CLAUDE LEVY STRAUSS – por philomena gebran / curitiba

Reminiscências de um querido Mestre

A triste notícia, dada friamente, como acontece com todas as noticias – afinal é ofício do repórter, apenas informar:

“morre em Paris o grande intelectual Claude Levy Strauss”. Uma notícia como qualquer outra? Para muita gente, sim.      Para mim, não. Ele sempre será uma pessoa muito especial que continua viva, como sempre esteve em minha lembrança e em meus conhecimentos. Muito do que sei devo a ele, quando fui sua aluna em Paris.

Existem pessoas que não morrem. São imortais para nós. Levi Strauss é uma dessas pessoas. A notícia trazia uma lembrança que agora já é saudade. Uma vontade de voltar no tempo e vivenciar tudo outra vez.  A notícia, me fazia mais viva sua presença.

Às vezes é difícil cair na real ou aceitar os fatos e a realidade. A notícia me trazia de volta aquele que foi meu grande e sábio professor no Collège de France Paris. Figura humana impar e muito especial. Para alguns um intelectual polêmico, controvertido, e às vezes, até arrogante e prepotente.

Para mim não.

Impossível não ser reconhecido por todos, como um dos mais lúcidos intelectuais, do século XX; brilhante antropólogo, filósofo, etnógrafo, historiador, enfim, um sábio.

Viajei no tempo e me vi em Paris num pequeno auditório cheios de pessoas, esperando a entrada do famoso        professor. O silêncio era geral. Logo depois entra um homem simpático, muito elegante, terno escuro, óculos, magro, cabelos grisalhos e apresenta-se: “eu sou o professor que vou ministrar esse seminário a vocês”; como se precisasse de apresentação, “meu nome é Levi Strauss”, simples assim. Meu coração bateu descompassado. E acho que nesse dia perdi muito do que foi falado, tal a emoção.

Era o primeiro dia de um Seminário que se tornaria inesquecível para mim. Terminada a aula como é comum entre os franceses, ninguém fala com ninguém, e todos saíram em silêncio. Fiquei perturbada. Não sabendo direito o que fazer, timidamente, falei para mim: é “agora ou nunca”; tomada a decisão, fui lentamente, como fazem os tímidos, me aproximando de sua mesa e muito, sem jeito, mas com a ousadia da juventude, a voz quase nem saindo de tão baixa, pois sentia um misto de emoção, nervoso e medo.

Então, de repente cheia de coragem falei, creio que atropelando um pouco as palavras, tal a emoção; “gostaria de falar com o senhor”. Olhou-me curioso, pois na França não é nada comum alunos se dirigirem ao professor, sem antes, terem agendado um encontro.

Enfim, falei: – mesmo porque, já era tarde, para qualquer arrependimento: _conheço e já li seu livro Tristes Trópicos; gosto muito dele. E imediatamente, antes de perder a coragem, emendei: – sou brasileira e estou estudando aqui.          Passada sua surpresa pela ousada interpelação, ele perguntou, se eu era da Universidade de São Paulo. Disse-lhe que era do Rio de Janeiro e só então me lembrei de pedir desculpas pela informalidade de minha abordagem.

Para minha surpresa convidou-me a sentar, perguntou o que eu estudava, desde quando estava em Paris, se havia gostado de sua aula, etc., etc., e disse que eu ficasse a vontade para falar com ele sempre que precisasse e que depois das aulas, estaria pronto para esclarecer minhas dúvidas ou para debater questões.

Pronto. Era tudo que eu queria; perguntei se poderíamos conversar sobre seu livro, então ele me revelou que considerava Tristes Trópicos apenas um relato de sua viagem pelo Brasil; assim como, uma longa crônica. Contestei logo. –Pode até ser, mas uma crônica ou relato brilhante!

Dando minha opinião contraria, elogiando o livro que foi muito esclarecedor e que todos no Brasil o utilizavam em suas bibliografias. E ainda admirada de minha coragem, fiz tudo para “segurar” a conversa.      Falamos um pouco do Brasil das comunidades nativas, dos meus estudos lá e aqui, e o gelo foi quebrado. Perdi o medo e me pareceu que já éramos amigos; claro, guardando o indispensável distanciamento; em seguida me passou uma lista de seus livros que eu encontraria na biblioteca ou que poderia adquirir em livrarias, ainda brincando que estudante não tem condições de comprar muitos livros. Pura verdade, até hoje é assim.

Estava aberto um precedente, e quando os colegas mais próximos souberam, ficaram encantados com minha informalidade e logo aproveitaram a oportunidade de se aproximar do grande Mestre. Depois das aulas, ficava um grupo para esclarecer questões e a as perguntas eram muitas; os debates se sucediam sem pressa de ir embora; pois como eu todos queriam saber e saber cada vez mais sobre a nova antropologia e, principalmente sobre o novo método criado por ele; o estruturalismo, cujo estudo eu viria retomar e aprofundar no Mestrado, através de outros pensadores que foram por ele influenciados, como Michel Foucault, Marta Hanecker, Jacques Derrida, Louis Althusser e outros.

Porém, foi com ele que aprendi muito, não só sobre estruturalismo, mas sobre antropologia em geral; as aulas eram mais formais, ao estilo “Frances” mesmo; mas os debates que se seguiam, por pura generosidade sua e grande exploração dos poucos alunos que ficavam eram incríveis.E o papo se tornava mais coloquial, descontraído e, nada formal.

Lévi – Strauss se dizia não marxista, assim como, não se considerava um antimarxista, acho que não queria abrir demais sua ideologia. Tudo bem, graças a isso, estabelecíamos grandes e enriquecedoras discussões, já que a maioria do grupo era marxista. E, também não se dizia o pai do estruturalismo; se bem que insistíamos com ele que todos o viam como tal.

Seu objetivo era a criação de uma teoria “formal”, ou seja, partindo da elaboração mental para a realidade; negando assim, a base empírica. Para ele “estrutura significa o sistema relacional latente no objeto.” Estabelece então diferenças entre a noção de “estrutura social e relações sociais”. Dito em outras palavras, o modelo estrutural é uma construção teórica que não se relaciona com dados empíricos, como na História. É quase uma abstração do real, como explicava em nossas discussões.

O problema não depende da etnologia, mas da epistemologia”, dizia ele.

Atribuía a criação do conceito aos pais da lingüística Saussure e Mauss; mas, está claro que Lévi-Strauss “consagrou” o método no campo das ciências humanas, e mais, enunciou os conceitos de “sincronia e diacronia” para as sociedades sem escrita, o que elucida muita coisa.

Foi com ele que tomei conhecimento das teorias antropológicas, como por exemplo, do funcionalismo de Malinowski, do historicismo de Franz Boas, o evolucionismo (cultural) de Tylor e Morgan, etc., não o evolucionismo de Darwin; mas essa já é outra história;

Eu, particularmente, queria discutir com ele as relações entre História e Antropologia, no meu entender ciências que se completam, e uma influenciam a outra. Mas a questão é que por muito tempo, por “falsas” questões epistemológicas eram tratadas como disciplinas e de forma compartamentalizadas, com práticas e métodos, que mesmo no início do século passado  não contemplavam as exigências acadêmicas.

Consegui expor meu ponto de vista levantado à questão do embricamento entre História e Antropologia, pois para uma pesquisa necessitamos de ambas; e para analise de sociedades diferenciadas seria importante nos livrarmos, para sempre, do “mal” do positivismo e propor, não apenas a interdisciplinaridade, mas a colaboração entre História e Antropologia. Confesso que para meu espanto ele concordou plenamente comigo.

Neste sentido, houve uma abertura de Lévi – Strauss em nossos debates que nos permitiu “entrar” em sua obra para discutir seus livros como “Antropologia Estrutural” “Pensamento Selvagem”.

Sua famosa trilogia: “Mythologiques”, três grandes volumes sobre o homem, alimentação, costumes culturais , mitos, símbolos, enfim sobre como as diferentes  culturas se comportam e realizam a construção de suas sociedades, considerando a organização social, os sistemas econômicos e os sistemas míticos e a cultura material, por exemplo, foi extraordinariamente enriquecedor.

Devo porém, acrescentar, que a discussão sobre sua tese de doutorado: “Les Structures Elementaire de La Parente”, para mim, sua obra mais completa e abrangente, foi o ápice do Seminário e de nossas discussões e dos debates sobre estruturalismo. Foi um Curso que deixou muita saudade e que ninguém ficou feliz quando terminou, ao contrário, a tristeza foi geral.

Mas, a compensação é que todos saíram muito mais ricos em conhecimento científico, e em nossas reflexões; claro que muitas obras, não foram abordadas profundamente, como gostaria, porque nem haveria tempo.

Para mim houve um fator ainda mais rico e importante, que eu viria a formular mais tarde em minhas pesquisas; a reformulação de conceitos que considero equivocados e cheguei rapidamente a falar sobre isso com o grande mestre; apesar de ter discordado comigo em alguns pontos, foi mais positivo sua concordância em outros que agregaram em minhas pesquisas e estudos novos valores.

Só para citar um e não me alongar demasiado nesse ensaio, nada científico, mas apenas a expressão das minhas reminiscências. Consegui ao longo de minha vida profissional mudar o conceito de sociedades “primitivas”, como conceituado historicamente pelos antropólogos para sociedades “ágrafas”.

Desprezando, com a aquiescência de Levy- Strauss: “povos sem história” “povos vencidos”, “aculturados” e o pior, “primitivos” e ainda “sociedades simples”, para diferenciar as culturas que sempre foram marginalizadas pela História, das culturas ocidentais, ditas “complexas” como “culturas inferiores”. Nada mais equivocado.

Existem entre nós, culturas ágrafas que guardam grande sabedoria e são muito mais complexas e sofisticadas em suas organizações sócio, político, econômico e mítica que nossa “bela civilização ocidental”, plena de descriminações e preconceitos.

Por isso, graças ao Seminário com o Grande Levy Strauss adquiri a coragem necessária para mudar meu campo conceitual: “primitivo”? Jamais. “índio”? Nunca. Nativos sim, como somos todos. Sofro contestações? Inúmeras. É difícil  as pessoas  aceitarem novas propostas; o novo é sempre complicado, mais fácil ficar acomodado, não pensar muito e ficar repetindo o que já está cristalizado pelo tempo.

Mas, a exemplo do Mestre insisto, e sigo em frente com minhas inovações.

Não tinha intenção de discutir isso aqui, mas foi apenas uma digressão, para ilustrar o resultado do aprendizado; minha intenção é apenas a de prestar uma homenagem ao cientista, que já no início do século passado, soube tão bem chamar a atenção do mundo acadêmico para o absurdo das idéias positivistas ao considerarem que existem homens melhores do que outros, e sociedades superiores e inferiores, seja pela cor, seja pela escrita, seja pelos mitos, seja pelos símbolos, ou seja, pela cultura.

Para terminar uma sábia frase do sábio Homem:

…“hoje meu único desejo, é um pouco mais de respeito para o mundo, que começou sem o ser humano e vai terminar sem ele.”

 

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ilustração do site.

PRESIDENTE BARACK OBAMA concede entrevista a blogueira CUBANA – editoria


O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, concedeu uma entrevista à blogueira cubana Yoani Sánchez. É um fato inédito. A autora do blog Generación Y, que critica abertamente o governo da ilha.

A blogueira havia enviado um questionário com sete perguntas ao líder americano e ao presidente cubano, Raúl Castro, sobre a relação entre os dois países. Obama foi o primeiro a responder.

 

“Depois de meses de tentativas consegui fazer com que um questionário chegasse ao presidente americano com alguns desses temas que não me deixam dormir”, disse Yoani ao jornal espanhol El País. A entrevista foi publicada em espanhol e inglês. Aqui vão as respostas de Barack Obama

Presidente Barack Obama:
Agradeço esta oportunidade de compartilhar impressões com você e seus leitores de Cuba e do mundo, e aproveito para parabenizá-la pelo prêmio María Moore Cabot, da Faculdade de Jornalismo da Universidade de Columbia, recebido por promover o diálogo mútuo nas Américas através de suas reportagens. Fiquei decepcionado de você ter sido impedida de viajar para receber o prêmio em pessoa.
O seu blog oferece ao mundo uma janela das realidades da vida cotidiana em Cuba. É revelador que a internet ofereceu a você e a outros corajosos blogueiros cubanos um meio tão livre de expressão, e aprovo esses esforços coletivos para permitir que seus compatriotas se expressem através da tecnologia. O governo e o povo americano se unem a todos vocês antes mesmo do dia em que todos os cubanos possam se expressar livre e publicamente, sem medo ou represálias.

Yoani Sánchez:
Durante muito tempo, Cuba esteve presente tanto na política exterior dos Estados Unidos como entre as preocupações domésticas, especialmente pela existência de uma grande comunidade cubano-americana. No seu ponto de vista, em qual categoria assuntos de Cuba devem ser abordados?

Obama:
Todos os assuntos da política exterior têm componentes internos, especialmente aqueles de países vizinhos como Cuba, de onde procedem muitos imigrantes nos Estados Unidos e com o qual temos uma longa história de vínculos. Nosso compromisso de proteger e apoiar a livre expressão, os direitos humanos e um estado de direito democrático, tanto em nosso país como no mundo, também supera as demarcações entre o que é política interna e externa. Além disso, muitos dos desafios que compartilhamos, como a imigração, o narcotráfico e a administração da economia, são assuntos tanto internos quanto externos. Ao fim, as relações entre Cuba e os Estados Unidos devem ser analisadas em um contexto interno e externo.

Yoani:
Se o seu governo colocasse um ponto final nessa disputa, ele reconheceria o governo de Raúl Castro como oúnico interlocutor em eventuais negociações?

Obama:
Como disse antes, o meu governo está pronto para estabelecer laços com o governo cubano em uma série de áreas de interesse mútuo, como fizemos nas conversas sobre imigração e nas remessas de dinheiro. Também me proponho a facilitar o maior contato entre o povo cubano, especialmente entre famílias que estão separadas. Queremos estabelecer vínculos também com cubanos que estão fora do âmbito governamental, como fazemos em todo o mundo. Está claro que a palavra do governo não é a única que conta em Cuba. Aproveitamos todas as oportunidades para interagir com toda a sociedade cubana e olhamos para um futuro no qual o governo reflita as vontades do povo cubano.

Yoani:
O governo dos Estados Unidos renunciou ao uso de força militar como forma de pôr fim ao conflito?

Obama:
Os EUA não têm intenção alguma de utilizar força militar em Cuba. O que os EUA apóiam em Cuba é um maior respeito aos direitos humanos e às liberdades política e econômica. Os EUA se unem às esperanças de que o governo cubano responda às aspirações de seu povo de desfrutar da democracia e do poder determinar o futuro de Cuba livremente. Somente os cubanos são capazes de promover uma mudança positiva em Cuba, e esperamos que logo possam exercer as capacidades de maneira plena.

Yoani: Raúl Castro disse, publicamente, estar disposto a dialogar sobre todos os temas com o respeito mútuo como única condição e a igualdade de condições. Estas exigências lhe parecem desmedidas? Quais seriam as condições previas que seu governo imporia para iniciar um diálogo?

Obama: Por anos eu disse que era hora de aplicar uma diplomacia direta e sem condições, seja com inimigos ou inimigos. Contudo, falar por falar não me interessa. No caso de Cuba, o uso da diplomacia deveria resultar em maiores oportunidades para promover nossos interesses e as liberdades do povo cubano. Já iniciamos um diálogo, partindo desses interesses comuns – imigração que seja segura, ordenada e legal, e a restauração do serviço direto dos correios. São pequenos passos, mas parte importante de um processo para colocar as relações entre os Estados Unidos e Cuba a uma nova e mais positiva direção. 

Yoani: Que participação poderiam ter o cubanos no exílio, os grupos de oposição interna e a emergente sociedade civil cubana nesse hipotético diálogo?

Obama:
Ao considerar qualquer decisão sobre política pública, é imprescindível escutar quantas vozes diferentes for possível. Isso é precisamente o que viemos fazendo com relação à Cuba.

O governo dos EUA conversa regularmente com grupos e indivíduos dentro e fora de Cuba, que acompanham com interesse o curso de nossas relações. Muitos não estão de acordo com o governo cubano, muitos não estão de acordo com o governo americano e muitos outros não estão de acordo entre si. O que devemos todos estar de acordo é que temos que ouvir as inquietações e interesses dos cubanos que vivem na ilha. Por isso é que tudo o que vocês estão fazendo para projetar suas vozes é tão importante – não somente para promover a liberdade de expressão, como também para que as pessoas de fora de Cuba possam entender melhor a vida, as vicissitudes e as aspirações dos cubanos que estão na ilha.

Yoani: O senhor é um homem que aposta no desenvolvimento de novas tecnologias de comunicação e informação. Contudo, nós, cubanos, continuamos com muitas limitações para acessar a Internet. Quanta responsabilidade tem nisso o bloqueio americano em relação a Cuba e quanta tem o governo cubano?

Obama: O meu governo deu passos importantes para promover a corrente livre de informação proveniente de e dirigida ao povo cubano, particularmente por novas tecnologias. Possibilitamos a expansão dos laços das telecomunicações para acelerar o intercâmbio entre o povo de Cuba e do mundo exterior. Tudo isso aumentará a quantidade de meios através dos quais os cubanos da ilha poderão comunicar-se entre si e com pessoas de fora de Cuba, valendo-se, por exemplo, de maiores oportunidades em transmissões de satélite e de fibra ótica.

Isso não acontecerá de um dia para o outro, nem tampouco poderá ter plenos resultados sem ações positivas do governo cubano. Entendo que o governo cubano anunciou planos para oferecer maior acesso à internet nos postos de correio. Acompanho estes acontecimentos com interesse e exorto o governo a permitir acesso à informação e à internet sem restrições. Além disso, são bem-vindas sugestões sobre áreas nas quais podemos mais tarde ajudar no livre fluxo de informação dentro, de e para Cuba.

Yoani: Estaria disposto a visitar o nosso país?

Obama: Nunca descartaria uma ação que tenha como objetivo avançar nos interesses dos Estados Unidos ou promover as liberdades do povo cubano. Ao mesmo tempo, as ferramentas diplomáticas devem ser usadas somente após cuidadosa preparação e como parte de uma estratégia calma. Eu adoraria visitar uma Cuba, onde todas as pessoas possam desfrutar dos mesmos direitos e oportunidades de que goza o resto do povo do continente.

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OM.

DONO de BLOG é condenado a pagar R$ 16 mil por comentário de internauta


Post abordava briga em colégio do CE; internauta insultou diretora.
Blogueiro perdeu prazo para recurso e juiz ordenou penhora de bens.


 

Por conta do comentário de um internauta em seu blog, o estudante de jornalismo Emílio Moreno da Silva Neto, de 33 anos, morador de Fortaleza (CE), foi condenado pela Justiça cearense no mês de julho a pagar uma indenização de R$ 16 mil.

Emílio perdeu o prazo para recorrer e, no último fim de semana, recebeu uma notificação de penhora de bens para o pagamento do valor.
O caso começou em março do ano passado, quando o universitário repercutiu em seu blog uma briga entre dois estudantes do Colégio Santa Cecília, na capital cearense. No comentário, um internauta insultou a diretora, uma freira chamada Eulália Maria Wanderley de Lima, e criticou sua atuação na intermediação da briga dos estudantes.

No segundo semestre do ano passado, a diretora da escola abriu uma ação por danos morais contra o blogueiro. Nas quatro primeiras audiências, segundo informações do Tribunal de Justiça do Ceará, o estudante compareceu e a diretora, não. Ela alegou viagens e outros compromissos profissionais.

Na quinta audiência, foi o estudante quem faltou, mas, ao contrário da diretora, não deu justificativas. Por conta disso, o juiz aceitou a ação e o condenou ao pagamento de 40 salários mínimos, o equivalente a R$ 16,6 mil na época. Emílio perdeu o prazo para recorrer e a ação transitou “em julgado” – ou seja, não há mais possibilidade de recursos.

No último sábado, dia 21 de novembro, Emílio foi notificado sobre o mandado da Justiça de penhora de bens para pagar a quantia e tem possibilidade de tentar reverter a penhora.

O estudante afirma que não tem bens para serem penhorados e alega que tentou resolver o caso “amigavelmente”. “O que eu realmente lamento é que não tenha havido um diálogo mais tranquilo, sem que houvesse a necessidade de uma ação na Justiça. Ofereci direito de resposta, apaguei de imediato o comentário. Enfim, acho que tudo isso é fruto de um grande equívoco. Lamento realmente.”

 

Mariana Oliveira e Marília JusteDo G1, em São Paulo

RECADO À MULHER AMADA de manoel de andrade / curitiba

Eu te juro, amor meu

que eu amava o canto das cigarras em dezembro,

o aroma dos bosques e da chuva,

mas o tempo, como uma lança,

fez sangrar minha ternura

e era preciso devolver os golpes cara a cara.

Era preciso partir

e inaugurar a vida novamente.

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Era preciso partir

eu te asseguro.

Partir de busca em busca até morrer.

Agora…, eis-me  aqui,

entre a poesia e um estandarte;

e contudo, desde o primeiro dia,

tu conheceste esse pedaço de minh’alma.

Tu sabias do meu despojamento

e da minha esperança;

sabias das minhas navegações

e que eu vinha com uma infância de barcos e marinheiros.

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Sim… é verdade…

por algum tempo tu me fizeste ancorar por tanto amor,

mas eu sempre fui um habitante do vento e da distância

e somente te pude amar com um coração feito caminhos.

Ai amada…

eu nunca aprenderei a regressar…

a vida me ensinou a partir sempre

e a dizer adeus ao que amei.

Meu próprio canto é uma despedida…

é sempre um passo a mais para o combate.

Talvez eu volte quando comece a florescer a rubra messe

quando sentir que cessaram os tambores

e que regresso entre os sulcos de uma aurora.

.

Mas agora… amor

eu sou a voz e o sangue de um guerreiro

e bem quisera incendiar-te com esse sol que trago dentro.

Eu bem quisera

e já quis tanto

que além desta ternura

e da espera,

fosses também a companheira do meu sonho

e uma península do meu punho

e do meu canto.

Cali, setembro de 1970

Do livro POEMAS PARA A LIBERDADE, Editora Escrituras, 2009

DESCONTRUÇÃO de lucas paolo / são paulo


Se eu pensasse hoje

No eu ia feijão

De anteontem tristeza

.

Saudades faixas à mesa

Do não outrora talvez

Minhas tuas pernas contorcidas

.

Ensimesmados olhos teus

Do eterno de quando em quando

Meu remorso esbugalhado

.

Desvirginados cancros

Do chão de nossa torre

Hemoptise de meu marfim

*  *  *

Acultura São Paulo!

De teus ontem bois de agora

À sarjeta: nosso epitáfio

MEU CORAÇÃO por joanna andrade / miami.usa

Meu coraçao – uma bomba ativada pela dor do simples pensar

Se  existo no meio de um mundo hipocrita e imbecilizado pelas mediocridades alheias ao meu bom querer- que meu mundo nao caia em descrença

Nao deixe a dor no peito ensurdecida se transformar num longo suspiro de morte em busca de um consolo solitario

Impeça a ira e transforme minhas unhas  inoxidaveis e meu coraçao vudu em paz e os segundos de tormento em salvaçao de minha boa alma

Dualismo duelante dolorido decalcificante deliberado dicotomico

Meu coraçao – uma bomba comandada por um cerebro maquinado a exercer a funçao de guerreiro

Que as marcas das punhaladas recebidas continuem em minhas costas e eu nao grave in memorium o mau feitor-  a falsidade deve ser colocada para tras

Sendo a força do destino  propulsora em direçao aos objetivos e aniquiladora de defeitos e limitaçoes – livre-me do mal Amém!!!!

STILUS segrega deficiente, competente, na PARAÍBA !

Amiga(o)s,

A denúncia abaixo tem um significado especial para mim. A mãe de Mariana, Joana Belarmino, minha amiga desde 1984, é cega desde o nascimento. No entanto, é cantora, escritora, com várias obras publicadas, jornalista, doutora em Comunicação Social, professora do curso de Comunicação Social da Universidade Federal da Paraíba. Tem milhões de razões, portanto, para se indignar.

Um abraço

Alberto Moby

 

 

“Somos os pais de Mariana de Sousa Siqueira Santos e vimos denunciar fatos que afrontam direitos de cidadania, de igualdade e dignidade humana ocorridos com nossa filha. Mariana tem 23 anos e no mês de julho do próximo ano concluirá seu curso de Design de Interiores, no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia – IFPB, campus de João Pessoa.

Como a maioria dos estudantes do ensino superior do país, Mariana tem o seu currículo cadastrado para estágio no  Centro de Integração Empresa-Escola – CIEE.
Na semana passada recebeu a notícia de que o seu perfil havia sido selecionado para uma vaga de estágio na empresa Stilus, em João Pessoa, localizada no Bairro dos Estados.

No próximo dia 25, às oito da manhã, os candidatos com perfil aprovado farão uma prova de seleção para a vaga de estágio. Entretanto, Mariana não estará entre eles. E por que Mariana não poderá fazer a prova? Recebemos um telefonema do CIEE informando que a empresa argumenta que “não há no momento, oportunidade para pessoas como Mariana, que tem uma deficiência auditiva”. Ainda que ela use prótese e – apesar da perda auditiva - seja oralizada, se comunicando plenamente.

Estudante aplicada, Mariana maneja com destreza, softwares como AutoCAD, Cinema D4 e realiza com perícia, tarefas de renderização, projeto e decoração de ambientes. Na empresa Stilus, no entanto, sequer vai ser lhe dada oportunidade para participar de uma seleção de estágio. Mariana tem uma trajetória de vida bem sucedida. Venceu inúmeras barreiras e destaca-se na sua formação. É uma pessoa consciente, cumpridora dos seus deveres de estudante, de filha, de cidadã.

No entanto, tem  enfrentado dificuldades múltiplas numa sociedade onde nem sempre pessoas como ela estão incluídas e reconhecidas. Mariana sabe que na sua vida, os desafios estão sempre a exigir coragem, disciplina e uma luta permanente na defesa dos seus direitos. Nós, os seus pais, somos os seus aliados incondicionais. Neste momento só temos a nossa voz de indignação, de protesto, de repúdio à prática excludente e mesquinha desse tipo de empresa. Queremos que essa nossa voz se espalhe. Que seja ouvida por vocês que são pais, filhos, amigos… queremos que nossa voz seja ouvida pelas pessoas com deficiência ou não, pelas autoridades jurídicas deste país, desta nossa cidade.

 

Além da denúncia pública, estaremos buscando  providências legais junto ao Ministério Público para que outros jovens, em condição semelhante, não venham a passar por tamanho constrangimento, impunemente.

 

Lau Siqueira e Joana Belarmino

 

JUIZ do MATO GROSSO censura BLOG por emitir OPINIÃO contra DEPUTADO CORRUPTO

Blogueiros vão recorrer contra mordaça em MT

Adriana e Cavalcanti vão ao TJ para tentar derrubar liminar que os impede de ‘emitir opiniões’ sobre deputado alvo de 92 ações por desvios de verba

Daniel Bramatti e Moacir Assunção

SÃO PAULO - Dois blogueiros de Mato Grosso vão recorrer na próxima semana ao Tribunal de Justiça do Estado para tentar derrubar a censura imposta no último dia 10 por decisão do juiz Pedro Sakamoto, da 13ª Vara Cível.

Adriana Vandoni e Enock Cavalcanti, responsáveis pelos blogs Prosa e Política e Página do E, respectivamente, vão apresentar agravo de instrumento ao TJ.

No dia 10, o juiz atendeu a um pedido de liminar do deputado José Geraldo Riva (PP), presidente da Assembleia Legislativa de Mato Grosso, que se disse vítima de dano moral. Os blogueiros foram proibidos de “emitir opiniões pessoais pelas quais atribuam (ao deputado) a prática de crime, sem que haja decisão judicial com trânsito em julgado que confirme a acusação”. O juiz também determinou que dois textos sobre o deputado fossem retirados do blog Página do E.

José Geraldo Riva é alvo de 92 ações civis públicas propostas pelo Ministério Público, nas quais é acusado de desviar cerca de R$ 450 milhões da Assembleia, segundo a ONG Movimento Organizado pela Moralidade Pública (Moral).

Ademar Adams, diretor da Moral e autor de artigos sobre supostos atos de corrupção que envolvem o presidente da Assembleia, também foi proibido de se manifestar pelo juiz Sakamoto, assim como o jornalista Antônio Cavalcanti e o advogado Vilson Neri, integrantes do Movimento Contra a Corrupção Eleitoral (MCCE).

Adams disse que pretende divulgar, na próxima semana, carta aberta ao juiz Sakamoto, na qual afirma que o Estado não pode interferir na opinião de um jornalista. Segundo ele, o deputado Riva o processou para atingir a ONG da qual faz parte – o MCCE é um dos promotores da campanha Ficha Limpa, que pretende impedir políticos processados por corrupção de participar das eleições.

Adriana Vandoni disse que considera a censura “um atentado contra a democracia”. Enock Cavalcanti se declarou surpreso com a censura prévia. O deputado Riva não foi localizado na Assembleia ontem, em virtude do feriado na capital mato-grossense.

 

grifos do site.

ALEPH NÃO QUER ME DAR O MUNDO – por zuleika dos reis / são paulo

Não sei quantos é Daniel: no mínimo dois. Ao segundo, que identifico, darei o nome de Aleph, nome da primeira letra do alfabeto hebraico, também de um livro e de conto de Jorge Luis Borges, conto no qual o termo Aleph indica o ponto no espaço de onde se podem ver todos os demais pontos do Universo.

Quando vi Daniel pela primeira vez, olhei seu rosto de musgo e neve e não pensei em nenhum profeta bíblico nem no rosto talhado entre os rochedos, nos rochedos do conto de Hawthorne.

O rosto mudo, de pedra, do conto de Hawthorne. Mas este é o rosto de Aleph, não o de Daniel. O rosto mudo de Aleph, ou melhor, a boca muda de Aleph, perdida de algum verbo original.

Não, não é exatamente muda. Dela, um sopro primeiro, leve sopro que vai virando respiração e, dependendo do que lhe digo, o que se tornou respiração vai se alterando muito, quase se transformando num grito, mas não chega a formar uma sílaba, que uma sílaba seria o começo da palavra, e a palavra já é o mundo. Aleph não quer isso, só me ouve como se eu fosse o Demiurgo. Aleph me ouve como se de minha fala lhe pudesse vir o ser, o ser dele mesmo ou o ser de Daniel, Aleph é consciente desta hipótese? Aleph quer que o mundo lhe venha de mim.

Eu tento, tento, mas sei que o que quero é chegar a Daniel, desesperadamente chegar a Daniel, através de Aleph. Chegar a Daniel, que não consegue nunca sonhar plenamente com seu próprio rosto, assim como jamais consigo sonhar plenamente com o meu próprio, coisa que só comecei a compreender de verdade depois da vinda de Daniel.

Qualquer semelhança é e não é mera coincidência. Escrevo tal frase assim como a advertência em um livro ou em novela de TV, para suportar o desespero, esse que me dá vontade de sair gritando pelas ruas ou de gritar a Daniel, pelo telefone, o seu verdadeiro nome, o nome que consta em sua certidão de nascimento, o mesmo pelo qual as pessoas o conhecem. O pavor de ter enlouquecido sozinha ou de ser a presa de uma outra Vontade, em um jogo inimaginavelmente cruel, obriga-me a um quase sobrenatural esforço, a fim de alcançar um mínimo de sensatez, e aí corro para Rubem, para enlouquecer do modo diametralmente oposto, sempre carregando e mantendo a certeza de que o meu pesadelo é maior do que os deles dois, somados. Rubem não sabe de Daniel-Aleph nem Daniel sabe o verdadeiro nome de Rubem e, de mim, cada qual colhe a metade que conhece e que sabe administrar.

O homem chamado Daniel não corre o risco de ser identificado, a não ser pelos seus porta-vozes, esses que ele utiliza para saber se estou aqui, em minha casa, com minha mãe, digamos num sábado à noite. É verdade que jamais descarto completamente a possibilidade de o mundo ter se tornado uma alucinação auditiva, embora tal hipótese seja algo indescritível, à Poe. Ligo todas as possíveis e impossíveis antenas para tentar apreender a verdade e creio que suportaria qualquer uma, qualquer, tendo, no entanto, que me resignar em cada segundo, na eternidade de cada dia, a este suplício inimaginado pelos deuses, até que o homem Daniel se transmute no Anjo da minha vida.

FILHOS, seus medos, meus medos – por marilda confortin / curitiba

Levei anos para convencê-los de que fantasmas não existam e que os barulhos que ouviam eram de seres vivos, inofensivos.

Fiz de tudo para que perdessem o medo do escuro, dormissem sozinhos, seguros.

 

E eles cresceram…

 

Hoje, sou eu quem teme os barulhos da noite.

Sirenes, disparos, gritos, freadas, gemidos, uivos, gargalhadas.

Morro de medo de ficar sozinha e não durmo enquanto não chegam em casa.

Desminto tudo o que eu disse sobre fadas e super-heróis. É pura crendice!

O que existe são homens cruéis, mulheres malvadas, seres invisíveis, drogas, pragas, vírus terríveis, doenças fatais.

O mal existe, meus filhos. E é muito real.

Riem como se meus conselhos fizessem cócegas, os pentelhos!

A menina, fica uma hora na frente do espelho,  diz que o chapeuzinho vermelho não ta com nada, que o lobo mau é um “coisarada”, tudo de bom, um cara legal.

Acha normal usar piersing na orelha, na sobrancelha, na língua, no umbigo, nos lábios (pequenos!), fez uma tatuagem nas costas, gosta de balada, ilha do mel, futebol, cerveja e o escambau. Diz que não é para eu me preocupar porque ela vai casar com um czar e morar num harém. Amém.

O menino, ainda acredita em super-heróis, vampiros, lobisomens, sei lá o quê e continua jogando RPG.

Pensa que aquela ruiva que conheceu na praia é uma sereia de saia.

Tadinho… Ainda não perdeu o medo de dormir sozinho.

Só dorme se for bem agarradinho com aquela cobra que me chama de sogra!

Sereia… Baleia, isso sim! Engoliu o meu filhinho!

Vejam só! Ela me disse que eu vou ser avó de um cardume de peixinhos!

Que hilário: Meus netinhos dentro de um aquário jogando beijinhos…

 

Filhos…  Filhos!

Nunca vêm com nota fiscal nem com manual de instrução.

Não avisam quando crescem e é só piscar, que desaparecem.

Mas uma coisa é certa: Mesmo que partam, quebrem, caiam, ou não saiam bem do jeito que a gente queria, não importa. Amor materno tem validade eterna.

Os filhos, estão sempre na garantia.

O QUE ESTE ARTIGO TEM A VER COM ÉTICA? – por joão batista do lago / são luis.ma

Por um bom tempo pensara o Ex-presidente Fernando Collor de Mello como o introdutor do pós-modernismo de governo no Brasil. Hoje vejo que estava literalmente enganado. Foi sim um Fernando, mas o Henrique Cardoso. Este é o verdadeiro “industrial” desse fenômeno, que, de posse de um capital intelectual de primeira grandeza, soube “estruturar” uma planta de fábrica capaz de produzir em série produtos novos para um mercado atolado na ignorância e na inconsciência de si devido ao seu baixo nível intelectual, cultural e, sobremodo, educacional. Mas também devido ao imobilismo dos produtores industriais-intelectuais nativos – mesmo os independentes – que não foram capazes de combatê-lo ou ficaram subsumidos pelo medo de serem considerados retrógrados.

Podemos dizer que esse capital intelectual de Fernando Henrique Cardoso é uma herança ontogênica. Ele o obtém a partir da corrente sociológica da USP, mais precisamente, da Escola de Sociologia de São Paulo, que tinha por ícone Florestan Fernandes. Foi exatamente aí que Cardoso aprendeu a “pensar o Brasil” dentro de uma matriz pós-moderna, noutras palavras, a considerar que “tudo” que “não” estivesse alinhado aos novos conceitos originados nessa Escola, era arcaico, velho ou, no mínimo, retrógrado e ultrapassado. A influência foi tamanha que engessou outras correntes do pensamento sociológico brasileiro e impactou, de certa maneira, a intelectualidade nacional.

Essa corrente sociológica paulista, ao pensar o Brasil, descobriu que tinha espaço para o fabrico de um produto novo no campo da Política. Era fundamental que, dali, surgisse um candidato que pudesse, efetivamente, conquistar, como novo Príncipe, a mais alta magistratura do Brasil: a Presidência da República (para definitivamente estabelecer um sistema de dominação hegemônico do pensamento paulista, sobre a política dos caciques do nordeste e dos caudilhos do sul).

Mas quem seria esse candidato?

A escolha recaiu sobre Fernando Henrique Cardoso por que, este, tinha (e tem) (sub) ligações com as Forças Armadas, recém apeada do Poder (1985), posto que, era (e é) um belo exemplar descendente de militares revolucionários de 1922 e 1930. Ora, isso, de per se, era um fermento muito saudável para a construção do político FHC, ao mesmo tempo em que se enunciava que a eleição de um metalúrgico, naquela época (1994), ainda não era bem vista pelos milicos de pijama com voz forte na caserna, assim como pela maioria dos generais da ativa.

Aliado a tudo isso, FHC, fora um professor de Sociologia exilado no Chile e na França, sendo posteriormente aposentado compulsoriamente pelo AI-5. Pronto, o “paletó” destinado a vestir o Presidente do Brasil cabia, finalmente, num integrante da corrente sociológica da USP.

 

* * *

 

Eleito Presidente do Brasil por duas vezes (1994 e 1998) FHC tratou de implantar o projeto político que nascera naquela escola sociológica. Ao mesmo tempo introduziu sua marca pessoal. E aos meus olhos o principal carimbo de FHC na sua primeira gestão (1994-98) não se encontrava necessariamente na sua forma de governar, mas na sua intenção de desconstruir quaisquer pensamentos, idéias, ideologias ou conceitos que, de alguma maneira, estivessem relacionadas – por mínimo que fosse – com políticas de tipologias varguistas, janguistas, brizolistas e janistas, por exemplo.

Não é, pois, à-toa que FHC, ao ser eleito declara em alto e bom som: “Esqueçam tudo o que escrevi”. Paradoxalmente essa sua frase desvela duas intenções: (1) admitir que, mesmo o que ele escrevera já era velho, portanto, tudo o mais era arcaico; e (2) que novo deveria ser entendido e compreendido a partir dele, portanto, somente a partir dele era que se deveria pensar no Brasil moderno, mais precisamente, no Brasil pós-moderno.

E como isso ocorre? Aos meus olhos reside aqui um conceito que o infiro como “supra-valia” do capital intelectual de FHC que é, e assim o demonstra, um “Sujeito” concatenado com o seu tempo-espaço, com o novo, com o moderno, com o pós-moderno… E por isso mesmo capaz de produzir novos conceitos, de certa forma intimidatórios, o que vai arrefecer (e muito) a crítica ou o “criticism” acadêmico brasileiro, e conseqüentemente, o político. Então, focado nesse seu “Eu”, FHC, introduz na nação o “self” (Jung), que não é um conceito sociológico de raiz, mas psiquiátrico, e que quer significar a centralidade do Ser-de-si, do Ser-para-si e do Ser-aí, isto é, ele, FHC, constrói-se como o único centro da personalidade do Estado brasileiro. Somente a partir dele o Brasil será resolvido.

Eu vejo nessa postura fernandiana (de então) algo parecido com o Rei Luis XIV, de França: “L’État c’est moi (O Estado sou eu)”. E assim ocorreu por um bom estádio.

É mesmo, até, possível interiorizar, neste artigo, para bem definir o padrão estrutural da personalidade e do caráter do então Presidente FHC, o conceito original do “self” formulado pelo médico psiquiatra suíço Carl Gustav Jung: “O Si-mesmo representa o objetivo do homem inteiro, a saber, a realização de sua totalidade e de sua individualidade, com ou contra sua vontade. A dinâmica desse processo é o instinto que vigia para que tudo o que pertence a uma vida individual figure ali, exatamente, com ou sem a concordância do sujeito, quer tenha consciência do que acontece, quer não”.

A ideação do “self” em FHC é tão forte que, ainda hoje, o Governo Lula, já no seu segundo mandato, é considerado uma “continuidade” do Governo FHC. Infelizmente, nesse ponto, Lula não consegue desconstruir o fantasma de FHC que o persegue obstinadamente.

Para encerrar este artigo introduzo aqui um fato assistido, visto e ouvido por todos os brasileiros – mas que não foi devidamente levado em conta ou analisado corretamente (segundo o meu pensamento) como o faço aqui e agora.

Após a vitória da primeira eleição do Presiente Lula – entre os meses de outubro (após dia 25), novembro e dezembro -, antes de passar definitivamente a faixa de Presidente, FHC inaugurou mais uma marca do seu “self”, ou seja, fez com que todos os seus ministros dessem declarações destacando que Lula iria receber um país, no mínimo, concatenado com a “nova” filosofia econômica mundial. E isso ficou claro – mas claríssimo mesmo – com as constantes declarações do Ministro Pedro Malan, que inisistiu ardorosamente (até a posse de Lula) na continuidade e na manutenção dos contratos acordados pelo Governo FHC.

Houve momentos, inclusive, em que vários setores da sociedade civil brasileira chegaram a defender a continuidade de Malan à frente do Ministério da Economia… Assim como defenderam a continuidade de Hermínio Fraga como presidente do Banco Central…

O que aconteceu depois? Deixemos para outro artigo pois daí já estaremos falando do Governo Lula.

Mas afinal, “o que este artigo tem a ver com a ética?”. Pense, analise e infira as suas conclusões.

 

 

 

Guerrilha em Curitiba nos anos 80 – de tonicato miranda / curitiba


 

Os trens arrebentaram pessoas ao ar e às paredes

na explosão política e suicida de Madrid às 10h 13 minutos

Na mesma hora arrebentou violentamente em mim

a bomba da saudade mortal por amigos, pelo jazz e por lutos

 

Em qual guerrilha da vida perdi os amigos, as minhas histórias?

Ai, esta dor lancinante ferindo-me a alma, açoitando-me a cara

Ela morde-me com sua boca de espinhos todas as memórias.

É a tristeza instalando-se, invasora, no meu pastel de Santa Clara

 

Guerrilheiros demolem prédios que espetam a bunda do céu

arrebentam tudo em nome da causa e do genuflexório a Maomé.

Nessas horas não há flores, nem pássaros, nem da odalisca o véu

tudo justifica a causa – em nome de Alá se mata, se morde, tudo é fé.

 

Mas nada mata mais do que ter sido perdido na agenda dos amigos

Não sabem onde moro, não sabem como estou morrendo saudoso

por um singelo copo de vinho e um resto de pedaço de queijo antigo

não importa se ele está agora, muito tempo depois um tanto rançoso

 

Os amigos me faltam como o ar, não como o alimento, as carradas,

nada é mais importante, estou nas ilhas da solidão, como Abrolhos.

Como me faz falta um bar, e as caras das mulheres descamadas,

com suas máscaras ossudas e sofridas no espelho dos meus olhos

 

Quando lhe faltam os amigos, faltam também os desatinos

e ninguém consegue sobreviver sem dois quilos de loucura.

Falar mal de si deveria ser ensinado na escola aos pequeninos

para terem tolerância e sobrevida quando doentes no parto da cura

 

Todos querem estar um pouco loucos de quando em vez.

Mas como representar no palco sem platéia a sua própria odisséia?

Como trabalhar o choque do trem de Madrid e ainda assim outra vez

entrar no bar, e pedir: dê-me uma dose de vinho, outra, e meia

 

Precisamos dos amigos como ouvintes, como dial do coração

que nos tombem sobre a cama após o nosso mais vergonhoso porre

para suportarmos as grandes catástrofes humanas de emoção

quando guerrilheiros atacam, explodindo tudo que sonha e corre

 

Sinto falta do Gerson Maciel, Helena, Lulo, Desirée, Nádia, Bia de Luna,

e tantos outros poetas que se explodiram nos trens das noites curitibanas

não esperaram a chegada dos guerrilheiros de Madrid, morreram suas lunas

em noites invernais, tornando-se todos cidadãos ocultos de pijamas

 

Sinto falta dos bares aonde se chegava devagar, como rato de cozinha

mordiscando um queijinho aqui, bebericando um aperitivo ali, sorrindo um riso lá

tudo sobre os olhos atentos da dona do boteco tão desamada e comezinha

quase rompemos a sandice do mar que não tivemos para ir até a Porta de Alcalá

 

 

HAICAIS de EDUARDO HOFFMAN /curitiba

Ao Reinoldo Atem:

 

 

 

tigre de bengala

 

de soslaio na soleira

 

da porta do bar

 

 

 

 

queria carne de onça

 

 

=

 

 

 

habeas coppus

 

 

graças

 

ao som

 

das taças

 

 

=

 

 

o céu

 

refletido na água

 

 

se passar uma peneira

 

 

quantas estrelas !?

 

 

=

 

 

arrimo

 

 

 

 

quanto eu

 

 

quanto in

 

 

quanto ai

 

 

assim murmurava

 

o samurai

 

 

=

 

 

mi Tarzan

 

 

you Jane

 

 

vamos dançar um orangotango ?

 

 

HÁ 46 ANOS : “John Fitzgerald Kennedy é assassinado em Dallas” – por max altman / são paulo

A primeira dama Jacqueline Kennedy raramente acompanhava o marido em seus compromissos políticos. Dessa vez, estava ao lado dele, em 22 de novembro de 1963, junto com o governador do Texas, John Connally, e sua mulher, na carreata que evoluía a 15 quilômetros por hora através das ruas centrais da cidade de Dallas.

Sentados em um Lincoln, os casais Kennedy e Connally conversavam e acenavam para a enorme e entusiástica multidão que se concentrava ao longo do percurso. No momento em que o veículo passava pelo prédio do Almoxarifado de Livros Escolares do Texas, exatamente às 12h30, ouviram-se três tiros, supostamente desferidos do sexto andar, por um tal de Lee Harvey Oswald, ferindo mortalmente o presidente Kennedy e atingindo seriamente o governador Connally. O 35º presidente dos Estados Unidos foi declarado morto 30 minutos mais tarde no Hospital Parkland de Dallas. Ele tinha 46 anos.

O vice-presidente Lyndon Johnson, que participava três automóveis atrás de Kennedy da carreata, prestou juramento como o presidente dos Estados Unidos às 2h39 de 23 de novembro, a bordo do avião presidencial estacionado na pista do aeroporto Dallas Love Field. O juramento foi assistido por cerca de 30 pessoas, inclusive Jacqueline Kennedy, que ainda trajava o vestido manchado com o sangue de seu marido. Sete minutos depois, o jato presidencial levantava voou para Washington.

No dia seguinte o presidente Johnson emitiu sua primeira proclamação decretando que o dia 25 de novembro seria um dia de luto nacional em homenagem a Kennedy. Naquela segunda-feira, centenas de milhares de pessoas alinhavam-se nas ruas de Washington para assistir à passagem da carreta puxada a cavalo, levando o corpo do presidente assassinado da rotunda do Capitólio até a catedral católica de St. Matthew para uma missa de réquiem. A solene procissão seguiu depois ao cemitério nacional de Arlington, onde líderes de 99 nações aguardavam a chegada do féretro para os funerais, com as honras militares.

Extrema-direita

O principal suspeito, Lee Harvey Oswald, nascido em Nova Orleans em 1939, alistou-se na Marinha em 1956. Deu baixa em 1959 e nove dias depois partiu para a União Soviética, onde tentou, sem sucesso, tornar-se um cidadão soviético. Trabalhou em Minsk, casando-se com uma russa. Em 1962 foi autorizado a retornar aos Estados Unidos com sua mulher e uma filha.

No começo de 1963, comprou um revólver calibre 38 e um fuzil com mira telescópica pelo correio. Em 10 de abril, em Dallas, supostamente atirou errando o alvo num ex-general do exército, Edwin Walker, uma figura conhecida por suas posições de extrema-direita. Mais tarde, naquele mesmo mês, Oswald viajou para Nova Orleans onde localizou uma pequena sede do comitê Fair Play for Cuba, uma organização pró-Fidel Castro.

Em setembro de 1963, foi para a cidade do México, onde, segundo investigadores, tentou conseguir um visto para viajar a Cuba ou regressar à União Soviética. Em outubro, retornou a Dallas, obtendo um emprego no Almoxarifado de Livros Escolares do Texas.

Menos de uma hora depois de Kennedy ter sido baleado, Oswald matou um policial que o parou para interrogar numa rua perto de sua residência. Trinta minutos mais tarde, Oswald foi preso num cinema como suspeito. Foi formalmente denunciado em 23 de novembro pelas mortes do presidente Kennedy e do oficial J.D. Tippit.

Em 24 de novembro, Oswald foi trazido ao sótão do quartel-general da polícia de Dallas a caminho de uma prisão de maior segurança. Centenas de policiais e jornalistas queriam testemunhar sua chegada ao edifício, com transmissão ao vivo por todas as cadeias de televisão.

Assim que Oswald entrou no recinto, Jack Ruby emergiu da multidão e o feriu mortalmente com um fanico tiro à queima-roupa de um revólver calíbre 38 que mantinha escondido. Ruby, que foi imediatamente detido, berrava que sua ação se devia à raiva despertada pelo assassinato de Kennedy. Alguns o consideraram herói, no entanto foi acusado de homicídio em primeiro grau.

Morte com premeditada intenção

Jack Ruby, originalmente Jacob Rubenstein, era dono de danceterias e casas de strip-tease em Dallas, mantendo discretas conexões com o crime organizado. Ele aparece como destaque nas versões sobre o assassinato do presidente e muitos acreditam que eliminou Oswald para evitar que revelasse detalhes de uma conspiração.

Em seu julgamento, Ruby negou esta acusação e declarou-se inocente com base em que sua dor pela morte de Kennedy provocou nele uma “epilepsia psicomotora”, atirando em Oswald inconscientemente. O juiz Fari considerou Ruby culpado de “morte com premeditada intenção” e o sentenciou à pena capital.

Em outubro de 1966, a Corte de Apelação do Texas reverteu a decisão com fundamento em admissões impróprias de testemunhas e pelo fato de Ruby não ter tido naquela ocasião um julgamento justo  em Dallas. Em janeiro de 1967, enquanto aguardava novo julgamento, Ruby morreu de câncer no pulmão num hospital de Dallas.

O relatório oficial da Comissão Warren, especialmente constituída pelo Congresso norte-americano, concluiu em 1964 que nem Oswald nem Ruby faziam parte de uma conspiração doméstica ou internacional para assassinar Kennedy, e que ambos agiram solitariamente.

A despeito das aparentes firmes conclusões, o relatório não conseguiu silenciar teorias de conspiração que cercaram o episódio. Em 1978 a House Select Committee on Assassinations concluiu, em relatório preliminar que Kennedy “foi provavelmente assassinado como resultado de uma conspiração” que poderia envolver atiradores profissionais e o crime organizado, mas sem apresentar provas concludentes. As conclusões desse comitê como as da Comissão Warren continuam até hoje a ser amplamente contestadas.

 

VENEZUELA : Chávez propõe criar uma “Quinta Internacional Socialista” – por lamia oualalou / rio de janeiro

O presidente venezuelano Hugo Chávez declarou  ontem (20) que “chegou a hora de criar uma Quinta Internacional, para aglutinar o movimento progressista planetário, e elaborar uma resposta à crise mundial”.

“Eu acho que a Quinta Internacional é uma necessidade, atrevo-me a convocá-la (…), acho que já está decidido”, afirmou Chávez frente a 150 delegados dos 52 partidos de esquerda reunidos em Caracas ao convite do Partido Socialista Unido de Venezuela (PSUV).

“Estou oferecendo algo novo”, porque a “terceira via fracassou”, acrescentou o chefe de Estado, precisando que “esse encontro socialista tem que ser da esquerda verdadeira, disposta a enfrentar o imperialismo e o capitalismo”. “Nós viajamos no mundo intero e podemos dizer que a criação de uma Quinta Internacional é um clamor popular”, disse.

Chávez propôs também que os partidos de esquerda presentes no encontro constituam a base de um comitê preparatório para convocar formalmente a nova internacional. “A constituição deste comitê pode ser umas das conclusões deste primeiro encontro de partidos de esquerda” concluiu o presidente.

No Brasil, o Partido dos Trabalhadores criticou a iniciativa. Segundo o secretário de Relações Internacionais, Valter Pomar, “se o texto ficar desse jeito, o PT não vai assiná-lo”.

o coronel hugo chávez.o coronel hugo chávez.

ilustração do site.

PT discorda da posição VENEZUELANA – por lamia oualalou / rio de janeiro


As duas primeiras versões do “Compromisso de Caracas”, cuja adoção deve encerrar o 1º. Encontro Internacional de Partidos de Esquerda, enfrentam críticas do Partido dos Trabalhadores, expressadas pelo seu secretário de Relações Internacionais, Valter Pomar.

Ele já adiantou  que “se o texto ficar desse jeito, o PT não vai assiná-lo”, sublinhando, porém, a necessidade de esperar a publicação do texto final para se pronunciar oficialmente.

Um dos pontos polêmicos a criação de “uma secretaria política de coordenação que garanta o funcionamento de uma rede de contatos entre os partidos de esquerda, as organizações populares e os governos progressistas”. Para Valter Pomar, a idéia de criar uma secretaria política ou uma Quinta Internacional não é uma boa solução para coordenar a ação dos partidos de esquerda.

“Consideramos que a intenção é nobre, mas não estamos de acordo”, declarou ao Opera Mundi. Ele considera que “a experiência das Internacionais anteriores, a experiência das organizações partidárias atualmente existentes e as atuais condições do movimento socialista, indicam que construir uma Internacional não é a melhor maneira de coordenar os esforços da esquerda mundial”.

“Nós precisamos de unidade de ação e coordenação nas ações práticas. Não precisamos criar novas instituições. As organizações que existem são plenamente capazes de dar conta das tarefas”, afirma o secretário de Relações Internacionais do PT. Ele lembra da existência do Foro de São Paulo, que reune mais de 60 partidos de esquerda da América Latina.

Contra-ofensiva da direita

Valter Pomar também lamentou o tom bélico das primeiras versões do “Compromisso de Caracas”, que giram, em grande parte, em torno da instalação das bases americanas na Colômbia. Para ele, a esquerda cai numa armadilha quando superestima o caráter militar do confronto com os governos e partidos conservadores.

“Existe uma contra-ofensiva da direita latino-americana e dos Estados Unidos. Esta contra-ofensiva é política, não militar”, assegura Pomar. Sublinha que até os elementos militares, como as bases na Colômbia ou a reativação da Quarta Frota da Marinha dos Estados Unidos na América do Sul e Caribe, constituem elementos da contra-ofensiva política.

“Superestimar este aspecto, dar-lhe um caráter central, constitui um erro político”, acrescenta Pomar dizendo que tinha “encaminhado ao PSUV a opinião do PT, pedindo para que alterassem o texto”.

Apesar das discordâncias, o secretário de Relações Internacionais insiste no fato que o PT respeita as decisões do PSUV. “Se eles desejam impulsionar uma organização, é direito deles. O que nos interessa é que continuem participando do Foro de São Paulo”, declara.

O presidente do PT, Ricardo Berzoini(d), e o secretário-geral do PT, José Eduardo Cardozo, na reunião do Diretório Nacional do partido, na sede em Brasília (DF).

ilustração do site.

MAURICE POLITI lança seu livro ” RESISTÊNCIA ATRÁS DAS GRADES” em CURITIBA dias 26 e 27/11

O MELHOR CRONISTA por hamilton alves / florianópolis

Há pouco, um crítico literário, que mantém uma coluna diária num de nossos jornais, falando de um livro de crônicas, disse considerar o autor o melhor cronista do país.

Cada qual, obviamente, tem o direito de dizer o que quer. Ou o que pensa sobre isso e aquilo.

Mas direitos à parte, há um certo exagero em tal afirmação, até porque não se sabe exatamente quantos cronistas andam por aí, desconhecidos, que não foram devidamente catalogados ou qualificados pelo dito crítico.

Então, a partir daí fica muito vago dizer-se que fulano é o melhor seja no que for.

O autor do livro, ao ser assim distinguido, certamente se babou de vaidade, auto-considerando-se, certamente, o melhor ou que o crítico teria razões de sobra de assim julgá-lo.

A vaidade muitas vezes cega.

Não queria entrar no mérito desse assunto tão desprovido de interesse.

Isso é de uma banalidade de doer nos calos.

Eu, de mim, não me acho melhor em nada. Não acho também que alguém, seja no que for, possa ser tido o melhor no que faz.

Trata-se de uma questão quase sempre imponderável, que não permite um juízo de rigor ou justo sobre as possibilidades de uns e outros.

Por isso, o melhor é não arriscar palpite, que sempre pode levar o endereço errado. Ou esquecer que há valores que estão sempre um pouco acima daquele que somos capazes de perceber ou julgar como sendo o maior.

Já vou longe nessa catilinária inútil.

Preferível não atacar esse assunto tão mofino.

Preferível seria não ter lido a crítica do colunista. Passar por alto por ela.

No meu caso, se fosse me auto-julgar, gostaria de ser considerado o melhor cronista da minha rua. Todos me apontariam por onde diariamente passo:

– Olha, lá vai o melhor cronista de nossa rua.

Ser o melhor cronista de minha rua é já, segundo penso, um enorme galardão ou uma imensa responsabilidade, que carrego sobre as costas, de que o vulgo bem poderia me poupar.

Mas, enfim, que assim seja.

ENTRE A MOBILIDADE E A IMOBILIDADE, ANDAMOS OU DANAMOS? por alceu sperança / cascavel.pr

Capinzal. Simpática cidade do interior catarinense onde me nasceram alguns primos. Desde que acompanho, a cidade tinha uma tarifa de lotação de 65 centavos. Foi reajustada para 75, 80 centavos e agora está em um real. O volume de passageiros aumentou significativamente desde que a Prefeitura assumiu o transporte coletivo urbano em lugar das empresas ávidas por grana, e mais gente usando e pagando viabiliza ainda mais o sistema.

É possível, portanto, baratear o lotação sem ter que fazer tarifaços e caça desenfreada às carteirinhas dos direitos conquistados. Tarifaços resolvem o problema de caixa do sistema no momento, mas o volume de usuários tende a cair com a transferência de mais pessoas para o transporte individual. Assim, aumentar tarifa e cortar direitos não valem como solução duradoura. Ao contrário, apressam a aniquilação do sistema.

O transporte individual é, com os assaltantes, a carga tributária e político safado, o grande inimigo do cidadão. Mais de 500 carros por dia são incorporados às ruas de São Paulo, que terão quase 10 milhões de carros em 2024, ao ritmo atual.

Nem ruralista egoísta

Nos EUA, calcula-se que os engarrafamentos fazem o país perder 10 bilhões de dólares por ano, sem contar os prejuízos econômicos da poluição atmosférica dos automóveis, que atinge em cheio a agricultura e contribui para a morte de lagos, rios e florestas. Quer dizer, o automóvel arrebenta o agronegócio e ameaça o planeta. Nem ruralista egoísta aguenta isso.

Chinês nem a pau gasta 200 mangos por mês em mobilidade, para ir trabalhar ou estudar. E se os chineses resolvessem asfaltar a mesma quantidade de solo por habitante que os EUA, seriam cobertos de pedra e piche 64 milhões de hectares, mais de 40% da superfície agrícola chinesa. Nosso camaradinha chinês teria que comer telefone celular e chips de computador. Ou importar comida.

Vivemos a civilização do petróleo, ou seja, dos engarrafamentos de trânsito, do efeito estufa, da chuva ácida e dos atropelamentos de gente que quer fazer uma coisa bem simples: atravessar a rua.

Escrevia Cesar Bráulio, no Diário da Tarde, de Curitiba, em 6 de janeiro de 1913:

– Aí vêm os (bondes) elétricos, para terminações de martírio desses infelizes irracionais (mulas de carroças) e com esse próximo acontecimento desaparecerá, também, o resto de indolência do nosso povo, que atravessa vagarosamente as ruas, faz ponto no meio das mesmas, atravanca as calçadas e as esquinas; ficará sendo um povo ativo, às direitas, fugindo dos bondes velozes, apertando o passo para apanhá-lo nos pontos de parada, não obstruindo mais os passeios, etc, etc, será um verdadeiro circulez parisiense.

Pedágio urbano

Esse aprazível cenário de ruas curitibanas sem carroças e burros e com veículos elétricos degringolou para a realidade atual de que os acidentes urbanos ostentam números similares aos de uma guerra militar sangrenta. Causam perdas ao redor de 30 milhões de dólares por semana. Mas dá pra calcular o valor das vidas perdidas e pôr etiqueta de preço na dor de famílias desestruturadas?

Pesquisa na Alemanha mostrou que uma bicicleta comum exige de seu proprietário cerca de 22 calorias por quilômetro rodado. Caminhada de 1 km consome 62 calorias. Trem gasta 550 calorias por passageiro/km. Ônibus, 570. E um automóvel com um só ocupante gasta 1.150 calorias/km.

Torrar energia à toa não é crime? Isso fez a pátria de Marx subsidiar o transporte coletivo para ser melhor e mais barato. E também por aqui, como em Londres, logo virá o pedágio urbano, aproveitando a estrutura das zonas azuis, até alguém finalmente se tocar que transporte barato é inclusão social: pobre prefere ir a pé antes de entrar em lotação e pagar mais de oito reais ao dia. Esses R$ 8 fazem falta para as contas do mês.

Nossos vereadores se sacrificam indo à Europa em busca de nobres propostas para fazer suas cidades avançar. Que tal uma visitinha a Capinzal? Lá verão como é que os catarinas conseguem ter um lotação de 1 real – com passe livre a idoso e deficiente e meio-passe, sem frescuras e exigências bestas, aos estudantes.

Meio-passe, aliás, que deveria ser na verdade o passe inteiramente livre, viu, DCE? O transporte público é caro, aqui, em Londres ou Nova Iorque, mas o custo não deve ser repassado aos mais pobres. Ou ele barateia e melhora, para ser alternativa saudável ao caos urbomobilístico, ou nos danaremos todos.

SÉRGIO DA COSTA RAMOS convida para o lançamento de seu livro / florianópolis

O jornalista catarinense Sérgio da Costa Ramos leva a público, dia 24, o livro Piloto de Bernunça. Com selo da Bernúncia Editora, a obra terá lançamento com coquetel e presença do autor, às 18h30, na Fundação Cultural Badesc, em Florianópolis.

Compõem o volume 62 crônicas, algumas inéditas e outras publicadas no jornal Diário Catarinense, onde o escritor tem coluna assinada. Na capa, Piloto de Bernunça traz pintura de Vera Sabino, e no miolo há ilustrações de Dante Mendonça – imagens que serão expostas na noite do coquetel. O pianista Arthur Moreira Lima assina a orelha do livro, prefaciado por Deonísio Silva e com posfácio de Raul Caldas Filho.

Sérgio da Costa Ramos

Filho do também jornalista Rubens de Arruda Ramos, é membro da Academia Catarinense de Letras e Artes. Publicou o primeiro livro em 1986, Os civis pecisam voltar aos quartéis, pela editora da UFSC. Incluindo Piloto de Bernunça, Sérgio da Costa Ramos é autor de dez volumes.

Rumorejando (O jogador do meu Paraná inspirou a França a fazer gol com a mão para se classificar, constatando). – por juca (josé zockner) / curitiba

PEQUENAS CONSTATAÇÕES, NA FALTA DE MAIORES.

Constatação I

O Ratinho, há tempos, declarou – e sua frase teve ampla repercussão entre jornalistas, críticos, telespectadores, etc. – que se houvesse intenção de educar o povo brasileiro, utilizando essa notável mídia que poderia ser a televisão, os programas da Fundação Roberto Marinho, os tele-cursos, seriam levados ao ar em horário nobre e não praticamente na madrugada. E tudo ficou na mesma.

Constatação II (Para recitar pra ela).

Que estranho !

Ontem a conheci

E parece que a vi

Desde antanho*.

*Antanho = Antigamente, outrora.

Constatação III

Quando o septuagenário leu o texto do escritor uruguaio Mario Benedetti, intitulado Síndrome, se sentiu perfeitamente identificado com o autor:

“Todavia tenho quase todos os meus dentes

quase todos meus cabelos e pouquíssimas cãs

posso fazer e desfazer o amor

subir uma escada de dois em dois

e correr quarenta metros atrás do ônibus

ou seja que não deveria me sentir velho

mas o grave problema é que antes

eu não me fixava nestes detalhes”.

Constatação IV

A doce ilusão sempre acaba redundando amarga…

Constatação V

A loira burra que faz operação plástica, em certas regiões do corpo, quase sempre as mesmas, muda apenas o invólucro…

Constatação VI (De conselho isonômico).

Se você tem um filho de 20 anos que não quer estudar e, muito menos, trabalhar, não corte a mesada dele. Afinal, tá cheio de político e administrador que não faz nada e nem por isso ele tem os seus proventos cortados.

Constatação VII (Via pseudo-haicai).

Quem se julga o tal,

Não dá outra:

Boçal.

Constatação VIII

O mais grave da ignorância é não se dar conta dela.

Constatação IX (Teoria da relatividade para principiantes).

Se a sabedoria pode conduzir à loucura, é muito melhor morrer louco do que burro.

Constatação X

Pobre é caloteiro; rico é inadimplente.

Constatação XI

Perguntou o médico psiquiatra ao seu paciente: -“E então ? Como é que vai indo ?”

Respondeu o paciente: -“Mais ou menos. Tenho administrado razoavelmente minhas crises conjugais, depressivas, financeiras e existenciais”.

Constatação XII

A humanidade é ineducável.

Constatação XIII (Ah, esse nosso vernáculo, via pseudo-haicai).

Na Alfama,

Havia uma azáfama

Em busca de fama.

Constatação XIV

Ronca a mulher,

Ronca o cachorro.

O que mais se quer ?

Que, pelo menos, em coro.

Constatação XV

Rico tem necessidades imperiosas; pobre, é afoito.

Constatação XVI (Via pseudo-haicai).

Quando ouviram meu canto,

Os críticos, com a ousadia,

Fizeram cara de espanto.

Constatação XVII (Ah, esse nosso vernáculo).

O abúlico, metido a áulico, não sabia jogar bolinha de búrico. (No Rio de Janeiro, prezado leitor, se diz búrica).

Constatação XVIII (Via pseudo-haicai).

Truco, sem lúpulo,

É falta total

De escrúpulo.

Constatação XIX

Em certos países, quem consegue trabalho, consegue; quem não consegue, não consegue e fica por isso mesmo. Elementar, meu caro Watson…

Constatação XX (Via pseudo-haicai).

Alma, já não havia.

Mostrou, até,

Sua radiografia.

Constatação XXI

A grande incidência

De assaltos na rua

É uma verdade nua e crua,

Uma eterna reincidência.

Constatação XXII (Via pseudo-haicai).

Sua conversa opaca

Enchia a paciência

Paca.

Constatação XXIII (De alguma derrota de algum dos nossos times, algures, via pseudo-haicai).

Ficamos todos aturdidos

Com os três a zero.

Até hoje, ardidos…

Constatação XXIV (Ah, esse nosso vernáculo).

No decurso das férias, ela fez um curso para não mudar o curso das coisas. Acabou mudando o curso da minha história. Vou entrar com um recurso, sem decurso de prazo e sem muito discurso. Depois, participar de um concurso. Espero não ficar no percurso, pois creio que a banca não fará papel de amigo urso. Afinal, não se pode perder o “purso” (Perdão, leitores).

Constatação XXV (Via pseudo-haicai).

Até sem nitidez,

Deu para perceber:

Pura frigidez.

Constatação XXVI

E como dizia, via pseudo-haicai, o adepto do ócio total:

“Desocupação

Nunca gera

Preocupação”.

Constatação XXVII (gauchesca).

Me creia:

O doidivanas

Volta e meia

Se embriagava

Pois tomava

Dúzia de carraspanas

E ficava

De cara cheia.

Que “peleia”!

Constatação XXVIII

E já que falamos no assunto, em outra constatação, com a onda de violência, o perigo não está somente nas ruas; também, nas calçadas…

Constatação XXIX (Via pseudo-haicai).

Me abalo,

No trânsito,

Com tanto gargalo…

Constatação XXX

Rebola,

A Jane do Tarzan,

Toda gabola.

Até parece

A Chita pela manhã.

E quando anoitece..

TEMPO BOM por sérgio da costa ramos /florianópolis

Costuma haver uma certa atmosfera de paz, as pessoas recuperam a cordialidade perdida no escaninho de algum burocrata. E há a solenidade ritual da montagem dos presépios. Feitos em casa, com areia fina, papel de embrulho pintado, barba-de-velho, conchas e espelhinhos representando lagos serenos, cercados pela rala vegetação verde de papel crepom.

O espírito do Natal costuma se refletir na cintura dos “fiéis” desses novos tempos. Se, durante a Semana Santa, o jejum é uma forma de penitência, uma espécie de luto pela morte do Redentor, no Natal o seu renascimento é comemorado exatamente por uma celebração antípoda – a comilança.

Imaginem se todo recém-nascido abrisse na família um tal apetite que demandasse a montagem de ceias, opíparos jantares e um festival de proteínas capazes de alimentar a Etiópia por um ano. Ia faltar proteína na terra e peixe no mar, o Menino teria que antecipar o milagre da multiplicação de pães e peixes muito antes de assumir a sua chamada “vida pública”.

Assim será o Natal. A pretexto de celebrar o Menino, daremos de mamar à Menina – isto é, a nossa barriga.

Na base do “Amém, Jesus”, vai todo mundo se forrando, o “renascimento” servindo de pretexto para justificar o pecado da gula – que é o vício de comer e beber com sofreguidão.

Estaremos todos absolvidos. Atire a primeira pedra quem não comeu e bebeu à tripa forra na Noite do Menino Jesus. E que não repetiu a ceia, no dia seguinte. A pretexto de elevar o espírito, ocorre a satisfação da matéria. O próprio Menino já deve ter se acostumado com o apetite dos seus adoradores. E todos os anos perdoa a volúpia dos glutões.

Ao longo da história, e, principalmente, da literatura, a boa mesa sempre esteve presente à boca dos homens de boa vontade e excelente estômago.

A melhor descrição em O Crime do Padre Amaro, de mestre Eça de Queiroz, é a dos talheres, pratos e pratarias na mesa do Abade de Cortegaça, um pio sacerdote, que deveria cultivar as virtudes da abstinência.

Ali se destaca o fornido jantar oferecido pelo abade aos colegas do clero: o caldo de galinha, a famosa Cabidela, uma invenção reivindicada pelo próprio sacerdote. E mais os “bacorinhos” (leitões) ao forno, o porquinho à moda da Bairrada, os vários tipos de bacalhau – o da batata aos murros e à maneira Gomes Sá.

E os vinhos, então? O escritor desfila diante da sede dos leitores os Paços do Cardido, os Covas da Ursa, os Quinta da Bacalhôa, os Duque de Viseu, os “lvarinhos e Ferreirinhas – todos brancos, secos honrados ou tintos de grande linhagem.

Em torno da manjedoura (que se deriva de “manger”), se reúnem os abades e todos nós – os fiéis – para imaginar os pratos que ainda sacrificaremos durante “as festas”.

Até lá comeremos tudo – até mesmo a “Crise”.

Ú L T I M O C A P Í T U L O por jorge lescano / são paulo

Ana cruza as mãos sob o queixo. Os cotovelos fincados na estante das partituras servem de tripé ao olhar, distante, e ao mesmo tempo, fixo no vidro da janela. Por cima do bosquezinho de pinheiros que isola a  casa, nuvens arroxeadas semelham vastas cenografias em movimento.

As luzes do grande lustre, no centro da biblioteca, são acesas.

No quadrado de vidro reflete-se a cena vivida às costas de Ana. Por um momento ela tem a sensação de não estar ali, ou de ver e ouvir as vozes como se viessem de um romance. Não estivesse o vidro secionado em quatro triângulos por finas ripas de madeira, o brilho lembraria um aparelho de televisão. Sorri ao se imaginar personagem invisível. Para captar toda a cena inclina a cabeça sobre o ombro esquerdo.

As figuras se deslocam com soltura. Cada gesto afirma a familiaridade com o espaço e as outras pessoas. A luz é generosa para a observadora. Sem dificuldades percebe traços de fadiga e irritação nos rostos que não devem expressar emoções. Atendem a um compromisso e pretendem cumpri-lo com ar de negligência ou, quando menos, não demonstrando excessivo interesse no desfecho.

Ana sabe que cada um deles guarda motivos para desconfiar, invejar ou odiar os outros. Mesmo os casais têm receios do parceiro. Cada qual esconde uma culpa em relação ao seu par, ou desejos para cuja realização o outro é um empecilho.

Abelardo e sua irmã Beatriz mostram hostilidade recíproca sem se preocupar com as convenções. Camila, a companheira de Abelardo, finge observar atentamente os títulos dos livros fechados num móvel envidraçado. A atenção, no entanto, permanece presa aos acontecimentos. O cristal revela a cena às suas costas, incluindo a contemplação estática de Ana.

Num ângulo da sala está Drummond, o anacoreta, sóbrio no terno escuro. Talvez por causa da estatura elevada e do rosto de intelectual de início do século, gosta de não ser notado. Mantêm-se de pé, a cabeça calva inclinada, como se observasse as pontas dos seus sapatos. Camila sabe que ele preferiria não estar ali. Na outra extremidade, Fernández, o macedônio. Esta mistura de filósofo socrático e violeiro autodidata, duplica a imagem de Drummond. Indo de um para o outro, vagarosamente e como para consultá-los ou confirmar uma informação, Erikssen, o iconoclasta. Pressentem-se nele paisagens frias e desoladas. Seu aspecto´é de jovem envelhecido prematuramente ou de velho que se recusa a admitir a idade. Difícil acreditar que alguma vez foi criança. Ana não sabe o quê poderá vinculá-los aos demais, sequer tem clara a relação entre si. A presença dos três parece-lhe arbitrária, como se obedecesse ao capricho ou a uma secreta noção de simetria de algum encenador onisciente. Confia em que, após a leitura, ficará conhecendo as razões da convocação deles.

Genoveva deve apropriar-se de um segredo de Heitor. Ibraim espera ansioso que ela o prejudique na ascensão vertiginosa dentro da empresa para pular ao posto que considera seu de direito. Genoveva   deseja-lhe   sucesso.  Desse  modo  a  harmonia  do  casamento  estará  a  salvo,  pois  não

duvida  do reconhecimento do seu marido, para quem é indiferente se ela acrescenta uma nova traição às muitas que se obrigou a cometer em troca de um lugar na sociedade. Heitor não ignora o perigo e já arquitetou seu plano de defesa, que implica vários dos presentes.

Jéssica tem uma dívida e não poderá saldá-la no prazo estipulado. Não é improvável esta seja a última vez que use o colar de pérolas;para salvá-lo, tem a alternativa de ceder aos insistentes requerimentos de Beatriz, a qual não ignora a chantagem de Abelardo. Entre Jéssica e Lena encontra-se Kelly, a bela taverneira vinda do norte. Sua cutis morena  e o cabelo negro contrastam com a palidez doentio das outras duas. Kelly sorri a alguém invisível para Camila. Talvez o sorriso apenas seja de satisfação por estar entre pessoas que sua origem social, até bem pouco tempo, lhe fazia ver como personagens de ficção. Lena leva o cigarro aos lábios e a luz rebrilha, rubra, na pedra do anel.

Múcio, Nemo, Otacílio; é quase impossível imaginar antagonismo entre eles, são como partes de um mesmo ser. Nemo, retratista da sociedade, é notório conspirador. Acredita-se que mais de uma associação, incluindo casamentos, teve fim prematura graças à sua arte oratória, capaz de destruir sólidas reputações. Múcio é seu discípulo ou valete, segundo alguns, sua eminência parda, na versão de outros. Em todo caso, espécie de sombra do pintor. Otacílio vive à procura de informações que o localizem nesse universo de interesses e forças opostas, no qual ingressou em virtude do seu nascimento. Alguma vez cogitou tornar-se artista. Talvez não seja de todo gratuito o comentário de que seu senso estético se realiza pagando as dívidas de Nemo. O futuro deste e do seu duplo poderá estar comprometido se Otacílio não agir com tato. Isto explicaria o comparecimento do trio à reunião e as mesuras de Nemo, que não pára de circular pela sala com sério risco de colidir com Erikssen.

O velho Administrador da família deposita à sua frente, na mesa central, um cofrezinho de metal dourado. Ana vê como coloca, aos lados das mãos, um envelope de papel marrom e um pacote retangular, não maior que um livro em brochura. Um romance, pensa Camila. Um jogo de xadrez, acredita Ana.

Todos conhecemos a desmedida ambição destas pessoas, e Ana não é exceção – escreveu há tempos o Autor convidado. – Porém não somos unânimes quanto ao valor que atribuem à hierarquia social; são ambíguas como as manchas de nanquim de uma pintura chinesa. Isto faz com que as tratemos com deferência ou respeito. Podem ser perigosas ou aliadas inestimáveis.

Ana e o Autor convidado se aproximam do Administrador, que está ajustando os óculos. Os quatro espelhos triangulares do teto, dispostos de maneira a formar a cúpula interna de uma pirâmide, na qual o lustre cria iridescências de luxo e prazer, duplicam a localização de todos os presentes em torno da mesa.

Ao empunhar o estilete e o envelope, os dedos do velho Administrador tremem. Ana lhe adivinha a emoção. Também a sorte dele depende da leitura que se dispõe a iniciar, deduz Camila.

O grande lustre se apaga. Ouve-se um tiro e o som de um corpo que cai.

No laudo policial, a vítima está corretamente vestida e segura nas mãos um livro aberto no último capítulo.

A INSUSTENTÁVEL LEVEZA DO SER por joão henrique vieira / teresina

abriu a porta. entrou. pôs sobre a mesa o livro que trazia. ficou pensando. gozar de olho aberto ou fechado?

- oi meu amor

- olá minha querida

depois de uma conversa sobre como foi o dia. começa a conversa que vai desaguar no amor. na hora do gozo. a duvida. gozar de olho aberto ou fechado? no meio do sexo oral, sentindo todo o delicioso gosto do cheiro, se perguntava: olho aberto ou fechado. deslizava os dedos na barriga, sentia os arrepios. olho aberto? olho fechado? roçou o rosto no púbis, na barriga, entre os seios, mordeu o queixo, lambeu os lábios. olhou nos olhos de seu amor. fechar os olhos, abrir os olhos. um riso cínico no instante em que seu pau deslizava nas curvas a procura da buceta.

o deslize a dentro.

beijava. gemia. respirava. roçava. esfregava-se. ora de olhos abertos, ora de olhos fechados.

vinham os sussurros que antecedem o gozo. o frenesi. o não saber e ser guiado pelo instinto. aquilo que guia o homem quando ele pára de tentar ser racional.

olhos abertos. olhos fechados.

no instante do gozo fechou os olhos de desespero, sentido desmanchar-se dentro da fêmea. do amor. do sexo. do gozo.

dali a instantes estaria deitado olhando o teto. suado. deslizando os dedos nos mamilos, brincando de círculos.

- meu bem, o Milan Kundera está me enlouquecendo

- meu amor, você é doido, mas eu te amo.

depois que a amada caiu no sono. ele levantou e foi ao banheiro. lavou o rosto e se olhou no espelho. disse à própria imagem:

- tu vai ver Kundera, amanhã eu gozo de olho aberto.

voltou a cama. viu as curvas de um belo corpo. deitou-se junto. quase dentro. dormiu grilado. gozar de olho aberto ou fechado?

sobre a mesa repousava A insustentável leveza do ser

OTTO NUL e sua poesia / palma sola.sc

A LADEIRA

Quando desço a ladeira

Quando a subo

São dois momentos

Que parecem iguais;

É que tanto na descida

Quanto na subida

Há um componente

De significativa beleza;

Há umas árvores

E pássaros na ladeira;

Dir-se-á que isso

Há em toda parte;

Na ladeira, porém,

É diferente – árvores

E pássaros têm

O feitiço da ladeira.


-.-


PREMONIÇÃO

Apanha no ar

Ainda fresca

A idéia luminosa

A sombra indefinida

O resto que sobrou

Ao dia que se foi

A alegria que findou

A tristeza que ficou

A palavra consoladora

Com que se empolgou

A paixão que desvaneceu

Na tarde que esmoreceu

Uma leve premonição

Que tolda o coração

-.-


ERA UMA RUA

Era uma rua

Não tinha nada

Minha amada

Nela morava

Era uma rua

Que dava medo

Que assombrava

Como um degredo

Era uma rua

De pouca luz

Sem quase gente

Com uma cruz

Era uma rua

Sem muita paisagem

Tão sossegada

Parecendo miragem

Era uma rua

Onde te conheci

Em certo tempo

Ali nasci

Era uma rua

De muita flor

Nela se vivia

Com paz e amor

MAESTRO RONALD MAGALHÃES se apresenta na BIBLIOTECA PÚBLICA do PARANÁ / curitiba

A TRISTEZA PERMITIDA por martha medeiros / porto alegre

Se eu disser pra você que hoje acordei triste, que foi difícil sair da cama, mesmo sabendo que o sol estava se exibindo lá fora e o céu convidava para a farra de viver, mesmo sabendo que havia muitas providências a tomar, acordei triste e tive preguiça de cumprir os rituais que faço sem nem prestar atenção no que estou sentindo, como tomar banho, colocar uma roupa, ir pro computador, sair pra compras e reuniões – se eu disser que foi assim, o que você me diz? Se eu lhe disser que hoje não foi um dia como os outros, que não encontrei energia nem pra sentir culpa pela minha letargia, que hoje levantei devagar e tarde e que não tive vontade de nada, você vai reagir como?

Você vai dizer “te anima” e me recomendar um antidepressivo, ou vai dizer que tem gente vivendo coisas muito mais graves do que eu (mesmo desconhecendo a razão da minha tristeza), vai dizer pra eu colocar uma roupa leve, ouvir uma música revigorante e voltar a ser aquela que sempre fui, velha de guerra.

Você vai fazer isso porque gosta de mim, mas também porque é mais um que não tolera a tristeza: nem a minha, nem a sua, nem a de ninguém. Tristeza é considerada uma anomalia do humor, uma doença contagiosa, que é melhor eliminar desde o primeiro sintoma. Não sorriu hoje? Medicamento. Sentiu uma vontade de chorar à toa? Gravíssimo, telefone já para o seu psiquiatra.

A verdade é que eu não acordei triste hoje, nem mesmo com uma suave melancolia, está tudo normal. Mas quando fico triste, também está tudo normal. Porque ficar triste é comum, é um sentimento tão legítimo quanto a alegria, é um registro de nossa sensibilidade, que ora gargalha em grupo, ora busca o silêncio e a solidão. Estar triste não é estar deprimido.

Depressão é coisa muito séria, contínua e complexa. Estar triste é estar atento a si próprio, é estar desapontado com alguém, com vários ou consigo mesmo, é estar um pouco cansado de certas repetições, é descobrir-se frágil num dia qualquer, sem uma razão aparente – as razões têm essa mania de serem discretas.

“Eu não sei o que meu corpo abriga/ nestas noites quentes de verão/ e não me importa que mil raios partam/ qualquer sentido vago da razão/ eu ando tão down…” Lembra da música? Cazuza ainda dizia, lá no meio dos versos, que pega mal sofrer. Pois é, pega mal. Melhor sair pra balada, melhor forçar um sorriso, melhor dizer que está tudo bem, melhor desamarrar a cara. “Não quero te ver triste assim”, sussurrava Roberto Carlos em meio a outra música. Todos cantam a tristeza, mas poucos a enfrentam de fato. Os esforços não são para compreendê-la, e sim para disfarçá-la, sufocá-la, ela que, humilde, só quer usufruir do seu direito de existir, de assegurar seu espaço nesta sociedade que exalta apenas o oba-oba e a verborragia, e que desconfia de quem está calado demais. Claro que é melhor ser alegre que ser triste (agora é Vinícius), mas melhor mesmo é ninguém privar você de sentir o que for. Em tempo: na maioria das vezes, é a gente mesmo que não se permite estar alguns degraus abaixo da euforia.

Tem dias que não estamos pra samba, pra rock, pra hip-hop, e nem pra isso devemos buscar pílulas mágicas para camuflar nossa introspecção, nem aceitar convites para festas em que nada temos para brindar. Que nos deixem quietos, que quietude é armazenamento de força e sabedoria, daqui a pouco a gente volta, a gente sempre volta, anunciando o fim de mais uma dor – até que venha a próxima, normais que somos.

ESSES HOMENS, ESSAS MULHERES… / editoria

“Ninguém educa ninguém, ninguém se educa sozinho, nos educamos mutuamente.”
Paulo Freire

“Antes de desejarmos fortemente uma coisa, devemos examinar primeiro qual a felicidade daquele que a possui.”
La Rochefoucald

“Para se ser feliz até um certo ponto é preciso ter-se sofrido até esse mesmo ponto.”
Edgar Poe

“Não há nada mais terrível do que uma ignorância ativa.”
Goethe

“Nada perturba tanto a vida humana como a ignorância do bem e do mal.”
Cícero

“Os grandes navegadores devem sua reputação aos temporais e tempestades.”
Epicuro

“É mais importante fazer as coisas que devem ser feitas do que fazer as coisas como devem ser feitas.”
P. Drucker

“Devemos seguir adiante, penetrar no desconhecido, no incerto e no inseguro, e utilizar nosso entendimento – o que temos – em fazer planos tanto para a segurança como para a liberdade.”
Karl Popper

“Na natureza nada se perde, nada se cria, tudo se transforma.”
Lavoisier

“Nasci aqui mesmo no Rio de Janeiro, três meses depois da morte de meu pai, e perdi minha mãe antes dos três anos. Essas e outras mortes ocorridas na família acarretaram muitos contratempos materiais, mas, ao mesmo tempo, me deram, desde pequenina, uma tal intimidade com a Morte que docemente aprendi essas relações entre o Efêmero e o Eterno.”
Cecília Meireles

“A verdade nunca é injusta; pode magoar, mas não deixa ferida.”
Eduardo Girão

“A repetição não transforma uma mentira numa verdade.”
Roosevelt

“Somos responsáveis por aquilo que fazemos, o que não fazemos e o que impedimos de ser feito.”
Albert Camus

“Um mau começo leva a um mau final.”
Eurípides

“Não vemos as coisas como elas são, mas como nós somos.”
Bronson

“A paz não pode ser mantida à força; só pode ser conseguida pela compreensão. Isso vale até pra dentro da sua casa!”
Bronson

“Há homens que lutam um dia, e são bons;Há outros que lutam um ano, e são melhores;Há aqueles que lutam muitos anos, e são muito bons;Porém há os que lutam toda a vida;Estes são os imprescindíveis.”
Bertold Brecht

“Só é realmente corajoso o homem que suporta a desgraça.”
Marcial

“Semeia um pensamento e colherás um desejo; semeia um desejo e colherás a ação; semeia a ação e colherás um hábito; semeia o hábito e colherás o caráter.”
Tihamer Toth

“Você precisa fazer aquilo que pensa que não é capaz de fazer.”
Eleanor Roosevelt

“Uma grama de ação vale mais que uma tonelada de teoria.”
Friedrich Engels – filósofo alemão

“Uma conduta desregrada aguça o engenho e falseia o juízo.”
De Bonald

“Um homem nunca deve envergonhar-se por reconhecer que se enganou, pois isso equivale a dizer que hoje é mais sábio do que era ontem.”
Jonathan Swift

“Um homem com fome não é um homem livre.”
Adlai Stevenson (1900-1965)

“Um hábito não faz o monge, e há quem, vestindo-o, seja tudo menos um frade.”
François Rabelais

“Um fracassado é um homem que cometeu um erro e não é capaz de o transformar em experiência.”
E. Hubrard

WERNER HENNIG – mais uma aventura, agora no mar / rio do sul.sc

O publicitário aposentado Werner Hennig, 58 anos, começou uma aventura inusitada na segunda-feira. Hennig saiu de Balneário Camboriú, no Litoral Norte de Santa Catarina, e pretende chegar a Florianópolis a nado. Caso não consiga percorrer os cem quilômetros, o aposentado diz que não irá se sentir frustrado se parar no meio do caminho.

Sentado na areia da Praia da Ilhota, em Itapema, ele desabafou: — Não imaginei que seria tão difícil. Vou seguir em frente, mas se eu conseguir chegar até Bombinhas já estarei muito satisfeito.

Hennig saiu de Balneário Camboriú levando apenas uma câmera fotográfica, uma filmadora, um aparelho de GPS, telefone celular e alguns mantimentos que transporta em uma prancha presa ao corpo. Após nadar e mergulhar cerca de 13 quilômetros, parou na quarta-feira em Itapema para recuperar as energias. — A maior dificuldade está sendo a mudança de correnteza do mar. Quando nado contra a corrente, o esforço que faço é muito maior — explicou. Por precaução, Hennig nada sempre perto das margens. O aposentado sabe das dificuldades que terá pela frente, principalmente depois que passar a região de Porto Belo, onde deverá encontrar menos praias e mais costões de pedras.

Como mantimentos, Hennig carrega garrafas de água, biscoitos, barras de chocolate e linguiça. — Trouxe para matar a fome e a sede quanto estiver longe das praias. Esta não é a primeira aventura do riosulense. Em 1991, ele percorreu de bicicleta dezenas de países da Europa. Há quatro anos, pedalou durante 58 dias, de Blumenau até a cidade de Ushuaia, na Argentina, a 3 mil quilômetros ao sul de Buenos Aires. Hennig pratica sempre alguma atividade física e admite não ter feito uma preparação específica para o desafio. Quanto a roteiros ou planejamento, ele tem a resposta: — Em aventuras não há muito o que planejar, não há como prever os acontecimentos. Estou com a natureza, é ela quem define meu roteiro e quando devo parar.

dc.

PROFESSOR CORUJA – por barbosa lessa / porto alegre

De família bastante pobre, Antônio Álvares Pereira nasceu em Porto Alegre em 1806. Seus pais conseguiram matriculá-lo na escolinha do Padre Tomé – onde os alunos costumavam ganhar um apelido que os diferenciasse dos não-estudantes – e lá chegou o guri, para a primeira aula, vestindo uma casaquinha marrom muito feia, quase horripilante. Estava pedindo para ser chamado de “Coruja”. E assim ganhou um nome que perdurou não só durante o curso, mas para o resto da vida.

Por trás da casaquinha marrom, porém, batia um coração muito forte e, sob a firme orientação do Padre Tomé, o menino foi desenvolvendo uma inteligência incomum. E, ao despedir-se da escola, já decidira: iria ingressar na carreira de professor.

Por essa época, na Corte do Rio de Janeiro, vinha sendo adotado, como novo sistema de ensino, um revolucionário método de Lancaster – destinado a solucionar o problema da escassez de professores. Se, pelo sistema tradicional, o mestre precisava dar atenção individual a cada aluno – atendendo, vamos supor, a uns dez guris – pela nova fórmula ele se fazia assessorar por alguns de seus melhores alunos, então nomeados “decuriões”, e essa prática de ensino mútuo já permitia que se atendessem, vamos supor, a uns quarenta guris. Que genial solução!

Para tirar a limpo se esse tal de “ensino mútuo” realmente funcionava bem, lá se foi para a Corte o jovem Pereira Coruja. E voltou para Porto Alegre aos 21 anos de idade, em 1827, alardeado seu diploma de professor régio. Abriu sua escola, aqui pioneira no método Lancaster, e foi em frente.

A par do magistério, Pereira Coruja passou a desempenhar atividades complementares que logo o projetaram na sociedade sul-riograndense. Em 1831, redator do jornal “Compilador de Porto Alegre”. Pouco depois, lançava seu primeiro livro didático, de ampla repercussão: “Compêndio de Gramática da Língua Nacional”. Em 1835, eleito deputado à Assembléia Provincial. Não escondia sua simpatia para com a grei dos farroupilhas e, em 1836, por ocasião da reação legalista, teve o castigo de ser um dos deputados deportados para a Corte do Rio de Janeiro.

Privado de realizar seus sonhos no Rio Grande do Sul realizou-os, porém, no Rio de Janeiro, com uma eficácia notável. Começou por fundar e dirigir sua própria escola, o Liceu Minerva. Depois, deixou marcos tais como a Sociedade Imperial Amante da Instrução, a Sociedade Literária do Rio de Janeiro e – congregando a colônia gaúcha – a Sociedade Sul-Riograndense. Não tardou a obter o reconhecimento público, atingindo o grau de Comendador da Ordem da Rosa.

Incansável autor de livros didáticos. Além do já citado “Compêndio de Ortografia da Língua Nacional”, “Aritmética para Meninos”, “Lições de História do Brasil” e “Manual dos Estudantes de Latim”. Mas suas obras de mais ampla adoção nacional foram o “Manuscripto”, as “Taboadas” e o “Livro de Leitura”, podendo-se afirmar que, por mais de meio século, as gerações de jovens brasileiros se ampararam, em boa parte, em tais livros. E, quando algum aluno cometia um erro feio, logo comentavam: “Deu uma facada no Conja”.

Embora vivendo afastado do Rio Grande do Sul, jamais esqueceu sua terra natal e enriqueceu-se com notáveis obras de pesquisa e divulgação. Pelas páginas do “Anuário da Província do Rio Grande do Sul”, de Graciano Azambuja, publicou lindos ensaios tais como “Senadores e Deputados da Província”, “As Ruas de Porto Alegre”, “Alcunhas de Porto Alegre”, etc. E alcançou projeção com sua “Coleção de Vocábulos e Frases Usados na Província de São Pedro do Rio Grande do Sul”, com 1ª edição em Londres (1856) e mais três por aqui mesmo. Ali apareciam, por primeira vez em letra de fôrma, verbos tais como “acolherar”, “amadrinhar”, “abombar”, “apojar”, “bombear”, e por aí afora.

O Comendador Coruja faleceu no Rio de Janeiro em 4 de agosto de 1889.

LÍDERES DE PAÍSES RICOS DESCARTAM ACORDO DEFINITIVO EM COPENHAGUE – por claudia trevisan / são paulo


Metas obrigatórias de redução de emissões devem ficar só para 2010, em uma próxima conferência.

Líderes políticos da região asiática, dos Estados Unidos e da Europa descartaram ontem a possibilidade de assinar um novo tratado climático internacional em Copenhague, no mês que vem. No linguajar diplomático, fala-se agora em um acordo “politicamente vinculante”, em vez de “legalmente vinculante”, o que ficaria para uma próxima conferência, em 2010.

Na prática, isso significa que as metas obrigatórias de redução de emissões de gases do efeito estufa para a segunda fase do Protocolo de Kyoto seriam definidas só no ano que vem.

“Dado o fator de tempo e a situação de alguns países específicos, deveríamos, nas próximas semanas, focar esforços no que é possível fazer, sem nos deixar distrair por aquilo que não é possível”, disse o primeiro-ministro da Dinamarca, Lars Lokke Rasmussen. Anfitrião do encontro do próximo mês, Rasmussen fez ontem uma viagem não programada a Cingapura, para conversar com os governantes das 21 nações que compõem a Cooperação Econômica Ásia-Pacífico (Apec) – grupo que inclui os Estados Unidos e a China, os dois maiores emissores de gases do efeito estufa.

O possível, segundo Rasmussen, seria um acordo político em Copenhague que estabelecesse diretrizes básicas e um novo prazo para negociação de metas específicas de redução de emissões. O impossível seria fechar essas metas já no mês que vem, antes que o projeto de lei sobre mudança climática dos Estados Unidos possa ser votado no Congresso americano.

“Mesmo que não consigamos definir todos os detalhes de um instrumento legalmente vinculante, eu acredito que um acordo político de caráter obrigatório, com compromissos específicos de mitigação e financiamento, fornecerá bases sólidas para ação imediata nos próximos anos”, disse Rasmussen.

Esse documento político, que poderia ter de cinco a oito páginas, criaria mecanismos para o enfrentamento imediato do problema, “antes mesmo que uma nova estrutura legal seja acordada, assinada, ratificada e efetivada”, completou o primeiro-ministro dinamarquês.

A opinião dos governantes que se reuniram sábado e domingo em Cingapura foi transmitida pelo vice-conselheiro de Segurança Nacional dos Estados Unidos, Mike Froman. “Os líderes avaliaram que seria irrealista esperar um amplo acordo internacional legalmente vinculante entre agora e o início de Copenhagen (no dia 7)”, disse o norte-americano, segundo as agências internacionais.

Na verdade, as negociações começaram há dois anos, após a conferência de Bali, na Indonésia, que estabeleceu 2009 como prazo legal para renovação das metas do Protocolo de Kyoto. Vários países industrializados, porém, condicionam a definição de suas metas à participação dos Estados Unidos – algo que depende da votação da lei americana no Congresso.

A disposição internacional de aprovar metas ambiciosas e obrigatórias de corte de emissões diminuiu depois da crise econômica de 2008. Os países ricos estão preocupados com a situação econômica e resistem a assumir compromissos que possam prejudicar a retomada do crescimento.

O tema está na agenda do presidente americano Barack Obama, que desembarcou ontem em Pequim para um encontro com o presidente chinês, Hu Jintao. Anteontem, os presidentes do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, e da França, Nicolas Sarkozy, criticaram uma suposta estratégia dos colegas americano e chinês de negociar um acordo climático bilateral, em detrimento de um tratado internacional em Copenhague.

Metade do milho brasileiro pode ser transgênico em 2010 – por herton escobar / são paulo


Consultoria Céleres estima que uso de sementes geneticamente modificadas ultrapassará 50% já no próximo plantio de inverno; agricultores relatam bons resultados na safra 2008-09.

 

O milho que vai brotar no Brasil em 2010 terá algo de diferente. Especialmente para as lagartas. A expectativa é que mais da metade das plantas já serão geneticamente modificadas, com um gene embutido em seu DNA que as tornará resistentes ao ataque desses insetos. A safra de verão, que está sendo plantada agora, deverá ser 30% transgênica e a próxima, de inverno, 53%, segundo estimativas da consultoria Céleres.

Na safra anterior – primeira em que o milho transgênico pôde ser plantado legalmente no Brasil – a taxa de adoção foi de 19%. “A velocidade com que essa tecnologia está sendo adotada é surpreendente”, avalia o economista José Maria da Silveira, professor da Universidade Estadual de Campinas e membro do Conselho de Informações sobre Biotecnologia, ONG ligada ao agronegócio.

“Quem plantou uma vez vai plantar de novo”, diz o agricultor João Carlos Werlang, presidente institucional da Associação Brasileira dos Produtores de Milho (Abramilho). Ele mesmo conta que plantou 40 hectares com transgênicos na safra passada, “só para experimentar”. Este ano, vai plantar 250 hectares – a fazenda inteira. “O rendimento foi muito melhor do que com o milho convencional”, afirma Werlang. “E o manejo é muito mais simples. Dá uma tranquilidade danada.”

Onze tipos de milho transgênico já foram aprovados pela Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) desde 2007, mas só um tinha sementes disponíveis no mercado para a safra passada: o MON 810, da empresa Monsanto. Ele traz em seu DNA um gene da bactéria Bacillus thuringiensis (Bt), responsável pela síntese de uma proteína que é tóxica para certos tipos de lagarta que atacam a lavoura – porém inofensiva para o homem e outros animais. Assim, a planta produz seu próprio inseticida orgânico. Quando a larva tenta se alimentar do milho, ela morre, reduzindo a necessidade de pesticidas químicos.

“A semente transgênica é mais cara, mas acaba compensando porque você usa menos inseticida”, diz Werlang, cuja fazenda fica nos arredores de Brasília. A média na região, segundo ele, é de seis a oito aplicações de inseticida por plantio. Com o milho transgênico, ele acha que pode chegar a zero. “No ano passado eu fiz uma aplicação só por desencargo de consciência, mas nem precisava. O transgênico daria conta sozinho.”

Outros dois milhos transgênicos estão disponíveis para esta safra: o Bt 11, da Syngenta, e o Herculex, da DuPont/Dow. Também foi aprovado recentemente o milho Bt11xGA21, da Syngenta, o primeiro que combina dois genes em uma mesma planta: um de resistência a lagartas e outro, de tolerância ao herbicida glifosato. Isso permite que o produto seja aplicado sobre toda a lavoura para o controle de ervas daninhas, sem prejudicar o milho.

Nos Estados Unidos, 85% do milho plantado já é transgênico, com várias combinações de genes. Na Argentina, 60%.

No caso da soja, a previsão da Céleres é de que a porção de transgênicos na produção brasileira aumente de 65% na safra passada para 71%, na safra 2009-10. A soja transgênica é plantada legalmente no País desde 2003 e ilegalmente, desde o fim da década de 90, com sementes inicialmente contrabandeadas da Argentina.

A única tecnologia disponível é a Roundup Ready (RR), da Monsanto, cuja liberação comercial no País foi bloqueada durante cinco anos – entre 1998 e 2003 -, por causa de ações judiciais movidas por organizações ambientalistas e de defesa do consumidor. Outras quatro variedades estão sendo avaliadas pela CTNBio, incluindo uma desenvolvida em parceria pela Embrapa e a Basf.

A soja RR tem o gene de uma bactéria que a torna resistente ao glifosato. No Rio Grande do Sul, onde o problema com ervas daninhas é mais grave, a adesão aos transgênicos é de quase 100%. Já em Mato Grosso, a soja convencional ainda é a mais plantada. A parcela de transgênicos no Estado foi de 42% na safra passada e poderá chegar a 48% neste ano, segundo o Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea).

A preferência deve-se a dois fatores, segundo o diretor executivo da Associação dos Produtores de Soja do Estado de Mato Grosso (Aprosoja), Marcelo Monteiro. Um é a falta de variedades transgênicas bem adaptadas ao clima do Estado, onde a soja convencional é extremamente produtiva. Outro é a estratégia comercial de algumas empresas de produzir soja convencional para suprir nichos de mercado na Europa.

É o caso do Grupo André Maggi, que “reservou” uma rota de escoamento e uma região inteira no oeste do Estado só para a produção de soja convencional. A empresa faz parte da recém-criada Associação Brasileira dos Produtores de Grãos Não Geneticamente Modificados (Abrange). “Não somos contra a tecnologia de forma alguma, desde que se respeite o direito do produtor de plantar o que quiser e o do consumidor, de comprar o que quiser”, diz o engenheiro agrônomo Ivan Paghi, diretor técnico da Abrange.

 

“O TEMPO e o ESPAÇO” e “DE REALEZA e de LOUCO…” por raymundo rolim / morretes.pr

O tempo e o espaço

 

A manhã passava depressa apesar do sol radiante. Veloz como uma corrida de bigas. O jardineiro não conseguiu colher mais que uma dúzia de flores (quando a média beirava às dezenas de dúzias). O padeiro conseguiu vender apenas um quinto do pão costumeiro e o homem que ordenhava as vacas não chegou ao final do segundo balde de leite. O relógio andava na mesma balada, mas, algo não estava bem. Era preciso descobrir o que houvera, pois os telefonemas eram interrompidos assim que chamavam. Um físico acusou uma rachadura no tempo que se dividiu em dois: antes e depois. Os que ficaram com o antes, adquiriram a primeira parte da manhã e por lógica simples, a outra parte com os que optaram pelo depois. Não sem muitas e exaustivas negociações, (explica-se): O fato suspeito teve desdobramentos nas relações interpessoais, pois partilhar as manhãs, não era tarefa de pequena monta. Os que tinham mais urgência do tempo compravam-no dos que dele dispunha, e passou-se a comercializar até mesmo semanas futuras de anos bissextos. Alguém teve uma grande e luminosa idéia e convocou os concidadãos a opinarem. Em conseqüência, fizeram relógios que andavam para trás. Assim o dia começava tarde e terminava com todos no berço e no colo do espaço, à medida que o tempo engatinhava rumo ao sol nascente.

 

De realeza e de louco…

 

Por mais que se tentasse extrair do infeliz uma confissão feliz, ele jurava inocência. E dizia sempre a mesma história e tão repetidas vezes e de tal modo nos mesmos detalhes, que a sua versão passou a ser aceita como a mais completa até então. O júri havia se reunido pela décima sétima vez. Fazia-se necessário e urgentemente por um final àquelas sessões infindas. Entrariam num acordo, desde que o sacana não expusesse desta vez como dantes, as suas lágrimas, que a todos comoviam para finalmente entrarem num choro compulsivo e coletivo. Passaram aos autos do processo que se sabia de cor parágrafo a parágrafo, volume a volume, quando o danado teve uma idéia. Mudou o curso de tudo até então dado por certo e definitivo. Disse que desta vez falaria a verdade! Houve tumulto, tentaram adiar a sessão. Juízes eram acometidos por chiliques e cacoetes pessoais. Não havia quem se conformasse! Ninguém queria outra versão por ser a atual de interesse geral – segundo alguns – e particular segundo outros. Além do que, a todos agradava o final que o confesso autor deitava à própria história de um realismo fantástico, cujo fecho de ouro, apontava para uma série de dúvidas que ainda pairava sobre o caso. Absolveram-no por exclusiva falta de provas conclusivas, por mais que ele insistisse em dizer que era uma espécie de mordomo clássico e único culpado pelos deslizes amorosos dos súditos e que se esforçava sempre pelo reino e por todos que estavam presentes naquela sala! Internaram-no com uma certa urgência. O rei delirava!

O PAGADOR DE IMPOSTOS por sérgio da costa ramos / florianópolis

O ilhéu, assim como todo o povo brasileiro, cedo se acostumou a pagar o quinto, o dízimo, a parte de César, chame-se César de Visconde de Barbacena, Marquês de Pombal, Lula ou Dário.

O IPTU engorda todo mês de janeiro, a uma taxa sempre superior ao IPCA. O preço das passagens de ônibus também seSÉRGIO DA COSTA RAMOS 1 reajustam por um número cabalístico, quase sempre uma pancada de “dois dígitos”. O único interesse que não é consultado é o do “pagador”. Aquele deserdado que um dia, na cabine eleitoral, imaginou estar bem protegido, ao passar “uma procuração” ao presidente, ao governador, ao prefeito.

Que lógica preside a majoração de um imposto, de uma passagem de ônibus em nível muito acima da inflação? A lógica de uma tirania fiscal, como a que inspirou o Marquês de Pombal.

Os impostos chegaram ao Brasil com as caravelas, os selos, as taxas, os emolumentos e as obrigações reinóis – tudo compondo uma imensa carga fiscal, infligida aos súditos de uma monarquia tão cartorária quanto a portuguesa.

Próximo dos 40% do PIB, o volume de impostos sugados do brasileiro já beira os US$ 400 bilhões – algo como R$ 1 trilhão –, “tesouro” este retribuído em “magníficos” serviços, ótima assistência médica e previdenciária, excelente base educacional e impecável segurança, com direito a “apagões” periódicos.

Mas até mesmo a Metrópole hoje se constrangeria em admitir que, entre 1790 e 1795, criou “impostos” especialmente dirigidos à Vila do Desterro, “para ajudar na reconstrução de Lisboa”, arrasada por um terremoto em 1755.

Toda a “baixa” Pombalina, junto ao Tejo, foi reconstruída com as gotas do nosso suor, num momento em que a vila padecia de endêmica pobreza.

É como registra mestre Oswaldo Cabral, em sua saborosa Notícia de Nossa Senhora do Desterro:

“Equivalia a, nada mais, nada menos, do que retirar o couro de quem já perdera a camisa…”

A mesma autoridade que comunicou o “imposto para Lisboa”, o vice-rei, Conde de Resende, não satisfeito com a “féria”, mandou à Câmara da vila uma pesada crítica ao povo desterrense, exatas 3.757 almas:

“Parece-me útil dizer a vosmicês que, sendo de sua obrigação cuidarem do bem comum e da utilidade desse povo, não o perca de vista para o apartar do ócio em que vive, obrigando-o, ao menos, à plantação dos mantimentos de sua subsistência.”

Além de colocar a mão no bolso dos ilhéus, o vice-rei – certamente um “trabalhador” – ainda chamava o povo de “vadio”. E o mandava plantar mais batatas…

Sábio, o desterrense não teve medo de perder o pescoço, como Tiradentes. E boicotou o “quinto” de Lisboa, guardando os seus parcos caraminguás.

A vila enfrentou a escassez praticando a desobediência civil – e festejando como podia. Durante a “grande fome”, Desterro possuía 666 casas, 18 lojas de fazendas e… 44 tavernas.

Se não havia muito o que comer, a turma se esmerava em encher a caveira. Só na Rua Menino Deus – caminho obrigatório para quem fosse rogar a bênção do Senhor dos Passos – havia 11 botecos com alambiques próprios, onde a “caninha” rolava solta.

Como aperitivo, a “raça” se virava com carne de macaco, um petisco para a época de vacas magras, saboreado com os “carás” e os “inhames” fritos.

As pestes não eram incomuns – a febre amarela, o cólera, a sífilis bubônica –, mas a visita mais temida era a das caravelas de sua majestade, trazendo impostos.

Fora essa “peste tributária”, a vida na Vila do Desterro podia ser vagarosa e despreocupada, do tipo “ganha-se pouco, mas é divertido”.

O ATEU D’ARCAIS por hamilton alves / florianópolis

O filósofo ateu Paolo Flores D’Arcais submeteu-se a uma entrevista, intermediada por um jornalista, Gad Lerner, com o Papa Bento XVI. Naturalmente, sem querer resvalar à parcialidade, no cômputo geral de que um e outro disseram pode-se concluir, sem muita dificuldade ou esforço intelectual, que o Papa Bento XVI passou-lhe à frente folgadamente.

Houve um momento em que, por exemplo, na discussão do aborto, D,Arcais mostrou as unhas de nihilista materialista:

- “A mim, por exemplo, parece até repugnante a ideia de considerar um aborto como homicídio; nunca, jamais o consideraria equivalente, e até acho – eu, pessoalmente – imoral quem sustenta uma coisa dessas”.

O Papa Bento XVI lhe deu o troco:

- “Flores D’Arcais disse que quem considera o aborto um homicídio comete um ato imoral. Não aceito isso”.

Em outra ocasião desse debate, que poderia ter sido mais brilhante se D,Arcais estivesse um pouco mais à altura do Papa Bento XVI, procurou-se situar o momento decisivo em que o aborto devesse ser praticado.

Para D,Arcais nos dezesseis primeiros dias o embrião não está sequer constituído… são células indiferenciadas. Ora, como aceitar que, para uns, o homicídio se caracterize desde a concepção.

A essa objeção novamente as palavras do Santo Padre foram, a meu ver, perfeitas:

“Para Santo Agostinho e espero que para todos nós, é absolutamente certo que, se alguém é homem, é intocável. Depois, vem a outra questão, que é: a partir de que momento se é um homem?”.

E concluiu:

“Segundo meus conhecimentos de biologia, na realidade, esse ser leva consigo, desde o primeiro momento, um programa completo do ser humano, que mais tarde se desenvolve. Mas o programa já está lá, e por isso se pode falar de um indivíduo”.

Seria oportuno lembrar-se que todos os códigos penais da grande maioria dos países civilizados, inclusive o do Brasil, inclui o aborto como crime por estar envolvido o problema da violação do direito à vida do feto, que não pode ser de modo algum interrompido, seja qual for a fase em que se encontrar.

Pretender demarcar, por exemplo, como quer o Sr. D,Arcais, em que momento se pode dar a eliminação do feto, que Aristóteles, em sua doutrina, dizia poder-se falar da existência de uma alma entre os três até seis meses, como querendo dizer que antes disso não existe a formação de um ser humano, é uma teoria que não vinga mais em nosso tempo – e hoje se consagra tal crime independentemente de saber-se o estágio do embrião.

Mas para o Sr. d,Arcais é até imoral quem pense em termos de homicídio no caso do aborto. E, assim, com ele, se alinham todos os ateus materialistas, certamente.

O que, em última análise, revela a diferença abismal entre a posição cristã relativamente à materialista sobre um tema que ainda agora tem sido longamente debatido pelas mais diferentes correntes de pensamento.

Rumorejando (Que pena que o apagão não apagou os políticos, lamentando). – por juca (josé zokner) / curitiba

Constatação I (Sem apelar…)

E quando a pobre da mulher vinha se aproximando do bar para bronquear e levar o marido pra casa que, naquelas alturas, como de praxe, já estava com o “caco cheio”, ele se agarrou na ponta da mesa e, pseudohaicaimente, se pôs a gritar:

“Me acuda!JUCA - Jzockner pequenissima (1)

Lá vem a miss bocona,

A bocuda!”

Constatação II (Passível de mal entendido).

“Ela estava com o Chico”.

Constatação III (De conselhos úteis, óbvios).

Para curar a sua dor de garganta, minha senhora, não tome a medicação indicada pelo seu médico com água gelada. De nada !

Constatação IV (De conselhos úteis, não tão óbvios).

Nunca subestime o teu interlocutor. Afinal, o vigarista que passa o conto do pacote ou o do bilhete premiado se faz de bobo para ser “enganado” e passado para trás pelos “espertos”, ou melhor, pelos incautos. De nada!

Constatação V

Rico fala das condições meteorológicas; pobre, do tempo.

Constatação VI

Não se pode confundir receio com recheio, muito embora quando se come um pastel sempre se tem receio de que o recheio seja de vento e, com isso, arrisca de, já na primeira mordida, se apanhar um resfriado, gripe, ou algo desagradavelmente similar.

Constatação VII

E como dizia, pseudo-haicaimente, aquele operário, salário mínimo, que passou sua vida sem amealhar um p. centavo, depois de se politizar por esforço próprio, naturalmente:

“Do trabalho, o fruto

Resulta pra outrem

O usufruto”…

Constatação VIII

Não se deve confundir talento com tá lento, muito embora muita gente de talento viva escutando: “Tá lento”.

Constatação IX

Não se deve confundir gama com cama, muito embora exista uma gama de tipos e modelos de cama para todos os gostos. Ressalte-se, ainda, a bem da verdade, que a finalidade de todas é – mais ou menos: mais menos do que mais, ou, talvez, até mais, mais do que menos – a mesma, isto é, dormir. Creio, caro leitor, que ficou mais ou menos claro essa tão didática explicação.

Constatação X (Ah, esse nosso vernáculo).

Súplice,

A tréplica

Do cúmplice,

Embestou.

Não contestou

A réplica.

DÚVIDAS CRUCIAIS

Dúvida I (Cuja resposta é de transcendental importância para o futuro da Humanidade…)

Tem gente que, quando espirra, não diz “atchim”, como é de praxe, mas apenas “atchi”, suprimindo o “m”. Seria o que se pode chamar de um espirro capenga ?

Dúvida II

Sob condição

Normal

De pressão

E temperatura,

Ela, afinal,

É candura,

E ternura,

Quando carente,

Somente

Na posição

Horizontal ?

Dúvida III (Via pseudohaicai).

Urdiu uma trama

Pra levá-la*

Pra cama ?

*A coberta, prezado leitor, apenas a coberta. Não o que o prezado leitor estava pensando. Aliás, prezado leitor, vamos parar de pensar só naquilo, tá ?

Dúvida IV

Quem será que inventou essa mentira de “quem com ferro fere, com ferro será ferido” ? E também aquela outra: “Quem semeia ventos, colhe tempestades” ?

Dúvida V

Os candidatos que se apresentam na televisão são atores – alguns maus; outros péssimos – e nunca se deram conta disso ?

Dúvida VI

-“Opa!

Cadê a sopa ?

Será que enfurnou

O cozinheiro ?

Ou, por ser ligeiro,

O caldo entornou ?”

Observação: Em certos países, as palavras “sopa” e “cozinheiro” podem ser substituídas por outras mais condizentes com a situação local.

Dúvida VII (Via pseudo-haicai).

Fazer regime,

Em dia de festa,

É, de lesa-pátria, um crime ?

Dúvida VIII (Via pseudo-haicai).

Orgulhosa, impávida,

Foi a invicta

Que apareceu grávida ?

Dúvida IX (Via pseudo-haicai).

Preciso do seu préstimo:

Daria para me fazer

Um pequenino empréstimo ?

Dúvida X (De cultura geral, via pseudo-haicai).

Foi o Tarzan

Que esgrimou com o pirata ?

Ou foi o Peter Pan ?

Dúvida XI

Rumorejando está constituindo um concurso para ver qual foi o político que mais mudou de partido em termos mundiais, Brasil, Paraná, etc. Quem você acha que ganha ? (Cartas à redação). Como prêmio, o vencedor fica dispensado de assistir o programa de propaganda política.

Dúvida XII

Sinceramente, o que é que você pensa do motorista que não te agradece quando você “cede o passo”, o deixando passar na sua frente ao sair duma garagem, entrar na preferencial, ou algo assim ?

Dúvida XIII

Para que é que serve mesmo a bomba atômica ?

Dúvida XIV

Plutocrata é o sujeito que só assiste desenho animado do Pluto ?

Dúvida XV

Quem afirma que até hoje não perdeu um texto que havia batido no computador é um refinado mentiroso ?

Dúvida XVI

Foi o Homem das Trevas que, ao ver pela primeira vez a luz do sol, não só ficou ofuscado como, também, levou um baita susto da sua própria sombra ?

Dúvida XVII

O suspeito era um cidadão confiável. Tava acima de qualquer suspeita ?

Dúvida XVIII (Lucubrativa).

Você não acha, prezado leitor, que a palavra “porciúncula”, que quer dizer pequena porção, porçãozinha, por ser polissilábica, deveria significar grande porção, porçãozona ?

Dúvida XIX

Por que será que tem tanta gente com cara de caricatura ?

Dúvida XX

Será que não foi um disco voador que provocou o apagão?

De Todos os Genros a Todas as Sogras – de “o ruminante” / belém

Eu, aqui representando todos os infelizes que tem a obrigação de conviver com suas sogras, venho por meio desta expressar toda a realidade que existe por trás desta guerra, sim se trata de uma guerra que por milênios sobrevive de batalha em batalha e, creio eu, esta  só terminará com o findar da humanidade.

Sou sabedor que todas as sogras negarão o que revelarei aqui, mas não me importo, pois é uma parte da guerra necessária à sua adequada continuidade.

Desde os primórdios da sociedade existe a notícia da existência da sogra, inclusive nos mitos da criação não é incomum termos a alegoria de um representante deste ser tão desprezível aos olhos dos genros.

Quem não conhece a história de Adão, Eva e a “serpente”. As pessoas que brincam que Adão que foi feliz por não ter tido sogra é que se enganam, a desgraçada está representada na serpente que influenciou sua esposa e desgraçou de vez com a vida dele.

As batalhas acontecem no dia-a-dia, não existe a chance de um só momento de paz. Trata-se de uma guerra silenciosa por parte delas, mas cheia  influências e jogos sinuosos incrivelmente inteligentes. Nós genros somos menos habilidosos em esconder a guerra, daí nossa declarada aversão a sogras, somos assim, sempre transparentes.

Essa transparência nos impede de ganhar esta guerra, pois enquanto vamos ao embate frontal, estas víboras se aproveitam disso para se fazer de vítimas e nos colocar como tiranos que tiraram a sua filha do melhor caminho que outro homem poderia ter dado a nossas esposas.

As sogras são tão hábeis em suas artimanhas que conseguem, por vezes, levar membros do mundo dos genros para seu lado, então ouvimos absurdos como: “Eu adoro minha sogra! Ela é uma mãe para mim!”

Pior ainda é quando as sogras treinam suas filhas para se tornarem excelentes cozinheiras, engordando e enfraquecendo um combatente que, por fim, acabara morrendo cedo por problemas de saúde.

Os genros, por outro lado, fazem de tudo para que elas sempre vejam em nosso grupo tudo o que elas jamais desejaram para suas filhas. Desta forma tornamos suas vidas um desgosto total.

Essa luta não gera vítimas diretas, pois as mortes que ocorrem não são por conta de ataques frontais, mas pelas coisas que ocorrem naturalmente na vida. O prazer de um genro é que sua sogra viva muito, assim ele pode atormentá-la por mais tempo. Para uma sogra, o prazer está em viver o suficiente para ficar totalmente dependente dos cuidados de suas filhas, atazanando incrivelmente a vida do casal que elas tanto querem separar.

Para vocês sogras, digo-lhes que não adianta separar sua filha de seu genro, pois outro será recrutado ao lugar do derrotado, porém agora mais voraz nos ataques, pois um companheiro de batalha fora derrotado.

Por fim, gostaria de dizer-lhes que, se acaso um de nós venha a perecer antes de sua sogra, saibam que foi uma grande honra lutar contra tão poderoso oponente. Caso contrário, uma péssima morte para vocês (isso nós vamos tentar garantir).

 

De Todas as Sogras a Todos os Genros*

*Carta em resposta ao texto: De Todos os Genros a Todas as Sogras

Aos nossos prezados genros.

Gostaríamos de expressar nosso espanto ao receber tão ameaçadora carta, pois desconhecemos qualquer guerra em curso que envolva nossas pessoas.Brincadeirinha! Isso foi só para garantir que vocês leiam o resto da carta totalmente irritados com nossa mais poderosa habilidade: a dissimulação.

De fato, desde o princípio da sociedade estamos disfarçando nossas artimanhas, estratégias e truques para mantê-los acuados na posição de defesa que todos vocês vivem. Enquanto isso, seguimos vitoriosas em saber que nenhuma de nós jamais se rendeu verdadeiramente, pois não há entre nós alguém que realmente gostou de um genro.

Quanto à história de Adão e Eva que vocês citam, saibam que assumimos a responsabilidade por tal evento, pois como poderíamos permitir que um ser tão deprimente vivesse em tão belo paraíso. Inadmissível!

Nossa maior vitória é ouvir de um genro que ama a sua sogra. É uma doce e prazerosa vitória que nenhum de vocês jamais poderá ter.

Não entendo quando dizem que em nossa guerra não há vítimas diretas. É só ver as estatísticas que apontam que os homens morrem mais cedo que as mulheres, que a maioria das mortes “acidentais” é de vítimas masculinas.

É claro que adianta separar vocês de nossas filhas, pois o estresse gerado e a pensão que vocês terão que pagar acabará por adiantar sua morte. Enquanto nossas garotinhas buscam outra vítima outro marido.

Não nos importa quem venha a morrer primeiro, pois nossa missão há sempre de ser cumprida. Não gostaríamos que vocês morressem cedo, mas não há como evitar diante a tanta estupidez. Quando um de vocês se vai, uma companheira nossa de guerra fica um bom tempo sem diversão.

Ficamos felizes por vocês nos reconhecerem como grandes oponentes. Infelizmente, para nós vocês são apenas inimigos medianos que servem para nos divertir. Que graça teria a vida sem importunar vocês.

Desde já agradecemos a abertura que nos deram para expressar nossos desafetos, dos quais continuaremos a negar. Inclusive acho que foi um de vocês que escreveu esta carta para nos incriminar, não foi?

Com muito amor e carinho.

De Todas as Sogras

 

OS DONOS DO BRASIL – por francisco xarão

A divulgação dos resultados preliminares do censo agropecuário 2006 precisa de muito estudo e análise para “tirar” dos números o seu significado político e sociológico na compreensão da dinâmica de desenvolvimento da estrutura agrária e os resultados da política agrícola das últimas duas décadas. Contudo, alguns elementos são de fácil entendimento, embora de difícil aceitação.

Os números divulgados confirmam o que os movimentos sociais, em especial o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, vêm debatendo e apresentando como causa da alta concentração de terras no Brasil: a ausência de uma política agrária que enfrente as oligarquias do campo e um modelo agrícola centrado na grande empresa capitalista em detrimento do modelo da agricultura familiar.

Gestado pelo mercado, com apoio do Estado, nos anos de ouro do neoliberalismo no Brasil, o agronegócio para produção de commodities se orgulha da modernização que promoveu no campo substituindo o jegue, o boi e o jeca pelo trator, colheitadeira e agrotóxicos em larga escala. No entanto, bastou o governo federal acenar com a possibilidade de cumprir a legislação e rever os índices de produtividade das propriedades rurais para que a bancada ruralista, no senado e na câmara dos deputados, saísse em gritaria uníssona de que querem roubar a terra de quem trabalha.

Essa cortina de fumaça que os deputados e senadores, defensores do arcaico modelo agrário e da “improdutiva” política agrícola baseada na grande propriedade e nos agrotóxicos, montaram serviu para esconder o que o censo agropecuário acabou por revelar: a segurança alimentar dos brasileiros é garantida pela pequena propriedade familiar. Se dependesse do agronegócio, de formato capitalista, o povo brasileiro morreria de fome porque só poderia comer os restos da exportação. A lavoura capitalista não produz alimentos, produz mercadorias.

A novidade do censo agropecuário 2006 foi realizar uma radiografia mais completa e em conformidade com a lei que define agricultura familiar. Com isso foi possível fazer comparações com os resultados de 1985 e 1996 e apresentar uma fotografia onde a agricultura familiar aparece com sua cara própria. Os dados apresentam uma realidade da agricultura familiar que devem servir de base para uma reorientação completa da política agrícola e agrária em curso no país. Senão vejamos: apesar de representar 84,4% do total de estabelecimentos rurais ou 4.367.902 propriedades, a agricultura familiar ocupa uma área de apenas 24,3% da área total dos estabelecimentos rurais cadastrados. Ainda assim, nessa pequena lavoura se produz 38% do valor bruto da produção agrícola do país e emprega 74,4% da mão de obra no campo. As propriedades com menos de 10 hectares ocupavam em 2006 apenas 2,7% (7,8 milhões de hectares) da área total dos estabelecimentos rurais, enquanto os estabelecimentos com mais de 1.000 hectares concentravam mais de 43% (146,6 milhões de hectares) da área total. Se tomarmos o número total de estabelecimentos (cerca de 5,2 milhões de propriedades), próximo de “47% tinham menos de 10 hectares, enquanto aqueles com mais de 1.000 hectares representavam em torno de 1% do total, nos censos analisados” resume o informe do IBGE.

Mesmo cultivando uma área menor com lavouras (17,7 milhões de hectares) a agricultura familiar responde por 87% da produção de mandioca, 70% da produção de feijão, 46% da produção de milho e também é responsável por 50% da produção de frangos, 59% da produção de suínos e 30% da produção bovina, apesar de cultivar uma área menor com pastagens. O censo revela ainda que o valor bruto da produção da agricultura familiar e sua participação no valor bruto da produção total obteve crescimento de 38% para 40% em 10 anos (1996-2006). Segundo informativo do Ministério do Desenvolvimento Agrário – MDA: “A agricultura familiar gera um VBP [valor bruto de produção] de R$ 677,00/ha que é 89% superior ao gerado pela agricultura não familiar (R$358,00/ha).”

Entende-se agora a virulência dos ataques dos latifundiários e seus aliados às propostas da sociedade civil para limitar o tamanho das propriedades no Brasil e a proposta do governo federal (MDA) de rever os índices de produtividade, pois qualquer cidadão medianamente informado é capaz de concluir que existe no país uma concentração absurda da terra que é contra o processo de desenvolvimento sustentável. O índice de Gini do uso do solo no Brasil é de 0,872, muito próximo de um, o que indicaria o nível máximo de concentração.

Portanto, não há o que se comemorar. A tentativa do governo, na divulgação do censo, de “dourar a pílula” apresentando os exitosos números da agricultura familiar como uma prova de que a política de crédito e a reforma agrária começam a dar frutos é outra cortina de fumaça para esconder a ineficácia da política agrária e a quase ausência de uma política agrícola específica para a produção de alimentos da cesta básica. Verdade seja dita, os agricultores familiares é que apesar do mercado e apesar do governo viabilizaram suas propriedades como equipamento altamente produtivo. Evidente que o censo 2006 avalia apenas três anos do atual governo, talvez por isso se possa autorizar o discurso: “se não fosse nós seria pior”. Mas querer atribuir a sobrevivência da pequena propriedade familiar à política agrária e agrícola deste ou dos governos passados é, sem sombra de dúvida, um exagero. Analisando a repartição do orçamento público, especialmente no período pesquisado, verifica-se uma distribuição francamente desproporcional em favor do agronegócio.

Antes mesmo da divulgação do censo agropecuário 2006, um estudo, resultado de tese de doutorado do geógrafo Eduardo Girardi, intitulado Atlas da questão agrária brasileira, lançado no primeiro semestre deste ano, mostrava que “Em 2003, os pequenos imóveis, com tamanho médio abaixo de 200 hectares, representavam 92% do total de propriedades, mas ocupavam apenas 28% da área agrária. As propriedades de médio porte, de 200 a 2 mil hectares, respondiam por 6% do total de imóveis e 36% da área. Já aquelas acima de 2 mil hectares, embora não chegassem a 1% do total, ocupavam 35% da área do setor”. Com pequenas variações regionais que não alteram o quadro geral, o censo 2006 confirma os resultados do estudo de Girardi. O que isso implica para o debate da reforma agrária?

A legislação brasileira proíbe desapropriação de área menor que 15 módulos fiscais (que varia de região para região, mas situa-se, na média, em torno de 500 hectares). Sabendo que existem aproximadamente 5,2 milhões de imóveis rurais cadastrados no país e aceitando que todas as médias propriedades (acima de 500 hectares e menor que 2000 hectares) cumprem sua função social, ou seja estão dentro dos índices de produtividade atuais e respeitam a legislação ambiental, restam para desapropriação os imóveis rurais acima de 2000 hectares, que representam menos de 1% do total de imóveis rurais, ou seja, em torno de 50 mil propriedades.

Então toda a gritaria dos deputados, senadores associações de produtores rurais é para defender o “direito de propriedade” de 50 mil privilegiados contra o “direito de propriedade” de mais de 4 milhões de pequenos e médios proprietários e sem terras? Absurdamente é isso. Na democracia dos atuais deputados e senadores 50 mil proprietários são mais donos do Brasil que os outros quase 5 milhões.

A estrutura agrária tem intima ligação com a política agrícola. A concentração de terra – confirmada pelo Censo 2006 deriva da necessidade que tem o agronegócio voltado para exportação — soja, cana-de-açúcar e pecuária — ocupar grandes extensões em planícies que facilitem o uso intensivo de máquinas e agrotóxicos para produção em escala. Para competir lá fora o agronegócio precisa destruir aqui dentro. Essa concentração continua expulsando os trabalhadores do campo. Em dez anos, deixaram de trabalhar nas lavouras 1,363 milhão de pessoas. Permanecem ainda 16,5 milhões ou 18,9% da população ocupada do país em 2006.

O discurso dominante não vê limites para as “conquistas cientificas” que, descobertas hoje no laboratório, amanhã já se transformaram em tecnologias para produção de mercadorias. Clonagem, transgenia, agrotóxicos, tudo é possível. Não há barreira ética e moral capaz de frear “a marcha do progresso”. A agricultura familiar aparece para estes senhores pseudocientistas e “mudernos” como uma ingênua nostalgia bucólica. Paradoxalmente, aqueles que acham tudo possível na ciência e na moral acreditam ser impensável uma outra estrutura agrária e uma outra política agrícola. Sua condição política e cegueira ideológica, sim, é que atravancam o desenvolvimento de um país com soberania alimentar. É o latifúndio pós-moderno onde tudo é possível e relativo menos a contestação da absurda concentração de terras.

Mas, se “ouvirmos” os números do censo 2006 e imaginarmos um país com distribuição de renda, sem fome, com menos agrotóxicos, preservando as florestas é inexorável mudar de rumo. É uma imposição social e política desconcentrar a propriedade da terra. Sem isso não há desenvolvimento social, apenas mais concentração de terra e renda.

O primeiro passo é resolver rapidamente o problema dos acampamentos da reforma agrária. Segundo dados do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terras existem hoje 230 mil famílias acampadas. Como já avaliamos, se adotássemos uma política agrária determinada a desconcentrar a propriedade da terra teríamos de intervir naquelas com mais de 1000ha que representam menos de 1% do total de propriedades no Brasil. Assim, para assentar as 230 mil famílias, considerando um módulo médio de 25ha por família seriam necessários menos de 6 milhões de hectares o que representa menos de 4% do total da área ocupada pelas fazendas com mais de 1000ha. Só para exemplificar: o paranaense Eraí Maggi Scheffer comanda uma empresa que planta em 250 mil hectares dos quais 100 mil são próprios e o restante arrendado de outros agricultores. Se, ceder 4% da sua área para reforma agrária o “rei da soja” ainda terá ao seu dispor 240 mil hectares e nos 10 mil hectares disponíveis à reforma agrária daria para assentar 400 famílias em lotes de 25ha cada. Pergunto: foi agredido o senhor “rei da soja” em seu direito de propriedade e de produzir? Repartir a produção de 10 mil hectares com mais 400 famílias irá dissolver o negócio do senhor “rei da soja” pela concorrência? Ora, não estamos falando de uma revolução no campo, de uma coletivização forçada, mas de multiplicar o número de proprietários com a clara intenção capitalista de ampliar o número de unidades produtivas e diversificar a oferta de alimentos. Trata-se de uma reforma agrária que é realidade em todos os países onde houve uma revolução burguesa (capitalista). É claro que essa é uma exigência mínima, porque o que deveríamos fazer é cumprir a constituição.

Há muito que a legislação brasileira não reconhece mais o direito de propriedade da terra mas a sua função social, que significa que um pedaço de terra é uma unidade produtiva, ou seja, deve produzir alimentos ou seu dono não pode exigir a propriedade sobre a mesma. Ainda assim, a força desta minoria é tão grande que a própria lei não é aplicada. Tribunais crivados de latifundiários ou de amigos deste seleto grupo de ricos que se acham “donos do Brasil” insistem em interpretar a constituição de acordo com suas conveniências e a criminalizar os movimentos que lutam pela terra.

No entanto, como a constituição do país prevê o direito de produzir, de ter um pedaço de terra que cumpra com sua função social, os movimentos sociais não fazem mais que exigir que se cumpra a lei. Isso os legitima sim a ocupar, resistir e produzir. Mas, para além da lei, a legitimidade e necessidade de sua luta se estriba num direito humano fundamental: o direito a vida; deles e de todos os brasileiros. Porque, como revelou o censo 2006, se não fosse a pequena propriedade familiar e a importação de alimentos (um absurdo para um país como o Brasil) os brasileiros passariam fome.

A sociedade brasileira se quer deixar para trás o desonroso título de país com o quadro de segunda maior concentração da propriedade fundiária em todo o planeta (atrás apenas do Paraguai) e caminhar para uma democracia de verdade, precisa dar um basta a estes privilegiados. É urgente que se estabeleça um limite do tamanho máximo da propriedade rural e que se assente, pelo menos, as famílias acampadas.


* Professor de Filosofia da Rede Municipal de Porto Alegre; Mestre em Filosofia política pela UFMG e aluno do PPG em Filosofia da UNISINOS.

____________

Referências:

ALMEIDA, Cássia, LINS, Letícia, PINTO, Anselmo Carvalho. Brasil: muita terra na mão de poucos. Publicado jornal O Globo 01/10/2009. Disponível on line:

http://www.biodiversidadla.org/content/view/full/52225 acessado em 08/10/2009

BENJAMIN, Cesar. Impactos do latifúndio. Disponível on line:http://www.ecodebate.com.br/2009/10/06/impactos-do-latifundio-artigo-de-cesar-benjamin/ acessado em 08/10/2009.

BRASIL. Censo Agropecuário 2006. IBGE. Disponível on line:http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/economia/agropecuaria/censoagro/2006/agropecuario.pdfacessado em 05/10/2009

BRASIL. Agricultura Familiar no Brasil e o Censo agropecuário 2006. Ministério do Desenvolvimento Agrário. Disponível on line:http://www.mda.gov.br/arquivos/2246422214.pdf acessado em 05/10/2009

GIRARDI, Eduardo Paulon. Atlas da questão agrária brasileira. Disponível on line:http://www4.fct.unesp.br/nera/atlas/ acessado em 05/10/2009.

 

RUDI BODANESE e DRUMMOND DE ANDRADE, fotopoema 143 / florianópolis

RUDI BODANESE - poema&foto143

TONICATO MIRANDA e seus poemas / curitiba

TONICATO MIRANDA - Barquejanto

 

-.-

 

A Voz da Rã

 

Começo o ano com Janis Joplin

começo o ano com saudades minhas

e da goela dela reverberando no meu peito

nos botões da camisa, nas pregas das linhas

fechando-me o sangue nas veias do coração

 

“Summertime” não é deste mundo

uma lápide de mármore dura e branca

Janis quase não canta, quase se encanta

Negra voz sibilante, em breve castidade

Sussurro rouco, bafejando-nos sua imortalidade

 

Mas todos os sobreviventes

ainda estão por aqui

querendo se despregar da cruz

morrendo no dia-a-dia, na ponta das espadas de luz

sob o sol que teima em furar o cerco das nuvens

 

Os sobreviventes são bandos de mentirosos

Calem-se, calem-se, façam-se mudos

nada mais quero ouvir além da canção

quero da voz de Janis, a sua benção

quero ouvir os porões da minha mente

 

“Summertime” don’t me “cry”

“Summertime” o amor chora-me um ai

porque o amor é uma forma de sofrimento

o corpo perdendo o movimento

quando toda a máscara arrancada da cara, cai

 

“Summertime” escorre em meu peito um verão de saudades

e já não me reconheço no turbilhão de fatos, anos depois

não sou eu chorando por meu passado, mas o retrato do que fui

e fujo como sapo ligeiro, nos charcos dos campos de arroz

fujo da rã cantora agonizando-me a dúvida da sobrevivência

 

“Summertime”

Ahhh! Por que já não me reconheço?

Onde enterrei meu passado?

Ahhh!! Janis!! Ahhh! Janis Jasmim!

Quantas ausências sinto dentro de mim!

 

-.-

 

O Bicho da Goiaba

às poetas das noites Curitibanas, anos 80

 

Ela quer arrancar do meu coração

as angústias que pastam nos meus relvados

ao calar e sumir serra abaixo, pras bandas de Morretes

no rumo dos rios pedregosos e encachoeirados

 

Ela não sabe dessa dor que rói

traça que depois de mariposa

mastiga as madeiras e até os próprios dentes

comendo a si mesma antes de ser esposa

 

Ela não sabe que as cigarras passam

cinco anos debaixo da terra, raízes a comer

até que brotando do chão cantam e chamam

os companheiros para fornicar e logo morrer

 

Ela não sabe que estou pronto para a morte

mas queria ao menos me deleitar no malho

roupas arrancadas aos urros e nos sussurros

ser o rei, a besta, o coringa, todo o baralho

 

Não sabe ela que estou pronto para o jantar

e não mais importa quem vai comer ou beber quem

se minha boca vai comer ou beber a comida

serve também que ela mesma seja a comida

 

Não sabe ela que comprei um vinho especial

para esta particular folia fora de época, meu carnaval

onde sou o Rei Momo, o Arlequim, o passista

vinho amoroso, para saciar meu lado menos animal

 

Não sabe ela que morro de saudades dela e de mim

eu, tão idiota, que não sei de morros e de morretes

de estradas lamacentas, de marimbondos e goiabas

ela tão airosa, alucinando minhas pontas e aríetes

SINAL DE ETERNO de otto nul / palma sola.sc

 

 

 

Entro no bar sem

Cogitar de eterno

Antes olhei à direita

E à esquerda

Na leve suposição

De encontrá-lo

De um lado uma rua

Infinitamente longa

De outro, o céu

Sem nuvem

Ali, sim, havia

Todos os motivos

Para que, enfim,

O eterno se mostrasse

Um sabiá trinou

Numa árvore

De um certo modo

Era uma canção eterna

Aqui e ali despontava

Algo pretensamente eterno

Mas no fundo de tudo

Havia um sinal de eterno

 

MÁXIMA FORÇA de solivan brugnara / quedas do iguaçu.pr

O sonho e a força máxima.

O sonho é o deus infantil escondido atrás

do racional.

O sonho tece tratores

monta fábricas, compõe andaimes.

O sonho abre um shopping.

O sonho não é ingênuo.

O sonho rouba.

O sonho depreda.

O sonho angustia.

O sonho frusta.

O sonho quer ser eleito.

O sonho quer conhecer a África.

O sonho quer vender a cura de doenças.

O sonho planta quatro mil alqueires

de soja todo o ano.

O sonho quer escravos.

O sonho mata e desmata.

O sonho gerou esta era de desperdício.

O sonho é predador de outros sonhos.

O sonho quer mais.

O sonho mistura, aumenta, encolhe,

cães, gatos, bois e cavalos.

O sonho desmesura úberes e quer sempre mais leite.

O sonho.

 

 

O PÁSSARO BRANCO de vera lúcia kalahari / portugal


Um pássaro de asas brancas, desdobradas,

Anda a dançar na praia…

Há o rumor de ondas desgrenhadas,

Há espuma fervente e fria

E silêncio de ventos que não existem.

O barco da minha vida

Caravela d’esperança

Naufragou naquela praia,

Sem mar, só com o cantar doce, amargurado,

Do meu pranto.

Esse pássaro que nasceu comigo

Não mora numa gaiola,

Não nasceu nos verdes bosques,

Não é um pássaro de penas.

É um pássaro que canta

Nas longas noites sem luz,

Um canto de risos e prantos,

Um pássaro que agarrei

Com mãos trémulas de criança

E d’esperança.

Larguei para que voasse

E cantasse

Em todas as almas,

Fizesse nelas brotar flores,

Estrelas e amores.

O meu pássaro branco…

Branco como nuvens esvoaçantes,

Como um pássaro tecido de fios de luar…

Fugiu das minhas mãos trémulas de criança

Que se fechavam

E procuravam encurralá-lo

Em qualquer ninho de amor.

É agora um pássaro triste e desolado…

Um pássaro vagabundo

Açoitado por um vento furioso

Que o assusta e o arrasta p’ra solidão.

Um pássaro de asas murchas,

Roxas como lírios macerados,

Como um céu esfarrapado

Sem estrelas, sem luar.

Não houve ninhos que o abrigassem

Nem mãos trémulas d’esperança que o agarrassem.

De nada serviram meus prantos e minhas dores…

O meu pássaro branco, alvo como nuvens esvoaçantes,

Dança na praia que não existe,

A praia da solidão,

Ferido de dor e de morte,

Curvando as asas brancas

Que não são brancas,

Largando às ondas e aos ventos, as suas penas.

DENISE ROMAN no PALACETE DOS LEÕES do BRDE / curitiba

Denise Roman encerra o calendário de exposições no Palacete dos Leões

A última exposição do ano no Espaço Cultural BRDE comemora os 30 anos de carreira de Denise Roman e traz a delicadeza, a imaginação sutil e as perfeições das imagens por ela representadas. Formada em 1984 em Desenho e Pintura pela Escola de Música e Belas Artes do Paraná (EMBAP), a artista retrata em “Diário da Varanda”, a rotina dos pássaros que pousam em seu terraço, em um edifício no bairro Batel, em Curitiba.

Denise utiliza a litografia, a gravura em metal, e a técnica escolhida para a exposição, desenho e pintura.  A fantasia lírica, que representa sentimentos e percepções, está sempre presente nas obras da artista, e a natureza é essencial para completar o amor que tem pelo desenho. “Fui rendida pela natureza”, completa a virginiana, perfeccionista em tudo o que faz.

A exposição “Diário da Varanda” está na segunda edição. A primeira aconteceu em 2008 no Sesc Água Verde. “Eu gostei tanto daquela exposição que resolvi revivê-la aqui”, comenta. No Palacete dos Leões, Denise traz imagens novas, quase todas diferentes da primeira exposição, mas, que não deixam de retratar a rotina dos pássaros.  Ana Itália Paraná Mariano, uma das curadoras da exposição, destaca que Denise, nos últimos dois anos, iniciou uma fase nova. Passou a olhar a varanda e aplicou a arte em desenho e pintura, deixou a gravura e passou a fazer telas. “É uma fase bonita, em que Denise continua com a temática do ‘mundo lúdico’”. Ana Itália destaca ainda que além da mudança, a artista continua fiel à gravura. “É uma das mais importantes gravadoras do estado. Seu trabalho, além de artista, deve ser notado também como orientadora de cursos de gravura, ensinando gerações de bons gravuristas”.

Sobre o trabalho da artista, o texto da curadoria diz: “Seu trabalho tem alma, vida própria e nos propicia interagir como espectadores na busca do que não está evidente à primeira vista… A contemplação estética é transposta para um espaço totalmente preenchido com a ânsia de historiar este mundo lúdico. Denise aguça nossos sentidos, nosso olhar para a contemporaneidade, que pode estar no presente, no passado entrelaçando dimensões de mundos reais ou não perceptíveis, presentes na quase totalidade de sua obra”.

Há 30 anos Denise Roman trabalha no Espaço Cultural Solar do Barão, sendo que nos últimos 22 anos se dedicou a dar aulas de gravura. A alegria e poeticidade, sempre observadas nos trabalhos de Denise Roman são reflexos de um olhar atento a tudo em sua volta, sejam imagens vistas na rua, chamados pela artista de Croqui Urbano, ou seja em uma simples tarde em que após colocar pedacinhos de mamão na varanda, a comilança dos passarinhos  vira reflexo em um diário sobre a vida. “Gosto de dar ao meu trabalho um sabor ilustrativo, brinco com papel e nanquim mexendo com figuras e texturas”, complementa a artista que é chamada pelos amigos de Denise Romântica.

convite azulejo preto cinza FINAL 1

azulejo “Diário da Varanda” – Denise Roman

 

Abertura

12 de novembro às 19hs

Exposição

De 13/11 a 08/12

Segunda a sexta-feira, 12h30 às 18h30

Espaço Cultural BRDE – Palacete dos Leões

Av. João Gualberto, 530/570 (com estacionamento)

Alto da Glória – Curitiba -PR

Informações: (41) 3219-8056

BRDE Poliana Dal Bosco
Estagiária / ASCOM
Fone: 41 3219.8035
Fax: 41 3219.8153
www.brde.com.br

MINHA POESIA de julio saraiva / são paulo


minha poesia não foi educada

na escola de bilac

e nunca será convidada para o chá

dos imortais da academia brasileira de letras

minha poesia anda descalça pelas ruas

do centro velho de são paulo

nenhum tradutor francês perderá seu tempo

debruçado sobre ela

nem será lembrada nos saraus familiares

não a dirão nas escolas

nos dias de festas cívicas depois que a

bandeira nacional onde se lê Ordem e Progresso

for hasteada por uma menina loura

minha poesia sai todos os dias

muito cedo da favela de heliópolis

pega ônibus lotado

desce pela porta da frente sem pagar a passagem

e vai vender balas no cruzamento da brasil com

[a rebouças

 

minha poesia é aquela mulher despudorada

que se oferece a qualquer um sem cerimônia

se bobear assalta e é capaz até de matar

minha poesia se alimenta do lixo das palavras

podres proibidas que não cabem na boca

das pessoas de bem e por isso deve ser execrada

de todas as antologias e condenada a trinta anos

[de silêncio

“HONORÁVEIS BANDIDOS” do jornalista palmério dória, JÁ está nas livrarias do país / belém.pa

a saga do senador da república brasileira e presidente do senado federal, JOSÉ SARNEY, contada pelo jornalista PALMÉRIO DÓRIA, já se encontra nas livrarias do país. um trabalho de longa pesquisa que vem confirmar tudo aquilo que sabemos e que nada fazemos. “tudo isso acontecendo e eu aqui dando milho aos pombos” (RAUL SEIXAS).

sarney

CRONTOS ou CÔNICAS por omar de la roca / são paulo

 

Atravessei a miniatura da Via Lactea, riscada de estrelas multicores esperando que uma delas passasse de raspão e levasse com ela esta dor de cabeça imensa.Fui garimpar um pouco de energia com o Pedreira.Aprendi que amigos são para isso mesmo.Um dia a gente apóia e em outro nos apoiamos.As pedras coloridas e a conversa me aliviam.Mas a dor esta forte e não consigo participar direito.Preciso pedir desculpas da próxima vez.Momentos preciosos de amizade não podem ser desperdiçados.Mas a cabeça lateja e lateja.Começou assim : Sai do prédio gelado e vazio,como um grande tumulo congelado.Fui andar ao sol.O sol que me encarou de frente e me fez buscar sombra acolhedora que não encontrei.Não é um longo caminho até o Pedreira e eu sempre vou com prazer.Espero que para ele minha presença seja tão bem vinda,tanto quanto eu gosto de estar lá.Mas não com dor de cabeça,que lateja,lateja.Estou aprendendo a observar mais.Aprendendo a olhar para cima,para a borboleta inexistente ,vendo o pássaro que não passou e vou registrando tudo ou quase tudo.Será que escreverei um conto? Uma crônica ? Acho que seria melhor escrever um cronto mistura de conto e crônica. Não uma cônica que me lembra formas geométricas.Todas diferentes,como as pessoas e as pedras.Lateja.No caminho querem pegar em minha mão,quase deixo para sentir o toque,mas a conversa que vem depois já conheço de cor.Continuo caminhando ao sol,que me ofusca e cubro os olhos para diminuir seu brilho.Ajuda,mas quem poderá ofuscar o sol ?As folhas de carvalho na pedra.Que eu sempre quis fotografar.Mas para que? Bonitas  sim,mas de uma inutilidade absoluta. Continuarão na pedra até que o prédio venha abaixo.Lateja,lateja.Passo pelas árvores que me cumprimentam e eu me curvo perante elas.Vou caminhando,mas devagar,que lateja. Já foram quatro comprimidos.E a dor que multiplica o sangue bombeando,latejando.Fechou o farol.Atravesso ainda com o sol no rosto,fazendo o possível para ignora-lo, mas ele não deixa. Precisei dar uma pequena corrida que uma moto não respeitou o farol.A cabeça explode.Vou andando devagar,preciso de energias boas.Energia das pedras coloridas.Muitas coisas me passam pela cabeça,vejo um pequeno jardim sem flores,sem grama.Um jardim?Ao menos me pareceu que era um jardim.Um pedaço de terra revirado.Sem uma planta sequer.Lateja.Ali,um jato de água tímido querendo vencer a queda e se lançar no espaço.E eu passo por ele esticando a mão para molhar a testa. Mas esta longe.E eu continuo pela praça quase deserta.Latej.Isto mesmo latej,esta melhorando,e eu me animo.Começamos a conversar e eu a tocar nas pedras.Lat,quase bem mas ainda confuso dos comprimidos.E falamos e falamos.Lateja forte.La.Chega a hora de ir embora.Quase bem agora.De costas para o sol volto a caverna fria.No caminho abro o guarda chuva para me proteger de minhas memórias mas num inacreditável movimento antigravitacional elas contornam a beirada do guarda chuva sobem pelas varetas e vão pingando sobre mim.Agora que cheguei,abro o Word.Palavras e mais palavras que quero brincar com vocês.L,quase bem.Mas com o gosto dos comprimidos na boca.Comprimo os lábios contendo o riso ao lembrar…Sacudo as gotas que a memória deixou em meu paletó e o penduro para secar.Quanto ao resto farei o que puder.” Serei sempre aquele que espera que lhe abram uma porta,ao pé de uma parede sem porta?” Ou um juntar e rejuntar de cacos que se unem e se desfazem todos os dias ? Tentando Se reinventar numa forma diferente, mais agradável talvez? Mas que nunca é deixado na estante,quieto como um bibelô? E se por acaso me esquecerem lá,saberei resistir a imobilidade , já que não fui feito para exposições? Agora sim,a dor passou.Nem mesmo um l minúsculo para registra-la. Mais uma vez chegou a hora de juntar os cacos.Sorrindo os apanho depressa coloco um aqui,outro ali,sem me importar muito se estão no lugar.Opa ! Um deles caiu e o apanho depressa apertando com mais força para ficar preso desta vez.E vou andando,feliz com meus cacos,esperando que não vejam as emendas que fiz no conjunto,procurando mostrar mais o lado azul da porcelana do que o branco onde as fraturas aparecem mais.Se doem ? Tanto quantas outras múltiplas coisas,como a mão que para no meio do caminho de um afago.Ou os braços que rejeitam um abraço.Os lábios que desviam.Mais cacos.E vou virando e revirando memórias para achar um pouco de cola e mante-los no lugar.

ONDE – de jb vidal / florianópolis

percorro trilhas transpassadas por outras

segues comigo por onde não há sinais

.

sigo sem dor e corro

.

não vens

vacilas e cais

.

esperar-te é não querer

.

temo o veneno do vinho

bebo-o

a mente se abre e explode

.

o instinto é rota

que sigo e não sei

.

sinto-me só, não penso, apenas avanço

o escuro da floresta é o manto protetor

percorro caminhos feitos a noite

.

escravo da decisão

busco o lugar onde deveria estar

na tua desistência, encontrei fôrças

.

há dúvidas que eu chegue

mas haverá trilhas para ti

ANSELMO DUARTE por hamilton alves / florianópolis

Soube agora há pouco pelo noticiário da imprensa da morte de Anselmo Duarte, aos 89 anos, realizador de um dos maiores filmes no plano mundial, “O Pagador de Promessa”, tanto é que foi ganhador da Palma de Ouro, em Cannes, em que figuraram grandes atores, que competiu com filmes da repercussão e qualidade de “O anjo exterminador”, de Buñuel, o que, sem dúvida, enaltece ainda mais seu feito.

A notícia divulgada dá conta que Anselmo desde o dia 27 de outubro estava internado no Hospital das Clínicas em São Paulo para tratamento de problemas vasculares e outros, e recebeu alta médica para tratar-se em casa, quando veio subitamente a ser atingido por um AVC, que o matou nesta madrugada de sábado, 7 de novembro.

Além do prêmio em Cannes, que o consagrou como um dos melhores diretores de cinema do mundo, Anselmo assinou outros filmes, com um dos quais tentou concorrer à premiação noutro festival de cinema mas foi barrado pela má vontade que, de certa parte em diante de sua atividade de cineasta, acompanhou-o como uma praga. Não houve (entre notoriamente os cinemanovistas, tipo Glauber Rocha, Arnaldo Jabor, Cacá Diegues e outros) quem não quisesse questionar os méritos de
“O pagador…”, considerando-o de uma estética ultrapassada. Então estava em voga o cinema do autor ou da linha godardiana, que era apregoada como o modelo a seguir – ou “uma máquina na mão e uma idéia na cabeça”, que Anselmo jocosamente traduziu, em seu livro, “Adeus, cinema”, por “uma máquina na mão e merda na cabeça”.

O fato é que, no cinema brasileiro, bem poucas vezes realizou-se um filme da envergadura de “O pagador…”, ainda que as línguas ferinas (e invejosas) sempre tratassem de menosprezá-lo, não obstante a consagradora vitória num certame da importância do festival de Cannes e com cineastas concorrentes do valor do já citado Buñuel.

Nesse livro de Anselmo, referido, narra-se o que passou, em matéria de agruras, depois do triunfo em Cannes, os conflitos vividos, as incompreensões, que o deixaram na maior decepção frente ao fato de ter sido o ganhador de um festival da importância do que tinha participado e levado o prêmio. Os cinemanovistas, principalmente, nunca lhe perdoaram essa vitória, e trataram de enxovalhar, quanto puderam, a grande expressão artística, sob todos os aspectos, que merecera internacionalmente “O pagador de promessa”, que é, hoje, incluido no rol dos melhores filmes já produzidos no universo da sétima arte.

Se outro fato não fizesse por destacar Anselmo Duarte, por sua atividade de cineasta e também de ator de tantos filmes em que apareceu, a vitória em Cannes seria suficiente para guindá-lo a uma posição igual à de tantos outros grandes mestres do cinema.

Ave, Anselmo.

 

OLHOS TRISTES, CORAÇÕES FELIZES – por alceu sperança / cascavel.pr

O coração se retorce à visão das imagens: os olhos tristes das focas bebês e dos golfinhos que serão trucidados para satisfazer a ganância dos capitalistas.

Aquelas peles macias, porém, vão encher de alegria os corações perversos das madames, que as usam em roupas one way nas recepções a algum embaixador em cujo País a empresa do marido quer explorar mão-de-obra baratíssima eAlceu sperança  - AJC (1) destruir seus recursos naturais.

Ninguém repassa as imagens pelo e-correio, mas também deve ser difícil suportar sem revolta as cenas dos olhos infelizes dos bichinhos que primeiro lacrimejam, avermelham-se e em seguida são torrados impiedosamente pelos “ruralistas” que destroem áreas imensas de florestas.

Ali, sobre as cinzas, seus corações se enchem de alegria (e lucro) para produzir o malsinado biocombusível, condenado a ser inútil dentro de brevíssimo tempo.

Quantos olhinhos, redondinhos como os das focas, amendoados, estreitinhos ou rasgados, são destruídos em um só hectare cuja madeira foi cortada, quando sabemos que só o aproveitamento de pequena parte do lixo substituiria toda aquela matéria florestal viva? Quantos olhinhos desfocados viraram cinza nessa terra devastada, para logo receber plantações de cana e outros vegetais capazes de produzir o poluente biocombustível?

150 milhões X 130 bilhões

Olhinhos a sucumbir em terras griladas, como aquelas das laranjas tratoradas. Terras que o governo legaliza às correrias, confiando bestamente que a “era do biocombustível” será algo digno de glória eterna perante a história.

Somos solidários a todos os que manifestam seu justo horror a essa matança absurda de focas nas águas da Europa ou golfinhos no Japão. Temos realmente que nos horrorizar com isso.

Mas seria nosso dever como seres humanos sensíveis também nos horrorizar com as mortes de milhões de índios: hoje, a população indígena brasileira é menor que a torcida de um time de várzea.

Seus olhinhos, vidas e sonhos também foram destruídos. Mas eles não são bebês focas europeias ou golfinhos asiáticos para nos tocar os corações.

Não estamos também sendo muito sensíveis ao ver crianças impedidas de ter uma boa educação, alvo da sanha preconceituosa e egoísta dos ruralistas em seu tolo combate ao MST.

Reclamam que o governo gasta 100 e tantos milhões com os pobres sem-terra, mas querem socorro público (ou seja, nosso) para sua dívida de 130 bilhões de reais, que vão sempre rolando enquanto compram aquelas caminhonetes enormes e elegem sua aguerrida bancada. Que coisa!

Merecem viver

No MST há milhares de crianças, com seus respectivos olhinhos tristes, precisando de muito apoio para ter educação. Olhinhos pedindo que seus pais possam ter o direito de trabalhar em cooperativas de agricultura familiar, para que essas crianças tenham um futuro pelo menos tão bom quanto aquele que desejamos para os golfinhos, cãezinhos, ruralistazinhos e focas na Europa, na Ásia, seja onde for.

Não estamos sendo sensíveis quando deixamos de pensar na enorme quantidade de pequenos golfinhos, plantas e animais, desprotegidos seres de nossa biodiversidade, que poderiam estar curando doenças e mantendo flora e fauna intactas, ou menos agredidas, e são destruídos nas “fronteiras agrícolas”. E não para produzir comida, mas porcaria poluente.

Mas nós não pensamos: achamos que alguns milhões de dólares na balança comercial valem esse horror, a matança, a queimada imoral, clandestina, ilegal. Tristes olhos de focas, golfinhos e crianças. Haja coração!

Rumorejando (OS APOSENTADOS CONTINUAM PAGANDO O PATO, CONSTATANDO). por juca (josé zokner) / curitiba

PEQUENAS CONSTATAÇÕES, NA FALTA DE MAIORES.

Constatação I (Crônica de uma violência anunciada).JUCA - Jzockner pequenissima (1)

Creio que existe uma relação biunívoca, naturalmente imperfeita, entre a bola de futebol e os ônibus, em Curitiba. Explica-se: Cada vez que há jogo entre o Coritiba e o Atlético, o maior clássico do futebol paranaense, vários ônibus são depredados. Sem dúvida, os “hooligans” ingleses e alemães já fizeram escola…

Constatação II(Do meu Paraná que, lamentavelmente, não vai voltar ainda pra primeirona).

Vir a ser um finalista,

É coisa de se almejar.

Mas, não é de paranista

A qualquer preço ganhar…

Constatação III (De publicidade “emprestada” de uma companhia aérea).

Viagra permite trabalhar “non stop” para agradar você.

Constatação IV

Os resfriados e gripes estão de intensidade tais, que eu não sei se sai ranho também pelos olhos, ou lágrimas também pelo nariz…(Perdão, leitores).

Constatação V(De uma declaração de amor).

Leva vida de cachorro quem passa a vida sem cachorro. Tenho dito!

Constatação VI

Depois do grata, greta, grita, grota, gruta, que Rumorejando havia sugerido para o ensino do a, e, i, o, u, nas escolas de alfabetização, uma leitora, nos enviou a sua colaboração: barra, berra, birra, borra, burra. Obrigado.

Constatação VII

“Energúmeno”, o Ministro afirmou,

Se referindo a quem achou

Que a medida tomada

Tinha fins eleitoreiros. Que nada!…

Constatação VIII

E já que falamos no assunto, não se deve confundir ministério com monastério, muito embora o mistério como alguns ministros conduzem o seu ministério – já que ninguém, nunca, fica sabendo o que eles estão fazendo – é cercado de um eterno segredo digno daqueles monastérios onde se costuma fazer votos de silêncio e coisas afins…

Constatação IX(Teoria da relatividade p/ principiantes).

É muito melhor ser jovem e não precisar de remédios do que ser aposentado e gozar de descontos de até 20% na compra em farmácias.

Constatação X

Andam dizendo que o viagra, cialis, levitra, etc. provocam, dentre outros efeitos colaterais, o desarranjo intestinal. Mui respeitosamente, eu espero que, pelo menos, seja antes ou depois de. Jamais durante…

Constatação XI

Em terra de f. da p., quem não for, não terá vez…

Constatação XII

Correu risco de levar

Um tiro de trabuco:

Corte seco não quis dar

No renhido jogo de truco.

Constatação XIII

Não se deve confundir brigar com obrigar, muito embora, quando a mulher quer nos obrigar a fazer uma coisa que a gente não tem a mínima vontade, na verdade, a gente acaba fazendo, mas sem antes deixar de brigar…

Constatação XIV

Rico joga polo, golfe, tênis; pobre, no bicho.

DÚVIDAS CRUCIAIS

Dúvida I (Via pseudo-haicai).

Correntes frias X quentes

Igual a chuvas inundantes

Frequentes ?

Dúvida II

O fabricante de solvente é que estava insolvente ?

Dúvida III (Via pseudo-haicai).

Repercutiu com estrondo

A manchete:

CURITIBA, NOVA MACONDO ?

Dúvida IV

Foi o coronel que disse para a sua mulher que só vivia lhe pedindo dinheiro: “Querida, me desculpe, mas eu não sou o seu coronel”?

Dúvida V (Via pseudo-haicai).

No palco da vida,

Afinal, aonde fica

A saída ?

Dúvida VI

Está na hora de acabar com os concursos de miss. Mas, se isto não for possível, está na hora de acabar com o preconceito de que, para participar, as concorrentes têm que ter mais de 1,75m de altura, caso contrário, como é que fica com a representante dos pigmeus ?

Dúvida VII (E já que falamos em Coritiba x Atlético, via pseudo-haicai).

A contenda,

Não era

Pra “punhos de renda”.

Dúvida VIII

“Quanto pior, melhor” não deve ser somente algo eminentemente político/ideológico. Não será, também, a máxima adotada por algumas das nossas emissoras de televisão ?

Dúvida IX

Para o boêmio, o noctívago, para aquele que troca a noite pelo dia, o alvorecer, o amanhecer, é uma espécie de ocaso, de crepúsculo ?

Dúvida X (Via pseudo-haicai).

A semiótica*,

Pro obcecado,

Visão erótica ?

*Semiótica = Ciência que estuda os signos e sinais e/ou sistema de sinais.

Dúvida XI

Pra ter boa cabeça é preciso ter boa “poupança” pra poder ficar o dia inteiro sentado, estudando ?

Dúvida XII

Uma erva-mate que passou no barbaquá*, é uma erva barbaquada ?

*Barbaquá = carijo = “Armação de varas, onde se colocam os ramos de erva-mate para crestá-los** ao calor do fogo”.

**Crestar = “Secar, tostar, queimar de leve”.

Dúvida XIII (Via pseudo-haicai).

“Te esconjuro”,

Foi o que disse o padre

Pro dedo-duro ?

Dúvida XIV (Via pseudo-haicai).

É só que tem o Poder

Que pode ter

Querer ?

Dúvida XV

Ele se entregou,

O alcagüete,

Quando enviou,

Pra viúva, o ramalhete ?

A TV brasileira e sua função de desestabilizar a sociedade !

Não preciso aqui dissertar sobre o perigo que a TV brasileira representa hoje para os nossos filhos. Tudo aquilo que procuramos dar a eles de formação moral, cristã e humana, a TV, muitas vezes, elimina com uma enxurrada de imoralidade e violência, que invade os nossos lares como um mar de lama. Na tela eletrônica a censura foi praticamente extinta; e nós pais estamos à mercê do sexualismo, do consumismo e da violência. Deus foi abolido, o Evangelho desprezado, a moral católica enterrada e o respeito às pessoas não existe.

A única alternativa que nos resta é resistire criar em nossos jovens o senso crítico frente a tudo que é exibido na tela da TV. Os pais precisam, urgentemente, assistir os programas junto com os filhos, e desvendar-lhes amalícia da programação, apontando-lhes os erros, desmascarando a farsa.

Um grande amigo, psicólogo, já falecido, Franz Vitor, dizia-me que a TV brasileira tornou-se “uma pregação sistemática de anti-valores”. Nunca achei uma definição melhor do que essa. De fato ela prega uma escala de valores invertida, e com toda a sofisticação que a tecnologia põe a seu alcance.

Em duas oportunidades, 13/01/93 e 27/01/93, o Cardeal Primaz do Brasil, D. Lucas Moreira Neves, Arcebispo de Salvador (BA), publicou no JORNAL DO BRASIL, dois famosos artigos sobre a televisão brasileira. No primeiro, cujo título é J´ACCUSE! (Eu acuso), o Cardeal afirma:

“Eu acuso a TV brasileira pelos seus muitos delitos. Acuso-a de atentar contra o que há de mais sagrado, como seja, a vida…

Acuso-a de disseminar, em programas váriados, ideias, crenças, práticas e ritos ligados a cultos os mais estranhos. Ela se torna, deste modo, veículo para a difusão da magia, inclusive magia negra, satanismo, rituais nocivos ao equilíbrio psíquico.

Acuso a TV brasileira de destilar em sua programação e instalar nos telespectadores, inclusive jovens e adolescentes, uma concepção totalmente aética da vida: triunfo da esperteza, do furto, do ganho fácil, do estelionato. Neste sentido merece uma análise à parte as telenovelas brasileiras sob o ponto de vista psicossocial, moral, religioso…

Qual foi a novela que propôs ideais nobres de serviço ao próximo e de construção de uma comunidade melhor? Em lugar disso, as telenovelas oferecem à população empobrecida, como modelo e ideal, as aventuras de uma burguesia em decomposição, mas de algum modo atraente.

Acuso, enfim, a TV brasileira de instigar à violência: A TV brasileira terá de procurar dentro de si as causas da violência que ela desencadeou e de que foi vítima… Quem matou, há dias, uma jovem atriz? (referência a Daniela Perez). Seria ingenuidade não indicar e não mandar ao banco dos réus uma co-autora do assassinato: a TV brasileira. A própria novela “De Corpo e Alma”.

No segundo artigo, de 27/01/93, sob o título de “Resistir, Quem Há de?” o Cardeal primaz do Brasil afirma:

“Opino que a Família deve estar na linha de frente de resistência: os pais, os filhos, os parentes, os agregados e toda a constelação familiar. Ela é a primeira vítima, torpemente agredida dentro da própria casa; deve ser também a primeira a resistir. É ela quem dá IBOPE, deve ser também quem o negue, à custa de fazer greve ou jejum de TV. Cabe, pois, às famílias, ´formar a consciência crítica´ de todos os seus membros frente à televisão; velar sobre as crianças e os adolescentes com relação a certos programas; mandar cartas de protesto aos donos de televisão; chamar a atenção dos anunciantes, declarando a decisão de não comprar produtos que financiam programas imorais ou que servem de peças publicitárias ofensivas ao pudor, exigir programas sadios e sabotar os mórbidos para que não se diga que o público quer uma TV licenciosa, violenta e deseducativa.”

Quero destacar que o Cardeal não é contra a TV brasileira; ele retira da sua acusação o canal dedicado à Educação e Cultura e os programas, nos diferentes canais, que contribuem para o bem da população. Ele acusa a má TV.

O próprio Walter Clark, falecido em 1997, fundador e ex-diretor da TV GLOBO, também deu o seu testemunho contra essa situação, através do jornal ESTADO DE MINAS, de 07/01/93, pg 13, afirmando, entre outras coisas, que:

“A TV brasileira está vivendo um momento autofágico. Lamento ter contribuído, de alguma forma, para que ela chegasse onde chegou.

A emissora está nivelando por baixo: existem traições, incestos, impulsos sexuais incontidos, cobiça, ódio, tudo isso existe, mas não é só isso.

A sociedade, que já está violenta, acaba tendo no seu registro mais forte de comunicação, que é a TV, só violência.

A TV GLOBO, apelando para a fórmula fácil, está acabando com a TV brasileira. Há uma absoluta falta de responsabilidade e vergonha na maneira de fazer televisão no Brasil.

Eis um testemunho insuspeito daquele que foi um dos criadores do chamado “padrão GLOBO de qualidade”.”

Chega de crimes, violência, pornografia, satanismo, ostentação, luxo e prazer derramados todos os dias sobre os nossos filhos. Não podemos assistir impacíveis a tudo isto, num imobilismo culpável, pois as vítimas serão os nossos próprios filhos queridos. É preciso resistir, é preciso protestar, é preciso denunciar, é preciso dizer não a tudo isto, como sugere o Cardeal.

Nossa sociedade é cínica e cruel. De um lado libera todas as formas de provocação sexual, e por outro lado, se lamenta de que vários milhões de adolescentes fiquem grávidas, a cada ano, na faixa dos 13 aos 15 anos. ´Aquele que planta ventos colhe tempestades´ . Assistimos nos diversos programas para crianças e jovens, as mais absurdas cenas de sexismo, que podemos chamar de doentio, acompanhadas de músicas com letras ascintosas e despudoradas. É um verdadeiro convite aos jovens para que vivam o sexo de qualquer forma, e sem qualquer responsabilidade; depois, se assusta, ao se verificar o número incrivel de meninas grávidas! Maldosa hipocrisia!

Igualmente se destila no sangue dos jovens, especialmente dos rapazes, a mais sofisticada violência, praticada por atores e atrizes atraentes, tornando´os ´fascinantes´ para os jovens, mesmo quando estão derramando sangue e matando…

O que resta a esses jovens, ainda inconstantes, senão imitar o comportamento bárbaro dos musculosos artistas dos filmes? Pobre juventude!

 

WELLINGTON DE SENA.

POJO de joanna andrade / miami.usa

Hipócritas horas extras

Quando o amor beija a boca como nada

Num sorriso podre em face seca deformada ao chão

Corre um fio de baba gorda

- Ao longe, uma lagrima de dor.

FINGIR de rosa DeSouza / portugal / florianópolis


 

Se o poeta é um fingidor,
e finge tão completamente
que chega a fingir ser amor,
o amor que deveras sente…

(desculpas a Fernando Pessoa)

me pergunto, porque nunca consegui…
fingir o que hoje senti.

Se seu ser o sangue me revolve,
como poderei fingir que se dissolve?

Se seu olhar me invade,
como poderei mostrar imunidade?

Se por ele sinto o amor mais profundo,
como poderei criar verso mudo?

Se por ele poderia morrer,
como sem ele poderei viver?

O CULTO CARREIRISTA por ” o ruminante ” / belém


Todos nós sabemos que hoje o mundo está cada vez mais corrido, caótico, competitivo e stressante. A velocidade dos acontecimentos e do fluxo de informações estão fazendo das pessoas escravas de tecnologias que até pouco tempo nem mesmo pensávamos ter. O que deveria nos beneficiar está nos trazendo mais sofrimento, pois hoje ficamos angustiados quando acaba a bateria do celular, quando não podemos acessar a internet, quando perdemos algum e-mail que era importante, além de muitas outras coisas.

Ao observar essas coisas comecei a analisar nossas vidas, valores e o que tem sido considerado importante nos dias de hoje. Logo no primeiro momento percebi que cada vez mais as empresas estão nos levando a crer que a carreira profissional é a nossa maior realização na vida, como se sucesso no trabalho fosse sinônimo de felicidade. Também pude notar que muito da tecnologia que temos é para trabalharmos mais rápido e sermos mais eficiente. Não consegui de deixar de pensar em alguns pontos, por exemplo:

  1. Telefone Celular: desde o ínicio de minha carreira não tenho um celular próprio, estou o tempo todo conectado a disposição da empresa, podem me ligar a qualquer hora, seja lá o que estiver fazendo. Temos um coleira eletrônica e por esta somos pagos para usar.
  2. Notebook da empresa: se a empresa lhe concede um computador portátil, pode ter certeza, é para você poder trabalhar em qualquer lugar. Não acredite que se a empresa lhe acrescentar no pacote um sistema de internet móvel via celular você vai estar com vantagens, a única garantia é que além de te ligarem a qualquer hora, você ainda vai receber tarefas onde estiver.
  3. Cursos Motivacionais: esse é um dos piores, pois com o tempo os empresários descobriram que é só falar ou fazer algumas coisas estimulantes aos empregados para obterem maior produtividade. Estamos sendo tratados como cachorrinhos em adestramentos, recebemos um agradinho, fazemos o truque e somos premiados com um biscoitinho.
  4. Livros de auto-ajuda: talvez pior do que os cursos, as empresas tem feito um marketing enorme sobre livros de liderança, motivação, mudanças e muitos outros assuntos que, no final das contas, só querem nos levar a dar mais de nossas vidas para eles.

Acredito que muitos podem vir a me interpretar como um preguiçoso que não quer trabalhar, ou até receber críticas de que eu estaria sendo influenciado pelo comunismo ou outras linhas de pensamento socialista, mas na verdade não é isso que me estimula a escrever.

Com as observações que venho fazendo, percebi algo: não damos mais o mesmo valor para nossos familiares e vida pessoal, damos o nosso sangue para sustentá-los, mas o que eles mais querem é que estejamos por perto, que possamos passear no praça ou praia com nossos filhos e conjugês. Pode não ser tão perceptível, mas estamos nos colocando em uma situação que somente nos sacrificando ao extremo podemos dar tudo o que nossa família talvez nem precise, deixando de fora o mais importante: pais, mães, maridos, esposas e filhos que são muito mais importantes.

Emprego, trabalho, carreira pode ser que traga felicidade para um indivíduo, desde que não seja por uma influência imposta pelo culto ao profissional, mas por um gosto pessoal, se isso lhe dá felicidade, seja feliz assim. Hoje nos está sendo imposta a idéia que o sucesso profissional é a realização de nossas vidas, mas será que ao final de tudo, quando olharmos para trás terá valido a pena deixar de brincar com nossos filhos? Será que agüentaremos a saudade de nossos pais que estão envelhecendo e abruptamente podem nos deixar? Não seria melhor aproveitar o máximo de nossas vidas com quem amamos? Ainda que tenhamos que viver de forma mais simples, acredito que eu sei a resposta, pelo menos para mim.

VOVÓS LOLITAS por sérgio da costa ramos / florianópolis

 

No imaginário popular, vovó sempre foi aquela velhinha encarquilhada de Monteiro Lobato, a Dona Benta, inimaginada como alguém proprietária de algum sex-appeal. Que não se choquem os pudicos, mas jantá-la… nem mesmo o lobo mau.

Pois esta imagem da avó “maracujá-de-gaveta”, enrugada como uma Alena Ivanovna, de Dostoievski, ou uma babuskha de Tolstoi, caducou ao talho do bisturi da modernidade.

“Toda mulher devia ter 14 anos”, proclamou, certa vez, o sociólogo-dramaturgo Nelson Rodrigues.

Na sua época, era impensável a beleza na idade meã, de 50 pra cima:

– Marilyn Monroe morreu dessa enfermidade terrível que é a beleza. E o que é mais sofrido: a beleza jovem.

Isso nos tempos em que os bichos falavam e Nelson vivia de escrever paradoxos. Hoje as vovós estão tão jovenzinhas e enxutas – para usar uma gíria antiga – que, de vez em quando, uma vovó dá à luz, com mais de sessenta e tantos. Em vez de vovós, são as “momós”… As vovós mamães.

Doutora Anna Aslan – a primeira grande geriatra – e as artes disseminadas pelo cirurgião plástico brasileiro Ivo Pitanguy fizeram milagres pelas vovós de hoje, que malham nas academias e se submetem a tratamentos ortomoleculares para conservar a carroceria sempre saudável – “com tudo em cima”, como gostam de dizer.

Já se desvaneceu aquele antigo horror das mulheres muito vaidosas, em briga permanente com a palavra “avó”.

As vovós precoces de antigamente só faltavam amordaçar os netinhos, para que eles não atirassem em sua direção o dissílabo fatal:

– Vovó!

Atrás de uma bola, alertava-se, sempre vinha uma criança. E atrás de um netinho, uma velhinha. Isso, antigamente.

Hoje, atrás de um netinho podem muito bem vir as atrizes Marieta Severo e Betty Faria, ou a empresária Lígia Azevedo – que acaba de chegar aos 65 com uma silhueta digna da “Receita de Mulher” do mulherólogo Vinicius: Que haja uma hipótese de barriguinha, mas que a mulher se alteie em cálice, e que seus seios sejam uma expressão greco-romana.

As vovós já não são aquelas velhinhas em cadeira de balanço, tricotando sapatinhos.

Elas curtem os netos, as netas, e até rivalizam com estas, usando calças três quartos, de cintura baixa e umbigo à mostra…

Marieta Severo confessa “alguns sustos” ao ser considerada “símbolo sexual” em plena maturidade:

– Acho que andam me confundindo com a Vera Fischer. Mas sou amiga dos amigos das minhas filhas porque sou muito animada. Acho muito engraçado ser considerada “uma gata” aos sessenta e “alguns”.

Mais do que cremes esfoliantes, as vovós gostosas precisam de “emoções”, ensina Marieta.

Como o olhar de um homem, torcendo o pescoço para reparar no seu “movimento de quadris”, a verdadeira revolução francesa do erotismo.

A verdade é que as Vovós Lolitas andam merecendo o nosso assobio. Até o quase pedófilo Vladimir Nabokov (Lolita) se apaixonaria por elas.

 

 

AMIGO – de pablo neruda / chile


  1. Amigo, toma para ti o que quiseres,
    passeia o teu olhar pelos meus recantos,
    e se assim o desejas, dou-te a alma inteira,
    com suas brancas avenidas e canções.

  2. Amigo – faz com que na tarde se desvaneça
    este inútil e velho desejo de vencer.

    Bebe do meu cântaro se tens sede.

    Amigo – faz com que na tarde se desvaneça
    este desejo de que todas as roseiras
    me pertençam.

    Amigo,
    se tens fome come do meu pão.

  3. Tudo, amigo, o fiz para ti. Tudo isto
    que sem olhares verás na minha casa vazia:
    tudo isto que sobe pelo muros direitos
    - como o meu coração – sempre buscando altura.

    Sorris-te – amigo. Que importa! Ninguém sabe
    entregar nas mãos o que se esconde dentro,
    mas eu dou-te a alma, ânfora de suaves néctares,
    e toda eu ta dou… Menos aquela lembrança…

    … Que na minha herdade vazia aquele amor perdido
    é uma rosa branca que se abre em silêncio…

Pablo Neruda, in “Crepusculário”
Tradução de Rui Lage

 

“INSEGURANÇA INTERNACIONAL NO PÓS GUERRA FRIA” curso da CASLA – Casa Latinoamericana / curitiba

casla

 

Minicurso “Insegurança Internacional no Pós Guerra Fria”


Ao discutir temas internacionais, a Casa Latino Americana (CASLA) pretende manter o compromisso de oferecer aos participantes do curso as questões inerentes ao Sistema Internacional, buscando compreendê-las e interpretá-las, sem perder o rigor e a seriedade. Assistimos hoje a construção de uma nova ordem mundial, com o renascimento de nacionalismos e de conflitos étnicos.
O curso sobre a questão da Insegurança Internacional no pós Guerra Fria tem uma abordagem interdisciplinar, abrangendo as áreas de política, sociologia, geografia e história. Os participantes do curso serão capacitados a avaliar os processos políticos, sociais e culturais e no Sistema Internacional, além de identificar os principais temas da Agenda de Segurança Internacional, sendo eles; o Terrorismo Internacional, Imigração Internacional, Narcotráfico e Tráfico Humano serão estudados, de modo que os participantes possam construir uma análise coerente das Relações Internacionais Contemporânea, atentando sempre para as questões que estão além do fato.

Graduandos e graduados a nível superior, oriundos de qualquer curso de graduação.
Inscrições: abertas
As matrículas estão abertas até 06 de novembro, e são feitas, previamente, pela inscrição on-line. A confirmação da matrícula dá-se com o pagamento da taxa de R$ 150,00 (Cento e cinquenta reais).
O início do curso está previsto para 09 de novembro de 2009, e as aulas irão até o dia 13, na sexta-feira. A carga horária estimada é de 30 horas, das quais será expedido certificado de conclusão.
As aulas serão expositivas, com seminários, e exercícios em sala de aula. Serão utilizados filmes, leitura comparativa de jornais e revistas de diversos países, artigos de revistas especializadas, capítulos de livros e documentos dos principais organismos internacionais. Os professores do curso são altamente especializados nas temáticas em que irão trabalhar.
As aulas serão divididas em módulos, sendo que cada temática será apresentada em um módulo e data específicos. Dessa maneira, a ordem dos conteúdos apresentados é:
  1. Terrorismo Internacional
  2. Narcotráfico
  3. Imigração Internacional
  4. Tráfico Humano
  • Prof ª Gislene Santos (UFPR)
  • Prof. Dr. Alexsandro Eugenio Pereira (USP- UFPR)
  • Prof. Dr. Pedro Bodê (UFPR)
  • Prof. Dr. Rui Dissenha (USP)
Escola de Relações Internacionais do Brasil – EriBrasil
Para enviar email à coordenadora: elcineia@casla.com.br

Contato

CASLA – Casa Latino-Americana – (41) 3013-7570
contato@casla.com.br
www.casla.com.br
Rua João Manoel, 140 – Centro – Curitiba / PR

O ÚLTIMO BLEFE – de marilda confortin / curitiba

 

Tanto blefou esse jogador

que a si mesmo enganou

temendo perder no amor

mentiu nas cartas, apostou.

Usou todo seu ouro, o tolo

para comprar bijouterias

nada muito valioso, só “rolo”

vaidoso, usava uma  por dia.

Manteve um coringa na manga

para qualquer eventualidade

caso aparecesse uma franga

ele (a)batia, sem piedade.

Desprezava as juras de morte

dos pobres e infelizes traídos

acreditava tanto na sorte

que nem sequer dava ouvidos.

Desperdiçou muitas cartas

perdeu a paciência, contudo

gastou sua palavra farta

com quem era surdo-mudo

Mas um dia, virou um valete

e o espada, acreditando na fama

subiu na mesa e gritou o blefe

trucou, sem ter nenhuma dama.

Foi então que se deu conta

que era sua ultima rodada

e que boa dama não se encontra

em baralho de carta marcada.

Pobre rei,  ficou nú, derrotado,

sem castelo, sem posses nem trono

teve todas as prendas do reinado

e hoje, nem desta coroa ele é dono.

 

 

NOSTALGIA – de eunice arruda / são paulo

Amo
os
casais

Ombro
a
ombro

Pisando a mesma calçada

Amo os casais que
atravessam
ruas
estações

Seguram as
mãos
não
o tempo

Amo
os
casais

Que permanecem

SÓ PARA ISSO, SÓ PARA TUDO, SÓ NOS INTERVALOS por zuleika dos reis / são paulo

Quando ouço alguém dizer que fulano nasceu só para isso, quase morro de inveja. Robert de Niro engordou quarenta quilos para interpretar O TOURO INDOMÁVEL. Carlos Vereza, que odiava cigarros, aprendeu a fumar quatro maços por dia para representar Graciliano Ramos na prisão, nos tempos do Estado Novo. São atores. Que mais poderiam ser?

Francisco de Assis conversava com os bichos. Chamava o Sol e a Lua de irmãos. Era santo, nada menos do que isso. Nada a fazer senão ser santo.

Dos navegadores portugueses Fernando Pessoa aprendeu o mote “navegar é preciso, viver não é preciso” (existem outras versões sobre os verdadeiros autores do referido mote, o que não vem ao caso, no presente momento) e seguiu-lhe, à risca, na linguagem, a rota de navegações sem descanso. Era poeta. Nada a ser senão poeta, e apenas isso. Se tivesse casado com a filha de sua lavadeira ai, pobre dela, a filha de sua lavadeira!

Há, em contraponto, os que nasceram para tudo e se contentam com isso. Os antropófagos. Os opíparos. Dormem em todas as camas e sobre todos os corpos; provam dos mais incompatíveis e inconcebíveis manjares; trabalham como  escafandristas desde o Mar Morto até ao Mar Vermelho; trazem no bolso  receitas para a cura de cada um dos males do mundo, tanto quanto para a cura do próximo mais próximo; portam sempre algum isqueiro para fumantes (a mais recente espécie de criminosos surgida nas ruas de São Paulo) que precisem infringir a Lei que proíbe o fumo em recintos públicos e fechados.Enfim: nenhuma escolha senão ser múltiplo.

Há, por fim, os que só acontecem nos intervalos. Nos intervalos entre os noticiários crêem no Futuro. No brevíssimo intervalo entre as dívidas assimilam novas necessidades de consumo. No intervalo entre silêncios sem sentido escrevem poemas os quais, por um segundo, consideram perfeitos. No intervalo entre pânicos

ensaiam grandes gestos de coragem que começarão a praticar na próxima segunda-feira (Como algum novo regime alimentar para perder vinte quilos).Nos intervalos entre ceticismos absolutos convencem os outros de verdades insofismáveis. Nos intervalos… arrumam as malas para partir mas jamais partem.

Assim, os que nasceram só para isso; os que nasceram só para tudo; os que só acontecem nos intervalos. Nada a dizer dos grandes BURACOS NEGROS.

VOAR NAS ASAS DE UM POEMA de hamilton alves /florianópolis

Costumo dizer que, de quando em vez, vôo nas asas de um poema meu. Ocorre em determinados dias em que estou mais propenso a essa acrobacia. Não é, pois, sempre que isso acontece. Há que ter fatores propícios para possibilitar essa manobra do espírito. Ou uma perfeita sintonia com o teor do poema, que tem que combinar, por exemplo, com a cor do dia, se faz sol ou sombra, se venta e que tipo de vento, se norte ou sul, se encontro determinados tipos de pessoas, que estimulam esse processo ou o alimentam de qualquer modo ou ainda a cor do mar preponderante ou se revoltoso ou calmo – tudo isso me permite ter mais ou menos sucesso na prática desse salutar esporte. No sábado passado, encontrei o clima propício ao vôo com o poema que segue:

“As ondas batendo

Nas rochas dizem:

- efêmero! efêmero! efêmero!

As nuvens no alto

Seguem o mesmo estribilho:

- efêmero! efêmero! efêmero!

As gaivotas grasnando

Como que ensandecidas

Entoam idêntico cântico:

- efêmero! efêmero! efêmero!

O vento que sopra

Uivando feito lobo

Faz coro a tais vozes:

- efêmero! efêmero! efêmero!”

Dois peritos em poesia fizeram uma rápida abordagem sobre esse poema. Um me disse que, se excluísse os terceiros versos da terceira e quarta estrofes, o poema ganharia em beleza ou talvez em harmonia ou estaria mais bem expresso; outro opinou de forma diferente, alegando que, se fizesse essa operação, sugerida pelo primeiro, o poema desabaria na sua estrutura ou na sua expressão mais bela.

O caso é que, no sábado passado, como dito, voei nas asas desse poema (como outros tenho conseguido esse mesmo objetivo). Essa discussão, que se travou entre dois ledores, críticos de literatura ou conhecedores profundos de poesia, pouco pode ser por mim considerada, haja vista que estava entretido a visualizar a paisagem em volta.

Não há experiência, na verdade, mais interessante e divertida do que voar nas asas de um poema de que se gosta. Ou de alguma forma se aprecie. É uma forma inesquecível e inexprimível de giro por aí.

Esses moços, pobres moços! – por alceu sperança / cascavel.pr

O transporte coletivo tem evoluído tecnicamente, mas se aproxima perigosamente do caos. O Palácio das Araucárias anunciou que a Coreia e Cuba vieram copiar o sistema paranaense. Mas é só do ponto de vista técnico, pois “a tarifa não tem graça”, como diria Chico Buarque. Se coreano e cubano tiverem que pagar 2 reais pelo latão, põem a casa abaixo. Fidel cairia.

A vinda de técnicos cubanos a Curitiba é para avaliar fluxo e montagem de ônibus. Não são doidos de copiar o esquema tarifário. Depois do criminoso bloqueio imposto pelos EUA em 1961, não ficou fácil se transportar, mas os cubanos sempre fazem do limão uma limonada.

Frei Gilvander Moreira, que esteve na ilha, contou que viu táxis em triciclos, micro pick-ups também de três rodas, ônibus comuns, tipo jardineira, e os camellos – caminhões com a carroceria transformada em super-ônibus.

A tarifa tem graça: é quase de graça, alguns centavos. E o peão não demora a eternidade para se deslocar da casa para o trabalho. Mesmo na grande Havana o trabalhador mora em média a oito quilômetros do emprego. É um passeio barato.

“Muita gente vai trabalhar e volta sem ter que pagar pelo transporte, também uma forma bastante inteligente de economizar energia”, diz o religioso.

Instituição carona

Mas o interessante é a mania da carona. Todos dão carona a todos. Os carros em circulação, seja de propriedade do Estado operário ou de particulares, andam para cá e para lá levando mais gente além do condutor, que aqui leva só privilegiados, como o cãozinho querido.

“Vimos um grande número de pessoas pegando carona e muitos motoristas oferecendo carona, especialmente nos horários de pico”, relatou frei Gilvander.

Os carros da administração têm que dar carona, pois é determinação do governo. E os particulares dão carona por solidariedade. Aqui, se você não dá carona não é por falta de amor ao próximo: quem quer ser assaltado? Em Cuba não tem essa criminalidade apavorante.

Quando você vai tomar o táxi, reúne a patota para ir junto e o carro vai lotado. Aqui, o taxista começaria a rezar. “Percebemos que dar e receber carona é um valor socialista e faz parte da cultura, é o normal”, diz frei Gilvander.

Entre nós, pipoca pelo Brasil afora uma onda de tarifaços no lotação. Como é caro demais, qualquer reajuste é tarifaço.

Adicional e taxa

Em Alagoinhas (BA), o lotação acaba de ser reajustado de R$ 1,50 para R$ 1,70. Os estudantes não deixaram barato: foram às ruas se manifestar. O reajuste de 13% foi considerado intolerável – e é. Lotação deveria ser gratuito para o estudante que vai cumprir o dever de se instruir.

Os donos do poder acham que é justo cobrar a metade do valor da passagem do ônibus para que os estudantes cumpram seu dever. É o mesmo que cobrar um “adicional de satisfação” para quem paga impostos ou uma “taxa de careta” para quem tomar injeção.

Lotação também deveria ser gratuito para a dona-de-casa, que vai às compras para alimentar a família. Como é que pode ela ter que pagar a passagem inteira?

Igualmente, o desempregado tem a bela opção de gastar a sola do último sapato inteiro ou pagar a passagem inteira para sair em busca de emprego.

São situações absurdas. Quando houver uma sociedade justa – e um dia ela virá, céticos! – essa estupidez será considerada por nossos netos a prova do quanto éramos idiotas em pleno século XXI.

É incompreensível como alguém pode considerar normal e justo pagar uma tarifa absurda – R$ 2,20 em Cascavel. É coisa anormal, doentia. Como também é anormal e doentio haver veículos queimando petróleo e biodiesel. Uma sociedade que respeitasse a si mesma não teria veículos poluentes rodando por aí.

Mas a pessoa que não usa máquina poluente para se locomover é castigada: quando pretende sair de casa para dar lucro a alguma empresa, para trabalhar, fazer o dinheiro circular ou para estudar, recebe o castigo de pagar pelo movimento que faz pelo espaço da cidade. Onde vai dar lucro, gerar riquezas, produzir, melhorar a si e aos outros.

Lei elementar

É uma indecência alguém andar por aí dando lucros a todos e ainda ter que pagar para sair e fazer o bem. É algo como levar um soco na cara ao fazer caridade. Ou ter que comer um pratinho de sal antes de saborear o algodão-doce.

Os estudantes baianos estão pês da vida com o aumento do lotação para R$ 1,70. Mas os de Cascavel parecem felizes pagando a metade de uma tarifa que já tinha ido a zero.

Em 23 de outubro de 2008, a juventude cascavelense conquistou na Câmara Municipal, através de sua mobilização, o Passe Livre no transporte coletivo urbano. No entanto, amargaram sem muito chiar o fim dessa conquista.

Pobres moços! Suas antigas entidades de representação social eram combativas. Hoje, parecem satisfeitas com o governo neoliberal e com todas as coisas indecentes que ocorrem, tal como cobrar de um cidadão para se locomover em direção ao trabalho, à escola, às compras, à atividade suprema da sociedade capitalista, que é gastar, dar lucro.

Uma lei elementar nesta sociedade movida a dinheiro deveria ser:

“Aqueles que dão lucro terão direito a se locomover livre e gratuitamente e aqueles que lucram devem custear sua movimentação”.

Tarifa zero

Com um tiquinho de contribuição social de cada um que lucra com o movimento das pessoas, dona-de-casa alguma pagaria para ir à feira. Desempregado algum precisaria gastar ainda mais a sola do sapato. O lotação teria custo zero para pobres e remediados. A poluição urbana seria fortemente derrubada e a saúde geral da população iria melhorar.

Mas cobrar da dona-de-casa para fazer a feira, do estudante para engrandecer a Nação e do trabalhador para enriquecer nossos generosos patrões é uma coisa muito burra e sem o menor sentido.

Só leva à poluição, ao caos urbano e à multiplicação das doenças. Como é que aceitamos essa estupidez como coisa normal e justa?

O dia 26 de outubro foi o Dia Nacional de Luta pelo Passe Livre no lotação. Não se viu muitos jovens agitando as águas em benefício próprio, das famílias e da sociedade. Parece que, definitivamente, entregaram a rapadura.

E aí, moços? Querem continuar pobres?

 

O CORVO e a POMBA de joão batista do lago / são luis.ma

Para Edgar Allan Poe, Fernando Pessoa e Machado de Assis
(in memória)

.

Ah, aquele dia, naquele dia…
Hora em que à hora é morta!
Cansado já desta síntese do ser,
pensava apenas desfalecer.
Muito pensara. Muito estudara.
Fatigado devera estar e ser.

(Assim falara Edgar Allan Poe:
“Once upon a midnight dreary, while I pondered, weak and weary
Over many a quaint and curious volume of forgotten lore -
While I nodded, nearly napping, suddenly there came a tapping,
As of someone gently rapping, rapping at my chamber door.
“’Tis some visitor, “I muttered, “tapping at my chamber door -
Only this and nothing more.’”)

A mente a pique de pensamentos diversos me extasiava.
De um lado a outro – dentro do quarto – fazia avenidas
Como quem buscava guaridas para sua alma em feridas.
De repente, naquela hora, ouço batidas à porta:
“- Quem será a esta hora?” – indaguei-me por um momento.
Mas ainda cheio de pressentimento relutei ao atendimento,

Apesar do temor rápido consenti-me saber de quem
o lamento.

Ainda ocorre-me à lembrança:
o acontecido foi na primavera.
Mês em que a mente gera quimera,
que faz de toda gente que desespera
do saber toda sabedoria da filosofia,
que antes de causar harmonia,
por certo, deixa o ser em agonia e
tormentoso por adquirir consciência,
e de toda ciência obter a leniência
da razão mais pura do espírito em folia.

É prudente, então, atender à porta e
saber que sombra há por detrás dela.


A porta escancarou e nenhum vulto assomou.
“- Será que estou ficando louco!” – exclamei.
“Por certo ouvi há pouco o leve toque de alguém”.
Lá fora tão-somente a noite lúgubre brandia
nas asas de um vento frio do sombrio negrume…
De repente… Nova batida leve a chamar;
agora não mais à porta, mas na janela a tilintar.
Abro-a… Como um raio uma ave entra a se instalar.

E como diz no verso de Pessoa
Do Corvo contumaz que dele soa:
“Não fez nenhum cumprimento,
não parou nem um momento,
mas com ar solene e lento
pousou sobre os meus umbrais”.

E assim sem qualquer argumento,
instalou-se a Pomba no meu assento,
sem qualquer linguagem de lamento,
auscultava meu espanto do momento.

E assim, abstrusa e vaga, reinava impávida
sobre minha pilha de muitos saberes,
sem comentários, sem quaisquer dizeres,
como se esperasse de mim o primeiro verbo.


“- De qual confins sucedes ó Pomba rara?”
E ela, tranqüila e calma, apenas me olhava
como quem sente pena de um espírito avaro.
“- Porvindoiro donde vindes?” – quis saber.
“- Venho de dentro do ser…” – resolveu esclarecer.
“- … donde só de lá se pode nascer”.

Não me fez clara aquela resposta vaga.


“- Senhora vou repetir: donde vens em tua saga”.

“- Liberdade não se amarra ao tronco;
não se a prende feito dona rara ou coisa cara,
tampouco dela se aproveita para tanto entorpecer,
não é simples saber da vilania para enriquecer,
não é apodrecer-se como árvore de podre saber,
nem mesmo é toda verdade já tão gasta de filosofia
abarrotada de ciências e iguarias fáceis
de tanto ditas – por isso malditas – já em cada renascer”.

“Esta ave delira” – pensei sem exclamar.
“Não me convém como Corvo a ela retaliar”.

“- Donde venho!? Já logo sabereis, ó Corvo,
antes é preciso dizer-te: – Não estou a delirar!”.

(Se confuso já estava
o Corvo mais espantado ficou.
Considerou um estorvo
quando seu nome ouviu, pois
não o dissera em momento algum
- disso tinha certeza -
como com tanta clareza
a Pomba o revelava com altivez?
Por certo aquilo era um sonho
já produto do cansaço.
Resposta do abandonar-se
num quarto vazio e frio
entregue ao compasso de passos
num vazio calafrio
trazido pelo primaveril
da noite febril
do viver ardil.)

- Por quê não voltas à tua origem?
Por quê insistes nesta miragem?
Nesta tua presença inoportuna
realizada de forma gatuna
roubando de mim o sono fugaz
todo meu descanso e toda minha paz?

- Nunca mais –
respondeu a Pomba com convicção.

E assim falou Machado de Assis:
- Estremeço. A resposta ouvida
É tão exata! é tão cabida!
Certamente, digo eu, essa é toda a ciência
Que ele trouxe da convivência
De algum mestre infeliz e acabrunhado
Que o implacável destino há castigado
Tão tenaz, tão sem pausa, nem fadiga,
Que dos seus cantos usuais
Só lhe ficou, na amarga e última cantiga,
Esse estribilho: “Nunca mais”.

“- Que dizes?!
‘- Nunca mais! -’


Então serei condenado a viver com tua sombra
a me torturar todas as noites (e dias)? Jamais.
Vai-te daqui para as profundezas ou
Some-te para tuas clarezas com tuas incertezas;
não te quero mais a atormentar meus ais.”

“- Nunca mais” – repetiu.

“- Já que te instala nos meus umbrais
serás companheira e confidente;
vou declarar-te todas as dores,
falar-te de todos meus amores,
cantar-te todos meus horrores,
tudo isso e coisas que tais.”

“- Nuca mais” –
sentenciou a Pomba.

“- Serás a férula dos meus pensamentos
terei em ti a balança de todos os juízos
assim estarei certo de chegar aos paraísos
às cortes donde não se dão os lamentos
e por toda eternidade serei par dos justos
sendo assim de todos os seres o Augustus”.

“- Nunca mais” –
insistiu a ave rara.

“- Então não me atormente a alma já cansada,
toma teu tino e some na negritude da noite
donde me apareceste num agouro brilhar
e desde aquele instante vives a atormentar
este velho Cavaleiro do Templo de Sofia
oráculo de deuses dionisíacos da sabedoria”

“Nunca mais” –
insistiu a criatura.

Ah, aquele dia, naquele dia…
Hora em que à hora é morta!
Cansado já desta síntese do ser,
pensava apenas desfalecer.
Muito pensara. Muito estudara.
Fatigado devera estar e ser.

(Já manhã o sol se fazia presente
refletindo luzes em demasia no meu rosto.
Ausente.
Consciente e inconsciente.
A noite foi uma orgia!
A noite foi pura fantasia!)

Nunca mais…
Nunca mais…
Nunca mais…

Um sonho, nada mais.

Nunca mais.

———-

(in EU, PESCADOR DE ILUSÕES, 2006)

EDITOR EM RECESSO ATÉ DIA 4/11/09

descansar um pouco faz bem para a saúde e para refletir sobre as melhorias do site. enquanto isso façam uma visita “curiosa” e passeiem pelas 2.108 matérias publicadas e 18 páginas (acima).

grande abraço e até lá,

JB VIDAL

PREGUIÇA - O BICHO

o editor dentro de alguns instantes.

A PRAIA LOTADA image

praia em Tóquio. você marcou algum encontro aí?

A QUEM É O MOTORISTA - PELA PLACA carro-01

a quem pertence este automóvel? quem seria o motorista?

A SOGRA - cartum_sogra_54

hehehehehehehehe! é só para rir! não tomem como sugestão!

AMOR ANIMAL - CACHORROS FILHOTES _42570

eles são maravilhosos!

AMOR ANIMAL - GIRAFAS 54886

amor entre girafas é looooooooooooooonnnngo!

Ampulheta

o tempo está passando e eu aqui, ainda. agora vou! tchau! abração à todos e bom feriadão!

UM ADEUS A SATURNO de josé dagostim / criciuma.sc


 

Vai saturno…

Até tenho saudade de tua paciência comigo

Escrevi a alma nos versos da

Carta natal.

Às vezes, não acertei o enredo,

Mas na canção de Florbela encontrei

Neruda.

No ciclone, encontrei a brisa.

No vulcão, encontrei Plutão.

No reinado, encontrei a utopia.

Vai, adeus saturno,

Espero-te na curva do destino.

 

José Dagostim

12/10/2009

 

* Ouvindo Marcos Assumpção cantando os versos de Florbela Espanca (Capricorniana) escrevi estes versos, como “forma” de oferenda ao deus (Cronos), Saturno regente de Capricórnio. Que depois de dois anos dá adeus ao signo de virgem. Agradecer aos deuses que habitam nosso interior é uma generosidade que devemos cultivar para que a flor exterior floresça e a poesia amanheça…

 

MIGUEL BAKUN: homenagem ao seu centenário / curitiba

bakun1[1]

Miguel Bakun era filho de Pedro Bakun – natural da cidade de Sokal – Ucrânia e Juliana Maksymowicz – natural da aldeia de Ripniv – Ucrânia.

O Embaixador da Ucrânia no Brasil Volodymyr Lakomov vira de Brasília a Curitiba para as solenidades organizadas em comemoração ao centenário de nascimento de Miguel Bakun.

No dia 27 de outubro, em razão das comemorações do centenário do artista paranaense Miguel Bakun (1909-2009), a Secretaria de Estado da Cultura, por meio da Coordenadoria do Sistema Estadual de Museus (COSEM), promove uma série de atividades para celebrar a vida e obra do artista. Neste dia, acontecem na Casa Andrade Muricy (Al. Dr. Muricy, 915 – Centro) o lançamento do Museu Virtual Miguel Bakun, apresentações de grupos folclóricos ucranianos, dos quais o artista descende, e a projeção de um filme sobre ao artista, de Sylvio Back.

Os eventos começam pela manhã, às 10h30, com uma solenidade póstuma no Cemitério Municipal de Curitiba (Praça Padre João Sotto Maior, s/n, São Francisco). Lá, o público poderá assistir a apresentação do Coral da Paróquia Ucraíno, uma missa em rito bizantino, além de visitar o túmulo de Bakun.

Na parte da tarde, às 16h, a Casa Andrade Muricy (Al. Dr. Muricy, 915, centro) irá realizar o lançamento do Museu Virtual Miguel Bakun, de vínculo com a rede do Sistema Estadua de Museus do Paraná. Durante o lançamento, o grupo folclórico ucraniano Poltava irá apresentar o espetáculo com banduristas, instrumento típico eslavo.

No final do dia, 18h, ainda na CAM, o público terá a oportunidade de assistir ao filme O Auto-Retrato de Bakun(1984), dirigido e produzido por Sylvio Back. Após a projeção, que terá a duração de 43 minutos, o cineasta irá participar de um bate-papo com a platéia. A produção foi contemplada com o prêmio Glauber Rocha de “Melhor Filme”, na XIII Jornada Brasileira de Curta-Metragem da Bahia.

Museu Virtual

Colocar as obras do artista na internet foi o caminho encontrado pela COSEM para divulgar e facilitar o acesso do público geral ao trabalho e legado artístico de Miguel Bakun. “Claro que não substituem um espaço museológico físico, mas complementam, apoiam a área da museologia por divulgar acervos e contribuir para o conhecimento”, explica Eliana Réboli, coordenadora da COSEM.

Os trabalhos que estarão em exposição na internet tiveram curadoria da equipe da própria COSEM, por intermédio de uma grande pesquisa bibliográfica em conjunto com grupos de estudos do Museu de Arte Contemporânea do Paraná (MAC). “O Museu será sempre alimentado com outras obras e dados sobre Bakun”, garante Eliana.

Miguel Bakun

Rosemeire Odahara, coordenadora de projetos especiais da SEEC, destaca a importância deste artista para as artes plásticas paranaenses, justamente por ele ser uma espécie de elo entre a 1ª geração de artistas paranaenses, de uma época conhecida como Paraná Tradicional, e artistas que dialogaram com o modernismo. “Poucos conseguiram transitar entre estes dois momentos da arte e manter sua própria identidade”, explica.

Nascido em 1909 em Mallet, no Paraná, filho de imigrantes eslavos, Bakun começa sua produção artística na década de 40, quando participa de uma ateliê coletivo ao lado de artistas como Alcy Xavier, Loio Pérsio, Marcel Leite, Esmeraldo Blasi e Nilo Previdi. Ao longo de sua carreira, Bakun participou de diversas mostras coletivas e individuais e recebeu diversos prêmios, dentre eles o Salão Paranense de Belas Artes.

SERVIÇO: Centenário do Nascimento de Miguel Bakun, dia 27 de outubro 2009.

Programação:

10h30 – Solenidade Póstuma

Visita ao túmulo do artista

Oferta de flores

Apresentação do Coral da Paróquia Ucraíno – Católica N.S. Auxiliadora

Cerimonia Ucraniana em rito bizantino

Placa em homenagem ao centenário de nascimento do artista

Local: Cemitério Municipal de Curitiba (Praça Padre João Sotto Maior,          s/n, São Francisco)

16h – Espaço Miguel Bakun

Apresentação Capela de Banduristas Fialka do Grupo Folclórico Poltava

Lançamento do Museu Virtual Miguel Bakun vinculado à rede dos Sistema Estadual  de Museus do Paraná (SEEC)

Local: Casa Andrade Muricy (Al. Dr. Muricy, 915 – Centro)

18h – Exibição do filme, O AUTO-RETRATO DE BAKUN (1984). Roteiro, direção e produção de Sylvio Back; participação do pintor, Nelson Padrella. Co-produção: Embrafilme, Secretaria de Estado da Cultura e Fundação Cultural de Curitiba. Prêmio “Glauber Rocha”, de “Melhor Filme” na XIII Jornada Brasileira de Curta-Metragem da Bahia. Duração: 43 min.; cor/PB. Após a projeção, conversa com o cineasta Sylvio Back. Local: Casa Andrade Muricy(Al. Dr. Muricy, 915 – Centro)

O CASO DOS GENERAIS por jorge lescano / são paulo

O cromo representa o general Beresford (William Carr, vizconde de, 1768-1854 – Nota do Compilador) comandante invencível, entregando o espadim em sinal de rendição. Está de perfil e à esquerda do espectador como corresponde a quem chega – na convenção de nossa escrita — : oferece a arma com as duas mãos. As mãos do outro militar estão espalmadas e juntas, formando uma bandeja digna de receber o símbolo de sua vitória. A farda do invasor é vermelha com textura de veludo (uniforme negro imperial, de escamas brilhantes, com uma única estrela de ouro e esmeraldas no peito, e botas altas de verniz, que contrastavam com a palidez do seu rosto.- Enrique Molina: Uma Sombra Onde Sonha Camila O’Gorman; Editora Guanabara; R.J.; 1986; páginas 76/77). A do seu adversário, de tecido mais leve, azul com alamares dourados e detalhes em branco. Também o branco e o dourado fazem parte da roupa de Beresford, vencido porém orgulhoso súdito de sua Majestade Britânica (Alto, delgado, calvo [...] infeliz executor dos desígnios da coroa – E.M.) O outro, anônimo ou de nome esquecido nos bancos escolares, é súdito de Fernando VII, rei da Espanha (Don Santiago de Liniers y Bremond, militar  francês a serviço da Espanha, 1753-1810. Foi vice-rei, governador e chefe da esquadra, simultaneamente, nomeado pela Primeira Junta de Governo que o mandou fuzilar alguns meses mais tarde. Reempossado pelos historiadores, seu primeiro sobrenome   designa um bairro e sua estação ferroviária na capital do país. – N.C.). Ambos militares se encontram em continente estranho e longínquo das metrópoles. Determinou o acaso – que alguns chamam A História –, que estes homens saíssem da Europa e se confrontassem numa geografia neutra, embora o chão que pisam pertença, por direito de ocupação, a Espanha (superfície de terreno coberta por uma multidão desprezível, gauchos, negros e gente de pigmentação subversiva, incapazes de respeitar as bandeiras do mais poderoso império da terra – E.M.).

Sir Home Riggs Popham, almirante de uma esquadra de seis navios “e por iniciativa privada”, lançou-se à conquista do Rio da Prata em 1806. Acompanhavam os barcos tropas de infantaria – 1.635 soldados, “porque o objetivo da Grã Bretanha é a felicidade e prosperidade daqueles países” – comandados pelo general Beresford, que depois seria famoso na guerra da Independência espanhola, isto é, lutando contra os franceses.

Porque a sorte beneficia os audazes, o desembarque foi um sucesso, apenas alguns disparos ao acaso. Em 27 de junho,  as tropas desfilaram pelas ruas de Buenos Aires com bandeiras e tambores, surpreendendo seus habitantes. Em princípio, a esquadra tinha por objetivo Montevidéu, cidade de 15.000 habitantes, contra os 40.000 de Buenos Aires; notícias de uma forte remessa de ouro nesta última, modificaram o filantrópico programa. No forte da praça, residência do vice-rei, o brigadeiro Quintana  lhes entregou a cidade.

Em 12 de agosto daquele mesmo ano, don Santiago de Liniers y Bremond “reconquista” a cidade.  – N. do C.

O quadro original (óleo sobre tela) foi realizado em data incerta para glorificar o vencedor. Talvez por isso o britânico se inclina sutilmente e mantêm os olhos baixos (um olho coberto por um emplastro negro – E.M.); tal atitude permitiu ao artista aumentar a estatura do seu herói, sem que parecesse desproporcionado, ou impertinente seu gesto familiar, a mão  direita sobre o ombro esquerdo do vencido, como Spinola no quadro de Velázquez (Os dois rivais se confundiram num abraço. Uns gauchos próximos  propuseram degolar o general inglês. Liniers os conteve com um gesto. – E.M.).  As cores escolhidas para retratar as tropas em conflito são vistosas, mas deixam margem à dúvida. A farda azul e branca do militar da direita prefigura a bandeira pátria que, no entanto, seria criada mais de uma década depois deste encontro, durante a guerra de independência da Espanha e por um general improvisado.

Se o pintor optou por excluir da paleta o amarelo da bandeira espanhola, poderia ter apresentado o vencedor em farda verde, cor complementar do vermelho, e que contraposto a ele produz intensa vibração na retina. Este contraste cromático reiteraria visualmente as hostilidades cujo epílogo se ilustra. Foi um ato instintivo o que lhe sugeriu a escolha do azul, ou, pelo contrário, trata-se de um anacronismo deliberado? Não é impossível que por ignorância ou esquecimento, tenha pressuposto que estas sempre foram as cores nacionais. Contudo, se a pintura é contemporânea das Invasões Inglesas, conforme recentes pesquisas permitem suspeitar, poderia ter inspirado as cores da bandeira pátria. As opiniões de que as cores da tela teriam sido alteradas posteriormente, e de que o cromo não respeita a obra original (misteriosamente desaparecida) não merecem crédito.

O leitor tem o direito  de perguntar se este símbolo é uma homenagem ao vencedor  do cromo. Se  assim for,  todo o  exercício (vide box) poderia ser interpretado como um eco do primeiro  confronto, na versão de um pintor desconhecido e  onipresente.

As cores azul e vermelho percorreram todo o século XIX, desatando-amarrando nós de ódio na santa guerra fratricida que forjou a nacionalidade. Azuis e Vermelhos irmanados pelo sangue dos degolados. Duas cores com prerrogativas de Destino: nascia-se e já se pertencia a uma das facções, sem que, muitas vezes, se soubesse por quais delas se morria (N. do C.).

Passado mais de um século e meio daquela derrota britânica, nas manobras de treinamento do Exército Nacional, as duas facções em que era dividido adotavam os nomes das cores das tropas representadas no quadro. Tratava-se de uma identificação meramente verbal. Os soldados, para cumprir à risca o exercício, vestiam uniformes de campanha (calça e jaqueta cáqui, estampadas em sépia; capacete de papelão sanfonado por dentro, com incrustações de gravetos e folhas naturais tenras no exterior, coturnos ocre), com a função de se mimetizarem na vegetação onde realizavam as escaramuças. Prática esta assimilada dos exércitos de nações altamente civilizadas e com larga tradição bélica. Porém, as roupas de campanha igualavam as tropas. Assim, para que as manobras alcançassem o fim pretendido com qualidade, sem confusão entre soldados do mesmo país e com fardas semelhantes, os comandos tornaram obrigatório o uso de um bracelete (de cetim) com a cor respectiva à sua facção (azul no braço direito, vermelho no esquerdo). – Roldán Barros:  Primeiro Simpósio da Moda Militar; Curuzú Cuatiá, década de 1990.)

Por cento e setenta e cinco anos Beresford (mantinha sob o braço esquerdo um sabre curto, cuja língua bifendida aparecia intermitentemente pela ponta; na mão direita, preso por uma das pontas, empunhava um emplumado bicorne de oleado. – E.M.) capitulou no cromo. Depois do sacrifício de dois mil Rapazes Azuis, na frustrada invasão às ilhas ocupadas por súditos de Sua Majestade Britânica, é previsível que o General Vermelho, sem homenagens, brindes nem banquetes, receba o atributo da vitória postado na margem direita do vídeo. O Azul se inclina sutilmente para depositar em suas mãos em bandeja o espadim original, retirado sem cerimônias do Museu Nacional.

CONCEITOS de rosa de souza* / portugal / florianópolis


Olho este mundo virado ao revés.

Conceitos crueis Humanidade desmentindo.

Germinamos sem cabeça nem pés.

.

Tanto sofrimento, lágrima e frustração,

ensinados somos na ilusão sem sentido.

Mágoa e dor glorificando sadismos sábios.

.

Mulher coberta para homem não ser tentado.

Viúva de sexo ou companhia – unida a avelhentado.

Obrigada a ver pai em namorado.

.

Ele escolhe. Ela procria resignada, vilipendiada.

Ele sacia, ela se envergonha – assexuada.

Ele escolhe pela idade. Ó calamidade…

.

Cometas e girassóis seguem rotas,

o sol caminha ao encontro de outra estrela.

Homem sem objetivo come e arrota fazendo guerra.

.

Sem liberdade, negando a individualidade,

do púlpito gritam “o coletivo salva a alma”.

Para os seguirmos – sem sabedoria ou qualidade!

.

Galáxias se cruzam além do firmamento…

O Homem vegeta sem discernimento.

Sobrevive em dogmas aumentando o tormento.

.

Evolução é lei universal. A única finalidade.

Sobreviver é instinto. Viver é direito.

Glória à mulher que nega antigo preceito.

.

Mais ínfima que um grão de areia a Terra brilha,

entrelaçada em dimensões e paralelos.

Existência manchada por desdouro conceito.

.

O bom, espontâneo e puro – condenado.

O ignóbil, torpe, desprezível – beatificado.

Grito chorando – daqui não sou, aqui não pertenço.

.

* a escritora e poeta portuguesa rosa de souza tem sete livros editados nos estados unidos, onde morou por 30 anos, e no  brasil onde vive agora na ilha de santa catarina. prepara novos lançamentos para o próximo ano nos dois países.

.

A AUTORA

A AUTORA

O ATEISMO DE SARAMAGO por hamilton alves / florianópolis

Nenhuma pessoa, por mais considerável seja seu cabedal de conhecimentos, cultura, etc., tem condições de afirmar, categoricamente (a não ser que seja muito leviana), que Deus não existe. Assim como, de outra parte, não se pode dizer o contrário. Nem uma nem outra das duas correntes têm suficiente cacife para dizê-lo com profundo conhecimento de causa. Deus continua sendo uma incógnita. Há sábios de nomeada, como Kierkegaard, Chesterton, Unamuno e tantos outros que são acirrados defensores da ideia de que Deus existe. Outros tomam partido contrário e são igualmente nomes notáveis da ciência.

José Saramago, escritor, Nobel de literatura, de vez em quando, molha a sua pena, que vai meio gasta a essa altura (nunca mais escreveu um livro que preste), para tomar partido contra a existência de Deus.

Que sabe um escritor desse assunto?

Será ele um filósofo de alguma escola famosa?

Será um teólogo de formação em alguma universidade ou doutourou-se nesse tema?

É apenas e tão somente um escritor.

Um escritor escreve livros.

Devia se limitar a essa função e não dar palpite sobre o que não conhece especificamente. Ou conhece pouco. Ou nada.

Numa entrevista que concedeu a um jornal, falando do lançamento de seu novo livro, que leva um título bem sugestivo, que deve envolver tema religioso – “Caim” – volta a repetir o que se sabe, sendo ateu de carteirinha – que “as religiões têm feito mais mal do que bem à humanidade e que, por isso, o mais sensato é acabar com elas”.

E remata, a certa altura, o Sr. Saramago:

“O cérebro humano é um grande criador de absurdos. E Deus é o maior deles”.

Seria de responder que o cérebro humano, sim, faz coisas capazes de inspirar um homem aparentemente tão certo do que diz que o levou ao comunismo, mesmo sabendo dos horrores que esse regime causou em todo mundo, especialmente na URSS, onde Stalin imperou longos anos, cometendo toda sorte de atrocidades, ao regime de Castro, com um cartel semelhante de truculências, vindo Saramago declarar-se há pouco contra medida de Fidel por ter assassinado três jovens, que numa balsa pretenderam fugir do “paraíso” cubano. Antes tinha jurado simpatia ao regime de Fidel – “José Saramago, Nobel de literatura, proclama sua adesão à revolução cubana” – foi mais ou menos o que disse quando de sua visita a Cuba.

Acredite-se num homem que assim tergiversa e muda de bandeira da forma como lhe sopram os ventos.

“Deus não existe fora da cabeça das pessoas que Nele creem” – foi outra de suas afirmações nessa entrevista.

Que certeza fundamental terá Saramago de que Deus existe ou não?

Deve tê-la descoberto numa bola de cristal ou na consulta a alguma pitonisa.

Até hoje, que eu saiba, não apareceu nenhum sábio conhecido capaz de afirmá-lo com absoluta segurança de sua veracidade.

Saramago faria melhor se cuidasse de sua literatura, que nesses últimos tempos tem ido tão mal.

O FIO DA MEADA por alceu sperança / cascavel.pr


Neste exato instante milhões de seres humanos estão famintos e doentes, sucumbindo a uma pobreza extrema. OutrosAlceu sperança  - AJC (1) milhões sofrem com o desemprego crescente, que é uma das características mais assustadoras da globalização neoliberal.

Aqui e em boa parte do planeta se acentuam as desigualdades sociais. Arruína-se a natureza através de um processo cruel e injusto chamado “desenvolvimento”. E tudo isso é mantido em nome da “democracia”, veja só!

Os capitalistas neoliberais, aproveitando a seu favor os atentados às torres gêmeas, resvalaram para um novo tipo de autoritarismo, que se dá pela ocupação militar de países “desobedientes” e bases nos obedientes, disseminando uma furiosa paranóia que clama por segurança na exata medida em que a golpeia.

O poder hoje não está ali no Palácio das Araucárias ou em Brasília, mas em instrumentos supranacionais. A guerra e o militarismo surgem, já avisou Lênin em 1916, como resposta de força do imperialismo aos seus limites históricos e às suas próprias contradições.

Os orçamentos militares atingem recordes históricos: o dos EUA sobe na escala do trilhão de dólares. Quanta comida e quanto remédio isso daria? E vem aí a retomada do Projeto Guerra das Estrelas, da era de Reagan, com a instalação do “escudo anti-míssil” na Europa.

Cria-se, em suma, uma “polícia” mundial para manter a situação de pobreza, miséria, fome e doença.

Bush socialista

Não há como ter conhecimento de tudo isso e ficar de braços cruzados. Aqui e em todos os lugares há margem e espaço para a luta de cada um para que o mundo comece de fato a marchar para a democracia, pois o planeta que temos sob os pés não é democrático.

Não há democracia onde falta justiça e pão. Neste mundo de injustiças e opressões, num país governado pelo marketing da engabelação luliberal, das Prefeituras mal administradas ao Palácio do Planalto a serviço de banqueiros e empreiteiras, só indignação não basta, mesmo porque há grandes potencialidades de luta e de avanço progressista.

Um dos truques do domínio neoliberal é criar em laboratório e propagar pela TV líderes políticos locais que falem em socialismo e democracia e pratiquem seu oposto.

No Brasil, e também aqui no Paraná, vemos burguesões liderando partidos “socialistas”. Seguem uma cartilha que até o rei Bush demonstrou ter aprendido: na frustrada viagem à América Latina (e logo Obama fará o mesmo), sua alteza mencionou Simon Bolívar, o libertador, e disse, como nosso Guevara diria, que é preciso “terminar o seu trabalho revolucionário” e garantir “verdadeira justiça social” em toda a região…

Quem diria: Maria Antonieta nos exortando a decapitá-la!

Rejeitar, um começo

O caminho da revolução, no entanto, passa por rejeitar e superar o capitalismo em sua etapa neoliberal.

Passo a passo, os povos latino-americanos vão dizendo não à engabelação da ideologia, como o povo venezuelano fez ao escorraçar do palácio presidencial os vampiros que usurparam o governo, pondo na prisão, ilegal e criminosamente, o presidente Chávez.

É na rejeição às receitas neoliberais que está o fio da meada para a superação das injustiças deste mundo.

Há uma viagem a fazer. O começo dessa viagem está em bloquear a atual ofensiva em curso no País contra as conquistas sociais e os direitos alcançados pelos trabalhadores, através da palavra de ordem “Nenhum Direito a Menos, Só Direitos a Mais!”

Rumorejando (A chegada da estação primavera em Curitiba ainda aguardando). – por juca (josé zockner)

PEQUENAS CONSTATAÇÕES, NA FALTA DE MAIORES.

Constatação IJUCA - Jzockner pequenissima (1)

Rico é aristocrático; pobre, é metido.

Constatação II

Rico é pragmático; pobre, é lunático.

Constatação III

Vai começar o debate,

No horário político,

Terrível e execrável,

Eivado de duvidança

E desesperança.

Prepare-se para ouvir disparate

E argumento nada analítico.

Bem melhor ouvir criança

Incluso na linguagem tatibitate.

Constatação IV

Rica tem o rei na barriga; pobre, todo ano, um filho.

Constatação V

Depois da vitória de Rubinho Barichello, em Monza, o piloto brasileiro, por quem a gente torce e sofre, afirmou e reafirmou que o momento é manter o pé no chão. Data vênia, como diriam nossos juristas, mas Rumorejando acha que é importante manter o pé no acelerador. A propósito das poucas vitórias de Rubinho, vale lembrar que Arquimedes proferiu: “Dai-me uma alavanca e um ponto de apoio que eu moverei o mundo”. Pelo jeito, Rubinho poderia dizer: Dai-me um bom carro na Fórmula 1 que eu serei o campeão do mundo…

Constatação VI (De um estulto perfil).

Era um borra-tintas,

Um exímio sarrafaçal*,

Metido a dar fintas.

Um insigne boçal.

*Sarrafaçal = “1. indivíduo inútil, preguiçoso”.

2. “profissional inapto” (Houaiss).

Constatação VII (Teoria da Relatividade para principiantes).

É muito melhor o nosso time fazer um gol com a mão e o juiz validar, ainda que a gente fique morrendo de vergonha, do que o nosso time sofrer um pênalti e o juiz não marcar.

Constatação VIII

Não se pode confundir barulho com baralho, muito embora no jogo de truco que é jogado com baralho e que onde este assim chamado escriba não encontra adversário, quem faz muito barulho, às vezes, ganha o jogo…

Constatação IX

O detetive

Particular

Contratado

Pra seguir

E flagrar

Um marido,

Acostumado

A desmando,

A trair,

Levou

Azar:

Desligado,

Ficou

Caído,

Ferido

Quando

Escorregou

Num declive

E tropeçou

Num aclive.

Coitado!

Constatação X

O posudo,

Em baixa, estava.

E se achava

Sortudo

E que tava

Com tudo.

Constatação XI (De um pseudo-soneto).

Apresentou uma lista pra ele

Ele ia ter que dormir no paiol

E que ela não era seu lençol

E que não tinha pena dele.

Ele ficou muito triste e azedo,

Dormir naquela espécie de macega

Ali, seria difícil um esfrega-esfrega,

E viu que era sério, não era brinquedo.

Foi consultar uma benzedeira

Dizendo que teria de ficar no estaleiro

E desfilou sua choradeira,

Como era época de nevoeiro

Poderia pegar um resfriado

E que tal jamais acontecera com algum seu antepassado.

Constatação XII

Foi a tartaruga

Mesmo afrouxando o passo,

Que chegou ao destino

Com o sol a pino,

Na casa do namorado

Cansada,

Cheia de ruga,

Um bagaço?

Coitada!

Coitado!

Constatação XIII

Quando meu celular me chama, eu já sei quando é a minha sogra que está chamando. O celular não tilinta, nem vibra. Ele vocifera, esbraveja, impreca, rosna.

Constatação XIV

Pela intenção do Brasil de comprar aviões de combate na França, sem levar em conta as ofertas da Suécia e dos Estados Unidos, o nosso país contaria, dentre outros, com o apoio daquele país para o Brasil fazer parte do Conselho de Segurança da ONU. Este negócio do Brasil ser membro do Conselho de Segurança me deixa numa dúvida crucial que me faz relembrar com o seguinte fato, já contado na coluna: Em 1970, este assim chamado escriba estava estagiando na França, mercê de uma bolsa de estudos, oferecida pelo governo francês. Aproveitando as curtas férias nas festas de fim de ano, resolvi conhecer Londres. Chegando a este país, me dirigi às informações turísticas, em busca de um hotel barato. À atendente, com cara de enfastiada, perguntei: “Do you speak french?” O francês era minha língua estrangeira mais fácil para me fazer compreender e entender. E ela, me olhando de alto a baixo, com desprezo: “What for?” (Para quê?)

Constatação XV

Com relação à constatação anterior, talvez a gente esteja por fora. Quando o presidente Lula disse, no dia 7 de setembro, que o Brasil vai comprar os aviões da França ele, apenas, tão-somente, queria impressionar a mulher do presidente Sarkozy, madame Carla Bruni, que pelos seus dotes merece os encômios respeitosos de todos.

Constatação XVI

Rico é agradável; pobre, censurável.

NAURO MACHADO e sua POESIA / são luis.ma

Maldita a vida me seja,
três vezes maldita seja
a vida que me desastra
e que por ser-me finita,
três vezes seja maldita
e amaldiçoada madrasta.

Quem me fez como um qualquer,
dormindo aonde estiver,
saiba deste desprazer,
para sempre e desde saiba,
para que o seu Ser não caiba
na pequenez do meu ser,

que eu não pedi para estar
com minhas pernas no andar,
com minha emoção a sentir
este universo que tapa
a minha boca num tapa
e a minha língua sem Ti,

essa coisa que fede a iodo,
como a água do mar ou do
envelhecimento o rim,
essa coisa que derrama
seu púbis velho de chama
a extinguir-se quase ao fim,

corpo de Deus! Corpus Christi!
Viste-O algum dia? Tu O viste
sequer um dia como tu?
Integral e à dor exposto,
desde o cio ao suor do rosto,
desde impotente até nu?

Os meus membros são crepúsculos!
São sangue e iodo os meus músculos,
é iodo e sangue a minha cruz.
Por que não nasci não sendo?
Por que, ao amanhecer, acendo,
noutra treva, cega luz?

Se além da terra existe ar,
se além da terra ainda há
por menor que seja, um seja,
como à noite volta o dia,
como, ao corpo, o que o procria,
como, em mim, meu ser esteja!

Dentro ou fora, qual gaveta,
para que, em mim, o ser meta
quem, em mim, é este meu ser,
olho, em volta, à minha volta,
e olho nada — só o que solta
de qualquer um: quem ou o quê?

Nada é, pois tudo se sonha.
E se alguém me falar: ponha
tudo o que lhe resta, e resta
no que, ao pôr-se, se me põe,
para que em mim meu ser sonhe,
vivo morto — e a morte empesta!

Como dar à vida pôde
o nada ser que sou de
outro feito pelo ser?
De outro ser, igual a mim,
mas de outro início a outro fim,
noutra vida até morrer?

Ó envelhecer do meu estar!
Da leitura de Balzac,
de La Comédie Humaine,
se passaram tantos anos
nos malogros desenganos,
sem disfarce ou mise-en-scène.

Bela Eugénie Grandet:
sois lembrança a anoitecer
pelas tardes do meu Carmo,
quem me traz a quem não sou
na usura do pai Goriot
que me a mim dá, para dar-mo

no meu duplo a ser mais dois,
quais búfalos que são bois,
ao mar meu a ser mais mar de
ontem que ao ser-te, alma, foi-te,
nas noites que são mais noite,
nas tardes que são sem tarde.

Só me lembro das andorinhas,
que hoje são luas-vinhas
que iam e vinham às seis,
só me lembro das sequazes
na imprecisão de alguns quases,
na distância de vocês!

Róseas ruas da memória,
róseas ruas hoje escória
que a soçobrar mais me sobe,
afundai-me na lembrança
hoje cravos da criança
que meu cadáver descobre.

Como, à noite, acendo a lâmpada,
para imitar (rampa da
noite) uma inútil manhã,
como o como que mais como,
assumo, na idéia, o pomo
da primitiva maçã.

Assumo o dia original.
Nascimento à morte igual,
nascimento em morte assumo
nesta página onde, em branco,
minha vida inteira arranco
do nada em que subi. E sumo.

E sumo a sós. Mas prossigo:
“na idéia é bem maior o trigo
que na boca o próprio pão,
na idéia janto a sós, comigo,
o pão real que mastigo
feito de imaginação”.

Azul manhã em contumácia!
Negra noite, azul, te amasse
a idéia sem pensamento,
te amasse a própria Idéia
reduzida a uma hiléia
sem ar, floresta, rio, vento.

Locador de um condomínio
frustrador de um hímen híneo,
frustrador de um hímem são,
locador que loca um louco,
de carne e ossos sou reboco
deste barro em maldição.

Tudo é farsa, menor dor.
Sou, em mim, o que me sou
desde o ventre que me fez.
E contemplo a arraia, e raia
dela, como de uma praia,
a noite toda. Ei-la aqui. Eis:

andaime, sucata, ferro,
vagido, vagina e berro,
viatura e papelório,
passa tudo, e é a viatura
conduzindo à sepultura
meu ser morto. E sem velório.

Pois viu a terra e além bebeu-a,
pois viu o tempo e disse: é meu, à
solidão cerzindo a roupa
onde, se me dispo, visto
o sexo nu de algum Cristo
que, despido, não me poupa.

Dez anos de coito cego
são as metáforas que lego
à solitária da escrita,
aonde não chega ninguém
exceto o vazio que vem
de uma montanha infinita.

Ao ouvir da tarde: fracasso!,
conquanto, vergando, os braços
dissessem: pára, enfim finda!
e morre, ó alma desgraçada,
eu ousei retornar do nada,
ousei retornar ainda.

Abandona, ó rei, abandona
o abono de qualquer cona
além do sangue e da queixa.
Cerca a tua casa e a mura
com o suor da tua estatura,
e deixa o remorso, deixa-o!

Senhor do teu sofrimento,
vai-te com o diabo e o vento,
vai-te com a noite e o monte.
E fala, ainda que mudo,
que, do nada, igual a tudo,
sobre ambos nasces. E põe-te!

Elimina todo se
da pretensão de existir
na existência que é demérito,
e no não haver nascido
elimina-te existido,
elimina-te pretérito!

Eliminar o talvez.
Não saber dia, hora ou mês,
não saber até o minuto
em que me vim sendo feito
plantando a morte no peito
e o espinhaço no meu fruto.

Por que o vemeversoverbo
da herbívora erva que eu erbo
no meu plantio masculino,
inverte o chão do seu galho
arrancado do assoalho
repicando como um sino?

Ter olhos-Deus! olhos-sóis
tem-no o Deus que cego a sós,
tem-no o horizonte a pôr-se
como colírio em dordolhos,
tem-no quem me olha nos olhos
como se cego eu já fosse!

Ah!, se a pedra me fizesse
fazer-me cobrir quem desce
à região do ser meu se,
para não haver nascido
ou o houvesse enfim já sido
sem que eu dissera: nasci!

“LULA GIGANTE” apaixona-se por robot da PETROBRÁS no PRÉ-SAL / editoria

UM clique no centro do vídeo:

“Paisagem Especulada”, um triste poema… – convite do jornalista fernando alexandre / florianópolis

P_ntano_do_Sul

PÂNTANO do SUL – foto de FERNANDO ALEXANDRE.

Quem sobrevoar ou passar pela praia do Pântano do Sul, extremo Sul da Ilha de Santa Catarina, neste domingo, dia 25 de outubro, a partir das 10 da manhã, vai perceber uma frase inusitada escrita em grandes letras nas areias de sua praia:

” P A I S A G E M * E S P E C U L A D A “

Não se trata de nenhuma campanha publicitária de lançamento de um novo “resort”; de mais um modernoso campo de golf (com 9 buracos, no mínimo) ou de qualquer mega empreendimento imobiliário “totalmente sustentável” que vai “alavancar o turismo e promover o desenvolvimento” da comunidade.

Trata-se de um poema coletivo escrito nas areias da praia. Um pequeno e triste poema de alerta. E um desesperado aviso aos navegantes: estão destruindo nosso mar, nossas praias, nosso pântano e nossos morros. Estão destruindo nossas vidas.

Esse pequeno poema de alerta vai ser escrito por todos, que podem levar para a praia pás de todos os tamanhos e formas, enxadas, ancinhos, baldes e latas. Ou seja: qualquer ferramenta que sirva para cavar a areia e escrever na praia o alerta.

A idéia do evento surgiu da tensão existente hoje entre aespeculação imobiliária e os anseios de boa parte dacomunidade da região em preservar a Planície do Pântano do Sul, transformando-a em um parque natural protegido.

A manifestação – que será devidamente documentada do alto – ficará visualmente ainda mais interessante se as pessoas puderem vestir roupas amarelas (calça, ou camiseta, vestido, boné, etc).

O ponto de encontro é em frente ao “Bar e Restaurante Pedacinho do Céu“, lado direito de quem chega na praia, as 10 da manhã deste domingo. Onde depois (e durante também) do evento, poderemos confraternizar, cervejar, petiscar e provar uma deliciosa “sopa de siri com letrinhas” preparada especialmente pela Comandante Zenaide para a ocasião.

Promovem o evento o Grupo Rosa dos Ventos (http://gruporosadosventos.blogspot.com, www.gruporosadosventos.com.br);

o Núcleo Gestor Distrital do Pântano do Sul do PDP; Cine-Clube ArmaçãoINMMAR – Instituto para o Desenvolvimento de Mentalidade Marítima;

ABA – Associação do Bairro dos AçoresRádio Comunitária Campeche. Apoio do Bar e Restaurante Pedacinho do Céu.

Para contatos: Silvana Macedo (48) 3233-0083; Gert Schinke: 8424-3060; Raquel Macruz: 8455-5932.

O quê - Evento Cultural Paisagem Especulada.

Onde - Pântano do Sul

Como Chegar - De ônibus até a praia do Pântano do Sul, à direita na praia em frente ao Restaurante Pedacinho do Céu.

Quando - Dia 25/10/09 (domingo)Horário: 10:00 da manhã.

POLANSKI por hamilton alves / florianópolis

Roman Polanski, o cineasta de tantos filmes que marcaram época e se constituem alguns deles clássicos do cinema, como, só para citar alguns, Chinatown, O bebê de Rosemary e outros, vem de ser preso, quando chegava num dia desses ao aeroporto de Zurique, por ordem da justiça americana, sob a alegação de que tivera relação sexual com uma menor.

O crime foi cometido em 1977. Há, portanto, 32 anos.

Para qualquer justiça de país civilizado, esse crime não poderia provocar mais qualquer tipo de efeito contra o infrator por se lhe aplicar a figura da prescrição, pelo qual o Estado não tem mais interesse em punição (nem pode moralmente aplicá-la) pelo decurso de certo tempo previsto nas legislações penais desses países.

Será tão caduca assim a legislação penal dos EUA, que lá não se aplique idêntico preceito?

Ou será o crime sexual contra menores imprescritível por aquelas bandas?

No Brasil, não há exceção pela natureza do crime para efeito de prescrição, que eu saiba.

O efeito retardatário da pena apresenta-se, à primeira vista, como uma coisa anacrônica. É evidente que, no decorrer do tempo prescricional (assim fixado expressamente na lei), o infrator mudou a forma de ver as coisas, regenerou-se ou passou por uma transformação moral ou psíquica, arrependeu-se ou qualquer coisa dessa ordem, que sugere que a pena por um crime passado não tem mais sentido. Ou perdeu a razão de ser ou de sua aplicabilidade.

A adotar-se tal medida, a imprescritibilidade da pena, resulta que o infrator de um crime (ou infração) nunca deixará de ser perseguido pela justiça, mesmo que o decurso do tempo lhe tenha produzido profunda modificação no comportamento. Ou outro seja seu padrão moral. Ou tenha havido substancial mudança em sua índole ou conduta.

O processo estará em seus calcanhares até que a pena seja aplicada, mesmo que, como o caso de Roman Polanski, os efeitos ainda durem depois de 32 anos de ter praticado o delito pelo qual fora imputado.

O que, a bem dizer, é uma velharia da lei penal dos EUA, em descompasso com as demais legislações de outros países, como o Brasil, por exemplo, em que, no caso, a pena há muito teria prescrito. A não ser que na legislação americana (o que não ocorre com a nossa) haja determinados tipos de infrações imprescritíveis, como será a de manter congresso carnal com uma menor, de cujo crime é imputado o cineasta.

Mas como quer que seja, após 32 anos, nenhuma pena pode ser sensatamente aplicada a um infrator, independentemente da natureza do crime, pois o processo de erosão do tempo sobre os efeitos da pena se operou, a contra-indicar que o Estado ainda revele interesse em sua adoção.

O caso que agora se dá de prisão de Roman Polanski, que tem uma série de grandes filmes em seu currículo (o que não o isentaria de responder por um crime, fosse qual fosse)

é revelador, antes de mais nada, do desatualização da legislação penal americana. O que é, em última análise, de provocar pasmo.

BRDE – Palacete dos Leões recebe projetos para exposição até 30 de outubro / curitiba

Palacete dos Leões recebe projetos para exposição até 30 de outubro

Artistas interessados em mostrar o seu trabalho no Espaço Cultural BRDE – Palacete dos Leões – em Curitiba, tem até o dia 30 de outubro para apresentar projeto para o calendário de 2010-2011.  A coordenação do Espaço vai receber projetos para exposições individuais ou coletivas de artes visuais – pintura, desenho, gravura, fotografia, obras tridimensionais, instalações e outras técnicas. As propostas serão analisadas e aprovadas conforme os critérios constantes do regulamento de uso do espaço e de acordo com as vagas disponíveis no calendário de eventos.

Mantido e coordenado pelo BRDE – Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul, o Espaço Cultural iniciou suas atividades em junho de 2005, no Palacete dos Leões, construção histórica de Curitiba, e desde então já recebeu mostras das mais variadas técnicas e linguagens. Além das exposições de artes visuais, também possibilitou apresentações de grupos musicais e lançamentos de livros. Considerado pelos artistas como um espaço nobre, o casarão da Rua João Gualberto, no Bairro Alto da Glória, por si só é uma obra de arte. Concluída em 1902, para ser residência da família de Ermelino de Leão Júnior, a construção é tombada pelo patrimônio histórico e é testemunho do ciclo da erva mate, um dos períodos mais prósperos da economia paranaense.

O regulamento para apresentação de propostas encontra-se disponível no site www.brde.com.br, e maiores informações podem ser obtidas no local.

Espaço Cultural BRDE – Palacete dos Leões
(41) 3219-8056

BRDE Poliana Dal Bosco
Estagiária / ASCOM
Fone: 41 3219.8035
Fax: 41 3219.8153
www.brde.com.br

AMANHECER em SANTA ROSA (RS) por tonicato miranda. curitiba

TONICATO MIRANDA - Periferia de Santa Rosa


Quantos já repararam numa cidade amanhecendo? Muitos, com certeza.

Mas agora, aqui, no alto do quinto andar do Hotel Rigo, em Santa Rosa, assisto um tanto solitário, a este amanhecer de verão, no extremo oeste do Rio Grande do Sul.

De início tudo era penumbra, e as luzes nas ruas eram pontos brilhantes desenhando os traços feitos pelos homens. Depois, com a claridade, as luzes ficaram boiando no espaço, penduradas por árvores de cimentos como estrelas mortas.

À minha frente passa um ciclista, sofrendo no pedal na subida da ladeira. Outro desce tranquilo.

E mais outro vem, regulando a freada na descida. Aquele vai olhando a manhã, sereno como ela. Com pedaladas ritmadas, mochila às costas, segue no rumo do trabalho. Nesta hora, bem cedo na manhã têm mais bicicletas do que automóveis nas ruas. Certamente são os operários rumando em direção à labuta de mais um dia.

Abençoados sejam esses trabalhadores matutinos de Santa Rosa, ou de Horizontina, que visitei ontem, de Arraial do Cabo, de Joinville, de Teresina, de Arapongas, de Monlevade, e tantos, em tantas cidades brasileiras; e todos que vão ao encontro do trabalho montados nas suas magrelas.

O hotel, numa de suas laterais, faz frente com a Rodoviária da cidade. Exatamente a fachada do apartamento onde estou e que tem esta sacada e eu dentro dela. Lá embaixo, uma mãe atenciosa aponta para cima indicando a um dos três filhos que algo acontece aqui em cima. Acho que aponta para mim. Deve estar a dizer: __ Olha que estranho, lá em cima tem um homem a escrever! – O filho certamente não entende nada, pois isso não lhe parece tão estranho, nem tampouco tão normal. Como pássaro não escreve e homem não se dependura no céu, as possibilidades estão empatadas. A situação é somente inusitada.

Por via das dúvidas, diante do interesse, como pássaro ou como escritor maluco, ensaio um tímido adeus que fica sem resposta.

Mais tarde para o alto do telhado da Rodoviária – começando a se alvoroçar com o povo que não para de chegar – tenho a visão de três a quatro bairros da cidade de Santa Rosa e de um dos seus principais acessos viários. Também posso ver algumas plantações de soja, de milho e outras culturas não identificáveis à distância e, ainda, tufos de matas remanescentes exigidos no interior das fazendas pelo IBDF.

Os raios de Sol que vêm chegando iluminam primeiramente as torres dos silos mais distantes. Depois, arrancam da penumbra um trecho de mata, todo um bairro situado na parte alta da cidade. Para, mais tarde, cambiar do escuro para o claro o verde das plantações. Uns vinte minutos depois, os raios já um pouco mais inclinados, permitem-me a visão da primeira sombra de uma árvore sobre um relvado distante. É o sol fazendo parceria com o tempo para produzir formas com a luz e assim enaltecer a geometria.

Passada a primeira meia-hora que o Sol pareceu seus raios já atingem em cheio um prédio lá embaixo, fazendo janelas abrirem-se de par em par. Mas ao longe as chaminés de um fábrica iniciam o lançamento de rolos de fumaça ao ar. Pode-se ouvir agora mais fortes os ruídos da cidade e dos homens a trabalhar.

Os passarinhos ainda cantam aqui e acolá, porém seus trinados soam perdidos no interior da sinfonia urbana do homem. Santa Rosa agora está de pé, já acordou. Perdeu um pouco a graça da Santa e o Róseo tom da manhã; é mais amarela e um pouco mais movimentada. E eu tenho de tomar café, como todos os outros que levantam mais tarde na manhã.

OMS prevê 1,5 milhão de suicídios no mundo até 2020

josé carlos garcia fajardo

Não se trata de uma praga nem é irremediável. É possível controlá-los por meio da educação e da atenção médica. O suicídio e a depressão precisam deixar de ser tabus, como foram as doenças venéreas, a homossexualidade, os preservativos, a masturbação, as uniões estáveis, as relações pré-conjugais, os novos tipos de família, o direito a uma morte digna e à interrupção de uma gravidez indesejada ou perigosa.

A OMS recomenda “fomentar um tratamento responsável do tema nos meios de comunicação e formar os profissionais dos cuidados primários”. A entidade estuda a prevenção do suicídio em culturas diferentes, já que os fatores culturais, religiosos, históricos, filosóficos e tradicionais influem na decisão.

No entanto, alguns afirmam que escrever sobre o tema pode induzir a imitá-lo. Pois então que não escrevam sobre mortes nas estradas, alcoolismo, assassinatos, estupros, maus-tratos, prostituição, e que retirem da TV os filmes e relatos violentos.

Mais que a morte, a maioria dos que tentam o suicídio tenta chamar a atenção em um grito desesperado. Só uma pequena fração de suicídios ocorre sem aviso, e por isso as ameaças de autoflagelo devem ser levadas a sério. Como sinais, a OMS aponta rupturas afetivas e/ou econômicas; falta de comunicação ou indiferença familiar; vício em jogo, álcool e drogas; marginalização social e isolamento por opção ou forçado; doenças terminais e ameaças intensivas à dignidade pessoal; abuso sexual, maus-tratos físicos, verbais ou psicológicos; privação da liberdade; impossibilidade de substituir o objeto perdido (morte de um familiar, aposentadoria, desastre econômico); percepção da decadência geral do organismo e recusa da velhice.

O ato suicida tem “lógica” para o indivíduo e se torna a única saída, o refúgio final, para que ele pare de sofrer. Quando a ideia de culpa é angustiante, a expiação necessária se traduz em suicídio.

“Nosso modo de vida tem algo a ver com o aumento de doentes depressivos?”, questiona o doutor C. Sisto no artigo “O Suicídio”. Ou é uma doença que agora se diagnostica mais que antes? Todo psiquiatra com longos anos de prática observa que há mais deprimidos do que antes; e é sensato supor que as condições atuais da “tarefa” de viver tornam necessárias uma exigência, competitividade, aceleração dos tempos que antes eram desconhecidas.

Há cada vez mais fatores estressantes e menos atenção médica. Isto aumenta os casos de suicídio. Falta-nos tempo para tudo: para ganhar nosso sustento, para a relação com a família, para o descanso. O sujeito se adapta, mas alguns fazem isso pagando o lento preço de um estresse cumulativo, que pode dar lugar a reações de esgotamento, ou de protesto interior, ou de um naufrágio na adaptação do ‘eu’.

Talvez a forma mais frequente desta estafa seja a depressão, vivência sombria da experiência vital. Como diz Kalina, “o tempo na sociedade atual está  contaminado”. Contaminado de urgência, de complicações, de atritos. O viver, antes tranquilo, é agora conflituoso, inseguro. Alguns sujeitos resistem e até transformam esta circunstância em fortaleza; outros claudicam. E então a depressão é a saída.

Se a este quadro soma-se a frequente exortação à “vontade”, à obrigação de “ter energia e ânimo”, agrega-se um novo conflito a este indivíduo que carece justamente de força de vontade.

É preciso romper a crença de que a depressão é uma mera questão de atitude, pois ela confunde o doente, que tenta travar uma batalha solitária. “Falta educação e é preciso romper o preconceito contra a psiquiatria”, diz o doutor J. Molina. Contudo, desde os anos 1950, contamos com um arsenal farmacológico efetivo, e novos medicamentos indicam novos progressos.

“Se tivessem recebido atenção psiquiátrica a tempo, muitas dessas pessoas talvez tivessem sido salvas e levassem vidas normais e tranquilas. Mas não tiveram atenção porque nem sabiam que estavam doentes.” A depressão é uma doença e tem tratamento. O problema é encontrar a ajuda, pois existe muito pouca educação a respeito.

Muita gente pensa que ir ao psiquiatra é coisa para loucos. Além disso, um estigma ronda as pessoas com depressão. Ignora-se que a depressão é uma das doenças mais comuns do mundo. É a quarta doença que mais incapacita no mundo. A depressão afeta quase todas as principais funções do sistema nervoso. Com ela, a pessoa vai perdendo a esperança e acaba incapacitada inclusive de se tratar.

“Faz sentido mostrar a cara, não mostrar o espelho”, dizia Quevedo. Estamos falando de fatos comprovados e avalizados pela OMS, não de meras opiniões.

*Professor emérito da Universidade Complutense de Madri (UCM) e diretor do Centro de Colaborações Solidárias (CCS), na Espanha.

PENSAMENTOS RESIDUAIS de joanna andrade / miami.usa

Momentos que sufocam,

dor no peito, sem cura, o unico remédio é esquecer à conta gotas.

.

Cada  gota  é como chumbo,

tão pesada é a dor.

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Novo método contra cena  amortecida,

sensação, sem paladar e insonsa.

.

O coração ao chão desenhado,

para nunca ser esquecido ao ser pisado.

.

A  sola do sapato trilha a fama da vida,

vermelho carmim ululante.

.

Rastros cirúrgicos perseguem a sombra das sombras,

criando as cicatrizes históricas.

.

As lágrimas alvejam o caminho,

acionam todos os fantasmas para a super ação.

.

São esses os momentos que sufocam,

quando a chuva lava as almas deixando-as novinhas em folha.

.

Os momentos que sufocam o velho coração,

povoam as aortas com o sódio caustificante dos pensamentos residuais.

.

……… dor no peito, sem cura, o unico remédio é esquecer ao contar as gotas.

SARA VANEGAS e seus poemas / equador

fuego de mares calcinados. voces ardientes

voces que absorben mis palabras como las dunas

voces que me rebautizan con nombres milenarios

y me pierden

——

música violenta y dulce

desde el templo sepultado

(deseas ser aire y eres aire

entre las naves)

alguna vez estuvo aquí el mar

——

acercas tu oído a la roca. un zumbido lejano como de campanas roncas. gargantas resecas …

de pronto, una cascada intermitente. ¿o es la danza de un lirio de mar?

la roca hendida

——–

mansiones lejanas. estatuas. una mano que reparte estrellas diminutas sobre los muslos. tan cerca de la arena y la esfinge. tan lejos del mar y sus lunas. tan solas. tu garganta: el oasis y la sed. el triángulo de la luz

canta el viento sobre rosas minerales

O PANDEIRO e SEM EIRA – de raymundo rolim / curitiba

O pandeiro

O sol já vinha de revirar a noite de boca pra cima quando “o samba descansou, porque um samba, jamais se acaba”! Foi esta a última frase que proferiu o Zé do Morro antes de fechar o paletó. Ele que sabia gingar e entendia da bocada de além fumo e aquém morro. Muitos mares e muitos portos seguros de terras estrangeiras conheceu o Zé. Até sabia falar palavras e frases inteiras em esquisitos idiomas. Largou mão de tudo! Agarrou-se com o samba. E compôs. E ficou alegre. Alegre de morrer.

Sem eira

Estava convicto de que seria alguma coisa na vida; como dizem! Desde que tivesse qualquer importância. Qualquer bobagem lhe soava como sendo uma boa coisa, desde que fosse imediatamente reconhecida como uma bobagem. Já era um reconhecimento e logo tinha importância! Aí, pensou bem e de novo e não achou mesmo lucro algum em se tornar o maior criador de pernilongos. Além do processo da cadeia alimentar, para que é que servia exatamente, na ordem do dia urbano, um pernilongo? Achou tão boba essa historia que não a quis, deixou-a pela metade. E mesmo porque os sapos andavam tão escassos na cidade! E sapos na cidade não tinham lá tanta importância.

DO TREINADOR E DO HERÓI por jorge lescano / são paulo


Domingo é o dia em que Deus perdeu a imaginação

então o homem criou a bola.

Livro das Cinzas e do Vento; 11-10

Aconteceu no Monumental de Núñez, impressionante construção capaz de abrigar mais de 80 mil almas, embora naquele domingo vastos setores das tribunas se vissem despovoados. Disputava-se a justa entre Argentina e Peru pelas eliminatórias da Copa do Mundo de 2010, o vazio era conseqüência da péssima campanha da seleção local. Esta ganhava por um gol a zero, o que lhe permitia sonhar com a participação na fase final do certame na África do Sul. O jogo parecia estar decidido. O time peruano não queria voltar para casa derrotado, apesar de já estar fora da competição tentava recuperar a honra nacional, perdida em Rosário em 1978 (Argentina 6 Peru 0).

No estádio todos lembravam do primeiro jogo desta edição em Lima. Argentina ganhava um a zero e a partida estava no fim quando, naquela que viria a ser a última jogada, na ponta esquerda peruana alguém recebe a bola sozinho e como se fosse salvar a mãe da forca dispara que nem foguete tumultuando a defesa argentina. Ao chegar à metade da profundidade da área, ainda fora dela, fez uma pequena curva rápida com a bola colada no pé. A confusão de corpos não permite lembrar se ele ultrapassou a linha de cal, o fato é que chutou com potência e precisão provocando o delírio peruano. Para desespero dos argentinos a bola penetrou no ângulo inferior direito do gol. O juiz apitou duas vezes e apontou o centro do campo com os braços esticados. A TV mostrou rostos congestionados, bocas escancaradas, olhos arregalados, punhos em alto. O Peru estava apto à classificação e mais, mantinha-se invicto em seu território. Esta foi a última partida do Louco Bielza à frente do time argentino.

Agora Diego Armando Maradona não convence como técnico, a imprensa o ataca impiedosamente, os torcedores misturam sua vida pessoal ao trabalho em campo. Oitenta jogadores convocados e um time diferente em cada disputa, assim ninguém se conhece. Era como se um general quisesse avaliar cada um dos seus soldados individualmente para depois definir sua estratégia de combate. Imperícia! Não faltava quem maldosamente afirmasse que sendo Maradona o técnico não faltaria craque na seleção. A calúnia iguala políticos e treinadores. Como os políticos, don Diego se deixa levar pelas palavras, seus discursos ficam difíceis de contornar. Antes da desastrosa derrota contra a Bolívia (6 a 1) havia dito que a altura de 3600 metros de La Paz não seria fator decisivo na partida, tal afirmação descartou a única desculpa do vexame, segundo com esse resultado na historia do futebol argentino. A primeira foi em 1958, na Suécia, contra a Tchecoslováquia. Curiosamente os goleiros de ambas derrotas tinham o mesmo sobrenome e jogavam no mesmo time, Carrizo e River Plate, respectivamente. Nos anais do futebol boliviano esta foi sua maior vitória, para os argentinos a pior derrota; levar goleada da Tchecoslováquia há meio século, vá lá, mas da Bolívia, depois de dois títulos mundiais!… A torcida argentina pedia em altos brados o afastamento de Maradona, já os torcedores brasileiros achavam injusta a medida depois das alegrias que o ex-craque deu ao Brasil nestas eliminatórias. Os brasileiros esquecem que a torcida argentina teve oportunidade de gritar o nome do Dunga em partida memorável. A coisa pode extravasar do continente se a esquadra albiceleste sair desta enrascada.

Tais os antecedentes da atual disputa em Buenos Aires.

Aos dois minutos do segundo tempo Higuarán abre o marcador para os argentinos. Aos catorze minutos começa a chover. Aos vinte o ataque peruano perde um gol com impedimento não marcado. Aos vinte e sete a chuva aumenta. Os dois técnicos recusam as capas e gesticulam como fantasmas na névoa formada pela água nas lentes das câmeras. Aos trinta minutos a ventania balança as câmeras e seus operadores. O time argentino se encolhe. Ataca esporadicamente. Aos trinta e dois minutos o vento conspira contra o time albiceleste, joga-se em meio ao dilúvio. A torcida canta, vocifera, ruge.

Faltavam dois minutos para completar o tempo regulamentar. Argentina 1 Peru 0. Rajadas de oitenta quilômetros por hora criavam redemoinhos no centro do campo atirando a bola a esmo, independentemente da vontade dos jogadores. A torcida argentina orava pelo término da partida, os peruanos queriam operar seu milagre. Este ainda poderia acontecer pois o juiz determinara mais três minutos de tempo suplementar. Estava-se no quadragésimo quarto minuto, o peruano Rengifo cabeceia e gol. Gol-Gol-Gol! Argentina 1 Peru 1. Cruéis, os sinos da derrota dobram a finados, a seleção argentina pode se despedir da Copa, os peruanos deitam e rolam na piscina improvisada, comemoram como se fosse o título mundial.

O temporal redobra sua fúria vingativa, talvez desesperada. Nesse palco trágico, aos quarenta e sete minutos, Martín Palermo, que entrou no segundo tempo, parcialmente restaurado da hemorragia nasal que o havia proscrito por alguns minutos além das fronteiras do campo da batalha, com um chumaço de gaze ensangüentada a pingar da narina direita, sob a inclemência dos elementos que empanavam os olhos da multidão, surge do tumulto dentro da pequena área peruana e com um toque sutil corrige a trajetória da bola lançada do outro extremo da grande área, a esfera, obediente ao desígnio do herói, penetra nas traves adversárias, no mesmo lugar do gol peruano em Lima. O momento é de epifania. O herói desnuda o torso na comemoração pagã desafiando a intempérie e o regulamento, nas arquibancadas gritos, risos, lágrimas, mãos juntas em agradecimento ao criador; o druida Maradona mergulha no gramado. A chuva não diminui, antes aumenta, raios e trovões somam-se à comemoração pátria. O jogo continua, para desespero dos jogadores, da comissão técnica, da torcida argentina encharcada no estádio e daquela parcela que optara por acompanhar o provável desastre pelo rádio familiar.

Os peruanos não se rendem e colocam em perigo o reduto argentino. Os deuses autóctones e os do futebol disputam o tempo, Cronos, impassível, rege no pulso do juiz. No minuto que resta ainda cabe uma segunda bola na trave argentina e a dúvida sobre uma irregularidade em sua área. Pênalti?! Agora? Com o céu a desabar sobre suas cabeças? O árbitro apita e assinala o círculo central, um imenso suspiro acompanha seu gesto. Palermo e Maradona choram abraçados. Argentina está salva até a próxima quarta-feira, em Montevidéu.

Alguma rua da cidade será rebatizada com o nome do herói, epónimo do herói popular criado por José Hernández – Martín Fierro?  Antecipando a imortalidade já existe em Buenos Aires um bairro com o seu sobrenome, até parece que a vida copia o esporte. Martín Palermo, o homem que pode ter feito a Argentina ressurgir de suas cinzas é o mesmo que dias antes garantira sua celebridade ao marcar um gol de cabeça do meio do campo, em jogo do Boca Juniors contra o Vélez Sarsfield.

Quarta-feira 14 de outubro de 2009, aproximadamente 20h50, horário de Brasília. Aos 35 minutos do segundo tempo Argentina e Uruguai empatam sem gols no Estádio Centenário. Um jogador uruguaio é expulso por cometer falta grave contra Gutiérrez. O jovem Messi cobra lançando sobre a pequena área. Depois de um bate-rebate, aos 39 minutos, o volante Bolatti, que estréia na seleção, coloca a gorduchinha no fundo do ninho e entra para a história. A sorte está lançada: Uruguai disputará a repescagem contra Costa Rica, Argentina carimba seu passaporte para o continente negro. Don Diego dedicou a classificação a todos os argentinos, menos os jornalistas. O próximo capítulo será na África do Sul, resta saber se os protagonistas serão os mesmos.

É possível ainda duvidar das alternativas do heroísmo? Talvez o herói contemporâneo não seja apenas o conquistador de postos de chefia nas empresas multinacionais nem o consumidor classe A. Talvez herói seja aquele que os povos admitem como tal.

OSVALDO WRONSKI e seus haicais / curitiba

HAI CAIS DE ANIVERSÁRIO

.

FELIZ ANIVERSÁRIO

O ANO QUE PASSOU

FOI ALÉM  DO CALENDÁRIO

.

SOM  NA CAIXA

O DIA DE HOJE

MERECE ESTA FAIXA

.

OBRIGADO PELOS PRESENTES

ELES DESATAM

A ALEGRIA CONTIDA

DENTRO DA GENTE

.

UM DIA POR ANO

ELE SERÁ CELEBRADO

CAIA NA SEMANA

OU NO FERIADO

.

O BRIGADEIRO

DEU BOLO

NOS DOIS AMORES

DE OLHO NA SOGRA

.

CRIANÇA EM  FESTA

TENTAÇÃO DE BRIGADEIRO

ESTÁ ESCRITO NA TESTA

.

DEPOIS DE ASSOPRAR A VELA

AINDA RESTOU FÔLEGO

PARA DAR O BOLO NELA

.

CHUVISCO DEBAIXO DO CHUVEIRO

SOBRE A MESA DE DOCES

CÉU DE BRIGADEIRO

.

NÃO QUEIRA SABER A IDADE

ESTA PERGUNTA

PODE ESTAR CHEIA DE MALDADE

.

PARABÉNS PARA VOCÊ

ESTA CANÇÃO

VAI ALÉM DO PORTUGUÊS

.

ESQUECI DE TE CONVIDAR

PARA DIZER A VERDADE

SEQUER VI O ANO PASSAR

OS DONOS DO BRASIL por francisco xarão / porto alegre

A divulgação dos resultados preliminares do censo agropecuário 2006 precisa de muito estudo e análise para “tirar” dos números o seu significado político e sociológico na compreensão da dinâmica de desenvolvimento da estrutura agrária e os resultados da política agrícola das últimas duas décadas. Contudo, alguns elementos são de fácil entendimento, embora de difícil aceitação.

Os números divulgados confirmam o que os movimentos sociais, em especial o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, vêm debatendo e apresentando como causa da alta concentração de terras no Brasil: a ausência de uma política agrária que enfrente as oligarquias do campo e um modelo agrícola centrado na grande empresa capitalista em detrimento do modelo da agricultura familiar.

Gestado pelo mercado, com apoio do Estado, nos anos de ouro do neoliberalismo no Brasil, o agronegócio para produção de commodities se orgulha da modernização que promoveu no campo substituindo o jegue, o boi e o jeca pelo trator, colheitadeira e agrotóxicos em larga escala. No entanto, bastou o governo federal acenar com a possibilidade de cumprir a legislação e rever os índices de produtividade das propriedades rurais para que a bancada ruralista, no senado e na câmara dos deputados, saísse em gritaria uníssona de que querem roubar a terra de quem trabalha.

Essa cortina de fumaça que os deputados e senadores, defensores do arcaico modelo agrário e da “improdutiva” política agrícola baseada na grande propriedade e nos agrotóxicos, montaram serviu para esconder o que o censo agropecuário acabou por revelar: a segurança alimentar dos brasileiros é garantida pela pequena propriedade familiar. Se dependesse do agronegócio, de formato capitalista, o povo brasileiro morreria de fome porque só poderia comer os restos da exportação. A lavoura capitalista não produz alimentos, produz mercadorias.

A novidade do censo agropecuário 2006 foi realizar uma radiografia mais completa e em conformidade com a lei que define agricultura familiar. Com isso foi possível fazer comparações com os resultados de 1985 e 1996 e apresentar uma fotografia onde a agricultura familiar aparece com sua cara própria. Os dados apresentam uma realidade da agricultura familiar que devem servir de base para uma reorientação completa da política agrícola e agrária em curso no país. Senão vejamos: apesar de representar 84,4% do total de estabelecimentos rurais ou 4.367.902 propriedades, a agricultura familiar ocupa uma área de apenas 24,3% da área total dos estabelecimentos rurais cadastrados. Ainda assim, nessa pequena lavoura se produz 38% do valor bruto da produção agrícola do país e emprega 74,4% da mão de obra no campo. As propriedades com menos de 10 hectares ocupavam em 2006 apenas 2,7% (7,8 milhões de hectares) da área total dos estabelecimentos rurais, enquanto os estabelecimentos com mais de 1.000 hectares concentravam mais de 43% (146,6 milhões de hectares) da área total. Se tomarmos o número total de estabelecimentos (cerca de 5,2 milhões de propriedades), próximo de “47% tinham menos de 10 hectares, enquanto aqueles com mais de 1.000 hectares representavam em torno de 1% do total, nos censos analisados” resume o informe do IBGE.

Mesmo cultivando uma área menor com lavouras (17,7 milhões de hectares) a agricultura familiar responde por 87% da produção de mandioca, 70% da produção de feijão, 46% da produção de milho e também é responsável por 50% da produção de frangos, 59% da produção de suínos e 30% da produção bovina, apesar de cultivar uma área menor com pastagens. O censo revela ainda que o valor bruto da produção da agricultura familiar e sua participação no valor bruto da produção total obteve crescimento de 38% para 40% em 10 anos (1996-2006). Segundo informativo do Ministério do Desenvolvimento Agrário – MDA: “A agricultura familiar gera um VBP [valor bruto de produção] de R$ 677,00/ha que é 89% superior ao gerado pela agricultura não familiar (R$358,00/ha).”

Entende-se agora a virulência dos ataques dos latifundiários e seus aliados às propostas da sociedade civil para limitar o tamanho das propriedades no Brasil e a proposta do governo federal (MDA) de rever os índices de produtividade, pois qualquer cidadão medianamente informado é capaz de concluir que existe no país uma concentração absurda da terra que é contra o processo de desenvolvimento sustentável. O índice de Gini do uso do solo no Brasil é de 0,872, muito próximo de um, o que indicaria o nível máximo de concentração.

Portanto, não há o que se comemorar. A tentativa do governo, na divulgação do censo, de “dourar a pílula” apresentando os exitosos números da agricultura familiar como uma prova de que a política de crédito e a reforma agrária começam a dar frutos é outra cortina de fumaça para esconder a ineficácia da política agrária e a quase ausência de uma política agrícola específica para a produção de alimentos da cesta básica. Verdade seja dita, os agricultores familiares é que apesar do mercado e apesar do governo viabilizaram suas propriedades como equipamento altamente produtivo. Evidente que o censo 2006 avalia apenas três anos do atual governo, talvez por isso se possa autorizar o discurso: “se não fosse nós seria pior”. Mas querer atribuir a sobrevivência da pequena propriedade familiar à política agrária e agrícola deste ou dos governos passados é, sem sombra de dúvida, um exagero. Analisando a repartição do orçamento público, especialmente no período pesquisado, verifica-se uma distribuição francamente desproporcional em favor do agronegócio.

Antes mesmo da divulgação do censo agropecuário 2006, um estudo, resultado de tese de doutorado do geógrafo Eduardo Girardi, intitulado Atlas da questão agrária brasileira, lançado no primeiro semestre deste ano, mostrava que “Em 2003, os pequenos imóveis, com tamanho médio abaixo de 200 hectares, representavam 92% do total de propriedades, mas ocupavam apenas 28% da área agrária. As propriedades de médio porte, de 200 a 2 mil hectares, respondiam por 6% do total de imóveis e 36% da área. Já aquelas acima de 2 mil hectares, embora não chegassem a 1% do total, ocupavam 35% da área do setor”. Com pequenas variações regionais que não alteram o quadro geral, o censo 2006 confirma os resultados do estudo de Girardi. O que isso implica para o debate da reforma agrária?

A legislação brasileira proíbe desapropriação de área menor que 15 módulos fiscais (que varia de região para região, mas situa-se, na média, em torno de 500 hectares). Sabendo que existem aproximadamente 5,2 milhões de imóveis rurais cadastrados no país e aceitando que todas as médias propriedades (acima de 500 hectares e menor que 2000 hectares) cumprem sua função social, ou seja estão dentro dos índices de produtividade atuais e respeitam a legislação ambiental, restam para desapropriação os imóveis rurais acima de 2000 hectares, que representam menos de 1% do total de imóveis rurais, ou seja, em torno de 50 mil propriedades.

Então toda a gritaria dos deputados, senadores associações de produtores rurais é para defender o “direito de propriedade” de 50 mil privilegiados contra o “direito de propriedade” de mais de 4 milhões de pequenos e médios proprietários e sem terras? Absurdamente é isso. Na democracia dos atuais deputados e senadores 50 mil proprietários são mais donos do Brasil que os outros quase 5 milhões.

A estrutura agrária tem intima ligação com a política agrícola. A concentração de terra – confirmada pelo Censo 2006 deriva da necessidade que tem o agronegócio voltado para exportação — soja, cana-de-açúcar e pecuária — ocupar grandes extensões em planícies que facilitem o uso intensivo de máquinas e agrotóxicos para produção em escala. Para competir lá fora o agronegócio precisa destruir aqui dentro. Essa concentração continua expulsando os trabalhadores do campo. Em dez anos, deixaram de trabalhar nas lavouras 1,363 milhão de pessoas. Permanecem ainda 16,5 milhões ou 18,9% da população ocupada do país em 2006.

O discurso dominante não vê limites para as “conquistas cientificas” que, descobertas hoje no laboratório, amanhã já se transformaram em tecnologias para produção de mercadorias. Clonagem, transgenia, agrotóxicos, tudo é possível. Não há barreira ética e moral capaz de frear “a marcha do progresso”. A agricultura familiar aparece para estes senhores pseudocientistas e “mudernos” como uma ingênua nostalgia bucólica. Paradoxalmente, aqueles que acham tudo possível na ciência e na moral acreditam ser impensável uma outra estrutura agrária e uma outra política agrícola. Sua condição política e cegueira ideológica, sim, é que atravancam o desenvolvimento de um país com soberania alimentar. É o latifúndio pós-moderno onde tudo é possível e relativo menos a contestação da absurda concentração de terras.

Mas, se “ouvirmos” os números do censo 2006 e imaginarmos um país com distribuição de renda, sem fome, com menos agrotóxicos, preservando as florestas é inexorável mudar de rumo. É uma imposição social e política desconcentrar a propriedade da terra. Sem isso não há desenvolvimento social, apenas mais concentração de terra e renda.

O primeiro passo é resolver rapidamente o problema dos acampamentos da reforma agrária. Segundo dados do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terras existem hoje 230 mil famílias acampadas. Como já avaliamos, se adotássemos uma política agrária determinada a desconcentrar a propriedade da terra teríamos de intervir naquelas com mais de 1000ha que representam menos de 1% do total de propriedades no Brasil. Assim, para assentar as 230 mil famílias, considerando um módulo médio de 25ha por família seriam necessários menos de 6 milhões de hectares o que representa menos de 4% do total da área ocupada pelas fazendas com mais de 1000ha. Só para exemplificar: o paranaense Eraí Maggi Scheffer comanda uma empresa que planta em 250 mil hectares dos quais 100 mil são próprios e o restante arrendado de outros agricultores. Se, ceder 4% da sua área para reforma agrária o “rei da soja” ainda terá ao seu dispor 240 mil hectares e nos 10 mil hectares disponíveis à reforma agrária daria para assentar 400 famílias em lotes de 25ha cada. Pergunto: foi agredido o senhor “rei da soja” em seu direito de propriedade e de produzir? Repartir a produção de 10 mil hectares com mais 400 famílias irá dissolver o negócio do senhor “rei da soja” pela concorrência? Ora, não estamos falando de uma revolução no campo, de uma coletivização forçada, mas de multiplicar o número de proprietários com a clara intenção capitalista de ampliar o número de unidades produtivas e diversificar a oferta de alimentos. Trata-se de uma reforma agrária que é realidade em todos os países onde houve uma revolução burguesa (capitalista). É claro que essa é uma exigência mínima, porque o que deveríamos fazer é cumprir a constituição.

Há muito que a legislação brasileira não reconhece mais o direito de propriedade da terra mas a sua função social, que significa que um pedaço de terra é uma unidade produtiva, ou seja, deve produzir alimentos ou seu dono não pode exigir a propriedade sobre a mesma. Ainda assim, a força desta minoria é tão grande que a própria lei não é aplicada. Tribunais crivados de latifundiários ou de amigos deste seleto grupo de ricos que se acham “donos do Brasil” insistem em interpretar a constituição de acordo com suas conveniências e a criminalizar os movimentos que lutam pela terra.

No entanto, como a constituição do país prevê o direito de produzir, de ter um pedaço de terra que cumpra com sua função social, os movimentos sociais não fazem mais que exigir que se cumpra a lei. Isso os legitima sim a ocupar, resistir e produzir. Mas, para além da lei, a legitimidade e necessidade de sua luta se estriba num direito humano fundamental: o direito a vida; deles e de todos os brasileiros. Porque, como revelou o censo 2006, se não fosse a pequena propriedade familiar e a importação de alimentos (um absurdo para um país como o Brasil) os brasileiros passariam fome.

A sociedade brasileira se quer deixar para trás o desonroso título de país com o quadro de segunda maior concentração da propriedade fundiária em todo o planeta (atrás apenas do Paraguai) e caminhar para uma democracia de verdade, precisa dar um basta a estes privilegiados. É urgente que se estabeleça um limite do tamanho máximo da propriedade rural e que se assente, pelo menos, as famílias acampadas.


* Professor de Filosofia da Rede Municipal de Porto Alegre; Mestre em Filosofia política pela UFMG e aluno do PPG em Filosofia da UNISINOS.

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Referências:

ALMEIDA, Cássia, LINS, Letícia, PINTO, Anselmo Carvalho. Brasil: muita terra na mão de poucos. Publicado jornal O Globo 01/10/2009. Disponível on line:

http://www.biodiversidadla.org/content/view/full/52225 acessado em 08/10/2009

BENJAMIN, Cesar. Impactos do latifúndio. Disponível on line:http://www.ecodebate.com.br/2009/10/06/impactos-do-latifundio-artigo-de-cesar-benjamin/ acessado em 08/10/2009.

BRASIL. Censo Agropecuário 2006. IBGE. Disponível on line:http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/economia/agropecuaria/censoagro/2006/agropecuario.pdfacessado em 05/10/2009

BRASIL. Agricultura Familiar no Brasil e o Censo agropecuário 2006. Ministério do Desenvolvimento Agrário. Disponível on line:http://www.mda.gov.br/arquivos/2246422214.pdf acessado em 05/10/2009

GIRARDI, Eduardo Paulon. Atlas da questão agrária brasileira. Disponível on line:http://www4.fct.unesp.br/nera/atlas/ acessado em 05/10/2009.

INFÂNCIA de paulo mendes campos (Belo Horizonte, 28 de fevereiro de 1922 — Rio de Janeiro, 1 de julho de 1991) / rio de janeiro

Infância

Há muito, arquiteturas corrompidas,

Frustrados amarelos e o carmim

De altas flores à noite se inclinaram

Sobre o peixe cego de um jardim.

Velavam o luar da madrugada

Os panos do varal dependurados;

Usávamos mordaças de metal

Mas os lábios se abriam se beijados.

Coados em noturna claridade,

Na copa, os utensílios da cozinha

Falavam duas vidas diferentes,

Separando da vossa a vida minha.

Meu pai tinha um cavalo e um chicote;

No quintal dava pedra e tangerina;

A noite devolvia o caçador

Com a perna de pau, a carabina.

Doou-me a pedra um dia o seu suplício.

A carapaça dos besouros era dura

Como a vida — contradição poética —

Quando os assassinava por ternura.

Um homem é, primeiro, o pranto, o sal,

O mal, o fel, o sol, o mar — o homem.

Só depois surge a sua infância-texto,

Explicação das aves que o comem.

Só depois antes aparece ao homem.

A morte é antes, feroz lembrança

Do que aconteceu, e nada mais

Aconteceu; o resto é esperança.

O que comigo se passou e passa

É pena que ninguém nunca o explique:

Caminhos de mim para mim, silvados,

Sarçais em que se perde o verde Henrique.

Há comigo, sem dúvida, a aurora,

Alba sangüínea, menstruada aurora,

Marchetada de musgo umedecido,

Fauna e flora, flor e hora, passiflora,

.

Espaço afeito a meu cansaço, fonte,

Fonte, consoladora dos aflitos,

Rainha do céu, torre de marfim,

Vinho dos bêbados, altar do mito.

Certeza nenhuma tive muitos anos,

Nem mesmo a de ser sonho de uma cova,

Senão de que das trevas correria

O sangue fresco de uma aurora nova.

Reparte-nos o sol em fantasias

Mas à noite é a alma arrebatada.

A madrugada une corpo e alma

Como o amante unido à sua amada.

.

O melhor texto li naquele tempo,

Nas paredes, nas pedras, nas pastagens,

No azul do azul lavado pela chuva,

No grito das grutas, na luz do aquário,

No claro-azul desenho das ramagens,

Nas hortaliças do quintal molhado

(Onde também floria a rosa brava)

No topázio do gato, no be-bop

Do pato, na romã banal, na trava

Do caju, no batuque do gambá,

No sol-com-chuva, já quando a manhã

Ia lavar a boca no riacho.

Tudo é ritmo na infância, tudo é riso,

Quando pode ser onde, onde é quando.

.

A besta era serena e atendia

Pelo suave nome de Suzana.

Em nossa mão à tarde ela comia

O sal e a palha da ternura humana.

O cavalo Joaquim era vermelho

Com duas rosas brancas no abdômen;

À noite o vi comer um girassol;

Era um cavalo estranho feito um homem.

Tínhamos pombas que traziam tardes

Meigas quando voltavam aos pombais;

Voaram para a morte as pombas frágeis

E as tardes não voltaram nunca mais.

Sorria à toa quando o horizonte

Estrangulava o grito do socó

Que procurava a fêmea na campina.

Que vida a minha vida! E ria só.

.

Que âncora poderosa carregamos

Em nossa noite cega atribulada!

Que força do destino tem a carne

Feita de estrelas turvas e de nada!

Sou restos de um menino que passou.

Sou rastos erradios num caminho

Que não segue, nem volta, que circunda

A escuridão como os braços de um moinho.

.

PAULO por hamilton alves / florianópolis

Não sei por que motivo tenho para mim que, se tivesse conhecido ou tido no mínimo um leve contato com o cronista e poeta Paulo Mendes Campos, nos  iríamos de imediato reconhecer como duas pessoas com grandes afinidades. Pode ser que me engane, como tantas vezes se dá o caso.

Essa afinidade se revelaria principalmente pelo fato de sermos ambos cronistas (e poetas). Não me julgo à altura de Paulo, que está entre os dez melhores cronistas brasileiros que conheço. Para ficarmos nessa conta. O mesmo diga-se com respeito à poesia. Paulo era um poeta com algum nome. Quando foram julgados os dez melhores poemas do mundo e os dez nacionais, lembro-me que Suassuna, lá de Recife, levantou a voz para protestar pela não inclusão de um poema de Paulo entre os dez poemas brasileiros mais votados. Fui tirar a prova dos noves e reconheci que alguma razão, sem dúvida, cabia a Suassuna. O poema de Paulo, com o título “Infância”, bem merecia sua inclusão entre os dez.

Paulo (não é segredo para ninguém) gostava de um copo. “Meu reino por um trago” – era capaz de ter dito algum dia. Ou de ter alguma vez se expressado assim, sedento que sempre andava. A ponto de certa ocasião ter chegado numa cidade do interior e, no hotel, perguntou ao gerente onde àquela hora (era em torno de dez da noite) se poderia encontrar um bar. O gerente disse-lhe que naquela altura seria difícil descobrir algum bar aberto. Mas Paulo sempre acreditou que, em qualquer lugar do mundo (como o revelou numa bela crônica), sempre há de se encontrar um, independente da hora que seja..

Resoluto, com um amigo, partiu para encontrá-lo.

Andaram um bocado por ruas ermas da cidadezinha. Os dois, Paulo e o amigo, que empreenderam essa busca, estavam a ponto de desistir. Até que, súbito, notaram que, ao longe, uma janela se iluminava.

Para lá, esperançosos, seguiram.

Encontraram o bar redentor, confirmando a crença de Paulo que, mesmo a horas mortas, pode-se encontrar um bar aberto. Lembrou-se do verso do poeta:

“Bendito o bar aberto depois da meia-noite”.

Hoje, não lhe seria mais (como em outros tempos) um parceiro para lhe acompanhar num copo. Minha dose já foi devidamente consumida a seu tempo.

Mas lhe seria companheiro para grandes e infinitas tertúlias sobre poesia e grandes poetas. Falar desse tema sempre interessante de crônicas e de cronistas. E de como que ele mesmo consegue produzir uma. Quais os condimentos de uma crônica poderia me dizer num encontro desses.

Nunca mais o encontrarei. Estive tantas vezes no Rio. Nunca me preocupei de ir aos lugares que costumava frequentar, tal o modo como consumia com outros amigos minhas curtas temporadas cariocas.

Paulo tinha toda a pinta de quem presumivelmente iria com a minha cara no primeiro instante em que batêssemos um com o outro em alguma esquina da vida.

Curto-o lendo seus poemas e suas crônicas, dos quais tenho três ou quatro volumes.

Nada mais poderá ser feito para redimir esse desencontro que tanto poderia se constituir de uma imorredoura lembrança de um dos bons poetas e cronistas brasileiros.

DÚVIDAS QUE ASSALTAM por alceu sperança / cascavel.pr

Por vezes, alguma curiosidade sobre coisas estranhas que acontecem neste País nos assalta. Há mesmo ocasiões em que a curiosidade não só te assalta como te manda ficar quieto pra não levar chumbo.Alceu sperança  - AJC (1)

Sempre vemos no jornal notícias de jovens baleados e esfaqueados, mas nunca se diz por que os misteriosos assassinos atiram nas vítimas. Você não fica sabendo a causa dos tiros ou facadas, mesmo quando o assassino é preso ou condenado. Pior ainda quando foge.

Outra curiosidade que nos assalta e ameaça é também social: para onde vão os invasores despejados de fundos de vale e de imóveis urbanos ociosos?

Como não somos informados sobre a causa do jovem se tornar alvo de balas e facas, poderíamos pensar que eles são atirados e esfaqueados apenas porque são jovens.

E aí se especularia: são alvejados para diminuir as filas de desempregados, por que não pagam o “transador” pelo crack ou porque tentam namorar gurias já comprometidas?

Quanto aos abusados que teimam em ter direito a morar em nossas ricas cidades, com tantos imóveis para alugar e vender (quem não compra também não tem dinheiro para alugar), eles são enxotados pela polícia a chamado dos proprietários. Ou da Prefeitura, quando se trata de lote público.

Nesse caso, a gente até vem a saber que eles de fato são expulsos, mas raramente se vê esses descarados invasores de terrenos sendo empurrados para dentro de um dos imóveis já disponíveis e vagos ou de construções em áreas de adensamento – Plano Diretor é pra quê, afinal?

Volta e meia, por falta de onde morar, os sem-tetos se arriscam a erguer casas ou barracos nas áreas de fundo de vale, pois é mais difícil levar corridão de gente da Prefeitura que se diz “socialista” ou “social-democrata” (ninguém mais se assume como fascista ou direita, coisa estranha!) do que de especulador imobiliário.

Há milhares morando onde não morava ninguém, em caráter precário, pois a ocupação é irregular. Como ninguém lhes regula um lugar regular onde ficar, acabam degradando os fundos de vale com aquele “popular” modo de viver: sem torneiras, bicos de luz, sanitários com botão de pressão, ficam atirados nesses fundões.

E é ali que os “bons cidadãos” despejam porcarias oleosas e plásticas de todos os tipos. Somadas às próprias porcarias dos pobres-diabos ali estabelecidos, elas criam um caldo de cultura bem inculto e doentio.

Claro que a Prefeitura não está alheia a isso, pois vai lá e expulsa. O problema é para onde os pés-rapados vão quando são rapidamente expulsos pelas nossas zelosas autoridades.

Será que os excluídos andam combinando algo no breu das tocas? No caso de uma “invasão relâmpago” em Cascavel, num sábado, a combinação ficou clara: uma família, com a ajuda de várias pessoas, começou a erguer uma casinha numa área pertencente à Prefeitura.

O mutirão acelerado pretendia levantar a casa e criar uma situação de fato, mas a Guarda Municipal agiu rapidamente e acabou com a festa.

O argumento para escorraçar a família é que ela não vivia na desgraça absoluta, pois pagava aluguel. Daí concluímos que se estivessem mesmo na M total, a invasão seria autorizada.

Ou então que quem paga aluguel é criatura feliz, sem direito a querer casa própria. E no vai e vem da nossa rica vida metropolitana, continuamos sem saber por quê os jovens são assassinados e para onde vão os sem-tetos depois de enxotados dos fundos de vale.

Rumorejando (Começou a disputa política. Os candidatos já estão apelando. Quem votar para deputado ou senador pra ir pro inferno ou purgatório estará uma passagem comprando). – por juca (josé zokner) / curitiba

PEQUENAS CONSTATAÇÕES, NA FALTA DE MAIORES.

Constatação I

Tem gente que encobre

De já ter sido nobreJUCA - Jzockner pequenissima (1)

Quando descobre

Que não é mais rico, é pobre.

Constatação II

Enquanto ela rebolava

Num sensual saracoteio,

Por causa de comentários libidinosos

Que se referiam aos seus dotes apetitosos,

O marido, vexado, incomodado,

Se meteu num sururu

Onde muita rasteira,

Muita bordoada rolava,

Por baixo, por cima e pelo meio,

Além de golpes de capoeira,

Que doía mais que rabo-de-tatu.

Coitado!

Constatação III

Dentre os muitos e-mail’s recebidos após a publicação de “O terror que matura”, no dia 11 de outubro, transcrevo do meu amigo e colega Abelardo Perseke Junior:

Juca:

Deixe o futebol, esta loucura,

Que torna em vinagre a água mais pura

Que endeusa vagabundos de feroz feiúra,

E viva a poesia, que esta sim, em ti perdura,

Pois este teu poema, de alvear secura,

Foi para mim, serena criatura,

Motivo de prazer, que dura

A Eternidade que tanto procura…

Abelardo, e, parabéns ( e pêsames pelo Paranito)”.

Constatação IV

E já que falamos no assunto, como disseram os poucos neurônios sobreviventes deste locutor que vos fala, digo digita: “O terror que matura, com as 166 rimas em ura, contadas pelo Amigo Sérgio Antunes de Freitas, no seu site www.reforme.com.br/kitnet, pra nós, pobres neurônios, foi uma radical e sofrida aventura. Hurra! Hurra! Quer dizer, Ufa! Ufa!”

Constatação V

Foi a massa de ar quente

Que disse pra frente fria,

Demonstrando alegria:

“Vamos criar uma chuvinha

Grossa ou fininha

Ou se você quiser um furacão

Com relâmpago e trovão”?

Constatação VI

Data vênia, como diriam nossos juristas, mas Rumorejando acha que a garota que faz a publicidade, na televisão, como funcionária da Caixa Econômica Federal, na cidade de Califórnia, no meu estado, o Paraná, merece um prêmio pelo seu desempenho. Parabéns!!! Rumorejando, sem ter bola de cristal, prevê um futuro brilhante como atriz pra “Mari” ou “Marilyn”.

Constatação VII

Foi uma picuinha,

Uma questiúncula

Ou uma boutade

A pergunta pro rei

Da magra rainha:

Perdoai-me, Vossa Majestade,

Segundo eu sei,

Não deveis

Esquecer

Que os reis

Não devem cometer

Nunca um pecado,

Mormente o da gula.

Coitado!

Constatação VIII (Ah, esse nosso vernáculo).

Os noivos para cortarem o bolo do casamento, cortaram um doce.

Constatação IX (De conselhos úteis).

Não deve ter uma namorada

Quem sofre de ronco na barriga,

Pois pode assustar a coitada

E o bem-bom redundar em briga.

Constatação X

Ríspido, ele foi considerado,

Apenas por falar mal da sogra

Ao considerá-la não mais que uma ogra.

Ele só havia dito a verdade. Coitado!

Constatação XI

Não tem algum sentido

Discutir com a sua Maria

E depois ficar deprimido

Afinal não se briga com a chefia…

Constatação XII (Ainda sobre o gol vergonhoso do meu Paraná).

Considerou a derrota do seu time um baita revés.

E pior, o gol validado tinha sido com a mão.

Comentou: “Talvez eu não tenha razão,

Isso que se chama meter as mãos pelos pés”.

Constatação XIII (Dúvida crucial, com rima não apelativa e passível de mal-entendido).

O rechonchudo

E a rotunda

Rolaram e fizeram de tudo,

Merecendo uma tunda?

Constatação XIV

Quando um médico começa a ficar enfermo (Rico fica enfermo; pobre, doente), ele perde a credibilidade dos seus pacientes ou estes consideram a máxima de que “casa de ferreiro, espeto de pau”.

Constatação XV

Rico é ilibado; pobre, censurável.

Constatação XVI (De um pseudo-soneto).

O condenável caçador de dotes

Que vivia até com puídas calças

Recebeu,do pai da noiva, potes

De uma bolada de notas falsas.

A atitude fez nele um ressentimento,

Mas como a noiva era muito querida

Pesou o custo/benefício do casamento

E pensou: “Vamos enfrentar a nova vida”.

Aí, acabou engolindo o fel do veneno.

Sempre acaba existindo uma boa mulher,

Atrás de um homem grande ou pequeno.

Rejeitou do sogro uma oferta de emprego

Que disse que trabalhar se faria mister.

“Afinal, tenho que preservar o meu sossego”.

Constatação XVII

Quem é bitolado só vislumbra uma única solução, ou nenhuma, diante de um problema, mesmo que neste haja inúmeras variáveis.

Constatação XVIII

Diz a sabedoria popular que “quem não chora, não mama”. Já no caso de político, chorando ou não, mama…

A CARA DA OSTRA – por sergio da costa ramos / florianópolis

SÉRGIO DA COSTA RAMOS 1A Feira da Ostra começa, mais uma vez, a provar aquela verdade gastronômica, segundo a qual o feio pode, muito bem, ser o gostoso. Cá pra nós, como dizem os manezinhos e olhando bem uma ostra na sua cara , com uma franqueza que descreva só a aparência, não o sabor:

– É bicho feio…

Digamos que o molusco, mais uma vez na vitrina, com a inauguração da Fenaostra, mereça a defesa apaixonada de algum apaixonado gourmet – e que esse admirador sustente gloriosa argumentação, contra os impropérios de algum serrano adepto das carnes vermelhas, tão irresistíveis, mas nem sempre belas para o sentido da visão.

– A ostra – começaria o fã das conchas premiadas – é um coquetel de proteínas maravilhoso. Um verdadeiro e saudável “drinque do mar”…

O lageano, bom bebedor, já se animou:

– Se é bebida…

– A ostra é um organismo vivo e, pode crer, é “hermafrodita”, traz lá no seu epicentro os dois sexos ao mesmo tempo – e por isso se autofecunda.

– O quêêê!? Come a si mesmo?

– É um ser do mar, que se nutre do plâncton. É um presente de Deus, um organismo vivo. Uma “bebida” vital. Nunca comeste uma ostra na vida, homem de Deus?

– Já fui apresentado… Mas tem aquela gosma esbranquiçada e, no meio, uma crosta escura.

– Tem estômago e intestino, é verdade. E um coração, cujos batimentos se pode observar.

– Barbaridade! Prefiro uma picanha, uma maminha, até um matambre! Pelo menos o bicho tá morto e assado! Quem é que gosta de comer o intestino dos outros? Como o caracu, o miolo do boi, o rabo ou o pé de porco. Mas intestino?

– Não se preocupe. Até chegar à sua boca, bem lavada, é mais pura do que água filtrada. Uma concentração de hormônios e vitaminas. Melhor Viagra não tem! Caracu e pé de porco é pra baixo! Ostra é pra cima!

– Sei não. Só de olhar uma já me dá um negócio aqui no grugumilho. Já não me arrisco a ir com a, digamos, Letícia Sabatella, pr’um Motel…

– Pois vá sem medo. E ofereça ostras pra ela. Dará uma prova de sofisticação e bom gosto. Leve umas ostras Bienville. Ou uma Rockfeller. Levanta até defunto. Quando houve uma crise de escargots nos EUA, anos 1920, os ricos e famosos adotaram a Rockfeller em Nova York, fartando-se de ostras do Maine na Central Grand Station.

– Prefiro viajar para o Texas e comer uma costela de zebu. Um baby-beef mal passado. Ou uma picanha ao ponto, pra lá de buena!

– Pois é. É por essas e outras que o mundo está ficando obeso. É a gordura da carne animal. As ostras têm calorias, sustentam, mas não dão barriga. E fortalecem os músculos! Principalmente “aquele”!

– Estou quase tentado a provar… Como é que se come esse bicho?

– Dez mil maneiras. Cozida em ensopado, como moqueca. Ou frita, grelhada, temperada com ervas, alho e azeite de oliva. Mas a minha preferida é a “natural”. Cruinha. Em cima de um colchão de gelo, pingada no suco de limão. E regada a um vinho branco Muscadet, geladinho. Melhor do que isso, só “aquilo”!

EDUARDO SUPLICY, senador da república, passeia de CUECAS no senado federal

este senador já foi tido como homem sério, bem intencionado com as coisas relativas à população brasileira, teve preocupações internacionais, foi compenetrado em seus mandatos anteriores, etc. etc. e etc. mas, de algum tempo para cá vem cometendo diversos deslizes na maneira de votar (politicamente), nos discursos, nas atitudes em plenário e fora dele. agora culminou com esta pose e passeio pelo senado da república: de cuecas ! ridículo ! desrespeitoso para com a nação ! usar o cargo para tal desfile é um escárnio contra a instituição ! ou estará todo o senado da república de CUECAS ? será que ele quis mostrar que não leva dolares em seu suporte testicular? ou estará a instituição em completa decadência em absoluta sintonia com a senilidade dos seus pares? lamentavel senador eduardo suplicy, lamentavel.

jb vidal

suplicy

o senador da república brasileira EDUARDO SUPICY “desfilou” pelos corredores do senado federal, em meio ao público, nesta quinta-feira (16/10/09) com uma CUECA vermelha, como se pode ver, jogando sorrisos para todos os lados. demência ? senil-jovial ? protesto ? agredir seus eleitores por pirraça? do “nobre” senador não espero outra atitude que não a renúncia ao cargo. é o mínimo, entrar para a história de cuecas.

ESCRAVOS DO SISTEMA por wellington lisboa de sena / joão pessoa

Ao longo dos séculos o ser humano foi domesticado para viver dentro de um paradigma econômico totalmente equivocado. A pirâmide das necessidades de Maslow refrata inúmeras necessidades, das mais básicas até as mais sofisticadas, que segundo prega a moderna economia diz que o homem possui ilimitadas necessidades. Isso não é bem verdade. Terá o homem que trabalhar toda a vida para satisfazer “necessidades” aparentes em termos de bens e serviços? – Há pessoas que ocupavam elevados cargos da sociedade, eram enormemente bem pagas e tinham um status-quo absoluto quando abandonaram este tipo de vida e foram viver uma rotina totalmente diferente, seja no campo morando numa casinha rústica, seja numa praia isolada até sem linha telefônica. E estas pessoas, ao serem interpeladas sobre sua satisfação atual com o padrão de vida que deixaram e estão a viver, invariavelmente responderam que não se arrependeram nenhum pouco e que sentem-se até mais realizadas. Será que estas pessoas subiram a pirâmide das necessidades e desceram em sentindo inverso e, com essa atitude de vida, deixaram de serem felizes ou de viver plenamente?; A economia sempre pregou que os recursos (bens e serviços) são limitados enquanto que as necessidades humanas são ilimitadas. Desse pressuposto podemos concluir que uma economia baseada em dinheiro, instrumento utilizado para adquirir bens e serviços, será sempre uma doutrina onde haverá os mais beneficiados e os menos beneficiados, os incluídos, os excluídos, os que prosperam e os que, indiscutivelmente, sucumbem. E quem vai produzir estes bens e serviços? Os próprios consumidores, ou seja, o povo. Esse é um circuito medíocre mas bem interessante; o trabalhador, mau remunerado, trabalha todos os dias durantes os melhores 35 anos de sua vida para sua própria subsistência. Daí o estereótipo: “o homem é o que ele faz” (uma alusão à aparência social, o que veste e o que possui). Do valor em dinheiro que recebe ele utiliza para adquirir os bens e serviços que nas mais das vezes são mais valiosos do que o que ele produz (por exemplo: um funcionário de uma empresa de TV produz um aparelho de 32” que custa mais do ele recebe em termos monetários como salário mensal) e ainda terá que pagar imposto sobre a renda (descontados em folha), previdência social (descontado em folha), etc. além dos impostos sobre os bens e serviços que ele adquire.

Este é um ciclo infernal, aterrorizador e escravizante. Nossa geração que nasceu, cresceu e está a viver dentro deste paradigma de comportamento não tem a menor idéia do que é estar do lado de fora. Fomos, desde criança, ensinados pelos nossos pais a sempre obedecer nossos superiores, acatar ordens e seguir como cordeirinhos sem reclamar para não sermos punidos (pois há muitos desempregados que gostariam de estar em nosso lugar). A busca por um “lugar ao sol” e “estabilidade financeira” levam as pessoas a praticar coisas absurdas na vida em sociedade. A competição, a inveja, a acumulação de bens e determinados padrões sociais que são impostos acabam por escravizar completamente as pessoas, forçando-as a deixarem de ser “elas mesmas” no que de melhor elas têm como virtudes e vocação. E quando alcançamos o “emprego dos sonhos” continuamos sendo dependentes do sistema tão mais intensamente quando éramos jovens sonhadores sem compromisso. Sonhos que tínhamos na infância são paulatinamente massacrados e pulverizados no decorrer dos anos pela necessidade de “independência” que somos levados a ter numa sociedade puramente materialista, racional e estagnante. Mas voltando ao assunto das necessidades, gostaria de frisar um outro aspecto: a lei da escassez. A lei da escassez é uma lei férrea e incontornável, que reflete a natureza limitada dos meios disponíveis em relação aos fins que as pessoas tem em suas ações. A economia tem como fundamento o entendimento da noção de escassez. Tecnicamente, escassez é definida como o caso onde num preço nulo a oferta de um bem é menor do que a demanda. Um bem abundante é assim classificado quando num preço nulo sua oferta ainda é superior a procura. A escassez submete os homens ao seu jugo desde sempre, levando-os a se organizarem e a estabelecerem entre sí relações a fim de enfrentá-la ou, melhor falando, conviver com ela atenuando-lhe o quanto possível a severidade. A divisão do trabalho e todas as instituições de natureza economica surgiram para melhor alocar os meios escassos em relação a vários fins possíveis. Quando há escassez os agentes tem que decidir como alocar e usar estes recursos. Daí onde surgem as guerras. Quem governa determina aos “escravos” que lutem e deem suas vidas para a garantia da prosperidade dos “patrões” e a continuidade da economia reinante, com suas moedas, seus bancos e seu jugo escravizador.

A escassez esta intimamente relacionada com a lei da oferta e da procura. A escassez, assim como várias premissas do pensamento econômico dominante, são questionadas por autores como Hazel Henderson. A escassez é refutada em vista da inesgotabilidade da capacidade humana de produzir inovações tecnológicas e da utilização de energias renováveis. Há inúmeros recursos não escassos na natureza que poderiam melhor servir a toda humanidade e reutilizados eficazmente. Tal pressuposto é conveniente em particular para as teorias que priorizam a concorrência, a acumulação individual e a dominação. Talvez seja difícil imaginar uma sociedade sem o jugo escravizador do dinheiro, onde as pessoas ao invés de trabalhar durante anos para subsistência e aquisição de bens e serviços, pudesse produzir o melhor de sí para sua elevação moral, cultural e intelectual. Seria o caso de um artesão que fabrica peças de cerâmica que, vivendo numa sociedade livre de bancos, dinheiro em moeda e especulação, teria como destino o fruto de seu trabalho para trocar com outra pessoa ou mesmo presentear a uma pessoa conhecida ou parente. O horário de trabalho seria planejado conforme sua vontade, sobrando tempo para dedicar à educação dos filhos, por exemplo. Não haveria no mundo assaltos, pois todos poderiam viver tranquilamente sem necessidade de roubar do próximo; não haveria dívidas! Por que não teria a existência do dinheiro como elemento de troca; não haveria fome, pois os bens inesgotáveis da Terra seriam cultivados a tal ponto que a palavra de ordem seria “fartura” para todos; não haveria desemprego, pois todos poderiam trabalhar com mais ânimo de coração e felicidade, pois não haveriam empregados e sim colaboradores-patrões de seus próprios empreendimentos; não haveria guerras nem revolução, pois todos respeitariam o próximo como a sí mesmos e a riqueza seria distribuída de forma equânime. Talvez esse seja um mundo perfeito em teoria, caso não existissem a inveja, o egoísmo e a ambição características do ser humano. Mas isso poderia ser superado caso esta doutrina não tivesse sido levada à cabo por uma minoria que, séculos após séculos, através da força brutal e da lavagem cerebral (através da mídia controlada) vêm realizando nas gerações de pessoas de todos os países. Os que se levantam contra o sistema dominante são severamente dizimados (Jesus o foi, Gandhi, Martin Luter King, etc.) durante a história, também cheia de mentiras, que nos foi contada. Toda a nossa vida atual é muito mais ilusão do que realidade. Infelizmente somos joguetes de uma caricata vida social que não tem lógica. Como o próprio Jesus pronunciou em passagem dos evangelhos: “Daí a César o que é de César”. O dinheiro só tem valor para quem é escravo do dinheiro. É a força motriz deste paradigma cheio de engrenagens que é a economia. Sair dela é um lema impensado para muitos.


ELEGIAS DE DUINO de rainer maria rilke / alemanha (escritas na itália)

PRIMEIRA ELEGIA

Quem se eu gritasse, me ouviria pois entre as ordens
Dos anjos? E dado mesmo que me tomasse
Um deles de repente em seu coração, eu sucumbiria
Ante sua existência mais forte. Pois o belo não é
Senão o início do terrível, que já a custo suportamos,
E o admiramos tanto porque ele tranqüilamente desdenha
Destruir-nos. Cada anjo é terrível.
E assim me contenho pois, e reprimo o apelo

De obscuro soluço. Ah! A quem podemos
Recorrer então? Nem aos anjos nem aos homens,
E os animais sagazes logo percebem
Que não estamos muito seguros
No mundo interpretado. Resta-nos talvez
Alguma árvore na encosta que diariamente
Possamos rever. Resta-nos a rua de ontem
E a mimada fidelidade de um hábito,
Que se compraz conosco e assim fica e não nos abandona.
Ó e a noite, a noite, quando o vento cheio dos espaços
Do mundo desgasta-nos o rosto -, para quem ela não é /sempre a desejada,
Levemente decepcionante, que para o solitário coração
Se impõe penosamente. Ela é mais leve para os amantes?
Ah! Eles escondem apenas um com o outro a própria sorte.
Não o sabes ainda? Atira dos braços o vazio
Para os espaços que respiramos; talvez que os pássaros
Sintam o ar mais vasto num vôo mais íntimo.

Sim, as primaveras precisavam de ti.Muitas estrelas
Esperavam que tu as percebesses. Do passado
Erguia-se uma vaga aproximando-se, ou
Ao passares sob uma janela aberta,
Um violino se entregava. Tudo isso era missão.
Mas a levaste ao fim? Não estavas sempre
Distraído pela espera, como se tudo te ansiasse
A bem amada? (onde queres abrigá-la
Então, se os grandes e estranhos pensamentos entram
E saem em ti e muitas vezes ficam pela noite.)
Se a nostalgia te dominar, porém, cantas as amantes; muito
Ainda falta para ser bastante imortal seu celebrado sentimento.
Aquelas que tu quase invejaste, as desprezadas, que tu
Achaste muito mais amorosas que as apaziguadas. Começa
Sempre de novo o louvor jamais acessível;
Pensa: o herói se conserva, mesmo a queda lhe foi
Apenas um pretexto para ser : o seu derradeiro nascimento.
As amantes, porém, a natureza exausta as toma
Novamente em si, como se não houvesse duas vezes forças para realizá-las.
Já pensaste pois em Gaspara Stampa
O bastante para que alguma jovem,
A quem o amante abandonou, diante do elevado exemplo
Dessa apaixonada, sinta o desejo de tornar-se como ela?
Essas velhíssimas dores afinal não se devem tornar
Mais fecundas para nós? Não é tempo de nos libertarmos,
Amando, do objeto amado e a ele tremendo resistirmos Como a flecha suporta à corda, para, concentrando-se no salto Ser mais do que ela mesma?
Pois parada não há em /parte alguma.

Vozes, vozes.Escuta, coração como outrora somente
os santos escutavam: até que o gigantesco apelo
levantava-os do chão; mas eles continuavam ajoelhados,
inabaláveis, sem desviarem a atenção:
eles assim escutavam. Não que tu pudesses suportar
a voz de Deus, de modo algum. Mas escuta o sopro,
a incessante mensagem que nasce do silêncio.
Daqueles jovens mortos sobe agora um murmúrio em direção /a ti.
Onde quer que penetraste, nas igrejas
De Roma ou de Nápoles, seu destino não falou a ti, /tranqüilamente?
Ou uma augusta inscrição não se impôs a ti
Como recentemente a lousa em Santa Maria Formosa.
Que eles querem de mim? Lentamente devo dissipar
A aparência de injustiça que às vezes dificulta um pouco
O puro movimento de seus espíritos.

Certo, é estranho não habitar mais terra,
Não mais praticar hábitos ainda mal adquiridos,
Às rosas e outras coisas especialmente cheias de promessas
Não dar sentido do futuro humano;
O que se era, entre mãos infinitamente cheias de medo
Não ser mais, e até o próprio nome
Deixar de lado como um brinquedo quebrado.
Estranho, não desejar mais os desejos. Estranho,
Ver tudo o que se encadeava esvoaçar solto
No espaço. E estar morto é penoso
E cheio de recuperações, até que lentamente se divise
Um pouco da eternidade. – Mas os vivos
Cometem todos o erro de muito profundamente distinguir.
Os anjos (dizem) não saberiam muitas vezes
Se caminham entre vivos ou mortos. A correnteza eterna
Arrebata através de ambos os reinos todas as idades
Sempre consigo e seu rumor as sobrepuja em ambos.

Finalmente não precisam mais de nós os que partiram cedo,
Perde-se docemente o hábito do que é terrestre, como o /seio materno
suavemente se deixa, ao crescer.Mas nós que de tão grandes
mistérios precisamos, para quem do luto tantas vezes
o abençoado progresso se origina – : poderíamos passar /sem eles?
É vã a lenda de que outrora, lamentando Linos,
A primeira música ousando atravessou o árido letargo,
Que então no sobressaltado espaço, do qual um quase /divino adolescente
escapou de súbito e para sempre, o vazio entrou
naquela vibração que agora nos arrebata e consola e ajuda?

.

traduções do poeta paraense Paulo Plínio Abreu
publicadas no jornal “
Folha do Norte” entre os anos
de 1946 e 1948, realizadas em parceria com o
antropólogo alemão
Peter Paul Hilbert.

ACOMPANHE O RITMO DO DIA por eloi zanetti / curitiba

Quando gostava de usar gravatas, mantinha um estoque de umas duzentas e cumpria um ritual todas as manhãs. Após o banho e a barba, ao me vestir, ia à janela e olhava para o céu, para o tempo e conforme eu me sentia no momento, escolhia a gravata do dia. Dava sempre certo. Havia gravatas para dias escuros, primaveris, ensolarados, tristes, festivos e, principalmente, para os dias de grandes momentos. Hoje já não uso mais gravatas com tanta assiduidade, elas ficam esperando, quietinhas, acho que até suplicando, me use, me use. Aquele era um ritual bom, pois me ajudava no ajuste do dia a ser vivido, uma espécie de pontapé inicial da jornada. 

Os romanos tinham uma frase sábia sobre os dias: carpe diem – que quer dizer aproveite o dia. Poucos de nós sabemos viver com sabedoria os dias que temos pela frente. Ficamos enclausurados em reuniões, amuados por questões mesquinhas, de beiço caído porque brigamos com a mulher, amargurados por desejos não realizados ou pressionados por compromissos inadiáveis. O tempo vai passando e a soma dos dias acumulados para trás vai se tornando maior do que a soma daqueles que ainda temos a viver. Quem sabe? 

Percebi que com os dias o trato tem que ser o seguinte: adapte-se ao ritmo apresentado, não queira forçar a barra, porque não vai dar certo. Para os dias lentos e agonizantes puxe o freio de mão e vá devagar. Para os dias de sol, saia para o jardim, dê um passeio com o cachorro, cuide das plantas, vá buscar as crianças na escola. Para os dias chuvosos, fique mais introspectivo, vá ler um livro ou simplesmente dormir. Para os dias de outono, olhe para o céu, curta o calorzinho da tarde e encante-se com as cores do poente. Para os dias escaldantes, alimente-se de maneira frugal, durma depois do almoço e não saia na hora de maior calor. Para os dias tumultuados, não entre em pânico, fique na sua, observe o burburinho do seu canto e procure não tomar parte dele. Para os dias apressados, acompanhe o ritmo, corra, despache, mas se mantenha dono da situação. Para os dias tristes e melancólicos, entre na tristeza e curta a melancolia. E, como dizem os caboclos, para os dias aziagos, aqueles em que nada dá certo, em que tudo é azar, tenha paciência, não faça mais nada, sente e espere o dia findar. Avançar o sinal será uma péssima ideia. E para os dias de sorte, abuse dela, porque a deusa da fortuna deve estar olhando para você neste momento, se puder jogue na Mega Sena. 

Assim é a vida, tudo tem a sua cadência e nada tem mais ritmo do que um dia depois do outro. Eles sempre foram assim e assim será por todos os séculos e séculos, amém.


* Eloi Zanetti é publicitário, escritor, palestrante e consultor de marketing e comunicação.

Kotscho: “Guerra suja já começou na blogosfera” / são paulo

Um dos jornalistas mais premiados do país, amigo do presidente Lula, Ricardo Kotscho já trabalhou como repórter em várias campanhas eleitorais, participou da Caravana da Cidadania e, em 2003 e 2004, foi secretário de Imprensa da Presidência da República. Ele foi o autor de algumas das melhores frases de efeito durante o segundo período do seminário “O Efeito Obama”, em São Paulo, o 1º Seminário de Estratégia de Comunicação e Marketing, organizado pela George Washington University.

Uma delas, sobre um dos temas principais do evento, a internet. Ele disse que ela será a ‘torcida do Flamengo’, referindo-se à expressão popular sobre a torcida como termômetro da opinião pública. “A internet tornou-se a grande arena pública de debates políticos”, afirmou.

Em relação ao comportamento dos adeptos de cada pré-candidatura à presidência, Kotscho demonstrou-se crítico na campanha que, segundo ele, já começou. “A guerra suja já começou na blogosfera”, afirmou, em referência a informações distorcidas ou exageradas pelos internautas mais engajados.

Por outro lado, o jornalista considera que a internet pode servir também para a democratização – para a lisura na arrecadação de fundos. “Os candidatos podem ficar menos à mercê dos grandes financiadores, que depois sempre cobram a fatura”, disse.

Os demais participantes da mesa foram Antonio Lavareda, Luiz Gonzalez e Marcelo Simões, todos com experiência em campanhas políticas. Lavareda e Gonzalez participaram de várias campanhas do PSDB. Lavareda criticou as restrições na legislação brasileira– que, em alguns casos, diz, “beira o ridículo” (como na proibição de cenas externas na televisão). Simões exaltou a criatividade dos comerciais brasileiros, que, segundo ele, nada devem aos de Obama.

A poeta EUNICE ARRUDA lança seu livro “DIAS CONTADOS” / são paulo

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a poeta EUNICE ARRUDA é colaboradora deste site com sua produção poética; os PALAVREIROS DA HORA lhe desejam o mais amplo sucesso com seu “DIAS CONTADOS”.

DOS CADERNOS DE UMA POETA AO ESTILO DE MISTER HYDE – de vera lúcia kalahari / portugal

Inútil procurar uma solução…É a vida que não tem solução. Nós vamos indo

Levados pelos acontecimentos. Não há outro remédio…

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Não vivas com amargura. A amargura não resolve nada. Nem faça da sua dor um  poema. Será inútil, inútil também. Como tudo.

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É cobardia mas tranquiliza a nossa vil matéria. Achar alguém responsável pelos nossos erros.

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No pedestal da  estátua da glória há sempre essa mistura de ódio e lama que o despeito amassa, com o suor do teu rosto.

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Se não queres perder um amigo, não lhe peças nada.

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Há dias assim mesmo…Dias em que o único acontecimento interessante fosse talvez o fim do mundo….

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O pessimismo não é uma filosofia. Talvez seja apenas a literatura produzida em dia de azedume.

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O céu está completamente azul…Conclusão: A paisagem não interessa .

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É mais fácil crer do que não acreditar. Por isso a vida está cheia de desilusões.

DAN SUL convida:

DanSul2009_Informativo Tango[1]

LEONARDO MEIMES e seus haicais / curitiba

O Guloso

A carne abatida

Ofusca os olhos gulosos.

Campo de batalha

O Maníaco

Se amo, é mão inglesa

Pé esquerdo de coelho, mas no

Fim, zero à esquerda

O Crime

O garoto corre,

Na mão o pão, no rosto o carma:

O riso roubado

O Sintoma

Estouram as mágoas

Embates, intrigas, são os

Sintomas. Anjo Mau…

O Sentido

Chave de um baú sem fim

Palavra que vive solta

Só presa à forma

O Sábio

Chuveiro de mágoas

De ânsias, de sóbria gana.

Absorves? Reclamas?

O Ciclo

Sambas as folhas no

Vivo, vento. Cheira à chuva

A água me embebeda

O Remédio

De portas fechadas

O medo continua porém

Não sinto mais o frio

O Chiqueiro

Botas na lama, no

Marchar exato e diário do

Moço aquartelado

Fique ligado na Internet pela tomada – por roberto soares costa / porto alegre

As surpresas chegam e surpreendem. Aprovadas as regras para transmissão de internet através da rede elétrica, já podemos crer que em pouco tempo milhões de brasileiros terão mais facilidade no acesso à internet. Principalmente para moradores da zona rural, onde a conexão depende de comunicação móvel e da existência de torres de transmissão.

É uma alternativa que pode diminuir a desigualdade e permitir que um público muito maior seja inserido no mundo digital e que faça uso de todas as ferramentas e oportunidades propiciadas neste ambiente. Os custos dessa nova forma de transmissão ainda não foram definidos, mas os testes já estão acontecendo.

O que lamentamos é o fato de que se essa alternativa já era possível e já funcionava em outros países, por que estamos sempre atrasados? Primeiro pagamos pelos péssimos serviços de internet discada, depois pagamos pelo serviço mal prestado pelas empresas de telecomunicações que detêm o monopólio da banda larga. E somente agora, para muitos uma grande surpresa, temos a aprovação da internet banda larga via rede elétrica.

Mas antes tarde do que nunca. A notícia é boa e real. Através de um modem especial, conectado a qualquer tomada da casa, a conexão se dará por meio de cabos de fibra óptica. Não será preciso nenhuma quebra de parede para colocação dos cabos. As velocidades de conexão estão sendo testadas e, em relação à qualidade, pode ser prejudicada se no momento do uso algum outro aparelho doméstico estiver sendo usado. Mas, para evitar isso, basta utilizar um pequeno filtro que o problema já é solucionado. Então o que devemos fazer é comemorar, mais uma vez o Brasil vivendo as tecnologias de primeiro mundo.

Brasileiros de qualquer cantinho poderão conhecer e fazer parte da vida moderna e veloz. A vida online. Onde a informação não tem limites e os conhecimentos estão disponíveis para quem quiser acessá-los. Poderão usufruir também das gratuidades e facilidades oferecidas na rede, sem discriminação ou limitações.