Mirífico = “2   extraordinariamente belo; perfeito, maravilhoso, admirável” (Houaiss).

Constatação XIV

O corporativismo é uma reunião de interesses comuns, defendendo causas incomuns.

Constatação XV

E foi a ametista

Que levou a boca-de-leão

Ao dentista

Por causa de uma inflamação?

Constatação XVI

O banguela

Desceu com o carro

Na banguela

Na estradinha de barro

Um pouco lisa.

O dentista tinha arrancado

Mais de um dente

Que o doutor tinha achado

Excludente.

Coitado!

De repente ele divisa

Um buraco.

Freou,

Meio devagar, fraco.

Mesmo assim,

O carro derrapou

E a companheira

Que ia ao lado

Bateu no pára-brisa

A moleira.

Quebrou um dente,

Também ela.

Ficou danada.

“Você não cuida de mim!”

Coitada!

Constatação XVII

Rico sofre de amnésia; pobre, nunca presta atenção.

Constatação XVIII

E como explicava, poetando, aquele velho professor de matemática contrário à máquina de calcular:

“Qualquer resolução

De uma equação

Passa, antes de mais nada,

Pela velha tabuada.

Constatação XIX (De uma dúvida crucial).

Por que será que a diretoria do meu Paraná não se demite ao invés de demitir técnicos?

Constatação XX

Rico leva donativo; pobre, corretivo.

E-mail: josezokner@rimasprimas.com.br

 

SOLIDÃO poema de otto nul

 

Estou só

Sempre só

Solidão que insiste

Que resiste

 

De tal modo só

Nada mais existe

Tomo assim pos-

Se de mim

 

Pouco mais desejo

Que ser apenas eu

Comigo num so-

Lilóquio sem fim

 

Que bom ser assim

Nessa fala infinda

Tudo vem de mim

Embora só ainda.

 

 

        x x x

 

(abril/09 – Otto Nul)

 

 

 


REVISTA “O CRUZEIRO” – PRIMEIRO NÚMERO DE 10 DE NOVEMBRO DE 1928 – EDITORIAL

 


 

cruzeiro-i

 

 

Depomos nas mãos do leitor a mais moderna revista brasileira. Nossas irmãs mais velhas nasceram por entre as demolições do Rio colonial, através de cujos escombros a civilisação traçou a recta da Avenida Rio Branco: uma recta entre o passado e o futuro. Cruzeiro encontracruzeiro-2 já, ao nascer, o arranha-céo, a radiotelephonia e o correio aéreo: o esboço de um mundo novo no Novo Mundo. Seu nome é o da constelação que, ha milhões incontaveis de annos, scintila, aparentemente immovel, no céo austral, e o da nova moeda em que resuscitará a circulação do ouro. Nome de luz e de opulencia , idealista e realistico, synonymo de Brasil na linguagem da poesia e dos symbolos.

Timbre de estrellas na bandeira da Patria, o cruzeiro foi, desde o primeiro dia da sua historia, um talisman. Nas solidões do mar, era o fanal nocturno dos navegantes. Vera Cruz, Santa Cruz, foram os nomes sacros que impuzeram á terra nova os nautas-cavalleiros na semana mystica do descobrimento. A armada descobridora apontara á vista dos íncolas attonitos, com as vermelhas cruzes pintadas na pojadura palpitante das vélas. Na terra paradisíaca, por onde Eva andava na cxruzeiro-crucap01verde floresta mais nua do que anda hoje nas praias fulvas de Copacabana, arvorou-se em signal de posse uma cruz, em memoria daquella outra em que um Homem divino fôra crucificado no reinado do lascivo Tiberio. Volvidos quatro seculos, a bandeira nacional recolhia num losangulo de céo a constelação tutelar, restaurando na linguagem dos symbolos o nome do baptísmo de 1500. Cruzeiro é um título que inclue nas suas tres syllabas um programma de patriotismo.

ø

Uma revista, como um jornal, terá de ter, forçosamente, um caracter e uma moral. De um modo generico: princípios. Dessa obrigação não estão isentas as revistas que se convencionou apelidar de frívolas. A funcção da revista ainda não foi, entre nós, sufficientemente esclarecida e comprehendida. Em paíz da extensão desconforme do Brasil, que é uma amalgama de nações com uma só alma, a revista reune um complexo de possibilidades que, em certo sentido, rivalisam ou ultrapassam as do jornal. O seu raio de acção é incomparavelmente mais amplo no espaço e no tempo. Um jornal está adstricto ás vinte e quatro horas de sua existencia diaria. Cada dia o jornal nasce e fenece, para renascer no dia seguinte. É uma metamorphose consecutiva. O jornal de hontem é já um documento fóra de circulação: um documento de archivo e de bibliotheca. O jornal dura um dia. Essa existencia, tão intensa como breve, difficulta os grandes percursos. É um vôo celere e curto. O jornal é a propria vida. A revista é já um compendio da vida. A sua circulação não está confinada a uma area traçada por um compasso cujo ponteiro movel raro pôde exceder um círculo de raio superior á distancia maxima percorrivel em vinte e quattro horas. A revista circula desde o Amazonas ao Rio Grande do Sul, infiltra-se por todos os municipios, utilisa na sua expansão todos os meios de conducção terrestre, maritima, fluvial e aérea; entra e permanece nos lares; é a leitura da familia e da visinhança. A revista é o estado intermedio entre o jornal e o livro.

ø

Por isso mesmo que o campo de acção da revista é mais vasto, a sua interpretação dos acontecimentos deve subordinar-se a um criterio muito menos particularista do que o do jornal. Um jornal póde ser um órgão de um partido, de uma facção, de uma doutrina. Uma revista é ums instrumento de educação e de cultura: onde se mostrar a virtude, animá-la; onde se ostentar a belleza, admirá-la; onde se revelar o talento, applaudi-lo; onde se empenhar o progresso, secundá-lo. O jornal dá-nos da vida a sua versão realista, no bem e no mal. A revista redu-la á sua expressão educativa e esthetica. O concurso da imagem é nella um elemento preponderante. A cooperação da gravura e do texto concede á revista o privilegio de poder tornar-se obra de arte. A politica partidaria seria tao incongruente numa revista do modelo de Cruzeiro como num tratado de geometria. Uma revista deve ser como um espelho leal onde se reflecte a vida nos seus aspectos edificantes, attraentes e instructivos. Uma revista deverá ser, antes de tudo, uma escola de bom gosto.

ø

Porque é a mais nova, Cruzeiro é a mais moderna das revistas. É este o título que, entre todos, se empenhará por merecer e conservar: ser semrpe a mais moderna num paiz que cada dia se renova, em que o dia de hontem já mal conhece o dia de amanhã; ser o espelho em que se reflectirá, em periodos semanaes, a civilisação ascensional do Brasil, em todas as suas manifestações; ser o commentario multiplo, instantaneo e fiel dessa viagem de uma nação para o seu grandioso porvir; ser o documento registrador, o vasto annuncio illustrado, o film de cada sete dias de um povo, eis o programma de Cruzeiro.

É pelo habito de modelar o barro que se chega a bem esculpir o marmore. Esta revista será mais perfeita, mais completa, mais moderna amanhã do que é hoje.

 

memória ativa.

 

 

SOBREVOO RASO POR TRECHOS DO NOVO MILÊNIO poema de zuleika dos reis

 

                                                                      à memória de José Paulo Paes

               

                           

 

    

 

Tabuleiro medieval.

As tochas iluminam a Morte e o cavaleiro

no jogo que prossegue…

 

 

Algumas torres se preparam para a morte

outras, não. Enquanto isso, desde o primeiro lance,

os peões tremem.

 

Sem os peões, o jogo não existe.

 

O morto no campo de batalha

Olha o inimigo ao lado e pensa:                            O outro morto:

Esse está mais morto do que eu.                          Você se engana.

                A seguir se quedam calados sobre a terra:

                É impossível dialogar com o inimigo.

 

 

 

Atravessamos o milênio, e daí?                            Eu vejo:

Não vejo qualquer diferença no rio.                     Acaba de passar

                                                                           um cardume

                                                                           morto.

 

 

 

Se você pretende atravessar comigo                    Você consegue

neste barco                                                          ver esse

até o outro lado da linguagem                               outro lado

é mais seguro ir nadando.                         da linguagem?

 

Que nada!Parece que o rio vai longe!

 

Talvez – ainda é tempo –                                      Ou

sábio seja deletarmos rio                                      permanecermos

barco fazendo água                                              no ínfimo

passageiros…                                                       do deus

                            tal os múltiplos

                            os tantos

                            ainda aqui

                            reinventando liras

                            reinventando perguntas

                            reinventando o pânico dos antigos.

 

 

 

Pelas ruas, o pânico dos velhos caminha lento…

 

 

 

Minha eternidade pelo reinado de um dia.

Só libélulas são felizes.

 

As diversas tribos, cada qual balançando

em seu ritmo próprio

vão puxando alegremente a passeata

por aumento de salários.

 

 

 

Meu corpo silicônico absoluto perfeito

não precisa de futuro. Identidade?

Excesso de bagagem, problemas na Alfândega.

 

 

Me vendo na TV, no cruzamento da Ipiranga

com a São João.

Na telinha também os meus guris

os demais companheiros

os nossos piolhos

os carros estacionados.

Que belo enquadramento! Estamos ótimos!

SATURAÇÃO NA CAPACIDADE DE EXPANSÃO CAPITALISTA por walmor marcellino

 

 

“Amigos 25 anos” tem capeado informações e artigos instrutivos, ou meramente ilustrativos quando não ultrapassam meras constatações, às vezes sem uma perspectiva crítica; quer dizer sem tocar o cerne das contradições ou desvelar o antagonismo. Um destes é o de Limites do Crescimento (comentados por Enrique Leff). Questões como a substituição dos insumos correntes e, em conseqüência, dos seus processos produtivos; enfrentam contradita do poder econômico-político nas sociedades e no mundo (com especial destaque para o forte complexo industrial-militar que se mostrou endógeno às estruturas políticas engendradas pelo “capitalismo de vanguarda” nas sociedades imperialistas).

Outra relevância é que a saturação produtiva é horizontal e vertical, em reciprocidades, dependentes de tecnologias mutantes e vórticas que não admitem a ilusão de “voltar ao pequeno” (Il Piccolo è bello), não bastasse o poder inalterável de empuxo do próprio capitalismo.

Assim, se não está no horizonte do possível um “consenso” de auto-controle capitalista-imperialista e a extinção, sponte sua, do próprio sistema capitalista de produção, o que se apresenta nesse enigma, de predação da natureza‑saturação do meio humano ambiental, como racionalidade e sua razão política?

István Mészáros em “Produção Destrutiva e Estado Capitalista”, uma parte de seu “Para Além do Capital” (não apenas “Além do Capitalismo”), coloca e debate a transformação da “Destruição Produtiva”, que formou o capitalismo com a transformação de bens naturais para o uso humano, em “Produção Destrutiva” como processo-limite nesse processo de transformação de insumos.

O cientista marxista húngaro nos impõe uma análise sistêmica do capitalismo contemporâneo a partir da sua dinâmica concreta de expansão e poder na sociedade contemporânea. Não creio que possa aqui suscitar os temas do antagonismo capitalista com as forças sociais postas na produção, senão remeter os interessados para o estudo de sua magistral obra, que resgata as idéias e o espírito de Karl Marx e adverte contra as simplificações políticas que administram a sobrevida desse sistema de opressão, exploração e destruição que vai sendo mantido por um sistema mundial “jurídico-político” de forças e fomentado pela positividade da estultice “politicamente correta” de dominação das mentes.

Quanto aos caminhos da superação dialética dessa crise incontornável do sistema capitalista, além do forum social mundial de práticas e idéias políticas e da resistência a todas as formas de opressão, exploração e destruição, cada qual encontre sua comunidade organizada e se descubra no processo político com um agir comunicativo, aglutinante.

miedos humanos – poema de francisco cenamor/ Espanha

 


no entiendo ser humano

golpe violencia y bomba

no entiendo el lamento

ingratitud patada y tumba

 

no no precario preso y extraño

presidio genocidio y moro

no entiendo cada arañazo

fusilamiento violación infarto

 

me siento tumbo me levanto

y siento miedo por ti

pequeño humano

A VOZ DO SILÊNCIO poema de autor não identificado.

Pior do que a voz que cala,
é um silêncio que fala.

Simples, rápido! E quanta força!

Imediatamente me veio à cabeça situações
em que o silêncio me disse verdades terríveis,
pois você sabe, o silêncio não é dado a amenidades.
Um telefone mudo. Um e-mail que não chega.
Um encontro onde nenhum dos dois abre a boca.

Silêncios que falam sobre desinteresse,
esquecimento, recusas.

Quantas coisas são ditas na quietude,
depois de uma discussão.
O perdão não vem, nem um beijo,
nem uma gargalhada
para acabar com o clima de tensão.

Só ele permanece imutável,
o silêncio, a ante-sala do fim.

É mil vezes preferível uma voz que diga coisas
que a gente não quer ouvir,
pois ao menos as palavras que são ditas
indicam uma tentativa de entendimento.

Cordas vocais em funcionamento
articulam argumentos,
expõem suas queixas, jogam limpo.
Já o silêncio arquiteta planos
que não são compartilhados.
Quando nada é dito, nada fica combinado.

Quantas vezes, numa discussão histérica,
ouvimos um dos dois gritar:
“Diz alguma coisa, mas não fica
aí parado me olhando!”

É o silêncio de um, mandando más notícias
para o desespero do outro.

É claro que há muitas situações
em que o silêncio é bem-vindo.
Para um cara que trabalha
com uma britadeira na rua,
o silêncio é um bálsamo.
Para a professora de uma creche,
o silêncio é um presente.
Para os seguranças de um show de rock,
o silêncio é um sonho.

Mesmo no amor,
quando a relação é sólida e madura,
o silêncio a dois não incomoda,
pois é o silêncio da paz.

O único silêncio que perturba,
é aquele que fala.

E fala alto.

É quando ninguém bate à nossa porta,
não há emails na caixa de entrada
não há recados na secretária eletrônica
e mesmo assim, você entende a mensagem.

————————————————-

em 26.04.09

recebemos do poeta e editor cleto de assis, colaborador e leitor desta página, um email elucidativo, em parte,  a respeito do poema acima que nos foi enviado, também, como anexo, por um leitor do site. Considerando-se a qualidade do poema, resolvemos publicá-lo com a indicação de “autor não identificado”. o editor.

Transcrevo parte do texto:

“Li o poema A Voz do Silêncio, que você publica hoje. Segundo a inscrição, “poema de autor não identificado.”. Como sou um pouco exigente e não gosto desse anonimato eletrônico, saí à caça para descobrir a autoria, tal qual professor que desconfia da redação do aluno, feita na base do copy & paste.

Descobri coisas. Por exemplo, os dois primeiros versos (Pior do que a voz que cala, é um silêncio que fala) virou frase da moda em vários blogssites. Autores tomam-na como mote para artigos distintos. Fui mais fiundo e, de repente, surge uma autora para o poema. Marta Medeirtos, que, em seguida, descobri que se escreve Martha. E quem é ela?, segundo a Wikipédia, é escritora e colunista do Zero Hora, de Porto Alegre, e do Globo, do Rio de Janeiro.

O importante é saber que ela é autora do texto, mas não do poema! O texto virou poema depois que alguém modificou o primeiro período e versificou as frases que, aliás, têm força poética. Mas ela, na crônica, se refere a outra poeta (veja texto completo abaixo) que escreveu um poema de dois versos.”

Cleto de Assis.

Pior do que a voz que cala,

É um silêncio que fala

A VOZ DO SILÊNCIO

Paula Taitelbaum é uma poeta gaúcha que acaba de lançar seu segundo livro, Sem Vergonha, onde encontrei um poema com apenas dois versos que diz assim: “Pior do que uma voz que cala/É um silêncio que fala”.

Simples. Rápido. E quanta força. Imediatamente me veio a cabeça situações em que o silêncio me disse verdades terríveis, pois você sabe, o silêncio não é dado a amenidades.

Um telefone mudo. Um e-mail que não chega. Um encontro onde nenhum dos dois abre a boca. Silêncios que falam sobre desinteresse, esquecimento, recusas. Quantas coisas são ditas na quietude, depois de uma discussão. O perdão não vem, nem um beijo, nem uma gargalhada para acabar com o clima de tensão. Só ele permanece imutável, o silêncio, a ante-sala do fim.

É mil vezes preferível uma voz que diga coisas que a gente não quer ouvir, pois ao menos as palavras que são ditas indicam uma tentativa de entendimento. Cordas vocais em funcionamento articulam argumentos, expõem suas queixas, jogam limpo. Já o silêncio arquiteta planos que não são compartilhados. Quando nada é dito, nada fica combinado.

Quantas vezes, numa discussão histérica, ouvimos um dos dois gritar: “diz alguma coisa, diz que não me ama mais, mas não fica aí parado me olhando”. É o silêncio de um mandando más notícias para o desespero do outro.

É claro que há muitas situações em que o silêncio é bem-vindo. Para um cara que trabalha com uma britadeira na rua, o silêncio é um bálsamo. Para a professora de uma creche, o silêncio é um presente. Para os seguranças dos shows do Sepultura, o silêncio é uma megasena. Mesmo no amor, quando a relação é sólida e madura, o silêncio a dois não incomoda, pois é o silêncio da paz. O único silêncio que perturba é aquele que fala. E fala alto. É quando ninguém bate a nossa porta, não há recados na secretária eletrônica e mesmo assim você entende a mensagem.

MARTHA MEDEIROS.

como o leitor pôde ver nosso amigo cleto desenvolveu um trabalho de pesquisa, louvável, na medida em que tenta elucidar prováveis fraudes e plágios contra os verdadeiros autores de poemas, artigos, contos, crônicas e tudo o mais que ocorre, lamentávelmente, no mundo virtual.

por mais atentos e criteriosos que sejamos com referência aos trabalhos literários e artísticos que recebemos para publicação – tudo que aqui é publicado vem como anexo de email do autor ou de quem indica e ficam todos arquivados para dirimir prováveis futuras demandas – não nos é possível “checar” à todos e, por isso,  pode ocorrer que se publique uma fraude ou plágio de algum desonesto. em toda a nossa existência, com 1.465 textos publicados até agora, ocorreu uma única vez e restou esclarecido.

fica, ainda, a busca pelo o autor que manipulou o texto transformando-o em em um típico poema, o que não deixa de ser um trabalho desde que assuma a origem.

ao poeta/editor e amigo cleto de assis registramos, de público, nossos agradecimentos por tal “vigilância” o que nos permite seguir em frente sem tantas preocupações.

os PALAVREIROS DA HORA, os milhares de leitores que nos visitam e o editor.

26/04/2009

 

 

SONATA PARA VITRINA E PEDRA por jorge lescano

para A. vidraça e pedra e ângela; 

 aos pais destes  meninos.

 

Esta crônica foi escrita em 1987, decidi-me a “publicá-la” novamente em virtude de um fato real noticiado pela imprensa: um menino de 9 anos foi assassinado a bala por um investigador de polícia em represália por  ter atirado uma pedra no portão de sua residência, pois acreditou que se tratava de um assalto. Segundo  o jornal Notícias Populares, os últimos atos de menino dentro de casa, antes de sair para brincar, foram:  montar a árvore de natal e abraçar sua mãe. O policial  não foi demitido e, ao que se sabe, continua circulando armado pela cidade, para proteger sua população dos vândalos. No final do segundo milênio cristão, a história de Davi e Golias tem um desfecho renovado.

São Paulo, dezembro de 1999

 

Processo inédito    Juiz intima para depor criança que atirou pedra em carro

A Corregedoria do Tribunal de Justiça (TJ) decidiu investigar processo em que foi expedido mandado de busca e apreensão contra um menino de 5 anos (foto) em Serrana (SP). O processo foi aberto há dois anos porque o garoto jogou pedra num carro. Na última sexta, PMs foram procurá-lo em sua casa. O pai do menino, então, levou-o à presença de um juiz na segunda-feira. Ao vê-lo, o juiz decidiu arquivar o processo.

Diário de S. Paulo. sexta-feira, 25 de agosto de 2006, A1.

 

Ele olha a janela e vê o fulgor do crepúsculo nela refletido. O sol é cobre condensado na vidraça. A luz de fogo antigo é seu Eu e pede aos gritos para ser multiplicado. O Anjo sabe disso porque há uma comunhão inexplicável entre os três. Ele sente no bolso da camisa o peso das pedrinhas de areia; a forma arredondada passeia brevemente pela ponta dos seus dedos e deita no couro do estilingue. A pedra e ele sabem que o espaço deseja ser cortado por um corpo sólido rumo a um destino certo. O vazio da tarde espera as notas de cristal. Então o Anjo é poeta, escultor, músico, pintor: empunha sua batuta e com olho certeiro modela na realidade algo que nunca antes existira e que jamais voltará a se repetir. Ele sabe que cada vidraça, e cada pedra, e cada garoto, e cada tarde silenciosa, é única. O ar é uma vibrante corda de violino. O vidro morto salta em fagulhas de sons e cores; a tarde toda vira um caleidoscópio, do qual também fazem parte o brilho assombrado dos olhos do Anjo, e seu sorriso, e o pulsar do coração, que se antecipa e quer fugir.

 

JORGE (rapsódia) de jorge barbosa filho

( para meu pai jorge barbosa)

antes que ele morra

 

 

 

meu nome é jorge.

filho

de uma feiticeira circe,

amante de ulisses

e do prazer suíno

de seus amigos.

 

filho

de um pai também

jorge.

criou-me no samba,

no culto das madrugadas

pra mais além,

batucou-me grogue

com o gênio das garrafas.

e em ambas

aprendi a mágica:

 

e sôo

jorge,

o caborje

louco cego

como borges.

prego ego solto

no eterno,

o anjo e o diabo

nas esquinas do eco,

onde peco e rebato,

e mimético

meu vôo disfarço.

 

 

jorge,

acima do ben e do mautner.

filho

de gerações de sensuais e místicos

da laia dos velozes e fatais

e nos bares recito:

não gosto dos ritmos do mundo

por isto

inventei os meus.

assim sou o seu

 

jorge

portugal que descobre

áfricas na língua

da ginga brasileira.

e desfila acordes

escambos e o escambau

pelas bahias das minas

de salomão

 

jorge

que amadurece barbosa

o sol de cabo verde.

filho

da luz do precipício.

lorde

no país do carnaval,

e neste hospício

bispo do rosário

 

jorge

amado e odiado

bamba do império que lapido

nas madureiras, o âmbar

das terras do sem fim

e com meu verso inconsútil

invento orfeu

filho

dessa negra fulô.

 

 

 

 

jorge

de lima e grosa,

dilapido as horas

do fútil mistério

que cobre o meu sexo:

confesso,

sou lésbico com as palavras

e a túnica de minha poesia, dilacero.

eu sou bem safo!

 

 

ou meu santo é forte

filho

de ogum

e a sorte de ser são

jorge.

eu e meu cavalo

no subúrbio da lua

à galope no que valho,

cravo pelas ruas

o dragão

de meu epitáfio:

sou poeta, foge!

 

jorge

que bebeu dionísio

na barrica de diógenes

e na fonte de belerofonte:

meu mito escorre

pela boca maldita

ao largo da ordem

onde tomei porres, daqueles

babacas,

que não fodem

e não saem de cima.

 

 

 

 

 

 

 

meu nome é jorge

nem agora josé

nem enfim joaquim.

filho

do tempo

e suas relações naturais

um parto de campos

e matos

onde caetano, modesto

encanta o leão

e dá o compasso

ao nosso qorpo santo,

nefasto.

 

e eu sou

jorge barbosa filho.

branco, negro e índio,

xamã dos meus xarás

e minha tribo me espera lá

alto lá!

jorge de bar e bossa

fio da véia teia,

na festa da cumeeira

aonde brota o mel

no mar, no céu de yemanjá:

a fina vela blues de buzuca

e a pipa gay de jorge do kaká.

 

ou como me chamam cá

jorge barbosa filho,

um agnóstico aflito

com espelhos vastos…

jorge de qualquer lugar!

ninguém me deixa sonhar

porque sou portela, boêmio,

um jorge e um diabo do irajá

que  acena

um salve jorge

apenas num olhar.

 

e a minha vó… zilpa!

EGOSSISTEMA poema de ernâni getirana

 

no escuro de mim
é que me perco e me acho:
boi cego a ruminar estrelas
vida, meu jogo radical,
nem tanto ao bem,
nem tanto ao mal.
antes eu, de mim mesmo a ferida.

meu corpo, planeta profano,
em trânsito pela galáxia de humanos e máquinas.
eu (perplexo), espelho invertido, convexo
do mundo que me engasga.

meu tempo, o tempo que dura a emoção.
elemento estrábico onde leio remotas notícias de mim.

sangro dentro da noite
num monólogo mudo, terminal,
por entre zonas de sono e silêncio
onde toda verdade é mentira,
onde toda mentira é real

 

ETERNAMENTE poema de lilian reinhardt

Claro que te busco 
        mesmo quando a noite de mim se esconde
       e pincela com asteriscos duendes
       as colméias do meu céu brusco
       Claro que te busco
       nas entrelinhas das minhas sílabas
      escritas perdidas entre as nódoas
      da árvore lanhada
      Claro que te busco
      no claro escuro das minhas raízes  
      além dos meus pensamentos
      neste vaso andarilho de geratrizes
     que acende os  dias e noites 
     de  meus sonhos   pagãos
     te busco sempre no altar ancestral da minha carne
    nú e revestido de nenúfares em celestial canção
    Sou apenas torso e composição sobre a lousa fria
    que aleita o ritmo a acustica dessa liturgia
    dessa busca dessa plangente melodia
    na câmara  ardente  do gozo do coração
    deste hemisfério que sangra
   entre os teus rios fragmentados 
    Claro que   te sei quando entranhado 
    lingan sorvo  delfim
   te hospedas  eternamente no secreto de mim!

MOMENTO QUE EVAPORA poema de osvaldo wronski

A palavra da hora

Deve ser escrita e lida sem demora

Muito tempo na dispensa

E perderá a flora

O vento vai virar

A folha agora

Aquele raro instante

Logo irá embora

Intrigante encontro

Com a vida dando o fora

VECCHIO GIORGIO – HOJE – lagoa da conceição/floripa

sao-jorge-173321post_foto

LARVÁRIO poema de jairo pereira

Larvo misógino até outro poema

que se inscreva em mim furioso

poema de proliferar inverdades poema

de colecionar mnemônicos objetos

larvo lavro nas embiras rasgadas

uma vida de intenções megacósmicas

larvo cor de erva-mate moída na cuia

a salada de maionese tava ótima

neste domingo de dia dos pais

tranço eclipsemas vários

os pés no chão agora úmidos

da horta úmida

anis expostos sálvia mastruz

de pôr na cachaça

tenho sede de biodiversidade

uma joana ilustrada ilustra

a gola de minha camisa

na água da pia escorrida na terra

a lesma gorda túmida

lâmia lêmea límia estacionada

um rastro prateado de signos diluídos

a lesma esma resma vesma

tenho sede de biodiversidade

sede dos amplos espaços azuis

no cipó-açu

improscrito liquem-rosa atrai insetos

a aranhinha negra tece sua teia núbia

vertigo vezdigo vertrigo velíquo

meu corpo

de estar no dentro de tudo

que vejo e sinto

pensamento e extensão

:extensão: os longos

braços do pai provedor no tempo

o pai de matas mares rios tempestades de

areia nos desertos o pai de tudo que é

toca-se

:pensamento: pensar imaginar sonhar

emoções essências do ser e estar no mundo

aqui existem as emoções verdadeiras

aqui tudo é de se azulescer reverdescer

mosqueio descarregos de coisas guardadas

mosqueio o lixo reciclado mosqueio

vidros mascados

trabalhos nos fundos das minas

mosqueio mosqueio

passos inacertados

inseto construtivista

erijo prédios repartidos na significação

sobrepostos nas tentações erijo com signos

cagados de pássaros meu dizer rural rurícola

atabalhoado cego pra tudo quanto é lado

inseto construtivista traço linhas brancas

no nada nas telas planas do .invisível-indizível

um pedaço de dois centímetros

de meu cipó-açu

por aquele casaco de couro argentino

lembro do dia que construi

com os pequenos ossos

do animal morto ou melhor

reconstrui o bicho vértebra sobre vértebra

parecia um Et meio metro braços longos

pernas curtas: não seria um grande

bugio amarelo!?

na toca escura sem claridade alguma

olho pro negro do nada nada a terra fresca

meu corpo morno no fresco da terra fresca

pisanças de bichos no porcima um bicho na toca

o outro eu ali estático extático

semente na casca do fruto

o grão de terra na terra

eu na toca nua e escura

pra que ficar sempre ali

no tempo e no vento

meu outro eu entocado

livre de quaisquer relações

com os outros homens e mulheres!?

uma vida na toca ampla confortável

no resto de mata

sobrevivida q. sobrevivi

a filosofia do estar só e nu

estar só e nu no mundo entre as coisas

aiayaculerêdurimdyé aiayaculerêdurimdyé

:vida q. se perdeu nos objetos:

me perco e me reencontro pés no chão unhas

encardidas fiapos de idéias fieiras de eclipsemas

novos para materializar nos pêlos do tapir

eclipsemas de se brincar

e arranjar significação

pra entreter a vida.

 

 

 

jaIrO  pEreIrA

LISTA DOS DEPUTADOS FEDERAIS QUE ENVIARAM PARENTES E AFILHADOS AO EXTERIOR COM DINHEIRO DOS IMPOSTOS DO POVO BRASILEIRO!!

Apesar de alguns deputados já terem admitido o uso dos recursos mas em razão de indícios de que haja um esquema articulado entre agências de viagem e funcionários da Câmara Federal onde as agências vendiam as passagens para o cliente e os embarcava com a verba dos Deputados ocorrendo, assim, duplo recebimento, o PALAVRAS, TODAS PALAVRAS retira a publicação da lista divulgada pelo site http://congressoemfoco.ig.com.br/    que teve origem no Ministério Público Federal, para que não haja publicidade comprometendo nomes de pessoas inocentes.

Apurados os fatos, com toda a clareza, voltaremos ao assunto.

O EDITOR   

MÁRIO QUINTANA e RUDI BODANESE em FOTO POEMA

rudi-bodanese-poemafoto7

CARTA DE DESCOBRIMENTO DO BRASIL

pedro-alvares-cabral-cabral41tumulo de pedro alvares cabral em belmonte, portugal.

 

CARTA DE PERO VAZ DE CAMINHA AO REI D. MANOEL A MANDO DE PEDRO ALVARES CABRAL:

 

Senhor,

posto que o Capitão-mor desta Vossa frota, e assim os outros capitães escrevam a Vossa Alteza a notícia do achamento desta Vossa terra nova, que se agora nesta navegação achou, não deixarei de também dar disso minha conta a Vossa Alteza, assim como eu melhor puder, ainda que — para o bem contar e falar — o saiba pior que todos fazer!

Todavia tome Vossa Alteza minha ignorância por boa vontade, a qual bem certo creia que, para aformosentar nem afear, aqui não há de pôr mais do que aquilo que vi e me pareceu.

Da marinhagem e das singraduras do caminho não darei aqui conta a Vossa Alteza — porque o não saberei fazer — e os pilotos devem ter este cuidado.

E portanto, Senhor, do que hei de falar começo:

E digo quê:

A partida de Belém foi — como Vossa Alteza sabe, segunda-feira 9 de março. E sábado, 14 do dito mês, entre as 8 e 9 horas, nos achamos entre as Canárias, mais perto da Grande Canária. E ali andamos todo aquele dia em calma, à vista delas, obra de três a quatro léguas. E domingo, 22 do dito mês, às dez horas mais ou menos, houvemos vista das ilhas de Cabo Verde, a saber da ilha de São Nicolau, segundo o dito de Pero Escolar, piloto.

Na noite seguinte à segunda-feira amanheceu, se perdeu da frota Vasco de Ataíde com a sua nau, sem haver tempo forte ou contrário para poder ser !

Fez o capitão suas diligências para o achar, em umas e outras partes. Mas… não apareceu mais !

E assim seguimos nosso caminho, por este mar de longo, até que terça-feira das Oitavas de Páscoa, que foram 21 dias de abril, topamos alguns sinais de terra, estando da dita Ilha — segundo os pilotos diziam, obra de 660 ou 670 léguas — os quais eram muita quantidade de ervas compridas, a que os mareantes chamam botelho, e assim mesmo outras a que dão o nome de rabo-de-asno. E quarta-feira seguinte, pela manhã, topamos aves a que chamam furabuchos.

Neste mesmo dia, a horas de véspera, houvemos vista de terra! A saber, primeiramente de um grande monte, muito alto e redondo; e de outras serras mais baixas ao sul dele; e de terra chã, com grandes arvoredos; ao qual monte alto o capitão pôs o nome de O Monte Pascoal e à terra A Terra de Vera Cruz!

Mandou lançar o prumo. Acharam vinte e cinco braças. E ao sol-posto umas seis léguas da terra, lançamos ancoras, em dezenove braças — ancoragem limpa. Ali ficamo-nos toda aquela noite. E quinta-feira, pela manhã, fizemos vela e seguimos em direitura à terra, indo os navios pequenos diante — por dezessete, dezesseis, quinze, catorze, doze, nove braças — até meia légua da terra, onde todos lançamos ancoras, em frente da boca de um rio. E chegaríamos a esta ancoragem às dez horas, pouco mais ou menos.

E dali avistamos homens que andavam pela praia, uns sete ou oito, segundo disseram os navios pequenos que chegaram primeiro.

Então lançamos fora os batéis e esquifes. E logo vieram todos os capitães das naus a esta nau do Capitão-mor. E ali falaram. E o Capitão mandou em terra a Nicolau Coelho para ver aquele rio. E tanto que ele começou a ir-se para lá, acudiram pela praia homens aos dois e aos três, de maneira que, quando o batel chegou à boca do rio, já lá estavam dezoito ou vinte.

Pardos, nus, sem coisa alguma que lhes cobrisse suas vergonhas. Traziam arcos nas mãos, e suas setas. Vinham todos rijamente em direção ao batel. E Nicolau Coelho lhes fez sinal que pousassem os arcos. E eles os depuseram. Mas não pôde deles haver fala nem entendimento que aproveitasse, por o mar quebrar na costa. Somente arremessou-lhe um barrete vermelho e uma carapuça de linho que levava na cabeça, e um sombreiro preto. E um deles lhe arremessou um sombreiro de penas de ave, compridas, com uma copazinha de penas vermelhas e pardas, como de papagaio. E outro lhe deu um ramal grande de continhas brancas, miúdas que querem parecer de aljôfar, as quais peças creio que o Capitão manda a Vossa Alteza. E com isto se volveu às naus por ser tarde e não poder haver deles mais fala, por causa do mar.

À noite seguinte ventou tanto sueste com chuvaceiros que fez caçar as naus. E especialmente a Capitanisol-postoa. E sexta pela manhã, às oito horas, pouco mais ou menos, por conselho dos pilotos, mandou o Capitão levantar ancoras e fazer vela. E fomos de longo da costa, com os batéis e esquifes amarrados na popa, em direção norte, para ver se achávamos alguma abrigada e bom pouso, onde nós ficássemos, para tomar água e lenha. Não por nos já minguar, mas por nos prevenirmos aqui. E quando fizemos vela estariam já na praia assentados perto do rio obra de sessenta ou setenta homens que se haviam juntado ali aos poucos. Fomos ao longo, e mandou o Capitão aos navios pequenos que fossem mais chegados à terra e, se achassem pouso seguro para as naus, que amainassem.

E velejando nós pela costa, na distância de dez léguas do sítio onde tínhamos levantado ferro, acharam os ditos navios pequenos um recife com um porto dentro, muito bom e muito seguro, com uma mui larga entrada. E meteram-se dentro e amainaram. E as naus foram-se chegando, atrás deles. E um pouco antes de sol-posto amainaram também, talvez a uma légua do recife, e ancoraram a onze braças.

E estando Afonso Lopez, nosso piloto, em um daqueles navios pequenos, foi, por mandado do Capitão, por ser homem vivo e destro para isso, meter-se logo no esquife a sondar o porto dentro. E tomou dois daqueles homens da terra que estavam numa almadia: mancebos e de bons corpos. Um deles trazia um arco, e seis ou sete setas. E na praia andavam muitos com seus arcos e setas; mas não os aproveitou. Logo, já de noite, levou-os à Capitaina, onde foram recebidos com muito prazer e festa.

A feição deles é serem pardos, um tanto avermelhados, de bons rostos e bons narizes, bem feitos. Andam nus, sem cobertura alguma. Nem fazem mais caso de encobrir ou deixa de encobrir suas vergonhas do que de mostrar a cara. Acerca disso são de grande inocência. Ambos traziam o beiço de baixo furado e metido nele um osso verdadeiro, de comprimento de uma mão travessa, e da grossura de um fuso de algodão, agudo na ponta como um furador. Metem-nos pela parte de dentro do beiço; e a parte que lhes fica entre o beiço e os dentes é feita a modo de roque de xadrez. E trazem-no ali encaixado de sorte que não os magoa, nem lhes põe estorvo no falar, nem no comer e beber.

Os cabelos deles são corredios. E andavam tosquiados, de tosquia alta antes do que sobre-pente, de boa grandeza, rapados todavia por cima das orelhas. E um deles trazia por baixo da solapa, de fonte a fonte, na parte detrás, uma espécie de cabeleira, de penas de ave amarela, que seria do comprimento de um coto, mui basta e mui cerrada, que lhe cobria o toutiço e as orelhas. E andava pegada aos cabelos, pena por pena, com uma confeição branda como, de maneira tal que a cabeleira era mui redonda e mui basta, e mui igual, e não fazia míngua mais lavagem para a levantar.

O Capitão, quando eles vieram, estava sentado em uma cadeira, aos pés uma alcatifa por estrado; e bem vestido, com um colar de ouro, mui grande, ao pescoço. E Sancho de Tovar, e Simão de Miranda, e Nicolau Coelho, e Aires Corrêa, e nós outros que aqui na nau com ele íamos, sentados no chão, nessa alcatifa. Acenderam-se tochas. E eles entraram. Mas nem sinal de cortesia fizeram, nem de falar ao Capitão; nem a alguém. Todavia um deles fitou o colar do Capitão, e começou a fazer acenos com a mão em direção à terra, e depois para o colar, como se quisesse dizer-nos que havia ouro na terra. E também olhou para um castiçal de prata e assim mesmo acenava para a terra e novamente para o castiçal, como se lá também houvesse prata!

Mostraram-lhes um papagaio pardo que o Capitão traz consigo; tomaram-no logo na mão e acenaram para a terra, como se os houvesse ali.

Mostraram-lhes um carneiro; não fizeram caso dele.

Mostraram-lhes uma galinha; quase tiveram medo dela, e não lhe queriam pôr a mão. Depois lhe pegaram, mas como espantados.

Deram-lhes ali de comer: pão e peixe cozido, confeitos, fartéis, mel, figos passados. Não quiseram comer daquilo quase nada; e se provavam alguma coisa, logo a lançavam fora.

Trouxeram-lhes vinho em uma taça; mal lhe puseram a boca; não gostaram dele nada, nem quiseram mais.

Trouxeram-lhes água em uma albarrada, provaram cada um o seu bochecho, mas não beberam; apenas lavaram as bocas e lançaram-na fora.

Viu um deles umas contas de rosário, brancas; fez sinal que lhas dessem, e folgou muito com elas, e lançou-as ao pescoço; e depois tirou-as e meteu-as em volta do braço, e acenava para a terra e novamente para as contas e para o colar do Capitão, como se dariam ouro por aquilo.

Isto tomávamos nós nesse sentido, por assim o desejarmos! Mas se ele queria dizer que levaria as contas e mais o colar, isto não queríamos nós entender, por que lho não havíamos de dar! E depois tornou as contas a quem lhas dera. E então estiraram-se de costas na alcatifa, a dormir sem procurarem maneiras de encobrir suas vergonhas, as quais não eram fanadas; e as cabeleiras delas estavam bem rapadas e feitas.

O Capitão mandou pôr por baixo da cabeça de cada um seu coxim; e o da cabeleira esforçava-se por não a estragar. E deitaram um manto por cima deles; e consentindo, aconchegaram-se e adormeceram.

Sábado pela manhã mandou o Capitão fazer vela, fomos demandar a entrada, a qual era mui larga e tinha seis a sete braças de fundo. E entraram todas as naus dentro, e ancoraram em cinco ou seis braças — ancoradouro que é tão grande e tão formoso de dentro, e tão seguro que podem ficar nele mais de duzentos navios e naus. E tanto que as naus foram distribuídas e ancoradas, vieram os capitães todos a esta nau do Capitão-mor. E daqui mandou o Capitão que Nicolau Coelho e Bartolomeu Dias fossem em terra e levassem aqueles dois homens, e os deixassem ir com seu arco e setas, aos quais mandou dar a cada um uma camisa nova e uma carapuça vermelha e um rosário de contas brancas de osso, que foram levando nos braços, e um cascavel e uma campainha. E mandou com eles, para lá ficar, um mancebo degredado, criado de dom João Telo, de nome Afonso Ribeiro, para lá andar com eles e saber de seu viver e maneiras. E a mim mandou que fosse com Nicolau Coelho. Fomos assim de frecha direitos à praia. Ali acudiram logo perto de duzentos homens, todos nus, com arcos e setas nas mãos. Aqueles que nós levamos acenaram-lhes que se afastassem e depusessem os arcos. E eles os depuseram. Mas não se afastaram muito. E mal tinham pousado seus arcos quando saíram os que nós levávamos, e o mancebo degredado com eles. E saídos não pararam mais; nem esperavam um pelo outro, mas antes corriam a quem mais correria. E passaram um rio que aí corre, de água doce, de muita água que lhes dava pela braga. E muitos outros com eles. E foram assim correndo para além do rio entre umas moitas de palmeiras onde estavam outros. E ali pararam. E naquilo tinha ido o degredado com um homem que, logo ao sair do batel, o agasalhou e levou até lá. Mas logo o tornaram a nós. E com ele vieram os outros que nós leváramos, os quais vinham já nus e sem carapuças.

E então se começaram de chegar muitos; e entravam pela beira do mar para os batéis, até que mais não podiam. E traziam cabaças d’água, e tomavam alguns barris que nós levávamos e enchiam-nos de água e traziam-nos aos batéis. Não que eles de todo chegassem a bordo do batel. Mas junto a ele, lançavam-nos da mão. E nós tomávamo-los. E pediam que lhes dessem alguma coisa.

Levava Nicolau Coelho cascavéis e manilhas. E a uns dava um cascavel, e a outros uma manilha, de maneira que com aquela encarna quase que nos queriam dar a mão. Davam-nos daqueles arcos e setas em troca de sombreiros e carapuças de linho, e de qualquer coisa que a gente lhes queria dar.

Dali se partiram os outros, dois mancebos, que não os vimos mais.

Dos que ali andavam, muitos — quase a maior parte –traziam aqueles bicos de osso nos beiços.

E alguns, que andavam sem eles, traziam os beiços furados e nos buracos traziam uns espelhos de pau, que pareciam espelhos de borracha. E alguns deles traziam três daqueles bicos, a saber um no meio, e os dois nos cabos.

E andavam lá outros, quartejados de cores, a saber metade deles da sua própria cor, e metade de tintura preta, um tanto azulada; e outros quartejados d’escaques.

Ali andavam entre eles três ou quatro moças, bem novinhas e gentis, com cabelos muito pretos e compridos pelas costas; e suas vergonhas, tão altas e tão cerradinhas e tão limpas das cabeleiras que, de as nós muito bem olharmos, não se envergonhavam.

Ali por então não houve mais fala ou entendimento com eles, por a barbaria deles ser tamanha que se não entendia nem ouvia ninguém. Acenamos-lhes que se fossem. E assim o fizeram e passaram-se para além do rio. E saíram três ou quatro homens nossos dos batéis, e encheram não sei quantos barris d’água que nós levávamos. E tornamo-nos às naus. E quando assim vínhamos, acenaram-nos que voltássemos. Voltamos, e eles mandaram o degredado e não quiseram que ficasse lá com eles, o qual levava uma bacia pequena e duas ou três carapuças vermelhas para lá as dar ao senhor, se o lá houvesse. Não trataram de lhe tirar coisa alguma, antes mandaram-no com tudo. Mas então Bartolomeu Dias o fez outra vez tornar, que lhe desse aquilo. E ele tornou e deu aquilo, em vista de nós, a aquele que o da primeira agasalhara. E então veio-se, e nós levamo-lo.

Esse que o agasalhou era já de idade, e andava por galanteria, cheio de penas, pegadas pelo corpo, que parecia seteado como São Sebastião. Outros traziam carapuças de penas amarelas; e outros, de vermelhas; e outros de verdes. E uma daquelas moças era toda tingida de baixo a cima, daquela tintura e certo era tão bem feita e tão redonda, e sua vergonha tão graciosa que a muitas mulheres de nossa terra, vendo-lhe tais feições envergonhara, por não terem as suas como ela. Nenhum deles era fanado, mas todos assim como nós.

E com isto nos tornamos, e eles foram-se.

À tarde saiu o Capitão-mor em seu batel com todos nós outros capitães das naus em seus batéis a folgar pela baía, perto da praia. Mas ninguém saiu em terra, por o Capitão o não querer, apesar de ninguém estar nela. Apenas saiu — ele com todos nós — em um ilhéu grande que está na baía, o qual, aquando baixamar, fica mui vazio. Com tudo está de todas as partes cercado de água, de sorte que ninguém lá pode ir, a não ser de barco ou a nado. Ali folgou ele, e todos nós, bem uma hora e meia. E pescaram lá, andando alguns marinheiros com um chinchorro; e mataram peixe miúdo, não muito. E depois volvemo-nos às naus, já bem noite.

Ao domingo de Pascoela pela manhã, determinou o Capitão ir ouvir missa e sermão naquele ilhéu. E mandou a todos os capitães que se arranjassem nos batéis e fossem com ele. E assim foi feito. Mandou armar um pavilhão naquele ilhéu, e dentro levantar um altar mui bem arranjado. E ali com todos nós outros fez dizer missa, a qual disse o padre frei Henrique, em voz entoada, e oficiada com aquela mesma voz pelos outros padres e sacerdotes que todos assistiram, a qual missa, segundo meu parecer, foi ouvida por todos com muito prazer e devoção.

Ali estava com o Capitão a bandeira de Cristo, com que saíra de Belém, a qual esteve sempre bem alta, da parte do Evangelho.

Acabada a missa, desvestiu-se o padre e subiu a uma cadeira alta; e nós todos lançados por essa areia. E pregou uma solene e proveitosa pregação, da história evangélica; e no fim tratou da nossa vida, e do achamento desta terra, referindo-se à Cruz, sob cuja obediência viemos, que veio muito a propósito, e fez muita devoção.

Enquanto assistimos à missa e ao sermão, estaria na praia outra tanta gente, pouco mais ou menos, como a de ontem, com seus arcos e setas, e andava folgando. E olhando-nos, sentaram. E depois de acabada a missa, quando nós sentados atendíamos a pregação, levantaram-se muitos deles e tangeram corno ou buzina e começaram a saltar e dançar um pedaço. E alguns deles se metiam em almadias — duas ou três que lá tinham — as quais não são feitas como as que eu vi; apenas são três traves, atadas juntas. E ali se metiam quatro ou cinco, ou esses que queriam, não se afastando quase nada da terra, só até onde podiam tomar pé.

Acabada a pregação encaminhou-se o Capitão, com todos nós, para os batéis, com nossa bandeira alta. Embarcamos e fomos indo todos em direção à terra para passarmos ao longo por onde eles estavam, indo na dianteira, por ordem do Capitão, Bartolomeu Dias em seu esquife, com um pau de uma almadia que lhes o mar levara, para o entregar a eles. E nós todos trás dele, a distância de um tiro de pedra.

Como viram o esquife de Bartolomeu Dias, chegaram-se logo todos à água, metendo-se nela até onde mais podiam. Acenaram-lhes que pousassem os arcos e muitos deles os iam logo pôr em terra; e outros não os punham.

Andava lá um que falava muito aos outros, que se afastassem. Mas não já que a mim me parecesse que lhe tinham respeito ou medo. Este que os assim andava afastando trazia seu arco e setas. Estava tinto de tintura vermelha pelos peitos e costas e pelos quadris, coxas e pernas até baixo, mas os vazios com a barriga e estômago eram de sua própria cor. E a tintura era tão vermelha que a água lha não comia nem desfazia. Antes, quando saía da água, era mais vermelho. Saiu um homem do esquife de Bartolomeu Dias e andava no meio deles, sem implicarem nada com ele, e muito menos ainda pensavam em fazer-lhe mal. Apenas lhe davam cabaças d’água; e acenavam aos do esquife que saíssem em terra. Com isto se volveu Bartolomeu Dias ao Capitão. E viemo-nos às naus, a comer, tangendo trombetas e gaitas, sem os mais constranger. E eles tornaram-se a sentar na praia, e assim por então ficaram.

Neste ilhéu, onde fomos ouvir missa e sermão, espraia muito a água e descobre muita areia e muito cascalho. Enquanto lá estávamos foram alguns buscar marisco e não no acharam. Mas acharam alguns camarões grossos e curtos, entre os quais vinha um muito grande e muito grosso; que em nenhum tempo o vi tamanho. Também acharam cascas de berbigões e de amêijoas, mas não toparam com nenhuma peça inteira. E depois de termos comido vieram logo todos os capitães a esta nau, por ordem do Capitão-mor, com os quais ele se aportou; e eu na companhia. E perguntou a todos se nos parecia bem mandar a nova do achamento desta terra a Vossa Alteza pelo navio dos mantimentos, para a melhor mandar descobrir e saber dela mais do que nós podíamos saber, por irmos na nossa viagem.

E entre muitas falas que sobre o caso se fizeram foi dito, por todos ou a maior parte, que seria muito bem. E nisto concordaram. E logo que a resolução foi tomada, perguntou mais, se seria bem tomar aqui por força um par destes homens para os mandar a Vossa Alteza, deixando aqui em lugar deles outros dois destes degredados.

E concordaram em que não era necessário tomar por força homens, porque costume era dos que assim à força levavam para alguma parte dizerem que há de tudo quanto lhes perguntam; e que melhor e muito melhor informação da terra dariam dois homens desses degredados que aqui deixássemos do que eles dariam se os levassem por ser gente que ninguém entende. Nem eles cedo aprenderiam a falar para o saberem tão bem dizer que muito melhor estoutros o não digam quando cá Vossa Alteza mandar.

E que portanto não cuidássemos de aqui por força tomar ninguém, nem fazer escândalo; mas sim, para os de todo amansar e apaziguar, unicamente de deixar aqui os dois degredados quando daqui partíssemos.

E assim ficou determinado por parecer melhor a todos.

Acabado isto, disse o Capitão que fôssemos nos batéis em terra. E ver-se-ia bem, quejando era o rio. Mas também para folgarmos.

Fomos todos nos batéis em terra, armados; e a bandeira conosco. Eles andavam ali na praia, à boca do rio, para onde nós íamos; e, antes que chegássemos, pelo ensino que dantes tinham, puseram todos os arcos, e acenaram que saíssemos. Mas, tanto que os batéis puseram as proas em terra, passaram-se logo todos além do rio, o qual não é mais ancho que um jogo de mancal. E tanto que desembarcamos, alguns dos nossos passaram logo o rio, e meteram-se entre eles. E alguns aguardavam; e outros se afastavam. Com tudo, a coisa era de maneira que todos andavam misturados. Eles davam desses arcos com suas setas por sombreiros e carapuças de linho, e por qualquer coisa que lhes davam. Passaram além tantos dos nossos e andaram assim misturados com eles, que eles se esquivavam, e afastavam-se; e iam alguns para cima, onde outros estavam. E então o Capitão fez que o tomassem ao colo dois homens e passou o rio, e fez tornar a todos. A gente que ali estava não seria mais que aquela do costume. Mas logo que o Capitão chamou todos para trás, alguns se chegaram a ele, não por o reconhecerem por Senhor, mas porque a gente, nossa, já passava para aquém do rio. Ali falavam e traziam muitos arcos e continhas, daquelas já ditas, e resgatavam-nas por qualquer coisa, de tal maneira que os nossos levavam dali para as naus muitos arcos, e setas e contas.

E então tornou-se o Capitão para aquém do rio. E logo acudiram muitos à beira dele.

Ali veríeis galantes, pintados de preto e vermelho, e quartejados, assim pelos corpos como pelas pernas, que, certo, assim pareciam bem. Também andavam entre eles quatro ou cinco mulheres, novas, que assim nuas, não pareciam mal. Entre elas andava uma, com uma coxa, do joelho até o quadril e a nádega, toda tingida daquela tintura preta; e todo o resto da sua cor natural. Outra trazia ambos os joelhos com as curvas assim tintas, e também os colos dos pés; e suas vergonhas tão nuas, e com tanta inocência assim descobertas, que não havia nisso desvergonha nenhuma.

Também andava lá outra mulher, nova, com um menino ou menina, atado com um pano aos peitos, de modo que não se lhe viam senão as perninhas. Mas nas pernas da mãe, e no resto, não havia pano algum.

Em seguida o Capitão foi subindo ao longo do rio, que corre rente à praia. E ali esperou por um velho que trazia na mão uma pá de almadia. Falou, enquanto o Capitão estava com ele, na presença de todos nós; mas ninguém o entendia, nem ele a nós, por mais coisas que a gente lhe perguntava com respeito a ouro, porque desejávamos saber se o havia na terra.

Trazia este velho o beiço tão furado que lhe cabia pelo buraco um grosso dedo polegar. E trazia metido no buraco uma pedra verde, de nenhum valor, que fechava por fora aquele buraco. E o Capitão lha fez tirar. E ele não sei que diabo falava e ia com ela para a boca do Capitão para lha meter. Estivemos rindo um pouco e dizendo chalaças sobre isso. E então enfadou-se o Capitão, e deixou-o. E um dos nossos deu-lhe pela pedra um sombreiro velho; não por ela valer alguma coisa, mas para amostra. E depois houve-a o Capitão, creio, para mandar com as outras coisas a Vossa Alteza.

Andamos por aí vendo o ribeiro, o qual é de muita água e muito boa. Ao longo dele há muitas palmeiras, não muito altas; e muito bons palmitos. Colhemos e comemos muitos deles.

Depois tornou-se o Capitão para baixo para a boca do rio, onde tínhamos desembarcado.

E além do rio andavam muitos deles dançando e folgando, uns diante os outros, sem se tomarem pelas mãos. E faziam-no bem. Passou-se então para a outra banda do rio Diogo Dias, que fora almoxarife de Sacavém, o qual é homem gracioso e de prazer. E levou consigo um gaiteiro nosso com sua gaita. E meteu-se a dançar com eles, tomando-os pelas mãos; e eles folgavam e riam e andavam com ele muito bem ao som da gaita. Depois de dançarem fez ali muitas voltas ligeiras, andando no chão, e salto real, de que se eles espantavam e riam e folgavam muito. E conquanto com aquilo os segurou e afagou muito, tomavam logo uma esquiveza como de animais monteses, e foram-se para cima.

E então passou o rio o Capitão com todos nós, e fomos pela praia, de longo, ao passo que os batéis iam rentes à terra. E chegamos a uma grande lagoa de água doce que está perto da praia, porque toda aquela ribeira do mar é apaulada por cima e sai a água por muitos lugares.

E depois de passarmos o rio, foram uns sete ou oito deles meter-se entre os marinheiros que se recolhiam aos batéis. E levaram dali um tubarão que Bartolomeu Dias matou. E levavam-lho; e lançou-o na praia.

Bastará que até aqui, como quer que se lhes em alguma parte amansassem, logo de uma mão para outra se esquivavam, como pardais do cevadouro. Ninguém não lhes ousa falar de rijo para não se esquivarem mais. E tudo se passa como eles querem — para os bem amansarmos !

Ao velho com quem o Capitão havia falado, deu-lhe uma carapuça vermelha. E com toda a conversa que com ele houve, e com a carapuça que lhe deu tanto que se despediu e começou a passar o rio, foi-se logo recatando. E não quis mais tornar do rio para aquém. Os outros dois o Capitão teve nas naus, aos quais deu o que já ficou dito, nunca mais aqui apareceram — fatos de que deduzo que é gente bestial e de pouco saber, e por isso tão esquiva. Mas apesar de tudo isso andam bem curados, e muito limpos. E naquilo ainda mais me convenço que são como aves, ou alimárias montesinhas, as quais o ar faz melhores penas e melhor cabelo que às mansas, porque os seus corpos são tão limpos e tão gordos e tão formosos que não pode ser mais! E isto me faz presumir que não tem casas nem moradias em que se recolham; e o ar em que se criam os faz tais. Nós pelo menos não vimos até agora nenhumas casas, nem coisa que se pareça com elas.

Mandou o Capitão aquele degredado, Afonso Ribeiro, que se fosse outra vez com eles. E foi; e andou lá um bom pedaço, mas a tarde regressou, que o fizeram eles vir: e não o quiseram lá consentir. E deram-lhe arcos e setas; e não lhe tomaram nada do seu. Antes, disse ele, que lhe tomara um deles umas continhas amarelas que levava e fugia com elas, e ele se queixou e os outros foram logo após ele, e lhas tomaram e tornaram-lhas a dar; e então mandaram-no vir. Disse que não vira lá entre eles senão umas choupaninhas de rama verde e de feteiras muito grandes, como as de Entre-Douro-e-Minho. E assim nos tornamos às naus, já quase noite, a dormir.

Segunda-feira, depois de comer, saímos todos em terra a tomar água. Ali vieram então muitos; mas não tantos como as outras vezes. E traziam já muito poucos arcos. E estiveram um pouco afastados de nós; mas depois pouco a pouco misturaram-se conosco; e abraçavam-nos e folgavam; mas alguns deles se esquivavam logo. Ali davam alguns arcos por folhas de papel e por alguma carapucinha velha e por qualquer coisa. E de tal maneira se passou a coisa que bem vinte ou trinta pessoas das nossas se foram com eles para onde outros muitos deles estavam com moças e mulheres. E trouxeram de lá muitos arcos e barretes de penas de aves, uns verdes, outros amarelos, dos quais creio que o Capitão há de mandar uma amostra a Vossa Alteza.

E segundo diziam esses que lá tinham ido, brincaram com eles. Neste dia os vimos mais de perto e mais à nossa vontade, por andarmos quase todos misturados: uns andavam quartejados daquelas tinturas, outros de metades, outros de tanta feição como em pano de ras, e todos com os beiços furados, muitos com os ossos neles, e bastantes sem ossos. Alguns traziam uns ouriços verdes, de árvores, que na cor queriam parecer de castanheiras, embora fossem muito mais pequenos. E estavam cheios de uns grãos vermelhos, pequeninos que, esmagando-se entre os dedos, se desfaziam na tinta muito vermelha de que andavam tingidos. E quanto mais se molhavam, tanto mais vermelhos ficavam.

Todos andam rapados até por cima das orelhas; assim mesmo de sobrancelhas e pestanas.

Trazem todos as testas, de fonte a fonte, tintas de tintura preta, que parece uma fita preta da largura de dois dedos.

E o Capitão mandou aquele degredado Afonso Ribeiro e a outros dois degredados que fossem meter-se entre eles; e assim mesmo a Diogo Dias, por ser homem alegre, com que eles folgavam. E aos degredados ordenou que ficassem lá esta noite.

Foram-se lá todos; e andaram entre eles. E segundo depois diziam, foram bem uma légua e meia a uma povoação, em que haveria nove ou dez casas, as quais diziam que eram tão compridas, cada uma, como esta nau capitaina. E eram de madeira, e das ilhargas de tábuas, e cobertas de palha, de razoável altura; e todas de um só espaço, sem repartição alguma, tinham de dentro muitos esteios; e de esteio a esteio uma rede atada com cabos em cada esteio, altas, em que dormiam. E de baixo, para se aquentarem, faziam seus fogos. E tinha cada casa duas portas pequenas, uma numa extremidade, e outra na oposta. E diziam que em cada casa se recolhiam trinta ou quarenta pessoas, e que assim os encontraram; e que lhes deram de comer dos alimentos que tinham, a saber muito inhame, e outras sementes que na terra dá, que eles comem. E como se fazia tarde fizeram-nos logo todos tornar; e não quiseram que lá ficasse nenhum. E ainda, segundo diziam, queriam vir com eles. Resgataram lá por cascavéis e outras coisinhas de pouco valor, que levavam, papagaios vermelhos, muito grandes e formosos, e dois verdes pequeninos, e carapuças de penas verdes, e um pano de penas de muitas cores, espécie de tecido assaz belo, segundo Vossa Alteza todas estas coisas verá, porque o Capitão vô-las há de mandar, segundo ele disse. E com isto vieram; e nós tornamo-nos às naus.

Terça-feira, depois de comer, fomos em terra, fazer lenha, e para lavar roupa. Estavam na praia, quando chegamos, uns sessenta ou setenta, sem arcos e sem nada. Tanto que chegamos, vieram logo para nós, sem se esquivarem. E depois acudiram muitos, que seriam bem duzentos, todos sem arcos. E misturaram-se todos tanto conosco que uns nos ajudavam a acarretar lenha e metê-las nos batéis. E lutavam com os nossos, e tomavam com prazer. E enquanto fazíamos a lenha, construíam dois carpinteiros uma grande cruz de um pau que se ontem para isso cortara. Muitos deles vinham ali estar com os carpinteiros. E creio que o faziam mais para verem a ferramenta de ferro com que a faziam do que para verem a cruz, porque eles não tem coisa que de ferro seja, e cortam sua madeira e paus com pedras feitas como cunhas, metidas em um pau entre duas talas, mui bem atadas e por tal maneira que andam fortes, porque lhas viram lá. Era já a conversação deles conosco tanta que quase nos estorvavam no que havíamos de fazer.

E o Capitão mandou a dois degredados e a Diogo Dias que fossem lá à aldeia e que de modo algum viessem a dormir às naus, ainda que os mandassem embora. E assim se foram.

Enquanto andávamos nessa mata a cortar lenha, atravessavam alguns papagaios essas árvores; verdes uns, e pardos, outros, grandes e pequenos, de sorte que me parece que haverá muitos nesta terra. Todavia os que vi não seriam mais que nove ou dez, quando muito. Outras aves não vimos então, a não ser algumas pombas-seixeiras, e pareceram-me maiores bastante do que as de Portugal. Vários diziam que viram rolas, mas eu não as vi. Todavia segundo os arvoredos são mui muitos e grandes, e de infinitas espécies, não duvido que por esse sertão haja muitas aves!

E cerca da noite nós volvemos para as naus com nossa lenha.

Eu creio, Senhor, que não dei ainda conta aqui a Vossa Alteza do feitio de seus arcos e setas. Os arcos são pretos e compridos, e as setas compridas; e os ferros delas são canas aparadas, conforme Vossa Alteza verá alguns que creio que o Capitão a Ela há de enviar.

Quarta-feira não fomos em terra, porque o Capitão andou todo o dia no navio dos mantimentos a despejá-lo e fazer levar às naus isso que cada um podia levar. Eles acudiram à praia, muitos, segundo das naus vimos. Seriam perto de trezentos, segundo Sancho de Tovar que para lá foi. Diogo Dias e Afonso Ribeiro, o degredado, aos quais o Capitão ontem ordenara que de toda maneira lá dormissem, tinham voltado já de noite, por eles não quererem que lá ficassem. E traziam papagaios verdes; e outras aves pretas, quase como pegas, com a diferença de terem o bico branco e rabos curtos. E quando Sancho de Tovar recolheu à nau, queriam vir com ele, alguns; mas ele não admitiu senão dois mancebos, bem dispostos e homens de prol. Mandou pensar e curá-los mui bem essa noite. E comeram toda a ração que lhes deram, e mandou dar-lhes cama de lençóis, segundo ele disse. E dormiram e folgaram aquela noite. E não houve mais este dia que para escrever seja.

Quinta-feira, derradeiro de abril, comemos logo, quase pela manhã, e fomos em terra por mais lenha e água. E em querendo o Capitão sair desta nau, chegou Sancho de Tovar com seus dois hóspedes. E por ele ainda não ter comido, puseram-lhe toalhas, e veio-lhe comida. E comeu. Os hóspedes, sentaram-no cada um em sua cadeira. E de tudo quanto lhes deram, comeram mui bem, especialmente lacão cozido frio, e arroz. Não lhes deram vinho por Sancho de Tovar dizer que o não bebiam bem.

Acabado o comer, metemo-nos todos no batel, e eles conosco. Deu um grumete a um deles uma armadura grande de porco montês, bem revolta. E logo que a tomou meteu-a no beiço; e porque se lhe não queria segurar, deram-lhe uma pouca de cera vermelha. E ele ajeitou-lhe seu adereço da parte de trás de sorte que segurasse, e meteu-a no beiço, assim revolta para cima; e ia tão contente com ela, como se tivesse uma grande jóia. E tanto que saímos em terra, foi-se logo com ela. E não tornou a aparecer lá.

Andariam na praia, quando saímos, oito ou dez deles; e de aí a pouco começaram a vir. E parece-me que viriam este dia a praia quatrocentos ou quatrocentos e cinqüenta. Alguns deles traziam arcos e setas; e deram tudo em troca de carapuças e por qualquer coisa que lhes davam. Comiam conosco do que lhes dávamos, e alguns deles bebiam vinho, ao passo que outros o não podiam beber. Mas quer-me parecer que, se os acostumarem, o hão de beber de boa vontade! Andavam todos tão bem dispostos e tão bem feitos e galantes com suas pinturas que agradavam. Acarretavam dessa lenha quanta podiam, com mil boas vontades, e levavam-na aos batéis. E estavam já mais mansos e seguros entre nós do que nós estávamos entre eles.

Foi o Capitão com alguns de nós um pedaço por este arvoredo até um ribeiro grande, e de muita água, que ao nosso parecer é o mesmo que vem ter à praia, em que nós tomamos água. Ali descansamos um pedaço, bebendo e folgando, ao longo dele, entre esse arvoredo que é tanto e tamanho e tão basto e de tanta qualidade de folhagem que não se pode calcular. Há lá muitas palmeiras, de que colhemos muitos e bons palmitos.

Ao sairmos do batel, disse o Capitão que seria bom irmos em direitura à cruz que estava encostada a uma árvore, junto ao rio, a fim de ser colocada amanhã, sexta-feira, e que nos puséssemos todos de joelhos e a beijássemos para eles verem o acatamento que lhe tínhamos. E assim fizemos. E a esses dez ou doze que lá estavam, acenaram-lhes que fizessem o mesmo; e logo foram todos beijá-la.

Parece-me gente de tal inocência que, se nós entendêssemos a sua fala e eles a nossa, seriam logo cristãos, visto que não têm nem entendem crença alguma, segundo as aparências. E portanto se os degredados que aqui hão de ficar aprenderem bem a sua fala e os entenderem, não duvido que eles, segundo a santa tenção de Vossa Alteza, se farão cristãos e hão de crer na nossa santa fé, à qual praza a Nosso Senhor que os traga, porque certamente esta gente é boa e de bela simplicidade. E imprimir-se-á facilmente neles qualquer cunho que lhe quiserem dar, uma vez que Nosso Senhor lhes deu bons corpos e bons rostos, como a homens bons. E o Ele nos para aqui trazer creio que não foi sem causa. E portanto Vossa Alteza, pois tanto deseja acrescentar a santa fé católica, deve cuidar da salvação deles. E prazerá a Deus que com pouco trabalho seja assim!

Eles não lavram nem criam. Nem há aqui boi ou vaca, cabra, ovelha ou galinha, ou qualquer outro animal que esteja acostumado ao viver do homem. E não comem senão deste inhame, de que aqui há muito, e dessas sementes e frutos que a terra e as árvores de si deitam. E com isto andam tais e tão rijos e tão nédios que o não somos nós tanto, com quanto trigo e legumes comemos.

Nesse dia, enquanto ali andavam, dançaram e bailaram sempre com os nossos, ao som de um tamboril nosso, como se fossem mais amigos nossos do que nós seus. Se lhes a gente acenava, se queriam vir às naus, aprontavam-se logo para isso, de modo tal, que se os convidáramos a todos, todos vieram. Porém não levamos esta noite às naus senão quatro ou cinco; a saber, o Capitão-mor, dois; e Simão de Miranda, um que já trazia por pajem; e Aires Gomes a outro, pajem também. Os que o Capitão trazia, era um deles um dos seus hóspedes que lhe haviam trazido a primeira vez quando aqui chegamos — o qual veio hoje aqui vestido na sua camisa, e com ele um seu irmão; e foram esta noite mui bem agasalhados tanto de comida como de cama, de colchões e lençóis, para os mais amansar.

E hoje que é sexta-feira, primeiro dia de maio, pela manhã, saímos em terra com nossa bandeira; e fomos desembarcar acima do rio, contra o sul onde nos pareceu que seria melhor arvorar a cruz, para melhor ser vista. E ali marcou o Capitão o sítio onde haviam de fazer a cova para a fincar. E enquanto a iam abrindo, ele com todos nós outros fomos pela cruz, rio abaixo onde ela estava. E com os religiosos e sacerdotes que cantavam, à frente, fomos trazendo-a dali, a modo de procissão. Eram já aí quantidade deles, uns setenta ou oitenta; e quando nos assim viram chegar, alguns se foram meter debaixo dela, ajudar-nos. Passamos o rio, ao longo da praia; e fomos colocá-la onde havia de ficar, que será obra de dois tiros de besta do rio. Andando-se ali nisto, viriam bem cento cinqüenta, ou mais. Plantada a cruz, com as armas e a divisa de Vossa Alteza, que primeiro lhe haviam pregado, armaram altar ao pé dela. Ali disse missa o padre frei Henrique, a qual foi cantada e oficiada por esses já ditos. Ali estiveram conosco, a ela, perto de cinqüenta ou sessenta deles, assentados todos de joelho assim como nós. E quando se veio ao Evangelho, que nos erguemos todos em pé, com as mãos levantadas, eles se levantaram conosco, e alçaram as mãos, estando assim até se chegar ao fim; e então tornaram-se a assentar, como nós. E quando levantaram a Deus, que nos pusemos de joelhos, eles se puseram assim como nós estávamos, com as mãos levantadas, e em tal maneira sossegados que certifico a Vossa Alteza que nos fez muita devoção.

Estiveram assim conosco até acabada a comunhão; e depois da comunhão, comungaram esses religiosos e sacerdotes; e o Capitão com alguns de nós outros. E alguns deles, por o Sol ser grande, levantaram-se enquanto estávamos comungando, e outros estiveram e ficaram. Um deles, homem de cinqüenta ou cinqüenta e cinco anos, se conservou ali com aqueles que ficaram. Esse, enquanto assim estávamos, juntava aqueles que ali tinham ficado, e ainda chamava outros. E andando assim entre eles, falando-lhes, acenou com o dedo para o altar, e depois mostrou com o dedo para o céu, como se lhes dissesse alguma coisa de bem; e nós assim o tomamos!

Acabada a missa, tirou o padre a vestimenta de cima, e ficou na alva; e assim se subiu, junto ao altar, em uma cadeira; e ali nos pregou o Evangelho e dos Apóstolos cujo é o dia, tratando no fim da pregação desse vosso prosseguimento tão santo e virtuoso, que nos causou mais devoção.

Esses que estiveram sempre à pregação estavam assim como nós olhando para ele. E aquele que digo, chamava alguns, que viessem ali. Alguns vinham e outros iam-se; e acabada a pregação, trazia Nicolau Coelho muitas cruzes de estanho com crucifixos, que lhe ficaram ainda da outra vinda. E houveram por bem que lançassem a cada um sua ao pescoço. Por essa causa se assentou o padre frei Henrique ao pé da cruz; e ali lançava a sua a todos — um a um — ao pescoço, atada em um fio, fazendo-lha primeiro beijar e levantar as mãos. Vinham a isso muitos; e lançavam-nas todas, que seriam obra de quarenta ou cinqüenta. E isto acabado — era já bem uma hora depois do meio dia — viemos às naus a comer, onde o Capitão trouxe consigo aquele mesmo que fez aos outros aquele gesto para o altar e para o céu, (e um seu irmão com ele). A aquele fez muita honra e deu-lhe uma camisa mourisca; e ao outro uma camisa destoutras.

E segundo o que a mim e a todos pareceu, esta gente, não lhes falece outra coisa para ser toda cristã, do que entenderem-nos, porque assim tomavam aquilo que nos viam fazer como nós mesmos; por onde pareceu a todos que nenhuma idolatria nem adoração têm. E bem creio que, se Vossa Alteza aqui mandar quem entre eles mais devagar ande, que todos serão tornados e convertidos ao desejo de Vossa Alteza. E por isso, se alguém vier, não deixe logo de vir clérigo para os batizar; porque já então terão mais conhecimentos de nossa fé, pelos dois degredados que aqui entre eles ficam, os quais hoje também comungaram.

Entre todos estes que hoje vieram não veio mais que uma mulher, moça, a qual esteve sempre à missa, à qual deram um pano com que se cobrisse; e puseram-lho em volta dela. Todavia, ao sentar-se, não se lembrava de o estender muito para se cobrir. Assim, Senhor, a inocência desta gente é tal que a de Adão não seria maior — com respeito ao pudor.

Ora veja Vossa Alteza quem em tal inocência vive se convertera, ou não, se lhe ensinarem o que pertence à sua salvação.

Acabado isto, fomos perante eles beijar a cruz. E despedimo-nos e fomos comer.

Creio, Senhor, que, com estes dois degredados que aqui ficam, ficarão mais dois grumetes, que esta noite se saíram em terra, desta nau, no esquife, fugidos, os quais não vieram mais. E cremos que ficarão aqui porque de manhã, prazendo a Deus fazemos nossa partida daqui.

Esta terra, Senhor, parece-me que, da ponta que mais contra o sul vimos, até à outra ponta que contra o norte vem, de que nós deste porto houvemos vista, será tamanha que haverá nela bem vinte ou vinte e cinco léguas de costa. Traz ao longo do mar em algumas partes grandes barreiras, umas vermelhas, e outras brancas; e a terra de cima toda chã e muito cheia de grandes arvoredos. De ponta a ponta é toda praia… muito chã e muito formosa. Pelo sertão nos pareceu, vista do mar, muito grande; porque a estender olhos, não podíamos ver senão terra e arvoredos — terra que nos parecia muito extensa.

Até agora não pudemos saber se há ouro ou prata nela, ou outra coisa de metal, ou ferro; nem lha vimos. Contudo a terra em si é de muito bons ares frescos e temperados como os de Entre-Douro-e-Minho, porque neste tempo d’agora assim os achávamos como os de lá. Águas são muitas; infinitas. Em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo; por causa das águas que tem!

Contudo, o melhor fruto que dela se pode tirar parece-me que será salvar esta gente. E esta deve ser a principal semente que Vossa Alteza em ela deve lançar. E que não houvesse mais do que ter Vossa Alteza aqui esta pousada para essa navegação de Calicute bastava. Quanto mais, disposição para se nela cumprir e fazer o que Vossa Alteza tanto deseja, a saber, acrescentamento da nossa fé!

E desta maneira dou aqui a Vossa Alteza conta do que nesta Vossa terra vi. E se a um pouco alonguei, Ela me perdoe. Porque o desejo que tinha de Vos tudo dizer, mo fez pôr assim pelo miúdo.

E pois que, Senhor, é certo que tanto neste cargo que levo como em outra qualquer coisa que de Vosso serviço for, Vossa Alteza há de ser de mim muito bem servida, a Ela peço que, por me fazer singular mercê, mande vir da ilha de São Tomé a Jorge de Osório, meu genro — o que d’Ela receberei em muita mercê.

Beijo as mãos de Vossa Alteza.

Deste Porto Seguro, da Vossa Ilha de Vera Cruz, hoje, sexta-feira, primeiro dia de maio de 1500.

Pero Vaz de Caminha.

 

GRUPO TORTURA NUNCA MAIS CONVIDA:

 

                                                           MEMORIAL DA LIBERDADE
                                                      
22 de abril é dia de descobrir o Brasil
                                     na Rua da Matriz – Pça. Rui Barbosa – Curitiba -19 horas

 
O GRUPO TORTURA NUNCA MAIS DO PARANÁ estará promovendo, no dia 22 de abril, às 19 horas, no auditório da Rua da Matriz, o evento cívico-artístico MEMORIAL DA LIBERDADE.
Nesse dia acontecerão várias apresentações culturais, exposições, lançamentos de livros, declamações de poesias, depoimentos, contando um pouco da história acontecida em Curitiba, durante os anos de ditadura militar.
O projeto pretende lançar o movimento PRÓ- MEMORIAL e demonstrar que este espaço tem grande importância para a história de nossa cidade e de todo o país. Durante as décadas de 60 e 70, neste local existiu o QUARTEL DA POLÍCIA DO EXÉRCITO, onde todos os prisioneiros políticos, muitos menores, foram cruelmente torturados.
Também, neste mesmo local, estava a AUDITORIA MILITAR, onde aconteceram os “julgamentos” de grande parte dos presos políticos do Estado do Paraná e Santa Catarina.
Por todos esses motivos estamos apresentando este evento,mas, principalmente, para que essa história não fique esquecida e possa servir para educar as novas gerações.

 

 

POLITICA EM FRAÇÕES por walmor marcellino

REESCREVENDO UM PROJETO

 

 

Fui a Caldas da Imperatriz rever um ambiente natural para quem deseja combinar trabalho silente em descanso de águas termais e com a natureza; e revisar meu ensaio-novela-história “Ulciscor” que empatou na ducentésima-quadragésima página. Temperado pela natureza e com a presença de mulher, filha e neto só me adverti de que “ligeira indisposição física” em perturbação de saúde desde o início da viagem vingara em pneumonia, obrigando-me a antecipar o regresso, sem visitar o Salim Miguel, o João Paulo, o Vidal, o Hamilton e o Vinicius Alves, o Boos Jr. e tantos outros maratonistas dessa incrível excursão que vamos fazendo. Peço-lhes desculpas pela ameaça da visita, embora os considere figuras raras do “interlocutor paciente e promitente” nestes tempos em que faltam referências culturais: para quem tem interesse e boa intenção, falta humildade aos ignorantes para perguntar o que não sabem e existe presunção em demasia para todos aqueles que são “seus concorrentes em potencial” nalgum projeto tecó que não começa “hoje” nem terminará nunca.

Sei que é muita pretensão, num relato de tantos anos de circunstâncias políticas e emocionais, no que me aproxima do ensaio e contém episódios históricos e acomoda ficções, produzir um livro fundamentalmente político ‑ fracionado em três CDs, à espera de críticas, sugestões, correção e contestações reveladoras, assim acreditando que nem os intelectuais se tornaram “nerds” a trocar cumplicidades e festividades pelo computador e que outros intelectuais mais capazes tenham seus interesses e parâmetros pela ofuscagem do “best-seller” ou mesmo sejam empalados pelas relações sociais de sujeição e proveito. A palavra está aberta; naturalmente se o tema, a escritura e a “distinção da mídia” permitirem.

 

PERSEGUIR UM SONHO por donato ramos

 

Há dez anos eu escrevia sobre as dificuldades de se fazer jornal no interior e o Jornal Folha de Itapoá publicou com destaque. Com destaque por falava do sonho de Beth e Marcelo, os donos do “pasquim-nanico” e porque a Folha completava seu primeiro aninho. Era uma criança. E como a grande maioria das crianças recém-nascidas, feio pra burro, parecendo um joelho. Depois, já com dez aninhos, que gracinha. Fica até colorido!
Na Capital sempre foi uma dificuldade manter-se um periódico, mesmo que fosse mensal; nas cidades grandes, a mesma coisa. Nas cidadezinhas então, praticamente impossível. Anunciante só se for parente bem chegado ou amigo do peito, que faz anúncio “pra ajudar”. Mas não vou me deter nisso, por uma série de fatores, os quais não vou mencionar porque o que eu quero falar é de perseguição de sonho.
A FOLHA DE ITAPOÁ completa dez anos. Beth Fagundes completa meio século, com toda a festa de que é merecedora por seus grandes méritos e vai lotar o Maresia (local obrigatório das grandes festas em Itapoá), Marcelo, como marido, amante e puxa-saco da grande jornalista, “a beijará na boca” e, como sócio, vai fotografar tudo e, depois, publicar uma edição especial, enchendo as páginas com as carinhas bem cheias e coloridas dos seus amigos – eu e o prefeito Erwino na frente – com uma manchete bem pomposa: FOLHA DE ITAPOÁ: DEZ ANOS DE SUCESSO!
BETH: MEIO SÉCULO FAZENDO AMIGOS!
Uma das coisas gratificantes na vida é ver reconhecido o caminho percorrido por alguém em busca dos seus objetivos, por mais estranhos que possam parecer esses objetivos aos olhos de incautos observadores. E esses dois jornalistas são reconhecidos hoje, depois de dez anos de luta.
Agüentar o tranco durante dez anos, numa cidade que nem maior de idade ainda é, merece aplausos em pé! Por essa razão não me sentei pra escrever estas palavrinhas a eles endereçadas: por respeito! Respeito muito, demais, os sonhadores como Beth e Marcelo,
 “tomando as suas” juntos, brigando entre si por qualquer motivo banal – e todos os motivos são banais na vida, nada existindo de muito importante , escrevendo juntos as manchetes, editoriais, nascimento de criança ou morte de velho – que são poucas, pois vivem num paraíso chamado Itapoá e com uma vida dessas as pessoas custam muito pra morrer -, sofrendo todas as agruras das negativas de anunciantes que seriam possíveis patrocinadores do sonho de se fazer jornal no interior, mas, no final da madruga, juntos, na mesma cama e sonhando – de novo – novos sonhos. Amanhã, outra vez, correrão atrás deles, como quem persegue uma sombra fugitiva.
Corra, Lola! Digo, corra Beth! Corra, Marcelo! Não deixe o sonho fugir!

DONATO RAMOS mora em Florianópolis e é proprietário do Jornal Cultura & Lazer, Presidente do Instituto Vida & /Cidadania, Presidente da Associação Catarinense de Idosos e Pré-idosos.
Nas horas vagas pinta, escreve livros, faz música, toca gaita de boca e vive feliz ao lado de Dalila e seus quatro filhos.

 

Donato Ramos – Jornalista/Escritor

MAS NÃO PARA MIM poema de tonicato miranda

sou mesmo um tolo

adoro este seu jeito solto

brincando com as pessoas

soltando encantos ao ar

mas parece de mim caçoas

 

sou bobo demais, pobre de mim

lobo velho com coleira e amarras

mas adoro este seu olhar à toa

que por todas as paredes voa

mas ele não voa para mim

 

sou um idiota aprisionado sim

pelo seu doce sorriso de algodão

esfregando o branco dos dentes

nos entusiasmos mais dementes

mas ele não vem até a mim

 

sou eu o vento sul, sim

passo de leve por seu pescoço

e você rola a cabeça, sorri

aos forasteiros e aos homens daqui

mas não sorri para mim

 

sou mesmo um tolo

acreditando que chapeuzinho

um dia poderia se perder comigo

mas você jamais se perderia assim

pelo menos não para mim

 

não sou mais nenhum tolo

aprendi – você não é de ninguém

sorri porque gosta de ser assim

um sorriso solto ao prazer da noite

mas não para mim

 

TM, 26/03/2009.

VER poema de otto nul

 

 

 

vejo o que vejo
 só não vejo
 o que me causa pejo

 

E o que é visto

Me anima a vista

Quando em revista

 

Quando vejo

Tudo vejo

Sem grande desejo

 

Embora veja

Pouco que seja

Isso me enseja

 

A voltar a ver

Com que prazer

O que quer que seja

 

           x x x

 

 

abril/09 – Otto Nul)

MARX ou HOAX por cleto de assis

Sou um entusiasta da Internet. Ela se tornou a maior fornalha de conhecimento jamais construída pela humanidade. Mas, como toda fornalha, ela pode forjar o aço e também produz impurezas. Todo bom ferreiro deve saber separar o metal precioso da ganga.

A citação marxista trazida a este blog porAlceu Sperançaem seu texto Marxismo: não conseguem inventar nada mais atual?,  é uma das que me causam um pouco de temor, quando se é inclinado a tomá-la como verdadeira. Por isso, tenho sido rigoroso na verificação das fontes  – tese, aliás, defendida por Sperança, ao citar, logo no início de seu texto, essa coincidente preocupação de Marx. Pesquiso, vou atrás do início da conversa, das obras e sites eventualmente citados. A rede está cheia de hoax, palavra inglesa que significa trote, peça, brincadeira. Hoje há sites dedicados a esse tema, pois é muito fácil afirmar coisas que não existem, já que muitas das citações são feitas anonimamente. Mas isso tem levado a aborrecimentos e, muitas vezes, a confusões dolorosas, se o trote for mal intencionado. Não raro, servem a objetivos propagandísticos, fazendo crer ao leitor, que tal “verdade” pode ser incondicionalmente aceita. No mínimo, colaboram com a difusão de conhecimento inexato ou falso.

A frase atribuída a Karl Marx, e escrita n’O Capital, não está fácil de encontrar. Tenho o livro, mas como é mais difícil localizar a citação no texto impresso, busquei versões on line e nada. Pedi ajuda ao Google e ela só aparece no mesmo contexto: que Marx teria afirmado, em 1867, na sua bíblia. Fui a outras fontes e descobri o texto do comentarista de economia do Times, Tom Petruno, que também está com a mesma dúvida. Vejam o que ele escreveu, há pouco tempo.

Karl Marx pode ter sido presciente, mas não teve esta presciência

10:24, 11 de fevereiro de 2009

Se ele tivesse efetivamente dito isso, os americanos poderiam ter um novo saudável respeito – ou talvez medo – de Karl Marx. Essa citação do gênero hoax vem circulando na Internet há pelo menos um mês, atribuída ao homem mais associado ao surgimento do comunismo:

“Proprietários de capitais deverão estimular a classe trabalhadora para comprar mais bens, casas e tecnologia mais caros, a empurrá-los para ter mais e mais caros créditos, até que a dívida se torne insuportável. A dívida não paga vai levar à falência dos bancos, que têm de ser nacionalizados, e o Estado vai ter que tomar a estrada que vai acabar por conduzir ao comunismo. ” – Karl Marx, Das Kapital, 1867

Na blogosfera, nenhuma pessoa que tenha pesquisado encontrou qualquer citação de Marx nesse sentido. Não foi possível encontrá-la, ou algo remotamente com som similar, nem em marxists.org.

Como escreveu Megan McArdle na revista Atlantic, a frase soa imediatamente “um pouco a propósito, como se Marx a tivesse escrito diretamente na sala verde da CNN.”
Mesmo assim, Marx previu que o comunismo seria a última etapa na evolução da sociedade humana, uma vez que a classe trabalhadora finalmente se revoltaria contra a exploração da classe capitalista. Sua visão, entretanto, foi de um comunismo utópico, não o comunismo autoritário da antiga União Soviética.

Quanto a verdadeiras citações de Marx a propósito da atual confusão da conjuntura econômica e financeira do sistema, aqui vai uma:

“Em todas as trapaças das bolsas, cada um sabe que em algum tempo ou outro, a queda deve chegar, mas cada um espera que ela possa cair na cabeça de seu vizinho, depois de ele próprio ter acumulado a chuva de ouro e a colocado em lugar seguro. Après moi le déluge! é o lema de todos os capitalistas e de cada nação capitalista. Daí que o capital é temerário para a saúde ou duração de vida do trabalhador, a não ser sob coação da sociedade. ” – Tom Petruno in http://latimesblogs.latimes.com/money_co/2009/02/karl-marx-hoax.html

Sem demérito ao trabalho de Alceu – de quem tenho admirado outros textos aqui postados – seria muito bom se o autor nos esclarecesse a origem da citação, se possível com a página, o capítulo e o volume d’O Capital, se é ali que ela se encontra. Por favor, não me obrigue a ler o livro inteiro novamente.

Aliás, essas dúvidas têm me convencido, mais e mais, que os textos publicados na rede devem ser acompanhados de todas as informações complementares, principalmente de fontes e datas, para que a ganga da Internet seja perfeitamente visível.

Mas não finalizarei sem outro comentário: não posso concordar que só os professores que cultivam o espírito crítico e empregam as categorias marxianas são os melhores. Há bons, excelentes e péssimos professores em qualquer categoria de pensamento filosófico ou político. O que devemos combater é que a universidade brasileira, que já está corroída por problemas educacionais e administrativos, faça uso de uma só linha de pensamento para desenvolver conhecimento e formar profissionais. Deixaria, assim, de ser Universidade, onde se deve debater o pensamento universal (de todos os tipos).

karl_marx_001                  o filósofo karl marx. foto livre.

A VÓS JUVENTUDE! poema de vera lúcia kalaari / Portugal

A vós, 
Juventude incompreendida, 
Á vossa voz, 
Á vossa sede incontida 
Da vida, 
Eu dou os versos que faço. 
A vós, 
Que quereis tudo e não quereis nada… 
Que sonhais sonhos acordada 
Meus irmãos heróis, 
Meus irmãos loucos, 
Eu ofereço quanto tenho: 
Estes sonhos, este andar de estrela para estrela. 
Escutai! 
Rir-nos-emos do mundo que não vale nada! 
Porque nós, juventude transviada 
Estamos acima de todos! 
Estamos lado a lado com o céu firme, brilhante, 
Sob as cores dum arco-íris. 
E abaixo de nós 
Está o bando de gente dispersa, superior, 
Que arrasta os pés, tacteando, 
No crepúsculo das ruelas. 
A nós, o sol da esperança, 
Aquece-nos as mãos, reacende-nos os olhos. 
Hoje, tu, mocinha louca 
Tens o próprio sol nas mãos! 
Qu’importa o amanhã? Um amanhã que talvez nunca virá? 
Um amanhã com carga de canhões, com nuvens de fumaça, 
Com ondas púrpuras de sangue 
E gemidos de queixas e prantos? 
Vivamos o hoje! 
Sigamos um só caminho! 
O caminho sem preconceitos! 
Um caminho em pontes erguidas 
Sobre pântanos, sobre estradas abertas 
Entre corrupções e ódios. 
Ninguém sabe, ninguém, 
Se a primeira gota de sangue dos nossos corpos, 
Gotejará amanhã. 
Porque a terra, as águas, o ar, 
Estão transformados! 
Porque por toda a parte, 
Há almas enlouquecidas, implorando: “Paz”! 
Porque a terra está nua! 
Porque o mundo todo, é uma orgia sangrenta 
Sem auroras puras iluminando rostos de crianças! 
E talvez, sim, talvez, jamais volte cor 
Sobre o estertor do mundo sem alento! 
E nós, crianças, nós, juventude revoltada, 
Ovelhas negras dum rebanho de ovelhas negras, 
Cruzaremos os braços d’espanto e gemeremos: 
-Senhor, que fiz eu? 
E teremos, revoltados, os pensamentos parados! 
Guardaremos no peito, o ódio e o desespero. 
Perderemos a esperança duma felicidade futura! 
Pisaremos com rancor as flores, 
Embriagados pelo sangue, os dentes rangendo d’ódio! 
E os nossos olhos verão o dia transformar-se em noite! 
Veremos as estrelas que se acenderam para nós 
Sufocadas pelo brilho ardente das armas nucleares! 
(Oh tristeza! Oh horror d’um céu sem estrelas!) 
Por isso somos a juventude revoltada. 
Por isso caminhamos de rua em rua, de cidade em cidade, 
Jogando sem preconceitos a alegria e o riso, 
Como o bimbalhar de sinos festivos, tocando a finados! 
E tentamos a mente embriagar. 
Tentamos que o mar, imponente, se deite a nossos pés. 
Que a terra, a humanidade, nos tema, nos odeie. 
Mas vede: Tudo é uma farsa! 
Porque sob o menino orgulhoso, 
Se esconde o temor da redenção. 
Se alastra a solidão entre imagens de pedra, indiferentes, 
Que nunca estendem a mão ao vagabundo que passa. 
Porque o suspiro dos nossos peitos, é o suspiro, 
Duma estrela moribunda! 
Porque somos os filhos do vazio, 
Porque nossas vozes secas, são fracas, insignificantes! 
São preces de vento, rolando em erva seca! 
Porque somos os homens d’amanhã, 
Carne para canhão, corpos sem forma, sombras sem cor, 
Aqueles que nasceram já no reino da morte: 
Os guardados em conjunto, os empalhados, 
Para uma luta final, 
No reino crepuscular. 
E nesta derradeira jornada, 
Neste caminhar por um vale sem estrelas, 
Continuaremos cegos, independentes, 
Um rebanho sem pastor 
Caminhando… caminhando… 
Entre o desejo e a revolta, 
Entre a emoção e a decepção, 
Entre a claridade e a sombra, 
Entre o sonho e a realidade, 
Nas asas dum tempo, 
Sem ontem nem amanhã.

O REBELDE CHINÊS por niara de oliveira

rebelde-chines-foto-tank-man_widenerfoto de Jeff Widener.

 

Essa foto foi intitulada “O Rebelde Desconhecido“. Mesma alcunha atribuída ao jovem estudante anônimo que se tornou internacionalmente conhecido ao ser gravado e fotografado em pé em frente a uma linha de tanques durante a revolta da Praça de Tiananmen em 5 de junho de 1989 na China.


A foto foi tirada por Jeff Widener, e na mesma noite foi capa de centenas de jornais, noticiários e revistas de todo mundo. O jovem estudante se interpôs a duas linhas de tanques que tentavam avançar. No ocidente, as imagens foram apresentadas como um símbolo do movimento democrático chinês: um jovem arriscando a vida para opor-se a um esquadrão militar.

Na China, a imagem foi usada pelo governo como símbolo do “cuidado dos soldados do Exército Popular de Libertação para proteger o povo chinês: apesar das ordens de avançar, o condutor do tanque recusou-se a fazê-lo se isso implicava causar algum dano a um cidadão” – versão chinesa.

“Eu estava no 5 º andar do Hotel Pequim. Consegui contrabandear minha câmera dentro de vasos chineses antigos com a ajuda de um estudante americano chamado Kirk, que estava hospedado no hotel. Esse estudante levou as imagens ainda no filme dentro da cueca de volta para o escritório da agência, de onde foram transmitidas para o mundo. (…) Quando vi a coluna de tanques achei que o solitário homem iria estragar a minha foto. Eu não estava conseguindo raciocinar direito porque estava muito gripado. Apenas alguns dias mais tarde, quando outros fotógrafos internacionais começaram a me cumprimentar pela foto foi que me dei conta da importância da imagem,” declarou Widener, da Associated Press.

Junto com as imagens da queda do Muro de Berlim, a foto do estudante enfrentando os tanques chineses foi um sopro de democracia e liberdade para o movimento estudantil mundo afora. No Brasil, o movimento estudantil se referia a essa imagem como “A primavera de Pequim”.

BÁRBARA LIA lança seu livro: SOLIDÃO CALCINADA

Terça Músico-Literária no Realejo Culinária Acústica
.
.
Os poetas: Bárbara Lia e Samir Benjamim
Apresentando
Poesias inéditas de Bárbara Lia
Música:
Violonista João Francisco Paes

Lançamento do romance
Solidão Calcinada
 – Bárbara Lia

Dia 21 de Abril – 20h30

 

Sakountala

 

Cinzel de prata esculpindo pés
Cada fagulha vermelha
um fio de cabelo do amor

Cinzel de prata treme
acende astros
de um azul escuro
em meu olhar algodão

Rodin!
Rodin!

Tantos pés teci
em mármore angustiado
-trilha de pés moldados-

esquerdo / direito
esquerdo / direito
esquerdo / direito

Tantos pés
emprestei-te
para ter-te assim
ajoelhado
enlaçado
abismado
abandonado

Augusto espectro
de fogo
onde queima
a aurora

Sei!
Tudo isto
é mármore!

Mas, antes
foi carne
vermelho abandono
amor petrificado


Antes do fim
às margens
do Rio Loire
nossa carne carmim
foi mármore.

 

 


Local: Realejo Culinária Acústica
Rua Coronel Dulcídio 1860 – esq. c/Petit Carneiro

Água Verde – Curitiba
Entrada: R$ 5,00
 

“PENSAR É TRANSGREDIR” por mari palmieri

 

“Pensar é transgredir”…sim…realmente! Me lembro que fiquei totalmente maluca quando li este livro da Lya Luft há alguns anos. Existem alguns livros que realmente nos marcam profundamente, e este certamente foi um deles… 

Neste mundo de bundas, BBB, superficialidade, consumo predatório, individualismo, etc, etc, pensar parece um ultrage, algo para o “freaks”, chato e fora da moda…rs 

Pensar pode mesmo ser um peso muitas vezes, principalmente pq começamos a observar e enxergar um mundo em que dá mesmo vontade de ser alienado…

Deve ser mais leve só se preocupar com a balada do dia, ou com o engov de amanhã, quantas (os) pensar-e-transgredir-cultura10eu “peguei” e quanto bebi. Quem foi para o “paredão” do Big Brother ou a última fofoca do escritório. De quem eu vou “tirar vantagem” hoje e qual vai ser a minha mais nova aquisição para “parecer” cool… Posso estar na merda, mas compro um estilo, uma ilusão, afinal a sensação de pertencer a este mundo, de “ser”alguém é extasiante.

E nesse contexto, formam-se os modelos em que deve ter essa atitude, estudar aquilo, almejar ser gerente, ter uma carreira perfeita à la Você S.A.,etc etc, mesmo que isso te foda. Será que as pessoas não percebem que não existem fórmulas mágicas e  how-to guides? Executivos precisam ter infartes aos 40 anos para perceberem que não vale a pena trabalhar 14 horas por dia e ferrar sua vida??

Bom, mas tmb temos um lado que vale a pena…nem tudo é ruim, mas como no filme “O dia em que a Terra parou” ainda somos muito muito imaturos e aprendemos batendo as nossas cabeças ou às vezes nem assim… Ainda somos crianças nesse caminho de evolução…

Agora que já saí totalmente sa linha que queria seguir, tento voltar para Lya Luft…. Segue um trecho especial do livro:

Não lembro em que momento percebi que viver deveria ser uma permanente reinvenção de nós mesmos – para não morrermos soterrados na poeira da banalidade embora pareça que ainda estamos vivos.
Mas compreendi, num lampejo: então é isso, então é assim. Apesar dos medos, convém não ser demais fútil nem demais acomodada. Algumas vezes é preciso pegar o touro pelos chifres, mergulhar para depois ver o que acontece: porque a vida não tem de ser sorvida como uma taça que se esvazia, mas como o jarro que se renova a cada gole bebido.
Para reinventar-se é preciso pensar: isso aprendi muito cedo.
Apalpar, no nevoeiro de quem somos, algo que pareça uma essência: isso, mais ou menos, sou eu. Isso é o que eu queria ser, acredito ser, quero me tornar ou já fui. Muita inquietação por baixo das águas do cotidiano. Mais cômodo seria ficar com o travesseiro sobre a cabeça e adotar o lema reconfortante: “Parar pra pensar, nem pensar!”
O problema é que quando menos se espera ele chega, o sorrateiro pensamento que nos faz parar. Pode ser no meio do shopping, no trânsito, na frente da tevê ou do computador. Simplesmente escovando os dentes. Ou na hora da droga, do sexo sem afeto, do desafeto, do rancor, da lamúria, da hesitação e da resignação.
Sem ter programado, a gente pára pra pensar.
Pode ser um susto: como espiar de um berçário confortável para um corredor com mil possibilidades. Cada porta, uma escolha. Muitas vão se abrir para um nada ou para algum absurdo. Outras, para um jardim de promessas. Alguma, para a noite além da cerca. Hora de tirar os disfarces, aposentar as máscaras e reavaliar: reavaliar-se.
Pensar pede audácia, pois refletir é transgredir a ordem do superficial que nos pressiona tanto.
Somos demasiado frívolos: buscamos o atordoamento das mil distrações, corremos de um lado a outro achando que somos grandes cumpridores de tarefas. Quando o primeiro dever seria de vez em quando parar e analisar: quem a gente é, o que fazemos com a nossa vida, o tempo, os amores. E com as obrigações também, é claro, pois não temos sempre cinco anos de idade, quando a prioridade absoluta é dormir abraçado no urso de pelúcia e prosseguir, no sono, o sonho que afinal nessa idade ainda é a vida.
Mas pensar não é apenas a ameaça de enfrentar a alma no espelho: é sair para as varandas de si mesmo e olhar em torno, e quem sabe finalmente respirar.
Compreender: somos inquilinos de algo bem maior do que o nosso pequeno segredo individual. É o poderoso ciclo da existência. Nele todos os desastres e toda a beleza têm significado como fases de um processo.
Se nos escondermos num canto escuro abafando nossos questionamentos, não escutaremos o rumor do vento nas árvores do mundo. Nem compreenderemos que o prato das inevitáveis perdas pode pesar menos do que o dos possíveis ganhos.
Os ganhos ou os danos dependem da perspectiva e possibilidades de quem vai tecendo a sua história. O mundo em si não tem sentido sem o nosso olhar que lhe atribui identidade, sem o nosso pensamento que lhe confere alguma ordem.
Viver, como talvez morrer, é recriar-se: a vida não está aí apenas para ser suportada nem vivida, mas elaborada. Eventualmente reprogramada. Conscientemente executada. Muitas vezes, ousada.
Parece fácil: “escrever a respeito das coisas é fácil”, já me disseram. Eu sei. Mas não é preciso realizar nada de espetacular, nem desejar nada excepcional. Não é preciso nem mesmo ser brilhante, importante, admirado.
Para viver de verdade, pensando e repensando a existência, para que ela valha a pena, é preciso ser amado; e amar; e amar-se. Ter esperança; qualquer esperança.
Questionar o que nos é imposto, sem rebeldias insensatas mas sem demasiada sensatez. Saborear o bom, mas aqui e ali enfrentar o ruim. Suportar sem se submeter, aceitar sem se humilhar, entregar-se sem renunciar a si mesmo e à possível dignidade.
Sonhar, porque se desistimos disso apaga-se a última claridade e nada mais valerá a pena. Escapar, na liberdade do pensamento, desse espírito de manada que trabalha obstinadamente para nos enquadrar, seja lá no que for.
E que o mínimo que a gente faça seja, a cada momento, o melhor que afinal se conseguiu fazer.

Lya Luft
Fonte do texto (ver site)

Este texto é ótimo, e digo o que gosto dele: é verdadeiro, profundo e nos provoca inquietação. Já falei de não gosto de pessoas que tem muitas certezas? Gosto mesmo da dúvida, daqueles que questionam e se questionam, daqueles que pensam e procuram enxergar até as mesmas coisas sob outras perspectivas. Tentam sair da caixa, mesmo que saibam que ainda estarão “lendo”o mundo através de suas próprias lentes. E que admitem que, por mais que estejam certos de algo, no próximo instante tudo pode mudar… Não existe verdade absoluta…

 

SE EU NÃO TIVESSE ALGUÉM PARA AMAR poema de joanna andrade

Se EU não tivesse alguem para amar,

Eu não pararia nem um minuto, continuaria em busca dos objetivos e nao perderia tempo,

Eu não saberia o que é chorar de saudade ou de medo de perder a pessoa tão importante e rara,

Eu só conheceria  a dor.

Se EU não amasse ninguém,

Eu não precisaria deixar de comer o maior pedaço de bife no prato,

Eu  não poderia levar café na cama de manha cedo esperando que o dia, que o ano, que a vida pudesse ser maravilhosa só por esse ato tão simples

 Eu teria ficado estática em minha vida

Se EU não amasse voce,

Eu não tentaria ser mais forte que Hercules para diminuir a distancia que nos separa,

Eu não esperaria ve-lo todas as tardes,

Eu não teria que parar no tempo para ver voce passar,

Eu não pediria tanto, indiretamente, para me incluir em sua rotina,

Eu seria fraca e não teria tido a coragem de lutar pelo que sinto,

Eu não saberia mais o seu telefone de cor e salteado como sei,

Eu não precisaria de sua mão, estendida, pois não amaria voce.

Eu teria todas as horas e minutos e segundos de todos os dias, livres, sem sequer lembrar de sua existência,

Eu levaria em consideração todas as malvadas combinações de palavras lançadas sobre mim

Eu usaria a força que tenho nao para amá-lo e sim para destruí-lo.

Se EU não amasse ninguem……..

Se EU não amasse voce……

Se……

JA/2008

 

 

DANÇA PARA UMA ALEGRIA MÍNIMA poema de altair de oliveira

Lembro do modo que a morte me convida

pra fazer vida consigo no pós-morte.

Penso comigo no medo que consigo

quando me vejo esquecido pela sorte

fico menor que o menor ser dividido

meio sem porto, sem norte, sem abrigo…

 

Sempre que sumo, espero e me procuro

sei que comigo amigo uns inimigos…

Sinto que a fome me come parasita

e cedo à sede em segredo, comovido.

Quero que o belo futuro me visite

e me permita o instante enfestecido:

desenharei alegria em surdos gritos

desdenharei os  demais dias vividos!

 

Altair de Oliveira – In: O Embebedário Diverso

 

A GALINHA por hamilton alves

 Numa certa ocasião, entre amigos (isso na mocidade), houve um grande problema.  Propúnhamo-nos a fazer um ensopado de galinha. Éramos quatro para uma galinha só.

                                   O problema surgido, de pronto, foi quem se incumbiria de matar a galinha.

                                   Nenhum de nós tinha até então vivido experiência igual.

                                   Havia três casas vizinhas. Era já noite fechada. Incomodar vizinhos para matar uma galinha não entrava na cabeça de nenhum de nós. Tínhamos que nos virar.

                                   Consultamos um vizinho mais próximo.

                                   – O senhor não conseguiria matar uma galinha que queremos ensopar?

                                   – Ó, meu caro – disse ele – nunca matei sequer uma mosca na vida, muito menos uma galinha,

                                   Não tinha jeito. A missão teria que caber a um de nós. E à qual?

                                   Houve um que teve uma idéia que nos pareceu salvadora: chamaria a irmã por telefone, que morava próximo – ela tinha habilidade de matar uma galinha com um mero golpe no pescoço.

                                   – Tua irmã vai demorar e acabamos não comendo essa galinha. – disse um dos mais famintos, apressado em resolver logo o impasse.

                                   A tal irmã demorou um bocado. A certa hora, bateu o telefone. Todos pressurosos corremos para atendê-lo. Era ela (a irmã).

                                   – Me desculpem (disse ela), mamãe acabou de chegar, não está se sentindo muito bem; não posso ir.

                                   Era a derradeira esperança de se resolver de modo não turbulento a morte da galinha para que, finalmente, a comêssemos.

                                   Um dos amigos propôs-se a pedir a um passante qualquer que o fizesse.

                                   Passou um praça da polícia.

                                   – Eu, meu filho, matar uma galinha? Nem por nada deste mundo.

                                   Passou uma velha senhora, sobraçando um pacote.

                                   – De modo algum, não conheço essas artes.

                                   Passou outro sujeito, metido num capote que o cobria de cima a baixo.

                                   – Não, não me peça para cometer um crime desses. Não levo jeito para matar nada.

                                   Caímos os quatros em desolação.

                                   Ou com receio de que um de nós teria que dar conta da triste missão.

                                   A galinha estava amarrada pelos pés. Olhava-nos numa expectativa tensa do que se faria com seu destino. Cacarejava, mal acomodada com o barbante lhe amarrando as perninhas ou pesinhos, coitada.

                                   Olhava-a de quando em vez. Morria de pena de saber que, por mal ou por bem, acabaria lhe cabendo o trágico destino na mão de um daqueles algozes.

                                   Foi então que, súbito, um de nós ergueu-se, impávido, depois de tocado por algumas doses de uísque. Pegou a galinha pelo pescoço, torceu-o duas ou três vezes, que estrebuchou até exalar o último suspiro.

 

 

(março/09)      

Marxismo: não conseguem inventar nada mais atual? – por alceu sperança


 

“Os donos do capital vão estimular a classe trabalhadora a comprar bens caros, casas e tecnologia, fazendo-os dever cada vez mais, até que se torne insuportável. O débito não pago levará os bancos à falência, que terão que ser nacionalizados pelo Estado” (Karl Marx, 1867). Quanto mais se estuda a obra de Karl Marx mais se tem convicção de que o velho sabia das coisas.

 

Acadêmicos, cá entre nós, não são meio chatos? Terrivelmente metódicos, adoram interromper a fluência da leitura com uma nota de pé de página recheada de referências quilométricas…

Não ligue, é apenas uma brincadeira: se Karl Marx fosse menos rigoroso com as fontes de informação e com as ideias que sorveu, não teria conseguido nos dar um dos mais importantes métodos para a compreensão das coisas que nos rodeiam.

Para nossa felicidade, apesar do lulismo e do antilulismo (duas faces da mesma moeda neoliberal), hoje os melhores professores cultivam o espírito crítico empregando as categorias marxianas. Há 50 anos isso dava demissão e até cadeia.

A Universidade Estadual do Oeste do Paraná tem sido uma das “oficinas” de vanguarda na investigação do pensamento marxista. Uma reflexão que ousou contrariar o pensamento dominante – o capitalismo –, que ainda paira sobre este mundo como cuspe de mosca.

A mosca, sabemos, alimenta-se depois de atirar sobre a vítima a gosma de seu ácido corrosivo. O capitalismo cmporta-se dessa forma para extrair lucro do trabalho humano e das necessidades dos homens.

As aberrações reacionárias da burrice paranaense fustigam implacavelmente a universidade paranaense, mas ela tira isso de letra – é um modelo.

Criada modestamente pela Prefeitura de Cascavel, incorpora hoje toda a região Oeste do Paraná e avança pelo Sudoeste, abrangendo também Francisco Beltrão.   

É um grande orgulho para os paranaenses e os brasileiros, pois temos aqui acadêmicos e professores de todo o Brasil.

Um pensamento vivo

De quando em vez, a Unioeste lembra a passagem do aniversário da morte de Marx (transcorrido em 14 de março) e quero crer que não esteja comemorando sua morte, mesmo porque teve o cuidado de meter Friedrich Engels na jogada.

E meteu bem, porque sem Engels a gente não teria aprendido coisas tão óbvias quanto estas, que tento traduzir para a linguagem da minha filha:

“Vocês, galera, se assustam porque queremos acabar com a propriedade privada. Mas aí nessa sociedade de vocês a propriedade não existe para 90% das pessoas. É porque 90% não têm nada que vocês têm tanto. Vocês acusam a gente de querer acabar com essa joça, que só existe impedindo quase todos de ter alguma coisa.  Cai na real: detonar essa droga injusta é exatamente o que a gente quer!”

Que Marx e Engels me perdoem pela tosquice da “tradução”…

De proprietário a próprio-otário

O que, realmente nos pertence? O conceito de propriedade é hoje muito fluido e complexo – não entendo nem metade. Recebi uma herança em terrenos, mas eles foram invadidos enquanto durava o inventário.

Dê-lhe usucapião urbano, advogado pedindo isenção de custas a seus clientes despossuídos, uns confirmando para os outros que moram no lugar há trocentos anos, juiz me intimando a comparecer às tantas horas de tal dia da semana lá nos cafundós, eu perdendo quase tudo e ainda tendo que dar o que sobrou à Prefeitura para pagar os IPTUs atrasados.

Os sem estão com e eu estou sem. Acho que sou dono da minha casa, mas pago IPTU, taxa de lixo, iluminação e o condomínio me põe no pau se eu atrasar.

Mas é tudo meu e ninguém tasca! Um sem-teto não paga IPTU e reza para pagar. Um caloteiro sonegador impatriota odeia pagar imposto de renda e eu, isento, adoraria pagar um milhão de reais desse imposto.

Glória e miséria da civilização

O capitalismo, no entanto, precisa de explicações bem melhores que as minhas. E a dupla Marx–Engels, até hoje, continua na frente quando se trata de trocar em miúdos esse fenomenal mecanismo de criar riquezas.

Nunca houve em toda a história algo tão capaz de gerar bens, suprir necessidades, fazer tudo avançar tão rapidamente. O capitalismo é, sem favor, o ápice da civilização.

Mas o capitalismo é a mosca, pois causa muito sofrimento. Não teríamos, mesmo ignorando Marx e Engels em definitivo, nada melhorzinho para pôr no lugar?

Afinal, há uma enorme e ofensiva mosca a esmagar!


….

O autor é escritor.

RUMOREJANDO. (Parentes com verba da Câmara viajando. Dúvida crucial: Será que eles não acham que estão nos roubando?) 19.04.09

PEQUENAS CONSTATAÇÕES, NA FALTA DE MAIORES.

Constatação I

Rico é caloroso; pobre, nebuloso.

Constatação II

Rico ganha cafuné; pobre, pontapé.

Constatação III

Ao gracejo

Ela respondeu,

Rapidamente,

Como um meteoro,

Com um sonoro

Bocejo

Tão-somente.

Aí ele perdeu

O rebolado.

Coitado!

Constatação IV

Com relação ao seu pedido de aumento,

Alegando a vinda próxima de um rebento

E o substancial e exagerado aumento

Do aluguel do seu apartamento,

Tenho a informar o seguinte argumento,

Que se refere ao posicionamento

Do meu Departamento:

Ultimamente o seu comportamento

De incitar os colegas a um movimento

De paralisação por um momento

Ou os trabalhos de retardamento

Da entrega das partidas de cimento

Revelando descumprimento

Da política de nosso enriquecimento,

Obriga-me a recusar o seu intento.

Sinceramente lamento.

Sem mais para o momento,

Apresento meu respeitoso cumprimento.

Antônio dos Anjos Sarmento

Ex – Primeiro Sargento

Do 2º. Batalhão de Provimento.

Constatação V

Aquele edifício,

Onde habitava

Gente não pontifícia,

Parecia um dentifrício:

Numa batida da polícia,

Rolava nada de carícia,

Pois ela apertava

A caterva

Aí, saía muita erva.

Nada a ver com erva-mate

O que seria um disparate,

Pois tomar um simples chimarrão

Absolutamente não é infração.

Constatação VI(Ah, esse nosso vernáculo ou como ensinar o a, e, i, o, u versejando, preferencialmente, para adultos).

Por causa de um perjúrio

De um mau augúrio

O cartorário

Teve um delírio,

Condenatório,

O que foi um martírio,

Além de um mistério

Que seu itinerário

Para o purgatório

Antes passava pelo cemitério.

Constatação VII

Encheu o bandulho

Com uma macarronada

Antes de visitar

A namorada.

A barriga se pôs a fazer barulho,

A roncar

Bem na hora de beijar

A idolatrada

A tão amada

Que caiu na risada

O que fez o encanto

Esmorecer.

Ficou chateado.

Tava nas preliminares

Naquela sublime ação

Da bolinação

Que afasta até azares

E que deveria acontecer,

Ou que se supõe suceder

Em todos os lares.

Pra não enroscar,

Já tinha tirado

Até os anéis e colares.

Teve que recomeçar

Com novo canto,

Com novos cantares.

Coitado!

Constatação VIII (Uma historieta).

A família era constituída pela mãe, o pai e quatro filhos, duas meninas e dois meninos. Tinham o habito de comerem todos juntos, ao contrário do que vem acontecendo na maioria das famílias. Mas isso já é outra história ou historieta que absolutamente, agora, não vem ao caso. A mãe mandou fazer uma mesa sextavada. Assim, cada um dos componentes sentava num dos lados do hexágono, no seu lugar já consagrado. Um dia, a filha mais velha trouxe o namorado para jantar. Era o professor da academia de ginástica, do tipo dois metros de altura por dois metros de largura. Quando começaram a comer, depois de dar um jeito de encaixar o namorado na mesa, se deram conta que teriam, nas próximas vezes, tirar os outros três filhos para irem comer na cozinha. É que o namorado comia com os cotovelos formando 90º com o corpo. Coitado! Coitados!

Constatação IX (Teoria da Relatividade para principiantes).

É muito melhor ter os olhos de rato e o sorriso da Mona Lisa do que os olhos da Mona Lisa e o sorriso de rato.

Constatação X (Pergunta ao meu amigo, o professor Luiz Gonzaga Paul).

Por que palavras como período, bugio, vazio e tantas outras a letra o tem o som de u?

Constatação XI (De diálogos tipo mea culpa).

-“A minha mulher é uma santa!”

-“Por que? Ela faz milagres?”

-“Sim. Ela faz o milagre de me aturar”.

-“Ah!”

Constatação XII

O eterno cordato

Acaba virando

Um pato

De quando em quando?

Constatação XIII

“Sinergia”, explicava o obcecado para a sua mais recente conquista, “é dizer sim com toda a energia para as minhas benévolas propostas”

Constatação XIV (De diálogos meio confusos e consequentemente pouco esclarecedores).

-“Ela tirou o corpinho. Revelou assim todo o seu antológico corpinho. Que eu cobri com o meu corpão”.

-“Cobriu o corpinho ou o corpinho?”

-“O corpinho”.

-“Ah, bom!”

Constatação XV

Era um político duplamente baixo: De altura e de propósitos.

Constatação XVI

E como poetava aquele filho para a sua – dele – intrometida mãe: “Não me impinja uma calipígia como é o caso da Ligia; não infrinja meu direito de escolha. Não seja bolha”.

E-mail: josezokner@rimasprimas.com.br

 

 

DANTE MENDONÇA LANÇA SEU LIVRO HOJE EM FLORIANÓPOLIS

capa

 

Não há quem não elogie Curitiba por seu perfil europeu, sua civilidade plena de cortesias, sua face organizada de Brasil que dá certo. Claro, como ninguém é perfeito, falta o mar, o cheiro das ostras e maresias uma ausência tão sentida que, para nós, Curitiba quer dizer ostracismo.

O que ninguém sabia é da existência de uma Curitiba secreta, cheia de cerebrinas histórias, bares e restaurantes memoráveis – entre os quais o da empreiteira que inaugurou uma casa de pasto num buraco, comemorando a canalização de um rio na Rua Voluntários da Pátria.

Não é piada do Dante Mendonça, o neotrentino catarina que é hoje o mais celebrado chargista-escritor da terra do Vampiro. A empreiteira organizou um churrasco dentro das canaletas do riacho, ainda a céu aberto. E convidou as “otoridades” para o faturamento de praxe. O eterno prefeito de Curitiba, Jaime Lerner, confessa o seu estupor:

— Quando vi onde seria o churrasco, levei um susto. O povo passava acima, ao nível da rua, e eu devorando uma picanha num túnel de lama!

O ex-prefeito, gourmet de fina linhagem, recomenda “Curitiba. Melhores defeitos, Piores qualidades” como o saboroso cardápio “à la carte” da bela e – seria verde? – capital paranaense. Curitiba, ensina Dante, não tem uma única cor, mas várias. Seu livro é um “intensivão” sobre os meandros da variada alma da “Potylândia” – ou você não sabia que nasceu e morreu em Curitiba o maior ilustrador gráfico do Brasil, o mitológico Napoleón Potyguara Lazzarotto (1924-1998), o “Poty”, bico de pena predileto de Gilberto Freyre, Guimarães Rosa, Graciliano Ramos, José Américo de Almeida, Mário Palmério e Raul Bopp?

Os painéis de Poty estão no aeroporto, nos mercados, nos parques, nos monumentos históricos. “Numa cidade em que os artistas se tornam invisíveis, Poty é o artista mais visível de Curitiba”.

Flagrado no tal churrasco subterrâneo, o grande prefeito, que fundou a nova Curitiba, oferece seu selo de qualidade ao livro, como se ele fosse a surpreendente “sobremesa” daquele churrasco:

— O livro é um delicioso passeio pela história de Curitiba. Leitura obrigatória para curitibanos e não curitibanos, neotrentinos incluídos.

O autor, que já nos obsequiara com um verdadeiro “Tratado do Bem Beber”, um “Berlitz” sobre as linguagens do bar e de seus tipos, coloca na prancheta as “almas” – a ostensiva e a secreta – de uma cidade que seduz aos poucos, revelando os seus segredos apenas àqueles que merecem essa “Eureka”.

Como o vampiro Dalton Trevisan, Dante admite que “às vezes dói morar em Curitiba”, mas como é tão milagreiro quanto a Santa Paulina de Nova Trento, o autor descobre que há até sol na sua terra de adoção…:

— Sim, há sol em Curitiba. Mas somos a única capital brasileira onde os ouvintes ligam para as rádios reclamando porque o tempo vai melhorar…

Vou amanhã a Santo Antônio de Lisboa, debaixo de um sol adriático, e à beira de uma fazenda de ostras, comprar o instigante livro do Dante Mendonça, desvairada declaração de amor a Curitiba.

Afinal, se a vizinha capital não é o Paraíso, não deixa de ser um excelente “Limbo”.

 

Sérgio da Costa Ramos

17/04/09

 

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Carta do Cacique americano ao Presidente dos Estados Unidos da América.

 

 

Em 1854, o Governo dos Estados Unidos tentava convencer o chefe indígena Seatle a vender suas terras. Como resposta, o chefe enviou uma carta ao presidente que se tornou famosa em todo o mundo. Seu conteúdo merece uma reflexão atenta pois é uma lição que deve ser cultivada por todos, por esta e pelas futuras gerações.

 

 

 

CARTA DO CHEFE INDÍGENA SEATLE

“O ar é precioso para o homem vermelho, pois todas as coisas compartilham o mesmo sopro: o animal, a árvore, o homem, todos compartilham o mesmo sopro. Parece que o homem branco não sente o ar que respira. Como um homem agonizante há vários dias, é insensível ao mau cheiro (…).Portanto, vamos meditar sobre sua oferta de comprar nossa terra. Se decidirmos aceitar, imporei uma condição: o homem deve tratar os animais desta terra como seus irmãos (…)O que é o homem sem os animais? Se os animais se fossem, o homem morreria de uma grande solidão de espírito. Pois o que ocorre com os animais, breve acontece com o homem. Há uma ligação em tudo. Vocês devem ensinar às suas crianças que o solo a seus pés é a cinza de nossos avós. Para que respeitem a Terra, digam a seus filhos que ela foi enriquecida com as vidas de nosso povo. Ensinem às suas crianças o que ensinamos às nossas, que a Terra é nossa mãe. Tudo o que acontecer à Terra, acontecerá aos filhos da Terra. Se os homens cospem no solo estão cuspindo em si mesmos. Isto sabemos: a Terra não pertence ao homem; o homem pertence à Terra.
Isto sabemos: todas as coisas estão ligadas, como o sangue que une uma família. Há uma ligação em tudo.O que ocorre com a terra recairá sobre os filhos da terra. O homem não teceu o tecido da vida: ele é simplesmente um de seus fios. Tudo o que fizer ao tecido, fará a si mesmo.Mesmo o homem branco, cujo Deus caminha e fala com ele de amigo para amigo, não pode estar isento do destino comum. É possível que sejamosirmãos, apesar de tudo. Veremos. De uma coisa estamos certos ( e o homem branco poderá vir a descobrir um dia): nosso Deus é o mesmo Deus.
Vocês podem pensar que o possuem, como desejam possuir nossa terra, mas não é possível. Ela é o Deus do homem e sua compaixão é igual para o homem branco e para o homem vermelho. A terra lhe é preciosa e feri-la é desprezar o seu Criador. Os brancos também passarão; talvez mais cedo do que todas as outras tribos. Contaminem suas camas, e uma noite serão sufocados pelos próprios dejetos.Mas quando de sua desaparição, vocês brilharão intensamente, iluminados pela força do Deus que os trouxe a esta terra e por alguma razão especial lhes deu o domínio sobre a terra e sobre o homem vermelho. Esse destino é um mistério para nós, pois não compreendemos que todos os búfalos sejam exterminados, os cavalos bravios todos domados, os recantos secretos da floresta densa impregnados do cheiro de muitos homens, e a visão dos morros obstruída por fios que falam. Onde está a árvore?Desapareceu. Onde está a água? Desapareceu. É o final da vida e o início da sobrevivência. Como é que se pode comprar ou vender o céu, o calor da terra? Essa idéia nos parece um pouco estranha. Se não possuímos o frescor do ar e o brilho da água como é possível comprá-los?Cada pedaço desta terra é sagrado para meu povo. Cada ramo brilhante de um pinheiro, cada punhado de areia das praias, a penumbra na floresta densa,cada clareira, cada inseto a zumbir é sagrado na memória e experiência do meu povo. A seiva que percorre o corpo das árvores carrega consigo as lembranças do homem vermelho (…).Essa água brilhante que corre nos rios não é apenas água, mas a idéia nos parece um pouco estranha. Se não possuímos o frescor do ar e o brilho da água como é possível comprá-los? Cada pedaço desta terra é sagrado para meu povo. Cada ramo brilhante de um pinheiro, cada punhado de areia das praias, a penumbra na floresta densa,cada clareira, cada inseto a zumbir é sagrado na memória e experiência do meu povo. A seiva que percorre o corpo das árvores carrega consigo aslembranças do homem vermelho (…).Essa água brilhante que corre nos rios não é apenas água, mas o sangue de nossos antepassados. Se vendermos a terra, vocês devem lembrar-se de que ela é sagrada, devem ensinar às crianças que ela é sagrada e que cada reflexo nas águas límpidas dos lagos fala de acontecimentos e lembranças da vida do meu povo. O murmúrio das águas é a voz dos meus ancestrais.Os rios são nossos irmãos, saciam nossa sede. Os rios carregam nossas canoas e alimentam nossas crianças. Se lhes vendermos nossa terra, vocês devem lembrar e ensinar a seus filhos que os rios são nossos irmãos e seus também. E, portanto, vocês devem dar aos rios a bondade que dedicariam a qualquer irmão.Sabemos que o homem branco não compreende nossos costumes. Uma porção de terra, para ele, tem o mesmo significado que qualquer outra, pois é um forasteiro que vem à noite e extrai da terra aquilo de que necessita. A terra não é sua irmã, mas sua inimiga e, quando ele a conquista, prossegue seu caminho. Deixa para trás os túmulos de seus antepassados e não se incomoda. Rapta da terra aquilo que seria de seus filhos e não se importa.(…). Seu apetite devorará a terra, deixando somente um deserto.Eu não sei. Nossos costumes são diferentes dos seus. A visão de suas cidades fere os olhos do homem vermelho. Talvez porque o homem vermelho é um selvagem e não compreenda.Não há lugar quieto nas cidades do homem branco. Nenhum lugar onde se possa ouvir o desabrochar de folhas na primavera ou o bater de asas de um inseto. Mas talvez seja porque eu sou um selvagem e não compreendo. O ruído parece apenas insultar os ouvidos. E o que resta da vida de um homem, se não pode ouvir o choro solitário de uma ave ou o debate dos sapos ao redor de uma lagoa, à noite? Eu sou um homem vermelho e não compreendo.O índio prefere o suave murmúrio do vento encrespando a face do lago, e o próprio vento, limpo por uma chuva diurna ou perfumado pelos pinheiros.”
Sabemos que o homem branco não compreende nossos costumes. Uma porção de terra, para ele, tem o mesmo significado que qualquer outra, pois é um forasteiro que vem à noite e extrai da terra aquilo de que necessita. A terra não é sua irmã, mas sua inimiga e, quando ele a conquista, prossegue seu caminho. Deixa para trás os túmulos de seus antepassados e não se incomoda. Rapta da terra aquilo que seria de seus filhos e não se importa(…). Seu apetite devorará a terra, deixando somente um deserto.”

 

 

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PLANTA DE PEDRA DE RUA poema de tonicato miranda

                                                                                  para Baden Powell e as mulheres esquecidas

 

Vem de manso

Vem de mansinho

Um dedilhado na alma

Quase um ruído na calma

É assim que vem o violão

Ele e ela vêm brotando do chão

Ela planta daninha, ele todos meus ais

Ela, planta sem semente e sem pais

 

Ninguém chegou bem perto

Ninguém voou do seu deserto

Para ver entre tantas plantas

Esta planta e outras mais e tantas

Oh, planta santa, tu planta puta e bela

Nasceste nesta pobre ruela

Nasceste assim quase nua

Parece que cresces com o sorriso da lua

Tu a olhar, chega mais perto, veja

Acho ali tem pequenina cereja

Se fores mais atento verás

Um quê de novo nos meus ais

Verás uma beleza tão natural

Toda uma manhã de Carnaval

A delicadeza que ela carrega

Para dentro do meu olhar a amar

Como carga de bateria

Acendendo eletricidades em meu ar

Brotando-me mais onde não queria

É assim esta pequenina planta

Que quase canta e me encanta

Eu que ao sabor do violão, escuto

Este som que em mim dá fruto

Quão suave é este amor tão delicado

Na planta de minha mão tuas nervuras

Este teu corpo querido e amado

Acredita sinto todas tuas curvaturas

 

Deixa-me correr a regar-te

Para nunca mais esquecer-te

 

Curitiba, 31/01/2009

OS DEZ ESCRITORES AMERICANOS MAIS BÊBADOS DA HISTÓRIA. por andré gazola

 

Para muitos, a bebida é simplesmente um vício. Algo ruim que acaba com sua vida, com sua família e com seu fígado — não necessariamente nessa ordem.

Para outros, pode ser um hábito não-regular que implica em simplesmente fugir um pouco da dura e injusta realidade. Ainda há os que bebem para perder a timidez, os que bebem por esporte, ou sabe-se lá que outros motivos.

E finalmente, encontramos os que bebem porque são gênios. Gênios cuja realidade é simples demais para suas mentes pretensiosas, indagadoras e irriquietas.

Encontrei essa lista de escritores que apreciam a bebida, no site Alternative Reel. Fiquem à vontade para sugerir traduções melhores, elas foram feitas de forma bem livre.

10. Raymond Chandler [1888-1959]

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O álcool é como o amor. O primeiro beijo é mágico, o segundo é íntimo, o terceiro é rotina. Depois dele, você tira as roupas da moça.

[Alcohol is like love. The first kiss is magic, the second is intimate, the third is routine. After that you take the girl’s clothes off.]

 

9. Frederick Exley [1929-92]

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Depois de um mês de sobriedade minhas faculdades se tornaram insuportavelmente agudas e me vi como uma espécie de vidente doentio, tendo visões de lugares aos quais nunca tinha ido. Diferentemente de alguns homens, eu nunca bebi por audácia, charme ou wit. Eu tenho usado o álcool precisamente para o que ele serve, um depressivo para checar a excitação mental causada por um período de sobriedade prorrogada.

[After a month’s sobriety my faculties became unbearably acute and I found myself unhealthily clairvoyant, having insights into places I’d as soon not journey to. Unlike some men, I had never drunk for boldness or charm or wit; I had used alcohol for precisely what it was, a depressant to check the mental exhilaration produced by extended sobriety.]

 

8. Harry Crews [1935-]

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O álcool me chicoteou. Nós tivemos muitos, muitos maravilhosos momentos juntos. Nós rimos, nós conversamos, nós dançamos juntos nas festas; então um dia eu acordei e a banda tinha ido para casa e eu estava deitado num copo quebrado com a camisa cheia de vômito e eu disse, “Ei, cara, o jogo acabou”.

[Alcohol whipped me. Alcohol and I had many, many marvelous times together. We laughed, we talked, we danced at the party together; then one day I woke up and the band had gone home and I was lying in the broken glass with a shirt full of puke and I said, ‘Hey, man, the ball game’s up’.]

 

7. Charles Bukowski [1920-94]

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Beber é algo emocional. Faz com que você saia da rotina do dia-a-dia, impede que tudo seja igual. Arranca você pra fora do seu corpo e de sua mente e joga contra a parede. Eu tenho a impressão de que beber é uma forma de suicídio onde você é permitido voltar à vida e começar tudo de novo no dia seguinte. É como se matar e renascer. Acho que eu já vivi cerca de dez ou quinze mil vidas.

[Drinking is an emotional thing. It joggles you out of the standardism of everyday life, out of everything being the same. It yanks you out of your body and your mind and throws you against the wall. I have the feeling that drinking is a form of suicide where you’re allowed to return to life and begin all over the next day. It’s like killing yourself, and then you’re reborn. I guess I’ve lived about ten or fifteen thousand lives now.]

 

6. Jack Kerouac [1922-69]

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Quanto mais velho eu fico, mais bêbado eu me torno. Por quê? Porque eu gosto do êxtase da mente.

[As I grew older I became a drunk. Why? Because I like ecstasy of the mind.]

 

 

5. Jack London [1876-1916]

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Eu estava carregando um belo fogo alcoólico comigo. A coisa era alimentada por seu próprio calor e queimou the fiercer. Não houve nenhum momento, enquanto estive acordado, que eu não quisesse uma bebida. Comecei a antecipar o término de minhas mil palavras diárias bebendo um drink quando apenas quinhentas haviam sido escritas. Isso não durou muito. Chegou o momento em que eu prefaciava as mil palavras com uma bebida.

[I was carrying a beautiful alcoholic conflagration around with me. The thing fed on its own heat and flamed the fiercer. There was no time, in all my waking time, that I didn’t want a drink. I began to anticipate the completion of my daily thousand words by taking a drink when only five hundred words were written. It was not long until I prefaced the beginning of the thousand words with a drink.]

 

4. F. Scott Fitzgerald [1896-1940]

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Primeiro você pega uma bebida, depois a bebida pega uma bebida, então a bebida pega você.

[First you take a drink, then the drink takes a drink, then the drink takes you.]

 

3. Edgar Allan Poe [1809-49]

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Eu absolutamente não tenho prazer em estimular algo que eu, por vezes, caí com tanta indulgência. Não foi pela busca do prazer que eu tenho arriscado a vida, a reputação e a razão. Foi apenas uma desesperada tentativa de escapar de memórias torturantes, de um senso de insuportável solidão e o horror de alguma estranha maldição repentina.

[I have absolutely no pleasure in the stimulants in which I sometimes so madly indulge. It has not been in the pursuit of pleasure that I have periled life and reputation and reason. It has been the desperate attempt to escape from torturing memories, from a sense of insupportable loneliness and a dread of some strange impending doom]

 

 

2. William Faulkner [1897-1962]

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Não há nada como um mau whisky. Alguns parecem ser simplesmente melhores que outros. Mas um homem não deveria enganar-se com a bebida antes dos cinqüenta; depois disso, ele é um grande idiota se não o fizer.

[There is no such thing as bad whiskey. Some whiskeys just happen to be better than others. But a man shouldn’t fool with booze until he’s fifty; then he’s a damn fool if he doesn’t.]

 

1. Empate: Ernest Hemingway [1899-1961] & Hunter S. Thompson [1937-2005]

 

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Um homem inteligente às vezes é forçado a ficar bêbado para gastar um tempo com suas bobagens.

[An intelligent man is sometimes forced to be drunk to spend time with his fools.] – Hemingway

 

 

 

 

hunter-s-thompsonHUNTER S. THOMPSON

Eu odeio recomendar drogas, álcool, violência, ou insanidade para qualquer um, mas isso tudo sempre funcionou comigo.

[I hate to advocate drugs, alcohol, violence, or insanity to anyone, but they’ve always worked for me.] – Thompson

 

MARIA RITA entrevista com a gazeta do povo

 

Disposta a desfazer a imagem de diva criada em torno dela, Maria Rita não teme ser pessoal na entrevista que concedeu por e-mail à Gazeta do Povo esta semana. Diz-se “um ser inquieto”, mas, ao mesmo tempo, está mais calma e confiante para mostrar-se sobre o palco.

Gazeta do Povo – Você declarou, na ocasião do lançamento de Samba Meu, que não tinha a menor pretensão de virar sambista. O samba a fisgou ou ainda sustenta essa posição?

Maria Rita – O fato de eu ter gravado o disco não muda em nada essa minha posição – sou uma eterna apaixonada pelo samba, mas realmente não sou uma sambista. O que já até gerou bronca de alguns amigos, que dizem que sou, sim, sambista, que eu tenho que parar com essa bobagem de dizer que não sou. Acho isso bonito da parte deles! Existe toda uma subcultura do samba, de que eu participo, que eu consumo, que eu observo, mas não ouso me considerar sambista.

Como a mudança de São Paulo para o Rio de Janeiro alterou a sua vida?

Eu estou mais calma, acredite ou não. Consigo lidar melhor com os desafios, só de saber que pego meu carro e em dez minutos estou na praia, ouvindo o barulho do mar que me acalanta. O Rio é mais quente, e não lido bem com o frio… Me considero privilegiada, porque posso usufruir do melhor de ambas cidades.

O show Samba Meu está na estrada desde quando? Como tem sido a repercussão de público?

Estamos na estrada desde novembro de 2007, quando estreei na Fundição Progresso, aqui no Rio maria-rita-tn_280_651_maria_rita_entrevistamesmo. A repercussão tem sido melhor do que eu esperava. Estou muito realizada e com um orgulho tremendo da turma que reuni para montar esse show. A galera percebe minha alegria, comprou essa briga comigo, cresceu comigo. Adoro essa relação com o público.

Você sentiu alguma dificuldade em cantar samba e dançar ao vivo?

Dificuldade propriamente dita, não. Mas desafio, sim. Porque as canções que entraram no disco Samba Meu foram escritas por homens e, em sua maioria, para homens. Então a coisa de extensão vocal, de intervalo melódico, foi um desafio já em estúdio – para o palco então, em cima de um salto, mais ainda. Esse espetáculo era todo um grande desafio: é o show mais elaborado e interativo que já montei, com mais luz, mais cenário, troca de figurino, salto alto… Mas eu sou um ser inquieto, que sempre busca mais.

Quem assiste ao show se surpreende com a sua postura no palco, muito mais sensual do que costumava ser. O que mudou?

Nada! Só o meu conforto comigo mesma de me permitir mostrar um lado que antes eu nem sequer considerava mostrar. Sempre existiu uma pitada de sensualidade nos meus shows, mas de uma forma muito sutil e tímida, porque eu sou uma mulher tímida. O samba me libertou, por assim dizer. Não muito, claro, porque me recuso a abusar da liberdade que a música me dá em cima de um palco. Não sou uma mulher vulgar. Eu entendi, comigo mesma, que tudo bem ter um figurino mais ousado, que eu não estaria desrespeitando nem a minha história nem àqueles à minha volta. Mas é coisa de momento e eu celebro este momento.

A Maria Rita mais dramática, de músicas como “Muito Pouco”, ainda faz sentido para você? Deve reaparecer em discos futuros?

Absolutamente. Sou uma intérprete. Só consigo cantar o que me toca. Meus discos têm um tom autobiográfico. “Muito Pouco”, por exemplo, me remete a uma história que, sempre que a canto, os sentimentos voltam… É maravilhoso: exorcizo tudo todas as noites. Por isso saio tão cansada dos meus shows. Pode ter certeza que esse tom autobiográfico estará sempre presente nos meus trabalhos.

O setlist do show em Curitiba será o mesmo da apresentação fechada que aconteceu na cidade meses atrás? Ouvi dizer que “Santa Chuva” saiu… E, na ocasião, os insistentes pedidos por “Pagu” tiveram como resposta sua a possibilidade de a música entrar no show. Afinal, como está o repertório?

Está exatamente como você colocou!

Existe algum projeto de investir na carreira internacional? Caso sim, apostaria mais no jazz?

Na carreira internacional eu já invisto há seis anos, desde que começei a cantar profissionalmente. Mas, não, não apostaria mais no jazz. Eu sou cantora de música brasileira que gosta muito de cantar jazz. E tem uma grande diferença nisso. Descarto gravar em inglês? Não. Descarto gravar um disco em espanhol? Não. Descarto gravar jazz? De jeito nenhum.

Quando sai o DVD? E o que se pode esperar dele?

Primeira semana de setembro. Pode-se esperar o show como ele realmente é. Tudo o que está no DVD rolou no show daquele dia. Refizemos somente duas canções, mas ficamos com as primeiras versões de ambas – ou seja, o fã vai ver o show de cabo a rabo, como aconteceu, sem mentira nenhuma, o que, para mim, é uma vitória incrível. Colocamos o videoclipe de “Num Corpo Só”, dirigido pelo Hugo Prata, e ele também criou um videoclipe para a música do bis, “Não Deixe o Samba Morrer”, que ficou emocionante. Haverá um slide show com fotos do Marcos Hermes e um making of do dia do ensaio geral e do dia do show. Muito incrementado, porém muito direto ao ponto.

 

GP.

 

INEFÁVEL poema de cruz e souza

Nada há que me domine e que me vença  
Quando a minha alma mudamente acorda…  
Ela rebenta em flor, ela transborda  
Nos alvoroços da emoção imensa. 

Sou como um Réu de celestial sentença,  
Condenado do Amor, que se recorda  
Do Amor e sempre no Silêncio borda  
De estrelas todo o céu em que erra e pensa. 

Claros, meus olhos tornam-se mais claros 
E tudo vejo dos encantos raros  
E de outras mais serenas madrugadas! 

Todas as vozes que procuro e chamo  
Ouço-as dentro de mim porque eu as amo  
Na minha alma volteando arrebatadas 

PELE & OSSO ou DA CARNADURA das PALAVRAS – por jairo pereira

A poesia de Neuza Pinheiro no seu primeiro livro impresso, individual, como eu previa, alumbra a paisagem da lírica brasileira. Edição Fundação Cultural de João Pessoa – FONJOPE, 95 pgs. Prêmio Nacional de Literatura Lúcio Lins 2008. São muitas as Neuzas que se revelam, fortes, em pele e osso e na carnadura das palavras. Essa poeta, mulher, densa e resolvida, no seu psiquismo, pede “bis” à vida, como ela mesma expressou numa correspondência ao ora aventureiro a crítico. Gosto, regosto do seu estilo não-estilo. Conhecimento da palavra/poema repetida, principalmente nos primeiros poemas do livro. Não há desperdício de imagens. A palavra vem seca, pele & osso no mundo do sensível. Imagino os poemas do livro levados ao teatro, em performances alucinadas, com muito movimento de luzes, ação. Eu diria, dentre outros, este: “nessa lágrima pesarosa/composto de metais em solução aquosa/me veio a visão repentina/de ser massa entre os blocos/da Muralha da China”. A poesia espiritual, material, cotidiana e espectral de Neuza Pinheiro, é lux do pensamento acelerado. A mulher trabalhadora, madura, de visão crítica, inserida no social que aniquila e mata o ser criador, rebate com as catanas do talento as sombras. “me pisam nemas ninféias/luas danosas gementes/floemazuis viscerantes/deformidades maléias”. Uma poeta que amalgama coisas, sensações, fluxos verbais, imagens espectrais, silêncios e cogitações, só pode mesmo haurir a melhor poesia. Numa época em que poetas perseguem conceitos, fórmulas de se dar bem na escritura, em sendo sempre o outro, a poeta de Pele & Osso, revela-se visceral, abrindo-se na carne das palavras e no mais profundo do seu ser. Pele & Osso. Transcende a artista, o rigor vital de seu dizer, e a angústia que perpassa versos e versos, soa monocórdio alerta de um ser em crise. Um ser que somos, todos. Não há saída para o irreversível. O que não tem remédio, solução. Esse grito da alma a que Neuza Pinheiro expande no universo, vibra em dor. Queria e faço isso, digredir além dos ossos, pele e carnadura das palavras. A mônada que sustenta a poesia de Neuza Pinheiro, traz sim a angústia dos séculos. A mulher, nua, prolífera de sonhos, ilusões, rescaldos de sofrer, amar, projetar, frente ao real que agride e conspurca contra o intelecto. Vontade de amá-la sempre. Um ser cálido, transmitindo calor e segurança ao outro que pouco conhecemos. Que bom pudesse… Auto-conhecimento e poesia. Auto-conhecimento e viver. Auto-conhecimento e re-conhecer-se em meio a objetalidade presente. A poeta não perde o discurso pele & osso, vetor da sua realidade compósita de sofrer, amar, criar. Uma fuga o criar, sem precedentes. O criar que sublima e enleva o criador. Vivemos a era dos sem-leitura, do pensamento dispersivo, que revisita relâmpago, links, blogues, sites, objetos espectrais, conceitualmente distantes do livro e seu convite ao raciocínio lesto. “o poema não disse a que vinha/trouxe em gris em grous a vinha/rascou seu rastro de prata/da lua até a cozinha”. Não sei se é pelo conhecer de Neuza Pinheiro que detenho, em senti-la no tudo que nos comunicamos, que me marcam seus poemas e sua vida. A primeira vez que li/senti poemas seus foi na Revista Coyote, e já me sinalizaram a grande poeta/mulher, complexa na pegada, batalhadora da palavra bela, pele e osso, sangue e carne. Re-gosto do poeta autêntico que dá a cara pra bater, explora sua aura suja e nada espera em retorno. É suja de “psíquico” a poesia de Neuza. Suja e malcheirosa às vezes. Como a fêmea animal que lambe a cria, ainda túmida do sangue do nascer, a poeta perpassa emoções, sentimentos em auto-análise, ou auto-crítica: “sou uma mulher/sem cão/sem gato/sem pássaro/já levei à morte um mini-cacto/agora me seca a samambaia”. Há humor, como chuva ácida nessa poesia. Humor, angustiado, que não consegue e nem pretende, apagar a dor hospedeira dos poemas. Dolorida, a poeta pede “bis” à vida. Re-gosto, sua verve de pan-conhecimento. Os saltos no escuro. O pensamento ágil, lêmpto, na composição do poema. Taí uma poeta brasileira de encher os olhos de lágrimas. Uma poeta de rigozijo, em descobri-la autêntica, nathural, nathuralíssima no dizer. Meu olhar crítico e a lâmina do ver, desver, transver, não me habilita a grande coisa, ainda mais, quando esmorecemos ante a indiferença no poético. A era da corrosão do pensamento. O superimpulso de gerações, na velocidade do pecado. Ah. Phoda-se a indiferença das multidões! Teocrática verdade. A poesia de Neuza Pinheiro, finca raízes no céu da lira entusiasmada, na época do sem-entusiasmo. “sob uma perspectiva de náusea/diante da beleza/escolho a lesma/que a um punhado de sal/se desagrega/e aprisionada ao ser não ser/orvalho ou pérola/deixa de si mesma o longo leia-se/só alma/em rastro acesa”. A mulher nua que eu vejo, re-vejo, poeta e criadora dá prazer em expô-la aos ímpios. Faço isso. Os sentidos, revelam ausência, pesarosa presença, desfaçatez, indiferença, preâmbulos de escuridão e asco. Os sentidos do outro, com relação à poesia, é pouco mais que nada. Mas os poetas prosseguem em sua sina de descortinar o desconhecido, ou o conhecido des-sentido. Na palavra de Neuza pele, osso, carne de palavras duras, aflitivas até, reveladoras do “eu profundo” o “eu” encasulado no próprio “eu”. Pra arremate de meu parco dizer sobre a poeta, não poderia deixar de arremessar mais este: “estava lá/trêmula de tão nua/e não havia pressa na voragem dos/tempos. A noite era só uma/e eu me encontrava nesse estado líquido de/coisas”.

 

 

jAiRo pEreIrA

Autor de O abduzido e outros.


 

 

HISTÓRIA: À PROCURA DOS FATOS por walmor marcellino

A vida dos “homens ilustres” não é a história, mas a história não pode esquecer a hegemonia social, conquanto “os fatos da existência social em relevo” não venham sendo mais do que uma seleção da média jornalística ‑ ainda que nela estejam efetivamente contidos a luta das classes na conquista da produção e administração de seus resultados, e ademais um contencioso do próprio poder nos conflitos pelo poder, isto é, na política.

Basta ao nosso conhecimento político saber como agem e pensam as classes dominantes? E como se lhes reagem os produtores diretos por seus interesses fundamentais nesse processo social de classes, ou no que remanesceu dessas classes em transformação? Sim; porém como a história poderá fazer-lhes uma síntese ou uma expansão reveladoras, senão tentando delinear-lhe os traços mais significativos da tensão social de que compartilham? Particularmente, sob o poder dos planos e projetos político-administrativos “de mudança”, seu pensamento e sua ação. O demais, ficará à conta da “a sociedade do espetáculo” evidenciada por seus cronistas.

Se “a chamada ‘classe política’ ou elite não é outra coisa senão a categoria intelectual do grupo social dominante” (A. Gramsci: Cadernos do Cárcere) e vivemos a sociedade que nos conforma porém que desejamos flexibilizar para nossa ação, como escolher (e disseminar) os fatos da relação de poder político na formação social que o cotidiano ressalta à nossa vidência? Os fatos nos diminuem até o esquecimento e o poder nos envolve e determina o modo de existência; e assim só as sínteses históricas nos podem re-situar na vida social.

EDU HOFFMAN – HAICAIS

nunca avaro

 

   rima para a lâmpada

 

      encontro, claro  

 

 

=

 

 

                        vida que sorvo

 

                     do bico da cegonha

 

                       ao bico do corvo

 

=

 

 

memória rã

 

 

 

                    meu micro

 

                       sóft

 

                    na lagoa

 

=

 

 

estórias

 

 

                       Ivo

 

                       viu

 

                        a

 

                       uva

 

                       uma

 

                       óva

 

=

 

 

                                        lobisomens

 

                               que seriam dos deuses  

 

                                  sem os homens ?

 

=

 

 

 

            trilha de gente

 

         cacos dejetos lixo

 

           bicho não passa

 

 

BILL GATES NA FEIRA COMDEX – editoria

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Numa recente feira de informática (Comdex), Bill Gates fez uma comparação da indústria de computadores com a automobilística, declarando:

“Se a GM tivesse evoluído tecnologicamente, tanto quanto a indústria de computadores evoluiu, estaríamos dirigindo carros que custariam 25 dólares e que fariam 1000 milhas por galão (algo como 420 km/l)”.

A General Motors, respondendo, divulgou a seguinte nota:

Se a Microsoft fabricasse carros:

01 – Toda vez que eles repintassem as linhas das estradas, você teria que comprar um carro novo.

02 – Ocasionalmente, dirigindo a 100 km/h, seu carro morreria na Auto-estrada sem nenhuma razão aparente, e você teria apenas que aceitar isso, sem compreender o porquê! Depois, deveria religá-lo (desligando o carro, tirando a chave do contato, fechando o vidro saindo do carro, fechando e trancando a porta, abrindo e entrando novamente… Em seguida sentar se no banco, abrir o vidro, colocar a chave no contato e ligar novamente). Depois, bastaria ir em frente.

03 – Ocasionalmente a execução de uma manobra à esquerda poderia fazer com que seu carro parasse e falhasse… Você teria então que reinstalar o motor! Por alguma estranha razão você aceitaria isso como “normal”.

04 – A Linux faria um carro em parceria com a Apple, extremamente confiável. Cinco vezes mais rápido e dez vezes mais fácil de dirigir. Mas apenas poderia rodar em 5% das estradas.

05 – Os indicadores luminosos de falta de óleo, gasolina e bateria seriam substituídas por um simples “Falha Geral ou Defeito Genérico” (permitindo que sua imaginação identifique o erro!).

06 – Os novos assentos obrigariam todos a terem o mesmo tamanho de bunda.

07 – Em um acidente, o sistema de air bag perguntaria: “Você tem certeza que quer usar o air bag?”.

08 – No meio de uma descida pronunciada, quando você ligasse o ar-condicionado o rádio e as luzes ao mesmo tempo, ao pisar no freio apareceria uma mensagem do tipo “Este carro realizou uma operação ilegal e será desligado!” (IRRETOCÁVEL).

09 – Se desligasse o seu carro utilizando a chave, sem antes ter desligado o rádio ou o pisca-alerta, ao ligá-lo novamente, ele checaria todas as funções do carro durante meia hora, e ainda lhe daria uma bronca para não fazer isto novamente. (ÓTIMA).

10 – A cada novo lançamento de carro, você teria de reaprender a dirigir. Coisa fácil: voltaria a auto-escola para tirar uma nova carteira de Motorista. (PODE PARECER EXAGERO, MAS PENSANDO BEM É ISSO MESMO).

11 – Para desligar o carro, você teria de apertar o botão “Iniciar” (PERFEITA).

12- A única vantagem: Seus netos saberiam dirigir muito melhor!

UMA ANDORINHA SÓ, NÃO FAZ VERÃO! poema de deborah o’lins de barros

Andorinhas solitárias: uni-vos!

Vamos de encontro às teorias ultrapassadas

da sociologia clássica!

Façamos nossos pedaços de verão

e, de grão em grão,

a revolução se fará.

Cruzar os braços é como votar em branco,

e não sejamos brandos:

o conhecimento é socialista,

somos pássaros com sementes nos bicos,

não temos o direito de ser egoístas.

Andorinhas solitárias, não somos elite,

apenas temos nosso feijão-com-arroz cultural diário,

e nosso dever é dividi-lo,

para depois vê-lo multiplicado.

A cultura agoniza,

a educação agoniza,

e nos resignamos com o ditado.

Andorinhas solitárias, uni-vos,

e, de grão em grão,o

verão estará no papo.

Mosca usa “computador de bordo” para escapar dos nossos tapas – editoria

 

Cientistas descobriram como elas fogem do perigo com tanta tranqüilidade. Acha que é mais rápido que elas?

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Ela vem sorrateira. Voa tranqüila. Pára bem na sua frente. Você se prepara. Respira fundo. Tenta ser o mais rápido possível. E a mosca voa com serenidade para um local seguro. Parece até rir da sua cara. Como é que pode? Cientistas descobriram. As moscas sempre escapam do seu tapão porque possuem uma espécie de “computador de bordo”. Elas são capazes de calcular com precisão a velocidade e o trajeto do perigo, e voam para bem longe dele.

Mas se elas têm “computadores”, os cientistas não devem nada nesse quesito. E foi com a ajuda deles que os pesquisadores do Instituto de Tecnologia da Califórnia, nos Estados Unidos, descobriram o truque das mosquinhas. E publicaram na revista “Current Biology” desta quinta-feira.

Com câmeras de alta resolução e computadores avançados, os cientistas conseguiram filmar uma mosca em ação. E calcularam que cerca de 100 milissegundos antes de levantar vôo, seu pequeno cérebro já percebeu que há uma ameaça, já viu de onde ela vem e para onde está indo e obteve a velocidade do perigo. Ela então adapta sua postura e, com facilidade, voa para longe. Ao todo, o processo leva 200 milissegundos. Você consegue ser mais rápido? Tente!

A descoberta “ilustra quão rapidamente o cérebro das moscas pode processar informações e dar a resposta motora apropriada”, explicou o autor do estudo, Michael Dickinson, em nota.

A operação toda não pode ser considerada um “reflexo”, porque a mosca pode mudar de idéia e ir para outro lado quando bem entender. Ela sabe muito bem o que está fazendo. Dependendo do que a ocupa no momento (ela pode ser se alimentando, “paquerando” um potencial parceiro ou simplesmente irritando alguém), a reação é diferente, mas o resultado, o mesmo.

Um cérebro tão esperto em um bichinho tão minúsculo faz Dickinson pedir um maior “apreço” à melhor amiga dos cientistas. “Pense antes de tentar matá-las”, diz ele. Mas pense rápido.

G1/agência

 

CHIMARRÃO E POESIA poema de jayme caetano braun

 

O payador missioneiro
Sente o calor do braseiro
Batendo forte no rosto
E vai mastigando o gosto
Da velha infusão amarga,
Sentindo o peso da carga
Que algum ancestral comanda
Enquanto o mundo se agranda
E o coração se me alarga

Sempre a mesma liturgia
Do chimarrão do meu povo,
Há sempre um algo de novo
No clarear de um outro dia,
Parece que a geografia
Se transforma – de hora em hora
E o payador se apavora
Diante um mundo convulso
Sentindo o bárbaro impulso
De se mandar campo fora!

Muito antes da caverna
Eu penso – enquanto improviso,
Nos campos do paraíso
O patrão que nos governa,
Na sua sapiência eterna
E eterna sabedoria,
Deu o canto e a melodia
Para os pássaros e os ventos
Pra que fossem complementos
Do que chamamos poesia!

Por conseguinte – o Adão,
Já nasceu poeta inspirado,
Mesmo um tanto abarbarado
Por falta de erudição
E compôs um poema pagão
À sua rude maneira,
Para a sua companheira,
A mulher – poema beleza,
Inspirado – com certeza
Numa folha de parreira!

Os Menestréis – os Aedos,
Os Bardos – Os Rapsodos,
Poetas grandes – eles todos,
Manejando a voz e os dedos
Vão desvendando os segredos
Nas suas rudes andanças,
As violas em vez de lanças,
Harpas – flautas – bandolins,
Semeando pelos confins
As décimas e as romanzas!

Tanto os poetas orientais
Como os poetas do ocidente,
Cada qual uma vertente,
Todos eles mananciais,
Nos quatro pontos cardeais
Esparramando canções
E – no rastro das legiões
Do lusitano prefácio,
A última flor do lácio
Nos deu Luiz Vaz de Camões!

No Brasil continental
Chegaram as caravelas
E vieram junto com elas
As poesias – com Cabral,
Para um marco imemorial
Nestas florestas bravias
Perpetuando melodias
De imorredouro destaque:
Castro Alves e Bilac
E Antônio Gonçalves Dias!

Neste garrão de hemisfério
Quando a pátria amanhecia
Surgiu também a poesia
No costado do gaudério
Na pia do batistério
Das restingas e das flores
E a horda dos campeadores
Bárbara e analfabeta
Pariu o primeiro poeta
No canto dos payadores!

E foi ele – esse vaqueano
Do cenário primitivo,
Autor do poema nativo
Misto de pêlo e tutano,
De pampeiro – de minuano,
Repontando sonhos grandes;

Hidalgo – Ramiro – Hernández
El Viejo Pancho – Ascassubi
Mamando no mesmo ubre
Desde o Guaíba aos Andes!

Há uma grande variedade
De poetas no meu país,
Do mais variado matiz
Cheios de brasilidade,
De um Carlos Drummond de Andrade
Ao mais culto e ao mais fino,
Mas eu prefiro o Balbino,
Juca Ruivo e Aureliano,
Trançando de mano a mano
Com lonca de boi brasino

João Vargas – e o Vargas Neto
E o Amaro Juvenal,
Cada qual um manancial
Que ilustram qualquer dialeto,
Manuseando o alfabeto
No seu feitio mais austero,
Os discípulos de Homero
De alma grande e verso leve,
Desde sempre usando um “breve”
De ferrão de quero-quero!

Imagino enquanto escuto
Esse bárbaro lamento
Que a poesia é o som do vento
Que nunca pára um minuto,
Picumã vestiu de luto
A quincha do Santafé,
Mas nós sabemos porque é
Que o vento xucro não pára:
São suspiros da Jussara
Chamando o índio Sepé!

 

 

gaucho-mate

POEMA PARA MEU PAI – de ivo barroso

Meu pai morreu longe de mim
(eu é que estava longe dele).
Tantos anos se passaram
e ainda não lhe vi a sepultura.
Continuo longe. Mas sua presença
me sacode como um choque elétrico,
uma bebida forte que me arde
por dentro.
Está vivo nos meus dedos,
nos cabelos ralos
— a nuca, dá arrepios de se ver.
Está cada vez mais perto de mim
(eu é que estou mais perto dele).

FOTOGRAFIA poema de joanna andrade

Longa omissão,

covas e mais covas,

intermináveis lacunas sem expectativas,

sem cadáveres,

um infinito mar de sangue insipido claro e invisivel,

nada.

 

réquiem prum inimigo – poema de jorge barbosa filho

eu fico extasiado

com teu olhar de abismo

onde me atiro,

e procuro louco

o meu abrigo.

 

enterrar meu corpo,

no cemitério

de teu sorriso…

é vôo impreciso,

e minha língua prova

as asas de tuas salivas…

.

ah! me leva pro céu!

só pra soprar um risco..

uma nuvem…

me faz um anjo lindo,

enquanto eu traço

a dor que imagino.

 

chorei bastante,

te enterrei dentro de mim

me matei , te matei

tanto, que nem te digo…

você morre comigo!

o dilúvio das fronhas

não eram apenas chuvas!

 

ei, baby, aceite

o bônus track

da escuridão

de nossas palavras…

perdi a noção do perigo

te deitei na minha cama

pra sonhar contigo

e acordei com o inimigo!

 

mas ainda saí vivo!

vivo!

MARILU WOLFF abre exposição no JOKERS

A artista plástica curitibana Marilu Wolff abriu nesta segunda-feira, dia 13, às 20 horas, a exposição individual As Cores da Periferia, no Jokers (R. São Francisco, 164). Na ocasião ela selecionou 13 obras que, como o próprio título adianta, apresenta figuras humanas ligadas, principalmente, as pessoas que moram e trabalham na periferia, no campo, às margens da grande cidade. “Esse é um tema que me atrai bastante e me identifiquei muito. O meu trabalho mostra as pessoas que trabalham no setor primário da economia, com obras muitas vezes inspiradas nas fotografias do Sebastião Salgado”, define Marilu. A exposição tem entrada franca e permanece aberta até o dia 13 de junho.

Ao falar sobre sua obra Marilu acredita que por intermédio da figura humana ela consegue expressar muitas coisas que gostaria de passar para as pessoas. “As minhas obras estão relacionadas ao trabalho do homem do campo, do carpinteiro e outras funções que muitas vezes não são valorizadas”. O tema é recorrente na sua carreira. “Acho que agora meu trabalho está mais seguro e percebo que criei um estilo próprio. É uma marca que pode ser reconhecida quando as pessoas olham a minha obra”, comenta.

No início essas figuras eram representadas pela artista de forma mais suave e, ao poucos, elas foram ganhando mais expressão. Principalmente por conta evolução cromática da artista. “Eu percebo que há um amadurecimento não só das expressões mas, também, pelo uso da cor dos ambientes que são bem vivas, que faz um contraste com a cor das pessoas”, avalia Marilu.

Marilu conta que vai apresentar telas que foram produzidas por ela a partir de 2005. “Ultimamente tenho usado nas figuras humanas uma cor violeta que traduz uma expressão maior para as dificuldades enfrentadas para os personagens que eu apresento nas telas. Hoje estou totalmente satisfeita com esse resultado”.

Serviço:

As Cores da Periferia. Exposição da artista plástica Marilu Wolff. No Jokers (R. São Francisco, 164 – centro Histórico). Abertura segunda-feira, dia 14, às 20 horas. A exposição permanece até o dia 13 de junho. Horário de visitação: de segunda a sábado, das 18 horas até meia-noite. Entrada franca. Informações: 41 3324 2351.

Mais informações e entrevistas:
RB – Escritório de Comunicação
Rodrigo Browne 41 9145 7027
Bárbara B. 41 3363 775

 

PAIXÃO DE COSMONAUTA poema de leonardo meimes

 

Uma caindo aqui

Outra lá

Branquinhas.

 

Redondas, espaçadas

Algumas até enfurecidas.

 

Negra por excelência

Da carne.

 

Vermelha no coração

Fervente

 

Azul… por que é sim azul

Mas também por ser Blues

 

Macia para os que

A tocam com respeito

 

Dura e pesada

Para quem dela usa

Sem medo

 

Marcada pelos carimbos

Do sol

 

Pelas intempéries

Do mundo…

Não será ela o mundo?

 

Feminina no nome

Nas ações maternas

 

Masculina na ferocidade

Das reações

 

Dúbia por ser linda, amável

Perigosa, incontrolável

E tudo que realmente

Nos é valioso

 

Passam muitos dias

Sem que ela seja percebida

MANOEL DE ANDRADE faz lançamento, dia 15/04, de seu livro POEMAS PARA A LIBERDADE.

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Poemas para a liberdade

Até então inédito no Brasil, o sucesso editorial de Poemas para a liberdade foi tão considerável quanto seu alcance “político”. A obra estreou em 1970, na Bolívia. A 2a edição, colombiana, esgotou-se em poucas semanas nas livrarias de Cali e Bogotá. A 3a edição, lançada em San Diego, em 1971, espalhou-se pela Califórnia e pelo sudoeste dos EUA, levada pelos estudantes e intelectuais chicanos. Suas primeiras edições panfletárias, lançadas em 1970 em Cuzco e Arequipa, espalharam-se pelo meio estudantil do Peru e percorreram a América nas mochilas de estudantes latino-americanos. Seus poemas foram publicados em jornais, revistas, opúsculos, cartazes e panfletos.

Catarinense radicado no Paraná, onde se formou em Direito, o autor Manoel de Andrade deixou o Brasil em março de 1969, perseguido pela panfletagem de seu poema “Saudação a Che Guevara”, em uma época em que sua poesia começava a ser conhecida nacionalmente por meio de jornais e publicações como a Revista Civilização Brasileira. Expulso da Bolívia em fins de 1969, onde chegou em setembro para se integrar ao movimento guerrilheiro comandado por Inti Peredo, preso e expulso do Peru e da Colômbia em 1970, seus Poemas para la Libertad tiveram uma trajetória política e uma aventura literária que dificilmente outro livro tenha tido. Como falam da luta armada e cantam a saga guerrilheira em uma América Latina então controlada por ditaduras militares, cruzaram clandestinamente certas fronteiras, como uma mala com 200 exemplares da edição boliviana, que chegou a Guayaquil por via fluvial, trazida do Peru por contrabandistas equatorianos.

Poemas para a liberdade consta de vários catálogos da literatura latino-americana e seus poemas, de várias antologias, como Poesia Latinoamericana – Antología Bilingüe, publicada em 1998 pela Epsilon Editores de México., em que o autor partilha suas páginas com consagrados poetas, como Mario Benedetti, Juan Gelman e Jaime Sabines.

A capa do livro foi inspirada em cartaz anunciando recital do autor em 1970, na Universidad de Los Andes, Bogotá.

 

 

A ROSA DE VENTO E ÁGUA poema de otto nul

Surgiu no jardim

Uma rosa

De vento e água;

 

Foi vista como uma aparição

Insólita ou absurda

Quase milagrosa;

 

Espectral, ali ficou

Irradiando pálida luz

Para estranheza geral;

 

À noite, a rosa

De vida efêmera

Evaporou-se no ar.

 

O EGOISMO SOCIAL E A MOBILIDADE HUMANA por tonicato miranda

 


No último 22 de Setembro de 2008, no auditório do Ministério das Cidades, aconteceu o Seminário “Jornada Na Cidade Sem Meu Carro”. Dos que participaram do evento, 80% chegaram a ele conduzindo um automóvel ou vieram como passageiro de veículo motorizado. O evento teve a abertura do Ministro das Cidades, do Governador de Brasília e do representante do DENATRAN. Não pode ser dito que foi hipocrisia, mas o Ministro chegou ao evento pedalando uma bicicleta emprestada, em um trecho de menos de dois quilômetros. Valeu pelo simbolismo.

Ao final do evento todos se dirigiram aos seus carros e o Ministro, seguiu para outro rumo no banco de trás do automóvel oficial, guiado por seu motorista vestido de quepe e da pompa da institucionalidade do cargo, felizmente sem luvas brancas.

Estamos todos doentes. A velocidade dos automóveis, reflexo dos avanços buscados a peso de ouro e dos petroeuros pelo mundo da Fórmula 1, pela Fórmula Indy, é objeto de consumo impossível para os citadinos. Nas cidades, nossas velocidades de segurança não devem ultrapassar a 60 km/h, sendo 35 km/h, segundo estudos de vários institutos de pesquisa da Alemanha, da Holanda e da Suécia, aquela em que um pedestre tem 85% de chance de sobreviver num atropelamento. Não é à toa que hoje circula em toda Europa forte campanha para convencer as autoridades municipais a adotar para a maioria das vias urbanas a velocidade de 30 km/h.

Muitos diriam ser pouco. Mas quanto vale a vida dos nossos avôs, bisavôs ou das nossas crianças? tonicato-miranda-foto-da-depressao-de-20-nos-euaO automóvel vem se transformando no nosso bem, nosso mal, desde seu início, no final do Século XIX. Nascido simultaneamente com a bicicleta, da mesma forma que a magrela, faz tempo já atingiu o seu limite de desenvolvimento e eficiência.

No livro o Choque do Futuro foi mostrada a sua ineficiência. Embora atraente, pode-se mostrar como esta máquina é extremamente incompetente. Para transportar 55 ou 85 kg do peso de um adulto a tara (o peso próprio) dos automóveis tem de 1.100 a 1.700 kg. A bicicleta, para transportar estes mesmos pesos de carga não tem mais de 15 kg. Assim, o automóvel carrega vinte vezes mais o peso da carga a transportar, enquanto a bicicleta tem seis ou sete vezes menos o peso da carga transportada.

Muitos diriam isto é bobagem, o importante é que dentro do meu veículo eu ouço música, estou “protegido” e ele me leva onde eu quero “rapidamente”. Mas protegido do que? O acidente entre veículos motorizados é a segunda “causa mortis” em nosso País há muito tempo. Consegue fazer mais vítimas do que os atropelamentos de pedestres e de ciclistas. Senão vejamos alguns dados apenas da nossa cidade símbolo da motorização e terceira maior metrópole do planeta.

Pois São Paulo, em 2005 apresentou 1586 mortos no trânsito, sendo 757 atropelamentos de pedestres; 39 ciclistas; 177 motociclistas e 132 passageiros dos automóveis. Embora estes dados retirados do “blog” “Apocalipse Motorizado” tenham sido elevados em muito nos últimos três anos, eles já mostram o cenário de guerra no qual vivemos. Somente para se ter uma idéia, em 2008 o número de motociclistas mortos ascendeu para 857, segundo dados da Companhia de Engenharia de Tráfego – CET.

Mas o automóvel é o meu conforto e não abro mão dele, diriam os mais acostumados às comodidades da motorização. Está certo. Ainda agora, neste nosso último feriado da Semana Santa, os jornais estamparam em suas páginas “São Paulo bate recorde de congestionamento – 235 km”. Isto é progresso? É isto que queremos para nossa cidade? Para nossas vidas? Ficarmos engarrafados no trânsito, dentro de um veículo com ar condicionado, por horas a fio? Não é à toa que São Paulo tem a terceira maior frota de helicópteros do mundo.

Assim, esta coisa de dizer que ter carro é símbolo de “status social”, é somente para otário e pobre de espírito. Há muito tempo que ricos em São Paulo andam de helicóptero. Também não sendo incomum a presença de inúmeros edifícios com muitos heliportos em suas coberturas. Para que? Para que os grandes capitalistas não enfrentem o que todos os mortais enfrentam no seu dia-a-dia. Grandes congestionamentos, muita irritação, fechadas de veículos, bate-bocas generalizados com vidros escancarados, alguns culminando em agressões físicas e mortes de bala de chumbo grosso mesmo.

A Grande jornalista/urbanista Jane Jacobs, em seu laureado livro Vida e Morte das Grandes Cidades Americanas, teceu uma frase antológica “bicicletas aproximam as pessoas, automóveis afastam”. Como ciclista, confirmo integralmente esta máxima e posso “dar meu testemunho”. Estava em Utrecht, na Holanda, acompanhado de um amigo holandês que me mostrava a cidade e os projetos nela implantados para a bicicleta. Ao final do nosso encontro nos despedimos e fiquei a olhar a sua trajetória de saída. Logo uns trinta metros à frente, percebi que ele se dirigia a outro ciclista e perguntava se poderia acompanhá-lo, pedalando ao seu lado. Ou seja, é possível entre ciclistas, quase de imediato estabelecer uma camaradagem, coisa muito rara em se tratando de motoristas, sempre em regime de competição e disputa por oportunidades, seja vaga para estacionar, seja espaço para circular.

No entanto, o maior egoísmo social é a publicidade veiculada nas TVs e nos programas de auditório, fazendo do automóvel o objeto de desejo de consumo de classes de renda muito baixa. São inúmeras as residências que mal têm seis metros de testada de lote, mas que guardam espaço para abrigar um automóvel. Ou seja, têm a cama sobre o veículo, e este tem seu espaço garantido, mesmo que não haja espaço na sala de estar para comportar toda a família para assistir a um programa de TV, e/ou mesmo uma alimentação de qualidade.

Posso afirmar ser este um egoísmo social porque os governos não provêem as cidades de espaços seguros e agradáveis para as famílias passearem ou simplesmente estar. No passado os passeios públicos, parques e praças já cumpriram este papel. Hoje, porém, com o egoísmo exacerbado, a violência sem o freio do policiamento folgado e burocrático, transformou o espaço da rua em espaço da dúvida, da terra de ninguém e do medo.

É claro que o automóvel alarga o horizonte e permite às famílias aproveitar momentos de férias e de feriados prolongados. No entanto, muitos em tempos como o da Semana Santa ou do próximo feriado de Tiradentes, ficarão na cidade. Alguns por decisão própria, outros por total falta de condições para sair de carro, ou em se abrigar na casa de um parente em outro local. O fato é que nem todos têm dinheiro sobrando para bancar estadia em hotel ou realizar gastos com viagens. Em geral, como diria Caetano Veloso, ficam nas grandes cidades os “pretos e pobres, que são quase todos pretos” e acrescento eu, e ainda alguns brancos, mas igualmente pobres, além dos velhos etonicato-miranda-congestionamento-na-beira-mar-norte dos enfermos.

Agora a nova moda entre os proprietários de automóvel é usar o defectível vidro escuro, transformado por uma película conhecida como “insufilm”. Covardia. Afirmo ser isto uma covardia porque faz do motorista um ser anônimo e impede aos pedestres e aos ciclistas que entendam a intenção dos condutores de autos e se estes estão enxergando nossos movimentos. Afirmam os motoristas que este procedimento visa a dotar os veículos de melhor conforto, diante das condições do nosso País tropical, muito quente em determinados períodos e com luz por demais ofuscante. Também porque os protege de assaltos na via pública. Cretinice – adianto. A segurança é exatamente o contrário. Qualquer seqüestrador ou assaltante poderá fazê-lo sem nenhuma percepção dos demais transeuntes de uma via. Dado que não há visão, não há segurança.

É bem por isto que se comprova que as casas mais seguras não são aquelas cheias de trancas e de muros altos, onde o ladrão depois que entra se encontra seguro para praticar as maiores atrocidades, sem que nada seja percebido pela vizinhança. E isto é tão real e científico que os projetos mais ricos de Florianópolis e adjacências, como em Jurerê Internacional ou em Pedra Branca, no município de Palhoça, as casas não têm muros, mas cercas singelas, com arbustos sempre cortados à meia altura.

De volta à mobilidade, não se entende porque os governantes apartaram a bicicleta do cenário das cidades, deixando de oferecer infraestruturas adequadas e seguras à circulação dos ciclistas. Dizem os governantes “não há espaço”. É claro que não, nas nossas cidades mais de 30% do espaço dos seus territórios são ocupados por áreas para circulação e estacionamento de veículos motorizados.

Apenas na cidade de São Paulo a CET estima que há 1 milhão de vagas públicas gratuitas. Quantas existem em Curitiba? Em Florianópolis e em outras cidades quantas são? 200 mil? Quantas vagas existem para deficientes nessas cidades? Em São Paulo são 158. Ou seja, 0,015% ou um centésimo de 1%. E será que existem apenas 158 deficientes querendo estacionar? É claro que não. Este é mais um dos aspectos do egoísmo social.

A expropriação das oportunidades urbanas daqueles que têm opção diversa – como os ciclistas; ou daqueles portadores de deficiências físicas, não são realizadas apenas pelos detentores do poder e do capital, mas por uma parcela significativa da população, hoje identificada como os grupos motorizados. O meio urbano nas grandes cidades vem sendo construído ao longo de séculos, por acréscimos sucessivos aos espaços legados por nossos ancestrais. É impossível a ele, sem a adoção de cirurgias profundas, “abrir” espaços para a circulação e guarda em estacionamentos ao ar livre de tantos automóveis, como querem seus proprietários.

Faz tempo a racionalidade deixou de nortear administradores públicos e a população em geral. Ela que clama por mais e mais espaço como se este fosse um direito lídimo e intocável. Ela se coloca contra o pedágio urbano; contra o pedágio rodoviário; contra os impostos; contra as zonas azuis e suas outras corruptelas; contra as multas no trânsito e as lombadas eletrônicas, as quais chamam de instrumentos da indústria da multa. Enfim, contra todos os instrumentos de controle. E chegam mesmo a dizer que a Constituição Federal garante a elas “o direito de ir e vir”. Mas qual nada, cara pálida, o direito de ir e vir se aplica ao cidadão e não ao seu automóvel.

É mesmo assim que se comporta a nossa sociedade motorizada e hipócrita. Curitiba tem um dos melhores sistemas de transportes do País, sendo objeto de desejo dos olhares de muitas cidades mundiais. Recentemente uma equipe da “Streetfilms” esteve em Curitiba, entrevistando pessoas, entre elas Jaime Lerner, o atual Prefeito e secretários municipais, para conhecer mais sobre o sistema que pretendem implantar em Nova York. Mas nós aqui insistimos em dizer que o sistema está superado.

De fato, muito ainda precisa ser mostrado quanto às mazelas decorrentes do uso exagerado da motorização no meio urbano. Principalmente quanto às poluições ambientais, devido as emissões de gases e ruídos. Sobre o primeiro aspecto, ainda na cidade de São Paulo, é alarmante o número de mortes de recém-nascidos devido a inalação dos gases provenientes do escapamento dos automóveis. Mas diriam os discípulos de São Tomé – quem polui são os ônibus e caminhões e não os automóveis. Bobagem grossa, novamente digo eu. Os carros de passeio são de longe os maiores poluidores.

Estudo realizado pela UFRGS, em 1993, observou que os automóveis de passeio eram responsáveis por 56% da emissão de gases nocivos em Porto Alegre; vindo em seguida os ônibus, com 14%; depois os caminhões, com 12%; as indústrias da periferia urbana, com 12%; outros 6% atribuídos a emissões diversas, como queimadas. Ocorre que as pessoas não se dão conta de que as emissões dos carros são quase invisíveis, mas em número avassalador. E como se obtêm isto? Perguntariam os céticos. Ora, através da análise de filtros colocados em pontos específicos da cidade. Também porque os combustíveis utilizados pelos veículos são diferentes nas suas composições. Simples, não é mesmo?

Esta é uma das várias razões porque devemos controlar cada vez mais o uso do automóvel no meio urbano. Ter automóvel é sim uma coisa boa. Mas usá-lo indiscriminadamente é mais do que um ato anti-social é uma agressão ao seu vizinho, um desrespeito à saúde do seu avô e da sua avó. A natureza humana agradece e lhe dá boas vindas à sociabilidade e a um mundo menos egoísta. E que tal se, ao invés de ir à feira com o seu carrinho, não vá a pé ou de bicicleta e aprecie os jardins das casas dos vizinhos? Quem sabe não nasça em seu dia um pouco mais de prazer e identificação com a cidade em que escolheu para viver?

Mas se nada disso faz parte das suas pretensões, não lamente a crise, não diga que a cidade está ficando insuportável. Você ainda não está preparado/preparada para viver num ambiente do Século XXI. Interessante o que nos diz um texto que li recentemente, no qual não lembro agora o autor, me perdoem, o qual faz comparação entre Berlim e Bangcok. Mostrava o texto que Berlim tem três vezes mais automóvel do que a cidade asiática, mas ao contrário o número de viagens motorizadas correspondia a menos de um quarto da capital tailandesa. E chegava a conclusão de que se a posse de veículos motorizados representava a riqueza de uma nação, o uso do carro de forma indiscriminada demonstra quão pobre ainda esta nação se apresenta. Não foi à toa que um dos maiores investimentos de Berlim, realizados para a Copa do Mundo de Futebol de 2006, destinaram-se a dar maior mobilidade para a bicicleta. Em especial, entre os estádios e os hotéis; e entre os terminais do transporte coletivo os estádios e os novos hotéis, construídos para atender a grande demanda aos eventos.

Mas se nada deste texto a(o) convenceu da ignomínia que é ir a padaria buscar pão de automóvel. Esqueça. De fato, o mundo gravita ao redor do seu umbigo. Deixo apenas um pequeno abraço. Da minha parte, vou continuar pedalando minha bicicleta, indiferente às suas reclamações ingênuas e ineficazes para com a ganância dos impostos governamentais em cima do seu objeto de consumo maior, do seu papagaio de estimação sobre quatro rodas. Passar bem.

 

FOTOS: a primeira foi feita na depressão americana de 1920.

a segunda na Av. Beira Mar Norte (Florianópolis) fora da temporada.

Tonicato Miranda é Presidente da União de Ciclistas do Brasil – UCB.

 

CONTRATADOS poema de vera lúcia kalaari (Portugal)

Ah! Caravanas que passais

 De homens cansados,

 Esfaimados,

 Cantando vergados

 Ao peso da saudade,

 Bandeira branca a tremular ao vento…

 Caravanas de homens de pés descalços

 Sangrando por tortuosos caminhos…

 Como eu vos amo a todos, todos!

 Oh mulheres de ancar largas, bamboleantes,

 Com filhos ranhosos e famintos

 Que vindes em algazarra acenardes adeus,

 E gritais, gritais, palavras, impropérios,

 Cobrindo o choro dos que partem…

 Oh mães velhinhas, doloridas,

 Que chorais por não poderdes partir

 A dizerdes adeus,

 Um adeus distante

 A quem não esperais tornar a ver…

 Ah! As caravanas, as caravanas!

 Caravanas de homens esperançosos

 De corpos quebrados

 Que vêm de longe e se perdem à distância…

 

 

E só o mundo irado,

 A fome, o cansaço.

 E lá longe, a casa, as terras, as noites luarentas,

 O brilho ardente das fogueiras…

 E vão nas caravanas, coração pulsando,

 E a esperança, sempre a esperança,

 Num somho de riqueza.

 E voltam de novo, famintos,

 Das terras do fim do mundo.

 Voltam à terra onde andaram em pequeninos,

 Com o choro dos filhos nus

 Esfaimados, a pedir pão.

 

Deixem, homens, deixem que o tempo

 Marque o trilho das caravanas em que ides partir.

 Dia a dia, hora a hora,

 Ele se rasgará mais brilhante,

 Sem que o bafo dum vento quente

 Murche as flores da tua esperança.

 Partireis, triunfantes,

 À demanda, à conquista,

 Des terras dum novo mundo.

 

 

 

 

 P.S. Convém explicar que os contratados, eram, nas ex-colónias, os africanos apanhados em rusgas, que eram forçados a partir para trabalharem nas fazendas, por tempo indeterminado e que muitas vezes acabavam por nunca voltar aos sítios de origem.

A OUTRA por jorge lescano

                                                                                                                                                                   para P.S.

Ella havia viajado para o exterior cortando a tênue linha que os ligava (encontros para leituras. Agora ele percebia que também Paolo e Francesca se encontravam na leitura, nunca tinha reparado nisso apesar de que na sua juventude vivera uma situação parecida. A  leitura, amorosa armadilha. Lendo as Cartas a Milena se havia apaixonado por um fantasma!). Ele decidiu continuar o relacionamento escrevendo e-mails.

 Nesse meio tempo descobriu uma réplica dela. A moça trabalhava numa copiadora. Antes vira alguém muito parecida num filme erótico. Por momentos, a Frida de Salma Hayek se parece com Ella, então ele gostaria de ser Trotsky.

 A moça da copiadora também tinha o cabelo longo e preto e crespo de Ella, a mesma pele jambo. (Não quero forçar as coisas dizendo que tinham o mesmo nome, seria coincidência demais, tornando a história real inverossímil. Ele desejava manter a naturalidade do relato para que Ella o entendesse melhor, como nos encontros de leitura.) A moça da copiadora respondia por outro nome.

A insistência do olhar dele acabou chamando a atenção desta moça que, depois de algum tempo, começou a retribuir seu interesse. Então ele recuou. Nunca soube se por receio de trair a distante ou mera cobardia. A moça saiu do emprego. Ele tivera a oportunidade, desperdiçada, de se despedir dela, pois havia ido tirar xerox no mesmo dia e hora em que ela se despedia dos colegas na Galeria do Rock. Mais uma vez deixou de agir, depois percebeu o que havia perdido. Sempre acreditou que teria uma segunda chance, era o modo de desculpar sua falta de iniciativa, sua timidez.

Depois de quatro anos, Ella voltou. Tiveram vários encontros sem que abordassem o assunto principal, apesar de reconhecerem a correspondência de intenções.

No último ano, graves acontecimentos familiares perturbaram a mente dele, confundiram seus sentimentos. Agora que Ella estava perto, começou a sentir saudades da moça da copiadora.

A paciência tem um limite, sempre soube disso sem que jamais pudesse computar sua extensão. O caso é que Ella se sentiu rejeitada ou simplesmente cansou de esperar uma definição. Deixou de vê-lo e de permitir que a visse. Uma vez ele telefonou para sua casa e Ella se livrou dizendo que ligaria para ele, ambos sabendo que isto nunca aconteceria. Afastou-se dos telefones, o assunto exigia uma entrevista. Tentou reatar a comunicação via internet, Ella não respondia as mensagens. Para aumentar a sua confusão, a moça da copiadora não lhe saía da memória. Freqüentemente se confundem no seu pensamento. Às vezes as imagina usando um sarong, um xale, um leque, qualquer adereço exótico de estampa japonesa, de quadro de Gauguin. Os rostos se confundem, à imagem de uma corresponde a voz ou o nome da outra. De Ella guarda postais, uma leitura em francês, em vídeo, alguns e-mails, um exemplar de Rabinal Achi, a versão em castelhano da peça maia, que comprou num sebo do México, uma foto fantasiada de esquimó na antiga Cristiania enviada pela internet (cada vez que abre o guarda-roupa ela sorri no espelho). De Cláudia conserva acenos breves, olhares sutis, a tepidez da mão num ligeiro contato ao receber as cópias. Pobres troféus dos seus fracassos.

Ele não sabe fazer discursos nem escrever cartas de amor; redigiu um texto em que conta estas peripécias sentimentais. O dedicou a Ella, identificando-a com as letras iniciais do nome que usava quando a conheceu. Agora vive a dúvida de enviá-lo por e-mail ou apenas publicá-lo na internet, correndo o risco de ela não o descobrir. Mais uma vez a hesitação domina o enredo. Sabe que Cláudia se dilui para sempre na multidão de São Paulo; da outra, provavelmente, nunca obterá resposta.

 

 

 

NO SHOPPING CENTER / JAIRANDO UM JAZZ – poema de solivan brugnara

Abre-te Sesamo automático,

                         esta porta de translúcido vidro

                         para mim, o Moises de tuas águas sólidas.

                        Será que suas engrenagens, 

                    suas roldanas esmaga-formigas, seus sensores

                            funcionam com passarinhos?

                         Ou a andorinha bate no vidro como

                            em qualquer outra vidraça

                         e morre na delicia de morrer em um vôo      

                                despreocupado.

                            Gosto de caminhar no shopping           

                            este museu de roupas e calçados contemporâneos.

                            Meus olhos acham os decorativos deuses indianos.

                             Meus olhos flecham o calcanhar dos arquiles.

                           Meus olhos acariciam as meninas.

                            Meus olhos vêm a noite pelas janelas

                            e navego

                           cruzando Andrômeda

                           cruzeiro transespacial.

                           Balanço do do marmmmMnsera quenoi esopsçao tem balndlço de marnm MnM barcobebbadoGIu<a>sgliuglurub lka voub jdhueueueucrzaudndo anfdromedasolto^ v ^ v ajdgi***#3m@r?/??< >

                              A labirintite passou

                           e ando agora com alma de Bosch

                               por este estomago cheios de loja

                            pronto para sugar todas,todas as vitaminas de meu cartão de credito.

                           Experimento perfumes

                            safiras liquidas, rubis aquoso,outro cor de urina.

                         Sou sexagésima sexta reencarnação de um alquimista                          

                          e sinto vontades                            

                           de misturar o odor da manha,

                           com fezes de beija-flor,

                           vulvas em cio

                             e noite com óvnis.

                              Por tudo em frascos Mirós.

                             Ascendo em escadas rolantes

                               braços imitando um urubu. 

                        Paro para ver

                           na vitrines da loja de brinquedos

                             o super-homem

                             o que pode

                             cavalgar em cometas

                             e  se alimentar de vácuo,

                             o que pode tomar um sorvete feito de massa solar.

                           E Batmam o frutívoro espalha pólen.

                               Barbies em esquives rosas

                              e vídeos- games onde

                              as crianças podem

                                decapitar virtualmente  

                                estrirpar virtualmente

                                 lobos, anões e madrastras.   

                                Nos cinemas

                                olho os cartazes

                                como quatros em exposição.

                            Multidão de livros na livraria.

                          E toda a multidão esta  cheia de cretinos e magos

                         E toda a multidão tem economistas e astrólogos.

                             E em toda a multidão tem um poeta.

              Meus livros não estão na livraria

                     Nem do  Thadeu de estrelas no bigode

                     Nem do  Thadeu dez-dedos

                       na mão esquerda quando toca violão.

                     Nem do Jairo

                     O centauro que atravessa os oceanos a galope.

                        Nem do Jairo

                            Que abençoou as águas do riu Iguaçu

                            com poemas

                          e comeu pão com nanquim nas manhas.

                          Seuss filhos da p*#+_0*&&}$$CORNOS

                DO*@33##PKU$ilibinoshdnsG0Q3PIFU98WBICHA CAPINEWGIUB087

                     ESTA BURRIOIqeru,fne in tME IRRITAeeiirriHJGIDGIUtavao tomar IJVYU4746387¨*$%%&*($MNO CUlokhnfsçoiuoip90843l98w@%$t376   

           Compro  hq do homem-aranha       

                e um livro do Schopenhauer.

               Filosofos estão em promoção,

                       mais baratos que o gibi.

                 Paque um, leve dois.

                   Karl Marx em promoção

                    o capital em promoção.

                   Passo pela praça de má alimentação.

                    Barulho de atol das rocas.

                    Nos luminosos e placas em cores primarias

                      Uma salsicha de fraque e cartola.

                  Palhaços oferecendo  hamburguês

                      e monge comida chinesa.

                Sobre um cone o everest  granulado com  confeitos

                           vende sorvetes.

                      Sou tele-transportado por elevadores

                         de botões azuis fluorescentes.

                           3,2,1

                         Ejeção completada com sucesso.     

SÓ UM CANTO / NO JARDIM DE SOFIA (zocha) – poema de lilian reinhardt

Só um canto e a luz acorda
     a orgia celeste recomeça
     em minha alma agreste
     Tu és a carne do meu sonho
     o espaço a pausa a laceração
     desse anjo demônio
     dessa lousa ferida
     entre essas cordas que plangem
     toco-te ainda vestal
     com minha saliva de vinhas
     no calabouço dessa argila sangrada
     Em veneno e loucura
     a tua pele rasga o sal
     da ancestralidade da minha

FACULDADE VIROU SHOPPING CENTER por amandio luís de almeida teixeira

Quando paro a pensar sobre a educação superior desse país, vejo-a como um doente terminal, abandonado sobre uma maca em um corredor de hospital. Foram-se os tempos em que possuir uma pós-graduação, um mestrado, ser um doutor ou um professor catedrático era visto com respeito e como sinônimos de competência, experiência e capacidade de um trabalhador de qualidade, um cientista.

As políticas educacionais, a meu ver, se equivocaram. Todas, independentemente de governos e partidos, quando resolveram – e nisso todos os governos pós-ditadura incorreram – democratizar, massificar, ou “igualar” (por baixo) as oportunidades de acesso ao terceiro grau. O resultado dessa visão clientelista, num país que parece confundir democracia com populismo, pode ser muito bem sintetizado no que observamos no atual governo. Ao mesmo tempo em que o presidente alardeia sua vaidade e seu orgulho por não ter um diploma, perpetua e agrava a situação, ao querer sedimentar ainda mais a idéia de que todo mundo pode e deve ter um diploma universitário.

Já não bastasse a proliferação descontrolada de universidades de “fundo de quintal”, onde o que vale é poder pagar para seu diploma conseguir. Hoje uma universidade assemelha-se muito mais a um shopping center do que a uma instituição de ensino de qualidade, frequentadas por professores e alunos despreparados. Ao invés de salas de aulas bem montadas, laboratórios, bibliotecas, o que se vê? Lojas, bancos, restaurantes e lazer, parte fundamental dessa estrutura deformada. Parece que em cada esquina há uma universidade. Que o tal ensino à distância, eliminou de vez a distância entre a mediocridade e a aptidão natural de cada indivíduo para conquistar uma profissão de nível superior. Para que tanto diploma? Para que tantos licenciados, bacharéis e pós-graduados?

Acredito que chamar esse ensino de superior já é um equívoco. Superior só se for pela quantidade de médicos, engenheiros, advogados, entre tantos outros profissionais, que são despejados, a cada ano, de forma descontrolada, num mercado de trabalho já saturado. Profissionais para os quais o diploma é apenas a ferramenta necessária e legitimadora de seu direito como cidadão a se tornar um profissional de segunda, numa terra de terceira. Médicos que não sabem suturar, advogados do crime, engenheiros da demolição do saber.

Ou pior, concurseiros (públicos) profissionais. Não o pobre como alardeia o governo, mas aqueles mais afortunados, inocentes ou não, que sustentam essa famigerada indústria dos concursos. Indústria essa que movimenta milhões e milhões de reais, feita de cursinhos especializados, empresas promotoras especializadas (em concursos), o próprio governo que tem aí uma renda vultosa em taxas de inscrição, os cartórios que enriquecem ao autenticar tanta papelada desnecessária.

 

Hoje tudo é especializado. Os professores mal pagos e já engolidos por essa máquina. Esses que já não ensinam, mas que se especializam em treinar em macetes para passar. Esses que usam apostilas “obrigatórias” sem conteúdo, que custam uma fortuna, mas nada mais são do que receitas de bolo, dicas e truques, provas anteriores, cujo lema é “Aprendam como passar”. Parece-me mais especializadas no “seja esperto!”. Não precisa saber, é só se “preparar”! Preparar para que? Ao final disso tudo o que são esses concursos? E os famosos cadastros de reserva? Quantos são cancelados, postergados por anos, e ao final, sem ninguém contratar, voltam a se apresentar ao público? De quem é a culpa? Perguntem ao nosso sábio presidente…

Pobres tempos esses em que o saber já não importa. Em que a ciência é achincalhada, as cabeças pensantes decepadas. Poucos, muito poucos, sobreviveram a esse tsunami de diplomas fajutos, muitos comprados, outros tantos falsificados, milhares obtidos pela compra criminosa de monografias, dissertações e teses. Poucos, muito poucos, de forma árdua ao estudar, ao se dedicar, anos e anos de suas vidas “desperdiçar”, crédulos cidadãos que em algum momento acharam que isso lhes daria alguma real e honesta chance de no mercado de trabalho se encaixar.

Uns, mais inteligentes, ou mais lúcidos, vão embora. Fazer carreira, fama e dinheiro honesto nos países dos lourinhos de olhos azuis e viram celebridades, por mérito reconhecido é certo, mas ridiculamente aplaudido aqui, pelos mesmos que se indignam quando alguém ousa pensar. Outros decidem ficar. Por menos oportunidade, familiar necessidade ou que, por convicção, acham que é onde devem estar e lutar.

Essa é a minoria de sonhadores onde me incluo. Minoria de esperança persistente, de valor nunca reconhecido que tanto assusta e incomoda a esse país lulista, de reais valores, desprovido. Somos nós esses “velhos” com mais de 45 anos a elite pensante? A burguesia dominante? Ou a absoluta minoria que teima em sobreviver, mesmo que de forma tão humilhante? Só posso falar por mim.

Esta é minha ficha criminal:

Engenheiro, pós-graduado, mestrado, doutorado, pós-doutorado.

Professor universitário (enquanto agüentei).

Última ocupação: diretor de projeto – BID/Nasa.

Ocupação atual: desempregado, há três anos em casa.

 

CARTAS por hamilton alves


 

 

                                               Lendo há dias uma resenha de jornal sobre Samuel Beckett, o grande dramaturgo, autor de peças revolucionárias do teatro mundial, prêmio Nobel de literatura, vim a saber que era dado a escrever cartas, anunciando-se que um volume delas será editado e lançado em breve por conceituada editora brasileira.

                                               A carta é um gênero literário como outro qualquer, com a particularidade de ser, entre todos, muito peculiar, no sentido de que, diferente de fazê-lo no livro, quando nunca faz, o escritor pode se derramar em confissões que jamais faria de público.

                                               Quem gostava muito de escrever cartas era Elizabeth Bishop, que dizia: “Tenho pena de quem não gosta de escrever cartas”.

                                               Outros escritores brasileiros trocaram cartas inúmeras, não foram nem duas nem três. Cito os casos de Drummond e Mário de Andrade, que pela vida afora se trocaram recados compridos ou curtos, para alegria de muitos de seus admiradores espalhados por aí, que puderam descobrir na troca de missivas feita por ambos as confidências íntimas sobre tantos assuntos, que jamais revelariam em crônica, contos, poemas, etc.

                                               Eu mesmo gosto de escrevê-las.

                                               Quando não tenho para quem escrever escrevo para mim mesmo. Tenho algumas cartas que me dirigi, nesse solilóquio com que acabo me divertindo ao lê-las ou relê-las. Maluquice? Adoro as minhas maluquices, sem elas não saberia viver. Ou minha vida, aos meus olhos, se empobreceria.

                                               Ainda hoje escrevi duas cartas. Uma para um amigo que anda nervoso nos Estados Unidos com a crise que assola aquele país. Procurei animá-lo.
                                               “ – Obama dará um jeito em tudo” – disse-lhe, confiante no tirocínio e liderança do novo Presidente.       

                                               Outra para um amigo no Rio, que pouco temos nos visto ultimamente, eu por nunca mais ter ido lá, ele que esteve aqui há pouco, mas de curta passagem. A carta é a forma de nos aproximar porque, obviamente, os recados telegráficos do computador não alimentam nossa sede de maiores expansões verbais e emocionais.

                                               Fiz-lhe uma revelação que só poderia ser feita através do sigilo ou da discrição da carta. Não contaria jamais o episódio numa crônica ou de outro modo qualquer. Para ele mesmo, um velho chapa, me custou muito confessá-la ou narrá-la. Será certamente pegado de surpresa com a minha confidência, tal a crueza com que narrei o fato. Ou rirá muito à vista dos lances tais quais lhe foram confiados.

                                               Daí a importância da carta, que é uma forma de extravasar tudo, todo o lixo que nos vai n’alma (n’alma tem hora).

                                               De que outro jeito lhe confidenciar pormenores tão crus ou tão arrepiantes? Que constituem segredos que não podem ser assim espalhados ao vento?

                                               Assim, temos o recurso da carta. Com três pinceladas compõe-se uma carta. Nada mais que trinta linhas ou cinqüenta. Nem menos nem mais, senão a carta fica quilométrica e, a partir de certo momento, por mais interessante, começa a aborrecer o mais paciente leitor.   

                                               Já escrevi tantas cartas (tenho-o feito com freqüência nesses últimos tempos) que não é de duvidar que, se um dia alcançar algum nome como escritor, haverá algum abelhudo que queira publicá-las. E tem desde já meu veto. A carta é algo rigorosamente confidencial.

 

 

( março/09)

PERSONAGENS E HERÓIS por walmor marcellino

 

A morte de Márcio Moreira Alves volta a pôr em discussão a pouca importância de algumas participações políticas na contestação ao “discricionarismo” da ditadura militar, cujo golpe contra as instituições nacional-democráticas foi por ele aplaudido (como o foi pelo “Correio da Manhã”). As atas políticas e as crônicas dos fatos e do próprio deputado-cassado mostram o que realmente aconteceu.

Um herói tem uma causa que o edifica; ela ressalta suas virtudes e ele a engrandece aos olhos de todos. O herói tem uma origem que o ilumina, uma missão que lhe exige sacrifícios e uma dedicação que o eleva acima dos contemporâneos.

A causa da democracia formal não produz heróis. Hoje e nestes tempos não mais. O golpe militar de 1964 ‑ para impor uma ditadura burocrático-militar de classe e um sistema capitalista-monopolista de Estado ‑ mostrou alguns poucos heróis (da causa revolucionária das classes sociais subalternas) que vêm sendo misturados e confundidos com os “resistentes democráticos” e as tantas vítimas da ditadura militar.

Essa má-intenção ideológico-política não pode ser minimizada nesse esforço de “equalização sem princípios”, pois seu intento é glorificar ambigüidades políticas mais do que elogiar pequenas ações desorientadas.

Esse oportunismo político que aproveita a vitimologia para gratificar-se não deve prevalecer. É uma ofensa àqueles que, martirizados, conseqüentes em seu projeto político de classe, deixaram ações exemplares para essa interrupta revolucionarização política do país.

 

O MENINO MUTILADO poema de joanyr de oliveira

Bagdá, seis de abril, domingo.
No subúrbio de Diala,
um menino chamado Ali Abbas
perdeu as mãos e o sonho.
O coração do mundo contraiu-se
ferido pela imagem enfática.

Seus pais se desintegraram
nas profundezas do sono.
Com que sonhariam no instante
em que o míssil desvairado
saltou sobre as velhas telhas
e o assombro total das paredes? 

Os pais de Ali Abbas talvez
no seu amplo tapete onírico
navegassem o branco da paz.
O sonho, ingênuo e sem olhos,
não situa as portas detonadas.

O míssil de nome Tomahawk
bradou “não” e “não”, e categórico
fez da casa sombras e ruínas.
Devorou falanges, falangetas,
os braços, o amanhã e o sorriso
do guri sonhador Ali Abbas.

Comovido indagou Ali Abbas:
“Quem sabe poderias trazer-me
meus dois braços de volta?”

As lágrimas envoltas no silêncio
afagaram as palavras do menino
e odiaram o míssil e seu ofício
de antropófago no céu de Bagdá.

 

QUEM PRECISA DE IDEOLOGIA PARA VIVER? por alceu sperança


 

Em 2030, nano-sensores serão injetados na corrente sanguínea de uma pessoa, implantando microchips para amplificar e até suplantar diversas funções cerebrais. Com isso, as pessoas vão compartilhar memórias e experiências íntimas emitindo as sensações como ondas de rádio para os sensores de outra pessoa.

É uma descrição tecnologizada da telepatia, feita por Raymond Kurzweil, um sujeito que muito guri gostaria de ser: músico, cientista, inventor, empresário, escritor.

Sabe fazer arte, inventar e ganhar dinheiro. E também assustar a gente. Não é terrível a idéia de que você poderá ter um nano-sensor implantado em seu sangue enquanto estiver dormindo ou tomando uma injeção? Com o microchip instalado, você receberá sinais externos que poderão controlar sua mente.

Isso pode parecer assustador, Mr. Kurzweil, mas alguém já pensou nisso antes. O “chip” atual só demora um pouco mais para ser implantado, pois começa a entrar no sangue e no espírito desde o nascimento e acompanha o sujeito ao longo de sua existência. Chama-se ideologia.

Por vezes as pessoas estranham o emprego da expressão “a ideologia”, pois acreditam haver mais de uma e que a palavra significa “um conjunto de ideias”.

Nosso querido Cazuza embolou ainda mais o meio de campo ao cantar que precisava de uma ideologia “pra viver”. Mas ideologia, a meu ver, é palavra de uso apenas singular. A confusão que ocorre com esse termo é similar à que cerca a palavra “alternativa”.

Não existem “alternativas”, mas apenas “a alternativa”. Claro que também se usa o plural em casos particulares: “As alternativas ao liberalismo e ao colonialismo”, por exemplo, pois são duas coisas.

Ideologia é um conjunto de controles educacionais, culturais, religiosos, comportamentais, éticos, legais etc impostos pela classe dominante. A palavra foi criada em 1801 por Destutt de Tracy (1754–1836).

Napoleão, num discurso ao Conselho de Estado, em 1812, declarou:

“Todas as desgraças que afligem nossa bela França devem ser atribuídas à ideologia, essa tenebrosa metafísica que, buscando com sutilezas as causas primeiras, quer fundar sobre suas bases a legislação dos povos, em vez de adaptar as leis ao conhecimento do coração humano e às lições da história”.

Foi Auguste Comte (1798–1857) quem levou a palavra ideologia a significar especificamente o conjunto de idéias de uma época. Mais ou menos aquilo que se costuma chamar de “senso comum” e “opinião pública” – a somatória da elaboração teórica dos pensadores dessa época.

Para Marx, a ideologia integra a superestrutura dominante: “(…) teremos que examinar a história dos homens, pois quase toda ideologia se reduz ou a uma concepção distorcida desta história ou a uma abstração completa dela”.

Ideologia seria, assim, o total dos conhecimentos científicos e crenças dominantes. Gramsci via na ideologia elementos unilaterais e fanáticos, mas também elementos de conhecimento rigoroso e até mesmo de ciência. Nesse sentido, a ideologia seria “todo o conjunto das supra-estruturas”.

Conclui-se que a ideologia é produzida pelos sábios, que recolhem as opiniões correntes, organizam e sistematizam tais opiniões e, sobretudo, as corrigem e orientam de acordo com os interesses prevalecentes nessa época. Assim, ela passa a ter um papel de comando sobre a consciência dos homens, que devem se submeter voluntariamente ou à força a seus critérios e mandamentos.

É por isso que a gente “pensa” que tem esta ou aquela opinião sobre algo e só quando a submete a uma análise criteriosa e autocrítica percebe que ela foi imposta em nossa pobre cabeça pela ideologia.

Sem precisar dos chips e nano-sensores do nosso prezado Mr. Kurzweil.

RUMOREJANDO (Feliz Pessach e Feliz Páscoa a todos desejando) / por juca (josé zokner).(12.04.09)

PEQUENAS CONSTATAÇÕES, NA FALTA DE MAIORES.

Constatação I (Uma historieta).

Tão logo se formou em Direito, o jovem abriu um escritório na sua pacata cidade natal. Criou um slogan, usando o que lhe foi aconselhado por entendidos no assunto que era o seguinte: O Defensor das Causas Justas. Como gostava de se vestir com terno e gravata como é de praxe o uso de tal indumentária pelos advogados, usando as calças dos ternos bem justas, como era moda na cidade onde estudou e se formou, o povo logo passou a chamá-lo do Defensor das Causas Justas e das Calças Justas. Nos dois primeiros casos que interveio não foi feliz e o pessoal, maldosamente, sem que ele soubesse, passou a cognominá-lo de Defensor das Causas Perdidas. Era um sujeito com boa estampa e não faltou que as mulheres passassem a olhá-lo com interesse, tanto como bom partido para casamento – um doutor! – como um amante. Certa vez, estando na cama com uma senhora casada, eis que o marido aponta com o seu carro, mais cedo do que de costume, no portão para entrar com o carro na garagem que ficava nos fundos. “Vou me esconder no guarda-roupa”, ele disse todo aflito. “Não. Tá muito batido esse esquema. Pule a janela do quarto e saia pelo portão pra rua, pois ele costuma entrar pela cozinha, enquanto eu escondo tuas roupas”. E assim ele fez. Não faltou quem o visse sem as calças se esgueirando pela rua para chegar num terreno baldio com o mato cerrado para esperar que a cidade adormecesse para chegar a sua casa. Aí, sucedeu uma nova mudança no slogan-apodo: Defensor das Causas Perdidas e das Calças Perdidas. Coitado!

Constatação II

Postura

Com os políticos?

Sejamos analíticos:

Merecem compostura.

O que a mídia mostra

De falcatrua

É só uma pequena amostra.

As demais, caro leitor,

Conclua:

Quase ninguém

Se abstém.

É um pavor,

Um horror.

Constatação III

Olhar no espelho eu evito.

O meu grau de intolerância

Está beirando o infinito.

Constatação IV

Plantava flores no seu jardim para ver borboletas, abelhas e besouros volutearem em torno delas. Queria aprender a voar. Real e efetivamente. Nada a ver com os seus sonhos…

Constatação V

“Você é uma mulher

Ou uma ratazana”,

Disse a mãe pra filha

“Dê um chega pra cá

E não para lá

Naquele banana.

Pois é o que ele quer.

Com isso você não se humilha.

Bote uma roupa bem decotada

Que ele virá

Que nem louco pra essa empreitada”.

Constatação VI

Eu fiquei mudo

Quando, de despedida,

A fingida

Me deu um abraço

E disse: “Como na canção,

Eu descrente de tudo

Só me resta o cansaço.

Quer saber,

Não sou seu palhaço.

Vá lamber

Sabão”.

Constatação VII

Esse que você chama,

Que você proclama

De seu preclaro amigo,

Que é cioso

Com seu próprio umbigo,

É um mafioso,

Um mentiroso

Que eu sempre desdigo.

Constatação VIII

Na Câmara, aquele deputado era duplamente comissionado: Fazia parte de uma comissão e eventualmente ganhava a dita cuja por batalhar e conseguir a aprovação de algum negócio para os parentes e amigos.

Constatação IX

Não se pode confundir característica com casuística, muito embora em certos países a característica do seu povo não seja uma questão casuística. É falta de ética, moral e outras “cositas” desse jaez.

Constatação X (De conselhos úteis).

Não queira transferir para outrem as tuas verdades só porque você as considera incontestes. Elas podem ter se revelado, no passado, deslavadas mentiras. Analogamente, no presente e no futuro. De nada!

Constatação XI

O retruca só retruca o seu superior quando este permite que ele seja o quarto jogador de um jogo de truco e esteja jogando contra ele. Em outros casos será considerado indisciplinado e poderá até pegar uma cana por insubordinação.

Constatação XII

O religioso lia uma parábola; o professor de geometria analítica explicava aos alunos a equação da parábola; no campo de futebol, um jogador de futebol batia um escanteio e a bola descrevia uma parábola. Por outro lado (qual lado?), os planetas do sistema solar descreviam órbitas elípticas. No interior dos corpos moléculas, átomos, mésons, prótons e nêutrons não ficavam atrás. A hipérbole, sem tanta notoriedade, sofria, quase morrendo de inveja. Coitada!

E-mail: josezokner@rimasprimas.com.br

 

PREFÁCIO em ARTHUR RIMBAUD – por jean cocteau

É uma honra para o nosso país que uma obra fechada como a de Arthur Rimbaud domine com a mesma intensidade que a obra semifechada de um Charles Baudelaire ou a obra tão clara de um Victor Hugo. Como os pintores que se destacam não pelo modelo que escolhem mas pela maneira como o pintam, o milagre de Arthur Rimbaud depende menos de suas revoltas e do que dele disse Claudel, “Um místico em estado selvagem”, que do fato de ele ter feito a idéia nascer do verbo, enquanto antes dele o verbo se colocava a serviço da idéia.

Apollinaire falava sempre do poema-acontecimento, do verso-acontecimento. Acontece, por exemplo, que um poema um pouco convencional de Baudelaire pode se erguer do chão e levitar pela força de um único alexandrino.

Em Guillaume Apollinaire, uma gota de tinta que treme na extremidade de sua pena cai marchetando uma página que, sem essa mancha requintada, estaria ameaçada pela monotonia.

É isto que torna os poetas intraduzíveis. Não compreendemos nada de Puchkin, a não ser a certeza secreta de um ritmo de feitiçaria que ele tirava de uma gota de sangue negro.

Mas o rimbaldismo é universal. Sua fosforescência atravessa a barreira das línguas.

Poderíamos temer que as tempestades do casal Verlaine/Rimbaud fossem se chocar contra a glória, que é mulher. Uma vez mais a moral inclina-se diante do gênio, pois o gênio não é senão o fenômeno que consiste em santificar os erros escritos, pintados ou vividos.

É verdade que uma celebridade tão grande quanto a de Rimbaud não se faz sem controvérsias. As inumeráveis vítimas do séquito se empenham em perpetuar um certo comportamento, uma certa insolência rimbaldianos, sem imaginar que, se este aspecto foiconsiderável, foi por causa de um emprego novo da sintaxe que diviniza aos meus olhos “Bonne pensée du matin” e faz “Ma bohème”, “La rivière de Cassis”, “Bruxelles”, “Mémoire” ocuparem um lugar em meu panteão íntimo com a neve que escorrega pela manga de seda preta do príncipe Gengi.

São nesses poemas que Rimbaud conserva a invisibilidade da elegância.

Eu sempre disse que uma criatura de algum planeta mais evoluído que o nosso poderia talvez zombar de Einstein, mas não poderia zombar nem de Van Gogh nem de Cézanne.

Nesse campo de uma força que escapa à análise e aos progressos da ciência, Arthur Rimbaud representa um terrível explosivo. Um raio de abril, uma arma, um heroísmo que se opõem à idéia toda feita do heroísmo e das armas.

É isso que me autoriza a terminar estas linhas copiando, à intenção da paz no mundo e de Rimbaud, um desejo que eu formulava em 1915 no Discours du Grand Sommeil:

Laurier inhumain que la foudre
D’avril te tue.*

P.S.  Se não falo de Marselha em 1891 é porque esse período me é intolerável. Faz-me sofrer muito.

Sempre afirmei que não é verdadeiramente poeta quem não erra. Aqui a regra ultrapassa os limites. Mas é preciso ver na amputação uma prova do combate com o anjo e do amor feroz das Musas, semelhante ao da louva-a-deus que devora o macho.

“Eles detestam a beleza quando ela é feia. Eles adoram a feiúra quando ela é bela. Nisto está todo o drama!”

É da fabulosa herança de alguns artistas, mortos na miséria, que todos nós vivemos. Quis o destino que um jovem poeta desconhecido contradissesse os filhos-de-papai que somos e descobrisse o segredo de um novo mártir.

* Louro inumano que o raio/De abril te fulmine.


 

BOURDIEU, O CAMPO ERUDITO E A SEMANA DE 22 – editoria

O Campo da Arte e da Produção Erudita

 

            Segundo Pierre Bourdieu um campo se constitui quando ele ganha autonomia em relação a outros campos, ditando suas próprias regras e padrões. O campo artístico definiu-se em oposição ao campo econômico, ao religioso e ao político. O artista ganha autonomia ao se libertar de seus patronos burgueses, a Igreja e as cortes.

            Tal fato ocorreu  por volta do século XV, com a invenção da imprensa, que aumenta o alcance da obra, principalmente o da literatura. A função artística antes associada à religião (a maioria das obras das pinturas na época ainda eram ligadas a religião) e ao poder político ou econômico. Artistas que antes produziam obras que tinham de ter uma função estética exigida pelo patrono ganharam autonomia para produzir arte enquanto tal. Bourdieu comenta sobre esse fenômeno:

 

Embora a vida intelectual e artística estivesse sob a tutela, durante toda a Idade Média, em grande parte do Renascimento e, na França, com a vida na corte, durante todo o período clássico, instâncias de legitimidade externas, libertou-se progressivamente, tanto  econômica como socialmente, do comando da aristocracia e da Igreja, bem como de suas demandas estéticas.[1]

 

Ainda afirma:

Destarte, o processo de autonomização da produção intelectual e artística é correlato à constituição de uma categoria socialmente distinta de artistas ou de intelectuais profissionais, cada vez mais inclinados a levar em conta exclusivamente as regras firmadas pela tradição propriamente intelectual ou artística herdada de seus predecessores, e que lhes fornece um ponto de partida ou um ponto de ruptura, e cada vez mais propensos a liberar sua produção e seus produtos de toda e qualquer dependência social (…).[2]

 

Cabe ressaltar que esse momento se dá através de uma nova relação do artista com o não-artista e com outros artistas. Essas novas relações, estão associadas a industria cultural e a produção erudita respectivamente. Isso não quer dizer que uma obra de cunho erudito não possa atingir não-artistas, mas que primeiramente ela é formulada com vistas aos pares.

A relativa independência dos artistas aumentou cada vez mais a parti da revolução industrial. A produção cultural em massa conseguiu difundir ainda mais os “produtos” artísticos o que teve dois resultados distintos. Um deles é a constituição de uma economia de bens simbólicos no mercado, com produção artística em grande escala sendo vinculada em folhetins, revistas e outros meios. O outro foi a constituição de um grupo de indivíduos que estabelecem a regra do campo, se constituindo não em artistas ordinários, mas representantes e juízes de uma tradição artística. Ou seja, instaura-se “uma dissociação entre a arte como simples mercadoria e a arte como pura significação, cisão produzida por uma intenção meramente simbólica e destinada à apropriação simbólica”[3].

A respeito da constituição deste campo artístico erudito, gostaria de abordar um fato histórico nacional, a Semana da Arte Moderna, de 1922, pois constitui um cisma entre um padrão artístico que vigorava desde o final do século XIX e um novo padrão que reivindicava liberdade e reconhecimento no campo. É um caso que ilustra muito bem “a estrutura e o funcionamento da produção erudita”.

 

A Semana da Arte de 1922

(…) o campo da produção erudita tende a produzir ele mesmo suas normas de produção e os critérios de avaliação de seus produtos, e obedece à lei fundamental da concorrência pelo reconhecimento propriamente cultural concedido pelo grupo de pares que são, ao mesmo tempo, clientes privilegiados e concorrentes”

 

A semana da Arte Moderna aconteceu na cidade de São Paulo de 11 a 18 de fevereiro de 1922. A exposição apresentava uma série artes plásticas, palestras sobre a modernidade, declamação de poesias e apresentações musicais. Os artistas participantes foram Mário de Andrade e Oswald de Andrade, Víctor Brecheret, Anita Malfatti, Menotti Del Pichia, entre outros.  

Os artistas que idealizaram a semana propunham um rompimento com a estética vigente e por isso trouxe desconforto para or artistas consagrados da época. Na Europa o processo de mudança de padrão estético já vinha acontecendo e o que esses artistas fizeram foi fazer promoção desses novos padrões. As principais influências foram do cubismo, expressionismo e futurismo. A exposição teve grande imapacto na época, no entanto impacto negativo.

 

Isso ocorreu porque, segundo Bourdieu, as obras produzidas no campo erudito são, geralmente, inteligíveis para o público não-artista. Com isso os crtiticos, dotados de um reconhecimento, leêm as obras e indicam o que é bom e o que é ruim para o público. Acontece que há uma relação entre esses críticos e os artistas. Dessa maneira constitui-se uma arena fechada para a consagração, na qual só participa da disputa os que são legitimados por esses “juízes” que tem de forma subjetiva os critérios de classificação.

Um dos momentos onde fica mais clara a tentativa dos modernistas de entrar no campo, estabelecendo uma nova elite artistica, foi o poema “Sapos” de Manuel Bandeira, crítica ao Parnasianismo, que abriu a exposição e foi seriamente criticado.

A poesia parnasiana caracteriza-se pela sacralidade da forma, pelo respeito às regras de versificação, pelo preciosismo rítmico e vocabular, pela rima rica e pela preferência por estruturas fixas, como os sonetos. O emprego da linguagem figurada é reduzido, com a valorização do exotismo e da mitologia. Os temas preferidos são os fatos históricos, objetos e paisagens. Era a verdade arte pela arte, porque, segundo seus autores a poesia deve existir por si só, não dependendo de sentimentos. Entre seus adeptos havia Olavo Bilac. A seguir poesia de Olavo Bilac a respeito da língua portuguesa, Última Flor do Lácio:

Última flor do Lácio, inculta e bela,
És, a um tempo, esplendor e sepultura:
Ouro nativo, que na ganga impura
A bruta mina entre os cascalhos vela…

Amote assim, desconhecida e obscura,
Tuba de alto clangor, lira singela,
Que tens o trom e o silvo da procela
E o arrolo da saudade e da ternura!

Amo o teu viço agreste e o teu aroma
De virgens selvas e de oceano largo!
Amo-te, ó rude e doloroso idioma,

Em que da voz materna ouvi: “meu filho!”
E em que Camões chorou, no exílio amargo,
O gênio sem ventura e o amor sem brilho!

 

          O Parnasianismo se constitui um bom exemplo a respeito do  campo erudito pela rigidez exigida pelos autores a respeito da métrica e dos temas tratados. E para criticar tal rigidez, o poema de Manuel Bandeira:

Os Sapos

Enfunando os papos,
Saem da penumbra,
Aos pulos, os sapos.
A luz os deslumbra.

Em ronco que aterra,
Berra o sapo-boi:
– “Meu pai foi à guerra!”
– “Não foi!” – “Foi!” – “Não foi!”.

O sapo-tanoeiro,
Parnasiano aguado,
Diz: – “Meu cancioneiro
É bem martelado.

Vede como primo
Em comer os hiatos!
Que arte! E nunca rimo
Os termos cognatos.

O meu verso é bom
Frumento sem joio.
Faço rimas com
Consoantes de apoio.

Vai por cinquüenta anos
Que lhes dei a norma:
Reduzi sem danos
A fôrmas a forma.

Clame a saparia
Em críticas céticas:
Não há mais poesia,
Mas há artes poéticas…”

Urra o sapo-boi:
– “Meu pai foi rei!”- “Foi!”
– “Não foi!” – “Foi!” – “Não foi!”.

Brada em um assomo
O sapo-tanoeiro:
– A grande arte é como
Lavor de joalheiro.

 

Ou bem de estatuário.
Tudo quanto é belo,
Tudo quanto é vário,
Canta no martelo”.

Outros, sapos-pipas
(Um mal em si cabe),
Falam pelas tripas,
– “Sei!” – “Não sabe!” – “Sabe!”.

Longe dessa grita,
Lá onde mais densa
A noite infinita
Veste a sombra imensa;

Lá, fugido ao mundo,
Sem glória, sem fé,
No perau profundo
E solitário, é

Que soluças tu,
Transido de frio,
Sapo-cururu
Da beira do rio…

           

O poema todo é uma afronta ao quebrar todo o padrão proposto pelos parnasianos e ainda ao criticá-los abertamente. Os artistas da Semana da Arte Moderna conseguiram o reconhecimento só com o tempo, tendo a exposição grande importância histórica em questões de contestação, de reclame de identidade cultural nacional e outros aspectos.

            Mais importante para o nosso estudo de cultura, a Semana de 22, mostrou que artistas disputam um campo no qual se briga constantemente pela sua arbitragem. Quem permanece no campo é quem dita as regras para que se faça parte dele, mas um rompimento através da constituição de uma consciência coletiva também é possível. Foi por causa desses artistas que procuravam quebrar a vanguarda que tivemos nomes como Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles, João Cabral de Melo Neto, Tarsila do Amaral e outros artistas hoje consagrados, que possivelmente não teriam valor nenhum caso permanecessem os valores do século XIX no campo.

 


[1] Bourdieu, Pierre. O mercado de bens simbólicos. In: Sergio Micelli (org.), Ed. Perspectiva, São Paulo, 2004, cap. 3 p. 100

[2] Idem, p.101

[3] Ibidem, p. 103

 

TRANÇAGEM – poema de jairo pereira

 

 

 

No cesto trançado

da fala

o ímpeto do fazer

construir

a poesia trançada

com as mãos

adornada com as  cores

da mata extinta

pintada à argila fresca

da beira do rio.

A poesia, cesto

de sentenças úrbicas

suspensa

nas árvores do pensar

pensado

o pensamento trançado

de fio a fio, nó em nó

no tempo

cesto trançado das idéias idas

revividas idéias vindas

das altas fontes do saber

redescobrir

de instintos produtivos.

Pés nus no chão de espinhos palavra

sobre palavra, signos entre

signos

tranço o cesto de meu viver, palavra

fagulhas do fogo aceso

do criar

transpasso a trança do terçado.

No cesto trançado do meu dizer

cabem todos os mundos

da palavra

a santa que satisfaz, a pura,

a odiosa a renomada, a bem aventurada, a que engana

o artífice na poesia.

Palavras, vozes que soam

no cesto trançado da fala

dentro dos ossos

antigos dos conceitos

:primitivas aparições:

LAVRADOR DE OUTONOS poema de joão batista do lago

Chegado é o tempo da colheita!

Há muitos frutos para se colherem

Depois dum verão causticante (e)

Antes que o inverno de águas torpes

Carregue para o leito das correntes

Toda beleza das rosas e das flores.

 

Venho dos campos de terras tombadas

Ardidas e calcinadas por mãos assassinas

Onde se plantaram o fogo do madeiro

Hoje a cruz de cinzas que volatiza a vida

Transformando todos os frutos em carvão

Enferrujando a lavoura e a água e o sal.

 

Lavrei-me de todas essas rudezas (e)

Diante do altar de todas as plantações

Viscerálgico como carpideira solitária

Fui carpindo uma a uma minhas dores

Plantando em cada semente visionária

A possibilidade de me ser toda floresta.

 

Todo o fruto da terra que ainda me resta

Colho-o com as mãos duma criança

Para comê-lo com o sabor da esperança

Visceral diante do altar da vida

Como se fora a última hóstia dos mortais

Para queimar o fogo dos dias finais.

 

Talvez assim – quem sabe! – o fogo pagão

Aprenda a arar a terra de todos os campos

Salvar todas as nascentes de qualquer Jordão

Capaz de banhar a vida com todos os encantos

Gerados do ventre da terra… E ao final

Cantar o terço numa oração de bem-aventurança.

 

SONHOS E DESEJOS poema de rosa mel

O sonho que eu sonho
Dou para ti em desejo
E em corpo eu deponho
O desejo que almejo

Estar em teus braços
Sedentos de amor
Mirando-me os traços
Tremulos de ardor

Derreto em teu corpo
Quente e aconchegante
É este o meu porto
Onde fico estonteante

Abrasador e envolvente
Mergulhado em minh’alma
Absorvente e carente
Onde busco a minha calma

Por entre corpos enroscados
Sem começo e nem fim
Pernas e braços entrelaçados
E a ternura brotando em mim

Muito grande esse tesão
Que por ti eu sinto e quero
E eu desperto num repelão
A mulher ardente e espero

Que ventura me cobrir
Com beijos apaixonados
No amor e no servir
Vivendo entrelaçados

COM O DIABO LÁ DENTRO! por ubirajara passos

A frase é um dos lugares comuns mais batidos, ainda que sempre hilário e chamativo: “moço, ele tá com o diabo no corpo” (ou no couro, dependendo da região ou contexto sócio-cultural em que é pronunciada). E nos dá conta de uma realidade, aparentemente, irrefutável, autônoma e sem maiores matizes: o sujeito foi “possuído” (no sentido mais ingênuo e simplório possível) pelo demônio e pronto! Não há mais o que explicar, questionar ou conjecturar. Salta aos olhos a visão do cara furibundo, a baba a escorrer de uma boca furiosa que profere os mais cultos e ferinos impropérios, ou debochados e “pornográficos” xingamentos; os olhos normalmente esbugalhados, o corpo tenso como um tronco de árvore, os membros a se movimentar de forma rápida e ríspida.

Mas o que eu não conhecia ainda, até umas três semanas atrás, é a versão sofisticada e insinuante do adágio. Uma estagiária, que segundo alguns é a versão “feminina” (com todas as qualidades clássicas prováveis que o adjetivo encerra) do Peruca, me entrou, outro dia, em pleno cartório, com aquele ar de quem havia visto o capeta e, tão circunspecta quanto um humorista inglês, nos contou que uma parte em disputa com outra numa audiência do Juizado Especial Criminal (aquele setor que, entre coisas, atende majoritariamente às reclamações do povão a crimes do tipo: “doutor, minha vizinha me chamou de corno”) lhe havia avisado, aos gritos: “moça, é bom chamar os brigadianos (os policiais militares do Rio Grande do Sul) que ela tá com o diabo lá dentro!”.

Juro que se não fosse o tom de humor contido da minha cara estagiária, eu não teria dado maior bola à frasesinha, tomando-a por sua irmã similar e mais comum, e teria continuado a maldita e insossa rotina dos cálculos judiciais – coisa, que no início é até interessante, mas depois de vinte anos se torna mais banal e sem graça que aquela matrona com que o leitor se casou aos quinze anos, gatinha linda, gostosa e doidona, e agora, aos sessenta, se tornou rabugenta e horripilante, o verdadeiro dragão do inferno.

O inusitado da situação, entretanto, despertou-me a atenção para a versão fora do comum da coisa. “Com o diabo lá dentro!?”. Antes de mais nada, dentro de quê? Se estar com o diabo no corpo é algo inespecífico, que não anima muitas dúvidas, o “lá” deixa a entender um órgão bem delimitado, de onde se extrai as mais diversas e estapafúrdias hipóteses!

“Lá” dentro onde? Na buceta, o que pode ser uma resposta tremendamente entusiasmante para os mais inveterados tarados, boêmios ou simples amantes da coisa mais gostosa e linda que a natureza criou como eu? Ou simplesmente no fígado, no pulmão nos rins, caso em que a possível conseqüência, além das obviamente supostas (como no útero, quando poderá, segundo os badalados filmes yankees nascer o anti-Cristo de uma “Rosimeri” qualquer, ou até mesmo o clone do Inácio dos Noves Dedos), pode tanto ir de um devastador câncer a um incremento dos portadores da peste emocional fascista. A idéia de se localizar no cérebro, ou no coração não é muito criativa, já pressuposta na expressão “diabo no couro”, mas, para os cornos mansos, “ter o diabo nos cornos” pode até servir de alguma coisa…

Porém, a coisa não fica por aí. Se está lá dentro por onde (e como) entrou? Sabendo que as possíveis respostas da anatomia (excetuada a capacidade de atravessar matéria sólida) envolvem não mais que uns sete buracos, dos quais pelo menos uns três se prestam à mais safada orgia, devemos crer que não se trata, provavelmente, de um diabo qualquer (se bem que “entrar o diabo pelo cu” é algo meio “vulgar), brigão e impertinente como chefe de repartição pública e maldoso e intrigueiro como puxa-saco de patrão, mas “O Diabo”, com todas as qualidades que justificam sua fama de rebelde e imoral perante o moralismo judaico-cristão, assim como a seus congêneres greco-romanos (Dionísio e Baco), africanos (Exu e seus comandados) ou islâmicos (os djins, gênios não necessariamente identificados com o mal, mas que fogem ao controle da razão burocrática ocidental). Ou seja, um diabo folgazão, putanheiro e sem-vergonha, e, dependendo do possuído, até adepto da Marcha do Orgulho Gay!

Seja como for, o pior de tudo é saber como tirá-lo de “lá”. Afinal, contra um capeta tão sofisticado e especializado (que bem poderia se enfiar no núcleo básico de formação da matéria e energia e criar meios de destruição, ou de transformação inusitada, do mundo “concreto” que conhecemos bem mais complexas que as bombas nucleares ou os pretensos poderes para-normais ou a alquimia) não é qualquer exorcismo de padre gagá, broxa e/ou pedófilo que resolve! E muito menos a atitude bronca e direitosa de qualquer comandante de polícia militar estadual enfrentando revolucionários de palhaçada por aí a fora… Presumo que para expulsar este tipo de entidade infernal somente uma overdose do prazer maior que justifica sua localização na parte precisa do corpo pode surtir efeito! Isto se não for um diabo viciado. Porque aí não tem jeito mesmo.

Seja como for, fica lançado o desafio aos leitores que se animarem a comentar esta crônica: onde é mesmo que o diabo se encontra, por onde entrou e como é que vai sair?

UM MUNDO DE COITADINHOS por philio terzakis

Dia desses, assisti ao tão falado documentário “O segredo”, da australiana Rhonda Byrne.

Pra quem não sabe, é o tal filme da polêmica, que fala da lei da atração universal: pensamento positivo atrai coisa boa, e pensamento negativo atrai coisa ruim (grande novidade!).

É um trabalho interessante pra quem nunca ouviu falar do poder da mente e quer aprender um pouco sobre o assunto. Quem já estuda o tema pode achar o filme superficial e materialista.

Já os anti-auto-ajuda vão vomitar.

Pra esses, ninguém pode dizer: “Vamos lá! Mude sua vida! Você pode! Tente pelo menos! Acabe com esse casamento que não funciona! Largue esse emprego do qual você não gosta! Sua vida é você quem faz! Faça um esforço, puxa!, em vez de ficar aí se lamentando nesse buraco!”.

Não, não. É coisa feia e tola de se dizer. É de dar vergonha, né? Em nosso mundo, o pessimismo e a crítica são muito mais chiques que o otimismo. Cabra inteligente não sai por aí dizendo que o mundo é lindo. Isso é coisa de gente burra, desse povo que lê livro de auto-ajuda.

Mas de se fazer de vítima, ninguém tem vergonha, né? De dar uma de coitadinho e acusar os outros das próprias misérias, todo mundo gosta e acha inteligentíssimo. Eu nem sei como o mundo agüenta essa superpopulação de coitadinhos. Todos são vítimas de tudo: do Estado, da crise econômica, do chefe, do marido, da esposa, dos filhos, dos países imperialistas, da televisão e de quem mais chegar.

É tanta inocência, Meu Deus! É tanto “eu não tenho nada a ver com isso”! Ô, tadinhos! Será que se criam?

Perfeitamente compreensível. O que é mais fácil: acusar os outros ou tentar mudar a si mesmo? Precisa responder? Se eu posso reclamar, porque danado vou fazer um esforço e tomar decisões radicais e enfrentar meus medos e talvez até, Meu Deus!, que terror!, quebrar a cara? E na frente de todo mundo!!!

Não. Melhor ser um coitadinho, né? E botar a culpa no Lula. Ou em qualquer outro aí, que esteja de bobeira, disposto a carregar o peso da minha ignorância, da minha preguiça e da minha covardia.

Quanto ao termo “auto-ajuda”, eu o acho até interessante, embora meio redundante. Que tipo de ajuda não é auto? Qualquer ajuda começa dentro da gente. Nem que seja pelo simples fato de pedir ou de aceitar uma ajuda.

 

AS MELHORES FRASES DOS PIORES ALUNOS

 

-O metro é a décima milionésima parte de um quarto do meridiano terrestre e para o cálculo dar certo arredondaram a Terra!

 

-O cérebro humano tem dois lados, um para vigiar o outro.

 

-O cérebro tem uma capacidade tão grande que hoje em dia, praticamente, toda a gente tem um.

 

-Quando o olho vê, não sabe o que está vendo, então ele Amanda uma foto eléctrica para o cérebro que lhe explica o que está a ver.

 

-O nosso sangue divide-se em glóbulos brancos, glóbulos vermelhos e até verdes!

 

-Nas olimpíadas a competição é tanta que só cinco atletas chegam entre os dez primeiros.

 

-O piloto que atravessa a barreira do som nem percebe, porque não ouve mais nada.

 

-O teste do carbono 14 permite-nos saber se antigamente alguém morreu.

 

-Antes mesmo da guerra a Mercedes já fabricava Volkswagen.

 

-Pedofilia é o nome que se dá ao estudo dos pêlos.

 

-O pai de D. Pedro II era D. Pedro I, e de D. Pedro I era D. Pedro 0.

 

-Nos aviões, os passageiros da primeira classe sofrem menos acidentes que os da classe economica.

 

-O índice de fecundidade deve ser igual a 2 para garantir a reprodução das espécies, pois precisa-se de um macho e uma fêmea para fazer o bebê. Podem até ser 3 ou 4, mas chegam 2.

 

-O homossexualismo, ao contrário do que todos imaginam, não é uma doença, mas ninguém quer tê-la.

 

-Em 2020 a caixa de previdência já não tem dinheiro para pagar aos reformados, graças à quantidade de velhos que não querem morrer.

 

-O verme conhecido como solitária é um molusco que mora no interior, mas que está muito sozinho.

 

-Na segunda guerra mundial toda a Europa foi vítima da barbie (queria dizer, decerto, barbárie) nazi.

 

-Cada vez mais as pessoas querem conhecer a sua família através da árvore ginecológica.

 

-O hipopótamo comanda o sistema digestivo e o hipotálamo é um bicho muito perigoso.

 

-A Terra vira-se nela mesma, e esse difícil movimento chama-se arrotação.

 

-Lenini e Stalone eram grandes figuras do comunismo na Rússia.

 

-Uma tonelada pesa pelo menos 100Kg de chumbo.

 

-Quando os egípcios viam a morte a chegar, disfarçavam-se de múmia.

 

-Uma linha reta deixa de ser reta quando encontra uma curva.

 

-O aço é um metal muito mais resistente do que a madeira.

 

-O porco é assim chamado porque é nojento.

 

-A fundação do Titanic serve para mostrar a agressividade dos icebergs.

 

-Para fazer uma divisão basta multiplicar subtraindo.

 

-A água tem uma cor inodora.

 

-O telescópio é um tubo que nos permite ver televisão de muito longe.

 

-A idade da pedra começa com a invenção do Bronze.

 

-O sul foi posto debaixo do norte por ser mais comodo.

 

-Os rios podem escolher desaguar no mar ou na montanha.

 

-A luta greco-romana causou a guerra entre esses dois países.

 

-Os escravos dos romanos eram fabricados em África, mas não eram de boa qualidade.

 

-O tabaco é uma planta carnívora que se alimenta de pulmões.

 

-Na Idade Média os tratores eram puxados por bois, pois não tinham gasolina.

 

-A baleia é um peixe mamífero encontrado em abundância nos nossos rios.

 

-Quando dois átomos se encontram, vai dar uma grande merda.

 

-Princípio de Arquimedes: qualquer corpo mergulhado na água, sai completamente molhado.

 

-Newton foi um grande ginecologista e obstetra europeu que regulamentou a lei da gravidez e estudou os ciclos de Ogino-Knaus.

 

-Pergunta: Em quantas partes se divide a cabeça? Resposta: Depende da força da cacetada.

 

-A trompa de Eustáquio é um instrumento musical de sopro, inventado pelo grande músico Belga Eustáquio, de Bruxelas.

 

-Parasitismo é o fato de um cara não trabalhar e viver à custa dos outros, de dinheiro, cigarros e outros bens materiais.

 

-Ecologia é o estudo dos ecos, isto é, da ida e vinda dos sons.

 

-A Biologia é o estudo da saúde. E para beneficiar a saúde é que foi inventado o biotonico.

 

-As constelações servem para clarificar a noite.

 

-Ao princípio os índios eram muito atrasados mas com o tempo foram-se sifilizando.

 

-O Convento dos Capuchos foi construído no século 16 mas só no século 17 foi levado definitivamente para o alto do monte.

 

-A História divide-se em 4: Antiga, Média, Momentânea e Futura, a mais estudada hoje.

 

-A Bigamia era uma espécie de carroça dos gladiadores, puxada por dois cavalos.

 

-As aves têm na boca um dente chamado bico.

 

-A Terra é um dos planetas mais conhecidos e habitados do mundo.

 

46850coala primo irmão da “preguiça”. foto livre.

NO ESCURINHO DE LISBOA por alexandra prado coelho (Portugal)

DEFICIÊNCIA E ORIENTAÇÃO SEXUAL

Deficiência visual

 

Na escuridão temos que nos socorrer dos outros sentidos. Distinguimos sons que nunca ouviríamos antes, surpreendemo-nos porque os olhos não nos avisaram

que os nossos dedos iam tocar em algo frio ou molhado ou rugoso, identificamos locais pelo cheiro, tentamos perceber sabores de alimentos sem cor. Duas experiências – um passeio por Alfama e um jantar de cozinha molecular – às escuras em Lisboa.

a Confiança cega. Agora percebemos exactamente o que a expressão quer dizer.
Agarramos o braço do guia, logo acima do cotovelo, e vamos caminhando, passo inseguro, venda nos olhos, de vez em quando um braço à frente, tacteando o ar. “Cuidado, não gesticules tanto, ias batendo na cara de um senhor”, avisa Tiago. É ele o nosso guia nesta visita do projecto Lisboa Sensorial, uma ideia do estúdio criativo Cabracega, em colaboração com a Associação de Cegos e Amblíopes de Portugal (ACAPO), os Lisbon Walkers, e a Associação do Património e da População de Alfama (APPA).
Nas ruas estreitinhas de Alfama esse é um risco grande. As pessoas desviam-se, mas pode não haver espaço suficiente e podemos, inadvertidamente, atingir alguém. O melhor é manter os braços baixos afastando-os só um pouco do corpo para sentir a parede, o corrimão, as grades de uma janela, uma porta. Depois vamos aprendendo. Um bruáaa significa que passámos em frente de um café – ouvem-se pedaços de conversa, frases soltas – depois percebemos que a parede recomeçou, mais à frente é o olfacto que nos ajuda, o cheiro revela que é um talho.
“Podes baixar-te”, diz o guia. “O que é isto?”. É peludo, tem temperatura de ser vivo e mexe-se. “Um cão?”. Acertámos. Mas onde está a cabeça? “É do lado oposto a esse”. Ahhh….
A experiência é sensorial a todos os níveis à excepção de um. “Esqueçam os olhos”, pede Carlos, o guia cego da ACAPO, no início da visita. De qualquer forma não temos alternativa. Com a venda posta perdemos aquele que é, muitas vezes sem termos real consciência disso, o sentido em que mais confiamos.
Tentamos então recorrer à memória que temos das ruas de Alfama e procuramos traçar um mapa mental do caminho que estamos a percorrer. Se virámos à esquerda devemos estar a entrar naquela rua que sobe, de repente o ar muda, os sons alteram-se e estamos num largo. Ah, deve ser o largo tal, mas quando tentamos confirmar, perguntando, descobrimos que o nosso sentido de orientação (que não é grande coisa, admitamos) nos deixou ficar mal.
Antes de começarmos o passeio tinham-nos sido dadas algumas instruções básicas. Um braço do guia atravessado em frente da nossa barriga significa que temos que parar, provavelmente porque há escadas para descer. E se for numa rua estreita temos que nos pôr em fila indiana, mão direita no ombro de quem vai à nossa frente. Depois os pés tacteiam o chão, deslizando prudentemente até ao que parece ser o degrau.
Ar fresquinho Quando o piso incerto de Alfama se torna, subitamente, liso debaixo dos nossos pés, isso quer dizer alguma coisa. “O adro de uma igreja”, lança alguém.
Era. Já distinguir tipos de árvores pelas rugosidades do tronco e o formato das folhas é um trabalho para especialistas. Mas perceber que estamos agora junto ao gradeamento de um miradouro é mais fácil, quanto mais não seja pelo ar fresquinho que nos dá na cara e por os sons parecerem vir de muito longe, lá em baixo.
Mais à frente atravessamos uma zona com muita gente, sentimos os corpos a passarem ao nosso lado, desviamo-nos sem saber se o estamos a fazer para o lado certo. “Há um grupo de turistas que está a olhar para nós com um ar espantadíssimo”, conta Tiago. Isso é o que menos nos incomoda. Não vemos as expressões de espanto nos rostos deles – é como se não existissem. “Para vocês é uma vantagem”, explica Tiago, a rir. “A pressão social fica toda connosco”.
Os guias continuam a conduzir o grupo que, às apalpadelas, lá avança por Alfama. Desta vez entramos num sítio coberto e tocamos em algo informe e molhado.
É uma peça de roupa num tanque num lavadouro público. Tacteando o rebordo do tanque, avançamos até ao estendal e tentamos, pelo formato, distinguir as peças de roupa penduradas. É tempo de nos sentarmos e ouvirmos Carlos explicar como, sem ver, escolhe a cor da roupa que quer vestir.
Mais à frente, Carlos há-de tocar fado, claro, mas também modinhas brasileiras. E no fim, de olhos ainda vendados, iremos testar o paladar, o sentido que ainda nos faltava. Parece tão evidente aquele sabor, mas porque é que não o conseguimos identificar?
A refeição Mas essa é uma pergunta que já tínhamos feito inúmeras vezes na noite anterior. Estávamos no restaurante Bem-me-Quer, junto à Praça do Chile, em Lisboa, e… não víamos absolutamente nada. Foi um Jantar Sensorial, antes do passeio sensorial por Alfama. A ideia é de Paula Cascais, dona do Bem-me-Quer e inspira-se no já famoso restaurante Unsicht Bar de Berlim, onde se come às escuras.
Agora, às quintas e sextas à noite, isso também é possível em Lisboa. Por enquanto, Paula só aceita grupos reduzidos, para ver como resulta, e para deixar Ana Serôdio adaptar-se à sua nova tarefa. Ana é cega desde os cinco anos e nunca tinha servido à mesa num restaurante. Mas aqui é ela quem, de todos nós, mais à vontade está na escuridão total da sala. Há uma música de fundo baixinha, mas como nada nos distrai a vista sentimos mais intensamente o silêncio da sala, e isso leva-nos a conversar de uma mesa para outra. Entrámos ali como desconhecidos, mas, no “escurinho do restaurante”, falamos como velhos amigos, fazendo perguntas a Ana, que, com infinita paciência, responde a tudo. Sim, em casa é ela quem cozinha, não, não tem medo de usar facas, sim, ficava sozinha com a filha quando ela era pequena, sim trabalhou 17 anos num banco e agora está a tirar um curso de informática, não, Lisboa não é uma cidade adaptada a cegos. “Às vezes sinto-me mesmo revoltada, tento controlar a revolta, mas é difícil quando vou na rua e há tantos obstáculos que não nos deixam passar”.

Foi por causa disso que Paula pensou neste projecto. Tinha à porta do restaurante dois grandes vasos com plantas e só quando viu um programa sobre os obstáculos que os cegos enfrentam nas ruas é que pensou “ai, os meus vasos”. Depois falou com a ACAPO e descobriu a Ana. Mas um jantar às escuras não lhe parecia suficiente para clientes que já conheciam bem a cozinha vegetariana do Bem-me-Quer, por isso decidiu entrar não numa mas em duas aventuras simultâneas:
o que comemos às escuras é cozinha molecular, feita pela Paula em colaboração com o Cooking Lab.
Descobertas A primeira descoberta é a de que, se não as virmos, decoramos mais facilmente o nome das pessoas. O nome e o som da voz são as referências a que nos agarramos quando, sentados à mesa no meio da escuridão, não nos podemos socorrer de olhares e gestos – se nos queremos dirigir a alguém temos que o chamar pelo nome.

À nossa frente quando nos sentamos está já uma taça com alguma coisa lá dentro. O truque, aprendemos rapidamente, é começar por tentar perceber o formato do recipiente. No restaurante da Paula pode ser de muitos formatos, redondo, quadrado, semi-oval, quadrado pequenino. No caso desta entrada, a ideia é pegar-lhe com a mão e levá-la à boca. Não ter o cérebro a enviar-nos mensagens sobre o que os nossos olhos acabaram de ver e a preparar as nossas papilas gustativas para um sabor que guardamos na memória faz toda a diferença.
Quando a comida chega à boca não temos nenhuma informação sobre ela. Começa o jogo de detectar sabores, perceber formas. Chegam depois três copos, dois quentes e um frio. São sopas com sabores inéditos. A seguir vem o prato principal, ou melhor, os três pratos que compõem o principal, e o desafio é cada vez maior. Os dedos percorrem a margem dos pratos, depois deslizam cautelosamente até ao interior. Não há facas nem garfos, mas uma colher, com a qual percorremos o fundo dos pratos tentando perceber se nos escapou alguma coisa. Tornamo-nos mais intuitivos.
Na escuridão a conversa continua. Mantemos hábitos inúteis – viramos na direcção de quem fala e pomos uma expressão de quem está a ouvir com interesse.
Mas acenar com a cabeça ou sorrir em silêncio não resulta. É preciso falar.
As sobremesas são supreendentes. Uma delas faz estalinhos na nossa boca e o som, como pipoquinhas a estalar, ouve-se claramente na sala.
Ana aproxima-se mais uma vez. Tocando levemente na mesa e no nosso braço localiza o prato e levanta-o. Depois, com os mesmos gestos serenos, traz-nos um chá. O jantar está a acabar. Tivemos sempre os telemóveis desligados e não fazemos ideia de que horas são.
A comida estava deliciosa. Mas para o sabermos foi preciso arriscar.
Confiança cega. Agora sabemos o que isso é.

Lisboa Sensorial – Passeios às cegas por Alfama 26 de Julho às 11h (provavelmente serão retomados em Setembro) Sujeito a marcação prévia (máximo de 8 participantes) Preço: 20 euros (reverte inteiramente para a ACAPO) Telf: 913806479

Jantar Sensorial Restaurante Bem-me-Quer Av. Almirante Reis nº 152 r/c e 1º esq.
Quintas e sextas-feiras (por marcação) Preço: 40 euros Telf: 218476678

 

A MENINA AFEGÃ pela jornalista niara de oliveira

 


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Essa menina de olhos expressivos foi fotografada quando tinha 12 anos pelo fotógrafo Steve McCurry, em junho de 1984. Ela estava no acampamento de refugiados Nasir Bagh, do Paquistão, durante a guerra contra a invasão soviética. Sua foto foi publicada na capa da National Geographic em junho de 1985 e, devido à expressividade, a capa converteu-se numa das mais famosas da revista e do mundo.

Ninguém sabia o nome da menina, nem mesmo McCurry. Depois de 17 anos de busca, em janeiro de 2002 ele reencontrou-a, agora com 30 anos de idade, e pôde saber seu nome. Sharbat Gula vive numa aldeia remota do Afeganistão, é uma mulher tradicional, casada, mãe de três filhas. Ela regressou ao Afeganistão em 1992.

Para McCurry, “A Menina Afegã” era apenas mais uma de tantas crianças que fotografou naquela época, mas a foto fez tanto sucesso que o assombrou por anos como pesadelo.

O fotógrafo não sabia responder nem a mais simples das perguntas nas inúmeras cartas recebidas pela revista: Quem era a garota? Qual o nome? Como ela está hoje? A National Geographic produziu um documentário em 2002, intitulado: “Uma Vida Revelada”, que descreve a busca incansável e persistente de McCurry pelo paradeiro da menina que comoveu o mundo com seu olhar.


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A menina afegã, com olhar menos expressivo, mais maduros, experientes e tristes, reza para que suas três filhas tenham pelo menos uma boa educação, coisa que ela não conseguiu devido às condições financeiras e pelo sofrimento da guerra. Nem ela e nem o marido sabiam do sucesso da fotografia, são pessoas muito simples e não assistem tevê, não compram jornais e nem tiveram acesso à revista onde Sharbat foi capa. Na foto acima, em 2002, durante as gravações para o documentário, Sharbat não soube dizer se estava com 29 ou 30 anos porque não possui registro.

GAÚCHOS (sic) TEXANOS NA CULTURA – por ademir canabarro

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o peão GAÚCHO na doma. ORIGINAL, sem encenação e fantasias.

 

 

gaucho-texanos-na-cultura-materia-000747peão brasileiro  fantasiado de “peão texano” USA. se aculturando, infelizmente. os peões de todas as regiões do Brasil sempre usaram suas roupas tradicionais, que vestiam no dia-dia da vida campeira. lamentável. mas as griffes…$$$$$$!!!! 

 

Assistindo a um vídeo de um Rodeio Gaúcho aqui de Santa Catarina vi peões montando sem a indumentária exigida ou que deveria ser exigida nos Rodeios Crioulos.

O Art. 22 do Regulamento Campeiro do MTG/SC estabelece que: os participantes de todas as modalidades deverão apresentar-se devidamente pilchados, assim como os seus cavalos deverão estar devidamente encilhados. Vi, também, peões montando de calça jeans, bombachinhas argentinas – ou como se diz, calça com punho – e poucos usando a tradicional bombacha gaúcha da Tradição do Rio Grande.

Mas o que mais me espantou foi o uso indiscriminado da chaparreira, uma indumentária usada nos Rodeos norte-americanos e que entrou no Brasil certamente pelo Rodeio Country de Barretos, no Estado de São Paulo. Também conhecida como Charrão, a peça é uma espécie de calça de couro com franjas, que o peão coloca por cima do jeans, durante a gineteada.

 

Infelizmente, são poucos os Patrões de CTGs que exigem a tradicional Pilcha Gaúcha Brasileira nos Rodeios Crioulos Gaúchos. Aos que exigem a indumentária completa e correta dos sul-brasileiros, os meus parabéns! Estão preservando a pureza da Cultura Regional Gaúcha do Sul do Brasil. Aos que não a exigem, gostaria de lembrar que estão colaborando para a deturpação da rica Tradição dos Gaúchos Sul-brasileiros; que estão esquecendo do principal objetivo de um Centro de Tradições Gaúchas do Rio Grande do Sul, que é o de ser o mantenedor dos usos e costumes tradicionais dos interioranos sulinos e da História do Povo Gaúcho Brasileiro. Além disso, demonstram, agindo assim, uma grande ignorância ao permitirem que peões usem indumentárias estranhas à Tradição dos Campeiros do Sul do Brasil, no âmbito do Movimento Tradicionalista Gaúcho Brasileiro organizado.

 

Mas, será só por ignorância? Bem, aqueles que têm dúvidas devem ler, informar-se e melhor se preparar para que não venham a permitir essas e outras aberrações desse tipo em seus Rodeios Crioulos Gaúchos. E além do mais, as regras para um Rodeio da Tradição Gaúcha estão publicadas no sítio do próprio MTG/SC, à disposição de todos os interessados. Tornar-se-á cúmplice desse assassinato cultural só aqueles que assim o quiserem. Ou será que há outra explicação para essas incoerências? Ou quem sabe algum peão gaúcho foi ao Rodeio Country de Barretos e viu os peões usando a chaparreira – aquele pedaço de couro balançando nas pernas do cowboy -,e o chiru achou bonito e trouxe essa texana indumentária para os nossos Rodeios Crioulos – da Terra -, contando com a conivência ou a falta de pulso de alguns Patrões de certas Entidades Tradicionalistas Gaúchas?

 

E dessa forma entrou mais um objeto estranho no Tradicionalismo Gaúcho Brasileiro, sendo também aceito como algo normal nos Rodeios Crioulos Gaúchos Tradicionalistas.

Pergunta-se: qual a incumbência do Coordenador Regional do MTG? Não seria papel dele fiscalizar os Rodeios e exigir que as Patronagens cumpram as diretrizes culturais do Tradicionalismo Gaúcho?

 

Se não é dele esta tarefa, de quem seria, então?  

 

 

(do colaborador e Mangrulho do ONTG no Sul do Brasil, Ademir Canabarro: um Missioneiro!)

 

NÓS, SOMOS GAÚCHOS! poema de josé itajaú oleques teixeira

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Nós somos gaúchos e não sertanejos;

nós temos cultura e os próprios festejos;

nós temos uma terra, um regionalismo;

nós temos o nosso Tradicionalismo.

O nosso fandango nunca foi bailão;

nós temos um Pago e uma Tradição;

nós somos gaúchos bem brasileiros;

nós só imitamos o Rio Grande campeiro.

Nós somos gaúchos, não somos modistas, com fins culturais e não mercadistas;

não temos intuito perverso, assassino;

zelamos a História, a Cultura e um Hino.

Nós somos gaúchos, não só rio-grandenses;

não somos do Texas e nem rio-platenses;

nós temos um Pago, somos nativistas:

nós somos Gaúchos Tradicionalistas!

O SONHO GEOMÉTRICO DE ESCHER por flávio calazans

Mauritis Cornelius ESCHER nasceu na Holanda em 17 de junho de 1898; lá abandonou a escola de arquitetura para ser artista plástico, dedicando-se às obras de arte em sua possiblidade de reprodução em cópias múltiplas, as gravuras sobre metal, pedra e madeira.

            Em 1935 reside em Granada, Espanha, onde apaixona-se pelos arabescos geométricos do castelo de Alhambra, construído pelos árabes, e do estudo dos arabescos Escher desenvolve um estilo próprio, empregando brincadeiras com a geometria para ampliar a percepção e expandir a consciência por meio da arte.

            Incompreendido pela crítica de sua época, Escher escreveu artigos tentando explicar o inexplicável: um trabalho inovador e fora dos parâmetros previsíveis, obra coerente e original ao extremo, genialidade que hoje é “Cult” e clássico entre quem sabe apreciar a arte.

            Em um artigo sobre artista gráfico e artista plástico, Escher explicou que a vida só pode ser percebida pelos contrastes, e esta paixão quase barroca espanhola leva Escher a explorar o que a Psicologia da Gestalt chama lei da Figura-Fundo, contrastando massas pretas e brancas em gravuras com anjos e demônios, por exemplo, onde a consciência foca a figura dos anjos enviando os demônios como fundo subliminar, entre tantas outras.

            Por vinte anos Escher pesquisou cristalografia, a estrutura dos cristais (lembrando que o elemento carbono é a origem dos diamantes e da vida orgânica na Terra) e a refração da luz pela física óptica, além de estudar astronomia desenhando detalhados mapas estelares do céu noturno; chegando a desenvolver teorias próprias sobre cristais e estrelas que contribuiram para que desenvolvesse uma nova perspectiva na qual as linhas paralelas em um ponto do espaço tornam-se convergentes a um ponto de fuga piramidal; como se olhando sob fios de um poste telegráfico, deslocando a cabeça até o ponto em que as linhas paralelas correm para o horizonte.

            Escher afirma que seus contrastes e paradoxos visuais buscam causar um “salto” de percepção no observador-fruidor-público, questionando a realidade física, o continuum espaço-tempo, efetuando metamorfoses inesperadas entre formas de vida diversas e até elementos inorgânicos, além de imagens que encaixam-se umas nas outras reduzindo-se ao infinito (o que antecede em 1940 o que viria a ser a geometria fractal de Mandelbrot de 1980).

            Sempre dasafiando os limites, bordas e fronteiras, Escher cria uma arte delirante, diferente, subliminar, que atinge intensamente todos os que detem-se para sentir longamente seus paradoxos e impossiblidades visuais. Idéias e símbolos místicos e esotéricos preenchem sua obra discretamente, e Escher escreveu confirmando que depois de prontas descobria nas gravuras axiomas místicos como “o que está acima é como o que está abaixo” os quais eram ilustrados e demonstrados visualmente, evidências esotéricas iniciáticas de arquétipos do Inconsciente Coletivo..ouroboros, espirais, sinais zodiacais e cabalísticos, caveiras iconesas subliminares e camaleões cósmicos povoam as obras.

            Combinando e cruzando a Teoria Gravitacional de Newton com a Relatividade de Einstein e com imagens religiosas persas, egípcias, chinesas, etc…como conteúdo e como forma a geometria dos cristais e das mesquitas mouras, Escher surpreende o leitor atento a cada imagem com um desfile desafiador de impossiblidades que falam por sí, um discurso para quem abre bem os olhos.

            Consciente, Escher explica sua obra entre arte e ciência: “Minhas imagens requerem explanação por que sem isto elas permanecem muito herméticas”.

            Escher contava histórias em imagens, nas quais o espectador encontra a sí próprio refletido, suas próprias dúvidas e inquietações cósmicas sobre crescimento e metamorfose projetadas nas figuras.

            “O construtor, o arquiteto, nada mais é do que um escravo da gravidade” provoca Escher em outro texto.

            A gravitação de Newton é questionada nas perspectivas impossíveis de cachoeiras em castelos e escadarias múltiplas que inspiram até abertura de telenovelas de Hans Donner na Rede Globo de Televisão.

            O ritmo de suas gravuras é musical, ele mesmo pergunta-se: “É possível comparar a imagem visual com o som audível?”.

            Em uma crítica ao racionalismo, Escher mostra desenhos perfeitos em seus detalhes mas escondendo truques de perspectiva ilógicos em um desafio à razão, Koans, paradoxos visuais convidando a transcender a mente e os estreitos limites da lógica.

            Desafiando a Biologia, Escher cria o “Bicho-rodapé” como um tatú de seis patas que enrola-se sobre sí mesmo em espiral para andar, imagem de desenho animado.

            Incompreendido e isolado, fazendo imagens muito à frente de sua época, Escher cria um universo que esconde uma complexa superpopulação variada e rica como reflexo de seu mundo interior sensível e avançado, racional mas transcendendo os limites da razão.

            Escher demonstra que a arte tem um poder visual de ampliar os horizontes da nossa percepção da realidade, e hoje sua obra é estudada em faculdades de arquitetura e ilustra livros de física teórica.  

 

 

 

 

RETRATO poema/gaúcho de delci josé oliveira

(Romance das Mulheres dos Guerreiros)

 

 

De certo guardava luto,
porque sóbrio era o vestido.
Na linha austera dos lábios,
nem sinal do riso ausente
se podia adivinhar.
Havia traços do Oriente
e uma plácida tristeza
de névoa crepuscular.
Presos na coifa, os cabelos
sugeriam a nobreza
dessas damas de além-mar.

Eram tristes as mulheres,
no tempo desse retrato…

Mulheres de homens campeiros
nos horizontes abertos
para as grandes recorridas,
duras domas e tropeadas
como não se fazem mais.
Uma vez ganhando a terra,
os homens faziam guerra
pra garantirem a paz.

Homens chegados da Ibéria
ao chão dadivoso e rico,
onde o seu sangue beduíno
verteu-se em seiva de angico
e no pampa enraizou.

Quando os homens reuniam
laços, cavalos e lanças
e se alçavam ao campo
com indômita esperança,
essas místicas mulheres
sabiam do seu mister;
e nas casas das estâncias,
nos ranchos desamparados,
ficavam só as crianças
e os velhos – aos seus cuidados.

Elas cuidavam de tudo,
lavouras e plantação,
fiando a lã para os ponchos,
moendo o trigo para o pão;
criando gerações novas
de caudilhos e campeiros,
a rigor de sacrifícios,
de minuanos e mormaços,
porque esta terra pedia
as primícias do seu sangue
e as bênçãos do seu suor.

Eram fortes as mulheres
no retrato desse tempo….

Essas mulheres trigueiras
dos ranchos de palha e barro
faziam suas trincheiras
contra os bandidos andantes
e colunas estrangeiras;
e, das filhas que salvavam,
a seu exemplo formavam
novas mães e companheiras.

Aos fluidos da primavera,
quando o verde renascia,
e se tramavam os ninhos,
e floriam mal-me-queres,
e as fêmeas eram fecundas,
– coitadas dessas mulheres!

Na voz dos ventos pressagos
vinham cantigas ausentes,
apresilhando os sentidos
como silícios ardentes,
como pesados grilhões…
e a música igual dos grilos
espicaçava o silêncio,
como esporas anunciando
a volta dos seus varões.

Eles chegavam cansados,
quando não vinham feridos
(assim mesmo quando vinham),
para mudar de cavalo,
para fazer mais um filho,
porque a terra merecia
esse holocausto de sangue
em louvor a Liberdade,
para a nova sociedade
viver num mundo melhor.

E as mulheres prestimosas,
pacientes sacerdotisas,
bem guardavam na memória
de milenar ascendência
medicinas misteriosas
contra as dores e feridas;
e, em vigílias comovidas,
ao brando abrigo das quinchas,
dos seus dedos delicados
floresciam os bordados
das bandeiras e das vinchas.

Era servis as mulheres
no retrato desse tempo…

E como eram solidárias
na lida dos ajutórios,
nos partos e nos velórios
e nos transes e responsos
dos terços tristes, chorados
por alma dos que morriam!

Rijas mulheres do Pampa!
Enlutadas heroínas
que se chamaram de “chinas”
por esse esquivo recato
e pelos olhos rasgados,
deixados de herança índia
nos sangues miscigenados!

Decerto delas herdamos
essa força primitiva,
essa fé que nos anima,
que mantém a raça viva,
perene através da idade.
Da mulher quase cativa
nasceu essa gente altiva
que ama tanto a Liberdade!

Eram mulheres de fato
essas Senhoras do Pampa
no tempo desse retrato!

 


NO PLÁGIO TE ROUBAM UM POUCO D’ALMA por valdeci gonçalves da silva

 

“Mas quando falamos de seqüestro da subjetividade, não há a necessidade de cativeiro material. O roubo é mais profundo, pois é levado muito mais que a materialidade da vida” (FÁBIO DE MELO – Padre).

No dia 21 de outubro de 2008, recebi um e-mail que dizia: “Gostei do artigo X, mais gente gostou, tanto é que o seu trabalho foi publicado como sendo de Fulana de tal, no Jornal Y, da cidade Z, na página…, exemplar do dia 21 de outubro (hoje), …”. Até então esta notícia me soou meio irreal, embora ciente de que o informante, devido às suas responsabilidades e seriedade, não perderia seu tempo com pegadinha ou algo do gênero. Bem sei que o bicho homem é propenso a tudo, mas é como se eu tivesse, num primeiro momento, dificuldade de aceitar a realidade de que alguém fosse capaz. O dito ser humano se encarrega de práticas monstruosas a ponto de arrastar criança dependurada em carro; jogar filha pela janela do prédio (o que é bem diferente da monstra que, mesmo jogando seu bebê num lago ou córrego, compreende-se que foi levada pelo desespero ou loucura da psicose puerperal, etc.), e de tantas outras barbaridades que me fazem indagar: Esse tipo de vivente pode ser chamando de humano? Ou é humano por ser exatamente isso: Monstro? Se, com bastante freqüência, dispensam suas habilidades em coisas horripilantes, plagiar…

Minha inicial incredulidade, talvez, também tenha a ver com o fato de que as pessoas, nas figuras de advogados, procurador, professores, padre, estudantes e outros, ao se utilizarem dos meus textos para argumentar suas peças jurídicas, como recurso didático em sala de aula, e fundamentar tese, dissertação, trabalho monográfico de conclusão de curso, respectivamente, sempre tiveram a decência de me pedirem autorização. Isto tanto no Brasil quanto em Portugal, e algumas ainda tiveram a gentileza de me enviar o material. E, também nos sites que permiti meus textos, bem como aqueles que copiaram sem me consultar, a todos que tive acesso, até hoje, fizeram uso do procedimento ético de citarem autor (a minha pessoa) e fonte (www.algosobre.com.br). Apenas em um, possivelmente o responsável pela postagem, dizia ter descoberto um texto interessante e que fizera algumas alterações. Meio eufórico chamava a atenção para que os internautas o lessem. Percorri, atentamente, todo o texto e pude constatar que o mesmo se encontrava na íntegra. Assim, as mudanças anunciadas, na verdade, só podia se tratar do referencial bibliográfico que não constava.

A única notícia de plágio que tomei conhecimento foi de um atribuído a Paulo Coelho em relação ao texto de uma psicóloga chilena. Em termos de vivência que me ocorrera foi dar apoio (indicando alguns endereços solicitados) a uma colega cujo ex-aluno nosso havia plagiado e apresentado um dos seus trabalhos num congresso. Mas, naquele momento não me toquei em pergunta-lhe qual era o seu sentimento de ter sido plagiada. Depois de plagiado perguntei para ela que me disse ter sentido muita raiva e a sensação de roubada. No seu caso, o plagiador que já ocupava a função de professor em duas universidades, “teve a dignidade” de pedir exoneração das mesmas, e se recolher à sua cidade de origem. Mas, diante de vários parágrafos, meus, recortados e montados para formar um texto assinado por outra pessoa, com o mesmo título do qual se deu apenas ao trabalho de retira-lhe os dois pontos! Tive a sensação de insegurança, de invasão, de constrangimento, desrespeito e falta de chão. É como se o ladrão, ou melhor, a ladra tivesse desfilando com peças prediletas do meu guarda-roupa, e eu vendo tudo aquilo sem poder, de imediato, desmascará-la e resgatar o que é meu, a deixando nua em pêlo diante de todos. Mas tenho que resolver de modo informal a partir de alguma negociação ou na legalidade por meio da justiça.

Mas essa analogia ainda não parece suficiente para explicitar meu sentimento. Porque, para adquiri qualquer outro objeto o que basta é ter dinheiro suficiente, ir até a loja e sair satisfeito com a compra na sacola. Mas o plágio de um artigo é o roubo de algo que nasceu das entranhas da mente, vísceras e coração depois de um período, geralmente sofrido, de gestação. O roubo do produto intelectual não pode, simplesmente, ser comparado ao furto de um objeto que não implica, comumente, em nenhum grande dispêndio de energia além do encanto pela sua beleza, utilidade e prazer do poder aquisitivo ou de compra, porque está pronto. O máximo do que pode precisar é de se fazer algum pequeno ajuste, e ter disposição para usá-lo. Enfim, o artesanato conseqüente das inquietações, angústias, gastos financeiros, sacrifícios, não pode ter a mesma valoração do objeto fabricado alienadamente em série, anônimo, impessoal e em surpreendentes quantidades.

Roubo por plágio é como se te levassem um filho, não um recém-nascido com qual se teve pouca convivência, apesar da grande espera e expectativa, mas gradinho com o qual já se teve uma história, um investimento emocional, cuidados devotados  para vê-lo se desenvolver saudável. Além da praxe que afirma: Criança dá trabalho. E todos os filhos, como dizem, são igualmente queridos. Embora que, com alguns, se tenha mais afinidade. Nesse episódio, me levaram um dos quais eu mais me identificava, por isso o vazio da impotência parece aumentado. É uma sensação de ter o coração cheio de amor para dá a esse filho, os peitos cheios de leito, mas sem jamais poder amamentá-lo. Na medida em que, paralelo a isso, vislumbro uma aura de impureza, uma sensação não mais de acolhimento, mas de rejeição. O filho já não é mais o mesmo, foi mexido, violentado, adulterado, alguém está, indevidamente, se deliciando com a proximidade da sua companhia, o vendo crescer, sorri, indagar com perguntas de “gaveta” sobre as “banalidades” do existir.

O processo de criação, obviamente, não acontece à toa. A fecundação, por regra, é conseqüência de uma orgia, da promíscua entrega aos mais variados autores, etc. Num primeiro momento, sou tomado pela febre da inquietação daquilo que não se encaixa, que parece incongruente, que falta algo sobre o qual ainda precisa ser dito, ou que apesar de toda fala ou descrição a respeito ainda sugere incompleto. Como se a verdade tivesse sido revelada, mas não toda a verdade, ou, pelo menos a verdade que eu a entendo como primordial. E, por vezes, também a necessidade de questionar aspectos anormais, bizarros, que parecem perfeitamente integrados à paisagem e cristalizados no pensar e fazer profissional, no cotidiano das interações e relações íntimas. Em vista disso, acho que não consigo viver pura e simplesmente como um animal. A vida vivida apenas pelo prazer hedônico de gozá-la não me interessa. A existência me inquieta, Deus me provoca, a sociedade me incomoda e que quero utopicamente aplacar, traçar um perfil suportável desse insuportável que, por vezes, me ultraja a condição digna de cidadão brasileiro. Uma vez fisgado por essas dúvidas, me vem o desejo de esclarecê-las, de entendê-las melhor. Porém, enquanto isso está sendo gestado, durmo ruminando a idéia e acordo me se espreguiçando com novos insights ou ainda mais angustiado.

Essa gravidez cresce, e para aliviar o peso dessa barriga enorme e invisível, como toda prenha (palavra horrorosa) se empenha no bem estar do feto (termo detestável, me sugere coisa estragada, podre, e não à bela imagem de um serzinho em formação) e preocupação com o seu futuro de bebê corre, sem pudor, atrás de exames, ajuda médica. Em suma, para ser acompanhada, eu corro para as livrarias. Vejo primeiro o que tenho disponível na estante da casa, livros, revistas. Mas a vontade de sentir o descendente forte, não me faz se contentar com o habitual ou caseiro, procuro fortalecê-lo com o que existe de mais atual e moderno. Não com o propósito de segui-lo, mas que sejam parâmetros para situar minhas argumentações no contexto da contemporaneidade. Nem sempre encontro o que quero ou espero nesses supermercados do saber, faço pedidos, vou a sebos. Algumas bulas sumárias parecem promissoras e, por isso, levo alguns volumes para mais tarde descobrir que são pouco calóricas. As histórias se repetem, e é comum constatar a ausência do essencialmente novo, a maior parte é de idosos, ou mesmo, caducos, maquilados de releituras. Mas a cata continua, na Internet, etc., até o ponto de me certificar de que todas as fontes disponíveis foram esgotadas.

O próprio feto ajuda, tem uma orientação intrínseca. Não raro direciona, ele parece saber o momento preciso de parar e anunciar o esboço dos seus contornos faciais. Como geralmente meus rebentos são polêmicos, por isso procuro me fundamentar. Convém salientar que, ser polêmico, não é nada mais nada menos do que não ter preconceito, não mascarar, dizer naturalmente o que pensa e sente. Até porque há uma forte e imediatista sedução social para tudo que é sem alma, de fachada, oco e artificial. Uma evasão em massa, tonta, desorientada feito besouro na claridade pronta para se incrustar e se acomodar na camada mais superficial dos vernizes. Polêmico é não esconder, e se dispor em se ariscar de trazer para visibilidade aquilo que boa parte, por conta do medo, do narcisismo prefere