Era isso o que pensavam então! Então era isso! Pensavam mas nunca falavam. Eram uns esquisitos aquela gente. De onde cargas-d’água tinham vindo? Ninguém sabia dizer nada que prestasse, só coisinhas assim, de nada, bobagenzinhas. Eram palavras tolas, coisa de gente que sabia falar sem saber o que falava. Riam-se. Pelo menos isto faziam, ih, e como riam!!! Pra piorar, as vozes que tinham eram guinchados horríveis, estridentes. Aquilo era nada. Parece que aquela gente tinha saído debaixo do chão. Rotos, sujos e não sabiam nada. Tinham fome, ih se tinham, e bebiam água. E diziam bobagem e riam. Um deles era o representante do resto, aquele que acreditavam ser o bobo-mór, que lhes era igual ou superior. Esse nem ria e nem falava. Observava calado toda aquela indolência hirta. Parecia estar plugado num’outra instância. Pelo menos mantinha os olhos bonitos e serenos abertos; como olhos de hindus. Esse era o bobo deles! Gestos graúdos como os de um ator e de repente, este bastante representante desta choldra, desabou, revirando os grandes olhos especulativos, para se pôr de pé em seguida e à guisa de oráculo, falou-lhes na linguagem das cavernas, ou antes, linguagem de magma. E eles se entreolharam e riram mais uma vez, um risinho bobo, de gente tola, que nem sabia rir de nada. Quando o bobo voltou à tona, isto, é, a si, fez um sinal único e rápido, simples e enérgico com a mão. E logo um raio saltou de banda e levou aquela gente que só ria, ria de nada, riam deles, era uma asneirazinha. Tinham visto numa telenovela uma vez e aprenderam depressa! Só isso! É que o bobo-mór era assim mesmo, às vezes meio temperamental e impunha-se a si a tarefa de limpar a terra de gente que ria, de nada, de bobagenzinhas, gente de grande inutilidade. Depois o bobo sumiu! Dizem que partiu para um certo planalto. Para um planalto central. Para prestar ajuda a muitos, pois reclamava a si o reino da Inglaterra. Ele era a rainha da Inglaterra. Havia visto sua majestade numa capa de revista, na banca da esquina, gostou do traje e a vaidade se lhe afeiçoou. Tomou-lhe o juízo. Passou-se a chamar Dom, Dom Fernando.
Contra-cena
O interesse pelo show era geral. Finalmente a estréia seria dali a duas horas e a imprensa noticiara. Noticiara não; fora bombardeado com exaustivos clichês o grande evento; o megaevento. Os batedores com suas motocicletas se aprontavam em frente ao hotel para abrir alas no trânsito perturbado, nervoso e engessado. Encontravam dificuldades de locomoção, rugiam seus motores e aceleravam, sem que saíssem do lugar. Alguns carros bateram, coisa leve, logo à frente e outros lá em cima no cruzamento e lá atrás também. O trânsito ameaçava transformar-se num caos previsível, aliás, completamente previsível. O astro dentro da limusine aguardava como podia e não deveria ceder em hipótese alguma aos impulsos de gritar e se descabelar. Afinal, já estava “aprontadinho para o show”. Meia horinha de camarim para relaxar e em seguida subir ao palco; seria este o roteiro suficiente. Era o que imaginava. Aproveitou o incidente para ficar ali quietinho e repassar mentalmente algumas letras das novas canções com os novos arranjos. Contava cada passagem, em que rufariam forte as baterias, ali e acolá entrariam os solos da guitarra; o contrabaixo que faria contraponto com o piano, o sax que duelaria furioso com o clarinetista. Os metais entrariam logo depois, na segunda música, e ficariam até a quinta, quando então seria o improviso e ele, o artista principal, poderia tomar um pouco de água e ar. Fazia de conta que não ouvia as sirenes que teimavam em desequilibrar o seu senso e sistema auditivo e nem as muitas buzinas dos bilhares de carros que, parados, aceleravam e aceleravam. Andar que era bom, nada! Ainda bem que o ar condicionado funcionava legal. Apertou um botão e saltaram da saliência à sua frente copos e gelo nos copos, e achou que poderia tomar um grande e bom trago do velho J.D. Não arriscaria um cow-boy pra não ficar troncho antes da hora, pois que o jantar seria servido apenas depois do espetáculo concluído, quando teria convivas especiais. O comandante do trânsito apareceu, de repente, singrando os céus, num helicóptero barulhento, numa última e desesperada tentativa de resgatá-lo e só não o fez por problemas com a seguradora, que informada da situação, alertou que nas cláusulas do contrato firmado entre a companhia e aquele senhor artista, não estava previsto esse tipo de resgate, de acrobacia aérea. Não foi possível e não houve show. Problemas com o trânsito. Foi o alegado. Mesmo porque, ele distraíra-se a esvaziar aquela garrafa e ainda outra que estava sob o banco e bem que poderia errar algumas notas, ou mesmo frases inteiras e já tinha dificuldades em balbuciar o próprio nome, quanto mais fazer o “bis”. Foi a última coisa que pensou antes de adormecer profundamente no banco traseiro da limusine que felizmente, tinha ar condicionado e uma garrafa vazia a lhe fazer companhia.
Meu corpo está completo, o homem – não o poeta.
Mas eu quero e é necessário
que me sofra e me solidifique em poeta,
que destrua desde já o supérfluo e o ilusório
e me alucine na essência de mim e das coisas,
para depois, feliz e sofrido, mas verdadeiro,
trazer-me à tona do poema
com um grito de alarma e de alarde:
ser poeta é duro e dura
e consome toda
uma existência.
Esta carnificina de civis começou a partir do seqüestro de um soldado. Até quando o seqüestro de um soldado israelense poderá justificar o seqüestro da soberania palestina?
Até quando o seqüestro de dois soldados israelenses poderá justificar o seqüestro de todo o Líbano?
A caça aos judeus foi, durante séculos, o esporte preferido dos europeus. Em Auschwitz desembocou um antigo rio de espantos, que havia atravessado toda a Europa. Até quando os palestinos e outros árabes continuarão a pagar por crimes que não cometeram?
O Hezbolá não existia quando Israel arrasou o Líbano em suas invasões anteriores.
Até quando continuaremos a acreditar no conto do agressor agredido, que pratica o terrorismo porque tem direito de se defender do terrorismo? Iraque, Afeganistão, Palestina, Líbano… Até quando se poderá continuar a exterminar países impunemente?
As torturas de Abu Ghraib, que despertaram certo mal-estar universal, nada têm de novo para nós, os latino-americanos. Nossos militares aprenderam essas técnicas de interrogatório na Escola das Américas, que agora perdeu o nome, mas não as manhas. Até quando continuaremos aceitando que a tortura continue legitimando, como fez a Corte Suprema de Israel, em nome da legítima defesa da pátria?
Israel deixou de ouvir 46 recomendações da Assembléia Geral e de outros organismos das Nações Unidas. Até quando o governo israelense continuará a exercer o privilégio de ser surdo? As Nações Unidas recomendam, mas não decidem. Quando decidem, a Casa Branca impede que decidam porque tem direito de veto. A Casa Branca vetou, no Conselho de Segurança, 40 resoluções que condenavam Israel.
Até quando as Nações Unidas continuarão a atuar como se fossem outro nome dos Estados Unidos? Desde que os palestinos foram desalojados de suas casas e despojados de suas terras muito sangue correu. Até quando continuará correndo sangue para que a força justifique o que o direito nega?
A história se repete, dia após dia, ano após ano, e um israelense morre para cada 10 árabes que morrem. Até quando a vida de cada israelense continuará valendo 10 vezes mais? Em proporção à população, os 50 mil civis, em sua maioria mulheres e crianças, mortos no Iraque equivalem a 800 mil americanos. Até quando continuaremos a aceitar, como se fosse costume, a matança de iraquianos, em uma guerra cega que esqueceu seus pretextos? Até quando continuará sendo normal que os vivos e os mortos sejam de primeira, segunda, terceira ou quarta categoria?
O Irã está desenvolvendo a energia nuclear. Até quando continuaremos a acreditar que isso basta para provar que um país é um perigo para a humanidade? A chamada comunidade internacional não se angustia em nada com o fato de Israel ter 250 bombas atômicas, embora seja um país que vive à beira de um ataque de nervos. Quem maneja o perigosímetro universal? Terá sido o Irã o país que lançou as bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki?
Na era da globalização, o direito de pressão pode mais do que o direito de expressão. Para justificar a ocupação ilegal de terras palestinas, a guerra se chama paz. Os israelenses são patriotas e os palestinos são terroristas, e os terroristas semeiam o alarme universal.
Até quando os meios de comunicação continuarão a ter receios de comunicação?
Esta matança de agora, que não é a primeira nem será, receio, a última, ocorre em silêncio? O mundo está mudo? Até quando seguirão soando em sinos de madeira as vozes da indignação?
Estes bombardeios matam crianças: mais de um terço das vítimas, não menos da metade. Os que se atrevem a denunciar isto são acusados de anti-semitismo. Até quando continuarão sendo antisemitas os críticos dos crimes do terrorismo de Estado? Até quando aceitaremos esta extorsão? São anti-semitas os judeus horrorizados pelo que se faz em seu nome? São anti-semitas os árabes, tão semitas como os judeus? Por acaso não há vozes árabes para defender a pátria palestina e repudiar o manicômio fundamentalista?
Os terroristas se parecem entre si: os terroristas de Estado, respeitáveis homens de governo, e os terroristas privados, que são loucos soltos ou loucos organizados desde os tempos da Guerra Fria contra o “totalitarismo comunista”. E todos agem em nome de Deus, seja Deus, Alá ou Jeová. Até quando continuaremos a ignorar que todos os terrorismos desprezam a vida humana e que todos se alimentam mutuamente. Não é evidente que nesta guerra entre Israel e Hezbolá são civis, libaneses, palestinos, israelenses, os que choram os mortos? Não é evidente que as guerras do Afeganistão e do Iraque e as invasões de Gaza e do Líbano são incubadoras do ódio, que fabricam fanáticos em série?
Somos a única espécie animal especializada no extermínio mútuo. Destinamos US$ 2,5 bilhões, a cada dia, para os gastos militares. A miséria e a guerra são filhas do mesmo pai: como alguns deuses cruéis, come os vivos e os mortos. Até quando continuaremos a aceitar que este mundo enamorado da morte é nosso único mundo possível?
DESPACHO DE UM JUIZ DE DIREITO DE PALMAS,TOCANTINS
A Escola Nacional de Magistratura incluiu, nesta terça feira (30/06), em seu banco de sentenças, o despacho pouco comum do Juiz Rafael Gonçalves de Paula, da 3a. Vara Criminal da Comarca de Palmas, em Tocantins. A entidade considerou de bom senso a decisão de seu associado, mandando soltar Saul Rodrigues Rocha e Hagamenon Rodrigues Rocha , detidos sob acusação de furtarem duas melancias:
DECISÃO
‘Trata-se de auto de prisão em flagrante de Saul Rodrigues Rocha e Hagamenon Rodrigues Rocha,que foram detidos em virtude do suposto roubo de duas (2) melancias. Instado a se manifestar, o Sr.Promotor de Justiça opinou pela manutenção dos indiciados na prisão.
“Para conceder a liberdade aos indiciados, eu poderia invocar inúmeros fundamentos: os ensinamentos de Jesus Cristo, Buda e Gandhi, o Direito Natural, o princípio da insignificância ou bagatela, o princípio da intervenção mínima, os princípios do chamado Direito Alternativo, o furto famílico, a injustiça da prisão de um lavrador e de um auxiliar de serviços gerais em contraposição à liberdade dos engravatados e dos políticos do mensalão deste governo, que sonegam milhões dos cofres públicos, o risco de se colocar os indiciados na Universidade do Crime (o sistema penitenciário nacional)…
Poderia sustentar que duas melancias não enriquecem nem empobrecem ninguém.
Poderia aproveitar para fazer um discurso contra a situação econômica brasileira, que mantém 95% da população sobrevivendo com o mínimo necessário, apesar da promessa deste Presidente que muito fala, nada sabe e pouco faz.
Poderia brandir minha ira contra os neo-liberais, o consenso de Washington, a cartilha demagógica da esquerda, a utopia do socialismo, a colonização européia…
Poderia dizer que George Bush joga bilhões de dólares em bombas na cabeça dos iraquianos, enquanto bilhões de seres humanos passam fome pela Terra…
E aí? Cadê a Justiça nesse mundo?
Poderia mesmo admitir minha mediocridade por não saber argumentar diante de tamanha obviedade.
Tantas são as possibilidades que ousarei agir em total desprezo às normas técnicas. Não vou apontar nenhum desses fundamentos como razão de decidir…
SIMPLESMENTE MANDAREI SOLTAR OS INDICIADOS… QUEM QUISER QUE ESCOLHA O MOTIVO!”
Expeçam-se os alvarás de soltura. Intimem-se’.
Violonista gaúcho de grande expressão e com sólida carreira dentro da música regional do Rio Grande do Sul, Maurício Marques desenvolve um amplo trabalho, voltado à composição e orquestração dentro do regionalismo. “Resolvi fazer um disco mostrando minha visão da nossa música e suas várias vertentes. Aqui temos a influência das raízes rurais, em que a milonga é o principal elo de ligação, assim como o chamamé, a vaneira, e uma infinidade de ritmos. Mas também temos a influência do choro, do samba e do maxixe, ritmos que há muito tempo são praticados por aqui”, afirma o músico. Ritmos como choro, tango, milonga, chamamé, chacarera, candomblé, valsa, baião, zamba e chamarra, dão seqüência ao trabalho de pesquisa de ritmos e aplicação deste material em novas composições.
Maurício Marques é um violonista de mão cheia. Gravou Astor Piazzolla, participou da Orquestra Brasileira de Cinema, dividiu o palco com Toquinho,Kleiton e Kledir,Plauto Cruz, Dominguinhos,Luiz Carlos Borges, RenatoBorghetti e muitos outros grandes músicos brasileiros. Seu primeiro disco, Cordas ao Sul, obteve três indicações ao Prêmio Açorianos de Porto Alegre, em 2004, e foi premiado como melhor instrumentista regional. Desde 2005 integra oQuarteto Maogani, ao lado dos violonistas Paulo Aragão, Carlos Chaves e Marcos Alves. Com esse grupo, excursionou pela Europa e fez a abertura do show de Sérgio Mendes, em Los Angeles. Teve um livro com suas composições editado na França pelaEditora Henry Lemoine, dentro da coleção Sergio Assad.
Participam do show Milongaço os músicos Maurício Marques no violão de oito cordas, Felipe Alvares no baixo, Luciano Maia no acordeon,Marco Michelon na percussão e Celau Moreyra no violoncelo.
Sobre o disco – por Maurício Marques
Resolvi fazer um disco mostrando minha visão a respeito da música regional do Rio Grande do Sul. Aqui temos a influência das raízes rurais, onde a milonga é o principal elo de ligação, o chamamé, a vaneira, enfim, uma infinidade de ritmos. Mas também temos a influência do choro, do samba e do maxixe que há muito tempo são praticados por aqui. O gaúcho Octávio Dutra, um grande compositor nascido em 1884,passou sua vida praticando o choro junto com centenas de músicos que também tocavam este gênero. Depois veio Jessé Silva, Túlio Piva, Lupicínio Rodrigues. Quanto à música clássica, base de meu estudo em violão, foi trazida pelos primeiros colonizadores portugueses e espanhóis, e depois pelos imigrantes italianos e alemães, dentre muitas outras etnias que aqui aportaram e formaram a cultura do povo gaúcho. Todas estas informações e influências resultaram em um disco bastante camerístico que mistura elementos da música gaúcha, do choro e da música clássica.
Serviço:
Datas da turnê:
Teatro Regina Vogue – Curitiba. 30 de junho – Theatro São Pedro – Porto Alegre. 01 de julho – Teatro do Sesi – Rio de Janeiro. 03 de julho – Espaço Cultural Cachuera – São Paulo.
Informações para a imprensa:
Anaterra Viana
Verdura Produções Artísticas
(41) 3324 8446 e 99065906
Há três anos o músico passava por tratamento médico e esperava pela cirurgia.
IVO RODRIGUES no KAPELLE PUB
O vocalista da banda curitibana Blindagem, Ivo Rodrigues, passou por um transplante de fígado noHospital de Clínicas da Universidade Federal do Paraná (UFPR), na quinta-feira (25). A cirurgia começou às 17 horas e terminou às 23h50. A operação foi bem-sucedida e Ivo se recupera na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do hospital.
De acordo com o médico Júlio Coelho, professor titular e chefe do Serviço de Cirurgia do Aparelho Digestivo e Transplante Hepático do HC, apesar de ser uma cirurgia grande e complexa, a operação do vocalista ocorreu de forma tranquila.
“Ele recebeu um órgão de um doador jovem, de 24 anos, que sofreu um acidente de moto em Telêmaco Borba (Campos Gerais”, disse o médico. Segundo Coelho, Ivo ainda continua na UTI, mas já foi retirado da respiração artificial. “O fígado já está funcionando normalmente, com uma evolução boa da função hepática. Se continuar assim, em dois ou três dias ele deve sair da UTI”, explicou.
Segundo o médico, o transplante de fígado é um procedimento cirúrgico de elevado risco. “A porcentagem maior de risco já passou, mas ainda é preciso ter muito cuidado nestes primeiros dias de recuperação, pois o fígado tem uma função muito importante”, disse Coelho. O médico acredita numa rápida recuperação do vocalista.
“Prevemos que, se continuar bem a recuperação, em torno de um mês e meio a dois meses ele já possa voltar às atividades normais”, definiu Coelho, inclusive com shows, para alegria dos fãs da banda.
Mudança de vida
Há três anos Ivo esperava na fila do transplante por um fígado. Durante esse tempo ele tomou remédios e fez tratamento, com acompanhamento médico feito pela equipe de transplantes do HC, contra a insuficiência hepática, causada pelo consumo de bebidas alcoólicas. O baterista da banda Blindagem, Rubén “Pato” Romero, afirmou que o grupo vai esperar a recuperação do cantor, mas continua cumprindo os compromissos assumidos.
“Vamos continuar trabalhando. Enquanto o Ivo se recupera, vamos contar com outro vocalista. Ele (Ivo) vai se recuperar bem e vai voltar com tudo para a banda”, afirmou Pato Romero. O baterista disse que Ivo precisou mudar o estilo de vida durante o período do tratamento.
“Quem acompanha a banda de perto sabe como ele estava esses últimos anos. O Ivo mudou o estilo de vida para não morrer e continuar com a banda. Ele estava doente, tomando remédios e não podia continuar bebendo como uma pessoa normal”, definiu o baterista.
A banda
A Blindagem é uma das bandas pioneiras da cena do rock paranaense. Formado no final dos anos 70, o grupo alcançou projeção nacional nos anos 80. O poeta curitibano Paulo Leminski teve grande influência na história do grupo. A parceria Leminski/Blindagem rendeu 11 músicas para a banda.
A Blindagem conta com a seguinte formação: Ivo Rodrigues (vocalista), Paulo Teixeira (guitarra),Alberto Rodriguez (guitarra), Paulo Juk (baixo) e Rubén “Pato” Romero (bateria). Confira o som da Blindagem no myspace da banda.
Doação de sangue
Amigos e familiares do vocalista Ivo Rodrigues pedem a ajuda de doadores de sangue, para repor o Banco de Sangue do Hospital de Clínicas. Pode ser sangue de qualquer tipo.
Endereço: Banco de Sangue do Hospital de Clínicas de Curitiba. Av. General Carneiro, 181 Centro. Fone: 41 3360-1800
Um grego deplorou a invenção da escrita, julgava que ela deveria enfraquecer o exercício da memória. Diz-se que com a morte de cada homem o mundo fica mais pobre, tal verdade foi escrita por alguém que dedicou a vida a esta atividade. Outro afirmou que o ofício de escrever é uma luta contra a morte. O necrológio é um gênero literário, nenhum texto recupera a vida, no máximo poderá sintetizar escorços do que foi um corpo e uma mente. Estranha leitura a do noticiário fúnebre.
Nesta madrugada insone, navegando na internet – navegador esporádico e inconstante – dei com a notícia de um amigo a quem não vejo há mais de vinte anos. Publicava ele uma crônica de lembranças de um desenhista que circulou pelo centro de São Paulo nas três últimas décadas do século passado. Nesse texto dedicado a outro, surgia o meu nome, e entre parênteses, de forma lateral pode-se dizer, a notícia do meu falecimento. Surpresa de ver estampada em letras de imprensa esta informação. Antes, em duas ocasiões, já haviam me dado por morto. Nunca soube como surgiram estas versões infundadas. Das vezes anteriores, talvez por apenas tê-la ouvido, a “informação” provocou meu bom humor. Não me escapa que também era mais jovem e a morte parecia um fato distante, quase alheio; agora, pelo registro impresso, o boato adquire categoria de verdade, tal a superstição cultivada pelos leitores compulsivos. Passado o momento da surpresa, a reflexão, povoada de leituras sobre o tema, aponta outro rumo, o do vácuo deixado pela morte. Sempre testemunhamos a morte dos outros. Se os mortos são próximos, a ausência se instala no cotidiano, vemos o mundo e pensamos em como eles o veriam, também lamentamos que não estejam presentes para desfrutar daquilo que nos agrada. Sinto a ausência dos meus mortos como um enorme vão na realidade, algo que sem deixar de ser verdade não corresponde, não é coerente com a tessitura do universo. O absurdo da vida se torna patente: nascer para morrer. Para os meus conterrâneos eu devo ter morrido há mais de quatro décadas, tantos anos faz que saí da minha terra. Para eles, nos primeiros tempos, isto deveria ser apenas uma suspeita, e acredito que alguém ainda me considera vivo. Gosto de imaginar qual seria a reação deles se reaparecesse de repente. Este tipo de morte se parece com o sonho e é assim que por vezes me visitam. Sei de alguns que já se foram, deduzo a partida dos outros pela idade dos mais velhos.
Quando aquela notícia na internet se tornar realidade, quem imaginará o mundo com os meus olhos?
Sempre vivi à margem dos mercados da arte, acredito que as dúzias de textos que escrevi há muito amarelaram na memória dos meus raros leitores. Sou avesso às fotografias porque elas fixam o passageiro. Penso que a obra dos escritores só se completa com a morte deles, mas, como saber o que ainda tinham em mente? Conhecemos os projetos de algumas pessoas pelo que elas nos contam, ignoramos o que por esquecimento ou qualquer outra razão deixaram de dizer. Agora, ao ler sobre a minha pretensa morte, me pergunto o quê as pessoas que me conheciam pensaram. Não pretendo interrogar ninguém nem comunicar “oficialmente” a minha ressurreição. O núcleo dos meus antigos amigos fica cada vez menor e mais distante, contudo, me pergunto: o quê de mim terá ficado neles enquanto me pensam morto?
Será que estou pronto para enfrentar a responsabilidade da morte? Quando ela chegue, quantos e quais textos deixarei de ler? Sempre me recusei a contemplar cadáveres. Se a exposição do corpo é inevitável, desejo que um livro aberto cubra o meu rosto, que meus afetos e desafetos lembrem de mim nos afazeres cotidianos, é assim que lembro os meus mortos. Ainda não decidi qual livro me acompanhará na sepultura, são tantos os que não li!
Quero uma morte definitiva para mim enquanto me recuso a aceitar a ausência total daqueles que partiram. Creio que pensar profundamente na morte nos faz viver com mais intensidade o momento fazendo de cada instante algo único.
Agradeço ao meu amigo seu engano (há três anos me pensa morto), ele me permitiu fixar estas noções tantas vezes adiadas. Creio que o grego estava enganado: as letras enriquecem a memória, prolongam a vida.
Meu caro Anjo Pornográfico: Estava escrito há 10 milhões de anos, quarenta minutos antes do Nada, que o Fluminense perderia para o Avaí na Ressacada, aos 48 minutos do segundo tempo, numa intervenção direta do Senhor dos Passos, inconformado com a grave, a cava injustiça que se desenhava em campo: mais um empate sensaborão, mais uma iniquidade do destino. O azurra jogava como nunca e empatava como sempre.
Junto com um maço de “Caporal Amarelinho”, pito da tua predileção, mando-te o VT do jogo, para que vejas com os teus próprios olhos o “passeio” que o tricolor tomava no primeiro tempo – e os gols que o meu Avaí perdia no segundo, depois de um empate injusto, estimulado por Sua Senhoria. Sim, tens razão: a arbitragem normal e honesta confere a uma partida um tédio profundo, uma mediocridade irremediável. Só o juiz gatuno, o juiz larápio, dá ao futebol uma dimensão nova e – como dizias – “shakespeariana”.
Pois o Avaí jogava como a Seleção Húngara do Armando Nogueira, deslizando em campo como um cisne de Tchaikovsky. O primeiro gol, de Muriqui, resultou de uma sinfonia bem acabada, uma Nona de Beethoven, uma Sinfonia número 3, de Chopin – sem querer “inticar” com um dos seus virtuoses, o nosso emérito tricolor Arthur Moreira Lima.
Não chorem, caros Nelson e Arthur, lágrimas de esguicho: aquele gol espírita, emanado da canhota de um Gago, não tinha nada a ver com o “Sobrenatural de Almeida”. Era a pura materialização da espada da justiça sobre a Terra. O Avaí jogava futebol – e bem – o tricolor, fazia cera. Acreditem: até o técnico tetracampeão do mundo, Parreira, foi flagrado retendo a bola à beira do campo, tentando fazer o relógio andar.
E se a justiça quisesse impor sua verdade sobre o jogo, os ventos da Ressacada teriam testemunhado um massacre. O placar moral da partida não ficaria por menos de 5 a 2 – tivessem William e Lima consumado gols fáceis, gols que até a “grã-fina de nariz de cadáver” faria, mesmo sem saber “quem é a bola”.
Agora sabes, meu caro Anjo, aí das alturas onde cometes o teu voyeurismo: só há uma “Squadra Azurra” no mundo – e não é a esquadra de Buffon, Gatuso, Cannavaro e Pirlo. A verdadeira “azurra”, a que faz “cosi e tutti quantti”, é a azurra de Martini, Muriqui, Marquinhos e Leo Gago.
Dirão os idiotas da objetividade, os torcedores anticelestiais: comemoram o quê, esses azuis? O primeiro lugar da zona do rebaixamento?
Pois em verdade vos digo, caro Nelson e “amicci” rivais: este campeonato brasileiro ainda ouvirá falar de novas epopeias azurras, de novos “allegros” avaianos, de novos finais intensos e dramáticos, como um “Macbeth”, um “Coriolano”, um “Julio César”, um “Otelo”, um “Hamlet”, um “Rei Lear” – que eu rapidamente adaptaria para “Rei Leão”. Modificando todos os desfechos, é claro.
Daqui para a frente, o Avaí só conhecerá “happy-ends”.
No Mercado Central, em BH, ouvi que as letras miudinhas dos contratos socias e das bulas ninguém as lê, pelo que nos consome de paciência, de paz e ciência. É bom ir lá para, entre mil cheiros e formas, cores e timbres, sorver o diário de queixas e gozações em sua mais exata tradução, flores, espinhos e raízes do populacho em sua sanha feraz, sim, isto é para dirimir dúvida qualquer a respeito do torso ferrenho da plebe ignara, bem como par, talvez, esbarrar ali em distintas luvas e colares, e nos mais vistosos seios e septos nasais, refeitos de algum bisturi. Até porque mercado é mercado, mercancia, mercadoria, mercadologia, marketing, open market, bolsa de retalhos, de mercadorias (café decidido em london city, cacau decidido em chicago city), ou seja, lá está em tom sustenido maior a pífia servologia social e sua sinonímia infinita, desde imemoriais tempos, e ainda antes da invenção de deus, sim, já antes dele nós nos vendíamos e nos comprávamos a granel e por atacado, entre algum usucapião, um empréstimo ou um aluguel e outro a módicos preços.
Drummond tem um poema que, para alguns críticos e outras pessoas, que de crítico não têm nada, como o psiquiatra Hélio Pellegrino, inaugurou a poesia moderna ou ingressou, de certo modo, no espírito moderno que guiou a arte brasileira a partir de 22. Ei-lo:
“No meio do caminho tinha uma pedra
Tinha uma pedra no meio do caminho
Tinha uma pedra
No meio do caminho tinha uma pedra.
Nunca me esquecerei desse acontecimento
Na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
Tinha uma pedra
Tinha uma pedra no meio do caminho
No meio do caminho tinha uma pedra”.
O psiquiatra referido, amigo de Paulo Mendes Campos, de Otto Lara Resende e de Fernando Sabino, quando, freqüentando à época os bancos do ginásio, ouviu o professor de português dizê-lo, em aula, ficou profundamente impressionado, a ponto de perceber que ali nascia a poesia moderna brasileira. De certo modo mudava tudo na poética que vinha desde então se praticando.
Acredito que esse deva ter sido um dos primeiros poemas de Drummond. Foi escrito (referido no livro de Geneton de Moraes Neto – uma biografia sobre o poeta) em 1927.
O poema tornou Drummond, da noite para o dia, uma espécie de mago. Suscitou um verdadeiro choque na opinião pública e, especialmente, nas pessoas que lidavam ou estudavam poesia, uns estranhando-o, outros entendendo, como Hélio Pellegrino, que era uma janela ampla que se abria ou um vento renovador que soprava na poesia tupiniquim.
Ainda hoje suscita narizes torcidos, palavras de menoscabo ao poeta, e, claro, comentários de toda a natureza, pois tornou-se uma espécie de revolução no modo de formular ou conceber a poesia.
Na biografia de Drummond referida, o poeta numa resposta dada a uma pergunta formulada por esse jornalista, envolvendo a feitura desse poema, diz muito francamente:
“Minha intenção era fazer um poema monótono, sobretudo monótono”.
Assim, sendo uma novidade boa para uns e algo atroz para os ouvidos ou a sensibilidade para outros, esse poema atravessa já 81 anos de existência.
Devemos-lhe muito, pois arejou a mesmice até então vigente na poesia brasileira, feita de métrica e rima (nada contra), dentro de cânones já mais ou menos superados, tendo a Semana da Arte Moderna, de 1922, formulado tal
rompimento por via de um grupo paulista conhecido, tendo Oswald de Andrade à frente.
“No meio do caminho” foi a senha de liberdade que ecoou na tribo lá se vão tantos anos.
Quem lê o relato denso e emocionado de Frei Betto em seu livro “Batismo de Sangue” e o texto leve e bem documentado de Aluízio Palmar no livro-questão “Onde foi que vocês enterraram nossos mortos?” talvez não consiga debelar todas as incertezas e dúvidas que ainda cercam os anos de chumbo da ditadura.
Mas desses dois livros uma coisa salta à vista: o Partido Comunista Brasileiro (PCB) apanhou duro sem dever nada, pois quem fez a luta armada contra os lutadores armados foram os grupos dissidentes, que saíram ou foram expulsos do Partidão. Agora cabe apenas à história julgá-los, desde que a anistia veio e passou uma borracha geral em tudo aquilo.
Frei Betto conta de maneira pormenorizada como Carlos Marighella saiu do PCB para formar sua ALN. Contrariado com a decisão do PCB de pugnar pacificamente pela democracia, Marighella escreveu, segundo Frei Betto, que a saída para os brasileiros “só pode ser a luta armada (…) com todas as consequências e implicações que daí resultam”.
Já Palmar narra com extrema precisão a teia dos acontecimentos que conduziram bravos jovens à sua dramática opção de enfrentar a ditadura e a CIA. O pai de Aquiles Reis (MPB-4), velho militante do PCB, pediu calma ao filho e a Palmar, que estavam se preparando para resistir pelas armas: ele supunha que aquela “quartelada” não iria durar muito tempo. Por aí vemos que o PCB também errou: confiou demais no espírito democrático da classe dirigente.
O general Raymundo Negrão Torres, autor do livro “O fascínio dos anos de chumbo”, foi honesto e preciso ao responder a uma pergunta sobre qual era o grau de “infiltração” nas Forças Armadas em 1964: “Mais esquerdistas do que comunistas e um grande número dos que se intitulavam nacionalistas”. Ele, glória!, sabe distinguir entre esquerdistas e comunistas, coisa que alguns ainda confundem por ignorância ou má-fé.
Quando as guerrilhas estouraram, a repressão naturalmente as golpeou com dureza, mas aproveitou, covardemente, para levar de roldão os comunistas brasileiros, que se opunham a aventuras armadas. Sofreram comunistas que só queriam democracia, religiosos, cientistas, professores, sindicalistas, jornalistas, advogados, estudantes e muitos militares – bastava pensar em democracia e vinha a censura, a perseguição, a repressão, a tortura.
Aluízio Palmar um dia se tornou paranaense ao vir para organizar uma guerrilha no Parque Nacional do Iguaçu, mas a tarefa acabou de vez quando foi preso em Cascavel. Apesar do título questionador, quem lê a obra de Palmar não encontra nela nenhum rancor ou mágoa. Descobre a serenidade de seu raciocínio, a clara evidência de seu amor ao povo mesclada a análises rápidas, diretas, firmes, sobre as situações enfrentadas.
Palmar fez opções e elas foram derrotadas em combate, muitas vezes desleal. O supra-sumo da deslealdade foi cometido no Parque Nacional do Iguaçu, quando o famigerado sargento Alberi, egresso do grupo brizolista, atraiçoou guerrilheiros da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) que já estavam amplamente vencidos, levando-os a uma armadilha fatal.
O livro de Aluízio Palmar mostra um espírito desarmado, a quem interessa agora apenas a verdade. E não mais para doer a quem possa doer, pois já doeu muito. Demais.
Amor e casamento, sentimento de solidão e busca constantemente frustrada de alguém que preencha o vazio de sua vida: estes são, nos primeiros anos do século XIX, problemas essenciais e secretamente tormentosos para Ludwig van Beethoven. Nesse sentido, é muito significativo que a fidelidade conjugal seja o tema de sua única ópera:Fidélio, composta nos anos de 1805 e 1806, na qual a esposa de um prisioneiro político disfarça-se de homem para ter acesso à fortaleza onde ele está encerrado e descobrir um meio de libertá-lo. Envolvimentos muitos freqüentes e intensos, mas em geral também muito breves, sucedem-se rapidamente, entre 1806 – época em que pareceu estar a ponto de pedir em casamento a amiga Josephine von Deym – e os dez anos seguintes. Relacionamentos saldados por fracassos, dos quais ele se consolava absorvendo-se no trabalho.
Em 1806, mais ou menos na época em que sua amizade com Josephine entrava em uma fase de esfriamento, Ludwig tentou aproximar-se da pianista Marie Bigot. Mas essa oferta de amizade foi muito mal entendida pelo marido da artista, que viu nela uma manobra de sedução. O episódio se encerrou com duas penosas cartas de explicação e pedidos de desculpas enviados por Beethoven a seu amigo Bigot, que conhecera como bibliotecário de um de seus protetores, o nobre russo Conde Andrei Kirilovitch Rasumovsky.
Dois anos mais tarde, Ludwig entusiasmou-se pela jovem Julie von Vering; mas nem chegou a manifestar seus sentimentos, ao perceber que ela estava apaixonada por seu amigo dos tempos de Bonn, Stephan von Breuning, com quem se casou em abril de 1808. (Julie morreria subitamente, aos 19 anos, em março do ano seguinte).
No outubro de 1808, Ludwig aceitou hospedar-se nos alojamentos que lhe foram oferecidos pela Condessa Anna Marie Erdödy, no nº 1074 da Krugerstrasse, no mesmo prédio em que moravam os seus amigos Lichnowsky. Era enorme a confiança que depositava nela como conselheira para assuntos pessoais e de negócios, a ponto de chamá-la de Beichvater(padre confessor). E acredita-se que tenha existido algum tipo de envolvimento amoroso entre ambos, porque, em 1809, numa daquelas suas reações intempestivas bem típicas, Beethoven mudou-se para outro endereço, por suspeitar que a Consessa Erdödy estivesse interessada em seu camareiro. O mal-entendido viria a se desfazer mais tarde e, em 1815, ele dedicaria a essa aristocrata de origem húngara suas duasSonatas para Violoncelo, Opus 120.
Ainda em 1809, Ludwig cortejou a jovem Therese Malfatti, recorrendo aos bons empréstimos de um amigo, o Barão Ignaz von Gleichenstein, para que pedisse a mão da moça a seu pai, o médico Johann Mafatti. Mas não só a família se opôs ao casamento como parece não ter havido indício de que o afeto de Ludwig fosse correspondido. “Para ti, pobre B(Beethoven) – escreve o músico numa carta da época endereçada a Von Gleichenstein -, não há felicidade no mundo exterior: é em ti mesmo que deves procurá-la. Só no mundo ideal encontrarás amigos e é só em teu próprio coração que deves, agora, procurar apoio.“
Um novo alento virá, em maio de 1810, com um namoro inconseqüente, que durou umas poucas semanas, com Bettina Brentano (1785-1859), a irmã do escritor Clemens Brentano. No ano seguinte, porém, ela se casaria com o poeta romântico Achim von Arnim. Nessa época os dois futuros cunhados já eram célebres por terem recolhido, entre 1806 e 1808, os tesouros da poesia popular, na coletâneaDas Knaben Wunderhorn (A Trompa Mágica da Infância), que, mais tarde, seria rica fonte de inspiração para um compositor como Gustav Mahler. Um dos biógrafos de Beethoven, o italiano Leonello Vinceni, descreveu Bettina como “uma mulher ao mesmo tempo diabolicamente viva e inexplicavelmente preguiçosa, leal e cheia de maldade, verdadeira e mentirosa, ingênua e maliciosa”. Seu temperamento irrequieto e volúvel – a ponto de, nos últimos anos de sua vida, ter entusiasmado pelas teorias socialistas – não era de molde a permitir que fosse estável o seu envolvimento com um homem de caráter forte como Beethoven. Mas para o compositor o contato com ela teve considerável importância.
Foi Bettina quem lhe ofereceu para ler essa grande meditação sobre liberdade que é a peçaEgmontde Goethe, para a qual, em junho de 1810, ele escreveria uma música de cena. Foi ela também, de certa forma, a intermediária do primeiro encontro entre o músico e o poeta, em julho de 1812, no balneário de Teplitz (atual Teplice), na Boêmia. “Nunca vi um artista mais concentrado, mais energético, mais profundo”, escreveu Goethe, numa carta de 19 de julho à sua mulher, Christiane Vulpius. “Compreendo bem porque a todo mundo ele possa parecer excêntrico”. E em 2 de setembro, Goethe comentava, em carta ao compositor Carl Friedrich Zelter: “Em Teplitz, conheci Beethoven e seu talento encheu-me de espanto. É claro que ele tem uma personalidade totalmente indisciplinada e não está todo errado em achar o mundo detestável; mas isso não o torna mais agradável nem para si mesmo nem para os outros. No entanto, há nele muito o que desculpar e lamentar, pois está perdendo a audição, o que talvez prejudique menos a parte musical do que a social de sua natureza, pois esse defeito torna duplamente lacônico a quem já o é por natureza”.
É de Bettina Brentano, também, a autoria de um episódio que, por muito tempo, foi tido pelos biógrafos como verdadeiro, pois se encontra narrado numa carta de Beethoven endereçada a ela. Mas hoje se sabe que essa carta é falsa, tendo sido escrita pela própria Bettina. O mínimo que se pode dizer dessa história, entretanto, é que, se não é verdadeira, foi bem inventada, pois se adapta com perfeição ao temperamento altivo e rebelde do compositor. De acordo com ela, passeando junto com Goethe pelo parque de Teplitz, Beethoven teria cruzado a carruagem do casal imperial, que também passava as férias nesse balneário. E, enquanto o poeta se inclinava servilmente, o músico enterrava o chapéu na cabeça e continuava seu caminho com arrogância, os braços atrás das costas.
Ano bissexto é aquele que possui um dia a mais do que os convencionais 365 dias. No calendário gregoriano, o dia extra é incluído a cada 4 anos, sendo adicionado no mês de fevereiro, que passa a ter 29 dias. O ano bissexto ocorre pelo fato de que o ano-calendário convencional possui uma pequena diferença em relação ao ano solar. Enquanto que no primeiro, o ano dura 365 dias para se completar; no segundo, dura 365,25 dias.
Esses 0,25 corresponde a um quarto de um dia. Portanto, a cada quatro anos existe a diferença de um dia em relação ao calendário convencional e solar. Esse dia é justamente o que caracteriza o ano bissexto.
Na verdade, o dia extra que serve como sincronismo não é o dia 29 de fevereiro, como a maioria das pessoas pensa, mas sim, o dia 24 do mesmo mês.
O ano bissexto passou a ser adotado em 238 a.C. no Egito, por Ptolomeu III (246-222 a.C.). O mesmo surgiu a partir da necessidade de sincronizar os dias do ano, uma vez que qualquer discrepância no calendário poderia afetar a agricultura, a base da economia dos povos antigos.
Alguns pensam que o nome “bissexto” é dado pelo fato de tal ano possuir 366 dias, o que não é correto. Na verdade, Julio César optou pelo mês de fevereiro e escolheu “fazer um bis” ou “duplicar” o dia 24, chamando-o de “antediem bis-sextum Calendas Martii”. Foi assim que surgiu o nome “bissexto”.
A poesia concreta deu uma ênfase excessiva ao visualismo, tornando-se com isto o ponto mais alto da poesia escrita, da poesia que só existe no espaço visual, na página. Ao mesmo, tempo, entretanto, ela promoveu o desmembramento da palavra em unidades menores autônomas: a sílaba, a própria letra. E com isto trabalhou as sonoridades, as aliterações, as paronomásias, os jogos de palavras que sempre levam a Poesia de volta ao terreno da fala e do canto. Parece que o grande alvo, o grande adversário do Concretismo não era tanto a Fala e sim a Discursividade, o blá-blá-blá retórico de uma poesia que falava muito e dizia pouco, ou que tentava dizer muito recorrendo a conteúdos mas mostrando um enorme desleixo quanto à forma. Aquilo que Leminski chamou “uma poesia porosa”.
O Concretismo explodiu essa discursividade profusa, confusa, prolixa. Compactou a sintaxe, erodiu todo o supérfluo, redefiniu as relações entre as palavras usando novos conceitos geométricos e espaciais, numa tentativa de quebrar a fluência beletrista da “poesia de bacharéis” capaz de encher com texto descartável léguas e mais léguas de papel indefeso.
O Concretismo tentou reduzir a poesia ao essencial, baseado naquela velha equação (Dichten = condensare) em que o termo alemão para “poesia”, “Dichtung”, mostra suas raízes no verbo “condensar” e termos correlatos (denso, densidade, etc.) Poesia é linguagem concentrada, compactada, o máximo de sentido no mínimo de palavras.
Sem o Concretismo o caminho poético de Gilberto Gil e Caetano Veloso seria outro, como seria outro o de artistas posteriores como Arnaldo Antunes e Chico César. Todos estes são poetas (poetas da música, é claro, mas para efeito da presente análise não se distinguem dos poetas de livro) que se beneficiaram do que o Concretismo descobriu ao explodir o supérfluo e voltar ao essencial. Mas, ao defender a bandeira do Visual, os poetas paulistanos trouxeram de volta à luz o que a poesia tinha de auditivo, redescobrindo a importância do som das palavras, e o prazer lúdico cuja origem está na Oralidade.
Os poetas do grupo Concretista (Augusto e Haroldo de Campos e Décio Pignatari) pagaram caro pelo seu eventual elitismo, pela sua propensão à polêmica, e pelas críticas impiedosas dirigidas à produção poética que lhes era contemporânea – críticas que, mesmo quando esteticamente fundamentadas, encontravam resistência devido ao tom às vezes arrogante ou desdenhoso com que eram formuladas.
Quando tentou cantar embaixo de vaias a música “É Proibido Proibir” num festival de música, Caetano Veloso bradou para a platéia: “Se vocês em política forem como são em estética, estamos feitos!” (ou seja, “estamos lascados”). Se o grupo concretista tivesse tido uma habilidade política e uma flexibilidade diplomática à altura das suas muitas e fundamentais contribuições estéticas, sua influência na poesia brasileira teria sido muito maior e mais benéfica do que efetivamente foi.
De acordo com as diversas literaturas, Bashô nasceu em 1644 e morreu em 1694, portanto morreu na plenitude de seus 50 anos. Se por um lado, algumas informações pesquisadas, ditam que pouco material está disponível para recriar a vida de Bashô antes de seu estabelecimento na cabana, outras são mais otimistas e recompõem a vida de Bashô com grande admiração. Acredita-se que ele nasceu em ou perto de Ueno na província de Iga, aproximadamente trinta milhas ao sudeste de Kyoto e duas centenas de milhas a oeste de Edo.
Seu pai, Matsuo Yozaemon, foi provavelmente um samurai de categoria mais baixa que se dedicava ao cultivo nas horas vagas. Pouco se sabe sobre sua mãe, exceto que seus pais não eram nativos de Ueno. Foi chamado Kinsaku e diversos outros nomes quando criança; teve um irmão mais velho e quatro irmãs. O status social da família erarespeitável, mas não era do tipo que prometia um futuro brilhante para Bashô, se ele quisesse seguir um curso da vida.
Na idade de 9 anos, Bashô entrou a serviço da família Todo como um acompanhante do caçula da família, Todo Yoshitada, seu mestre. Os dois meninos desenvolveram uma forte amizade e juntos estudaram literatura e poesia.
A ligação mais forte entre os dois era o haikai, um dos passa tempos favoritos dos homens da sociedade na época. Aparentemente Yoshitada tinha afinidades com a escrita do verso e até adquiriu o pseudônimo Sengin. Se ou não o estímulo inicial veio de seu mestre, Bashô desenvolveu também um gosto para a escrita do haikai, usando o pseudônimo Sobo. O primeiro poema de Bashô preservado até hoje foi escrito em 1662, quando ele tinha 18 anos. Em 1664, já com 20 anos, dois haicais de Bashô e um de Yoshitada apareceram em uma antologia de versos publicada em Kyoto. No ano seguinte, Bashô, Yoshitada, e três outros juntaram-se e comporam um renku (versos linkados, tipo renga, mais voltados para o verão) com cem versos. Bashô contribuiu com dezoito versos, seus primeiros versos do tipo.
Quando Yoshitada morreu, na idade de 25 anos, Bashô por conta do choque, foi para Kyoto onde acredita-se foi ao templo Kinpukujui, para continuar seus estudos em chinês e japonês clássico como também a caligrafia.
Em sua juventude Bashô também foi um samurai, quando em 1666, aos 22 anos passou a dedicar-se a escrita da poesia como Matsuo Munefusa. Outra suposta razão para Bashô deixar sua casa tem a ver com seus casos amorosos, contam diversas biografias, porém não parecem ter apoio no que afirmam.
Em 1672, aos 29 anos, Bashô foi para Edo, onde publicou uma série de versos. Em 1675 ele compôs versos linkados em sequência com Nishiyama Soin, da escola Danrin e pelos próximos quatro anos ele se dedicou ao trabalhos de hidráulica para se manter. Em 1682 ou 1683, a cabana de Bashô sofreu um incêndio e por outro lado foi o ano em que a mãe de Bashô morreu. Bashô, então foi para a Província de Kai. Sua cabana foi reconstruída em 1683 ou posteriormente, e Bashô voltou para Edo. Nessa época, acredita-se que Bashô tenha iniciado seu estudo zen no Templo Fukagawa. Algumas biografias sugerem que Bashô foi um monge budista, pelo fato de que ele vestia-se e expressava-se mostrando maneiras clericais. Outras biografias porém informam que é errôneo pensar que Bashô foi realmente um monge em algum tempo em sua vida.
Aos 40 anos, ou seja em 1684, Bashô viajou por diversos lugares, como um andarilho, caminhando pelo interior das cidades, vivendo do ensino da poesia, em cada vilarejo por onde passava. Em 1690 Bashô passou algum tempo em retiro, ao norte de Kyoto. Em 1691, aos 47 anos, Bashô retornou a Edo.
Matsuo Munefusa foi um nome adotado quando Bashô se tornou um samurai. Porém todos concordam que Bashô, na verdade é o pseudônimo adotado por este famoso mestre do haicai, em 1681, aos 37 anos. Há várias versões para a origem deste pseudônimo. Uma delas conta que o mestre costumava isolar-se para meditar em sua cabana onde havia uma bananeira que em japonês é chamada de Bashô-an. Alguns estudantes, que visitavam o lugar, chamavam a residência de Bashô e logo o seu morador. Uma outra versão conta que um dia, na primavera de 1681, uma bananeira foi plantada ao lado de uma modesta cabana em uma área rústica de Edo, hoje Tokyo. A planta foi um presente de um residente local a seu professor da poesia (Bashô), que tinha se mudado para a cabana diversos meses antes. O professor, um homem de trinta e seis anos de idade, ficou encantando com o presente e gostou muito da bananeira porque era um tanto como ele na maneira como ela parecia. Suas folhas grandes eram macias e sensíveis e rasgavam-se fàcilmente quando as rajadas de ventos chegavam do mar. Suas flores pequenas e discretas, pareciam solitárias, como se soubessem que não poderiam dar frutos no clima frio do Japão. Seus caules eram longos e frescos, contudo não eram de nenhum uso prático. O haicai parecia sugerir a consciência do poeta, a sua afinidade espiritual com a bananeira. Algumas pessoas que visitavam o mestre podem ter observado essa afinidade considerando a banananeira como um ponto de referência. Em todo o caso, passaram a chamar a residência, de Bashô (bananeira), e logo o nome foi aplicado a seu residente: o professor passou a ser conhecido como o mestre da cabana Bashô, ou o mestre Bashô. Bashô gostou muito do apelido e passou a usá-lo para o resto de sua vida. Em outra versão, a cabana era feita de folhas de bananeira. Ainda, Bashô teve centenas de estudantes pelos diversos lugares por onde andava e alguns deles construiram para ele uma pequena cabana. No jardim da frente eles plantaram uma bananeira, que em japonês se chama bashô, e assim foi como ele ganhou esse nome. Porém encontramos biografias, onde Basho adotou esse nome, ao mudar-se para a cabana onde encontrava-se uma bananeira.
É comum chamar o mestre também de Matsuo Bashô, nome que está associado especialmente com a celebrada era Genroku (1680-1730), que viu florescer muitas das maiores personalidades artísticas japonesas.
Todos concordam porém que o mestre viveu sempre sozinho na cabana. Em noites quando não tinha nenhum visitante, sentava-se quieto para escutar o vento através das folhas da bananeira e produzia haicais com base nessa atmosfera, que tornava-se mais profunda em noites chuvosas. Em um desses momentos, a água da chuva escapando através do telhado gotejava intermitentemente em uma bacia. Aos ouvidos do poeta que sentado no quarto não ofuscante iluminado, aquele som produzia uma harmonia estranha com o barulho das folhas da bananeira lá fora.
no vendaval do outono
escuto o gotejo da chuva
em uma bacia na noite.
A Escrita de Bashô
Alguns sites de literatura japonesa, informam que Bashô, inicialmente, escreveu poemas usando piadas e brincadeiras em seus primerios estágios, porém comecou a dar maior importância ao papel do haikai, especialmente o hokku (verso inicial do renga) perto de 1680. Bashô foi influenciado pelas idéias de Tchouang-tseu, filósofo do quarto século B.C. e frequentemente se referia aos textos do mestre em seus hokku. A natureza, o entendimento de sua beleza e a aceite de sua força é amplamente usada por Bashô para expressar a beleza que ele observa do mundo.
Bashô e o Zen
Bashô incluia em muitos de seus poemas um toque místico influenciado pelo Zen Budismo e expressava seus temas através de imagens simples desde a lua nova até as pulgas de sua cabana (http://www.randomviolins.org/~dwap/literati/renga/Bashô.htm).
Bashô se tornou a maior referência da poesia Japonesa, por sua sensibilidade e profundidade. Como um poeta Zen ouvia o som da força da vida emergindo do vazio para encher tudo, como em este exemplo:
The silence
The voices of the cicadas
Penetrates the rocks.
(trans. Blyth)
O silencio
As vozes das cigarras
penetram as rochas
(trans. Clement)
Bashô e a Metáfora
De acordo as regras que se formaram pelos anos, a metáfora e a simile nao devem ser utilizadas em haicai. Mas até mesmo Bashô não resistiu aos encantos desse recurso poético que tanta vida dá a um poema. Como Jane Reichhold (www.ahapoetry.com) explica em este exemplo:
on a bare branch / a crow settles / autumn dusk
em um galho desfolhado/ pousa um corvo/ crepúsculo de outono
E ela reescreve o haicai para da uma idéia mais precisa da metáfora:
“the heavy way a crow settles on a bare branch is just like the way dusk comes in late autumn.”
o jeito pesado como um corvo pousa em um galho sem folhas é tal como o crepúsculo que chega em outono tardio.
Como diz Jane, “o leitor pode perceber que o corvo e a noite de outono são escuras. Existe uma associação entre o pássaro no galho sem folhas sentindo seu vazio e o tempo de descanso na natureza e na vida.”
Neste outro site In the Moonlite a Worm…, que também trata da metáfora de Bashô, o autor tem outra visão para esse mesmo haicai de Bashô, porém sobre uma visão zen:
The crow sits
on a dead branch –
evening of autumn
(trans. Marsh)
O corvo pousa
em um galho morto –
noite de outono
(trans. Clement)
Segundo ele o corvo veste preto e lembra o traje de um monge:
Um outro exemplo de metáfora encontra-se no haicai seguinte, no mesmo site, sugerindo o campo da meditação, do particular para o universal.
Why flap to town?
A country crow
going to market
(trans. Marsh)
Por que bater as asas?
um corvo do campo
indo para o mercado
(trans. Clement)
Porém, a maneira com que Bashô usa a metáfora é diferente. Em seus haicais, os elementos são simplesmente estabelecidos em suas expressões mais claras e mais elementares, geralmente em justaposição ligadas por um verbo ou uma terceira imagem. Podemos dizer que o haicai é a própria metáfora.
As Obras de Bashô
No sumário apresentado em http://www.stonebridge.com/basho.html, “Narrow Road to the Interior (Oku no Hosomichi) é seu masterpiece. Trata de uma extensa contagem cronológica da jornada de cinco meses do poeta em 1689 no norte e oeste da velha capital Edo. O trabalho é cuidadosamente esculpido, rico em literatura e alusões Zen, cheio de grandes insites e ritmos vitais. Em “Narrow Road: Spring and Autumn Passages” o poeta e tradutor Hiroaki Sato apresenta o trabalho completo em Inglês e examina o seguimento da história, geografia, filosofia e literatura que são tecidas na exposição de Bashô. Ele detalha em particular a extensão na qual Bashô confiava na comunidade de escritores com quem ele viajou e escreveu versos linkados (renga).”
Muitas antologias de grande importância foram escritas por Bashô e seus discípulos e foram amplamente publicadas. O trabalho poético de Bashô conhecido como Seven Anthologies of the Bashô School foi publicado separadamente de 1684 a 1698. Neste trabalho que consta de 2500 versos e Bashô é o principal contribuinte.
Conclusão
Bashô foi o mestre que deu força à importância e prática do haicai no Japão. Viveu boa parte de sua vida como um andarilho, foi treinado para o zen, utilizou-se de forma discreta da metáfora e nunca se decidiu se queria ou não ser um monge, embora alguns autores sugerem que ele foi de fato um monge em sua vida. Bashô viveu por algum tempo em uma cabana que definitivamente lhe deu o nome com o qual ficou conhecido, Bashô, devido a presença de uma bananeira (bashô, em japonês) existente em alguma área de sua cabana. O clima de Tokyo, no entanto, não é propício para a frutificação da banana e mesmo que Bashô tenha se identificado com a planta, ele próprio deixou milhares de frutos e espalhou pelo mundo esse fenômeno da poesia japonesa, que é o haicai.
No próximo sábado, dia 27 de junho, a partir das 9 horas, a editora Hemisfério Sul lança o livroMemórias de um menino pobredo autor Silveira Júnior, na Livraria Casa Aberta.
Na ocasião haverá um café cultural e bate papo com a escritora blumenauense Urda Alice Klueger, que atualmente, ocupa a cadeira de Silveira Júnior na Academia Catarinense de Letras.
O prefácio é do próprio autor, e na orelha, a escritora Urda Alice Klueger faz uma breve apresentação do livro, onde cita que “antes de começar a ler este livro, seria importante que se mudassem alguns conceitos a respeito de algumas coisas que lhe disseram: Memórias de um Menino Pobre não é um livro de literatura catarinense, como querem tantos – trata-se de um clássico da língua portuguesa, capaz de fazer a delícia de quantos o leiam, seja aqui, em Portugal, na África ou na Ásia”.
A nova edição traz ainda desenhos, fotografias, pautas musicais e “nota” organizada pelos netos de Silveira Júnior, revisão e atualização ortográfica de Daise Fabiana Ribeiro e belíssima capa Johnny Kamigashima.
A 1ª edição veio a público em 1978 e agora em sua 5ª edição, está sendo publicado pela Editora Hemisfério Sul, que possui 220 páginas e custará 30 reais.
Sobre o escritor:
Falecido em 1990, Silveira Júnior foi um menino pobre oriundo do interior agrícola de Santa Catarina, de uma região muito humilde e desassistida. Perdeu o pai quando pequeno e teve uma infância dura e penosa, onde relampejam alguns faiscantes brilhos, como a escola do professor Cantalício e poucos, mas importantes livros clássicos da literatura brasileira e mundial. Possuía a primeira carteira de Jornalista emitida pelo estado de Santa Catarina e era membro da Academia Catarinense de Letras.
Um homem está sentado num banco de praça sozinho. Ali parece que edificou seu reino. Em torno dele só ele, uns pássaros, umas plantas, uma ou outra árvore, nada mais. Está só convivendo consigo mesmo. Olha os transeuntes, que por ele passam ou lhe lançam um olhar entre curioso ou desdenhoso, e volta a si mesmo, ao seu reino solitário.
Quem é ele?
Não importa.
Não será um poeta, um pintor, um novelista, longe disso.
Nem será muito menos um artesão, um carpinteiro, um pedreiro, um sapateiro. Sua aparência não leva a deduzir que tenha uma dessas qualificações.
É apenas um homem sentado num banco de praça. Pouco importa que seja isso ou aquilo. Ele também parece transmitir essa idéia a seu respeito – é um zé ninguém.
Está ali no banco de praça incógnito, como uma interrogação: “quem sou eu?”
- Não sou ninguém. – responde silenciosamente.
Ou até passa outra mensagem:
- Me deixem sossegado no meu anonimato.
Está ali, usufruindo a condição essencial de ser, essa criatura estranha, que tanto pode se chamar João, José, Pedro, Joaquim e tantos outros nomes, o que não altera essencialmente sua natureza humana.
Ocorre-me que poderia, eventualmente, ser autor de um poema. Ou de um quadro. Ou ter composto a letra de uma música. Ou seja ele um músico. Nada disso, porém, irradia de sua pessoa comum, até se poderia dizer vulgar.
Usa um trajo resumido: uma camisa rala, de mangas curtas, uma calça de cor indefinida, sapatos cambados presumivelmente sem meias. A cara fechada, como se repelindo qualquer aproximação de sua pessoa.
Tem ainda o detalhe de que, quando passei por ele e me demorei um pouco a examiná-lo, pitava um cigarro de palha, de um bom palheiro.
Feliz, infeliz?
O que é felicidade para um homem sentado solitário num banco de praça?
Se lhe formulasse tal pergunta: – Você é feliz? – talvez nem entendesse a pergunta ou nem lhe interessaria definir o que é felicidade.
Ou diria:
- Vivo; o resto pouco me importa.
O homem sentado solitário num banco de praça não é ninguém.
O novo Brasil “desenvolvimentista” chega tarde na estação do “progresso da humanidade”, pois tem duas “missões” (visões) antagônicas: a) fomentar uma produção não-destrutiva auto-sustentada, b) garantir planos e projetos de desmonte (não só de mão-de-obra organizada) mas dos recursos naturais e ambientais. Exatamente quando a característica geral do sistema capitalista se define pela “destruição produtiva” para garantir e maximalizar, inevitavelmente, o lucro. A fase em que uma “produção destrutiva” era desejada para suprir uma sociedade em carência absoluta, e necessária porque o móvel da mudança do modo de produção (e suas relações sociais autorizava) está em obsolescência. (Sobre “destruição produtiva” vide István Mészaros: “Para Além do Capital”, capítulos 15 e 16. e “O Século XXI, Socialismo ou Barbárie”).
A vantagem capitalista nestes tempos é que a ex-esquerda (agora “liberal de esquerda”, seja o que for isso!) se deslocou para o “centro”, se ajustou ao sistema representativo eleitoral e seus condicionantes e, no governo, se associa com os planos da renegada social-democracia (a “terceira via” da mesma Rota 66) para cumprir as tarefas de uma “compensação nacionalista” (inimaginável?) aos alinhamentos do neo-liberalismo subserviente ao imperialismo.
Não é por acaso que a intelligentsia burguesa se esforça a demonstrar que não há mais esquerda, porque: 1) o regime jurídico-político capitalista de forças (armadas, institucionais e de regulação na organização de trabalhadores e representações de massas) conformou movimentos de trabalhadores, juventude, feminino, raciais, etnopolíticos e democrático-liberais a ser consumidores no seu modo de produção, clientes de suas relações sociais e figurantes em seu “estilo de vida”; 2) os controles (políticos) “sociais” sobre as relações de propriedade-e-produção e a organização do mercado ficaram pela mesma “conta liberal” da sistemática financeiro-produtiva; e 3) assim, os partidos revolucionários se desorientaram, como perderam sentido.
A maior evidência do impasse está na Amazônia. A destruição prossegue: especuladores, empresários e trabalhadores pedem iniciativas, obras, empresas e trabalho. E o governo democrático-liberal está confuso, estimulado e insuflado pelo sucesso do seu capitalismo social e promessas desenvolvimentistas. Reúne “sua equipe” de democratas-sociais e sociais-democratas e procura convencer-nos de que a “destruição produtiva” da Amazônia (e do Brasil) será equilibrada por auto-“controles” no governo, do PT-PCdoB-OS-PMDB-PP et… o empresariado. Olha aí o que vem por trás!
“Uma parte de mim pesa, pondera: outra parte delira”. Esses magníficos versos de Ferreira Gullar traduzem certamente o que estamos passando nestes dias difíceis, em que autoritários posam de democratas e arrivistas se fazem de esquerda, enquanto, felliniana, la nave va. Mesmo quando dá vontade de perder a paciência de vez com tantas injustiças, trapalhadas, sacanagens que envolvem dos cemitérios aos muito vivos, dos contratos de lixo a usinas nucleares, dos prefeitos mendigos aos presidentes desgovernados, essa parte que pondera pesa tudo na balança e avalia que, afinal de contas, a parte que delira tem lá suas razões.
O historiador anglo-egípcio Eric J. Hobsbawn, que nos contempla do alto de sua vasta pirâmide de obras essenciais ao conhecimento da história deste mundo, aconselha que a gente precisa de algo mais que a esperança concreta de que este vasto mundo um dia será justo. Para ele, é pouco pesar e ponderar. Essa esperança concreta “tem que ser completada com os grandes sonhos”, afirma. E é aqui que a parte delirante entra em cena.
São os grandes sonhos que mantêm o sujeito ativo e explicam a longevidade dos que sonham com uma humanidade redimida dessa atual etapa de desgraças, contradições, tragédias, infelicidades. Hobsbawn fez com 92 anos dia 9 de junho. O comandante Prestes morreu com esses mesmos 92. O incrível Bertrand Russel manteve a vivacidade brejeira e rebelde até os 98 anos. Delirar, sonhar com algo melhor, realmente faz bem à saúde – espero que a dra. Karine não me desminta. Deliremos, portanto, e vivamos mais.
O Pólo de Cinema de Cascavel não é o único, mas é certamente o maior desafio do movimento cultural do Oeste paranaense. Como o Teatro Municipal já está assegurado, o Pólo, que chamaremos PCdeC para evitar más sugestões de siglas, passa de fato a ser um grande alvo para aqueles teimosos que insistem em rodar a moviola. Os lançamentos dos filmes “O Argentino que Derreteu a Jules Rimet”, com felizes produção e atuação do advogado Sérgio Zandoná, e “Desaparecidos”, de Antônio Marcos Ferreira, foram momentos de entusiasmo que estimulam a delirar sobre a possibilidade de acumular forças e viabilizar a formação do PCdeC. Agora mesmo segue a movimentação em torno de “A Saga”, César Pilatti avança em seu “Monte Carmel”, Talício Sirino divulga seu “Conexão Japão” e há outros vários projetos em andamento no interior do Paraná. O Paraná não é só Curitiba!
Ao mesmo tempo em que essa parte delirante ergue a tocha do Pólo, a parte que pesa e pondera nos leva a ter a certeza de que todo o trabalho desenvolvido pelo pioneiro Acir Kochmanski, por esse admirável Antônio Marcos Ferreira, Talicio Sirino e suas atuações no palco e fora dele em favor da nossa cultura, Sally Machado e sua persistência, Luiz Carlos Castelhano, que mesmo depois de ter vivido momentos pessoais difíceis não pode ser esquecido como um dos mais importantes nomes da cena teatral e cinematográfica do Oeste paranaense, nosso prezado Manaoos Aristides e tanta gente que lida com o processo todo de bolação, viabilização, execução, montagem e distribuição de filmes – esse trabalho, pesemos e ponderemos, não pode ser em vão. Ele terá forçosamente que produzir frutos.
Mas tais frutos não virão apenas de esperar, mesmo concretamente, que o poder público será o construtor do PCdoC. Aos políticos interessa mais o cinema de entretenimento e distração, o circo para compensar o pouco pão. Nas condições atuais do Brasil e do Paraná de hoje, quando os engabeladores manipulam consciências e os financiadores de campanha cobram a conta em maracutaias, pesar, ponderar e delirar são projeções na branca tela das nossas possibilidades.
ESTAMOS COM PROBLEMAS DE COMUNICAÇÃO COM O SERVIDOR DESDE O DIA 21/6/09. AS AÇÕES PARA SUPERAR AS DIFICULDADES ESTÃO EM ANDAMENTO. PEDIMOS A COMPREENSÃO DOS LEITORES. EM BREVE ESTAREMOS DE VOLTA.
Não quero me fazer de vítima ou coitadinho. Eu aprontei muito… Mas tenho certeza que contribuí muito, também, para o cenário cultural e poético de Curitiba, seja formando novos escritores, seja polemizando, na produção de eventos, recitais, divulgando idéias, e principalmente a atitude de minha produção poética. Vale dizer que minha poesia tem mais verdades que minha própria existência!
Mas todo mundo tem seu lado negro… o meu sobressaiu devido a falta constante de dinheiro,incompreensão pública, instabilidade afetiva, e por conseqüência, causando minha
jorge barbosa filho
instabilidade emocional e concomitantemente, o alcoolismo, que anestesia minha ansiedade, minha depressão e meu tédio.
Mas vamos aos fatos.
No ano passado, eu estava trabalhando como PSS da Secretaria de Educação do Estado. Estava com minha vida normalizada, mas essa Instituição não me pagou por três meses consecutivos em uma das escolas em que eu dava aulas. Contraí dívidas que posteriormente poderia liquidá-las, com a seqüência das aulas. Mas neste ano o PSS só me chamou em Maio… Imagina o tamanho da dívida e da degradação em que fui caindo. Para acumular, problemas afetivos, a humilhação de pedir dinheiro e não poder pagar… Estava sempre tenso, ansioso, deprimido, envergonhado, sem esperança e sem perspectiva…
Mandei meu livro para a Secretaria de Cultura, para ser publicado. Na primeira instância o livro foi aprovado. Na segunda, negaram a publicação. Isso porque essa Instituição não achou conveniente editar um livro com “palavras de baixo calão”.
Nas grandes editoras do Rio e São Paulo, mesmo meu livro tendo prefácios de pessoas com respeitabilidade poética e mercadológica, eu teria de pagar a edição, como é sabido. Não tenho dinheiro nem para editar e nem para entrar com projetos na Lei Rouanet ou na FCC. Concursos de poemas no Brasil e no exterior, desisti…. Trabalhos com Oficinas Poéticas apareceram, mas não garantem minha sobrevivência.
Curriculum para jornais, revistas, escolas e cursinhos foram enviados, mas falta o “quem me indique”. Para fazer produção cultural, tenho de ter estrutura econômica e operacional… tentei várias vezes formar grupos para atuar nesta área, ou como um mutirão poético. Não funcionou.
Acho que ou existe algo errado em minha atitude, ou há medo, inveja, ciúme pela ousadia de minhas atitudes de vida e poesia.
Bem… sem dinheiro e sem perspectiva fui colocado para fora da casa da mulher com que morava e não amava. Meus móveis, textos, documentos e a maioria de minhas roupas foram despachados para um guarda-móveis em Piraquara. Inclusive meu computador, onde está o registro de todo o meu trabalho poético, musical, trabalhos em revista, contos crônicas, etc… Estava trabalhado com produções de evento em bares e restaurante daqui de Curitiba. Mas como trabalhar sem ter onde morar e o que comer?
Dormi vários dias na rua, roubaram-me os registros que fiz em estúdio em São Paulo, Curitiba, Shows, Recitais, até meu irmão se prontificar a me resgatar desta situação. Ele pode ria me abrigar, mas tem família, seus problemas e nunca concordou com minha opção de vida: a poesia. Somos ideologicamente avessos. Nosso convívio não daria certo.
Não tenho para onde ir…
Então a solução encontrada, quando eu estava em estado de choque, bêbado, traumatizado, foi me internar numa instituição de recuperação de alcoólatras. Topei, pois não tinha para quem mais recorrer. Meus amigos moram com pais e mães, ou têm suas vidas conjugais e familiares organizadas e não estariam dispostos a colocar um elemento estranho, muito estranho, dentro de suas casas.
Só me restou essa instituição… Topei e achei legal me tratar.
Me informei como era a rotina e as terapias desta Instituição: Acordar, rezar, lavar banheiro, cuidar do pátio e da cozinha, rezar a tarde, de noite. Perguntei ao pastor da instituição quais eram as atividades físicas, intelectuais, e se poderia levar livros, meus poemas, fazer música.
Bem, os livros e os meus textos só entrariam na Instituição depois de uma avaliação ideológica, religiosa de acordo com as crenças destes. A música só se tiver temática evangélica. Outro tipo de música, não! Perguntei se poderia escrever, eles disseram que só se o pastor liberasse o caderno e a caneta. E mais, que eu apenas teria duas horas por dia para ler e escrever. Ou seja: Censura e discriminação… e ainda, em seus discursos, pregam respeitar as diferenças. Hilário, não?
Sei que não é este o lugar para uma terapia.
Cara, se eu ficar muito tempo lá eu vou pirar ou morrer…
Por isso, estou te pedindo ajuda. Faça um movimento para me tirar de lá o mais breve possível. Fale com poetas, escritores e pessoas influentes. Preciso de um trabalho, casa para morar e comida. Mal ou bem , sou um patrimônio da literatura de Curitiba. Por favor, me ajude.
As agências de ajuda ocidentais estão, generosamente, a gastar elevadas quantidades de dinheiro com os seus altos cargos no Afeganistão, ao mesmo tempo que a extrema pobreza está a levar jovens afegãos a lutar juntamente com os talibans. O preço normal pago pelos talibans por um ataque a um posto de controlo da polícia naquele país é 4 dólares, mas os assessores estrangeiros em Cabul, pagos com os orçamentos de ajuda estrangeiros, podem dispor de salários anuais entre 250.000 e 500.000 dólares.
Os elevados custos para pagar, proteger e alojar num estilo de vida faustoso os altos funcionários das agências ocidentais ajudam a compreender por que razão o Afeganistão ocupa um lugar entre 174º e 178º na classificação da riqueza dos países elaborada pelas Nações Unidas. Isto, apesar do esforço de ajuda internacional em que só os Estados Unidos gastaram 31.000 milhões de dólares desde 2002 até ao final deste ano.
Durante muito tempo o elevado montante de dinheiro gasto na ajuda ao Afeganistão foi um segredo sussurrado. Em 2006, o então director no país do Banco Mundial, Jean Mazurelle, calculou que entre 35% e 40% da ajuda tinha sido «mal gasta». «O esbanjamento da ajuda é elevadíssimo», disse. «Está a dar-se um autêntico saque, fundamentalmente por parte das empresas privadas. É um escândalo».
Do ponto de vista político, a reputação que o esforço da ajuda estadunidense no Afeganistão tem de disfuncional é crucial porque, com o apoio de Gordon Brown, Barack Obama prometeu enviar para o Afeganistão uma vaga de peritos não militares para fortalecer o governo e fazer com que os acontecimentos se voltassem contra os talibans. O número destes técnicos poderá chegar aos 600, incluindo agrónomos, economistas, juristas, ainda que Washington tivesse admitido há semanas que estava a ter dificuldades no recrutamento das pessoas suficientes e com o perfil adequado.
Ocuparam-se zonas inteiras de Cabul ou foram reconstruídos para alojar os trabalhadores ocidentais da agência de ajuda ou das embaixadas. «Acabo de alugar este edifício por 30.000 dólares mensais a uma organização de ajuda», afirmou Torialai Bahadery, director de Property Consulting Afganistán, especializado em alugueres a estrangeiros. «Foi tão caro porque tem 24 quartos com casa-de-banho, portas blindadas e janelas à prova de bala» explicou, ao mesmo tempo que mostrava uma foto de uma enorme e horrorosa mansão.
Ainda que 77% dos afegãos não tenha acesso a água limpa, o sr. Bahadery afirmou que as agências de ajuda e as empresas estrangeiras contratadas que trabalham para elas tinham insistido em que cada quarto devia ter casa-de-banho privada, o que faz duplicar o preço do alojamento.
Além deste caro alojamento, os trabalhadores estrangeiros em Cabul estão invariavelmente protegidos por companhias de segurança, caras, e cada casa converte-se numa fortaleza. Os estrangeiros têm uma liberdade de movimentos muito limitada. «Nem sequer posso ir ao melhor hotel de Cabul» queixou-se uma mulher que trabalha numa organização de ajuda governamental estrangeira. Acrescentou que para viajar até uma zona que os afegãos considerem completamente livre de talibans teve de ir de helicóptero e depois num veículo blindado até onde ela queria ir.
Em Cabul houve muitos ataques a estrangeiros e os atentados suicida tem sido, sob o ponto de vista dos talibans, tão eficazes que obrigaram os trabalhadores estrangeiros a irem para complexos luxuosos, mas onde estão tão confinados como numa prisão. Isto significa que a maioria dos estrangeiros enviados para o Afeganistão para ajudar a reconstruir o país e a máquina estatal têm um contacto escasso com os afegãos, aparte os seus choferes e os afegãos com quem trabalham directamente.
«Evitar riscos tem inutilizado o esforço de ajuda internacional» disse um técnico em Cabul. «Se o governo está verdadeiramente preocupado com o risco, então não deveria mandar as pessoas para aqui e fazê-la trabalhar em condições tão limitadas».
No Iraque, a efectividade dos assessores e técnicos estrangeiros é ainda mais limitada, devido ao pouco tempo que permanecem no país. «Muitas pessoas vão-se embora ao fim de nove meses», disse um trabalhador estrangeiro que pediu anonimato. «Além disso, alguns trabalhadores têm duas semanas livres por cada seis de permanência no país, para lá das suas férias habituais».
A alguns quadros que trabalham para organizações não governamentais no Afeganistão preocupa-os a quantidade de dinheiro que os altos cargos dos governos estrangeiros e das suas agências de ajuda gastam com o pessoal, em comparação com a pobreza do governo afegão.
«Estive na província de Badakhshan no norte do Afeganistão, que tem uma população de 830.000 habitantes, a maioria dos quais dependentes da agricultura», afirmou Matt Waldman, director de política e serviços legais de Oxfam em Cabul. «Todo o orçamento do departamento local de agricultura, irrigação e pecuária, que é extremamente importante para os agricultores de Badakhshan, é de apenas 40.000 dólares. Isto é o que cobraria, em poucos meses um consultor estrangeiro em Cabul».
Matt Walkman, autor de vários e muito detalhados artigos sobre o fracasso da ajuda no Afeganistão, diz que nas mais altas esferas se investe um elevado montante de dinheiro, mas que ele é desviado antes de chegar aos afegãos comuns, os que estão ao mais baixo nível. Está de acordo que os problemas que há que enfrentar são horríveis, num país que sempre foi pobre, e que foi arruinado por 30 anos de guerra. Aproximadamente 42% dos 25 milhões de afegãos vivem com menos de um dólar por dia, e a esperança de vida é de apenas 45 anos. O índice total de alfabetização é de 34%, e no caso das mulheres é 18%.
Mas a maior parte do dinheiro da ajuda vai para as companhias estrangeiras que subcontratam até cinco vezes e cada contratado, por sua vez, ganha entre 10% e 20%, antes de fazer qualquer trabalho para o projecto. O maior doador do Afeganistão é os EUA, cujo departamento de ajuda ao estrangeiro, USAID, entrega a cinco grandes contratadores estadunidenses quase metade do seu orçamento de ajuda ao Afeganistão.
Os exemplos referidos num relatório de Oxfam incluem a construção de uma estrada pequena, entre o centro de Cabul e o aeroporto internacional, em 2005, que, depois da subcontratação a uma companhia afegã, custou 2,4 milhões de dólares o quilómetro ou, o que é o mesmo, quatro vezes o custo médio de construção de uma estrada no Afegnistão. Também é frequente a ajuda ser gasta no país doador.
Outra consequência do uso de contratadores estrangeiros é não ter havido qualquer impacto no desemprego entre os jovens afegãos, o que é fundamental para derrotar os talibans. De acordo com um relatóriodo Instiituto para Informar sobre a Guerra e a Paz, nas províncias do sul, como Farah, Helmans, Uruzgan e Zabul, mais de 70% dos combatentes talibans são jovens sem trabalho e sem motivação ideológica a quem se entrega uma arma e se lhes paga uma miséria antes de cada ataque. Ao recorrer a estes combatentes a tempo parcial como carne para canhão, os talibans podem ter poucas baixas entre os seus veteranos combatentes, ao mesmo tempo que infligem perdas entre as forças governamentais.
Descuidaram-se algumas formas simples e óbvias de gastar dinheiro em benefício dos afegãos. Will Beharrell da organização caritativa Turquoise Mountain, que fomenta o artesanato tradicional afegã e a reconstrução da cidade velha, afirma que as melhorias simples e tangíveis são importantes. «Participámos na limpeza do lixo porque é simples e proporciona emprego. Nalguns lugares, com a limpeza fizemos com que o nível das ruas baixasse dois metros, afirmou.
Um facto surpreendente em Cabul é que, enquanto as ruas principais estão pavimentadas, as ruas laterais não passam de terra batida com montes e buracos e enormes poças de água suja. Construíram-se novas estradas entre as cidades, como Cabul e e Kandahar, mas são muito perigosas de percorrer, devido aos pontos de controlo móveis dos talibans onde quem quer que tenha a ver com o governo é imediatamente abatido.
O programa de ajuda internacional é particularmente importante no Afeganistão, pois o governo tem poucas fontes de receitas para além dessa. As doações dos governos estrangeiros representam 90% da despesa pública. A ajuda é muito mais importante que no Iraque, onde o governo tem receitas provenientes do petróleo. Um salário mensal de um polícia no Afeganistão é de apenas 70 dólares, que não é suficiente para viver sem subornos.
Desde a queda dos talibans que o governo afegão tem procurado dirigir um país em que a infra-estrutura física foi destruída. Cabul recebe a electricidade do Uzbequistão, mas 55% não tem qualquer electricidade e apenas 20% a tem durante todo o sai. O exército estadunidense pode distribuir o dinheiro mais rapidamente, mas isto pode não acabar com o apoio político aos talibans na medida esperada.
Os próprios afegãos estão entusiasmados com os planos do presidente Obama de um maior comprometimento civil e militar dos Estados Unidos no Iraque. E o fracasso da ajuda estrangeira no momento de proporcionar uma vida melhor aos afegãos também contribui para explicar a queda a pique do apoio ao governo de Cabul e aos seus aliados estrangeiros. Matt Waldman, da Oxfam, acredita que uma ajuda melhor organizada poderia proporcionar os benefícios que os afegãos esperavam obter quando se derrotou os talibans, em 2001, mas adverte: «Está a começar a ser demasiado tarde para fazer bem as coisas».
Vejamos os números: gastos ocidentais no Afeganistão:
• 57 dólares de ajuda estrangeira per capita ao Afeganistão, face aos 580 per capita depois do conflito bósnio.
• 250.000 dólares é o salário médio dos consultores estrangeiros no Afeganistão, incluindo cerca de 35% de subsídio por trabalho em condições difíceis e 35% de subsídio de perigosidade. Os funcionários afegãos têm um salário de cerca de 1.000 dólares anuais.
• 22.000 milhões de dólares é o deficit das doações em relação ao que a comunidade internacional calcula que o Afeganistão necessita, aproximadamente 48%.
• Cerca de 40% é a percentagem do orçamento de ajuda internacional que regressa aos países de procedência, soba a forma de lucros das empresas e salários dos consultores, mais de 6.000 milhões de dólares desde 2001.
• 7 milhões de dólares diários de ajuda são gastos no Afeganistão. A despesa militar diária do governo estadunidense é de aproximadamente 100 milhões de dólares.
* Jornalista irlandês, presentemente correspondente do The Independent no Médio Oriente.
São cerca de 4 horas da madrugada e acabo, apezar de ter todo o corpo dorido e a pedir repouso, de desistir definitivamente de dormir. Ha trez noites que isto me acontece, mas a noite de hoje, então, foi das mais horriveis que tenho passado em minha vida. Felizmente para ti, amorzinho, não podesimaginar. Não era só a angina, com a obrigação estupida de cuspir de dois em dois minutos, que me tirava o somno. É que, sem ter febre, eu tinha delirio, sentia-me endoidecer, tinha vontade de gritar, de gemer em voz alta, de mil cousas disparatadas. E tudo isto não só por influencia directa do mal estar que vem da doença, mas porque estive todo o dia de hontem arreliado com cousas, que se estão atrazando, relativas á vinda da minha família, e ainda por cima recebi, por intermedio de meu primo, que aqui veio ás 7 1/2, uma serie de noticias desagradaveis, que não vale a pena contar aqui, pois, felizmente, meu amor, te não dizem de modo algum respeito.
Depois, estar doente exactamente numa occasião em que tenho tanta cousa urgente a fazer, tanta cousa que não posso delegar em outras pessoas.
Vês, meu Bébé adorado, qual o estado de espirito em que tenho vivido estes dias, estes dois ultimos dias sobretudo? E não imaginas as saudades doidas, as saudades constantes que de ti tenho tido. Cada vez a tua ausencia, ainda que seja só de um dia para o outro, me abate; quanto mais hão havia eu de sentir o não te ver, meu amor, ha quasi três dias!
Diz-me uma cousa, amorzinho: Porque é que te mostras tão abatida e tão profundamente triste na tua segunda carta – a que mandaste hontem pelo Osorio? Comprehendo que estivesses tambem com saudades; mas tu mostras-te de um nervosismo, de uma tristeza, de um abatimento tães, que me doeu immenso ler a tua cartinha e ver o que soffrias. O que te aconteceu, amôr, além de estarmos separados? Houve qualquer cousa peor que te acontecesse? Porque fallas num tom tão desesperado do meu amor, como que duvidando d’elle, quando não tens para isso razão nenhuma?
Estou inteiramente só – pode dizer-se; pois aqui a gente da casa, que realmente me tem tratado muito bem, é em todo o caso de cerimonia, e só me vem trazer caldo, leite ou qualquer remedio durante o dia; não me faz, nem era de esperar, companhia nenhuma. E então a esta hora da noite parece-me que estou num deserto; estou com sêde e não tenho quem me dê qualquer cousa a tomar; estou meio-doido com o isolamento em que me sinto e nem tenho quem ao menos vele um pouco aqui enquanto eu tentasse dormir.
Estou cheio de frio, vou estender-me na cama para fingir que repouso. Não sei quando te mandarei esta carta ou se acrescentarei ainda mais alguma cousa.
Ai, meu amor, meu Bébé, minha bonequinha, quem te tivesse aqui! Muitos, muitos, muitos, muitos, muitos beijos do teu, sempre teu
A mais importante atriz de Moçambique diz ter sofrido discriminação racial em São Paulo.
Fazia tempo que eu não sentia tanta vergonha. Terminava a entrevista com a bela Lucrécia Paco, a maior atriz moçambicana, no início da tarde desta sexta-feira, 19/6, quando fiz aquela pergunta clássica, que sempre parece obrigatória quando entrevistamos algum negro no Brasil ou fora dele. “Você já sofreu discriminação por ser negra?”. Eu imaginava que sim. Afinal, Lucrécia nasceu antes da independência de Moçambique e viaja com suas peças teatrais pelo mundo inteiro. Eu só não imaginava a resposta: “Sim. Ontem”.
Lucrécia falou com ênfase. E com dor. “Aqui?”, eu perguntei, num tom mais alto que o habitual. “Sim, no Shopping Paulista, quando estava na fila da casa de câmbio trocando meus últimos dólares”, contou. “Como assim?”, perguntei, sentindo meu rosto ficar vermelho.
Ela estava na fila da casa de câmbio, quando a mulher da frente, branca, loira, se virou para ela: “Ai, minha bolsa”, apertando a bolsa contra o corpo. Lucrécia levou um susto. Ela estava longe, pensando na timbila, um instrumento tradicional moçambicano, semelhante a um xilofone, que a acompanha na peça que estreará nesta sexta-feira e ainda não havia chegado a São Paulo. Imaginou que havia encostado, sem querer, na bolsa da mulher. “Desculpa, eu nem percebi”, disse.
A mulher tornou-se ainda mais agressiva. “Ah, agora diz que tocou sem querer?”, ironizou. “Pois eu vou chamar os seguranças, vou chamar a polícia de imigração.” Lucrécia conta que se sentiu muito humilhada, que parecia que a estavam despindo diante de todos. Mas reagiu. “Pois a senhora saiba que eu não sou imigrante. Nem quero ser. E saiba também que os brasileiros estão chegando aos milhares para trabalhar nas obras de Moçambique e nós os recebemos de braços abertos.”
A mulher continuou resmungando. Um segurança apareceu na porta. Lucrécia trocou seus dólares e foi embora. Mal, muito mal. Seus colegas moçambicanos, que a esperavam do lado de fora, disseram que era para esquecer. Nenhum deles sabia que no Brasil o racismo é crime inafiançável. Como poderiam?
Lucrécia não consegue esquecer. “Não pude dormir à noite, fiquei muito mal”, diz. “Comecei a ficar paranoica, a ver sinais de discriminação no restaurante, em todo o lugar que ia. E eu não quero isso pra mim.” Em seus 39 anos de vida dura, num país que foi colônia portuguesa até 1975 e, depois, devastado por 20 anos de guerra civil, Lucrécia nunca tinha passado por nada assim. “Eu nunca fui discriminada dessa maneira”, diz. “Dá uma dor na gente. ”
Ela veio ao Brasil a convite do Itaú Cultural, que realiza até 26 de junho, em São Paulo, o Antídoto – Seminário Internacional de Ações Culturais em Zonas de Conflito. Lucrécia apresentará de hoje a domingo (19 a 22/6), sempre às 20h, a peça Mulher Asfalto. Nela, interpreta uma prostituta que, diante de seu corpo violado de todas as formas, só tem a palavra para se manter viva.
Lucrécia e o autor do texto, Alain-Kamal Martial, estavam em Madagáscar, em 2005, quando assistiram, impotentes, uma prostituta ser brutalmente espancada por um policial nas ruas da capital, Antananarivo. A mulher caía no chão e se levantava. Caía de novo e mais uma vez se levantava. Caía e se levantava sem deixar de falar. Isso se repetiu até que nem mesmo eles puderam continuar assistindo. “Era a palavra que a fazia levantar”, diz Lucrécia. “Sua voz a manteve viva.” Foi assim que surgiu o texto, como uma forma de romper a impotência e levar aquela voz simbólica para os palcos do mundo.
Mais tarde, em 2007, Lucrécia montou o atual espetáculo quando uma quadrilha de traficantes de meninas foi desbaratada em Moçambique. Eles sequestravam crianças e as levavam à África do Sul. Uma menina morreu depois de ser violada de todas as maneiras com uma chave de fenda. Lucrécia sentiu-se novamente confrontada. E montou o Mulher Asfalto.
Não poderia imaginar que também ela se sentiria violada e impotente, quase sem voz, diante da cliente de um shopping em um outro continente, na cidade mais rica e moderna do Brasil. Nesta manhã de sexta-feira, Lucrécia estava abatida, esquecendo palavras. Trocou o horário da entrevista, depois errou o local. Lucrécia não está bem. E vai precisar de toda a sua voz – e de todas as palavras – para encarnar sua personagem nesta noite de estréia.
“Fiquei pensando”, me disse. “Será que então é verdade? Que no Brasil é difícil ser negro? Que a vida é muito dura para um preto no Brasil?” Eu fiquei muda. A vergonha arrancou a minha voz.
A situação em Brasília anda tão surrealista, o vírus da cleptocracia tão disseminado, que o único remédio plausível é mesmo o realismo fantástico.
A capital da República tem muito a aprender com Macondo, a vila intemporal de Cem Anos de Solidão, com a licença de Gabriel Garcia Márquez. Sabe-se que a doença de Macondo era menos grave: não se tratava de compulsão pelo roubo. Não eram cleptocratas os moradores da cidade símbolo do realismo-fantástico.
Eles sofriam de insônia. Tocados pela estranha síndrome do “sol poente”, os cidadãos viviam condenados ao “estado de alerta”. Jamais conseguiam pregar o olho.
Para que os forasteiros não “pegassem” a doença, José Arcádio Buendia teve uma ideia inspiradora: tirar os sininhos dos cabritos e colocá-los numa caixa nos portões da vila, à disposição dos que insistiam em visitar a aldeia. Os visitantes que portassem guizos no pescoço, alertariam a população: “somos seres saudáveis, “não contaminados”.
A população seria advertida: nada desse de comer ou de beber a esses adventícios – pois não havia dúvida de que a “peste” se transmitia pela boca. Assim, a doença ficou circunscrita ao povoado, sem se propagar pelas cidades vizinhas, os poucos visitantes recebiam a eficaz vacina preventiva: o guizo no cangote.
Brasília bem que poderia adotar quarentena semelhante. Era só trocar o nome da enfermidade. Em vez de insônia, “corrupção”. Para que a doença não se espalhasse pelo país inteiro, os sadios usariam um sininho, e jamais comeriam ou beberiam nos mercados ou nas fontes citadinas, principalmente naquelas situadas em torno da Praça dos Três Poderes – todas infectadas.
Daria certo? O problema é que todo mundo ia querer usar esse crachá de honesto, mesmo sem merecer. Logo seria instituído um “vestibular” para a aquisição de sininhos. E apareceria alguém propondo cotas, privilégios, sininhos “secretos”. Os que não exibissem o seu sininho balançando no pescoço logo seriam apontados à execração pública:
– Ô seu filho de um Lalau! Ô seu Maluf! Ô seu Zé Sarney! Ô seu Salvatore Cacciola! – e outros nomes próprios pra lá de impróprios.
Outra dificuldade: as ratazanas da cidade jamais se habituariam com a virtude da honestidade, nem abjurariam a adoração do ouro público, o preferido para a prática da “subtração”. Pior: logo prosperaria entre os contaminados o “tráfico” de sininhos e não tardariam a aparecer os sininhos falsos. A fábrica teria que adotar medidas extras de segurança, como revistar os funcionários na saída do expediente.
A situação estaria definitivamente comprometida quando descobrissem funcionários recebendo propina para vender sininhos a desonestos. E sabem quem apareceria para manipular a licitação da venda de sininhos autênticos a funcionários públicos?
Claro, o parente secreto de algum senador.
Gabo Garcia Márquez logo descobriria, chocado. Macondo tem uma identidade secreta: na verdade se chama Brasília!
Ética e ciência, esta discussão necessita previamente passar pela concepção filosófica de “ser humano”, ‘ética’ e ‘ciência’. Na perspectiva existencialista, o homem é um ser capaz de autodeterminação, ou seja, ser sujeito do conhecimento e da ação. Em conseqüência, no campo ético, tudo aquilo que tira ou diminui essa dimensão de sujeito é considerado violência. Por sua vez, a ciência moderna ocidental contém em si um amplo projeto de dominação: da natureza, de si mesmo e do outro. Portanto, uma ciência ética só é possível a partir de uma nova postura diante da própria ciência e dos valores da sociedade.
1 introdução
A relação ética e ciência é um dos debates que nos foram equacionados no século XXI. A partir do lançamento da bomba nuclear nas cidades de Hiroshima e Nagasaki no Japão no fim da II Guerra Mundial em 1945, e mais neste século com a degradação do meio ambiente, a ambigüidade do progresso científico e tecnológico passou do plano teórico para o existencial. Começamos a perceber na vida cotidiana a deterioração do ambiente físico e social ao lado do mundo maravilhoso da tecnologia. Isto cria um paradoxo entre a ciência e a ética. As conquistas tecnológicas nos campos da comunicação, transporte, alimentação, moradia, saúde e lazer convivem ao lado do desequilíbrio ecológico, da miséria, da fome, o desemprego, os sem-terra, sem-teto, enfim ao lado de toda a violência que destrói dignidade humana. Para falarmos da relação entre ciência e ética é preciso, ao principio buscarmos uma definição para a ética, e como esta vem a se contrapor a ciência.
2 como definirmos ética?
Poderíamos entender ética de várias formas. Uma delas poderia ser como a busca ou caminho para ou pela “verdade” que seria, talvez, e em algumas condições, subjetiva. Se relembrarmos da origem da filosofia na Grécia, por exemplo, os sofistas, que através da retórica e do convencimento pelas palavras, da oratória, julgavam que “a verdade é resultado da persuasão e do consenso entre os homens”. Isso era combatido por Sócrates, Platão e Aristóteles que julgavam ser a essência da verdade através da razão e não do “simples” convencimento e consenso. Sócrates fazia isto através de perguntas básicas, feitas a diversos profissionais especialistas, tais como: ao “sapateiro” – o que é um sapato? Ao “juiz” – o que é a justiça? Ou o que é a verdade? E assim, a partir de um questionamento, buscava desvendar, através da razão e da lógica e não mais por um simples convencimento retórico, o que seria esta verdade. Poderíamos dizer então que, de certa forma, Sócrates inaugura a ética dentro do discurso. Sócrates, como comenta MARCONDES (1998) seria: “(…) um divisor de águas. É nesse momento que a problemática ético-política passa ao primeiro plano da discussão filosófica como questão urgente da sociedade grega superando a questão da natureza como temática central, pois a temática racionalista filosófica, inicialmente, era a natureza, iniciada por Tales de Mileto que buscava na própria natureza a explicação para ela própria, se afastando assim do mito em que tudo era explicado pelos deuses…” Assim teríamos a questão da subjetividade na ética, e a formação da própria sociedade interagindo entre ela e os indivíduos. A ética ajudando-nos a refletir sobre os costumes, sobre as práticas da ciência, da religião, da família, da empresa, em fim, em todas as instituições da sociedade. A ética nos ajuda a pensar a subjetividade. Que sujeito é esse em tal momento da história? Que sujeito é este hoje? Que “conhecimento” é este que buscamos pela ciência? Ainda MARCONDES (1998) nos define ética da seguinte forma: “A ética do grego “ethike”, diz respeito aos costumes e tem por objetivo elaborar uma reflexão sobre os problemas fundamentais da moral (finalidade e sentido da vida humana, os fundamentos da obrigação e do dever, natureza do bem e do mal, o valor da consciência moral.”
3 a ciência, a ética e a filosofia
Não existe um profissional ético, sem antes um homem ético. Portanto, a discussão sobre ética deve ser vista como uma situação-problema que provoca e estimula uma reflexão abrangente sobre a própria natureza da relação ética e ciência. Em sua reflexão sobre o conceito de progresso MATOS (1993) conclui que: “como não há progresso que não seja também moral, a principal tarefa dos nossos dias é o combate pelo progresso dos direitos humanos.” Referenciando a utopia que temos em comum: a humanidade com vida digna e feliz. Visto deste ponto, a reflexão filosófica não tem a utilidade imediata no sentido do senso comum. Sua contribuição à ciência e à técnica explicando os fundamentos epistemológicos e metodológicos e certamente, éticos. Citando CHAUÍ (1994): “Não se trata, pois, rigorosamente de uma ciência, mas de uma reflexão em busca de uma fundamentação teórica e crítica dos nossos conhecimentos e de nossas práticas”. Segundo o existencialismo, o ser humano está em processo de autoconstrução. Em outras palavras, é um agente transformador da Natureza que, ao transformá-la, constrói sua própria essência. A natureza humana vem sendo construída pela própria humanidade no processo histórico atualizando sua potencialidade com agente transformador. Sobre este conceito MATOS (1993) nos expõe: “Temos uma natureza em devir. O ser humano é, ao mesmo tempo, um ser atualmente advindo e um ser ainda a vir, apenas prometido a si mesmo. (…) É aqui que se manifesta a estrutura fundamental da ação: de um lado, ela é aquilo em que se tornou, aquilo que ela é agora: do outro, também é uma antecipação de seu ser realizado e, por ser ação de um agente autônomo, ela implica em si a responsabilidade daquilo que fazemos de nós mesmos. E veremos como a responsabilidade de cada ser humano para consigo mesmo constitui, ao mesmo tempo, um responsabilidade que ele tem com todos os homens”.
4 ciência e ética nos dias atuais
A ciência, traço que singulariza as sociedades modernas, vem sendo analisada sob os mais diversos ângulos. Desde o enfoque mais clássico da epistemologia ao olhar mais recente dos estudos culturais, multiplicam-se os estudos sobre a atividade científica. Entretanto, em nossos dias, uma perspectiva, a da ética, exerce particular interesse, associada ao desenvolvimento contemporâneo das ciências da vida. Alternativas inéditas, antigamente nem sequer questionadas, fazem hoje, parte do cotidiano. Possibilidades como a preservação duradoura da vida em condições artificiais, a intervenção em fetos ou as que decorrem do amplo repertório de ações ligadas à clonagem evidenciam a expansão do nosso poderio científico-tecnológico. Poderio que nos inscreve, de imediato, no horizonte ético: podendo fazer, devemos fazer? Os órgãos que regulam a ética nas pesquisas científicas que envolvam seres humanos, o crescente cuidado no trato dos animais associados à pesquisa científica, a atenção e a sensibilidade com que são vistas as questões relativas à intervenção no meio ambiente são indicadores de que estamos diante de um novo cenário. Mas, se, de um lado, devemos celebrar o reaparecimento da temática ética, na medida em que se localiza no campo da ação humana, por outro lado, cabe perguntar sob que condições é razoável esperar uma aproximação permanente entre a ciência e a ética. Ética, entre outras coisas, significa restrição. O recurso a valores, constitutivos de qualquer agenda ética, implica aceitar proibições e limites. Caso existisse, uma sociedade inteiramente permissiva levaria à supressão da dimensão ética, que se tornaria supérflua num ambiente onde tudo fosse tolerado. Se aceitarmos a associação entre a atitude ética e o estabelecimento de alguma espécie de limite, como poderíamos aproximar a ética e a ciência, entre os procedimentos éticos e a busca do conhecimento? No contexto da sociedade atual, à que pertencemos, a criação dos campos científicos na modernidade ocidental é decorrência, entre outros fatores, da ideologia que preconiza a defesa da liberdade mais plena no que diz respeito ao conhecimento. A concepção moderna de ciência, a que estamos, ainda hoje, associados, é inseparável da progressiva reafirmação do princípio da autonomia da pesquisa e da rejeição, inegociável, da tutela, seja religiosa, seja política.
5 conclusão
Notamos que nos dias de hoje várias instituições se preocupam em elaborar um código de ética. Isso demonstra claramente a necessidade que a sociedade tem de “controlar” as medidas e atitudes das diversas profissões. Será que podemos permitir que a ciência, por exemplo, faça o que ela quiser? A ciência pode pesquisar o que ela quiser? A ética seria desta maneira então, intermediária, buscaria a justiça, a harmonia e os caminhos para alcançá-las. Quando buscamos, a justiça, a verdade, o entendimento e o conhecimento, o buscamos para satisfazer uma necessidade do sujeito. O que é que distingue a ciência da não-ciência? Como podemos demarcar a fronteira entre elas? É importante mencionar que a ciência deve ser entendida de maneira diversa, conforme o tempo em que a estudamos. O que chamamos de “conhecimento científico”, também, pode variar conforme os diversos períodos da história. Na área médica, por exemplo, quando ouvimos uma voz científica dizendo: evite comer ou fazer tal coisa, que faz mal à saúde, e depois alguns anos mais tarde se contradizem dizendo que não é bem assim. Podemos citar o recente comunicado da Agencia Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) com respeito à gema do ovo mal cozida. Concluiu-se que ciência é um conhecimento sistemático, dá-se pela leitura, reflexão, sistematização, conhecimento lógico, sendo quase impossível vivermos sem seus benefícios. A ciência tenta discernir com sabedoria ética o melhor para o ser humano. Sendo de muita importância este apelo ético na ciência, pois a sociedade depende das conseqüências. A ética é uma característica própria a toda ação humana, tendo como objetivo facilitar a realização das pessoas. A ciência envolve investigação e busca pela verdade. Na ciência temos a ética como suporte para não haver erros, pois a responsabilidade faz parte da ética e é fundamental no meio cientifico. A produção cientifica não se realiza fora de um determinado contexto social e político.
6 referências
CHAUÍ, M. Convite à filosofia. São Paulo: Ática, 1994. MATOS, O. C. F. A escola de Frankfurt: luzes e sombras do iluminismo. Coleção Logos. São Paulo: Editora Moderna, 1993. MARCONDES, Danilo. Iniciação à História da Filosofia. São Paulo: JZE. 2º ed.1998.
Não passava um dia sem que pudesse se livrar do barulho no interior dos seus ouvidos. Consultou-se a muitos do ramo e também a leigos e ninguém lhe pode ajudar. Perguntavam-se então de como e se era possível que naqueles ouvidos cantassem sereias. Ulisses nem aí! Pedia que o amarrassem mais e vigorosamente com cordas novas e nós fortes. Não poderia jamais ceder aos cantos-encantos daqueles seres míticos. O homem era um rolo de amarrias, suspiros e desajeitos e já não podia mais se mover, nem falar, nem nada; (enquanto os rabos-de-peixe, de canto constante, lhe desfiguravam a face). Mantinha os olhos fechados. Nada pedia nem de nada reclamava. Acreditavam que desta vez, em sua quietude, teria ele se livrado para sempre da cantoria daqueles demônios, do qual o mesmo se achava vítima confessa e fiel. Não saberiam nunca! Quando ao cabo de longa travessia o desamarraram, seu corpo estava esticado, frio, impassível e sua voluntariosa alma possuída da sensação de quem ouvira a mesma e aguda nota do começo ao fim. Jogaram-no ao mar. (Por sobre ondas e marolas, seres invisíveis ao cair da tarde, carregavam-no para todo o canto e assim que se ultimava o dia, como se fosse ele um cão de estimação, um bichinho de brincar de faz de conta, puxavam-no para lá e para cá até o deixarem assim, boiando, subindo e descendo com as marés. Queriam tais seres que Ulisses se rehidratasse e que ficasse fortinho, bonzinho. Queriam que Ulisses aprendesse a cantar, como elas, com elas). Optou-se enfim, por consentir estas práticas de técnica vocal para as calendas gregas. Descansou Ulisses e não aprendeu a cantar nesta vida!
Aparentemente, ainda que tenhamos sofrido 70 anos desse show de horrores financiado pelo Ocidente, nada sabemos, tais bêbados tolos russos que somos, então que nossos “sábios” tolos anglo-saxões encontrem a estultice de seu próprio orgulho.
Deve-se dizer que, como no rompimento de uma grande barragem, a queda americana no marxismo está acontencendo com velocidade alucinante, em oposição ao pano de fundo de um rebanho ─ digo, povo ─ passivo e indefeso.
É verdade, a situação foi bem preparada ao longo do século passado, especialmente nos últimos vinte anos. O primeiro campo de testes foi nossa Sagrada Rússia, e foi um teste sangrento. Mas nós russos não iríamos simplesmente ir em frente e desistir de nossas liberdades e nossas almas, independente de quanto dinheiro Wall Street derramasse nas mãos dos marxistas.
Estas lições foram aprendidas e usadas para devidamente preparar o povo americano para a rendição de suas liberdades e almas aos caprichos de suas elites e melhores.
Primeiro, a população foi emburrecida através de um sistema educacional politizado e abaixo da média baseado em cultura pop ao invés dos clássicos. Os americanos sabem mais sobre seus dramas televisivos que sobre o drama em Washington que afeta diretamente suas vidas. Eles ligam mais para o “direito” de deglutir um hambúrguer McDonalds ou BurgerKing do que para seus direitos constitucionais. E então eles se voltam para nós e nos passam lições sobre nossos direitos e nossa “democracia”. O orgulho cega os tolos.
E então a fé deles em Deus foi destruída, até que suas igrejas, todas as dezenas de milhares de diferentes “ramos e denominações” se tornaram mormente pouco mais que circos dominicais e seus tele-evangelistas e seus maiores mega-pregadores protestantes ficaram mais que felizes em vender suas almas e rebanhos para estar no lado “vencedor” de um ou outro político pseudo-marxista. Seus rebanhos podem reclamar, mas quando esclarecidos que estariam no lado “vencedor”, mais rápido que nunca rejeitam Cristo com esperanças de poder mundano. Até as nossas igrejas Sacras Ortodoxas são escandalosamente liberalizadas na América.
O colapso final veio com a eleição de Barack Obama. Sua velocidade nos últimos três meses foi realmente impressionante. Seus gastos e impressão de moeda foram recordes, não apenas na curta história americana, mas no mundo. Se continuar assim por um ano mais ─ e não há sinais de que não continue ─ a América parecerá, na melhor hipótese, a República de Weimar e, na pior, o Zimbábue.
Estas últimas duas semanas foram as mais alucinantes. Primeiro veio o anúncio de um remodelamento planejado do bizantino sistema tributário americano pelos mesmos ladrões que o usaram para financiar seus roubos, prejuízos e fraudes de centenas de bilhões de dólares. Eles fazem nossos oligarcas russos parecerem, em comparação, pouco mais que pivetes. Sim, os americanos venceram nossos ladrões em volume bruto. Deveríamos parabenizá-los?
Estes homens, é claro, não são um quadro eleito, mas consistem de homens de confiança coletados dos mesmos oligarcas financeiros e caterva que agora se esbaldam em trilhões de dólares americanos, em um estímulo atrás de outro. Eles também estão usurpando os direitos, deveres e poderes do parlamento americano. Novamente, o congresso opôs pouco mais que um gemido a seus donos.
E então veio a ordem de Barack Obama para que o presidente da GM (General Motors) saísse da liderança de sua empresa. É isso mesmo, caro leitor: na terra dos “puros” livres mercados, o presidente americano agora tem o poder, o poder auto-investido, de despedir presidentes de empresas e, podemos supor, outros empregados, ao seu bel-prazer. Para cá, para lá, o centurião comanda seus esbirros.
Então não surpreende que o presidente americano prossiga com uma “ousada” jogada de declarar que ele e outro grupo escolhido de patetas não-eleitos escolhidos remodelarão agora a indústria automotiva inteira e serão até mesmo a garantia de políticas automobilísticas. Tenho certeza de que, dada a chance, eles alegremente a remodelariam para o resto do mundo também. O Primeiro Ministro Putin, menos de dois meses atrás, alertou a Obama e a Blair do Reino Unido para não seguirem o caminho do marxismo, ele só leva ao desastre. Aparentemente, ainda que tenhamos sofrido 70 anos desse show de horrores financiado pelo Ocidente, nada sabemos, tais bêbados tolos russos que somos, então que nossos “sábios” tolos anglo-saxões encontrem a estultice de seu próprio orgulho.
Novamente, o público americano engoliu isto com algo que mal foi um gemido… mas um gemido de “homem livre”.
Então, deveria pois ser alguma surpresa descobrir que o Democraticamente controlado Congresso da América está trabalhando para passar um novo regulamento que iria dar ao departamento do Tesouro americano o poder de definir salários máximos “justos”, avaliar desempenho e controlar como empresas privadas dão aumentos e bônus? O senador Barney Franks, um pervertido social gozando de sua homossexualidade (é claro, no meio da norma social americana moderna e iluminada, assim como na do Ocidente em geral, homossexualidade não é apenas uma opção de vida não desprezada, como freqüentemente também louvada como uma virtude) e seu iluminismo marxista, esteve à frente neste esforço. Ele frisa que isto afeta apenas empresas que recebem financiamentos do governo, mas é retroativo e, levado a um extremo lógico, incluiria qualquer empresa ou indústria que tenha recebido uma isenção ou incentivo.
Os donos russos de empresas americanas deveriam meditar sobre isto e sobre a opção de fechar suas instalações e fugir da terra dos Vermelhos o mais rápido possível. Em outras palavras, depenar enquanto ainda vale algo.
O americano orgulhoso irá cair nesta escravidão sem lutar, batendo em seu peito e proclamando ao mundo o quão livre ele realmente é. O mundo apenas rirá.
Quando a cadeira fala com a mesa e a toalha branca com meus sonhos brinca as suas flores bordadas revoam meus travesseiros alados. Queria revoar a tinturaria das palavras com essas minhas taturanas vazadas queria soletrar borboletas porque a palavra antes de Ser é mais que letra é som de pedra lavrada som de estirado barranco som queimado de capim seco na língua molhada do amado é respingo de aresta na fresta azul da enrugada testa é entalhe de suor sobre a sua cansada pedra a palavra antes de verder é revoada que aqui no peito bate ameiada desse jeito É tua sempre a meação dessa revoação da minha perdida palavra!
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Uma obra em conjunto,quase anônima, a proposta de Rettamozo, autor e regente da Sociedade dos Pintores do Ângulo Insólito do Vale do Itajaiaçu.Gaúcho, radicado no Paraná funda este grupo após a oficina: ARTE,TERRA E RETTA, no vale do Itajaí. E com ele propõe alguns motes teóricos, quase um manifesto, motivadores da ação utópica de uma (n)ova poética para a velha pintura, que ainda, de quebra, além de trágica pode ser divertida e fazer novos amigos.
Faz parte destes motes O ângulo Insólito (Roland Barthes), ângulo de piquete, de topo:(…) nestes trabalhos ninguém pode estar olhando de cima, todos têm que estar ligados no chão! Ou então minha arte vira ilustração ou apenas uma demonstração de “olha eu aqui mamãe”(Retta), e os temas de topo reproduzem na sombra o seu duplo. Este mote propõe a terra como tema, personagem e matéria prima. As terras Curitiba, de Itajaí, de Piraquara, de Campo Largo, de Londrina e de Brasília pintam as telas do grupo. Desta terra, nesta terra, para esta terra. A terra trágica concentrada, vista de topo, mais os pássaros, as borboletas, os peixes, as joaninhas, as capivaras, os gravetos, as sementes de pinheiro e os contrapontos : os piões, as bolas de gude, as bolas de tênis, mais o cachorro de verdade e o de pelúcia, as meninas, os meninos , o palhaço, de verdade e de mentira. Quase sempre contam uma história. Num quasehaikay , numa QuaseCabala. E o segundo mote: O caos organizador do espaço profundo, o que produz a nova paisagem que deriva daquela que a gente pisa e que nos traz reminiscências culturais eexistenciais (…) depois de caminhar sobre a terra, pé sujo, descalço, ensapatado, andar de bicicleta com pneu sujo de barro de uma região diferente, bate um vento e as folhas e flores voam enchendo a tela de cores e sombras que determinam a hora, pinto o tempo, pois, pois, caos organizador do espaço profundo…(Retta).
O terceiro mote, a hipermodernidade, que anuncia: Terra à Vista! É a paisagem na sola do pé ou na roda da bicicleta para percorrer esta terra, nesta terra, desta terra, feito e com o jeito de terra, olhar de topo que remete o duplo, trágico e sem salvação. Medievo Retta hipermoderno que te proteja Zeus e o pára-raios! (Retta Rettamozo em exposição no SESC Água Verde, Curitiba, Pr). A Sociedade dos Pintores do Ângulo Insólito do Vale do Itajaí é composta por: Retta Rettamozo,Patrick Albuquerque,Rafaelo Góes, Odécio Adriano e Carlo Rettamozo.
com a intenção de desfazer equívocos utilizados por escritores, poetas, jornalistas e críticos de literatura, que veem publicando opiniões em prefácios e outros modos na mídia virtual e impressa afirmando ser de autoria do grande poeta a frase ” NAVEGAR É PRECISO, VIVER NÃO É PRECISO” que , em verdade, é do romano JULIO CÉSAR, a caminho do Egito, ao enfrentar gigantesca tempestade no Mediterrâneo grita aos seus soldados e marinheiros, que queriam retornar: “NAVIGARE NECESSE VIVERE NON EST NECESSE!, é que estamos divulgando este “post” de autoria de FERNANDO PESSOA onde ele próprio afirma:
“ Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa:
“Navegar é preciso; viver não é preciso”.
Quero para mim o espírito [d]esta frase, transformada a forma para a casar como eu sou:
Viver não é necessário; o que é necessário é criar. Não conto gozar a minha vida; nem em gozá-la penso. Só quero torná-la grande, ainda que para isso tenha de ser o meu corpo e a (minha alma) a lenha desse fogo.
Só quero torná-la de toda a humanidade; ainda que para isso tenha de a perder como minha. Cada vez mais assim penso.
Cada vez mais ponho da essência anímica do meu sangue o propósito impessoal de engrandecer a pátria e contribuir para a evolução da humanidade.
É a forma que em mim tomou o misticismo da nossa Raça.”
Com o desenvolvimento (desordenado e inconseqüente) humano vieram várias conseqüências para o meio e ambiente de uma forma geral, uma delas é a fragmentação das florestas. A fragmentação das florestas traz um inversão no lugar de termos grandes florestas temos várias florestas pequenas e com isso vêm as conseqüências.
Para FLEURY(2003) “O processo de fragmentação florestal, além do isolamento e da redução de hábitat, produz um aumento do microhábitat de borda.” Isso significa dizer que o processo de fragmentação traz inúmeras conseqüências a fauna e a flora. A flora observamos as conseqüências com maior facilidade devido a extinção da mesma, já as conseqüências da fauna só é observada com uma análise critica e com um período de observação tendo em vista que o processo de extinção dos animais e a própria mutação do mesmo ocorrem no decorrer de um período e não de imediato como um desmatamento por exemplo.
A redução do habitat traz como conseqüência a falta de recursos alimentícios em uma quantidade que satisfaça a demanda, ou seja a quantidade de espécies que ainda estão no local – gerando com isso a redução ou até meso a extinção da espécie. Com relação as aves existe o problema que algumas se adaptam a toda uma floresta mas não conseguem se adaptar ao fragmento da mesma devido ao próprio espaço necessário ao seu desenvolvimento e a outras condições como o clima e a intervenção humana.
Diversidade biológica ” significa a variabilidade de organismos vivos de todas as origens, compreendendo, dentre outros, os ecossistemas terrestres, marinhos e outros ecossistemas aquáticos e os complexos ecológicos de que fazem parte; compreendendo ainda a diversidade dentro de espécies, entre espécies e de ecossistemas. (Artigo 2 da Convenção sobre Diversidade Biológica).
Os principais processos responsáveis pela perda da biodiversidade são:
ü Perda e fragmentação dos hábitats;
ü Introdução de espécies e doenças exóticas;
ü Exploração excessiva de espécies de plantas e animais;
ü Uso de híbridos e monoculturas na agroindústria e nos programas de reflorestamento;
ü Contaminação do solo, água, e atmosfera por poluentes; e
ü Mudanças Climáticas.
Além dos motivos expostos, podemos acrescentar o empobrecimento genético como mais um causador da perda da biodiversidade nas florestas fragmentadas, devido ao isolamento das espécies elas passam a se inter-relacionarem gerando assim apenas um ciclo de reprodução.
Efeito de borda:
“Bordas são áreas onde a intensidade dos fluxos biológicos entre as unidades de paisagem se modifica de forma abrupta, devido à mudança abiótica repentina das matrizes para os fragmentos e vice-versa” (Metzger 1999)
A estruturação da floresta é um importante aliado ou adversário das aves ou outras espécies, quanto mais estruturado for o fragmento mais proteção o mesmo dará as espécies, é importante também que o local seja circular e compactado para o seu interior resistir mais aos efeitos de borda. Já os fragmentos estreitos sofrem mais com o efeito de borda devido a falta de proteção ao seu interior. Mas existem espécies que se adaptam e vivem tranqüilamente nas bordas, da mesma forma que existem espécies que se isolam em fragmentos diferentes e devido as condições e os recursos diferentes aquela mesma espécie se transforma em duas espécies diferentes.
Algumas espécies aumentam sua densidade populacional em florestas fragmentadas, é o que denomina-se densidade compensatória. Uma das hipóteses levantadas para essa ocorrência é a diminuição da competitividade, tendo em vista que muitas espécies vão se extinguindo com o processo sendo assim diminuindo o número de predadores de outras. Outra hipótese é que em ambientes menores há- em alguns casos- a possibilidade de se explorar um gradiente maior de habitat’s do que em ambientes extensos( BLONDEL et al.1988). Para Anjos e Boçon (1999) as causas da densidade compensatória não estão claras mas elas podem ser diferentes de acordo com a auto-ecologia de cada espécie.
De uma forma geral é vista como negativa a fragmentação das florestas em relação a uma floresta completa. Devido as razões já expostas anteriormente, pode-se observar que os fragmentos não têm perspectivas a longo prazo sendo uma tendência o fim das espécies vivas contidas neles. Existe a possibilidade da criação de corredores que liguem os fragmentos próximos o que ainda gera bastante discussão por não se saber ao certo a eficiência dos mesmos. O certo é que os fragmentos tem suas vantagens por serem espaços verdes que servem de abrigo para muitas espécies, mas o ideal é a manutenção das grandes florestas e a recuperação de muitas outras, tendo em vista que no estado em que estamos não adianta apenas manter temos também que recuperar.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
FLEURY, Marina. Efeito da fragmentação florestal na predação de sementes da palmeira jerivá (Syagrus romanzoffiana) em florestas semidecíduas do estado de São Paulo. 2003
METZGER, J.P.. Estrutura da paisagem e fragmentação: análise bibliográfica. Anais da Academia Brasileira de Ciências 71:445-463. 1999
BLONDEL, J. et al.. Birds impoverishment, niche expansion, and density inflation in mediterranean island habitats. Ecology, Washington, D.C., v. 69, p. 1899-1917,
1988.
ANJOS, L. dos; BOÇON, R. Bird communities in natural forest patches in southern Brazil. Wilson Bull., Lawrence, v. 111, n. 3, p. 397-414, 1999.
Ninguém sentiu o teu espasmo obscuro, ó ser humilde entre os humildes seres, Embriagado, tonto dos prazeres, o mundo para ti foi negro e duro. Atravessaste no silêncio escuro a vida presa a trágicos deveres e chegaste ao saber de altos saberes tornando-te mais simples e mais puro. Ninguém te viu o sentimento inquieto, magoado, oculto e aterrador, secreto, que o coração te apunhalou no mundo, Mas eu sempre te segui os passos sei que cruz infernal prendeu teus braços e o teu suspiro como foi profundo!
Não tenho tendência para crendices. Não acredito que os números, por exemplo, cometam quaisquer tipos de interferências em nossas vidas pessoais ou sociais. Os fatos, aos meus olhos, quando relacionados a esses eventos são meros acasos ou felizes ou tristes coincidências. Mas o dia de hoje, dia 19, me é extraordinariamente excepcional. Foi num dia 19 que meu pai nasceu; foi num dia 19 que minha mãe morreu; foi num dia 19 que ganhei o primeiro livro de poesia; foi num dia 19 que um dos poetas da minha mais expressiva admiração morreu: Cruz e Souza – João da Cruz e Souza –, aos meus olhos o principal poeta simbolista do Brasil. Coincidências! Nada mais que coincidências.
E a coincidência mais evidente foi haver recebido, do meu pai, coisa que não era comum, um livro de poesia, Broqueis (Broquéis é o livro escrito pelo poetacatarinenseCruz e Sousa. Publicado em 1893, ele é composto por poesias, sendo uma das obras simbolistasbrasileiras. É marcado pela influência de Baudelaire, que traz o mal como algo belo. Neste livro, Cruz e Souza utiliza uma linguagem mais erudita, fazendo todo um jogo de palavras. Usa a cor branca para representar a espiritualidade, além de elementos vagos. A todo tempo deseja o espiríto, mas perde a espiritualidade com o elemento material), de autoria de Cruz e Souza. Contava então com 10 anos de idade. Naquele dia, um dia 19 (março de 1960), despertei para a poesia. E mais: descobri, muitos anos depois, que meu pai fora admirador deste ramo da literatura. Que meu fora admirador de Cruz e Souza. Que ele me dera o livro porque, naquele dia 19, assim como no 19 de hoje, completa assim como completa hoje, mais um aniversário de morte do Dante Negro do Brasil. Coincidências! Nada mais que coincidências.
CRUZ E SOUSA
João da Cruz e Sousa (Nossa Senhora do Desterro (atual Florianópolis) 24 de novembro de 1861 — Estação do Sítio, 19 de março de 1898) foi um poetabrasileiro, alcunhado Dante Negro e Cisne Negro. Foi um dos precursores do simbolismo no Brasil.
Filho de negrosalforriados, desde pequeno recebeu a tutela e uma educação refinada de seu ex-senhor, o Marechal Guilherme Xavier de Sousa – de quem adotou o nome de família. Aprendeu francês, latim e grego, além de ter sido discípulo do alemãoFritz Müller, com quem aprendeu Matemática e Ciências Naturais.
Em1881, dirigiu o jornalTribuna Popular, no qual combateu aescravidão e o preconceito racial. Em1883, foi recusado como promotor deLagunapor ser negro. Em1885lançou o primeiro livro, Tropos e Fantasias em parceria com Virgílio Várzea. Cinco anos depois foi para oRio de Janeiro, onde trabalhou como arquivistanaEstrada de Ferro Central do Brasil, colaborando também com o jornalFolha Popular. Em Fevereiro de 1893, publica Missal (prosa poética) e em agosto, Broquéis (poesia), dando início aoSimbolismono Brasil que se estende até 1922. Em novembro desse mesmo ano casou-se comGavita Gonçalves, também negra, com quem tem quatro filhos, todos mortos prematuramente portuberculose, levando-a à loucura.
Faleceu a 19 de Março de 1898 no município mineiro de Antônio Carlos, num povoado chamado Estação do Sítio, para onde fôra transportado às pressas vencido pela tuberculose. Teve o seu corpo transportado para o Rio de Janeiro em um vagão destinado ao transporte de cavalos. Ao chegar, foi sepultado no Cemitério de São Francisco Xavier por seus amigos, dentre eles José do Patrocínio.Onde permaneceu até 2007, quando seus restos mortais foram acolhidos no Museu Histórico de Santa Catarina – Palácio Cruz e Sousa no centro de Florianópolis.
Foi integrante da Academia Catarinense de Letras, de cuja cadeira 15 é patrono.
Análise da obra
Seus poemas são marcados pela musicalidade (uso constante de aliterações), pelo individualismo, pelo sensualismo, às vezes pelo desespero, às vezes pelo apaziguamento, além de uma obsessão pela cor branca. É certo que encontram-se inúmeras referências à cor branca, assim como à transparência, à translucidez, ànebulosidade e aos brilhos, e a muitas outras cores, todas sempre presentes em seus versos.
No aspecto de influências do simbolismo, nota-se uma amálgama que conflui águas do satanismo de Baudelaireao espiritualismo (e dentro desse, idéias budistas e espíritas) ligados tanto a tendências estéticas vigentes como a fases na vida do autor.
Embora quase metade da população brasileira seja negra, poucos foram nossos escritores negros e mulatos. E, entre eles, poucos foram os que escreveram em favor da causa negra. Cruz e Souza, por exemplo, é acusado de ter-se omitido quanto a questões referentes à condição negra. Mesmo tendo sido filho de escravos e recebido a alcunha de “Cisne Negro”, o poeta João da Cruz e Souza não conseguiu escapar das acusações de indiferença pela causa abolicionista. A acusação, porém, não precede, pois, apesar de a poesia social não fazer parte do projeto poético do Simbolismo nem de seu projeto particular, o autor, em alguns poemas, retratou metaforicamente a condição do escravo. Cruz e Souza militou, sim, contra a escravidão. Tanto da forma mais corriqueira, fundando jornais e proferindo palestras por exemplo, participando, curiosamente, da campanha antiescravista promovida pela sociedade carnavalesca Diabo a quatro, quanto nos seus textos abolicionistas, demonstrando desgosto com a condução do movimento pela família imperial.
Quando Cruz e Souza diz “brancura”, é preciso recorrer aos mais altos significados desta palavra, muito além da cor em si.
Fazia um bocado de tempo que não punha os olhos no Câmara, que conheço desde os tempos de infância. Jogamos pelada, bolinha de gude, soltamos balão e pandorga, fizemos peraltices pelo curso da vida. Mais tarde, freqüentamos os botecos tradicionais daqui e d’alhures, onde sempre se revelou um bom copo.
Um dos fracos do Câmara, que nunca escondeu, foi o belo sexo. Por um rabo de saia é capaz de proezas inimagináveis.
Lembro-me de casos amorosos que o deixavam na maior lona.
Câmara é desses amantes chatos, que se apaixonam à primeira vista. Se a paixão não der certo ou por alguma razão não evolui, curte uma dor de corno inenarrável. Haja a se lamuriar como os mais sofredores dos homens, para quem as mulheres sempre foram insensíveis e sem alma.
Quantas vezes, alta madrugada, tive que aturá-lo em mesas de botequim, que, depois da terceira dose de uísque (ou de traçado) – para ele dava no mesmo, nunca distinguiu uma bebida de outra, só não tolerava pinga, desfilando as paixões dolorosas, que não acabavam em sangue porque o Câmara sempre foi uma pessoa pacata e civilizada, incapaz de atos tresloucados.
Como disse, fazia tempo que não o encontrava. O que tinha sabido é que se mudara. Prometera não voltar mais à Ilha, onde deixara outra de suas grandes paixões. Não queria mais vê-la. Essa moça foi um negócio meio complicado. Era casada. Separou-se do marido. Teve um filho com ele. Quando o amor acabou (o amor sempre acaba, como diz Paulo Mendes Campos, em memorável crônica), estava de novo na pior, sem eira nem beira. Nem um teto tinha para morar. Como nunca teve emprego fixo, socorreu-se de amigos para se mandar nem sei para onde.
Pois vou passando de carro há dias por uma rua central e quem vejo, com uma camisa de listras verticais azuis e brancas? Quem poderia ser com todo aquele ar dengoso e agarrado a uma morena de primeiro time? Ele provavelmente beirando os 70. Ela em torno dos trinta (balzaqueana), inteiriça, como lhe convém.
O Câmara, como foi sempre de seu feitio, punha o braço em volta do pescoço da moça, aconchegava-a, em gestos que, em público, não o recomendavam.
Mas o Câmara ligou algum dia para o que os demais acharem de um pouco mais de agressividade no trato de uma garota?
Procurei um estacionamento próximo para abordá-lo.
Notei que tinha emagrecido um pouco mais. Andava pelos oitenta quilos.
Era um massa bruta. E mais: bom de briga. Por muito pouco é capaz de ir às fuças de qualquer um.
Percorri a rua onde presumivelmente poderia estar com a morena.
Não houve jeito de achá-lo.
Ou não seria ele? Ou alguém parecido com ele?
Não tenho dúvida. Com aquela “pinta” não poderia ser outro.
Deve ter pegado um rumo qualquer com a morena. Convidou-a para tomar um chá. Sempre começa com convites menos sofisticados. Até conduzir a moça a uma alcova.
Mulherengo incorrigível, só acha graça na vida quando agarrado, como o vi, a um bom pedaço de mulher.
O Oeste do Paraná recebeu algum tempo atrás o ministro chinês Pu Haiging, o encarregado de construir a maior hidrelétrica do mundo – Três Gargantas. Mas o camarada ministro não vai poder cantar muito de galo com sua hidrelétrica superior a Itaipu, já que no Brasil temos três gargantas muito maiores.
Temos, por exemplo, a garganta do presidente. Quanto mais fala em povo, mais se entrega aos ricos. Menos verbas para a educação, mais grilagem oficializada na Amazônia etc. É o pequeno-burguês escalado para fazer a alegria dos grandes burgueses: a “força do povo” bancando as PPPs. Além de pretender a América Latina unida “da Patagônia à Terra do Fogo” (os argentinos amaram), vem aí a tal da flexibilização, que dará muito arrepio em quem reelegeu Lula. Temos, também, a garganta dos governadores. Falam diabos e os tubos, mas seus estados continuam com índices ridículos de IDH.
Por último, temos a garganta dos prefeitos. Montados em cima da bala, como no conto de Stephen King, garganteiam que estão executando suas prioridades e, contudo, apenas assistem à míngua de seus cofres com o pagamento de salários altos a compadres, sócios e parentes. As prefeituras estão em petição de miséria e não cumprem seus deveres. Algumas ainda desviam dinheiro de programas sociais para custear guardas municipais inúteis. Garganteiam e mascam maravilhas, mas cospem a poeira do custeio. Se não usassem alguns truques – como parar praticamente tudo – nem fechariam o ano com as contas em dia. Seriam sérios candidatos ao rigor da Lei de Responsabilidade Fiscal.
Além dessas três gargantas, bem maiores que as chinesas, temos também três, trinta, trezentos gargalos. E continuaremos a tê-los enquanto as três gargantas que nos enrolam continuarem fazendo das suas. Nas eleições, o poder econômico e os ricos faturaram geral. Gargantearam democracia, mas o que se viu? As empresas que mais negociam com a administração pública foram as principais doadoras de recursos para as campanhas vitoriosas. O caso do governador mineiro Aécio Neves (PSDB) é típico para mostrar quem gosta de tucanos: ele recebeu R$ 1,18 milhão em doações de bancos e R$ 2,26 milhões de construtoras ou empresas de engenharia. Petistas e seus rebocados de “esquerda” também foram por aí.
No meio dessa garganteação toda, temos agora uma novidade: o bolsa-ingresso. Como além do bolsa-família (pão) é também preciso o circo, os pobres receberam de presente em Cascavel essa coisa que também poderia ser chamada de “bolsa-rodeio” ou “bolsa-circo”. Passes para pobre ir à Exposição Agropecuária fazer de conta que está comprando e vendendo boi.
Talvez não fosse má idéia se além de ouvir insossas duplas “sertanejas” e assistir a rodeios asquerosos nossos miseráveis pudessem também receber bolsa-ingresso para ouvir boa MPB, aquela que não toca em rádio, e assistir a peças de teatro. E, sonho dos sonhos, “bolsa-livro” para ler pelo menos obras básicas como “o que é cidadania”, “como nossos direitos são pisoteados”, “safadezas do clientelismo” e “de como eles brigam e porque só dói na gente”. Só faltará então disponibilizar, verbo que adoram, um genuflexório para o miserável se joelhar e agradecer ao bondoso político que lhe dá o bolsa-ingresso.
Mais salário, terra e renda, tri-garganteadores! Esmolinha, não.
luíz felipe leprevost em ComFusão 2 no teatro paiol – curitiba – foto de gilson camargo
ORAÇÃO
Que Deus te proteja das gorduras trans, do bacon, do Baconzitos e de todas aquelas merdas da Elma Chips, das batatinhas fritas do Mac, e do Big Mac, e do Funcionário do Mês. Deus te proteja. Esse querido Deus parceiro do Sundown fator 30. Esse Deus inimigo dos raios ultra violeta. Inimigo dos canos de escape dos caminhões da Ford. Esse Deus maravilhoso, botânico da Boticário. Parceiro dos condicionadores de cabelo. Esse Deus feito à imagem e semelhança do Brad Pitt. Sócio investidor das mais bem equipadas academias de musculação, de fitness. Sócio investidor das clínicas de estética. Prestador de consultorias pra fabricantes de antiácidos e anfetaminas. Esse Deus da Vitamina C, D, E, K, A, B, B1, B2, B12. Esse da Aspirina. Do sabonete Phebo. Das lâminas da Gillette. Do Polvilho Antisséptico Granado. Que esse Deus, que amamos, me proteja e te proteja de sarnas e micoses. De artrites, alzheimers e artérioescleroses. Obrigado Deus. Obrigado Deus pelo aparelho nos dentes, pelas lentes de contato, pelas botinhas ortopédicas e por essas maravilhosas próteses.
leprevost veste: manto de papéis de balas e chocolates de efigênia rolim.
A globalização enfraqueceu os regionalismos. Somos “do mundo todo”, mas, para isso, não somos “de nenhum lugar específico”. Particularidades, hoje, afastam; similitudes aproximam, a ponto de nos homogeneizarem até demais… Há pouco tempo, era diferente. Há algumas décadas, quero dizer. E tão diferente que agora não conseguimos entender direito… Estou falando da segunda metade do século XX e da aproximação que sentíamos, aqui no Brasil, da América Latina. Hoje, por exemplo, estamos mais próximos de Rússia, Índia e China (a fim de compor os tais BRICs) do que de nossos vizinhos.
Entre os anos 60 e 70, havia um poeta brasileiro que podia nos transmitir esse sentimento perdido: de ser latino-americano e ser do Brasil. Ainda pode, na verdade. Trata-se de Manoel de Andrade, que teve o seu Poemas para a Liberdadelançado, recentemente, em edição bilíngue (pela Escrituras Editora). Numa época como a nossa, em que artistas brasileiros almejam se lançar no exterior, Andrade escreveu poesia para toda a América Latina. Ecoou o sentimento do homem latino-americano, a partir do Brasil, e percorreu o continente, num autoexílio de provação e, ao mesmo tempo, de consagração.
O apelo à coletividade ecoa já no princípio, em “Canción para los hombres sin rostro”, poema escrito em setembro de 1968, em Curitiba. Manoel fala em mártires: “Yo he de morir para que tú no mueras”. Fala de outsiders: “Canto a los parias de la vida” (“Canto a los hombres sin raíces, sin familia, sin patria”). E se espanta, obviamente, com os anos de chumbo: “Ah, que tiempos son esos?”. Entregando, finalmente, sua produção a todos: “Mis versos que al final nunca serán de nadie”. Dentro do contexto de triunfo do indivíduo a que chegamos, atualmente, com mais falantes do que ouvintes (por exemplo, nas novas mídias), fica quase impossível entender como alguém podia abrir mão do que escrevia, preferindo soltar poemas apócrifos, diluindo-se no sentimento geral.
As palavras de Manoel de Andrade rodaram a América Latina, sendo republicadas em periódicos de quase todos os países, mas não porque ele apostasse em “marketing pessoal”, fizesse “marketing viral” ou fortalecesse “sua marca” – e, sim, porque preferia não assinar, para ser mais simpático à causa de todos; porque, nesse esforço de identificação, todos o repassavam de bom grado; e porque, sem interesse, ele transcendeu suas limitações pessoais.
“Portunhol selvagem”
Em “Que es la poesia… mi hermano?”, ao afimar “es el amor hecho fuego”, Manoel se aproxima do nosso contemporâneo Douglas Diegues, que, neste momento, prega, além do “portunhol selvagem”, a “poesia feita com esperma”. Fora coincidências como essa, que não poderia jamais prever, Manoel de Andrade se aproxima de antecessores consagrados, como Fernando Pessoa, em “Mensaje” (dirigindo-se profeticamente ao futuro): “Vosotros que aguardáis la vida en el vientre de los siglos”. Evocando Pessoa, outra vez (mais especificamente Bernardo Soares, do Livro do Desassossego), em “El sueño del sembrador”: “Es necesario hacer del sueño la última trinchera”. E, naturalmente, traçando paralelos com o universal Che Guevara, em “Réquiem para um poeta guerillero”.
Em entrevistas, inclusive, Manoel reconheceria: “Por ahora creo que soy más necessario en la poesía que en outro tipo de lucha”. Lemos, ainda, que “poesía comprometida” se opunha então à chamada “poesía de consumo” e percebemos que, apesar de todas as aproximações que podemos fazer através da forma, há um abismo entre a produção de agora e a de antes, por um simples motivo, o do engajamento (ou da falta dele): “Los nuevos poetas del continente [nos anos 60 e 70]… han sabido comprometer sua poesia con la época que les toca vivir”.
Nem tudo são rosas na trajetória e na produção de Manoel de Andrade, contudo. Em El marinero y su barco, escrito em Lima, em 1969, ele deixa escapar: “Si, hay cosas tristes en la vida”. E, abordando o autoexílio (que infelizmente não detalha muito no livro), registra ainda entrevistas que acrescentou ao volume (como “fortuna crítica”): “Las acusaciones contra Manoel de Andrade se resumen en una: hace versos”. Em Canto a los marginales, parece falar a si próprio: “Donde están tus fariseos y las piedras que te lanzaron?”. E, num momento de desespero, volta-se, mais uma vez, a Guevara: “En cualquier lugar que nos sorprenda la muerte, bienvenida sea”.
Esquecido
Mas a principal tragédia de Manoel de Andrade não foi, artisticamente, a perseguição ou mesmo a ameaça de morte física. Foi o esquecimento nestas últimas décadas (no Brasil): “De celebrado autor de libros por el continente, se resignaba a ser un modesto vendedor de enciclopedias”. Os anos de chumbo se consolidaram nos 70 e desembocaram, finalmente, na abertura, a partir dos 80, mas o poeta não conheceu, novamente, a consagração de antes, nem teve a oportunidade de ser resgatado, como autor. Fala com distanciamento hoje, 40 anos depois, em sua primeira edição desde o auge.
Poemas para a Liberdade, em suma, deve ser lido menos como uma curiosidade de uma época distante, que se afastou do próprio autor com o passar dos anos, e mais como uma realização, legitimamente autoral, que transcendeu as fronteiras e alcançou o que muitas obras não alcançaram, com toda a eficiência posterior das comunicações. Dizem que o que nossa época perdeu em matéria de “sonho”, ganhou em matéria de “realidade”, mas é o caso de perguntar, talvez a Manoel de Andrade, se é este o “futuro” com que se sonhou e, principalmente, se estamos sendo dignos dos que lutaram a fim de que desfrutássemos dessas liberdades todas.
O pós-modernismo nos roubou o senso histórico. Podemos não cair em armadilhas utópicas e totalitarismos, mas, ao mesmo tempo, guardamos no íntimo a sensação de não estar dialogando o suficiente com os problemas do novo milênio… É tudo menos “monolítico” hoje, as opiniões não são mais “a favor” ou “contra”, mas, apesar desta nova consciência, o sentido (e a força) de um desejo de transformação evaporou-se. Manoel de Andrade, como nós, não deve entender o que está acontecendo, mas seu Poemas para a Liberdade pode nos mostrar, ao menos, diferenças inquietantes do sentimento de ser brasileiro e de ser latino-americano.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou nesta quinta-feira (11) que a nova gripe A (H1N1) encontra-se em situação de pandemia, declarou um oficial norte-americano. O comitê de emergência da OMS se reuniu por teleconferência e decidiu aumentar o nível de alerta para o mais alto, da fase 5 para a 6, o que significa que o vírus está provocando a primeira epidemia global de gripe em 41 anos.
A decisão foi motivada pelo aumento dos casos de infecção pelo vírus nos EUA, Europa, Austrália, América do Sul e em outros lugares. Mais cedo, o governo da Suécia já havia informado a imprensa da decisão da OMS.
“Neste estágio inicial, a pandemia pode ser caracterizada como sendo moderada em sua severidade” diz o comunicado enviado aos seus membros, em que a OMS informou que o nível de alerta para a gripe suína foi elevado da fase 5 para 6, o topo da escala, já que há um surto global do vírus. A organização pediu que as nações não fechem suas fronteiras nem restrinjam viagens e comércio. “Continuamos em diálogo com os produtores de vacina contra gripe”, disse.
A fase seis, que se traduz em que uma epidemia global está em andamento, significa que já há focos que se contagiam em nível comunitário em pelo menos outro país de uma região da OMS diferente da primeira na qual foi detectado, no caso, o vírus A(H1N1).
Até agora, um total de 27.737casos foram comunicados à OMS por parte de 74 países, com 141 mortes. O país que lidera a lista de atingidos é os Estados Unidos, com 13 mil casos; seguido pelo México – onde houve os primeiros casos -, com cerca de 6 mil; o Canadá, com mais de 2 mil; e a Austrália, que já superou mil casos. Os outros Estados com maior número de casos são Espanha, Japão, Reino Unido e Chile.
Vírus
Na quarta-feira (10), a diretora-geral da OMS, Margaret Chan conversou com os ministros de saúde dos países mais afetados pelo vírus. Segundo a porta-voz da OMS, Fadela Chaib, Chan consultou “os ministros dos sete ou oito países mais afetados”.
A OMS havia reconhecido nesta semana que a declaração de uma pandemia era iminente, e disse que ainda não havia ocorrido porque era preciso preparar o mundo para que entenda esse passo corretamente.
“O vírus continua se estendendo pelo mundo, e a atividade do mesmo está aumentando em diferentes países. Estamos cada vez mais perto de uma situação pandêmica, mas a OMS está trabalhando duro para preparar os países e as pessoas”, disse o diretor-geral adjunto, Keiji Fukuda.
“Queremos que seja muito bem entendida a mensagem se declaramos a fase 6 de pandemia, isso significa que o vírus se estende e que há contágios estáveis em comunidades em países de várias regiões”, assinalou Fukuda.
Porém ele esclareceu que “isso não significa que o vírus tenha se tornado mais grave, que a doença seja mais séria e que a taxa de mortalidade tenha aumentado”.
A 7ª Bienal do Mercosul, que se realiza em Porto Alegre, de 16 de outubro a 29 de novembro, abre concurso para artistas de todo o mundo, para uma de suas exposições, a mostra Projetáveis.
As inscrições seguem até o dia 10 de julho. Só serão aceitos trabalhos inscritos através do site www.bienalmercosul.art.br/projetaveis.
A exposição será apresentada no Santander Cultural, instituição que patrocina a Bienal do Mercosul. Esta seção da 7ª Bienal, concebida pelo curador adjunto e artista Roberto Jacoby, se propõe a explorar a materialização e localização específica dos projetos que utilizam a Web como canal além das fronteiras geográficas ou de suportes finais.
Os Projetáveis são peças bytes + atoms, formas híbridas que viajarão pela internet para serem “baixadas” ou transmitidas em tempo real, via streaming, para em seguida integrarem a exposição na 7ª Bienal do Mercosul.
Os projetos apresentados podem ser visuais (fotografias, imagens, slide shows, sombras, vídeos, filmes de curta, media ou longa metragem, animações, vídeo-instalações, flashes), sonoros ou performáticos (VJ e DJ, performances, conferências), ou outros meios (páginas web e jogos interativos). Devem ser “projetáveis” em monitores, telas ou objetos, em contextos específicos concebidos como parte do projeto.
Também devem ser projetos que possam andar pelo mundo sem bagagem, para em seguida adquirir sua forma local definitiva, a serem instalados dentro ou no entorno do Santander Cultural.
In dies singulus (um a um, um depois do outro) o movimento se dá dialeticamente. Porém, como ressalta Paul Foulquié, na “Dialética”: “Não é a predominância dos motivos econômicos na explicação da história que distingue de uma maneira decisiva o marxismo da ciência burguesa; é o ponto de vista da totalidade. A categoria da totalidade, a predominância universal do todo sobre as partes, constitui a própria essência do método que Marx retomou de Hegel, que ele transformou de maneira a fazer dele o fundamento original de uma ciência inteiramente nova [...]”. E acrescenta Georg Luckács: “A predomimância da categoria da totalidade é o suporte do princípio revolucionário na ciência”.
Exacerbar os ânimos na apreciação dos aspectos políticos parciais só poderá conduzir à radicalidade do oportunismo, pois o cotidiano político é a própria política no dia-a-dia que nos esconde a totalidade dos acontecimentos. Tal visão obscura do cotidiano não consegue ultrapassar o oportunismo e seu anedotário social nesta sociedade do espetáculo, principalmente porque nossa vivência é simplificadora e alienante, construída sob interesse e proveito de pessoas e suas classes sociais. Ademais, não poderia ser suficiente uma leitura tática do que acontece, nos passos que se revelam; e somente uma visão estratégica da política poderá evidenciar os fatos e seus desdobramentos à luz dialética de um racional discernimento político.
Como o movimento é o modo de existência da matéria, a própria vida orgânica é por ele determinada; e como a vida biológica e as ações sociais nos seus movimentos, também as políticas são práticas em processos de ações com sentidos contraditórios. Sua efetividade se expressa dialeticamente por aspectos positivados e sua negação ‑ sendo necessários ou causais, fundantes para… ou alienantes de…, oportunos, úteis ou anódinos. Importa-nos considerá-los se justos, oportunos e beneficiosos, porém sob as leis do movimento dialético qual será seu devir a partir das premissas? E se não podemos antevê-las nos pormenores, como saberemos de seu fio condutor no processo da luta de classes senão pela confirmação primacial de transformações revolucionárias (e não “evolucionárias” no sentido de conservação e consolidação das estruturas de dominação capitalista-imperialista, logo de aumento na opressão e exploração das classes trabalhadoras) e se se dirige à evolução das classes trabalhadoras, em especial do seu cerne operário-técnico-científico.
Não aprendemos ainda a distinguir a política Vargas (fundante do liberalismo social e da nacionalidade livre) da política Juscelino (consolidante da democracia liberal e da abertura de fronteiras à importação imperialista). Também não discernimos a função do BNDES de hoje como instrumento de extravasão econômica brasileira na Bolívia, Equador, Uruguai e Venezuela, daquela das relações com Colômbia, Chile, Peru e México (paises assumidamente “alinhados” a Washington). Porque não se trataria de apoiar e estimular a expansão capitalista da Camargo Correia, Odebrecht, Vale do Rio Doce e similares (sendo a lógica do capitalismo sua expansão e acumulação, etc…) e sim do contexto econômico polarizado e das relações políticas bilaterais e seu reflexo em nossa própria economia política. Pagamos assim um “superávit primário” a essa expansão monopolista. (Revisto de outro)
O feriado de quinta-feira convidava ao exercício da fé e da reflexão. O que mais atraía os meninos da Cruzada Eucarística, do Colégio Catarinense, não eram os tapetes ornamentais, cuidadosamente desenhados nas ruas pelas Filhas de Maria. Verdadeiras obras de arte,reproduzindo imagens sacras, a Santa Ceia, a Via Crucis, o martírio de Jesus Cristo.
O impulso dos pequenos facínoras era transgredir, cometer pecadilhos veniais, colocar o pé no trilho daqueles artísticos canteiros, privilégio único de D. Joaquim Domingues de Oliveira, o D. Quincas, arcebispo Metropolitano e Primeiro Representante do “corpo de Cristo” naquela procissão de liturgia tão espetacular. A Eucaristia nas mãos do arcebispo, rodeado de “autoridades”, sob o abrigo do pálio – a “casinha ambulante”, espécie de cercadinho móvel dentro do qual se alojavam o Redentor e… os políticos.
– Queremos Deus, homens ingratos! – proclamava o refrão do hino sacro, entoado a plenos pulmões pelos jovens cruzados.
Essa reverente cortina musical, pontuada pela tuba da Banda da Polícia Militar, transformava-se na senha para a debandada dos transgressores, que já haviam pisoteado os tapetes e trocado a contrição pala descontração. Ali, na altura do “Poema Bar”, cabeceira da Praça XV, à direita da Catedral, os trânsfugas abandonavam o cortejo, imiscuindo-se com os que o assistiam. O chamariz irresistível estava na Rua Padre Miguelinho, ao lado da Cúria Metropolitana: um seriado do Cavaleiro Negro ou o celuloide inteiro de Sinbad, o Marujo, legítimo “capa e espada marítimo”, com Douglas Fairbanks Junior, Maureen O’Hara e Antony Queen – “filme de pirata” , cartaz do Cine Roxy, para contrastar com a atmosfera de contrição e recolhimento.
Segunda-feira, passado o feriadão, a “galera” voltava ao colégio, imaginando-se imune à punições, persuadida de que cometera o crime perfeito. Até que padre Jeremias, o Pomboca, atirasse a sua seta embebida em vingança:
– Para quem foi ver o “Marujo” na hora da procissão, tirem uma folhinha…. Tema de redação – e valendo nota: “Um Cruzado não pode ser um Infiel!”…
Impressionado com os pagadores de promessa da Procissão de Passos, perguntei à minha avó:
– Por que é que aqueles homens carregam pedras tão grandes?
A avó aproveitava para extrair daquela fé extrema uma boa lição para a pedagogia do nosso cotidiano, habitado por cinco irmãos nem sempre bem comportados, “cinco quibingas”, na definição já exausta de minha mãe.
– É que aqueles homens cometeram muitas artes quando meninos. Agora vão ter que carregar pedras pelo resto de suas vidas.
– Vó, a vida toooda?
– Até morrer, meu filho, aí o Senhor os libertará.
Entendia pouco aquele cilício, açoite voluntário que pune os fanáticos. Pensava: carregando uma pedra dessas, esses homens vão acabar morrendo antes que cheguem até “A Soberana”, ali na Rua Tiradentes – onde eu comprava as minhas balas “Uva do Norte”.
Percorro os corredores do Louvre com a vivacidade de uma lembrança pueril. A luz de um quadro de George de La Tour - “Saint Joseph, Charpentier” -despertou minha atenção quando o museu ainda não tinha a pirâmide e permaneceu como uma imagem que se projeta no tempo protegida do esquecimento. Luz! Percorro as galerias reconhecendo aos poucos as telas e os pintores, mas não consigo divisar o que é a presença da virginal percepção ou a recorrência das reproduções nos livros de história da arte.
Reencontro a Monalisa com o olhar amadurecido. Confesso que acho o quadro maior do que a memória. O sorriso… O enigma… Ou talvez a simplicidade que perverte a observação e deixa que os próprios mistérios e interditos assumam o olhar. Deixo-me envolver com o renascimento italiano, mas é necessário continuar a pegrinação em busca do encontro com a religiosidade de George de La Tour que pintava inspirado no cristianismo e no dia-a-dia das pessoas comuns com o exercício do “chiaroscuro” ou da perspectiva tonal, técnica criada por Leonardo da Vinci no Renascimento e desenvolvida no Maneirismo e no Barroco italiano.
Sem recordar em qual corredor guardei a lembrança, caminho num labirinto de cores e quase sonhos, tentando reconhecer a tela que tanto me impressionara. Ao entardecer encontro o espaço com os quadros de George de La Tour. A imagem restaurada de realidade. Quase memória, a revelar as estações como negativos projetados na emoção. Exploro com os olhos juvenis a superfície do tempo sazonado. O encantamento com a pintura permanece na convergência do olhar, talvez o verdadeiro significado de religiosidade.
Sempre pensei que ia morrer cedo. A luta armada, a clandestinidade, aventuras, promiscuidade, orgias, riscos… Tudo me levava a crer que não chegaria aos 30 anos. Para quem tem 20 anos, quem tem 30 já é coroa. Tomei um susto quando vi-me vivo e saudável aos 30. Aos 40 percebi a possibilidade real da morte. No dia do meu aniversário quarentão, um jovem ator de 24 anos perguntou como eu me sentia: “Agora? De frente para a morte.” Para minha surpresa foi o jovem quem morreu logo depois.
Aos 50 apaixonei-me pela letra de Aldir Blanc na voz de Paulinho da Viola: “Aos 50 anos, insisto na juventude…”, isso enquanto percebia meu ângulo peniano caminhando para os 90 graus. Mas, antes dos 60, a pílula azul alargou minhas possibilidades e possibilitou-me ver o sexo por ângulos mais estreitos.
Agora estou além dos 60. Aos 40 rezava pela alma dos mortos amigos e parentes. Nome por nome eu pedia ao Senhor. Hoje, são tantos os que caíram, que apenas peço “pelos mortos em geral”. E mais uma vez espanto-me por estar ainda vivo, e consolo-me no Salmo 91.7, que diz: “Mil cairão ao teu lado e dez mil à sua direita, mas você não será atingido.” Mesmo confiando na Palavra, ainda assim caminho embaixo de marquises pra São Pedro não me ver.
Ainda estou vivo, e pra quem pensou que morreria aos 30 descubro que existe vida após a vida. Mas o preço do viver é muito alto para o jovem de hoje: tem que comprar apartamento, arranjar um trampo, ganhar dinheiro, ficar famoso, comer todas, bombar no iutube, malhar, casar, ter filhos, comprar carro, estar bronzeado, conhecer tudo de web e ainda ir ao show da Madonna, entre outras miudezas.
Após os 60 você já está quite com tudo isso e pensa que vai viver em paz. Qual o quê: tem que tomar insulina, antidepressivos, rivotris, controlar a pressão, não comer açúcar, não comer sal, não fumar, não beber, se conseguir comer uma e outra já é uma vitória, tem que caminhar ao menos meia hora por dia, cuidar do joanete, dormir cedo,vender o apartamento, fugir da bolsa, não discutir no trânsito, não se alterar no caixa do supermercado, tolerar os filhos, agradar os netos, ficar calado diante da mediocridade, aceitar o salário de aposentado, ter o testamento em dia e curtir todas as dores ósseas, nervosas e musculares porque se algum dia você acordar sem dor é porque está morto.
Claro que o idoso tem suas vantagens: uma delas é a transparência. Quanto mais velho, mais transparente você se torna. Chega a ficar invisível: ninguém mais lhe percebe, mais um pouco e nem lhe enxergam. Mas pode passar à frente dos jovens nas filas todas, com aquele ar de superior: “Você é jovem e sarado, mas eu tenho prioridade.” E ante qualquer aborrecimento ou dificuldade você ameaça infartar ou ter um AVC. Funciona sempre, todos logo se tornam gentis e cordatos, e é garantia de muitas meias e lenços como presentes no Natal.
Lidando com a minha “terceira idade” ouço de meu psicanalista, o bom Luiz Alfredo: “Só há dois caminhos: envelhecer… o outro, muito pior.” Prefiro envelhecer, aceitando cada minúsculo “sim” que a vida me dá com uma grande alegria e uma grande vitória.
Hoje, quando encontro vaga num elevador de shopping, quando o banco está vazio, ou quando encontro promoção na farmácia, já considero uma bênção gigantesca e agradeço a Deus pela graça alcançada.
Após os 60, como no filme de Brad Pitt, regrido na existência, deixo Paulinho e a viola de lado e reencontro Lupiscinio: “Esses moços, pobres moços, ah, se soubessem o que eu sei.” Mas se soubessem não ia adiantar nada: porque a sabedoria é filha do tempo. Como
diz o amigo Percinotto, também idoso: “O diabo é sábio porque é velho.”
Pelo andar da carruagem, percebo que já morri muitas vezes nesta vida, e que viverei até fartar-me.
* Bemvindo Sequeira é autor, ator e diretor de teatro e TV
Em entrevista a Kourosh Ziabari, do site Foreign Policy Journal, o acadêmico e ativista americano Noam Chomsky critica a política de dois pesos, duas medidas contra o Estado do Irã e sua política nuclear, demonstrando que, durante o regime do Xá Reza Pahlevi, os EUA defendiam o desenvolvimento de tecnologia nuclear pelo país, na época submetido aos interesses americanos.
Leia abaixo a íntegra da entrevista, traduzida por João Manuel Pinheiro para o site O Diário.info.
Noam Chomsky não precisa de apresentação. De acordo com o The Guardian, trata-se, indiscutivelmente, do catedrático e analista sócio-político mais importante da era contemporânea e está considerado junto a Marx, Shakespeare e a Bíblia, como uma das dez fontes mais citadas das humanidades, e é também o único escritor, entre eles, que ainda está vivo.
Em referência ao livro Hegemonia e Sobrevivência de Chomsky, o presidente da Venezuela, Hugo Chavez, dirigindo-se à Nações Unidas, disse: “Convido-os, com todo o respeito, a quem ainda não tenha lido o livro, a que o façam.”
Em resposta à pergunta formulada numa entrevista em 2006 sobre que ações tomaria se fosse presidente, Chomsky respondeu: “Instauraria um Tribunal de Crimes de Guerra para os meus próprios crimes pois caso tivesse assumido essa posição teria que tratar com a estrutura institucional e com a cultura, a cultura intelectual. A cultura deve ser curada”.
Nesta entrevista, conversei com o professor Chomsky sobre o Irã, os assuntos nucleares, as relações entre Washington e Teerã e o impacto global dos lobbies sionistas. Um resumo desta conversa foi primeiramente publicado no diário iraniano de língua inglesa “Teheran Times”.
Kourosh Ziabari:Professor Chomsky, o senhor tem reiterado em numerosas ocasiões que a maior parte dos países do mundo, incluindo os membros do Movimento dos Países Não Alinhados, apoia o programa nuclear iraniano, no entanto, os neoconservadores dos Estados Unidos continuam a proclamar o seu lema agressivo.
Noam Chomsky:O Movimento dos Países Não Alinhados, mas também a grande maioria dos americanos pensa que o Irã tem o direito de desenvolver energia nuclear. Todavia, quase ninguém nos Estados Unidos tem consciência disso. Isto inclui todos aqueles que são inquiridos e que provavelmente acreditam que são os únicos que pensam assim. Nunca se publica nada sobre este tema. O que aparece constantemente nas mídias é que a comunidade internacional exige que o Irã suspenda o enriquecimento de urânio. Em quase nenhum meio se explica que a designação “comunidade internacional” é utilizada convencionalmente para se referir a Washington e a quem estiver de acordo, não só sobre este assunto mas em geral.
Kourosh Ziabari:A maioria dos analistas de assuntos internacionais ainda não pôde assimilar o duplo critério nuclear do governo dos Estados Unidos. Apesar de apoiar o arsenal atômico de Israel continua a pressionar o Irã para que suspenda os seus programas nucleares. Quais são as razões? Possui a AIEA (Agência Internacional de Energia Atômica) autoridade suficiente para investigar os casos de armamento nuclear em Israel
Noam Chomsky: O ponto fundamental foi explicado com franqueza por Henry Kissinger. O Washington Post perguntou-lhe por que razão ele agora afirma que o Irã não necessita da energia nuclear e que, por conseguinte, deve estar a trabalhar para construir uma bomba, enquanto em 1970 insistiu que o Irã necessitava de ter energia nuclear e que os Estados Unidos deviam prover o xá com os meios necessários para o conseguir. Foi uma resposta típica à Kissinger. Era um país aliado e, por isso, precisava de energia nuclear. Agora, que já não era um país aliado, não necessitava de energia nuclear. Israel, pelo seu lado, é um país aliado, mais precisamente um estado-cliente. Por isso, herda do amo o direito a fazer o que quer.
A AIEA possui a autoridade, contudo os Estados Unidos nunca permitiriam que a exerça. A nova administração dos Estados Unidos não tem dado provas de nenhuma alteração nesse sentido.”
Kourosh Ziabari: Existem quatro estados soberanos que ainda não ratificaram o Tratado de Não-Proliferação Nuclear (TNP) e que desenvolvem livremente bombas atômicas. Será o Irã libertado das pressões constantes; deve obter a sua ratificação e abandonar o tratado?
Noam Chomsky:Não, isso só faria aumentar as pressões. Excluindo a Coreia do Norte, todos esses países recebem apoio extensivo dos Estados Unidos. O governo de Reagan, fingia ignorar que o seu aliado Paquistão desenvolvia armas nucleares, para que a ditadura recebesse ajuda massiva dos Estados Unidos. Também os Estados Unidos, aceitaram ajudar a Índia a desenvolver as suas instalações nucleares; Israel é um caso especial.
Kourosh Ziabari: Que prováveis fatores poderiam dificultar a realização de conversações diretas entre o Irã e os Estados Unidos? É maior a influência do lobby judaico do que a dos sistemas empresariais dos Estados Unidos?
Noam Chomsky: O lobby judaico tem alguma influência mas é limitada. Isto foi demonstrado, uma vez mais, no caso do Irã no verão passado, durante a campanha presidencial, quando a influência dos lobbies se encontrava no seu apogeu. O lobby israelita pretendia que o Congresso aprovasse uma legislação que se aproximasse de um ato de bloqueio ao Irã, um ato de guerra. A medida obteve um apoio considerável, mas desapareceu de imediato, provavelmente devido à Casa Branca deixar bem claro, discretamente, que se opunha.
Quanto aos verdadeiros fatores, ainda não temos registros suficientes, de modo que é necessário especular. Sabemos que a grande maioria dos americanos quer ter uma relação normal com o Irã, mas a opinião pública raramente influencia a política. As grandes companhias dos Estados Unidos, incluindo as poderosas empresas de energia, gostariam de explorar os recursos petrolíferos do Irã. Contudo, o Estado insiste no contrário. Suponho que a razão principal, é que o Irã é demasiado independente e desobediente. As grandes potências não toleram aquilo que eles consideram ser parte dos seus domínios e as regiões de maior produção de energia do mundo há muito que são consideradas domínio da aliança anglo-americana, agora com o Reino Unido reduzido a sócio subalterno.
Kourosh Ziabari:Haverá uma transformação táctica ou sistemática na aproximação dos principais meios de comunicação social ao Irã durante a presidência de Obama? Podemos esperar uma redução da propaganda anti-Irã?
Noam Chomsky: Em geral, as mídias aderem ao sistema geral da política de estado embora algumas vezes os programas políticos sejam criticados com fundamentos tácticos. Muito irá depender, portanto, da postura que assuma o governo de Obama.
Kourosh Ziabari : Finalmente, acredita que o presidente dos Estados Unidos deveria seguir a proposta do Irã e pedir desculpa, pelos seus crimes históricos contra o Irã?
Noam Chomsky: Creio que os poderosos sempre devem reconhecer os seus crimes e pedir desculpa às vítimas e ainda reparar os danos causados. Infelizmente, o mundo rege-se maioritariamente pela máxima de Tucidides: os fortes fazem o que querem e os fracos sofrem como lhes é devido. Lentamente, a pouco e pouco, o mundo, em geral, torna-se mais civilizado. Mas ainda tem muito caminho a percorrer.
Domingo passado, 31 de maio, fazia um ameno sol de inverno no Rio de Janeiro. Havia uma expectativa de chuva ou tempestade à noite. Mas havia uma certa luminosidade sobre as praias. Os aviões chegavam e partiam. Em Paris, sendo primavera, o clima era agradável. Os aviões chegavam e partiam.
No Rio o comissário de bordo Lucas Gagliano preparava-se para o vôo que o levaria uma vez mais à França. Voltava à vida, apesar de há 15 dias ter assistido ao enterro do pai. Deu uns telefonemas e preparou sua bagagem.
O cirurgião plástico Roberto Chem com sua mulher Vera e a filha Letícia, vindos de Porto Alegre sobrevoavam o Rio encantados uma vez mais com o cenário que viam, e anteviam já as delícias de estar no dia seguinte na Europa.
Pedro Luiz de Orleans e Bragança, com seus 26 anos de estudante, preparava-se para retornar a Luxemburgo.Havia visitado seus pais em Petrópolis e tomava o rumo do aeroporto do Galeão.
O casal Christine e Fernando fez como fora combinado. Não deveriam nunca viajar juntos com os filhos. Por isto ele seguiu num outro avião mais cedo com o filho de três anos e ela dirigiu-se com o filho de 5 anos para o outro vôo dentro da noite.
Os 19 funcionários da empresa francesa CGED que haviam ganho como prêmio uma viagem de férias no Rio, iam fazendo piadas na condução para o aeroporto. Levavam em suas bagagens presentes para os colegas e familiares que ficaram na França.
Moritz Koch, arquiteto, havia realizado o seu sonho, que era se encontrar com o mítico Oscar Niemeyer e com ele realizar um projeto para a cidade em que morava Postdam. Voltava para casa como quem leva um troféu.
Eles estavam em lua de mel- Ana Negra e Javier Alvarez. E agora retornavam para casa. Mas Javier, pensava em ir antes para Dubai, enquanto ela seguiria para Barcelona.
Agora, o dentista Jose Amorim e sua esposa francesa Isis, podiam partir tranquilos, pois haviam comemorado o aniversário com seus familiares em Niterói.
Um bailarino precisava viajar mais cedo e uma senhora cedeu o seu lugar, por 200 euros e embarcou no lugar dele no avião que sairia à noite.
Enfim, 228 pessoas de 32 nacionalidades, estavam tomando seus assentos no mesmo avião e embarcando para a fatalidade.
Entre elas, meu amigo o maestro Silvio Barbato. Tentei contatá-lo dias antes para que viesse assistir a uma palestra que eu faria na casa dos colecionadores de arte Sérgio e Hecilda Fadel naquele domingo à noite. Éramos amigos há tempos. Foi na Biblioteca Nacional que ele apresentou pela primeira vez um concerto com árias inéditas de “O Guarany” de Carlos Gomes. Estivemos juntos inúmeras vezes, muitas delas, na mansão de Cesarina Rizo.
Silvio despediu-se de sua amada Antonella Pareschi – primeira violinista da Orquestra Petrobrás Sinfônica, e foi para o aeroporto. Já sentado no avião telefonou para ela reclamando jocosamente que o puseram lá no fundo, no último assento.
O avião levantou vôo. Como sempre.
Naquela hora eu fazia uma conferência sobre a arte de nosso tempo.
Cesarina Rizo, movida por estranho impulso, às 10 da noite, quando o avião cruzava o Atlântico, ligou para o celular de Silvio.
OS VIGIAS A POSTOS OBSERVANDO A CHEGADA DOS CARDUMES:
José Ercílio Gonçalves, o Piranha, é um dos mais experiêntes vigias do Pântano do Sul. Nascido no Campeche há 54 anos , ele está na pesca desde os quatorze. De sóli parido a sóli murrido ele está lá na vigia, concentrado nos cardumes e de olhos fixos no infinito. Hoje, é um dos poucos camaradas que vivem exclusivamente da pesca. É um pescador profissional. Sem decuidar do mar, ele explica como é que vê os peixes.
SEXTA-FEIRA, 5 DE JUNHO DE 2009
NOS INGLESES! 40 toneladas de tainha!!
OS VIGIAS, do alto dos morros, observam a chegada dos cardumes e avisam seus companheiros que se lançam ao mar.
Fernando Alexandre é jornalista, poeta, editor e autor do “Dicionário da Ilha – Falar & Falares da Ilha de Santa Catarina” e “Dicionário do Surf – A Língua das Ondas“.
Considero-me uma pessoa que já não se choca com nada. A minha vivência de perto com a guerra, deu-me a conhecer um mundo que julgo ser desconhecido da maioria do grande público: os obscuros bastidores dos negócios ligados aos conflitos internacionais. Porque, para além do comércio de armamento há muitos outros inerentes a estes flagelos, operações financeiras essas que vão desde a contratação de mercenários por agências especializadas, sedeadas na sua maioria em Londres, às Companhias de Seguro onde se estabelecem as condições em que esses mesmo mercenários ficarão cobertos por tais Apólices, revertendo, na sua maioria a favor das famílias. E aqui
aparece outro negócio que rende milhões. Só que em caso de morte desses mesmos mercenários, tais prémios só serão recebidos, se forem apresentados os corpos dos
mesmos. Por isso, logo se desencadeiam duas frentes de negociações: dum lado, os advogados das Seguradoras, que tudo fazem para que o corpo não apareça. Doutro lado
os representantes das famílias para que o corpo lhes seja restituído. E uma terceira frente de negociações surge: dos países onde os mercenários morreram, que conservam os cadáveres congelados, para, por sua vez, negociarem os mesmos. Na maior parte das vezes, a sua entrega contra prisioneiros do seu país. Terceira onda de negociações de
valores são discutidos, X por cabeça, ou pela entrega directa dos corpos, consoante
o que for mais lucrativo. E enganam-se aqueles que pensam que estas transacções se reduzem a meia dúzia de dólares. Não… Os valores atingidos cifram-se em milhões, porque os Seguros desta natureza, atingem milhões e milhões de dólares. Esta é, assim
uma das mil e uma ramificações de lucros financeiros, originados por qualquer conflito.
Este intróito, chamemos-lhe assim, foi apenas para vos explicar, que, felizmente ou infelizmente, já nada me surpreende neste mundo cão. E talvez por isso, nestes últimos tempos, resolvi fugir um pouco à negra realidade dos tempos que vivemos e preferi quedar na serenidade que me traz a poesia. Entrei no marasmo de tudo ignorar. Ouvi as manifestações contra a Globalização mas nem me incomodei muito com isso. Na realidade e confessando a minha culpa, nem paciência tinha para aprofundar o que era, afinal, essa tal Globalização. E o que se escrevia sobre ela era tudo em termos tão académicos, numa terminologia tão densa que eu começava a ler e rapidamente me perdia nos maçudos parágrafos cheios de ‘‘palavrões’’ que, para serem decifrados, tinha que, forçosamente, ter um dicionário ao meu lado.
Há três ou quatro dias, alguém me despertou desta apatia, e o que ouvi, vindo de quem veio, uma pessoa extremamente culta e um ‘‘expert’’ no que respeita à política internacional, fez-me entrar quase em pânico, para o que realmente estava a acontecer perante os nossos olhos, sem que, na nossa maioria, nem nos apercebêssemos que, se isto for, na realidade verdade, estamos todos nós a sermos vergonhosamente responsáveis pelo futuro dos nossos filhos e netos. Por isso, duma forma bastante sintética, mas servindo apenas como um alerta, porque quem quiser aprofundar a questão poderá sempre fazê-lo e poderá ter acesso à lista de nomes já do conhecimento de alguns historiadores e jornalistas internacionais que fazem parte deste Clube Bilderberg que tem ao que se saiba, um objectivo único: tornar-se no Governo sombra do Mundo. Isto assemelha-se quase a qualquer filme de ficção científica, mas analisando o que se está a passar diariamente no nosso planeta, parece-nos que a máquina já está em pleno movimento, rumo ao objectivo para a qual foi concebida.
Portanto, a Nova Era, será a Era da escravidão total. E a todos aqueles que estiverem interessados em conhecer os poderes secretos que neste momento governam o mundo e afectam a vida de todos os seus habitantes, atentem nos seguintes detalhes, que
constituem os objectivos principais do Clube Bilderberg – fundado em 1954 em Oosterback ,Holanda, por iniciativa do príncipe Bernhard desse país – :
1 – Procurar anular todos os países, existindo depois apenas Regiões da Terra e valores universais, isto é, uma Economia Universal e um Governo Universal, nomeado, não eleito, e uma Região Universal. Para tal, defendem mais abordagem técnica e menos conhecimento por parte dos Povos. Isto reduz as possibilidades dos mesmos se inteirarem do plano Global dos senhores do mundo, e criarem resistência.
2-Um Governo Universal Mundial, com um Mercado globalizado, policiados por um
Exercito Mundial, uma Moeda Única Mundial, regulada por um Banco Mundial.
3- Uma Igreja Universal para canalizar a Crença Religiosa que mais convenha na direcção desejada pela Nova Ordem Militar. A propósito: um dos objectivos será abolir a Cruz de Cristo. O Vaticano já foi contactado sobre isso, porque nos corredores de Bruxelas não há apenas rumores sobre propostas da anulação do Símbolo da Cruz por toda a Europa. Há já elaborações concretas em comissões de alguns Estados Membros para rectificarem as suas condecorações, para ‘’não magoarem a sensibilidade de maiorias religiosas que consideram a presença da Cruz como algo funesto’’. É uma nova Cruzada que se impõem porque é, já uma certeza, esta tentativa de auto-mutilação e a anulação do símbolo mais sagrado da Europa, a Cruz de Cristo. Como quem não quer, estão agora a pactuar com a destruição do símbolo cristão.
Mas voltemos aos objectivos do Clube:
4-Reforçar Organismos Internacionais para acabarem com todas as identidades nacionais. Só os valores Universais poderão prosperar.
5-Criação de Sociedades pós-industrialização de crescimento zero. Porá fim a toda a industrialização de energia eléctrica nuclear, excepto para a indústria informática e de serviços. As indústrias serão exportadas para países pobres, como América Latina e África, onde o trabalho escravo é barato.
6-O Crescimento Zero é necessário para destruir o progresso e dividir a sociedade em patrões e escravos. Não interessa a prosperidade porque dificulta a repressão.
7-Despovoamento das grandes cidades.
8-Provocar por meio da guerra, pela fome e pela doença, a morte de 4 mil milhões de
pessoas até ao ano de 2050. São os que os membros do Clube denominam de ´´comedores inúteis’’. Dos restantes 2 mil milhões, 500 milhões serão formados por chineses e japoneses, escolhidos, porque foram povos subordinados a uma disciplina férrea e que estão habituados a obedecer, sem questionar. Aproveito para fazer referência às declarações do Dr. Leonard Horowitz que assegura que a Gripe A tenha sido ‘‘fabricada’’ por bio-engenheiros anglo-americanos do laboratório Novavax.
9-Manter a população num estado perpétuo de desequilíbrio, físico, mental e psicológico, por crises fabricadas com esse objectivo. Isso impedi-la-á de decidirem o seu destino, confundindo-as a tal ponto que se gerará uma apatia colectiva e um sentimento de desinteresse total.
10-Assumir o controle da educação. A juventude actual está na sua grande maioria,
contribuindo inconscientemente para os seus objectivos, ignorando as liberdades individuais. Para os globalistas são adversários que já rotularam de ´’ sem princípios.
11-Assumir as Nações Unidas e promover a criação de um Imposto Directo da ONU, pago pelos cidadãos mundiais.
12-Instituição dum Tribunal Internacional de Justiça com um Único Sistema Jurídico.
13-Instalação dum Estado Único de Providência Social, onde os Trabalhadores Obedientes serão recompensados e os outros abandonados à sua sorte.
Estes, são, pois, os objectivos definidos. Todos sabemos que o domínio do mundo, já faz parte da sua História. Mas este Clube, na sua tentativa de subordinar-nos a todos, é, no meu entender, o pior mal que já enfrentámos, pois exerce um poder de coacção e terror que temo possa acabar com a resistência, onde quer que seja que ela exista para os fazer abandonar as suas eventuais intenções. É a ditadura mundial, porque ao que os mais entendidos asseguram é que Bilderberg é o ´´olho que tudo vê’’. Nas suas reuniões decidem-se a guerra, a fome, a pobreza, as derrocadas dos governos, as alterações políticas, sociais e monetárias. Um Governo invisível que controla tudo: Os E.U.A., o Fundo Monetário Internacional, O Banco Africano de Desenvolvimento, O Banco Mundial, as Nações Unidas, a União Europeia, e os homens mais poderosos do planeta que vão de banqueiros, a industriais, proprietários dos maiores meios da Comunicação
Social, etc. A lista dos seus membros é conhecida dalguns meios. Podíamos inclui-la aqui. Mas por motivos óbvios não o fazemos.
O Clube reúne-se anualmente com os membros, que estão autorizados a levar alguns convidados. Para o efeito, alugam por três ou quatro dias um hotel, que fica exclusivamente ao seu serviço. Em 1999 foi em Portugal, em Sintra, no Hotel dos Seteais. Este ano, terá lugar em Julho, na Grécia.
Este artigo vai longo mas procurei sintetizá-lo o máximo e, principalmente, numa linguagem simples, alertar todos os que me lêem que, no meu ponto de vista, e analisando as profundas mudanças que já estamos a verificar, penso que a verdade uma vez utilizada como arma, espalha-se pelo mundo de forma imparável, neste mundo que devemos estar conscientes, está em guerra. A guerra final entre a Verdade e a Mentira.
Neste momento, não há hipótese, de neutralidade, de ficarmos no nosso canto à espera de quem vence ou perde. Calar-se agora é permitir o nosso desaparecimento e a entrega de todas as conquistas que foram feitas durante séculos. Esclarecer é defender as nossas gerações futuras.
Vera Lúcia
Considero-me uma pessoa que já não se choca com nada. A minha vivência de perto com a guerra, deu-me a conhecer um mundo que julgo ser desconhecido da maioria do grande público: os obscuros bastidores dos negócios ligados aos conflitos internacionais. Porque, para além do comércio de armamento há muitos outros inerentes a estes flagelos, operações financeiras essas que vão desde a contratação de mercenários por agências especializadas, sedeadas na sua maioria em Londres, às Companhias de Seguro onde se estabelecem as condições em que esses mesmo mercenários ficarão cobertos por tais Apólices, revertendo, na sua maioria a favor das famílias. E aqui
aparece outro negócio que rende milhões. Só que em caso de morte desses mesmos mercenários, tais prémios só serão recebidos, se forem apresentados os corpos dos
mesmos. Por isso, logo se desencadeiam duas frentes de negociações: dum lado, os advogados das Seguradoras, que tudo fazem para que o corpo não apareça. Doutro lado
os representantes das famílias para que o corpo lhes seja restituído. E uma terceira frente de negociações surge: dos países onde os mercenários morreram, que conservam os cadáveres congelados, para, por sua vez, negociarem os mesmos. Na maior parte das vezes, a sua entrega contra prisioneiros do seu país. Terceira onda de negociações de
valores são discutidos, X por cabeça, ou pela entrega directa dos corpos, consoante
o que for mais lucrativo. E enganam-se aqueles que pensam que estas transacções se reduzem a meia dúzia de dólares. Não… Os valores atingidos cifram-se em milhões, porque os Seguros desta natureza, atingem milhões e milhões de dólares. Esta é, assim
uma das mil e uma ramificações de lucros financeiros, originados por qualquer conflito.
Este intróito, chamemos-lhe assim, foi apenas para vos explicar, que, felizmente ou infelizmente, já nada me surpreende neste mundo cão. E talvez por isso, nestes últimos tempos, resolvi fugir um pouco à negra realidade dos tempos que vivemos e preferi quedar na serenidade que me traz a poesia. Entrei no marasmo de tudo ignorar. Ouvi as manifestações contra a Globalização mas nem me incomodei muito com isso. Na realidade e confessando a minha culpa, nem paciência tinha para aprofundar o que era, afinal, essa tal Globalização. E o que se escrevia sobre ela era tudo em termos tão académicos, numa terminologia tão densa que eu começava a ler e rapidamente me perdia nos maçudos parágrafos cheios de ‘‘palavrões’’ que, para serem decifrados, tinha que, forçosamente, ter um dicionário ao meu lado.
Há três ou quatro dias, alguém me despertou desta apatia, e o que ouvi, vindo de quem veio, uma pessoa extremamente culta e um ‘‘expert’’ no que respeita à política internacional, fez-me entrar quase em pânico, para o que realmente estava a acontecer perante os nossos olhos, sem que, na nossa maioria, nem nos apercebêssemos que, se isto for, na realidade verdade, estamos todos nós a sermos vergonhosamente responsáveis pelo futuro dos nossos filhos e netos. Por isso, duma forma bastante sintética, mas servindo apenas como um alerta, porque quem quiser aprofundar a questão poderá sempre fazê-lo e poderá ter acesso à lista de nomes já do conhecimento de alguns historiadores e jornalistas internacionais que fazem parte deste Clube Bilderberg que tem ao que se saiba, um objectivo único: tornar-se no Governo sombra do Mundo. Isto assemelha-se quase a qualquer filme de ficção científica, mas analisando o que se está a passar diariamente no nosso planeta, parece-nos que a máquina já está em pleno movimento, rumo ao objectivo para a qual foi concebida.
Portanto, a Nova Era, será a Era da escravidão total. E a todos aqueles que estiverem interessados em conhecer os poderes secretos que neste momento governam o mundo e afectam a vida de todos os seus habitantes, atentem nos seguintes detalhes, que
constituem os objectivos principais do Clube Bilderberg – fundado em 1954 em Oosterback ,Holanda, por iniciativa do príncipe Bernhard desse país – :
1 – Procurar anular todos os países, existindo depois apenas Regiões da Terra e valores universais, isto é, uma Economia Universal e um Governo Universal, nomeado, não eleito, e uma Região Universal. Para tal, defendem mais abordagem técnica e menos conhecimento por parte dos Povos. Isto reduz as possibilidades dos mesmos se inteirarem do plano Global dos senhores do mundo, e criarem resistência.
2-Um Governo Universal Mundial, com um Mercado globalizado, policiados por um
Exercito Mundial, uma Moeda Única Mundial, regulada por um Banco Mundial.
3- Uma Igreja Universal para canalizar a Crença Religiosa que mais convenha na direcção desejada pela Nova Ordem Militar. A propósito: um dos objectivos será abolir a Cruz de Cristo. O Vaticano já foi contactado sobre isso, porque nos corredores de Bruxelas não há apenas rumores sobre propostas da anulação do Símbolo da Cruz por toda a Europa. Há já elaborações concretas em comissões de alguns Estados Membros para rectificarem as suas condecorações, para ‘’não magoarem a sensibilidade de maiorias religiosas que consideram a presença da Cruz como algo funesto’’. É uma nova Cruzada que se impõem porque é, já uma certeza, esta tentativa de auto-mutilação e a anulação do símbolo mais sagrado da Europa, a Cruz de Cristo. Como quem não quer, estão agora a pactuar com a destruição do símbolo cristão.
Mas voltemos aos objectivos do Clube:
4-Reforçar Organismos Internacionais para acabarem com todas as identidades nacionais. Só os valores Universais poderão prosperar.
5-Criação de Sociedades pós-industrialização de crescimento zero. Porá fim a toda a industrialização de energia eléctrica nuclear, excepto para a indústria informática e de serviços. As indústrias serão exportadas para países pobres, como América Latina e África, onde o trabalho escravo é barato.
6-O Crescimento Zero é necessário para destruir o progresso e dividir a sociedade em patrões e escravos. Não interessa a prosperidade porque dificulta a repressão.
7-Despovoamento das grandes cidades.
8-Provocar por meio da guerra, pela fome e pela doença, a morte de 4 mil milhões de
pessoas até ao ano de 2050. São os que os membros do Clube denominam de ´´comedores inúteis’’. Dos restantes 2 mil milhões, 500 milhões serão formados por chineses e japoneses, escolhidos, porque foram povos subordinados a uma disciplina férrea e que estão habituados a obedecer, sem questionar. Aproveito para fazer referência às declarações do Dr. Leonard Horowitz que assegura que a Gripe A tenha sido ‘‘fabricada’’ por bio-engenheiros anglo-americanos do laboratório Novavax.
9-Manter a população num estado perpétuo de desequilíbrio, físico, mental e psicológico, por crises fabricadas com esse objectivo. Isso impedi-la-á de decidirem o seu destino, confundindo-as a tal ponto que se gerará uma apatia colectiva e um sentimento de desinteresse total.
10-Assumir o controle da educação. A juventude actual está na sua grande maioria,
contribuindo inconscientemente para os seus objectivos, ignorando as liberdades individuais. Para os globalistas são adversários que já rotularam de ´’ sem princípios.
11-Assumir as Nações Unidas e promover a criação de um Imposto Directo da ONU, pago pelos cidadãos mundiais.
12-Instituição dum Tribunal Internacional de Justiça com um Único Sistema Jurídico.
13-Instalação dum Estado Único de Providência Social, onde os Trabalhadores Obedientes serão recompensados e os outros abandonados à sua sorte.
Estes, são, pois, os objectivos definidos. Todos sabemos que o domínio do mundo, já faz parte da sua História. Mas este Clube, na sua tentativa de subordinar-nos a todos, é, no meu entender, o pior mal que já enfrentámos, pois exerce um poder de coacção e terror que temo possa acabar com a resistência, onde quer que seja que ela exista para os fazer abandonar as suas eventuais intenções. É a ditadura mundial, porque ao que os mais entendidos asseguram é que Bilderberg é o ´´olho que tudo vê’’. Nas suas reuniões decidem-se a guerra, a fome, a pobreza, as derrocadas dos governos, as alterações políticas, sociais e monetárias. Um Governo invisível que controla tudo: Os E.U.A., o Fundo Monetário Internacional, O Banco Africano de Desenvolvimento, O Banco Mundial, as Nações Unidas, a União Europeia, e os homens mais poderosos do planeta que vão de banqueiros, a industriais, proprietários dos maiores meios da Comunicação
Social, etc. A lista dos seus membros é conhecida dalguns meios. Podíamos inclui-la aqui. Mas por motivos óbvios não o fazemos.
O Clube reúne-se anualmente com os membros, que estão autorizados a levar alguns convidados. Para o efeito, alugam por três ou quatro dias um hotel, que fica exclusivamente ao seu serviço. Em 1999 foi em Portugal, em Sintra, no Hotel dos Seteais. Este ano, terá lugar em Julho, na Grécia.
Este artigo vai longo mas procurei sintetizá-lo o máximo e, principalmente, numa linguagem simples, alertar todos os que me lêem que, no meu ponto de vista, e analisando as profundas mudanças que já estamos a verificar, penso que a verdade uma vez utilizada como arma, espalha-se pelo mundo de forma imparável, neste mundo que devemos estar conscientes, está em guerra. A guerra final entre a Verdade e a Mentira.
Neste momento, não há hipótese, de neutralidade, de ficarmos no nosso canto à espera de quem vence ou perde. Calar-se agora é permitir o nosso desaparecimento e a entrega de todas as conquistas que foram feitas durante séculos. Esclarecer é defender as nossas gerações futuras.
Se precisasse algum dia me hospedar num hotel local (não é o caso) escolheria, sem pestanejar, o “Hotel” (um pardieiro velho na rua Padre Roma, bem próximo do terminal Rita Maria), cujo nome é feito a tinta na parede que dá para o lado da rodoviária. Embaixo tem o “Portuga Show, petiscos e snooker” e ainda a “Serralheria Cardoso”. Se fosse o caso de me hospedar em Paris, para onde pretendo ir um dia, nem que seja apenas por alguns dias (pisar no solo parisiense já me proporcionará certamente muita alegria, tanto é meu entusiasmo por tudo que lhe diz respeito, seus escritores, seus artistas, sua paisagem), ficaria no “L,Hotel”, não sei se à margem esquerda ou direita do Sena. Foi nele que se hospedou Oscar Wilde, depois de ter amargado uma prisão estúpida, em Londres, por sua homossexualidade (tempos de moral vitoriana). O hotel, diz-se, a partir de então, ficou com má fama. À noite, ao que se conta, o fantasma de Wilde perambula por todas as suas dependências.
Conta-se que, quando Jorge Luis Borges chegou a uma cidade na Suiça, teve dificuldades de encontrar um hotel para se hospedar, justamente porque nenhum hotel quer assumir a fama de nele ter morrido uma celebridade. Borges pretextou que isso faz boa propaganda, embora o gerente insistisse em argumentar que não. Borges teve que ser enfático para ser, por fim, admitido como hóspede, ajudado pela interferência de Maria Kodama.
O prédio do “Hotel” é de feições coloniais, grandes janelões de frente, um único lance de escada, que dá acesso a um varandão como nos moldes de antanho. Faço um apelo pela sua preservação naquela paisagem que vai tomando ares sofisticados, com espigões horríveis, quando a paisagem precisa de casarões desse estilo. Sei que o interesse imobiliário ou a especulação do lucro não levam em conta aspectos como tais. A maioria das pessoas pouco se lixa para isso. Beleza não conta, e, sim, quanto se pode ganhar numa boa transação de um imóvel, não obstante sua importância paisagística e até, porque não dizer, cultural. A área está supervalorizada. Por isso, deve estar, certamente, com seus dias contados. Paris continua sendo cidade tão atraente porque nela convivem o novo e o velho pacificamente. Joyce, quando morava em Trieste, encontrou uma amiga que lhe disse achar Paris uma cidade suja. Ao que lhe respondeu: “Dirty is marvellous”.
Presumo que deva ser tranquilo um pernoite ali, melhor do que em hotéis sofisticados. Tem uma fachada que evoca tempos imemoriais, em que a cidade ainda era uma singela província. Por suas ruas trafegavam carrinhos puxados a cavalos. A vida era mais quieta e pacata. Não era esse atropelo de hoje.
Albert Camus considerava que o melhor lugar para se escrever uma novela (ou qualquer obra literária) é um quarto de hotel. O “Hotel” me parece o ideal para tal fim, dado o seu aspecto sossegado e à parte de tudo.
Os quartos devem ser exíguos, segundo os imagino, com uma cama de casal, um pequeno guarda-roupa, uma mesinha, um quadro à parede, numa moldura feia, mostrando uma figura vulgar. É tudo que espero que o decore.
Terá janelas?
Nas laterais não as vejo. Talvez só exista uma porta e nada mais de abertura. Deve ter um único banheiro para todos os hóspedes, o que é um inconveniente, mas altamente compensado pela beleza e amenidade que inspira.
Qualquer dia, quando me der na telha, vou lá me hospedar para sentir o prazer de passar ali umas boas horas escondido do mundo.