Arquivos Mensais: novembro \27\UTC 2010

TRIGÉSIMO ANDAR de omar de la roca / são paulo

Estou sempre aberto para o mar.

Sentado e minha mesa,tenho sempre a água ao meu redor.

Numa reunião de negócios no alto do prédio ,revolvo meus pés na areia da praia.

E respiro a doce maresia em salas fechadas.

Procuro ter sempre a brisa do mar em mim.

Que me alivia , me completa.

Mas também penso nas cachoeiras  que vertem direto no mar.Nas matas fechadas

Mas prefiro o mar.

Das montanhas gosto da altitude delas, dos bosques de pinheiros ,  de seu perfume

amadeirado.

Mas o mar me trás o sal. O Santo Sal da purificação.

Já as montanhas me trazem as maresias  florais, as areias verdes e orvalhadas.

Os campos me trazem a solidão de praias vazias.

Onde cavalgo a beira mar, rápido, cada vez mais rápido.

É minha vez agora,

Hora de apresentar resultados. Falar sobre visitas e contatos.

Mais uma folha virada.Não pelo vento, que a sala esta fechada e condicionada.

Alguns comentários, parabens por um trabalho bem feito.

Já posso empurrar o barco prá água.

E depois a imensidão do mar me embalando.

O marulhar das ondas no casco ,as paginas se transformam em gaivotas,

E saem voando a procura de leitores peixes ávidos.

E eu fecho os olhos e aproveito o sol, o mar,o calor.

Neste tão condicionado e frio salão no 30 andar.

 

TATUAGEM DO DESTINO de luis garcia / tomar.pt


Arrancara o som de cada palavra;
uma busca pelo sentido
que só se encontra no momento seguinte
e um abraço cheio de vazio por desculpar…

Suprira o valor,
fizera um instante em que fosse rei
e chorara por ter muito para esconder!

O receio desenhara-o
como se fosse ele próprio
a tatuagem do destino.
E a mão que estava tão perto
só conhecia palavras de dor

 

Deus me livre de mim! – por edival lourenço

A razão é um atributo do Homo sapiens, uma especificação de fábrica que nos distingue da fauna geral. A razão nos leva a certas práticas que são tipicamente humanas, tais como a cultura, o desenvolvimento do conhecimento e sua acumulação, a reflexão sobre as próprias atitudes e aprender com os erros próprios e dos outros, principalmente a melhoria da condição de vida através da capacidade empreendedora. Talvez seja por isso que  ainda nos primórdios da civilização essa capacidade foi reconhecida e legitimada como um mandamento divino. Daí o Deus de Abraão ter ordenado em suas primeiras manifestações formais: Crescei e multiplicai-vos; enchei a terra e sujeitai-a; dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu e sobre todos os animais que se arrastam sobre a terra.

Este é por certo o mandamento que o homem mais vem cumprindo à risca. Até com certo garbo e arrogância. Porque aqueles outros (não matarás, não roubarás, não desejarás a mulher do próximo, respeitarás pai e mãe, não levantarás falso testemunho etc) o ser humano, como coletividade, não tem dado a mínima. E parece que enquanto mais avança no desenvolvimento das ferramentas, esses ditames ancestrais, que bem poderiam ser perenes, vão caindo no esquecimento coletivo. Já na questão de dominar a terra, de avançar sobre os bens naturais, sem ao menos os importar com os malefícios que nossas ações possam nos trazer, seja para a nossa geração, seja para as gerações futuras, temos sidos convictos, muito além da conta.

Nosso instinto empreendedor está eivado de pulsões de vandalismo. Estudos biológicos comprovam que a parte do cérebro que comanda o nosso senso empreendedor está acondicionada juntamente com resquícios evolutivos de propensão  vandalista,  do tempo em que as aves eram o tope da linha da criação animal. As aves são vândalas por princípio. Uma galinha, por exemplo, é capaz de jogar tudo pro alto e por terra, numa ciscação medonha, se tiver esperança de encontrar um grão que seja de cereal num ambiente. Outro dia, caminhando pelo Parque Vaca Brava, pude perceber que as flores de um ipê amarelo caiam metodicamente, uma depois da outra, numa sequência frenética e desesperada. Observei que entre a ramada havia um periquito ordinário, cortando flor por flor, numa fúria incontida. Observei, ou deduzi  que ele não tirava nenhum proveito derrubando as flores daquele modo. Aquilo apenas atendia à ânsia de empreendedorismo vândalo das aves, ao instinto de promover a bagaceira. Os agricultores sabem que quando as maritacas atacam os arrozais o estrago é total. Não porque elas comem tudo, mas porque elas derrubam os cachos, comendo alguns grãos, aqui e ali. Daí ser preciso vigiar a roça com argumentos de fogos ou alguns espantalhos em forma de palhaços Tiririca, distribuídos em pontos estratégicos.

Nós humanos somos assim. Com relação ao planeta, o suporte de nossa vida, nós somos a galinha ciscadeira, o periquito na florada do ipê amarelo, a maritaca no arrozal maduro. Somos o bicho feroz de nós mesmos. Um ladrão quando mata alguém para lhe retirar um simples par de tênis, ou um empreendedor que aterra as nascentes de um córrego para que o loteamento dê umas unidades a mais, está cumprimento esses comandos infelizes de cérebro de galinha, que também são nossos. Com a diferença que a galinha não tem os dispositivos da razão para lhe sofrear os instintos tóxicos e o Homo sapiens tem essa reserva moral a que pode recorrer, quando quiser, para orientar eticamente suas atitudes.

No entanto, o Homo sapiens, é um animau çinixtro, pois mesmo tendo os meios adequados para agir com correção e ética, ele se deixa convenientemente dominar por seus instintos de galinha. Está mais ligado no que julga ser o bem-estar pessoal imediato em detrimento do bem-estar coletivo duradouro. Se for possível apresentar lucro no balanço no final do mês, não se importa em causar prejuízo perpétuo para a vida, em todos os seus quadrantes.

O vandalismo de autoaniquilamento do Homo sapiens é um projeto coletivo que perpassa a todas as instituições humanas. A religião, a política, a economia, o mercado, tudo. Aliás, as religiões, pelo menos as de orientação cristã, têm se esmerado na criação das condições que levem o homem à autodestruição. Para essas religiões, o ser humano caminha fatalmente para um momento de Apocalipse, da revelação final. Não tem como torcer. Crescer e multiplicar-se etc. são o modus operandi dessa máquina escatológica, que haverá de aniquilar a todos, criando assim as condições propícias para que o Messias, um Deus super-herói pimpão, todo poderoso e socorrista nos redima da desgraça final. Quando já não tiver ficado pedra sobre pedra e houver estabelecido o choro coletivo e o ranger de dentes geral.

Depois desse susto imenso e desse protagonismo espetacular, será edificado seu reino pacífico e ordeiro, sem os tais instintos de galinha que contaminam a razão humana em nossa condição pré-apocalipse. Um reino quiliásmico (de mil anos). Todo mundo fará parte desse reino: cristãos, judeus, espiritistas, muçulmanos, budistas, animistas. Até os ateus terão seu lugar e ficarão por ali, meio vendidos, com cara de budão.  Os vivos e os mortos de todos os tempos serão convocados, inclusive os fetos vítimas de aborto. Os mortos serão plenamente restabelecidos em sua conformação de carne e osso e os vivos mantidos como se acham, num botox integral e definitivo. Onde haverão de se abrigar tanta gente? Pelo menos o Apocalipse de João não dá pistas de que vá haver espaço físico pra todo mundo. O livro medonho fala de uma Nova Terra, sem dar conta de que haverá algum planeta salubre em anexo, ou mesmo um pedaço em forma de aplique a este que temos o costume de habitar e afligir. Didaticamente, a ordem de arrasar o planeta está no primeiro livro da Bíblia e a superstição de que seremos salvos numa ação espetacular está no último.

Esse utopismo desbragado, que está na base de nossa cultura (considerando que do ponto de vista sociológico até ignorância é cultura), legitima qualquer ação humana que seja para dar relevo e implemento ao nosso desenvolvimentismo teleológico (com uma finalidade previamente estabelecida: o Apocalipse). Podemos destroçar os biomas, como a mata atlântica, o cerrado, o mangue, as coxilhas, a mata amazônica. Podemos derramar petróleo no mar, sem culpa, nem dó. Podemos atufar ruas e vias do mundo com nossos carrões irados, defecando veneno. Podemos mudar de discurso num repente, como o governo brasileiro que defendia o etanol com fervor apostólico pela sua baixa toxidade ao meio ambiente, mas foi só pintar o petróleo do pré-sal, acenando com a possibilidade de uma grana mais avultada, que o discurso mudou num passe de mágico.

Por dindim podemos puir nossa camada de ozônio com nossos gases peçonhentos, podemos rebentar com o equilíbrio climático, podemos emporcalhar a água, podemos moer a pau as condições favoráveis à vida. Afinal estamos apenas cumprindo o mandamento de crescer e multiplicar, dando vazão ao nosso instinto predatório de galinha e nos aproximando da revelação final, para o exercício do protagonismo divino. Para isso serve mais o instinto ancestral do que a razão adquirida já na condição humana.

Não consigo me ver no espelho de minha consciência sem me assustar: Deus me livre de mim.

 

RUDI BODANESE e sua arte / ilha de santa catarina

 

 

 

MÍDIA, golpes e tortura – por emiliano josé / são paulo

 

No Brasil a Casa Grande não descansa. E a principal voz da Casa Grande no Brasil é a mídia hegemônica, aquele grupo de poucas famílias que se pretende o intérprete da realidade brasileira, apesar de há muito ter deixado de sê-lo. A um jornalismo sério, que tivesse compromisso com a história, a um jornalismo que tivesse alguma ligação, tênue que fosse, com a idéia de democracia, que se preocupasse com a educação das novas gerações, caberia discutir a monstruosidade da tortura, mostrar o que ela tem de lesa-humanidade. Mostrar que qualquer processo que envolva tortura não merece qualquer crédito. Mas esse não é o jornalismo brasileiro. O artigo é de Emiliano José.

Emiliano José

Talvez pudéssemos inverter um pouco a ordem das coisas: que tal, ao invés de divulgar o relato de processos do STM sobre pessoas covardemente torturadas, como o faz agora o secretariado da mídia golpista brasileira, perguntássemos sobre qual o papel dessa mesma mídia na implantação da ditadura militar?

Não seria algo elucidativo, educativo para as novas gerações? Que tal compreender a verdadeira natureza de nossa mídia hegemônica para, então, entender por que, nesse momento, usando processos inteiramente submetidos à ordem castrense, ao terror ditatorial, tenta atingir a presidente da República, recentemente eleita, numa espécie de vingança pela derrota que sofreu? Perguntar por que ela não se conforma com essa nova derrota, a terceira derrota da mídia nas últimas eleições, derrotada pela opinião pública brasileira. Com que direito quer um terceiro turno, ilegítimo, revelador apenas de seus ressentimentos?

Eu insisto: no Brasil a Casa Grande não descansa. E a principal voz da Casa Grande no Brasil é a mídia hegemônica, aquele grupo de poucas famílias que se pretende o intérprete da realidade brasileira, apesar de há muito ter deixado de sê-lo. Não vou retroceder muito no tempo. Não vou esmiuçar o papel destacado de nossa mídia na tentativa de golpe contra o presidente Getúlio Vargas. O quartel-general do golpe era permanentemente orientado pela mídia. A mídia hegemônica de então e o golpe já quase consumado foram derrotados pelo suicídio do presidente.
O que pretendo mesmo é refrescar a memória ou informar um pouco que seja sobre o papel de nossa mídia no golpe de 1964. Não se trata apenas de ela ter elaborado todo o discurso que deu sustentação ao golpe contra o presidente Jango Goulart. Não se trata disso somente.

Trata-se do fato, por demais evidente, e há vasto repertório bibliográfico a respeito, de que a mídia participou diretamente das articulações golpistas. Ela derrubou Goulart lado a lado com os militares golpistas. Reuniu-se com eles para preparar o golpe. Não tem como se defender disso. É algo que hoje já pertence à história.

Com isso se quer dizer, e creio que é preciso insistir nisso, que a mídia hegemônica brasileira foi um ator fundamental na construção de uma ditadura sanguinária, terrorista no Brasil, a mesma que vai torturar covardemente homens, mulheres, crianças, que vai desaparecer com pessoas depois de desfigurá-las, provocar suicídios, que será capaz de todas as crueldades, perversidades para garantir a sua continuidade no poder por 21 anos.

A Rede Globo, criada lá pelos finais de 1969, não foi uma simples iniciativa empresarial. Foi um empreendimento político. Com a Rede Globo pretendeu-se unificar o discurso da ditadura, justificar tudo ela pretendesse, inclusive os assassinatos, o terrorismo que ela praticava cotidianamente. Inúmeras vezes assistíamos, no Jornal Nacional, notícias dando conta do atropelamento de companheiros, da morte de um militante por outro, versões montadas pela repressão para justificar a morte nas masmorras da ditadura. A Rede Globo encarnava e ecoava a voz do terror, foi criada para tanto.

E o grupo Globo é apenas parte de toda uma estrutura midiática que deu sustentação à ditadura, embora talvez, então, a parte mais importante. Não é difícil lembrar do terrível, do terrorista general Garrastazu Médici, ditador, que dizia que bastava assistir ao Jornal Nacional para perceber como tudo caminhava às mil maravilhas no Brasil. O Jornal Nacional era o diário oficial da ditadura.

Por isso, não há como nos surpreendermos com a tentativa, canhestra, de tentar desqualificar a presidente Dilma, pinçando aspectos do vasto processo buscado nos arquivos do STM, como a matéria de 19 de novembro, de O Globo. Não nos surpreendemos, mas não há como não nos indignarmos. É a voz da ditadura que volta, são os mesmos métodos que voltam, embora, agora, por impossibilidade, a tortura física não possa voltar.

A um jornalismo sério, que tivesse compromisso com a história, a um jornalismo que tivesse alguma ligação, tênue que fosse, com a idéia de democracia, que se preocupasse com a educação das novas gerações, caberia discutir a monstruosidade da tortura, mostrar o que ela tem de lesa-humanidade, mostrar a necessidade de evitar que ela exista, inclusive nas cadeias brasileiras de hoje. Mostrar que qualquer processo que envolva tortura não merece qualquer crédito. Mas, não.

O jornalismo realmente existente vai pinçar aspectos no processo que eventualmente desgastem a presidente da República. Nos próximos dias, a mídia golpista vai se debruçar sobre isso, podem anotar. É a tentativa do terceiro turno, evidência do ressentimento pela terceira derrota – a mídia perdeu em 2002 e 2006, quando Lula venceu, e perdeu agora, com a vitória de Dilma. Não se conforma, A Casa Grande não descansa.

Nem sei, nem vou procurar saber sobre todo o processo que envolveu a presidente. Escrevi vários livros sobre a ditadura, inclusive sobre Carlos Lamarca e Carlos Marighella, que tangenciam organizações revolucionárias pelas quais a presidente Dilma passou – e que orgulho ter militado em organizações revolucionárias. Não me detive, no entanto, na trajetória específica da presidente Dilma Roussef, nem caberia.

Mas será que os jornalistas que têm feito o papel de pescadores de leads e subleads negativos, de títulos desqualificadores da presidente têm alguma noção do que seja a tortura? Imagino que não, até porque só obedecem ordens, a pauta é previamente pensada, ordenada, e depois se faz a matéria.

Repito aqui o que escrevi em um dos meus livros, valendo-me das contribuições do psicanalista Hélio Pellegrino. A tortura nunca é mero procedimento técnico destinado à coleta rápida de informações. É também isso, mas nunca apenas isso. Ela é a expressão tenebrosa da patologia de todo um sistema social e político, expressão da ditadura militar de então. Ela visa à destruição do ser humano.

À custa de um sofrimento corporal inimaginável, teoricamente insuportável, a tortura pretende separar corpo e mente, instalar a guerra entre um e outro, semear a discórdia entre ambos. O corpo torna-se um inimigo – com sua dor, atormenta o torturado, persegue o torturado. A mente vai para um lado, o corpo sofrido para outro. O torturado fica exposto ao sol e à chuva, ao desabrigo absoluto, sem chão, entregue às ansiedades inconscientes mais primitivas. E apesar disso, tantas vezes, tantos de nós, quando não fomos trucidados e mortos na tortura, resistimos a esse terror, e saímos inteiros, ou quase inteiros, dessa situação-limite.

O que vale um processo feito sob a ditadura? O que valem declarações tiradas sob tortura? Responderia que valem apenas para revelar o que foi o terror, para revelar o que fizeram com as vítimas desse terror. Por que nos impressionamos e nos indignamos tanto com as vítimas do nazi-fascismo, inclusive nossa mídia, impressão e indignação justas, e somos, lá eles como costumam dizer os baianos, tão condescendentes com o terror da ditadura, com as torturas dos assassinos do período 1964-1985?

Eu compreendendo por que a mídia age assim com a nossa memória histórica, e já o disse antes: age assim pela simples razão de que ela tem tudo a ver com a gênese da ditadura, porque dela não pode se apartar, lamentavelmente. Por isso, nos preparemos para a luta dos próximos dias: ela vai buscar nos porões da ditadura o que possa servir aos seus propósitos de lutar contra o governo democrático, republicano e popular da presidente Dilma. E nos encontrará onde sempre estivemos: na luta intransigente, isso mesmo, intransigente, a favor da democracia, dos direitos humanos, e contra toda sorte de crimes contra a humanidade.

(*) Jornalista, escritor.


 

Dubai, o emirado dos recordes ! – por laura antunes / são paulo

Prédios de Dubai que parecem de brinquedo, vistos do observatório do 124º andar do Burj Khalifa, o prédio mais alto do mundo / Foto: Laura Antunes

Era uma vez um longínquo vilarejo num deserto das arábias que decidiu tornar real até a mais inimaginável miragem. No espaço de duas décadas, Dubai, o mais famoso dos sete Emirados Árabes Unidos, tomou para si o título de capital dos superlativos ao erguer uma estação de esqui na neve, uma ilha artificial em formato de palmeira com 500 quilômetros de orla, um conjunto de ilhas formando os cinco continentes, hotéis que reproduzem uma vela de barco ou uma onda… Como não era o bastante, Dubai conseguiu se superar ao inaugurar num mesmo endereço o prédio mais alto do mundo (com o observatório externo mais alto do mundo), construído ao lado do recém-inaugurado maior shopping do mundo – onde fica a maior parede transparente do mundo – e vizinho a uma das estações do novíssimo maior metrô automatizado do mundo. Um monumental lago artificial completa o complexo arquitetônico, onde acontece diariamente o balé das águas, que atrai milhares de turistas atônitos, pois o show termina, claro, com outro recorde: o jato de água mais alto do mundo! É só? Imagina… O lugar abrigará em breve a maior sobreposição de viadutos do mundo (15, ao todo). E, como Dubai não se cansa de surpreender, o próximo projeto megalômano já está a caminho: um prédio residencial, onde todos os apartamentos vão girar em seu eixo.

 

 

AS 10 ESTRATÉGIAS DE MANIPULAÇÃO MIDIÁTICA por noam chomski / usa

Noam Chomsky *

O linguista Noam Chomsky elaborou a lista das “10 Estratégias de Manipulação”através da mídia.
1. A estratégia da distração. O elemento primordial do controle social é a estratégia da distração, que consiste em desviar a atenção do público dos problemas importantes e das mudanças decididas pelas elites políticas e econômicas, mediante a técnica do dilúvio ou inundação de contínuas distrações e de informações insignificantes. A estratégia da distração é igualmente indispensável para impedir que o público se interesse pelos conhecimentos essenciais, na área da ciência, da economia, da psicologia, da neurobiologia e da cibernética. “Manter a atenção do público distraída, longe dos verdadeiros problemas sociais, cativada por temas sem importância real. Manter o público ocupado, ocupado, ocupado; sem nenhum tempo para pensar; de volta à granja com outros animais (citação do texto “Armas silenciosas para guerras tranquilas”).
2. Criar problemas e depois oferecer soluções. Esse método também é denominado “problema-ração-solução”. Cria-se um problema, uma “situação” previsa para causar certa reação no público a fim de que este seja o mandante das medidas que desejam sejam aceitas. Por exemplo: deixar que se desenvolva ou intensifique a violência urbana, ou organizar atentados sangrentos, a fim de que o público seja o demandante de leis de segurança e políticas em prejuízo da liberdade. Ou também: criar uma crise econômica para forçar a aceitação, como um mal menor, do retrocesso dos direitos sociais e o desmantelamento dos serviços púbicos.
3. A estratégia da gradualidade. Para fazer com que uma medida inaceitável passe a ser aceita basta aplicá-la gradualmente, a conta-gotas, por anos consecutivos. Dessa maneira, condições socioeconômicas radicalmente novas (neoliberalismo) foram impostas durante as décadas de 1980 e 1990. Estado mínimo, privatizações, precariedade, flexibilidade, desemprego em massa, salários que já não asseguram ingressos decentes, tantas mudanças que teriam provocado uma revolução se tivessem sido aplicadas de uma só vez.
4. A estratégia de diferir. Outra maneira de forçar a aceitação de uma decisão impopular é a de apresentá-la como “dolorosa e desnecessária”, obtendo a aceitação pública, no momento, para uma aplicação futura. É mais fácil aceitar um sacrifício futuro do que um sacrificio imediato. Primeiro, porque o esforço não é empregado imediatamente. Logo, porque o público, a massa tem sempre a tendência a esperar ingenuamente que “tudo irá melhorar amanhã” e que o sacrifício exigido poderá ser evitado. Isso dá mais tempo ao público para acostumar-se à ideia de mudança e de aceitá-la com resignação quando chegue o momento.
5. Dirigir-se ao público como se fossem menores de idade. A maior parte da publicidade dirigida ao grande público utiliza discursos, argumentos, personagens e entonação particularmente infantis, muitas vezes próximos à debilidade mental, como se o espectador fosse uma pessoa menor de idade ou portador de distúrbios mentais. Quanto mais tentem enganar o espectador, mais tendem a adotar um tom infantilizante. Por quê? “Ae alguém se dirige a uma pessoa como se ela tivesse 12 anos ou menos, em razão da sugestionabilidade, então, provavelmente, ela terá uma resposta ou ração também desprovida de um sentido crítico (ver “Armas silenciosas para guerras tranquilas”)”.
6. Utilizar o aspecto emocional mais do que a reflexão. Fazer uso do aspecto emocional é uma técnica clássica para causar um curto circuito na análise racional e, finalmente, ao sentido crítico dos indivíduos. Por outro lado, a utilização do registro emocional permite abrir a porta de aceeso ao inconsciente para implantar ou enxertar ideias, desejos, medos e temores, compulsões ou induzir comportamentos…
7. Manter o público na ignorância e na mediocridade. Fazer com que o público seja incapaz de compreender as tecnologias e os métodos utilizados para seu controle e sua escravidão. “A qualidade da educação dada às classes sociais menos favorecidas deve ser a mais pobre e medíocre possível, de forma que a distância da ignorância que planeja entre as classes menos favorecidas e as classes mais favorecidas seja e permaneça impossível de alcançar (ver “Armas
silenciosas para guerras tranquilas”).
8. Estimular o público a ser complacente com a mediocridade. Levar o público a crer que é moda o fato de ser estúpido, vulgar e inculto.
9. Reforçar a autoculpabilidade. Fazer as pessoas acreditarem que são culpadas por sua própria desgraça, devido à pouca inteligência, por falta de capacidade ou de esforços. Assim, em vez de rebelar-se contra o sistema econômico, o indivíduo se autodesvalida e se culpa, o que gera um estado depressivo, cujo um dos efeitos é a inibição de sua ação. E sem ação, não há revolução!
10. Conhecer os indivíduos melhor do que eles mesmos se conhecem. No transcurso dosúltimos 50 anos, os avançosacelerados da ciência gerou uma brecha crescente entre os conhecimentos do público e os possuídos e utilizados pelas elites dominantes. Graças à biologia, à neurobiologia e à psicologia aplicada, o “sistema” tem disfrutado de um conhecimento e avançado do ser humano, tanto no aspecto físico quanto no psicológico. O sistema conseguiu conhecer melhor o indivíduo comum do que ele a si mesmo. Isso significa que, na maioria dos casos, o sistema exerce um controle maior e um grande poder sobre os indivíduos, maior do que o dos indivíduos sobre si mesmos.

* Linguista, filósofo e ativista político estadunidense. Professor de
Linguística no Instituto de Tecnologia de Massachusetts

Tradução: ADITAL

CORALE de cristina annino / itália


Abbiamo preso le vostre

scorie, abbiamo sofferto per

farcele

entrare dentro; c’avete fatto più

male di quanto credete. Lo

dicono gli

alberi, mica noi. Eppure questo

panorama scortese, coi

gradini da un lato, mostra a

voi fermi, il Transito. Con

salto strusceremo la

terra. Siamo

stati quel che si poteva.

Soli, nel

senso magari di vera

fagocità; ci s’è

scappati di mano, può

darsi, per ansito forte

di sogni. Ora,

lividi di lingua, zitti, si

siede sopra noi come

tromba, l’aria e lo spazio.

 

.

Da Magnficat. Poesie 1969-2009 (puntoacapo, 2009)

 

ÓDIO CONTRA OS POBRES, busco entender as raízes – por emílio lopez / são paulo



Este artigo não se destina a atacar a classe média paulista ou carioca. Ao contrário. O objetivo é entender os motivos de setores da elite e da classe média terem votado contra o PT e concordarem com uma campanha de claros contornos de extrema direita, que se aproximou perigosamente de setores religiosos, como a Opus Dei e TFP, claramente influenciados pelo fascismo.

Creio que dois fatores podem ajudar a entender melhor o que Chico Buarque, em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo, chamou de o crescente ódio das elites e das classes médias contra os pobres.

O primeiro fator leva em consideração a formação do estado nacional brasileiro, quando se refaz o conceito de nobreza (diferente do sentido e das práticas sociais do antigo regime português) e que se articula com o que Modesto Florenzano, ao analisar a Revolução Francesa, chamou de nobreza do capital. Em suma, um grupo dirigente que se via como nobre,  detentor de privilégios que os plebeus não poderiam almejar. Chamarei isto de se “sentir nobre”, portanto apartado do mundo dos pobres.

Nesse processo de formação história ainda presente em nosso cotidiano,  todos os que acham que têm um pouco de poder querem ser chamados de “doutor”.  Basta lembrar da frase dos jovens pobres agredidos na Avenida Paulista por membros da classe média em 14 de novembro de 2010, que afirmou indignado com a libertação rápida dos seus  agressores:

Se fosse eu que tivesse batido em um grupo de “filhinhos de papai” estaria preso até agora. Mas eles têm dinheiro para pagar advogado. O dinheiro que eu tenho é para ajudar a minha mãe.

Mas valeria perguntar, pela ótica desta classe média, o que fazem os pobres na Avenida Paulista? Como ousam invadir esse território sagrado da classe média paulista?

Exatamente este é o ponto: a classe média percebe que a ascensão dos pobres ameaça o que ela via como espaços exclusivos para “a nobreza”. O mesmo se dá nos aeroportos e muitos outros locais. A ascensão dos pobres no governo Lula é vista por estes setores como uma nova invasão de bárbaros contra o Império Romano. Deste modo, a elite e a classe média  sentem cada vez mais ameaçadas a sua identidade  como “nobreza”, além dos seus privilégios. Devemos lembrar, por exemplo, que daqui a 20 anos os pobres que ingressaram na Universidade pelo PROUNI e ENEM irão concorrer em condições mais igualitárias com os filhos da classe média e da elite.

O segundo ponto leva em consideração que a elite e classe média atual são marcadas por concepções neoliberais e de valorização do modo de vida (norte) americano. Espalhou-se que o individualismo, o consumismo e a mercantilização desenfreados são os novos valores que devem reger a sociedade. Muitos brasileiros se recusam a ver que esse modelo fracassou. A crise ecológica não permite mais ele se perpetuar, visto que os recursos naturais são finitos. E as bolhas econômicas destruíram a economia norte americana.

O modelo neoliberal aumentou as distâncias entre ricos e pobres. Além disso, pretendia a exclusão de milhares de pessoas e se baseava na separação física entre as classes sociais, demarcando territórios. Um bom exemplo são os condomínios fechados em São Paulo.

Neste contexto, as práticas sociais da elite e da classe média tenderam a uma radicalização, pois cada vez mais percebem que os seus “privilégios” e “lugares sagrados” são atacados e invadidos por outros grupos sociais.

Ainda chamo a atenção que muitos setores da classe média preferem um Brasil com Z. Por exemplo, adoram comemorar o Hallowen e não o dia do Saci. Identificam-se como norte- americanos e babam pelos valores difundidos pela industria cultural deste país.

Ironicamente, a crise econômica e a recessão impulsionaram os Estados Unidos e a Europa para a direita do espectro político e favoreceram o crescimento de movimentos xenófobos e de extrema direita. Já no Brasil o governo Lula vence a crise e o Brasil vive tempos de prosperidade econômica. Nunca a classe média e as elites ganharam tanto dinheiro, consumiram e viajaram tanto. Daí a pergunta, por que esta ingratidão com o PT e Lula, visto que preferiram um projeto de país marcado pela exclusão social?

Lembro ainda que o voto espelha uma identidade cultural e uma visão de mundo, pois, 70% dos bairros da elite e da classe média paulista ao votarem em Serra, reafirmaram convicções e valores que devem reger a sociedade. Como se vê há um grupo que defende um Brasil para poucos privilegiados, que se sentem nobres e se recusam a tolerar os pobres.

Por último, gostaria de lembrar a todos que depois de 300 anos de guerras religiosas e da Revolução Francesa não me parece cabível querer atacar um traço fundamental do Estado contemporâneo que está baseado na tolerância e no respeito à diferença de pensamentos e de modos de ser.

O Brasil necessita a radicalização da democracia e não do preconceito. A verdadeira radicalização democrática é ampliar os recursos, inclusive de mídia, para os trabalhadores e os mais pobres poderem democraticamente desfrutar das mesmas condições que a elite tem  para divulgar os seus pensamentos e sua visão de mundo.

* Emílio Carlos Rodriguez Lopez é mestre em História pela USP

 

 

CINEMA de solivan brugnara / quedas do iguaçu.pr

 

 

Gosto de ver cartazes nos cinemas

como se fossem uma exposição,

por um longo tempo olhei o cartaz do filme do Homem-aranha,

que linda a perspectiva, o nadir.

O uniforme entrou em mim até a segunda babuska.

Compro entrada,

será um suvenir.

Entro no banheiro

sinto o perfume do sabonete líquido,

morango,

cai sobre as mãos como calda,

devia ser comestível.

Compro coca

beber coca-cola é uma performance pop,

salgo a pipoca

a deixo com gosto do Mar Morto.

 

Dúvida nostálgica

entre mentos fruit box ou confetes m&m`s,

Discutem a terceira e a segunda babuska.

 

Com olhos esfomeados

entro no cinema.

 

Quero sentir, toco as paredes do corredor,

procuro detalhes bonitos, bebo o néctar dos detalhes.

 

Como é fresco, algo de templo,

o clima deve ter sido importado de uma montanha tibetana

veio de iaque, avião, navio, caminhão até aqui

 

Reverente, vontade de nadar, passear como peixe num aquário

sobre as poltronas, passar perto da tela, do projetor.

As luzes me atraem, tenho algo de mariposa, queria morrer na luz.

 

O filme tem

de movimentos graciosos algo de balé

mas gostaria de ter mais tempo para ver os cenários, a cidade,

acho que as edições são muito rápidas para uma alma contemplativa.

The end

Arranco um pedaço da alma do cinema

e saio,

tirar a alma não mata, alma é como fígado se regenera.

 

Paul McCartney, em noite de lua cheia, mostra o segredo da felicidade em SP

Bem humorado, ex-Beatle esbanjou carisma e saúde durante show de 3h.
Capital paulista recebe novo show nesta segunda-feira (22), no Morumbi.

 

Neste ano, o estádio do Morumbi recebeu shows de artistas internacionais dos mais variados estilos, como Black Eyed Peas, Metallica, Rush, Bon Jovi e Coldplay. Coube a Paul McCartney realizar o último de 2010 no local. E a impressão que se teve na madrugada deste domingo (21), após quase três horas de hits do ex-Beatle, é que cada fã desses grupos resolveu ir à casa do São Paulo Futebol Clube para privilegiar o bom e velho Macca.

Em sua volta ao Brasil duas semanas depois da apresentação em Porto Alegre, Paul esbanjou bom humor, talento e saúde, emocionando e divertindo diversas gerações de seguidores dos Beatles. Era aquela que acompanhou a beatlemania in loco (os senhores), a que conheceu os discos dos meninos de Liverpool via coleção do pai (os adultos), a que baixou a discografia da banda no Napster (os jovens) e a que aprendeu a tocar os sucessos da banda em guitarras e baterias de plástico dos videogames (as crianças).

Nesta segunda-feira (22) tem mais, com um outro show esgotado de McCartney no mesmo Morumbi – que terá um presente se tiver novamente a bela lua cheia que se manteve atrás do palco na noite da primeira apresentação paulistana.

O show
O inglês consegue fazer com que as três horas de apresentação passem depressa. Antes que as pernas comecem a doer, o primeiro bis já começou. Do início, com a dobradinha “Venus & Mars / Rock show”, até o encerramento ao som de “Sgt. Pepper’s lonely hearts club band”, todos parecem hipnotizados pelo carisma e bom humor de McCartney.

A primeira vez que sentou ao piano foi para tocar “Long and winding Road”, oitava música do repertório. Antes de se levantar, ainda embalou “1985”, “Let em in” e “My Love” – essa última dedicada aos casais de namorados (ele ainda explicou que a compôs para sua “gatinha” Linda)

Quem foi ao show de Porto Alegre teve a sensação de déjà vu neste momento. É assim mesmo, pois apesar de um improviso ou de outro, McCartney realiza praticamente sempre a mesma apresentação.

Sim, ele vai ler o teleprompter, disparar expressões locais (“galera” e “paulistas” dessa vez) e dizer que vai tentar aprender português. E, sim, o ex-beatle irá fingir que o volume de “Live and let die” é muito alto para a sua idade ao final da canção que abusa da pirotecnia. Mas isso não é nada ruim: com um repertório que inclui 20 canções daquela que é a maior banda de todos os tempos e com um charme irresistível, Paul pode se dar ao direito de se repetir.

'Venus and mars/Rock show', 'Jet' e 'All my loving' abriram apresentação.
Venus and mars/Rock show’, ‘Jet’ e ‘All my loving’ abriram apresentação. (Foto: Daigo Oliva/G1)

E pode ter certeza existe quem pagaria para ver um (mesmo) show diariamente dele, se isso fosse possível. E pode ter certeza que essa pessoa choraria toda vez que Paul dedicasse “Something” ao seu amigo George Harrison e lembrasse de John Lennon antes de “Here today”.

Como surpresas do show paulistano, uma chuva de balões brancos tomou conta do Morumbi durante “Give peace a chance” e McCartney também brincou de regente diversas vezes com o coro de 64 mil vozes, chegando a improvisar uma música que poderia se chamar “Ô, São Paulo”.

O show teve dois bis. O primeiro emendou “Day tripper”, “Lady Madonna” e “Get back”, enquanto o segundo veio com “Yesterday” e “Helter skelter” – com Paul esbanjando uma voz de dar inveja.

A saúde do ex-beatle, aliás, é um capítulo à parte. Se um dia imaginou que chegaria aos 64 anos sem cabelos e frágil, aos 68 Paul é menino, que arrisca uns piques pelo palco e até uns pulos durante “Mrs Vandebilt”.

A disposição é tanta que, ao sair do palco, ele escorregou e caiu feio, ao vivo para os dois impressionantes telões de alta definição que acompanham a turnê. O tombo não foi suficiente para tirar o bom humor do ex-beatle, que deu um pulo e saiu todo sorridente, despedindo-se com um ursinho de pelúcia debaixo do braço.

Veja o setlist completo da primeira apresentação de Paul McCartney em São Paulo:

– “Venus And Mars” / “Rock show”
– “Jet”
– “All my loving”
– “Letting go”
– “Drive my car”
– “Highway”
– “Let me roll it / Foxy lady”
– “The long and winding road”
– “1985”
– “Let ‘em in”
– “My love”
– “I’ve just seen a face”
– “And I love her”
– “Blackbird
– “Here today”
– “Dance tonight”
– “Mrs. Vandebilt”
– “Eleanor Rigby”
– “Something”
– “Sing the changes”
– “Band on the run”
– “Ob-la-di, ob-la-da”
– “Back in the U.S.S.R.”
– “I’ve got a feeling”
– “Paperback writer”
– “A day in the life” / “Give peace a chance”
– “Let it be”
– “Live and let die”
– “Hey Jude”

Bis 1:
– “Day tripper”
– “Lady Madonna”
– “Get back”

Bis 2:
– “Yesterday”
– “Helter skelter”
– “Sgt. Pepper’s lonely hearts club band”

 

do G1 – Gustavo Miller e Marcus Vinícius Brasil

“Brunch à Moda do Box 32 by Beto Barreiros no Costão Golf” / ilha de santa catarina

Domingo é dia do “Brunch à Moda do Box 32 by Beto Barreiros”, com a equipe de chefs do Costão Golf. É também o dia que Iolanda e Fernando Marcondes de Mattos receberão os amigos para um brinde pela conquista pelo sexto ano consecutivo do melhor Resort de praia do Brasil.  Começa às 12:00 horas. R$ 53,00 por pessoa.   É necessário fazer reserva  pelos telefones 48 3209 1095 e 3269 3606. Rua Dário Manoel da Costa, 2548, Ingleses

O menu degustação terá de entradas:

Presunto espanhol Pata Negra, saladas de folhas crocantes, tomate seco com mussarela de manga, camarões marinados, beringelas marinadas, vinagrete de polvo, capponata italiana, patês de queijo, presunto e tomate seco, pães e torradas.

Pratos principais:

Bacalhau ao forno com tomate seco e bouquet de brócolis, Caldeirada de Frutos do Mar da Costa Catarinense, Carne de Sol de filé com queijo coalho e manteiga de garrafa, Risoto de grãos, Filé de peixe ao bisque de camarão trufado, batatas coradas com ervas e lascas de pecorino e espaguette de legumes com palmito pupunha.

Sobremesas:

Mini Pâtisserie com cinco sabores diferentes e muitas frutas da estação.

ELOGIO DE JACK por jorge lescano / são paulo

 

 

para Sandra Esteves

 

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Era uma vez um menino chamado Daniel.

A bem da verdade, em sua certidão de nascimento constava Pedro Daniel Nananá Nananá de Nonô, mas toda a aldeia o conhecia pelo clássico e híbrido apelido de Chapeuzinho Vermelho.

Em tempo, era uma época em que Lenhadores Corajosos e Alfaiates Vivaldinos perambulavam por aqui e acolá. Não esquentavam cadeira na França nem na Alemanha, sequer na Dinamarca. Parecia até que não tivessem o que fazer em prol da comunidade ou em proveito próprio, a menos que suas funções se limitassem às de coadjuvantes em histórias de Princesas Dorminhocas e Sapos Espertinhos, ou a costurar vestes sutis para o Imperador, se acreditarmos no filho de Anders. Época aquela deveras prazerosa, digam o que quiser os defensores do sindicalismo e da industrialização e da aposentadoria ao completar o segurado meio século de existência. Época, também, em que a especulação imobiliária ainda não atingira o interior do reino. Destarte, cada Ogro possuía seu Castelo Branco no planalto, mor de avistar o que corria pelo Gigante Adormecido, toda Fada tinha uma aldeiazinha para exercer sua profissão e, poderíamos dizer, não havia vilarejo cadastrado que não contasse com seu timinho de anões. Época feliz e eu não sabia!

Secundus, por que Diabos um garoto que tem dois nomes tão singelos como Pedro e Daniel, é reduzido à condição de chapéu, e ainda por cima, VER-ME-LHO!, sabendo-se das emoções negativas que tal cor provoca em todos aqueles que não estão apaixonados, hein?

Eu vos direi já já. Acontece que o garoto, traquinas que era, feito todos os garotos na puberdade, em certa ocasião, na qual tinha saído com seu avô paterno para caçar um Lobo Mau, animal de estimação que o velho compositor desejava conservar numa partitura, achou por bem surrupiar a mencionada peça de guarda-roupa, ou figurino, como quiserdes, de uma meninazinha não muito chegada a ouvir conselhos maternos, meninazinha esta que atinou a passar pelas imediações da trilha palmilhada por nossos músicos no interior úmido da Floresta Encantada. Ela, a meninazinha do período, ia ao encalço da moradia da genitora de sua própria genitora. Levava-lhe na cesta bolo, esfiha, chá de boldo e uma manguacinha de alambique muito apreciada pelas três. Há quem considere isto uma compensação, pois terão notado, sem dúvidas, a ausência de homens na família.

O reprovável comportamento do garoto foi bem feito para a mãe dele, deixem-me que lhes diga antes que me esqueça. Ela, como muitas outras mães, acreditava que por denominar o herdeiro de suas dívidas com dois nomes sérios, o de um profeta semítico, e o de um dos apóstolos de Nosso Senhor Jota Cristo, garantem-se contra as dores de cabeça próprias de sua função de parentesco, o que cunhou a famigerada expressão Ser Mãe é sofrer no Paraíso, e fazem como Pilatos, para não perdermos o tom bíblico do parágrafo.

O fato de o menino ter-se apropriado indevidamente do chapéu, que aliás não era chapéu e sim capuz, segundo o ilustrador, não seria coisa de muita monta. Porém, eis que um tio da pirralha, de nome Charles, o tio, claro, se bem me recordo, acabou levando o assunto ao conhecimento da autoridade policial da comarca.

Um jornalista presente na delegacia tornou-o famoso. Ao evento em pauta, não ao tio, após alguns retoques sensacionalistas bem ao gosto dos leitores do seu pasquim. Agora que me lembro, acho que era o jornalista que se chamava Charles, não o tio. Sim!

No B.O consta apenas que na tarde ensolarada do domingo próximo passado, isto escreveu o jornalista, que dizia ter pendores de poeta, o meliante, suspeito que a deixa é do escrivão, com o intuito de, desde o início, incriminar o réu, e/ou predispor o rábula desavisado contra a indefesa criatura, o meliante, prossegue o texto cruel, cognominado Pedro Daniel Nananá Nananá de Nonô, filho de Fulana e Sicrano, residentes todos os três mais o avô paterno do indiciado, dito Perengano, residente, digo, por enquanto, na rua Taletal desta megalópole, furtou a peça de vestuário supracitada, sem atenuante, o ato, não o chapéu, digo, diz o auto, sem nenhuma atenuante de ordem prática que justifique seu ato.

Com efeito, na ocasião, o larápio gozava de invejável posição social na aldeia, filho que era do Pizzaiolo-mór do Rei. Esta circunstância arredondará nossa narrativa, podeis crer.

Pedro Daniel gostava pouco de tomar banho. Achava o ritual extravagante, alheio aos seus costumes, com um quê de libertino, além de úmido, imaginai Vossas Mercês o que desejardes.

Não!, o jornalista era Jacob ou Wilhelm, e era irmão do delegado de plantão ou do tio, ou este e o delegado eram irmãos entre si e ele era  irmão do grego, não tenho certeza. É, havia um cego no princípio. Esqueci o nome do mero grego do início da história, graças a Zeus! Não podem querer que lembre de tudo, não é?

Então, pela sua atitude, de todo contrária à higiene pessoal, um modo sutil de desforra às pressões sociais, sugeriu o pediatra local, ou a forma de partilhar seu corpo, na visão de um  psicanalista, Pedro Daniel somente acedia a tomar banho se sua mãe, sentada à beira da tina, se penitenciasse lendo em voz alta, para que a vizinhança ouvisse, histórias infantis, ou as assim classificadas pela industria editorial emergente. Se a boa mulher não cumprisse a tarefa a gosto do mandrião, este chorava à portuguesa.

Tal estilo de lamúria era a preferida não apenas pelo facto do miúdo, de forma subliminar, certamente, haver sido condicionado pela família, pela história da literatura, pelo contexto social, que sei eu!, condicionado, diz o relatório, para reproduzir ipsis líteris, os traços marcantes de sua cultura, como pela instância, não menos profícua e familiar, dele apreciar superlativamente a iguaria itálica da qual, como foi apontado algures, o autor dos seus dias era exímio fabricante. Sim, senhoras e senhores, o delinqüente juvenil amava a pizza à lusitana! É de conhecimento público que tal modalidade prima pelo abuso de cebola em detrimento de outros pertences mais apetitosos para o paladar infantil, os quais sejam, ovo cozido, presunto e azeitonas pretas graúdas, cujo caroço, se bem aproveitado no estilingue, pode fazer misérias nas janelas da vizinhança, como Vossas Mercês estão fartas de saber.

O caso do jurista ou jornalista, não sei bem, talvez exija investigação mais demorada, pois não seria negócio de somenos.

Então, toda tarde de domingo ensolarado, estabelecia-se entre as duas gerações um tácito combate naval. Isto poderia explicar, por vias tortas, aquele primeiro ato delituoso de quem, com o passar dos anos, e após breve carreira de instrutor de lobos na requintada arte da literatura, segundo constata a vasta resenha policial concernente, viria a ser o tristemente célebre Jack, o Estripador.

Nada mal para um franzino garoto de aldeia, pelo qual ninguém dava uma rúpia furada, hein?

 

Há quem diga que Pedro (Daniel) era o próprio Lobo, e que seu sobrenome era Prokofiev. Todavia, nós não acreditamos em  Lobisomem, ainda que exista, anotou à socapa o escrivão de polícia. Algum cronista apresenta Pedro Daniel arrependido. Nesse relato, o facínora teria reencontrado, em suas andanças pelas estepes do Velho Mundo, a Meninazinha do Capuz Vermelho, agora uma starlet de grande sucesso no show-business. Desposou-a imediatamente para agradar Propp e foram morar no Castelo Branco do Rei Bonachão. Acredita-se que ambos foram felizes para Todo-o-Sempre. Contudo, o diretor de teatro Serguéi Korrêa (para manter o clima russo), continuou a escrever o escrivão, afirmava que a versão anterior é mentirosa e foi divulgada pelo indiciado Jack, o Estripador, mor de ocultar seu assassinato de Lulu. Fato este, aliás, já denunciado pelo dramaturgo alemão Frank Wedekind (1864-1918).

Com gesto discreto mergulhou a caderneta no mais profundo dos bolsos internos de sua japona, sorrateiramente saiu do recinto.

 

 

 

Senador Magno Malta sugere convocação dos donos da RBS/SC para explicar preconceito e racismo

 

UM clique no centro do vídeo:

O discurso da senadora Ideli Salvatti, de Santa Catarina, foi aparteado pelo senador Magno Malta.

Falavam a respeito do comentário, abaixo, na RBS de Santa Catarina:

 

 

VÊNUS NO ESPELHO de josé delfino silva neto / natal

 

 

 

 

 

Deitada no quarto em penumbra

Entre lençóis de linho encoberta

Enroscada desnudado em ter-te

Inalcançável como uma asa

Refletida faz-te e semeada

Em chão de pedras batidas

Pontos de luz fogaréu ao longe

No quadro antigo em claro-escuro

O riacho em cheia parecendo rio

Em faces de espelhos d´água  onde

Meu fogo afoga-se sem guarida

Como se  irreal imagem fosse

Vertida em desconsolo imenso

No vazio do meu gesto em ver-te

Vinga o meu sofrimento

 

 

SOLIDÃO de omar de la roca / são paulo

 

Sacrifiquei as lúdicas palavras,

querendo apurar meus sentidos.

Suprimi o duplo sentidos das palavras,

Mas sem ele as palavras  ficaram ocas.

Pobres palavras, meio mortas de cansaço

mas de um cansaço meu e não delas.

Serei eu o meio morto ?

Aguardando as palavras me acordarem?

Do sono agitado, de sonhos cansados,

que se repetem a cada dia mas não se realizam?

Sacrifiquei as poéticas palavras,

Achando que algum sentido faria,a falta delas, a sua ausência.

Mas ausências são raramente boas e sem sentido as vezes.

E cismei, para que ?

Que sentido posso eu fazer se não puder surpreender  as pessoas?

Criar mundos ambivalentes onde o sonho corre descalço numa estrada de pedras?

Continuar questionando se posso ou não, se quero ou não ?

Se irei ou não ? Ou como farei ?

Se posso continuar por ai, sem medo de ferir e ser ferido?

Tentei reviver as palavras mortas.

Consegui apenas reviver alguns segmentos. Não sei se os melhores.

Não sei se conseguirei reuni-los novamente na mesma folha,

E pior , não sei se ainda farão sentido.

Ou se seguirão assim , escondendo o rosto ,

mostrando apenas um olho exausto.

Se arrastando na meia escuridão.

 

 

VERA LUCIA KALAHARI (sem titulo) / portugal

No deserto onde nasci, nesse Namibe das mil miragens, aprendi a falar
sem precisar das palavras, porque elas, muitas vezes, são pobres e
inúteis…Sim, significam as coisas banais e insignificantes da vida:
o camelo, o oásis, as tâmaras, o albornoz….
Quando sentimos alguma coisa profunda em nosso coração ,só o coração
saberia dizer o que as palavras não podem… Mas o coração só sabe as
sílabas da sua pulsação… Repousa a cabeça no meu peito, na solidão
da minha tenda, e ouve-o pulsar… Ouvirás o vento varrendo as areias,
curvando as palmeiras, secando as fontes, sepultando as caravanas.
E nas suas curtas sílabas, compreenderás todas as palavras que não
vale a pena serem ditas.
Esta é uma pequena alegoria que faço à mudança que tem que ser feita,
no deserto que é a vida…Quando aprenderes a encostar a cabeça num
ombro acolhedor e sentires que amas esse amigo, com a mesma ternura
que amarás uma árvore em cuja sombra, depois de longa caminhada ao sol
ardente pelas dunas solitárias, te dará a doçura da sua sombra
benfazeja, aí residirá a mudança. Saberás que ele não te poderá dar
senão a mesma frescura dos ramos dessa árvore acolhedora, nada mais…
Que somos na natureza seres diferentes, separados em mundos
diferentes, mas o amor junta-nos ali… E o amor é isso mesmo: Que
importa que linguas diferentes não nos nos deixem comunicar que as
mãos estejam distantes para uma carícia…Basta essa sombra da árvore
que acolhe um momento nossos destinos obscuros, errando pelos sóis do
deserto…
É aí que residirá o futuro da humanidade, nestes tempos de mudança.
Por isso, resta-nos ajoelhar e beijar a sombra silenciosa e
acolhedora, que, sem saber, aqueles que sabem amar trouxeram também
aos sois do nosso deserto.

P.S.  Dedicado ao meu amigo e grande poeta, João Batista do Lago

“GINGA DO MANÉ” – QUINTA E SÁBADO (lagoa da conceição e centro) / ilha de santa catarina

A JUSTIÇA BRASILEIRA CONDENA AS VITIMAS, HÁ 50 ANOS ATRÁS ERA ASSIM. NENHUMA DIFERENÇA COM O PRESENTE. POR QUE SERÁ? VEJAM A REVISTA ” O CRUZEIRO ” DE 4 DE JUNHO DE 1960.

Autores de revoltantes crimes saem do Tribunal do Júri sob aplausos populares, enquanto as vítimas são esquecidas, se não castigadas e perseguidas.


Reportagem de ARLINDO SILVA

HÁ poucos dias, a imprensa carioca, publicou uma notícia procedente de Nova York, informando que “dois adolescentes, de 16 e 18 anos, foram condenados à cadeira elétrica por terem matado, em agôsto passado, um jovem de côr, durante uma refrega entre bandos de um bairro popular de Manhattan”. Por caprichosa coincidência, no mesmo dia lia-se nos jornais que Cácio Murilo, co-autor da morte de Aída Cúri, pretendia matricular-se numa escola aeronáutica. Como na sua ficha de antecedentes constava sua participação no monstruoso crime do Edifício Rio Nobre, a matrícula não foi aceita. O advogado de Cácio protestou, alegando que êle agora era maior de idade e o que praticara quando menor não devia ser computado… Que chocante contraste: enquanto nos Estados Unidos garotos da idade de Cácio – que, no ano passado, quando praticaram o crime tinham 15 e 17 anos respectivamente – são condenados à cadeira elétrica, aqui no Brasil, Cácio Murilo, que tem hoje 18 anos, completados a 17 de abril último, não sofre uma pena sequer. Aliás, essa isenção de penas para Cácio Murilo – culpa de um Código de Menores antiquado, desatualizado e superado – foi a grande saída que os advogados de Ronaldo e o porteiro Antônio João encontraram para que o caso da morte de Aída Cúri terminasse como terminou: sem autor. Com a recente absolvição do porteiro, chega-se a esta dolorosa conclusão: ninguém matou a pobre estudante. Ronaldo foi absolvido por um júri arranjado já se sabe como: o porteiro jurou que foi Cácio quem matou a jovem. E Cácio, por ser menor à época do crime, é penalmente irresponsável. Portanto, nenhum dos três matou Aída Cúri. E ainda por cima, os advogados de Ronaldo salpicaram de lama a memória da pobre môça, lançando sôbre ela infâmias e injúrias, procurando macular sua honra com palavras, já que os tarados curradores não o conseguiram pela fôrça. Como se não bastasse, pegaram o porteiro Antônio João, liberto, e o levaram a dar entrevistas radiofônicas por êste País afora, como se êle fôsse uma vedete. Ninguém está levando em conta que o anel de Antônio João ficou marcado no rosto de Aída em conseqüência de uma bofetada que êle lhe aplicou, conforme consta do laudo de exame cadavérico. Mas em Curitiba o brio da mocidade estudantil respondeu à altura ao vedetismo do porteiro: não se conformando com sua presença afrontosa numa estação de rádio local, os universitários curitibanos invadiram a emissora, depredaram-na, e o co-autor do assassinato de Aída teve de sair escoltado pela porta dos fundos. Continua, porém, no ar a pergunta: quem matou a pobre estudante? É possível que no final desta história ela seja acusada de ter tentado violentar Ronaldo, Cácio e o porteiro…

EM Recife, o Padre Hosaná de Siqueira e Silva, assassino confesso do bispo de Garanhuns, Dom Expedito Lopes, foi absolvido pelo Júri 48 horas antes de Caryl Chessman morrer na câmara de gás de San Quentin. Saiu do tribunal sob palmas da assistência. Entretanto, dois dias após, os estudantes da Faculdade Católica de Recife promoveram uma passeata de protesto contra a execução do “bandido da luz vermelha”. Entre o Padre Hosaná e Chessman é difícil dizer-se qual o pior. O embaixador dos EE.UU. no Brasil, Sr. Moors Cabot, em documento amplamente divulgado pela imprensa, definiu bem a questão do sentimentalismo brasileiro no caso Chessman. Disse êle: “Parece-me que a sempre generosa solidariedade e caloroso humanismo que tão bem caracterizam os brasileiros, poderiam ser igualmente dirigidos às vítimas dos crimes revoltantes de Chessman, mais do que a êle. Uma jovem mulher passará a vida mergulhada na loucura, como resultado das revoltantes perversões sexuais de que foi forçada a participar. A vida de uma outra ficará para sempre marcada pela lembrança de uma experiência semelhante. As vítimas dos seus roubos à mão armada saberão que êle, pelo menos, não mais estará sôlto para atacá-las após renovadas promessas de regeneração, feitas sempre para reincidir naquela série final de crimes mais graves”. Existe, não há dúvida, um contra-senso nas manifestações de parte da opinião pública brasileira: glorificam-se os criminosos e esquecem-se, quando não se acusam, as vítimas. Senão, vejamos o caso do Padre Hosaná, que saiu do júri aplaudido pela platéia, conforme relatório que nos enviaram os repórteres Afonso Ligório e Ivancil Constantino, do velho “Diário de Pernambuco”. Por que o Padre Hosaná matou Dom Expedito Lopes, bispo de Garanhuns? É uma história estonteante. O município inteiro de Quipapá, onde Hosaná era vigário, comentava que êle abrigava sob seu teto uma mulher, Maria José, que depois substituiu por outra, Quitéria, esta mais bonita que a primeira, segundo os comentários da população da cidade. Além disso, o Padre tornara-se um relapso nos seus deveres eclesiásticos, preocupando-se mais com uma fazenda que possuía em município vizinho do que com as missas que devia rezar na igreja de sua paróquia e em capelas vizinhas. O bispo de Garanhuns, sede da diocese, chamou Hosaná e expôs-lhe a gravidade da sua conduta perante o povo católico da região. Êle estava comprometendo o bom nome da Igreja. Dom Expedito deu-lhe 15 dias de prazo para que afastasse de sua casa a mulher que lá vivia. O padre não obedeceu. E no dia em que seria publicado o ato episcopal suspendento as ordens sacerdotais de Hosaná, que fêz o padre-assassino? Dirigiu-se ao Palácio Episcopal de Garanhuns e apertou a campainha da porta O próprio bispo atendeu, e quando dizia “faça o favor de entrar”, Hosaná fulminou-o com 3 tiros de um “Taurus” 32, que tomara emprestado a um conhecido na véspera. Levado para a Casa de Detenção de Recife, Hosaná não se mostrou em absoluto arrependido. Disse a uma irmã de D. Expedito, que o visitara incógnita: “Se o bispo vivesse cem vêzes, cem vêzes eu o mataria”. Agora, absolvido, êsse demônio de batina ameaça “acertar”contas com jornalistas que já fizeram reportagens sôbre a hediondez do seu crime e sua personalidade de delinqüente. O fotógrafo Jorge Audi e êste repórter estão na “lista negra” de Hosaná.

ENQUANTO nós lamentamos a execução de Caryl Chessman, cujo processo não conhecemos, um Carivaldo Salles, ex-inspetor da Alfândega de Corumbá, que metralhou à queima-roupa o Vereador Edu Rocha, do PSD daquela cidade, por ter denunciado pùblicamente o contrabando de automóveis na fronteira Brasil – Bolívia, continua à sôlta. Por quê? Porque em Corumbá não houve juiz, entre 5 ou 6, que se animasse a dar andamento ao processo, “por covardia ou por interêsses menos confessáveis”, segundo as corajosas palavras do Desembargador Barros do Valle, do Tribunal de Justiça do Estado de Mato Grosso. Em compensação, um dos juízes, que deixara o processo encalhar, iniciou ação contra a viúva de Edu Rocha, porque ela teria distribuído folhetos com as desassombradas palavras do Desembargador Barros do Valle. Mais uma vez, a vítima é castigada e o criminoso recebe o prêmio da impunidade.

Roberto na tocaia – por amilcar neves / florianópolis


Videira, SC – A escola pública, à noite, com dificuldade por causa do trabalho de dia pra ajudar no sustento de casa e pra poder ir às aulas. Um trabalho incompleto durante a semana que precisa pagar no sábado, todos os sábados, até as duas da tarde. Ajudante de cozinha: o serviço pesado na pizzaria e a vontade muitas vezes de largar tudo e se mandar pra longe. Coisa de adolescente. E de gente.


Uma teimosia, no entanto, de continuar a viver, de brigar, lutar e resistir na esperança de algo que Roberto não consegue definir. Talvez só a glória de sobreviver, mas a ansiedade por algo diferente, por um mundo outro, nem melhor nem pior, mas outro, diverso, fascinante, perigoso, desconhecido. O delírio, talvez, de ser vários ao mesmo tempo, de viver vidas múltiplas em paralelo, de sair um pouco de si e esconder-se sob outros nomes em outros lugares, em outras aventuras com outras mulheres, maravilhosas e insinuantes, fantásticas e misteriosas, com outros bandidos, com grandes amigos – e voltar então para o seu mundo e a sua vida muito mais rico, inquieto e cheio de perguntas inconvenientes.


Livros, falou a professora em sala de aula, muitos e muitos livros vocês poderão ver, tantos livros novinhos em folha, juntos, como vocês jamais imaginaram na vida que pudessem existir. A primeira feira do livro de Videira, ela disse, e a diretora suspendeu as aulas na sexta-feira pra ninguém ter desculpa de não ir.


Roberto foi. No auditório, um sujeito começou a falar. Um cara do Paraná. Um deputado federal. Um indivíduo de nome Marcelo Almeida. O deputado dos livros, falaram. E ele falou de livros. Só de livros. Contou as histórias que os livros contam. E foi espalhando os livros pela mesa: oito, dez, doze livros, não parava mais. Livros que li recentemente, falou, e dos quais gostei muito. Outros mundos: diversos, fascinantes, perigosos e desconhecidos. Outras vidas, outros nomes, outros lugares, mulheres sedutoras, grandes bandidos. No fim, deixou tudo, as histórias que contou e os livros que leu, para a Biblioteca Municipal Euclides da Cunha.


Fascinado com a estonteante abertura de horizontes, Roberto tomou coragem e pediu um autógrafo no caderno pro amigão Marcelo. Conseguiu – o que lhe significou o passaporte para frequentar a biblioteca e começar a explorar os caminhos que os livros guardam sem segredo, posto que basta lê-los.

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Amilcar Neves é escritor com sete livros de ficção publicados, diversos outros ainda inéditos, participação em 32 coletâneas e 44 premiações em concursos literários no Brasil e no exterior.

LUIZ FELIPE LEPREVOST entrevistado – “Embaixo dessa neve mora um coração” – curitiba

Aos 31 anos, Luiz Felipe Leprevost se destaca na nova geração de dramaturgos paranaenses e planeja dirigir uma peça

Neto de Dalton Trevisan, filho de Manoel Carlos Karam, sobrinho de Jamil Snege e mau aluno de Le minski. Meio por brincadeira, Luiz Felipe Leprevost reinventa a própria genealogia, em tributo à tradição literária paranaense. Há uns dois anos, o escritor vem capturando a atenção de leitores e espectadores como uma voz singular da nova geração de dramaturgos curitibanos, autor também de prosa e poesia.

O rapaz de 31 anos pode ser reconhecido pelos títulos mais compridos (e inusitados) que já se viu na cidade. Na Verdade Não Era um Sinal de Vá Tomar no Cu foi sua primeira peça encenada, inaugurando uma parceria produtiva com a diretora Nina Rosa Sá. Na segunda temporada, o nome sofreu um corte drástico para evitar confusão com montagens cujo apelo é a baixaria. Nada a ver com o trabalho minucioso que realiza com a linguagem, experimentando estilos e formulando situações nas quais se ouve ecos da vida em Curitiba.

Nas prateleiras de livrarias como a do Lucca Café, onde encontrou a reportagem da Gazeta do Povo para uma longa conversa, há exemplares de seus livros de contos publicados, Inverno dentro dos Tímpanos (2008) e Barras Antipânico e Barrinhas de Cereal (2009). Em 2011, virá um terceiro, também criativamente batizado: Manual de Putz e Pesares. “O mais sangrento até agora”, avisa.

Neve

Leprevost agora escreve uma trilogia de novelas iniciada por A Neve Não Tem Gosto de Algodão Doce, à procura de editora, e já transformada em roteiro para longa-me tragem.

O título provisório da segunda novela, nem o autor recorda. Basta saber que se envereda pelo território familiar, ainda pouco explorado em sua obra. A terceira parou no esboço, por enquanto, mas já carrega em comum com as anteriores um protagonista nascido em 1975, o “mítico” ano da neve.

Contudo, o autor renega o estereótipo do curitibano frio. “Em baixo dessa neve mora um coração”, diz, lembrando um verso da canção “Luiza”, de Tom Jobim. Aliás, não faltam citações nas suas falas, e elas se encaixam entre as ideias naturalmente.

A cidade impregna sua obra cedendo lugares, hábitos e personagens. Foi no bairro de Santa Quitéria que ainda garoto despertou seu imaginário urbano e criou gosto pela rua. Morou no Batel e, hoje, em Santa Felicidade, lamenta que o curitibano pouco frequente os espaços públicos.

Filho de empresário e psicóloga, Leprevost não tinha em casa a tradição literária. O apelo dos li vros veio da biblioteca que a família herdou do avô. Estava com 13 anos e se encantou pela coleção que recobria paredes. Já a vocação política do irmão Ney Leprevost não o atingiu. “Como diria Drum mond, faço política olhando pela janela do mundo. Coloco o melhor de mim na arte”, diz.

Essa arte, a escrita, exige solidão. Ele a concilia com o apreço pela troca de ideias. Se é corriqueiro vê-lo desfrutar da vida cultural da cidade, entre amigos como o dramaturgo e diretor Alexandre França, há em seus personagens o inverso, uma misantropia, comum a alguns de seus autores prediletos, como John Fante – outro é Scott Fitzgerald, e a leitura atual, a Nobel Herta Müller.

Nada o deixa mais perplexo do que o modo como as pessoas se en contram e depois se desencontram: os “cataclismas afetivos”, como diz. “Em que ponto paramos de nos ouvir e a voracidade do dia a dia nos tornou mais difíceis?”, pergunta. Talvez seja a questão mais premente em seus escritos.

Ator

Entre prosa, teatro e poesia, Le prevost se considera um contador de histórias. O teatro veio apenas “injetar carne nos fantasmas” – agora cita o dramaturgo alemão Heiner Müller.

O mais curioso foi que primeiro enfrentou as inquietações de ser ator. Por isso, até hoje, acha que quem escreve seus textos teatrais é o ator dentro de si.

A atração pelo teatro chegou tarde, a partir de uma oficina no espaço Pé no Palco, da qual seguiu para um grupo de estudos sobre Chekhov, até se decidir por largar a faculdade de Jornalismo – a de Direito já havia sido abandonada – para es tudar atuação na Casa das Artes de Laranjeiras, no Rio de Janeiro.

Sem modéstia, Leprevost se diz “muito bom ator”. Mas parou de atuar. O motivo? “O personagem não existe, é a sua mente, o seu corpo”, responde.

Essa sensação cresceu ao interpretar Lucky numa montagem carioca de Esperando Godot, dirigida pela professora Celina Sodré. “O Lucky me assombrou por muito tempo, a partitura física ficou marcada no meu corpo. O ator escreve em si mesmo”, concluiu, e desde então passou a ter medo de atuar.

Celina, a propósito, foi daquelas mestres que modificam a vida, para que a nova vida mude a arte. Outro foi o poeta Chacall, que co nheceu no Centro de Experi men tação Poética. A partir dali começava uma rotina insana com aulas de teatro durante o dia, espetáculos à noite e encontros artísticos madrugada adentro, até sucumbir à estafa e retornar a Curitiba, transformado.

Aqui, ganhou projeção como dramaturgo, e a parceria com a diretora Nina Rosa Sá se fortaleceu. Ela dirigiu suas Pecinhas para uma Tecnologia do Afeto, além de Com Amor, apresentada na 6.ª Mostra Cena Breve. Sem tanto diálogo com o autor, o Pé no Palco montou Já Viu como um Pinguim Anda?, uma colagem de textos do blog Notas para um Livro Bonito.

Ele gostaria de viver mais intensamente a rotina dos grupos de teatro. O problema é que, nessas situações, se intromete na direção mais do que deveria. Na verdade, já escreve ensaiando: lê em voz alta atrás da musicalidade das frases. Melhor ainda quando sabe previamente quem fará o papel. Daí aproveita o que conhece da personalidade do intérprete para provocá-lo.

No ano que vem, pela segunda vez na vida, Leprevost vai mesmo dirigir uma peça: O Butô de Mick Jagger. Deve estreá-la no Festival de Curitiba, dentro de uma mostra planejada com colegas do Núcleo de Dramaturgia do Sesi Paraná, que ele frequenta e reconhece: tem aquecido a cena autoral de teatro na cidade. Com textos de iniciantes e outros de linguagem já apurada, como os seus.

GP-LUCIANA ROMAGNOLLI

BEIRA-MAR de manoel de andrade / curitiba

 

 

 

 

 

 

 

 

Tudo abeirou minha infância

beira do rio, beira-mar,

orla branca de esperança

no leste do meu olhar.

 

Meu batelão emborcado

à beira de me afogar,

eu sobre a ponte abeirado

puxando minhas puçás.

 

Beirando todas as rotas,

nas asas das gaivotas

meus olhos cruzavam o mar;

 

sonhava à beira do cais

com um barco, nada mais,

e eu no mundo a navegar.

 

 

 

 

Curitiba, novembro de 2004.

 

 

O caminhoneiro Luiz teme o robô que vai tomar seu lugar – por alceu sperança / cascavel.pr



O Luiz tem mais de 40 anos. Honesto, bom motorista de caminhão, não pretende se encher de rebites porque tem filhos pequenos e não quer deixá-los órfãos ou aguentando um pai maluco.

Também já não está disposto a ficar a vida inteira correndo mundo e gostaria de mudar de profissão, mesmo porque em muitos casos ou você muda de profissão, ou um robô entra e muda você dali para o olho da rua.

Mas onde o Luiz será treinado para a nova profissão, se precisa correr mundo com o caminhão do patrão para sustentar a família? E treinado para que profissão?

Ele talvez tivesse vocação, bem apuradinho, para fazer o mesmo que o Antônio Ermírio ou o Bill Gates, mas nem pensa nisso. Bastaria “ganhar” (na verdade, quem ganha são sempre o banco e o governo) o suficiente para sustentar a família e acompanhar o crescimento dos piás.

Mas não dá: onde o Luiz bate em busca de um emprego na cidade, esbarra na maldição dos 40 anos. No campo? Teme entrar no MST e levar tiro de jagunço.

Não fuma nem bebe, mantém uma alimentação frugal, mas está velho num País cuja expectativa de vida cresce, num conjunto demográfico a cada minuto mais velho. Há meninos de dez anos que o crack tornou em cem, mortos-vivos em plena infância. Ai do Júnior se cair nessa!

Onde até poderia haver um emprego para Luiz, mesmo sendo “velho”, esbarra na qualificação. Quando menino, teve que deixar a escola para reforçar a renda dos pais, com vários filhos, ainda na roça.

Expulsos do campo (e dê-lhe máquina!), não sabiam o que fazer na cidade. Todos aqueles braços, antes úteis na lavoura de café, agora são bocas famintas numa cidade sem cafezais e com cafeterias caras.

O Luiz quer trabalhar, ter satisfação no trabalho, aprender uma nova profissão, lidar com o mouse, não com a Mauser. Mas não encontra quem lhe estenda a mão e a oportunidade de se reciclar, renovar, mudar de vida. Desde os 17 é motorista e pensa que vai morrer assim, se precisar se entupir de estimulantes para fazer jornadas cruéis de trabalho.

Seu xará, Gonzaguinha, cantava que o homem é o trabalho e sem trabalho o homem não vive. É isso: querem matar o Luiz! Não deixam o homem trabalhar no que gosta, é obrigado a se danar em cargas horárias terríveis, longe da família, que sente sua ausência.

Não deixam o homem mudar de vida, progredir, melhorar. Lê a Constituição, com a ajuda do filho com melhor escolaridade que ele, e mesmo nenhum dos dois conseguindo entender certas frases, sabem que a lei lhes assegura uma pilha de direitos: à casa própria, por exemplo. Mas vivem em casa alugada.

Aí vem aquele doutor da OAB e lhe diz, na reunião de pais e professores, que a Declaração Universal dos Direitos Humanos, tão odiados pelos escravocratas sedentos de sangue, obriga os governantes a arranjar emprego para quem não tem. Vem o padre e diz que o trabalho é sagrado: foi dado por Deus para que os homens se enobreçam e se salvem com ele. Será que toda essa gente também quer matar o Luiz?

O que Luiz vê é a máquina entrando e dez homens e mulheres saindo. O robô entrando e outros dez na rua. O computador entrando e dez, vinte ao sagrado deus-dará.

Por que essa tamanha diferença entre a realidade que Luiz vê e aquilo que a TV diz (recordes de novos empregos), que a OAB diz (os direitos estão garantidos) e o padre fala (os direitos são sagrados)?

Agora vêm o Ipea e a Fundação Getúlio Vargas, achando bonito o que fez aquele tal de Nico Sarkozy, querendo que Luiz trabalhe até os 70 anos, pois se aposentar-se aos 65 vai virar pinguço, mesmo não bebendo uma gota. E mesmo não conseguindo um novo emprego hoje, aos 40 e tantos anos.

O Luiz pergunta: “Onde foi que eu errei?” Não foi você que errou, Luiz. Foram eles que erraram e continuam errando com você e sua família.

JAIRO PEREIRA e sua POESIA / quedas do iguaçu.pr

O LOUCO BOM E AS MATRIZES

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um louco bom despacha sozinho em seu balcão

um louco bom sou eu a pé e a cavalo

poeta de vastas claridades olhos pro infinito

no azul transmundo do entendimento

epistemologias exegeses labores solitários

a língua geme no corpo dos verbos

recém-inaugurados

um louco bom chuta matrizes ao espaço

núcleos concêntricos dos transignificados

matrizes florísticas do transfinito no real

onde pétalas pêlos escamas compõem vidas novas

na vertigem da criação: o aproveito pleno das sobras

matrizes de um louco bom q. despacha sozinho

um louco bom atrás do pequeno balcão das idéias

versado em erros e acertos no miolo das odisséias.


.

PERDAS E GANHOS

.

uma revoada de pássaros em minhas palavras

asas na amplitude do dizer sem precedentes

nervosas inaugurações na língua

e tudo por um mínimo de brilho

longos os trilhos as idas retornos dos signos

estreitas as vias transversas das imagens

complexas as gnoises as hastes as revertigens

trípticas as telas no superespaço sidério

máxima virtude do criar o ser criado

um passo prum vendaval interior

lastimo a falta do espectador atento

nada fazer pra vencer e tudo ganhar na poesia

belos cavalos mulheres jogos caçadas inventos

pouco saber e muitíssimo arriscar na loteria dos signos.

 

.

NO PRIMEIRO CONGRESSO INTERESPACIAL

DOS SEMIOLOGISTAS

.

na via XPTZ 14 acelerei o trusbólido

na mesma mesa em q. Peirce transmitia

vi Leminski –um grosso baseado aceso-

olhar rísico insurreto ou de escárnio

no Congresso dos Semiologistas no árido

REXTYX 640 aquele asteróide da órbita savagé

é q. encontrei vc com seus óculos transmióticos

pura redenção sígnica a esphera atômica em minhas mãos

esphera de significados difusos prata com brilho lunar

esphera de concêntricos núcleos espelhos nos espelhos

esphera positrônica na mão direita exibida aos semiólogos

a esphera ardia em alta rotação sígnica

pedi a Leminski um basta de contradições nos ditos

e Peirce por bem ou mal suspendeu a sessão.

 

.

DOS IMBECIS

COMO DONOS DO MUNDO

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os imbecis na midiosfera investidos de sóis

deuses da mediocridade os imbecis

os imbecis supremos

carnavalizam a vida como podem

enquanto trabalhamos sofremos pensamos

os imbecis resistem dionisíacos

a melhor porção da nathureza pra nós criada

aos imbecis se consagra como totem do supercapital

imbecis: os imbecis estão vencendo

já ganham nossos espaços bebem do melhor vinho

roubam nossas mulheres festejam

os imbecis do mundo inteiro estão vencendo

palavras cobertas de cal :augúrios de má-fé:

soberba nos atos perfídia no modus q. contemplam.

.

.

AZPHYZ 888:

ONDE VIVI

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não só nesse asteróide mas noutro o AZPHYZ 888

o mago dos significados híbridos é q. vivi

ali foi decidido tudo sobre o signo

o q. deve dizer e diz sem precedentes

medo de ficar doente me meti na cápsula plúrima

alumínios de alta resistência e carbonos finos

a esphera ardia em minha mão direita

a esphera incircunscrita aos meus dedos

pedia a todos por meu destino

e ninguém respondia só o reflexo dos triumphantes

asas longas e prateadas transmitia bons sinais

o futuro chegando mais cedo em minha casa

o futuro sem seguro licença taxa ou prêmio

caído dos céus como chuva de ouro

no país do nunca mais.

 

.

O HOMEM Q. QUERIA

SER ROBÔ

.

sou o homem q. queria (e ainda quer) ser robô

um coração de metal cérebro superchipado

pulmão de espuma sintética braços de carbono leve

pernas com veias de mercuriocromo

erijo-me em robô e tenho a pele estampada em zinco

olhos refletores de gás néon dedos como garras em cobre

o homem robótico q. almejo e sou a partir de agora

não geme não chora deve mas não teme pondera

sou o homem-robô construído protonathuralmente

costurado com arames oxid’s nos fundos da casa

materiais desprestigiados em estruturas criativas

o ente robótico em q. me finalizo e sou

ansia pelo intelecto perfeito computar o indizível

deter muitas línguas numa só com verves associativas.

O LOUCO de vera lucia kalahari / portugal

 

 

Chamavam-lhe louco…

 

Porque vivia a vida que Deus lhe dera

 

Fazia o que lhe aprouvera

 

Sem receios, sem ofensas

 

E sem promessas suspensas.

 

O seu Deus verdadeiro

 

Era a sua consciência

 

E com ela estava bem.

 

Não queria mal a ninguém,

 

Não roubava, o alheio não cobiçava,

 

Não pregava liberdade

 

Em longos discursos cansados,

 

De serem lidos, relidos,

 

E nunca serem cumpridos.

 

Não ouvia maledicências

 

E não tinha, nem consentia,

 

Em ódios, segregações sociais…

 

Em nenhuma hora aplaudia os comícios sindicais

 

E nem sequer conhecia

 

Livros,. Leis e outros mais.

 

Para ele a melhor Lei,

 

Era a que fosse verdadeira.

 

Nunca uma Lei ditada apenas pela razão

 

De sábia e douta carreira,

 

Mas a Lei do coração.

 

E porque era tudo isto,

 

Do princípio até ao fim,

 

Honesto, recto, leal,

 

Não farsante, adulador, ou outras coisas assim,

 

Não o consideravam um homem.

 

Era um louco. Nada mais.

 

 

QUEM É CUIDADOR? por marilice costi / porto alegre


Todos os dias, recebemos informações excessivas. Imagens jogadas aos nossos olhos, vindas, em grande parte, de registro de algum tipo de agressão. Se antes, tínhamos medo de doentes mentais, hoje, os ditos sadios agridem no trânsito, nos condomínios, no trabalho, nas escolas, nos lares. A sociedade adoecida.

A desmanicomialização, os projetos de inserção – atendimento, medicamento, moradia e o direito a um salário mínimo – deram cidadania a muitos portadores de sofrimento psíquico. Sua integração resulta de muitos cuidadores em ação. Tudo bem? Apenas o início.

Resultado dos avanços da medicina, também os idosos esticam a vida e tornam-se um gargalo na previdência. Aposentadorias cobrem despesas com cuidadores?

Além disso, catástrofes climáticas resultando em degradação ambiental, migração, desemprego, vetores, epidemias, pânico social. Na hora dos vendavais, dos tsunamis, não existe rico nem pobre. Só humanos. Nosso grupo.

Quem cuidará de tantos? Nós. Nascemos sendo cuidados e nos tornamos cuidadores. E precisamos nos preparar para cuidar durante mais tempo e aceitarmos o cuidado em nós. Idoso não consegue cuidar de idoso!

Para cuidar é preciso ter empatia, doar-se, aprender a cada dia, ser solidário, articular-se em complexidades e estabelecer limites. O próprio. Um cuidador não deve estar só. Precisa de redes de apoio, descanso e lazer.

Iniciei a revista O CUIDADOR pensando em apoiar mães de pessoas com transtorno psíquico. Logo, percebi um exército desarmado: homens, avós, tios, irmãos, muitas mulheres, além de profissionais de múltiplas áreas. Milhares de cuidadores silenciosos. E os que não querem cuidar, que não aceitam em si para o que fomos feitos. Pagar um cuidador para se ver livre do cuidado é diferente de contratar um para cuidar melhor de quem amamos.

Está em regulamentação a profissão de cuidador, importante! Contudo, é preciso mídia comprometida, escola humanizada a focar não só no cuidador de idosos – um nicho no mercado – mas de muitos seres frágeis. A maioria pode pagar um cuidador?

Postos de saúde, escolas, abrigos, casas geriátricas, pensões protegidas? O papel dos órgãos públicos? Dos políticos? De empresários? Fazer valer planos diretores, impedir a ocupação de áreas de risco, apoiar e estimular redes de cuidadores, valorizar o Terceiro Setor.

Há décadas, a meta do patrimônio histórico era impedir que casas de pedras virassem fundações de novas casas. Hoje, não podemos projetar nem 10 anos à frente. É preciso agir agora, mobilizar a sociedade e compartilhar a sabedoria do cuidado. E acolher o cuidador, pois sem cuidar de si não poderá cuidar bem de outro.

E orgulhar-se ao exercer a humanidade. Todos somos cuidadores ou seremos cuidados por algum! Não é melhor cuidar?

 

MARILICE COSTI é arteterapeuta e arquiteta, editora-chefe da revista O CUIDADOR

http://www.ocuidador.com.br

 

FRATURAS de josé delfino / natal

 

 

ah as palavras

num  vai e vem

em  minha mente

se  abrem e fecham

em  copas como lábios

como  portas

como dedos de  mãos

que vagas imitam

em arco envergam-se

sobem e descem

às folhas de papel

se curvam se rendem

e escrevem

e não dizem

[…]

é  que elas se escondem

nos  vãos da casa

na  janela no telhado

debaixo  da escada

nas  frestas do chão

em utensílios  de pouco

ou nenhum valor

esquecidas  em armários

em quartos de despejo

em  malas e cartas

em  velhas compoteiras

no oco de elefantes

de falsa porcelana

em cima das  geladeiras

[…]

como e lembradas são

à  paisagem inglesa partida

das  xícaras de chá trincadas

amanhã de cacos esquecida

no fundo das cristaleiras

[…]

no varal do guarda-roupa

onde  pendurados  cabides

enrolados em trapos

imitam as curvas

dos teus pequenos seios

tuas ancas estreitas

 

[…]

brancas em quadros

negros expostas estão

soltas nas ruas

sem eira nem beira

em  castelos de cartas

se encobrem

em torres de babel

se confundem

como a água na  sede

como o fruto  na  fome

como a dor esquecida

na cicatriz de um antigo corte

[…]

difícil achá-las

questão de segui-las

vazar a vista  enxergar sonhos

achar nos olhos a cegueira

em quadros objetos  pessoas

procurar  bem

[…]

lugares onde nenhuma esteve

ir e acaso encontrando-as

ouvi-las

e fazê-las tangíveis

corpóreas palpáveis

[…]

mas amiúde nem tudo

é tangível e pior

numa foto ou num quadro

detalhes de coisas

discretas invisíveis quase

indizíveis são

 

[…]

tangível é o meu peito

onde elas se acoitam

e dentro  dele um relógio

a consoante e vogal afeito

que bate bate e bate

a três por quatro pulsando

dodecafonicamente  às vezes

em semitons de violão

o descompasso

 

[…]

 

tictac  tic tac  tictic  tac

que eu só  percebo

e não se escutam

a não ser quando repousam

cabeças  entre mamilos ou

ouvidos sobre o meu coração

[…]

mas lá estão escondidas

na força do vento

na inclinação da árvore

na dança do grão de areia

na forma da nuvem

no vazio do bolso

no sabor da conserva

no fermento da raiz

no tempero da panela

na mistura dos legumes

no iogurte no mel

no correr da água

na lágrima recente

no mercado persa

na harmonia em desordem

na tela do cinema

na catacumba caiada

embaixo da folha em branco

[ …]

no desejo invisível

ao ver teu ventre exposto

nas partes visíveis

de púbis encobertos

no dormido despertar

dos teus olhos se abrindo

[…]

e se vão e se perdem

em gritos gagos

no céu da tua boca

em cheiros e cores

na flor do desejo

no fogo-fátuo

do fálico carinho

no azul dos anos

no vermelho das vulvas

na selva dos teus pelos

meu negro crespo pente

[…]

e se acham e se queimam

no sol da pauta musical

na tua língua calada

no moinho de vento

no grito dos pássaros

no Beethoven surdo

na cabeça do alfinete

no falso desvelo

passado a limpo

no final do pesadelo

[…]

no meu ódio mudo

a inimigos vivos

nas minhas córneas

embaçadas de saudade

no desgosto de ver

um amigo morto

[…]

até no barulho do ido tempo estão

num largo de catedral

mas essas pararam no tempo

e se encantaram para sempre

ao meu lado sorrindo

ao som de um sino a tocar

degraus molhados eu subindo

vendo no céu passar

um avião

 

 

OLGA BENÁRIO PRESTES: DESTINO DE MULHER? – por zuleika dos reis / são paulo



 

 

Quando a casa de Luis Carlos Prestes e Olga Benário Prestes  foi invadida, instintivamente Olga protegeu Prestes com seu corpo, colocando-se na mira dos policiais.

Muitas vezes me interrogo: será este, irreversível, no real palpável ou no real simbólico, o destino de toda mulher que ama, deveras, o seu homem? Será toda mulher antes de tudo, mãe? Mãe de seus filhos, mãe de seus homens, mãe de seus pais, mãe de seus irmãos… algumas, mães de comunidades inteiras?

Colocar seu corpo, sua alma, seu verbo, seu silêncio, suas renúncias, suas desistências, suas contradições, seus impasses, também suas conquistas a serviço da proteção do Amado, seja ele o homem amado, seja ele um filho… seja ele um ideal para o mundo, seja ele um Deus, é esta, em suma, a função efetiva e maior para a qual cada mulher vem à luz, função que, mais cedo ou mais tarde lhe bate à porta, a despeito de todas as liberdades para o seu sexo, liberdades conquistadas à custa de muita luta e de muito sofrimento? É este, enfim, o de mãe, o seu verdadeiro e inalienável destino, fado do ser-mulher, ou tal presente escrito não passa de discurso perfeitamente obscurantista?

 

Na manhã de 21 de outubro de 2010.

Zuleika dos Reis

RUA SEM SAÍDA – de osvaldo wronski / curitiba

 

 

 

Havia algo de errado

Passando pela cabeça

Do osvaldo

 

Saiu de casa sem ensaio

E com a roupa do corpo

desabotoou a madrugada

 

O carro na garagem o esperava

Sem aquecer o motor

acelerou em disparada

 

 

O coração batia no limite da velocidade

Empreendida pelas ruas da cidade

Aumentando a quilometragem

 

 

Sem olhar pela sombra do retrovisor

Baixou instintivamente a cabeça

Ao passar entre as pernas do viaduto

 

Sem eira nem beira

Deixou pra trás

Toda a poeira

 

Havia alguém por perto

Bastava achar a pessoa errada

No lugar certo

 

Conheceu no percurso

anabela e anacleto

logo esquecendo

o nome deles por completo

 

 

Falava somente

na proporção do que ouvia

Pagava a vista toda conversa fiada

 

Saiu de si

Ao encontro de algo

Mas não havia alvo

 

Dilma Rousseff: “SIM, A MULHER PODE” – pronunciamento após a vitória nas eleições presidenciais de 2010


01/11/2010

Minhas amigas e meus amigos de todo o Brasil,

É imensa a minha alegria de estar aqui. Recebi hoje de milhões de brasileiras e brasileiros a missão mais importante de minha vida. Este fato, para além de minha pessoa, é uma demonstração do avanço democrático do nosso país: pela primeira vez uma mulher presidirá o Brasil. Já registro portanto aqui meu primeiro compromisso após a eleição: honrar as mulheres brasileiras, para que este fato, até hoje inédito, se transforme num evento natural. E que ele possa se repetir e se ampliar nas empresas, nas instituições civis, nas entidades representativas de toda nossa sociedade. A igualdade de oportunidades para homens e mulheres é um principio essencial da democracia. Gostaria muito que os pais e mães de meninas olhassem hoje nos olhos delas, e lhes dissessem: SIM, a mulher pode!

Minha alegria é ainda maior pelo fato de que a presença de uma mulher na presidência da República se dá pelo caminho sagrado do voto, da decisão democrática do eleitor, do exercício mais elevado da cidadania. Por isso, registro aqui outro compromisso com meu país:

Valorizar a democracia em toda sua dimensão, desde o direito de opinião e expressão até os direitos essenciais da alimentação, do emprego e da renda, da moradia digna e da paz social.
Zelarei pela mais ampla e irrestrita liberdade de imprensa.
Zelarei pela mais ampla liberdade religiosa e de culto.
Zelarei pela observação criteriosa e permanente dos direitos humanos tão claramente consagrados em nossa constituição.
Zelarei, enfim, pela nossa Constituição, dever maior da presidência da República.
Nesta longa jornada que me trouxe aqui pude falar e visitar todas as nossas regiões. O que mais me deu esperanças foi a capacidade imensa do nosso povo, de agarrar uma oportunidade, por mais singela que seja, e com ela construir um mundo melhor para sua família. É simplesmente incrível a capacidade de criar e empreender do nosso povo. Por isso, reforço aqui meu compromisso fundamental: a erradicação da miséria e a criação de oportunidades para todos os brasileiros e brasileiras.

Ressalto, entretanto, que esta ambiciosa meta não será realizada pela vontade do governo. Ela é um chamado à nação, aos empresários, às igrejas, às entidades civis, às universidades, à imprensa, aos governadores, aos prefeitos e a todas as pessoas de bem.

Não podemos descansar enquanto houver brasileiros com fome, enquanto houver famílias morando nas ruas, enquanto crianças pobres estiverem abandonadas à própria sorte. A erradicação da miséria nos próximos anos é, assim, uma meta que assumo, mas para a qual peço humildemente o apoio de todos que possam ajudar o país no trabalho de superar esse abismo que ainda nos separa de ser uma nação desenvolvida.

O Brasil é uma terra generosa e sempre devolverá em dobro cada semente que for plantada com mão amorosa e olhar para o futuro. Minha convicção de assumir a meta de erradicar a miséria vem, não de uma certeza teórica, mas da experiência viva do nosso governo, no qual uma imensa mobilidade social se realizou, tornando hoje possível um sonho que sempre pareceu impossível.

Reconheço que teremos um duro trabalho para qualificar o nosso desenvolvimento econômico. Essa nova era de prosperidade criada pela genialidade do presidente Lula e pela força do povo e de nossos empreendedores encontra seu momento de maior potencial numa época em que a economia das grandes nações se encontra abalada.

No curto prazo, não contaremos com a pujança das economias desenvolvidas para impulsionar nosso crescimento. Por isso, se tornam ainda mais importantes nossas próprias políticas, nosso próprio mercado, nossa própria poupança e nossas próprias decisões econômicas.

Longe de dizer, com isso, que pretendamos fechar o país ao mundo. Muito ao contrário, continuaremos propugnando pela ampla abertura das relações comerciais e pelo fim do protecionismo dos países ricos, que impede as nações pobres de realizar plenamente suas vocações.

Mas é preciso reconhecer que teremos grandes responsabilidades num mundo que enfrenta ainda os efeitos de uma crise financeira de grandes proporções e que se socorre de mecanismos nem sempre adequados, nem sempre equilibrados, para a retomada do crescimento.

É preciso, no plano multilateral, estabelecer regras mais claras e mais cuidadosas para a retomada dos mercados de financiamento, limitando a alavancagem e a especulação desmedida, que aumentam a volatilidade dos capitais e das moedas. Atuaremos firmemente nos fóruns internacionais com este objetivo.

Cuidaremos de nossa economia com toda responsabilidade. O povo brasileiro não aceita mais a inflação como solução irresponsável para eventuais desequilíbrios. O povo brasileiro não aceita que governos gastem acima do que seja sustentável.

Por isso, faremos todos os esforços pela melhoria da qualidade do gasto público, pela simplificação e atenuação da tributação e pela qualificação dos serviços públicos. Mas recusamos as visões de ajustes que recaem sobre os programas sociais, os serviços essenciais à população e os necessários investimentos.

Sim, buscaremos o desenvolvimento de longo prazo, a taxas elevadas, social e ambientalmente sustentáveis. Para isso zelaremos pela poupança pública.

Zelaremos pela meritocracia no funcionalismo e pela excelência do serviço público. Zelarei pelo aperfeiçoamento de todos os mecanismos que liberem a capacidade empreendedora de nosso empresariado e de nosso povo. Valorizarei o Micro Empreendedor Individual, para formalizar milhões de negócios individuais ou familiares, ampliarei os limites do Supersimples e construirei modernos mecanismos de aperfeiçoamento econômico, como fez nosso governo na construção civil, no setor elétrico, na lei de recuperação de empresas, entre outros.

As agências reguladoras terão todo respaldo para atuar com determinação e autonomia, voltadas para a promoção da inovação, da saudável concorrência e da efetividade dos setores regulados.
Apresentaremos sempre com clareza nossos planos de ação governamental. Levaremos ao debate público as grandes questões nacionais. Trataremos sempre com transparência nossas metas, nossos resultados, nossas dificuldades.

Mas acima de tudo quero reafirmar nosso compromisso com a estabilidade da economia e das regras econômicas, dos contratos firmados e das conquistas estabelecidas.

Trataremos os recursos provenientes de nossas riquezas sempre com pensamento de longo prazo. Por isso trabalharei no Congresso pela aprovação do Fundo Social do Pré-Sal. Por meio dele queremos realizar muitos de nossos objetivos sociais.

Recusaremos o gasto efêmero que deixa para as futuras gerações apenas as dívidas e a desesperança.

O Fundo Social é mecanismo de poupança de longo prazo, para apoiar as atuais e futuras gerações. Ele é o mais importante fruto do novo modelo que propusemos para a exploração do pré-sal, que reserva à Nação e ao povo a parcela mais importante dessas riquezas.

Definitivamente, não alienaremos nossas riquezas para deixar ao povo só migalhas. Me comprometi nesta campanha com a qualificação da Educação e dos Serviços de Saúde. Me comprometi também com a melhoria da segurança pública. Com o combate às drogas que infelicitam nossas famílias.

Reafirmo aqui estes compromissos. Nomearei ministros e equipes de primeira qualidade para realizar esses objetivos. Mas acompanharei pessoalmente estas áreas capitais para o desenvolvimento de nosso povo.

A visão moderna do desenvolvimento econômico é aquela que valoriza o trabalhador e sua família, o cidadão e sua comunidade, oferecendo acesso a educação e saúde de qualidade. É aquela que convive com o meio ambiente sem agredí-lo e sem criar passivos maiores que as conquistas do próprio desenvolvimento.

Não pretendo me estender aqui, neste primeiro pronunciamento ao país, mas quero registrar que todos os compromissos que assumi, perseguirei de forma dedicada e carinhosa. Disse na campanha que os mais necessitados, as crianças, os jovens, as pessoas com deficiência, o trabalhador desempregado, o idoso teriam toda minha atenção. Reafirmo aqui este compromisso.

Fui eleita com uma coligação de dez partidos e com apoio de lideranças de vários outros partidos. Vou com eles construir um governo onde a capacidade profissional, a liderança e a disposição de servir ao país será o critério fundamental.

Vou valorizar os quadros profissionais da administração pública, independente de filiação partidária.

Dirijo-me também aos partidos de oposição e aos setores da sociedade que não estiveram conosco nesta caminhada. Estendo minha mão a eles. De minha parte não haverá discriminação, privilégios ou compadrio.

A partir de minha posse serei presidenta de todos os brasileiros e brasileiras, respeitando as diferenças de opinião, de crença e de orientação política.

Nosso país precisa ainda melhorar a conduta e a qualidade da política. Quero empenhar-me, junto com todos os partidos, numa reforma política que eleve os valores republicanos, avançando em nossa jovem democracia.

Ao mesmo tempo, afirmo com clareza que valorizarei a transparência na administração pública. Não haverá compromisso com o erro, o desvio e o malfeito. Serei rígida na defesa do interesse público em todos os níveis de meu governo. Os órgãos de controle e de fiscalização trabalharão com meu respaldo, sem jamais perseguir adversários ou proteger amigos.

Deixei para o final os meus agradecimentos, pois quero destacá-los. Primeiro, ao povo que me dedicou seu apoio. Serei eternamente grata pela oportunidade única de servir ao meu país no seu mais alto posto. Prometo devolver em dobro todo o carinho recebido, em todos os lugares que passei.

Mas agradeço respeitosamente também aqueles que votaram no primeiro e no segundo turno em outros candidatos ou candidatas. Eles também fizeram valer a festa da democracia.

Agradeço as lideranças partidárias que me apoiaram e comandaram esta jornada, meus assessores, minhas equipes de trabalho e todos os que dedicaram meses inteiros a esse árduo trabalho. Agradeço a imprensa brasileira e estrangeira que aqui atua e cada um de seus profissionais pela cobertura do processo eleitoral.

Não nego a vocês que, por vezes, algumas das coisas difundidas me deixaram triste. Mas quem, como eu, lutou pela democracia e pelo direito de livre opinião arriscando a vida; quem, como eu e tantos outros que não estão mais entre nós, dedicamos toda nossa juventude ao direito de expressão, nós somos naturalmente amantes da liberdade. Por isso, não carregarei nenhum ressentimento.

Disse e repito que prefiro o barulho da imprensa livre ao silencio das ditaduras. As criticas do jornalismo livre ajudam ao pais e são essenciais aos governos democráticos, apontando erros e trazendo o necessário contraditório.

Agradeço muito especialmente ao presidente Lula. Ter a honra de seu apoio, ter o privilégio de sua convivência, ter aprendido com sua imensa sabedoria, são coisas que se guarda para a vida toda. Conviver durante todos estes anos com ele me deu a exata dimensão do governante justo e do líder apaixonado por seu pais e por sua gente. A alegria que sinto pela minha vitória se mistura com a emoção da sua despedida.

Sei que um líder como Lula nunca estará longe de seu povo e de cada um de nós. Baterei muito a sua porta e, tenho certeza, que a encontrarei sempre aberta. Sei que a distância de um cargo nada significa para um homem de tamanha grandeza e generosidade. A tarefa de sucedê-lo é difícil e desafiadora. Mas saberei honrar seu legado. Saberei consolidar e avançar sua obra.

Aprendi com ele que quando se governa pensando no interesse público e nos mais necessitados uma imensa força brota do nosso povo. Uma força que leva o país para frente e ajuda a vencer os maiores desafios.

Passada a eleição agora é hora de trabalho. Passado o debate de projetos agora é hora de união. União pela educação, união pelo desenvolvimento, união pelo país. Junto comigo foram eleitos novos governadores, deputados, senadores. Ao parabenizá-los, convido a todos, independente de cor partidária, para uma ação determinada pelo futuro de nosso país.

Sempre com a convicção de que a Nação Brasileira será exatamente do tamanho daquilo que, juntos, fizermos por ela.

Muito obrigada.

Pensamentos dispersivos sobre minha reencarnação – de solivan brugnara / quedas do iguaçu.pr

Esta manhã quis que

meu rosto fosse

cega pedra de nascente

e sentisse a água fresca

temperada com musgos e folhas,

correr eterna sobre minha face.

.

E meu olhar distâncias

ou linha do horizonte

para ver o sol

estender sua luz limpa e quente sobre a terra,

como um lençol recém passado sobre

a cama.

Que de meus braços emplumados de folhas

e dedos transformados em galhos de árvores

pingassem tangerinas.

ETERNA TARDE de alceu wamosy / santana do livramento.rs

 

 

 

A tarde vai morrer, calma como uma santa,
num êxtase de luz infinito e divino.
Há nas luzes do céu qualquer coisa que canta,
com músicas de cor, a tristeza de um hino.

Tudo, em torno de nós, se esbate e se quebranta.
Em nossos corações, como um dobre de sino,
e esperança agoniza; e a alma, triste, levanta
suas trêmulas mãos para o altar do destino.

Não é somente a tarde, a eterna moribunda,
que vai morrer, e espalha esta mágoa profunda
no nosso olhar, nas nossas mãos, na nossa voz…

É uma outra tarde — que nunca há de ser aurora
como a do céu será amanhã — que morre agora,
triste, dentro de nós…