Arquivos Diários: 10 novembro, 2009

O PÁSSARO BRANCO de vera lúcia kalahari / portugal


Um pássaro de asas brancas, desdobradas,

Anda a dançar na praia…

Há o rumor de ondas desgrenhadas,

Há espuma fervente e fria

E silêncio de ventos que não existem.

O barco da minha vida

Caravela d’esperança

Naufragou naquela praia,

Sem mar, só com o cantar doce, amargurado,

Do meu pranto.

Esse pássaro que nasceu comigo

Não mora numa gaiola,

Não nasceu nos verdes bosques,

Não é um pássaro de penas.

É um pássaro que canta

Nas longas noites sem luz,

Um canto de risos e prantos,

Um pássaro que agarrei

Com mãos trémulas de criança

E d’esperança.

Larguei para que voasse

E cantasse

Em todas as almas,

Fizesse nelas brotar flores,

Estrelas e amores.

O meu pássaro branco…

Branco como nuvens esvoaçantes,

Como um pássaro tecido de fios de luar…

Fugiu das minhas mãos trémulas de criança

Que se fechavam

E procuravam encurralá-lo

Em qualquer ninho de amor.

É agora um pássaro triste e desolado…

Um pássaro vagabundo

Açoitado por um vento furioso

Que o assusta e o arrasta p’ra solidão.

Um pássaro de asas murchas,

Roxas como lírios macerados,

Como um céu esfarrapado

Sem estrelas, sem luar.

Não houve ninhos que o abrigassem

Nem mãos trémulas d’esperança que o agarrassem.

De nada serviram meus prantos e minhas dores…

O meu pássaro branco, alvo como nuvens esvoaçantes,

Dança na praia que não existe,

A praia da solidão,

Ferido de dor e de morte,

Curvando as asas brancas

Que não são brancas,

Largando às ondas e aos ventos, as suas penas.

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DENISE ROMAN no PALACETE DOS LEÕES do BRDE / curitiba

Denise Roman encerra o calendário de exposições no Palacete dos Leões

A última exposição do ano no Espaço Cultural BRDE comemora os 30 anos de carreira de Denise Roman e traz a delicadeza, a imaginação sutil e as perfeições das imagens por ela representadas. Formada em 1984 em Desenho e Pintura pela Escola de Música e Belas Artes do Paraná (EMBAP), a artista retrata em “Diário da Varanda”, a rotina dos pássaros que pousam em seu terraço, em um edifício no bairro Batel, em Curitiba.

Denise utiliza a litografia, a gravura em metal, e a técnica escolhida para a exposição, desenho e pintura.  A fantasia lírica, que representa sentimentos e percepções, está sempre presente nas obras da artista, e a natureza é essencial para completar o amor que tem pelo desenho. “Fui rendida pela natureza”, completa a virginiana, perfeccionista em tudo o que faz.

A exposição “Diário da Varanda” está na segunda edição. A primeira aconteceu em 2008 no Sesc Água Verde. “Eu gostei tanto daquela exposição que resolvi revivê-la aqui”, comenta. No Palacete dos Leões, Denise traz imagens novas, quase todas diferentes da primeira exposição, mas, que não deixam de retratar a rotina dos pássaros.  Ana Itália Paraná Mariano, uma das curadoras da exposição, destaca que Denise, nos últimos dois anos, iniciou uma fase nova. Passou a olhar a varanda e aplicou a arte em desenho e pintura, deixou a gravura e passou a fazer telas. “É uma fase bonita, em que Denise continua com a temática do ‘mundo lúdico’”. Ana Itália destaca ainda que além da mudança, a artista continua fiel à gravura. “É uma das mais importantes gravadoras do estado. Seu trabalho, além de artista, deve ser notado também como orientadora de cursos de gravura, ensinando gerações de bons gravuristas”.

Sobre o trabalho da artista, o texto da curadoria diz: “Seu trabalho tem alma, vida própria e nos propicia interagir como espectadores na busca do que não está evidente à primeira vista… A contemplação estética é transposta para um espaço totalmente preenchido com a ânsia de historiar este mundo lúdico. Denise aguça nossos sentidos, nosso olhar para a contemporaneidade, que pode estar no presente, no passado entrelaçando dimensões de mundos reais ou não perceptíveis, presentes na quase totalidade de sua obra”.

Há 30 anos Denise Roman trabalha no Espaço Cultural Solar do Barão, sendo que nos últimos 22 anos se dedicou a dar aulas de gravura. A alegria e poeticidade, sempre observadas nos trabalhos de Denise Roman são reflexos de um olhar atento a tudo em sua volta, sejam imagens vistas na rua, chamados pela artista de Croqui Urbano, ou seja em uma simples tarde em que após colocar pedacinhos de mamão na varanda, a comilança dos passarinhos  vira reflexo em um diário sobre a vida. “Gosto de dar ao meu trabalho um sabor ilustrativo, brinco com papel e nanquim mexendo com figuras e texturas”, complementa a artista que é chamada pelos amigos de Denise Romântica.

convite azulejo preto cinza FINAL 1

azulejo “Diário da Varanda” – Denise Roman

 

Abertura

12 de novembro às 19hs

Exposição

De 13/11 a 08/12

Segunda a sexta-feira, 12h30 às 18h30

Espaço Cultural BRDE – Palacete dos Leões

Av. João Gualberto, 530/570 (com estacionamento)

Alto da Glória – Curitiba -PR

Informações: (41) 3219-8056

BRDE Poliana Dal Bosco
Estagiária / ASCOM
Fone: 41 3219.8035
Fax: 41 3219.8153
www.brde.com.br

MINHA POESIA de julio saraiva / são paulo


minha poesia não foi educada

na escola de bilac

e nunca será convidada para o chá

dos imortais da academia brasileira de letras

minha poesia anda descalça pelas ruas

do centro velho de são paulo

nenhum tradutor francês perderá seu tempo

debruçado sobre ela

nem será lembrada nos saraus familiares

não a dirão nas escolas

nos dias de festas cívicas depois que a

bandeira nacional onde se lê Ordem e Progresso

for hasteada por uma menina loura

minha poesia sai todos os dias

muito cedo da favela de heliópolis

pega ônibus lotado

desce pela porta da frente sem pagar a passagem

e vai vender balas no cruzamento da brasil com

[a rebouças

 

minha poesia é aquela mulher despudorada

que se oferece a qualquer um sem cerimônia

se bobear assalta e é capaz até de matar

minha poesia se alimenta do lixo das palavras

podres proibidas que não cabem na boca

das pessoas de bem e por isso deve ser execrada

de todas as antologias e condenada a trinta anos

[de silêncio