Arquivos Diários: 4 novembro, 2009

SÓ PARA ISSO, SÓ PARA TUDO, SÓ NOS INTERVALOS por zuleika dos reis / são paulo

Quando ouço alguém dizer que fulano nasceu só para isso, quase morro de inveja. Robert de Niro engordou quarenta quilos para interpretar O TOURO INDOMÁVEL. Carlos Vereza, que odiava cigarros, aprendeu a fumar quatro maços por dia para representar Graciliano Ramos na prisão, nos tempos do Estado Novo. São atores. Que mais poderiam ser?

Francisco de Assis conversava com os bichos. Chamava o Sol e a Lua de irmãos. Era santo, nada menos do que isso. Nada a fazer senão ser santo.

Dos navegadores portugueses Fernando Pessoa aprendeu o mote “navegar é preciso, viver não é preciso” (existem outras versões sobre os verdadeiros autores do referido mote, o que não vem ao caso, no presente momento) e seguiu-lhe, à risca, na linguagem, a rota de navegações sem descanso. Era poeta. Nada a ser senão poeta, e apenas isso. Se tivesse casado com a filha de sua lavadeira ai, pobre dela, a filha de sua lavadeira!

Há, em contraponto, os que nasceram para tudo e se contentam com isso. Os antropófagos. Os opíparos. Dormem em todas as camas e sobre todos os corpos; provam dos mais incompatíveis e inconcebíveis manjares; trabalham como  escafandristas desde o Mar Morto até ao Mar Vermelho; trazem no bolso  receitas para a cura de cada um dos males do mundo, tanto quanto para a cura do próximo mais próximo; portam sempre algum isqueiro para fumantes (a mais recente espécie de criminosos surgida nas ruas de São Paulo) que precisem infringir a Lei que proíbe o fumo em recintos públicos e fechados.Enfim: nenhuma escolha senão ser múltiplo.

Há, por fim, os que só acontecem nos intervalos. Nos intervalos entre os noticiários crêem no Futuro. No brevíssimo intervalo entre as dívidas assimilam novas necessidades de consumo. No intervalo entre silêncios sem sentido escrevem poemas os quais, por um segundo, consideram perfeitos. No intervalo entre pânicos

ensaiam grandes gestos de coragem que começarão a praticar na próxima segunda-feira (Como algum novo regime alimentar para perder vinte quilos).Nos intervalos entre ceticismos absolutos convencem os outros de verdades insofismáveis. Nos intervalos… arrumam as malas para partir mas jamais partem.

Assim, os que nasceram só para isso; os que nasceram só para tudo; os que só acontecem nos intervalos. Nada a dizer dos grandes BURACOS NEGROS.

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VOAR NAS ASAS DE UM POEMA de hamilton alves /florianópolis

Costumo dizer que, de quando em vez, vôo nas asas de um poema meu. Ocorre em determinados dias em que estou mais propenso a essa acrobacia. Não é, pois, sempre que isso acontece. Há que ter fatores propícios para possibilitar essa manobra do espírito. Ou uma perfeita sintonia com o teor do poema, que tem que combinar, por exemplo, com a cor do dia, se faz sol ou sombra, se venta e que tipo de vento, se norte ou sul, se encontro determinados tipos de pessoas, que estimulam esse processo ou o alimentam de qualquer modo ou ainda a cor do mar preponderante ou se revoltoso ou calmo – tudo isso me permite ter mais ou menos sucesso na prática desse salutar esporte. No sábado passado, encontrei o clima propício ao vôo com o poema que segue:

“As ondas batendo

Nas rochas dizem:

– efêmero! efêmero! efêmero!

As nuvens no alto

Seguem o mesmo estribilho:

– efêmero! efêmero! efêmero!

As gaivotas grasnando

Como que ensandecidas

Entoam idêntico cântico:

– efêmero! efêmero! efêmero!

O vento que sopra

Uivando feito lobo

Faz coro a tais vozes:

– efêmero! efêmero! efêmero!”

Dois peritos em poesia fizeram uma rápida abordagem sobre esse poema. Um me disse que, se excluísse os terceiros versos da terceira e quarta estrofes, o poema ganharia em beleza ou talvez em harmonia ou estaria mais bem expresso; outro opinou de forma diferente, alegando que, se fizesse essa operação, sugerida pelo primeiro, o poema desabaria na sua estrutura ou na sua expressão mais bela.

O caso é que, no sábado passado, como dito, voei nas asas desse poema (como outros tenho conseguido esse mesmo objetivo). Essa discussão, que se travou entre dois ledores, críticos de literatura ou conhecedores profundos de poesia, pouco pode ser por mim considerada, haja vista que estava entretido a visualizar a paisagem em volta.

Não há experiência, na verdade, mais interessante e divertida do que voar nas asas de um poema de que se gosta. Ou de alguma forma se aprecie. É uma forma inesquecível e inexprimível de giro por aí.

Esses moços, pobres moços! – por alceu sperança / cascavel.pr

O transporte coletivo tem evoluído tecnicamente, mas se aproxima perigosamente do caos. O Palácio das Araucárias anunciou que a Coreia e Cuba vieram copiar o sistema paranaense. Mas é só do ponto de vista técnico, pois “a tarifa não tem graça”, como diria Chico Buarque. Se coreano e cubano tiverem que pagar 2 reais pelo latão, põem a casa abaixo. Fidel cairia.

A vinda de técnicos cubanos a Curitiba é para avaliar fluxo e montagem de ônibus. Não são doidos de copiar o esquema tarifário. Depois do criminoso bloqueio imposto pelos EUA em 1961, não ficou fácil se transportar, mas os cubanos sempre fazem do limão uma limonada.

Frei Gilvander Moreira, que esteve na ilha, contou que viu táxis em triciclos, micro pick-ups também de três rodas, ônibus comuns, tipo jardineira, e os camellos – caminhões com a carroceria transformada em super-ônibus.

A tarifa tem graça: é quase de graça, alguns centavos. E o peão não demora a eternidade para se deslocar da casa para o trabalho. Mesmo na grande Havana o trabalhador mora em média a oito quilômetros do emprego. É um passeio barato.

“Muita gente vai trabalhar e volta sem ter que pagar pelo transporte, também uma forma bastante inteligente de economizar energia”, diz o religioso.

Instituição carona

Mas o interessante é a mania da carona. Todos dão carona a todos. Os carros em circulação, seja de propriedade do Estado operário ou de particulares, andam para cá e para lá levando mais gente além do condutor, que aqui leva só privilegiados, como o cãozinho querido.

“Vimos um grande número de pessoas pegando carona e muitos motoristas oferecendo carona, especialmente nos horários de pico”, relatou frei Gilvander.

Os carros da administração têm que dar carona, pois é determinação do governo. E os particulares dão carona por solidariedade. Aqui, se você não dá carona não é por falta de amor ao próximo: quem quer ser assaltado? Em Cuba não tem essa criminalidade apavorante.

Quando você vai tomar o táxi, reúne a patota para ir junto e o carro vai lotado. Aqui, o taxista começaria a rezar. “Percebemos que dar e receber carona é um valor socialista e faz parte da cultura, é o normal”, diz frei Gilvander.

Entre nós, pipoca pelo Brasil afora uma onda de tarifaços no lotação. Como é caro demais, qualquer reajuste é tarifaço.

Adicional e taxa

Em Alagoinhas (BA), o lotação acaba de ser reajustado de R$ 1,50 para R$ 1,70. Os estudantes não deixaram barato: foram às ruas se manifestar. O reajuste de 13% foi considerado intolerável – e é. Lotação deveria ser gratuito para o estudante que vai cumprir o dever de se instruir.

Os donos do poder acham que é justo cobrar a metade do valor da passagem do ônibus para que os estudantes cumpram seu dever. É o mesmo que cobrar um “adicional de satisfação” para quem paga impostos ou uma “taxa de careta” para quem tomar injeção.

Lotação também deveria ser gratuito para a dona-de-casa, que vai às compras para alimentar a família. Como é que pode ela ter que pagar a passagem inteira?

Igualmente, o desempregado tem a bela opção de gastar a sola do último sapato inteiro ou pagar a passagem inteira para sair em busca de emprego.

São situações absurdas. Quando houver uma sociedade justa – e um dia ela virá, céticos! – essa estupidez será considerada por nossos netos a prova do quanto éramos idiotas em pleno século XXI.

É incompreensível como alguém pode considerar normal e justo pagar uma tarifa absurda – R$ 2,20 em Cascavel. É coisa anormal, doentia. Como também é anormal e doentio haver veículos queimando petróleo e biodiesel. Uma sociedade que respeitasse a si mesma não teria veículos poluentes rodando por aí.

Mas a pessoa que não usa máquina poluente para se locomover é castigada: quando pretende sair de casa para dar lucro a alguma empresa, para trabalhar, fazer o dinheiro circular ou para estudar, recebe o castigo de pagar pelo movimento que faz pelo espaço da cidade. Onde vai dar lucro, gerar riquezas, produzir, melhorar a si e aos outros.

Lei elementar

É uma indecência alguém andar por aí dando lucros a todos e ainda ter que pagar para sair e fazer o bem. É algo como levar um soco na cara ao fazer caridade. Ou ter que comer um pratinho de sal antes de saborear o algodão-doce.

Os estudantes baianos estão pês da vida com o aumento do lotação para R$ 1,70. Mas os de Cascavel parecem felizes pagando a metade de uma tarifa que já tinha ido a zero.

Em 23 de outubro de 2008, a juventude cascavelense conquistou na Câmara Municipal, através de sua mobilização, o Passe Livre no transporte coletivo urbano. No entanto, amargaram sem muito chiar o fim dessa conquista.

Pobres moços! Suas antigas entidades de representação social eram combativas. Hoje, parecem satisfeitas com o governo neoliberal e com todas as coisas indecentes que ocorrem, tal como cobrar de um cidadão para se locomover em direção ao trabalho, à escola, às compras, à atividade suprema da sociedade capitalista, que é gastar, dar lucro.

Uma lei elementar nesta sociedade movida a dinheiro deveria ser:

“Aqueles que dão lucro terão direito a se locomover livre e gratuitamente e aqueles que lucram devem custear sua movimentação”.

Tarifa zero

Com um tiquinho de contribuição social de cada um que lucra com o movimento das pessoas, dona-de-casa alguma pagaria para ir à feira. Desempregado algum precisaria gastar ainda mais a sola do sapato. O lotação teria custo zero para pobres e remediados. A poluição urbana seria fortemente derrubada e a saúde geral da população iria melhorar.

Mas cobrar da dona-de-casa para fazer a feira, do estudante para engrandecer a Nação e do trabalhador para enriquecer nossos generosos patrões é uma coisa muito burra e sem o menor sentido.

Só leva à poluição, ao caos urbano e à multiplicação das doenças. Como é que aceitamos essa estupidez como coisa normal e justa?

O dia 26 de outubro foi o Dia Nacional de Luta pelo Passe Livre no lotação. Não se viu muitos jovens agitando as águas em benefício próprio, das famílias e da sociedade. Parece que, definitivamente, entregaram a rapadura.

E aí, moços? Querem continuar pobres?

 

O CORVO e a POMBA de joão batista do lago / são luis.ma

Para Edgar Allan Poe, Fernando Pessoa e Machado de Assis
(in memória)

.

Ah, aquele dia, naquele dia…
Hora em que à hora é morta!
Cansado já desta síntese do ser,
pensava apenas desfalecer.
Muito pensara. Muito estudara.
Fatigado devera estar e ser.

(Assim falara Edgar Allan Poe:
“Once upon a midnight dreary, while I pondered, weak and weary
Over many a quaint and curious volume of forgotten lore –
While I nodded, nearly napping, suddenly there came a tapping,
As of someone gently rapping, rapping at my chamber door.
“’Tis some visitor, “I muttered, “tapping at my chamber door –
Only this and nothing more.’”)

A mente a pique de pensamentos diversos me extasiava.
De um lado a outro – dentro do quarto – fazia avenidas
Como quem buscava guaridas para sua alma em feridas.
De repente, naquela hora, ouço batidas à porta:
“- Quem será a esta hora?” – indaguei-me por um momento.
Mas ainda cheio de pressentimento relutei ao atendimento,

Apesar do temor rápido consenti-me saber de quem
o lamento.

Ainda ocorre-me à lembrança:
o acontecido foi na primavera.
Mês em que a mente gera quimera,
que faz de toda gente que desespera
do saber toda sabedoria da filosofia,
que antes de causar harmonia,
por certo, deixa o ser em agonia e
tormentoso por adquirir consciência,
e de toda ciência obter a leniência
da razão mais pura do espírito em folia.

É prudente, então, atender à porta e
saber que sombra há por detrás dela.


A porta escancarou e nenhum vulto assomou.
“- Será que estou ficando louco!” – exclamei.
“Por certo ouvi há pouco o leve toque de alguém”.
Lá fora tão-somente a noite lúgubre brandia
nas asas de um vento frio do sombrio negrume…
De repente… Nova batida leve a chamar;
agora não mais à porta, mas na janela a tilintar.
Abro-a… Como um raio uma ave entra a se instalar.

E como diz no verso de Pessoa
Do Corvo contumaz que dele soa:
“Não fez nenhum cumprimento,
não parou nem um momento,
mas com ar solene e lento
pousou sobre os meus umbrais”.

E assim sem qualquer argumento,
instalou-se a Pomba no meu assento,
sem qualquer linguagem de lamento,
auscultava meu espanto do momento.

E assim, abstrusa e vaga, reinava impávida
sobre minha pilha de muitos saberes,
sem comentários, sem quaisquer dizeres,
como se esperasse de mim o primeiro verbo.


“- De qual confins sucedes ó Pomba rara?”
E ela, tranqüila e calma, apenas me olhava
como quem sente pena de um espírito avaro.
“- Porvindoiro donde vindes?” – quis saber.
“- Venho de dentro do ser…” – resolveu esclarecer.
“- … donde só de lá se pode nascer”.

Não me fez clara aquela resposta vaga.


“- Senhora vou repetir: donde vens em tua saga”.

“- Liberdade não se amarra ao tronco;
não se a prende feito dona rara ou coisa cara,
tampouco dela se aproveita para tanto entorpecer,
não é simples saber da vilania para enriquecer,
não é apodrecer-se como árvore de podre saber,
nem mesmo é toda verdade já tão gasta de filosofia
abarrotada de ciências e iguarias fáceis
de tanto ditas – por isso malditas – já em cada renascer”.

“Esta ave delira” – pensei sem exclamar.
“Não me convém como Corvo a ela retaliar”.

“- Donde venho!? Já logo sabereis, ó Corvo,
antes é preciso dizer-te: – Não estou a delirar!”.

(Se confuso já estava
o Corvo mais espantado ficou.
Considerou um estorvo
quando seu nome ouviu, pois
não o dissera em momento algum
– disso tinha certeza –
como com tanta clareza
a Pomba o revelava com altivez?
Por certo aquilo era um sonho
já produto do cansaço.
Resposta do abandonar-se
num quarto vazio e frio
entregue ao compasso de passos
num vazio calafrio
trazido pelo primaveril
da noite febril
do viver ardil.)

– Por quê não voltas à tua origem?
Por quê insistes nesta miragem?
Nesta tua presença inoportuna
realizada de forma gatuna
roubando de mim o sono fugaz
todo meu descanso e toda minha paz?

– Nunca mais –
respondeu a Pomba com convicção.

E assim falou Machado de Assis:
– Estremeço. A resposta ouvida
É tão exata! é tão cabida!
Certamente, digo eu, essa é toda a ciência
Que ele trouxe da convivência
De algum mestre infeliz e acabrunhado
Que o implacável destino há castigado
Tão tenaz, tão sem pausa, nem fadiga,
Que dos seus cantos usuais
Só lhe ficou, na amarga e última cantiga,
Esse estribilho: “Nunca mais”.

“- Que dizes?!
‘- Nunca mais! -’


Então serei condenado a viver com tua sombra
a me torturar todas as noites (e dias)? Jamais.
Vai-te daqui para as profundezas ou
Some-te para tuas clarezas com tuas incertezas;
não te quero mais a atormentar meus ais.”

“- Nunca mais” – repetiu.

“- Já que te instala nos meus umbrais
serás companheira e confidente;
vou declarar-te todas as dores,
falar-te de todos meus amores,
cantar-te todos meus horrores,
tudo isso e coisas que tais.”

“- Nuca mais” –
sentenciou a Pomba.

“- Serás a férula dos meus pensamentos
terei em ti a balança de todos os juízos
assim estarei certo de chegar aos paraísos
às cortes donde não se dão os lamentos
e por toda eternidade serei par dos justos
sendo assim de todos os seres o Augustus”.

“- Nunca mais” –
insistiu a ave rara.

“- Então não me atormente a alma já cansada,
toma teu tino e some na negritude da noite
donde me apareceste num agouro brilhar
e desde aquele instante vives a atormentar
este velho Cavaleiro do Templo de Sofia
oráculo de deuses dionisíacos da sabedoria”

“Nunca mais” –
insistiu a criatura.

Ah, aquele dia, naquele dia…
Hora em que à hora é morta!
Cansado já desta síntese do ser,
pensava apenas desfalecer.
Muito pensara. Muito estudara.
Fatigado devera estar e ser.

(Já manhã o sol se fazia presente
refletindo luzes em demasia no meu rosto.
Ausente.
Consciente e inconsciente.
A noite foi uma orgia!
A noite foi pura fantasia!)

Nunca mais…
Nunca mais…
Nunca mais…

Um sonho, nada mais.

Nunca mais.

———-

(in EU, PESCADOR DE ILUSÕES, 2006)