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ONU aprova resolução que propõe fim ao bloqueio dos EUA contra Cuba

ONU aprova resolução que propõe fim ao bloqueio dos EUA contra Cuba

A suspensão do bloqueio a Cuba foi respaldada por 188 países na Assembleia Geral da ONU, que votou nesta terça-feira (28), em Nova York, a resolução “Necessidade de pôr fim ao bloqueio econômico, comercial e financeiro dos Estados Unidos contra Cuba”, apresentada pela 23ª vez pelo chanceler cubano Bruno Rodriguez.

Por Théa Rodrigues,

Não há nenhum indício do governo norte-americano a respeito do fim do bloqueio a Cuba.

Não há nenhum indício do governo norte-americano a respeito do fim do bloqueio a Cuba.

Apesar do apoio maciço dos países membros do organismo, novamente a resposta do governo norte-americano é negativa no sentido de acabar com a política de sanções ao país caribenho. A votação repete o resultado do ano anterior, ou seja, 188 países manifestaram-se a favor. Apenas os Estados Unidos e ISRAEL votaram pela manutenção das medidas hostis e três países se abstiveram.

Rodríguez denunciou que os danos humanos resultantes do bloqueio impostopelos Estados Unidos crescem a cada ano e é impossível calcular seu impacto. Ele reportou aos 193 representantes da ONU que “77% dos cubanos nasceram sob estas circunstâncias”.

“Nenhuma pessoa honesta, no mundo ou no Estados Unidos, poderia apoiar as devastadoras consequências de uma política proibida por muitas convenções internacionais, incluindo a de Genebra de 1948”, assinalou.

O bloqueio econômico, comercial e financeiro imposto a Cuba pelos Estados Unidos se iniciou em 7 de Fevereiro de 1962. Foi convertido em lei em 1992 e em 1995. Em 1999, o presidente Bill Clinton ampliou este bloqueio comercial proibindo que as filiais estrangeiras de companhias estadunidenses de comercializar com Cuba.

“Cuba nunca renunciará a sua soberania, nem ao caminho livremente escolhido pelo seu povo para construir um socialismo mais justo e eficiente. Tampouco desistirá da busca por uma ordem internacional distinto, nem deixará de lutar pelo equilíbrio do mundo”, disse o chanceler cubano.

Isolamento de Cuba ou dos EUA?

Recentemente, um dos jornais de maior circulação no mundo, o New York Times, publicou um editorialpedindo que o presidente estadunidense, Barack Obama, “reflita seriamente” sobre “retomar asrelações diplomáticas” com Cuba.

“Seria sensato que o líder estadunidense reflita seriamente sobre Cuba, onde uma reviravolta política poderá representar um grande triunfo para seu governo”, diz um trecho do texto.

Não há nenhum indício do governo norte-americano neste sentido. Por sua vez, a movimentação de Cuba é antagônica a este posicionamento. “Convidamos o governo dos Estados Unidos a uma relação mutuamente respeitosa sobre bases recíprocas, fundamentada na igualdade soberana, nos princípios do direito internacional e na Carta das Nações Unidas”, disse o chanceler cubano perante a ONU, nesta terça-feira.

De acordo com o diplomata, a decisão de eliminar o cerco seria bem-vinda em escala mundial e resultaria em uma influência unitária a favor da paz e da solução pacífica dos conflitos e diferenças entre os dois países.

Cada vez mais, o governo norte-americano se isola em sua política imperialista, criticada até mesmo por aqueles que são contrários ao regime socialista cubano.

Celac, G77 e Países Não Alinhados apoiam o fim do bloqueio

O porta-voz da Costa Rica na ONU afirmou que as medidas unilaterais dos Estados Unidos no bloqueio imposto a Cuba afetam as negociações de empresas com o país caribenho. Nesta terça-feira (28), Juan Carlos Mendoza pediu, em nome da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac), que a soberania e a autodeterminação dos cubanos sejam respeitadas sem pretextos.

“A Celac deseja ratificar seu apoio à 23ª resolução sobre o fim do bloqueio”, afirmou o costarriquenho, que ressaltou a importância da suspensão desta política ao lembrar que a mesma gerou perdas inestimáveis ao povo cubano.

A carta dos soldados israelenses que se recusam a lutar em Gaza

O serviço militar israelense é obrigatório para homens e mulheres. Movimentos de resistência são comuns. O primeiro caso conhecido é de 1954, quando um advogado, Amnon Zichoroni, pediu para ser dispensado por ser pacifista. Em 2004, cinco pessoas foram condenadas a um ano de prisão por não se alistarem.

 

Em março, sessenta jovens entre 16 e 19 anos escreveram um manifesto destinado ao primeiro ministro Binyamin Netanyahu em que diziam  recusar o alistamento pois se opunham à ocupação dos territórios da Palestina.

Agora, são 51 soldados que se levantaram contra as Forças de Defesa, alguns deles na reserva.

Eles escreveram uma carta aberta no Washington Post explicando os motivos. O texto chega no momento em que a violência recrudesce na Faixa de Gaza, com a possibilidade cada vez mais remota de um cessar-fogo nas próximas horas.

Até agora, pelo menos 630 palestinos morreram e 3 mil estão feridos. Mais da metade são civis. Do outro lado, 31 israelenses tombaram, dois deles civis.

A carta é um documento eloquente sobre a tragédia e oferece uma visão da mentalidade das forças armadas israelenses. Para os signatários, o exército usa métodos de regimes opressivos contra a população de Gaza e da Cisjordânia e perpetua as desigualdades na sociedade israelense.

Eis alguns trechos. O original está aqui:

Em Israel, a guerra não é apenas a política por outros meios — ela substitui a política. Israel já não é capaz de pensar em uma solução para um conflito político exceto em termos de força física; não admira que seja propenso a ciclos de violência mortal que nunca terminam. E, quando os canhões disparam, nenhuma crítica pode ser ouvida. 

O exército, uma parte fundamental da vida dos israelenses, também é o poder que governa os palestinos que vivem nos territórios ocupados em 1967. Desde que ele passou a existir em sua estrutura atual, somos controlados por sua linguagem e mentalidade: dividimos o mundo entre o bem e o mal, de acordo com a classificação dos militares.

Os militares têm um papel central em todos os planos de ação e propostas discutidas no debate nacional, o que explica a ausência de qualquer argumento real sobre soluções não-militares para os conflitos de Israel com seus vizinhos. 

Os palestinos da Cisjordânia e da Faixa de Gaza são privados de direitos civis e direitos humanos. Eles vivem sob um sistema legal diferente de seus vizinhos judeus. Isto não é culpa exclusiva dos soldados que operam nesses territórios. Muitos de nós servimos em funções de apoio logístico e burocrático; lá, descobrimos que todo militar ajuda a implementar a opressão aos palestinos. 

Muitos soldados que trabalham longe de posições de combate não resistem porque acham que suas ações, frequentemente rotineiras e banais, não têm relação com os resultados violentos em outros lugares. E as ações que não são banais — por exemplo, decisões sobre a vida ou a morte de palestinos tomadas em escritórios a quilômetros da Faixa de Gaza — são confidenciais, portanto é difícil um debate público sobre elas. Infelizmente, nós nem sempre nos recusamos a cumprir as tarefas que nos foram encarregadas e, desta maneira, contribuímos também para a violência. 

O lugar central do militar na sociedade israelense, e a imagem ideal que ele cria, serve para apagar a cultura e a luta dos mizrachi (judeus cujas famílias são originárias de países árabes), etíopes, palestinos, russos, ultra-ortodoxos, beduínos e mulheres. 

Há muitas razões para as pessoas se recusarem a servir no exército israelense. Mesmo que tenhamos diferenças de formação e motivação, nós escrevemos esta carta. No entanto, contra os ataques a aqueles que resistem ao serviço obrigatório, apoiamos os resistentes: os alunos do ensino médio que escreveram uma declaração de recusa, os ultra ortodoxos que protestam contra a nova lei de conscrição, e todos aqueles cuja consciência, situação pessoal ou econômica não permitem que sirvam. Sob o pretexto de uma conversa sobre a igualdade, essas pessoas são obrigadas a pagar o preço. Não mais.

O sucesso da Copa é a força de nosso povo – POR RICARDO KOTSCHO / são paulo.sp

O sucesso da Copa é a força de nosso povo.

Ricardo Kotscho

Faz duas semanas, deixei um país em guerra, afundado nas mais apocalípticas previsões, e desembarquei agora noutro, na volta, bem diferente, sem ter saído do Brasil. Durante meses, fomos submetidos a um massacre midiático sem precedentes, anunciando o caos na Copa do Fim do Mundo.

Fomos retratados como um povo de vagabundos, incompetentes, imprestáveis, corruptos, incapazes de organizar um evento deste porte. Sim, eu sei, não devemos confundir governo com Nação. Eles também sabem, mas, no afã de desgastar o governo da presidente Dilma Rousseff, acabaram esculhambando a nossa imagem no mundo todo, confundindo Jesus com Genésio, jogando sempre no popular quanto pior, melhor.

Estádios e aeroportos não ficariam prontos ou desabariam, o acesso aos jogos seria inviável, ninguém se sentiria seguro nas cidades-sede ocupadas por vândalos e marginais. Apenas três dias após o início da Copa, o New York Times, aquele jornalão americano que não pode ser chamado de petista chapa-branca, tirou um sarro da nossa mídia ao reproduzir as previsões negativas que ela fazia nas manchetes até a véspera. Certamente, muitos torcedores-turistas que para cá viriam ficaram com medo e desistiram. Quem vai pagar por este prejuízo provocado pelo terrorismo midiático?

Agora, que tudo é festa, e o mundo celebra a mais bela Copa do Mundo das últimos décadas, com tudo funcionando e nenhuma desgraça até o momento em que escrevo, só querem faturar com o sucesso alheio e nos ameaçam com o tal do “legado”. Depois de jogar contra o tempo todo, querem dizer que, após a última partida, nada restará de bom para os brasileiros aproveitarem o investimento feito. Como assim? Vai ser tudo implodido?

A canalhice não tem limites, como se fossemos todos idiotas sem memória e já tenhamos esquecido tudo o que eles falaram e escreveram desde que o Brasil foi escolhido, em 2007, para sediar o Mundial da Fifa. Pois aconteceu tudo ao contrário do que previam e ninguém veio a público até agora para pedir desculpas.

Como vivem em outro mundo, distantes da vida real do dia a dia do brasileiro, jornalistas donos da verdade e do saber não contaram com a incrível capacidade deste povo de superar dificuldades, dar a volta por cima, na raça e no improviso, para cumprir a palavra empenhada.

Para alcançar seus mal disfarçados objetivos políticos e eleitorais, após três derrotas seguidas, os antigos “formadores de opinião” abrigados no Instituto Millenium resolveram partir para o vale tudo, e quebraram a cara.

Qualquer que seja o resultado final dentro do campo, esta gente sombria e triste já perdeu, e a força do povo brasileiro ganhou mais uma vez. Este é maior legado da Copa, a grande confraternização mundial que tomou conta das ruas, resgatando a nossa autoestima, a alegria e a cordialidade, em lugar das “manifestações pacíficas” esperadas pelos black blocs da mídia para alimentar o baixo astral e melar a festa. Pois tem muito gringo por aí que já não quer mais nem voltar para seu país. Poderiam trocar com os nativos que não gostam daqui.

Que tal?

Destruir o Iraque para redesenhar o mapa do Oriente Médio? – por larry chin

Destruir o Iraque para redesenhar o mapa do Oriente Médio?21/6/2014, Larry Chin, Global Research, Canadá – http://goo.gl/fYR3S0  
O Iraque estaria sendo repentinamente invadido por ondas de “terroristas”? Ou o Iraque está sendo sabotado, sacrificado e destruído?

A imprensa-empresa comercial dominante pinta a coisa como “insurgência terrorista” de “extremistas” sunitas que, aparentemente de repente, do dia para a noite, tomaram o país. O governo Obama é criticado por ter sido apanhado “com a guarda baixa”. Se o Iraque for perdido, segundo essa narrativa, todos os “ganhos” dos EUA serão “desperdiçados”.

De fato, o que se vê na região é massiva operação da CIA, um longo plano geoestratégico em construção: fazer naufragar a região numa guerra sectária, um gigantesco banho de sangue, com múltiplas desestabilizações e deliberado show de violência sectária cruzando várias fronteiras, até que todo o mapa do Oriente Médio e da Ásia Central – e para lá disso – seja redesenhado.

IMAGEM: O novo mapa do Projeto Oriente Médio: mapa não oficial da OTAN e da Academia Militar dos EUA (http://www.globalresearch.ca/wp-content/uploads/2014/06/The-Project-for-the-New-Middle-East.jpg) 

O mapa acima foi preparado pelo tenente-coronel Ralph Peters. Foi publicado no Armed Forces Journal em jun.-2006. Peters é coronel aposentado da Academia Militar dos EUA (Copyright do mapa, Lieutenant-Colonel Ralph Peters, 2006).

Os EUA estão jogando dos dois lados desse conflito explosivo, com vistas aos objetivos mais amplos de EUA/OTAN.

A força invasora, ISIS, é criação da CIA-EUA e dos seus aliados ricos em petrodólares Arábia Saudita, Kuwait e Qatar. É uma frente da Al-Qaeda. A Al-Qaeda é braço da inteligência militar da CIA-EUA desde a Guerra Fria. ISIS é o exército da inteligência militar do império em sua guerra contra a Síria.

Há provas que apontam fortemente para uma deliberada retirada das forças de EUA e Iraque, que permitiram que oISIS tomasse Mosul, Tikrit, Fallujah e, sobretudo, tomasse armas e equipamento norte-americano ‘miraculosamente’ esquecido em grandes quantidades, para serem ‘encontrados’. O ISIS controla agora a refinaria de petróleo de Baji ao norte de Bagdá, o que dá ao grupo fonte de combustível e lucrativa fonte de renda. Os sunitas, incluindo seguidores de Saddam Hussein, “voltaram”.

Num processo horrendamente surreal, o espetáculo militar que está em preparação pode pôr forças militares dos EUA a usar drones e aviões bombardeiros a favor do regime xiita de Maliki e contra as próprias forças sunitas doISIS da CIA que usa armas e equipamento dos EUA. Mentiras e fogo cerrado matarão milhões de iraquianos e devastarão o país.

Tudo isso, para quê?

O Iraque está sendo reinvadido e redestruído, para ser transformado em algo bem próximo do plano original de Bush/Cheney, que queriam o país dividido por linhas sectárias, que deixariam a produção crucial e petróleo e gás no sul, em mãos de empresas aliadas do ‘ocidente’. Jamais algum desses cogitou de um Iraque estável. O plano sempre foi obter um Iraque maleável. Simples etapa em direção a coisa maior.

Tendo fracassado na tentativa de golpe para derrubar Damasco com uma insurgência de “combatentes da liberdade”, a CIA redireciona e realoca seus ‘procuradores’ que agem à distância. O ISIS está agora mais forte e mais bem armado. Tem a vantagem estratégica de ter bases tanto na Síria como as recém capturadas em território iraquiano. Está em posição para cercar e pressionar tanto a Síria quanto o Irã.

Desestabilização regional 

O objetivo é desencadear tal escala de violência sectária na região que seja difícil de conter e impossível de ignorar. Encene essas atrocidades horríveis à porta das nações-alvo, e os governos são empurrados para tais agitações e conflitos que não terão como evitar. Assim esses governos são enfraquecidos e ‘caem’. De fato, são derrubados. Mas o modelo é bem conhecido e foi usado sempre em virtualmente todas as ‘conquistas’ imperiais nas décadas recentes, dos Bálcãs ao Oriente Médio e à África. Na Ucrânia. 

O padrão é sempre o mesmo: na sequência, virá a “restauração da ordem” nos novos territórios, seja militarmente seja sob o disfarce de ajuda humanitária. E instalam-se regimes fantoches. Chegam as empresas, para “reconstruir” e para “investir”, assumindo o controle, sempre, para começar, do petróleo e do gás, e da geografia, pelas bases que se constroem – e das quais se lançam as operações militares/de inteligência.

Os eventos no Iraque podem marcar o início de um apocalipse mais amplo. Segundo Michel Chossudovsky, a agenda de longo prazo dos EUA é ‘esculpir’ ambos, Iraque e Síria, em três territórios separados: um Califato Islamista Sunita, uma República Árabe Xiita e uma República do Curdistão. O Iraque deixará de existir completamente. Toda a região está sob ameaça.

Mentiras e ambiguidades 

Dentro das fronteiras dos EUA, reina a morte cerebral mais desinteressada de tudo. A vasta maioria dos norte-americanos de nada sabem, de nada querem saber e não se importam. O cidadão médio reage a questões sociais, como igualdade de direitos para casar ou o racismo em jogos de futebol (que são questões sem importância alguma aos olhos das grandes potências), e absolutamente não dá nenhuma atenção às grandes ameaças que pesam sobre a humanidade – dentre as quais a maior é a guerra que continua a consumir vidas de norte-americanos, que norte-americanos usam como bucha de canhão. 

As massas norte-americanas não acordaram, não importa o quanto tantos fatos tenham sido amplamente expostos. A narrativa de propaganda, falsa, do 11/9, está firmemente implantada, talvez para sempre: os EUA estão em guerra contra “os terroristas que nos atacaram dia 11/9” e “temos de defender a liberdade”.

A esquerda política (em larga medida cooptada por atividades de tipo ‘programas de contrainteligência’) caça o próprio rabo, aceitando as narrativas produzidas em Washington, vez ou outra embarcando tolamente em visões limitadas como “o revide”, sempre disposta a crer na “inocência atrapalhada” de Washington… e engolindo praticamente todas as mentiras que ouça.

Na Washington capital da corrupção, a cena está além de qualquer cenário orwelliano. Reinam a propaganda e todos os tipos de mentiras. O círculo mais interno do poder sabe do que se passa e transpira, mas a arrogância e a disputa do poder entre dois ‘partidos’ persiste. A imprensa-empresa recusa-se a noticiar fatos e vive de repetir a mais desgastada propaganda, como é mandada repetir. A “guerra ao terror” vai muito bem, obrigada.

A senadora Dianne Feinstein está alertando contra “consequências devastadoras” das “forças sunitas em marcha” – e não diz que os EUA estão por trás das tais “consequências” e das tais “forças”. E conclama “os dois lados” (Democratas e Republicanos) a se “unirem”.

Não por coincidência, John McCain, senador que abertamente apoia os terroristas da Al-Qaeda e as atrocidades clandestinas, está outra vez no centro do palco, na primeira linha. Vive a cuspir desaforos contra a “fraqueza” e a “estupidez” do governo, que não reinvade o Iraque: “Todos nessa equipe de segurança nacional, inclusive o Comandante do Estado-maior têm de ser substituídos. É um colossal fracasso.” 

McCain exige que os EUA ataquem militarmente já (e provavelmente apoia cada um dos passos de Obama). É o mesmo McCain sempre diretamente envolvido em fornecer armas aos terroristas da Al-Qaeda na Líbia e na Síria. Não há dúvida possível de que McCain, sempre pronto a apoiar e armar e enriquecer “combatentes da liberdade” da Al-Qaeda da CIA, está ao lado, também, dos terroristas do ISIS.

IMAGEM: McCain com líderes terroristas da Al Qaeda e do exército sírio livre.

O bom amigo de McCain e inventador de guerras como ele, senador Lindsey Graham (R-SC), também ‘exige’ ataques aéreos imediatos e só faz promover a ideia de que “o próximo 11/9 está sendo preparado”. 

Obama está “falhando”?

E Obama? Agora que é presidente ‘pato-manco’, sem ter de preocupar-se com política e imagem falsificadas para a re-eleição, Obama e o seu aparelho de segurança nacional parecem mover-se em duas frentes: uma real; a outra, propaganda. 

O governo Obama está promovendo a agressão contra Ucrânia/Síria/Iraque a novos níveis, em busca desenfreada por alcançar rapidamente objetivos pelos quais anseia há muito tempo (a realpolitik), ao mesmo tempo em que se vai autossacrificando politicamente (na narrativa que a propaganda lhe cobra). 

Politicamente, Obama estará “tombando sobre a espada”? Aparentemente, como todos os presidentes antes dele, Obama está sendo dispensado do cargo como completo fracasso de política externa nos anos finais do mandato – o que abre o caminho para o sucessor, que fará novamente e sempre a mesma coisa. É sempre assim. 

Se, de agora em diante, Obama não conseguir “restaurar a ordem”, sairá como o presidente que “perdeu o Iraque”, “abandonou o Iraque antes da hora”, não conseguiu deter os terroristas, não conseguiu livrar-se de Assad, não pôs fim ao Irã, etc., etc. 

Agora, Obama está sendo culpado pela “paralisia política” do governo Maliki. O governo, e a provável candidata Democrata à presidência, a ex-secretária de Estado Hillary Clinton, já se viram envolvidos em escândalo gigantesco, como “a equipe que perdeu Benghazi” e encobriu tudo.

Somada ao fato de que Obama ampliou muito a geoestratégia assassina dos anglo-norte-americanos iniciada por Bush/Cheney (Obama ampliou exponencialmente as agressões, ao mesmo tempo em que manteve máscara de político democrático), os EUA devem esperar uma forte guinada à direita – outra vez, de volta à linha Bush/Cheney: o mesmo tipo de fascismo de direita “movido a ódio” que está tomando conta da Europa e que se vê claramente exemplificado na Ucrânia neonazista.

Para o próximo estágio da guerra mundial, e para controlar também os seus próprios dissidentes em território nacional, os EUA precisarão de presidente aberta e declaradamente brutal, na Casa Branca. Talvez alguém como Jeb Bush, com gabinete formado dos criminosos de guerra da equipe Republicana de Bush/Cheney, todos arrancados das respectivas tumbas para infernizar outra vez os vivos.

Ameaça ao futuro da humanidade 

O império norte-americano continua a trabalhar a favor da guerra total, usando todos os meios necessários para alcançar o controle do subcontinente eurasiano, diretamente contra Rússia e China. 

Esse holocausto tem escala e objetivos além da compreensão dos homens e mulheres de bem. Eventos no Iraque, Síria e Irã andam lado a lado com eventos na Ucrânia, todos inscritos numa única e desesperada agenda global. Só se busca o controle do que resta de petróleo e gás no planeta, dos oleodutos, dos gasodutos, das rotas de transmissão de energia, enquanto essas fontes de energia vão sendo exauridas e estarão esgotadas em poucas décadas.

Os eventos que se desenrolam no Iraque não são resultados de “fracassos da inteligência”, mas, como o 11/9 e outras atrocidades, são operação planejada pela inteligência; mais uma operação, numa sempre a mesma repetida horrorosa sequência. *****

O fascismo ronda o Brasil em 2014 – por Frei Betto / são paulo.sp

O fascismo ronda o Brasil em 2014 – Por Frei Betto.

 
Ao votar este ano, reflita se por acaso você estará plantando uma semente do fascismo ou colaborando para extirpá-la.
Jean-Marie le Pen, líder da direita francesa, sugeriu deter o surto demográfico na África e estancar o fluxo migratório de africanos rumo à Europa enviando, àquele sofrido continente, “o senhor Ebola”, uma referência diabólica ao vírus mais perigoso que a humanidade conhece. Le Pen fez um convite ao extermínio.
O ex-presidente francês Nicolas Sarkozy propôs a suspensão do Tratado de Schengen, que defende a livre circulação de pessoas entre trinta países europeus. Já a livre circulação do capital não encontra barreiras no mundo… E nas eleições de 25 de maio a extrema-direita europeia aumentou o número de seus representantes no Parlamento Europeu.
A queda do Muro de Berlim soterrou as utopias libertárias. A esquerda europeia foi cooptada pelo neoliberalismo e, hoje, frente a crise que abate o Velho Mundo, não há nenhuma força política significativa capaz de apresentar uma saída ao capitalismo.
Aqui no Brasil nenhum partido considerado progressista aponta, hoje, um futuro alternativo a esse sistema que só aprofunda, neste pequeno planeta onde nos é dado desfrutar do milagre da vida, a desigualdade social e a exclusão.
Caminha-se de novo para o fascismo? Luis Britto García, escritor venezuelano, frisa que uma das características marcantes do fascismo é a estreita cumplicidade entre o grande capital e o Estado. Este só deve intervir na economia, como apregoava Margareth Thatcher, quando se trata de favorecer os mais ricos. Aliás, como fazem Obama e o FMI desde 2008, ao se desencadear a crise financeira que condena ao desemprego, atualmente, 26 milhões de europeus, a maioria jovens.
O fascismo nega a luta de classes, mas atua como braço armado da elite. Prova disso foi o golpe militar de 1964 no Brasil. Sua tática consiste em aterrorizar a classe média e induzi-la a trocar a liberdade pela segurança, ansiosa por um “messias” (um exército, um Hitler, um ditador) capaz de salvá-la da ameaça.
A classe média adora curtir a ilusão de que é candidata a integrar a elite embora, por enquanto, viaje na classe executiva. Porém, acredita que, em breve, passará à primeira classe… E repudia a possibilidade de viajar na classe econômica.
Por isso, ela se sente sumamente incomodada ao ver os aeroportos repletos de pessoas das classes C e D, como ocorre hoje no Brasil, e não suporta esbarrar com o pessoal da periferia nos nobres corredores dos shopping-centers. Enfim, odeia se olhar no espelho…
O fascismo é racista. Hitler odiava judeus, comunistas e homossexuais, e defendia a superioridade da “raça ariana”. Mussolini massacrou líbios e abissínios (etíopes), e planejou sacrificar meio milhão de eslavos “bárbaros e inferiores” em favor de cinquenta mil italianos “superiores”…
O fascismo se apresenta como progressista. Mussolini, que chegou a trabalhar com Gramsci, se dizia socialista, e o partido de Hitler se chamava Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães, mais conhecido como Partido Nazista (de Nationalsozialist).
Os fascistas se apropriam de símbolos libertários, como a cruz gamada que, no Oriente, representa a vida e a boa fortuna. No Brasil, militares e adeptos da quartelada de 1964 a denominavam “Revolução”.
O fascismo é religioso. Mussolini teve suas tropas abençoadas pelo papa quando enviadas à Segunda Guerra. Pio XII nunca denunciou os crimes de Hitler. Franco, na Espanha, e Pinochet, no Chile, mereceram bênçãos especiais da Igreja Católica.
O fascismo é misógino. O líder fascista jamais aparece ao lado de sua mulher. Como dizia Hitler, às mulheres fica reservado a tríade Kirche, Kuche e Kinder (igreja, cozinha e criança).
O fascismo é anti-intelectual. Odeia a cultura. “Quando ouço falar de cultura, saco a pistola”, dizia Goering, braço direito de Hitler. Quase todas as vanguardas culturais do século XX foram progressistas:expressionismo, dadaísmo, surrealismo, construtivismo, cubismo, existencialismo. Os fascistas as consideravam “arte degenerada”.
O fascismo não cria, recicla. Só se fixa no passado, um passado imaginário, idílico, como as “viúvas” da ditadura do Brasil, que se queixam das manifestações e greves, e exalam nostalgia pelo tempo dos militares, quando “havia ordem e progresso”. Sim, havia a paz dos cemitérios… assegurada pela férrea censura, que impedia a opinião pública de saber o que de fato ocorria no país.
O fascismo é necrófilo. Assassinou Vladimir Herzog e frei Tito de Alencar Lima; encarcerou Gramsci e madre Maurina Borges; repudiou Picasso e os teatros Arena e Oficina; fuzilou García Lorca, Victor Jara, Marighella e Lamarca; e fez desaparecer Walter Benjamin e Tenório Júnior.
Ao votar este ano, reflita se por acaso você estará plantando uma semente do fascismo ou colaborando para extirpá-la.

Maria da Conceição Tavares: Resistir para avançar

Em conversa com Carta Maior, Maria da Conceição Tavares adverte para o risco de soluções supostamente redentoras e faz uma exortação: ‘Resistir para avançar.

por: Saul Leblon

Arquivo

Cautelosa, quase reticente em falar  de  economia, ‘numa hora em que tem tanta gente falando bobagem’, Maria da Conceição Tavares, a decana dos economistas brasileiros, voz   sempre ouvida com atenção quando o horizonte se anuvia, como agora, rejeita  as soluções miraculosas oferecidas  na praça para destravar os nós do crescimento brasileiro.A campanha eleitoral antecipada na queda de braço em torno da Copa do Mundo  exacerbou a divisão do país em duas visões de futuro, diz a voz cautelosa.Uma valoriza os avanços obtidos na construção da democracia social  nos últimos  doze anos.

Não considera  o caminho concluído, mas é o que está sendo construído.

A outra, majoritariamente abraçada pelo conservadorismo e seu martelete midiático, equipara o resultado desse  percurso  a uma montanha desordenada de escombros .Um Brasil aos cacos.

Propõe-se a saneá-lo de forma radical.

Em primeiro lugar,  esse ‘começar de novo’ retiraria  o país  das mãos do ‘populismo petista’, em outubro próximo.

Para entregá-lo em seguida a quem entende do ramo: os mercados e suas receitas de ‘contração expansiva’,  que combinam  arrocho salarial e fiscal  com fastígio dos fluxos de capital sem lei.

Na conversa com Carta Maior, Conceição  avança com cuidado, escolhendo as palavras ao transpor o limite que havia se imposto de não mexer nesse ambiente conflagrado.

‘A situação é muito delicada por conta do  encavalamento  de gargalos econômicos e  disputa eleitoral’, admite.

‘Mas o fato é que o projeto em curso é o mais adequado à sociedade brasileira’, afirma  esticando  seu divisor no campo minado.

“Avanços sociais, emprego, salário e crédito para manter a atividade  –não para puxar, me entenda, mas para manter o nível de atividade’, desfia a economista enquanto delimita a sua trincheira de resistência.

“São doze anos de estirão por essa via, agora é manter, enquanto se avança no investimento em infraestrutura, que vai puxar o novo ciclo. É o que tem que ser feito. E está sendo feito’, enfatiza para demonstrar certo desalento  em seguida:

“A maior dificuldade reside justamente nisso. Não há muito mais o que inventar,  essas coisas mirabolantes que se puxa da cabeça, como se a crise fosse uma coisa mental e não uma luta social, não fazem sentido e arriscam por tudo a perder’.

Em outras palavras, os desafios graves  não são endógenos ao modelo, nem superáveis na atual correlação de forças. Daí a dificuldade em se traçar um caminho reto e previsível em direção ao passo seguinte da história.

Quem fala entende de crise.

Conceição nasceu em abril de 1930, seis meses depois da 5º feira negra de outubro de 1929, quando as bolsas reduziram todo um ciclo capitalista de riqueza especulativa a pó e pânico.

‘O que se passa  é distinto de tudo aquilo’, dizia ela em entrevista a Carta Maior no calor dos acontecimentos da desordem neoliberal, em 2011.

Aquele  entendimento pioneiro  é reiterado hoje quase com as mesmas palavras,  agora  endossadas  pelos fatos em curso.

“Essa é uma crise que estreita o campo de manobra , ao invés de ampliá-lo, como em 29. Sim, você tem a comprovação empírica do fracasso neoliberal,  mas  são eles que persistem  e dão as cartas no xadrez  global. Vivemos um colapso do neoliberalismo sob o tacão dos neoliberais:  a pasmaceira política aqui é reflexo desse paradoxo’.

A professora de reconhecida bagagem intelectual,  em geral prefere não  avançar na reflexão política e ideológica. Mas tem feito concessões diante do cenário de areia movediça no qual a bússola política parece  ter perdido a capacidade de mediar o cipoal econômico (leia ao final desta nota trechos de um artigo de Maria da Conceição , ‘A era das distopias’, publicado originalmente na revista  Insight Inteligência).

Preocupa-a  a ansiedade que  a crispação  política injeta no quadro econômico.

‘Os partidos estão desengonçados, os movimentos sociais fracionados, os sindicatos aquém do espaço que  lhes cabe. Essa pulverização incentiva soluções redentoras’,  avisa com um misto de preocupação e revolta.

Conceição metaboliza  o diagnóstico alguns segundos  para alvejar:

‘Uns querem milagre social,  outros arrocho fiscal ’. Repete a disjuntiva, satisfeita com a síntese extraída  à força do denso  nevoeiro.

‘E  ambos estão desastradamente equivocados!’, arremete então escalando as sílabas.

A crítica aberta alveja, de um lado, movimentos avulsos que se comportam às vezes como clientes da sociedade e não corresponsáveis pela arquitetura  de sua emancipação.

De outro,  a pregação ortodoxa, a ecoar a agenda tucana para outubro de 2014.

‘Uns querem milagre, outros arrocho’, reitera. E nesse corredor estreito elege a resistência histórica como  o chão pelo qual vale a pena lutar nesse momento.
‘Lula está certo, em geral ele está certo’, pondera.

‘Lula é uma pessoa sensata, ao contrário de muitos  economistas visionários que estão à procura de um novo modelo; ele sabe que uma conquista histórica  não se pode perder’.

‘Se não há inflação de demanda, e não há,  então por que arrochar o crédito?’, questionou o ex-presidente em evento recente no Rio Grande do Sul, diante de autoridades da área econômica do governo.

Conceição o ampara.

‘A inflação de alimentos  tem origem na seca, não na exacerbação da demanda. O custo da energia, idem. Do lado externo, o dólar baixo  que desestabiliza o setor externo da economia é um reflexo da fraca recuperação mundial. Vamos negociar um novo modelo com o clima ou com o Fed ?’,  detona.

Sem mudar o tom de voz, a economista debulha e esfarela  os grãos das receitas alternativas: ‘Vamos fazer um arrocho fiscal? Arrocho quem faz são eles. Eu não recomendo mexer em modelo algum. O que devemos é sustentar  o nível de atividade  e avançar no investimento em infraestrutura , com forte aporte estatal’, discorre  já inteiramente à vontade e rompida com a decisão de não discutir ‘aquilo que vive um momento delicado’ : a luta pelo desenvolvimento brasileiro.

Conceição  não  acredita que o país  possa recuperar integralmente o espaço perdido pela sua indústria para  a concorrência internacional. Mas preconiza  uma revitalização em novas bases. Injetando nervos e musculatura  à capacidade competitiva com uma dose combinada de  desvalorização cambial e redução do juro –‘ Não agora, no próximo governo, quando a inflação climática perder seu ímpeto’.

A reinvenção do sistema industrial conta, no seu entender, com uma alavanca fortemente apoiada em três pontos de chão firme: mercado de massa,  pré-sal e  grandes projetos de infraestrutura. ‘Não é coisa pouca’, encoraja.

O ceticismo  dos que enxergam uma contradição insolúvel num capitalismo que bordeja a fronteira do pleno emprego não ofusca seu campo de visão.

O emprego, o salário e o crédito  ordenam a ótica histórica dessa economista que modulou  a filiação  keynesiana pela chave da esquerda.

Formam trunfos da luta pelo democracia social, não obstáculos.

Muito diferente da estranha ponte de consenso que se esboça entre segmentos progressistas e concepções ortodoxas acerca do passo seguinte do desenvolvimento brasileiro.

Os pilares dessa construção híbrida  constatam  que o pleno emprego no capitalismo enseja ganhos salariais acima do incremento de produtividade.

Uma dissociação que resultaria em  desequilíbrios  esgotantes circunscrevendo a história em uma espécie de inferno de Sísifu: luta-se para gerar empregos até que, uma vez criados, eles se tornam disfuncionais e devem ser destruídos.

Pelo bem do sistema.

E ai de quem não o fizer.

O ‘populismo petista’ está entre os que resistem. A um custo alto para a economia.

Em miúdos e graúdos a fatura assumiria a forma de uma inflação ascendente, com retração do investimento produtivo em proveito da especulação rentista  –que se beneficia da alta dos juros inerente à tensão inflacionária do conjunto.

É o diagnóstico híbrido que se dissemina.

Mas que Conceição  rejeita.

A ideia de um sistema econômico intrinsecamente avesso ao pleno emprego é estranha a essa economista.

Como assim, se o que tivemos nos trinta anos do pós-guerra foi exatamente pleno emprego, com estabilidade, direitos  e crescimento?’, questiona.

O que existe hoje, no seu entender,  é um pouco mais complexo e enervado de história do que uma fórmula fechada em si.

A desregulação  financeira  –que se explica em parte por erros, rendições e derrotas da esquerda mundial —  catalisou e fortaleceu interesses contrários a um desenho de  desenvolvimento comprometido com a maior convergência da riqueza  e das oportunidades.

‘Aceitá-lo como inexorável explica o funeral  da socialdemocracia europeia’, diz Conceição.

Mas não significa que não se possa  –se deva, retruca–  reinventar o espaço de um desenvolvimento cuja finalidade seja gerar empregos, salários, qualidade de vida e direitos.

Esse espaço morreu na Europa hoje.

“Mas está vivo no Brasil e partes da América Latina’, lembra essa portuguesa que escolheu  a luta pelo desenvolvimento com justiça social  como sua pátria.

De dentro dela,  Conceição encara as adversidades  a sua volta e endossa a intuição de Lula e o destemor de Dilma com uma palavra  tantas vezes pertinente em sua vida: resistir, resistir, resistir.

‘Resistir para avançar. O resto é arrocho’.

Leia, abaixo, trecho de um artigo de Maria da Conceição Tavares, publicado originalmente na revista  Insight Inteligência.

A era das distopias

“As pessoas estão perdidas, não sabem como se guiar do ponto de vista político, econômico. E com isso a história parece que não se move. O futuro fica ilegível, amorfo”

“Na verdade, se o PIB é “pibinho” ou não, qual o problema? vai ser 2%, 3% ou 4%? O problema é ter emprego. Para mim, os critérios clássicos são emprego, salário mínimo e ascensão social das bases”

Desde o século XVIII, os movimentos políticos, sociais e econômicos deixaram de se orientar pela ideia de tradição, substituindo-a pela de um futuro diferente e melhor. Eles acreditavam que a história tinha um sentido, um objetivo, uma utopia: criar uma sociedade mais livre e mais igualitária.

A busca da liberdade pautou o século XIX: liberdade do indivíduo, política e econômica, representada pela Revolução Francesa. Depois, no século XX, veio o marxismo e a promessa do reino da igualdade, representada pela Revolução Russa. Foi também em nome da igualdade que se construiu o Estado do bem-estar, como uma alternativa ao socialismo.

O planejamento era uma ideia inseparável dessa visão de mundo. Democratização, planificação, esse é o século XX. As pessoas acreditavam que o futuro estava destinado a isso. E orientavam-se politicamente em função da reconstrução do mundo. Mas essa orientação histórica rumo à liberdade e à igualdade, elaborada no Iluminismo, acabou no final do século XX.

Acho difícil saber para onde vamos. Não dá para dizer se o resultado do que está ocorrendo será positivo ou negativo, à luz do que se conheceu até aqui. O que ocorre hoje pode ser uma transição ou um apodrecimento. Transição não sei para quê, porque não há uma utopia prévia. Você podia falar em transição para o socialismo no século XVIII ou XIX porque estavam lá as manifestações e as utopias prévias. Mas, agora, a transição para o socialismo quer dizer o quê?

Tudo bem, pode ser que seja um viés reformista da minha geração… Eu sou uma adolescente do século XX e me identifico muito com ele, a favor do que era bom, e contra o que era ruim. Por outro lado, não vejo causas que sirvam para agregar de forma propositiva tantos interesses fracionados. Ninguém sabe como reagir se não há conceito e pensamento, organizados a partir de uma utopia. Acho que esta sensação de impotência, de não se ver ninguém pensando diferente, deriva daí.

Diga-me um autor relevante que não esteja pensando dessa maneira, prostrado pela falta de alternativas? Não há ousadia em nada, pelo menos do ponto de vista do pensar. Ninguém na academia está falando nada muito diferente. Por isso, não gosto de dar entrevista, não quero engrossar o coro de lamentação dos intelectuais. Pode ser que eu já esteja ultrapassada, que esteja velha. Mas é como eu estou vendo. De qualquer forma, esse ciclo vai passar. Torcemos para que ele não seja longo’.

 

Elite de US$ 30 trilhões discute renovação do capitalismo em Londres

Elite de US$ 30 trilhões discute renovação do capitalismo em Londres

Um grupo de pessoas que juntas controlam US$ 30 trilhões (R$ 67 trilhões) em ativos globais – ou cerca de 14 vezes o Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil – estão reunidas em Londres nesta terça-feira para debater os rumos do sistema capitalista.

A reportagem foi publicada no portal da BBC Brasil, 27-05-2014.

Segundo a organização do seminário Conference on Inclusive Capitalism: Building Value, Renewing Trust (A Conferência sobre o Capitalismo Inclusivo: Construindo Valores, Renovando a Confiança, em tradução livre), o objetivo é discutir ideias que ajudem a promover uma sociedade baseada no livre mercado, porém mais igualitária.

O evento inclui entre os palestrantes de peso como o ex-presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton, e a diretora-geral do Fundo Monetário Internacional (FMI)Christine Lagarde. O príncipe Charles, do Reino Unido, abriu os trabalhos.

A conferência ocorre em meio à polêmica recente lançada pelo economista francês Thomas Piketty de que ocapitalismo vem concentrando renda, em vez de distribui-la.

BBC ouviu três participantes do evento sobre quais rumos o capitalismo deve tomar. Leia os relatos.

– Lynn Forester (CEO do conglomerado EL Rothschild, pertencente à família Rothschild, e fundadora da Conference on Inclusive Capitalism: Building Value, Renewing Trust):

O capitalismo tem de provar à sociedade como um todo que é um mundo de oportunidades para a prosperidade geral e para o crescimento dinâmico. Por causa dos escândalos que tivemos nos últimos cinco anos, e por causa do crescimento da desigualdade, penso que os patrões têm a obrigação moral de provar o que é bom para a sociedade e é bom somente para os seus negócios.

O capitalismo inclusivo não é nada diferente do capitalismo consciente ou do capitalismo progressivo. Trata-se de um sistema que permite um desenvolvimento maior de toda a sociedade e não se sustenta por si mesmo. O capitalismo inclusivo é bom capitalismo.

Já o mau capitalismo é amarrar as taxas Libor (taxa preferencial de juros que remunera grandes empréstimos entre os bancos internacionais operantes no mercado londrino), é vender instrumentos financeiros que são prejudiciais ao seu investir, é tirar vantagem dos trabalhadores e não se importar com a sustentabilidade da sua cadeia de fornecedores. Há muitos coisas que formam o que entendo por ser mau capitalismo.

É por causa disso que temos tão pouca confiança do público em geral sobre o capitalismo, porque, por muito tempo, nos permitimos um mau comportamento dentro dos nossos negócios. Temos de reconhecer de uma vez por todas que fizemos coisas erradas.

Um dos meus principais objetivos como fundadora e co-apresentadora da Conferência sobre o Capitalismo Inclusivoera fazer com que investidores do mundo inteiro não se preocupassem apenas com o lucro.

Eu quero que eles perguntem às suas equipes coisas do tipo: O que você está fazendo para garantir a perenidade da sua cadeia de fornecedores? Como é o seu contato com a comunidade à sua volta? Você é admirado? O que estou fazendo para melhorar?

Se os investidores colocarem dinheiro em companhias que têm uma visão de longo prazo sobre a sociedade, então, as corporações vão fazer o mesmo. O nosso horizonte tem de ser de 20 anos, não de 12 semanas. Esse é meu objetivo imediato.

– Madsen Pirie (fundador e presidente do Instituto Adam Smith, que defende o livre mercado):

Quando as pessoas renunciam aos prazeres do cotidiano e só pensam em investir, acreditando com isso que vão ganhar dinheiro ao proporcionar mercadorias e serviços que outras pessoas talvez queiram no futuro. Essa é a minha definição de capitalismo.

O capitalismo gerou a riqueza necessária para tirar grande parcela da humanidade da substência e da fome e nos permitiu financiar a ciência, a educação e as artes, assim como obter conforto material e oportunidades.

Tal como a democracia pode ser corrompida pelo populismo repressivo, o capitalismo também pode ser desvirtuado pela busca de renda, quando as pessoas tentam obter ganhos maiores do que os produtos e serviços que produzem para os outros.

Algumas vezes, essas mesmas pessoas tentam influenciar o cenário político de modo a pressionar pela manutenção de monópolios e evitar a entrada de novos atores no mercado que trazem consigo o potencial criativo. Algumas vezes, eles usam governos para lhes fornecer subsídios por meio dos contribuintes, ou proíbem produtos importados mais baratos.

Outras vezes, elas fazem acordos com governos que recorrem a fundos dos contribuintes para sustentar perdas decorrentes de decisões incompententes ou imprudentes. Essas formas de capitalismo de compadrio exclui os benefícios e as conquistas reais do capitalismo.

O capitalismo deve se libertar-se da urgência do lucro e beneficiar um número maior de pessoas.

Para isso, o capitalismo deve condenar fortemente o uso de práticas anti-competitivas e dar a pessoas o poder da livre escolha entre bens e serviços concorrentes. Mais pessoas também devem ter o direito sobre a propriedade do capital e de investimento ora por meio de contas poupança individuais ora pensões, por exemplo.

O capitalismo também deve reduzir as barreiras à entrada de novos competidores no mercado, de forma que todos possam aspirar a montar um negócio. E, por fim, deve adotar um sistema tributário que premie o sucesso, em vez de puni-lo.

Basicamente, estamos falando de inclusão, de tal modo que o maior número de pessoas possa deixar de consumir irrefreadamente para investir seus recursos e seu tempo no fornecimento de bens e serviços a outras pessoas. Esse é o verdadeiro capitalismo.

– Clive Menzies (economista político e fundador do projeto de pesquisa Critical Thinking na Free University):

Um estudo de 2011 da revista New Scientist revelou que 147 “super entidades” controlam 40% das 43.060 empresas transnacionais e 60% de suas receitas. A pesquisa foi baseada em acionistas e diretores, mas não revela a propriedade nem o controle por trás de empresas “laranja”, fundos ou fundações. Dados sugerem que o poder estaria muito mais concentrado do que realmente o levantamento sugere.

Esse poder, que não é controlado pelo Estado, domina a política, a mídia e a educação. O capitalismo financeiro procura monetizar e controlar tudo, influenciar a legislação e a regulamentação a seu favor.

Tal sistema é, no meu ver, elaborado a partir de três falhas fundamentais no sistema econômico e evoluiu para beneficiar a classe dominante ao longo dos séculos. Essas falhas, entretanto, foram expurgadas do discurso econômico.

Falha 1. A propriedade privada sobre terra, recursos e outros bens comuns (como a água, o espectro de rádio, genes, natureza e conhecimento), recursos naturais (ou Deus), cujo valor é comunitariamente criado. Esse valor deveria ser compartilhado para o bem de todos.

Falha 2. A cobrança de juros não gera riqueza, mas sistemicamente impulsiona a desigualdade, a destruição do meio ambiente, conflito e um crescimento exponencial e insustentável da dívida. A dívida deveria ser inaplicável pela lei e a usura (empréstimo de dinheiro a juros) ilegal. A dívida deveria ser destinada mais à construção da teia social do que facilitar a extração de riqueza, a exploração e a opressão.

Falha 3. O aumento da mecanização e da tecnologia tornou o pleno emprego inatingível, desnecessário e indesejável. Os meios para a vida não podem ser condicionado ao emprego remunerado, mas é um direito de todos e deve ser prestado sob a forma de um dividendo suficiente para uma vida digna aos cidadãos incondicionalmente

A COPA DAS COPAS – por dilma rousseff – Presidente do Brasil / Brasilia.df

Artigo de opinião de Dilma Rousseff: “A Copa das Copas”

08 JUN 2014 – 09:20 

 

"É o momento da grande festa internacional do esporte.  É também o momento de celebrarmos, graças ao futebol, os valores da competição leal e da convivência pacífica entre os povos", diz a presidente Dilma Rousseff, em artigo publicado neste domingo na imprensa internacional; no texto, a presidente caracteriza as manifestações como reflexo de uma democracia pujante; "Somos também um país que, embora tenha passado há poucas décadas por uma ditadura, tem hoje uma democracia vibrante. Desfrutamos da mais absoluta liberdade e convivemos harmonicamente com manifestações populares e reivindicações, as quais nos ajudam a aperfeiçoar cada vez mais nossas instituições democráticas"; leia a íntegra do texto que pede uma "Copa pela paz e contra o racismo".

A Copa das Copas

Dilma Rousseff*

A partir desta quinta-feira, os olhos e os corações do mundo estarão voltados para o Brasil. Trinta e duas seleções, representando o melhor do futebol mundial, estarão disputando a Copa do Mundo, a competição que de quatro em quatro anos transforma a todos nós em torcedores.

É o momento da grande festa internacional do esporte. É também o momento de celebrarmos, graças ao futebol, os valores da competição leal e da convivência pacífica entre os povos. É a oportunidade de revigoramos os valores humanistas de Pierre de Coubertin. Os valores da paz, da concórdia e da tolerância.

A “Copa das Copas”, como carinhosamente a batizamos, será também a Copa pela paz e contra o racismo, a Copa pela inclusão e contra todas as formas de preconceito, a Copa da tolerância, da diversidade, do diálogo, do entendimento e da sustentabilidade.

Organizar a Copa das Copas é motivo de orgulho para os brasileiros. Fora e dentro de campo, estaremos unidos e dedicados a oferecer um grande espetáculo. Durante um mês, os visitantes que estiverem em nosso país poderão constatar que o Brasil vive hoje uma democracia madura e pujante.

O país promoveu, nos últimos doze anos, um dos mais exitosos processos de distribuição de renda, aumento do nível de emprego e inclusão social do mundo. Reduzimos a desigualdade em níveis impressionantes, elevando, em uma década, à classe média 42 milhões de pessoas e retirando da miséria 36 milhões de brasileiros.

Somos também um país que, embora tenha passado há poucas décadas por uma ditadura, tem hoje uma democracia vibrante. Desfrutamos da mais absoluta liberdade e convivemos harmonicamente com manifestações populares e reivindicações, as quais nos ajudam a aperfeiçoar cada vez mais nossas instituições democráticas.

Em todas as 12 cidades-sedes da Copa, os visitantes poderão conviver com um povo alegre, generoso e hospitaleiro. Somos o país da música, das belezas naturais, da diversidade cultural, da harmonia étnica e religiosa, do respeito ao meio ambiente.

De fato, o futebol nasceu na Inglaterra. Nós gostamos de pensar que foi no Brasil que fez sua moradia. Foi aqui que nasceu Pelé, Garrincha, Didi e tantos craques que encantaram milhões de pessoas pelo mundo. Quando a Copa volta ao Brasil depois de 64 anos é como se o futebol estivesse de volta para a sua casa.

Somos o País do Futebol pelo glorioso histórico de cinco campeonatos e pela paixão que cada brasileiro dedica ao seu clube, aos seus ídolos e a sua seleção. O amor do nosso povo por esse esporte já se tornou uma das características de nossa identidade nacional. Para nós o futebol é uma celebração da vida.

Em nome de 201 milhões de brasileiras e brasileiros, estendo as boas-vindas aos torcedores da França e a todos os visitantes que vierem ao Brasil compartilhar conosco a “Copa das Copas”.

*Dilma Rousseff é presidenta da República Federativa do Brasil.

A SURPRESA QUE VEM DA ÍNDIA por boaventura souza santos – são paulo/sp

A SURPRESA QUE VEM DA ÍNDIA –

Novo partido, que enfrenta sistema político e poder econômico, avança, reage a chantagens, mobiliza quem estava paralisado. Experiência pode ser reproduzida?

Escrevo esta crónica da Índia, onde tenho estado nas últimas três semanas. Na década passada, a Índia foi avassalada pelo mesmo modelo de desenvolvimento neoliberal que a direita europeia e seus agentes locais estão a impor no Sul da Europa. As situações são dificilmente comparáveis mas têm três características comuns: concentração da riqueza, degradação das políticas sociais (saúde e educação), corrupção política sistêmica, alastrando-se para todos os principais partidos envolvidos na governação e sectores da administração pública. A frustração dos cidadãos perante a venalidade da classe política levou um velho ativista neo-gandhiano, Anna Hazare, a organizar em 2011 um movimento de luta contra a corrupção que ganhou grande popularidade e transformou as greves de fome do seu líder num acontecimento nacional e até internacional. Em 2013, um vasto grupo de adeptos decidiu transformar o movimento em partido, a que chamaram o partido do homem comum (Aam Aadmi Party, AAP).
O partido surgiu sem grandes bases programáticas, para além da luta contra a corrupção, mas com uma forte mensagem ética: reduzir os salários dos políticos eleitos, proibir a renovação de mandatos, assentar o trabalho militante em voluntários e não em funcionários, lutar contra as parcerias público-privadas em nome do interesse público, erradicar a praga dos consultores, através dos quais interesses privados se transformam em públicos, promover a democracia participativa como modo de neutralizar a corrupção dos dirigentes políticos. Dada esta base ética, o partido recusou-se a ser classificado como de esquerda ou de direita, dando voz ao sentimento popular de que, uma vez no poder, os dois grandes partidos de governo pouco se distinguem.
Em dezembro passado, o partido concorreu às eleições municipais de Nova Déli e, para surpresa dos próprios militantes, foi o segundo partido mais votado e o único capaz de formar governo. O governo foi uma lufada de ar fresco, e em fevereiro o AAP era o centro de todas as conversas. Consistente com o seu magro programa, o partido propôs duas leis, uma contra a corrupção e outra instituindo o orçamento participativo no governo da cidade, e exigiu a redução do preço da energia eléctrica, considerado um caso paradigmático de corrupção política. Como era um governo minoritário, dependia dos aliados na assembleia municipal. Quando o apoio lhe foi negado, demitiu-se em vez de fazer cedências. Esteve 49 dias no poder e a sua coerência fez com que visse aumentar o número de adeptos depois da demissão.
Perplexo, perguntei a um colega e amigo, que durante 42 anos fora militante do Partido Comunista da Índia e durante 20 anos membro do comitê central, o que o levara a aderir ao AAP: “fomos vítimas do veneno com que liquidamos os nossos melhores, favorecendo uma burocracia cujo objetivo era manter-se no poder a qualquer preço. É tempo de começar de novo e como militante-voluntário de base”. Outro colega e amigo, socialista e votante fiel do Partido do Congresso (o centro-esquerda indiano): “aderi quando vi o AAP enfrentar Mukesh Ambani, o homem mais rico da Ásia, cujo poder de fixar as tarifas de eletricidade é tão grande quanto o de nomear e demitir ministros, incluindo os do meu partido”.
Suspeito que tarde ou cedo vai surgir em Portugal o partido do homem e da mulher comuns. Já tem nome e muitos adeptos. Chamar-se-á Partido do 25 de Abril. Quarenta anos depois da Revolução, será a resposta política aos que, aproveitando um momento de debilidade, destruíram em três anos o que construímos durante quarenta anos. O 25 de Abril é o nome do português e da portuguesa comum cuja dignidade não está à venda no mercado dos mercenários, onde todos os dias se vende o país. Será um partido de tipo novo que estará presente na política portuguesa, quer se constitua ou não. Se se constituir, terá o voto de muitas e muitos; se não se constituir, terá igualmente o voto de muitas e muitos, na forma de voto em branco. Por uma ou por outra via, o Partido do 25 de Abril não esperará pelo próximo livro de Joseph Stiglitz, Prêmio Nobel da Economia, onde ele explicará como o FMI destruiu o Sul da Europa com a conivência da UE.

VÍBORAS NO SALÃO – por paulo metri / são paulo/sp

Víboras no salão

(Veiculado pelo Correio da Cidadania a partir de 24/03/14)

 

 

 

Sobre Pasadena, SBM Offshore, cláusulas “put option” e Marlin, e assuntos correlatos, muito tem sido dito e concluído, no sentido da manipulação da informação, para que só versões convenientes, verdadeiras ou fictícias, dos fatos sejam divulgadas. Sendo o predador um veículo da grande mídia, o interesse é repassar o que interessa ao capital, havendo pouco interesse social.

Adicione-se a isto que este ano é eleitoral e muito poder e riqueza futuros irão depender desta eleição. Junte-se, também, que estamos falando de petróleo, um recurso natural com imenso valor estratégico e incomensurável lucratividade. O resultado é este bombardeio de informações que deixa o cidadão comum perdido. Vejamos o que se consegue recuperar de alternativas mais prováveis do ocorrido.

Depois da posse do presidente Lula, em 2003, durante o esquartejamento da administração pública do país para entrega dos cargos a grupos políticos, que nossa cultura obriga, a Diretoria Internacional da Petrobras coube a Nestor Cerveró, que pertencia ao grupo do atual senador Delcídio Amaral, o qual foi, no governo FHC, o Diretor de Gás e Energia da Petrobrás.

Duas observações preliminares se fazem necessárias. Em países politicamente desenvolvidos, quando há alternância de partidos políticos no poder, são nomeados, em princípio, políticos para os cargos mais altos da administração e são reservados os cargos secundários para funcionários de carreira, não filiados a partidos. Algo como os nossos ministros e presidentes de estatais serem escolhidos do universo político e os chefes de órgãos da administração direta e os diretores de estatais serem funcionários de carreira.

A segunda observação preliminar é, na verdade, uma indagação. Como pode um cidadão servir a dois governos teoricamente antagônicos e, também, ser aceito por ambos? Ou o cidadão mudou de posição ou os governos não eram antagônicos. Então, Nestor Cerveró, que está sendo crucificado agora, sem querer inocentá-lo, era um simples testa-de-ferro de um grupo, que não consigo detectar ao certo todos seus componentes.

O planejamento interno da Petrobras recomendou, em 2005, a compra de 50% da refinaria de Pasadena, nos Estados Unidos, por US$ 190 milhões (outros US$ 170 milhões foram pagos para comprar a matéria prima existente na refinaria), apesar da Astra Oil ter comprado 100% da refinaria, sete meses antes, por US$ 42,5 milhões. O preço da transação foi avaliado como correto por consultoria externa, que argumentou que os preços no setor de petróleo estavam aquecidos. Além disso, pelas informações obtidas na mídia, a recomendação do planejamento fazia sentido, porque a Petrobras poderia ter acesso a uma refinaria já pronta, sem ter de esperar pelo período de construção de uma nova, conseguiria entrar no mercado norte-americano de derivados e poderia dar um destino para seu óleo pesado, se alguns investimentos adicionais fossem realizados.

Assim, quem acompanhasse a compra sabia, antes de o negócio ser fechado, que investimentos adicionais seriam necessários e o dono dos outros 50% da refinaria teria que concordar com estes novos investimentos.

Nesta situação, parece-me uma inocência fechar este contrato pela perspectiva de discussão futura. Podia-se ter trazido para dentro do contrato o compromisso da outra parte de realizar os investimentos adicionais futuros. Para piorar a fragilidade da posição assumida ao se assinar o contrato, existia a cláusula “put option” nele, que aumentava a atratividade, para o outro proprietário, de um embate jurídico futuro, alegando simplesmente não concordar em realizar o novo investimento.

Raciocínios permitiam antever tudo isto. Consta que o relator da proposta de compra de 50% da refinaria de Pasadena na reunião do Conselho de Administração da Petrobras, em 2006, foi Nestor Cerveró.

Pois bem, a presidente Dilma ter participado da aprovação desta compra, na condição de presidente do Conselho de Administração, não me parece errado. Em primeiro lugar, os membros do Conselho desta empresa têm que tomar, no mínimo, umas 200 decisões de maior porte por ano e é humanamente impossível ler a íntegra dos 200 processos. Por isso, existem os sumários executivos, que, no caso específico, foi preparado pelo relator já citado e tudo leva a crer que a compra não foi bem relatada.

No final do imbróglio da refinaria de Pasadena, ocorreu o esperado: a Astra Oil não concordou com os novos investimentos, alegou a cláusula “put option” para a Petrobras comprar a sua parte no negócio e ganhou na Justiça, fazendo a Petrobras desembolsar mais US$ 860 milhões pelos restantes 50%. Foi lamentável ouvir do ex-presidente da estatal, José Sergio Gabrielli, que US$ 1 bilhão não era grande quantia para a empresa. Não sei se, para ela, é desprezível, mas para qualquer trabalhador brasileiro é um valor que não se consegue nem imaginar. Espero que a Polícia Federal, o Ministério Público e o Tribunal de Contas da União mergulhem no passado e descubram os verdadeiros responsáveis. E, havendo dolo, que estes sejam exemplarmente punidos.

Entretanto, querer responsabilizar a presidente Dilma, por ela ter votado favoravelmente à compra de Pasadena no Conselho, é puro interesse eleitoral. Acho até que a presidente Dilma não precisava ter dado explicação alguma, como deu, pois bastava dizer: “votei com o relator, uma vez que concordei com seu sumário executivo”. Se o jogo é recriminar a presidente Dilma, acho melhor se dizer que o critério dela e de seu antecessor para escolha de auxiliares é falho.

Chega a ser hilário ver o presidenciável Aécio Neves dizer que quer reestatizar a Petrobras, sentado ao lado de Fernando Henrique, com quem ele sonha dividir a chapa para a eleição e que quis privatizar a Petrobras no seu governo (ver evento Petrobrax). Quanto ao Eduardo Campos, pergunto-me onde ele estava quando a presidente resolveu entregar 60% de Libra para empresas estrangeiras ou quando ela resolveu leiloar blocos para produção de gás de xisto na região do aquífero Guarani. Ele ainda não era candidato e, portanto, não precisava criticar?

Neste momento, as oposições querem criar a CPI da Petrobras no Congresso, para averiguar este caso, Paulo Roberto Costa, SBM Offshore e outros. Obviamente, o objetivo verdadeiro é ver “a presidente Dilma sangrar”, como se diz em política. A mídia do capital tudo fará para as candidaturas de Aécio Neves e Eduardo Campos levantarem voo.

As empresas petrolíferas internacionais devem estar eufóricas, pois querem abocanhar a Petrobras e já aparecem artigos dizendo que “a solução é privatizar a empresa, uma vez que, assim, vai acabar a roubalheira”. Este ponto merece uma análise.

O superlucro advindo do petróleo, quando a concessão é entregue a empresas estrangeiras, vai totalmente para o exterior e este fato não é caracterizado como um roubo, por estar dentro da lei, mas representa uma enorme perda para a sociedade, pois deixa de ativar nossa economia. Não vou me ater à perda da possibilidade de comercializar este petróleo ao adotar a “opção privada” e, assim, deixar de usufruir da importância geopolítica dele.

Além do mais, é preciso acabar com esta irrealidade que, no setor privado, não há corrupção. Primeiramente, todos os corruptores de designados para os cargos públicos e de servidores são integrantes do setor privado. Depois, lembrem-se do exemplo bem didático que, quando explodiu a bolha do mercado imobiliário, em 2008, nos Estados Unidos, muitos bancos pediram concordata, mas seus CEOs continuaram muito ricos. Ou seja, eles roubavam os bancos que os empregavam.

Tudo isto está em jogo neste momento. Gostaria de saber o que pensam os políticos Randolfe Rodrigues, Mauro Iasi e José Maria de Almeida, que também são candidatos a presidente, ou algum outro que esqueci. Porque a presidente Dilma, apesar de a sua preocupação social ser perfeita, infelizmente fez uma opção preferencial pelo mercado que não me agrada. Fugindo à norma rígida da escrita de artigos, aproveito este para mandar um recado para a presidente: “a senhora ouviu tanto o mercado e, agora, este ingrato está mandando a mídia dele insuflar as candidaturas Aécio e Campos!”

 

Paulo Metri – conselheiro do Clube de Engenharia e colunista do Correio da Cidadania

DIA INTERNACIONAL DA MULHER (08-03-2014) – por zuleika dos reis / são paulo.sp

                                  DIA INTERNACIONAL DA MULHER

                                                                                                               Zuleika dos Reis

 

                Falar sobre as qualidades excepcionais da mulher é sempre a grande tônica neste dia. Louvações escritas por mulheres, escritas principalmente por homens, e sempre boas de se ler, claro; outros textos falam do que as mulheres conquistaram de direitos até agora, no Brasil e/ou no mundo; terceiros, ainda, em menor número, apontam para questões graves que  nos envergonham a todos, como a prostituição infantil feminina, o tráfico de mulheres, a gravidez precoce, a violência física e psicológica contra as mulheres, o assédio sexual no trabalho, uma menor remuneração a pessoas do sexo feminino, na comparação  com a remuneração de homens em cargos iguais, etecetera. No que me concerne, venho também saudar o Dia Internacional da Mulher com uma pequena palavra, modesta palavra, em tônica ligeiramente diversa das que se costuma empregar neste dia. Após tal introdução, quase do mesmo tamanho do texto propriamente dito, vamos a ele:

 

Homens, procurem, tentem ser, sempre, companheiros efetivos das mulheres; nas intenções, nos atos.

Mulheres, procuremos, tentemos ser, sempre, além de efetivas companheiras dos homens, também pessoas solidárias com as outras mulheres, nos atos, nas intenções.

Isso pode parecer pouco, talvez o seja, mas, não consigo enxergar qualquer possibilidade de um mundo melhor que não passe pela instauração de um tempo novo, realmente pleno, com menos necessidade de esconderijos e de subterfúgios e de jogos de poder nas relações entre homens e mulheres, entre mulheres e mulheres, seja na família, seja no trabalho, seja no território amoroso, seja nas mais áreas das nossas vidas. Chamo a atenção para isso com o objetivo de dizer da nossa responsabilidade individual, pessoal, para tal restauração nos relacionamentos entre os dois sexos. Para que se ultrapasse um tempo ainda de competição em direção a uma sociedade de igualdade de direitos baseada na real partilha, na colaboração e na participação de ambos, homem e mulher, no trabalho no lar, na educação dos filhos, no prazer mútuo dos corpos, em tudo, enfim. Falei de mulheres e de homens; haveria como falar só da mulher mesmo em um dia dedicado à mulher?

Toda árvore, toda planta tem que ser cuidada desde a terra em que está plantada, desde a semente, desde a raiz. Cuidada todo o tempo. Só assim a planta, a árvore, podem dar belas flores e sadios frutos, também.

Feliz dia da mulher a todas as mulheres e a todos os homens desta Terra.

EX JURISTA DO BANCO MUNDIAL REVELA COMO A ELITE DOMINA O MUNDO

Exjurista del Banco Mundial revela cómo la élite domina el mundo

Publicado: 3 mar 2014 | 16:08 GMT Última actualización: 3 mar 2014 | 16:08 GMT

© RT

Karen Hudes, exsoplona del Banco Mundial, despedida por haber revelado información sobre la corrupción en el banco, explicó con detalle los mecanismos bancarios para dominar nuestro planeta.

Karen Hudes es graduada de la escuela de Derecho de Yale y trabajó en el departamento jurídico del Banco Mundial durante 20 años. En calidad de ‘asesora jurídica superior’, tuvo suficiente información para obtener una visión global de cómo la élite domina al mundo. De este modo, lo que cuenta no es una ‘teoría de la conspiración’ más.

De acuerdo con la especialista, citada por el portal Exposing The Realities, la élite usa un núcleo hermético de instituciones financieras y gigantes corporaciones para dominar el planeta.

Citando un explosivo estudio suizo de 2011 publicado en la revista ‘Plos One‘ sobre la “red de control corporativo global”, Hudes señaló que un pequeño grupo de entidades, en su mayoría instituciones financieras y bancos centrales, ejercen una enorme influencia sobre la economía internacional entre bambalinas. “Lo que realmente está sucediendo es que los recursos del mundo están siendo dominados por este grupo”, explicó la experta con 20 años de antigüedad en el Banco Mundial, y agregó que los “capturadores del poder corruptos” han logrado dominar los medios de comunicación también. “Se les está permitido hacerlo”, aseguró.

El estudio suizo que mencionó Hudes fue llevado a cabo por un equipo del Instituto Federal Suizo de Tecnología de Zúrich. Los investigadores estudiaron las relaciones entre 37 millones de empresas e inversores de todo el mundo y descubrieron que existe una “superentidad” de 147 megacorporaciones muy unidas y que controlan el 40% de toda la economía mundial.

Pero las elites globales no solo controlan estas megacorporaciones. Según Hudes, también dominan las organizaciones no elegidas y que no rinden cuentas pero sí controlan las finanzas de casi todas las naciones del planeta. Se trata del Banco Mundial, el FMI y los bancos centrales, como la Reserva Federal estadounidense, que controlan toda la emisión de dinero y su circulación internacional.

El banco central de los bancos centrales

La cúspide de este sistema es el Banco de Pagos Internacionales (BPI): el banco central de los bancos centrales.
“Una organización internacional inmensamente poderosa de la cual la mayoría ni siquiera ha oído hablar controla secretamente la emisión de dinero del mundo entero. Es el llamado el Banco de Pagos Internacionales [Bank for International Settlements], y es el banco central de los bancos centrales. Está ubicado en Basilea, Suiza, pero tiene sucursales en Hong Kong y en Ciudad de México. Es esencialmente un banco central del mundo no electo que tiene completa inmunidad en materia de impuestos y leyes internacionales (…). Hoy, 58 bancos centrales a nivel mundial pertenecen al BPI, y tiene, con mucho, más poder en la economía de los Estados Unidos (o en la economía de cualquier otro país) que cualquier político. Cada dos meses, los banqueros centrales se reúnen en Basilea para otra ‘Cumbre de Economía Mundial’. Durante estas reuniones, se toman decisiones que afectan a todo hombre, mujer y niño del planeta, y ninguno de nosotros tiene voz en lo que se decide. El Banco de Pagos Internacionales es una organización que fue fundada por la élite mundial, que opera en beneficio de la misma, y cuyo fin es ser una de las piedras angulares del venidero sistema financiero global unificado”.

Según Hudes, la herramienta principal de esclavizar naciones y Gobiernos enteros es la deuda.

“Quieren que seamos todos esclavos de la deuda, quieren ver a todos nuestros Gobiernos esclavos de la deuda, y quieren que todos nuestros políticos sean adictos a las gigantes contribuciones financieras que ellos canalizan en sus campañas. Como la élite también es dueña de todos los medios de información principales, esos medios nunca revelarán el secreto de que hay algo fundamentalmente errado en la manera en que funciona nuestro sistema”, aseguró.

Texto completo en: http://actualidad.rt.com/economia/view/121399-jurista-banco-mundial-revela-elite-domina-mundo

AÍ VINDES OUTRA VEZ INQUIETAS SOMBRAS – por paulo timm / torres.rs

AÍ VINDES OUTRA VEZ INQUIETAS SOMBRAS

 

Paulo Timm  Fevereiro 27

 

O ano de eleições gerais no Brasil deveria prometer grandes novidades: Novos líderes, idéias renovadas, processos inovadores. Mas nada disso. Os últimos dias estão testemunhando algo muito estranho na conjuntura política.

Em primeiro lugar, há uma nítida e perigosa ruptura da cultura política. Enquanto as ruas explodem em violência inaudita, PAULO TIMMcomprometendo a velha imagem do “brasileiro cordial”, a política institucional – que comanda as eleições- se arrasta que nem procissão, sem despertar a fé dos eleitores nos supostos candidatos: Dilma, Aécio, Eduardo Campos et caterva. Ao contrário, relevam no horizonte as imagens  antagônicas de Lula, com um incontido grito de “VOLTA LULA”, e de Fernando Henrique Cardoso. Este, obnubilado pelo seu próprio Partido – PSDB – nas eleições de 2002 – 2004 – 2010, volta com impressionante vigor à cena política tentando cavar um espaço para o crescimento da Oposição. É cuidadoso: Defende o candidato Aécio, mas não coloca nele todas as suas fichas. Sabe, no fundo, que ele é um candidato fraco, cuja força está muito mais na hora e na vez de Minas Gerais do que em seus próprios méritos. Também, pudera: Aécio não consegue fazer um discurso emocionante de improviso. Em todas as ocasiões oficiais de confirmação , pré-lançamento  e celebração de sua candidatura, lá puxa do bolso um caprichado discurso feito por um aspone  sem qualquer charme – Ah que saudades de Itamar Franco que, pelo menos, lia os discursos preparados por Mauro Santayana!!- e se põe a ler com artificial entusiasmo.

A verdade verdadeira é muito simples:  O Brasil real mudou muito do Plano Real para cá, isto é, duas décadas, o que só sublinhou as mudanças trazidas pela redemocratização e consagradas pela Constituição de 1988. Os espaços públicos abriram-se à movimentação de idéias e agentes políticos surpreendentes, com amplas garantias individuais e coletivas, sem esquecer da presença maciça do povo nos processos eleitorais,  ao tempo em que o poder aquisitivo das classes trabalhadoras elevou-se consideravelmente, garantindo-lhe acesso e bens e serviços até então confinados à reduzida classe média, inclusive nível superior.  A renda média no Brasil , hoje, situa-se em torno de US$ 800, sendo que tal valor se multiplica até por três quando se fala em renda familiar, porque nos lares mais pobres todos trabalham, desde cedo. O Salário Mínimo, mercê da política de valorização na era petista, corre atrás, deixando num tempo remoto  quando nunca chegava a US$ 100,00. O Brasil continua pobre, enfim  com quase metade de sua população vivendo ameaçadoramente à míngua, fora do mercado. Mas é tão grande que a “metade superior” , aliada à providência  natural lhe impulsiona para o futuro enquanto se debate para superar as agruras do presente. E aí estão as raízes da contraditória

insatisfação popular: Apoiam, em tese,  o Governo, mas vivem à beira de um ataque de nervos aglomerados em grande centros metropolitanos carentes de infra-estrutura física e social, quando acabam se confundindo com os “excluídos”.   Ocasionalmente explodem  e trazem à tona ícones políticos do passado como figuras extraordinárias. Estivesse Brizola vivo e , certamente, seria um poderoso candidato na atual sucessão…Vivemos, aparentemente, reféns da década da redemocratização, nos idos de 70, quando FHC, Lula e Brizola emergiram ao primeiro plano da vida nacional com seus distintos projetos e grande personalidade. Seus herdeiros, honestamente, não lhe fazem jus…Como diria Machado de Assis, se hoje fosse o cronista deste folhetim: – “ Aí vindes outra vez, inquietas sombras…”

Existe representação política submetida ao capital privado? – por ladislau dowbor

Existe representação política submetida ao capital privado?

No financiamento privado de campanha é o próprio processo de decisão sobre o uso dos recursos públicos que acaba privatizado.

Ladislau Dowbor

Gilson de Souza

Este artigo foi editado a partir do capítulo 4 do livro “Os Estranhos Caminhos do Nosso Dinheiro”, de autoria do professor Ladislau Dowbor

Podemos começar com um exemplo prático. A Friboi é da JBS, o maior grupo mundial na área de carne. O pesquisador Alceu Castilho constata: “Existe uma bancada da Friboi no Congresso, com 41 deputados federais eleitos e 7 senadores. Desses 41 deputados financiados pela empresa, apenas um, o gaúcho Vieira da Cunha, votou contra as modificações no Código Florestal. O próprio relator do código, Paulo Piau, recebeu R$ 1,25 milhão de empresas agropecuárias, sendo que o total de doações para a sua campanha foi de R$ 2,3 milhões. Então temos algumas questões. Por que a Friboi patrocinou essas campanhas? Para que eles votassem contra os interesses da empresa? É evidente que a Friboi é a favor das mudanças no Código Florestal. A plantação de soja empurra os rebanhos de gado para o Norte, para a Amazônia, e a Friboi tem muito interesse nisso. Será que é mera coincidência que somente um entre 41 deputados financiados pela empresa votou contra o novo código?”(1)

No Brasil este sistema foi legalizado através da lei de 1997 que libera o financiamento das campanhas por interesses privados. (2) Podem contribuir com até 2% do patrimônio, o que representa muito dinheiro. Os professores Wagner Pralon Mancuso e Bruno Speck, respectivamente da USP e da Unicamp, estudaram os impactos. “Os recursos empresariais ocupam o primeiro lugar entre as fontes de financiamento de campanhas eleitorais brasileiras. Em 2010, por exemplo, corresponderam a 74,4%, mais de R$ 2 bilhões, de todo o dinheiro aplicado nas eleições (dados do Tribunal Superior Eleitoral)”(3)

A empresa que financia um candidato – um assento de deputado federal tipicamente custa 2,5 milhões de reais – tem interesses. Estes interesses se manifestam do lado das políticas que serão aprovadas, por exemplo contratos de construção de viadutos e de pistas para mais carros, ainda que se saiba que as cidades estão ficando paralisadas. Ou maior facilidade para o desmatamento, como no exemplo acima. Do lado do candidato, apenas assentado, já lhe aparece a preocupação com a dívida de campanha que ficou pendurada, e a necessidade de pensar na reeleição. Quatro anos passam rápido. Entre representar interesses legítimos do povo – por exemplo, mais transporte de massa e mais saúde preventiva – e assegurar a próxima eleição, o político fica preso na armadilha. É o próprio processo de decisão sobre o uso dos recursos públicos que é de certa maneira privatizado. Neste sentido o resgate da dimensão pública do Estado torna-se essencial.

O Brasil não está sozinho neste processo de deformação da política. O próprio custo das campanhas, quando estas viram uma indústria de marketing político, é cada vez mais descontrolado. Segundo o Economist, no caso dos EUA, os gastos com a eleição de 2004 foram de 2,5 bilhões de dólares, em 2010 foram de 4,5 bilhões, e em 2012 ultrapassaram 5 bilhões. Isto está “baseado na decisão da Corte Suprema em 2010 que permite que empresas e sindicatos gastem somas ilimitadas em marketing eleitoral”. Quanto mais cara a campanha, mais o processo é dominado por grandes contribuintes, e mais a política se vê colonizada. E resultam custos muito mais elevados para todos, já que são repassados para o público através dos preços.


E a deformação é sistêmica: além de amarrar os futuros eleitos, quando uma empresa “contribui” e por tanto prepara o seu acesso privilegiado aos contratos públicos, outras empresas se vêem obrigadas a seguir o mesmo caminho, para não se verem alijadas. E o candidato que não tiver acesso aos recursos, simplesmente não será eleito. E como este dinheiro gira em grande parte na mídia, que veicula as campanhas, não se denuncia o processo. Todos ficam amarrados. Começa a girar a grande roda do dinheiro, partindo do sistema eleitoral. Ficam deformados tanto os sistemas de captação, como de alocação final dos recursos.


O resultado básico, é que no Brasil os impostos indiretos (que todos pagam no mesmo montante, ao comprar um produto) predominam sobre o imposto de renda, que pode ser mais progressivo; que não existe imposto sobre as grandes fortunas; que o imposto territorial rural é simbólico; que os grandes intermediários financeiros pagam pouquíssimo imposto, enquanto o único imposto série a que eram submetidos, a CPMF, foi abolido, em nome, naturalmente, de proteger “os pequenos”. Acrescente-se a isto a evasão fiscal e terminamos tendo um sistema onde os pobres pagam proporcionalmente mais que os ricos, invertendo-se o papel de redistribuição que o Estado deveria ter. No Brasil, o problema não é de impostos elevados, e sim da estrutura profundamente injusta da carga tributária.


Mas custos econômicos maiores ainda resultam do impacto indireto, pela deformação do processo decisório na máquina pública, apropriada por corporações. O resultado, no caso de São Paulo, por exemplo, de eleições municipais apropriadas por empreiteiras e montadoras, são duas horas e quarenta minutos que o cidadão médio perde no trânsito por dia. Só o tempo perdido, multiplicando as horas pelo PIB do cidadão paulistano e pelos 6,5 milhões que vão trabalhar diariamente, são 50 milhões de reais perdidos por dia. Se reduzirmos em uma hora o tempo perdido pelo trabalhador a cada dia, instalando por exemplo corredores de ônibus e mais linhas de metrô. serão 20 milhões economizados por dia, 6 bilhões por ano se contarmos os dias úteis. Sem falar da gasolina, do seguro do carro, das multas, das doenças respiratórias e cardíacas e assim por diante. E estamos falando de São Paulo, mas temos Porto Alegre, Rio de Janeiro e tantos outros centros. É muito dinheiro. Significa perda de produtividade sistêmica, aumento do custo-Brasil, má alocação de recursos públicos.


Uma dimensão importante deste círculo vicioso, e que resulta diretamente do processo, é o sobre-faturamento. Quanto mais se eleva o custo financeiro das campanhas, conforme vimos acima com os exemplos americano e brasileiro, mais a pressão empresarial sobre os políticos se concentra em grandes empresas. Quando são poucas, e poderosas, e com muitos laços políticos, a tendência é a distribuição organizada dos contratos, o que por sua vez reduz a concorrência pública a um simulacro, e permite elevar radicalmente o custo dos grandes contratos. Os lucros assim adquiridos permitirão financiar a campanha seguinte, além de engordarem contas em paraísos fiscais.


Se juntarmos o crescimento do custo das campanhas, os custos do sobre-faturamento das obras, e em particular o custo da deformação do uso dos recursos públicos, estamos falando no vazamento de imensos recursos para onde não deveriam ir. Estes “gatos” que sugam os recursos públicos são muito mais poderosos do que os que encontramos nos postes de iluminação das nossas cidades. Pior: o processo corrói a gestão pública e deforma a democracia ao gerar uma perda de confiança popular nas dinâmicas públicas em geral.


Não que não devam ser veiculados os interesses de diversos agentes econômicos na área pública. Mas para a isto existem as associações de classe e diversas formas de articulação. A FIESP, por exemplo, articula os interesses da classe industrial do Estado de São Paulo, e é poderosa. É a forma correta de exercer a sua função, de canalizar interesses privados. O voto deve representar cidadãos. Quando se deforma o processo eleitoral através de grandes somas de dinheiro, é o processo decisório sobre o uso dos recursos que é deformado.


O absurdo não é inevitável. Na França, a totalidade dos gastos pelo conjunto dos 10 candidatos à presidência em 2012 foi de 74,2 milhões de euros, dez vezes menos do que a eleição municipal no Brasil. (4) Na Polônia, é vedado o financiamento corporativo das campanhas, e a contribuição da pessoa física é limitada a cerca de 4 mil dólares. No Canadá há um teto para quanto se pode gastar com cada nível de candidatura. A proposta de Lessig para os Estados Unidos, é de que apenas a pessoa física possa contribuir, e com um montante muito limitado, por exemplo de algumas centenas de dólares. A contribuição pública seria proporcional ao que o candidato conseguiu junto aos cidadãos. O candidato receberia apoio de recursos públicos proporcionalmente à sua capacidade de convencer cidadãos comuns. A representatividade voltaria a dominar.

As soluções existem. O dilema está no fato que a deformação financeira gera a sua própria legalidade. Já escrevia Rousseau, no seu Contrato Social, em 1762, texto que em 2012 cumpriu 250 anos: “O mais forte nunca é suficientemente forte para ser sempre senhor, se não transformar a sua força em direito e a obediência em dever”. Em 1997, transformou-se o poder financeiro em direito político. O direito de influenciar as leis, às quais seremos todos submetidos. Em resumo, é preciso reformular o sistema, e acompanhar os países que evoluíram para regras do jogo mais inteligentes, e limitaram drasticamente o financiamento corporativo das campanhas. Trata-se aqui de tampar uma das principais frestas de onde se origina o vazamento dos nossos recursos.

Você pode conferir o livro completo do professor Ladislau Dowbor aqui.

FORÇAS ARMADAS DEVEM UM PEDIDO DE PERDÃO À SOCIEDADE BRASILEIRA! – rosa cardoso / rio de janeiro.rj

“Forças Armadas devem um pedido de perdão à sociedade brasileira”

Rosa Cardoso, integrante da Comissão da Verdade, fala sobre os trabalhos da comissão que entrega relatório final em dezembro

 

“Até hoje os militares escondem o que ocorreu; nas escolas militares, segue se estudando uma versão fantasiosa do que aconteceu. Chama a atenção a capacidade que têm de fabricar histórias e de mantê-las ao longo do tempo”, aponta Rosa (Foto: Portal da Comissão Nacional da Verdade)

Dizem que Rosa Cardoso está entre as pessoas a quem Dilma Rousseff escuta com  mais atenção quando necessita de uma opinião sobre Direitos Humanos. A presidenta sabe da lealdade de sua advogada defensora durante a ditadura a quem designou como integrante da Comissão da Verdade que em dezembro apresentará seu informe final. A doutora Cardoso não desperdiça o tempo: trabalha a pleno vapor para concluir o relatório sobre os crimes da ditadura, que chama de “fábrica” de mentiras, instalada há 50 anos com a derrubada do presidente João Goulart.

Apesar de sua agenda saturada de compromissos, Rosa conversou durante uma hora com a Carta Maior, período no qual não evitou nenhum tema, abordando todos de um modo direto, como quando, por exemplo, se referiu à atitude omissa dos comandantes do Exército, da Marinha e da Aeronáutica frente aos delitos perpetrados por seus colegas de armas nos anos de chumbo.

“Primeiro quero dizer que até hoje as Forças Armadas devem um pedido de perdão à sociedade brasileira, com o que estariam assumindo uma posição civilizada e democrática, que é, afinal de contas, o que se espera dos militares no século 21. Lamentavelmente, até agora, não recebemos nenhum sinal, nenhuma mensagem, que nos indique que haja algum desejo, por parte dos militares, de pedir desculpas. Assim como a Rede Globo, respondendo a motivos diversos e oportunistas, inclusive a razões de mercado, fez uma autocrítica (sobre sua cumplicidade com os militares), é preciso que as Forças Armadas façam uma autocrítica política sobre seu comportamento”.

Ela prossegue:

“Até hoje os militares escondem o que ocorreu, nas escolas militares segue se estudando uma versão fantasiosa do que aconteceu. Chama a atenção a capacidade que têm de fabricar histórias e de mantê-las ao longo do tempo. Devem deixar de dizer coisas inverossímeis. Eles continuam com a farsa do suicídio de Vladimir Herzog e a versão absurda de que Rubens Paiva morreu em um enfrentamento. A Constituição de 46 fez com que as Forças Armadas assumissem um papel como poder moderador, uma visão que ainda perdura na corporação. Volta e meia algum general enuncia essa ideia. O general Leônidas Pires ainda repete que as Forças Armadas não deveriam estar submetidas ao poder civil”.

Anistia, Barbosa e STF

Há cerca de um ano, o presidente do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa, disse a correspondentes estrangeiros que era a favor que, em algum momento, fossem revisados os alcances da Lei da Anistia, um assunto sobre o qual houve posições divergentes dentro da própria Comissão da Verdade. Rosa Cardoso avalia:

“A mudança de posição do STF sobre a auto-anistia vai depender muito da mobilização da sociedade. Se a mobilização for importante, isso pode contribuir para que haja uma mudança de posição dos ministros. Há ministros sensíveis à opinião pública. Em minha opinião, essa mobilização poderá ocorrer a partir da apresentação do informe da Comissão que ocorrerá em dezembro. Não sei se o STF vai dar esse passo sobre a auto-anistia em 2014, ano do cinquentenário do golpe. Talvez dê, talvez não dê. Mas não considero adequado que, neste momento, os integrantes da Comissão da Verdade iniciem uma luta contra a auto-anistia no STF. Mas creio que, necessariamente, dentro das considerações finais de nosso relatório, deve se recomendar o cumprimento de uma sentença da Corte Interamericana de Direitos Humanos, a qual somos obrigados a cumprir, que questiona essa auto-anistia”.

A advogada prossegue:

“A Corte Interamericana se pronunciou sobre o Araguaia, dizendo que o Brasil tem que punir os crimes de lesa humanidade que são imprescritíveis, como a tortura, a desaparição e o ocultamento de cadáver. Os trabalhos da Comissão terminam em dezembro. Ia ser até maio. Nosso desafio é enfrentar todas as tarefas e realiza-las, principalmente escutar as vítimas, dar-lhes voz, escutar todas as pessoas interessadas, ver todo o material nos arquivos estaduais e no Arquivo Nacional. É preciso trabalhar na elaboração das recomendações enlaçando o passado e o presente, a revisão dos currículos das escolas públicas, das escolas militares, das escolas de polícia. Temos que fazer audiências exemplares porque não podemos cumprir todos os casos dos torturadores. Temos que aprofundar a investigação sobre a Casa da Morte de Petrópolis, que era um centro de extermínio. Talvez tenha sido o mais importante centro de extermínio. Temos que fazer uma audiência na Casa da Morte, uma audiência no Araguaia, uma audiência sobre o Riocentro, que é o exemplo mais claro das farsas montadas”.

Washington, 1964: converter o Brasil e um Vietnã

Rosa Cardoso falou também sobre o golpe de 1964:

“O golpe foi realizado pela elite militar, não por todos os militares, mas muitos dos que participaram da deposição do presidente Goulart em 64 haviam participado em outras conspirações que serviram como ensaio. Por exemplo, a que se fez contra Getúlio Vargas. É preciso lembrar que Getúlio se suicidou para evitar um golpe. Mais tarde, os militares quiseram impedir que Juscelino assumisse o governo. Houve outra tentativa de golpe quando se quis impedir que Goulart assumisse em 1961”.

“Na Comissão da Verdade, estamos revisitando o golpe. É importante a reconstrução desde uma ótica própria, revisar essa ditadura tão longa que deixou tantas marcas profundas. A recente liberação de documentos e a possibilidade de reconstruir a história oral ouvindo as vítimas permitem que abordemos outros ângulos. Cada vez fica mais evidente a participação no golpe a partir da penetração norte-americana desde o final da Segunda Guerra, compreender a visão estratégica que os Estados Unidos tinham acerca do Brasil e o que queriam do Brasil. Desde os anos 50, os Estados Unidos exigiam posições e pressionavam os governos brasileiros para que se alinhassem a Washington. Os EUA chegaram a planejar uma guerra civil, como a das duas Coreias, ou a do Vietnã, contando com o apoio de alguns membros das forças de segurança. Interessava a eles dividir o país. Isso quebraria a hegemonia do Brasil na América Latina. Chegaram a escolher Minas Gerais como estado independente do resto”.

Obama e Kissinger

Rosa Cardoso nos recebeu em um escritório simples, sem adornos ou móveis suntuosos, pertencente à Presidência da República. Ela desmente a ideia, propalada na imprensa tradicional, de que a ditadura é uma peça do passado e, como exemplo de sua atualidade, conta que o governo de Barack Obama não prestou apoio à Comissão da Verdade, seguramente pressionado por grupos de interesse e ex-líderes como Henry Kissinger, de larga e suspeita amizade com o chanceler Azeredo da Silveira (1974-1979) e, sobretudo, fiador do Plano Condor.

“Nós pedimos formalmente documentos aos Estados Unidos, por meio do Itamaraty, no início de nossa atividade como Comissão da Verdade, e até hoje não recebemos nenhuma resposta. Pensamos que na visita da presidenta Dilma (prevista para outubro do ano passado) seria possível apresentar outra vez o pedido, creio a presidenta estaria de acordo em respaldar essa solicitação, mas a viagem foi suspensa em protesto contra a espionagem dos Estados Unidos. Seja como for, creio que em alguns meses será propício pedir novamente documentos aos EUA e seja possível se chegar a um entendimento para que o próximo governo possa retomar esse requerimento também”.

“Você pergunta por que é tão demorada a liberação de papeis sobre a ditadura brasileira, que é a caixa preta do período do Condor. Essa talvez seja uma manobra protelatória para proteger personagens vivos. É uma suposição, mas é uma suposição racional imaginar que se proteja personagens como Kissinger. É claro que isso é possível. Nós temos documentos que não deixam dúvida sobre isso (a cumplicidade de Kissinger com o Plano Condor). Até agora conhecemos muito poucos documentos sobre a operação Condor, resta muito por conhecer sobre a participação de Kissinger nessa rede terrorista. O Plano Condor é o momento mais revelador do terrorismo de estado, em um plano que revela claramente a índole da ditadura. Seguramente há documentos secretos muito importantes. Tive acesso a alguns papeis publicados por uma professora norte-americana que mostra o quanto Kissinger sabia e estava envolvido”

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Por Dario Pignotti, da Carta Maior

A história do ódio no Brasil

Tiradentes, 1792

A história do ódio no Brasil

Achamos que somos um bando de gente pacífica cercados por pessoas violentas”. A frase que bem define o brasileiro e o ódio no qual estamos imersos é do historiador Leandro Karnal. A ideia de que nós, nossas famílias ou nossa cidade são um poço de civilidade em meio a um país bárbaro é comum no Brasil. O “mito do homem cordial”, costumeiramente mal interpretado, acabou virando o mito do “cidadão de bem amável e simpático”. Pena que isso seja uma mentira. “O homem cordial não pressupõe bondade, mas somente o predomínio dos comportamentos de aparência afetiva”, explica o sociólogo Antônio Cândido. O brasileiro se obriga a ser simpático com os colegas de trabalho, a receber bem a visita indesejada e a oferecer o pedaço do chocolate para o estranho no ônibus. Depois fala mal de todos pelas costas, muito educadamente.

Séc XIX, Bahia

Séc XIX, escravo sendo castigado

Olhemos o dicionário: cordial significa referente ou próprio do coração. Ou seja, significa ser mais sentimental e menos racional. Mas o ódio também é um sentimento, assim como o amor.  (Aliás os neurocientistas têm descoberto que ambos sentimentos ativam as mesmas partes do cérebro.) Nós odiamos e amamos com a mesma facilidade. Dizemos que “gostaríamos de morar num país civilizado como a Alemanha ou os Estados Unidos, mas que aqui no Brasil não dá para ser sério.” Queremos resolver tudo num passe de mágica. Se o político é corrupto devemos tirar ele do poder à força, mas se vamos para rua e “fazemos balbúrdia” devemos ser espancados e se somos espancados indevidamente, o policial deve ser morto e assim seguimos nossa espiral de ódio e de comportamentos irracionais, pedindo que “cortem a cabeça dele, cortem a cabeça dele”, como a rainha louca de Alice no País das Maravilhas. Ninguém para 5 segundos para pensar no que fala ou no que comenta na internet. Grita-se muito alto e depois volta-se para a sala para comer o jantar. Pede-se para matar o menor infrator e depois gargalha-se com o humorístico da televisão. Não gostamos de refletir, não gostamos de lembrar em quem votamos na última eleição e não gostamos de procurar a saída que vai demorar mais tempo, mas será mais eficiente. Com escreveu  Sérgio Buarque de Holanda, o criador do termo “homem cordial” : “No Brasil, pode dizer-se que só excepcionalmente tivemos um sistema administrativo e um corpo de funcionários puramente dedica­dos a interesses objetivos e fundados nesses interesses. Ao contrário, é possível acompanhar, ao longo de nossa história, o predomínio constante das vontades particulares que encontram seu ambiente pró­prio em círculos fechados e pouco acessíveis a uma ordenação im­pessoal” Ou seja, desde o começo do Brasil todo mundo tem pensando apenas no próprio umbigo e leva as coisas públicas como coisa familiar. Somos uma grande família, onde todos se amam. Ou não?

Cabeças do bando de Lampião

1938, bando Lampião

O já citado Leandro Karnal diz que os livros de história brasileiros nunca usam o termo guerra civil em suas páginas. Preferimos dizer que guerras que duraram 10 anos (como a Farroupilha) foram revoltas. Foram “insurreições”. O termo “guerra civil” nos parece muito “exagerado”, muito “violento” para um povo tão “pacífico”. A verdade é que nunca fomos pacíficos. A história do Brasil é marcada sempre por violência, torturas e conflitos. As decapitações que chocam nos presídios eram moda há séculos e foram aplicadas em praça pública para servir de exemplo nos casos de Tiradentes e Zumbi. As cabeças dos bandidos de Lampião ficaram expostas em museu por anos. Por aqui, achamos que todos os problemas podem ser resolvidos com uma piada ou com uma pedrada. Se o papo informal não funciona devemos “matar” o outro. Duvida? Basta lembrar que por aqui a república foi proclamada por um golpe militar. E que golpes e revoluções “parecem ser a única solução possível para consertar esse país”. A força é a única opção para fazer o outro entender que sua ideia é melhor que a dele? O debate saudável e a democracia parecem ideias muito novas e frágeis para nosso país.

Em 30 anos, tivemos um crescimento de cerca de 502% na taxa de homicídios no Brasil. Só em 2012 os homicídios cresceram 8%. A maior parte dos comentários raivosos que se lê e se ouve prega que para resolver esse problema devemos empregar mais violência. Se você não concorda “deve adotar um bandido”. Não existe a possibilidade de ser contra o bandido e contra a violência ao mesmo tempo.  Na minha opinião, primeiro devemos entender a violência e depois vomitar quais seriam suas soluções. Por exemplo, você sabia queocorrem mais estupros do que homicídios no Brasil? E que existem mais mortes  causadas pelo trânsito do Brasil do que por armas de fogo? Sim, nosso trânsito mata mais que um país em guerra. Isso não costuma gerar protestos revoltados na internet. Mas tampouco alivia as mortes por arma de fogo que também tem crescido ano a ano e se equiparam, entre 2004 e 2007, ao número de mortes em TODOS conflitos armados dos últimos anos. E quem está morrendo? 93% dos mortos por armas de fogo no Brasil são homens e 67% são jovens. Aliás, morte por arma de fogo é a principal causa de mortalidade entre os jovens brasileiros. Quanto à questão racial, morrem 133% mais negros do que brancos no Brasil. E mais: o número de brancos mortos entre 2002 e 2010 diminuiu 25%, ao contrário do número de negros que cresceu 35%. É importante entender, no entanto, que essas mortes não são causadas apenas por bandidos em ações cotidianas. Um dado expressivo: no estado de São Paulo ocorreram 344 mortes por latrocínio (roubo seguido de morte) no ano de 2012. No mesmo ano, foram mortos 546 pessoas em confronto com a PM. Esses números são altos, mas temos índices ainda mais altos de mortes por motivos fúteis(brigas de trânsito, conflitos amorosos, desentendimentos entre vizinhos, violências domésticas, brigas de rua,etc). Entre 2011 e 2012, 80% dos homicídios do Estado de São Paulo teriam sido causados por esses motivos que não envolvem ação criminosa. Mortes que poderiam ter sido evitadas com menos ódio. É importante lembrar que vivemos numa sociedade em que “quem não reage, rasteja”, mas geralmente a reação deve ser violenta. Se “mexeram com sua mina” você deve encher o cara de porrada, se xingaram seu filho na escola “ele deve aprender a se defender”, se falaram alto com você na briga de trânsito, você deve colocar “o babaca no seu lugar”. Quem não age violentamente é fraco, frouxo, otário. Legal é  ser ou Zé Pequeno ou Capitão Nascimento.  Nossos heróis são viris e “esculacham”

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1982, trabalhadores sendo revistados

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Se tivesse nascido no Brasil, Gandhi não seria um homem sábio, mas um “bundão” ou um “otário”.

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O discurso de ódio invade todos os lares e todos os segmentos. Agora que o gigante acordou e o Brasil resolveu deixar de ser “alienado” todo mundo odeia tudo. O colunista da Veja odeia o âncora da Record que odeia o policial que odeia o manifestante que odeia o político que odeia o pastor que odeia o “marxista” que odeia o senhor “de bem” que fica em casa odiando o mundo inteiro em seus comentários nos portais da internet. Para onde um debate rasteiro como esse vai nos levar? Gritamos e gritamos alto, mas gritamos por quê?

Política não é torcida de futebol, não adianta você torcer pela derrota do adversário para ficar feliz no domingo. A cada escândalo de corrupção, a cada pedreiro torturado, a cada cinegrafista assassinado, a cada dentista queimada, a cada homossexual espancado; todos perdemos. Perdemos a chance de conseguir dialogar com o outro e ganhamos mais um motivo para odiar quem defende o que não concordamos.

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2014, menor infrator após ser espancado

Eu também me arrependo muitas vezes de entrar no calor das discussões de ódio no Brasil; seja no Facebook, seja numa mesa de bar. Às vezes me pergunto se eu deveria mesmo me pronunciar publicamente sobre coisas que não conheço profundamente, me pergunto por que parece tão urgente exprimir minha opinião. Será essa a versão virtual do “quem não revida não é macho”? Se eu tivesse que escolher apenas um lado para tentar mudar o mundo, escolheria o lado da não-violência. Precisamos parar para respirar e pensar o que queremos e como queremos. Dialogar. Entender as vontades do outro. O Brasil vive um momento de efervescência, vamos usar essa energia para melhorar as coisas ou ficar nos matando com rojões, balas e bombas? Ou ficar prendendo trombadinhas no poste, torturando pedreiros e chacinando pessoas na periferia? Ou ficar pedindo bala na cabeça de políticos? Ficar desejando um novo câncer para o Reinaldo Azevedo ou para o Lula? Exigir a volta da ditadura? Ameaçar de morte quem faz uma piada que não gostamos?

Se a gente escutasse o que temos gritado, escrito e falado, perceberíamos como temos descido em direção às trevas interiores dos brasileiros às quais Nélson Rodrigues avisava que era melhor “não provocá-las. Ninguém sabe o que existe lá dentro.

Será que não precisamos de mais inteligência e informação e menos ódio? Quando vamos sair dessa infantilidade de “papai bate nele porque ele é mau” e vamos começar a agir como adultos? Quando vamos começar a assumir que, sim, somos um povo violento e que estamos cansados da violência? Que queremos sofrer menos violência e provocar menos violência? Somos um povo tão religioso e cristão, mas que ignora intencionalmente diversos ensinamentos de Jesus Cristo. Não amamos ao nosso inimigo, não damos a outra face, não deixamos de apedrejar os pecadores. Esquecemos que a ira é um dos sete pecados capitais. Gostamos de ficar presos na fantasia de que vivemos numa ilha de gente de bem cercada de violência e barbárie e que a única solução para nossos problemas é exterminar todos os outros que nos cercam e nos amedrontam.

Mas quando tudo for só pó e solidão, quem iremos culpar pelo ódio que ainda carregaremos dentro de nós.

‘Não há fogo no inferno, Adão e Eva não são reais’, diz o Papa Francisco

‘Não há fogo no inferno, Adão e Eva não são reais’, diz o Papa Francisco

“Todas as religiões são verdadeiras , porque elas são verdadeiras nos corações de todos aqueles que acreditam neles”, disse o Papa

O artigo “Não há fogo no inferno, Adão e Eva não são reais”, diz Papa Francisco foi retirado de um site espanhol na qual a fonte encontra-se no final do texto.

Vatican Pope

Artigo traduzido:

Um homem que está lá para abrir muitos “segredos ” antigos na Igreja Católica é o Papa Francisco. Algumas das crenças que são realizadas na igreja, mas que são contra a natureza amorosa de Deus, estão sendo revistas pelo Papa, que foi recentemente nomeado o ‘ Homem do Ano ‘ pela revista TIME .

Em suas últimas revelações , o Papa Francisco disse :

” Por meio da humildade , da introspecção e contemplação orante ganharam uma nova compreensão de certos dogmas . A igreja já não acredita em um inferno literal , onde as pessoas sofrem . Esta doutrina é incompatível com o amor infinito de Deus. Deus não é um juiz , mas um amigo e um amante da humanidade. Deus nos procura não para condenar, mas para abraçar . Como a história de Adão e Eva , nós vemos o inferno como um artifício literário . O inferno é só uma metáfora da alma exilada (ou isolada), que, como todas as almas em última análise, estão unidos no amor com Deus. “

Em um discurso poderoso que está repercutindo em todo o mundo , o Papa Francisco declarou:

” Todas as religiões são verdadeiras , porque elas são verdadeiras nos corações de todos aqueles que acreditam neles. Que outro tipo existe realmente ? No passado , a igreja a igreja considerava muitas coisas como pecado que hoje já não são julgadas dessa maneira . Como um pai amoroso, nunca condena seus filhos. Nossa igreja é grande o suficiente para heterossexuais e homossexuais , por pró-vida e pró- escolha! Para os conservadores e liberais , até mesmo os comunistas são bem-vindos e se juntaram a nós . Todos nós amando e adorando o mesmo Deus . “Nos últimos seis meses , os cardeais, bispos e teólogos católicos têm debatido na Cidade do Vaticano sobre o futuro da Igreja e da redefinição das doutrinas católicas e seus dogmas.” 

O Terceiro Conselho do Vaticano com o Papa Francisco concluiu anunciando que …

O catolicismo é uma religião agora “moderno e razoável , que passou por mudanças evolutivas. Hora de deixar toda intolerância. Devemos reconhecer que a verdade religiosa evolui e muda . A verdade não é absoluta ou imutável. Mesmo ateus reconhecem o divino. Através de atos de amor e caridade ateu reconhece Deus , bem como, redime a sua alma , tornando-se um participante ativo na redenção da humanidade. “

A declaração sobre o discurso do Papa enviou os tradicionalistas a um ataque de confusão e histeria .

” Deus está mudando e evoluindo como nós somos, porque Deus habita em nós e em nossos corações. Quando espalhar o amor e bondade no mundo , nós reconheceremos nossa divindade . A Bíblia é um livro sagrado bonito, mas como todas as grandes obras antigas , algumas passagens estão desatualizadas. Algumas passagens chamam mesmo para intolerância ou julgamento. É o tempo de ver estes versos como interpolações posteriores , contra a mensagem do amor e da verdade , caso contrário, irradiando através da Escritura chegou. Com base em nossa nova compreensão , vamos começar a ordenar mulheres como cardeais, bispos e sacerdotes. No futuro , é minha esperança de que , um dia , um papa feminino não permita que qualquer porta que está aberta para um homem seja fechada para uma mulher.

Alguns cardeais da Igreja Católica são contra as recentes declarações do Papa Francisco.’

Acredito que se continuar dessa forma logo esse Papa se assumirá Ateu! rs Falando sério, ele já revelou outras opiniões polemicas que a própria igreja logo desmentiu, dizendo não ser essa a verdade. Mas dessa vez será que vamos ter outra retratação ou realmente havará mudanças nos dogmas católicos?

Outro ponto de vista que tenho em relação a declaração dele referente a alguns versos da Biblia não serem literais, causa não só uma mudança de paradigma, mas uma possível descredibilidade da propria história aprensentada ali. Pois quem me garante que Jesus e outros personagens realmente existiram ou não são mais uma alegoria/metáfora como Inferno, Adão e Eva?

Traduzido do site Mundo História

Punhos sem renda – por saul leblon / são paulo.sp

Punhos sem renda

Da perplexidade ao ataque, passaram-se poucos dias até o impoluto Gilmar Mendes puxar a coleira da matilha que passou a farejar sem trégua.

Arquivo
 

O deputado André Vargas (PT-PR) não foi orientado por um script publicitário a erguer o braço e cerrar o punho na presença da toga que se esponja no desfrutável papel midiático de algoz do PT.

Genoíno, que o antecedeu na afirmação simbólica de identidade e protesto, ou Dirceu, que assim também se confraternizou com os militantes solidários que o aguardavam na entrada da Papuda, tampouco  obedeceram aos alertas  de ‘luzes, câmera, ação!’

Milhares de petistas e não-petistas anônimos que fizeram chegar doações a Genoíno e Delúbio – e aqueles que repetirão a solidariedade a Dirceu e João Paulo, por certo não podem ser confundidos com coadjuvantes de uma peça eleitoral.

O significado desses sinais de vitalidade enviados do metabolismo profundo não apenas do PT, da esquerda em geral,  já foram sublinhados pela argúcia de vários analistas da blogosfera.

O que eles evidenciam deixou inconformados colunistas e togas engajados em anos de desqualificação diuturna do partido, de seu legado e  valores.

Depois de tanto sangrar, o esquartejado ainda teima –e respira?

Da perplexidade ao ataque, passaram-se poucos dias até o impoluto doutor duplo habeas corpus, Gilmar Mendes,  puxar a coleira da matilha que passou a farejar operosa e incansavelmente: em algum ponto há de se achar  uma cubana das doações.

O fato é que  eles não contavam com a sobrevida da solidariedade no espinhaço ferido  da esquerda. Tudo isso já foi dito e bem dito.

Faltou dizer  que parte expressiva desta esquerda também se surpreendeu.

Surpreendeu-se  ela com o efeito demolidor de algo esquecido na prática minuciosamente monitorada pela conveniência  do exercício do poder: a espontaneidade de André Vargas.

Sem falar da solidariedade sem hesitação a Genoíno e Delúbio  –que por certo inclui doações expressivas de instituições e personalidades, a exemplo do cheque de R$ 10 mil enviado pelo ex-ministro Nelson Jobim.

Mas nada que diminua a vitalidade do que verdadeiramente incomoda e sacode: milhares de doadores anônimos não esperaram uma peça publicitária para sair em defesa de quem personifica referências inegociáveis de sua visão de vida, de mundo e de Brasil.

A criatividade inexcedível do protesto espontâneo e o efeito demonstração incomparável da prontidão solidária hibernavam na memória algo entorpecida do PT.

Há mais de uma década desafiado a ser partido de massa e governo —  a bordo das sabidas contradições que a dupla jornada encerra, o partido impôs-se, compreensivelmente, o gesso da previsibilidade e as algemas do risco zero.

Ademais dos comedimentos  da responsabilidade  de ser governo, o próprio êxito dessa trajetória  — reiterado nas urnas—instituiu um protocolo de autopreservação: ele delega ao pensamento publicitário a última palavra (não raro a primeira também) sobre o que o partido deve falar, quando e como fazê-lo.

Cabe a pergunta: que publicitário petista orientaria um dirigente a cerrar o punho, de braço erguido, diante da toga colérica, a essa altura do jogo? E quantos bancariam uma campanha massiva de doações aos incômodos condenados do chamado ‘mensalão’?

‘E pur si muove…’

A eficácia do improvável deveria inspirar arguições no pragmatismo que planeja a campanha presidencial deste ano.

Todo cuidado é pouco  –estão aí as togas, o jornalismo isento, os mercados sedentos, os netos oportunistas e os verdes convertidos no altar do tripé.

‘Não vai ter Copa’ é o mínimo que eles ambicionam.

Mas estão aí também a democracia e o desenvolvimento brasileiro perfilados  num horizonte de encruzilhadas imunes à receita de mais do mesmo em nova embalagem e sabores reciclados.

Aquilo que cabe em um script competente, mas exatamente por isso encilhado em baixos teores de ousadia e residual  espaço à mobilização, talvez seja suficiente para vencer o conservadorismo nas urnas de outubro.

Mas o será para liderar a transição do novo pacto de desenvolvimento necessário à construção da democracia social brasileira?

A ver.

Crónicas da Infâmia – por maria josé vieira de souza / portugal

Crónicas da Infâmia
I- O retorno
O tempo em que  escrevi sobre o país e o mundo, sobre a actualidade que se renovava constantemente,  terminou há muito. Esgotou-se na sucessão dos dias como  acto rotineiro. Denunciei-o  por comum acordo.
Escrevi. Fi-lo  com angústia, com  dor, com sobressalto, mas ancorada numa esperança de dias melhores. Era a crise que chegava. Era o início do tempo sem metas, sem rumo, sem certezas. E os começos nunca projectam a extensão da catástrofe que vão inaugurar. Incauta, resiliente, acutilante, caustiquei, vociferei contra quem governava o país, contra o desnorte que nos acometia, contra quem vendia ilusões , contra quem se abastecia no mercado das aparências, contra a incapacidade de assumir a inoperância, contra a falta de rigor, contra as aporias da verdade , da lealdade.
O devir dos dias , implacável,  prosseguiu e o país foi-se apoucando nas mãos de quem nunca soubera gerir a res publica. Eleitos, os fariseus entraram no templo.
Vandalizar foi, de repente, um projecto.
Os verdadeiros negros dias da crise  começaram. Era o tempo iníquo que a raiva não tinha previsto. O tempo da desumanização. O tempo da infâmia. O tempo da ausência de todos os “eus”. O tempo desnudo, sem  gente, sem  pessoas. O tempo do esquecimento do “outro”. O tempo que transforma o ser humano num excedente, num obstáculo à eficácia orçamental.
E as pessoas passaram a ser números. Algarismos disformes e rasurados pela urgência do momento. As estatísticas eliminavam-nas, devoravam-nas conforme  o apetite de quem as exigia. A economia  rejeitava-as, incapaz de prosperar num estado social onde cada um é mais importante do que a contabilidade da sua própria existência.
Os comentadores proliferavam em assertivas análises, documentadas e balizadas por um saber  de experiência feito, quais árbitros em jogo próprio. Tanta verborreia exasperava. Era o melhor convite ao silêncio. Em  casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão, diz o ditado.
Mas a questão apresentava-se. Inquiria-me. Retomar a palavra, exigia. O peso do silêncio não servia a revolta. Escrever, vociferar, alertar, denunciar, insurgir como e para quem? As palavras estavam gastas  numa sucessão arrastada de crónicas. Repetir-me num tema que deixara de ser mote para uma escrita ocasional, era como violentar-me. Entretanto, a realidade já nos tomara. Medonha, cruel, insensível, impiedosa, irredutível. Aí estava ela, a estreitar-nos  num corredor de desespero, nos dias de intempérie continuada.
Os Hospitais a rejeitar doentes, abandonando-os à deriva das  próprias enfermidades. As Escolas sem meios para programar a excelência, convertidas em refeitório dos alunos sem pão. As filas  de gente sofrida,  de olhar ausente ,  a marcar lugar à porta de Centros de Emprego inoperantes. As Fábricas exauridas  a fechar  sem terem precavido o futuro de quem as alimentou. O leilão interminável dos funcionários públicos a ser realizado em hasta pública. Vendê-los pelo menor preço para reduzir a viscosa gordura de um Estado enraivecido. Os pensionistas e os reformados, o novo fardo que se  carrega  sem qualquer utilidade. Abatê-los é urgente. Dizimá-los , uma prioridade. Avançam medidas , compõem-se iniciativas que se transformam em leis,  reduzindo-os à pobreza. Espoliados, menorizados, silenciados por um governo bastardo. Reduzir, eliminar , matar deixando morrer é o caminho.
E as crianças, meu Deus? Onde estão? Na nebulosidade dos sonhos porque nascer deixou de ser relevante. A natalidade empobrece o país.
Nascer . Teimar em nascer, mas nascer onde?
Nas Maternidades que fecharam. Nos lares que não sobrevivem à ira dos dias. Nas casas que não se sustentam.
Nascer, em Portugal,  num país de pobres em expansão é nascer num tempo infame que exclui  a alegria da infância.
Oh, meu pobre Portugal. Que te fizeram? Que nos fizeram? Que fizemos nós?
Calar , segredar , observar já não basta. A raiva pede revolta. E a revolta voa na palavra que se lança de nós , por nós , para todos nós. Invocar para convocar.
Invoquemos a RAIVA. Convoquemos a REVOLTA para que a infâmia não tome conta de todos  nós e  não nos aniquile.
Portimão, 26 de Janeiro de 2014
Maria José Vieira de Sousa

UMA DÉCADA SEM BRIZOLA – por paulo timm / torres.rs

 

 

No dia 21 de junho de 2004 expirava, para surpresa de tantos quantos o conheciam e se impressionavam com sua performance, o Governador Leonel Brizola (1922-2004). Ontem, data de seu natalício, a memória de Brizola foi lembrada com a inauguração de uma estátua em bronze,  em sua homenagem, na Praça da Matriz, lócus privilegiado  da era positivista no Rio Grande do Sul, ao lado do Palácio Piratini.

Quem foi Leonel Brizola e o que representou ele, politicamente, no Estado e no Brasil?

Brizola foi um dos políticos mais importantes do Brasil na segunda metade do século XX. Iniciou sua carreira política no Partido Trabalhista Brasileiro, elegendo-se deputado estadual (RS) no pós-guerra e desde aí teve uma carreira meteórica: Prefeito de Porto Alegre, Governador do Estado RS, com apenas 37 anos, Líder do Movimento Legalidade que impediu o Golpe Militar contra a posse de João Goulart em agosto de 1961, deputado mais votado pelo Rio de Janeiro em 1962, Governador daquele Estado por duas vezes depois de prolongado exílio, já então pelo seu novo Partido – o PDT – e candidato a Presidente da República em 1989.

Brizola foi um dos líderes mais estigmatizados pela ditadura militar que se prolongou de 1964 até 1985. Era apontado como um dos responsáveis pela intensa movimentação política em defesa das Reformas de Base, no período Goulart. Respondeu, no exílio, primeiro com uma tentativa frustrada de resistência armada, logo com a proclamação de “Voto Nulo”, nas eleições de 1970, igualmente pouco produtiva. Este foi, precisamente, o auge dos denominados “Anos de Chumbo” do regime e que coincidia com a colheita de bons frutos eleitorais graças ao “milagre econômico” , tão festejado pela classe média conservadora. Brizola se recolhe, então, a um longo silêncio do qual emergirá em 1977/8, já em meio ao processo de redemocratização, com a proposta de reorganização do trabalhismo como um caminho brasileiro para a construção do socialismo democrático. Em junho de  1979 realiza, com efeito, seu Encontro dos Trabalhistas em Lisboa, com o apoio de Mário Soares, Líder do Partido Socialista Português, editando a histórica “Carta de Lisboa”. Retorna, em dezembro do mesmo ano ao Brasil, sob o amparo da Lei da Anistia de 1979 e se dedica à formação de seu próprio Partido. Tenta, então, refundar o velho PTB, mas o perde para Ivete Vargas, com a provável conivência do Tribunal Superior Eleitoral. Desolado – o dia em que Brizola chorou ao rasgar a sigla PTB ! – parte, então, do zero e cria, em 1980 o Partido Democrático Trabalhista , de caráter social-democrata. Tratava-se , Brizola, de um líder amadurecido e que pretendia encontrar na esquerda européia o apoio indispensável  ao avanço de reformas sociais no Brasil, especialmente uma pretendida revolução na educação: “ A nossa Revolução, dizia, será com a caneta a serviço da consciência dos brasileiros…!”

Aqueles foram anos de redefinições políticas no Brasil, nos estertores do regime autoritário. Brizola evita participar da grande frente sob comando liberal, conhecida como MDB, revitalizado na reforma partidária de 1980, sob a tutela de Ulisses Guimarães,  no PMDB, e denuncia a tese da denominada UNIDADE DAS OPOSIÇÕES, apoiada pelos comunistas de todas as tendências. Defende que o avanço político dependia da capacidade organização autônoma das forças populares. Mas não  consegue empolgar o forte movimento sindical e popular que, irradiando de São Paulo, sob a liderança de Lula, se espalha por todo o país, realimentado pelas lutas por recomposições salariais no contexto de uma conjuntura fortemente inflacionária. Lula rejeita o PTB e se lança, de sua parte, com apoio da Igreja à criação do PT. Isso  dificulta o projeto político de Brizola em direção ao Palácio do Planalto, vindo, como resultado deste isolamento, a perder sua grande oportunidade nas primeiras eleições presidenciais de 1989,  disputada no segundo turno  por Fernando Collor e Lula.

Brizola não foi apenas um grande líder popular, com grande capital eleitoral, mas uma personalidade com fortes traços republicanos, dentro da tradição castilhista rio-grandense, que renovou, aproximando-a do socialismo evolucionário contemporâneo. Mudou também o estilo da política tradicional afeita aos discursos de escadaria, substituindo-a pelas conversas radiofônicas de longo alcance social, nas quais explicava didaticamente suas inclinações.

Com a partida de Brizola, em 2004, o seu Partido – PDT -perdeu o líder e o rumo. O Rio Grande, um dos grandes herdeiros do castilhismo. E o Brasil , perdeu uma grande esperança de renovação pela educação. Ficou a saudade de seu estilo direto, franco e sincero. E o reconhecimento, mesmo de seus adversários, de que ele foi um político , em todos os sentidos, honesto.

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Paulo Timm – Economista, Professor da Universidade de Brasilia, signatário da Carta de Lisboa e fundador do PDT, partido pelo qual disputou os Governos de Goiás (1982) e Distrito Federal (1994)

Os rolezinhos nos acusam: somos uma sociedade injusta e segregacionista / leonardo boff – são paulo.sp

23/01/2014

O fenômeno dos centenas de rolezinhos que ocuparam shoppings centers no Rio e em  São Paulo suscitou as mais disparatadas interpretações. Algumas, dos acólitos da sociedade neoliberal do consumo que identificam cidadania com capacidade de consumir, geralmente nos jornalões da mídia comercial, nem merecem consideração. São de uma indigência analítica de fazer vergonha.
Mas houve outras análises que foram ao cerne da questão como a do jornalista Mauro Santayana do JB on-line e as de três  especialistas que avaliaram a irrupção dos rolês na visibilidade pública e o elemento explosivo que contém. Refiro-me à Valquíria Padilha, professora de sociologia na USP de Ribeirão Preto:”Shopping Center: a catedral das mercadorias”(Boitempo 2006), ao sociólogo da Universidade Federal de Juiz de Fora, Jessé Souza,”Ralé brasileira: quem é e como vive (UFMG 2009) e  de Rosa Pinheiro Machado, cientista social com um artigo”Etnografia do Rolezinho”no Zero Hora de 18/1/2014. Os três deram entrevistas esclarecedoras.
Eu por minha parte interpreto da seguinte forma tal irrupção:
Em primeiro lugar, são jovens pobres, das grandes periferias,  sem espaços de lazer e de cultura, penalizados por serviços públicos ausentes ou muito ruins como saúde, escola, infra-estrutura sanitária, transporte, lazer e segurança. Veem televisão cujas propagandas os seduzem para um consumo que nunca vão poder realizar. E sabem manejar computadores e entrar nas redes sociais para articular encontros. Seria ridículo exigir deles que teoricamente tematizem sua insatisfação. Mas sentem na pele o quanto nossa sociedade é malvada porque exclui, despreza e mantém os filhos e filhas da pobreza na invisibilidade forçada. O que se esconde por trás de sua irrupção? O fato de não serem incluidos no contrato social. Não adianta termos uma “constituição cidadã” que neste aspecto é apenas retórica, pois  implementou muito pouco do que prometeu em vista da inclusão social. Eles estão fora, não contam, nem sequer servem de carvão  para o consumo de nossa fábrica social (Darcy Ribeiro). Estar incluído no contrato social significa ver garantidos os serviços básicos: saúde, educação, moradia, transporte, cultura, lazer e segurança. Quase nada disso funciona nas periferias. O que eles estão dizendo com suas penetrações nos bunkers do consumo? “Oia nóis na fita”; “nois não tamo parado”;”nóis tamo aqui para zoar”(incomodar). Eles estão com seu comportamento rompendo as barreiras do aparheid social. É uma denúncia de um país altamente injusto (eticamente), dos mais desiguais do mundo (socialmente), organizado sobre um grave pecado social pois contradiz o  projeto de Deus (teologicamente). Nossa sociedade é conservadora e nossas elites altamente insensíveis  à paixão de seus semelhantes e por isso cínicas. Continuamos uma Belíndia: uma Bélgica rica dentro de uma India pobre. Tudo isso os rolezinhos denunciam, por atos e menos por palavras.
Em segundo lugar,  eles denunciam a nossa maior chaga: a desigualdade social cujo verdadeiro nome é injustiça histórica e social. Releva, no entanto, constatar que com as políticas sociais do governo do PT a desigualdade diminiui, pois segundo o IPEA os 10% mais pobres tiveram entre 2001-2011 um crescimento de renda acumulado de 91,2% enquanto a parte mais rica cresceu 16,6%. Mas esta diferença não atingiu a raíz do problema pois o que supera a desigualdade é uma infraestrutura social de saúde, escola, transporte, cultura e lazer que funcione e acessível a todos. Não é suficiente transferir renda; tem que criar oportunidades e oferecer serviços, coisa que não foi o foco principal no Ministério de Desenvolvimento Social. O “Atlas da Exclusão Social” de Márcio Poschmann (Cortez 2004) nos mostra que há cerca de 60 milhões de famílias,  das quais cinco mil famílias extensas detém 45% da riqueza nacional. Democracia sem igualdade, que é seu pressupsto, é farsa e retórica. Os rolezinhos denunciam essa contradição. Eles entram no “paraíso das mercadorias” vistas virtualmente na TV para ve-las realmente e senti-las nas mãos. Eis o sacrilégio insuportável pelos donos do shoppings. Eles não sabem dialogar, chamam logo a polícia para bater e fecham as portas a esses bárbaros. Sim, bem o viu T.Todorov em seu livro “Os novos bárbaros”: os marginalizados do mundo inteiro estão saindo da margem e indo rumo ao centro para suscitar a má consciência dos “consumidores felizes” e lhes dizer: esta ordem é ordem na desordem. Ela os faz frustrados e infelizes, tomados de medo, medo dos próprios semelhantes que somos nós.
Por fim, os rolezinhos não querem apenas consumir. Não são animaizinhos famintos. Eles tem fome sim, mas fome de reconhecimento, de acolhida na sociedade, de lazer, de cultura e de mostrar o que sabem: cantar, dançar, criar poemas críticos, celebrar a convivência humana. E querem trabalhar para ganhar sua vida. Tudo isso lhes é negado, porque, por serem pobres, negros, mestiços sem olhos azuis e cabelos loiros, são desperezados e mantidos longe, na margem.
Esse tipo de sociedade pode ser chamada ainda de humana e civilizada? Ou é uma forma travestida de barbárie? Esta última lhe convem mais. Os rolezinhos mexeram numa pedra que começou a rolar. Só parará se houver mudanças.

2014! O QUE ESPERAR? – por anthony leahy

2014! O QUE ESPERAR?

Já estamos entrando em 2014 e como foi rápido! 2000 era tão distante e misterioso e já estamos em 2014!  E, diferentemente do preconizado pelas obras de ficção científica, em vez de tele-transportes e veículos voadores pessoais; em vez de maquinas do tempo e contatos com outros mundos; em vez da estabilidade gerada em laboratórios no Admirável (?!) Mundo Novo de Huxley; temos a Guerra, a Fome, a Indiferença, a Intolerância … e horrores velhos conhecidos da Humanidade.

Em 2013, acompanhamos, perplexos e passivos, a toda hora e em cada noticiário, o ódio e o seu filho primogênito, o terror! Vimos o orgulho aconselhando-se com a inveja, e esta se associando à perfídia! E as três, juntos, tecendo as rédeas da intriga e gerando mais ódio. Vimos o interesse deformando a verdade, torcendo as consciências e a covardia amordaçando as almas. Vimos o rancor gerando cólera; a cólera gerando violência; e a violência humilhando, escarnecendo e matando.
A Humanidade, paradoxalmente, faz a guerra em nome da paz; mata e persegue em nome de Deuses de amor, perdão, vida e compaixão; cria a tecnologia da comunicação e esquece-se de comunicar-se (“É terrível verificar que nossa tecnologia é maior que nossa humanidade.” já dizia Einstein.). Diminuímos as distâncias e nunca estivemos tão afastados …
E o que esperar de 2014? Temos que tomar consciência de que os tempos vindouros serão esculpidos pela nossa vontade e atitude!  Somos nós que daremos, desde o 1º segundo, a fisionomia do novo ano. Ele é o nosso “ALTER-EGO”, o nosso espelho, a nossa própria personalidade na expressão dos acontecimentos, bons ou maus, que suscitaremos no mundo. Nada podemos esperar dele, visto que é ele que espera e depende de nós…
Lembremo-nos que, ofendendo ao nosso próximo, ofendemos a própria essência humana de que somos participantes. Portanto, todo crime contra um só homem é crime contra toda humanidade. E não existe crime maior e mais covarde do que a indiferença e omissão!  Que nenhum homem se diga digno e justo enquanto existirem pessoas morrendo de fome gritando de dor …
Espero que em 2014 consigamos esculpir a silhueta de um novo futuro, mais humanizado e digno, com menos discursos e mais atitudes. Um futuro plural, onde a palavra-chave seja a tolerância e que consigamos gerar unidade na diversidade.
Que em 2014 possamos, juntos, festejar, entre livros e amigos, a construção desta nova humanidade!

Por que no meio da dor os negros, dançam, cantam e riem? – por leonardo boff / são paulo.sp

 
 Milhares de pessoa em toda a Africa do Sul misturam choro com dança, festa com lamentos pela morte de Nelson Mandela. É a forma como realizam culturalmente o rito de passagem da vida deste lado para a vida do outro lado, onde estão os anciãos, os sábios e os LEONARDO BOFFguardiães do povo, de seus ritos e das normas éticas. Lá está agora Mandela de forma invisível mas plenamente presente acompanhando o povo que ele tanto ajudou a se libertar. Momentos como estes nos fazem recordar de nossa mais alta ancestralidade humana. Todos temos nossas raízes na Africa, embora a grande maioria o desconheça ou não lhe dê importância. Mas é decisivo que nos reapropriemos de nossas origens, pois elas, de um modo ou de outro, na forma de informação, estão inscritas no nosso código genético e espiritual. Refiro-me aqui tópicos de um texto que há tempos escrevi sob o título:”somos todos africanos” atualizado face à situação atual mudada. De saída importa denunciar a tragédia africana: é o continente mais esquecido e vandalizado das políticas mundiais. Somente suas terras contam. São compradas pelos grandes conglomerados mundiais e pela China para organizar imensas plantações de grãos que devem garantir a alimentação, não da Africa, mas de seus países ou negociadas no mercado especulativo. As famosas “land grabbing” possuem, juntas, a extensão de uma França inteira. Hoje a Africa é uma espécie de espelho retrovisor de como nós humanos pudemos no passado e podemos hoje ainda ser desumanos e terríveis. A atual neo-colonização é mais perversa que a dos séculos passados. Sem olvidar esta tragédia, concentremo-nos na herança africana que se esconde em nós. Hoje é consenso entre os paleontólogos e antropólogos que a aventura da hominização se iniciou na África, cerca de sete milhões de anos atrás. Ela se acelerou passando pelo homo habilis, erectus, neanderthalense até chegar ao homo sapiens cerca de noventa mil anos atrás. Depois de ficar 4,4 milhões de anos em solo africano este se propagou para a Ásia, há sessenta mil anos; para a Europa, há quarenta mil anos; e para as Américas há trinta mil anos. Quer dizer, grande parte da vida humana foi vivida na África, hoje esquecida e desprezada. A África além de ser o lugar geográfico de nossas origens, comparece como o arquétipo primal: o conjunto das marcas, impressas na alma de todo ser humano. Foi na África que este elaborou suas primeiras sensações, onde se articularam as crescentes conexões neurais (cerebralização), brilharam os primeiros pensamentos, irrompeu a criatividade e emergiu a complexidade social que permitiu o surgimento da linguagem e da cultura. O espírito da África, está presente em todos nós. Identifico três eixos principais do espírito da África que podem nos inspirar na superação da crise sistêmica que nos assola. O primeiro é o amor à Mãe Terra, a Mama Africa. Espalhando-se pelos vastos espaços africanos, nossos ancestrais entraram em profunda comunhão com a Terra, sentindo a interconexão que todas as coisas guardam entre si, as águas, as montanhas, os animais, as florestas e as energias cósmicas. Sentiam-se parte desse todo. Precisamos nos reapropriar deste espírito da Terra para salvar Gaia, nossa Mãe e única Casa Comum. O segundo eixo é a matriz relacional (relational matrix no dizer dos antropólogos). Os africanos usam a palavra ubuntu que significa:”eu sou o que sou porque pertenço à comunidade” ou “eu sou o que sou através de você e você é você através de mim”. Todos precisamos uns dos outros; somos interdependentes. O que a física quântica e a nova cosmologia dizem acerca de interconexão de todos com todos é uma evidência para o espírito africano. À essa comunidade pertencem os mortos como Mandela. Eles não vão ao céu, pois o céu não é um lugar geográfico, mas um modo de ser deste nosso mundo. Os mortos continuam no meio do povo como conselheiros e guardiães das tradições sagradas. O terceiro eixo são os rituais e celebrações. Ficamos admirados que se dedique um dia inteiro de orações por Mandela com missas e ritos. Eles sentem Deus na pele, nós ocidentais na cabeça. Por isso dançam e mexem todo o corpo enquanto nós ficamos frios e duros como um cabo de vassoura. Experiências importantes da vida pessoal, social e sazonal são celebrados com ritos, danças, músicas e apresentações de máscaras. Estas representam as energias que podem ser benéficas ou maléficas. É nos rituais que ambas se equilibram e se festeja a primazia do sentido sobre o absurdo. Notoriamente é pelas festas e ritos que a sociedade refaz suas relações e reforça a coesão social. Ademais nem tudo é trabalho e luta. Há a celebração da vida, o resgate das memórias coletivas e a recordação das vitórias sobre ameaças vividas. Apraz-me trazer o testemunho pessoal de um dos nossos mais brilhantes jornalistas, Washington Novaes:”Há alguns anos, na África do Sul, impressionei-me ao ver que bastava se reunirem três ou quatro negros para começarem a cantar e a dançar, com um largo sorriso.Um dia, perguntei a um jovem motorista de táxi:”Seu povo sofreu e ainda sofre muito. Mas basta se juntarem umas poucas pessoas e vocês estão dançando, cantando, rindo. De onde vem tanta força?” E ele: “Com o sofrimento, nós aprendemos que a nossa alegria não pode depender de nada fora de nós. Ela tem de ser só nossa, estar dentro de nós.” Nossa população afrodescendente nos dá a mesma amostra de alegria que nenhum capitalismo e consumismo pode oferecer..
 Leonardo Boff, teólogo, filósofo e escritor.
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Divulgado anteriormente na página de Rodolpho Luiz Dalla Bernardina no facebook.

Contra a imbecilidade do atual anticomunismo – por leonardo boff / são paulo.sp

Contra a imbecilidade do atual anticomunismo

17/12/2013
 LEONARDO BOFF

Mauro Santayana é um dos jornalistas mais eruditos do jornalismo brasileiro. Sempre comprometido com causas humanitárias, contundente e dotado de um estilo de grande elegância. Somos colegas como colunistas do Jornal do Brasil-on line. Recentemente, no dia 17/12/2013, publicou um artigo sob o título HAMEUS PAPAM  com o qual me identifiquei imediantamente. Sofro ataques imbecis de que sou comunista e marxista, como se para um teólogo com 50 anos de atividade, fosse uma banalidade fazer esta acusação. Sou cristão, teólogo e escritor. Marx nunca foi pai nem padrinho da Teologia da Libertação que ajudei a formular. O atual anticomunismo  revela a anemia de espírito e a pobreza de pensamento  que  estão prevalecendo como disfarce para esconder o desastre que significa a economia de mercado, altamente predadora da natureza e agressora de todo tipo de direitos humanos e agora numa crise da qual não sabem como sair. Há tempos o Zürcher Zeitung, o maior jornal suiço e pouco depois o Times diziam que o autor mais lido hoje é Marx. Não só por estudiosos, mas por banqueiros e financistas conscientes que querem saber por que seu sistema foi a falência e por que tem tantas dificuldades em sair dele, se é que encontram uma saída que não signifique mais sacrificio para a natureza (injustiça ecológica) e para a humanidade já sofredora (injustiça social). Hoje mais e mais se percebe que este sistema é anti-vida, anti-democracia e anti-Terra. Se não cuidarmos poderá nos levar a um abismo fatal. É uma reflexão que faço contra meus acusadores gratuitos e faltos de razão. Penso às vezes que Einstein tinha razão quando disse:”Existem dois infinitos:um do universo e outro dos estultos; do primeiro tenho dúvidas, do segundo, absoluta certeza”. Estimo que muitos dos anticomunistas atuais se inscrevem nesse segundo infinito. É fácil serrar árvore caída e convardia chutar cachorro morto. Pensemos, antes, no presente com sentido de responsabilidade, unidos face a um feixe de crises que nos poderá levar a uma tragédia ecológico-social. Como fazer tudo para evitá-la e garantir um futuro comum para todos, inclusive para a nossa civilização e para nossa Casa Comum. Essa é a questão maior a ser pensada e sobre ela inaugurar práticas salvadoras e não distrair-se com discutir um comunismo inexistente, morto e sepultado. LBoff

Bachelet impõe esmagadora vitória sobre a direita latino-americana

Bachelet impõe esmagadora vitória sobre a direita latino-americana

Enviado por  on 16/12/2013 – 9:43 am

Os significados desta vitória certamente irão se refletir no resto do continente. Bachelet representa a esquerda anti-ditadura que hoje governa maior parte da América do Sul.

A socialista terá de reduzir o grande fosso social nas áreas da saúde, educação e participação das mulheres no mercado de trabalho

FRANCISCO PEREGIL, Santiago de Chile 15 DEZ 

 

Venceu a favorita. A socialista Michelle Bachelet, pediatra de 62 anos, separada e com três filhos, presidente do Chile entre 2006 e 2010, voltará novamente a pisar no Palácio de la Moneda como chefe de Estado. E o fará com a honra de ter vencido com a porcentagem de votos mais alta conseguida por um presidente desde o retorno da democracia. A filha do general Alberto Bachelet, morto depois de torturado pelo regime de Augusto Pinochet (1973-1990), candidata da formação de centro-esquerda Nova Maioria, se impôs à economista conservadora Evelyn Matthey, de 60 anos, filha do general pinochetista Fernando Matthey, por 62% a 37,5%, já tendo sido apuradas 96% das urnas.

A vitória perdeu brilho por causa da elevada abstenção registrada nas primeiras eleições presidenciais realizadas sob a lei do voto voluntário. A abstenção ficou em cerca de 60%, 10 pontos acima da constatada no primeiro turno, em 17 de novembro, que já tinha sido elevada.

De acordo com o que determina a Constituição, Bachelet só assumirá o cargo em 11 de março, quando prestará juramento. A partir de então deverá enfrentar o grande desafio da luta contra a desigualdade. Durante os 20 anos em que governou a centro-esquerda e os quatro da direita, nenhum dos presidentes cumpriu a promessa de reformar o sistema educacional, a grande fábrica das desigualdades. Mas em 2011 os estudantes saíram às ruas e depois disso as ruas não pararam de expressar sua indignação. Agora, serão as ruas que examinarão Bachelet.

A imagem que muitos chilenos têm de si mesmos na América Latina é a de melhor aluno, o menino obediente que se esforça para tirar as melhores notas. É só ver o modo como a grande companhia aérea do país, a Lan, organiza as filas nos aeroportos para se dar conta de que durante os últimos anos muitas coisas foram feiras de forma ordenada e meticulosa. Os passageiros das filas 1 a 8 ficam numa ala e os da 8 à 13, em outra. Ninguém fura a fila. E é só ver esse grande monumento ao capitalismo que é o shopping Costanera Center, em Santiago, para perceber que no país o dinheiro está girando. Com seus seis andares e 60 restaurantes, forma parte de um complexo imobiliário que inclui o arranha-céu mais alto da América Latina: 300 metros com 60 andares e 24 elevadores, nos quais se trafega a 6,6 metros por segundo. De algum modo tinha que ser perceptível que o PIB cresceu desde 2010 a um ritmo de 5,5%, 1 ponto acima da média da América Latina, e que o desemprego é só de 5,7%.

Mas os 300 metros da Gran Torre Santiago não podem ocultar o esgotamento de um sistema onde somente os mais ricos conseguem uma educação suficientemente boa para passar nas provas de ingresso nas duas grandes universidades públicas (que também são pagas). O restante dos chilenos se vê obrigado a se endividar para estudar em universidades privadas, na maioria com péssimo nível docente, e seus diplomas de licenciatura não têm prestígio algum. É como se o melhor aluno tivesse passado, ano após ano, sem aprender a dividir. Sem que haja o interesse necessário por conseguir uma melhor divisão da riqueza.

O economista da Fundação Sol Marcos Kremerman apresenta vários dados: ”Os 5% mais ricos da população ganham 257 vezes mais do que os 5% mais pobres. Um estudo feito no início de 2013 pela Universidade do Chile demonstra que o 1% mais rico concentra 31% da renda. Nos Estados Unidos, o 1% fica com 21%, na Alemanha, com 12%. E o lugar onde mais se percebe a desigualdade é na classe trabalhadora: 50% dos trabalhadores ganham menos de 251.000 pesos chilenos (345 euros). A distância entre um diretor geral e um trabalhador com o menor salário supera cem vezes. Isso tem a ver com as instituições existentes no Chile, que foram criadas durante a ditadura.”

A ativista chilena Roxana Miranda, de 46 anos, se candidatou à Presidência no primeiro turno por um partido que se chama precisamente Igualdade. Durante um debate televisionado perguntou aos outros candidatos se sabiam como as mulheres de seu município, a comuna de San Bernardo, na periferia de Santiago, resolviam os problemas dentários. Muitos chilenos ficaram surpresos ao saber que o fazem com uma pasta à base do cravo que se usa como tempero na comida, porque não têm dinheiro para ir ao dentista. Várias entidades de odontologistas confirmaram as palavras de Miranda.

“Na vida cotidiana sempre se tem de pedir fiado, dinheiro não chega para pagar a luz e a água”, disse Miranda. “Temos que decidir entre os filhos qual tem melhor cabeça e, assim, investimos na educação de um deles. As pessoas se endividam com os créditos hipotecários. Os bancos fizeram negócios até com a moradia social. Há apartamentos de 36 metros quadrados que estão sendo pagos em 20 e 30 anos com taxas de juros de 12% e até de 16%.”

E, no entanto, os grandes shoppings como o Costanera Center estão sempre lotados. “Porque as pessoas curam suas depressões no shopping, fazem sua vida endividando-se. Porque todas essas desigualdades se disfarçam com um televisor de plasma. Mas um shopping não pode ser preenchido com um país inteiro. Há milhões de pessoas que só tratam de sobreviver, de chegar ao fim do mês.”

Além de todas as promessas firmadas, a nova presidente terá de ir pagando outra antiga dívida com seu próprio gênero. Apesar de ter no segundo turno duas candidatas presidenciais mulheres, o Chile é um dos países com maios discriminação trabalhista por questão de sexo. AS mulheres recebem 30% menos que os homens. A organização Comunidade Mulher garante que só 3% dos diretores de empresa no Chile São mulheres. Restam quatro anos pela frente. E muito trabalha por fazer.

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– Michelle Bachelet durante a votação. / J. SAENZ (AP)

O general ignorante e o silêncio geral – por luiz claudio cunha / brasilia.df

JANGO E A HISTÓRIA

O general ignorante e o silêncio geral

Por Luiz Cláudio Cunha em 12/12/2013 na edição 776

 

No feérico firmamento da insensatez nacional, a frase mais boçal dos últimos tempos coube a um general de quatro estrelas. No limite da irresponsabilidade, na fronteira da grosseria, no limiar da insubordinação, o general Carlos Bolívar Goellner, 63 anos, atravessou as cerimônias oficiais da semana passada em São Borja (RS) em homenagem ao ex-presidente João Goulart (1919-1976). Supremo comandante do Comando Militar do Sul (CMS), maior guarnição do Exército no país, o general intrometeu-se dando botinadas no enterro com honras militares prestadas a Jango, sepultado pela segunda vez em sua terra natal na mesma data – 6 de dezembro – em que morreu na Argentina, em 1976, ainda no exílio forçado a que o levou o golpe de 1964.

O repórter Carlos Rollsing, do jornal Zero Hora, que cobria a cerimônia, perguntou com argúcia à máxima autoridade que representava o Exército na cerimônia se a sua presença ali representava uma retratação histórica diante do presidente reverenciado. Para surpresa do repórter e de todos à sua volta, o comandante militar do Sul vestiu a esfarrapada farda de combate de meio século atrás e trovejou com inusitada deselegância:

– Nenhuma retratação. Nenhum erro histórico [a reparar]. A história não comete erros. A história é história – espumou o general Goellner.

Mais atento aos petardos da história que o general, o repórter lembrou que o primeiro sepultamento de Jango, em dezembro de 1976, foi realizado às pressas, para atender aos temores do regime militar. A passagem do carro funerário que atravessou a ponte que liga a cidade argentina de Paso de Los Libres à brasileira Uruguaiana, na fronteira, foi duramente negociada entre o coronel da guarnição local e o líder do oposicionista MDB da época, deputado estadual Pedro Simon, hoje senador. Seguindo ordens de Brasília procedentes do Palácio do Planalto de Geisel, o coronel determinara que o esquife de Jango fosse transportado em alta velocidade, para evitar a saudação popular à beira da estrada, e que o cortejo acelerado não parasse nem para reabastecer. Assim foi vencida, em menos de duas horas e meia, a distância de 190 km da rodovia RS-472 que liga Uruguaiana a São Borja, cidade natal e destino derradeiro do ex-presidente.

O repórter de Zero Hora lembrou ao general Goellner que, naquele ritmo acelerado, o primeiro sepultamento de Jango em 1976 não teve, como agora, as honras de chefe de Estado, já que a ditadura não permitiu nem o hasteamento a meio mastro da bandeira nacional. O general não se rendeu:

– Ele não foi enterrado como cidadão comum. Ele nunca deixou de ser presidente. Estamos prestando as honras regulamentares, nada mais do que isso. Não tem nenhuma outra ilação além disso, nem a favor nem contra – esclareceu o militar, com uma frieza glacial que destoava da cálida recepção da cidade ao seu presidente morto.

Rombudo, Goellner descartou a generosa hipótese levantada pelo repórter de que a presença do comandante, ali, poderia representar uma nova era de compreensão histórica para a corporação.

– As instituições não mudam na História. Não há nenhuma modificação em relação ao Exército – resistiu bravamente o general, com os dois coturnos solidamente plantados na intransigência e no imobilismo. O apagão temporal de Goellner impediu que ele recordasse o gesto eloquente de um mês antes, que prova a dramática e inspiradora mudança experimentada pelas Forças Armadas brasileiras, o Exército incluído, com o advento da democracia revogada pelos militares com a deposição de Jango. Em 14 de novembro, Jango voltou a Brasília, de onde fora escorraçado pelas armas em 1964, recebendo as tardias honras militares na presença de três ex-presidentes da República (Lula, Sarney e Collor) e da atual, Dilma Rousseff, uma ex-guerrilheira que pegou em armas contra a ditadura e foi por ela presa e torturada. Na terceira fila de cadeiras reservadas às autoridades no hangar da Base Aérea de Brasília sentaram-se lado a lado os três comandantes militares – o brigadeiro Juniti Saito, o almirante Júlio Soares de Moura Neto e o general Enzo Martins Peri, subordinado de Dilma e chefe de Goellner.

Na segunda fila, na cadeira logo à frente do general, estava sentado o seu colega de ministério, Fernando Pimentel, titular da pasta do Desenvolvimento, Indústria e Comércio. No início da década de 1970, o Exército que Peri hoje comanda prendeu e torturou Pimentel, um jovem de 19 anos que militou sucessivamente nos grupos de ação armada Colina, VPR e VAR-Palmares, onde lutava ao lado da guerrilheira Dilma Rousseff, atual comandante-em-chefe das Forças Armadas. Nessa condição, todos os generais da democracia – incluindo Peri e Goellner – batem agora continência para a atual presidente da República, por dever constitucional e subordinação aos rígidos regimentos militares. Se o obtuso comandante militar do Sul ignora tudo isso como uma saudável modificação do Exército é porque não entende o que é História e não compreende o que é sua própria corporação.

Manda e obedece

Em São Borja, em dezembro, o general Goellner, distribuiu grosserias. Um mês antes, em Brasília, Dilma, sua comandante-em-chefe, colocou flores sobre o caixão de Jango, ao lado da viúva, Maria Teresa, num ato de emoção e elegância que resume as mudanças históricas que os antolhos do comandante do Sul não conseguem perceber, após tanto tempo. Bastaria prestar atenção às três mensagens eloquentes que a antenada Dilma transmitiu pelo Twitter, momentos antes de receber os restos de Jango em Brasília: “Uma democracia que se consolida com este gesto histórico. Essa cerimônia que o Estado brasileiro promove hoje com a memória de João Goulart é uma afirmação da nossa democracia. Este é um gesto do Estado brasileiro para homenagear o ex-presidente João Goulart e sua memória”, lembrou a presidente.

Ainda em São Borja, a fala mal-educada do general foi contestada por quatro políticos civis, procurados imediatamente pelo atento repórter de Zero Hora. Autores da resolução do Congresso que há duas semanas anulou a farsa parlamentar de abril de 1964, declarando vaga a presidência quando Jango ainda estava em Porto Alegre, os senadores Randolfe Rodrigues (PSOL-AP) e Pedro Simon (PMDB-RS) sacaram da ironia. “O que se faz aqui é a correção de um grave erro histórico. A História é um trem alegre que atropela todo aquele que a negue”, disparou Randolfe. “Faz bem o comandante em dizer isso. Ele acerta em citar o regulamento. A presidente manda e ele obedece”, reforçou Simon, falando ao lado do general, que ouviu tudo e não disse nada.

O ex-presidente da Câmara dos Deputados, Ibsen Pinheiro, nascido em São Borja como Jango, foi ainda mais ferino: “Acho muito bom quando os militares falam só sobre regimento. Fez muito bem o comandante, cujo nome eu não sei. Militar é para falar sobre regulamento, regimento, essas coisas. Política é para o povo falar e para os líderes políticos. Do ponto de vista do regimento, é um ato formal. Do ponto de vista do Brasil, é um grande acontecimento, cívico e emotivo”.

A ministra dos Direitos Humanos, Maria do Rosário, que ali representava a Presidência da República, insinuou uma transgressão disciplinar, a ser considerada pelos comandantes do general: “Os militares respondem, pela hierarquia, a seus superiores. Certamente, as declarações dessa pessoa, pelas funções importantes que exerce, deverão ser analisadas pelos seus superiores”.

Foi eloquente a troca de guarda nas homenagens de Brasília e de São Borja. Na capital, pelotões de honra das três Forças Armadas – Exército, Marinha e Aeronáutica – prestaram honras de chefe de Estado a Jango, na presença de seus comandantes e da presidente Dilma Rousseff. Na cidade natal de Jango, cerraram fileiras nas homenagens ao ex-presidente só os soldados da Brigada Militar, a força pública estadual, com uma tropa de 25 mil efetivos, a metade da guarnição militar do Sul comandada por Goellner.

Apesar da presença do general, o Exército manteve-se ostensivamente ausente e distante em São Borja. O silêncio mais eloquente, porém, foi o da imprensa brasileira, que não repercutiu a áspera declaração do general. Nenhum grande veículo de Rio e São Paulo, nenhuma rede de TV, nenhum portal na internet, nenhum editorial, nenhum blog sujinho ou limpinho deu importância ao que disse Goellner, que não é um militar qualquer.

Gaúcho como Jango, mas nascido em Santa Maria, Goellner comanda a maior concentração de tropas do Exército brasileiro, mais de 50 mil homens, um quarto do efetivo total do país. No Comando Militar do Sul, antes conhecido como III Exército, Goellner chefia 18 oficiais-generais, 160 organizações militares, 20 Tiros de Guerra, 100% da artilharia autopropulsada, 75% da artilharia geral e 90% dos 1.645 tanques de guerra de toda a força terrestre brasileira – incluindo os blindados alemães Leopard, os americanos Patton e M-113 e os brasileiros Urutu e Cascavel.

General na gangorra

A silente imprensa brasileira perdeu a chance de contar que o palavroso Goellner é muito mais do que o general com maior poder de fogo do Exército brasileiro. Ele também é, ou era, uma estrela em ascensão no opaco firmamento militar. Até o desastrado bombardeio verbal de São Borja, Goellner era cotado como o provável sucessor de Enzo Peri no Comando do Exército. Os antecedentes até recomendavam o seu nome. Goellner, nome recentíssimo no Alto Comando do Exército, ganhou sua quarta estrela em março de 2011, concedida justamente por Dilma em sua primeira promoção de generais, três meses após assumir a presidência.

Goellner formou-se cadete em Campinas, ingressando no Exército em 1967, três anos após o golpe, e tornou-se aspirante a oficial da Infantaria pela Academia Militar de Agulhas Negras em dezembro de 1972, quando o general Médici cuspia ferro e fogo na fase mais sangrenta da ditadura. Até pela tenra idade, Goellner passou incólume pelos porões da repressão e pelos horrores da ditadura que começou com a deposição de Jango, que o general ainda hoje não considera um “erro histórico”, passível de qualquer retratação.

O surto de amnésia do general impediu que ele lembrasse episódios marcantes que comprovam clamorosos erros da História – que até as O Globo assumiu, em setembro passado, ao expressar um inesperado mea culpa pelo equivocado apoio ao golpe militar de 1964. O distraído Goellner erra ao dizer que a História, como construção coletiva do homem, não comete erros. A humanidade acerta o passo, e o general deveria fazer o mesmo, quando reconhece erros brutais que ainda hoje envergonham o mundo civilizado. Erros que gritam na consciência de todos, como a escravidão (abolida só no final do século 19 no Brasil, o último país escravocrata do mundo), a exploração colonialista, a nada santa Inquisição da igreja católica, o nazifascismo, a morte em escala industrial do Holocausto, os conflitos regionais, as duas guerras mundiais, os horrores dos gulags do stalinismo, a segregação do apartheid na África e nos Estados Unidos, a perseguição do macarthismo, a truculência das ditaduras do Cone Sul, a repressão coordenada da Operação Condor, a tortura e a censura – alguns desses erros, para espanto do general, cometidos com a efetiva participação de militares do Exército brasileiro, para horror de Goellner.

O próprio Exército de Goellner errou e acertou, na gangorra da História. Sustentou a ditadura do Estado Novo getulista, flertou com o III Reich que embevecia o ministro da Guerra (Eurico Gaspar Dutra) e o chefe do Estado-Maior do Exército (Góis Monteiro) de Getúlio Vargas, cerrou fileiras com os Aliados na jornada italiana da FEB na guerra contra o nazifascismo, impediu a quartelada de 1955 que tentava barrar a posse do presidente eleito Juscelino Kubitscheck. Até o III Exército que Goellner hoje comanda, com outro nome, teve seus altos e baixos. Acertou ao apoiar o povo gaúcho e o governador Leonel Brizola, em 1961, na Campanha da Legalidade em defesa do mandato de João Goulart. Errou, três anos depois, ao se engajar na conspiração golpista que derrubou o mesmo Jango cuja posse tinha assegurado. Fica provado, assim, que a História comete erros – e o general Goellner, também.

A fala desastrada no enterro de São Borja pode ter sepultado, de vez, as chances do general de chegar ao topo da carreira como comandante do Exército. Mas isso é pouco para a afronta praticada por Goellner, que passou batida pelo silêncio obsequioso a quem ele deve satisfação e subordinação. Ninguém em Brasília contestou o general – seja pela inoportunidade, seja pela grosseria, seja pelo imperdoável deslize histórico. Nem o comandante do Exército, general Enzo Peri, seu chefe imediato. Nem o ministro da Defesa, Celso Amorim, chefe dos dois. Nem a presidente Dilma Rousseff, chefe suprema dos três. Todos se calaram, talvez pela conveniência de engolir o desaforo para evitar maiores sobressaltos políticos, especialmente num período pré-eleitoral que não recomenda marolas, especialmente em torno dos quartéis.

O Palácio do Planalto pode ter desistido de puxar as orelhas do general, ostensivamente, para puxar discretamente o tapete de Goellner como futuro comandante da força terrestre. O chilique autoritário do general passou ileso, também, pelo crivo de instituições e entidades comprometidas com a defesa da verdade, dos direitos humanos e da democracia, como o Congresso Nacional, a OAB, a ABI, a Fenaj e até a Comissão Nacional da Verdade. Ninguém pareceu se incomodar com os disparates pronunciados em São Borja pelo comandante do sul.

Corações e mentes

O episódio envolvendo o general mais poderoso do Exército brasileiro, contudo, revelou a dificuldade que os militares brasileiros têm, em plena democracia, para digerir o passado e aceitar as circunstâncias ainda constrangedoras de uma ditadura distante que não exerceram, mas que protegem com um insensato sentimento corporativo. Goellner, um general de ficha limpa diante dos abusos do regime que ele viu nascer antes de completar 14 anos e que viu morrer aos 35, é mais um dos chefes militares entrincheirados na defesa incongruente de um regime de força carcomido pelo tempo e emparedado pela democracia. Os generais, antes apenas incomodados, agora se mostram ostensivamente irritados com a cobrança por verdade e justiça, como revela a irada reação do comandante militar do Sul.

Um exemplo gritante dessa hostilidade surgiu no início de dezembro, com um depoimento reservado de 92 minutos prestado em 12 de novembro à Comissão Nacional da Verdade (CNV), no Rio de Janeiro, pelo general de brigada (reserva) Álvaro de Souza Pinheiro, 69 anos, nascido em Cuiabá (MT) e veterano dos combates à Guerrilha do Araguaia, no início da década de 1970. O texto foi recuperado pelo experiente repórter Vasconcelos Quadros, do portal iG. Antes de depor, o general expôs seu compromisso, com uma elegância peculiar, numa mensagem distribuída aos “companheiros leais”, dizendo-se preparado:

“Preparado para dizer a estes comunistas de merda, em alto e bom tom, seguro e muito firme, que orgulho-me profundamente de ter integrando as Forças Especiais do Exército Brasileiro, participado decisivamente do combate contra a subversão e o terrorismo no Brasil. E, afirmar-lhes, olho no olho, que esta Comissão que, pela sua parcialidade, nada tem de Verdade; que ela é, verdadeiramente, da Infâmia, Calúnia e Difamação. Nesse contexto, não lhe reconheço nenhuma legitimidade para questionar-me em qualquer tema, razão pela qual nada mais terei a declarar.”

Embora desdenhando da CNV, o general Pinheiro admitiu que os guerrilheiros mortos na selva foram identificados e enterrados em locais conhecidos, mas se recusou a dar qualquer informação: “Não vou confirmar nada a comissão nenhuma. Nem o papa me obrigaria”, disse o general, escancarando o pacto de silêncio da caserna que está acima das questões de Estado. “ rindo. Não tenho nenhum interesse nisso. O que me interessa é que o Exército resolveu o problema grave de um foco terrorista num ambiente de selva”, respondeu, resumindo a dificuldade da Comissão da Verdade em resgatar o passado de violência da ditadura.

Quando entrou na mata para combater a guerrilha, Pinheiro era primeiro-tenente e lá combateu num total de 247 dias. Levou um tiro na clavícula, disparado pelo guerrilheiro Bergson Gurjão Faria, morto dias depois pela equipe de Pinheiro no Araguaia. Os restos de Bergson foram identificados em 2009.

À Comissão da Verdade, o general Pinheiro explicitou a posição contrária dos militares ao conhecimento da verdade: “Não falta radical tresloucado que queira acertar contas do passado. Mas não é qualquer vagabundo que vai me pegar, nem a investida de policiais do governo”, disse Pinheiro, no tom desafiador que lembra o general do Sul. A diferença é que o general Pinheiro esteve no Araguaia e tem o que esconder. O general Goellner, não.

É ilusão imaginar que Pinheiro seja peça de museu, escondido em casa e camuflado com o pijama e as pantufas confortáveis da reserva. O general está ativo, circulante e muito, muito ouvido. Em abril passado, deu instrução sobre “Operações de Informação” aos oficiais do 2º ano do curso de Comando e Estado-Maior (Ccem) na Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (Eceme), na Praia Vermelha, no Rio de Janeiro. É a escola que prepara os corações e mentes dos capitães e majores que, promovidos a coronéis, vão integrar os grandes comandos do país. Em maio, estava no Sul, na jurisdição do general Goellner, falando aos oficiais, subtenentes e sargentos do 19º Batalhão de Infantaria Motorizado de São Leopoldo, na Grande Porto Alegre, sobre “Operações contra Forças Irregulares e Terrorismo”.

Com o sucesso de público e crítica do general da reserva Pinheiro nos quartéis de um Brasil democrático há 28 anos, é mais fácil entender porque o general da ativa Goellner ainda acredita que a História não comete erros. Na página do batalhão de São Leopoldo, o general Pinheiro é apresentado como “um dos maiores especialistas em operações de combate ao terrorismo”.

Um ex-capitão do 1º Batalhão de Forças Especiais, Dalton Roberto de Melo Franco, contudo, apresenta uma nova faceta de Pinheiro, com quem serviu quando ele ainda era coronel, em 1989. No ano anterior, os metalúrgicos da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) iniciaram uma greve e ocuparam a usina no dia 7 de novembro. Dois dias depois, com autorização do presidente José Sarney, o Exército invadiu o local.

No tiroteio, morreram três operários e 46 ficaram feridos. Em 1989, no 1º de Maio, um memorial projetado por Oscar Niemeyer foi inaugurado na praça em homenagem aos três mortos.

Algumas horas depois, na madrugada do dia 2, uma bomba derrubou o monumento, que ficou tombado para frente, preso apenas pelo ferro da armação. Na ocasião, Niemeyer fez questão de reinaugurar o monumento mantendo as marcas da violência, apenas erguendo o que foi derrubado, na intenção de preservar o atentado para sempre na memória.

Dez anos depois, em março de 1999, o ex-capitão Dalton deu uma bombástica entrevista ao Jornal do Brasil,dizendo ter sido punido e expulso do Exército porque se recusou a participar do atentado contra o memorial. Ele disse ter integrado um grupo de oficiais das Forças Especiais infiltrado na CSN para vigiar os líderes da greve. O ex-capitão disse ao JB ter recebido uma ordem de seu chefe no destacamento, o então coronel Álvaro de Souza Pinheiro, para explodir o monumento. Dalton pediu a ordem por escrito e foi excluído da operação. “A dinamite foi dada pelos bicheiros do Rio e tirada de pedreiras da Baixada Fluminense. Eles ajudaram a montar um paiol com munição que depois seria usada em várias operações irregulares”, disse o capitão Dalton ao Jornal do Brasil.

O ex-coronel Pinheiro, hoje general, agora ri porque o Exército resolveu “o problema grave de um foco terrorista num ambiente de selva”. Sobre os focos urbanos em Volta Redonda, ele nada fala, até porque o silêncio é um dogma quase divino. Pinheiro, acintoso, avisa que não confirmará nada a nenhuma comissão, nem que o papa obrigue. Goellner, presunçoso, continua acreditando que a História não comete erros.

Os dois generais, no Rio de Janeiro e em Porto Alegre, representam as duas faces do mesmo problema. Um não diz o que sabe. O outro não sabe o que diz.

Por omissão ou precipitação, um e outro acabam cometendo um erro continuado que recai sobre o Exército e frustra o país, cada vez menos paciente com a boçalidade, cada vez mais necessitado da verdade.

A agonia do colesterol – por drauzio varela – são paulo/sp

A agonia do colesterol

Drauzio Varella

Nunca me convenci de que essa obsessão para abaixar o colesterol às custas de remédio aumentasse a longevidade de pessoas saudáveis.

Essa crença –que fez das estatinas o maior sucesso comercial da história da medicina– tomou conta da cardiologia a partir de dois estudos observacionais: Seven Cities e Framingham, iniciados nos anos 1950.

Considerados tendenciosos por vários especialistas, o Seven Cities pretendeu demonstrar que os ataques cardíacos estariam ligados ao consumo de gordura animal, enquanto o Framingham concluiu que eles guardariam relação direta com o colesterol.

A partir dos anos 1980, o aparecimento das estatinas (drogas que reduzem os níveis de colesterol) abafou as vozes discordantes, e a classe médica foi tomada por um furor anticolesterol que contagiou a população. Hoje, todos se preocupam com os alimentos gordurosos e tratam com intimidade o “bom” (HDL) e o “mau” colesterol (LDL).

As diretrizes americanas publicadas em 2001 recomendavam manter o LDL abaixo de cem a qualquer preço. Ainda que fosse preciso quadruplicar a dose de estatina ou combiná-la com outras drogas, sem nenhuma evidência científica que justificasse tal conduta.

Apenas nos Estados Unidos, esse alvo absolutamente arbitrário fez o número de usuários de estatinas saltar de 13 milhões para 36 milhões. Nenhum estudo posterior, patrocinado ou não pela indústria, conseguiu demonstrar que essa estratégia fez cair a mortalidade por doença cardiovascular.

Cardiologistas radicais foram mais longe: o LDL deveria ser mantido abaixo de 70, alvo inacessível a mortais como você e eu. Seríamos tantos os candidatos ao tratamento, que sairia mais barato acrescentar estatina ao suprimento de água domiciliar, conforme sugeriu um eminente professor americano.

Pois bem. Depois de cinco anos de análises dos estudos mais recentes, a American Heart Association e a American College of Cardiology, entidades sem fins lucrativos, mas que recebem auxílios generosos da indústria farmacêutica, atualizaram as diretrizes de 2001.

Pasme, leitor de inteligência mediana como eu. Segundo elas, os níveis de colesterol não interessam mais.

Portanto, se seu LDL é alto não fique aflito para reduzi-lo: o risco de sofrer ataque cardíaco ou derrame cerebral não será modificado. Em português mais claro, esqueça tudo o que foi dito nos últimos 30 anos.

A indústria não sofrerá prejuízos, no entanto: as estatinas devem até ampliar sua participação no mercado. Agora serão prescritas para a multidão daqueles com mais de 7,5% de chance de sofrer ataque cardíaco ou derrame cerebral nos dez anos seguintes, risco calculado a partir de uma fórmula nova que já recebe críticas dos especialistas.

Se reduzir os níveis de colesterol não confere proteção, por que insistir nas estatinas? Porque elas têm ações anti-inflamatórias e estabilizadoras das placas de aterosclerose, que podem dificultar o desprendimento de coágulos capazes de obstruir artérias menores.

O argumento é consistente, mas qual o custo-benefício?

Recém-publicado no “British Medical Journal”, um artigo baseado nos mesmos estudos avaliados pelas diretrizes mostrou que naqueles com menos de 20% de risco em dez anos as estatinas não reduzem o número de mortes nem de eventos mais graves. Nesse grupo seria necessário tratar 140 pessoas para evitar um caso de infarto do miocárdio ou de derrame cerebral não fatais.

Ou seja, 139 tomarão inutilmente medicamentos caros que em até 20% dos casos podem provocar dores musculares, problemas gastrointestinais, distúrbios de sono e de memória e disfunção erétil.

A indicação de estatina no diabetes e para quem já sofreu ataque cardíaco, por enquanto, resiste às críticas.

Se você, leitor com boa saúde, toma remédio para o colesterol, converse com seu médico, mas esteja certo de que ele conhece a literatura e leu com espírito crítico as 32 páginas das novas diretrizes citadas nesta coluna.

Preste atenção: mais de 80% dos ataques cardíacos ocorrem por conta do cigarro, vida sedentária, obesidade, pressão alta e diabetes. Imaginar ser possível evitá-los sentado na poltrona, às custas de uma pílula para abaixar o colesterol, é pensamento mágico.

drauzio varellaDrauzio Varella é médico cancerologista. Por 20 anos dirigiu o serviço de Imunologia do Hospital do Câncer. Foi um dos pioneiros no tratamento da Aids no Brasil e do trabalho em presídios, ao qual se dedica ainda hoje. É autor do livro “Estação Carandiru” (Companhia das Letras). Escreve aos sábados, a cada duas semanas, na versão impressa de “Ilustrada”.

Os 10% mais ricos concentram 42% da renda no país, indica IBGE

Por Diogo Martins | Valor

Marcelo Camargo/ABr

RIO  –  Os 10% mais pobres da população brasileira detinham apenas 1,1% da renda total do país, ao passo que os 10% mais ricos possuíam 41,9% do rendimento nacional em 2012. É o que aponta a Síntese de Indicadores Sociais (SIS), divulgada nesta sexta-feira pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Com base em dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) 2012, a SIS apurou que, entre 2004 e 2012, houve melhora na distribuição de renda no período, “mas não suficiente para alterar substancialmente o quadro de desigualdades de renda do país”. Em 2004, a disparidade era maior, com os 10% mais ricos concentrando 45,3% da renda do país e os 10% mais pobres com apenas 0,9%. Na escala mais alta, entretanto, nada mudou. Em 2004, 13% da renda do país estava na mão do 1% mais rico. Em 2012, essa parcela da população detinha 12,9% da renda. A apropriação de renda pelas camadas mais pobres “permanece extremamente desigual”, afirmam os especialistas do IBGE no estudo.

Segundo o levantamento, considerando o rendimento mensal familiar per capita, no grupo que agrega a população 10% mais pobre estão 14,1% do contingente de pretos e pardos e 5,3% dos brancos.

As posições se invertem quando se trata do grupo formado pelos 10% dos brasileiros mais ricos, onde estão 15,9% da população branca e 4,8% dos pardos.

O Índice de Gini – indicador utilizado para mensurar a desigualdade de rendimentos e que varia de zero a um, sendo “um” o valor de máxima desigualdade – ficou em 0,507 no país em 2012. O índice não apresentou variação frente a 2011, mas ficou mais baixo que o 0,556 de 2004. Assim, o índice mostra leve redução da desigualdade.

A SIS também observou que 6,4% das famílias tinham até um quarto de salário mínimo per capita de rendimento familiar. Já 14,6% das famílias estavam na faixa de um quarto a meio salário mínimo per capita.

Em dez anos aumentou a participação das transferências de renda governamentais – chamadas de outras fontes – nos rendimentos dos mais pobres. Entre 2002 e 2012, a participação do rendimento de outras fontes no total de rendimento para o grupo de até um quarto de salário mínimo passou de 14,3% para 36,3%, enquanto para as famílias com rendimento per capita de mais de um quarto a meio salário mínimo per capita passou de 6,5% para 12,9%.

 

Shopping Vitória: corpos negros no lugar errado – por douglas belchior / vitória-es

jovens-no-chão-presos-em-Vitória

Sábado, 30 de novembro, fim de tarde. Várias viaturas da Polícia Militar, Rotam e Batalhão de Missões Especiais cercaram o Shopping Vitória, na Enseada do Suá, no Espírito Santo. Missão: proteger lojistas e consumidores ameaçados por uma gente preta, pobre e funkeira que, “soube-se depois”, não ocuparam o shopping para consumir ou saquear, mas para se proteger da violência da tropa da PM que acabara de encerrar a força o baile Funk que acontecia no Pier ao lado.

Amedrontados, lojistas e consumidores chamaram a polícia e o que se viu foram cenas clássicas de racismo: Nenhum registro de violência, depredação ou qualquer tipo de crime.  Absolutamente nada além da presença física. Nada além do corpo negro, em quantidade e forma inaceitável para aquele lugar, território de gente branca, de fala contida, de roupa adequada.

E a fila indiana; e as mãos na cabeça; e o corpo sem roupa, como que a explicitar cicatrizes nas costas ou marcas de ferro-em-brasa, para que assim não se questione a captura.

A narrativa de Mirts Sants, ativista do movimento negro do Espírito Santos nos leva até a cena:

“Em Vitória, a Polícia Militar invadiu um pier onde estava sendo realizado um baile funk, alegando que estaria havendo briga entre grupos. Umas dezenas de jovens fugiram, amedrontados, e se refugiaram num shopping próximo. 

Foi a vez, entretanto, de os frequentadores do shopping entrarem em pânico, vendo seu ‘fetiche de segurança’ ameaçado por “indesejáveis, vestidos como num baile funk, de tez escura e fragilizando o limite das vitrines que separam os consumidores de seus desejos”. Resultado: chamaram a PM, acusando os jovens de quererem fazer um arrastão.

A Polícia chegou rapidamente e saiu prendendo todo e qualquer jovem que se enquadrasse no ‘padrão funk’. Fez com que descessem em fila indiana e depois os expôs à execração pública, sentados no chão com as mãos na cabeça. E isso tudo apesar de negar que tenha havido qualquer arrastão, “exceto na versão alarmista dos frequentadores”.

Se chegou a haver algo parecido com uma tentativa de ‘arrastão’ ao que parece é impossível saber. Para alguns dentre os presentes, a negativa da PM teve como motivo “preservar a reputação do shopping como templo de segurança”. Se assim foi, a foto acima, com os jovens sentados no chão sob vigilância, e o vídeo abaixo, mostrando-os sendo forçados a descer em fila indiana sob a mira da Polícia, se tornam ainda mais graves como exemplos de arbítrio, violência e desrespeito aos direitos humanos.  E isso só se torna pior quando acontece ainda sob os aplausos dos ‘consumidores’…”

JANGO: Hoje voltamos todos a Brasília. Veja fotos deste dia histórico

Hoje voltamos todos a Brasília. Veja fotos deste dia histórico

Flávio Aguiar

Rede Brasil Atual – RBA

Hoje voltamos todos a Brasília

Com os despojos do nosso eterno presidente

Seremos recebidos todos com as honras e as cicatrizes de um futuro que não houve

E de um passado que não passa

Hoje voltamos todos a Brasília

Para cantarmos tudo o que não cantamos

Arrebanhar as almas penadas que ficaram dentro de nós

A dos que se foram antes do tempo

E a nossa que aos pedaços com eles também se foi

Hoje voltamos todos a Brasília

Levamos em nossos olhos

Os olhares dos que ficaram para trás

Mas deixaram suas marcas em nossas retinas

E levamos junto os olhos de nossos filhos, de nossos netos

Com a esperança de que eles não vejam o que vimos

O futuro ser roubado de gerações inteiras

Hoje voltamos todos a Brasília

Com o peso do que perdemos no coração

E as asas

E as asas

E as asas

Batendo nas vidraças

Passando pelas grades

Ruflando na escuridão

Entre as estrelas

Leia também: João Goulart recebe honras de chefe de Estado nesta quinta

Veja as fotografias de Marcello Casal Jr., da Agência Brasil, e de Roberto Stuckert Filho, da Presidência da República, da solenidade que recebeu os restos mortais do presidente João Goulart .

 | Foto: Marcello Casal Jr./ABr

| Foto: Marcello Casal Jr./ABr

 | Foto: Marcello Casal Jr./ABr

| Foto: Marcello Casal Jr./ABr

 | Foto: Roberto Stuckert Filho/PR

| Foto: Roberto Stuckert Filho/PR

 | Foto: Marcello Casal Jr./ABr

| Foto: Marcello Casal Jr./ABr

 | Foto: Marcello Casal Jr./ABr

| Foto: Marcello Casal Jr./ABr

 | Foto: Roberto Stuckert Filho/PR

| Foto: Roberto Stuckert Filho/PR

 | Foto: Marcello Casal Jr./ABr

| Foto: Marcello Casal Jr./ABr

 | Foto: Roberto Stuckert Filho/PR

| Foto: Roberto Stuckert Filho/PR

 | Foto: Roberto Stuckert Filho/PR

| Foto: Roberto Stuckert Filho/PR

GENTILEZA GERA GENTILEZA – por paulo timm / torres.rs

                                                                                                                                                              .Paulo Timm – Torres Nov 14 -dia da gentileza

Gentileza: uma atitude nobre.

Nobre…? Por que? Como assim? Por que não popular…? Não seria “politicamente mais correto”?

Talvez fosse. Mas a história registra a origem da Ética, como disciplina, no âmbito da Filosofia, nos códigos de honra da aristocracia PAULO TIMMgrega nos campos de batalha. Havia, até, uma palavra que os continha:Aretê. Devemos lembrar, também, que na origem mesmo da Filosofia, com Sócrates, quem aliás era um bravo guerreiro, a sabedoria era o meio do homem livrar-se do medo. E esta era, também, um predicado da nobreza, numa sociedade na qual nascia a democracia, maculada, porém pela escravidão e pela discriminação às mulheres e estrangeiros. Uma democracia, no fundo, oligárquica. E que condenou o Pai da Filosofia à cicuta sob a alegação de que pervertia a juventude com idéias subversivas. Ele tentava explicar a origem das coisas pelas próprias coisas e não pelos oráculos. Aquele que sabe, enfim, faz a hora, descobre seu desejo e se liberta do próprio destino. Mas não basta saber. Há que fazê-lo segundo as imposições morais e legais do convívio social. Aí entram as boas maneiras , o respeito às tradições, a coragem na guerra, o reconhecimento do outro como digno de atenção e consideração. À falta de jeito, diz-se, falece a melhor razão. Vai-se a civilização.

Eis, pois,  o fundamento da gentileza: o cuidado com o outro, numa troca de atitudes que escapam à brutalidade da guerra pela sobrevivência de todos contra todos, crescentemente dominada pela mercantilização das relação humanas e seus produtos. Gentileza não custa nada, tal como civilidade e urbanidade. E se expressa por palavrinhas e comportamentos mágicos:

– Bom Dia!

– Desculpe!

– Por favor!

– Ladies first!

Como lembra Eliane Brum:

“Acho que ser gentil não é nada prosaico, é um ato de resistência diante de uma vida determinada por valores calculáveis: só faço tal coisa se ganhar algo em troca, seja dinheiro ou um dos muitos pequenos poderes ou um ponto a mais com quem manda.”

 

O assunto veio à tona na semana que passou, quando, no dia 13 se celebrou mundialmente o Dia da Gentileza. No Brasil também a celebramos no dia 29 de maio, em homenagem à um personagem popular do Rio de Janeiro, falecido aos 79 anos em 1996 – Profeta Gentileza – que se celebrou por se ter tornado um missionário da causa. Abandonou família, empresa e a vida e transformou 56 pilares de um viaduto daquela cidade em templo da gentileza. Vestia-se no rigor bíblico, portava grandes cartazes, escrevia frases que acabaram inspirando diversos artistas e personalidades brasileiras. Uma delas está no título desta crômica: “Gentileza gera gentileza”. Tinha razão o Profeta, que na sua visionária missão, transformou-se em verdadeiro patrimônio da cultura popular. Ele internalizou a nobreza do gesto como uma imposição da convivência humana.

Não basta, pois, cumprir a Lei numa sociedade organizada. Há que se tecer, em torno dela, um novelo de atitudes amorosas que nos fazem mais felizes. E isto não é sintoma de fraqueza, mas de humanidade. E se alguém lhe opuser um comportamento insípido, ríspido, ou autoritário, muito próprio dos Governos não morra, por uma questão de gentileza. Responda-lhe, apenas:

– Com licença, eu vou à luta!

O derretimento da Antártida está revelando pirâmides

O derretimento da Antártida está revelando pirâmides

Antártida pirámides

Três pirâmides antigas foram descobertas na Antártida, por uma equipe de cientistas americanos e europeus. Duas foram descobertas cerca de 16 milhas para o interior, enquanto a terceira muito perto da costa.
Os primeiros relatórios sobre as pirâmides apareceram na mídia ocidental no ano passado. Algumas fotos foram publicadas em alguns sites com um comentário de que as estruturas estranhas poderiam servir como prova de que o continente coberto de gelo costumava ser quente o suficiente para ter sido habitado por uma civilização.
Imagem aérea tomada através do gelo do Pólo Sul parece mostrar dois ou, possivelmente, três pirâmides em uma linha, em uma formação semelhante às pirâmides de Giza.
Até agora, pouco se sabe sobre as pirâmides e a equipe prefere manter silêncio sobre a descoberta. A única informação confiável, fornecida pelos cientistas, era de que eles estavam planejando uma expedição para as pirâmides e continuar a investigar e determinar, com certeza, se as estruturas eram artificiais ou naturais. Nenhum detalhe foi dado sobre o calendário da expedição.
Se os pesquisadores provarem que as pirâmides são estruturas feitas pelo homem, a descoberta poderá levar a uma revisão da história da humanidade
Enquanto isso, uma série de descobertas estranhas, mas interessantes, têm sido feitas, recentement,e na Antártida. Em 2009, cientistas encontraram partículas de pólen, o que poderia permitir afirmar que as palmeiras cresceram na Antártica e que as temperaturas do verão chegariam 21C. Três anos depois, em 2012, os cientistas do Instituto de Pesquisas do Deserto, em Nevada, identificaram 32 espécies de bactérias, em amostras de água, do Lago Vida na Antártida Oriental. Uma civilização que não aparece na nossa história.
Será possível afirmar que a Antártida já foi quente o suficiente, no passado recente, para ter permitido a existência de uma civilização que ali viveu? E ainda mais surpreendente é a questão de saber se os restos de uma cultura avançada e desenvolvida estarão estão enterrados sob o gelo.
Os estudiosos e egiptólogos já suspeitavam que a Esfinge é muito mais antiga do que o imaginado, possivelmente mais de 10.000 anos de idade. Os cientistas descobriram que a evidência de erosão hídrica na estátua antiga, a maior do mundo, tem uma história de mudanças climáticas a partir de uma floresta tropical ao calor do deserto em alguns milhares de anos. Se o clima no Egito mudou tão rapidamente, é igualmente possível que o clima da Antártida também poderia ter mudado drasticamente ao mesmo tempo?
De acordo com a teoria da correlação Robert Bauval e Adrian Gilbert, a construção das pirâmides de Gizé foi realizada em um período anterior entre 12,500 ano 10.500 AC, motivando, esta retroactividade um, correlação entre a localização das três principais pirâmides na Necrópole de Gizé e as três estrelas da constelação de Órion, e que esta correlação foi intencionalmente criado por pessoas que construíram as pirâmides.
A referência à data de 12.500 anos atrás é significativa para Hancock, uma vez que a posição das pirâmides pode indicar o momento exato em que uma civilização avançada desapareceu devido a um cataclismo global.
Em seu livro As Pegadas dos Deuses, Graham Hancock encontrou as pistas levam a uma conclusão. De acordo com Hancock, as pirâmides foram construídas em todas as culturas ao redor do planeta e os seus monumentos contêm claras configurações astronômicas mais ou menos evidentes.
De antigos testemunhos de muitas comunidades – a Grande Esfinge do Egito, os misteriosos templos de Tiahuanaco, as linhas gigantes de Nazca, no Peru, as pirâmides maciças do Sol e da Lua no México – o estudo os comparou com os mitos e lendas universal e mapas que datam dos tempos antigos, sugere a existência de um povo com uma inteligência superior que possuia tecnologia sofisticada e conhecimento científico detalhado, cuja “pegada”, no entanto, foi completamente exterminada por um desastre de enormes proporções.
Cada cultura tem adorado os seus reis como deuses. Suas religiões foram todas destinadas a encontrar a imortalidade da alma e seus sacerdotes eram os astrônomos, com o conhecimento antecipado dos movimentos celestes. A cobra-réptil é uma figura simbólica que está presente em todas as culturas e é considerada sagrada.
Esta grande unidade cultural, de acordo com Hancock, sugere que a civilização humana não nasceu de uma saída repentina do nada, mas foi “ajudada” por alguém com conhecimento cultural e tecnologia avançada. A prova que sustenta esta teoria é a expansão da agricultura.
Descobriu-se que a agricultura nasceu, simultaneamente, em, pelo menos, seis regiões do mundo sem ligação aparente entre eles: América Central e do Sul, o Crescente Fértil, África Central, Leste da China e do Sudeste Asiático.
Em conclusão
Lemos com apreensão os relatórios do aquecimento global alertando que tanto o Ártico e a Antártida estão derretendo. Muitos poderão viver para ver o dia em que serão expostos em todo continente da Antártida, os artefatos dos antigos que viviam lá. Se houver uma pirâmide gigante, isto irá vai mudar o pensamento do mundo, definitivamente. Até o momento não conseguimos recriar as grandes pirâmides. Nós simplesmente não temos a tecnologia. Portanto, a questão é: quem, ou o quê, são que estas pirâmides na Antártida? O que eles deixaram para trás?
Veja o vídeo das pirâmides de Antarctica, transmissão RAI Itália:

MARINA SILVA, O ANJO CAÍDO

Marina Silva bajula a mídia amiga

Altamiro Borges

Marina Silva é só amores com os donos da mídia. Ela é tratada com todo o carinho pelos jornalões, revistonas e emissoras de tevê. Quase todo dia é destaque na velha imprensa. Isto talvez explique a defesa apaixonada que a ex-verde fez da atuação da mídia no país durante o programa Roda Viva, exibido pela TV Cultura nesta segunda-feira (21). “Não acho que deva ter controle porque uma das coisas que ajuda a própria democracia é a liberdade de expressão. Acho que a imprensa dá grande contribuição para várias questões, como na minha área [meio ambiente]”, afirmou a provável vice de Eduardo Campos na campanha presidencial de 2014.
Neste clima de amores, os barões da mídia tendem a reforçar ainda mais o coro para que ela dispute a sucessão pelo PSB – deixando na reserva o governador de Pernambuco. Mas não é só no debate sobre a regulação democrática da mídia – que ela maliciosamente chama de “controle” – que a ex-ministra tem agradado os empresários do setor. A cada dia que passa, Marina Silva explicita a sua completa cedência às teses neoliberais e sua fundamentalista adoração ao “deus-mercado”. No programa Roda Vida, ela voltou a criticar o governo Dilma por ter abrandado o chamado tripé macroeconômico – dos juros elevados, austeridade fiscal e libertinagem cambial.

Mas o conservadorismo da ex-verde não se manifesta apenas na economia. Como ironiza José Carlos Ruy, no sítio Vermelho, no programa da TV Cultura “houve também o lado folclórico, quando ela tratou de homossexualismo, casamento gay, pesquisas com células-tronco, criacionismo… Ela reconheceu que as pessoas devem ter tratamento igual, mas ‘quando se fala em casamento, evoco o sacramento’. Nesta condição, ela não aceita o casamento gay, embora o admita como direito civil. A pérola veio quando falou sobre criacionismo. Não sou criacionista, disse. E declarou acreditar que Deus criou todas as coisas, inclusive a grande contribuição dada por Darwin”.

Para José Carlos Ruy, estudioso da história, “Marina Silva é a recente versão do que há de mais tradicional e conservador na política da classe dominante brasileira. A história tem exemplos desse tipo de ‘novo’; Jânio Quadros, há mais de cinquenta anos, surgiu como uma espécie de alternativa aos partidos e aos políticos; ele bateu de frente com o Congresso Nacional e renunciou melancolicamente sete meses depois de assumir a Presidência da República. Era em tudo parecido com Marina Silva. Na política, rejeitava os partidos e acusava o Congresso Nacional de chantageá-lo (Marina repetiu esse argumento no programa Jô Soares, dia 15, dizendo que Dilma é chantageada pelo Congresso!). Na economia, defendia o mesmo velho e fracassado programa conservador: contenção nos gastos públicos, pagamento de juros, enxugamento da máquina do Estado”.

“No ocaso da ditadura militar, outra versão ‘jovem’, ‘apolítica’ e economicamente conservadora surgiu na figura de Fernando Collor. Durou pouco”, lembra José Carlos Ruy. Isto também ajuda a explicar as juras de amor entre Marina Silva e os barões da mídia. Nos dois casos citados, os tais representantes do “novo” tiveram o apoio da chamada grande imprensa nas suas campanhas presidenciais contra candidatos mais à esquerda. Marina Silva bajula a mídia; e a mídia sabe, sempre, a quem bajular!

Gal. Amauri Kruel TRAIU JANGO POR 6 MALAS DE DÓLARES em 1964- quem afirma é o Major MOREIRA que presenciou a entrega

 

Major Moreira conta a João Vicente que Kruel aderiu ao Golpe uma hora e meia depois

 

 

João Vicente Goulart, filho de Jango, e Veronica Fialho gravaram em vídeo o depoimento do Major do Exército Erimá Pinheiro Moreira, que testemunhou como o Comandante do II Exército, em São Paulo, Amaury Kruel traiu Jango no Golpe de 1964, por seis malas cheias de dólares, em nota novinhas, sacadas de um banco americano.

Será o Citibank ?

O Boston ?

O Chase, que, no Brasil, operava de mano com a CIA – e a Editora Abril ?

Será o Banco da América, do udenista e Golpista de 64, Herbert Levy, que, depois, deu origem ao Itau-América ?

E o Itau, que, até hoje está onde sempre esteve …

Sempre se suspeitou que a traição de Kruel, amigo e compadre de Jango, tinha cheiro de suborno.

Kruel foi o Pinochet do Jango – por um punhado de dólares.

É o que demonstra esse depoimento histórico do Major Moreira.

Como se sabe, o Historialismo – não é História nem Jornalismo – brasileiro assegura que Jango caiu porque gostava de pernas – de moças e de cavalos.

E que o Golpe foi preventivo, já que Jango ia dar um Golpe.

O “Golpe” do Jango é o Grampo-sem-Áudio – I.

Como se sabe, o Historialismo assegura que Geisel e Golbery deram o Golpe para salvar a Democracia e, depois, resolveram recriá-la.

O depoimento do Major Moreira comprava o que, cada vez fica mais claro.

(Clique aqui para ler sobre o documentário “O Dossiê Jango” e aqui para ler sobre o documentário de Camilo Tavares.)

O papel dos dólares na queda de Jango.

A FIESP – a mesma do PIB da Tortura – foi o trem pagador.

Um desses notáveis historialistas, colonista (*) da Folha (**) e do Globo Overseas, cita neste domingo editorial do New York Times – como se fosse a Bíblia – de 3 de abril de 1964, onde Jango é tratado de “incompetente”e “irresponsável”.

Uma dos indícios da “incompetência” do New York Times, por exemplo, é a cobertura que faz do Brasil.

Parcial, partidária, superficial e pigal (***).

Foi o jornal que disse que o Lula não podia governar porque era um alcoólatra.

O mesmo que assegurou que havia “armas de destruição em massa” no Iraque.

Eis o video com a entrevista, que também será postada no site do Instituto João Goulart:

 

O Conversa Afiada reproduz artigo de Mário Augusto Jakobskind sobre o depoimento:

 

QUANDO DÓLARES FALAM MAIS ALTO

Engana-se quem pensa que já se conhecem todos os fatos relacionados com o golpe civil militar de 1964 que derrubou o Presidente constitucional João Goulart. Nos últimos meses, graças ao trabalho das Comissões da Verdade, sejam estaduais ou a Nacional, muito fato novo vem sendo divulgado.

Mas um fato desta semana, protagonizado por João Vicente Goulart, ao ouvir uma denúncia do então Major do Exército Erimá Pinheiro Moreira, poderá mudar o entendimento de muita gente sobre a ocorrência  mais negativa da história recente brasileira. O alerta tem endereço certo, ou seja, aqueles que ainda imaginam terem os golpistas civis e militares agido por idealismo ou algo do gênero.

O Major farmacêutico em questão, hoje anistiado como Coronel, servia em São Paulo em 31 de março de 1964 sob as ordens do então comandante II Exército, General Amaury Kruel (foto).  Na manhã daquele dia, Kruel dizia em alto e bom som que resistiria aos golpistas, mas em pouco tempo mudou de posição. E qual foi o motivo de o general, que era amigo do Presidente Jango Goulart, ter mudado de posição assim tão de repente, não mais que de repente?

Mineiro de Alvinópolis, Erimá Moreira, hoje com 94 anos, e há muito com o fato ocorrido naquele dia trágico atravessado na garganta, decidiu contar em detalhes o que aconteceu. O militar, que era também proprietário de um laboratório farmacêutico e posteriormente convidado a assumir a direção de um hospital, foi procurado por Kruel no hospital. Naquele encontro, o general garantiu ao major que Jango não seria derrubado e que o II Exército garantiria a vida do Presidente da República.

Pois bem, as 2 da tarde Erimá foi procurado por um emissário de Kruel de nome Ascoli de Oliveira dizendo que o general queria se reunir com um pessoal fora das dependências do II Exército. Erimá indicou então o espaço do laboratório localizado na esquina da Avenida Aclimação, local que hoje é a sede de uma escola particular de São Paulo. Pouco tempo depois apareceu o próprio comandante do II Exército, que antes de se dirigir a uma sala onde receberia os visitantes pediu ao então major que aguardasse a chegada do grupo.

Erimá Moreira ficou aguardando até que apareceram quatro pessoas, um deles o presidente interino da Federação das Indústrias de São Paulo (FIESP), de nome Raphael de Souza Noschese, este já conhecido do major. Três dos visitantes carregavam duas maletas grandes cada um. Erimá, por questão de segurança, porque temia que pudessem estar carregando explosivos ou armas, mandou abrir as maletas e viu uma grande quantidade de notas de dólares. Terminada a reunião foi pedida que a equipe do major levasse as maletas até o porta-malas do carro de Amaury Kruel, o que foi feito.

De manhã cedo, por volta das 6,30 da manhã, Erimá Moreira conta que mais ou menos uma hora e meia depois da chegada no laboratório ligou o rádio de pilha para ouvir o discurso do comandante do II Exército. Moreira disse que levou um susto quando ouviu Kruel dizer que se “o Presidente da República não demitisse os comunistas do governo ficaria ao lado da “revolução”.

Erimá Moreira então associou o que tinha acontecido no dia anterior com a mudança de postura do Kruel e falou para si mesmo: “pelo amor de Deus será que ajudei o Kruel a derrubar o Presidente da República?”

Ainda ouvindo o discurso de Kruel, conta Erimá, chegaram uns praças para avisar que tinha uma reunião marcada com o general no QG do II Exército.

Na reunião, vários militares, alguns comandantes de unidades, eram perguntados se apoiavam Kruel. “Eu não aceitei e pedi para ser transferido”.

Indignado, Erimá Moreira dirigiu-se a um coronel do staff do comandante do II Exército para perguntar se o general Kruel não tinha recebido todo aquele dinheiro para garantir a vida do Presidente. “Me transfiram daqui, que com o Kruel no comando eu não fico”.

“Aí então – prossegue Erimá Moreira – me colocaram de férias para eu esfriar a cabeça. Na volta das férias, depois de um mês, fiquei sabendo pelo jornal que o Kruel havia me cassado”.

A partir de então o Major e a família passaram maus momentos com os vizinhos dizendo à minha mulher que era casada com um comunista. “Naquela época, quem fosse preso ou cassado era considerado comunista”.

“Algum tempo depois contei esta história que estou contando agora ao General Carlos Luis Guedes, meu amigo desde quando servimos em unidades militares em São João del Rey. Fiz um relatório por escrito e com firma reconhecida. O General Guedes tirou xerox e levou o relato para a mesa do Kruel. Em menos de 24 horas o Kruel pediu para ira para a Reserva. Fiquei sabendo que com o milhão de dólares que recebeu do governo dos Estados Unidos comprou duas fazendas na Bahia”.

Ao finalizar o relato, o hoje Coronel Erimá Moreira mostrou-se aliviado e ao ser perguntado se autorizava a divulgação desse depoimento, ele respondeu que “não tinha problema nenhum”.

Nesse sentido, sugerimos aos editores de todas as mídias que procurem o Coronel Erimá Pinheiro Moreira para ouvir dele próprio o que foi contado neste espaço. Sugerimos em especial aos editores de O Globo, periódico que recentemente fez uma autocrítica por ter apoiado o golpe de 64, que elaborem matéria com o militar que reside em São Paulo.

DILMA ROUSSEFF – artigo no jornal Estado de São Paulo

Dilma 3
A História recente do Brasil pode ser contada em uma única frase: “Todo poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos da Constituição”. Sintética como um poema haicai, ampla como um sonho, o artigo 1.º, parágrafo 1.º, da nossa Constituição carrega em si séculos de lutas por um país mais democrático, justo e de oportunidades para todos.
A Constituição que expressa a submissão à vontade do povo em sua primeira frase nasceu 25 anos atrás em um dos momentos mais vibrantes da nossa história. Discussões reprimidas por décadas de autoritarismo e violência do Estado afloraram em dois anos de uma Constituinte multifacetária, igual a da nossa sociedade.
Hoje é comum ouvir a crítica de que nossa Constituição é por demais detalhista, mas esse exagero é explicado pelas circunstâncias. Saímos de um momento de represamento das liberdades individuais para um momento único no qual todos os setores da sociedade se empenharam em debater o que se tornaria lei na nossa Carta Magna. Graças ao trabalho de homens e mulheres dignos, gigantes como Ulysses Guimarães, a Constituição foi fruto de um pacto político de inúmeras forças. O texto final é o mais avançado em termos de direitos sociais e de liberdades individuais da nossa história.
É uma Constituição ambiciosa em direitos e deveres. E nessa justa ambição reside a sua perenidade. Assim como os meus antecessores e, tenho certeza, assim como os meus sucessores, considero a Carta de 1988 um guia que aponta a direção para onde o País deve seguir. Um roteiro para um Brasil mais inclusivo, mais democrático e mais desenvolvido.
Programas de inclusão como o Brasil Sem Miséria/Bolsa Família, de afirmação como o ProUni, de universalização como o Luz e o Água para Todos e de melhoria dos serviços de saúde como o Mais Médicos têm suas sementes no artigo 3.º dos Princípios Fundamentais: “Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil: Erradicar a pobreza e a marginalização; reduzir as desigualdades sociais e regionais e promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação”.
E o Pacto Nacional pela Alfabetização na Idade Certa e o Pronatec são programas que almejam cumprir o princípio constitucional de que a educação é “direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho”.
Os programas de inclusão social, o Sistema Único de Saúde, a liberdade de imprensa, a impessoalidade do serviço público são todas conquistas de 1988. Pela primeira vez na história o meio ambiente ganhou um capítulo específico, no qual o poder público e a coletividade receberam “o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações”.
Em seu histórico discurso na promulgação da Constituição, Ulysses Guimarães disse que “esperamos a Constituição como o vigia espera a aurora”. Cada presidente pós-Constituição foi, a seu jeito, o guardião dessa aurora. Uma aurora de um país sedento por mais cidadania, mais democracia, mais inclusão social. Disse o doutor Ulysses no seu discurso: “A Nação deve mudar. A Nação vai mudar. A Constituição pretende ser a voz, a letra, a vontade política da sociedade rumo à mudança”. Uma mudança que construímos todos nós, brasileiras e brasileiros, todos os dias.
Artigo de Dilma Rousseff publicado no jornal Estado de São Paulo.
A História recente do Brasil pode ser contada em uma única frase: “Todo poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos da Constituição”. Sintética como um poema haicai, ampla como um sonho, o artigo 1.º, parágrafo 1.º, da nossa Constituição carrega em si séculos de lutas por um país mais democrático, justo e de oportunidades para todos.
A Constituição que expressa a submissão à vontade do povo em sua primeira frase nasceu 25 anos atrás em um dos momentos mais vibrantes da nossa história. Discussões reprimidas por décadas de autoritarismo e violência do Estado afloraram em dois anos de uma Constituinte multifacetária, igual a da nossa sociedade.
Hoje é comum ouvir a crítica de que nossa Constituição é por demais detalhista, mas esse exagero é explicado pelas circunstâncias. Saímos de um momento de represamento das liberdades individuais para um momento único no qual todos os setores da sociedade se empenharam em debater o que se tornaria lei na nossa Carta Magna. Graças ao trabalho de homens e mulheres dignos, gigantes como Ulysses Guimarães, a Constituição foi fruto de um pacto político de inúmeras forças. O texto final é o mais avançado em termos de direitos sociais e de liberdades individuais da nossa história.
É uma Constituição ambiciosa em direitos e deveres. E nessa justa ambição reside a sua perenidade. Assim como os meus antecessores e, tenho certeza, assim como os meus sucessores, considero a Carta de 1988 um guia que aponta a direção para onde o País deve seguir. Um roteiro para um Brasil mais inclusivo, mais democrático e mais desenvolvido.
Programas de inclusão como o Brasil Sem Miséria/Bolsa Família, de afirmação como o ProUni, de universalização como o Luz e o Água para Todos e de melhoria dos serviços de saúde como o Mais Médicos têm suas sementes no artigo 3.º dos Princípios Fundamentais: “Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil: Erradicar a pobreza e a marginalização; reduzir as desigualdades sociais e regionais e promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação”.
E o Pacto Nacional pela Alfabetização na Idade Certa e o Pronatec são programas que almejam cumprir o princípio constitucional de que a educação é “direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho”.
Os programas de inclusão social, o Sistema Único de Saúde, a liberdade de imprensa, a impessoalidade do serviço público são todas conquistas de 1988. Pela primeira vez na história o meio ambiente ganhou um capítulo específico, no qual o poder público e a coletividade receberam “o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações”.
Em seu histórico discurso na promulgação da Constituição, Ulysses Guimarães disse que “esperamos a Constituição como o vigia espera a aurora”. Cada presidente pós-Constituição foi, a seu jeito, o guardião dessa aurora. Uma aurora de um país sedento por mais cidadania, mais democracia, mais inclusão social. Disse o doutor Ulysses no seu discurso: “A Nação deve mudar. A Nação vai mudar. A Constituição pretende ser a voz, a letra, a vontade política da sociedade rumo à mudança”. Uma mudança que construímos todos nós, brasileiras e brasileiros, todos os dias.
Artigo de Dilma Rousseff publicado no jornal Estado de São Paulo.

Descolonização mental sul-americana – por cesar fonseca / são paulo.sp

Descolonização mental sul-americana
Dilma Rousseff deu o tom geral da fala mundial de agora em diante relativamente aos Estados Unidos, desbancando sua arrogância, sem limite, de viver bisbilhotando a vida dos outros, impunemente. O silêncio de Obama em não responder aos ataques dela representou confissão de culpa e incompetência de argumentos pois não se pode justificar o injustificável.

A força das palavras da titular do Planalto coloca em cena nova postura sul-americana diante dos Estados Unidos, que, em crise, não podem mais agir unilateralmente nas questões internacionais, obrigando-se a ouvirem os outros, a contragosto.

O bom da crise mundial é isso aí: a pompa e a prepotência são obrigadas a se renderem aos fatos emergentes de uma nova divisão internacional do trabalho que se ergue no rastro da fragilidade do dólar, colocado nas cordas pelo elevado endividamento do colosso americano, responsável por deixar o mercado financeiro com as barbas de molho quanto a um possível estouro das finanças de Tio Sam.

Completamente imbecil o comentário do senador Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE) sobre o discurso da presidenta Dilma Rousseff, na ONU, desancando o presidente Barack Obama.

O parlamentar pernambucano sentiu-se agredido pela enérgica crítica da titular do Planalto à espionagem imperialista americana sobre todos os povos, considerando a questão do ângulo da violação dos direitos humanos.

Vasconcelos considerou ridícula a manifestação dilmista, algo que, segundo ele, não engrandeceu o Brasil no cenário internacional.

Completamente enganado.

Tratou-se, evidentemente, do discurso brasileiro mais importante de todos os tempos naquela Casa, justamente, pela coragem, determinação e ousadia da política externa nacional.

A contundência da presidenta chamou a atenção do mundo.

Os dirigentes mundiais, salvo raras exceções, como Putin, da Rússia, haviam se acomodado a um estilo de tratamento na relação com Tio Sam de subordinação as suas ações, indubitavelmente, desrespeitosas, como se fossem algo normal, aceitável.

A humanidade, covardemente, acostumou, desde final da segunda guerra mundial, a reverenciar, com temor, a potência militar norte-americana, âncora do dólar como equivalente geral das trocas internacionais, empenhada em gerar senhoriagem aos cofres do tesouro dos Estados Unidos, em escala monumental, estabelecendo divisão internacional do trabalho, cujas consequências foram o estabelecimento de um imperialismo econômico sem limites.

Diante dessa força, o normal passou a ser a postura do medo respeitoso diante do qual a sujeição política vergonhosa ganhou ares de lei geral.

Não ser reverente aos mandos e desmandos de Tio Sam implicaria, sempre, em risco perigoso.

Os súditos, conforme essa lei do medo, tinham que abaixarem, ajoelharem, pedir benção ao rei.

Resta ao sobrinho de Tio Sam apenas a postura arrogante de insistir em olhar o mundo por cima, achando que os Estados Unidos são excepcionais, quando, na verdade, essa excepcionalidade se tornou expressão da vulgaridade política dada pelo poder do dinheiro que se esfumaça na grande crise capitalista em que os Estados Unidos se posicionam como o grande responsável por levar seus aliados ao fracasso econômico global. A fala de Obama na ONU foi a de um leão que nem ruge mais para assustar os incautos. Confirmação de uma decadência.

A democracia americana, sempre sintonizada nos interesses econômicos dos Estados Unidos, transformar-se-ia, no compasso do dólar todo poderoso, em senha para intervenções políticas capazes de estabelecer o certo e o errado do ponto de vista de Washington, sem maiores discussões.

A expansão da economia de guerra americana, da segunda metade do século 20 em diante, marcada pelos empréstimos internacionais às economias capitalistas periféricas, para abrirem espaço e oportunidades às empresas americanas de bens duráveis, que haviam, em 1929, entrado em crise nos Estados Unidos, sendo necessária seu transplante para a periferia, veio acompanhada de receitas fiscais e monetárias que deveriam ser fielmente cumpridas.

A terapia a ser seguida era dada de fora para dentro conforme as exigências capazes de promover a reprodução do capital de empréstimo norte-americano.

Repetia-se, no século 20, pelos Estados Unidos, com o dólar, a receita do século 19, imposta pela Inglaterra, com a libra.

De início, mediante dívida externa, as economias periféricas foram dinamizadas por esse capital de empréstimo.

Como, no entanto, o capital produz crônica insuficiência de demanda, no seu processo de acumulação, gerando super-riqueza, num polo, e super-pobreza, no polo oposto, os desequilíbrios decorrentes exigiriam, a seguir, renovações dos empréstimos a juros cada vez mais altos, configurando aquilo que Marx já havia dito, que a dívida externa é instrumento de dominação internacional.

As ordens de Washington, para todos, tinham e têm como pressuposto básico a obediência a essa determinação férrea do capitalismo sobreacumulador de riqueza, fixando, para os seus sócios, nas periferias capitalistas, as regras de dominação a serem cumpridas, rigidamente.

A colonização mental das elites, no comando do poder político, foi construída nessa linha de dominação, em termos peremptórios.

A democracia, nesse contexto, é uma aparência para sustentar a liberdade de exploração econômica colonialista.

As contradições do desenvolvimento desse modelo de dominação econômica, a partir de critérios fixados pelo império a serem seguidos pelas colônias, exigiriam o avanço dos aparatos técnicos de controle cada vez mais draconianos.

A espionagem, nesse contexto, utilizada pelos mecanismos sofisticados, dados pelos avanços científicos e tecnológicos, colocados a serviço da produção, da produtividade e da fiscalização, transformar-se-ia, no processo de dominação, algo, perfeitamente, natural.

Sua aceitação jamais poderia ser questionada.

Questionar esse status quo, que se estendeu como prática de vida, na relação entre o dominador e o dominado, no contexto das relações capitalistas, estabelecidas pelos interesses do primeiro sobre o segundo, representaria algo inimaginável.

No entanto, as bases dessa dominação imperialista, ancorada no desenvolvimento contraditório do capitalismo financeiro, essencialmente, especulativo, não seriam eternas, como foram se comprovando as crises de realização do capital.

Quanto mais ele foi se sobreacumulando, especulativamente, mais foi gerando tensões cujos desenlaces violentos, desestruturadores, deu no que deu: bolhas especulativas , explosivas, destrutivas, ao longo do pós guerra, colocando o império de saia cada vez mais justa.

Até que tudo explodiu, na crise de 2007-2008, repetindo, em proporções maiores, o que já havia acontecido no crash de 1929.

O político nordestino pernambucano que cuida de alimentar uma inveja irracional ao ex-presidente Lula e uma raiva incontida à presidenta Dilma raciocinou como as velhas representações da oligarquia nacional que jamais suportaram a possibilidade de os súditos contrariarem os donos da Casa Grande. Pensou pequeno demais ao se sentir agredido por ter Dilma desancado Obama de sua postura imperial, abusiva aos direitos humanos. Jarbas revelou as razões do porque a oposição brasileira tem sido tão medíocre e despreparada ao não perceber que a diplomacia brasileira marcou um dos seus maiores tentos no plano internacional. Uma vergonha o discurso dele no Senado de avaliação de Dilma na ONU. Tremendo decadente.

O poder econômico e militar norte-americano, na crise de 2007-2008, chegou aos seus limites e sua continuidade, por meio do exercício da especulação financeira, tornou-se insustentável, deixando a moeda norte-americana, sob déficits fiscais crescentes e insuportáveis, totalmente, vulnerável.

As guerras, tão necessárias à reprodução do capitalismo americano, não são mais solução, pois passaram a dividir a sociedade americana, como se vê, no momento, o racha entre os dois principais partidos norte-americanos, a propósito do que fazer com o colossal endividamento dos Estados Unidos, que ameaça a sociedade americana de jogá-la na pobreza, irremediável.

Essa fragilidade não permite mais que Washington continue dando as cartas ao seu bel-prazer, na cena internacional, de forma unilateral.
A crise da Síria está aí para comprovar.

O discurso de Obama, ontem, na ONU, refletiu essas circunstâncias extraordinárias.

O leão, agora, apenas, ruge.

Não tem forças para agir sozinho, a fim de justificar suas ações do modo que julga necessário, sem dar satisfações aos outros.

O ataque de Dilma ao modo de ser de Washington, na tentativa de fazer acontecer do jeito que acha mais conveniente, sem levar em conta interesses dos parceiros, repercutiu forte no mundo e criou bases para novas contestações fortes, daqui para frente.

Os incomodados, ou seja, as elites políticas internas, nas periferias capitalistas, não sabem o que fazer.

Jarbas Vasconcelos refletiu esse desespero elitista de forças políticas subordinadas aos interesses de Washington que não conseguem pensar com a própria cabeça.

Sem a cabeça de Washington, para pensar por elas, se perdem, completamente.

O discurso de Dilma, na ONU, é o brado de independência em favor da descolonização mental sul-americana.

Postado em 29/09/2013 ás 11:5

O Coxinha – uma análise sociológica – por léo rossatto / são paulo.sp

O Coxinha – uma análise sociológica

Um fenômeno se espalha com rapidez pela megalópole paulistana: os “coxinhas”. É um fenômeno grandioso, que proporciona uma infindável discussão. A relevância do mesmo já faz com que linguistas famosos se esforcem em entender a dinâmica do dialeto usado por esse grupo, inclusive.

Afinal, quem são os coxinhas, o que eles querem, como esse fenômeno se originou?

O que eles são?

“Coxinha”, sociologicamente falando, é um grupo social específico, que compartilha determinados valores. Dentre eles está o individualismo exacerbado, e dezenas de coisas que derivam disso: a necessidade de diferenciação em relação ao restante da sociedade, a forte priorização da segurança em sua vida cotidiana, como elemento de “não-mistura” com o restante da sociedade, aliadas com uma forte necessidade parecer engraçado ou bom moço.

Os coxinhas, basicamente, são pessoas que querem ostentar um status superior, com códigos próprios. Até algum tempo atrás, eles não tinham essa necessidade de diferenciação. A diferenciação se dava naturalmente, com a absurda desigualdade social das metrópoles brasileiras. Hoje, com cada vez mais gente ganhando melhor e consumindo, esse grupo social busca outras formas de afirmar sua diferenciação.

Para isso, muitas vezes andam engomados, se vestem de uma maneira específica, são “politicamente corretos”, dentro de sua noção deturpada de política, e nutrem uma arrogância quase intragável, com pouquíssima tolerância a qualquer crítica.

A Origem

Existem muita controvérsia a respeito do tema. Já foram feitas reportagens para elucidar o mistério, sem sucesso, mas é hora de finalmente  revelar a verdade a respeito do termo.

A origem do termo “coxinha”, como referência a esse grupo diferenciado, não tem nada de nobre. O termo é utilizado, ao menos desde a década de 80, para se referir aos policiais civis ou militares que, mal remunerados, recebiam também vales-alimentação irrisórios, também conhecidos como “vales-coxinha” (os professores também recebem, mas não herdaram o apelido). Com o tempo, a própria classe policial passou a ser designada, de forma pejorativa, como “coxinhas”. Não apenas por causa do vale, mas por conta da frequência com que muitos policiais em ronda, especialmente nas periferias das grandes cidades, acabam se alimentando em lanchonetes, com salgados ou lanches rápidos, por conta do caráter de seu serviço.

Reação da coxinha, o salgado injustiçado, ao ver seu nome associado ao grupo social

Os policiais, apesar de mal remunerados, são historicamente associados à parcela mais conservadora da sociedade, por atuarem na repressão aos crimes, frequentemente com truculência. Com o a popularização de programas policialescos como Aqui Agora, Cidade Alerta e Brasil Urgente, o adjetivo coxinha passou a designar também toda a parcela de cidadãos que priorizam a segurança antes de qualquer outra coisa. Para designar essa parcela que necessita de “diferenciação” e é individualista ao extremo, foi um pulo.

Expoentes

Não cabe citar socialites ou coisa do tipo. São pessoas que vivem em um mundo paralelo essas daí. Mas vou citar três criadores de tendências no universo coxinha:

1) O “engraçado”: Tiago Leifert

Um exemplo do que o Tiago Leifert trouxe pro jornalístico Globo Esporte: apostas babacas envolvendo a seleção da Argentina

Uma característica importante do coxinha padrão é tentar ser descolado, descontraído e não levar as coisas a sério. E nisso o maior exemplo é esse figurão da foto acima. Filho de um diretor da Globo, cavou espaço na emissora para introduzir o jornalismo coxinha na grade de esportes da Globo. Jogos de futebol valem menos do que as piadas sem graça sobre os jogos, metade do Globo Esporte é sempre sobre vídeo-game ou sobre a dancinha nova do Neymar, e TUDO vira entretenimento, não esporte.

Prova disso são declarações do próprio, como a declaração em que ele diz que não leva o esporte a sério, ou quando fala que o Brasil não é o país do futebol, é o país da novela. Isso revela duas características do coxinha default: ele não aceita críticas (e isso fica claro pelo número imenso de usuários bloqueados no Twitter pelo Tiago Leifert – incluindo este que vos escreve) e ele não tem conteúdo, provocando polêmicas para aparecer. Tudo partindo, obviamente, da necessidade quase patológica de diferenciação.

2) O “bom moço”: Luciano Huck

A aparência de bom moço – só aparência

O apresentador, que revelou beldades como a Tiazinha e a Feiticeira na Band, na década de 1990, virou, na Globo, símbolo do bom-mocismo coxinha. Faz um programa repleto de “boas ações”, que, no fundo, são apenas uma afirmação de superioridade, da mesma forma que a filantropia dos Rockfellers no início do século XX. Puro marketing.

Quando você reforma um carro velho ou uma casa, além de fazer uma boa ação, você se autopromove. Capitaliza com o drama alheio mostra que, além de “bondoso”, você é diferente daquele que você está ajudando. Como preza a cartilha do bom coxinha.

Além disso, Luciano Huck é a representação da família bem sucedida e feliz. Casado com outra apresentadora da Globo, Angélica, forma um dos “casais felizes” da emissora. Praticamente uma cartilha de como montar uma família coxinha. “Case-se com alguém bem sucedido, tenha dois ou três filhos, e leve eles para festinhas infantis junto com outros filhos de famosos”.

Para se mostrar engajado e bom moço, Huck deu até palestra sobre sustentabilidade na Rio+20. Irônico, pra quem foi condenado por crime ambiental, em Angra dos Reis. Ele fez  uma praia particular sem autorização. Diferenciação, novamente. Isolamento. Características típicas do coxinha default. Assim como “ter twitter”. Mas o twitter dele é praticamente um bot, só serve pra afagar seus amigos famosos e mandar mensagens bonitinhas.

3) A “Coxinha Política”: Soninha Francine

Soninha, em evento do PPS: “onde foi que eu me enfiei?”

O terceiro e último (graças a Deus) exemplo de coxinha é a figura da imagem acima. Soninha Francine deve ser o maior caso de metamorfose política do Brasil. Até 2006 era petista convicta, mas o vírus da COXINHICE já afetava seu cérebro, a ponto dela sair na capa da Época em 2001 falando “eu fumo maconha”, provavelmente por um brilhareco.

Daí ela saiu do PT, entrou no PPS, caiu nos braços de José Serra e do PSDB paulista e se encontrou. Tenta conciliar a fama de “descolada”, adquirida nos anos como VJ da MTV, com uma postura política típica de um coxinha padrão: individualista e conservadora. E, pra variar, manifesta tais posturas via… Twitter. Emblemático foi o dia em que Metrôs BATERAM na Linha Vermelha e ela, afogada em seu individualismo, disse que não encarou nenhum problema e que o Metrô estava “sussa”. Assim como a acusação de “sabotagem” do Metrô às vésperas da eleição de 2010.

Soninha ajuda a definir o estereótipo do coxinha default. O coxinha tenta de forma desesperada parecer um cara legal, descolado e antenado com os problemas do mundo. Mas não consegue disfarçar seu individualismo e sua necessidade de diferenciação. Não consegue disfarçar seu rancor quando os outros passam a ter as mesmas oportunidades e desfrutar dos mesmos serviços que ele.

Conclusão

O coxinha é um fenômeno sociológico disseminado em vários lugares, mas, por enquanto, só “assumido” em São Paulo (em outras cidades, os coxinhas ainda devem ter outros nomes). Não por acaso, tendo em vista que São Paulo é um dos ambientes mais individualistas do Brasil.

São Paulo é uma das cidades mais segregadas do país. É uma cidade de grande adensamento no centro, com as regiões ricas isoladas da periferia. A exclusão é uma opção dos mais ricos. Eles não querem  se misturar com o restante da população. E, nos últimos anos, isso ficou mais difícil: não dá mais pra excluir meramente pelo poder econômico. Daí, é necessário expor um personagem, torná-lo um padrão, pra disseminar essa mentalidade individualista e conservadora: é aí que surge o coxinha.

E isso é bom. Porque o coxinha, hoje, é exposto ao ridículo pelo restante da sociedade. Até algum tempo atrás, ele era apenas um personagem latente. Ele não aparecia, portanto, não podia ser criticado ou ridicularizado. No final, o surgimento dos coxinhas só reflete a mudança do nosso perfil social. E, por incrível que pareça, o amadurecimento de nossa sociedade.

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DESVENDANDO A ESPUMA: O ENIGMA DA CLASSE MÉDIA BRASILEIRA – por renato de souza / santa maria.rs

DESVENDANDO A ESPUMA: O ENIGMA DA CLASSE MÉDIA BRASILEIRA
Por Renato Santos de Souza (UFSM – Santa Maria/RS)

A primeira vez que ouvi a Marilena Chauí bradar contra a classe média, chamá-la de fascista, violenta e ignorante, tive a reação que provavelmente a maioria teve: fiquei perplexo e tendi a rejeitar a tese quase impulsivamente. Afinal, além de pertencer a ela, aprendi a saudar a classe média. Não dá para pensar em um país menos desigual sem uma classe média forte: igualdade na miséria seria retrocesso, na riqueza seria impossível. Então, o engrossamento da classe média tem sido visto como sinal de desenvolvimento do país, de redução das desigualdades, de equilíbrio da pirâmide social, ou mais, de uma positiva mobilidade social, em que muitos têm ascendido na vida a partir da base. A classe média seria como que um ponto de convergência conveniente para uma sociedade mais igualitária. Para a esquerda, sobretudo, ela indicaria uma espécie de relação capital-trabalho com menos exploração.

Então, eu, que bebi da racionalidade desde as primeiras gotas de leite materno, como sugeriu certa vez um filósofo, não comprei a tese assim, facilmente. Não sem uma razão. E a Marilena não me ofereceu esta razão. Ela identificou algo, um fenômeno, o reacionarismo da classe média brasileira, mas não desvendou o sentido do fenômeno. Descreveu “O QUE” estava acontecendo, mas não nos ofereceu o “POR QUE”. Por que logo a classe média? Não seria mais razoável afirmar que as elites é que são o “atraso de vida” do Brasil, como sempre foi dito? E mais, ela fala da classe média brasileira, não da classe média de maneira geral, não como categoria social. Então, para ela, a identificação deste fenômeno não tem uma fundamentação eminentemente filosófica ou sociológica, e sim empírica; é fruto da sua observação, sobretudo da classe média paulistana. E por que a classe média brasileira e não a classe média em geral? Estas indagações me perturbavam, e eu ficava reticente com as afirmações de dona Marilena.

Com o passar do tempo, porém, observando muitos representantes da classe média próximos de mim (coisa fácil, pois faço parte dela), bem como a postura desta mesma classe nas manifestações de junho deste ano, comecei lentamente a dar razão à filósofa. A classe média parece mesmo reacionária, talvez não toda, mas grande parte dela. Mas ainda me perguntava “por que” a classe média, e “por que” a brasileira? Havia um elo perdido neste fenômeno, algo a ser explicado, um sentido a ser desvendado.

Então adveio aquela abominável reação de grande parte da categoria médica – justamente uma categoria profissional com vocação para classe média – ao Programa Mais Médicos, e me sugeriu uma resposta. Aqueles episódios me ajudaram a desvendar a espuma. Mas não sem antes uma boa pergunta! Como pode uma categoria profissional pensar e agir assim, de forma tão unificada, num país tão plural e tão cheio de nuanças intelectuais e políticas como o nosso? Estudantes de medicina e médicos parecem exibir um padrão de pensamento e ação muito coesos e com desvios mínimos quando se trata da sua profissão, algo que não se vê em outros segmentos profissionais. Isto não pode ser explicado apenas pelo que se convencionou chamar de “corporativismo”.

Bem, naqueles episódios do Mais Médicos, apesar de toda a argumentação pretensamente responsável das entidades médicas buscando salvaguardar a saúde pública, o que parecia sustentar tal coesão era uma defesa do mérito, do mérito de ser médico no Brasil. Então, este pensamento único provavelmente fora forjado pelas longas provações por que passa um estudante de medicina até se tornar um profissional: passar no vestibular mais concorrido do Brasil, fazer o curso mais longo, um dos mais difíceis, que tem mais aulas práticas e exigências de estrutura, e que está entre os mais caros do país. É um feito se formar médico no Brasil, e talvez por isto esta formação, mais do que qualquer outra, seja uma celebração do mérito. Sendo assim, supõe-se, não se pode aceitar que qualquer um que não demonstre ter tido os mesmos méritos, desfrute das mesmas prerrogativas que os profissionais formados aqui. Aquela reação episódica, e a meu ver descabida, da categoria médica, incompreensível até para o resto da classe média, era, na verdade, um brado pela meritocracia.

A minha resposta, então, ao enigma da classe média brasileira aqui colocado, começava a se desvelar: é que boa parte dela é reacionária porque é meritocrática; a meritocracia está na base de sua ideologia conservadora.

Assim, boa parte da classe média é contra as cotas nas universidades, pois a etnia ou a condição social não são critérios de mérito; é contra o bolsa-família, pois ganhar dinheiro sem trabalhar além de um demérito desestimula o esforço produtivo; quer mais prisões e penas mais duras por que meritocracia também significa o contrário, pagar caro pela falta de mérito; reclama do pagamento de impostos porque o dinheiro ganho com o próprio suor não pode ser apropriado por um Governo que não produz, muito menos ser distribuído em serviços para quem não é produtivo e não gera impostos. É contra os políticos porque em uma sociedade racional, a técnica, e não a política, deveria ser a base de todas as decisões: então, deveríamos ter bons gestores e não políticos. Tudo uma questão de mérito.

Mas por que a classe média seria mais meritocrática que as outras? Bem, creio que isto tem a ver com a história das políticas públicas no Brasil. Nós nunca tivemos um verdadeiro Estado do Bem Estar Social por aqui, como o europeu, que forjou uma classe média a partir de políticas de garantias públicas. O nosso Estado no máximo oferecia oportunidades, vagas em universidades públicas no curso de medicina, por exemplo, mas o estudante tinha que enfrentar 90 candidatos por vaga para ingressar. O mesmo vale para a classe média empresarial, para os profissionais liberais, etc. Para estes, a burocracia do Estado foi sempre um empecilho, não uma aliada. Mesmo a classe média estatal, formada por funcionários públicos, é concursada, portanto, atingiu sua posição de forma meritocrática. Então, a classe média brasileira se constituiu por mérito próprio, e como não tem patrimônio ou empresas para deixar de herança para que seus filhos vivam de renda ou de lucro, deixa para eles o estudo e uma boa formação profissional, para que possam fazer carreira também por méritos próprios. Acho que isto forjou o ethos meritocrático da nossa classe média.

Esta situação é bem diferente na Europa e nos EUA, por exemplo. Boa parte da classe média europeia se formou ou se sustenta das políticas de bem estar social dos seus países, estas mesmas que entraram em colapso com a atual crise econômica e tem gerado convulsões sociais em vários deles; por lá, eles vão para as ruas exatamente para defender políticas anti-meritocráticas. E a classe média americana, bem, esta convive de forma quase dramática com as ambiguidades de um país que é ao mesmo tempo das oportunidades e das incertezas; ela sabe que apenas o mérito não sustenta a sua posição, portanto, não tem muitos motivos para ser meritocrática. Se a classe média adoecer nos EUA, vai perder o seu patrimônio pagando por serviços privados de saúde pela absoluta falta de um sistema público que a suporte; se advém uma crise econômica como a de 2008, que independe do mérito individual, a classe média perde suas casas financiadas e vai dormir dentro de seus automóveis, como se via à época. Então, no mundo dos ianques, o mérito não dá segurança social alguma.

As classes alta e baixa brasileiras (os ricos e os pobres) também não são meritocráticas. A classe alta é patrimonialista; um filho de rico herda bens, empresas e dinheiro, não precisa fazer sua vida pelo mérito próprio, portanto, ser meritocrata seria um contra-senso; ao contrário, sua defesa tem que ser dos privilégios que o dinheiro pode comprar, do direito à propriedade privada e da livre iniciativa. Além disso, boa parte da elite brasileira tem consciência de que fez fortuna também com favorecimentos estatais, então, antes de ser contra os governos e a política, de se intitular apolítica, ela busca é forjar alianças no meio político.

Para a classe pobre o mérito nunca foi solução; ela vive travada pela falta de oportunidades, de condições ou pelo limitado potencial individual. Assim, ser meritocrata seria não só assumir que o seu insucesso é fruto da falta de mérito pessoal, como também relegar apenas para si a responsabilidade pela superação da sua condição. E ela sabe que não existem soluções pela via do mérito individual para as dezenas de milhões de brasileiros que vivem em condições de pobreza, e que seguramente dependem das políticas públicas para melhorar de vida. Então, nem pobres nem ricos tem razões para serem meritocratas.

A meritocracia é uma forma de justificação das posições sociais de poder com base no merecimento, normalmente calcado em valências individuais, como inteligência, habilidade e esforço. Supostamente, portanto, uma sociedade meritocrática se sustentaria na ética do merecimento, algo aceitável para os nossos padrões morais.

Aliás, tenho certeza de que todos nós educamos nossos filhos e tentamos agir no dia a dia com base na valorização do mérito. Nós valorizamos o esforço e a responsabilidade, educamos nossas crianças para serem independentes, para fazerem por merecer suas conquistas, motivamo-as para o estudo, para terem uma carreira honrosa e digna, para buscarem por méritos próprios o seu lugar na sociedade.

Então, o que há de errado na meritocracia, como pode ela tornar alguém reacionário?

Bem, como o mérito está fundado em valências individuais, ele serve para apreciações individuais e não sociais. Uma coisa é a valorização do mérito como princípio educativo e formativo individual, e como juízo de conduta pessoal, outra bem diferente é tê-lo como plano de governo, como fundamento ético de uma organização social. Neste plano é que se situa a meritocracia, como um fundamento de organização coletiva, e aí é que ela se torna reacionária e perversa.

Vou gastar as últimas linhas deste texto para oferecer algumas razões para isto, para mostrar porquê a meritocracia é um fundamento perverso de organização social.

a) A meritocracia propõe construir uma ordem social baseada nas diferenças de predicados pessoais (habilidade, conhecimento, competência, etc.) e não em valores sociais universais (direito à vida, justiça, liberdade, solidariedade, etc.). Então, uma sociedade meritocrática pode atentar contra estes valores, ou pode obstruir o acesso de muitos a direitos fundamentais.

b) A meritocracia exacerba o individualismo e a intolerância social, supervalorizando o sucesso e estigmatizando o fracasso, bem como atribuindo exclusivamente ao indivíduo e às suas valências as responsabilidades por seus sucessos e fracassos.

c) A meritocracia esvazia o espaço público, o espaço de construção social das ordens coletivas, e tende a desprezar a atividade política, transformando-a em uma espécie de excrescência disfuncional da sociedade, uma atividade sem legitimidade para a criação destas ordens coletivas. Supondo uma sociedade isenta de jogos de interesse e de ambiguidades de valore, prevê uma ordem social que siga apenas a racionalidade técnica do merecimento e do desempenho, e não a racionalidade política das disputas, das conversações, das negociações, dos acordos, das coalisões e/ou das concertações, algo improvável em uma sociedade democrática e pluralista.

d) A meritocracia esconde, por trás de uma aparente e aceitável “ética do merecimento”, uma perversa “ética do desempenho”. Numa sociedade de condições desiguais, pautada por lógicas mercantis e formada por pessoas que tem não só características diferentes mas também condições diversas, merecimento e desempenho podem tomar rumos muito distantes. O Mário Quintana merecia estar na ABL, mas não teve desempenho para tal. O Paulo Coelho, o Sarney e o Roberto Marinho estão (ou estiveram) lá, embora muitos achem que não merecessem. O Quintana, pelo imenso valor literário que tem, não merecia ter morrido pobre nem ter que morar de favor em um hotel em Porto Alegre, mas quem mora em um quase castelo na França é o Coelho. Um tem inegável valor literário, outro tem desempenho de mercado. O José, aquele menino nota 10 na escola que mora embaixo de uma ponte da BR 116 (tema de reportagem da ZH) merece ser médico, sua sonhada profissão, mas provavelmente não o será, pois não terá condições para isto (rezo para estar errado neste caso). Na música popular nem é preciso exemplificar, a distância entre merecimento e desempenho de mercado é abismal. Então, neste mudo em que vivemos, valor e resultado, merecimento e desempenho nem sempre caminham juntos, e talvez raramente convirjam.

Mas a meritocracia exige medidas, e o merecimento, que é um juízo de valor subjetivo, não pode ser medido; portanto, o que se mede é o desempenho supondo-se que ele seja um indicador do merecimento, o que está longe de ser. Desta forma, no mundo da meritocracia – que mais deveria se chamar “desempenhocracia” – se confunde merecimento com desempenho, com larga vantagem para este último como medida de mérito.

e) A meritocracia é a única ideologia que institui a desigualdade social com fundamentos “racionais”, e legitima pela razão toda a forma de dominação (talvez a mais insidiosa forma de legitimação da modernidade). A dominação e o poder ganham roupagens racionais, fundamentos científicos e bases de conhecimento, o que dá a eles uma aparente naturalidade e inquestionabilidade: é como se dominados e dominadores concordassem racionalmente os termos da dominação.

f) A meritocracia substitui a racionalidade baseada nos valores, nos fins, pela racionalidade instrumental, baseada na adequação dos meios aos resultados esperados. Para a meritocracia não vale a pena ser o Quintana, não é racional, embora seus poemas fossem a própria exacerbação de si, de sua substância, de seus valores artísticos. Vale mais a pena ser o Paulo Coelho, a E.L. James, e fazer uma literatura calibrada para vender. Da mesma forma, muitos pais acham mais racional escolher a escola dos seus filhos não pelos fundamentos de conhecimento e valores que ela contém, mas pelo índice de aprovação no vestibular que ela apresenta. Estudantes geralmente não estudam para aprender, estudam para passar em provas. Cursos de pós-graduação e professores universitários não produzem conhecimentos e publicam artigos e livros para fazerem a diferença no mundo, para terem um significado na pesquisa e na vida intelectual do país, mas sim para engrossarem o seu Lattes e para ficarem bem ranqueados na CAPES e no CNPq.

A meritocracia exige uma complexa rede de avaliações objetivas para distribuir e justificar as pessoas nas diferentes posições de autoridade e poder na sociedade, e estas avaliações funcionam como guiões para as decisões e ações humanas. Assim, em uma sociedade meritocrática, a racionalidade dirige a ação para a escolha dos meios necessários para se ter um bom desempenho nestes processos avaliativos, ao invés de dirigi-la para valores, princípios ou convicções pessoais e sociais.

g) Por fim, a meritocracia dilui toda a subjetividade humana na ilusória objetividade dos resultados e do desempenho. O verso “cada um de nós é um universo” do Raul Seixas – pérola da concepção subjetiva do humano – é uma verdadeira aberração para a meritocracia: para ela, cada um de nós é apenas um ponto em uma escala de valor, e a posição e o valor que cada um ocupa nesta escala depende de processos objetivos de avaliação. A posição e o valor de uma obra literária se mede pelo número de exemplares vendidos, de um aluno pela nota na prova, de uma escola pelo ranking no Ideb, de uma pessoa pelo sucesso profissional, pelo contracheque, de um curso de pós-graduação pela nota da CAPES, e assim por diante. Embora a natureza humana seja subjetiva e suas interações sociais sejam intersubjetivas, na meritocracia não há espaço para a subjetividade e, sendo assim, lamentavelmente, há muito pouco espaço para o próprio ser humano. Desta forma, a meritocracia destrói o espaço do humano na sociedade.

Enfim, a meritocracia é um dos fundamentos de ordenamento social mais reacionários que existe, com potencial para produzir verdadeiros abismos sociais e humanos. Assim, embora eu tenda a concordar com a tese da Marilena Chauí sobre a classe média brasileira, proponho aqui uma troca de alvo. Bradar contra a classe média, além de antipático pode parecer inútil, pois ninguém pode abandonar a sua condição social apenas para escapar ao seu estereótipo. Não se muda a posição política de um grupo social atacando a sua condição de classe, e sim os conceitos que fundamentam a sua ideologia.

Então, prefiro combater conceitos, neste caso, provavelmente o conceito mais arraigado na classe média brasileira, e que a faz ser o que é: a meritocracia.

SEMANA FARROPILHA ? – por carlos zatti / porto alegre.rs

SEMANA FARROPILHA ?

Carlos Zatti  – set 2013

Foram diversas as causas que motivaram a Revolução Farroupilha, notadamente a elevada carga tributária que centralizava recursos na Capital do Império, sem a contrapartida correspondente.

Mesmo assim, o levante de 20 de setembro de 1835 não foi suficiente para que a Regência reconhecesse a discriminação que fazia à província meridional e, então, a Revolução proclamou a República Rio-Grandense em 11 de setembro de 36, legitimada com base no direito universal dos povos, pelas Câmaras de Vereadores das principais cidades gaúchas da época. E a contenda deixou de ser uma Revolução para ser uma Guerra – Guerra dos Farrapos – pois não era mais uma convulsão interna, dentro do mesmo país, eram exércitos de duas nações peleando cada qual por sua Pátria.

Nos dias atuais, por indução do MTG, os cetegeanos se reúnem no intento de homenagear aqueles heróis que resfolegaram as coxilhas de 1835 a 45, tentando um paralelismo à Semana da Pátria, com sua “Semana Farroupilha”.

Mas a paz de Ponche Verde foi assinada de igual para igual. Podemos até afirmar que o Estado Rio-Grandense voltou ao convívio da Pátria brasiliana sem revogar, ou relegar, sua independência. E se alguém duvida que não se faça de rogado e olhe para a bandeira do Rio Grande do Sul onde lerá em seu dístico: ‘República Rio-Grandense’. Seria ou, é uma república dentro de outra?!

E ainda, nos dias atuais, o poder central continua explorando e discriminado nosso Sul. Mas se foi o gaúcho que colocou os alambrados da invernada lá do fundo e escolheu o lado para fincar seu rancho, pode, muito bem, irmanado com o barriga-verde e o tingüí, mudar a cerca e fincar os palanques mais ao norte.

Como o movimento tradicionalista gaúcho se estriba no passado para montar no presente e construir o futuro, e transplantou simbolicamente o galpão da estância para a cidade para, sob seu teto, irmanar gentes na mesma iguala, palmeando a mesma cuia que corre de mão em mão sem conhecer a hierarquia; local da camaradagem, da honradez e da amizade; local dos causos, da poesia, do civismo e da guitarra campeira…

Mas parece desígnio que cada iniciativa tenha seus percalços, seus altos e baixos e, então, parece que o clarim que os guiava calou. Por que calou, se a tradição é a marcha batida que visa o resgate de valores que são válidos não por serem antigos, mas porque são eternos?  Por que calou, se a tradição é a identidade de um povo? – Porque lhes faltou a essência do porquê da Semana Farroupilha. Faltou-lhes a verdade, a honestidade, a razão. O MTG esqueceu as virtudes e traiu os homenageados, menosprezando o ideário dos heróis de 35, o simbolismo da Semana Farroupilha.

Será porque os brasileiros foram educados no convívio de governantes autoritários?

– Tanto que até o decantado Getúlio Vargas fez jogo duplo para ficar de bem com as potências estrangeiras, deixando a Gestapo nazista atuar dentro do Brasil para caçar adversários, durante a Segunda Guerra Mundial e, ao mesmo tempo, fazendo o jogo dos aliados, policiava e perseguia nossos avós só porque falavam em sua língua natal: alemão, italiano, japonês.

E foi este mesmo Getúlio que, numa iniciativa de mentecapto, mandou queimar todas as bandeiras estaduais (proibiu o estudo das cartilhas regionais nas escolas, que continham nossa história e nossos valores culturais, adotando uma só cartilha para todo o Brasil, além de proibir os hinos estaduais), enfraquecendo a cultura regionalista, com intento de centralizar mais e mais poderes ao estado unitário, num propósito “nacionalista”, ignorando a existência de diversos povos em brasis distintos dentro do estado constituído.

– E os ditadores militares, então, aquela tragédia! Os estudantes aprendendo a aceitar tudo o que os livros oficiais ditavam de nossa História. Mentiras deslavadas que ainda hoje dominam a mente do povo, que nem diz “assim seja” porque só aprendeu dizer “amém”.

Contestando professores mal intencionados ou mal informados metidos a sabichões ao enfatizarem que a Revolução Farroupilha não fora separatista, afirmamos, porque estamos convictos, que a Revolução de 35 foi secessionista. Nossa tese baseia-se nos seguintes fatos/argumentos:

1) Artigas (el protetor de los gauchos), já em 1816 queria formar um país independente composto de Entre Rios, Corrientes, Rio Grande do Sul, Uruguai, Santa Fé e Missiones! Ou seja, um país exclusivamente de gaúchos;

2) Durante a Campanha pela Independência do Uruguai (1825/28), Alexandre Luís de Queirós e Vasconcelos, o “Quebra”, comandando o “Regimento de Libertadores do Rio Grande”, colocou-se abertamente ao lado dos platinos. Tentando revoltar os soldados gaúcho-brasileiros, pregava a separação do Rio Grande, antecipando a revolução farroupilha que, quando eclodiu, em 35, dela participou;

3) O deputado provincial José Mariano alertou ao presidente da existência de um partido que pregava a independência do Rio Grande do Sul, dizendo em seu discurso: “Que muito de propósito as primeiras autoridades têm sem cessar procurado fazer acreditar ao governo central, que um partido aqui existe com fins hostis à integridade do Império. O mais singular, porém, neste negócio, é que… são homens elogiados e quase endeusados como salvadores da província!  Liga com o Estado oriental, independência da província, proclamação da república, etc…”. E conclui dizendo: “O presidente da província dá conta à assembléia da existência de partido que trabalha no pérfido e indecoroso plano de separação desta província…”;

4) Quando Antônio Netto proclamou a independência do Estado Rio-Grandense, nenhum farroupilha foi contra o ato. Todos apoiaram a atitude de Netto porque a separação fazia parte do plano revolucionário e esperavam apenas uma oportunidade, e ela surgiu com a vitória da batalha de Seival. Se alguém discordasse mudaria de lado. – O coronel Bento Manuel mudou de lado três vezes durante os dez anos do conflito;

5) O Convênio de Ponche Verde foi um armistício e não a revogação da independência. O Escudo, o Hino e a Bandeira são ainda hoje símbolos oficiais do Rio Grande do Sul;

6) Além de Caxias aceitar as condições para a paz, nenhum Farrapo depôs ou entregou sua arma ao exército brasileiro.

7) Na “História da Grande Revolução”, Varela diz: “Lucas pertencia ao grêmio dos que, desde 1832, conjuravam em prol de um RioGrande independente e livre”. (vol.5, p.22)

– {O fato da chamada “traição de Canabarro”, que teria desarmado os negros para que Caxias (o capitão de mato e de estrada) massacrasse a todos, em Porongos, merece um estudo maior por parte dos historiadores, até porque Canabarro foi contra a abolição dos escravos, proposta durante a República}.

Então, por ignorância dos dirigentes do MTG ou por maldade sarcástica dos mesmos, na abertura da “Semana Farroupilha” cantam o hino do inimigo, hasteando a bandeira do mesmo (Estado Brasiliano) no mastro de honra, em detrimento à tricolor, num verdadeiro ato de traição ao General Antônio Netto, a Bento Gonçalves, Domingos José de Almeida, Ulhoa Cintra, Onofre Pires, Anita Garibaldi, Corte Real, Teixeira Nunes e seus indômitos lanceiros negros e tantos outros que, apunhalados por tal despropério mal parado e traiçoeiro, devem se revolver em suas tumbas, tal o escárnio mordaz destes pseudo tradicionalistas.

Corrobora, o “tradicionalista” de plantão, segurando a alça do caixão funerário das virtudes cívicas, que foram a glória de nossos antepassados, sepultando-as no cemitério da hipocrisia, tal adepto de uma seita de emasculados que pregam o servilismo envolto na fumaça do incenso bajulatório do centralismo opressor, para enterrar em cova bem funda os últimos lampejos da altivez de um povo viril.

Os desmandos e a corrupção que grassa em Brasília, com a conivência de sulistas, confirmam a assertiva.

Mas quando o Sul for um País Independente, tais injustiças hão de ser reparadas para honra e glória da Nação. O Movimento Farroupilha findou, porém não acabou com o espírito de independência, pelo contrário, se ampliou por toda a Região Sul com a República Juliana, e outros atos de heroísmo, envolvendo também o Paraná que era farroupilha na época mas foi traído pelo Império; mesmo assim, foi marcando território nos movimentos de 1893, 1930 e 61. Não mais os limites tratativos do Brasil, mas as fronteiras demarcadoras das posses da NAÇÃO SULISTA.

 

Carlos Zatti – escritor

Tapejara da Cultura

CTG Porteira Aberta – 1ª RT / MTG–PR.

CIDADES, passado e presente – por almandrade / salvador.ba

O desaparecimento dos lugares cordiais, moldados por necessidades e desejos, deixou na cidade sinais indeléveis. O fim dos locais de encontro dos habitantes e visitantes, encerrou uma época, uma perspectiva de vida urbana, um tipo de comportamento. A conexão do lugar Almandrade 1com uma função social, uma sociabilidade, é construída e desenvolvida dentro de determinadas circunstâncias, de forma que, sua imagem pode representar o apogeu ou o declínio de uma época.

Sempre que o olhar retrospectivo percorre os quatro cantos de uma cidade, na tentativa de encontrar um passado construído de sonhos, a memória nostálgica não encontra suas referências. É impossível repetir ou viver o tempo que não é mais presente. A memória, às vezes, é uma fixação sem capacidade de distinguir a imaginação da realidade. O que permanece de uma configuração herdada do passado, apesar da aparência de continuidade, mudou, porque também o conhecimento já está fundamentado em outros parâmetros. O saber sobre alguma coisa não é um conjunto de enunciados perfeitos que não possa sofrer acréscimos e transformações. Se o saber não é mais o mesmo, a realidade é outra.

Fachadas com desenhos de outros tempos surpreendem a contemporaneidade da paisagem, deixou na cidade a marca do passado. As contemplações saudosistas são subjetivas, não vêm o lugar concreto, e sim, um modelo ideal de cidade, criado na imaginação e fora do tempo. Em um mesmo lugar se alojam diferentes memórias e através delas afloram muitos passados que multiplicam as suas histórias.

A carência de pensamento limita a percepção. O senso comum se relaciona com o passado através da nostalgia. A recuperação do passado pode significar a reconstrução de um sentido para contemporaneidade e a imaginação do futuro. A relação cidade e memória nos leva a uma viagem na caça de referências, sujeitos ao perigo de nos perdermos em algum fragmento resgatado. O discurso saudosista mostra verdades que contradizem ao que estamos vivenciando na atualidade.

O turista, esse habitante de lugar nenhum, olha a história do alto, vivendo uma experiência como se estivesse no cinema. Vê na cidade suas imagens gerais, mas as particularidades só são percebidas com um olhar mais atendo. Além de ser o lugar onde habita a moderna sociedade de consumo, com algumas imagens que evocam outros momentos da civilização, a cidade guarda segredos. Possivelmente outras cidades habitadas por fortes impérios desapareceram para ceder lugar a esta de agora, na qual estamos vivendo, que jamais serão reconstruídas, nem totalmente recordadas. O tempo vivido na sociedade afetada pela revolução tecnológica, tem o privilégio do instante presente. O trajeto de várias histórias e culturas é a “coisa ausente”, a cidade imaginada que só aparece por trás de um emaranhado de aparências com muitas realidades.

Almandrade
(artista plástico, poeta e arquiteto)

Armadilha do bônus de R$ 15 bilhões feita pela ANP prejudica a estatal e está “mais próximo da concessão de FHC do que da partilha”

Por Carlos Lopes

A entrevista de Sérgio Gabrielli, presidente da Petrobrás no governo Lula, ao jornalista Paulo Henrique Amorim, sobre o leilão do campo de Libra, no pré-sal, é uma fundamentada denúncia – ainda que com a forma educada que caracteriza o entrevistado – de que a Agência Nacional do Petróleo (ANP) e o Ministério das Minas e Energia (MME), para entregar às multinacionais a maior reserva do mundo, estão, premeditadamente, “contornando”, eludindo, trapaceando a nova lei do petróleo, assinada por Lula em 2010.

Como diz Gabrielli, “quando houve a transformação do regime regulatório do petróleo no Brasil, em 2010, essa mudança ocorreu porque, com a descoberta do pré-sal, os riscos de exploração passaram a ser pequenos. (…) O regime anterior, o regime de concessão [lei nº 9.478, de 1997]era adequado para áreas de alto risco exploratório. Esse regime exige, na entrada, um bônus alto, porque o concessionário passa a ser o proprietário do petróleo a ser explorado – e, portanto, ele vai definir a priori quanto vai dar ao Estado”.

Realmente, o que motivou a lei de Lula foi, exatamente, que as imensas reservas petrolíferas do pré-sal não ficassem submetidas à lei das concessões de Fernando Henrique, que entrega todo o petróleo a quem o extrair, em leilões cuja disputa se concentra no “bônus de assinatura” – uma espécie de “luva”, paga em dinheiro. O suposto fundamento dessa lei estava em que o vencedor do leilão não sabia se ia – ou não – encontrar petróleo. Mas o pré-sal é um oceano subterrâneo de petróleo. Que sentido há nas multinacionais pagarem alguns caraminguás para procurar petróleo em um oceano de petróleo?

> Com a nova lei (lei nº 12.351 de 2010), que instituiu o regime de partilha de produção para o pré-sal, ressalta Gabrielli, “a lógica da competição é outra. Como diminui o risco de exploração – ou seja, se vai ou não encontrar petróleo – o grande elemento a definir passa a ser como partilhar o lucro futuro. Então, o grande elemento deve ser a participação no lucro-óleo que deverá voltar ao Estado”.

HISTÓRIA

Nas palavras do ex-presidente da Petrobrás, “Libra é realmente um caso excepcional. Libra é realmente um prospecto extraordinário. A Petrobrás, contratada pela ANP, fez a descoberta. Fez as perfurações exploratórias iniciais, já tem uma cubagem mais ou menos conhecida com volume e potencial já conhecidos, e ele é hoje não só o maior campo do mundo, mas da História. Se você pensar em um preço de valor adicionado (preço de exploração) de 10 dólares o barril, vezes, por baixo, 10 bilhões de barris, são 100 bilhões de dólares”.

> A rigor, pela nova lei, que rege o pré-sal, o campo de Libra é uma “área estratégica” (artigo 2º, inciso V da lei nº 12.351) e, como consequência, é caso em que “a Petrobras será contratada diretamente pela União para a exploração e produção de petróleo, de gás natural e de outros hidrocarbonetos fluidos sob o regime de partilha de produção” (artigo 12 da mesma lei).

> No entanto, a ANP e o MME não somente passaram por cima desse artigo da lei, como estão tratando Libra como se estivesse sob o antigo regime de concessão. No regime de partilha de produção, o pagamento inicial, o “bônus de assinatura”, perde importância – aliás, nem deveria existir -, pois a disputa, como diz o nome, é em torno da partilha.

> A fixação do “bônus de assinatura” em R$ 15 bilhões, obviamente colocou a ênfase neste – como é característica da lei das concessões de Fernando Henrique – e não na partilha da produção. Como aponta Gabrielli, “à medida que você coloca um bônus muito alto, a partilha do lucro no futuro é menor. Ao fixar o bônus alto, você tem uma visão de curto prazo, na exploração e no desenvolvimento de um recurso que já tem o grau de confirmação muito alto – não há dúvida de que tem petróleo lá (…). Mesmo com a certeza de que lá tem petróleo, você submete todo o ganho potencial futuro do Estado a uma parcela menor – o que é ruim, no novo conceito de partilha. Nessa operação de R$ 15 bilhões, o governo vai receber de imediato, mas a consequência disso é que, no lucro do futuro, o governo vai ficar com uma fatia menor”.

> Obviamente, num campo com tal reserva, o lucro do futuro é muito – mas muito mesmo – maior que esses R$ 15 bilhões, que, a curto prazo, servem para beneficiar quem tem maior poder financeiro.

> Com efeito, toda a lógica da nova lei está em garantir:

> 1º) Que as áreas estratégicas – definidas como as de “interesse nacional” – sejam não apenas operadas, mas exploradas pela Petrobrás, dispensado qualquer leilão.

> 2º) Que nos casos em que houver leilão, a definição do consórcio ganhador seja em função da maior quantidade de petróleo (ou gás e outros hidrocarbonetos) para a União. Essa é a essência do regime de partilha de produção: definir a maior parte possível em óleo para o país.

> PRIVILÉGIO

> No momento atual, a Petrobrás está desenvolvendo os campos do pré-sal que a lei reserva a ela sob “cessão onerosa” (campos pagos à União com ações da Petrobrás): “ela tem quase 15 bilhões de barris de reserva, adquiriu o direito de produzir mais 5 bilhões através da cessão onerosa, portanto, tem 20 bilhões de barris para desenvolver”, nota Gabrielli.

Nessa situação, o “bônus de assinatura” de R$ 15 bilhões privilegia quem tem maior poder financeiro – ou seja, as multinacionais.

> Pois, além dos 20 bilhões de barris que a Petrobrás tem para desenvolver, pela nova lei, a empresa é a operadora única no pré-sal, com um mínimo de 30% de qualquer consórcio: “Então, ela vai ser a operadora do campo de Libra, tendo ou não aumentada sua participação de 30%. Como ela vai entrar com 30% do campo, ela vai ter que pagar 4,5 bilhões – 30% de 15 bilhões é 4,5 bilhões. Isso é um dreno importante no caixa da Petrobrás, nesse momento. Porque Libra é um campo a mais de um portfólio já bastante robusto que a Petrobrás tem hoje, talvez um dos melhores portfólios de desenvolvimento e produção do mundo”, diz Gabrielli.

> A política do governo, no entanto, é entregar o “maior campo da História” a um preço irrisório para o total da reserva – o bônus de assinatura mais, nos próximos 35 anos, apenas 40% do óleo – contentando-se com a engorda de um superávit primário (reserva para juros) apetitoso para os bancos.

> “Eu me vejo na situação de fazer uma comparação com o processo de privatização do governo Fernando Henrique, que acelerou ou depreciou os valores de venda no processo de privatização para fazer caixa e segurar a moeda”, comentou o ex-presidente da Petrobrás.

> Há, correlacionado com este, outro problema – e estratégico, por definição. A lei de Lula sobre o pré-sal evita o privilégio às multinacionais, estabelecendo, em caso de leilão, a disputa em torno de quantidades de óleo para a União, e não de pagamentos em dinheiro. Evidentemente, para o país, ter o petróleo é muito mais inteligente e vantajoso que receber uns trocados e ficar sem petróleo.

> No entanto, a ANP e o MME estabeleceram, para o pré-sal, um valor para o barril (entre US$ 100,1 e US$ 120) e, com base nesse preço, um ridículo percentual mínimo de 41,65% para a União.

> Para que estabelecer – num contrato de 35 anos! – um valor para o barril, se a partilha é do petróleo, ou seja, em óleo? Só existe uma razão: porque a ANP e o MME pretendem ceder o petróleo ao “consórcio” vencedor em troca de algum pagamento, ao invés de manter a parcela em petróleo, para que seja usada em prol do país. A conclusão de Gabrielli, portanto, é precisa:

“… o bônus de R$ 15 bilhões vai na contramão da ideia de que é preciso ter a maior parcela do lucro-óleo de volta para o Estado. Porque [esse bônus]é uma aproximação, do ponto de vista do efeito econômico, do modelo de concessão [de Fernando Henrique]. Mais próximo da concessão que da partilha”.

BLACK BLOC: Eles podem queimar uma bandeira, mas nunca queimarão os direitos do povo – por fernando brito / são paulo.sp

bandeiraqueimada

Eles podem queimar uma bandeira, mas nunca queimarão os

direitos do povo

7 de setembro de 2013 | 17:26

Um bando de idiotas arrancar do mastro e queimar uma bandeira do Brasil , como fizeram hoje os Black Blocs, nos Rio, é só o que é: a ação de um bando de idiotas.

Bobagem torná-lo um crime – embora tecnicamente o seja – maior.

É um ato que só serve para identificar – mesmo mascarados – quem eles são: pessoas que, embora gritem “fora Globo”, tem o mesmo desprezo que ela por essa identidade que nos mantém íntegros e dá uma mínima – mínima mesmo – proteção contra a voracidade dos interesses dominantes do mundo.

Estes babacas não se deram conta que só nos arrancaram toneladas e toneladas de ouro, boa parte da riqueza porque não tínhamos uma bandeira a nos unir como Nação, e o seu primeiro ensaio, o triângulo vermelho da bandeira mineira de Tiradentes, serviu de mortalha a seu corpo retalhado.

E desde Castro Alves, que preferia vê-la “rota num campo de batalha” a servir ao povo negro de mortalha, lutamos para que ela nunca cobrisse a vileza, a desumanidade, refém de mãos indignas,  sem que nós jamais tenhamos confundido-a com a opressão que sob ela se exercia.

Por que? Se ela fosse desimportante, que nos doeria? Um pedaço de pano como qualquer outro, afinal…

Não, um milhão de vezes não. Ele é um símbolo da nossa igualdade, neste país que discrimina pobres, negros, nordestinos, índios e todos os que não fazem parte da elite egoísta que a eles nega e quer negar tudo e só uma coisa não pode recusar: que sejam brasileiros e que tenham nas mãos calosas e ásperas o mesmo voto que as suas, brancas e cuidadas,

E, com isso, o direito de dizer quais serão os ventos que a farão tremular, se os da independência ou os da submissão colonial, que é o paraíso para sua mediocridade.

A bandeira negra que hastearam em seu lugar, enquanto ela ardia não é do anarquismo, é a da pirataria internacional, que nos saqueia e mais quer saltear e adoraria livrar-se deste único pedaço de pano que mitiga a vergonha de uma classe dominante que alimenta seus privilégios com a miséria do povo brasileiro, com o saque ne nosso solo e subsolo, com a predação da vida que viceja exuberante nesse trópico como não viceja lá, na frieza encruada de terras raquíticas com povos gordos.

Eles são apenas estúpidos, incapazes de perceber isso, porque incapazes de amar de verdade seus irmãos brasileiros, que consideram uma massa amorfa, incapaz de pensamentos e de sentimentos.

Não é de povo que querem que se encham as ruas, porque o povo lhes daria meia dúzia de cascudos e os reduziria ao que são, guris inúteis, que jamais viram um trabalhador senão como porteiros do seu prédio ou faxineiras de suas imundícies.

Só quem os tolera, mesmo condenando suas depredações, aprecia sua utilidade como criadores de confrontos que afastam o povo e enfraquece suas aspirações.

Por eles são aceitos, impunes, nutridos dentro de manifestações que levantam “a moralidade” como razão, para as quais dão, pelo confronto violento, o destaque que de outro modo não teriam, pela esqualidez dos que protestam contra todos e contra tudo, embora só tenham um alvo: um governo que, mesmo com todos os seus imensos defeitos, encarna os sonhos de soberania e justiça social deste país.

É que eles nunca viram imoralidade na fome, na mortalidade infantil, no analfabestimo, no saque de nossas riquezas, na entrega do nosso petróleo.

Por isso é que toleram suas traquinagens adolescentes, até mesmo queimar a bandeira brasileira.

São uns tolos, que o monstro do autoritarismo – se conseguirem despertá-lo, com as suas barulhentas bagunças – varrerá de pata.

Entretanto, não o farão, porque o povo brasileiro não aceita mais ser tutelado, nem ser saqueado. Seja pelos trocados da corrupção seja, sobretudo, pelos bilhões das perdas que um sistema econômico injusto e pela não-distribuição da riqueza nacional, contra as quais não se vê um mísero cartazinho.

Eles nasceram da mídia e só por ela sobrevivem, porque lhes servem, mesmo enjeitados nos seus editoriais.

Porque eles, filhos de uma escuridão mais opaca que suas roupas e capuzes, não podem sobreviver à luz do dia e do debate.

Mais demoracia, mais! Isso é um veneno para os idiotas da sombra.

E AGORA TIO SAM? – por paulo timm/torres.rs

Então…?

Chegou também a vez de levar a chama da “Liberdade” à  Síria, na ponta inflamada de um tomahawk?

PAULO TIMMMas que é isso companheiro OBAMA?

Você, que recebeu o NOBEL DA PAZ e que sabe que a guerra ofensiva não é solução para nenhum problema humano!

Você, que conseguiu representar a esperança de um mínimo de bom senso, do mundo inteiro, depois das sandices mortíferas de seu embuchado antecessor!

Você, que é um negro, nascido em terras do Terceiro Mundo, e que tem a obrigação de ter um olhar distinto sobre os rumos da humanidade!

Você, que é um liberal americano do Partido Democrata, sempre permeável à causa dos Direitos Humanos!

Você, que é um Pai de Família, que tem uma bela esposa e lindas filhas!

Você, que  se diz religioso e temente a Deus e além disso, ético!

Você, que sabe das mentiras sucessivas do Departamento de Estado e da CIA usadas como pretexto de vários golpes contra a democracia e contra as liberdades em vários momentos da História, tal como hoje os próprios pesquisadores americanos comprovam, nos casos : do Irã, em 1953, do Brasil em 1964, do Chile em 1973, do Iraque de Sadam Husseim!

Você, que tomou conhecimento de que as fontes do Governo dos Estados Unidos, além de mentir, erram, como erraram na justificativa da invasão do Iraque e no famoso ataque do napalm no vilarejo de Trang Bang , no Vietname, quando dizia não haverem civis na área!

Você, que é um “ educated man” , com distinguido  nível acadêmico e que tem condições de compreender criticamente não só os tempos modernos, como as tramas do Poder do Império !

Você, que sabe como foram, além de temíveis,  infrutíferas, as sucessivas intervenções armadas dos Estados Unidos em várias partes do mundo – abaixo registradas – :

Lista de países bombardeados , desde el final de la segunda guerra mundial:
– China 1945-1946
– Korea 1950-1953
– China 1950-1953
– Guatemala 1954
– Indonesia 1958
– Cuba 1959-1960
– Guatemala 1960
– Belgian Congo 1964
– Guatemala 1964
– Dominican Republic 1965-1966
– Peru 1965
– Laos 1964-1973
– Vietnam 1961-1973
– Cambodia 1969-1970
– Guatemala 1967-1969
– Lebanon 1982-1984
– Grenada 1983-1984
– Libya 1986
– El Salvador 1981-1992
– Nicaragua 1981-1990
– Iran 1987-1988
– Libya 1989
– Panama 1989-1990
– Iraq 1991
– Kuwait 1991
– Somalia 1992-1994
– Bosnia 1995
– Iran, 1998
– Sudan, 1998
– Afghanistan, 1998
– Serbia 1999
– Afghanistan, 2001
– Iraq in 2003
– Libya 2011

Você, que já era nascido na época da Guerra  do Vietname e que viu aquela foto de uma menina queimada pelo napalm, como  assistiu a todos os outros horrores daquele sujo apoio militar aos governos títeres do Vietname do Sul!

Você, que sabe que é impossível saber, hoje, no conflito sírio, quem é quem e com que armas se destroem e que não tem provas de que o Presidente Assad fez uso de armas químicas!

Você, que sabe que seu Secretário de Estado, John Kerry está mentindo ao Congresso Americano, como aliás, denunciou o Líder russo V. Putin, diante dos membros do G-20, na bela São Petersburgo!

Você, que lê as Pesquisas de Opinião e que sabe que em torno de 60% dos americanos são contra o bombardeio à Siria! E que está percebendo que não há nenhum apoio internacional à essa barbaridade!

Você, que sabe que a grande nação americana está exausta com as guerras pela mortandade que trazem aos lares americanos e pelos gastos que aumentam cada vez mais o Orçamento do Governo!

Você, que escutou há alguns dias o próprio ex-Presidente J.Carter afirmar que os Estados Unidos não têm uma democracia que funcione e que, por isso mesmo, precisa reforçá-la se deseja manter um papel hegemônico no mundo?

Você, que recebeu uma Carta de outro Prêmio Nobel, Perez Esquivel, indagando-lhe fraternalmente – a quem obedeces? – !

Você, Obama! Que não pertence nem a Cabana do Pai Tomaz nem às Mansões Coloniais do sul dos Estados Unidos, vai dar, agora,  uma de Tio Sam e continuar bombardeando as esperanças de um mundo um pouco melhor!

Pare com isso, Obama, enquanto é tempo!

A principal vítima dos bombardeios não será  o regime sírio, já é a verdade, a qual se somarão vítimas civis inocentes.

Você é o Cara!

Escute o clamor do mundo! Escute o clamor do Papa Francisco! Escute o Secretário Geral das NAÇÕES UNIDAS!

Escute a sua consciência!

Em lugar de bombas, trilhe o bíblico caminho de Damasco , acompanhado de tantos Prêmios Nobel da Paz consiga juntar, junto com tantos líderes do G-20 consiga reunir,  convide o Papa e outras autoridades religiosas mundiais. Leve consigo como símbolo aquela menina vietnamita queimada pelo napalm: Kim Phuc, que amanhã, dia 06 , fará 40 anos.

Surpreenda o mundo!

Faça a Paz não a Guerra!

Sempre será melhor  ser um registro de pé de página a favor da Paz do que manchete de Guerra! A grande vitória é a da batalha que foi jamais travada…

LULA: “A HORA DA AÇÃO POLITICA” – artigo no NY TIMES de 22.8.2013

O mundo comenta … discute… apoia…. e no BRASIL ninguém fica sabendo.

Artigo de Lula (22 agosto) no no NY Times.

A hora da ação política.
A lenta retomada da economia global e os seus enormes custos sociais, especialmente nos países desenvolvidos exigem uma corajosa mudança de atitude. É preciso identificar com clareza a raiz da crise de 2008, que em muitos aspectos se prolonga até hoje, para que os líderes políticos e os órgãos multilaterais façam o que deve ser feito para superá-la. A verdade é que, no dia 15 de setembro de 2008, quando o banco Lehman Brothers pediu concordata, o mundo não se viu apenas mergulhado na maior crise financeira desde a quebra da Bolsa de Nova York em 1929. Viu-se também diante da crise de um paradigma. Outros grandes bancos especuladores nos Estados Unidos e na Europa só não tiveram o mesmo destino porque foram socorridos com gigantescas injeções de dinheiro público. Ficou evidente que a crise não era localizada, mas sistêmica.

O fracasso não era somente desta ou daquela instituição financeira, mas do próprio modelo econômico (e político) predominante nas décadas recentes. Um modelo baseado na ideia insensata de que o mercado não precisa estar subordinado a regras, de que qualquer fiscalização o prejudica e de que os governos não tem nenhum papel na economia, a não ser quando o mercado entra em crise. Segundo este paradigma, os governos deveriam transferir a sua autoridade democrática, oriunda do voto – ou seja, a sua responsabilidade moral e política perante os cidadãos – a técnicos e organismos cujo principal objetivo era o de facilitar o livre trânsito dos capitais especulativos. Cinco anos de crise, com gravíssimo impacto econômico e sofrimento popular, não bastaram para que esse modelo fosse repensado. Infelizmente, muitos países ainda não conseguiram romper com os dogmas que levaram ao descolamento entre a economia real e o dinheiro fictício, e ao círculo vicioso do baixo crescimento combinado com alto desemprego e concentração de renda nas mãos de poucos.

O mercado financeiro expandiu-se de modo vertiginoso sem a simultânea sustentação do crescimento das atividades produtivas. Entre 1980 e 2006, o PIB mundial cresceu 314%, enquanto a riqueza financeira aumentou 1.291%, segundo dados do McKinseys Global Institute e do FMI. Isso, sem incluir os derivativos. E, de acordo com o Banco Mundial, no mesmo período, para um total de US$ 200 trilhões em ativos financeiros não derivados, existiam US$ 674 trilhões em derivativos. Todos sabemos que os períodos de maior progresso econômico, social e político dos países ricos durante o século XX não tem nada a ver com a omissão do Estado nem com a atrofia da política. A decisão política de Franklin Roosevelt, de intervir fortemente na economia norte-americana devastada pela crise de 1929, recuperou o país justamente por meio da regulação financeira, o investimento produtivo, a criação de empregos e o consumo interno.

O Plano Marshall, financiado pelo governo norte-americano na Europa, além de sua motivação geopolítica, foi o reconhecimento de que os EUA não eram uma ilha e não poderiam prosperar de modo consistente num mundo empobrecido. Por mais de trinta anos, tanto na Europa quanto nos Estados Unidos, o Welfare State foi não apenas o resultado do desenvolvimento mas também o seu motor. Nas últimas décadas, porém, o extremismo neoliberal provocou um forte retrocesso. Basta dizer que, de 2002 a 2007, 65% do aumento de renda dos EUA foram absorvidos pelos 1% mais ricos. Em quase todos os países desenvolvidos há um crescente número de pobres. A Europa já atingiu taxas de desemprego de 12,1% e os EUA, no seu pior momento, de mais de 10%. O brutal ajuste imposto à maioria dos países europeus – que já foi chamado de austericidio – retarda desnecessariamente a solução da crise. O continente vai precisar de um crescimento vigoroso para recuperar as dramáticas perdas dos últimos cinco anos. Alguns países da região parecem estar saindo da recessão, mas a retomada será muito mais lenta e dolorosa se forem mantidas as atuais políticas contracionistas. Além de sacrificar a população europeia, esse caminho prejudica inclusive as economias que souberam resistir criativamente ao crack de 2008, como os EUA, os BRICS e grande parte dos países em desenvolvimento.

O mundo não precisa e não deve continuar nesse rumo, que tem um grande custo humano e risco político. A redução drástica de direitos trabalhistas e sociais, o arrocho salarial e os elevados níveis de desemprego criam um ambiente perigosamente instável em sociedades democráticas. Está na hora de resgatar o papel da política na condução da economia global. Insistir no paradigma econômico fracassado também é uma opção política, a de transferir a conta da especulação para os pobres, os trabalhadores e a classe média. A crise atual pode ter uma saída economicamente mais rápida e socialmente mais justa. Mas isso exige dos líderes políticos a mesma audácia e visão de futuro que prevaleceu na década de 1930, no New Deal, e após a II Guerra Mundial. É importante que os EUA de Obama e o Japão de Shinzo Abe estejam adotando medidas heterodoxas de estímulo ao crescimento. Também é importante que muitos países em desenvolvimento tenham investido, e sigam investindo, na distribuição de renda como estratégia de avanço econômico, apostando na inclusão social e na ampliação do mercado interno.

O aumento de renda das classes populares e a expansão responsável do crédito mantiveram empregos e neutralizaram parte dos efeitos da crise internacional no Brasil e na América Latina. Investimentos públicos na modernização da infraestrutura também foram fundamentais para manter as economias aquecidas. Mas para promover o crescimento sustentado da economia mundial isso não é suficiente. É preciso ir além. Necessitamos hoje de um verdadeiro pacto global pelo desenvolvimento, e de ações coordenadas nesse sentido, que envolvam o conjunto dos países, inclusive os da Europa. Políticas articuladas em escala mundial que incrementem o investimento público e privado, o combate à pobreza e à desigualdade e a geração de empregos podem acelerar a retomada do crescimento , fazendo a roda da economia mundial girar mais rapidamente. Elas podem garantir não só o crescimento, mas também bons resultados fiscais, pois a aceleração do crescimento leva à redução do déficit público no médio prazo. Para isso, é imprescindível a coordenação entre as principais economias do mundo, com iniciativas mais ousadas do G-20. Todos os países serão beneficiados com essa atuação conjunta, aumentando a corrente de comércio internacional e evitando recaídas protecionistas. A economia do mundo tem uma larga avenida de crescimento a ser explorada: de um lado pela inclusão de milhões de pessoas na economia formal e no mercado de consumo – na Ásia, na África e na América Latina – e de outro com a recuperação do poder aquisitivo e das condições de vida dos trabalhadores e da classe média nos países desenvolvidos. Isso pode constituir uma fonte de expansão para a produção e o investimentos mundiais por muitas décadas.

Luiz Inácio Lula da Silva é ex-presidente do Brasil

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Wladimir Pomar: A quem interessa a baderna nos protestos de rua?

a baderna

A continuidade das manifestações populares, mesmo em menor escala, já era esperada. Há uma série de problemas e reivindicações locais que afetam diferentes setores da população. E, como as manifestações de rua se mostraram instrumentos importantes de pressão, seja sobre empresas, seja sobre governos e parlamentos locais, é natural que os reivindicantes apelem para elas. Por outro lado, seria ilusão supor que tais manifestações não se tornariam arena de disputas políticas.

Aparentemente, apenas a ultraesquerda está em todas. Na prática, fica cada vez mais evidente que a ultradireita também está lá, sem bandeiras, mas de capuz. Olhando com atenção as manifestações de cem, duzentas ou mais pessoas, não fica difícil localizar uma minoria, às vezes de cinco a dez mascarados, que se dedica a “atacar o capitalismo” quebrando portas, vitrines, postes, telefones públicos, e o que mais haja a ser destruído em sua passagem.

Além disso, olhando com um pouco mais de atenção, é impressionante que a polícia passe ao lado desses mascarados sem tomar qualquer atitude, no mais das vezes descarregando sua repressão sobre os de cara limpa. Algo estranho? De forma alguma. Nas grandes manifestações de junho e julho, as mesmas cenas se repetiram à exaustão. O que leva qualquer pessoa mais atenta a concluir que há algum tipo de acordo, real ou tácito, entre as forças policiais e os encapuzados.

Cá entre nós, é estranho que, a essa altura dos acontecimentos, com todo o aparato de “inteligência” existente nas polícias, estas ainda não tenham mapeado quem são os poucos membros dos pequenos grupos que quebram e destroem bens públicos e privados e não os tenham levado à justiça para responder por atos de vandalismo.

Tal omissão só pode ser explicada se a própria polícia, e também o ministério público, estiverem de acordo com os objetivos buscados por tais grupos paramilitares.

O mais provável é que tais grupos estejam a serviço daqueles que pretendem colocar o conjunto da população contra os manifestantes, já que estes até agora não se mostraram capazes de conter as ações de vandalismo. A continuidade da baderna levaria, no final das contas, a população a aceitar com indiferença a repressão policial contra as manifestações e, portanto, contra o direito democrático de protestar nas ruas.

No entanto, também não é algo fora de cogitação que tais grupos tenham pretensões ainda mais ambiciosas, de criar um ambiente favorável a aventuras golpistas. Não esqueçamos que todos os golpes de Estado da história brasileira foram consumados a pretexto de “manter a ordem”. Se isto for verdade, a baderna interessa fundamentalmente à direita conservadora e reacionária, que domina a economia e a riqueza brasileira, e tem pânico de que o povo se acostume a praticar a democracia.

De qualquer forma, quaisquer que sejam os objetivos desses grupos, os setores populares que pretendem se manifestar democraticamente nas ruas não podem deixar a contenção deles a cargo da polícia. Precisam aprender a deixá-los à mostra, e de tal forma que, para a população em geral, fique evidente não só seu pequeno número de seus participantes, mas também a omissão policial. É esta que deve ser responsabilizada por só intervir quando o quebra-quebra já aconteceu.

Este é um aprendizado que precisa ser cursado com a ajuda daqueles que viveram as lutas populares dos anos 1970 e 1980, contra a repressão ditatorial militar. Em outras palavras, a baderna não interessa à esquerda e esta deve estar junto aos manifestantes, contribuindo com sua experiência para isolar aqueles que, com o falso pretexto de combater o capitalismo, na verdade contribuem para enfraquecer a luta democrática da maioria.

Wladimir Pomar é analista político e escritor.

PIERRE BOURDIEU: A ESSÊNCIA DO NEOLIBERALISMO

PIERRE BOURDIEU: A ESSÊNCIA DO NEOLIBERALISMO

 

Ele está certo o discurso dominante? E se, na realidade, esta ordem econômica não era nada mais do que a implementação de uma utopia, a utopia do neoliberalismo, assim, convertido em um problema político? Um problema com a ajuda da teoria econômica que proclama, alcançar concebido como uma descrição científica da realidade?

Esta teoria tutelar é uma ficção matemática pura. Foi fundada a partir do início de uma abstração tremendo. Bem, em nome da concepção estreita e estrita da racionalidade como racionalidade individual, enquadrando as condições econômicas e sociais de orientações racionais e as estruturas económicas e sociais em que a sua aplicação.

Na medida em que esta omissão, basta pensar precisamente no sistema educacional. Educação não é sempre tida em conta, tais como em uma idade que desempenha um papel na produção de produtos e serviços, bem como a produção dos próprios produtores. Neste tipo de pecado original, inscrita no mito Walrasian (1) da “teoria pura”, proceder todas as deficiências e falhas de disciplina econômica ea obstinação fatal com que se junta a oposição arbitrária que induz, por sua mera existência de uma lógica estritamente econômica, baseada na competição e eficiência, ea lógica social, que é sujeita ao controlo da justiça.

Dito isto, esta “teoria” e dehistoricized dessocializado em suas raízes tem, hoje, mais do que nunca, os meios de comunicaçãoverificados si mesmo e tornar-se empiricamente verificável. Na verdade, o discurso neoliberal não é apenas mais um discurso. É mais um “discurso forte” psiquiátricos discurso, pois é em um asilo, em análise Erving Goffman (2) . É tão duro e difícil de combater porque você tem ao lado de todas as forças do equilíbrio de poder, o que contribui para um mundo ser como é. Isso faz muito bem para orientar as decisões econômicas que dominam as relações econômicas. Ele acrescenta sua própria força simbólica a essas relações de poder. Em nome do programa científico, tornar-se um plano de ação política, está desenvolvendo um grande projeto político, mas seu estado é negado porque ele se parece como puramente negativo. Este projecto tem como objectivo criar as condições em que a “teoria” pode ser e função: um programa de destruição metódica dos coletivos.

O movimento em direção à utopia neoliberal de um mercado puro e perfeito é possível graças a política de desregulamentação financeira. E a ação é conseguida através da transformação e, devo dizer, destruidora de todas as medidas de política (dos quais o mais recente é o Acordo Multilateral de Investimentos, destinada a proteger as empresas estrangeiras e investimento em estados nacionais) que visam a questionar todas e quaisquer estruturas que possam servir como um obstáculo à lógica do mercado puro: a nação, cujo espaço de manobra diminui continuamente, associações de trabalhadores, por exemplo, através da individualização dos salários e das carreiras em função da habilidades individuais, com a consequente atomização dos trabalhadores, os grupos para os direitos dos trabalhadores, sindicatos, associações, cooperativas, até mesmo a família, que perdeu o controle de seu consumo através da criação de mercados para os grupos etários.

O programa neoliberal extrai seu poder social do poder político e econômico daqueles cujos interesses expressa: acionistas, operadores financeiros, industriais, políticos e conservadores sociais foram convertidos em subprodutos do laissez-fairetranqüilizantes, altos funcionários financeiros determinados a impor políticas que busquem sua própria extinção, porque, ao contrário de gerentes de negócios, não correm o risco de ter que, eventualmente, pagar as consequências. Neoliberalism como um todo, tende a favorecer a separação da economia das realidades sociais e, portanto, na construção, na realidade, um sistema económico em conformidade com a sua descrição, em teoria, puro, que é um tipo de máquina lógico apresenta-se como uma cadeia de restrições que regulam os agentes econômicos.

A globalização dos mercados financeiros, quando juntamente com o progresso da tecnologia da informação, garante uma mobilidade sem precedentes de capital. Ele dá os investidores preocupados com a rentabilidade de curto prazo de seus investimentos a possibilidade de comparar permanentemente a rentabilidade das maiores empresas e, portanto, penalizar as perdas relativas dessas empresas. Sujeitos a este desafio constante, as próprias empresas têm de adaptar-se rapidamente crescentes demandas do mercado, sob pena de “perder a confiança do mercado”, como eles dizem, e apoiar seus acionistas. Este último, ansioso para obter ganhos de curto prazo, estão cada vez mais capaz de impor sua vontade sobre os gestores, utilizando comitês financeiros para estabelecer as regras segundo as quais os gestores atuam e para moldar suas políticas de recrutamento, emprego e salários.

Isso define o reinado absoluto da flexibilidade, com funcionários contratos a termo ou temporários reestruturações societárias e repetida e estabelecer dentro da mesma empresa, a concorrência entre divisões autônomas e entre as equipes obrigadas a desempenhar múltiplas funções. Finalmente, esta jurisdição se estende aos próprios indivíduos, através da individualização da relação salarial: estabelecimento de metas individuais de desempenho, avaliação de desempenho individual, avaliação contínua, aumentos salariais individuais ou concessão de bônus com base na concorrência e mérito individual; carreiras individualizadas, estratégias “delegação de responsabilidade” que visa garantir a auto-exploração de pessoal, como funcionários em relações hierárquicas fortes que sejam responsáveis ​​por suas vendas, seus produtos, sua filial, a sua loja etc., como contratantes independentes. Esta pressão no sentido de “eu” amplia o “compromisso” dos trabalhadores de acordo com técnicas de “gestão participativa” consideravelmente além do nível de gestão. Estas são todas as técnicas de dominação racional que impõem overcommittment no trabalho (e não só entre gestão) e trabalho de emergência sob alta tensão. E convergem no enfraquecimento ou abolição das normas e solidariedades coletivas (3) .

Assim, emerge um mundo darwiniano é a luta de todos contra todos em todos os níveis da hierarquia, que encontra apoio através de todos os que se apega ao seu trabalho e organização em condições de insegurança, sofrimento e estresse. Sem dúvida, o estabelecimento prático deste mundo de luta não teria sucesso tão completamente sem a cumplicidade dos arranjos precários que produzem insegurança e da existência de um exército de reserva de trabalhadores domésticos por estes processos sociais que tornam a sua situação precária, e pelo ameaça permanente do desemprego. Este exército de reserva existe em todos os níveis da hierarquia, mesmo nos níveis mais altos, especialmente entre os gestores. O fundamento último da ordem econômica inteiro colocado sob o signo da liberdade é de fato a violência estrutural do desemprego, a precariedade da segurança no emprego ea ameaça de demissão que ela implica. A condição de modelo de funcionamento “harmonioso” individualista microeconômica é um fenômeno de massa, a existência de um exército de reserva de desempregados.

Violência estrutural também pesa no que tem sido chamado de o contrato de trabalho (sabiamente racionalizado e irreal tornar-se “a teoria dos contratos”). O discurso organizacional nunca falou muito de confiança, cooperação, lealdade e cultura organizacional em uma idade em que a adesão à organização, em determinado momento é obtido através da eliminação de todas as garantias temporais (três quartos dos empregos têm duração fixa, o proporção de empregados temporários continua a aumentar, o emprego “à vontade” eo direito de demitir uma pessoa tendem a ser livre de todas as restrições).

Assim, vemos como a utopia neoliberal tende a encarnar na realidade uma espécie de máquina infernal, cuja necessidade se impõe mesmo nas réguas. Desde o marxismo em um momento anterior, em que este aspecto tem muito em comum, esta utopia evoca crença poderosa-fé de livre comércio, não só entre aqueles que vivem no meio dela, os financiadores, proprietários e gestores de grandes corporações, etc., mas também entre aqueles que, como altos funcionários do governo e políticos, derivam sua justificação vida dele. Eles santificar o poder dos mercados, em nome da eficiência econômica, que exige a eliminação de barreiras políticas e administrativas que impedem proprietários de capital em sua busca da maximização do lucro individual, que se tornou um modelo de racionalidade . Eles querem que os bancos centrais independentes. E pregar a subordinação dos Estados-nação com os requisitos da liberdade econômica para os mercados, a proibição de déficits e inflação, a privatização geral dos serviços públicos e reduzir a despesa pública e social.

Os economistas não necessariamente compartilham os interesses económicos e sociais de devotos verdadeiros e podem ter diferentes estados psíquicos individuais sobre os efeitos económicos e sociais da utopia, que se escondem sob o manto da razão matemática. No entanto, eles têm interesses bastante específicos no campo da ciência econômica para contribuir decisivamente para a produção e reprodução da devoção utopia neoliberal. Separada das realidades econômica e social, a sua existência e, especialmente, por seu intelectual, mais abstrato, muitas vezes, estudioso e teórico, são particularmente propensas a confundir as coisas da lógica com a lógica das coisas.

Esses economistas contam com modelos que raramente têm a oportunidade de apresentar a verificação experimental e são levados a desconsiderar os resultados de outras ciências históricas, que não reconhecem a pureza ea transparência cristalina de seus jogos matemáticos, cuja necessidade e profunda complexidade real com muitas vezes não conseguem entender. Mesmo que algumas das conseqüências horripilantes (pode aderir a um partido socialista e dar conselhos instruiu seus representantes na estrutura de poder), essa utopia não pode se preocupar porque, com o risco de algumas falhas, atribuído ao que é às vezes chamado “bolhas especulativas”, tende a dar realidade à utopia ultra-lógica (ultra-lógico como certas formas de loucura), que dedicam suas vidas.

E ainda assim o mundo está lá, com os efeitos imediatamente visíveis da implementação da grande utopia neoliberal: não só a pobreza de uma grande parte das sociedades economicamente avançados cada vez mais, o crescimento extraordinário em diferenças de renda, o desaparecimento progressivo de universos autônomos de produção cultural, como cinema, edição, etc., através da intrusão dos valores de mercado, mas também e sobretudo através de duas grandes tendências. Primeiro, a destruição de todas as instituições coletivas capazes de neutralizar os efeitos da máquina infernal, principalmente aqueles do Estado, repositório de todos os valores universais associados com a idéia de domínio público. Segundo imposição em todos os lugares, em lugares altos da economia e do Estado, bem como no coração de corporações, de que espécie de darwinismo moral que, com o culto do vencedor, educado em matemática superior e no salto em altura (bungee jumping), institui a luta de todos contra todos eo cinismo como norma de todas as ações e comportamentos.

Você esperaria que a massa extraordinária de sofrimento produzido por este tipo de sistema político-econômico podem um dia servir como o ponto de um movimento capaz de parar a corrida para o fundo de partida? Certamente, estamos diante de um paradoxo extraordinário. Os obstáculos encontrados no caminho para a realização do novo solitário sem ordem, mas ser atribuído à rigidez e vestígios hoje. Todos intervenção direta e consciente de qualquer espécie, pelo menos no que diz respeito ao Estado, é desacreditada com antecedência e, portanto, fadada a desaparecer em favor de um mecanismo puro e anónimo: o mercado, a natureza eo local de interesse é perdida exercício . Mas na verdade o que mantém a ordem social para dissolver no caos, apesar do volume crescente de populações de risco, é a continuidade ou a sobrevivência das instituições e representantes da velha ordem está sendo desmontado, e trabalhar de todas as categorias de trabalhadores, bem como todas as formas de solidariedade social e familiar. Ou então …

A transição para o “liberalismo” acontece de forma imperceptível, como a deriva continental, escondendo-se ver os seus efeitos. Conseqüências mais terríveis são de longo prazo. Estes efeitos são escondidos, paradoxalmente, pela resistência a essa transição está a tomar a defesa da velha ordem, alimentando-se os recursos contidos nas antigas solidariedades, em reservas de capital que proteger um monte desta ordem cair anomia social. Este capital social está condenada a murchar, mas não a curto prazo, se não for renovada e reproduzido.

Mas essas forças de “conservação”, é muito fácil de tratar como conservador, são também de um outro ponto de vista, as forças de resistência ao estabelecimento da nova ordem e podem tornar-se forças subversivas. Se ainda não é motivo de alguma esperança, é que todas as forças que existem atualmente, tanto em instituições públicas e nas orientações dos atores sociais (nomeadamente os indivíduos e grupos ligados a essas instituições, que têm uma tradição de civil e serviço público) que, sob o pretexto de simplesmente defender uma ordem que desapareceu com seus correspondentes “privilégios” (que é o que eles são acusados ​​de imediato) será capaz de resistir ao desafio só trabalhando para inventar e construir uma nova ordem social. Aquele que não tem a única lei a prossecução de interesses egoístas ea paixão individual de lucro e criar espaços para a busca racionalorientada coletivo de extremidades feitas coletivamente coletivamente e ratificado.

Como não poderíamos reservar um lugar especial nestes grupos, associações, sindicatos e partidos para o estado: o Estado-nação, ou, melhor ainda, o Estado supranacional Estado europeu a caminho de um Estado mundial, capaz de efetivamente controlar e taxar impostos sobre o lucro para os mercados financeiros e, acima de tudo, neutralizar o impacto destrutivo que estes têm sobre o mercado de trabalho. Isto pode ser conseguido com a ajuda de confederações sindicais organizar a preparação e defesa do interesse público. Gostemos ou não, o interesse público nunca vai sair, mesmo à custa de alguns erros matemáticos, a visão dos contabilistas (em um período anterior poderia ter dito de “comerciantes”) que o novo sistema de crença apresenta-se como a encarnação humana suprema.

Notas

1. Auguste Walras (1800-1866), economista francês, autor de Da natureza da Richesse et de l’origine valeur [sobre a natureza da riqueza e fonte de valor) (1848). Ele foi um dos primeiros a tentar aplicar a matemática à pesquisa econômica.

Dois. Erving Goffman. 1961. Asylums: Ensaios sobre a situação social dos doentes mentais e outros detentos [Asylums: Ensaios sobre a situação dos doentes mentais e outros presos] Nova Iorque.: Aldine de Gruyter.

Três. Veja os dois temas dedicados ao “Nouvelles formes de dominação dans le travail” [novas formas de dominação no trabalho], Actes de la recherche en Sciences Sociales série, n º 114, setembro de 1996, e 115, dezembro de 1996, especialmente com a introdução por Gabrielle Balazs e Michel Pialoux, “Crise du travail et Crise du politique” [crise do trabalho e crise política], No. 114: p. 3-4.

http://ssociologos.com/2013/06/16/pierre-bourdieu-la-esencia-del-neoliberalismo/

Publicado em Le Monde, na França.

FIDEL : O homem e a obra – por paulo timm / torres.rs

FIDEL : O homem e a obra

 

Paulo Timm – Torres , agosto 13 – copyleft

 

       “ Fidel Castro foi para a     Política o que Picasso foi  para a pintura no Século XX.”

                                                       F. Ramonet , do Le Monde.

 

*

Há alguns anos Fidel Castro parecia estar morrendo.  Dizia-se que um câncer  lhe corroía a imortalidade. Naquela época comecei a rascunhar-he uma espécie de necrológio. Divulguei entre alguns amigos. Os mais à esquerda me condenaram veementemente, dizendo-me tratar-se, tudo, PAULO TIMMde insidiosa guerra da mídia conservadora.  Recuei e não dei maior divulgação ao esboço. Hoje, superado o fato, quando Fidel completa 87 anos , releio meu próprio texto e me proponho a revisá-lo, tornando, enfim, público. Meu propósito é evidenciar Fidel Castro como uma encarnação contemporânea de Dom Quixote, este, por sua vez, um clássico herói helênico.

Todo mundo, então, se perguntava, quando Fidel adoeceu: O que acontecerá , agora, com Cuba? O que sobrará  da obra deste vulto do século XX ,que fez um Revolução Socialista nas barbas do Tio Sam, em plena Guerra Fria . E  que sobreviveu, sempre acossado, a mais de 15 Presidentes dos Estados Unidos; que conviveu com os grandes líderes soviéticos Kruchev. Brejnev, Gorbachev, com  Lumunba, Ho Chi Min, Mao Tse Tung;  com o maior filósofo de seu tempo – Jean Paul Sartre- ,quem deixou seu testemunho no clássico UM FURACÃO SOBRE CUBA -;  que foi companheiro de lutas do mítico  Ernesto CHE GUEVARA, na Sierra Maestra;  que tinha em Salvador Allende, a quem visitou no Chile durante sua curta experiência socialista, um amigo – o que me permitiu vê-lo em pessoa e de viva voz no Estadio que se transformaria em matadouro de esquerdistas no Golpe de 1973. Fidel também acompanhou, atento, às vicissitudes da política brasileira, desde Jânio Quadros ( o qual até  condecorou Che em Brasília), Jango, Brizola e  Lula, a quem tem suposta e secretamente ajudado   e que fez do controvertido Hugo Chavez,  seu mais íntimo confidente…?

Não se sabe exatamente o que ocorrerá com Cuba. Diz um Premio Nobel de Economia, Gary Becker, que, “se as coisas fracassam acabam mudando”. E não foram pequenos ,os fracassos da Revolução Cubana , principalmente na esfera econômica. Então, mudará.  Que dizer do cerco às liberdades em toda a ilha?. Mas também houve êxitos. Entre eles o alto nível cultural de uma população – única na América Latina – sem analfabetos, com bom nível de assistência médica e impressionante porcentagem de pessoas com nível científico, só inferior à americana e israelense. Outra conquista da Revolução foi a reconquista do sentimento de dignidade do cubano, antes reduzido e pintado como lacaio de investidores externos ou de  gângsteres norte-americanos . Este sentimento se mescla com um orgulho do cubano simples de se sentir pertencendo à uma sociedade mais ou menos homogênea liderada por uma elite que se tem demonstrado senhora de uma austeridade inexistente em outras experiências revolucionárias ou no resto da América Latina e que, por isto mesmo, continua merecendo o respeito de seu povo. Fracassos e êxitos, pois, no distanciamento cada vez maior   do Grande Herói da Revolução Cubana, conduzirão à inevitáveis mudanças. E ficará a dúvida: Quem foi Fidel? O que representou ele? Como realmente era?

Fidel foi , talvez, a mais convincente síntese contemporânea dos ideais de virtude  ocidental, juntando a inspiração aristocrática helênica à boa nova cristã.

Para os gregos, a grande virtude , capaz de imortalizar seu portador, consistia na consigna:  dizer palavras e realizar ações. Este ideal foi cunhado na formação da alta cultura helênica com base nos valores de honra da aristocracia em luta pela terra e a distinguiu por onde se estendeu, principalmente no mundo romano. Tratava-se da Arete, que viria a inspirar Aristóteles na fundação da Ética.  Mas quis o cristianismo, que  vicejou no primeiro século dos Cesares, disseminando-se   entre as pessoas mais simples do Império ,  que a palavra – empenhada na fé – e não a grande obra, viesse a encarnar a figura do herói. Era a sublimação da morte na cruz pela salvação da humanidade.  Democratizava-se, assim, o ideal aristocrático adequando-o a uma sociedade que, por primeira vez na história, se massificara. E já não permitia manter grandeza de Roma em pé. Faz-se em frangalhos a grande obra material transfigurando-se no Império da Igreja. Mas não perde, jamais, a noção do heroísmo. Pelo contrário, o exalta pelo sacrifício de Cristo.  E não por  acaso, o ideal da revolução comunista, dezoito séculos mais tarde, quando, precisamente, Paris reeditaria em número o tamanho de Roma , ofereceria  o cenário para a reafirmação da virtude heróica.

 

A Revolução iluminista retomava a idéia helênica de grande obra como conquista popular por meio da razão.E o fazia pela palavra dos filósofos. Enaltecia a destruição do velho mundo como o caminho da prosperidade e dignidade humanas.  Cumpria-se, enfim, a afirmação grega de que o filósofo estava para o homem , como o homem para a natureza: O homem apoderando-se de sua história. E aqueles  que encarnassem esse desafio, passavam a ser  os novos imortais. Fidel foi, de longe, um dos mais emblemáticos deles. E, como tal, é um  dos grandes heróis dos tempos modernos.

 

Curiosamente, Fidel guarda, como duas de suas principais características pessoais ,o ser um homem extremamente bem educado e polido .

Todos os que conviveram ou que com ele tiveram contatos mais estreitos, especialmente F. Ramonet,  Editor do Le Monde Diplomatique, que lhe entrevistou longamente,  daí retirando o material para um livro lançado na França,  confirmam essas qualidades “nobres”  de Fidel. Ele nada dos modos rudes dos antigos líderes soviéticos, nem  muito menos com  os maneirismos exagerados  de lideres populistas do continente, à la Chavez, ou de La Kirchner.  Ele é , rigorosamente, um  aristocrata. E  é precisamente  esta característica que acaba lhe atribuindo o pior defeito: o distanciamento.  Nada existe em torno a Fidel. Ele reina soberano envolto numa aura de quase sacralidade.

Mas, ao mesmo tempo,  todos , fora os exilados em Miami, são  também unânimes em reconhecer seu compromisso na construção de uma sociedade igualitária em Cuba , revelando , aí, sua alma particularmente cristã. Paradoxo diante de um empedernido comunista? Não!  Já ninguém duvida que a  emergência dos ideais salvacionistas doscommunards  hodiernos proveio de fonte religiosa, embora revestido de forte anti-clericalismo  e um materialismo ingênuo. A obstinação communard  só fez seguir os passos do ideal cristão. Esta religião, o catolicismo, nos seus primórdios,  emergiu num contexto de grande turbulência espiritual. Roma pontificava no Século I DC , a ferro e fogo, sobre um território continental que ia da fronteira com a China à Europa –hoje – Ocidental uma pax laica , que convivia com intenso intercâmbio de crenças, superstições, divindades,  gerando tensões inusitadas, incrementadas pelo contágio com povos ditos bárbaros  e pelo instituto da escravidão em larga escala.Nesse contexto, a idéia da salvação, sob uma bênção que se distribuía indistintamente entre cidadãos e não cidadãos, romanos, senhores e escravos, nacionais e estrangeiros, homens e mulheres,, era simplesmente revolucionária. Custou o martírio nas arenas e câmaras de tortura. Mas desembocou na fusão da Boa Nova com a filosofia  e cultura gregas, presentes neste mesmo espaço desde cedo. E são estes mesmos ingredientes que aportam , pela via do Renascimento e do Iluminismo, ao século xx . Fidel é um filho dileto desta tradição, na mensagem de compromisso de salvação de almas e corpos, fundada no amor, alternando a construção de utopias com o uso da razão como critério da verdade.

Mas Fidel é , ainda, um espanhol clássico. A Península Ibérica sempre foi uma terra intensamente disputada  por cartagineses, romanos, árabes e , já no século XIX, pelos vizinhos franceses. Todos conhecem  a encarniçada resistência que os espanhóis ofereceram ao exército napoleônico. Seus próprios ocupantes nativos ,dos quatro cantos da Ibéria, até hoje mantêm diferenças e disputas significativas. O espírito de luta permanente nesta terra gerou um tipo de personalidade sui generis no espanhol: sua forte disposição de luta. O conflito interpondo-se, sempre, como um atributo da firmeza do caráter. Mesmo quando os confrontos se elevavam para o campo fértil das idéias precocemente estabelecidas nos grandes centros de pensamento, já à época da ocupação árabe, fazendo do grande Averróis um precursor do iluminismo, o espírito espanhol se enrigecia transformando-se no que um autor chamou de propensão à irreligião e à infilosofia. Pois aí está o comunismo de Fidel. Um comunismo militante, tão religioso como o catolicismo jesuítico dos membros da Compania de Jesus, fundada por Inácio de Loyola, na Espanha, para combater a Reforma. Um conjunto de sólidos dogmas cunhados pela fé destinados a oferecer um caminho para a salvação da humanidade.

Santiago Dantas, um dos mais brilhantes intelectuais brasileiros dos anos dourados  escreveu um pequeno livro intitulado “Quixote, um apólogo do Século XX”. Aí ressalta os dois  grandes modelos de heroicidade ocidental que referimos, dispondo-os , aliás, como antagônicas e mostrando o personagem de Cervantes como o paradigma  cristão. Esqueceu-se, a propósito , de dizer, que Quixote, ao contrario de Cristo, não morre, retira-se, embora tenha neste personagem vida eterna. Mas tivesse Santiago Dantas vivido até nossos dias teria, certamente, visto em Fidel Castro a síntese destes paradigmas, que não chegou a perceber. Fidel, ao encarnar historicamente Quixote dá-lhe com a Revolução Cubana a obra que lhe faltou, deixando-lhe legado trágico, eivado de indagações. Mas ainda aí, uma semelhança: A Grande Obra da Revolução Cubana, nobremente conquistada com o objetivo de realizar a moderna utopia de uma sociedade sem aristocratas de sangue, dinheiro e prestígio , não passa  também de um grande fracasso. Mas um fracasso que se sustenta aos olhos de seu ideal igualitário jamais cumprido. Ironicamente, Fidel , na velhice, começa a se parecer de uma forma impressionante com o personagem Quixote. Não lhe faltam , sequer, os tropeços, o olhar franco e triste mergulhado na voz rouca de tanto falar, a envergadura alquebrada do fidalgo espanhol castigado pelo confronto de seus sonhos com a realidade.

Com Fidel, envelhecido mas honrado,  vão-se também os últimos suspiros do socialismo cunhado no Século XX  confirmando as escusas de Prometeu a Zeus  que o acusava por ter dado o fogo aos homens:

 “Lembrai  Senhor, que junto com o fogo, dei-lhes , também, vãs ilusões…”

 

Fidel, enfim, vive e viverá sempre, inspirando os idealistas à resistência, no sendeiro da utopia. Sua obra é a escrita  indelével da Revolução Cubana.  Imortal!

A praga dos empréstimos consignados – por paulo timm /torres.rs

A praga dos empréstimos consignados

Paulo Timm – Torres 07 agosto – copyleft

Uma das características positivas da Política Econômica da Era Lulista foi a forte expansão do crédito no país, a qual, no Governo Dilma, vinha  se beneficiando da redução das taxas de juros. O crédito mais fácil estimulou o consumo pessoal e contribuiu para dinamizar a PAULO TIMMeconomia. Hoje, discute-se se  esta estratégia seria suficiente para o manter um ritmo razoável de  desenvolvimento do país, pois a economia já se encontra em pleno emprego e todo o incremento do consumo, sem os indispensáveis investimentos que ampliem a capacidade produtiva, tendem a, simplesmente, elevar os preços. Isto estaria por trás do reaparecimento da inflação, já fora das metas programadas. Outra crítica, aponta para os níveis elevados de endividamento da classe média que já não comportam novos empréstimos. Mas comparações internacionais demonstram que nossos níveis ainda são muito mais baixos do que o de países desenvolvidos, não chegando a comprometer 50% da renda familiar.

 

Endividamento do brasileiro é recorde publicado no Estado de S. Paulo.

 “A dívida total das famílias no cartão de crédito, cheque especial, financiamento bancário, crédito consignado, crédito para compra de veículos e imóveis, incluindo recursos do Sistema Financeiro da Habitação (SFH), corresponde a 40% da massa anual de rendimentos do trabalho e dos benefícios pagos pela Previdência Social no País…” aponta um estudo da LCA Consultores, outros artigos sobre o assunto estão no  PDF Anexado. http://bit.ly/jQMew5

                          (Recorde Dívida Pessoal -Estado de S. Paulo)

 

Ainda assim, é de se ressaltar que a demanda por créditos novos caiu no ano de 2012,  enquanto a inadimplência se elevou:

Esta semana, nesta sexta-feira, números da Serasa Experian sobre Demanda do Consumidor por Crédito, revelam que a quantidade de pessoas que procurou crédito em 2012 recuou 3,1%¨, a maior taxa desde que existe o índice, 2007. Também esta semana, a mesma Serasa Experian revelou que a inadimplência aumentou 15% no ano passado.

(http://co123w.col123.mail.live.com/default.aspx#n=1372419733&st=polibio.braga%40uol.com.br&mid=823e28d8-5c1a-11e2-9f0a-00215ad9df92&fv=1 )

Outro problema, associado aos níveis de endividamento dos setores privado e público no Brasil, diz respeito não apenas à porcentagem de comprometimento do poder efetivo de compra de cada um, mas do custo deste endividamento, vez que as taxas de juros, aqui, são muito mais altas do que em outros países. Veja-se esta comparação, no diagrama abaixo, demonstrativa deste custo no tocante às famílias:

http://www.cativaimagem.com.br/Visualizacao/Jornal.aspx?idMt=471511

 

Um dos fortes elementos da expansão do crédito, porém, os Empréstimos Consignados, com pagamento garantido por desconto automático em Contra Cheque,  começa a apresentar alguns problemas. Parte deles foi levantada em recente programa da Globonews. Um deles, porexemplo: a Taxa de Juros muito alta e resistente à baixa. Nada justifica, hoje, uma taxa que supera os 2,5% ao mês para empréstimos com pagamento assegurado, com risco próximo de zero aos Bancos. Outro: Apesar da anunciada “portabilidade” que assegura aos devedores a renegociação da dívida e sua transferência a outro Banco, de juros mais baixos, ainda é praticamente impossível levar a cabo tal procedimento. Os bancos credores criam todo o tipo de dificuldade para isso. Mas o pior: As fraudes… Uma delas consiste no lançamento dos financiamentos por meio da falsificação de documentos e dados do aposentado ou servidor público. Estes só ficam sabendo da operação meses depois quando percebem os descontos em folha e aí iniciam uma peregrinação para cancelá-las, não raro, só possível através de custosas e demoradas Ações Judiciais. Outra modalidade de fraude, da qual fui vítima há um ano e agora novamente , consiste no refinanciamento da dívida, estendendo-a por mais 60 meses, com uma mensalidade exatamente igual à que o mutuário vinha, regularmente, pagando, de forma a que não se aperceba do processo fraudulento. Também neste caso, apesar da fraude visível é quase impossível anular a operação e suspender os descontos em folha. Eu tento sido vítima de tais procedimentos e acabo de sê-lo  novamente. Por isso   apelei ao bom senso dos dirigentes do IPEA e Unb, pelos quais recebo, para que abram SINDICÂNCIA INTERNA para verificar eventuais ramificações de quadrilhas fraudadoras nos órgãos de processamento dos contracheques nestes respetivos órgãos.  Tento, em vão, obter cópia dos instrumentos da fraude, como contratos, junto ao IPEA e UnB e tampouco os obtenho. Um absurdo.

Cabe registrar que quando os empréstimos consignados são feitos com aposentados do INSS este órgão já criou mecanismos muito mais ágeis de suspensão das mensalidades e contratos mediante mera denúncia da vítima. Junto aos órgãos públicos, porém, reina sublime confusão.

É importante, pois, que todos aqueles que têm descontos em folha por empréstimos consignados, verifiquem, a cada mês, a situação destes descontos, os quais devem apresentar, sempre, número de mensalidades ainda a pagar. Diante de qualquer alteração no valor da “mensalidade” ou no número de futuros pagamentos , deve-se procurar o órgão emitente do contra cheque ou  o gerente do Banco por onde se recebe,  pedindo  explicações. Percebendo indícios de fraude, convém fazer um Boletim de Ocorrência na Polícia onde reside, informando também, por escrito – email ou ofício –  o órgão pagador e a POLICIA . Outra medida importante consiste na denúncia do fato ao Banco Central, em virtude haver sempre instituições financeira envolvidas: http://www.bcb.gov.br/?RECLAMACAODENUNCIA

Há no  BC há um cadastro chamado Sistema de Informações de Crédito do Banco Central ( SCR ) no qual ficam registradas as operações de crédito realizadas por uma pessoa ou empresa. Esse cadastro auxilia a instituição financeira na concessão de crédito, pois permite a ela ter uma noção nível do endividamento do tomador. O cidadão também pode consultar esse cadastro para ver se há operações fraudulentas realizadas em seu nome.

Um outro cadastro é o CCS, Cadastro de Clientes do Sistema Financeiro Nacional, no qual é possível consultar em quais bancos uma pessoa possui conta. A finalidade do cadastro é auxiliar a justiça em processos de execução. Mas o cidadão também pode consultá-lo para verificar a ocorrência de uso indevido de seu CPF ou CNPJ.

Ou seja, se alguém abriu uma conta em um banco com o seu nome, essa informação estará no CCS. Se alguém realizou uma operação de crédito tal  informação estará no SCR.

Se, entretanto, depois  algum tempo de denúncias e reclamações, os procedimentos fraudulentos verificados não forem resolvidos, não titubeie: Procure um advogado. É o que estou fazendo, a contra-gosto, com inevitáveis prejuízos e enormes tensões, neste momento.

COMPREENDAMOS A REALIDADE. OU NÃO – por paulo timm /torres.rs

 

Paulo Timm – Torres, agosto 02 – copyleft

“As 300 maiores fortunas do planeta acumulam mais riqueza que os mais de 3 bilhões de pobres que existem no mundo e representam 99% da população.”

( Jason Hickel, da  London School,  assessor do movimento The Rules, que luta contra a desigualdade)

*

Compreendamos a realidade. Afinal, trata-se da vida como ela é. Duas grandes observações. A primeira de Maquiavel, uma máxima ; a segunda, de Nelson Rodrigues, mera alegoria. Juntas, uma verdadeira estratégia de sobrevivência, em qualquer lugar, em qualquer tempo.  “ A guerra de todos contra todos”… Os séculos XVI e XVII, aliás, são pródigos em máximas que acabariam moldando os tempos vindouros. Tudo dissecado pelo bisturi da modernidade, quando tudo se volvió positivo: A Ciência Positiva, desde Newton; a Economia Positiva, desde Marshall; o Direito Positivo, desde Kelsen; a Sociologia Positiva, desde Comte e Durkheim; até a Filosofia, desde sempre especulativa, agora tem uma vertente Positiva, cevada no profícuo leito do Círculo de Viena . A soberania absolutista do fato ,  sob o imperativo iluminista do binômio razão + liberdade.  Esta, supostamente isenta de qualquer poder alheio que lhe tolha os movimentos, aquela, a serviço da verdade.

Tudo a serviço da destruição do planeta, da humanidade…Pouco importa. O que importa são os resultados parciais: O PIB, o desejo saciado, as próximas eleições. Nisso o Mundo Moderno é ótimo. Já chegamos ao Novo Continente e estamos tocando as estrelas…Em breve a Aldeia Global será celestial. E mesmo que não cheguemos lá, nossos artefatos lá chegarão.

Tendo me adaptar à esta realidade da vida mas jamais consegui. Nem consigo. Serei pré-moderno ou pós…? Não sei. Só sei que a despeito de tudo, tal como o Poeta, tenho em mim os maiores sonhos do mundo. Sou um sonhador. Até meu socialismo, longe de ser criterioso ou científico, como pretendem os modernos, é utópico. Sonho com um Estado sem crimes a serviço do bem comum; com um sistema econômico perfeitamente produtivo e redistributivo sobre as pessoas e a natureza; com uma sociedade socialmente equilibrada, na qual todos tenham acesso não só aos bens essenciais ao corpo, mas, sobretudo essenciais ao espírito;  sonho com a beleza, com o amor e com a Poesia, embalados em suaves acordes bachianos; sonho, enfim, com a possibilidade de que a razão e a liberdade se combinem para a salvação do Homem.

♫ ♪♫ Sonho meu…! Sonho Meu…! ♫ ♪♫.

A dura realidade é maior do que meus sonhos. Ou do que a canção. Governos praticam hediondos crimes, a economia do mundo caminha para a concentração da riqueza nas mãos de meia dúzia, que consomem todas as riquezas do planeta, a sociedade está cada vez mais desequilibrada, o mundo está em visível desencanto. Daí, talvez, a euforia com um Papa tão conservador e ao mesmo tempo tão simpático, cuja principal característica é falar o óbvio. Mas é precisamente do óbvio que estamos precisando.

O *Le-Monde* desta quarta (8/ago-2012) aborda a mais escandalosa das desigualdades.

– 4/5 do consumo global (76,6%) é realizado pelos dois décimos mais ricos;

– o décimo mais rico é responsável por quase 3/5 do consumo (59%).

– as taxas de crescimento dos mercados de luxo sempre superam as demais,
tanto em fases de expansão, quanto nas de retração global.

Assim é, pois… Em plena crise as fortunas aumentam (correiodobrasil.com.br/) , o mercado de luxo dispara (Worldwide Luxury Markets Monitor –
Fondazione Altagamma: http://www.altagamma.it ), os bancos, cuja principal mercadoria é informação, apresentam lucros fabulosos (www.cartamaior.com.br | 01/08/2013 ), os brasileiros mais aquinhoados vão às compras no exterior e torram em alguns dias os dólares  que a natureza levou milhões de anos para produzir.

Compreendamos a realidade. Afinal, trata-se da vida como ela é. Guerra de todos contra todos

Será mesmo…?

Acho que é mais a do 1% contra os 99%.

Breno Altman dedetiza Olavo de Carvalho

BRENO SOBRE OLAVO: “A MÃO QUE BALANÇA O BERÇO DA VIOLÊNCIA”

“O único propósito deste filósofo de bordel é semear intolerância e ódio contra ideias, organizações e vozes do campo progressista”, diz o jornalista Breno Altman, sobre o ataque feito pelo “trânsfuga” Olavo de Carvalho
1 DE AGOSTO DE 2013 ÀS 16:04

A mão que balança o berço da violência

Propósito de Olavo de Carvalho é semear intolerância e ódio contra ideias, organizações e vozes do campo progressista

O senhor Olavo de Carvalho faz parte de uma turma bem conhecida. A dos trânsfugas, com suas mentes atormentadas e rancores insones. Talvez seja o lobo mais boçal da alcateia, mas não está sozinho. Do mesmo clube fazem parte Reinaldo Azevedo, Arnaldo Jabor, Demétrio Magnoli, Marcelo Madureira e um punhado de outros. Foram todos, na juventude, militantes de esquerda. Hoje são a vanguarda do liberal-fascismo.

O único propósito deste filósofo de bordel é semear intolerância e ódio contra ideias, organizações e vozes do campo progressista. A expressão, no caso, não tem o objetivo de rebaixar os frequentadores de lupanários e suas abnegadas profissionais. Apenas identifica um tipo clássico de charlatão, capaz de dissertar sobre vários assuntos sem conhecer qualquer um deles, para gáudio dos porcos que se refestelam com pérolas de conhecimento rasteiro.

Sua primeira resposta ao artigo em que foi citado, aliás, é bastante reveladora de personalidade e padrão intelectual. “Fico no bordel olhando a sua mãe balançar as banhas diante dos clientes, e aproveito para meditar o grande mistério do parto anal”, escreveu o energúmeno. Não é uma gracinha? Tratado como professor e guru por seus áulicos, a verdade é que não passa de um embusteiro.

Figuras desse quilate normalmente deveriam estar relegadas ao ostracismo. O degenerado Carvalho, porém, é representativo de valores e métodos das forças de direita. Mentiroso contumaz, atua como menestrel a animar suas hordas contra a democracia e a esquerda.

Calça-frouxa, seu dedo não aperta o gatilho, mas vocifera mantras que estimulam a violência e exaltam gangues fascistas como as que atacaram integrantes do Foro de São Paulo na noite de ontem. Por essa razão, Opera Mundi decidiu publicar, com destaque, sua resposta. Nada mais daninho a um vampiro de corações e mentes, afinal, que a luz do dia.

O alvo da ocasião é uma entidade que, desde a fundação, realiza todas as suas reuniões de forma pública, abertas à cobertura de imprensa e até às provocações de mequetrefes. Os integrantes são partidos que lideraram revoluções populares, foram levados aos governos de seus países pelas urnas ou estão na oposição a administrações conservadoras. As agremiações mais antigas estiveram à frente, heroicamente, da resistência dos povos da região contra ditaduras que provocam nostalgia na canalha fascista.

O degenerado Carvalho tem saudades dos tempos da tortura e do desaparecimento, das prisões e assassinatos. Suas infâmias pueris para criminalizar o Foro de São Paulo evidenciam seus pendores, mas também denunciam desespero diante do avanço das correntes progressistas por toda a América Latina. Contorce-se de ódio. Os cães sempre ladram quando passa a caravana.

Quem age na sombra e na penumbra, sem dar qualquer satisfação sobre como se financiam ou se organizam, são as quadrilhas do submundo reacionário, aquelas que se embevecem com a retórica dos vira-casacas e saem às ruas para atos de agressão covarde. Navegam na cultura política gerada pela máquina de comunicação do pensamento conservador, dedicada a estereótipos e amálgamas contra a esquerda.

O degenerado Carvalho não vale meia aspirina vencida, mas é parte de uma súcia a qual já passa da hora de ser combatida sem contemporização. Essa patota dedica-se a agredir reputações, inventar histórias e disseminar cizânia, açulando os porões da sociedade e do Estado. Destruir o ovo da serpente é indispensável para impedir que a violência fascista se propague em nossa vida política.

O filósofo tem o direito democrático de continuar sua cantilena no bordel que bem desejar e o aceitar. Mas toda vez que levantar sua voz para incitar o crime, ou gente de sua laia o fizer, a resposta deve ser pronta e imediata. Nunca é tarde para a devida dedetização ideológica dos vermes e insetos que funcionam como arma biológica do reacionarismo.

* Breno Altman é jornalista, diretor editorial do site Opera Mundi e da revista Samuel.

No Brasil 247.

CADÊ O AMARILDO? CADÊ MARIA DO ROSÁRIO? – por paulo timm / torres.rs

CADÊ O AMARILDO? CADÊ MARIA DO ROSÁRIO?

                        Paulo Timm – Torres, julho 31 – copyleft

Aquele, pois, que sabe fazer o bem e não o faz, comete pecado

Tiago: 4. 17

 

Há duas semanas o auxiliar de pedreiro Amarildo de Souza, brasileiro, morador da Rocinha-RJ, foi “detidoparaaveriguações” e ela Polícia Militar do Estado do Rio e sumiu.Ele não pode estar entre os 3,3 milhões de pessoas que saudaram o Papa. Mas, desde então, por todos os cantos do país, com grande impacto na mídia, todos se indagam:

CADÊ O AMARILDO?

O país está inquieto com o desaparecimento do operário nas mãos de órgãos de Segurança. Parece que voltamos PAULO TIMMaos anos de chumbo da ditadura. Ou, quem sabe, nunca saímos realmente dela? Mais precisamente, quem sabe ela sempre existiu para quem é negro, mulato, pobre e  morador de periferia? Ou gay? Lembro, com emoção do dia em que o General Geisel, Presidente da República, demitiu o Comandante do II Exército, em São Paulo,  Gen. Enardo D´Avila ,depois do episódio das torturas e mortes no DOI-CODI. Foi um momento dramático no processo de redemocratização. O país rumava para o Estado de Direito Democrático e se tinha grandes esperanças em que em breve veríamos o fim das arbitrariedades policiais. Com a Nova República em 1985 e com a Constituição de 1988 houve avanços: Os líderes de movimentos políticos e sociais são mais respeitados, apesar da criminalização de manifestações desde o Governo FHC. Mas a truculência nunca arrefeceu. Os métodos, a filosofia de atuação dos órgãos de segurança e a ação da Polícia continuam os mesmos quando tratam com pessoas simples do povo e mesmo com eventuais delinqüentes ou condenados ou simplesmente membros de uma minoria discriminada. No fundo, a questão social ainda é tratada, apesar dos afagos de um governo federal de inspiração popular em suas origens, como caso de Polícia, tal como na Velha República ou no Império. Ou na ditadura. Isso tem que mudar! O povo hoje mais esclarecido, mais consciente de seus direitos já não suporta este tipo de Política e de Polícia. Metade dos eleitores brasileiros já têm secundário ou superior completo, nas grandes metrópoles todos têm acesso à INTERNET e Redes Sociais, um terço dos municípios brasileiros, segundo IDHM recém publicado pelo IPEA/PNUD, é  alto e comparável ao de países desenvolvidos, nossa vida média também é comparável à deles, 73 anos. Estamos vivendo mais, sabendo das coisas e de olhos e ouvidos muito abertos. Por isso queremos saber:

CADÊ O AMARILDO?

Chega a ser comovente, ver e ouvir familiares de sua família dizendo que não querem proteção governamental. Querem é saber do Amarildo. Até porque se dizem protegidos pela comunidade. Que coisa impressionante! Sentem-se protegidos pela comunidade. Então, existe comunidade na Rocinha. E existe consciência e solidariedade na favela. A favela é humana…Isso, acima de tudo, é lindo! Isso é o verdadeiro Brasil! Não o mundo artificial dos Políticos e outras autoridades públicas deste país que continuam a achar que seus cargos lhes conferem privilégios de Príncipes: salários altíssimos, assessorias incontáveis, mordomias, conluios altamente sospechosos  com interesses privados como se vivêssemos nas cortes absolutistas. Pior: eternização na vida pública tansformando de instrumento da sociedade em meio de vida pessoal.

Aí vem o Governador Cabral,  tocado pelas palavras do Papa e pede perdão pelos pecados cometidos. Reconhece que foi soberbo e prepotente.  Agora vai ouvir as ruas: O Museu do Indio será preservado, ao lado do Maracanã. As passagens de ônibus não aumentarão. Eotras cositas más…Tocante! Mas tragicômico. Teve que ter o menor reconhecimento público (12%) e submeter o Brasil aos vexames dos desencontros na vinda do  Papa Francisco para se dar conta de que havia “ algo de podre no Reino da Dinamarca”. A ele meu  veredicto:

                                               FORA CABRAL!

Mas ao longo de todas as manifestações de junho e julho, me ocorre outra indagação:

CADÊ A MARIA DO ROSÁRIO, Ministra dos Direitos Humanos?

A diligente Ministra, tão ciosa de suas responsabilidades na Comissão da Verdade parece achar que os atentados à pessoa humana só aconteceram na ditadura. Será que ela não sabe que não há Governo sem crime? Particularmente em sociedades com elevado passivo social e evidente histórico de violência policial? A OAB e Defensorias Públicas do Rio e São Paulo, até de outras cidades que também têm visto manifestações de rua, não arrefeceram em seu ofício de proteger a cidadania. Mas jamais vi ao lado deles a Ministra. Nem lhe ouvi uma só palavra sobre os exageros do Estado contra manifestantes ou mesmo contra  meros transeuntes, vítimas de balas de borracha e gases  intoxicantes. Isso se chama omissão. A mesma omissão do antigo comandante do II Exército, à época dos generais, que o levou ao desterro:

É evidente que estamos falando de omissão, que nada mais é do que nos silenciar diante de determinadas coisas, ficarmos mudos diante de fatos onde deveríamos nos posicionar, deixar de lado aquilo que não poderia ser deixado.

(O pecado da omissão – http://www.palavrafiel.com.br/?p=3865)

 

Ora direis ouvir estrelas, responderão alguns. Isso é pura poesia teológica. Recorro, então, ao dicionário e ele é ainda mais contundente:

Omissão, no direito, é a conduta pela qual uma pessoa não faz algo a que seria obrigada ou para o que teria condições.

Deduzo, pois, que Maria do Rosário foi e continua sendo OMISSA diante do que vem ocorrendo no país e, principalmente, diante do desaparecimento de Amarildo. Ela deveria ser sempre a primeira voz em defesa dos Direitos Humanos ameaçados. E a primeira a exigir providências, na forma da Lei. Se não o fez e não faz, cabe à Presidente Dilma a responsabilidade de chamá-la ao Ofício. Enquanto isto, nos continuaremos gritando, a plenos pulmões:

                               C A D Ê   O   A M A R I L D O?

E lamentando o fato de que uma área tão delicada quanto Direitos Humanos tenha sido entregue, não a uma lutadora ou  lutador eméritos desta nobre causa, como é Perez Esquivel, como é Paulo Sérgio Pinheiro, como é José Gregori, como foi Dom Paulo Evaristo Arns,  mas a uma militante partidária,  eventualmente respeitável  mas sem vulto, nem desenvoltura  na área. Muito menos independência.  Decididamente, Dilma está só. Muito só!

Senhor, rogai por ela! Por Amarildo! Por todos nós..!!!

Jornada Internacional da juventude: celebração e compromisso – por leonardo boff /são paulo.sp

Jornada Internacional da juventude: celebração e compromisso

28/07/2013

No pensamento social e filosófico a questão da  fé não está em alta. Antes pelo contrário, a maioria dos pensadores tributários dos mestres da LEONARDO BOFFsuspeita e filhos da modernidade, colocam a fé sob suspeita, considerada como pensamento arcaico e mítico ou como cosmovisão do povo supersticioso e falto de conhecimento, na contramão do saber científico.

Como quer que interpretemos a fé, o fato é que ela está ai e mobiliza milhões de jovens vindos de todo mundo para a Jornada Mundial da Juventude, além de outros milhares que acorreram para ver o novo Papa Francisco. Suspeito que nenhuma ideologia, causa ou outro tipo de líder que não religioso consiga trazer para as ruas tão numerosa multidão. Pode-se dizer, responsavelmente, que ai vigora alienação e arcaismo?

Tal fato nos leva a refletir sobre a relevância da fé na vida das pessoas. O conhecdido sociólogo Peter Berger mostrou em seu Rumor de anjos: a sociedade moderna e a redescoberta do sobrenatural (1969) a falácia da secularização que pretendeu ter banido do espaço social a religião e o sagrado. Ambos ganharam novas formas mas estiveram sempre ai presentes, porque estão enraizados profundamente nas damandas fundamentais da vida humana.

Imaginar que um dia o ser humano abandone totalmente a fé é tão inverossímil quanto esperar que nós para não ingerirmos alimentos quimicalizados ou transgênicos deixemos uma vez por todas de comer. Quero abordar a fé em seu sentido mais comezinho, para aquém das doutrinas, dogmas e religiões, pois ai aparece em sua densidade humana.

Há um dado pre-reflexo que subjaz à existência de fé: a confiança na bondade fundamental da vida. Por mais absurdos que haja e os há quase em demasia, o ser humano crê que vale mais a pena viver do que morrer. Dou um simples exemplo: a criança acorda sobressaltada em plena noite; grita pela mãe  porque o pesadelo e a escuridão a encheram de medo. A mãe toma-a no colo, no gesto da magna mater, enche-a de carinho e lhe diz: “querida, não tenhas medo; está tudo bem, está tudo em ordem”. A criança, entre soluços, reconquista a confiança e dentro de pouco, adormece tranquila. Estará a mãe enganando a criança? Pois nem tudo está bem. E contudo sentimos que a mãe não mente à criança. Apesar das contradições, há uma confiança de que uma ordem básica perpassa a realidade. Esta  impede que o absurdo tenha a primazia.

Crer é dizer:”sim e amém” à realidade. O filósofo L. Wittgenstein podia dizer em seu Tractatus logico-philosophicus: “Crer é afirmar que a vida tem sentido”. Este é o significado bíblico para fé –he’emin ou amam – que quer dizer: estar seguro e confiante. Daí vem o “amém” que significa:“é isso mesmo”. Ter fé é estar seguro no sentido da vida.

Essa fé é um dado antropológico de base. Nem pensamos nele, porque vivemos dentro dele: vale a pena viver e sacrificar-se para realizar um sentido que valha a pena.

Dizer que este sentido da vida é Deus é o discurso das religiões. Esse sentido pervade a pessoa, a sociedade e o universo, não obstante nossas infindáveis interrogações. Escreveu  o Papa Francisco na encíclica Lumen Fidei:”A fé não é luz que dissipa todas as nossas trevas mas é uma lâmpada que guia nossos passos na noite e isto basta para o caminho”.

Dizer que esse sentido, Deus, se acercou de nós e que assumiu nossa carne quente e mortal em Jesus de Nazaré é a leitura da fé cristã. Em nome desta fé em Jesus morto e ressuscitado, se reuniram esses milhares de jovens e acorreram mais de dois milhões de pessoas em Copacabana.

Entre outros traços do carisma do Papa Francisco é sua fé cristalina que o torna tão despojado, sem medo (o que se opõe à fé não é o ateismo mas o medo) que busca proximidade com as pessoas especialmente com os pobres. Ele inspira o que é próprio da fé: a confiança e o sentimento de segurança. É o arquétipo do pai bom que  mostra direção e confiança.

Fez uma conclamação importante, verdadeira lição para muitos movimentos no Brasil: a fé tem que ter os olhos abertos para as chagas dos pobres, estar perto deles e as mãos operosas para erradicar as causas que produzem esta pobreza.

Na Jornada houve belíssimas celebrações e canções cujo tom era de piedade. Entretanto, não se escutaram as belas canções engajadas das milhares comunidades de base. Não se ouviram também  suas belas canções que falam do clamor das vítimas, dos indígenas e camponeses assassinados e do martírio da  Irmã Dorothy Stang e do Padre Josimo. O Papa Francisco enfatizou uma evangelização que se acerca do povo, na simplicidade e na pobreza. Repetiu muito:”não tenham medo”. O empenho pela justiça social cria conflitos, vítimas e suscita medo, que deve ser vencido pela fé.

Voltemos ao tema da fé humana. Quantos são aqueles que se apresentam como ateus e agnósticos e no entanto possuem essa fé como afirmação do sentido da vida e se empenham para que seja justa e solidária. Talvez não a confessam em termos de Deus e de Jesus Cristo. Não importa. Pois a base subjacente a esta fé em Deus e Cristo está lá presente sem ser dita.

Esta fé básica impõe limites à pós-modernidade vulgar que se desinteressa por uma humanidade melhor e que não tem compromisso com a solidariedade pelo destino trágico dos sofredores. Outros, vendo o fervor da fé dos jovens e a comoção até às lágrimas sentem talvez saudades da fé da infância. E ai podem surgir impulsos que os animam a viver a fé humana fundamental e quem sabe se abrem até à fé num Deus e em Jesus Cristo. É um dom. Mas o dom de uma  conquista. E então um sentido maior se abre para uma vida mais feliz.

Os jovens, dedos rápidos nos celulares, tomaram as ruas ao redor do mundo. – luis inácio LULA da silva / são paulo.sp

TEXTO DE LULA no “New York Times” on line

Os jovens, dedos rápidos nos celulares, tomaram as ruas ao redor do mundo.

 

Seria mais fácil explicar esses protestos quando ocorrem em países não-democráticos, como no Egito e na Tunísia em 2011, ou em países onde a crise econômica aumentou o número de jovens e trabalhadores desempregados a níveis assustadores, como na Espanha e na Grécia, do que quando surgem em países com governos democráticos populares – como o Brasil, onde nos beneficiamos atualmente de uma das mais baixas taxas de desemprego de nossa História e uma expansão sem paralelo dos direitos econômicos e sociais.
?????????Muitos analistas atribuem os protestos recentes a uma rejeição da política. Eu acho que é precisamente o oposto: eles apontam no sentido de ampliar o alcance da democracia e incentivar as pessoas a tomar parte mais plenamente (da democracia).
Eu só posso falar com autoridade sobre o meu país, Brasil, onde eu acho que as manifestações são em grande parte o resultado de sucessos sociais, econômicos e políticos. Na última década, o Brasil duplicou o número de estudantes universitários, muitos vindos de famílias pobres. Nós reduzimos fortemente a pobreza e a desigualdade. Estas são conquistas importantes; no entanto, é perfeitamente natural que os jovens, especialmente aqueles que obtiveram o que seus pais nunca tiveram, desejem mais.
Esses jovens não viveram a repressão da ditadura militar de 1960 e 1970. Eles não viveram a inflação da década de 1980, quando a primeira coisa que fazíamos quando recebíamos o nosso contracheques era correr para o supermercado e comprar o que fosse possível, antes que os preços subissem novamente no dia seguinte. Eles se lembram muito pouco da década de 1990, quando estagnação e o desemprego deprimiam nosso país. Eles querem mais.
É compreensível que seja assim. Eles querem serviços públicos de melhor qualidade. Milhões de brasileiros, incluindo os da classe média emergente, compraram seu primeiro carro e começaram a viajar de avião. Agora, o transporte público tem que ser eficiente, para tornar a vida nas grandes cidades menos difícil.
As preocupações dos jovens não são apenas materiais. Eles querem mais acesso ao lazer e a atividades culturais. Acima de tudo, eles exigem instituições políticas mais limpas e mais transparentes, sem as distorções do sistema político e eleitoral anacrônico do Brasil, que, recentemente, se mostraram incapazes de se reformar. Não se pode negar a legitimidade dessas demandas, mesmo que seja impossível alcançá-las rapidamente. É necessário, primeiro, encontrar fundos, fixar objetivos e estabelecer prazos.
Democracia não faz acordo com o silencio. Uma sociedade democrática está sempre em fluxo, a debater e definir prioridades e desafios, em constante busca de novas conquistas. Só numa democracia um índio poderia ser eleito presidente da Bolívia, um afro-americano ser eleito presidente dos Estados Unidos. Só numa democracia, pela primeira vez, um metalúrgico e, em seguida, uma mulher poderiam ser eleitos presidente do Brasil.
A História mostra que, quando os partidos políticos são silenciados e as soluções são impostas pela força, os resultados são desastrosos: guerras, ditaduras e a perseguição das minorias. Sem partidos políticos não pode haver nenhuma democracia verdadeira. Mas as pessoas não desejam simplesmente votar a cada quatro anos. Elas querem interação diária com os governos locais e nacionais, e participar da definição de políticas públicas, oferecer opiniões sobre as decisões que as afetam no dia a dia.
Em resumo, elas querem ser ouvidas. Isso é um enorme desafio para os líderes políticos. Isso requer melhores formas de participação, através dos meios de comunicação social, no local de trabalho e nas universidades, para reforçar a interação com trabalhadores e líderes comunitários, mas, também, com os chamados setores desorganizadas, cujos desejos e necessidades não devem ser menos respeitados porque não tem organização.
Diz-se, e com razão, que a sociedade entrou na era digital e a política permaneceu analógica. Se as instituições democráticas utilizassem as novas tecnologias de comunicação como instrumento de diálogo e não, apenas, para propaganda, elas passariam a respirar ar mais fresco. E com isso estariam mais em sintonia com toda a sociedade.
Mesmo o Partido dos Trabalhadores, que eu ajudei a fundar, e que tem contribuído para modernizar e democratizar a política no Brasil, precisa aprofundar a renovação. Precisa recuperar suas ligações diárias com os movimentos sociais e oferecer novas soluções para novos problemas, e fazer as duas coisas sem tratar os jovens paternalisticamente.
A boa notícia é que os jovens não são conformistas, apáticos ou indiferentes à vida pública. Mesmo aqueles que pensam odiar a política estão começando a participar. Quando eu tinha a idade deles, eu nunca imaginei que iria me tornar um militante político. No entanto, criamos um partido político quando descobrimos que o Congresso Nacional praticamente não tinha representantes da classe trabalhadora. Através da política conseguimos restaurar a democracia, consolidar a estabilidade econômica e criar milhões de empregos.
Claramente ainda há muito a fazer. É uma boa notícia que os nossos os jovens queiram lutar para que a mudança social siga em um ritmo mais intenso.
A outra boa notícia é que o presidenta Dilma Rousseff propôs um plebiscito para promover as reformas políticas tão necessárias. Ela também propôs um compromisso nacional para a Educação, a Saúde e o Transporte Público, em que o Governo Federal dará apoio financeiro e técnico substancial a Estados e Municípios.
Quando falo com jovens líderes no Brasil e em outros lugares eu gosto de dizer: mesmo se você perder a esperança em tudo e em todos, não dê as costas à Política. Participe! Se você não encontrar nos outros o político que você procura, você pode encontrá-lo ou encontrá-la em você mesmo.

Luis Inácio Lula da Silva foi presidente do Brasil e agora trabalha em iniciativas globais, no Instituto Lula.

(Tradução de Murilo Silva e Paulo Henrique Amorim)

Equívocos conceptuais no governo do PT – por leonardo boff / sxão paulo.sp

Equívocos conceptuais no governo do PT

           Estimo que parte das razões que levaram multidões às ruas no mes de junho tem sua origem nos equívocos conceptuais presentes nas políticas públicas do governo do PT. Não conseguindo se desvenciliar das amarras do sistema neoliberal imperante no mundo e LEONARDO BOFFinternalizado, sob pressão, em nosso pais, os governos do PT tiveram que conceder imensos benefícios aos rentistas nacionais para sustentar a política econômica e ainda realizar alguma distribuição de renda, via políticas sociais, aos milhões de filhos  da pobreza.

 

Atlas da exclusão social – os ricos no Brasil(Cortez, 2004) embora seja de alguns anos atrás, mantem sua validade, como o mostrou o pesquisador Marcio Pochmann (O pais dos desiguais,Le Monde Diplomatique, outubro 2007). Passando por todos os ciclos econômicos, o nível de concentração de riqueza, até a financeirização atual, se manteve praticamente inalterado. São 5 mil famílias extensas que detem 45% da renda e da riqueza nacionais. São elas, via  bancos, que emprestam ao governo; segundo os dados de 2013, recebem anualmente 110 bilhões de reais em juros. Para os projetos sociais (bolsa família e outros)  são destinados apenas  cerca de 50 bilhões. São os restos para os considerados o resto.

 

Em razão desta perversa distribuição de renda, comparecemos como um dos países mais desiguais do mundo. Vale dizer, como um dos mais injustos, o que torna nossa democracia extremamente frágil e quase farsesca. O que sustenta a democracia é a igualdade, a equidade e a desmontagem dos privilégios.

 

No Brasil se fez até agora apenas distribuição desigual de renda, mesmo nos governos do PT. Quer dizer, não se mexeu na estrutura da concentração da renda. O que precisamos, urgentemente, se quisermos mudar a face social do Brasil, é introduzir uma redistribuição que implica mexer nos mecanismos de  apropriação de renda. Concretamente significa: tirar de quem  tem demais e repassar para quem tem de menos. Ora, isso nunca foi feito. Os detentores do ter, do poder, do saber e da comunicação social conseguiram sempre impedir esta revolução básica, sem a qual manteremos indefinidamente  vastas porções da população à margem das conquistas modernas. O sistema politico acaba servindo a  seus interesses. Por isso, em seu tempo, repetia com frequência Darcy Ribeiro que nós temos uma das elites mais opulentas, antisociais e conservadoras do mundo.

 

Os grandes projetos governamentais destinam porções significativas do orçamento para os projetos que as beneficiam e as enriquecem ainda mais: estradas, hidrelétricas, portos, aeroportos, incentivos fiscais, empréstimos com juros irrisórios do BNDES. A isso se chama crescimento econômico, medido pelo PIB que deve se equacionar com a inflação, com as taxas de juros e o câmbio. Priviligia-se o agronegócio exportador que traz dólares à agroecologia, à economia familiar e solidária que produzem 60% daquilo que comemos.

 

O que as multidões da rua estão reclamando é: desenvolvimento em primeiro lugar e a seu serviço o crescimento  (PIB). Crescimento é material. Desenvolvimento é humano. Signfica mais educação, mais hospitais de qualidade, mais saneamento básico, melhor transporte coletivo, mais segurança, mais acesso à cultura e ao lazer. Em outras palavras: mais condições de viver minimamente feliz, como humanos e cidadãos e não como meros consumidores passivos de bens postos no mercado.  Em vez de grandes estádios cujas entradas aos jogos são em grande parte proibitivas para o povo, mais hospitais, mais escolas, mais centros técnicos, mais cultura, mais inserção no mundo digital da comunicação.

 

O crescimento deve ser orientado para o desenvolvimento  humano e social. Se não se alinhar a esta lógica, o governo se vê condenado a ser mais o gestor dos negócios do que  o cuidador da vida de seu povo, das condições de sua alegria de viver e de sua admirada criatividade cultural.

 

As ruas estão gritando por um Brasil de gente e não de negócios e de negociatas; por uma sociedade menos malvada devido às desigualdades gritantes; por relações sociais transparentes e menos escusas que escondem a praga da corrupção; por uma democracia onde o povo é chamado a discutir e a decidir junto com seus representantes o que é melhor para o país.

 

Os gritos são por humanidade, por dignidade, por respeito ao tempo de vida das pessoas para que não seja gasto em horas perdidas nos péssimos transportes coletivos mas liberado para o convívio  com a família ou para o lazer. Parecem dizer: “recusamos ser apenas animais famintos que gritam por pão; somos humanos, portadores de espírito e de cordialidade que gritamos por beleza; só unindo pão com beleza viveremos em paz, sem violência, com humor e sentido lúdico e encantado da vida”. O governo precisa dar esta virada.

 

Leonardo Boff é autor de Virtudes por um outro mundo possível (3 vol) Vozes 2006.

13/07/2013

Não caiu a ficha – por cristóvam buarque / brasilia.df

http://oglobo.globo.com/blogs/arquivos_upload/2013/02/129_1853-cristovam%20-%202.jpgAs surpreendentes mobilizações dos últimos dias podem ser explicadas em dez letras: “caiu a ficha”. Não se sabe exatamente o que levou a ficha a cair neste exato momento, mas todos os ingredientes já estavam dados. A maior surpresa foi a surpresa.

Caiu a ficha de que o Brasil ficou rico sem caminhar para a justiça: chegou a sexta potência econômica, mas continua um dos últimos na ordem da educação mundial. Também caiu a ficha de que sem educação não há futuro, e de que por isso, 13 anos depois de criada, a Bolsa Família continua necessária, sem abolir sua necessidade.

Caiu a ficha de que em 20 anos de governos socialdemocratas e dez anos do PT no poder ampliamos o consumo privado, mas mantivemos a mesma tragédia nos serviços sociais, nos hospitais públicos e nas escolas públicas. Caiu a ficha de que o aumento no número de automóveis em nada melhora o transporte, ao contrário, piora o tempo de deslocamento e endividamento das famílias. Caiu a ficha de que o PIB não está crescendo e se crescesse não melhoraria o bem estar e a qualidade de vida. Caiu a ficha de que no lugar de metrópoles que nos orgulhem temos “monstrópoles” que nos assustam.

Caiu a ficha do repetido sentimento de que a corrupção não apenas é endêmica, ela é aceita; e os corruptos, quando identificados, não são julgados; e se julgados não são presos; e se presos não devolvem o roubo. E de que os políticos no poder desprezam as repetidas manifestações de vontade popular.

Caiu a ficha de que o povo paga a construção de estádios, mas não pode assistir aos jogos. E de que a Copa não vai trazer benefícios na infraestrutura urbana das cidades-sede como foi prometido. Aos que viajam ao exterior, caiu a ficha da péssima qualidade de nossas estradas, aeroportos e transporte público.

Caiu a ficha de que somos um país em guerra civil, onde 100 mil morrem por ano por assassinato direto ou indireto no trânsito.

Caiu a ficha também de que as mobilizações não precisam mais de partidos que organizem, de jornais que anunciem, de carros de som que conduzam, porque o povo tem o poder de se autoconvocar por meio das mídias sociais. A praça hoje é do tamanho da rede de internet, e é possível sair das ruas sem parar as manifestações e voltar a marchar a qualquer momento. Na prática, caiu a ficha de que é fácil fazer guerrilha-cibernética: cada pessoa é capaz de mobilizar milhares de outras de um dia para o outro em qualquer cidade do país.

Mas, entre os dirigentes nacionais ainda não caiu a ficha de que mais de dois milhões de pessoas nas ruas não se contentam com menos do que uma revolução. Mais de dois milhões não param por apenas 20 centavos nas passagens de ônibus. Eles já ouvem as ruas, mas ainda não entendem o idioma da indignação. Nem caiu a ficha de que só manifestações não bastam. É preciso fazer uma revolução na estrutura, nos métodos e nas organizações da política no Brasil: definir como eleger os políticos, como eles agirão, como fiscalizá-los e puni-los.

Cristovam Buarque é professor da UnB e senador pelo PDT-DF

Partidos de todo o mundo, uni-vos! – por estevão bosco / brasilia.df

As recentes manifestações parecem ter pegado os partidos brasileiros de saia justa. Ninguém esperava por algo tão rápido, tão grande e com reivindicações tão diversificadas. E isso talvez porque muitos dentre nós cresceram num mundo ainda em boa medida pregado no bairro, na cidade, no telefone. O turismo fácil e de longa distância era algo restrito a poucos afortunados, a informação era centralizada nos jornais impressos e televisivos e incluía em sua maioria temas e problemas nacionais. Poucos estrangeiros, produtos e pessoas, faziam parte do dia a dia. A isso correspondiam evidentemente mobilizações locais, que tratavam de problemas locais, que eventualmente e sob alguns aspectos alcançavam a agenda nacional. Tão evidente quanto isso é o fato de que, naquele tempo recente, havia aqueles que compunham as classes dominantes, que conseguiam com mais frequência que as mobilizações populares fazer dos seus interesses problemas da nação. Depois do último regime ditatorial, finalmente conseguimos estabilizar nas instituições políticas a correlação de forças presentes na sociedade e partidos dos mais variados matizes viram a luz.

Partidos da direita então representaram egressos do establishment da ditadura e alguns partidos de esquerda foram fundados e outros ainda puderam sair nas ruas sem ser ameaçados de morte, pretendendo dar voz, no sistema político, aos interesses da maioria: as classes populares. Mais claramente lá nos 80, essa pluralidade de interesses organizada politicamente fez com que os partidos políticos estivessem mais ou menos vinculados a interesses de classes sociais determinadas. Na medida em que os partidos se constituem enquanto meio para disputar a condução do Estado, para que, através dele, interesses determinados possam se realizar, eles são uma instituição e um símbolo da democracia. Por isso, as manifestações recentes incomodaram, e ao que tudo indica incomodaram mais ainda os partidos de esquerda, porque são eles que historicamente representam as massas contra o establishment, representado pelos partidos de direita.

Tenho visto alguns amigos e colegas militantes de partidos de esquerda indignados com o repúdio aos partidos nas manifestações. Para defender a presença dos partidos, alguns dentre eles têm associado ao fascismo o repúdio aos partidos. Historicamente faz sentido, afinal a primeira coisa que agrupamentos fascistas fizeram ao tomar o Estado foi perseguir os partidos. Isso aconteceu em todo lugar onde houve ditadura (Brasil, Chile, Argentina, Itália, Alemanha, França, etc.). Mas o que justificou o repúdio que vimos no começo das manifestações me pareceu ser completamente diferente do que finalmente vimos acontecer. Inicialmente, repudiou-se o partido político pelo fato de que, na disputa pelo poder estatal, ele tem concentrado o poder. Repudiou-se o partido em nome de mais democracia, por uma descentralização do poder, não em nome de uma idéia “unilateralizadora”, como fizeram os fascistas ao longo da história e, nos últimos dias de manifestação, fizeram nas passeatas em São Paulo agrupamentos de direita e extrema-direita. Concordo com os meus colegas que uma manifestação pública deve se abrir para todos, irrestritamente. O problema é que, para muitos “a-partidários”, o partido se tornou a personificação da democracia restrita que temos hoje. Para outros poucos, o problema é a própria democracia, eles são “anti-partidários”.

Isso significa que boa parte do repúdio aos partidos não era anti-democracia; significa que, para a juventude que está aí, a política não está restrita ao sistema político, ela está no transporte urbano, na qualidade de ensino das escolas, no preço do tomate, do feijão, na divisão sexual dos papéis, na vida cotidiana. Como afirma o sociólogo Ulrich Beck, essa política que surge fora do sistema político, que não está dirigida para a conquista do poder estatal, é uma subpolítica e seus atores se organizam em rede e se mobilizam por afinidades plurais, por gostos e problemas específicos. Daí a diversidade de bandeiras e a ausência e até mesmo a recusa de lideranças. Nesse cenário, o sistema político e o partido perdem a primazia sobre o que é político: tudo tende a se tornar político, a educação dos filhos, o que e onde se come ou deixa de comer, a carreira, casar ou não casar, a divisão das tarefas domésticas, ir de carro, de ônibus ou de bicicleta, ter mais parques na cidade, homeopatia ou alopatia etc.; em suma, o estilo de vida se subpolitiza. Ou ainda: a política se generaliza, atravessa os portões do sistema político. Como formula o mesmo sociólogo, isso corresponde a uma democratização cultural da democracia.

A reação dos partidos de esquerda, ao que por enquanto parece, foi desajeitada, mostrou que eles não entenderam o que está acontecendo. Os de direita calaram-se. Ao invés de se preocupar em defender o sistema partidário, que enquanto modelo de representação política só me parece ter sido questionado por uma minoria de extrema direita, seria mais construtivo e necessário que os partidos se esforçassem em descobrir o que está errado no modo de funcionar do partido e do sistema de representação política e forçar a imaginação para construir novos mecanismos de participação nas decisões políticas, dentro do partido, na condução do governo e, sobretudo, no legislativo. E isso nas três esferas de governo.

Os problemas do partido são grandes: a morosidade e a territorialidade dos procedimentos para a tomada de decisão em sua burocracia interna e no sistema político contrastam com a agilidade e desterritorialidade da internet. O que significam protestos de brasileiros em mais de vinte e cinco cidades pelo mundo? Considerando que também há conexões com a primavera árabe, os occupy’s, indignados, etc., me parece que a tendência tanto criticada por alguns colegas de profissão desde os anos 1990, que aponta para o surgimento de uma sociedade civil global, está pouco a pouco assumindo ares mais palpáveis, mais concretos: uma espécie de rede comunicativa global, que tende a não mais se restringir a organismos multilaterais nem ao mercado. Ao que tudo indica, pouco a pouco toma forma uma “globalização vinda de baixo”, que canaliza localmente movimentações globais e que, nesse sentido, vem contracenar com a “globalização vinda de cima”, do mercado e da diplomacia.

Os partidos, de esquerda e de direita, têm de se adaptar a essas novas condições de integração social. Agora é preciso mais reflexão. Como disse a presidente em seu pronunciamento, de meu lado também espero que as três esferas de governo consigam compreender e agir à altura do que está acontecendo: consolidar uma agenda emergencial e positiva, que desengavete, sobretudo no legislativo, projetos importantes para melhorar a saúde, a escola, o transporte e ampliar a participação civil nas decisões políticas. Somente assim, me parece, a distância que separa a agenda do sistema político da agenda subpolítica da sociedade civil poderá ser combatida. Caso contrário, tendemos a pagar, todos, um preço muito alto: a deslegitimação da democracia. Num sentido prático, o apelo “partidos de todo mundo, uni-vos!” se refere à necessidade de uma dupla abertura do partido: para dentro, deve ampliar os mecanismos de participação direta de seus militantes nas decisões e a participação civil na condução do governo e dos mandatos legislativos; e para fora, deve estabelecer uma frente de diálogo sistemático com partidos estrangeiros, de modo que de seus planos de governo locais e nacionais surja uma “cosmo-politização” capaz de fazer face a problemas globais que demandam articulações trans-locais, que vão da necessidade de regulação de um mercado global que incide localmente às mudanças ambientais globais. Em suma, há uma pergunta de fundo aqui: já que o impulso veio das ruas, não seria minimamente razoável o homem de partido pensar que a reforma política deveria ser acompanhada de uma reforma dos partidos?

A COPA DAS CONFEDERAÇÕES É NOSSA! – por paulo timm / torres.rs

A COPA DAS FEDERAÇÕES É NOSSA!

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Trio Irakitan canta “Touradas em Madrid” (1959)

 

O famoso trio canta um grande sucesso carnavalesco, “Touradas em Madrid”, composta por Braguinha (João de Barro). 

Quem pensou que eu  iria escrever sobre futebol, enganou-se… Não entendo nada da matéria. Pouco vejo. Mas jamais perco os jogos da seleção nas Copas, seja a do Mundo , seja a das Confederaçôes. Ontem, como sempre, vi o jogo, preocupei-me ao verificar a precisão do PAULO TIMMtic-tac espanhol mas , afinal, ali vi, no campo do Maracnã, a essência do Brasil: Energia, Criatividade, Incrível capacidade de sobrevivência e …um pouco de sorte.

Assim é o Brasil: um grande enigma ‘a espera de decifração. Como pudemos sair da virada do século XIX para o XX de pouco mais de dez milhões de habitantes para quase 200 milhões um século depois¿ A resposta não é fácil, mas aponta para o que Darci Ribeiro chamava de “ gentidade em fazimento” , um povo que come farinha de pau, ama loucamente e extravasa sua energia no carnaval, no futebol, nas manifestações religiosas e, de tempos em tempos, em manifestações de caráter político. Neste ano, passado o carnaval, estamos vendo a coincidência deste fenômeno: juntou-se a Copa das Confederações, a vinda do Papa e a explosão das ruas. Ninguém sabe, ainda em tudo isto resultará. Uma coisa é certa: O Brasil existe! E começa a apresentar uma fisionomia de crescente participação popular em todos os níveis da sociedade: gays desinibidos pelas ruas, mulheres na Política, ídolos do futebol com consciência, negros nas Universidades e altos cargos da República, trabalhadores em ação, sendo de ressaltar o fato simbólico de que um operário se tornou Presidente da República e um dos principais líderes do país, jovens estudantes mobilizados a ponto de forçar a UNE à visibilidade, blogs em número crescente inovando no campo do jornalismo cidadão, redes sociais em expansão, como lembra o jornalista Aylé Selassiê :

No Brasil,  as redes reúnem  67 milhões de  internautas, mais de 1/3 da população,  perto de 70% dos eleitores,  conforme a Hello Research, (FSP,14.12.2012).

Cerca de 47% dos internautas são pessoas politizadas.

Alvíssaras!

Contudo, para não frustrar os torcedores, transcrevo o comentário de meu amigo brasileiro, Alessandre Galvão, residente em Covilhã, Portugal, onde nos encontramos, todos os anos, nesta época, renovando laços de  amizade e impressões:

Algumas impressões sobre a CofenCup 2013

Alessandre Galvão – Covilhã, Portugal


O Brasil passou a ter um time titular, um modelo de jogo e uma dinâmica de ataque. Pode-se concordar em maior o menor grau, mas pelo menos há alguma coisa. O Brasil 2013 parece mais com o de 1994 de Parreira que com o de 2002 do próprio Felipão. Uma defesa sólida, com um goleiro que já pouca gente acreditava, dois zagueiros no auge e laterais que sobem menos na seleção que nos seus clubes. Dois volantes, um “cão de guarda” (Mauro Silva/Luís Gustavo) e um “chefe” (Dunga/Paulinho). Temos também o meia de transição que faz o trabalho pesado (Mazinho/Oscar) e o atacante reconvertido em marcador, apoio do lateral ou até ponta (Zinho/Hulk). Tudo isso para os da frente poderem brilhar. Isso funcionou em 94 e falhou em 98. Poderá funcionar novamente em 2014? Dependerá de muitos fatores, mas creio que em termos de entrosamento tudo irá melhorar, então prevejo um Brasil mais forte no ano que vem. E será preciso, pois se vimos que a Itália, França, Inglaterra e Espanha (especialmente essa) não são esse bicho papão todo em Terras de Vera Cruz, os perigos maiores são a eterna rival Argentina e a excelente seleção alemã.

O BRASIL NÃO SE ENTEDIA (artigo publicado no jornal LE MONDE) – por ministro Marco Aurélio Garcia

Pela primeira vez na história do país, um governo decidiu enfrentar o
problema principal de sua formação social : a desigualdade. Essa
mudança foi realizada – uma façanha, aliás – ao mesmo tempo em que as
Marco-Aurelio-Garcialiberdades democráticas foram aprofundadas. No entanto, é impossível
negar a existência de um mal estar na sociedade brasileira. A
presidenta Dilma Rousseff saudou a « voz das ruas », condenou os
excessos das forças de segurança contra os manifestantes e convocou a
Brasília os principais porta-vozes dos movimentos para um debate
franco.

* * *

Os franceses compreenderam, há 45 anos, que fatos aparentemente
anódinos podem ser a origem de eventos de proporções históricas. Um
acontecimento menor, em Nanterre, foi o estopim que provocou uma das
maiores explosões sociais e políticas da segunda metade do século
passado : o Maio de 68. Não se trata, obviamente, de explicar a
amplitude dessa « deflagração » por seu « detonador », se bem que os
laços entre os dois fenômenos sejam evidentes.

Em São Paulo, há pouco mais de uma semana, o aumento de 20 centavos no
preço da tarifa de ônibus deu origem a uma onda de protestos que se
propagou rapidamente por centenas de cidades brasileiras, para se
tornar no que pode ser considerada a maior mobilização social que o
país conheceu depois do fim da ditadura militar. O que, a primeira
vista, parecia corresponder a uma demanda específica, transformou-se
rapidamente em um movimento no qual convivem inúmeras – e às vezes
contraditórias – reivindicações.

Tudo leva a crer que, apesar da grande transformação econômica e
social que o Brasil viveu nos últimos dez anos, em consequência das
reformas implementadas pelos governos de Lula e de Dilma Rousseff, o
país « se entediou », como disse Pierre Viansson-Ponté a propósito da
França, na véspera do Maio de 68.

O « tédio » brasileiro pode parecer paradoxal. Com efeito, nestes dez
últimos anos, o país retomou o caminho do crescimento, após mais de 30
anos de estagnação. E conseguiu aliar a esse crescimento a saída de
mais de 40 milhões de homens e de mulheres da condição de pobreza, sem
sacrificar para isso o equilíbrio macroeconômico. O Brasil vive hoje
uma situação de quase pleno emprego, com aumento significativo da
renda dos trabalhadores. A vulnerabilidade externa da economia foi
controlada. O país passou de uma situação de devedor a de credor
internacional. Mesmo os problemas conjunturais que a economia
brasileira enfrenta hoje não colocam em questão as perspectivas de seu
desenvolvimento futuro.

Pela primeira vez na história do país, um governo decidiu enfrentar o
problema principal de sua formação social : a desigualdade. Essa
mudança foi realizada – uma façanha, aliás – ao mesmo tempo em que as
liberdades democráticas foram aprofundadas. A presidenta Dilma
Rousseff saudou a « voz das ruas », condenou os excessos das forças de
segurança e convocou a Brasília os principais porta-vozes dos
movimentos para um debate franco. Não estamos, portanto, diante de um
movimento contra o autoritarismo.

No entanto, é impossível negar a existência de um mal estar na
sociedade brasileira, que diz respeito a todas as instituições em seus
diferentes níveis. Esse sentimento decorre de problemas de duas ordens
distintas.

Em primeiro lugar, apesar dos grandes avanços dos últimos dez anos, as
condições de vida de milhões de brasileiros seguem difíceis, incluídos
aí os milhões que viveram recentemente uma ascensão econômica e
social. A democratização do acesso à educação não foi acompanhada em
todo o país por uma melhoria equivalente da qualidade. Nos serviços de
saúde, áreas de excelência convivem com setores extremamente
deficientes. A urbanização acelerado do país, que conta com
aproximadamente 200 milhões de habitantes, colocou em evidência a
situação precária do transporte nas cidades, onde os trabalhadores
perdem horas de sua jornada para sair de suas casas e chegar até o
local de trabalho.

A referência a esses três temas, evocados nos cartazes dos
manifestantes, é pertinente. Ela diz respeito a problemas que fazem
parte do cotidiano de milhões de brasileiros.

A segunda razão desse mal estar brasileiro está ligada à esfera
política. As mudanças econômicas e sociais dos últimos anos não foram
acompanhadas pelas transformações institucionais necessárias dos
poderes do Estado, dos partidos, e também dos meios de comunicação,
fortemente concentrados no Brasil.

Os manifestantes reivindicam serviços públicos de qualidade, fustigam
a burocracia e a corrupção. Mesmo no « país do futebol » os gastos com
a preparação da Copa do Mundo e da Copa das Confederações tornaram-se
alvo das manifestações. Critica-se sua falta de transparência.

Após dois pronunciamentos endereçados à nação, a presidenta da
República retomou a iniciativa política. Para além do desenvolvimento
das políticas públicas atuais, ela sublinhou a necessidade de uma
ampla reforma política. Como em outras partes do mundo, especialmente
na América do Sul, as instituições se revelaram tímidas e
insuficientes face ao alargamento do espaço público e à integração em
seu interior de novos sujeitos políticos.

Uma reforma política é essencial sobretudo no domínio da luta contra a
corrupção, que como é o caso habitualmente na história, é apresentado
por certos setores como o principal problema a resolver. As críticas
formuladas pelos defensores dessa oposição são dirigidas
principalmente às instituições, sem distinção, e aos partidos
políticos em particular.

É bem conhecido que o ataque contra as instituições, em especial
contra os partidos que constituem as bases sociais, reflete duas
orientações. A primeira está ligada a uma regressão autoritária, que
se articula em torno de um « homem providencial », capaz de
implementar uma contra-reforma econômica e social.

A segunda, de natureza democrática, preconiza uma reforma urgente e
profunda das instituições, em especial, dos partidos políticos. Hoje,
uma tal reforma exigiria mudanças na lei eleitoral para corrigir as
graves distorções dos mecanismos de representação, adotando o
princípio do financiamento público das campanhas para eliminar a
influência exercida pelo poder econômico nas eleições. Essa reforma
deveria igualmente elaborar os mecanismos para fortalecer os programas
do partidos, abrindo espaço para uma participação mais importante e
determinante da sociedade na vida política. Neste sentido, a
multiplicidade de mecanismos de controle de políticas públicas pela
sociedade, de instrumentos como o « recall » de eleitos, e as
consultas populares tornam-se pertinentes.

A crise profunda que atravessa o mundo hoje não diz respeito somente à
economia. Os modelos políticos democráticos são, eles também,
confrontados pelo desafio da mudança.

Manifestações massivas no Brasil têm origem na esquerda – por Roberto Leher

 

 

Qui, 27 de Junho de 2013
 

 

No dia em que mais de dois milhões de pessoas foram às ruas, 20 de junho de 2013, a cobertura das corporações da mídia foi exemplar sobre como os dominantes operam a dominação. A cobertura da GloboNews durou muitas horas, a exemplo do que ocorreu no dia 17 quando as manifestações tornaram-se de fato massivas. A filmagem, nos dois dias, basicamente se limitou a tomadas panorâmicas a partir de helicópteros com aproximações para focalizar um automóvel em chamas ou para acompanhar os chamados vândalos. A selvagem repressão das tropas da polícia treinadas por comandantes que estagiaram no Haiti – impondo um toque de recolher com angustiante semelhança com os do dia do Golpe de Pinochet, em 11 de setembro de 1973 – quase que era celebrado como um ato civilizatório frente à barbárie. As vozes dos manifestantes se restringiram a uns poucos minutos, não mais do que dez, e ainda assim respondiam a indagações sobre generalidades. De tempos em tempos, a voz de um dito especialista procurava explicar o que era de seu óbvio desconhecimento.

 

Na imprensa corporativa escrita, o mesmo aconteceu. Platitudes e falsificações. Nada sobre os movimentos, nenhum aporte histórico, nenhuma empiria, nenhuma análise. Em circulação, opiniões que buscaram “puxar a brasa para as sardinhas da ordem e da reação”, silenciando, por completo, as vozes que reivindicavam consignas radicais no curso das massivas manifestações: “passe livre”, “educação pública não mercantil”, “saúde não é mercadoria”, laicidade versus homofobia, “fora Fifa”, “contra a privatização do Maracanã”, “Fora Eike”, “Não às remoções”, isso sem contar um tratamento crítico à corrupção que ultrapassa a questão moral, por exemplo, em cartazes que associavam o interesse das corporações na especulação imobiliária, os megaeventos e as isenções, repasses e empréstimos bilionários aos investidores operados pelos governos Dilma (PAC/BNDES), Sérgio Cabral e Eduardo Paes (os dois últimos, no Rio de Janeiro), levando milhares de manifestantes a bradar: “Da Copa eu abro mão, mas não da saúde e educação” – públicas. A respeito dessas consignas, não há como lutar contra a mercantilização das citadas questões vitais sem ser anticapitalista!

 

É certo que outros sentidos circularam nas manifestações. E foram justo estes os metonimicamente hiperdimensionados pela mídia que, por meio de insistentes e sistemáticas repetições, tomou a parte pelo todo: (i) consignas nacionalistas “verás que o filho teu não foge à luta” de fato estavam presentes, mas de modo polissêmico. Bandeiras do Brasil podiam refletir o clima da “pátria de chuteiras” propagandeado pelos governos e pela grande mídia (como ocorreu de modo preocupante na Alemanha, por ocasião da última Copa); (ii) contra a corrupção, em geral associada à defesa contra a PEC-37, como se o núcleo temático das forças que convocaram a multidão fosse o natimorto movimento “Cansei”, patrocinado por frações burguesas decadentes e em franco processo de desidratação econômica e política, e (iii) mais complexa e enigmática, as manifestações contra os partidos (e violentamente contra os de esquerda socialista), estimuladas pela mídia, em nome da suposta participação cidadã, reunindo sujeitos que ainda precisam ser melhor caracterizados –  milícias vinculadas aos partidos de direita, aos empresários das empresas de transporte, agentes da repressão infiltrados, grupúsculos neonazistas (com ligação com torcidas organizadas, por exemplo). Um sentimento antipartidário difuso de jovens de classe média ecoou no apoio aos ataques sobre os militantes. Com efeito, os partidos da ordem concorreram para tal sentimento. O infrutífero abaixo-assinado contra Renan Calheiros na presidência do Senado, reunindo mais de 1,2 milhão de assinaturas, o entusiasmo por Joaquim Barbosa no processo de julgamento do chamado “mensalão”, processo de corrupção congruente com o Estado particularista, mas interpretado como uma quebra de confiança na esfera privada, a traição, e o descrédito nas organizações coletivas, engolfadas pela cooptação e pelo transformismo, tornando-as desprovidas de relevância social, concorreram para a difusão desses sentimentos. Na versão da grande mídia, foram os conservadores os verdadeiros responsáveis pelas convocações, eclipsando os sujeitos que, a partir da esquerda, possibilitaram a deflagração do movimento.

 

O presente texto não tem a pretensão de explicar as multitudinárias manifestações. Existe muito a ser investigado, analisado e restará muito a explicar, motivando, por muitas décadas, estudos de diversos prismas. As grandes lutas sociais são assim: surpreendem, desconcertam, mas não são ‘raios em céu azul’ como querem fazer crer as corporações que controlam os principais meios de comunicação, inclusive os principais blogs de apoio ao governo federal.

 

Para compreender o recente movimento de massas no Brasil, é importante distinguir analiticamente duas dimensões do protesto social para, a seguir, pensá-lo como totalidade. Um primeiro plano é a convocatória. Quais os movimentos (e pautas) que tiveram capacidade de, por meio das redes sociais, convocar as manifestações? O pressuposto é que existem sujeitos organizados em torno de um ou de vários movimentos que discutiram e consensuaram a realização das manifestações. O segundo nível é a análise dos que atenderam a convocatória, assumindo-a como sua, empenhando-se em sua divulgação e, sobretudo, tomando a decisão de comparecer. Será que são sujeitos que finalmente despertaram para os problemas e para a importância da manifestação política ou, alternativamente, são sujeitos com diferentes formas de inserção em causas sociais e que, por determinados motivos, como a brutal repressão policial em São Paulo, a ineficácia dos abaixo-assinados via internet e o recrudescimento da inflação real compreenderam que a hora era de ir às ruas?

 

Compreendendo a convocatória

 

Para não incorrer no erro criticado, busco examinar inicialmente os sujeitos que realizaram a convocatória do que pode ser considerado o estopim das manifestações: o abusivo preço das passagens de ônibus, cujo Grito (nos termos de J. Holloway (1)) foi difundido pelo Movimento do Passe Livre (MPL), colocando brevemente em relevo as formas de organização, suas alianças, suas formas de luta, suas consignas e o modo como suas reivindicações são recepcionadas pelos governos. Pretendo, a seguir, esboçar proposições para tornar pensáveis o acolhimento das convocatórias por parte de um imenso contingente que, até o momento, ainda não havia protagonizado um movimento de massas.

 

O estudo, ainda preliminar, é uma má notícia para os “intelectuais” a soldo dos jornalões e das televisões. O exame das lutas no período 2004-2012 registradas no Observatório Social da América Latina (OSAL (2)), infelizmente encerrado em 2013, permite concluir que o movimento que vinha empunhando a luta contra as tarifas extorsivas que serviu de deflagrador das grandes manifestações em curso no país possui origem na esquerda e, mais do que isso, as manifestações não existiriam sem a esquerda. O MPL, embora autônomo frente aos partidos, é de esquerda e interage com os partidos de esquerda (3). Ao longo da década de 2000, empreendeu lutas com sindicatos e movimentos sociais e tem objetivos afins aos que empreendem lutas no mundo do trabalho.

 

Outra má notícia está dirigida aos pós-modernos encantados com as redes e com os novos movimentos sociais. O MPL, desde sua origem, faz lutas “a quente” nas ruas, lutas que frequentemente foram ferozmente reprimidas pelo aparato repressivo.

 

Finalmente, o movimento, ao recusar o vanguardismo e sua expressão organizativa, o substitucionismo, praticados por partidos socialistas, não é antissocialista e, por conseguinte, anticlassista. Ao contrário, compõe uma forma de pensar e praticar a política que há muito está presente nas lutas antissistêmicas latino-americanas, a exemplo dos Zapatistas, do movimento estudantil que promoveu a célebre Ocupação da UNAM (México, 1999) por longos 10 meses, das Lutas da Assembleia Popular dos Povos de Oaxaca – APPO (2006), das lutas do movimento Pinguim no Chile (2006) e dos levantes da juventude pela educação pública no Chile, em 2012-2013 e as ocupações das reitorias pelos estudantes das universidades federais em 2006, assim como a ocupação da USP em 2007.

 

A matriz político-organizativa das referidas manifestações guarda similaridades com o movimento Zapatista, não devendo ser confundida, entretanto, com as formulações anarquistas (4). Muito de suas formas de agir e pensar foram sistematizadas por John Holloway em seu importante livro Mudar o Mundo sem Tomar o Poder (2002), obra que, mesmo que não seja diretamente indicada como de referência do movimento, influenciou movimentos afins, difundindo um certo modo de fazer política.

 

O MPL vem se configurando como um dos mais imaginativos e interessantes movimentos da juventude. Recusa a tutela externa, faz avaliações de conjuntura próprias (em assembleias livres), mantém uma estrutura organizativa horizontalizada, pratica a rotatividade dos portavozes e representantes, empreende ações diretas e aborda um problema real para os jovens, a mobilidade urbana e o péssimo serviço de transporte, caro e ineficiente, e que toca profundamente os setores da classe trabalhadora mais pauperizados e explorados, que sentem no bolso o saqueio das tarifas exorbitantes. Assim, embora muitos de seus participantes sejam provenientes das classes médias, encontraram um meio de interagir com os trabalhadores mais duramente explorados.

 

Já em junho 2004, antes de sua formalização, demonstrou notável capacidade convocatória em Fortaleza, quando reuniu 5 mil manifestantes contra o aumento de tarifas. A resposta, em Fortaleza, foi a habitual: 15 feridos por balas de borracha e 40 detidos. A intolerância com as bandeiras do MPL deve-se aos laços orgânicos entre as empresas de transporte e os governos. O que pode ser mais pedagógico para ensinar aos jovens do que o modo como os governos saem em defesa das empresas? Em janeiro de 2006, o MPL realizou uma manifestação que mobilizou cerca de 500 pessoas no Distrito Federal (DF) contra o aumento de 20% nas passagens do transporte urbano. O governo mobilizou mil policiais do Batalhão de Operações Especiais (BOPE), da cavalaria e um helicóptero. O movimento cresceu, estendendo-se por três dias, ampliando o arco de forças na luta, abrangendo movimentos que, em geral, não participavam das lutas estritamente partidárias e sindicais, como, Radicais Livres, Anarcopunk, Hip Hop, Arte e Educação, a Associação de Skatistas do Paranoá, aos quais se somaram movimentos já inseridos em lutas classistas, como o Movimento dos Trabalhadores Desempregados (MTD), o MST e os Diretórios Centrais de Estudantes (DCEs) da Universidade de Brasília (UNB) e do Centro de Ensino Unificado de Brasília (CEUB).

 

Desde então, as lutas contra os aumentos organizadas pelo MPL se espalharam no país, havendo concentração em Santa Catarina (Joinville e Florianópolis), São Paulo (Campinas e capital), Brasília, Salvador e, por meio de outras formas de organização, em centenas de cidades pelo país.

 

As suas pautas enfatizam temas que sugerem a busca de aliança com os setores da classe mais explorados (passe livre para setores sem renda). Recusando a tese de que o poder está em toda parte e em nenhum lugar, ao gosto dos defensores da Multidão, como Hard e Negri (Império), o MPL identifica os loci do poder político formal, priorizando as suas representações locais (expresso em ocupações de prefeituras e câmaras de vereadores, na defesa da municipalização do transporte coletivo) e nomeia as empresas que exploram o transporte, enfrentando os conluios destas com as prefeituras (defendendo a investigação das contas das empresas de transportes e denunciando as isenções e calotes tributários e os repasses de verbas do poder público).

 

Também distintamente do que apregoam os pós-modernos, o MPL defende as alianças com a classe trabalhadora organizada. Exemplos simbólicos desses gestos precisam ser apontados. Em agosto de 2007, o MPL de São Paulo lançou carta de apoio ao direito de greve dos metroviários, reivindicando transporte público gratuito e de qualidade. Na carta, o movimento apoiou a greve dos metroviários, a legitimidade de suas reivindicações e fez diversas críticas à privatização da Linha 4 e à posição adotada pelo Metrô frente à greve dos trabalhadores: “A administração do Metrô insiste em afirmar que a greve dos metroviários deixa sem transporte milhões de pessoas, quando na verdade o alto preço da tarifa e o limitado sistema metroviário é que exclui grande parte da população do acesso aos trens do Metrô”.

 

O movimento reivindica a história e as lutas dos que resistiram no passado: em 7 de setembro de 2008, o MPL realizou manifestação durante o desfile do Dia da Independência em Joinville, lembrando a época da ditadura militar. Um dos integrantes, o estudante Kleber Tobler, 25 anos, foi preso por usar farda militar e uma máscara de demônio. Em maio de 2010, estiveram à frente do protesto “Churrascão da Gente Diferenciada” contra a desistência do governo do estado de São Paulo de construir uma estação de metrô na avenida Angélica, atendendo aos reclamos dos moradores do bairro da alta classe média que não desejava o metrô: “Eu não uso metrô e não usaria. Isso vai acabar com a tradição do bairro. Você já viu o tipo de gente que fica ao redor das estações do metrô? Drogados, mendigos, uma gente diferenciada…”. Demonstrando solidariedade aos sete trabalhadores mortos no desabamento causado por negligência da empresa que fazia a obra da estação da Linha 4-Amarela do Metrô, em Pinheiros, o MPL esteve no protesto junto com o Sindicato dos Metroviários de São Paulo (2010).

 

Igualmente, em junho de 2010, o MPL apoiou a Marcha da Liberdade que reuniu mais de 3 mil pessoas, na capital São Paulo. O protesto foi pela liberdade de expressão e contra a repressão policial, reunindo simpatizantes de diversas causas, como os favoráveis à legalização da maconha, e os defensores dos direitos de gays, lésbicas e transexuais. Para um dos organizadores do movimento, André Takahashi, a marcha conseguiu alcançar seus principais objetivos. “A Marcha da Liberdade já cumpriu o seu papel que é o de começar essa discussão sobre a liberdade de expressão e o uso das armas não letais. O emprego de armamento não letal fere a Constituição quando usado contra pessoas que estão no seu direito de se manifestar”. A Marcha da Liberdade também foi importante para promover a interação entre os diversos movimentos sociais. Segundo militantes do MPL, existe uma “tendência” de que essa troca de experiências e cooperação continue.

 

Em suma, o breve apanhado de algumas das ações políticas do MPL parece confirmar mais a sua proximidade com as lutas latino-americanas das últimas décadas do que com o pós-modernismo e, radicalmente distinto dos novos movimentos sociais que recusam alianças classistas com os movimentos organizados da classe trabalhadora. A recente convocatória do MPL para novas mobilizações na periferia de São Paulo (5), organizada em conjunto com o MTST e outros movimentos, como o Periferia Ativa, corrobora o posicionamento classista do movimento.

 

Argumentar que a convocatória deflagrada pelo MPL – e pelos movimentos que nos últimos cinco anos têm construído a unidade de ação nas lutas pelo passe livre e contra os abusivos aumentos das passagens – tem seu esteio na esquerda, guarda nexos classistas e possui considerável relação com outros movimentos da juventude, sindicatos e movimentos sociais e partidos, não equivale a afirmar que a enorme massa que compareceu aos atos após a feroz repressão policial do governo Alckmin com o aval de Fernando Haddad no ato do dia 13 de junho, ferindo jornalistas, espancando centenas e prendendo 137 pessoas, contou apenas com a presença de apoiadores ativos do MPL. Mas, sem o referido movimento, as convocatórias para os atos que culminaram nas grandes marchas não teriam acontecido no momento.

 

Os que compareceram

 

Os diversos atos e manifestações foram rotulados pela grande mídia como “Rebeldia e Vandalismo”, “Marcha da Insensatez”, “Manifestantes queimam ônibus, depredam bancos e lojas em SP” (O Globo, 12/6/13), “Riscos de novos confrontos: atos do Movimento Passe Livre, que provocaram quebra-quebras no Rio e em SP, serão repetidos hoje” (O Globo, 13/6/13). Contudo, o tom mudou após a feroz repressão, levando um importante colunista da FSP e de O Globo, Elio Gaspari, a publicar artigo com o título: “A PM começou o conflito” (O Globo, 14/06/13), reconhecendo, afinal, que os confrontos foram impulsionados pela selvagem repressão do aparato policial que, como destacado, há anos vinha reprimindo duramente os atos do MPL.

 

A indignação contra a insana repressão – afinal reconhecida pela mídia – repercutiu sobre um público muito maior do que o círculo do MPL. A ele se somou movimentos que já vinham demonstrando iniciativa política, como o movimento LGBT (mas sobretudo o movimento em prol do casamento homoafetivo e contra a eleição do deputado Feliciano à Presidência da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados), os que se manifestaram na rede contra o Código Florestal desde 2011, os militantes empenhados nas lutas contra as remoções em virtude dos negócios imobiliários da Copa, em solidariedade aos Guarani-Kayowa em Mato Grosso do Sul, a enorme greve dos Servidores Públicos Federais em 2012. Especificamente, no Rio de Janeiro, é preciso acrescentar os que lutaram a favor da Aldeia Maracanã, contra os custos abusivos e a privatização do Maracanã, os que apoiaram ativamente a greve dos bombeiros, as dezenas de milhares de pessoas que compareceram à Marcha crítica à Rio + 20, movimentos que, no plano partidário, possibilitaram que o candidato do PSOL, Marcelo Freixo, obtivesse quase um milhão de votos na cidade, campanha protagonizada fundamentalmente por estudantes.

 

Entretanto, não apenas motivações com cariz de esquerda levaram muitos outros milhares às ruas nos dias 17 e 20/6. Qualquer observador pode concluir facilmente que esse enorme contingente é polissêmico, plural, mas dificilmente poderia ser desvinculado de causas e mobilizações que vêm acontecendo nos últimos anos. Proposições potencialmente conservadoras (não pelo mérito da questão, mas pelo enfoque), como o “Fora, Renan” e a comoção do julgamento do dito “mensalão”, tornando o ministro do STF, Joaquim Barbosa, uma espécie de justiceiro em prol da moralidade pública, também demonstraram força e, rapidamente, foram sintetizadas nas consignas “corrupção, PEC-37, antipartidos” pela grande mídia corporativa como as verdadeiras (e essenciais) causas da mobilização que levou mais de meio milhão de pessoas às ruas no dia 20/6 no Rio de Janeiro, manifestações que se espraiaram por todo o país e geraram solidariedade em dezenas de países. Está em aberto a disputa pela imagem das manifestações e, mais do que isso, pelo seu teor!

 

Algumas sínteses

 

A reversão de expectativas otimistas na economia, pressionando o poder de compra da maioria da população, em particular da endividada parcela da classe trabalhadora indevidamente denominada de “classe C”, contribuiu para sincronizar o Brasil na crise mundial do capitalismo.

 

A necessidade de ofensiva dos governos, em especial do Federal, de interceder mais vivamente nos acontecimentos, levou a presidenta Dilma a fazer um pronunciamento em cadeia nacional focalizado nos temas da corrupção, do transporte e vagamente dos direitos sociais à educação e saúde, não sem fazer ameaças aos “baderneiros” e, por silenciar, dando aval ao uso feroz do aparato repressivo, inclusive mobilizando a Força Nacional de Segurança (6). Imediatamente, todos os portavozes do Estado Maior do capital saíram a público para comemorar o estupendo discurso presidencial que, afinal, colocou as coisas em seu devido lugar. Um destes portavozes explicitou o que, afinal, é o fulcro da questão:

 

Para a presidente Dilma, o pior que pode acontecer numa campanha eleitoral antecipada é ser envolvida em uma tentativa de levar para a esquerda radical uma classe média que em alguma medida ela estava conseguindo cooptar (7).

 

Para corroborar a necessidade de união de todos com o Estado Maior do capital, os intelectuais e propagandistas do governo ecoaram a tese do Golpe da Direita que estaria em marcha nas ruas (justificando a tese da união nacional, governos instituídos, empresários, movimentos sociais, centrais sindicais etc., em defesa da democracia), conferindo um poder que os grupelhos fascistas não dispõem. O que faltaria a essa ultra-direita? Em primeiro lugar, lastro em uma classe social fundamental que disponha de relevância econômica. Mas inexistem no Brasil frações burguesas relevantes que estejam fora do bloco de poder gerenciado pelo PT. Outra possibilidade seria que, mesmo sem estar amparado pelo poder econômico do imperialismo, existisse, digamos, uma direita ideológica militante e ativa. O quase desaparecimento do DEM, por meio do deslocamento de suas principais lideranças rumo à base do governo do PT (com a criação do PSD por J. Bornhausen, G. Kassab e Kátia Abreu) não valida tal avaliação. Na Europa, essa direita é nutrida pelo sentimento xenófobo, situação não verificada no país.

 

Assim, o verdadeiro motivo que impulsiona a tal união nacional é o afastamento dos manifestantes das ruas e da agenda da crise capitalista: desemprego, perda de poder aquisitivo, inflação, precarização do serviço público advindo dos sucessivos e bilionários cortes no orçamento do Estado, novas privatizações, leilões de bacias petrolíferas etc.

 

É essa a frente de luta que está colocada diante dos movimentos da classe trabalhadora, como salientou Mattos (8). O desafio é fortalecer o protagonismo dos movimentos sociais, dos partidos de esquerda, do movimento autonomista classista, da juventude, assegurando ao movimento em curso um teor classista, mas nem por isso submetido ao controle de forças externas ao movimento vivo da classe, à liderança de guias carismáticos, à estruturas de comando verticalizadas etc. O conceito de democracia direta e protagônica, dos mandatos rotativos e revogáveis, forjado na Comuna de Paris, nos sovietes, no poder popular da APPO (Assembleia Popular dos Povos de Oaxaca), nada tem de incompatível com a construção ativa de consensos capazes de orientar a luta diante das forças poderosas da contrarrevolução.

 

 

Notas:

 

1) . John Holloway Agrietar el capitalism: el hacer contra el trabajo. Bs.As.: Herramienta, 2011.

2) . http://www.clacso.org.ar/institucional/1h.php?idioma=

3) .  Para compreensão do MPL que se aproxima do presente texto, embora com nuances, ver Bruno Paes Manso e Marcelo Godoy, Antiliberal e crítico do marxismo, MPL usa multidão como arma, http://a-voz-das-ruas.blogspot.com.br/2013/06/antiliberal-e-critico-do-marxismo-mpl.html

4) . Carlos Beas Torres, La batalla por Oaxaca. Oaxaca, México: Ed. Yope Power, 2007.

5) Quem não luta pelos trabalhadores, não nos representa. Ato agendado para o dia 25/6/13 no Capão Redondo e no Campo Limpo, Zona Sul, Guaianeses, zona Leste.

6). Edição do dia 20/06/2013 Tropas da Força Nacional reforçarão a segurança de quatro capitais Fortaleza, Salvador, Rio de Janeiro e Belo Horizonte terão apoio da Força Nacional durante a Copa das Confederações. http://g1.globo.com/bom-dia-brasil/noticia/2013/06/tropas-da-forca-nacional-reforcarao-seguranca-de-quatro-capitais.html

7) Merval Pereira, Buscando Saídas, 22.06.13, http://oglobo.globo.com/blogs/blogdomerval/posts/2013/06/22/buscando-saidas-500899.asp

8) Marcelo Badaró Mattos, A multidão nas ruas: construir a saída de esquerda para a crise política, antes que a reação imprima sua direção. Disponível em: http://www.correiocidadania.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=8528:submanchete250613&catid=63:brasil-nas-ruas&Itemid=200

 

Roberto Leher é doutor em Educação pela Universidade de São Paulo, professor da Faculdade de Educação e do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal do Rio de Janeiro e coordenador do Observatório Social da América Latina – Brasil/ Clacso e do Projeto Outro Brasil (Fundação Rosa Luxemburgo).

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EXTERMINADOR DO FUTURO NÃO É MAIS PURA FICÇÃO

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Skynet: Google e agência de vigilância dos EUA, NSA, adquirem um supercomputador quântico – 512 qubits – para estudar a criação de máquinas com Inteligência Artifical destinadas a espionar e controlar. Será esse o futuro da humanidade?
 
Quinta-feira, 20 de Junho de 2013 – por Mike Adams (Natural News).

A maioria das pessoas não sabe sobre a existência de computadores quânticos nem têm idéia de como eles funcionam. Essas supermáquinas não funcionam com transístores e portas lógicas como a CPU do seu PC, mas atuam por sistemas intrincados de altíssima engenharia, resolvendo problemas computacionais de alta complexidade em poucos minutos. Tecnologia extra-terrena? O que sabe é que eles nem sequer funcionam de uma forma que parece racional para um engenheiro de computação típico. Quase que magicamente, os computadores quânticos, através de expressões logarítmicas, resolvem cálculos e problemas de contorno astronômico em poucos minutos. Os mesmos que levariam centenas de milhares de anos para ser resolvidos por computadores normais hoje disponíveis. Isto porque literalmente operam simultaneamente em várias dimensões.  Mas para que o governo estadunidense, a Google e a NSA precisariam de um monstro desses?  Primeiramente  para espionar. Eles são excelentes decifradores de códigos criptografados. Não haverá mais segredo algum para o governo. Todos os arquivos pessoais e comunicações serão devassáveis. E eles já provaram esse ânimo de quebra de privacidade, conforme recentemente denunciou Edward Snowden, de uma empresa colaboradora da CIA.  O construtor dessa máquina é Eric Ladizinsky, co-fundador e cientista-chefe de uma empresa chamada D-Wave . Ladizinsky é ex-funcionário da Northrop Grumman Space Technology (fabricante de armas de alta tecnologia) e liderou um projeto de investigação sobre computação quântica na DARPA, a mesma empresa que trabalha em projetos robóticos de assalto, patrulhamento e guerra, em substituição a soldados humanos.  Veja emhttp://www.naturalnews.com/040859_Skynet_quantum_computing_D-Wave_Systems.html#ixzz2WmugdKxt

POR QUE O BOLSA FAMÍLIA DESPERTA TANTO ÓDIO DE CLASSE? – por fátima oliveira

Eu não tinha a dimensão do ódio de classe contra o Bolsa Família. Supunha que era apenas uma birra de conservadores contra o PT e quem criticava o Bolsa Família o fazia por rancor de classe a Lula, ou algo do gênero, jamais por ser contra pobre matar a sua fome com dinheiro público.

Idiota ingenuidade a minha! A questão não é de autoria, mas de destinatário! Os críticos esquecem que a fome não é um problema pessoal de quem passa fome, mas um problema político. E Lula assumiu que o Brasil tem o dever de cuidar de sua gente quando ela não dá conta e enquanto não dá conta por si mesma. E Dilma honra o compromisso.

Estou exausta de tanto ouvir que não há mais empregada doméstica, babá, “meninas pra criar”, braços para a lavoura e as lidas das fazendas que não são agronegócios… E que a culpa é do Bolsa Família!

Conheço muita gente que está vendendo casas de campo, médias e pequenas propriedades rurais porque simplesmente não encontra “trabalhadores braçais” nem para capinar um pátio, quanto mais para manter a postos “um moleque de mandados”, como era o costume até há pouco tempo! E o fenômeno é creditado exclusivamente ao Bolsa Família.

Esquecem a penetração massiva do capitalismo no campo que emprega, ainda que pagando uma “merreca”, com garantias trabalhistas, em serviços menos duros do que ficar 24 horas por dia à disposição dos “mandados” da casa-grande, que raramente “assina carteira”. Eis a verdade!

Esquecem que a população rural no Brasil hoje é escassa. Dados do IBGE de setembro de 2012: a população residente rural é 15% da população total do país: 195,24 milhões.

Não há muitos braços disponíveis no campo, muito menos sobrando e clamando por um prato de comida, gente disposta a alugar sua força de trabalho por qualquer tostão, num regime de quase escravidão, além do que há outras ocupações com salários e condições trabalhistas mais atraentes do que capinar, “trabalhar de aluguel”, que em geral nem dá para comprar o “dicumê”. Dados de 2009 já informavam que 44,7% dos moradores na zona rural auferiam renda de atividades não agrícolas!

Basta juntar três pessoas de classe média que as críticas negativas ao Bolsa Família brotam como cogumelos. Após a boataria de 18 de maio, que o Bolsa Família seria extinto, esse assunto se tornou obrigatório. Fazem questão de ignorar que ele é o maior e mais importante programa antipobreza do mundo e foi copiado por 40 países – é uma “transferência condicional de renda” que objetiva combater a pobreza existente e quebrar o seu ciclo.

Atualmente, ajuda 50 milhões de brasileiros: mais de 1/4 do povo! E investe apenas 0,8% do PIB! Sem tal dinheiro, mais de 1/4 da população brasileira ainda estaria passando fome!

Mas há gente sem repertório humanitário, como as que escreveram dois tuítes que recebi: “Nunca vi tanta gente nutrida nas filas dos caixas eletrônicos para receber o Bolsa Família, até parecia fila para fazer cirurgia bariátrica”; e “Eu também nunca havia visto tanta gente rechonchuda reunida para sugar a bolsa-voto!”.

Como disse a minha personagem dona Lô: “Coisa de gente má que nunca soube o que é comer pastel de imaginação; quem pensa assim integra as hostes da campanha Cansei de Sustentar Vagabundo, que circulou nas eleições presidenciais de 2010”. São evidências de que há gente que não se importa e até gosta de viver num mundo em que, como escreveu Josué de Castro, em Geografia da Fome (1984): “Metade da humanidade não come e a outra não dorme com medo da que não come…”.

 

Médica – fatimaoliveira@ig.com.br @oliveirafatima_

A MORADA DO SER – por paulo timm / torres.rs

A MORADA DO SER

Paulo Timm – junho,10-Torres RS 

 

 

 

Palavras sempre sabem o que querem” . (Adriana Falcão , Pequeno Dicionário de Palavras ao Vento)

Hoje , dia 10 de junho celebra-se o Dia da Língua Portuguesa, data da morte de Luiz de Camões, “Pai da Língua”, autor de “Os Lusíadas”, em 1589. É com a língua que resistimos e existimos como espécie. E que nos diferenciamos na Babel de povos distintos. O próprio português PAULO TIMMdo Brasil, distanciando-se do lusitano,  é um amálgama do poder colonial com  a malemolência tropical, obrigada, por duas vezes, a discriminar o tupi, amplamente falado no território até o final do século XVIII: Pelo Marquês do Pombal, em  17 de agosto de 1758,  e por Dom João VI, em 1808.  A língua é, de resto,  nossa primeira prisão, nas malhas da  razão que a própria razão desconhece; mas é também, nossa única possibilidade de alforria, pelo exercício da liberdade.

Em 1968, por exemplo,  às vésperas do AI-5, uma canção, de Geraldo Vandré, sintetizou este poder da língua, ao ser interpretada nas eliminatórias por ele próprio no III Festival Internacional da Canção, transformando-se no maior hino de repúdio à ditadura militar: “Pra Não Dizer Que Não Falei Das Flores” ou “Caminhando“. Até hoje, para quem viveu, mesmo de longe, aqueles momentos, não há como sufocar  à forte emoção que evoca e que bem demonstra o importante papel da cultura, em seu vasto espectro, na redemocratização do país, independentemente do grande enigma que Vandré ainda representa em sua poética solidão.(É patética sua fala, mas digna de respeito, tanto pelo personagem humano, como pelo gênio artístico ineludível,  na recente entrevista concedida a Geneton de Moraes Neto, na GloboNews):

 

“Caminhando e cantando
E seguindo a canção
Somos todos iguais
Braços dados ou não
Nas escolas, nas ruas
Campos, construções
Caminhando e cantando
E seguindo a canção…

Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer…(2x)

Pelos campos há fome
Em grandes plantações
Pelas ruas marchando
Indecisos cordões
Ainda fazem da flor
Seu mais forte refrão
E acreditam nas flores
Vencendo o canhão…

Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer…(2x)

Há soldados armados
Amados ou não
Quase todos perdidos
De armas na mão
Nos quartéis lhes ensinam
Uma antiga lição:
De morrer pela pátria
E viver sem razão…

Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora”

 

Lamentavelmente,  os comentaristas da grande mídia obnubilaram a data da língua, preferindo as estatísticas da economia, no melhor estilo da velha tradição,   tão condenada pelos verdes: a maldição do PIB. Mas se a moeda forte nos mercados globais não é o real; se a tecnologia, até mesmo do provecto automóvel  “nacional” , vem de fora; e  se a economia está se desindustrializando, sob o fascínio da exportação de commodities que nos aferra à matriz colonial, tão condenada por Caio Prado Jr., desde seus primeiros escritos econômicos da década de 30 do século passado, o vernáculo é nosso.  Fernando Pessoa, Poeta Maior da língua, ia mais longe. A língua, para ele se confundia com a própria pátria, no melhor estilo heideggeriano, para quem a palavra é a morada do ser:

“As palavras são para mim corpos tocáveis, sereias visíveis, sensualidades incorporadas. Talvez porque a sensualidade real não tem para mim interesse de nenhuma espécie – nem sequer mental ou de sonho – , transmudou-se o desejo para aquilo que em mim cria ritmos verbais, ou os escuta de outros. Estremeço se dizem bem. Tal página de Fialho, tal página de Chateaubriand, fazem formigar toda a minha vida em todas as veias, fazem-me raivar tremulamente quieto um prazer inatingível que estou tendo. Tal página, até, de Vieira, na sua fria perfeição de engenharia sintática, me faz tremer como um ramos ao vento , num delírio passivo de coisa movida.         (…)

Não tenho sentimento político ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriótico. Minha pátria é a língua portuguesa. Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incomodassem pessoalmente. Mas odeio, com ódio verdadeiro, com o único ódio que sinto, não quem escreve mal português, não quem não sabe sintaxe, não quem escreve em ortografia simplificada, mas a página mal escrita, como pessoa própria, a ortografia sem ípsilon, como o escarro direto que me enjoa independentemente de quem o cuspisse.

 

Sim, porque a ortografia também é gente. A palavra é completa vista e ouvida. E a gala da trasliteração greco-romana veste-ma do seu vero manto régio, pelo qual é senhora e rainha.

 

(Fernando Pessoa –  Livro do Desassossego, por Bernardo Soares, Lisboa, Ática, 1982)

Mauro Santayana, decano do jornalismo brasileiro, não vai tão longe. Mas defende a língua escrita como  fundamento da soberania e tem uma posição de defesa intransigente da pureza do idioma:

“Demolir a linguagem é demolir o homem. Quando se trata de política de Estado, é crime contra o povo.”

(Mauro Santayana, Linguagem e Soberania – www.maurosantayana.com)

Mais do que         morada, pátria e essência da soberania de um povo:  A linguagem escrita é um momento do processo civilizatório que potencia a comunicação humana elevando-a culturalmente. A importância da Grécia Antiga consistiu precisamente no fato de que foi a simplificação da sua escrita , de base fonética, mais avançada do que as paralelas,   que proporcionou uma  inédita sinergia  da inteligência da época naquela região, culminando no requinte do helenismo.   E, mesmo sucumbindo ao poder de Roma, foi esta cultura que forjou os valores fundamentais da cultura ocidental, demonstrando o poder da palavra trasliterada na “última flor do Lácio”:

Língua portuguesa

Olavo Bilac


Última flor do Lácio, inculta e bela,
És, a um tempo, esplendor e sepultura:
Ouro nativo, que na ganga impura
A bruta mina entre os cascalhos vela…

Amo-te assim, desconhecida e obscura.
Tuba de alto clangor, lira singela,
Que tens o trom e o silvo da procela,
E o arrolo da saudade e da ternura!

Amo o teu viço agreste e o teu aroma
De virgens selvas e de oceano largo!
Amo-te, ó rude e doloroso idioma,

em que da voz materna ouvi: “meu filho!”,
E em que Camões chorou, no exílio amargo,
O gênio sem ventura e o amor sem brilho!

            ( “Poesias”, Livraria Francisco Alves – Rio de Janeiro, 1964, pág. 262)

 

É pelas palavras escritas e pela língua falada que nos identificamos como um povo no seu cotidiano. Por elas  nos eternizaremos como cultura, sendo, portanto nossa maior riqueza, aquela que se projeta como mito. Podemos não comer palavras, no sentido literal, nem chegar com elas, literalmente, às estrelas. Para tanto, farse-ão indispensáveis a boa matemática, a física e a tecnologia. Mas pela palavra dizemos do nosso espanto e descobrimos o logon da  fina teia de Ariadne. E pela palavra cantamos nossos sentimentos, suportando a dor e revalorizando a existência. E quando a palavra corta, abre-se o silêncio que grita:

“A última palavra é a palavra do poeta; a última palavra é a que fica.
A última palavra de Hamlet:
O resto é silêncio.
A última palavra de Júlio César:
Até tu, Brutus?
A última palavra de Jesus Cristo:
Meu pai, meu pai, por que me abandonaste?
A última palavra de Goethe:
Mais luz!
A última palavra de Booth, assassino de Lincoln:
Inútil, inútil…
E a última palavra de Prometeu:
Resisto!”

(José Antonio Küller  – Liberdade, Liberdade – http://josekuller.wordpress.com/3-liberdade-liberdade/)

Agonizando, Abril, dona da Veja, corta pessoal e mais 10 revistas

Agonizando, Abril, dona da Veja, corta pessoal e mais 10 revistas

 

Sob nova direção, o Grupo Abril começou às 16h00 da sexta-feira 7 o mais profundo processo de corte de pessoal, extinção de títulos e enxugamento de custos de sua história; as demissões começaram pelo meio da pirâmide de produção, entre os diretores de núcleos; foi dispensado, entre outros, o diretor Claudio Ferreira, responsável durante os últimos anos pela área comercial da revista Veja; presidente Giancarlo Civita não esperou nem a missa de sétimo dia de Roberto Civita para executar as medidas que seu pai se recusava a tomar.

Sob nova direção, o Grupo Abril começou às 16h00 da sexta-feira 7 o mais profundo processo de corte de pessoal, extinção de títulos e enxugamento de custos de sua história; as demissões começaram pelo meio da pirâmide de produção, entre os diretores de núcleos; foi dispensado, entre outros, o diretor Claudio Ferreira, responsável durante os últimos anos pela área comercial da revista Veja; presidente Giancarlo Civita não esperou nem a missa de sétimo dia de Roberto Civita para executar as medidas que seu pai se recusava a tomar.

Antes mesmo de ser rezada a missa de sétimo dia pela morte de Roberto Civita, que presidiu o Grupo Abril, a empresa iniciou, às 16 horas desta sexta-feira 7, talvez o maior e mais duro corte de funcionários, extinção de títulos e enxugamento de despesas de sua história. Sob a presidência de Giancarlo Civita, as medidas duras que seu pai não queria tomar começaram a ser executadas em relação a uma série de diretores de núcleos da organização, entre eles Claudio Ferreira, responsável por vários anos pela área comercial da revista Veja. 

Dos 52 títulos de revistas da Abril, pelo menos dez deverão ser extintos. O processo de cortes deve prosseguir na próxima semana. Rumores dão conta da necessidade de redução de R$ 100 milhões em despesas anuais, o que implicaria numa redução de cerca de 10% do quadro funcional. Isso representaria cerca de mil demissões.

Abaixo, reportagem a respeito publicada pelo Portal Imprensa:

Editora Abril demite Diretores de Núcleo; até dez títulos podem ser fechados

Após semanas de boatos e informações prevendo uma demissão em massa no Grupo Abril, a empresa iniciou, na tarde desta sexta (7/6), um processo de reestruturação que envolve desligamentos e fechamento de títulos.

Segundo IMPRENSA apurou, os cortes começaram pelos diretores de núcleo que passaram a ser chamados por volta de 16h.

Entre os demitidos estão Alfredo Ogawa, diretor de serviços editoriais da Abril Mídia; Brenda Fucuta, diretora superintendente da extinta UN Segmentada I; Claudio Ferreira, diretor comercial de administração da Unidade de Negócios Veja; Daniel Gomes, diretor de planejamento Estratégico e Novos Negócios; Kaike Nanne, diretor do Núcleo Comportamento; Márcia Neder, diretora do Núcleo Moda e Beleza e Paula Traldi, diretora de Recursos Humanos da ex-Abril Mídia.

Está prevista para a próxima semana a divulgação de quais revistas serão descontinuadas e o quanto esses cancelamentos afetarão o quadro de funcionários. Fala-se na redução de até mil vagas.

IMPRENSA contatou a assessoria de imprensa do Grupo Abril e aguarda pronunciamento oficial da empresa sobre os cortes.

Reestruturação do grupo

Com as mudanças, o Grupo Abril passa a ter uma nova estrutura e a junção das unidades de negócios que estavam ligadas à Abril Mídia. Elas serão cinco: Unidade de Negócios Veja, UN Exame, UN Abril Segmentadas, UN Negócios Digitais e UN de Negócios de Assinaturas.

A UN Veja será comandada por Thais Chedes Soares que acumula o cargo de diretora geral de publicidade; a UN Exame será comandada por Claudia Vassallo; a UN Abril Segmentadas será dirigida por Helena Bagnoli no comando geral e Claudia Giudice como diretora superintendente.

Já a UN de Novos Negócios Digitais terá Manoel Lemos como titular e reúne as operações Alphabase, iba, Elemidia, E-commerce e um Fundo de Investimento em Empresas de Tecnologia. A UN de Negócios de assinatura continua sob a liderança de Fernando Costa.

Foi criada uma assessoria editorial à presidência que será ocupada por Edla Müller que seguirá com o trabalho realizado por Thomas Souto Corrêa. Também foi criada uma vice-presidência de operações e gestão que será comandada por Marcelo Bonini.

Resultados positivos

A reestruturação da companhia acontece dois meses depois do anúncio da divulgação de receita líquida de R$ 2,98 bilhões, alcançados em 2012. Já a receita publicitária da empresa foi de R$ 1,03 bilhão no período.

Giancarlo Civita, que à época da divulgação dos resultados estava no cargo de vice-presidente do Conselho de Administração da companhia, destacou que “mesmo em ano de cenário econômico complicado mantivemos firme a missão de difundir cultura, educação e entretenimento”.

A parte digital da empresa também apresentou números satisfatórios. Os sites da Abril atingiram 59 milhões de internautas no ano passado. O Exame.com teve crescimento de 86% e chegou a 53 milhões de pageviews. Em 2012, a Abril S.A. ainda comprou a participação dos minoritários na Elemidia e passou a ter 100% do negócio.

Recentemente, a empresa fez vários investimentos e aquisições por meio da Abril Educação que já conta com marcas como Ática e Scipione, Anglo, Ser, Maxi, pH e GEO, os sistemas Anglo Vestibulares e o Curso e Colégio pH.

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do Brasil 247

CHARLES BAUDELAIRE (1821 – 1867) – por danilo corci / milão.it

 

O homem que mudou a literatura moderna. Definir o francês Charles Baudelaire somente desta maneira não seria correto. Ficaria muito aquém de sua verdadeira importância. Tradutor, poeta, crítico de arte e literato, Baudelaire foi o ponto alto do século 19 nas letras.

Charles foi o único filho de Joseph-François Baudelaire e de sua jovem segunda esposa, Caroline Archimbaut Defayis. Seu pai havia sido ordenado como padre quando neófito, mas largou o ministério durante a revolução francesa. Trabalhou como tutor dos filhos do duque de Choiseul-Praslin, o que lhe proporcionou um certo status. Ganhou dinheiro e respeito e aos 68 anos se casou com Caroline, então com 26. Vivendo num orfanato e já passada da idade de se casar, ela acabou por não ter opção. Em 1819, se casaram. Charles-Pierre Baudelaire veio ao mundo um ano e meio depois, em 9 de Abril de 1821.

Seu pai era um admirador das artes. Pintava e escrevia poesias. E insistiu para que o filho seguisse o caminho. Baudelaire, anos mais tarde, se referiu à sofreguidão do pai como “o culto das imagens”. Mas a convivência entre ambos durou pouco. Em fevereiro de 1827, Joseph-baudelairefotFrançois Baudelaire faleceu. O jovem Charles e sua mãe tiveram que se mudar para o subúrbio de Paris para não terem problemas financeiros. Em um de seus textos de 1861, Charles escreveu para a mãe: “Eu estive sempre vivo em você. Você foi totalmente minha”. Este tempo de convivência terminou quando Caroline se casou com o soldado Jacques Aupick, que conseguiu se tornar general e mais tarde serviu como embaixador francês para o Império Otomano e para Espanha, antes de se tornar senador do Segundo Império.

A vida acadêmica de Baudelaire começou no Collège Royal em Lyon, quando Aupick levou a família inteira ao assumir um cargo na cidade. Mais tarde, ele foi matriculado no Liceu Louis Le Grand, quando retornaram a Paris em 1836. Foi justamente ai que Baudelaire começou a se mostrar um pequeno gênio. Escrevia poemas, que eram execrados por seus professores, que acham que seus textos eram um exemplo de devassidão precoce, afeições que não eram normais em sua idade. A melancolia também dava sinais no jovem Charles. Aos poucos, ele se convenceu de ser um solitário por natureza. Em abril de 1839, acabou expulso da escola por seus atos de indisciplina constantes.

Mais tarde, ele se tornou aluno da Escola de Droit. Na verdade, Charles estava vivendo de maneira livre. Fez os seus primeiros contatos com o universo da literatura e contraiu uma doença venérea que o consumiu durante a vida inteira. Tentando salvar seu enteado do caminho libertino, Aupick o enviou para uma viagem à Índia, em 1841, uma forte inspiração para sua imaginação, e que trouxe imagens exóticas ao seu trabalho. Baudelaire retornou a França em 1842.

Neste mesmo ano, ele recebeu sua herança. Mas como dândi que era, consumiu rapidamente a pequena fortuna. Gastou em roupas, livros, quadros, comidas, vinhos, haxixe e ópio. Os dois últimos, um vício adquirido após consumir pela primeira vez entre 1843 e 1845, em seu apartamento no Hotel Pimodan. Pouco depois deste seu retorno, ele conheceu Jeanne Duval, a mulher que marcou definitivamente a sua vida. A mestiça primeiro se tornou sua amante e mais tarde, controlou sua vida financeira. Ela ira ser a inspiração para as poesias mais angustiadas e sensuais que o poeta escreveu. Seu perfume e o seus longos cabelos negros foram o mote da poesia erótica “La Chevelure”.

Charles Baudelaire continuou levando sua vida extravagante e em dois anos dilapidou todo o seu dinheiro. Também se tornou presa de agiotas e bandidos. Neste período, acumulou dívidas que o assombraram para o resto da vida. Em setembro de 1844, sua família entrou na justiça para impedi-lo de mexer no pouco dinheiro da herança que ainda sobrava. Baudelaire perdeu e acabou recebendo somas anuais, que mal dava para manter o seu estilo de vida e muito menos para pagar o que devia. Isto o levou a uma dependência brutal de sua mãe e ao ódio de seu padrasto. Seu temperamento isolacionista e desesperador, fruto de sua adolescência conturbada e que ele apelidou de “spleen” retornou e se tornou cada vez mais freqüente.

Após a sua volta a França, ele decidiu se tornar um poeta, a qualquer custo. De 1842 a 1846, ele compôs que mais tarde foram compilados na edição de “Flores do Mal” (1857). Baudelaire evitou publicar todos estes poemas separadamente, o que sugere que ele realmente tenha arquitetado em sua mente uma coleção coerente, governada por uma temática própria. Em outubro de 1845, compilou “As Lésbicas” e em 1848, “Limbo”, obras que representam a agitação e a melancolia da juventude moderna. Nenhuma das duas coleções de poemas foram lançadas em livros e Baudelaire só foi aceito no circuito cultural de Paris porque também era crítico de arte, trabalho que exerceu por um bom tempo.

Inspirado pelo exemplo do pintor Eugène Delacroix, ele elaborou uma teoria da pintura moderna, convocando os pintores a celebrarem e expressarem o “heroísmo da vida moderna”. O mês de janeiro de 1847 foi importante para Baudelaire. Ele escreveu a novela “La Fanfarlo”, cujo o herói, ou melhor, anti-herói, Samuel Cramer, um alter-ego do autor, oscila desesperado entre o desejo pela maternal e respeitável Madame de Cosmelly e o erótico pela atriz e dançarina Fanfarlo. Com este texto, Baudelaire começava a chamar a atenção, mesmo que timidamente.

Este anonimato acabou-se em fevereiro de 1848, quando participou de manifestações para a derrubada do Rei Luís Felipe e para a instalação da Segunda República. Consta que comandou um violento ataque contra o general Aupick, seu padrasto, então diretor da Escola Politécnica. Este acontecimento leva vários especialistas a minimizarem a participação do do poeta burguês nesta revolução, já que seus motivos não seriam sociais e políticos mas sim pessoais, que ainda não havia publicado nada. Porém, estudos recentes assumem uma veia política brutal em Baudelaire, em especial sua associação com o anarquista-socialista Pierre-Joseph Proudhon. Sua participação na revolta de proletários em junho de 1848 é comprovada e também na resistência contra os militares de Napoleão 3º, em dezembro de 1851. Logo após este episódio, o poeta declarou encerrado seu interesse em política e voltou toda a sua atenção para seus escritos.

Em 1847, ele descobriu um escritor norte-americano obscuro: Edgar Allan Poe. Impressionado pelo que leu e pelas similaridades entre os escritos de Poe com seu próprio pensamento e temperamento, Baudelaire decidiu levar a cabo a tradução completa das obras do norte-americano, trabalho este que lhe tomou boa parte do resto de sua vida. A tradução do conto “Mesmeric Revelation” foi publicado em julho de 1848 e depois, outras traduções apareceram em jornais e revistas antes de serem compiladas no livro “Histórias Extraordinárias” (1856) e “Novas Histórias Extraordinárias” (1857), todas precedidas por introduções críticas feitas por Charles Baudelaire. Depois se seguiu “As Aventuras de Arthur Gordon Pym” (1857), “Eureka” (1864) e Histórias Grotescas” (1865). Como tradução, estes trabalhos foram clássicos da prosa francesa, e o exemplo de Poe deu a Baudelaire uma confiança em sua própria teoria estética e ideais para a poesia. O poeta também começou a estudar o trabalho do teórico conservador Joseph de Maistre, que, junto com Poe, incentivaram seu pensamento a ir numa direção antinaturalista e anti-humanista.

Do meio de 1850, ele iria se pronunciar arrependido de ser um católico romano, apesar de manter sua obsessão pelo pecado original e pelo demônio. Tudo isto sem a fé no amor e perdão de Deus, e sua crença em Cristo se rebaixou tanto a ponto de praticamente não existir mais.

Entre 1852 e 1854, ele dedicou vários poemas à Apollonie Sabatier, sua musa e amante apesar da reputação de cortesã da alta-classe. Em 1854, Baudelaire manteve um caso com a atriz Marie Daubrun. Ao mesmo tempo, sua fama como o tradutor de Poe aumentava. O fato de ser crítico de arte permitiu que publicasse algum de seus poemas. Em junho de 1855, a Revue des Deux Mondes publicou uma sequência de 18 de seus poemas, com o título de “As Flores do Mal” (“Le Fleurs du Mal”). Os poemas, que ele escolheu pela originalidade e pelo tema, lhe trouxeram notoriedade. No ano seguinte, Baudelaire fechou um contrato com o editor Poulet-Malassis para uma coleção completa de poemas sob o título prévio.

Quando a primeira edição do livro foi publicado em junho de 1857, 13 dos 100 poemas foram imediatamente acusados de ofensas à religião e à moral pública. Um julgamento foi feito no dia 20 de agosto de 1857 e 6 poemas foram condenados a serem retirados da publicação sob a acusação de serem obscenos demais. Baudelaire foi multado em 300 francos (mais tarde, reduzido a 50 francos). Em 1866, na Bélgica, os seis poemas foram republicados sobre o título de “Les Èpaves”. A proibição dos poemas só foram retirados da França em 1949. Como toda polêmica sempre é benéfica, “As Flores do Mal” se tornou um marco por sua obscenidade, morbidez e devassidão. A lenda de Baudelaire como um poeta maldito, dissidente e pornográfico nasceu.

Porém, as vendagens não foram nada boas. Baudelaire nutria uma expectativa gigantesca pelo sucesso, o que não aconteceu e imediatamente se tornou amargo. Os anos que vieram transformaram Baudelaire numa personalidade soturna, assombrado pelo sentimento de fracasso, desilusão e desespero. Após a condenação de seu livro, ele se juntou com Apollonie Sabatier e a deixou em 1859 para retomar seu relacionamento com Marie Daubrun, novamente infeliz e fracassado. Apesar de ter escrito alguns de seus melhores trabalhos nestes anos, poucos foram publicados em livro. Após a publicação de experimentos de prosa em verso, ele se concentrou numa segunda edição de “As Flores do Mal”.

Em 1859, enquanto vivia novamente com sua mãe, perto do rio Sena, onde ela se mantinha reclusa após a morte de Aupick em 1857, Baudelaire produziu uma série de obras-primas da poesia, começando com “Le Voyage” em janeiro e culminando no que é considerado seu melhor poema, “Le Cygne”, em dezembro. Ao mesmo tempo, compôs dois de seus mais provocativos ensaios de crítica de arte: “Salon de 1859” e “Os Pintores da Vida Moderna”. Este último, inspirado por Constantin Guys, é visto como uma declaração profética dos elementos do Impressionismo, uma década antes do surgimento da escola.

Em 1860, publicou “Os Paraísos Artificiais”, uma tradução de partes do ensaio de “Confissões de um Inglês Comedor de Ópio”, de Thomas De Quincey, acompanhado por sua pesquisa e análise das drogas. Em fevereiro de 1861, uma segunda edição, maior e ampliada, de “As Flores do Mal” foi publicada por Poulet-Malassis. Ao mesmo tempo, publicou ensaios críticos sobre Theophile Gautier (1859), Richard Wagner (1861), Victor Hugo e outros poetas contemporâneos (1862), e Delacroix (1863). Estes textos seriam compilados em “A Arte Romântica”, em 1869. Os fragmentos de sua autobiografia entitulada “Fusèes”e “Mon Coeur Mis à Nu” também foram lançados entre 1850 e 1860. É também desta época seu ensaio onde afirma que a fotografia era um engodo, que aquela nova forma nunca seria arte. Mais tarde, o poeta se arrependeu e voltou atrás em suas declarações e chegou a ser retratado por Félix Nadar.

Em 1861, Baudelaire tentou se eleger à Academia Francesa mas foi fragorosamente derrotado Em 1862, Poulet-Malassis faliu e ele foi implicado na falência, o que piorou sua condição financeira. Seus limites mentais e físicos atingiram o topo. Ele definiu aquele momento como “o vento das asas da imbecilidade que passou por minha vida”. Abandonando a poesia, ele foi fundo na prosa em versos. Uma sequência de 20 de seus trabalhos foi publicada em 1862. Em abril de 1864, ele deixou Paris para se instalar em Bruxelas, onde tentaria persuadir um editor belga a publicar suas obras completas. Lá ficou, amargurado e empobrecido até 1866, quando após um ataque epilético na Igreja de Saint-Loup at Namur, sua vida mudou. Baudelaire teve uma lesão cerebral que lhe ocasionou afasia (perda da capacidade de compreensão e de expressão pela palavra escrita ou pela sinalização, assim como pela fala) e paralisia. O dândi nunca mais se recuperou. Retornou a Paris no dia 2 de julho, onde ficou em uma enfermaria até sua morte. Em 31 de agosto de 1867, aos 46 anos, Charles Baudelaire morreu nos braços de sua mãe.

Quando a morte o visitou, Baudelaire ainda mantinha vários de seus trabalhos não publicados e os que já haviam saído estavam fora de circulação. Mas isto rapidamente mudou. Os líderes do movimento Simbolista compareceram ao seu funeral e já se designavam como seus fiéis seguidores. Menos de 50 anos após a sua morte, Baudelaire ganhou a fama que nunca teve em vida: havia se tornado o maior nome da poesia francesa do século 19.

Conhecido por sua controvérsia e seus textos obscuros, Baudelaire foi o poeta da civilização moderna, onde suas obras parecem clamar pelo século 20 ao invés de seus contemporâneos. Em sua poesia introspectivaele se revelou como um lutador a procura de deus, sem crenças religiosas, procurando em cada manifestação da vida os elementos da verdade, de uma folha de uma árvore ou até mesmo no franzir das sobrancelhas de uma prostituta. Sua recusa em admitir restrições de escolha de temas em sua poesia o coloca num patamar de desbravador de novos caminhos para os rumos da literatura mundial.

Fontes: – Enciclopédia Britannica – Site da Universidade de Londres

O DIA DO TORTURADO – por mauro santayana / brasilia.df

O DIA DO TORTURADO

A celebração católica do Corpo de Cristo não faz lembrar apenas a Última Ceia e o rito de fé da Eucaristia. Recorda, à margem da liturgia, os açoites, o corpo agonizante de Cristo preso à cruz e os insultos dos soldados romanos, ao feri-lo com a lança, avinagrar os lábios sedentos e a disputar, nos dados, a túnica do morto. A prisão, o açoitamento, a coroação de espinhos, a escalada do Calvário, são atos continuados de MAURO SANTAYANAtortura, infligida a um prisioneiro político do Império Romano e, além disso, acusado de heresia diante da religião vigente na Palestina. Não faria mal à Igreja se viesse a considerar esse dia de ofício religioso também como o Dia do Torturado.

Não é provável que ela vá tão longe, quando há, em sua História, atos semelhantes de ignomínia, na Inquisição Espanhola e nos tribunais do Vaticano, que condenaram, entre outros, o grande pensador Giordano Bruno à fogueira. Mas nada impede aos verdadeiros cristãos lembrar, na mesma data, os que foram assassinados, sob tortura, no mundo inteiro, por suas idéias e seus atos. Embora a mensagem cristã recomende o perdão, a condição humana recomenda a resistência política e o desprezo contra os torturadores.

Assumir o corpo de Cristo, no ato da Eucaristia, é assumi-Lo em sua grandeza maior, na escolha que Ele faz, de absorver, na carne e na alma, a Humanidade sofredora de seu tempo e, no mistério da Fé, a Humanidade de todos os séculos. É, na visão teológica, a contrapartida simbólica da entrega de Cristo ao martírio. Os que são torturados, humilhados e mortos nas masmorras, na defesa de seu verdadeiro evangelho, vivem, em sua agonia, a plena e absoluta Eucaristia.

O mundo de nosso tempo não é muito diferente daquele de que falam os evangelistas. Havia ali a presença de um império mundial, com seus interesses. Havia ali um governo títere, imposto pelos romanos, e delegados do dominador, como o representante do Consulado, com seu pró-cônsul, ou seja, um governador da potência colonizadora. Hoje, as coisas são um pouco diferentes. Como estamos vendo, na divulgação de documentos norte-americanos, em nosso tempo o pró-consulado é exercido pelos embaixadores, com a assessoria ativa de seus adidos militares.

Na cumplicidade com os interesses imperiais, há a permanente guerra interna dos poderosos contra os débeis. Nas delegacias policiais e presídios, longe de testemunhas, homens e mulheres continuam a ser torturados por agentes do Estado. Acusados de delitos comuns, não têm os que podem denunciar o seu sofrimento, nem lhes prestar a mínima solidariedade. Raramente os fatos chegam ao conhecimento do Ministério Público. E nem se fale das execuções sumárias, registradas oficialmente como legítimo exercício da força policial contra a resistência “armada” dos suspeitos.

O Dia do Torturado deve ser o da Memória, com a localização dos mortos e o sepultamento digno, sob a cruz e com as lágrimas dos enlutados – como foi o de Jesus, entregue aos seus familiares. A memória nos servirá para evitar a volta do carrossel diabólico e fortalecer a esperança de que não haja mais o sofrimento dos torturados. O  seu martírio não pede vingança, mas a vigilância contra os golpistas de sempre e pela construção da paz.

Sinais do Espírito no mundo atual – por leonardo boff

Sinais do Espírito no mundo atual

26/05/2013

Desenvolveu-se, já há bastante tempo, toda uma teologia dos “sinais dos tempos” como forma de percepção de um desígnio divino para a história humana. Esse procedimento é  arriscado, pois para conhecer os sinais precisa-se primeiramente conhecer os tempos. E estes nos leonardo boffdias atuais são complexos, quando não contraditórios. O que é sinal do Espírito para alguns pode ser um antissinal  para outros.

Mas há alguns eventos que se impõem à consideração de todos, pois possuem uma evidência em si mesmos. Vamos nos referir a alguns pela densidade de sentido que contém.

O primeiro é sem dúvida o processo de planetização. Esta, mais que um fato econômico e político inegável, representa  um fenômeno histórico-antropológico: a humanidade se descobre como espécie, habitando a mesma e única Casa, o planeta Terra, com um destino comum. Ele antecipa o que já Pierre Teilhard de Chardin dizia em 1933 a partir de seu exílio eclesiástico na China: estamos na antessala de uma nova fase da humanidade: a fase da noosfera, vale dizer, da convergência das mentes e dos corações constituindo uma única história junto com a história da Terra. O Espírito que é sempre de unidade, de reconciliação e de convergência na diversidade.

Outro sinal relevante é constituído pelos Fóruns Sociais Mundiais que a partir do ano 2000 começaram a se realizar a partir de Porto Alegre, RS. Pela primeira vez na história moderna, os pobres do mundo inteiro, fazendo contraponto às reuniões dos ricos na cidade suíça de Davos, conseguiram acumular tanta força e capacidade de articulação que acabaram, aos milhares, se encontrando para apresentar suas experiência de resistência e de libertação e alimentar um sonho coletivo  de que um outro mundo é possível e necessário. Aí se notam os brotos do novo paradigma de humanidade, capaz de organizar de forma diferente a produção, o consumo, a preservação da natureza e a inclusão de todos num projeto coletivo que garanta um futuro de vida.

A Primavera Árabe surge também como um sinal do Espírito no mundo. Ela incendiou todo o Norte da Africa e se realizou sob o signo da busca de liberdade, de respeito dos direitos humanos e na integração das mulheres, tidas como  iguais, nos processos sociais. Ditaduras foram derrubadas, democracias estão sendo ensaiadas, o fator religioso é mais e mais valorizado na montagem da sociedade mas deixando de lado aspectos fundamentalistas. Tais fatos históricos devem ser interpretados, para além de sua leitura secular e sociopolítica, como emergências do Espírito de liberdade e de criatividade.

Quem poderia negar que numa leitura bíblico-teológica, a crise de 2008 que afetou principalmente o centro do poder econômico-financeiro do mundo, lá onde estão os grandes conglomerados  econômicos que vivem da especulação à custa da desestabilização de outros países e do desespero de suas populações, não seja também um sinal do Espírito Santo? Este é um sinal de advertência de que a perversidade tem limites e que sobre eles poderá vir um juízo severo de Deus: a sua completa derrocada.

Em contrapartida ao sinal negativo anterior, está o sinal positivo dos movimentos de vítimas que se organizaram na Europa como os “indignados” na Espanha e na Inglaterra e os “occupies Wall Street” nos EUA. Eles revelam uma energia de protesto e de busca de novas formas de democracia e de organizar a produção, cuja fonte derradeira, na leitura da fé, se encontra no Espírito.

Outro sinal do Espírito no mundo  ganhou forma na  crescente consciência ecológica de um número cada vez maior de pessoas no mundo inteiro. Os fatos não podem ser negados: tocamos nos limites da Terra, os ecossistemas mais e mais estão se exaurindo, a energia fóssil, o motor secreto de todo nosso processo industrialista, tem os dias contados e o aquecimento global que não para de aumentar e que, dentro de algumas décadas, pode ameaçar toda a biodiversidade.

Somos os principais responsáveis por este caos ecológico. Faz-se urgente um outro paradigma de civilização que vai na linha das visões já testadas na humanidade como o ’bem-viver” e o “bem-conviver” (sumak kawsay) dos povos andinos, o “índice de felicidade bruta” do Butão, o ecossocialismo, a  economia solidária e biocentrada, uma bem entendida economia verde ou projetos cuja centralidade é posta na vida, na humanidade e na Terra viva.

Por fim, um grande sinal do Espírito no mundo é o surgimento do movimento feminista e do ecofeminismo. As mulheres não apenas denunciaram a dominação secular do homem sobre a mulher (questão de gênero) mas especialmente toda a cultura patriarcal. A irrupção das mulheres em todos os campos da atividade humana, no mundo do trabalho, nos centros de saber, no campo da política e das artes, mas principalmente com uma vigorosa reflexão a partir da condição feminina sobre toda a realidade, deve ser vista como uma irrupção poderosa do Espírito na história.

A vida está ameaçada no planeta. A mulher é conatural à vida, pois a gera e cuida dela durante todo o tempo. O século 21 será, creio eu, o século das mulheres, daquelas que, junto com os homens, assumirão mais e mais responsabilidades coletivas. Será por elas que os  valores que elas mais testemunham como o cuidado, a cooperação, a solidariedade, a compaixão e o amor incondicional estarão na base do novo ensaio civilizatório planetário.

Veja de minha autoria A civilização planetária: desafios à sociedade e ao cristianismo, Sextante, Rio 2003

Tarsila do Amaral – desbravadora do modernismo

Tarsila do Amaral – desbravadora do modernismo

“Eu invento tudo na minha pintura. E o que eu vi ou senti, eu estilizo.”
– Tarsila do Amaral, em entrevista a “Revista Veja”, fevereiro de 1972.

 Auto-retrato 1923  -1
Tarsila do Amaral, Auto-Retrato [Manteau Rouge], 1923
Museu Nacional de Belas Artes (Rio de Janeiro, RJ)

Tarsila do Amaral (Capivari SP 1886 – São Paulo SP 1973). Pintora, desenhista. Estuda escultura com William Zadig (1884-1952) e com Mantovani, em 1916, na capital paulista. No ano seguinte tem aulas de pintura e desenho com Pedro Alexandrino (1856-1942), onde conhece Anita Malfatti (1889-1964). Ambas têm aulas com o pintor Georg Elpons (1865-1939). Em 1920 viaja para Paris e estuda na Académie Julian e com Émile Renard (1850-1930). Ao retornar ao Brasil forma em 1922, em São Paulo, o Grupo dos Cinco, com Anita Malfatti, Mário de Andrade (1893-1945), Menotti del Picchia (1892-1988) e Oswald de Andrade (1890-1954). Em 1923, novamente em Paris, freqüenta o ateliê de André Lhote (1885-1962), Albert Gleizes (1881-1953) e Fernand Léger (1881-1955). Entra em contato como o poeta Blaise Cendrars (1887-1961), que a apresenta a Constantin Brancusi (1876-1957), Vollard, Jean Cocteau (1889-1963), Erik Satie, entre outros. No ano seguinte, já no Brasil, com Oswald de Andrade, Olívia Guedes Penteado (1872-1934), Mário de Andrade e outros, acompanha o poeta Blaise Cendrars em viagem às cidades históricas de Minas Gerais. Realiza uma série de trabalhos baseados em esboços feitos durante a viagem. Nesse período, inicia a chamada fase pau-brasil, em que mergulha na temática nacional. Em 1925 ilustra o livro de poemas Pau-Brasil, de Oswald de Andrade, publicado em Paris. Em 1928, pinta Abaporu, tela que inspira o movimento antropofágico, desencadeado por Oswald de Andrade e Raul Bopp (1898-1984). Em 1933, após viagem à União Soviética, inicia uma fase voltada para temas sociais com as obras Operários e 2ª Classe. Em 1936 colabora como cronista de arte no Diário de São Paulo. A convite da Comissão do IV Centenário de São Paulo faz, em 1954, o painel Procissão do Santíssimo e, em 1956, entrega O Batizado de Macunaíma, sobre a obra de Mário de Andrade, para a Livraria Martins Editora. A retrospectiva Tarsila: 50 Anos de Pintura, organizada pela crítica de arte Aracy Amaral e apresentada no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM/RJ) e no Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo (MAC/USP), em 1969, ajuda a consolidar a importância da artista.

Comentário crítico
 tarsila do amaral - autoretrato
Tarsila do Amaral – auto-retrato
Nascida em Capivari, São Paulo, em 1886, a pintora e desenhista Tarsila do Amaral inicia-se nas artes em 1902, período em que freqüenta o colégio Sacré Couer de Barcelona. Na escola copia imagens religiosas. Em 1904, regressa ao Brasil. Pouco tempo depois se casa com André Teixeira Pinto, com quem tem sua única filha, Dulce. O casamento não dura muito. Contra a vontade da família, Tarsila se separa. Em 1913, muda-se para São Paulo. Aprende piano, copia pinturas e acompanha algumas discussões literárias, sem saber direito a que se dedicaria. O contato com as artes se estreita a partir de 1916, quando passa a trabalhar no ateliê do escultor William Zadig (1884-1952), com quem aprende a modelar. No mesmo ano, tem aulas com o escultor Mantovani. Seu aprendizado continua no curso de desenho com Pedro Alexandrino (1856-1942). Aí conhece Anita Malfatti (1889-1964), já modernista, abrigada na turma do professor acadêmico. Posteriormente ela e alguns colegas do curso de Pedro Alexandrino fazem aulas de pintura com Georg Elpons (1865-1939), que lhes apresenta técnicas diferentes das acadêmicas, como a aplicação de cores puras, diretamente do tubo.
Estimulada pelo maestro Souza Lima, parte para Paris em 1920. Quer entrar em contato com a produção européia e aperfeiçoar-se. Ingressa primeiro na Académie Julian, depois tem aulas com Emile Renard (1850-1930). Nesse período, trava contato com a arte moderna. Vê o que Anita Malfatti já lhe havia contado. Conhece trabalhos de Pablo Picasso (1881-1973), Maurice Denis (1870-1943) e a produção dos dadaístas e futuristas. O interesse coincide com o fortalecimento do modernismo em São Paulo. De longe, Tarsila recebe curiosa a notícia dos progressos do grupo, na correspondência com Anita. Em abril de 1922, dois meses depois da Semana de Arte Moderna, volta ao Brasil para “descobrir o modernismo”.1 Conhece Mário de Andrade (1893-1945), Oswald de Andrade (1890-1954) e Menotti del Picchia (1892-1988). Com eles e Anita, funda o Grupo dos Cinco. O aprendizado europeu será digerido aqui, no contato com o grupo. A artista pinta com cores mais ousadas e pinceladas mais marcadas. Faz retratos de Mário de Andrade e Oswald de Andrade com cores expressionistas e gestualidade marcada.
 Retrato de Tarsila, de Anita Malfatti (Acevo MASP SP)
Retrato de Tarsila, por Anita Malfatti (Acevo MASP SP)
Em 1923 volta a Paris e passa a viver com Oswald de Andrade. Retoma as aulas, mas em outras bases: distância-se da educação convencional, acadêmica. Quer estudar as técnicas modernas. Nesse ano, se torna aluna de André Lhote (1885-1962). Com ele, suas formas se regularizam. Na mesma época, entra em contato com os grandes nomes do modernismo parisiense, como o poeta Blaise Cendrars (1887-1961), que a apresenta a Constantin Brancusi (1876-1957), Vollard, Jean Cocteau (1889-1963), Erik Satie e Fernand Léger (1881-1955). Chega a freqüentar o ateliê deste pintor cubista. Tem aulas também com Albert Gleizes (1881 – 1953). A convivência com os mestres vai influenciá-la profundamente. Nesse período faz uma pintura de inspiração cubista,2 no entanto, interessa-se, cada vez mais pela figuração tipicamente brasileira, de temas nacionais, como em A Negra (1923) e A Caipirinha (1923).
Retorna para o Brasil com interesse voltado para as coisas daqui. Viaja para conhecer o carnaval carioca e as cidades históricas de Minas Gerais. Tarsila utiliza as técnicas aprendidas no exterior para figurar coisas de sua terra. A abordagem geométrica da iconografia brasileira vai originar a pintura Pau-Brasil em 1924. Sérgio Milliet (1898-1966) descreve esses trabalhos como “a captação sintética de uma realidade brasileira sentimental e ingênua, de que haviam se envergonhado antes os artistas do nosso país”.3 Em sua primeira individual, em 1926, na Galerie Percier, em Paris, a artista mostra esses trabalhos.
Em 1928, ela presenteia Oswald de Andrade com o quadro Abaporu (1928) A pintura estimula o escritor a fundar o movimento antropofágico. Neste período, a geometria é abrandada. As formas crescem, tornam-se orgânicas e adquirem características fantásticas, oníricas. Telas como O Ovo [Urutu] (1928), O Sono (1928) e A Lua (1928), compostas de figuras selvagens e misteriosas, aproximam-na do surrealismo.
 Tarsila, por Lasar Segall
Tarsila do Amaral, por Lasar Segall
A partir da década de 1930, a vida de Tarsila modifica-se bastante. No primeiro ano da década separa-se de Oswald. Na mesma época, ocupa, por um curto período, a direção da Pinacoteca do Estado de São Paulo (Pesp). Viaja para a União Soviética no ano seguinte e expõe em Moscou. A partir de 1933, seu trabalho ganha uma aparência mais realista. Influenciada pela mobilização socialista, pinta quadros como Operários (1933) e 2ª Classe (1933), preocupados com as mazelas sociais.
Em 1935, muda-se para o Rio de Janeiro. Sua vida é atribulada. A artista tem uma situação doméstica confusa, repleta de afazeres e afasta-se da pintura. Ocupa-se da disputa de posse de sua fazenda e trabalha muito como ilustradora e colunista na imprensa. A partir de 1936 colabora regularmente como cronista no Diário de São Paulo, função que ocupará até os anos de 1950. Nessa época, seus quadros ganham um modelado geométrico. As cores perdem a homogeneidade e tornam-se mais porosas e misturadas. Em 1938, recupera a propriedade, retorna à São Paulo e sua produção volta à regularidade. Reaproxima-se de questões que animaram o período heróico do modernismo brasileiro. A partir da segunda metade dos anos de 1940, as inquietações do período pau-brasil e da antropofagia são reformuladas, os temas rurais voltam de maneira simples. Em algumas telas, como Praia (1947) e Primavera (1946), as figuras agigantadas evocam o período antropofágico, mas agora aparecem sob forma mais tradicional, com passagens tonais de cor e modelado mais clássico.
 Tarsila do amaral, 1924 auto retrato
Tarsila do Amaral – auto-retrato I , 1924
Acervo Artístico-Cultural dos Palácios do Governo do Estado de S. Paulo.
Palácio Boa Vista (Campos do Jordão, SP)

Em 1950, é feita a primeira retrospectiva de seu trabalho, no Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM/SP). A exposição dá mais prestígio à artista, nela as pinturas da fase “neo pau-brasil” são mostradas pela primeira vez. O retorno a temas nacionais anima Tarsila a pintar dois murais de forte sentido patriótico. Em 1954, termina Procissão do Santíssimo , encomendado para as comemorações do IV Centenário da Cidade de São Paulo. Dois anos depois, entrega O Batizado de Macunaíma, para a Editora Martins. Em 1969, a crítica de arte Aracy Amaral organiza duas importantes retrospectivas do trabalho de Tarsila. Uma no Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo (MAC/USP) e outra no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM/RJ). As mostras consolidam sua importância para a arte brasileira. Tarsila falece em São Paulo em 1973.

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Notas
(1) AMARAL, Aracy. Tarsila: sua obra e seu tempo. 3. ed. rev. ampl. São Paulo: Edusp: Editora 34, 2003. p.70.
(2) Em 1924, ao retornar ao Brasil, Tarsila responde afirmativamente à pergunta: “A Senhora é cubista? “. Cf. AMARAL, Aracy. op. cit. p. 141.
(3) MILLIET, Sérgio. Uma exposição retrospectiva. In: AMARAL, Aracy. op. cit. p. 454- 457.
Fonte: Enciclopédia de Artes Visuais/Itaú Cultural

 abaporu-tarsila-do-amaral
Abaporu, de Tarsila do Amaral, 1928
(Acervo Fundación Costantini)


“Sou muito devota do Menino Jesus de Praga, porque alcancei muitas graças com as orações a ele. É uma novena milagre, eu sei tudo de cor: ‘Oh Jesus que dissestes: Pedi e recebereis, procurai e achareis, batei e a porta se abrirá´.”

– Tarsila do Amaral, em entrevista a “Revista Veja”, fevereiro de 1972.

Antonio Cândido indica 10 livros para conhecer o Brasil – por antonio candido.*

Antonio Cândido indica 10 livros para conhecer o Brasil

13.05.17_Antonio Candido_10 livros para conhecer o Brasil

Quando nos pedem para indicar um número muito limitado de livros importantes para conhecer o Brasil, oscilamos entre dois extremos possíveis: de um lado, tentar uma lista dos melhores, os que no consenso geral se situam acima dos demais; de outro lado, indicar os que nos agradam e, por isso, dependem sobretudo do nosso arbítrio e das nossas limitações. Ficarei mais perto da segunda hipótese.

Como sabemos, o efeito de um livro sobre nós, mesmo no que se refere à simples informação, depende de muita coisa além do valor que ele possa ter. Depende do momento da vida em que o lemos, do grau do nosso conhecimento, da finalidade que temos pela frente. Para quem pouco leu e pouco sabe, um compêndio de ginásio pode ser a fonte reveladora. Para quem sabe muito, um livro importante não passa de chuva no molhado. Além disso, há as afinidades profundas, que nos fazem afinar com certo autor (e portanto aproveitá-lo ao máximo) e não com outro, independente da valia de ambos.

Por isso, é sempre complicado propor listas reduzidas de leituras fundamentais. Na elaboração da que vou sugerir (a pedido) adotei um critério simples: já que é impossível enumerar todos os livros importantes no caso, e já que as avaliações variam muito, indicarei alguns que abordam pontos a meu ver fundamentais, segundo o meu limitado ângulo de visão. Imagino que esses pontos fundamentais correspondem à curiosidade de um jovem que pretende adquirir boa informação a fim de poder fazer reflexões pertinentes, mas sabendo que se trata de amostra e que, portanto, muita coisa boa fica de fora.

São fundamentais tópicos como os seguintes: os europeus que fundaram o Brasil; os povos que encontraram aqui; os escravos importados sobre os quais recaiu o peso maior do trabalho; o tipo de sociedade que se organizou nos séculos de formação; a natureza da independência que nos separou da metrópole; o funcionamento do regime estabelecido pela independência; o isolamento de muitas populações, geralmente mestiças; o funcionamento da oligarquia republicana; a natureza da burguesia que domina o país. É claro que estes tópicos não esgotam a matéria, e basta enunciar um deles para ver surgirem ao seu lado muitos outros. Mas penso que, tomados no conjunto, servem para dar uma ideia básica.

Entre parênteses: desobedeço o limite de dez obras que me foi proposto para incluir de contrabando mais uma, porque acho indispensável uma introdução geral, que não se concentre em nenhum dos tópicos enumerados acima, mas abranja em síntese todos eles, ou quase. E como introdução geral não vejo nenhum melhor do que O povo brasileiro (1995), de Darcy Ribeiro, livro trepidante, cheio de ideias originais, que esclarece num estilo movimentado e atraente o objetivo expresso no subtítulo: “A formação e o sentido do Brasil”.

Quanto à caracterização do português, parece-me adequado o clássico Raízes do Brasil (1936), de Sérgio Buarque de Holanda, análise inspirada e profunda do que se poderia chamar a natureza do brasileiro e da sociedade brasileira a partir da herança portuguesa, indo desde o traçado das cidades e a atitude em face do trabalho até a organização política e o modo de ser. Nele, temos um estudo de transfusão social e cultural, mostrando como o colonizador esteve presente em nosso destino e não esquecendo a transformação que fez do Brasil contemporâneo uma realidade não mais luso-brasileira, mas, como diz ele, “americana”.

Em relação às populações autóctones, ponho de lado qualquer clássico para indicar uma obra recente que me parece exemplar como concepção e execução:História dos índios do Brasil (1992), organizada por Manuela Carneiro da Cunha e redigida por numerosos especialistas, que nos iniciam no passado remoto por meio da arqueologia, discriminam os grupos linguísticos, mostram o índio ao longo da sua história e em nossos dias, resultando uma introdução sólida e abrangente.

Seria bom se houvesse obra semelhante sobre o negro, e espero que ela apareça quanto antes. Os estudos específicos sobre ele começaram pela etnografia e o folclore, o que é importante, mas limitado. Surgiram depois estudos de valor sobre a escravidão e seus vários aspectos, e só mais recentemente se vem destacando algo essencial: o estudo do negro como agente ativo do processo histórico, inclusive do ângulo da resistência e da rebeldia, ignorado quase sempre pela historiografia tradicional. Nesse tópico resisto à tentação de indicar o clássico O abolicionismo (1883), de Joaquim Nabuco, e deixo de lado alguns estudos contemporâneos, para ficar com a síntese penetrante e clara de Kátia de Queirós Mattoso, Ser escravo no Brasil (1982), publicado originariamente em francês. Feito para público estrangeiro, é uma excelente visão geral desprovida de aparato erudito, que começa pela raiz africana, passa à escravização e ao tráfico para terminar pelas reações do escravo, desde as tentativas de alforria até a fuga e a rebelião. Naturalmente valeria a pena acrescentar estudos mais especializados, como A escravidão africana no Brasil (1949), de Maurício Goulart ou A integração do negro na sociedade de classes (1964), de Florestan Fernandes, que estuda em profundidade a exclusão social e econômica do antigo escravo depois da Abolição, o que constitui um dos maiores dramas da história brasileira e um fator permanente de desequilíbrio em nossa sociedade.

Esses três elementos formadores (português, índio, negro) aparecem inter-relacionados em obras que abordam o tópico seguinte, isto é, quais foram as características da sociedade que eles constituíram no Brasil, sob a liderança absoluta do português. A primeira que indicarei é Casa grande e senzala (1933), de Gilberto Freyre. O tempo passou (quase setenta anos), as críticas se acumularam, as pesquisas se renovaram e este livro continua vivíssimo, com os seus golpes de gênio e a sua escrita admirável – livre, sem vínculos acadêmicos, inspirada como a de um romance de alto voo. Verdadeiro acontecimento na história da cultura brasileira, ele veio revolucionar a visão predominante, completando a noção de raça (que vinha norteando até então os estudos sobre a nossa sociedade) pela de cultura; mostrando o papel do negro no tecido mais íntimo da vida familiar e do caráter do brasileiro; dissecando o relacionamento das três raças e dando ao fato da mestiçagem uma significação inédita. Cheio de pontos de vista originais, sugeriu entre outras coisas que o Brasil é uma espécie de prefiguração do mundo futuro, que será marcado pela fusão inevitável de raças e culturas.

Sobre o mesmo tópico (a sociedade colonial fundadora) é preciso ler tambémFormação do Brasil contemporâneo, Colônia (1942), de Caio Prado Júnior, que focaliza a realidade de um ângulo mais econômico do que cultural. É admirável, neste outro clássico, o estudo da expansão demográfica que foi configurando o perfil do território – estudo feito com percepção de geógrafo, que serve de base física para a análise das atividades econômicas (regidas pelo fornecimento de gêneros requeridos pela Europa), sobre as quais Caio Prado Júnior engasta a organização política e social, com articulação muito coerente, que privilegia a dimensão material.

Caracterizada a sociedade colonial, o tema imediato é a independência política, que leva a pensar em dois livros de Oliveira Lima: D. João VI no Brasil (1909) eO movimento da Independência (1922), sendo que o primeiro é das maiores obras da nossa historiografia. No entanto, prefiro indicar um outro, aparentemente fora do assunto: A América Latina, Males de origem (1905), de Manuel Bonfim. Nele a independência é de fato o eixo, porque, depois de analisar a brutalidade das classes dominantes, parasitas do trabalho escravo, mostra como elas promoveram a separação política para conservar as coisas como eram e prolongar o seu domínio. Daí (é a maior contribuição do livro) decorre o conservadorismo, marca da política e do pensamento brasileiro, que se multiplica insidiosamente de várias formas e impede a marcha da justiça social. Manuel Bonfim não tinha a envergadura de Oliveira Lima, monarquista e conservador, mas tinha pendores socialistas que lhe permitiram desmascarar o panorama da desigualdade e da opressão no Brasil (e em toda a América Latina).

Instalada a monarquia pelos conservadores, desdobra-se o período imperial, que faz pensar no grande clássico de Joaquim Nabuco: Um estadista do Império(1897). No entanto, este livro gira demais em torno de um só personagem, o pai do autor, de maneira que prefiro indicar outro que tem inclusive a vantagem de traçar o caminho que levou à mudança de regime: Do Império à República(1972), de Sérgio Buarque de Holanda, volume que faz parte da História geral da civilização brasileira, dirigida por ele. Abrangendo a fase 1868-1889, expõe o funcionamento da administração e da vida política, com os dilemas do poder e a natureza peculiar do parlamentarismo brasileiro, regido pela figura-chave de Pedro II.

A seguir, abre-se ante o leitor o período republicano, que tem sido estudado sob diversos aspectos, tornando mais difícil a escolha restrita. Mas penso que três livros são importantes no caso, inclusive como ponto de partida para alargar as leituras.

Um tópico de grande relevo é o isolamento geográfico e cultural que segregava boa parte das populações sertanejas, separando-as da civilização urbana ao ponto de se poder falar em “dois Brasis”, quase alheios um ao outro. As consequências podiam ser dramáticas, traduzindo-se em exclusão econômico-social, com agravamento da miséria, podendo gerar a violência e o conflito. O estudo dessa situação lamentável foi feito a propósito do extermínio do arraial de Canudos por Euclides da Cunha n’Os sertões (1902), livro que se impôs desde a publicação e revelou ao homem das cidades um Brasil desconhecido, que Euclides tornou presente à consciência do leitor graças à ênfase do seu estilo e à imaginação ardente com que acentuou os traços da realidade, lendo-a, por assim dizer, na craveira da tragédia. Misturando observação e indignação social, ele deu um exemplo duradouro de estudo que não evita as avaliações morais e abre caminho para as reivindicações políticas.

Da Proclamação da República até 1930 nas zonas adiantadas, e praticamente até hoje em algumas mais distantes, reinou a oligarquia dos proprietários rurais, assentada sobre a manipulação da política municipal de acordo com as diretrizes de um governo feito para atender aos seus interesses. A velha hipertrofia da ordem privada, de origem colonial, pesava sobre a esfera do interesse coletivo, definindo uma sociedade de privilégio e favor que tinha expressão nítida na atuação dos chefes políticos locais, os “coronéis”. Um livro que se recomenda por estudar esse estado de coisas (inclusive analisando o lado positivo da atuação dos líderes municipais, à luz do que era possível no estado do país) éCoronelismo, enxada e voto (1949), de Vitor Nunes Leal, análise e interpretação muito segura dos mecanismos políticos da chamada República Velha (1889-1930).

O último tópico é decisivo para nós, hoje em dia, porque se refere à modernização do Brasil, mediante a transferência de liderança da oligarquia de base rural para a burguesia de base industrial, o que corresponde à industrialização e tem como eixo a Revolução de 1930. A partir desta viu-se o operariado assumir a iniciativa política em ritmo cada vez mais intenso (embora tutelado em grande parte pelo governo) e o empresário vir a primeiro plano, mas de modo especial, porque a sua ação se misturou à mentalidade e às práticas da oligarquia. A bibliografia a respeito é vasta e engloba o problema do populismo como mecanismo de ajustamento entre arcaísmo e modernidade. Mas já que é preciso fazer uma escolha, opto pelo livro fundamental de Florestan Fernandes,A revolução burguesa no Brasil (1974). É uma obra de escrita densa e raciocínio cerrado, construída sobre o cruzamento da dimensão histórica com os tipos sociais, para caracterizar uma nova modalidade de liderança econômica e política.

Chegando aqui, verifico que essas sugestões sofrem a limitação das minhas limitações. E verifico, sobretudo, a ausência grave de um tópico: o imigrante. De fato, dei atenção aos três elementos formadores (português, índio, negro), mas não mencionei esse grande elemento transformador, responsável em grande parte pela inflexão que Sérgio Buarque de Holanda denominou “americana” da nossa história contemporânea. Mas não conheço obra geral sobre o assunto, se é que existe, e não as há sobre todos os contingentes. Seria possível mencionar, quanto a dois deles, A aculturação dos alemães no Brasil (1946), de Emílio Willems; Italianos no Brasil (1959), de Franco Cenni, ou Do outro lado do Atlântico (1989), de Ângelo Trento – mas isso ultrapassaria o limite que me foi dado.

No fim de tudo, fica o remorso, não apenas por ter excluído entre os autores do passado Oliveira Viana, Alcântara Machado, Fernando de Azevedo, Nestor Duarte e outros, mas também por não ter podido mencionar gente mais nova, como Raimundo Faoro, Celso Furtado, Fernando Novais, José Murilo de Carvalho, Evaldo Cabral de Melo etc. etc. etc. etc.

* Artigo publicado na edição 41 da revista Teoria e Debate – em 30/09/2000

ECONOMIA BRASILEIRA: PARA ONDE VAMOS? – por paulo timm / torres.rs

A economia brasileira esteve, durante os últimos anos, na berlinda. Dois sucessivos Governos, o de FHC ( 2005/2002)  e  Lula ( 2003/2010) , não só retiraram o país do índex , pouco recomendado a investidores internacionais, como o transformaram no PAULO TIMMfruto cobiçado destes investidores. Mais do que isto: O Brasil virou moda. A tal ponto que brasileiros e brasileiras começaram a ser crescentemente escolhidos para “par perfeito”. Um romance, levado às telas, coroou o sucesso: “Comer, Rezar, Amar”. Um brasileiro madurão confirma as recomendações, fazendo a felicidade conjugal da bela peregrina….Uma propaganda do Governo não deixava por menos, mostrando um montanhoso gigante levantando-se com determinação e peso: “O presente chegou!”

Mas a vida vem  em ondas como o mar. E há tempo para tudo. Para a economia brasileira os tempos, agora, são outros: O PIB está muito baixo, a Inflação preocupa, os déficits de comércio exterior e do setor público disparam. Pior: o país se prostra, novamente, ao modelo primário-exportador, no qual somos inequivocamente mais produtivos do que os outros, malgré a precariedade da infraestrutura de escoamento da produção.   O alento fica por conta dos baixos níveis de desemprego. E o alívio, por conta dos altos índices – jamais vistos – de aceitação do Governo Dilma. Os petistas, seu principal suporte político, exultam, jogando as tensões para debaixo do tapete: “Todo mundo apóia Dilma!”

A inteligência do país, porém, que não se confunde nem com o Povão, nem com a Situação, se inquieta.  Não falo dos tradicionais e pouco recomendáveis comentaristas da Grande Mídia, escrita e televisiva,  convertidos, há muito, a militantes conservadores. Falo da “inteligência” que não outro compromisso senão com as próprias dúvidas.

As duas ou três últimas semanas estão assistindo a um intenso debate entre economistas ortoxos, conservadores, favoráveis à maior abertura do país como condição indispensável à sua sobrevivência num mundo crescentemente competitivo e economistas mais progressistas, ainda partidários de um modelo desenvolvimentista com forte presença nacional e apoio no mercado interno.

Edmar Bacha é um dos mais conceituados economistas neo-liberais do país. Sólida formação acadêmica nos Estados Unidos, carreira acadêmica irretocável, honesto.  Devo a ele o convite para ingressar na Universidade de Brasília, em 1973.  Quando estranhei que convidasse alguém com formação marxista, ele foi incisivo: – “Uma boa Universidade tem que gente com todo o tipo de formação. Os alunos que se decidam. Mas tem que ser bommm! “ Ele foi um dos Pais do Real( só não pode ser chamado de Pai porque se esqueceram de fazer exame de DNA…) e  defensor de uma integração competitiva do Brasil no processo de globalização. Acaba de divulgar um livro , seguido de inúmeras entrevistas na televisão. Para ele a globalização é inelutável. É um marco da organização econômica ao qual os países devem procurar um espaço. Se não o fizerem, anquilosar-se-ão em perfis industriais cada vez menos competitivos e inviáveis.   Bacha defende, então, um Novo Plano Real, agora para a reorganização industrial do país: Definir setores com potencialidade competitiva internacional, reorganizar as finanças públicas e abrir definitivamente a economia brasileira, tradicionalmente fechada em si mesmo, com baixíssimos coeficientes de abertura externa. Para tanto, diz ele, o câmbio tem que voltar a flutuar com mais desenvoltura, o que exigirá, claro! , gente confiável ao mercado. Bacha sintetiza o que deveria ser um Programa de Oposição à Política Econômica do PT.

Do ponto de vista do Governo, tem faltado fôlego não só para rebater as críticas de Bacha e outros economista liberais, como para reanimar uma econo mia virtualmente desfalida. Diz os provérbio que TODOS OS CRIMES TÊM CRIMES, ASSIM COMO OS HOMENS TÊM PECADOS, mas parece ser uma regra mundial também, que TODOS OS GOVERNOS EMBURRECEM, AFASTAM A INTELIGÊNCIA. O próprio PT era um Partido que tinha na sua formação um segmento expressivo da vida acadêmica do país. Mas,  lentamente, esses quadros foram se retirando. Primeiro do Governo, depois até mesmo do Partido. Hoje estão voltados `a reprodução de suas  idéias dentro das Universidades. Na área econômica Governamental, tirando a Dilma, grassa uma verdadeira mediocridade, começando pelo Ministro da Fazenda. Não há argumentos e contra-argumentos, apenas a repetição incansável de slogans e publicidade. O cavalo de batalha é o que o PT fez: incorporação ao mercado de cerca de 30 milhões de pessoas, num resultado combinado  – elogiável -de elevação do salário mínimo, transferências de renda e acesso ao crédito ao consumidor. Neste último item, o papagaio dos consignados já se transformou até em ave de rapina, tal a desenvoltura dos bancos no abuso deste instrumento. Eu mesmo tive que recorrer à Justiça que cancelar uma fraude que acarretou, sem meu consentimento na “renovação automática”de empréstimos anteriores. Indescritível…! Mas, à falta de grandes nomes na defesa do Governo, entram em campo, J.M. Belluzzo , do PMDB, mais sombriamente, Delfim Neto, dois dos melhores economistas do País. Ambos rebatem o argumento da   imperiosidade da integração competitiva no mercado global , mas insistem na necessidade de uma Política Industrial mais sólida. Todo os governistas estão de acordo que a tentativa de criar  “empresas campeãs”, via BNDES, foi insuficiente. Luciano Coutinho, Presidente do BNDES também concorda.

Assim, pois, arma-se o cenário que deverá ilustrar as próximas eleições presidenciais. De um lado, ao qual Aécio  tenderá a se incorporar,  associado ou não à Marina, apesar de nem entender o que está em jogo, haverá um claro discurso de retorno à Era FHC, com maior rigor fiscal, privatizações e abertura industrial. De outro, pontualizará Dilma, em defesa do que o PT já fez , num recurso ao que se denomina argumento de autoridade. Vai insistir: – Podemos fazer mais!”, mas não dirá exatamente como. Eduardo Campos, ainda vacilante, com pouca assessoria na área econômica, vai ziguezaguear, tentando conseguir apoio com descontentes de uma e outra corrente. Contará, entretanto, mais com seu carisma pessoal e juventude, do que com um sólido programa. Nisso Marina, hoje centrada em S.Paulo, com Pedro depois da crucificação, lhe é superior: Tentará erigir sua Igreja com gente de mais peso.

Deus , enfim, não joga dados. Nem os candidatos à Presidência em 2014. Todos estão de olho na economia. Com exceção da Dilma, torcem para que a economia piore um pouco até o fim do ano, de forma a erodir a popularidade da Presidenta e com isso, abrir uma janela de oportunidades para novos tempos.

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MARX, FREUD e o MAIO DE 1968 por paulo timm / torres.rs

 Maio de 68 como a porta para a  Sacralização do indivíduo

 

Quando eu era menino,  maio era o Mês das Noivas. Naquele tempo, meados do século passado ( uma  remota antiguidade,  próxima a Ramsés, para os jovens de hoje ou, com melhor vontade, ao tempo em que os cristãos eram devorados por leões famintos no Coliseu) , o  Correio do Povo publicava visíveis anúncios sobre o “Enlace”. Com tal recurso, os noivos passavam a ter um pouco mais de intimidade. PAULO TIMMNada que ultrapassasse um beijo mais ardente com direito à algumas “pegadinhas”. Na verdade, começavam a ser tratados como… indivíduos. Com direito ao prazer…Lembro-me bem de tudo isso porque, “naquele tempo”, minha mãe recortava esses naúncios e me punha a campo para oferecer às famílias da noiva, o sonhado  “enxoval”, que ela preparava artesanalmente. Era ela uma das famosos “Pereiras”, de Santa Maria, célebres pelos bordados. Graças a isto, que  eu obrava meio constrangido, no duplo sentido da palavra, conheci todos os bairros de Porto Alegre. De bonde. Era o melhor do “trabalho”.

Mas há algum tempo a referência às Noivas, em maio,  cedeu lugar às reflexões sobre a Revolta de Paris. Esta começou no dia  2 de maio de 1968 e já produzia embates furiosos no dia 05, com centenas de presos. Daí  se espalharia com rapidez inusitada naquela primavera européia   por todas estações do Globo. O Brasil de 1968 assistiu  o mais “enragé” de todos os  enfrentamentos massivos  contra  a ditadura. O curioso é que aquela  Revolta, tanto lá, como cá,  não clamava por Pão e Terra, mas, principalmente por Liberdade, puxada por estudantes irados mas de feições tão tenras como suas mãos. Eles estavam cansados da cultura do “Mês das Noivas” e queriam livre trânsito nos dormitórios, nas suas casas, nas aulas, no vestir, no andar, no próprio ser,  onde quer que fosse.  “Havia um ar estranho: a revolução inesperada arrastara o adversário, tudo era permitido, a felicidade coletiva era desenfreada.”, segundo um observador, Antonio Negri. O grande filósofo, J.P. Sartre, também tomado de surpresa, dizia , meses depois, não ter compreendido tudo aquilo. Mas associou-se  com entusiasmo juvenil à revolta.”É proibido proibir” reverberava em cartazes  as aulas de Herbert Marcuse,   nos quatro cantos do mundo.

O maio de 68 em Paris durou pouco. Foi políticamente contido. A 30 de maio, o então Presidente De Gaulle convocou eleições para junho, paralelo à promessas de aumentos salarias salariais, desmobilizando os estudantes e docilizando o movimento operário, que a eles se associara. A crise foi controlada. E abriu lugar para a remodelação do “sistema”.

Na verdade, o Maio de 68 foi o vórtice do “Sonho”, que teve antecedentes e conseqüentes. “I have a dream, clamava o Pastor Luther King, à frente da gigantesca manifestação pelos Direitos Civis em Washington, pouco antes. John Lennon foi, entretanto,   um dos  melhores intérpretes daquela fase. Durou pouco. Ele –  a fase e o sonho. Já em 1971, ele sentenciava: “O sonho acabou”. Lennon morreria, vítima de atentado, no fatídico 08 de dezembro de 1980. A ressaca veio com os Governos Tatcher, o Reagonomics e o Consenso de Washington que inaugurariam a Era da Globalização, sob hegemonia exclusiva dos Estados Unidos, e uma verdadeira obsessão pelo indivíduo e seu corpo desejante.  A dura realidade comprovaria que a porta do Inferno estava mais próxima da entrada do Paraíso do que se poderia imaginar. Pior, sem tabuletas indicativas…

Uma das questões suscitadas pelo Movimento se refere à atualidade de Karl Marx, como principal analista crítico de um Modo de Produção estruturado sob a égide do “Capital”e sobre os caminhos do individualismo que viriam a ocupar não só a práxis do mundo contemporâneo, mas  as bases teóricas das Ciências Humanas e da Filosofia  que lhe correspondem.

Há muitos caminhos para discutir tais questões que desembocaram, depois das contorções das epistemologias do processo, da estrutura e da descontrução, na  Teoria da Pós Modernidade. Mas um deles é o da melhor  compreensão do indivíduo , já não mais como abstração iluminista de um sujeito eticamente constituído e capaz de legislar racionalmente sobre  um destino possível , mas como sujeito de prazer. Sacralizado. Trocando em miúdos, a utopia do melhor dos mundos para todos, um projeto coletivo, dado pela razão iluminista, que esteve na base da formulação marxista que empolgou os movimentos populares por décadas, vai cedendo lugar à construção diuturna de um mundo melhor na vida de cada um, a tal ponto de fundá-lo como Projeto.  No fundo, um pessimismo quanto às grandes narrativas de  salvação da humanidade, trocado no varejo pelo direito à  história de cada um : identidade – de gênero, de cor, de etnia, de sexo , de cultura – , base do multiculturalismo atual,  realização profissional , cultura do patrimônio corporal e acesso à sociedade dos objetos.

O individuo nunca teve tanta importância nas sociedades como nos dias de hoje.Entre os povos antigos, pouco valor se dava a pessoa única, a importância do indivíduo estava inserida no grupo que pertencia, apesar das diferenças naturais entre os indivíduos, não havia sequer hipótese de pensar em alguém desvinculado do seu grupo.

http://sociologiajoaogoulart.blogspot.com.br/2013/03/o-individuo-sua-historia-e-sociedade.html

Historicamente, a idéia do indivíduo, como tal, em carne , osso e alma   vinha sendo construída há tempos,  desde os gregos, mas acabou se consubstanciando depois do Maio de 68.

A invenção da alma imortal

Na Grécia, a idéia de alma só apareceu nas festas dionisíacas e celebrações órficas que davam aos participantes momentos de convivência divina no mundo sobrenatural.  Platão aproveita-se desta idéia e cria, sob os olhares críticos de Aristóteles, um conceito de alma como viríamos a conhecer, pela via do cristianismo, que dela se apoderou. Com este conceito o Homem abandona o mundo da natureza e se erige como uma substancia transcendental.

A descoberta do corpo

A  passagem da alma etérea identificadora do humano ao corpo desejante , no sendeiro da individuação foi percebido  muito recentemente. Um pioneiro foi Picco della Mirandola no seu “Discurso Elegantíssimo” no Renascimento italiano. A Revolução Francesa, em 1789,  o consagrou na consigna inscrita na Declaração dos Direitos do Homem que proclamou: Liberdade, Igualdade e Fraternidade. Mas foi Karl  Marx, no Manifesto Comunista, em 1848, abriu os olhos da humanidade para o direito aos corpos mutilados pela exploração capitalista a um mundo alternativo. Mas pensou-os coletivamente, como trabalhadores. Depois dele, Freud foi em busca de fatores orgânicos da alma, reconciliando-a com o corpo. Foi, junto com Marx, como diz um dos grandes filósofos do Século XX, Louis Althusser, os filhos  bastardos do iluminismo, porque capazes de levar a destruição criadora, que lhe é própria, mais a fundo. Ao ponto de ruptura. Outros autores,  mais modestos,   foram, entretanto,  mais adiante na descoberta do Humano  e descobriram, por trás dos trabalhadores, consumidores, cidadãos, ou subjetividades mergulhadas na escuridão  psíquica, todos social ou organicamente instituídos, uma unidade indissolúvel em processos: o indivíduo. Muitos  têm sido os analistas, mas relevam dois autores no Século XX: Norbert Elias (1897/1990), em A Sociedade dos Indivíduos, de 1939  e Luc Ferry (1951/), filsófo francês.

Mas se a Filosofia e a Teoria Social revelam a importância da Sociedade de Indivíduos na Terra dos Homens , os poetas sempre souberam que esse homem  desconhecido existia,. Sigmund Freud, cujo natalício se celebra nestes dias, como também o de Marx, o percebeu. Costumava dizer que em suas peregrinações pela alma humana, sempre encontrava as pegadas de um poeta que por lá já havia passado. Mas Freud teve o mérito de encontrar nesta alma, não a substância metafísica que, primordialmente, havia distinguido o humano do natural, recolocando-a , “naturalmente”, no centro mesmo da condição humana. Com isso , procurou instituir, na Psicanálise, uma Ciência do Homem, capaz de revelar as razões últimas de sua consciência, que esta própria razão desconhece. Talvez até, pela formação médica, tenha exagerado na identificação dos fatores orgânicos condicionantes  desta alma- psiquê, em prejuízo da educação e da cultura, fatores que serão corrigidos por Piaget , Lacan e Habermas oportunamente.

A emergência do indivíduo, portanto, não é apenas um elemento conjuntural da globalização. Ela  tanto está embutida , como possível,  numa sociedade de consumo massas, no Estado Moderno, como está inserida na histórica trajetória do projeto de autonomia humana numa conjuntura em que uma parte significativa, senão maioria da Sociedade, alcançou um nível de instrução, renda e consumo compatíveis com a partilha da sacralização do corpo. Isto, portanto, nada tem a  ver com alienação ou condição de homo sacer, muito embora se possa discutir criticamente o papel da  ideologia , no sentido  marxista, da industria cultural, no sentido da Escola de Frankfurt, e da cultura, no sentido antropológico na constituição de suas idéias e opiniões. Mas no atual estado do processo de comunicação galáctica, isto não tem nenhum caráter de fatalidade. Mas de uma avenida de possibilidades.

Paradoxalmente, o Maio de 68, com seu forte libelo destruidor de velhas barreiras à afirmação do individualismo, revelou-se , com o tempo, numa faca de dois gumes. Revolucionário no método de luta, acabou contribuindo para a entronização de um estilo de vida no mundo ocidental extremamente conservador. Resta  saber, se a liberdade exalada de um corpo agora liberto  será capaz de salvar a humanidade.E aí nada nos apóia, a não  ser uma grande esperança, dando uma reviravolta no espiralado Iluminismo que fundou a Modernidade. Já não é mais a razão a nos amparar no projeto de um mundo mais Justo, mas a própria idéia de Justiça que se converte num leitmotiv da mudança.Voltamos a ser utópicos, utópicos socialistas.

Brava gente, a brasileira – por elio gaspari / são paulo.sp

Brava gente, a brasileira

Atribui-se ao professor San Tiago Dantas (1911-1964) uma frase segundo a qual “a Índia tem uma grande elite e um povo de bosta, o Brasil tem um grande povo e uma elite de bosta”. Nas últimas semanas divulgaram-se duas estatísticas que ilustram o qualificativo que ele deu ao seu povo.

A primeira, revelada pelo repórter Demétrio Weber: Em uma década, o programa Bolsa ElioGaspari1Família beneficiou 50 milhões de brasileiros que vivem em 13,8 milhões de domicílios com renda inferior a R$ 140 mensais por pessoa. Nesse período, 1,69 milhão de famílias dispensaram espontaneamente o benefício de pelo menos R$ 31 mensais. Isso aconteceu porque passaram a ganhar mais, porque diminuiu o número da familiares, ou sabe-se lá por qual motivo. O fato é que de cada 100 famílias amparadas, 12 foram à prefeitura e informaram que não precisavam mais do dinheiro.

A ideia segundo a qual pobre quer moleza deriva de uma má opinião que se tem dele. É a demofobia. Quando o andar de cima vai ao BNDES pegar dinheiro a juros camaradas, estimulará o progresso. Quando o de baixo vai ao varejão comprar forno de micro-ondas a juros de mercado, estimulará a inadimplência.

Há fraudes no Bolsa Família? Sem dúvida, mas 12% de devoluções voluntárias de cheques da Viúva é um índice capaz de lustrar qualquer sociedade. Isso numa terra onde estima-se que a sonegação de impostos chegue a R$ 261 bilhões, ou 9% do PIB. O Bolsa Família custa R$ 21 bilhões, ou 0,49% do produto interno.

A segunda estatística foi revelada pela repórter Érica Fraga: Um estudo dos pesquisadores Fábio Waltenberg e Márcia de Carvalho, da Universidade Federal Fluminense, mostrou que num universo de 168 mil alunos que concluíram treze cursos em 2008, as notas dos jovens beneficiados pela política de cotas ficaram, na média, 10% abaixo daquelas obtidas pelos não cotistas. Ou seja, o não cotista terminou o curso com 6 e o outro, com 5,4. Atire a primeira pedra quem acha que seu filho fracassou porque foi aprovado com uma nota 10% inferior à da média da turma. Olhando-se para o desempenho de 2008 de todos os alunos de quatro cursos de engenharia de grandes universidades públicas, encontra-se uma variação de 8% entre a primeira e a quarta.

Para uma política demonizada como um fator de diluição do mérito no ensino universitário, esse resultado comprova seu êxito. Sobretudo porque dava-se de barato que muitos cotistas sequer conseguiriam se diplomar. Pior: abandonariam os cursos. Outra pesquisa apurou que a evasão dos cotistas é inferior à dos não cotistas. Segundo o MEC, nos números do desempenho de 2011, não existe diferença estatística na evasão e a distância do desempenho caiu para 3%. Nesse caso, um jovem diplomou-se com 6 e o outro, com 5,7, mas deixa pra lá.

As cotas estimulariam o ódio racial. Dez anos depois, ele continua onde sempre esteve. Assim como a abolição da escravatura levaria os negros ao ócio e ao vício, o Bolsa Família levaria os pobres à vadiagem e à dependência. Não aconteceu nem uma coisa nem outra.

Admita-se que a frase atribuída a San Tiago Diante é apócrifa. Em 1985, Tancredo Neves morreu sem fazer seu memorável discurso de posse. Vale lembrá-lo: “Nosso progresso político deveu-se mais à força reivindicadora dos homens do povo do que à consciência das elites. Elas, quase sempre, foram empurradas”.

Maus ventos

O comissariado petista conformou-se com a possibilidade de atravessar a campanha eleitoral de 2014 com mais um pibinho.

Nosso Guia

Em março passado, a doutora Dilma tomou um chá de cadeira de mais de uma hora em Durban, quando o presidente da África do Sul, Jacob Zuma, deixou-a esperando porque continuava reunido com o presidente russo Vladimir Putin. Com toda a razão, Dilma deixou a sala onde estava, no andar de cima, e voltou ao seu hotel.

Na quinta-feira, em Brasília, o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, deu-lhe outro chá de cadeira. Ela esperou por 1h40min pelo visitante, que estava reunido com Lula na embaixada da Venezuela.

Desta vez, a doutora esperou. Novamente, fez bem, pois era a dona da casa.

Nosso Guia não deveria submeter os outros a esse tipo de demonstração de poder.

A mão do Papa

O papa Francisco nomeou o monsenhor José Aparecido Gonçalves da Almeida, de 52 anos, bispo auxiliar de Brasília. O padre Cido, que saiu da periferia de São Paulo para a central jurídica da Cúria Romana, retorna com a bola cheia.

Ainda vai se ouvir falar dele.

Sucessão

Talvez não dê em nada, mas Eduardo Campos poderá beber na fonte que em 2002 produziu uma agenda para Ciro Gomes. Posteriormente ela foi apadrinhada por Antonio Palocci e acabou orientando os primeiros anos do governo de Lula.

Se isso acontecer, o comissariado petista ficará aprisionado na sua arrogante exaustão intelectual em áreas como saúde e educação.

Alckmin, a guilhotina e os ratos

“O povo não sabe de um décimo do que se passa contra ele. (…) Senão, ia faltar guilhotina para a Bastilha, para cortar a cabeça de tanta gente que explora esse sofrido povo brasileiro.”

Quem disse isso foi o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin. Noves fora o fato de a prisão da Bastilha ter sido derrubada em 1789, antes da instalação da guilhotina numa praça de Paris (1792), sua afirmação engrandece-o, até porque tem dez anos de sabedoria acumulada no cargo. Ele sabe. Deveria contar mais, mas pelo menos estimulou o debate.

Alckmin levantou o fantasma da guilhotina três dias depois de o professor João Sayad, ex-ministro do Planejamento, ex-diretor do Banco Interamericano do Desenvolvimento e atual presidente da TV Cultura, uma emissora do governo paulista, ter publicado o artigo intitulado “Taxonomia dos ratos”. Nele, Sayad propõe uma classificação dos larápios. Num grupo ficariam os roedores do “rouba mas faz” No outro, aqueles que mordem aos poucos, o tempo todo. É a turma da “corrupção pequena”. Ela “contrata parentes, compra papel higiênico superfaturado, orienta a criação de empresas de fachada para prestarem serviços, cria cooperativas para pagar funcionários terceirizados, faz acordo de ‘kick back’ com os fornecedores e, principalmente, avacalha, paralisa, lasseia e termina por matar a organização que administra.”

Alckmin poderia perguntar se ele falou em tese ou se, como presidente da TV Cultura, sabe de algo que o governador de São Paulo deveria saber. Como disse Sayad, para os ratos, “o segredo e a confidencialidade passam a ser as regras da organização”.

Por que os médicos cubanos assustam – por pedro porfirio

Por que os médicos cubanos assustam

Elite corporativista teme que mudança do foco no atendimento abale o nosso sistema mercantil de saúde

 

A virulenta reação do Conselho Federal de Medicina contra a vinda de 6 mil médicos cubanos para trabalhar em áreas absolutamente carentes do país é muito mais do que uma atitude corporativista: expõe o pavor que uma certa elite da classe médica tem diante dos êxitos inevitáveis do modelo adotado na ilha,  que prioriza a prevenção e a educação para a saúde, reduzindo não apenas os índices de enfermidades, mas sobretudo a necessidade de atendimento e os custos com a saúde.

Essa não é a primeira investida radical do CFM e da Associação Médica Brasileira contra a prática vitoriosa dos médicos cubanos entre nós. Em 2005, quando o governador  de Tocantins não conseguia médicos para a maioria dos seus pequenos e afastados municípios, recorreu a um convênio com Cuba e viu o quadro de saúde mudar rapidamente com a presença de apenas uma centena de profissionais daquele país.

A reação das entidades médicas de Tocantins, comprometidas com a baixa qualidade da medicina pública que favorece o atendimento privado, foi quase de desespero. Elas só descansaram quando obtiveram uma liminar de um juiz de primeira instância determinando em 2007 a imediata “expulsão” dos médicos cubanos.

No Brasil, o apego às grandes cidades

Dos 371.788 médicos brasileiros, 260.251 estão nas regiões Sul e Sudeste

Neste momento, o governo da presidenta Dilma Rousseff só  está cogitando de trazer os médicos cubanos, responsáveis pelos melhores índices de saúde do Continente, diante da impossibilidade de assegurar a presença de profissionais brasileiros em mais de um milhar de municípios, mesmo com a oferta de vencimentos bem superiores aos pagos nos grandes centros urbanos.

E isso não acontece por acaso. O próprio modelo de formação de profissionais de saúde, com quase 58% de escolas privadas, é voltado para um tipo de atendimento vinculado à indústria de equipamentos de alta tecnologia, aos laboratórios e às vantagens do regime híbrido, em que é possível conciliar plantões de 24 horas no sistema público com seus consultórios e clínicas particulares, alimentados pelos planos de saúde.

Mesmo com consultas e procedimentos pagos segundo a tabela da AMB, o volume de  clientes é programado para que possam atender no mínimo dez por turnos de cinco horas. O sistema é tão direcionado que na maioria das especialidades o segurado pode ter de esperar mais de dois meses por uma consulta.

Além disso, dependendo da especialidade e do caráter de cada médico, é possível auferir faturamentos paralelos em comissões pelo direcionamento dos exames pedidos como rotinas em cada consulta.

Sem compromisso em retribuir os cursos públicos

Há no Brasil uma grande “injustiça orçamentária”: a formação de médicos nas faculdades públicas, que custa muito dinheiro a todos os brasileiros, não presume nenhuma retribuição social, pelo menos enquanto  não se aprova o projeto do senador Cristóvam Buarque, que obriga os médicos recém-formados que tiveram seus cursos custeados com recursos públicos a exercerem a profissão, por dois anos, em municípios com menos de 30 mil habitantes ou em comunidades carentes de regiões metropolitanas.

Cruzando informações, podemos chegar a um custo de R$ 792.000,00 reais para o curso de um aluno de faculdades públicas de Medicina, sem incluir a residência. E se considerarmos o perfil de quem consegue passar em vestibulares que chegam a ter 185 candidatos por vaga (UNESP), vamos nos deparar com estudantes de classe média alta, isso onde não há cotas sociais.

Um levantamento do Ministério da Educação detectou que na medicina os estudantes que vieram de escolas particulares respondem por 88% das matrículas nas universidades bancadas pelo Estado. Na odontologia, eles são 80%.

Em faculdades públicas ou privadas, os quase 13 mil médicos formados anualmente no Brasil não estão nem preparados, nem motivados para atender às populações dos grotões. E não estão por que não se habituaram à rotina da medicina preventiva e não aprenderam como atender sem as parafernálias tecnológicas de que se tornaram dependentes.

Concentrados no Sudeste, Sul e grandes cidades

Números oficiais do próprio CFM indicam que 70% dos médicos brasileiros concentram-se nas regiões Sudeste e Sul do país. E em geral trabalham nas grandes cidades.  Boa parte da clientela dos hospitais municipais do Rio de Janeiro, por exemplo, é formada por pacientes de municípios do interior.

Segundo pesquisa encomendada pelo Conselho,  se a média nacional é de 1,95 médicos para cada mil habitantes, no Distrito Federal esse número chega a 4,02 médicos por mil habitantes, seguido pelos estados do Rio de Janeiro (3,57), São Paulo (2,58) e Rio Grande do Sul (2,31). No extremo oposto, porém, estados como Amapá, Pará e Maranhão registram menos de um médico para mil habitantes.

A pesquisa “Demografia Médica no Brasil” revela que há uma forte tendência de o médico fixar moradia na cidade onde fez graduação ou residência. As que abrigam escolas médicas também concentram maior número de serviços de saúde, públicos ou privados, o que significa mais oportunidade de trabalho. Isso explica, em parte, a concentração de médicos em capitais com mais faculdades de medicina. A cidade de São Paulo, por exemplo, contava, em 2011, com oito escolas médicas, 876 vagas – uma vaga para cada 12.836 habitantes – e uma taxa de 4,33 médicos por mil habitantes na capital.

Mesmo nas áreas de concentração de profissionais, no setor público, o paciente dispõe de quatro vezes menos médicos que no privado. Segundo dados da Agência Nacional de Saúde Suplementar, o número de usuários de planos de saúde hoje no Brasil é de 46.634.678 e o de postos de trabalho em estabelecimentos privados e consultórios particulares, 354.536.Já o número de habitantes que dependem exclusivamente do Sistema Único de Saúde (SUS) é de 144.098.016 pessoas, e o de postos ocupados por médicos nos estabelecimentos públicos, 281.481.

A falta de atendimento de saúde nos grotões é uma dos fatores de migração. Muitos camponeses preferem ir morar em condições mais precárias nas cidades, pois sabem que, bem ou mal, poderão recorrer a um atendimento em casos de emergência.

A solução dos médicos cubanos é mais transcendental pelas características do seu atendimento, que mudam o seu foco no sentido de evitar o aparecimento da doença.  Na Venezuela, os Centros de Diagnósticos Integrais espalhados nas periferias e grotões, que contam com 20 mil médicos cubanos, são responsáveis por uma melhoria radical  nos seus índices de saúde.

Cuba é reconhecida por seus êxitos na medicina e na biotecnologia

Em  sua nota ameaçadora, o CFM afirma claramente que confiar populações periféricas aos cuidados de médicos cubanos é submetê-las a profissionais não qualificados. E esbanja hipocrisia na defesa dos direitos daquelas pessoas.

Não é isso que consta dos números da Organização Mundial de Saúde.  Cuba, país submetido a um asfixiante bloqueio econômico, mostra que nesse quesito é um exemplo para o mundo e tem resultados melhores do que os do Brasil.

Quando esteve em Cuba, em 2003, a deputada Lilian Sá
foi conhecer com outros parlamentares o médico de família,
uma equipe residente no próprio conjunto habitacional

Graças à sua medicina preventiva, a ilha do Caribe tem a taxa de mortalidade infantil mais baixa da América e do Terceiro Mundo – 4,9 por mil (contra 60 por mil em 1959, quando do triunfo da revolução) – inferior à do Canadá e dos Estados Unidos. Da mesma forma, a expectativa de vida dos cubanos – 78,8 anos (contra 60 anos em 1959) – é comparável a das nações mais desenvolvidas.

Com um médico para cada 148 habitantes (78.622 no total) distribuídos por todos os seus rincões que registram 100% de cobertura, Cuba é, segundo a Organização Mundial de Saúde, a nação melhor dotada do mundo neste setor.

Segundo a New England Journal of Medicine, “o sistema de saúde cubano parece irreal. Há muitos médicos. Todo mundo tem um médico de família. Tudo é gratuito, totalmente gratuito. Apesar do fato de que Cuba dispõe de recursos limitados, seu sistema de saúde resolveu problemas que o nosso [dos EUA] não conseguiu resolver ainda. Cuba dispõe agora do dobro de médicos por habitante do que os EUA”.

O Brasil forma 13 mil médicos por ano em  200 faculdades: 116 privadas, 48 federais, 29 estaduais e 7 municipais. De 2000 a 2013, foram criadas 94 escolas médicas: 26 públicas e 68 particulares.

Formando médicos de 69 países

Estudantes estrangeiros na Escola Latino-Americana de Medicina

Em 2012, Cuba, com cerca de 13 milhões de habitantes, formou em suas 25 faculdades, inclusive uma voltada para estrangeiros, mais de 11 mil novos médicos: 5.315 cubanos e 5.694 de 69 países da América Latina, África, Ásia e inclusive dos Estados Unidos.

Atualmente, 24 mil estudantes de 116 países da América Latina, África, Ásia, Oceania e Estados Unidos (500 por turma) cursam uma faculdade de medicina gratuita em Cuba.

Entre a primeira turma de 2005 e 2010, 8.594 jovens doutores saíram da Escola Latino-Americana de Medicina. As formaturas de 2011 e 2012 foram excepcionais com cerca de oito mil graduados. No total, cerca de 15 mil médicos se formaram na Elam em 25 especialidades distintas.

Isso se reflete nos avanços em vários tipos de tratamento, inclusive em altos desafios, como vacinas para câncer do pulmão, hepatite B, cura do mal de Parkinson e da dengue.  Hoje, a indústria biotecnológica cubana tem registradas 1.200 patentes e comercializa produtos farmacêuticos e vacinas em mais de 50 países.

Presença de médicos cubanos no exterior

Desde 1963,  com o envio da primeira missão médica humanitária à Argélia, Cuba trabalha no atendimento de populações pobres no planeta. Nenhuma outra nação do mundo, nem mesmo as mais desenvolvidas, teceu semelhante rede de cooperação humanitária internacional. Desde o seu lançamento, cerca de 132 mil médicos e outros profissionais da saúde trabalharam voluntariamente em 102 países.

No total, os médicos cubanos trataram de 85 milhões de pessoas e salvaram 615 mil vidas. Atualmente, 31 mil colaboradores médicos oferecem seus serviços em 69 nações do Terceiro Mundo.

No âmbito da Alba (Aliança Bolivariana para os Povos da Nossa América), Cuba e Venezuela decidiram lançar em julho de 2004 uma ampla campanha humanitária continental com o nome de Operação Milagre, que consiste em operar gratuitamente latino-americanos pobres, vítimas de cataratas e outras doenças oftalmológicas, que não tenham possibilidade de pagar por uma operação que custa entre cinco e dez mil dólares. Esta missão humanitária se disseminou por outras regiões (África e Ásia). A Operação Milagre dispõe de 49 centros oftalmológicos em 15 países da América Central e do Caribe. Em 2011, mais de dois milhões de pessoas de 35 países recuperaram a plena visão.

Quando se insurge contra a vinda de médicos cubanos, com argumentos pueris, o CFM adota também uma atitude política suspeita: não quer que se desmascare a propaganda contra o  regime de Havana,  segundo a qual o sonho de todo cubano é fugir para o exterior. Os mais de 30 mil médicos espalhados pelo mundo permanecem fiéis aos compromissos sociais de quem teve todo o ensino pago pelo Estado, desde a pré-escola e de que, mais do que enriquecer, cumpre ao médico salvar vidas e prestar serviços humanitários.

NATUREZAS MORTAS – por jorge lescano / são paulo.sp

N A T U R E Z A S   M O R T A S

© Lescano

Com dezessete anos descobri a pintura surrealista e acreditei que o mundo tinha me dado todas as respostas de uma vez; o surrealismo era o fim de todas as incógnitas surgidas com o aparecimento do homem no planeta. Tal ilusão é perfeitamente compreensível num rapaz tão novo, sem experiência de vida e de artista.

Uma das soluções fáceis era apelar para o aspecto literário da obra visual, e isto se conseguia dando títulos paradoxais ou simplesmente obscuros.

Vem-me à mente o Nu esotérico, quadro nunca pintado pelo meu amigo, o artista colombiano Rodrigo Barrientos, que não era surrealista, mas gostava de brincar com as palavras associadas aleatoriamente às imagens virtuais.

Naquela época longínqua pintei uma mulher sentada numa cadeira em atitude de abandono, como se estivesse muito cansada e/ou angustiada, pois o rosto não era visível e as mãos descansavam lassas sobre as coxas. O resto do quadro – em tons de cinza, como correspondia ao tema – era um ambiente indefinido, sem móveis ou utensílios que permitissem identificá-lo. Poderia ser um quarto de hospital ou uma paisagem desolada, sem linha do horizonte. O título: Natureza morta.

Isto intrigou alguns amigos. Para eles a natureza morta era um gênero tradicional que apresentava a reunião de objetos inanimados. A minha obra era do gênero nu, alegavam. Tive então a oportunidade de exibir o meu recente conhecimento das teorias expostas por André Breton e companhia. Atividade cansativa, porém satisfatória para a vaidade do projeto de artista.

Anos mais tarde, curado da soberba do neófito, conheci a pintura expressionista e a obra de Edward Hopper.

Identifiquei no norte-americano algo do sentimento de minha obra juvenil. Suas mulheres solitárias enclausuradas em ambientes domésticos, em roupas de dormir ou nuas, sentadas, reclinadas, de pé, de frente ou de costas a janelas de luz crua, fazem-me pensar em naturezas mortas: seres de vida suspensa pelo pincel do artista. Algumas parecem esperar algo que as transforme, outras já nada esperam. Estas mulheres são a crônica de vidas frustradas em algo que nunca saberemos, mas que retorna toda vez que contemplamos o quadro. Este fascínio paradoxal se repete nas suas pinturas de casarões solitários em paisagens desoladas. Seus quadros param no limiar da revelação, como todas as grandes obras; exatamente o sentimento procurado pelo surrealismo. Sem a parafernália espalhafatosa de um Salvador Dali, estas obras não pretendem desvelar os mistérios da vida, mas os trazem a tona.

Lula no NYT desperta onda de inveja e preconceito – Brasil 247

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Rancor, ressentimento e o velho ódio de classes contra o retirante que se tornou operário, líder sindical, presidente e um dos estadistas mais reconhecidos no mundo voltaram a aflorar desde que Luiz Inácio Lula da Silva foi convidado a publicar uma coluna mensal no The New York Times. Augusto Nunes, em Veja, já havia dito que Lula não sabe redigir um “tanquiú”. Guilherme Fiúza, emÉpoca, agora afirma que os Estados Unidos decidiram “levar a sério o projeto de decadência do império”. Reconhecido pelo mundo inteiro e candidato seriíssimo ao Nobel da Paz, Lula deveria dizer apenas “sorry, periferia”.

Via Brasil 247

A trajetória de Luiz Inácio Lula da Silva é conhecida. Ex-retirante, tornou-se operário, líder sindical, presidente e, depois disso, aprovado pela grande maioria de seu povo, passou a ser também reconhecido internacionalmente. À esquerda, pelo historiador Eric Hobsbawn, que afirmou que Lula “ajudou a mudar o equilíbrio do mundo, ao trazer os países em desenvolvimento para o centro das coisas”. No mercado financeiro, por Jim O’Neill, da Goldman Sachs, que criou a palavra Brics (Brasil, Rússia, Índia e China) e o definiu como o maior estadista do mundo nas últimas décadas.

Lula, portanto, é um ativo valioso, que interessa a qualquer publicação no mundo. Além disso, com sua agenda internacional focada, sobretudo, na África, ele é hoje seriíssimo candidato ao Prêmio Nobel da Paz. Por isso mesmo, recebeu um convite para publicar uma coluna mensal no The New York Times, maior jornal do mundo, onde poderá defender suas causas e bandeiras. A história de superação de Lula, desprezada por analistas rancorosos e invejosos no Brasil, mas reconhecida até por seus adversários políticos, hoje inspira líderes do mundo inteiro.

Isso não significa, no entanto, que Lula está obrigado a redigir de próprio punho seus artigos. Como colunista, Lula, naturalmente, delegará a tarefa de produzir textos a algum escriba. É assim, sempre foi e sempre será no mundo inteiro. Políticos são homens de ação. Quando transplantam suas ideias para o papel, em geral, contam com auxílio profissional. Afinal, é para isso que existem jornalistas e ghost-writers. Tancredo Neves, por exemplo, que pronunciou alguns dos mais memoráveis discursos da história brasileira, delegava a tarefa ao jornalista Mauro Santayana. Bill Clinton e Barack Obama também têm ghost-writers.

No entanto, de Lula, cobra-se o que jamais foi cobrado de qualquer outro político brasileiro. Em Veja.com, Augusto Nunes classifica o ex-presidente como uma espécie de analfabeto, incapaz de pronunciar um “tanquiú”. Escriba de luxo de seus patrões, Nunes já se prestou a todo tipo de tarefa – entre elas, a de exaltar o “caçador de marajás” Fernando Collor, como está bem detalhado no livro Notícias do Planalto, de Mário Sérgio Conti, ex-diretor deVeja.

Estávamos, no 247, decididos a não comentar o texto de Nunes, uma das peças mais insignificantes já publicadas por algum de veículo de comunicação no Brasil. Mas não se trata, infelizmente, de um movimento isolado. No domingo, dia 28, em Época, Guilherme Fiúza, que se notabilizou por biografias de personagens como Bussunda e Reynaldo Giannechini, além do livro Meu nome não é Johnny, consegue descer ainda mais baixo do que seu concorrente em Veja.

Segundo ele, a coluna concedida a Lula é a prova de que “os norte-americanos estão levando a sério o projeto de decadência do império norte-americano”. Diz ele ainda que Lula se tornou para oNew York Times “um suvenir da pobreza, desses que a esquerda norte-americana ama”. Fiúza sugere que Lula escreva Rose’s storye diz que ele poderá “narrar as peripécias de Waldomiro, Valdebran, Gedimar, Vedoin, Bargas, Valério, Delúbio, Silvinho, Erenice, Rosemary e grande elenco”. Por último, pede a Dilma que proíba a Polícia Federal de ler sua coluna.

O que dizer de personagens como Augusto Nunes e Guilherme Fiúza? Nada, a não ser “sorry, periferia”.

 

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Hélio Aroeira “À esquerda, pelo historiador Eric Hobsbawn, que afirmou que Lula “ajudou a mudar o equilíbrio do mundo, ao trazer os países em desenvolvimento para o centro das coisas”. No mercado financeiro, por Jim O’Neill, da Goldman Sachs, que criou a palavra Brics (Brasil, Rússia, Índia e China) e o definiu como o maior estadista do mundo nas últimas décadas.”

O Mundo vai mal, a Europa pior – por mário soares / lisboa.pt

A crise não é só financeira, é também económica, política, social, ética e ambiental. E se não for atalhada dará origem a um novo conflito

Para qualquer lado que nos voltemos, o Mundo vai mal. A ONU, que nos orientou na segunda metade do século XX, tem hoje uma participação menor. Não intervém em defesa dos Direitos Humanos – o caso da Síria é exemplar – e quase ninguém fala de ecologia. Poucos Estados se dão ao trabalho de pensar no Universo, apesar dos desastres que ocorrem serem cada vez mais graves e preocupantes. As grandes potências só se ocupam dos seus interesses imediatos e, cada vez, querem menos saber do aquecimento da Terra ou das preocupantes mudanças do clima e dos desastres ditos naturais que ocorrem por toda a parte. Recentemente tocou mais uma vez à China.

A ONU, ao que parece, desinteressou-se da ecologia. Os poucos grupos ecológicos que ainda existem, têm pouco apoio dos jornais internacionais, das televisões e das rádios. Parece ser uma temática que deixou de interessar aos atuais dirigentes políticos e que nada lhes interessa o que terão de sofrer os seus filhos e netos. Só o dinheiro – e não as pessoas – preocupa os dirigentes políticos na Europa, na América (dos republicanos) e nos outros continentes, com as honrosas exceções de duas figuras únicas, extraordinárias: Barack Obama e o Papa Francisco, que deixou a inquisição e adotou, ao que parece, o franciscanismo. Olha para os pobres com respeito, quer ajudá-los, visita-os e fala com os católicos mas também com os agnósticos, com os ateus e com os membros de outras religiões.

Mas se o Mundo vai mal, é seguro que a União Europeia (UE) vai pior. Porquê? Porque as duas famílias políticas que construíram a CEE e depois a UE – os socialistas, trabalhistas ou social-democratas e, por outro lado, os democratas-cristãos, partidários ambos de Estados sociais e da solidariedade e igualdade entre os Estados da União – foram substituídos por partidos cuja ideologia política é neoliberalismo e, por isso, são ultraconservadores, só pensam no dinheiro – e na sua importância – e ignoram as pessoas. Daí o empobrecimento dos Estados europeus, o crescimento em muitos deles do desemprego, da emigração, do suicídio e da criminalidade.

Na UE estamos a viver o que se chama uma nova ordem internacional, criada pelo neoliberalismo e pela globalização sem valores – dada a incapacidade dos dirigentes atuais, que só pensam no dinheiro que ganham – que estão a destruir os Estados Sociais e a pôr em causa a Democracia, tal como a pensámos e vivemos antes da crise. Tudo começou pela importância que a chanceler Merkel tomou, luterana, vinda do totalitarismo comunista depois da queda do muro de Berlim e que a pouco e pouco se tornou a figura dominante da União.

O primeiro país atingido foi a Grécia, berço da nossa civilização, graças à importância que os bancos alemães aí tinham. Depois foi a Irlanda, mais por razões financeiras que economicistas e sociais; depois foi Portugal, com um Governo, que dura quase há dois anos e é, em absoluto, subserviente a uma troika, que ninguém sabe bem donde veio e é comandada pelos mercados usurários. A seguir a Espanha que, até agora recusou uma troika, mas cujo regime económico e político está a ficar paralisado. E a Itália, um dos Estados fundadores, apesar de ter um Presidente excecional, o notável Giorgio Napolitano, que está a atingir o fim da carreira (mas foi eleito para novo mandato); e alguns outros Estados, como a Holanda, e mesmo – quem tal diria? – a própria França.

A crise europeia não está só a ser uma nova forma de totalitarismo, mais ou menos fascista. Vai a caminho de destruir a Democracia Europeia e a pôr em causa a existência do Estado Social, da União e do euro. Se não muda de paradigma – como ensina Barack Obama -, vai autodestruir-se e liquidar o euro, como a nossa moeda única (e ainda forte). A crise não é só financeira. É também económica, política, social, ética e ambiental. E se não for atalhada rapidamente – como espero – dará origem a um novo conflito internacional. Haja bom senso e evite-se uma tragédia

Ler mais: http://visao.sapo.pt/o-mundo-vai-mal-a-europa-pior=f725719#ixzz2S5Sn5PKD

BIENAL DE ARTE, UMA DISCUSSÃO NO AR – por almandrade /salvador.ba

BIENAL DE ARTE,  UMA DISCUSSÃO NO AR

O diretor do Museu de Arte Moderna da Bahia fez bem, mostrou que sabe agir com bom senso abrindo o auditório do museu econvidando artistas, críticos e o público para sessões livres sobre uma possível mostra bianual de artes visuais. Um fantasma que ronda o inconsciente dos artistas, Almandrade 1principalmente os mais jovens e se manifesta em reivindicações, que algumas vezes, chegam a ignorar a função sócio cultural da instituição. As falas são muitas, faltam os analistas. Uma mostra de arte de repercussão nacional é o objeto da ansiedade de artistas e uma promessa do Estado que merece uma atenção mais depurada. Nos últimos vinte ou trinta anos, não avançamos no pensamento, nem construímosaindauma política cultural mais efetiva, apesar do investimento na mobilização de comunidades e operários da arte em torno do tema.

A discussão é oportuna coloca sobre a mesa questões pertinentes que ultrapassam as dúvidas da mostra, como: as próprias ações, não só do MAM, como também dos outros museus de arte, o estágio em que se encontra a formação dos artistas e a arte nos dias hoje. Entre a burocracia dos editais, as leis de incentivo e a superioridade do mercado, os museus se encontram numa corda bamba, sem recursos para realizar seus projetos e manter uma programação livre de pressões externas alheias aos compromissos culturais da instituição.

Se o MAM deve, ou não, promover uma mostra nacional de arte, primeiro é necessário que ele disponha de um projeto curatorial e a referida mostra esteja integrada nesse projeto, para não vir a ser uma grande festa isolada, que acaba com a ressaca do dia seguinte. Afinal, museu não é instituição de caridade para adotar “pobres artistas” e muito menos casa de eventos à disposição de proponentes. Embora muitas salas de exposição se encontrem atualmente à espera de propostas premiadas nas loterias dos editais, algumas até nem precisariam apelar pra sorte, para ter visibilidade: são necessárias ao circuito cultural.

Depois que a cultura foi dominada pela barbárie, numa sociedade que privilegia a produção de mercadorias culturais, o pensamento foi derrotado pela indústria do entretenimento e o poder do mercado. Quem acaba decidindo o que é arte, é o mercado, com o apelo publicitário, ele impõe o valor de legitimação. As feiras mobilizam os investidores, superaram em termos de expectativa as bienais de arte, que foram transformadas em supermercado de periferia, com produtos mais em conta para o consumidor de classe média. Não se acredita mais na linguagem, mas no valor de troca. O pensamento é o líquido derramado que brilha na superfície da obra, com prazo de validade limitado. Se, objeto de arte, for um falso brilhante, não importa, satisfaz à chamada economia criativa.

O público de formação estranha à história da arte procura um investimento seguro. Uma bienal de arte, como uma feira de automóveis, se não for um banco de informações confiável, trás para o mercado novidades para estimular ou chamar a atenção do consumidor. Mas com um mínimo de inteligência, pode trazer discussões para uma avaliação, informação e transformação do meio de arte, neste caso o auditório do MAM, sem querer, faz a provocação: Se o Estado, em nome de uma democracia cultural, investe na formação de proponentes, em cursos de preenchimento de formulários e de formatação de projetos, em detrimento da crítica, da informação de artista, formação de público, capacitação de recursos humanos e da qualificação dos espaços culturais, onde e como tornar a promessa da bienal viável?

O relato de quem vivenciou e de quem acompanhou os acontecimentos, mesmo distante no tempo, do final da década de 1960, das Bienais da Bahia, coloca em cena um contexto diferente do momento que estamos vivendo, esquecido no fundo da memória, importante para se retomar uma experiência, com as referências históricas. O cenário das artes em 1966 e 68 era de uma Bahia centro da descentralização da arte brasileira. A crescente industrialização do nordeste, a Sudene, o Centro Industrial de Aratu, o Banco do Estado da Bahia inauguravam uma nova consciência no Brasil e acreditava-se numa mudança na cultura do Nordeste, contexto favorável para a Bienal da Bahia, a mais importante exposição de arte do País, depois da Bienal de São Paulo.

Fechada a segunda Bienal, logo após a inauguração, em decorrência do momento político crítico que passava o País, não teve continuidade. A mudança cultural esperada com a industrialização, não passou de um sonho. A realidade cultural e política hoje é outra, mas é preciso conhecer o passado para dar um passo adiante. Se a promessa de mostra não for adiante, a discussão do MAM já vale a pena, a reconstrução da história é favorável ao pensamento, a cultura é quem lucra. Nem tudo é absurdo e bizarro.

Almandrade

(artista plástico, poeta e arquiteto)

PRESTE ATENÇÃO: O STF está promovendo agitação política

LUIS NASSIF

Hoje em dia, tornou-se tão disseminada a manipulação política do noticiário que, na coluna de ontem, acabei embarcando na suposta retaliação do Congresso ao STF (Supremo Tribunal Federal), com a tramitação da PEC 33 – que define o poder recursal do Congresso a leis declaradas inconstitucionais pelo STF.

Fábio Rodrigues Pozzebom/ABr

Fábio Rodrigues Pozzebom/ABr

Fui alertado pela analista política Maria Inês Nassif, em artigo no Jornal GGN (www.jornalggn.com.br) no qual apresentou um quadro perturbador do papel de alguns ministros do STF, para gerar crises políticas e contribuir para a desestabilização institucional do país.

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Vendeu-se a ideia de que a tramitação da PEC era fruto de represália do Congresso. Vários Ministros manifestaram indignação – entre eles, Gilmar Mendes, Marco Aurélio de Mello e o presidente do STF Joaquim Barbosa.

Maria Inês é taxativa: “Com toda certeza, os ministros que estão reagindo desproporcionalmente a uma tramitação absolutamente trivial de uma emenda constitucional no Congresso (…)  estão fazendo uso político desses fatos”.

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A emenda tramita desde 2011. Foi proposta pelo deputado Nazareno Fontelenes (PT-PI) em 25 de maio do ano passado e encaminhada à Comissão de Constituição e Justiça em 06 de junho. O relator da matéria é o deputado João Campos (PSDB-GO) – um parlamentar da oposição. E estava na agenda da CCJ desde fevereiro deste ano.

O fato de terem incluído José Genoíno (PT-SP) e João Paulo Cunha (PT-SP) no episódio comprovaria seu uso político, diz Inês. “No ano passado, quando a emenda foi apresentada, Genoino sequer tinha mandato parlamentar. Ele e Cunha não pediram a palavra, não defenderam a aprovação, nada. Apenas votaram a favor de um parecer de um parlamentar da oposição”.

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Não compete à CCJ apreciar o mérito de qualquer proposta.  Seu papel é apenas analisar se a proposta cumpre os requisitos de constitucionalidade. Se cumprir, segue a tramitação até chegar ao plenário da Câmara. Aí sim, explica ela, a proposta será analisada em dois turnos, para depois cumprir dois turnos no Senado. “O primeiro passo da tramitação da PEC 33 foi dado na quarta-feira. Daí, dizer que o Congresso estava prestes a aprovar a proposta para retaliar o STF só pode ser piada, ou manipulação da informação”.

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A proposta tem respaldo na Constituição. O artigo 52 fala da competência exclusiva do Senado Federal, diz, em seu inciso X, que o Senado pode “suspender a execução, no todo ou em parte, de lei declarada inconstitucional por decisão definitiva do Supremo Tribunal Federal”. No artigo 49, determina que é da competência do Congresso Nacional “zelar pela preservação de sua competência legislativa em face da atribuição normativa dos outros Poderes”.

Conclui ela: “Diante dessas evidências constitucionais e da história da tramitação da PEC na Câmara, fica a pergunta: quem está ameaçando quem? É o Congresso que investiu contra o STF, ou o contrário?”

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Na mesma quinta-feira, o ministro Gilmar Mendes concedeu uma liminar trancando a tramitação da lei que inibe a constituição de novos partidos.  Nos jornais de sexta, o ex-ministro do STF Carlos Velloso declarava-se espantando com a decisão de Gilmar.

Visita íntima aos anos 70 – por bruno ghetti

Visita íntima aos anos 70

MK2 Productions/Bloomberg

 

Nada foi como antes depois de maio de 1968. Ou talvez seja o contrário: tudo continuou quase igual. Ainda é difícil, 45 anos depois, estabelecer com precisão o saldo dos eventos que levaram às ruas uma juventude que, embalada pela luta por melhoras no sistema educacional francês, acabou achando que poderia mudar o mundo.

Talvez por isso, a ideia de recompor um retrato daquele tempo (e os anos imediatamente seguintes) tem sido tão sedutora à arte. Especialmente ao cinema, que em geral tem abordado o tema em tom saudosista – como “Os Sonhadores”, de Bernardo Bertolucci -, às vezes beirando a idealização – como “Amantes Constantes”, de Philippe Garrel. O mais recente filme sobre a época, “Depois de Maio”, que estreia neste fim de semana no Brasil, parece, no entanto, feito com a preocupação de evitar cair em uma coisa ou na outra.

Dirigido pelo francês Olivier Assayas (da celebrada série “Carlos”), o filme se passa já no início dos anos 1970. Na ressaca pós-68, quando a juventude francesa começava a se dar conta de que a “revolução” talvez não tivesse tido os resultados esperados, o jovem desenhista Gilles se vê pressionado a decidir entre o engajamento político, diante de patrulhas ideológicas de todos os lados, e as realizações pessoais – dilema, aliás, comum entre a juventude da época. Inclusive o próprio Assayas, que tem no seu protagonista uma espécie de alter ego.

“Não é exatamente um filme autobiográfico. Mas é um filme de geração, que mostra que um indivíduo, por mais particular que seja, não pode se tornar ele mesmo se não passar pelo movimento coletivo da história, que não é apenas a sua”, diz Assayas, em entrevista ao Valor.

Assayas tinha só 13 anos em 1968, mas viveu com intensidade os anos que se seguiram. Já havia sentido por duas vezes necessidade de abordar essa época em suas obras. A primeira foi em 1994, quando dirigiu o ótimo “Água Fria” (primo não muito distante de “Depois de Maio”), sobre dois adolescentes em crise. A outra foi sob forma de ensaio (publicado como livro em 2005), “Une Adolescence dans l’Après-Mai”, que foi como uma matriz do longa.

Andrew Medichini/AP

Assayas: “Não tenho nostalgia daquela época. O peso ideológico que restringia a liberdade de pensamento era enorme”

 

“O ensaio deu forma às minhas ideias sobre aquela época. Foi escrevendo que rememorei a fundo o modo como eu vivenciei aquele tempo, em parte pelo engajamento político, que era compartilhado por todos, de outra parte pela contracultura. Havia uma certa tensão entre essas duas correntes, e minha geração ficou no fogo cruzado entre ambas. Escrevendo, essas coisas voltaram à minha cabeça, e eu pensei que, no cinema, a época nunca tinha sido tratada da forma que eu achava apropriada”, diz o diretor.

“Depois de Maio” mostra uma geração movida por ideais elevados, que discutia temas profundos nos intervalos entre filmes, livros e canções de uma época singularmente fértil no terreno da cultura. Os jovens do filme são fotogênicos e os figurinos e cortes de cabelo setentistas são valorizados por uma direção de fotografia solar. Ainda assim, o tom do filme nunca é de glamourização.

“Não tenho nostalgia daquela época. O peso ideológico que restringia a liberdade de pensamento era enorme. Havia um dogmatismo político que estava muito longe da realidade que vivíamos. Não lastimei quando os anos 70 acabaram, principalmente por essa questão ideológica”, diz Assayas.

“A cultura era mais viva. Mas também havia coisas insuportáveis, como aqueles solos de guitarra que duravam 15 minutos”

Mas ele também via muita coisa bela, como a rejeição ao materialismo e uma grande fé no futuro, coisas que hoje em dia, para ele, parecem ingênuas, mas que na época eram muito valorosas. “A cultura era mais viva. Mas também havia coisas insuportáveis, como aqueles solos de guitarra que duravam 15 minutos, ou os de bateria, que não acabavam nunca [risos]… Fora algumas músicas new age, que eram muito chatas!”

Assayas tem uma obra eclética, com notável habilidade para manejar uma câmera de forma naturalmente fluida. É hoje um dos cineastas franceses mais respeitados fora de seu país, sobretudo no mundo anglo-saxônico, onde passou a ser cultuado após “Irma Vep” (1996), sobre os bastidores da produção de um filme B.

Assim como Léos Carax (“Holy Motors”) e Claire Denis (“Trouble Every Day”), o diretor fez seu primeiro longa (“Désordre”) nos anos 1980, pertencendo à primeira geração do que alguns críticos chamam de “jeune cinéma français” (jovem cinema francês), movimento que se desenharia com mais nitidez na década seguinte (com o surgimento de nomes como Arnaud Desplechin, Xavier Beauvois e Bruno Dumont). São todos donos de obras muito pessoais, netos da nouvelle vague dos anos 1960, mas que foram influenciados sobretudo por nomes como Maurice Pialat, Jean Eustache e Philippe Garrel, da geração posterior à de Jean-Luc Godard e François Truffaut. “Na década de 1980, éramos isolados, tentando fazer um cinema moderno em um contexto que era, antes de mais nada, o fim de uma coisa pós-nouvelle vague. Tínhamos os mesmos valores, mas quando comecei a fazer filmes, tinha a impressão de estar só”, relembra.

Como seu alter ego do filme, Assayas queria ser artista plástico, mas o amor pelo cinema o fez mudar de rumo. Dirigiu seu primeiro curta, “Copyright”, em 1978, chamando a atenção de críticos da prestigiosa revista “Cahiers du Cinéma”, que o convidaram a integrar o expediente da publicação. “Escrevi sobre filmes entre 1980 e 1985, para mim foi uma escola de cinema. Antes, tinha vontade de filmar, mas me sentia meio ignorante sobre o assunto. Na revista, conversei com cineastas, vi filmes de difícil acesso e tive contato com as pessoas que entendiam muito sobre cinema, como [os então editores] Serge Daney e Serge Toubiana.”

Afiado ao analisar os filmes dos outros, Assayas reconhece ser incapaz de julgar os seus: “É impossível. Quando termino um filme, revejo inúmeras vezes para resolver questões técnicas, a ponto de chegar um instante em que não consigo mais vê-lo. Sempre esperei que, com o passar do tempo, pudesse rever meus filmes como se tivessem sido dirigidos por outra pessoa. Mas não consigo: ao ver as cenas, o que me vem à mente são os bastidores de cada cena. Não há distanciamento”.

Por meio de seu cinema, Assayas sempre externou seu interesse pela diversidade de culturas, sobretudo no mundo globalizado pós-internet – em seus filmes, viaja-se bastante e fala-se em várias línguas. O diretor tem particular fascínio pela Ásia (foi inclusive casado com a chinesa Maggie Cheung, sua musa em alguns filmes), mas talvez seu olhar se desloque para outra região do planeta em breve.

“Sempre me interessei pelo presente da história, me chama a atenção que a Europa não seja mais o lugar onde ela ocorre. Por isso filmei na Ásia, onde o mundo se transforma. Mas sempre me interessei pelo Brasil, que tem essa força, é hoje uma potência. Isso pode ser inspirador a um cineasta. Espero realmente poder fazer um filme aí algum dia, digo isso com total sinceridade.”

 

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Por Bruno Ghetti | Para o Valor, de São Paulo

 

LULA, O GRANDE VENCEDOR – por juremir machado da silva /porto alegre.rs

CORREIO DO POVO -ARTIGO – (LULA), O GRANDE VENCEDOR – por Juremir Machado da Silva

ARTIGO - (LULA), O GRANDE VENCEDOR - por Juremir Machado da Silva

 

ANALFABETO É QUEM NÃO TEM O QUE DIZER
No jornal Correio do Povo do dia 25 de abril, o jornalista e escritor Juremir Machado da Silva, arrebenta com os preconceituosos que não engoliram o fato de Lula ter se tornado colunista do jornal mais influente do mundo, o The New Yor Times. Para Juremir “SABER ESCREVER É MUITO MAIS DO QUE DOMINAR REGRAS GRAMATICAIS. SABER ESCREVER É TER O QUE DIZER E TER UM JEITO PRÓPRIO DE FAZER ISSO…” Lula sabe. Leia, abaixo, a íntegra do texto de Juremir:

O GRANDE VENCEDOR

Minha admiração por vencedores não tem tamanho. Em todas as áreas. Admiro principalmente os que vencem pelas próprias forças contra tudo e todos. Minha admiração por Dunga é incomensurável. Por Felipão também. Já critiquei o atual treinador da Seleção, mas sem perder a admiração. Dunga e Felipão parecem sempre mal-humorados. No caso deles, é qualidade. Vem da sinceridade à flor da pele. Admirei um vencedor até as últimas consequências: o escritor argentino Jorge Luís Borges, que ficou cego. Admiro o mulato Machado de Assis, que se tornou nosso maior escritor. Enfim, admiro os que arrombam a festa. Admiro Roberto Carlos, Caetano Veloso e Chico Buarque.

Aprendi a admirar o maior vencedor do Brasil contemporâneo: Lula.
Que trajetória espantosa! O menino retirante de Pernambuco superou todas as expectativas e continua a nos embasbacar. Lula é um gênio da comunicação e da política. Um Pelé da esfera pública. A minha admiração por Lula acaba de dar mais um salto. Ele será colunista do jornal mais prestigioso do mundo: o americano The New York Times. Nem o sofisticado doutor Fernando Henrique Cardoso, que eu saiba, conseguiu tal façanha. Lula terá como colegas gente do quilate de Paul Krugman, prêmio Nobel da economia. É conto de fadas dos bons. O menino pobre, não pela bola, mas pela inteligência política, galga todos os degraus, torna-se presidente do Brasil, fascina boa parte do mundo e torna-se colunista do jornal mais influente da galáxia. Uau!

É para matar de raiva os preconceituosos que o chamam de analfabeto e para fazer explodir de inveja os elitistas. Tenho minhas decepções com Lula e com muitos daqueles que admiro, mas isso não anula o essencial: as razões para continuar admirando. Jamais gostei das alianças de Lula e acho que em alguns momentos ele foi Lulla. Mas que fera política, que inteligência superior, capaz de, independentemente de educação formal, colocá-lo acima dos seus concorrentes num “mercado” altamente competitivo.

Saber escrever é muito mais do que dominar regras de gramática. Saber escrever é ter o que dizer e ter um jeito próprio de fazer isso. Lula é possivelmente o maior comunicador da história do Brasil. Um monstro. Este Brasil teve na sua história três grandes políticos: Getúlio Vargas, João Goulart e Lula. O primeiro, por mudar o Brasil, saiu morto do palácio. O segundo, por colocar o país em risco de uma melhora substancial, especialmente no campo, foi derrubado, enxovalhado e transformado em homem fraco. O terceiro veio do nada e nada temeu: impôs-se como um revolucionário reformista, aceitou jogar o jogo até quando as cartas se embaralham, não morreu, não caiu, fez sua sucessora e agora vai mostrar suas ideias ao mundo nas páginas do The New York Times. É mole? É simulação? É coisa para quem tem bala na agulha, farinha no saco e fala outra linguagem, não a dos bacharéis, mas a dos transformadores do mundo.

Estou tendo um acesso de lulismo? É uma confissão de petismo? Nada disso. Apenas uma maneira de mostrar o quanto admiro os que vencem pelo talento. Poderia dizer o mesmo do conservador Charles de Gaulle. Ou até da recém-falecida Margaret Thatcher. O talento de uns melhora o mundo, o de outros piora.

PRECISA DE ATENÇÃO A POLITICA DOS ESTADOS UNIDOS PARA COM A A AMÉRICA DO SUL. MUITA ATENÇÃO. – por marc weisbrot / ny.usa

Acontecimentos recentes indicam que a administração Obama intensificou sua estratégia de “mudança de regime” contra os governos latino-americanos à esquerda do centro, promovendo conflito de maneiras que não eram vistas desde o golpe militar apoiado pelos EUA na Venezuela em 2002.

nicolas-maduro1O exemplo mais destacado é o da própria Venezuela na última semana. No momento em que este artigo está sendo impresso, Washington está mais e mais isolada em seus esforços para desestabilizar o governo recém-eleito de Nicolás Maduro.

Mas a Venezuela não é o único país vitimado pelos esforços de Washington para reverter os resultados eleitorais dos últimos 15 anos na América Latina.

Está claro agora que o afastamento do presidente paraguaio Fernando Lugo, no ano passado, também teve a aprovação e o apoio do governo dos Estados Unidos.

Num trabalho investigativo brilhante para a agência Pública, a jornalista Natalia Viana mostrou que a administração Obama financiou os principais atores do chamado “golpe parlamentar” contra Lugo. Em seguida, Washington ajudou a organizar apoio internacional ao golpe.

O papel exercido pelos EUA no Paraguai é semelhante a seu papel na derrubada militar, em 2009, do presidente democraticamente eleito de Honduras, Manuel Zelaya, caso no qual Washington dominou a Organização de Estados Americanos e a utilizou para combater os esforços de governos sul-americanos que visavam restaurar a democracia.

Na Venezuela, na semana passada, Washington não pôde dominar a OEA, mas apenas seu secretário-geral, José Miguel Insulza, que reiterou a reivindicação da Casa Branca (e da oposição venezuelana) de uma recontagem de 100% dos votos.

Mas Insulza teve de recuar, como teve de fazer a Espanha, única aliada importante dos EUA nessa empreitada nefanda, por falta de apoio.

A exigência de uma recontagem na Venezuela é absurda, já que foi feita uma recontagem das cédulas de papel de uma amostra aleatória deManuel-Zelaya-001 54% do sistema eletrônico. O total obtido nas máquinas foi comparado à contagem manual das cédulas de papel na presença de testemunhas de todos os lados.

Estatisticamente falando, não existe diferença prática entre essa auditoria enorme já realizada e a recontagem.

Jimmy Carter descreveu o sistema eleitoral da Venezuela como “o melhor do mundo”, e não há dúvida quanto à exatidão da contagem.

É bom ver Lula denunciando os EUA por sua ingerência, e Dilma juntando sua voz ao resto da América do Sul para defender o direito da Venezuela a eleições livres.

Mas não apenas a Venezuela e as democracias mais fracas que estão ameaçadas pelos EUA.

Conforme relatado nas páginas deste jornal, em 2005 os EUA financiaram e organizaram esforços para mudar a legislação brasileira com vistas a enfraquecer o PT. Essa informação foi descoberta em documentos do governo americano obtidos graças à lei americana de liberdade de informação. É provável que Washington tenha feito no Brasil muito mais e siga em segredo.

Está claro que os EUA não viram o levemente reformista Fernando Lugo como um elemento ameaçador ou radical. O problema era apenas sua proximidade excessiva com os outros governos de esquerda.

Como a administração Bush, a administração Obama não aceita que a região mudou. Seu objetivo é afastar os governos de esquerda, em parte porque tendem a ser mais independentes de Washington. Também o Brasil precisa se manter vigilante diante dessa ameaça à região.

MARK WEISBROT, 58, é codiretor do Centro de Pesquisas Econômicas e Políticas, em Washington, e presidente da Just Foreign Policy.

Folha de S. Paulo

Tradução de CLARA ALLAIN

Jovem rico erra. “Menor” pobre comete crime – por leonardo sakamoto / são paulo.sp

Os repetidos casos de violência gerados por jovens da classe média alta brasileira e a forma aviltante com a qual têm sido tratados adolescentes pobres no processo de ocupação policial de comunidades no Rio de Janeiro me deixam duplamente incomodado. Primeiro, é claro, pelo fato em si. Segundo, pela forma como a sociedade se comporta diante disso.

Sabemos que é mais fácil uma pessoa que roubou um xampu, um litro de leite ou meia dúzia de coxinhas ir amargar uma temporada no xilindró – como mostram diversos casos que já trouxe aqui – do que um empresário que corrompeu ou um político que foi corrompido passarem uma temporada fora de circulação.

Não que o princípio da insignificância (que pode ser aplicado quando o caso não representa riscos à sociedade e não tenha causado lesão ou ofensa grave) não seja conhecido pelo Judiciário. Insignificante mesmo é quem não tem um bom advogado, muito menos sangue azul ou imunidade política.

Tempos atrás, a seguinte notícia veio a público:

“A empregada doméstica Sirley Dias de Carvalho Pinto, de 32 anos, teve a bolsa roubada e foi espancada por cinco jovens moradores de condomínios de classe média da Barra da Tijuca, na madrugada de sábado. Os golpes foram todos direcionados à sua cabeça. Presos por policiais da 16ª DP (Barra), três dos rapazes (…) confessaram o crime e serão levados para a Polinter. Como justificativa para o que fizeram alegaram ter confundido a vítima com uma prostituta.”

Os rapazes não eram da ralé. Se fossem de classe social mais baixa, certamente o texto seria sutilmente diferente:

“A empregada doméstica Sirley Dias de Carvalho Pinto, de 32 anos, teve a bolsa roubada e foi espancada por cinco moradores da favela da Rocinha, na madrugada de sábado. Os golpes foram todos direcionados à sua cabeça. Presos por policiais da 16ª DP (Barra), três dos bandidos (…) confessaram o crime e estão presos. Como justificativa para o que fizeram alegaram ter confundido a vítima com uma prostituta.”

Rico é jovem, pobre é bandido. Um é criança que fez coisa errada, o outro um monstro que deve ser encarcerado. Lembro que o pai de um deles, num momento de desespero, justificou a atitude do filho como sendo perdoável. Da mesma forma, o pai de um dos jovens que agrediram homossexuais com lâmpadas fluorescentes na avenida Paulista, em São Paulo, pediu condescendência. Afinal, isso não condiz com a criação que tiveram. Bem, são pais, é direito deles. O incrível é como a sociedade encara o tema, com uma diferenciação claramente causada pela origem social.

Tenho minhas dúvidas se a notícia sairia se fosse o segundo caso. Provavelmente, na hora em que o estagiário que faz a checagem das delegacias chegasse com a informação, ouviria algo assim na redação: “Pobre batendo em pobre? Ah, acontece todo dia, não é notícia. Além disso, é coisa deles com eles. Então, deixem que resolvam”.

Amigos que trabalharam em uma rádio grande de São Paulo, pertencente a um grupo de comunicação, já ouviram algo muito parecido, mas mais cruel… É triste verificar mais uma vez que o conceito de notícia depende de qual classe social pertencem os protagonistas. Somos lenientes com os nossos semelhantes, com aqueles que poderiam ser nossos primos e irmãos, e duros com os outros.

A justificativa dos espancadores também é bastante esclarecedora. Ou seja, “puta” e “bicha” pode. Assim como índio e “mendigo”. Lembram-se do Galdino, que morreu queimado por jovens da classe média brasiliense enquanto dormia em um ponto de ônibus? Ou a população de rua do Centro de São Paulo, que vira e mexe, é morta a pauladas enquanto descansa? Até onde sabemos, apesar dos incendiários brasilienses terem sido presos, eles possuíam regalias, como sair da cadeia para passear. E na capital paulista, crimes contra populacão de rua tendem a ser punidos com a mesma celeridade que agressões contra indígenas no Mato Grosso do Sul.

Na prática, as pessoas envolvidas nesses casos apenas colocaram em prática o que devem ter ouvido a vida inteira: putas, bichas, índios e mendigos são a corja da sociedade e agem para corromper os nossos valores morais e tornar a vida dos cidadãos de bem um inferno. Seres descartáveis, que vivem na penumbra e nos ameaçam com sua existência, que não se encaixa nos padrões estabelecidos. E por que não incluir nesse caldo as empregadas domésticas, que existem para servir? Se eles soubessem a profissão de Sirley, teria feito diferença?

A sociedade tem uma parcela grande de culpa em atos como esse e os dos jovens que se tornam soldados do tráfico por falta de opções e na busca por dignidade, fugindo da violência do Estado e do nosso desprezo. A culpa não é só deles.

A diferença é que, para os da classe média e alta, passamos a mão na cabeça. Afinal, são “jovens”. Para os pobres, os “menores”, passamos bala.

MENSALÃO: “Não houve desvio de dinheiro público” – por janio de freitas / são paulo.sp

A matéria divulgada hoje, dia 09 de Abril, pelo jornalista Janio de Freitas, no jornal Folha de S.Paulo, é definitiva:

Os 73.850 milhões não eram do Banco do Brasil;

A VISANET dona do dinheiro é uma empresa multinacional;

O dinheiro foi utilizado em serviços executados pela agencia de publicidade;

A “bonificação por volume – BV” em transações de publicidade e marketing, figurou com distorção acusatória no quesito BB/Visanet/DNA do julgamento, e os meios de comunicação sabem muito bem disso e como funciona o BV.

O Blog Megacidadania parabeniza o jornalista Janio de Freitas por divulgar A VERDADE. Que os juizes do STF tenham a grandeza de reconsiderar seus votos para poderem assim resgatar a condição de Magistrados isentos e guardiães da justiça (= que respeitam os documentos constantes do processo).

A seguir a íntegra da coluna de Jano de Freitas:

Questões para os juízes

Elementos novos incidem sobre pontos decisivos no teor da acusação do Mensalão. 

Os ministros do Supremo Tribunal Federal vão deparar com grandes novidades em documentos e dados, quando apreciem os recursos à sentença formal, esperada para os próximos dias, da ação penal 470 ou caso mensalão. Muitos desses elementos janio de freitasnovos provêm de fontes oficiais e oficiosas, como Banco do Brasil, Tribunal de Contas da União e auditorias. E incidem sobre pontos decisivos no teor da acusação e em grande número dos votos orais no STF.

A complexidade e a dimensão das investigações e, depois, da ação penal deram-lhes muitos pontos cruciais, para a definição dos rumos desses trabalhos. Dificuldades a que se acrescentaram problemas como a exiguidade de prazo certa vez mencionada pelo encarregado do inquérito na Polícia Federal, delegado Luiz Flávio Zampronha. Inquérito do qual se originou, por exemplo, um ponto fundamental na acusação apresentada ao STF pela Procuradoria Geral da República e abrigada pelo tribunal.

Trata-se, aí, do apontado repasse de quase R$ 74 milhões à DNA Propaganda, dinheiro do Banco do Brasil via fundo Visanet, sem a correspondente prestação de quaisquer serviços, segundo a perícia criminal da PF. Estariam assim caracterizados peculato do dirigente do BB responsável pelo repasse e, fator decisivo em muitas condenações proferidas, desvio de dinheiro público.

Por sua vez, perícia de especialistas do Banco do Brasil concluiu pela existência das comprovações necessárias de que os serviços foram prestados pela DNA. E de que foi adequado o pagamento dos R$ 73,850 milhões, feito com recursos da sociedade Visanet e não do BB, como constou. Perícia e documentos que os ministros vão encontrar em breve.

No mesmo ponto da ação, outra incidência decisiva está revista: nem Henrique Pizzolato era o representante do Banco do Brasil junto à Visanet nem assinou sozinho contrato, pagamento ou aporte financeiro. Documento do BB vai mostrar esses atos sempre assinados pelo conjunto de dirigentes setoriais (vários nomeados ainda por Fernando Henrique e então mantidos por Lula). A propósito: os ministros talvez não, mas os meios de comunicação sabem muito bem o que é e como funciona a “bonificação por volume”, em transações de publicidade e marketing, que figurou com distorção acusatória no quesito BB/Visanet/DNA do julgamento.

A indagação que os novos documentos e dados trazem não é, porém, apenas sobre elementos de acusação encaminhados pela Procuradoria-Geral –aparentemente nem sempre testada a afirmação policial– e utilizados em julgamento do Supremo. Um aspecto importante diz respeito ao próprio Supremo. Quantos dos seus ministros serão capazes de debruçar-se com neutralidade devida pelos juízes, sem predisposição alguma, sobre os recursos que as defesas apresentem? E, se for o caso, reconsiderar conceitos ou decisões –o que, afinal de contas, é uma eventualidade a que o juiz se tornou sujeito ao se tornar juiz, ou julga sem ser magistrado.

Pode haver pressentimento, sugerido por ocasiões passadas, mas não há resposta segura para as interrogações. Talvez nem de alguns dos próprios juízes para si mesmos.

Santayana: Qualquer agressão desatinada a Lula desatará crise nacional

O processo contra Lula e a força do simbolismo

Como Getúlio e Juscelino, cada um deles em seu tempo, Lula é símbolo do povo brasileiro. Acusam-no hoje de ajudar os empresários brasileiros em seus negócios no Exterior. O grave seria se ele estivesse ajudando os empresários estrangeiros em seus negócios no Brasil.

 

O Ministério Público do Distrito Federal – por iniciativa do Procurador Geral da República – decidiu promover investigação contra Lula, denunciado, por Marcos Valério, por ter intermediado suposta “ajuda” ao PT, junto à Portugal Telecom, no valor de 7 milhões de reais.

O publicitário Marcos Valério perdeu tudo, até mesmo o senso da conveniência. É MAURO SANTAYANAnormal que se sinta injustiçado. A sentença que o condenou a 40 anos de prisão foi exagerada: os responsáveis pelo seqüestro, assassinato e esquartejamento de Eliza Salmúdio foram condenados à metade de sua pena.

Assim se explica a denúncia que fez contra o ex-presidente, junto ao Procurador Geral da República, ainda durante o processo contra dirigentes do PT.

O Ministério Público se valeu dessas circunstâncias, para solicitar as investigações da Polícia Federal – mas o aproveitamento político do episódio reclama reflexões mais atentas.

Lula é mais do que um líder comum. Ele, com sua biografia de lutas, e sua personalidade dotada de carisma, passou a ser um símbolo da nação brasileira, queiramos ou não. Faz lembrar o excelente estudo de Giorg Plekhanov sobre o papel do indivíduo na História. São homens como Getúlio, Juscelino e Lula que percebem o rumo do processo, com sua ação movem os fatos e, com eles, adiantam o destino das nações e do mundo.

Há outro ponto de identificação entre Lula e Plekhanov, que Lula provavelmente desconheça, como é quase certo de que desconheça até mesmo a existência desse pensador, um dos maiores filósofos russos. Como menchevique, e parceiro teórico dos socialistas alemães, Plekhanov defendia, como passo indispensável ao socialismo, uma revolução burguesa na Rússia, que libertasse os trabalhadores do campo e industrializasse o país. Sem passar por essa etapa, ele estava convencido, seria impossível uma revolução proletária no país.

É mais ou menos o que fez Lula, em sua aliança circunstancial com o empresariado brasileiro. Graças a essa visão instintiva do processo histórico, Lula pôde realizar uma política, ainda que tímida, de distribuição de renda, com estímulo à economia. Mediante a retomada do desenvolvimento econômico, com a expansão do mercado interno, podemos prever a formação de uma classe operária numerosa e consciente, capaz de conduzir o processo de libertação.

Não importa se o grande homem público brasileiro vê assim a sua ação política. O importante é que esse é, conforme alguns lúcidos marxistas, começando pelo próprio Marx, o único caminho a seguir.

Como Getúlio e Juscelino, cada um deles em seu tempo, Lula é símbolo do povo brasileiro. Acusam-no hoje de ajudar os empresários brasileiros em seus negócios no Exterior. O grave seria se ele estivesse ajudando os empresários estrangeiros em seus negócios no Brasil.

Lula não é uma figura sagrada, sem erros e sem pecados. É apenas um homem que soube aproveitar as circunstâncias e cavalgá-las, sempre atento à origem de classe e fiel às suas próprias idéias sobre o povo, o Brasil e o mundo.

Mas deixou de ser apenas um cidadão como os outros: ao ocupar o seu momento histórico com obstinação e luta, passou a ser um emblema da nacionalidade. Qualquer agressão desatinada a esse símbolo desatará uma crise nacional de desfecho imprevisível.

Mauro Santayana é colunista político do Jornal do Brasil, diário de que foi correspondente na Europa (1968 a 1973). Foi redator-secretário da Ultima Hora (1959), e trabalhou nos principais jornais brasileiros, entre eles, a Folha de S. Paulo (1976-82), de que foi colunista político e correspondente na Península Ibérica e na África do Norte.

Mauro Santayana, em Carta Maior

DALLA NORVEGIA UNO STUDIO SU TARANTO: ‘DISASTRO’ – di gabriele caforio / itália

 in News dal Mondo, Questione ILVA. ·

Lo stabilimento Ilva in attività

//DOSSIER. Bergen. La scienziata italiana Bruna De Marchi pubblica uno studio che analizza l’inquinamento a Taranto: “Un disastro strisciante per decenni”

di Gabriele Caforio

Ad ottobre e dicembre scorso, il Ministero della Salute prima e l’Arpa Pugliapoi, hanno reso noto quello che accade negli ultimi anni alla salute dei cittadini tarantini e pugliesi. Infatti, sono stati pubblicati i dati che mostrano ilgrave aumento delle incidenze, alcune delle quali ricollegabili direttamente all’inquinamento industriale, e delle morti per neoplasie di vario tipo tra gli abitanti delle province di Taranto, Brindisi e Lecce. (Una scheda che fotografa questa triste realtà si può leggere qui).

Bruna De Marchi, del Centro delle scienze e discipline umanistiche dell’Università di Bergen (in Norvegia), ha recentemente pubblicato sulla rivista “Epidemiologia & Prevenzione” uno studio che si interroga criticamente sulle necessità di ricerca e prevenzione epidemiologica che dovrebbero partire da subito a Taranto e che, viste le cifre che riportiamo puntualmente nella scheda, potrebbero essere utili anche nel leccese e nel brindisino. Dato che il ritardo nell’uso di questi strumenti si è ormai consolidato, è ora cruciale capire come farli partire.
Se il termine più appropriato per definire le vicende dell’Ilva è la parola “disastro”, allora secondo la De Marchi i danni che oggi si vedono non sono il vero disastro ma “la manifestazione conclamata che un disastro strisciante si è perpetuato (e perpetrato) per decenni”. Si tratta di danni che non risultano da un evento o da una causa singola, bensì dalla concreta “conseguenza di una mancata volontà di affrontare le questioni della produzione e del lavoro nel loro contesto e con una visione temporale di lungo periodo”.
Proprio a proposito della visione e del contesto, lo studio sottolinea che la particolare “vulnerabilità sociale” di un determinato territorio condiziona la risposta che quel territorio fornirà alle minacce ed agli eventi esterni. Che cos’è questa vulnerabilità? Un esempio: così come un edificio risponde ad un terremoto non solo in base all’intensità della scossa ma anche in base alle caratteristiche della sua struttura, così un “sistema umano” risponde agli eventi a seconda delle sue dotazioni iniziali sia materiali che immateriali. Tra quelle immateriali ci sono: 1) la conoscenza delle fonti di pericolo, 2) la fiducia su chi è istituzionalmente preposto ad occuparsi dell’emergenza, 3) la coesione interna della comunità e la sua capacità di attrarre attenzione e risorse esterne.

Per non ripetere sempre gli stessi errori ed accumulare disastri su disastri la studiosa dell’Università norvegese si sofferma su un efficace paragone con il caso del terremoto de L’Aquila del 2009 dove le popolazioni colpite sono “rimaste estranee alle decisioni calate dall’alto” dai vari decisori. Le case provvisorie, le cosiddette new town, “dove la gente abita, ma non vive” rappresentano così il secondo disastro, di matrice umana, oltre al danno naturale del terremoto.
La sfida di Taranto, ora, è proprio quella di non cadere in queste risposte preconfezionate nel cercare una soluzione alla crisi ambientale che sta attraversando.
Alle indagini fatte finora, quindi, ne vanno aggiunte di nuove che puntino a difendere ambiente e persone esposte. Le misure più efficaci “possono e devono essere identificate anche sulla base di una conoscenza approfondita dei modi di vita locali, non si deve solo chiedere ai cittadini di accettare le misure degli esperti, bensì di contribuire a costruirle”, bisogna coinvolgere e guardare anche alle aspettative e ai bisogni che gli abitanti hanno. Non solo conoscenze scientifiche quindi, ma anche un sano coinvolgimento della comunità locale in un “processo di ricerca e prevenzione integrato”, civico, non “prefabbricato”, una risorsa comune che porti le popolazioni locali nei processi decisionali.

Taranto non è un caso isolato né in Italia né tanto meno in Puglia; a Cerano(Br), infatti, c’è un’altra bomba ad orologeria. Ci sono i danni su persone e territorio causati dall’inquinamento prodotto dalla centrale elettrica a carbone Federico II, per la quale il processo si è aperto lo scorso 7 gennaio.

L’altra bomba già innescata è nel leccese. Il Rapporto del Registro Tumori 2012 ha evidenziato infatti dei dati ancora più preoccupanti. Questa terra, oltre all’inquinamento che produce in loco sconta pure il suo essere “sole, mare e vento”. Nel vento infatti si nascondono tanti inquinanti che arrivano sia dal polo industriale di Taranto, che da quello di Brindisi. E i dati degli eccessi tumorali per la provincia di Lecce parlano chiaro, dicono che si muore di più.

Evidenze scientifiche come quelle dello studio “Sentieri” e del Registro Tumori dovrebbero far entrare a pieno titolo l’epidemiologia e la ricerca all’interno dei processi decisionali. La Puglia, invece, da questo punto di vista sconta ancora tanti ritardi. Gli studi e le mappature, infatti, stanno solo confermando, senza prevenire, una realtà che i cittadini ormai da anni toccano con mano, nelle proprie case e nei propri affetti. È per questo che una qualunque garanzia di futuro e di sviluppo non può che passare per un investimento ed una nuova programmazione in materia di ricerca e prevenzione sanitaria e ambientale.

http://www.iltaccoditalia.info/sito/index-a.asp?id=23492

Como a classe média alta brasileira é escrava do “alto padrão” dos supérfluos – por adriana setti / barcelona.es


Adriana Setti

No ano passado, meus pais (profissionais ultra-bem-sucedidos que decidiram reduzir o ritmo em tempo de aproveitar a vida com alegria e saúde) tomaram uma decisão surpreendente para um casal – muito enxuto, diga-se – de mais de 60 anos: alugaram o apartamento em um bairro nobre de São Paulo a um parente, enfiaram algumas peças de roupa na mala e embarcaram para Barcelona, onde meu irmão e eu moramos, para uma espécie de ano sabático.

Aqui na capital catalã, os dois alugaram um apartamento agradabilíssimo no bairro modernista do Eixample (mas com um terço do tamanho e um vigésimo do conforto do de São Paulo), com direito a limpeza de apenas algumas horas, uma vez por semana. Como nunca cozinharam para si mesmos, saíam todos os dias para almoçar e/ou jantar. Com tempo de sobra, devoraram o calendário cultural da cidade: shows, peças de teatro, cinema e ópera quase diariamente. Também viajaram um pouco pela Espanha e a Europa. E tudo isso, muitas vezes, na companhia de filhos, genro, nora e amigos, a quem proporcionaram incontáveis jantares regados a vinhos.

Com o passar de alguns meses, meus pais fizeram uma constatação que beirava o inacreditável: estavam gastando muito menos mensalmente para viver aqui do que gastavam no Brasil. Sendo que em São Paulo saíam para comer fora ou para algum programa cultural só de vez em quando (por causa do trânsito, dos problemas de segurança, etc), moravam em apartamento próprio e quase nunca viajavam.

Milagre? Não. O que acontece é que, ao contrário do que fazem a maioria dos pais, eles resolveram experimentar o modelo de vida dos filhos em benefício próprio. “Quero uma vida mais simples como a sua”, me disse um dia a minha mãe. Isso, nesse caso, significou deixar de lado o altíssimo padrão de vida de classe média alta paulistana para adotar, como “estagiários”, o padrão de vida – mais austero e justo – da classe média europeia, da qual eu e meu irmão fazemos parte hoje em dia (eu há dez anos e ele, quatro). O dinheiro que “sobrou” aplicaram em coisas prazerosas e gratificantes.

Do outro lado do Atlântico, a coisa é bem diferente. A classe média europeia não está acostumada com a moleza. Toda pessoa normal que se preze esfria a barriga no tanque e a esquenta no fogão, caminha até a padaria para comprar o seu próprio pão e enche o tanque de gasolina com as próprias mãos. É o preço que se paga por conviver com algo totalmente desconhecido no nosso país: a ausência do absurdo abismo social e, portanto, da mão de obra barata e disponível para qualquer necessidade do dia a dia.

Traduzindo essa teoria na experiência vivida por meus pais, eles reaprenderam (uma vez que nenhum deles vem de família rica, muito pelo contrário) a dar uma limpada na casa nos intervalos do dia da faxina, a usar o transporte público e as próprias pernas, a lavar a própria roupa, a não ter carro (e manobrista, e garagem, e seguro), enfim, a levar uma vida mais “sustentável”. Não doeu nada.

Uma vez de volta ao Brasil, eles simplificaram a estrutura que os cercava, cortaram uma lista enorme de itens supérfluos, reduziram assim os custos fixos e, mais leves,  tornaram-se mais portáteis (este ano, por exemplo, passaram mais três meses por aqui, num apê ainda mais simples).

Por que estou contando isso a vocês? Porque o resultado desse experimento quase científico feito pelos pais é a prova concreta de uma teoria que defendo em muitas conversas com amigos brasileiros: o nababesco padrão de vida almejado por parte da classe média alta brasileira (que um europeu relutaria em adotar até por uma questão de princípios) acaba gerando stress, amarras e muita complicação como efeitos colaterais. E isso sem falar na questão moral e social da coisa.

Babás, empregadas, carro extra em São Paulo para o dia do rodízio (essa é de lascar!), casa na praia, móveis caríssimos e roupas de marca podem ser o sonho de qualquer um, claro (não é o meu, mas quem sou eu para discutir?). Só que, mesmo em quem se delicia com essas coisas, a obrigação auto-imposta de manter tudo isso – e administrar essa estrutura que acaba se tornando cada vez maior e complexa – acaba fazendo com que o conforto se transforme em escravidão sem que a “vítima” se dê conta disso. E tem muita gente que aceita qualquer contingência num emprego malfadado, apenas para não perder as mordomias da vida.

Alguns amigos paulistanos não se conformam com a quantidade de viagens que faço por ano (no último ano foram quatro meses – graças também, é claro, à minha vida de freelancer). “Você está milionária?”, me perguntam eles, que têm sofás (em L, óbvio) comprados na Alameda Gabriel Monteiro da Silva, TV LED último modelo e o carro do ano (enquanto mal têm tempo de usufruir tudo isso, de tanto que ralam para manter o padrão).

É muito mais simples do que parece. Limpo o meu próprio banheiro, não estou nem aí para roupas de marca e tenho algumas manchas no meu sofá baratex. Antes isso do que a escravidão de um padrão de vida que não traz felicidade. Ou, pelo menos, não a minha. Essa foi a maior lição que aprendi com os europeus — que viajam mais do que ninguém, são mestres na arte dosavoir vivre e sabem muito bem como pilotar um fogão e uma vassoura.

PS: Não estou pregando a morte das empregadas domésticas – que precisam do emprego no Brasil –, a queima dos sofás em L e nem achando que o “modelo frugal europeu” funciona para todo mundo como receita de felicidade. Antes que alguém me acuse de tomar o comportamento de uma parcela da classe média alta paulistana como uma generalização sobre a sociedade brasileira, digo logo que, sim, esse texto se aplica ao pé da letra para um público bem específico. Também entendo perfeitamente que a vida não é tão “boa” para todos no Brasil, e que o “problema” que levanto aqui pode até soar ridículo para alguns – por ser menor. Minha intenção, com esse texto, é apenas tentar mostrar que a vida sempre pode ser menos complicada e mais racional do que imaginam as elites mal-acostumadas no Brasil.

DO GOLPE MILITAR ÀS DIRETAS-JÁ – por altamiro borges / são paulo.sp


O golpe militar de 1964 serviu aos interesses – ideológicos, políticos e empresariais – dos barões da mídia. Com exceção do Última Hora, os principais jornais, revistas, emissoras de TV e rádio participaram da conspiração que derrubou João Goulart. O editorial da Folha de S.Paulo de 17 de fevereiro de 2009, que usou o neologismo “ditabranda” para qualificar a sanguinária ditadura, ajudou a reavivar esta história sinistra – além de resultar num manifesto de repúdio com 8 mil adesões de intelectuais e na perda de mais de 2 mil assinantes. Afinal, não foi apenas a Folha que clamou pelo golpe. Vários livros documentaram a participação ativa da mídia, inclusive listando veículos e jornalistas a serviço dos golpistas [9]. Os editoriais da época escancararam essa postura ilegal.

“Graças à decisão e heroísmo das Forças Armadas, o Brasil livrou-se do governo irresponsável, que insistia em arrastá-lo a rumos contrários à sua vocação e tradições… Salvos da comunização que celeremente se preparava, os brasileiros devem agradecer aos bravos militares”, comemorou o jornal O Globo. “Desde ontem se instalou no país a verdadeira legalidade… A legalidade está conosco e não com o caudilho aliado dos comunistas”, afirmou, descaradamente, o Jornal do Brasil. “Escorraçado, amordaçado e acovardado, deixou o poder como imperativo de legítima vontade popular o Sr. João Belchior Marques Goulart, infame líder dos comunos-carreiristas-negocistas-sindicalistas”, disparou o fascistóide Carlos Lacerda na Tribuna da Imprensa.

Na sequência, alguns veículos ingeriram seu próprio veneno e sentiram a fúria dos fascistas, que prenderam, mataram, cassaram mandatos e impuseram a censura. Lacerda, que ambicionava ser presidente, foi escorraçado pelos generais. Já o Estadão, com a sua linha liberal-conservadora, discordou do rumo estatizante do regime e teve várias edições censuradas. Este não foi o caso do grupo Frias, que tornou a Folha da Tarde “uma filial da Operação Bandeirantes”, a temida Oban, e no jornal de maior “tiragem” do país devido ao grande número de “tiras” (policiais) na sua redação [10]. Também não foi o caso da Rede Globo, que ergueu seu império graças ao irrestrito apoio à ditadura [11].

Até quando a ditadura já dava sinais de fraqueza, a TV Globo insistiu em salvá-la. Nas eleições de 1982, a corporação de Roberto Marinho montou um esquema, através da empresa Proconsult, para fraudar a apuração dos votos e evitar a vitória do recém-anistiado Leonel Brizola. A fraude foi denunciada por Homero Sanchez, ex-diretor de pesquisas da própria emissora. Ela também tentou desqualificar todos os principais líderes da oposição à ditadura. Numa entrevista ao jornal The New York Times, Roberto Marinho confessou: “Em um determinado momento, me convenci que o Sr. Leonel Brizola era um mau governador… Passei a considerar o Sr. Brizola daninho e perigoso e lutei contra ele. Realmente, usei todas as possibilidades para derrotá-lo”.

A manipulação mais grosseira, que popularizou o refrão “O povo não é bobo, fora Rede Globo”, ocorreu na campanha pelas Diretas-Já. Até duas semanas antes da votação da emenda Dante de Oliveira, que instituía a eleição direta para presidente, ela omitiu a mobilização que contagiava milhões de brasileiros. Ela recusou até matéria paga com chamadas para o comício em Curitiba (PR). Já o ato na capital paulista, que reuniu 300 mil de pessoas em 25 de janeiro de 1984, foi apresentado pelo âncora da emissora como “festa em São Paulo; a cidade comemora seus 430 anos”. “O Jornal Nacional sonegou ao público o fato – notório, na época – de que o ato fazia parte da campanha nacional por eleições diretas. Sonegou que essa campanha era liderada publicamente pelos principais expoentes da oposição” [12]. Um verdadeiro crime!

Das greves à histeria na Constituinte

Alguns veículos perceberam o naufrágio da ditadura militar e jogaram papel positivo na luta pela redemocratização. O caso mais curioso foi o da Folha, que até usou suas capas para convocar os comícios das Diretas-Já. O grupo Frias, que apoiara os generais “linha dura”, mudou de lado por oportunismo político e “mercadológico” [13]. Apesar destas nuances, nenhum barão da mídia abdicou de sua visão de classe. Jornalões e emissoras de TV e rádio nunca vacilaram diante das lutas dos trabalhadores, procurando criminalizar suas greves e satanizar suas lideranças. Numa das massivas assembléias em Vila Euclides, em maio de 1980, os metalúrgicos do ABC paulista destruíram câmeras e veículos da TV Globo, indignados com as suas recorrentes manipulações.

Esta opção de classe ficou visível durante os trabalhos da Assembléia Nacional Constituinte, em 1987/1988. Meticulosa pesquisa de Francisco Fonseca, da Fundação Getúlio Vargas, prova que os quatro principais diários do país (Jornal do Brasil, O Globo, Estadão e Folha) uniformizaram os seus ataques aos direitos trabalhistas. “Através dos editoriais, que definem a linha editorial e ideológica de cada veículo, a grande imprensa operou nos debates constituintes, sobretudo nos temas que se referiam aos direitos sociais… Alguns dos direitos propostos, como a diminuição da jornada de trabalho, a ampliação da licença-maternidade, a licença-paternidade e o aumento do valor da hora extra, foram tratados como catastróficos à produção” [14].

“A Constituinte embarcou em um caminho de distribuição de benefícios sociais cujo produto só pode ser um e único: a redução da taxa de investimentos, com o conseqüente atraso econômico”, afirmou o editorial terrorista do JB (28/02/88). “Concessões feitas em total descompasso com os efeitos não prejudicarão apenas os trabalhadores, [mas também] a estabilidade institucional”, ameaçou o golpista O Globo (15/11/87). O Estadão, com sua linha liberal-conservadora, pregou a supremacia do deus-mercado, afirmando que tais direitos “acarretariam pernicioso desestímulo aos melhores” (18/06/87). Já a Folha atacou a “demagogia”, inclusive nas propostas do adicional de férias, aviso prévio aos demitidos e limite de seis horas nos turnos ininterruptos (08/07/88).

Além de rejeitar qualquer avanço trabalhista, a mídia bombardeou o direito de greve e procurou fragilizar o sindicalismo. “A liberdade de greve é um abuso conceitual”, atacou o JB (07/07/88). A Folha exagerou ao dizer que as propostas dos constituintes estimulariam o “direito irrestrito de greve… [com] artigos condenáveis” (15/07/88). Já O Globo, no editorial “A porta da anarquia”, afirmou que este direito “significa a porta aberta à desordem e ao caos” (17/08/88). E o Estadão explicitou sua aversão às greves, principalmente no setor público. “São exércitos de empregados que agem com todas as regalias e mordomias de funcionários públicos, promovendo greves que ganham, hoje, aspectos nitidamente políticos e ideológicos, que levam à violência” (19/11/88).

Diante da ascensão das forças democráticas nos anos de 1980 e das conquistas da “Constituição-cidadã”, segundo a célebre definição do deputado Ulisses Guimarães, a mídia percebeu os riscos na origem e deu seu grito de guerra. “A hora é dos liberais acordarem, porque depois será tarde… Os liberais brasileiros têm diante de si uma ingente tarefa; se não se organizarem para combater o populismo estatizante (…), o Brasil corre o risco de regredir”, alertou o Estadão. “Não há outro caminho senão o de todos nos unirmos pondo acima de superadas divergências ideológicas ou de futuras disputas eleitorais os supremos objetivos da nação”, clamou o golpista Roberto Marinho.

NOTAS

9- Renê Armand Dreifuss. 1964: A conquista do estado. Editora Vozes, RJ, 1981.

10- Beatriz Kushnir. Cães de guarda. Boitempo Editorial, SP, 2004.

11- Valério Brittos e César Bolaño. Rede Globo: 40 anos de poder e hegemonia. Editora Paulus, SP, 2005.

12- Eugênio Bucci e Maria Rita Kehl. Videologias. Boitempo Editorial, SP, 2004.

13- Armando Sartori. “Oportunismo mercadológico”. Revista Retrato do Brasil, setembro de 2006.

14- Francisco Fonseca. “O conservadorismo patronal da grande imprensa brasileira”. Dezembro de 2002.

– Extraído do quarto capítulo do livro “A ditadura da mídia” (Editora Anita Garibaldi).

Ditadura: revelados detalhes da morte de militante da ALN

Enviado por luisnassif, dom, 24/03/2013 – 12:11

Depoimentos de ex-militantes reforçam sadismo de torturadores na ditadura

Detalhes sobre o assassinato do comandante Jonas, da Ação Libertadora Nacional, foram revelados esta semana em audiência da Comissão da Verdade de São Paulo

Por: Júlia Rabahie, da Rede Brasil Atual

 

São Paulo – Novos depoimentos de ex-militantes reforçam a dose de sadismo dos torturadores de presos políticos no final da década de 1960, além de trazerem à tona detalhes sobre a morte de Virgílio Gomes da Silva, o comandante Jonas, em setembro de 1969. Os militantes, assim como Virgílio, faziam parte da Ação Libertadora Nacional (ALN), uma das principais organizações guerrilheiras de combate à ditadura brasileira (1964-85).

Antônio Carlos Fon, Celso Horta e Manuel Cirillo participaram esta semana da audiência pública da Comissão da Verdade do Estado de São Paulo Rubens Paiva, na Assembleia Legislativa, para depor sobre a morte de comandante Jonas, torturado em um dos porões da ditadura, a Operação Bandeirantes (Oban). A Oban se tornaria depois o Destacamento de Operações de Informações – Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-CODI) de São Paulo.

“O capitão Albernaz era o mais violento e o mais doente de todos eles. Ele simbolizava muita coisa, andava com um pedaço de viga de madeira na mão, e quando passava nos corredores ia batendo nos presos. Não precisava de sala ou interrogatório para torturar. Ele era o exemplo do diabo”, disse Horta ao comentar a atuação do capitão do Exército Benoni de Arruda Albernaz na repressão aos presos da Oban. “Aquilo era uma casa de horror e de gritos”, completou.

Comandante Jonas era dirigente da ALN e foi um dos comandantes do sequestro do embaixador norte- americano Charles Burke Elbrick, no dia 4 de setembro de 1969. Poucos dias depois do fim da operação, quando pretendia mudar-se para Cuba com a família, Jonas foi preso, torturado e assassinado, segundo relatos.

Os depoimentos dos companheiros de militância de Virgílio à Comissão da Verdade indicam que sua morte ocorreu no dia 29 de setembro do mesmo ano, dia em que foi preso. O jornalista e companheiro de Virgílio da ALN, Antonio Carlos Fon, declarou ter certeza sobre os responsáveis pela morte do amigo. “Major Inocêncio de Fabrício Beltrão, capitão Benone de Arruda Albernaz, sargento Paulo Bordini e capitão Maurício Lopes Lima assassinaram Vírgilio Gomes da Silva, sob tortura brutal. Afirmo aqui e afirmo em juízo se for necessário.”

“Neste dia tínhamos marcado um ponto e percebi logo que havia repressão ali. Nem cheguei a atravessar a rua. Mas me localizaram, e quando me dei conta estava dentro de um fusca, os soldados com os pés em cima de mim. Fui desembarcar na Operação Bandeirantes”, contou Celso Horta, que, à época, era estudante, e militava na ALN desde 1968. “Sofri choques elétricos, e assim que os torturadores se retiraram vi a chegada do Virgílio. Ele devolvia os chutes e gritava ‘vocês estão matando um brasileiro, um patriota’.” Esta foi a última vez que Horta viu Jonas vivo.

Apesar de afirmar certeza sobre sua data de prisão – dia 30 de sembro de 1969 (um dia após a prisão de Virgílio) – os documentos de prisão de Manuel Cirillo indicam que sua captura foi feita antes desta data, no dia 16 do mesmo mês. “Isso já é a primeira coisa a ser investigada pela comissão.”

“Toque vermelho”

Cirillo estava hospedado em uma casa em São Sebastião, no litoral norte de São Paulo, quando foi preso, junto com a esposa de Virgílio, Ilda Gomes da Silva, e os quatro filhos do casal: Virgílio, Vladimir, Gregório e Maria Isabel – que tinha apenas quatro meses de idade. “Esperávamos documentos falsos para ir para o exterior. Quando acordei, na manhã do dia 30, havia um cidadão com um pé no meu peito e um fuzil na minha cara. Os espancamentos começaram ali mesmo, na frente das crianças”, contou Cirillo.

O militante contou que, logo ao chegar no prédio da Oban, foi levado para a sala de tortura. “O que mais impressionou no pau de arara foi o sangue que havia ali, devia haver pedaços de massa encefálica também”, disse, emocionado. De acordo com ele, enquanto era torturado, os torturadores diziam, repetidamente e em tom de escárnio “matamos um brasileiro aqui, mas que tinha um toquezinho de vermelho”. “Debaixo das porradas que DitaduraMilitar-Tortura-ChoqueEletricoeu sofria, contaram que mataram um ‘brasileiro’ na véspera, isso ficou na minha cabeça”, contou.

Foi apenas em 2004 que a ficha do atestado de óbito de Virgílio foi localizada no Instituto Médico Legal (IML) de São Paulo. “Mais de 30 anos depois, o atestado de óbito de Virgílio é achado, e traz as informações de que vestia uma camiseta amarela, um calção verde, e meias vermelhas. Um brasileiro com um toque de vermelho.”

O atestado também indicava que o corpo do militante havia sido sepultado no Cemitério da Vila Formosa, o maior da América Latina, na zona leste paulistana. No fim de 2010, atendendo aos pedidos da família, do Sindicato dos Químicos – do qual era militante – e do Grupo Tortura Nunca Mais de São Paulo, o Ministério Público Federal conseguiu acordo para que se desse início aos trabalhos de escavação no cemitério.

A operação, envolvendo a Polícia Federal, o Instituto Médico Legal e a Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, foi encerrada em março de 2011 com a retirada de várias ossadas que passaram por análises de laboratório. O cemitério, a partir da década de 1970, foi fortemente descaracterizado, teve suas ruas alargadas e árvores plantadas, tornando a localização dos corpos praticamente impossível.

Ilda Gomes da Silva, e dois de seus filhos estavam presentes na audiência: Virgílio – Virgilinho, como é chamado –  e Maria Isabel. Em depoimento emocionado, Virgilinho contou sobre o período em que ele e os irmão ficaram separados da mãe, quando ela foi presa. Dona Ilda ficou nove meses na prisão. Durante este período, as crianças ficaram no Juizado de Menores por dois meses.

“Levavam a gente para passear, e mostrar casas, nos oferecendo para adoção. Diziam que nossos pais eram bandidos. Depois nossas tias conseguiram nos tirar de lá, fomos cada um morar com uma delas.” Depois da soltura de dona Ilda, ela e os filhos foram para Cuba, em 1973, da onde só retornaram ao Brasil depois de 21 anos, em 1994. “Em Cuba, eu vi o sonho dos que lutavam contra a ditadura no Brasil”, disse o filho do dirigente morto.

Ele também agradeceu a presença dos militantes da ALN na audiência, ressaltando a importância de seu papel para o resgate à memória e à verdade. “Somos privilegiados de estar aqui com pessoas que fizeram parte da história do Brasil, que abdicaram dos seus sonhos para levantar sua voz na Justiça contra aqueles que, pela força, achavam que podiam dominar.” Ele também destacou o trabalho das Comissões da verdade pelo país. “Já vivi vários momentos históricos, e neste momento vivo outro, de resgate da justiça.”

Ampla, geral e irrestrita

O deputado Adriano Diogo (PT), presidente da Comissão, e os ex-militantes da ALN defenderam uma revisão da Lei da Anistia, de 1979, que garante anistia política aos militantes de esquerda e também aos agentes da repressão do Estado. “Aquela gente tomou de assalto o Estado brasileiro. Todas as instituições foram tomadas de assalto, esta lei tem de ser revista, foi votada por um Congresso cassado, porque o parlamento também foi tomado”, disse Cirillo.

A lei garante anistia àqueles que cometeram “crimes políticos ou conexos com estes”. Cirillo contesta o significado dado, pela lei, aos crimes conexos. “Não deveriam ser crimes entendidos como aqueles praticados pelos que estavam no poder, mas sim como a criação de condições para os guerrilheiros fugirem de prisões, coisas do tipo.”

Atuação

Virgílio Gomes da Silva nasceu na cidade de Santa Cruz, no Rio Grande do Norte, em 1933. Em 1957, já em São Paulo, começou a trabalhar como operário na empresa Nitroquímica. No mesmo ano, ingressou no PCB e passou a atuar no Sindicato dos Químicos e Farmacêuticos de São Paulo. Em 1964, após o golpe, foi preso por sua atuação como sindicalista, e após alguns meses ficou no Uruguai, durante três meses. Em 1967 entrou para a ALN e foi para Cuba fazer treinamento de guerrilha, onde ficou até 1968.

Os depoimentos dos colegas e familiares lembraram Virgílio como um “grande estrategista”. “Virgílio sempre teve a cabela voltada para o social, antes de mais nada, apesar de ser nosso comandante militar”, disse Celso Horta.

“MATAR O ÍNDIO PARA SALVAR O HOMEM. O ÚNICO ÍNDIO BOM É O ÍNDIO MORTO” – 100 ANOS DE GENOCÍDIO


“MATAR O ÍNDIO PARA SALVAR O HOMEM. O ÚNICO ÍNDIO BOM É O ÍNDIO MORTO.” Citação de Richard H. Pratt,fundador do primeiro internato indiano denominado “Carlisle Indian School Industrial”.

crianças 1

As crianças eram arrancadas à força de suas famílias, sob pretexto de receberem educação civilizada. Nunca mais retornavam. Simplesmente sumiam.
De acordo com o Reverendo Kevin Annett, Secretário do Tribunal Internacional para Crimes da Igreja e dos Estados (www.itccs.org), o Instituto Mohawk (foto abaixo) foi criado pela Igreja Anglicana da Inglaterra em 1832 para aprisionar e destruir gerações inteiras de crianças da etnia indígena Mohawk. As crianças indígenas eram arrancadas violentamente de suas famílias e levadas a esses internatos. Lá sofriam todo o tipo de maus tratos, trabalhados forçados, experiências médicas, torturas, rituais malignos, violência sexual e toda uma série de perversões perpetradas por padres, freiras e mandatários da igreja. O Instituto Mohawk foi a primeira escola indígena  residencial no Canadá e durou até 1970 quando foi fechada para esconder os crimes ali cometidos pela igreja.


Como na maioria das escolas residenciais, mais de metade das crianças presas ali nunca mais voltou para casa. Muitasescola delas foram enterradas ao redor da própria escola.
Em 1909, o Dr. Peter Bryce , superintendente médico geral para o Departamento de Assuntos Indígenas (DIA), informou o departamento que entre 1894 e 1908, as taxas de mortalidade em algumas escolas residenciais no oeste do Canadá variou de 30% a 60% em cinco anos (ou seja, cinco anos após a entrada, de 30% a 60% dos estudantes tinham morrido, ou 6-12% ao ano). Estas estatísticas não se tornaram públicas até 1922, quando Bryce, que já não estava trabalhando para o governo, publicou A História de um Crime Nacional:. Sendo um registro das condições de saúde dos índios do Canadá 1904-1921. Desde então, a humanidade cruzou os braços para essa situação.
Para saber a história completa desses campos de concentração e extermínio de crianças administrados pela Inglaterra e pela Igreja, acesse:
 crianças
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mirantesul

PAPA FRANCISCO: “Os vínculos do novo papa com a ditadura militar da Argentina”

 

Os vínculos do novo papa com a ditadura militar da Argentina

publicado em 13 de março de 2013 às 17:05

Internacional| 13/02/2013 | Copyleft

Os conservadores argentinos sonham com um papa próprio

 

Como em 2005, quando Ratzinger foi eleito, os conservadores argentinos voltam a sonhar em ter um homem seu no Vaticano: o cardeal Jorge Bergoglio. Mas o papel desempenhado pela Igreja argentina e pelo cardeal na ditadura militar (1976-1983) torna quase impossível a escolha de um personagem com semelhante currículo.

Oscar Guisoni

Buenos Aires – “Quando João Paulo II morreu todos nos iludimos com a possibilidade de que nosso cardeal Bergoglio assumisse como papa. Mas não aconteceu. Oxalá desta vez ocorra”, exclama sem ruborizar uma conhecida jornalista local em uma das tantas transmissões improvisadas da televisão argentina surpreendida, como o resto do mundo, com a renúncia de Bento XVI. “Deus não o permita”, responde o colunista Fernando D’Addario, no Página/12.

Como ocorreu em 2005, quando foi eleito o Papa Joseph Ratzinger, os conservadores e ultramontanos argentinos voltam a se iludir com a possibilidade de colocar seu homem no Vaticano: o cardeal Jorge Bergoglio. Mas o papel desempenhado pela Igreja argentina e pelo citado cardeal em particular durante a última ditadura militar (1976-1983) torna quase impossível que o Vaticano opte por habilitar com a “fumaça branca” um personagem com semelhante currículo.

Salvo que “assim como nos anos 80 escolheram Karol Wojtyla para canalizar religiosamente a luta do povo polonês (isto é, a do mundo ocidental e cristão) contra o totalitarismo soviético”, sustenta D’Addario com acidez, “agora escolham um papa argentino para salvar-nos do populismo gay e favorável ao aborto que se expande como uma peste por estes pampas”.

A polêmica, que em apenas algumas horas voltou a impregnar grande parte da imprensa argentina, trouxe à tona de novo a triste memória do papel desempenhado pela Igreja local durante a última ditadura militar e suas implicações no presente.

Assim, enquanto o setor mais conservador e católico da classe média local volta a sonhar em ter seu próprio Papa, os organismos de Direitos Humanos e as associações que agrupam os familiares dos 30 mil detidos desaparecidos na última ditadora recordam que a Igreja não só colocou uma venda nos olhos diante da matança organizada pelo Estado, como se fez de distraída inclusive frente o assassinato de seus próprios sacerdotes, comprometidos com a “opção pelos pobres’ e com a Teologia da Libertação que havia iluminado o Concílio Vaticano II.

Uma prova da atualidade da polêmica é a recente decisão judicial do tribunal que julgou na província de La Rioja o assassinato dos padres Carlos de Dios Murias e Gabriel Longueville, ligados ao também assassinado bispo Enrique Angelelli, uma das figuras emblemáticas da “Igreja comprometida” dos anos setenta na Argentina.

Nesta sentença inédita anunciada na semana passada fala-se pela primeira vez da “cumplicidade” da Igreja Católica local com os crimes cometidos pelos militares, ao mesmo tempo em que se assinala a “indiferença” e a “conivência da hierarquia eclesiástica com o aparato repressivo” dirigido contra os sacerdotes terceiro-mundistas.

Chama a atenção, diz ainda a sentença, que “ainda hoje persiste uma atitude resistência por parte de autoridades eclesiásticas e de membros do clero ao esclarecimento dos crimes”.

Como ocorreu em 2005, enquanto por trás dos muros do Vaticano se escolhia o sucessor de João Paulo II, a discussão pública leva os argentinos a olhar para sua própria Igreja no espelho que mais os envergonha: do outro lado da Cordilheira, a Igreja Católica tem outra cara para mostrar, já que sua atitude frente à ditadura de Augusto Pinochet foi exatamente a oposta à adotada pela hierarquia argentina.

A polêmica transcende rapidamente o âmbito religioso e se instala no cenário político cada vez mais radicalizado, que encontra os partidários da política de Direitos Humanos promovida pelo governo kirchnerista no caminho oposto ao dos conservadores que desejam encerrar os julgamentos contra os responsáveis pelos crimes contra a humanidade executados pela ditadura antes que os processos comecem a bater às portas dos cúmplices civis do regime, o que já começou a acontecer.

Enquanto isso, o candidato em questão, o atual arcebispo de Buenos Aires, Jorge Bergoglio, sonha em alcançar um papado impossível. Nascido em 1936 e presidente da Conferência Episcopal durante dois períodos (cargo que abandonou recentemente por doenças da idade), é difícil que o Vaticano se arrisque a colocar no trono de Pedro um homem citado em vários processos judiciais por sua cumplicidade com a ditadura e que conseguiu evitar seu próprio julgamento por contra de influências e argúcias de advogados.

Nada disso impede, porém, os ultramontanos argentinos de sonhar com a possibilidade de ter um Papa em Roma que os ajude a acabar de uma vez por todas com um governo que consideram o pior inimigo da Igreja Católica desde que o presidente Juan Domingo Perón enfrentou-se de forma virulenta (incluindo a queima de algumas igrejas) com a hierarquia católica no final de seu governo em 1955.

Tradução: Katarina Peixoto

da Carta Maior.

PS do Viomundo: Um papa com dupla tarefa: frear os evangélicos e a esquerda na América Latina.

MUDEM – uma homenagem as mulheres no seu dia – do jornalista gustavo henrique vidal / curitiba.pr

MUDEM

As postagens de hoje estão cada vez mais variadas: as divertidas, as machistas e as do respeito.

Mas continua sendo o dia da veneração.
Hoje os homens reconhecem a importância delas.
Mas só hoje, salvo às exceções.

Todos são carinhosos, amáveis, que chegam a enojar.
Lotam os motéis de reservas e esgotam os estoques das floriculturas e docerias.

E tudo acaba em sexo.
Sem respeito.
Voltando às origens da servidão feminina.

Esquecem-se da luta diária delas.
Até elas esquecem.
Comemoram um dia originado do fogo, fogo que queimou centenas de mulheres dentro de uma fábrica.
Ah! Mas isso não importa.
O Dia Interacional da Mulher virou um negócio.

Não para mim.
Eu não esqueço.
Do enfrentamento e solidão.
Da aversão e raiva.
Sentimento comum nelas, devido à convivência diária com os “doadores da costela”, que transformam esse mundão, cada vez mais insensível.

Se eu sou sensível?

Eu sou.
Sensível às lutas, às suas dores.
Sou sensível, apenas.

Raros são os homens que enxergam o coração de uma mulher.
Não sou um deles.
Mas admiro-os sem conhecer.

Um coração que sangra sem cor.
Suportando a barbárie sem pulsação.
Que silencia.

Nós, homens, não sabemos a metade do que se passa no coração delas.
E não queremos saber.
É do homem a razão.
O coração é da mulher.
E muitas vezes a razão também é.

Mas é preciso se importar.
Defender.
E lutar, muito.

Anita, Olga e Rosa e tantas outras estão aí.
Indicando o caminho.
Lutaram com homens, independentes.
E não ‘como’ homens, como bradam velhas vozes roucas distorcidas.

O que me vem à cabeça neste dia?
Demonstrar o mesmo respeito de todos os dias.
Que pouco existe em muitos.
Pouco que já agrada a muitas.
Mas poucas ainda querem mais.

Amem as mulheres.
Todos os dias.
Eu amo.
Todas.
Pelo fato de serem, simplesmente, mulheres.

 

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ELE, o autor:

OS CHICANOS – por manoel de andrade / curitiba.pr

               “Manoel de Andrade, poeta e escritor brasileiro, escreveu esta reportagem para PURO CHILE, depois de haver conhecido, de primeira mão, a realidade dos chicanos, um exemplo do destino  que poderia esperar as nações latino-americanas se os Estados Unidos pudessem submetê-las  ao seu total arbítrio. De Andrade visitou o sul norte-americano, especialmente convidado por organizações chicanas, e sua reportagem deve constituir um dos primeiros testemunhos sobre a verdadeira situação de oito milhões de mexicanos e filhos de mexicanos que vivem no grande império do dólar. PURO CHILE publicou esta reportagem em duas partes. Esta é a primeira delas.

          Desterrados por mais de um século em sua própria terra e espalhados pelo centro e sudoeste dos Estados Unidos, oito milhões de pessoas de língua hispânica  vivem atualmente segregadas social, econômica e politicamente, em toda uma imensa e fértil região de cinquenta milhões de hectares, usurpados através de uma guerra de conquista e agressão contra a nação mexicana.

          Sua história passada é a história de sua própria tragédia. A perda do seu território; dos direitos mais elementares do ser humano; o aniquilamento sistemático  de sua cultura ancestral; a proibição de falar a própria língua e mais o sangue de milhares e milhares de caídos, foi a herança que o tempo preservou para deixar na memória de todo um povo as cicatrizes de 125 anos de genocídio.

          Sua história recente é a história de uma consigna acariciada  de geração em geração. Escreve-se com  o conteúdo de muitas palavras: greve, marchas, prisões, mártires.  Escreve-se com poemas, contos, teatro, panfletos políticos, revistas e quase uma centena de jornais. Escreve-se com o renascimento de sua cultura, com as raízes de sua raça, e,  sobretudo, com a consciência de luta de um povo explorado de uma maneira cruel e desumana. Seu grito se soma ao clamor incontido de todos “os condenados da terra”. É um grito de combate e de libertação; contudo é também um grito em busca de solidariedade, lançado desesperadamente por milhões de homens e mulheres oprimidos, discriminados, massacrados no seio mesmo da nação mais poderosa e agressiva do mundo.

          Neste artigo se conta a história do segredo mais bem guardado dos Estados Unidos: Os Chicanos.

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A guerra

          A guerra que o México declarou aos EE..UU. em 1846, teve como principal motivo a anexação norte-americana do grande território do Texas, na época parte da nação mexicana. O México perdeu a guerra, o território do Texas e teve que suportar as duras imposições do vencedor, pelas quais a metade do seu território  —  equivalente a uma extenção superior aos territórios da Bolívia e Chile juntos  —  foi arrebatada pelos ianques e passou a ser parte dos Estados Unidos da América.

A invasão norte-americana ao território mexicano chegou até a cidade do México. Alguns livros sobre o assunto relembram essa época de terror e crueldade. Os soldados ianques infundiram verdadeiro pânico às povoação da capital, assassinando, roubando, e violando mães e filhas frente aos homens da família amarrados ou sujeitados por outros soldados. Dizem os cronistas e historiadores que tal foi a barbárie de seus visinhos do norte, que 250 soldados norte-americanos, decepcionados, se uniram ao exército mexicano. Posteriormente, a refinada brutalidade com que foram executados, em um bairro metropolitano, 80 desses desertores, tem sido recordado há longo tempo pelos mexicanos como uma prova a mais da crueldade ianque.

O tratado Guadalupe-Hidalgo

          Terminada a guerra se assinou, em 2 de fevereiro de 1848, o Tratado Guadalupe-Hidalgo, pelo qual os EE.UU. se apropriaram das províncias mexicanas do Texas, Novo México, Califórnia, Colorado e, posteriormente, do Arizona, vendida em 1853 ao governo norte-americano, quando ainda governava o México o ditador Santa Anna, o qual embolsou uma parte do pagamento. Segundo as condições do Tratado, todos os cidadãos que residiam dentro dos territórios perdidos se convertiam en cidadãos dos Estados Unidos se não abandonassem a região ao cabo de um ano de sua assinatura. Somente alguns milhares de mexicanos abandonaram suas terras para marchar ao sul. A maioria da população, por negligência, pela impossibilidade de fazer a viagem, ou para não perder o único que tinham, sua terra, se converteram, automaticamente, em cidadãos norte-americanos. Por outro lado, a bilateralidade do Tratado estipulava a garantia da propriedade e os direitos políticos dos mexicanos que viviam na região incorporada, além da preservação de sua língua, religião e cultura. Obviamente que nenhuma dessas normas foram respeitadas pelos norte-americanos que, pelo contrário, passaram a tratar os mexicanos com desprezo e até com repugnância.

A época da violência

          Desde 1848, os mexicanos que viviam em sua antiga pátria começaram a ter constantes desentendimentos com os norte-americanos que ali chegavam para viver. No Texas este fenômeno foi sempre mais agudo que nos demais estados. Em fins do século dezenove o Texas se tornou famoso como uma região de bandoleiros e até os “rangers” titubeavam antes de entrar nessa terra de ninguém. Os ódios estavam tão exarcebados que por parte dos mexicanos matar um gringo era um ato de orgulho e, por parte dos texanos, matar um mexicano não era crime.

De 1908 a 1925 toda a fronteira do Rio Bravo estava convulsionada em vista da Revolução Mexicana. Este foi um período de matanças recíprocas e calcula-se  que o número de norte-americanos e mexicanos mortos tenha chegado a cinco mil. Além disso, durante a Primeira Guerra Mundial, houve uma verdadeira caça aos mexicamos por suspeitar-se que estavam conluiados com os alemães. Foi por esses anos que uma força militar norte-americana, a expedição Pershing, entrou no território do México para perseguir mexicanos. Em vista desse fato, em 9 de março de 1916, Pancho Villa invadiu com suas tropas o Estado de Novo México atacando a cidade de Columbus. Esse incidente piorou a situação dos mexicanos que viviam além da fronteira. A matança assumiu proporções nunca antes igualadas. O então Presidente do México, Venustiano Carranza, acusou formalmente o assassinato frio de 114 mexicanos em território norte-americano. Na Califórnia e no Texas, os linchamentos e assassinatos de mexicanos eram quase diários.  O jornal “New York Times”, com todo o peso de sua importância sobre a opinião pública norte-americana chegou a expressar, no editorial de 18 de novembro de 1922, que “a matança de mexicanos  sem provocação é tão comum, que passa quase inadvertida”. Por sua parte, na cidade do México, o editorial de “El Heraldo”, de 15 de maio de 1922, comentava que “É sumamente indignante que enquanto em nosso país os cidadãos norte-americanos gozam de amplas garantias e quando algo lhes acontece se resolve através dos consulados dos Estados Unidos, nesse país, ao contrário, os mexicanos seguem sendo assassinados sem que as autoridades norte-americanas façam o menor esforço para castigar os culpados.”

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Essa foi, talvez, a época mais difícil para os mexicanos que viviam no outro lado. O Tratado Guadalupe-Hidalgo, que lhes havia assegurado direitos iguais aos dos cidadãos norte-americanos, foi, na verdade, sua sentença de morte física, jurídica, econômica e cultural. Os grandes fazendeiros texanos expulsaram quase toda a população nativa de suas próprias propriedades agrícolas, sob a proibição, com ameaça de morte, de voltar às vizinhaças de suas antigas fazendas. Os mexicanos, abandonados a sua própria sorte, haviam perdido tudo: o solo que pisavam não era mais sua pátria mexicana; haviam perdido a terra herdada de seus antepassados; depois de algumas gerações foram se esquecendo de sua língua e de sua cultura. Com a sua nacionalidade perdida, sem nenhum governo a quem recorrer, os mexicanos dispersados e perseguidos por todo o sudoeste, somente encontraram asilo no orgulho e na dignidade de sua raça.

Em todas as épocas, depois da queda do Império Romano, não se conhece, na história de um povo, um genocídio espiritual tão grande.

Os imigrantes

          Em princípios do século XX a povoação mexicana nos Estados Unidos estava mais ou menos aculturada, porém de 1900 a 1930 mais de um milhão de mexicanos cruzaram as fronteiras do Rio Grande e encontraram trabalho no sudoeste do país, nas grandes plantações norte-americanas de algodão, beterraba e aipo, ou como trabalhadores ferroviários.

Essa imigração massiva de mexicanos veio renovar o velho conflito de culturas. Os novos imigrantes, ao dar-se conta de que estavam sendo estratificados e segregados em relação aos trabalhadores ianques, tentaram rebelar-se. Contudo, essa rebelião ao cabo de 20 anos estava totalmente reprimida. Os mexicanos foram culturalmente derrotados pela segunda vez dentro dos Estados Unidos.

O surgimento da luta sindical

          Apesar de tudo, a rebelião dos trabalhadores mexicanos encontrou sua expressão através da militância sindical. Efetivamente foram os imigrantes os pioneiros da organização sindical no sudoeste dos EE.UU. O primeiro sindicato de trabalhadores mexicanos nesse país foi fundado no sul da Califórnia em 1927, com a formação da Confederação das Uniões Operárias Mexicanas, integrada por 3.000 camponeses organizados em vinte locais de região.

A primeira greve levada a cabo pela União, em 1928, no Vale Imperial, na Califórnia, foi rompida por prisões em massa e deportações. Em 1930, uma greve de 5.000 trabalhadores mexicanos foi novamente esmagada na mesma região. Em 1933, 7.000  camponeses fizeram uma greve no Condado de Los Angeles. Este movimento despertou a atenção e a preocupação dos plantadores e das autoridades sobre a crescente rebeldia dos mexicanos. Neste mesmo ano, outra greve de trabalhadores agrícolas, na Califórnia, protestava “pela discriminação racial, habitações miseráveis e salário baixo”. Em 1936, no sul da California, para romper uma greve de 2.000 trabalhadores mexicanos, a polícia teve que mobilizar cerca de1.500 homens armados. A repressão foi a mais sangrenta até então. Houve vários grevistas mortos e centenas de presos e feridos. Dessa época em diante a história dos trabalhadores mexicanos nos Estados Unidos foi uma sequência  de greves reprimidas com a maior violência. Mas não somente na Califórnia. A repressão foi sofrida pelos mineiros de carvão no Novo México, pelos mineiros de cobre do Arizona e pelos trabalhadores petroleiros do Texas, onde a Companhia tinha duas tarifas de pagamento para o mesmo trabalho: uma tarifa “blanca” para os trabalhadores norte-americanos, e outra “no blanca”, para negros e mexicanos. A diferença era 10 centavos de dólar por hora.

A discriminação racial

          A história do racismo nos Estados Unidos, não está somente relacionada com os 23 milhões de negros, com o milhão e meio de portorriquenhos e outras minorias como os chineses e filipinos.

Os mexicanos, a segunda minoria do país, têm sido sistematicamente discriminados e segregados. No entanto, sempre foi nos Estados de Texas e California  — onde se concentra, proporcionalmente, a maioria da população de origem mexicana — que este fenômeno  tem assumido as dimensões mais insólitas.

Muitos casos famosos, ocorridos principalmente em Los Angeles, mas que não caberia relatar nos limites dessa síntese, ilustrariam a tragédia cotidiana e a humilhação pública da gente mexicana, por um lado e, por outro, o desprezo e o cinismo das autoridades norte-americanas. Na década de 40, en Los Angeles, os mexicanos, além da discriminação, eram perseguidos por bandos ianquis, condenados à prisão por crimes não cometidos, massacrados nas ruas e assassinados friamente ante o olhar impassível de cidadãos norte-americanos.

À parte da violência física, a violência moral era absoluta. Por todos os lugares havia letreiros proibindo a entrada de mexicanos em determinados lugares públicos. Em certas piscinas públicas lia-se: “Quintas-feiras reservado para negros e mexicanos”. Determinados teatros da cidade não permitiam a entrada aos mexicanos ou lhes reservavam sessões especiais. Alguns restaurantes negavam-se, terminantemente, a servi-los e o declaravam com avisos públicos desse tipo: “Proibida a entrada de negros e mexicanos”. Nos cárceres do Texas havia letreiros em que se especificavam dias de visitas especiais “para negros e mexicanos”. Neste mesmo estado havia igrejas católicas que exibiam em seus letreiros: “Não se admite mexicanos”. Em outras igrejas  lia-se: “Para negros e mexicanos”, e em outras estavam pendurados letreiros com a frase: “Igrejas brancas”. Havia no Texas um restaurante com o seguinte letreiro: “Proibida a entrada de negros, mexicanos e cães”. Em muitos cemitérios se negava o direito ao sepultamento. Em outros os cadáveres eram enterrados numa região separada, suficientemente distanciada da terra destinada aos brancos. Nos banheiros de muitos tribunais de “justiça” lia-se na porta: “Para brancos. Proíbe-se a entrada de mexicanos”.

          Proibições desse tipo eram tanto para os mexicanos de nascimento como para os já nascidos nos Estados Unidos.

A discriminação também se fazia nas escolas primárias e secundárias, entre crianças negras e mexicanas. As crianças mexicanas que não sabiam falar bem o inglês, apanhavam, eram colocadas nos últimos lugares ou em salas de aula para retardados mentais.

Seria cansativo relatar todos estes aspectos  da segregação e da discriminação das pessoas morenas no sudoeste dos Estados Unidos. De qualquer forma essa era a situação dos habitantes de origem mexicana nesse país quando, há sete anos atrás, começaram a organizar-se em torno de um movimento social e político.”

Os primeiros passos de oito milhões de excluídos

                   “Publicamos a segunda e última parte da reportagem que o poeta e escritor brasileiro, Manoel de Andrade, escreveu sobre os chicanos. Seu informe, cheio de dados contundentes, de revelações incríveis, foi elaborado especialmente com base na mais feroz exploração do homem pelo homem, que fica  — uma vez mais  — a descoberto. As fotografias que publicamos (de um patetismo estremecedor) foram extraídas da revista “La Raza”, que expressa as aspirações de todos os chicanos.”

          Entre os acontecimentos mais importantes que marcam o início do Movimento Chicano nos Estados Unidos, destacam-se a Greve da Uva, na Califórnia; a Marcha de Delano a Sacramento; A Retirada de Albuquerque; a Greve do Texas e a luta sem trégua de Reyes Tijerina, no Novo México.

A Greve da Uva teve início em 8 de setembro de 1965, em Delano, Califórnia. Esta famosa greve está sendo levada ao cinema, durou oito meses e foi dirigida por César Chávez, atualmente o líder mais importante do Movimento Chicano. Seu êxito se deveu à forma como César Chávez a converteu numa “greve de família”, ou seja, fundamentando a estrutura da união e solidariedade dos grevistas, na sólida estrutura familiar mexicana. A greve logo se tornou em notícia nacional e se difundiu rapidamente por todo o país, obtendo o apoio de muitas organizações civis e eclesiásticas.

O ponto posteriormente culminante da greve foi a Marcha de Delano à Sacramento, capital do Estado da Califórnia. A história quase heroica da Greve e da Marcha, assinalam os primeiros passos de uma minoria de oito milhões de pessoas em busca de um caminho para dar causa ao seu anelo secular de justiça econômica, política, social e cultural, numa luta que, em sua primeira etapa, começou por reivindicar  igualdade de oportunidades e de direitos. Contudo, o valor eminentemente histórico da Greve da Uva e da Marcha a Sacramento, foi haver dado a primeira vitória aos trabalhadores agrícolas mexicanos nos Estados Unidos. Em si mesmo a peregrinação de Delano a Sacramento foi um feito carregado de significação porque era também a primeira vez que o povo de origem mexicana se unia e se solidarizava em torno de um problema comum. Simbolicamente a marcha dos agricultores era também a marcha de um povo que, embora durante 117 anos tivesse sido sacrificado ao longo do vale californiano, marchava agora vitorioso junto com os trabalhadores de sua raça.

Quase ao mesmo tempo em que os trabalhadores da uva na Califórnia marchavam até Sacramento, em Albuquerque, no Estado do Novo México, no dia 28 de março de 1966, sessenta membros da delegação chicana que participavam das audiências públicas da Comissão de Oportunidade de Igualdade e Direitos, retirou-se inteira do recinto da audiência, em sinal de protesto pela falta de atenção e a condescendência com que a estavam levando a cabo. Essa retirada assumiu uma grande importância moral aos olhos das novas gerações de jovens e de alguns líderes que começavam a surgir. A Retirada de Albuquerque teve amplas repercussões nas inúmeras comunidades de língua hispânica do sudoeste. Tal como a Greve de Delano, foi um sinal de que os chicanos já não estavam dispostos a sofrer pacificamente todo tipo de humilhação.

Estes três acontecimentos já haviam inicialmente acendido o espírito de luta e de solidariedade dos chicanos, quando, em 5 de junho de 1967, os camponeses mexicanos do Texas, sob a orientação de Eugene Nelson, convocaram uma greve que também culminou com uma longa marcha desde o Vale do Rio Grande até a capital do Estado. Conta-se que em 4 de setembro do ano seguinte, quando os quarenta cansados componeses, que haviam resistido por três meses a uma peregrinação de 800 quilômetros, entraram na cidade de Austin, foram recebidos com o entusiamo de 8.000 partidários da mesma luta. Conta-se ainda que, além disso, a marcha despertou a solidariedade de todos os habitantes mexicanos do Texas, estimada em quase dois milhões de pessoas.

É muito longa a história das lutas quase heroicas dos trabalhadores mexicanos nos últimos trinta anos nos Estados Unidos. Contudo, nenhum acontecimento qualifica com mais exatidão o surgimento de uma consciência de dignidade e orgulho de um povo e sua determinação de pôr um basta à opressão, como o levantamento dos habitantes do Norte do Novo México sob a direção de Reyes López Tijerina, organizador da Aliança Federal de Mercedes. Sua luta para recuperar as terras usurpadas aos mexicanos começou  já em 1957 e tem sido, em princípio, baseada na legalidade. Apesar disso, por conta das brutais repressões a que foi submetida sua gente, bem como pelas perseguições pessoais que sofreu, obrigaram-no a recorrer à violência para defender os direitos e a honra dos mexicanos. Esteve várias vezes na prisão e atualmente cumpre uma nova sentença.

O Movimento Chicano na atualidade

          Até aqui, fez-se uma tentativa de sintetizar os fatos mais significativos da história dos norte-americanos de origem mexicana, desde a guerra até os últimos anos. Para a elaboração desse trabalho foram utilizados alguns livros e uns quantos documentos.

Contudo, quisera dar uma imagem mais viva e, se possível, analítica do Movimento Chicano. Levado pela curiosidade em conhecer os alcances desse Movimento, estive na Califórnia durantes os meses de abril e maio do ano passado e o que reportarei a seguir baseia-se em contatos que tive com estudantes e dirigentes chicanos, em acontecimentos que me foram relatados e em alguns documentos que me foram facilitados.

 A morte de Rubén Salazar

          De cada 100 habitantes dos EE.UU. 4 são chicanos, e de cada 100 soldados norte-americanos que caem no Vietnã, 20 são de origem mexicana.

A desproporção de chicanos sacrificados na Indochina foi um dos principais motivos que, na manhã de 29 de agosto de 1970, levou às ruas do leste de Los Angeles cerca de 30.000 chicanos que, além disso, protestavam contra um sistema educativo em que 50%  de chicanos se veem obrigados a abandonar seus estudos; pelos baixos salários pagos à gente de origem mexicana; pela falta de oportunidade e a discriminação do trabalho; por falta de representação política; pela violência policial, etc.

A marcha  —  como quase todas as manifestações políticas, culturais e sociais dos chicanos  —  começou em um ambiente de alegria e festa. Os casais levavam consigo os seus filhos. Havia grupos procedentes de Arizona, Novo México, Texas,  Illinois, Utah, de todo o Estado da California desde Sacramento até San Diego, e porto-riquenhos da costa leste.

Quando a imensa multidão chegou ao Parque da Laguna, iniciou-se o programa organizado pelo Comitê de Chicano Moratorium. Cantaram-se canções mexicanas e chicanas e, em seguida, discursariam alguns líderes como César Chávez, Corky González e Rosalio Muñoz.

De repente viu-se a fumaça das primeiras bombas lacrimogênicas. As mulheres com seus filhos começaram a correr, porém de todas as partes do parque surgiam policiais. Meia hora depois um cinturão policial rodeava o parque. Ninguém podia entrar, nem sair. Angel Gilberto Diaz foi o primeiro chicano metralhado quando, ao tratar de afastar-se daquele inferno axfixiante de fumaça, tentou atravessar a barricada levantada pela polícia para que nenhum carro saísse. Enquanto isso o número de policiais aumentava. No início, grupos organizados de chicanos repeliram com garrafas e paus o ataque policial. No entanto, a resistência tornou-se impossível com a chegada de várias unidades do Departamento de Polícia da Divisão Metropolitana, conhecida por suas táticas de brutalidade e treinadas para dominar as manifestações de massa.

O segundo chicano morto foi Lyn Ward, que expirou num hospital, ferido pela explosão de uma granada de gás. Em face do desespero e da confusão, os pais procuravam os filhos, os filhos gritavam pelos pais, senhoras e meninas vomitavam, rostos banhados de sangue, crianças perdidas correndo histericamente pelas ruas, e, no meio desse caos, os policiais golpeando as pessoas sem distinção de idade e sexo. Alguns tentaram encontrar refúgio nas casas vizinhas ao parque, mas os policiais atiravam as bombas de gás dentro das casas, entravam brutalmente nelas e de arrastro retiravam as pessoas.

Algumas horas depois, quando todos os manifestantes se haviam dispersados, e uma grande quantidade de chicanos havia sido aprisionada, o rádio informou sobre a morte de Rubén Salazar, chefe de informação do Canal 34 de televisão e reporter do jornal “Los Angeles Times”. A morte de Rubén Salazar foi uma das maiores perdas do Movimento Chicano. Através dele  a informação do Movimento chegava ao público sob o ponto de vista chicano. Era o único meio com o qual contavam os chicanos para difundir a mensagem do Movimento para as grandes massas. Salazar já havia tido sérios problemas em vista dos artigos e análises que publicara sobre o Movimento Chicano. Com sua morte o Movimento perdia seu meio de difusão mais importante.

Ao entardecer daquele 29 de agosto, o Parque da Laguna estava estranhamente tranquilo. Um cheiro asfixiante flutuava no ar. Garrafas quebradas, comida derramada, cartazes rasgados, barracas parcialmente destruídas e uma imensa manifestação abortada. Seu saldo: centenas de prisioneiros, muitíssimos feridos, três chicanos mortos e mais de um milhão de dólares em danos a propriedades e comércios de um bairro chicano.

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O Movimento Estudantil Chicano

Quase todas as manifestações de protesto dos chicanos depende fundamentalmente da presença estudantil, e a organização mais importante nesse nível chama-se MECHA – Movimento Estudantil Chicano. Está difundida en todas as universidades do sudoeste onde há estudantes chicanos.

A Universidade é a principal trincheira da juventude chicana, e o chicano é sobretudo um jovem. Mas sua luta estudantil é relativamente recente. Cinco anos atrás o número de chicanos matriculados nas universidades da Califórnia era insignificante. Em 1967, dos 25.000 estudantes da Universidade de Berkeley, somente 78 eram chicanos. Nesse mesmo ano, na Universidade da California de Los Angeles, dos 26.000 alunos matriculados, apenas 70 eram de origem mexicana. O último dado é ainda mais significativo, se considerar  que em Los Angeles há mais de um milhão de chicanos residentes.

No entanto, os poucos chicanos que há cinco anos entraram na universidade, começaram uma campanha a fim de criar condições econômicas e psicológicas para facilitar o ingresso de sua gente na universidade. A campanha se fortaleceu com o nascimento do MECHA, em cujas vitórias está a criação, em cada grande universidade do sudoeste, de um Departamento de Estudos Chicanos que conta com subvenção oficial e tem propiciado uma grande quantidade de bolsas de estudos a estudantes de origem mexicana que viviam no campo. Geralmente cada um desses departamentos publica um semanário sobre as atividades locais e generalidades do movimento. Há duas reuniões semanais do MECHA e, além disso, os estudantes, professores e dirigentes chicanos realizam constantemente encontros estaduais e regionais para tratar dos aspectos mais variados com que se organiza o movimento.

À parte do ativismo estudantil, existem outros grupos semiorganizados. Alguns com caráter eminentemente intelectual, como o “Plan Espiritual del Aztlán”, criado em 1969 na Primeira Conferência Nacional de Juventude Chicana, em Denver, Colorado. O Plano mostra o chicano como descendente de uma raça e de uma cultura superior, os antigos mexicanos. Expressa-se com o amor a sua terra perdida. O Aztlán era o nome que os aztecas davam a toda região californiana. O Plano se propõe devolver aos chicanos seu antigo sentido de comunidade, sua língua, sua música, sua arte, etc. Está caracterizado por um radical nacionalismo cultural e, entre outras coisas, propõe a reconquista do território perdido.

Há muitas outras organizações chicanas, tais como: MAPA, MAYO, LA RAZA UNIDA, CRUZADA DE JUSTIÇA, BOINAS CAFÉS, etc. Os Boinas Cafés defendem a luta armada; no entanto, pelo que pude observar, seus militantes carecem de preparação política.

A literatura Chicana

          Dentro da atividade cultural, destaca-se sobretudo o teatro. Tive a oportunidade de assistir ao Segundo Festival de Teatro Chicano, realizado em abril do ano passado em Santa Cruz, Califórnia. Entre os grupos presentes contava-se o Teatro Mestiço, de San Diego; o Teatro do Piolho do Estado de Washington; o grupo de teatro de Santa Bárbara; o grupo de San Francisco; o teatro camponês de San Juan e o teatro camponês de Fresno, dirigido por Luis Valdés, o mais destacado autor e diretor de teatro chicano.

Quase todas as obras teatrais chicanas refletem o problema da discriminação e da segregação racial e o conflito brutal entre as duas culturas: uma esmagadora e outra que apenas sobrevive. As obras de Luis Valdés são, em sua maioría, curtas, cômicas e picantes. Nelas, por um lado, se ridiculariza o norte-americano (el gabacho) e os chicanos ianquizados, e, por outro lado, procura despertar a solidariedade com a causa, o espírito de luta e a união de todos os chicanos.

Em geral, a literatura chicana é ainda muito pequena e lhe falta força como fenômeno cultural. A maioría dos seus escritores escrevem mesclando o inglês com termos e frases em espanhol. Quase se pode dizer que os chicanos têm um idioma próprio.

Entre os poetas destacam-se Alurista, José Montoya, Corky González e outros. Corky González, presidente da Cruzada de Justiça, em Denver, além de poeta e cineasta, é um dos líderes mais brilhantes do Movimento Chicano. É o autor de um longo poema chamado “Yo soy Joaquin”, muito conhecido entre os chicanos.  O poema conta as glórias do povo asteca e mexicano, a perda do território e a tragédia dos chicanos nos Estados Unidos. Joaquin é um homem que perdeu sua terra, agonizou com sua cultura pisoteada e se viu envolvido por uma sociedade estranha; desprezado por ela, explorado por ela, vivendo uma vida absurda e inumana, em um mundo de gentes absurdas e inumanas:

“Yo soy Joaquín,
perdido en un mundo de confusión,
enganchado en el remolino de una
sociedad gringa,
confundido por las reglas,
despreciado por las actitudes,
sofocado por manipulaciones,
y destrozado por la sociedad moderna.

(…)Aqui estoy

ante la corte de la justicia.

Culpable

por toda la gloria de mi Raza

a ser sentenciado a la desesperanza.

(…)Yo soy Joaquín.

Las desigualdades son grandes

pero mi espírito es firme.

Mi fe impenetrable.

Mi sangre pura.

Soy príncipe Azteca y Cristo Cristiano.

YO PERDURARÉ

YO PERDURARÉ.”[1]

O Bardo - Chicanos - IMG_4420


[1] Quando, no início de abril de 1971, estive no Segundo Festival de Teatro Chicano de Santa Cruz, na Califórnia, uma jovem atriz, integrante do Teatro Campesino de Fresno, me deu um livreto com o título  Y soy Joaquin. Eu ainda não conhecia o extenso poema de Corky González e depois de sua leitura perguntei a ela o porquê do nome Joaquin, que era muito comum em Portugal e no Brasil, mas não nos países de língua hispânica. Ela me comentou que se dizia que era uma referência a Joaquin Murrieta, uma figura lendária da Califórnia, que segundo uns era mexicano e segundo outros era chileno. Disse-me que sobre ele se contava muitas histórias durante a corrida do ouro, na Califórnia. Que ele era uma espécie de  herói popular, um Robin Hood, um bandido e patriota que lutou contra a exploração do trabalho nas minas pelos norte-americanos.  Que ele, por ser latino, foi vítima do racismo e da discrimiação por que estavam passando os chicanos e que por isso era um símbolo da luta e resistência contra os ianques.

Na verdade, as façanhas de Joaquin Murrieta deram motivo para muitos poemas e  corridos mexicanos, livros, filmes e até uma peça de teatro da autoria de Pablo Neruda chamada Fulgor y muerte de Joaquín Murieta, publicada em 1967.

NOTA:

Este texto foi escrito e teve sua publicação no Chile em 1972

O Rio de Janeiro de antes do choro e do samba – por claudio caldas / ilha de santa catarina

Fiquei pensando aqui com os meus botões, meu caro leitor, se é possível imaginar uma cidade como o Rio, nos tempos em que nem samba e nem chorinho ainda existiam…pesquisando aqui e acolá, cheguei a um quadro interessante, mas que confesso, não é tão fácil de “sentir” depois de tantos anos….os textos sobre Chiquinha Gonzaga e Joaquim Calado, nos ajudam um pouco.
Vamos nos situar no tempo e no espaço. O período a que me refiro é mais ou menos o compreendido entre o final da Guerra do Paraguai e a Proclamação da República, algo entre 1870 e 1889. Nos livros de história ficamos sabendo que os gastos com a Guerra do Paraguai tinham aumentado, de forma considerável, a nossa dívida externa. As fazendas de café do Estado do Rio de Janeiro e de São Paulo, responsáveis pela maior exportação brasileira, agora sofriam com a queda vertiginosa dos preços do grão no mercado internacional.
O Rio de 1885, segundo Marc Ferrez
O Rio tinha , em 1872, segundo o primeiro senso realizado no Brasil, uma população de 274.972 pessoas. Era o Brasil Imperial ainda e em plena utilização do trabalho escravo, especialmente nestas regiões produtoras de café. Um época de muita efervescência política na cidade e de discussões de questões que culminaram com a Abolição da Escravatura e a Proclamação da República, fatores geradores de movimentos migratórios para o Rio de Janeiro, que, já em 1890, na aferição do segundo senso, contou 522.651 habitantes.
Era o tempo da criação dos grêmios políticos e literários, das associações recreativas que intensificaram a vida urbana. O carioca passa a ter hábitos mais sociais e logo são abertas várias confeitarias, propiciando que instrumentistas realizassem apresentações e saraus aqui e ali, para mostrar suas polcas. Creio que estas condições fizeram com que a organização do tipo patriarcal, familiar, fosse substituída pelas sociedades civis, não ligadas ao governo, que promoviam encontros, discussões, audições de piano e a apresentação de peças teatrais.
É neste ambiente que surge uma mulher que não reconhecia limites de participação e que queria mostrar seu trabalho, suas criações musicais. Chiquinha Gonzaga que já havia passado por dificuldades por conta de seu temperamento, separada inclusive dos filhos, frequenta confeitarias e lança em 1877 a sua polca “Atraente”, com um sucesso que obteve 15 edições de sua partitura.
O Rio passa a ter vida noturna e surge a figura do seresteiro, primeiro isoladamente, com seu violão a apresentar modinhas. As confeitarias multiplicam-se, agora até com a presença de senhoras, que sentam-se às mesas e pedem seus sorvetes, doces e pastéis, licores e cervejas. Os artistas passam a marcar ponto na Confeitaria Castellões, na Rua do Ouvidor. Carlos Gomes, quando ia ao Rio, por lá passava para encontrar o pessoal do Teatro e da Música. São também deste tempo a Confeitaria Paschoal, na Rua do Ouvidor, nr. 128, muito frequentada pelo abolicionista José do Patrocínio e a Colombo, que ainda hoje tem grande simpatia do carioca.

Os café-cantantes também foram instalados neste início de boêmia carioca e neles rolavam apresentações de cançonetas maliciosas de duplo sentido. O bonde surgia pra facilitar a movimentação deste  novo público e a Rua do Ouvidor era o “must”, o “point” da cidade.

Rua do Ouvidor 1890
Uma rua estreita e cheia de elegantes lojas, cujos donos eram predominantemente franceses, ditava a moda, costumes e fofocas. O escritor Machado de Assis a descreve em vários de seus contos e romances, dizendo que ela era o paraíso dos boatos. Por isso mesmo, quando cogitaram alargar a rua, ele preocupou-se em frisar que “o boato precisa de aconchego, do ouvido à boca para murmurar depressa e  baixinho…”
Este era o Rio que proporcionou que o choro surgisse e que tivesse um interesse grande do público. O mesmo ambiente que, um pouco mais tarde, foi forjando as condições para o surgimento do samba…mas aí já vale uma outra postagem…
A recomendação pra quem quiser saber mais sobre o tema, vai para “História Social da Música Popular Brasileira”, de José Ramos Tinhorão e “Chiquinha Gonzaga, uma história de vida”, de Edinha Diniz. Boa leitura e até a próxima.

Leonardo Boff: A Igreja age como uma “casta meretriz”

Quem acompanhou o noticiário dos últimos dias acerca dos escândalos dentro do Vaticano, trazidos ao conhecimento pelos jornais italianos “La Repubblica” e o “La Stampa”, referindo um relatório com trezentas páginas, elaborado por três Cardeais provectos sobre o estado da cúria vaticana deve, naturalmente, ter ficado estarrecido. Posso imaginar LEONARDO BOFFnossos irmãos e irmãs piedosos que, fruto de um tipo de catequese exaltatória do Papa como “o doce Cristo na Terra” devam estar sofrendo muito, pois amam o justo, o verdadeiro e o transparente e jamais quereriam ligar sua figura a notórios malfeitos de seus assistentes e cooperadores.

O conteúdo gravíssimo destes relatórios reforçaram, no meu entender, a vontade do Papa de renunciar. Aí se comprovava uma atmosfera de promiscuidade, de luta de poder entre “monsignori”, de uma rede de homossexualismo gay dentro do Vaticano e desvio de dinheiro do Banco do Vaticano. Como se não bastassem os crimes de pedofilia em tantas dioceses que desmoralizaram profundamente a instituição-Igreja.

Quem conhece um pouco a história da Igreja – e nós profissionais da área temos que estudá-la detalhadamente – não se escandaliza. Houve épocas de verdadeiro descalabro do Pontificado com Papas adúlteros, assassinos e vendilhões. A partir do Papa Formoso (891-896) até o Papa Silvestre (999-1003) se instaurou segundo o grande historiador Card. Barônio a “era pornocrática” da alta hierarquia da Igreja. Poucos Papas escapavam de serem depostos ou assassinados. Sergio III (904-911) assassinou seus dois predecessores, o Papa Cristóvão e Leão V.

A grande reviravolta na Igreja como um todo, aconteceu, com consequências para toda a história ulterior, com o Papa Gregório VII em 1077. Para defender seus direitos e a liberdade da instituição-Igreja contra reis e príncipes que a manipulavam, publicou um documento que leva este significativo título “Dictatus Papae” que literalmente traduzido significa “a Ditadura do Papa”. Por este documento, ele assumia todos os poderes, podendo julgar a todos sem ser julgado por ninguém. O grande historiador das idéias eclesiológicas Jean-Yves Congar, dominicano, considera a maior revolução acontecida na Igreja. De uma Igreja-comunidade passou a ser uma instituição-sociedade monárquica e absolutista, organizada de forma piramidal e que vem até os dias atuais.

Efetivamente, o cânon 331 do atual Direito Canônico se liga a esta compreensão, atribuindo ao Papa poderes que, na verdade, não caberiam a nenhum mortal, senão somente a Deus: ”Em virtude de seu ofício, o Papa tem o poder ordinário, supremo, pleno, imediato, universal” e em alguns casos precisos, “infalível”.

Esse eminente teólogo, tomando a minha defesa face ao processo doutrinário movido pelo Card. Joseph Ratzinger em razão do livro “Igreja:carisma e poder” escreveu um artigo no “La Croix” (8/9/1984) sobre o “O carisma do poder central”. Aí escreve: “O carisma do poder central é não ter nenhuma dúvida. Ora, não ter nenhuma dúvida sobre si mesmo é, a um tempo, magnífico e terrível. É magnífico porque o carisma do centro consiste precisamente em permanecer firme quando tudo ao redor vacila. E é terrível porque em Roma estão homens que tem limites, limites em sua inteligência, limites em seu vocabulário, limites em suas referências, limites no seu ângulo de visão”. E eu acrescentaria ainda limites em sua ética e moral.

Sempre se diz que a Igreja é “santa e pecadora” e deve ser “sempre reformada”. Mas não é o que ocorreu durante séculos nem após o explícito desejo do Concílio Vaticano II e do atual Papa Bento XVI. A instituição mais velha do Ocidente incorporou privilégios, hábitos, costumes políticos palacianos e principescos, de resistência e de oposição que praticamente impediu ou distorceu todas as tentativas de reforma.

Só que desta vez se chegou a um ponto de altíssima desmoralização, com práticas até criminosa que não podem mais ser negadas e que demandam mudanças fundamentais no aparelho de governo da Igreja. Caso contrário, este tipo de institucionalidade tristemente envelhecida e crepuscular definhará até entrar em ocaso. Os atuais escândalos sempre houveram na cúria vaticana apenas que não havia um providencial Vatileaks para trazê-los a público e indignar o Papa e a maioria dos cristãos.

Meu sentimento do mundo me diz que estas perversidades no espaço do sagrado e no centro de referência para toda a cristandade – o Papado – (onde deveria primar a virtude e até a santidade) são consequência desta centralização absolutista do poder papal. Ele faz de todos vassalos, submissos e ávidos por estarem fisicamente perto do portador do supremo poder, o Papa. Um poder absoluto, por sua natureza, limita e até nega a liberdade dos outros, favorece a criação de grupos de anti-poder, capelinhas de burocratas do sagrado contra outras, pratica largamente a simonía que é compra e venda de vantagens, promove adulações e destrói os mecanismos da transparência. No fundo, todos desconfiam de todos. E cada qual procura a satisfação pessoal da forma que melhor pode. Por isso, sempre foi problemática a observância do celibato dentro da cúria vaticana, como se está revelando agora com a existência de uma verdadeira rede de prostituição gay.

Enquanto esse poder não se descentralizar e não outorgar mais participação de todos os estratos do povo de Deus, homens e mulheres, na condução dos caminhos da Igreja o tumor causador desta enfermidade perdurará. Diz-se que Bento XVI passará a todos os Cardeais o referido relatório para cada um saber que problemas irá enfrentar caso seja eleito Papa. E a urgência que terá de introduzir radicais transformações. Desde o tempo da Reforma que se ouve o grito: ”reforma na Cabeça e nos membros”. Porque nunca aconteceu, surgiu a Reforma como gesto desesperado dos reformadores de fazerem por própria conta tal empreendimento.

Para ilustração dos cristãos e dos interessados em assuntos eclesiásticos, voltemos à questão dos escândalos. A intenção é desdramatizá-los, permitir que se tenha uma noção menos idealista e, por vezes, idolátrica da hierarquia e da figura do Papa e libertar a liberdade para a qual Cristo nos chamou (Galatas 5,1). Nisso não vai nenhum gosto pelo Negativo nem vontade de acrescentar desmoralização sobre desmoralização. O cristão tem que ser adulto, não pode se deixar infantilizar nem permitir que lhe neguem conhecimentos em teologia e em história para dar-se conta de quão humana e demasiadamente humana pode ser a instituição que nos vem dos Apóstolos.

Há uma longa tradição teológica que se refere à Igreja como casta meretriz, tema abordado detalhadamente por um grande teólogo, amigo do atual Papa, Hans Urs von Balthasar (ver em Sponsa Verbi, Einsiedeln 1971, 203-305). Em várias ocasiões o teólogo J. Ratzinger se reportou a esta denominação.

A Igreja é uma meretriz que toda noite se entrega à prostituição; é casta porque Cristo, cada manhã se compadece dela, a lava e a ama.

O habitus meretrius da instituição, o vício do meretrício, foi duramente criticado pelos Santos Padres da Igreja como Santo Ambrósio, Santo Agostinho, São Jerônimo e outros. São Pedro Damião chega a chamar o referido Gregório VII de “Santo Satanás” (D. Romag, Compêndio da história da Igreja, vol 2, Petrópolis 1950,p.112). Essa denominação dura nos remete àquela de Cristo dirigida a Pedro. Por causa de sua profissão de fé o chama “de pedra”mas por causa de sua pouca fé e de não entender os desígnios de Deus o qualificou de “Satanás”(Evangelho de Mateus 16,23). São Paulo parece um moderno falando quando diz a seus opositores com fúria: “Oxalá sejam castrados todos os que vos perturbam”(Gálatas 5.12).

Há portanto, lugar para a profecia na Igreja e para a denúncias dos malfeitos que podem ocorrer no meio eclesiástico e também no meio dos fiéis.

Vou referir outro exemplo tirado de um santo querido da maioria dos católicos brasileiros, por sua candura e bondade: Santo Antônio de Pádua. Em seus sermões, famosos na época, não se mostra nada doce e gentil. Fez vigorosa crítica aos prelados devassos de seu tempo. Diz ele: “os bispos são cachorros sem nenhuma vergonha, porque sua frente tem cara de meretriz e por isso mesmo não querem criar vergonha”(uso a edição crítica em latim publicada em Lisboa em 2 vol em 1895). Isto foi proferido no sermão do quarto domingo depois de Pentecostes ( p. 278). De outra vez, chama os prelados de “macacos no telhado, presidindo dai o povo de Deus”(op cit p. 348). E continua:” o bispo da Igreja é um escravo que pretende reinar, príncipe iniquo, leão que ruge, urso faminto de rapina que espolia o povo pobre”(p.348). Por fim na festa de São Pedro ergue a voz e denuncia:”Veja que Cristo disse três vezes: apascenta e nenhuma vez tosquia e ordenha… Ai daquele que não apascenta nenhuma vez e tosquia e ordena três ou mais vezes…ele é um dragão ao lado da arca do Senhor que não possui mais que aparência e não a verdade”(vol. 2, 918).

O teólogo Joseph Ratzinger explica o sentido deste tipo de denúncias proféticas:” O sentido da profecia reside, na verdade, menos em algumas predições do que no protesto profético: protesto contra a auto-satisfação das instituições, auto-satisfação que substitui a moral pelo rito e a conversão pelas cerimônias” (Das neue Volk Gottes, Düsseldorf 1969, p. 250, existe tradução português).

Ratzinger critica com ênfase a separação que fizemos com referência à figura de Pedro: antes da Páscoa, o traidor; depois de Pentecostes, o fiel. “Pedro continua vivendo esta tensão do antes e do depois; ele continua sendo as duas coisas: a pedra e o escândalo… Não aconteceu, ao largo de toda a história da Igreja, que o Papa, simultaneamente, foi o sucessor de Pedro, a “pedra” e o “escândalo”(p. 259)?

Aonde queremos chegar com tudo isso? Queremos chegar ao reconhecimento de que a igreja- instituição de papas, bispos e padres, é feita de homens que podem trair, negar e fazer do poder religioso negócio e instrumento de autosatisfação. Tal reconhecimento é terapêutico, pois nos cura de toda uma ideologia idolátrica ao redor da figura do Papa, tido como praticamente infalível. Isso é visível em setores conservadores e fundamentalistas de movimentos católicos leigos e também de grupos de padres. Em alguns vigora uma verdadeira papolatria que Bento XVI procurou sempre evitar.

A crise atual da Igreja provocou a renúncia de um Papa que se deu conta de que não tinha mais o vigor necessário para sanar escândalos de tal gravidade. “Jogou a toalha” com humildade. Que outro mais jovem venha e assuma a tarefa árdua e dura de limpar a corrupção da cúria romana e do universo dos pedófilos, eventualmente puna, deponha e envie alguns mais renitentes para algum convento para fazer penitência e se emendar de vida.

Só quem ama a Igreja pode fazer-lhe as críticas que lhe fizemos, citando textos de autoridade clássicas do passado. Quem deixou de amar a pessoa um dia amada, se torna indiferente à sua vida e destino. Nós nos interessamos à semelhança do amigo e de irmão de tribulação Hans Küng, (foi condenado pela ex-Inquisição) talvez um dos teólogos que mais ama a Igreja e por isso a critica.

Não queremos que cristãos cultivem este sentimento de descaso e de indiferença. Por piores que tenham sido seus erros e equívocos históricos, a instituição-Igreja guarda a memória sagrada de Jesus e a gramática dos evangelhos. Ela prega libertação, sabendo que geralmente são outros que libertam e não ela.

Mesmo assim vale estar dentro dela, como estavam São Francisco, dom Helder Câmara, João XXIII e os notáveis teólogos que ajudaram a fazer o Concílio Vaticano II e que antes haviam sido todos condenados pela ex-Inquisição, como De Lubac, Chenu, Congar, Rahner e outros. Cumpre ajudá-la a sair deste embaraço, alimentando-nos mais do sonho de Jesus de um Reino de justiça, de paz e de reconciliação com Deus e do seguimento de sua causa e destino do que de simples e justificada indignação que pode cair facilmente no farisaísmo e no moralismo.

Mais reflexões desta ordem se encontram no meu Igreja: carisma e poder (Record 2005) especialmente no Apêndice com todas a atas do processo havido no interior da ex-Inquisição em 1984.

Arnaldo Jabor : Um Magnífico Vendilhão – por miguel dias

 
Sim, o cara escreve muito bem, do alto de seu pedestal, sabe escrachar como poucos, ou seja, é expert na arte de ridicularizar a quem lhe convier. Escreveu uma quase pomposa crônica criticando o que redundou na tragédia da Boate Kiss. Pra melhorar sua imagem, fez uns floreios culturais a cerca do que seriam as baladas. O homem tem cultura, reconheço.
Volteou, foi, voltou; como esperto jogador, preparando o blefe escreveu algumas verdades e, no fim, ficou com uma meia acusação aos jovens que rotineiramente frequentam tais ambientes; refiro-me a quando ele pergunta o que leva tais jovens àqueles ambientes. Inteligente e ardilosamente, ele não responde, por exemplo, que a Rede Globo, sua empregadora, é uma das principais responsáveis por tal comportamento. Com sua programação intencionalmente voltada para estupidificar o povo brasileiro, é talvez a maior produtora desse aculturamento musical a que ele se refere.
Após este “fechamento” manhoso, onde leva os trouxas a achar que ele está falando de forma magnífica, aproveita o ápice emocional atingido para, lá de cima de sua tribuna privilegiada – sim, ele tem acesso a toda imprensa, a tal imprensa que acusa nossa presidente de censura e que, no entanto… mas vejamos o que ele aprontou – lá decima de sua excelsa tribuna aproveita que todos já quase o estão aplaudindo seu brilhante discurso e descarrega sua fuzilaria na Presidente Dilma, como se o problema que redundou em tantas mortes fosse coisa desses últimos dez anos. Vá ser hipócrita na PQP!
O aculturamento do brasileiro já vem de décadas, será que nosso magnífico vendilhão não sabe? Sabe e até melhor do que eu, só que não lhe convém admitir, pois é comprometido com essa TV corrupta. Joga uma “tirada” e sai fazendo pose. Acusa a presidente de estar faturando com a tragédia… Ora, quem mais do que a imprensa, da qual este engraçadinho faz parte, está tirando proveito? Só mesmo um tolo não vê: é um prato cheio para estes oportunistas de redação.
Inteligente o cara é, já quanto ao caráter, é lamentável dizer, fede. Fede a jogo sujo, corrupção: não necessariamente corrupção de suborno – esta é apenas a mais conhecida – a corrupção da palavra, o uso pernicioso desta com a finalidade de tentar perpetuar no poder uma elite – esta sim – sabidamente corrupta na acepção mais comum; uma elite que se locupletou com a miséria de milhões de brasileiros, que, agora, estão saindo desse patamar humilhante, e pondo em cheque a estabilidade de um sistema que começa a desmoronar a olhos vistos. Isto assusta os confortavelmente instalados nas tetas da grana pública.
Cristo teria dito “Amai-vos uns aos outros!” Um canalha destes ama alguém? Duvido!
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Os serviços de Marina Silva – por luiz manfredini / curitiba.pr

Nos anos 90, a direita dispunha de um programa para o Brasil: o programa neoliberal. Beneficiária da atmosfera regressiva criada pela queda do Muro de Berlin e dissolução da União Luiz ManfrediniSoviética, no curso de uma ampla crise do socialismo e de um notável avanço do capital, ela sensibilizou o eleitorado brasileiro com suas propostas aparentemente inovadoras de privatizações, Estado mínimo e outros quejandos.

E indicou para representá-la um egresso da esquerda, o então senador Fernando Henrique Cardoso, que cumpriu dois mandatos presidenciais. Digamos assim: a direita estava com tudo.

Mas o modelo neoliberal sofreu reveses decisivos no Brasil e no mundo. A partir de 2003 o Governo Lula inaugurou um novo modelo que, a despeito de equívocos e limitações, confrontou-se com o receituário neoliberal, vitaminou o crescimento econômico com justiça social e soberania nacional e, assim, ganhou a alma da maioria dos brasileiros. A Presidente Dilma se elegeu no bojo desse movimento para a esquerda. E a direita ficou sem programa e, portanto, órfã de propostas para o Brasil. Nos últimos anos, amparada em seu vasto poderio midiático, restou-lhe atacar o governo a partir do velho cantochão do moralismo e de pontos isolados que estão longe de se constituírem uma alternativa à plataforma da esquerda.

Mas isto não basta para a direita vislumbrar alguma perspectiva, que não a derrota, nas eleições de 201. Assim, procura construir ou ajudar a construir cenários adicionais que, mesmo indiretamente, a favoreçam. Um desses cenários é o da fragmentação do quadro partidário e de alianças eleitorais, na esperança de evitar a vitória da Presidente Dilma já no primeiro turno, como apontam as pesquisas. Daí a grande mídia privada e mesmo próceres da direita saudarem o lançamento, no dia 16 de fevereiro, em Brasília, do partido da ex-senadora Marina Silva, a tal Rede Sustentabilidade, ou simplesmente Rede.

Marina não dispõe mais dos 20 milhões de votos que auferiu em 2010 em circunstâncias políticas irrepetíveis. Mas seu capital eleitoral – ali pelos 9%, segundo estimam pesquisas atuais – ainda é respeitável. A direita conta com eles para tentar impedir a vitória de Dilma já no primeiro turno. E se esforça para isso, inclusive oferecendo quadros ao novo partido. O deputado federal paulista Walter Feldman, por exemplo, um tucano histórico e sempre muito bem votado, é apontado como um dos fundadores da agremiação de Marina. Claro que não será fácil amealhar, até outubro, as 500 mil adesões necessárias para legalizar o partido, mas a direita certamente vai ajudar.

Mas o partido da ex-senadora pelo Acre, além dos serviços que prestará à direita, ainda que indiretamente, contém singularidades que não passaram desapercebidas. A primeira, nas palavras da própria Marina: “Estamos na época ao paradoxo, nem situação, nem oposição a Dilma. Precisamos de posição”. Nem oposição, nem situação, mas posição? O que é isso? Parece tiradinha de publicitário. E mais: “Nem direita, nem esquerda. Estamos à frente”. Mas onde está o partido, em que galáxia? Isso me cheira à senha para o oportunismo, pois numa agremiação que assim se define, cabe todo mundo. Também a afirmação de Marina de que o Rede vai romper com “a lógica de partidos a serviços de pessoas” soa como embuste. Não está a serviço de pessoas, mas só ela é quem aparece.

Não vai o partido de Marina aceitar contribuições de empresas de cigarro, armas, agrotóxicas e bebidas alcoólicas. Mas nada fala a respeito das doações de bancos e empreiteiras. Uns, como o deputado Walter Feldman, falam que a agremiação só aceitará dirigentes e candidatos com ficha limpa, regra que não vale para filiados em geral. Outros, como um dos fundadores, João Paulo Capobianco, asseguram que a legenda vai “coibir a entrada de ficha suja”. Ingressa ficha suja ou não? A confusão está precocemente formada, o que não soa estranho a um partido que não possui carta programática, no qual metade dos filiados poderá ter a opinião que desejar, à margem das orientações partidárias.

Tais orientações foram coletadas entre os primeiros aderentes. No evento de lançamento, em Brasília, os participantes – alguns deles se denominam “sonháticos” – relataram sonhos ao microfone ou por escrito. Como notou, em artigo recente, o biólogo e professor Pedro Luiz Teixeira de Camargo, “as ideias eram as mais divergentes possíveis, passando pelo mote ‘mais Joaquim Barbosa, por favor’, até a palavra mágica “amor”. Para ele, “a partir do momento em que metade dos filiados não precisa seguir um programa partidário, busca-se o enfraquecimento dos partidos políticos”. E aí está um ponto crucial nessa iniciativa, a primeira que busca desclassificar a instituição partido como instrumento primordial da política. Diz Marina: . “Estamos num processo de desconstrução de que o partido tem monopólio da política, queremos quebrar isso”. É a ação declarada contra os partidos, a tentativa de despolitização da sociedade.

Em seu oportuno artigo, Pedro Luiz Teixeira de Camargo conclui:

“É fundamental mostrar a toda a sociedade a verdadeira faceta de Marina Silva e de sua Rede: servir de legenda para deputados insatisfeitos em seus partidos, garantir um partido para a realização pessoal da ex-senadora e, principalmente: servir de sublegenda para a direita neoliberal. Desgastada devido aos bons governos de Lula e Dilma, a direita tradicional precisa se repaginar, e nada melhor que usar uma ex-militante de esquerda, ainda mais se puderem pintar o tucano de verde, que pode deixar de ser a cor da esperança para passar a ser a cor da preocupação”.

Gelatinoso como é, o partido da ex-senadora mereceu definição antológica do jornalista Cláudio Gonzalez: “Não é um partido, é uma ONG que receberá dinheiro do fundo partidário”. Ou, como afirmou o impagável José Simão, dia desses: a Rede de Marina “é o PSD que não come carne”.

 

MAL DE PARKINSON: descoberta a CURA em CUBA.

 

 Clinica De Armonizacion Natural.
¡Felicitaciones CUBA!

EN CUBA DERROTARON AL MAL DE PARKINSON

Investigadores cubanos desarrollaron una técnica de implantes de células nerviosas vivas en lo profundo del cerebro que cura la enfermedad de Parkinson.

El Dr. Julián Alvarez Blanco, director del Centro Internacional de Restauración Neurológica (CIREN), explicó que este logro de la medicina cubana se debe al desarrollo de un procedimiento quirúrgico de avanzada llamado cirugía estereotáxica, o cirugía de mínimo acceso,…junto con novísimas técnicas de mapeo computarizado del cerebro y registros superficiales y profundos de la actividad eléctrica cerebral.

“Esto nos permite hoy colocar con precisión las células generadoras e implantarlas exactamente en las áreas afectadas -a través de una cánula de pequeñísimo diámetro- y con un mínimo riesgo para la vida del paciente”, precisó el Dr. Alvarez.

“Es decir, se ha logrado establecer trayectorias muy certeras para llegar a estructuras profundas del cerebro.
Nos enorgullecemos ciertamente de ser uno de los centros más avanzados del mundo en esta actividad de las neurociencias”, dijo el especialista cubano.

El CIREN también da esperanzas a quienes han sufrido daño y muerte de células cerebrales que les ha producido afasias (dificultades de expresión y comprensión) a causa de accidentes encefálicos, trombosis, traumas cráneo-encefálicos y hemiplejías.
 Clinica De Armonizacion Natural.
Investigadores cubanos desarrollaron una técnica de implantes de células nerviosas vivas en lo profundo del cerebro que cura la enfermedad de Parkinson.
El Dr. Julián Alvarez Blanco, director del Centro Internacional de Restauración Neurológica (CIREN), explicó que este logro de la medicina cubana se debe al desarrollo de un procedimiento quirúrgico de avanzada llamado cirugía estereotáxica, o cirugía de mínimo acceso, junto con novísimas técnicas de mapeo computarizado del cerebro y registros superficiales y profundos de la actividad eléctrica cerebral.
“Esto nos permite hoy colocar con precisión las células generadoras e implantarlas exactamente en las áreas afectadas -a través de una cánula de pequeñísimo diámetro- y con un mínimo riesgo para la vida del paciente”, precisó el Dr. Alvarez.“Es decir, se ha logrado establecer trayectorias muy certeras para llegar a estructuras profundas del cerebro.
Nos enorgullecemos ciertamente de ser uno de los centros más avanzados del mundo en esta actividad de las neurociencias”, dijo el especialista cubano.
El CIREN también da esperanzas a quienes han sufrido daño y muerte de células cerebrales que les ha producido afasias (dificultades de expresión y comprensión) a causa de accidentes encefálicos, trombosis, traumas cráneo-encefálicos y hemiplejías.
Los pacientes tratados en el CIREN recuperan muchas de las funciones perdidas al aplicárseles nuevos métodos neuro-restaurativos.
Milagros médicos María José (Pepi) es una joven hispana que hace cuatro años quedó postrada, sin poder comer ni hablar, después de un accidente de automóvil.
Su madre consiguió trasladarla al CIREN, donde logró aprender de nuevo a deglutir y a conectarse con el mundo exterior.
Pepi mejoró así su calidad de vida. Héctor, empresario minero chileno que sufrió un accidente vascular encefálico, fue llevado a Cuba en camilla y al término del tratamiento regresó caminando.
El hijo de un conocido político de la derecha chilena que padeció un grave accidente neurológico mejoró notablemente su calidad de vida tras su tratamiento en el CIREN. Cuando falleció, de vuelta en Chile, por otros motivos de salud, el joven pidió que sus restos fueran trasladados a Cuba, deseo que la familia cumplió.
El CIREN es un centro de restauración neurológica que también ha tenido interesantes resultados en la lucha contra el mal de Alzhaimer.
En el instituto utilizan la capacidad del propio sistema nervioso para regenerar algunas células dañadas. Así lo explicó su director, el médico Julián Alvarez Blanco*:
-Los principios de la restauración neurológica se sustentan en la reconocida capacidad del sistema nervioso central y periférico de reparar, en aras de la funcionalidad, los daños que se puedan ocasionar.
En general, el sistema nervioso contiene una cantidad de tejidos y células superiores a los que utiliza habitualmente, por lo que cualquier afectación parcial que sufra es posible suplirla mediante un trabajo sistemático de reactivación y lograr con ello, en un alto porcentaje, su funcionalidad.
Existen evidencias científicas de que el daño neuromotor ocasionado por una lesión cerebral de determinada magnitud, puede reducirse notablemente estimulando los elementos supletorios del tejido subyacente.
En otras palabras, puede lograrse la restauración neurológica causada por accidentes cerebrales encefálicos, trombosis, traumas cráneo-encefálicos y hemiplejías, estimulando las funciones supletorias del tejido y las células mediante fármacos, estímulos psicológicos y psicométricos y activación muscular o del sistema osteomioarticular, explicó el Dr. Alvarez.
Con representaciones en diferentes países, el CIREN ofrece sus servicios internacionalmente, compitiendo con centros médicos como Houston, pero sus tarifas son más bajas que las de sus competidores.
El instituto selecciona previamente a los pacientes, es decir, no recibe a enfermos considerados “casos perdidos” sólo para sacarles dinero a sus angustiadas familias, como suele estilarse en la llamada “industria de la salud”.
Quizás la única excepción sea el caso de la española Pepi, rechazada varias veces previamente, precisamente como “caso perdido”, cuya madre abordó al Dr. Alvarezen un congreso médico para obtener la oportunidad de terapia para su hija. Cubatambién ofrece salud gratuita en Latinoamérica y otros lugares del planeta.
Por ejemplo en Chile, 60 jóvenes becarios pobres viajarán este año a comenzar a estudiar gratis en la Escuela Latinoamericana de Medicina en el próximo curso que comienza en septiembre.
Treinta hombres y otras tantas mujeres fueron seleccionados equitativamente en todas las regiones del país, para completar un total de 400 alumnos chilenos que gratuitamente cursan medicina en Cuba, con una beca que incluye los estudios, el hospedaje, la alimentación y materiales de estudio.
Hasta ahora 80 jóvenes chilenos se han graduado de médicos en la Isla. Derrota del Parkinson El CIREN se ha especializado en atacar la enfermedad de Parkinson.
Esa fue la línea de trabajo en restauración neurológica que formó el núcleo original del centro. “Mediante cirugía estereotáxica -o de mínimo acceso-realizamos implantes en zonas profundas del cerebro de células de tejido embrionario, productoras de dopamina”, explicó el Dr. Alvarez. 
“Es un hecho demostrado que el Parkinson se produce por una inadecuada producción de dopamina, imprescindible sustancia para el control de los movimientos del ser humano”, añadió el galeno.
“En esta investigación sólo se incluye a los portadores de un Parkinson primario, cuya causa no sea secundaria a problemas vasculares o de otra índole, y en los cuales el tratamiento medicamentoso no surta los debidos efectos o sea el causante de trastornos tóxicos secundarios”, precisó el Dr. Alvarez.
Los pacientes sometidos a esta técnica están comprendidos en un protocolo de investigación llamado CAPIT donde participan varios países que compatibilizan internacionalmente sus resultados.
El Dr. Alvarez explicó que el CIREN ha desarrollado procedimientos quirúrgicos de avanzada, como la cirugía estereotáxica (de mínimo acceso), técnicas de mapeo computarizado del cerebro y registros superficiales y profundos de la actividad eléctrica cerebral.
“Esto permite hoy colocar con precisión las células generadoras e implantarlas exactamente en las áreas afectadas –a través de una cánula de pequeñísimo diámetro–, y con un mínimo riesgo para la vida del paciente”, precisó Alvarez.
“Es decir, se ha logrado establecer trayectorias muy certeras para llegar a estructuras profundas del cerebro. Nos enorgullecemos, ciertamente, de ser uno de los centros más avanzados en el mundo en esta actividad de las neurociencias”, dijo el especialista cubano.
Los neurotrasplantes aplicados a enfermos de Parkinson han tenido éxitos indiscutibles.
Se aplican cuando el paciente ya no responde a los tratamientos medicamentosos.
‘Es un hecho comprobado que estos trasplantes disminuyen considerablemente el consumo de fármacos y mejoran también la calidad de vida de estos pacientes, los que pueden de inmediato incorporarse a sus actividades habituales sin las grandes limitaciones que produce la enfermedad”, indicó Alvarez.
Los éxitos en neurotrasplantes a enfermos de Parkinson se deben también al empleo de la cirugía estereotáxica (de mínimo acceso) y al perfeccionamiento logrado en Cuba de la tecnología de mapeo computarizado del cerebro y el registro y digitalización de las señales eléctricas de las zonas profundas del cerebro.
Otras cirugías anti-Parkinson 
Los pacientes de Parkinson también tienen alivio con las técnicas llamadasSubtalamotomía selectiva, Palidotomía y Talamotomía, destinadas a eliminar los temblores en exceso o la rigidez de movimiento que manifiesta habitualmente esta afección, sin que ninguna técnica sea excluyente de otras, explicó el Dr. Alvarez.
En 1995, los investigadores del CIREN aplicaron por primera vez en el mundo una nueva técnica para el tratamiento quirúrgico del Parkinson, que en lenguaje médico se denomina ‘subtalamotomía dorso-lateral selectiva’.
La técnica ‘consiste básicamente en ‘lesionar’ el núcleo subtalámico, una estructura neuronal, localizada en la profundidad del cerebro y que desempeña un papel fundamental en el control de los movimientos”, explicó el Dr. Alvarez. 
En los ‘90 se realizaron experimentos para conocer el rol del subtálamo en la disfunción del circuito motor en la enfermedad de Parkinson y el posible efecto terapéutico si se lo ‘lesiona’ para controlar los síntomas motores que produce elParkinson.
“El estado del conocimiento actual de los mecanismos que originan los signos cardinales de la enfermedad de Parkinson -lentitud del movimiento, rigidez, temblor y alteraciones de los reflejos posturales- han permitido un renacer de las técnicas quirúrgicas para su tratamiento, apoyado en el desarrollo tecnológico”, señaló el Dr. Alvarez. 
La hipótesis de que una lesión parcial en la estructura del núcleo subtalámico pudiera revertir los síntomas principales de la enfermedad de Parkinson y las experiencias en primates, más el conocimiento de casos clínicos en que una lesión hemorrágica espontánea de esa estructura modificó favorablemente las manifestaciones clínicas de la enfermedad, condujeron a los cubanos a proponer un protocolo de investigación conjunta entre el CIREN y expertos españoles de laClínica Quirón, de San Sebastián, para evaluar la eficacia de esta nueva técnica en pacientes con Parkinson avanzado.
Desde 1987 Cuba utiliza la técnica del neurotrasplante y métodos de cirugía funcional estereotáxica (de mínimo acceso) como la Palidotomía y la Talamotomía.
Numerosos estudios experimentales habían sugerido que el núcleo subtalámico podría constituir una estructura crucial en las manifestaciones motoras de la enfermedad.
Otra línea de investigación clínica del quehacer científico del CIREN es la cirugía de las distonías, considerada uno de los cuatro temas principales que ocupan a las neurociencias del siglo 21, junto al Parkinson, demencias y enfermedades neuromusculares
. En general, el Centro dispone de servicios especializados para la atención de otras enfermedades degenerativas.
Además del Parkinson, las distonías, el mal de Alzheimer, la esclerosis múltiple y el envejecimiento cerebral, el CIREN también atiende las lesiones de la médula espinal, nervios periféricos y enfermedades neuromusculares.
Asimismo, trata enfermedades cerebrovasculares oclusivas como los infartos del cerebro.
Además del tratamiento de traumatismos cráneo-encefálicos, ofrece un servicio de neuropediatría dedicado a la recuperación de niños con lesiones estáticas del sistema nervioso. Tratamientos multidisciplinarios
Los tumores cerebrales se tratan con un enfoque neurobiológico que da resultados muy positivos, indicó Alvarez.
Según el médico cubano, en los medios científicos existe aún cierto escepticismo sobre las posibilidades de restablecimiento de personas con traumas de la médula espinal (paraplejias, cuadriplejias).
Alvarez acepta que la recuperación es difícil para quienes sufren sección o lesiones medulares, pero afirma que para su mejoramiento resulta indispensable una acción integral y mancomunada de especialistas en rehabilitación, defectología, logopedia, psicología y electroestimulación, entre otras disciplinas.
Según el Dr. Alvarez, el CIREN cuenta con un colectivo de profesionales que trabajan multidisciplinariamente, con programas diseñados para cada paciente. “No recibe el mismo tratamiento un paciente con lesión medular completa, sin conductividad eléctrica, que quien sufre de una lesión raquimedular y mantiene la conductividad”, dijo.
“Y aquellos que presentan lesión con espasticidad (rigidez) recibirán un tratamiento diferenciado de quienes su trastorno les produzca flacidez.
Ello hace posible programar objetivos a alcanzar durante el tratamiento, en correspondencia con las posibilidades reales del paciente. Para ello existe un esfuerzo de todo el colectivo de la institución, que viene logrando importantes éxitos en esta labor”.
En el Centro laboran 259 trabajadores profesionales, entre neurólogos, neurocirujanos y otras especialidades.
El Dr. Alvarez insistió que “en nuestra institución no se brinda tratamiento a los pacientes como es tradicional en la medicina sintomática.
Los especialistas del Centro abordan la terapéutica de manera multidisciplinaria, con un diseño especial para cada paciente, que abarca desde la administración de medicamentos de última generación hasta la cirugía más especializada, con aplicación de técnicas para la rehabilitación y corrección de defectos físicos e intelectuales y otras terapias dirigidas a la actividad psíquica, intelectual, sensitiva y motora.
Por ello, se produce una incorporación social más rápida y efectiva de nuestros pacientes.
Prueba fehaciente de ello es la opinión de miles de enfermos atendidos en la institución”.
Testimonios:
Carlos Torres“Buenos días… Soy Carlos Torres y quiero dar testimonio de la mejoría de mi esposa a quien hace 5 años le diagnoticaron el Mal de Parkinson. Su enfermedad fué acrecentando y era dificil controlar sus movimientos involuntarios, aun con el tratamiento que llevaba, indicado por el neurologo que la asistía. 
Sin embargo yo no dejaba de buscar ayuda en otros medio y fué cuando leí a travez de esta pagina la recomendaciones del uso de la Terapia Célular. 
A partir del día 5 de Mayo del año 2011, se inyectó la primera ampolla de HP y desde esa fecha para acá, gracias a Dios sus temblores desaparecieron y hoy en día lleva una vida normal, aunque mantiene su tratamiento paralelo. 
El tratamiento con las ampollas HP ha sido por 8 meses y ha sido suspendido hasta tener resultados de una resonancia magnética cerebral. Doy fé del resultado positivo del tratamiento con Terapia Célular HP.”
Sr. Carlos Pastor Torres
Barquisimeto, Venezuela

A história secreta da renúncia de Bento XVI – por eduardo febbro / paris.fr

Mais do que querelas teológicas, são o dinheiro e as contas sujas do banco do Vaticano os elementos que parecem compor a trama da inédita renúncia do papa. Um ninho de corvos pedófilos, articuladores de complôs reacionários e ladrões sedentos de poder, imunes e capazes de tudo para defender sua facção. A hierarquia católica deixou uma imagem terrível de seu processo de decomposição moral. O artigo é de Eduardo Febbro, direto de Paris.

Eduardo Febbro
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 Os especialistas em assuntos do Vaticano afirmam que o Papa Bento XVI decidiu renunciar em março passado, depois de regressar de sua viagem ao México e a Cuba. Naquele momento, o papa, que encarna o que o diretor da École Pratique des Hautes Études de Paris (Sorbonne), Philippe Portier, chama “uma continuidade pesada” de seu predecessor, João Paulo II, descobriu em um informe elaborado por um grupo de cardeais os abismos nada espirituais nos quais a igreja havia caído: corrupção, finanças obscuras, guerras fratricidas pelo poder, roubo massivo de documentos secretos, luta entre facções, lavagem de dinheiro. O Vaticano era um ninho de hienas enlouquecidas, um pugilato sem limites nem moral alguma onde a cúria faminta de poder fomentava delações, traições, artimanhas e operações de inteligência para manter suas prerrogativas e privilégios a frente das instituições religiosas.Muito longe do céu e muito perto dos pecados terrestres, sob o mandato de Bento XVI o Vaticano foi um dos Estados mais obscuros do planeta. Joseph Ratzinger teve o mérito de expor o imenso buraco negro dos padres pedófilos, mas não o de modernizar a igreja ou as práticas vaticanas. Bento XVI foi, como assinala Philippe Portier, um continuador da obra de João Paulo II: “desde 1981 seguiu o reino de seu predecessor acompanhando vários textos importantes que redigiu: a condenação das teologias da libertação dos anos 1984-1986; o Evangelium vitae de 1995 a propósito da doutrina da igreja sobre os temas da vida; o Splendor veritas, um texto fundamental redigido a quatro mãos com Wojtyla”. Esses dois textos citados pelo especialista francês são um compêndio prático da visão reacionária da igreja sobre as questões políticas, sociais e científicas do mundo moderno.

O Monsenhor Georg Gänsweins, fiel secretário pessoal do papa desde 2003, tem em sua página web um lema muito paradoxal: junto ao escudo de um dragão que simboliza a lealdade o lema diz “dar testemunho da verdade”. Mas a verdade, no Vaticano, não é uma moeda corrente. Depois do escândalo provocado pelo vazamento da correspondência secreta do papa e das obscuras finanças do Vaticano, a cúria romana agiu como faria qualquer Estado. Buscou mudar sua imagem com métodos modernos. Para isso contratou o jornalista estadunidense Greg Burke, membro da Opus Dei e ex-integrante da agência Reuters, da revista Time e da cadeia Fox. Burke tinha por missão melhorar a deteriorada imagem da igreja. “Minha ideia é trazer luz”, disse Burke ao assumir o posto. Muito tarde. Não há nada de claro na cúpula da igreja católica.

A divulgação dos documentos secretos do Vaticano orquestrada pelo mordomo do papa, Paolo Gabriele, e muitas outras mãos invisíveis, foi uma operação sabiamente montada cujos detalhes seguem sendo misteriosos: operação contra o poderoso secretário de Estado, Tarcisio Bertone, conspiração para empurrar Bento XVI à renúncia e colocar em seu lugar um italiano na tentativa de frear a luta interna em curso e a avalanche de segredos, os vatileaks fizeram afundar a tarefa de limpeza confiada a Greg Burke. Um inferno de paredes pintadas com anjos não é fácil de redesenhar.

Bento XVI acabou enrolado pelas contradições que ele mesmo suscitou. Estas são tais que, uma vez tornada pública sua renúncia, os tradicionalistas da Fraternidade de São Pio X, fundada pelo Monsenhor Lefebvre, saudaram a figura do Papa. Não é para menos: uma das primeiras missões que Ratzinger empreendeu consistiu em suprimir as sanções canônicas adotadas contra os partidários fascistóides e ultrarreacionários do Mosenhor Levebvre e, por conseguinte, legitimar no seio da igreja essa corrente retrógada que, de Pinochet a Videla, apoiou quase todas as ditaduras de ultradireita do mundo.

Bento XVI não foi o sumo pontífice da luz que seus retratistas se empenham em pintar, mas sim o contrário. Philippe Portier assinala a respeito que o papa “se deixou engolir pela opacidade que se instalou sob seu reinado”. E a primeira delas não é doutrinária, mas sim financeira. O Vaticano é um tenebroso gestor de dinheiro e muitas das querelas que surgiram no último ano têm a ver com as finanças, as contas maquiadas e o dinheiro dissimulado. Esta é a herança financeira deixada por João Paulo II, que, para muitos especialistas, explica a crise atual.

Em setembro de 2009, Ratzinger nomeou o banqueiro Ettore Gotti Tedeschi para o posto de presidente do Instituto para as Obras de Religião (IOR), o banco do Vaticano. Próximo à Opus Deis, representante do Banco Santander na Itália desde 1992, Gotti Tedeschi participou da preparação da encíclica social e econômica Caritas in veritate, publicada pelo papa Bento XVI em julho passado. A encíclica exige mais justiça social e propõe regras mais transparentes para o sistema financeiro mundial. Tedeschi teve como objetivo ordenar as turvas águas das finanças do Vaticano. As contas da Santa Sé são um labirinto de corrupção e lavagem de dinheiro cujas origens mais conhecidas remontam ao final dos anos 80, quando a justiça italiana emitiu uma ordem de prisão contra o arcebispo norteamericano Paul Marcinkus, o chamado “banqueiro de Deus”, presidente do IOR e máximo responsável pelos investimentos do Vaticano na época.

João Paulo II usou o argumento da soberania territorial do Vaticano para evitar a prisão e salvá-lo da cadeia. Não é de se estranhar, pois devia muito a ele. Nos anos 70, Marcinkus havia passado dinheiro “não contabilizado” do IOR para as contas do sindicato polonês Solidariedade, algo que Karol Wojtyla não esqueceu jamais. Marcinkus terminou seus dias jogando golfe em Phoenix, em meio a um gigantesco buraco negro de perdas e investimentos mafiosos, além de vários cadáveres. No dia 18 de junho de 1982 apareceu um cadáver enforcado na ponte de Blackfriars, em Londres. O corpo era de Roberto Calvi, presidente do Banco Ambrosiano. Seu aparente suicídio expôs uma imensa trama de corrupção que incluía, além do Banco Ambrosiano, a loja maçônica Propaganda 2 (mais conhecida como P-2), dirigida por Licio Gelli e o próprio IOR de Marcinkus.

Ettore Gotti Tedeschi recebeu uma missão quase impossível e só permaneceu três anos a frente do IOR. Ele foi demitido de forma fulminante em 2012 por supostas “irregularidades” em sua gestão. Tedeschi saiu do banco poucas horas depois da detenção do mordomo do Papa, justamente no momento em que o Vaticano estava sendo investigado por suposta violação das normas contra a lavagem de dinheiro. Na verdade, a expulsão de Tedeschi constitui outro episódio da guerra entre facções no Vaticano. Quando assumiu seu posto, Tedeschi começou a elaborar um informe secreto onde registrou o que foi descobrindo: contas secretas onde se escondia dinheiro sujo de “políticos, intermediários, construtores e altos funcionários do Estado”. Até Matteo Messina Dernaro, o novo chefe da Cosa Nostra, tinha seu dinheiro depositado no IOR por meio de laranjas.

Aí começou o infortúnio de Tedeschi. Quem conhece bem o Vaticano diz que o banqueiro amigo do papa foi vítima de um complô armado por conselheiros do banco com o respaldo do secretário de Estado, Monsenhor Bertone, um inimigo pessoal de Tedeschi e responsável pela comissão de cardeais que fiscaliza o funcionamento do banco. Sua destituição veio acompanhada pela difusão de um “documento” que o vinculava ao vazamento de documentos roubados do papa.

Mais do que querelas teológicas, são o dinheiro e as contas sujas do banco do Vaticano os elementos que parecem compor a trama da inédita renúncia do papa. Um ninho de corvos pedófilos, articuladores de complôs reacionários e ladrões sedentos de poder, imunes e capazes de tudo para defender sua facção. A hierarquia católica deixou uma imagem terrível de seu processo de decomposição moral. Nada muito diferente do mundo no qual vivemos: corrupção, capitalismo suicida, proteção de privilegiados, circuitos de poder que se autoalimentam, o Vaticano não é mais do que um reflexo pontual e decadente da própria decadência do sistema.

Tradução: Katarina Peixoto

Carta Maior.

A imbecilização do Brasil – por mino carta /são paulo.sp

 

Há muito tempo o Brasil não produz escritores como Guimarães Rosa ou Gilberto Freyre. Há muito tempo o Brasil não produz pintores como Candido Portinari. Há muito tempo o Brasil não produz historiadores como Raymundo Faoro. Há minomuito tempo o Brasil não produz polivalentes cultores da ironia como Nelson Rodrigues. Há muito tempo o Brasil não produz jornalistas como Claudio Abramo, e mesmo repórteres como Rubem Braga e Joel Silveira. Há muito tempo…

Os derradeiros, notáveis intérpretes da cultura brasileira já passaram dos 60 anos, quando não dos 70, como Alfredo Bosi ou Ariano Suassuna ou Paulo Mendes da Rocha. Sobra no mais um deserto de oásis raros e até inesperados. Como o filme O Som ao Redor, de Kleber Mendonça, que acaba de ser lançado, para os nossos encantos e surpresa.

Nos últimos dez anos o País experimentou inegáveis progressos econômicos e sociais, e a história ensina que estes, quando ocorrem, costumam coincidir com avanços culturais. Vale sublinhar, está claro, que o novo consumidor não adquire automaticamente a consciência da cidadania. Houve, de resto, e por exemplo, progressos em termos de educação, de ensino público? Muito pelo contrário.

Nossa vanguarda. Imbatíveis à testa da Operação Deserto

E houve, decerto, algo pior, o esforço concentrado dos senhores da casa-grande no sentido de manter a maioria no limbo, caso não fosse possível segurá-la debaixo do tacão. Neste nosso limbo terrestre a ignorância é comum a todos, mas, obviamente, o poder pertence a poucos, certos de que lhes cabe por direito divino. Indispensável à tarefa, a contribuição do mais afiado instrumento à disposição, a mídia nativa. Não é que não tenha servido ao poder desde sempre. No entanto, nas últimas décadas cumpriu seu papel destrutivo com truculência nunca dantes navegada.

Falemos, contudo, de amenidades do vídeo. De saída, para encaminhar a conversa. Falemos do Big Brother Brasil, das lutas do MMA e do UFC, dos programas de auditório, de toda uma produção destinada a educar o povo brasileiro, sem falar das telenovelas, de hábito empenhadas em mostrar uma sociedade inexistente, integrada por seres sem sombra. Deste ponto de vista, a Globo tem sido de uma eficácia insuperável.

O espetáculo de vulgaridade e ignorância oferecido no vídeo não tem similares mundo afora, enquanto eu me colho a recordar os programas de rádio que ouvia, adolescente, graciosas, adoráveis peças de museu como a PRK30, ou anos verdolengos habitados pelos magistrais shows de Chico Anysio. Cito exemplos, mas há outros. Creio que a Globo ocupe a vanguarda desta operação de imbecilização coletiva, de espectro infindo, na sua capacidade de incluir a todos, do primeiro ao último andar da escada social.

O trabalho da imprensa é mais sutil, pontiagudo como o buril do ourives. Visa à minoria, além dos donos do poder -real, que, além do mais, ditam o pensamento único, fixam-lhe os limites e determinam suas formas de expressão. O alvo é a chamada classe média alta, os aspirantes, a segunda turma da classe A, o creme que não chegou ao creme do creme. E classe B também. Leitores, em primeiro lugar, dos editoriais e colunas destacadas dos jornalões, e da Veja, a inefável semanal da Editora Abril. Alguns remediados entram na dança, precipitados na exibição, de verdade inadequada para eles.

Aqui está a bucha do canhão midiático. Em geral, fiéis da casa-grande encarada como meta de chegada radiosa, mesmo quando ancorada, em termos paulistanos, às margens do Rio Pinheiros, o formidável esgoto ao ar livre. E, em geral, inabilitados ao exercício do espírito crítico. Quem ainda o pratica, passa de espanto a espanto, e o maior, se admissível a classificação, é que os próprios editorialistas, colunistas, articulistas etc. etc. acabem por acreditar nos enredos ficcionais tecidos por eles próprios, quando não nas mentiras assacadas com heroica impavidez.

O deserto cultural em que vivemos tem largas e evidentes explicações, entre elas, a lassidão de quem teria condições de resistir. Agrada-me, de todo modo, o relativo otimismo de Alfredo Bosi, que enriquece esta edição. Mesmo em épocas medíocres pode medrar o gênio, diz ele, ainda que isto me lembre a Península Ibérica, terra de grandes personagens solitárias em lugar de escolas do saber. Um músico e poeta italiano do século passado, Fabrizio de André, cantou: “Nada nasce dos diamantes, do estrume nascem as flores”. E do deserto?

Leandro Fortes: Nota de falecimento – por leandro fortes /são paulo.sp

A reação formal do PSDB ao pronunciamento da presidenta Dilma Rousseff sobre a redução nos preços das tarifas de energia elétrica, em todo o país, é o momento mais lamentável do processo de ruptura histórica dos tucanos desde a fundação do partido, em junho de 1988.

A nota, assinada pelo presidente da sigla, deputado Sérgio Guerra, de Pernambuco, não vale sequer ser considerada pelo leandro fortesque contém, mas pelo que significa. Trata-se de um amontoado de ilações primárias baseadas quase que exclusivamente no ressentimento político e no desespero antecipado pelos danos eleitorais inevitáveis por conta da inacreditável opção por combater uma medida que vai aliviar o orçamento da população e estimular o setor produtivo nacional.

Neste aspecto, o deputado Guerra, despachante contumaz dessas virulentas notas oficiais do PSDB, apenas personaliza o ambiente de decadência instalado na oposição, para o qual contribuem lideranças do quilate do senador Agripino Maia, presidente do DEM, e o deputado Roberto Freire, do PPS. Sobre Maia, expoente de uma das mais tristes oligarquias políticas nordestinas, não é preciso dizer muito. É uma dessas tristes figuras gestadas na ditadura militar que sobreviveram às mudanças de ventos pulando de conchavo em conchavo, no melhor estilo sarneysista. Freire, ex-PCB, transformou a si mesmo e ao PPS num simulacro cuja fachada política serve apenas de linha auxiliar ao pior da direita brasileira.

O PSDB surgiu como dissidência do PMDB que já na Assembleia Constituinte de 1986 caminhava para se tornar nisto que aí está, um conglomerado de políticos paroquiais vinculados a interesses difusos cujo protagonismo reside no volume, a despeito da qualidade de muitos que lá estão. A revoada dos tucanos parecia ser uma lufada de ar puro na prematuramente intoxicada Nova República de José Sarney. À frente do processo, um grande político brasileiro, Mário Covas, que não deixou herdeiros no partido. De certa forma, aquele PSDB nascido sob o signo da social democracia europeia, morreu junto com Covas, em 2001. Restaram espectros do nível de José Serra, Geraldo Alckmin e Álvaro Dias.

Aliás, o sonho tucano só não morreu próximo ao nascedouro, em 1992, porque Covas impediu, sabiamente, que o PSDB se agregasse ao moribundo governo de Fernando Collor de Mello, às vésperas do processo de impeachment. A mídia, em geral, nunca toca nesse assunto, mas foi o bom senso de Covas que barrou o movimento desastrado liderado por Fernando Henrique Cardoso, que pretendia jogar o PSDB na fossa sanitária do governo Collor em troca de assumir o cargo de ministro das Relações Exteriores. FHC, mais tarde chanceler e ministro da Fazenda de Itamar Franco, e presidente da República por dois mandatos, nunca teria chegado a subprefeito de Higienópolis se Covas não o tivesse impedido de aderir a Collor.

Fala-se muito da extinção do DEM, apesar do suspiro do carlismo em Salvador, mas essa agremiação dita “democrata” é um cadáver insepulto há muito tempo, sobre o qual se debruçam uns poucos reacionários leais. É no PSDB que as forças de direita e os conservadores em geral apostam suas fichas: há quadros melhores e, apesar de ser uma força política decadente, ainda se mantém firme em dois dos mais importantes estados da federação, São Paulo e Minas Gerais.

E é justamente por isso que a nota de Sérgio Guerra, um texto que parece ter sido escrito por um adolescente do ensino médio em pleno ataque hormonal de rebeldia, é, antes de tudo, um documento emblemático sobre o desespero político do PSDB e, por extensão, das forças de oposição.

Essas mesmas forças que acreditam na fantasia pura e simples do antipetismo, do antilulismo e em outros venenos que a mídia lhes dá como antídoto ao obsoletismo em que vivem, sem perceber que o mundo se estende muito além das vontades dos jornalões e da opinião de penas de aluguel que, na ânsia de reproduzir os humores do patrão, revelam apenas o inacreditável grau de descolamento da realidade em que vivem.

A PINTURA E A VIDA DE VAN GOGH – por almandrade / salvador.ba

“Ai, ai, as pinturas mais belas são as que sonhamos deitados na cama, fumando um cachimbo, mas nunca pintamos.” Van Gogh

Uma vida curta e conturbada para uma longa biografia de mais de mil
páginas, Van Gogh, filho de pastor, depois de fracassar em tudo que
Almandrade 1
tentou fazer, decidiu ser pintor. Um pintor também “fracassado”, ou
melhor incompreendido pelo seu tempo, cuja obra imensa e invejável que
construiu em sua rápida existência penosa e turbulenta, vem
inquietando e provocando as gerações posteriores. O livro escrito por
Steven Naifeh e Gregory White Smith, é uma das biografias mais
extensas e completas de um artista que se tornou um mito da arte
moderna. Do nascimento do pintor à sua morte aos trinta e sete anos,
os autores vasculharam a vida de um navegante solitário, remando
sempre contra a correnteza.

A biografia de um artista não explica, nem justifica sua obra, mas
elas se comunicam, diria o filósofo francês Merleau-Ponty. Em se
tratando de Van Gogh e sua vida difícil, com episódios trágicos, é
possível ver uma relação estreita entre sua obra e o modo como viveu.
Mesmo com todas as dificuldades não desistiu da ilusão de ser pintor.
Desde a infância com um olhar desconfiado sobre o mundo, crises de
raivas, caminhadas solitárias por lugares distantes, quem sabe para
distanciar-se de tudo e de todos. Criado num ambiente religioso,
protegido dos excessos do pecado, privado de emoção e cor, criou um
mundo colorido e emotivo como meio de transgressão.

Uma vida que colecionava infelicidades, zombarias e desafetos, buscava
encontrar na arte o que não via na vida. Talvez o mais deprimido dos
artistas, mas com uma produtividade incansável, como se estivesse
sublimando na tela a infância não vivida e as emoções reprimidas.
Ariscou a vida no trabalho da pintura, produziu como um louco mas sem
perder a razão, indispensável ao ofício de pintor, “dedico-me a minhas
telas com toda a minha mente”, escreveu para o irmão Theo. Acrescentou
ao mundo a verdade da pintura.

Tinha um único amigo, confidente, incentivador e responsável pelo seu
sustento, com quem se correspondia e também tinha atritos, o irmão
mais novo, Theo. Sem negar a rivalidade familiar, Theo era o filho que
deu certo, tinha profissão, ajudava no sustento da família, tinha uma
vida correta dentro do esperado nos padrões da classe média. Van Gogh
era o contrário, com sua pintura ridicularizada pelos seus
contemporâneos, desprovidos de informações para compreendê-las, sem
aceitação no mercado. Quanta aflição. Somente mais de cinco anos
depois de sua morte é que veio a ser reconhecido e celebrado.

Queria pintar o que via, mas via o que pintava. Uma pintura de uma
força irresistível, cor firme, céu agitado, uma forma particular de
ver as coisas e a paisagem. Vida e obra se misturavam, o temperamento
rebelde do artista, diagnosticado com várias enfermidades, – entre
elas esquizofrenia, – desentendimentos, crises existenciais, a amizade
tumultuada com Paul Gauguin, amputação da orelha, até a morte trágica,
reavaliada no livro. Os autores descartam a hipótese, mais conhecida,
de suicídio do pintor. Com um inventário de provas, acreditam em
assassinato acidental. Com base em laudos médicos, que informam que a
arma do crime foi disparada de certa distância do corpo, declaração do
próprio artista que achava o suicídio “uma covardia moral” etc. Um
crime misterioso, sem testemunha e sem o local exato do disparo, que
até a arma desapareceu, mas não tão misterioso quanto a sua arte.

Suicídio ou assassinato? Longe de mim de tomar partido, não sou
advogado nem perito criminal. As condições precárias em que viveu numa
sociedade hostil contribuíram, sem dúvida, para o final brutal, por um
ferimento de bala na parte superior do abdômen. Mas de uma coisa
ninguém duvida, da fascinação e da certeza de sua pintura que muitoVincent_van_Gogh
acrescentou à história da arte. Uma obra inquestionável que ultrapassa
os acidentes da vida. Quantos artistas na história viveram à margem do
sistema social, com uma vida pouco digna e construíram uma obra que
sensibiliza gerações.

O livro faz uma revelação importante, a meu ver, para o meio de arte,
hoje em dia, recheado de qualquer coisa e sintomas culturais. Os
autores mostram um Van Gogh com uma sólida formação cultural, leitor e
freqüentador de museus, reflexivo, que planejava suas telas antes de
realizá-las e as pintava na mais plena lucidez. “Chamam um pintor de
louco se vê as coisas com olhos diferentes dos deles,” dizia nas suas
correspondências para Theo. Sua pintura não era obra do acaso ou da
loucura, cada gesto, cor e pincelada eram a manifestação de um
pensamento.

A problemática e a ambígua relação entre arte e loucura vem à tona. Um
artista que passou temporadas internado num abismo moderno chamado
hospício, nos últimos anos de sua vida, onde a liberdade humana é
restrita, nos deixou uma experiência artística longe do estado de
loucura. Através da arte Van Gogh escorregou da psicose, a sua
pintura, se nasceu na angústia pessoal, a realidade foi transformada a
partir da vontade consciente de um sujeito.

É quase impossível a compreensão da vida humana sem a presença da
arte, a irracionalidade está presente na estrutura interna da obra de
arte, nos adverte o filosofo alemão Heidegger. Até mesmo a pintura de
uma visualidade racional, como a de um Mondrian, não deixa de ser um
fenômeno irracional. A suposta loucura na arte de Van Gohg é
perfeitamente reconhecida e apreendida em nosso mundo racional.

Se contemplamos nas suas telas paisagens, retratos, campos de trigo,
girassóis, corvos, é um problema nosso. Ele fez apenas pintura e por
isso nos inquieta até hoje e vai inquietar muitas gerações enquanto a
arte existir. Se os autores dedicaram dez anos para escrever esta
biografia é porque o seu personagem se entregou ao mundo para
transformá-lo em pintura. Lembrei-me de Paul Valery. Van Gogh sabia o
que estava pintando e para isso ele precisava não só de telas, tintas
e pincéis; precisava também da razão e da imaginação.

Almandrade

(artista plástico, poeta e arquiteto)

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VAN GOGH – A VIDASteven Naifeh e Gregory White Smith

Trad: Denise Bottmann

São Paulo: Companhia das Letras, 2012