Autor Arquivo: Equipe Palavreiros da Hora

DOM QUIXOTE foi exilado à Campanha para morrer livre entre seus pares – de walmor marcellino / curitiba.pr

DOM Quixote foi exilado à Campanha
para morrer livre entre seus pares

 

A alguma criança.  WALMOR MARCELLINO

À coragem da perseverança na verdade, que se gruda como sombra no corpo enfraquecido e assustado mas desejoso de alguma transparência com os seus. Também infibulada e inquinada de delírio ou transcendência e outros solertes apupos.

Vou contar-te, menino
como o cavaleiro Dom Quixote
defronte gigante e feiticeiro
combinou derribar seu moinho
em galopada ou a trote
enfrentando cada um, primeiro
de frente e pelo lado.

 

Partiu ora a uma justa na Vila Militar:
Sancho desafiara toda a ordem
mas se escudava em Quixote a pelear.

 

Bradavam aos bravos: “Acordem!
que esta batalha vai começar”.
Mas qual! Indiferentes à luta
per meio tamanho egotismo
cada um deles buscava disputa
mais própria ao personalismo.

 

Travou-se ali pugna medonha
descobertos peitos e flancos
em combate, bravura e vergonha
encurralavam a morte aos trancos.

 

Já o estendal da morte impelia retirada;
vão-se em busca de algum sendeiro
a recuperar o ânimo, na voz armada.
Conclama-se rebate, enfim, a todos,
porém Quixote reage altaneiro:
“Hei de vencê-los inda que me custe
a vida de fidalgo cortar o embuste”.

 

Entretanto, a batalha é longa
fervorosa.
Não retrocede, ao tempo avança.
Quixote não abandona a luta, sustém a lança.
Seu cavalo marchador
não come feno há tempo.
Eis ginete de muito valor,
o cavaleiro come alento
seu cavalo come vento.
Se perder a batalha, fica exemplo.

 

Batido por frente e lado
seu poderoso escudo amassado
viseira nos olhos, a lança emperrada
Dom Quixote foi enfim dominado.
A causa ficou perdida, adiada.

 

É. Nem sempre os bravos vencem
mais justa que seja a bandeira
tão alto se põe o alcantil
duma conjura traiçoeira e vil.
Covardia só aos fracos abate
firma-se a coragem na jarreteira,
decisão e empenho no combate.

 

Foi lá por 1900, não me lembro quando
amargurado dessa derrota
fragorosa, com Dulcineia Tobosa
foram com o cavalo Rocinante.
Tu eras bem pequenino
quando Dom Quixote marchou a Cruz Alta
na fronteira do Rio Grande.
Exibia a lança manchada
olhar altivo, ferido mas soberbo
na sua armadura quebrada:
peada a luta, ainda bramia o verbo.

 

Depois, no entrementes:
por baixo do metal desfolhado
sua roupa se condiz rasgada;
só a alma fica ereta, ao lado
aguardando o corpo pra carga.
Esse Quixote intimorato à liça
encolhe-se à arremetida do vento
roupa em frangalhos, couro em treliça;
muito tarde vem o tento:
a lataria não o protege ao tempo.

 

Dulcineia vai, toma-lhe a febre
Sancho à fé alarga a colheita
de leite, carne-de-caça e lebre
em perfumada, boa comida feita.
A resposta é débil, todavia
o olhar mortiço, só às vezes
compadece o sonho, onde havia
de retornar às pugnas mais soezes.
A glória ascende em haustos
naquele solo, de acerba campanha,
onde centauros tiveram dos charruas
coragem e destemor em holocaustos
— a morte ceifa, a vida apanha,
as verdades se fazem nuas.

 

Então, nas coxilhas descampadas
agora sob uma casuarina deitado
o Quixote vê todo o horizonte
por cima das charqueadas.
De cabeça ao braço enfaixado
lamenta e reclama um apronte,
ressonha todavia novas batalhas.
Ó malditas de junho, e minuano
os cúmulos e nimbos voando,
as parcas se vão aprochegando:
entre a manopla e a palma
vem pelas frinchas na armadura,
o ventinho afiado, temprano,
com meio alento, de assacadura
apunhalando o corpo e a alma.

 

Na tepidez do rescaldo, a calma
mas logo a dor desanda, acutilante
a tal desespero se faz hiante
vai-se ligeira a pouca esperança
à boca aberta por indiferença.

 

Combalido, já o herói tosse
à fraqueza que se lhe espalha
na enxerga forrada a palha
faz ali sua derradeira posse.
Quixote sereno, espera a morte
faz de sua lança a bandeira
de espírito alto e indômito;
a maior razão fez altaneira.
Como se fora a outra contenda
levando sua última prebenda:
a coragem da cavalaria.

 

Às vascas diz seu testamento,
e ia embora com tanta pressa,
nem apaziguado nem sereno:
“Logo pensei algum momento:
que bom ir a cavaleiro na eça
que centauro não escolhe o terreno.
Eu não seria Dom Quixote do Templo
se não deixasse um bom exemplo”.

(março 1998)

 

 

A América Latina nos rastros de Manoel de Andrade – entrevista de manoel de andrade / curitiba.pr


Mais do que um poeta, Manoel de Andrade considera que seus livros não são apenas poesia. São, segundo Andrade, “Um documento histórico, porque todos os poemas trazem uma consigna geopolítica de luta e, paradoxalmente, uma mensagem de paz e esperança”.

Levando em conta o histórico do autor, é coerente considerar que um livro de poesia pode representar mais do que uma reunião de poemas. Com a publicação de seus versos, Andrade sofreu perseguição política e enfrentou resistência militar em vários países da América Latina nos anos 1970. Com a publicação de Saudação a Che Guevara o poeta teve que deixar o Brasil.

A luta e a obra de Andrade fizeram com que o autor percorresse 16 países da América Latina. A jornada está agora reunida em seu mais recente livro Nos Rastros da Utopia (2014). Antes, já havia publicado Poemas para a Liberdade (1970) – com tiragem esgotada em diversos países, e Cantares (2007) – seu retorno à poesia.

Em entrevista concedida à revista Ideias, o poeta falou sobre a luta contra a ditadura, contou um pouco da sua obra e relembrou sua jornada pela América Latina, que, para o autor, é o melhor lugar para se viver.

Com a publicação de Cantares (2007), você retomou a publicação de poesia depois de um longo período. Por que este intervalo?

Realmente, foi um longo intervalo. Mais de 30 anos. Algo estranho na vida de um escritor. Meu último poema, da fase latino-americana, chamado Liberdade, foi escrito em 1971, no México. Depois disso, começa um intenso período de viagens com PALESTRAS, conferências e recitais nos Estados Unidos e depois no Equador, no caminho de minha longa volta ao Chile, em dezembro de 1971 e, meses depois, para o Brasil, em meados de 1972.

Somente voltei a escrever poesia em 2002. Ou seja, depois de 31 anos. Por quê? Fortes razões de ordem familiar me fizeram voltar, justamente na época mais perversa do REGIME ditatorial, obrigando-me a entrar no anonimato literário, social e profissional.

A luta contra a ditadura foi um dos motivos por esse intervalo?

De 1972 a 1975, as operações militares para acabar com a Guerrilha do Araguaia, bem como a crueldade com que os DOI-Codi iam aniquilando os quadros da guerrilha urbana, geraram o pânico entre todos aqueles militantes ou intelectuais que haviam se posicionado, na ação ou no ideário, contra a ditadura. As detenções, torturas, execuções e desaparecimentos entraram em sua fase aguda em todo o país.

Alguns meses depois de minha chegada, estava sendo procurado pelo DOPS. Transferi meu registro da OAB para Santa Catarina, com o objetivo de advogar em meu Estado. Mas também lá senti que não poderia assumir publicamente qualquer trabalho. Foi neste contexto que encontrei, em Curitiba, uma forma de trabalhar sem que os agentes da ditadura nunca soubessem onde eu estava. Fui vender a Enciclopédia Delta Larousse, numa atividade itinerante, de cidade em cidade, de Estado em Estado. Tornei-me campeão estadual e nacional de vendas, cheguei ao topo na hierarquia dos títulos, à classe gerencial e palestrante em técnicas de marketing.

De que forma isso mudou o rumo de sua vida?

Tive um grande sucesso financeiro, adquiri bens, casei pela terceira vez, e nesse torvelinho incessante de viver sempre viajando, fui perdendo o interesse, não pela leitura, mas pela literatura em si, esquecendo-me que era poeta, e dos rastros que deixei pelos longos caminhos da América Latina. Em 1987, deixei a Delta Larousse, convidado a criar um setor comercial de uma empresa de medicina de grupo, onde permaneci na área gerencial até o ano passado. Quero também dizer que, apesar do meu desinteresse pela literatura, durante todos esses anos fui um leitor constante da filosofia, da história e das religiões, tornando-me um profundo estudioso do kardecismo e adepto praticante da doutrina espírita.

Como foi o processo de retomada?

Minha retomada à criação poética aconteceu numa misteriosa circunstância. Já expliquei algures que minha volta à poesia deu-se por uma intrigante inspiração das musas. Na campanha eleitoral para governador do Paraná, em 2002, Roberto Requião – velho amigo, colega da Faculdade de Direito e companheiro de ideais na juventude –, foi covardemente acusado de inverdades e calúnias pelos seus inimigos políticos. Indignado, comecei a escrever alguns versos, relembrando o tempo em que saíamos em passeatas de protesto contra a ditadura, dos sonhos de justiça e liberdade que partilhávamos e que ele brilhantemente colocava na sua afiada oratória, e eu no lirismo dos meus versos.

Lembrei-me também do caminho que me indicou, e dos amigos a quem me recomendou, no Paraguai, quando, em março de 1969, tive que sair do Brasil, num dos momentos mais difíceis de minha vida. Todo este gesto solidário se transformou no poema Tributo, tornado público num jornal da época e que consta do meu livro Cantares.Foi com este poema que voltei a escrever poesia, em setembro de 2002, depois de 31 anos de abstinência literária.

Você consegue enxergar uma marca na literatura produzida nesses países? O que caracteriza a poesia latino-americana?

Meu interesse naqueles anos e ainda hoje pela literatura latino-americana sempre foi dirigido para os autores comprometidos, sobretudo com o indigenismo e as lutas sociais, e o que caracteriza essa literatura, na prosa e na poesia, é a denúncia e a resistência.

Este espaço não me permite nominar todos os autores, cujas obras estudei – e tudo isso está amplamente analisado Nos Rastros da Utopia– e que se comprometeram com essas lutas, mas me lembro aqui de Mariano Melgar, Pablo Neruda, Armando Tejada Gómez, Ariel Danton Santibañez Estay, Eliodoro Aillón Terán, Javier Heraud, Cesar Vallejo, Luis Nieto, Leonel Rugama, Tirso Canales, Roque Dalton e Otto René Castillo entre os poetas, e Oscar Soria Gamarra, José María Arguedas, Roa Bastos, Ciro Alegria, Manuel Scorza, Jorge Icaza, Miguel Angel Astúrias e Carlos Fuentes entre os prosadores.

 

Poemas para a liberdade teve grande repercussão, com edições esgotadas em vários países. A que você atribui esse alcance?

Este livro nasceu espontaneamente pelas mãos dos estudantes peruanos de Arequipa, em janeiro de 1970, que propuseram gratuitamente uma edição mimeografada de 1.500 exemplares. Dois meses depois, os estudantes de Cusco lançaram duas edições, respectivamente de 700 e 1.000 exemplares mimeografados e em junho daquele ano, em La Paz, meu livro tem sua primeira edição, de 2.000 exemplares, lançada graficamente, e sem nenhum custo para mim, pelo Comitê Central Revolucionário da Universidad Mayor de San Andrés.

Na verdade, os fatos que levaram à edição boliviana de Poemas para la libertad é uma história espiritualmente misteriosa e inacreditável do ponto de vista editorial e que é contada com todos os seus detalhes no meu livro Nos Rastros da Utopia, envolvendo o jornalista brasileiro Paulo Canabrava Filho, na época militante da ALN – Aliança Renovadora Nacional – e correspondente da France Press, exilado na Bolívia, e o poeta e jornalista boliviano Jorge Suárez.

E as edições em outros países, como aconteceram?

Na Colômbia, a obra foi editada pela Nova Era, cujos 1.500 exemplares se esgotaram em poucas semanas nas livrarias de Cali e Bogotá; duas edições norte-americanas editadas em 1971, em San Diego, pela Grandma´s Camera; a edição equatoriana editada pela Universidade Central do Equador, em 1971 e, finalmente, em 2009, a edição bilíngue brasileira editada pela Escrituras.

Meus Poemas para lalibertad também tiveram edições parciais na Nicarágua, em plena ditadura de Somoza, editadas pela Universidade de El Salvador e publicados, declamados e debatidos em Tampico, no México, em fevereiro de 1971, durante as comemorações do 37º aniversário de morte de Augusto Cesar Sandino, onde participei, a convite dos sandinistas exilados no México. Dois de seus poemas –Canção para homens sem face e Canção de amor à América – foram publicados pela Revista Civilização Brasileira e o último foi comentado pelo crítico Wilson Martins ao afirmar que “é, com certeza, um dos belos poemas do nosso tempo”.

Quanto ao seu alcance e repercussão, creio que se deve ao caráter libertário dos meus versos, à imagem revolucionária que se criou em torno de minha pessoa como um poeta desterrado e expulso de vários países por minhas convicções políticas, assim como pela minha incansável militância poética, peregrinando ao longo de toda a América Latina, num tempo em que a juventude estava mobilizada ideologicamente e, diferentemente da juventude dos nossos dias, amava realmente a poesia.

Além do sucesso editorial, o livro teve grande influência política. Essa repercussão política já era esperada?

Na década de 70, o continente estava semeado de sonhos e esperanças. A revolução cubana, a imagem heroica do Che, as repercussões das revoltas estudantis de 1968 na França, no Brasil e em quase todo o mundo eram os ingredientes que contagiavam politicamente a juventude. Meu livro não era apenas um livro de poesia. Era um documento histórico, porque todos os seus poemas trazem uma consigna geopolítica de luta e, paradoxalmente, uma mensagem de paz e esperança.

Há um poema chamado Requien a um poeta guerrilheiro, dedicado ao jovem poeta peruano Javier Heraud, assassinado pelo exército em 1965, e que também foi uma das causas da minha expulsão do Peru, em 1969. Depois veio minha expulsão da Colômbia e por aí vai, para dizer que meu livro, muito mais que um livro de poesia, foi um gesto de convocação e resistência, uma trincheira de luta e uma bandeira desfraldada por um mundo melhor, tendo seus versos sido publicados em panfletos, jornais, grandes revistas, cartazes, publicações acadêmicas, livros e antologias, ao lado de Mario Benedetti, Juan Guelmann, Jaime Sabines e outros grandes poetas hispano-americanos.

Há também um poema chamado Saudação a Che Guevara, que foi a causa da minha saída precipitada do Brasil, em 1969. Um outro poema, chamado O guerrilheiro, foi dedicado a Inti Peredo, lugar-tenente de Che Guevara na guerrilha boliviana, escrito em 1969, em Cochabamba, alguns dias depois do seu assassinato por militares em La Paz, e que foi um dos motivos porque fui “convidado” a deixar a Bolívia em 48 horas.

Conte um pouco mais sobreesse episódio de Saudação a Che Guevara.

Este poema foi escrito em outubro de 1968 para comemorar o primeiro ano da morte de Che Guevara. Por iniciativa do livreiro José Ghignone (o Dude) foram mimeografadas 3.000 cópias e distribuídas, pelo pessoal do Partidão, em universidades, centros acadêmicos, sindicatos e organizações de classe. A distribuição foi feita gradativamente entre o fim de outubro e o começo de dezembro, até o dia 13, quando foi publicado o AI-5. E daí tudo mudou. O que fazer se o poema já fora quase totalmente distribuído e pregava a luta armada?

Nos primeiros dias de março de 1969, viajei ao Rio de Janeiro para um encontro com o poeta Moacyr Félix e o editor Ênio Silveira, a fim de entregar os originais para a publicação da série Poesia viva, que a editora Civilização Brasileira estava lançando e para a qual eu fora convidado, depois da boa repercussão que teve meu poema Canção para os homens sem face, recém-publicado no n° 21/22 da Revista Civilização Brasileira.

 Ao voltar para Curitiba, no dia 12 de março, encontrei, no bar Velha Adega alguns amigos e entre estes o escritor e publicitário Jamil Snege e a estudante de sociologia Elci Susko. Ela me relatou, angustiada, que, por duas vezes, fora abordada na Faculdade, levada por agentes de segurança e interrogada pelo delegado regional da Polícia Federal sobre o meu paradeiro.  Ele tinha em seu poder um exemplar do panfleto “Saudação a Che Guevara” onde constava a autoria do poema e me acusava de “comunista”, de “pregar a luta armada” e ser “um inimigo da pátria”.

Naquela época, a dois meses da publicação do AI-5, já havia começado a “caça às bruxas”, no Brasil inteiro. Os suspeitos de subversão eram presos, mantidos incomunicáveis e muitos começaram a sumir. Naquela mesma noite, já em pânico com o relato da Elci e preocupado com minha esposa e minha filha, fui aconselhado pelo Jamil a sair da cidade. No dia seguinte, pela manhã, fui à casa do Requião, e, como já adiantei, ele abriu o caminho para que, no dia 15 de março de 1969, eu rumasse para Assunção recomendado para seus amigos, o pintor e escultor Angel Higinio Iegros Semidei e os irmãos Francisco e Mario Rojas.

O poema repercutiu em outros países também?       

Sim, em fins de setembro de 1969, depois de passar pelo Paraguai, Argentina e Chile, eu já estava em Cochabamba (BOL), como convidado a um Congresso Nacional de Poetas. Um dia, no HOTEL Boston, onde a Comissão do Congresso me hospedou, apareceu um casal pedindo uma cópia do meu poema ao Che, para ser publicado num cartaz, em comemoração ao segundo ano de sua morte.

Este casal era o já então conhecido jornalista chileno Elmo Catalán Avilés (Ricardo) e a jovem boliviana Genny Köller Echallar (Victoria), dois quadros guerrilheiros do ELN (Ejército de Liberación Nacional), como fiquei sabendo, posteriormente, quando  ambos foram assassinados por um militante do próprio ELN (Anibal Crespo Ross), ante a decisão do casal de abandonar a Organização, em razão da GRAVIDEZ de Genny.

O poema foi publicado num grande cartaz ilustrado por Atílio Carrasco, um dos grandes pintores bolivianos, que havia sido aluno do célebre pintor muralista David Alfaro Siqueiros, no México. Como eu já tinha sido interrogado e ameaçado de expulsão do país, pelo delegado da DIC (Diretoria de Investigações Criminais), decidi entrar no anonimato e o cartaz, com a imagem e o poema do Che, foi publicado como Saludo al Che Guevara e assinado como El Poeta. O poema-cartaz, editado pela FUL, (Federación Universitaria Local) de Cochabamba, passou a ser vendido no meio estudantil e distribuído para todas as FUL da Bolívia.

Dias depois, como a polícia política conseguiu descobrir a minha autoria, fui detido e intimado a sair do país em dois dias. Pela segunda vez, meu poema ao Che me obrigava a buscar novos caminhos.

Como você analisa o papel que a literatura teve na luta contra a ditadura?

Ela não teve o papel que deveria ter.  Os comprometimentos foram poucos.  Acho que o teatro foi o grande palco dessa luta e onde se destacaram o Grupo Opinião do Rio de Janeiro e o Teatro de Arena de São Paulo. Lembro-me que, em 1965, o Grupo Opinião chegou a Curitiba com a peça Liberdade, Liberdade, trazendo em seu elenco Jairo Arco e Flecha, Tereza Raquel e Paulo Autran, de quem me tornei amigo.

A peça marcou época no teatro brasileiro e citava textos em prosa e poesia de autores famosos, para protestar contra a repressão imposta pela ditadura. Depois de minha volta ao Brasil me afastei da vida cultural e da literatura, mas percebi que, sobretudo depois do AI-5, a criação literária vivia amordaçada e desiludida de seus próprios objetivos.

Não se editavam muitos romances naquela época e, apesar do meu distanciamento, li algumas obras como Quarup e Bar Don Juan, de Antonio Callado, e Pessach: A Travessia, de Carlos Heitor Cony.

O texto de apresentação do livro Nos rastros da utopia – uma memória crítica da América Latina dos anos 70, apresenta você como um caminhante incansável que fez uma fantástica peregrinação por 16 países da América. Fale um pouco dessa jornada.

É uma jornada que teve a dimensão gráfica de 912 páginas. É difícil resumir em poucas linhas essa imensa aventura. O que posso dizer é que na década de 70 tudo estava no ar e bastava o compromisso de sonhar para que os caminhos se abrissem magicamente. Contudo, nem todas as portas da realidade se abriram aos ideais e nem todos os visionários que lutaram por uma nova sociedade conseguiram sobreviver às suas trincheiras.

Sinto-me um privilegiado por ter trilhado esse venturoso tempo e de poder resgatar num livro essa imensa memória colhida em tantos caminhos, numa profunda identificação com a história e as bandeiras revolucionárias desfraldadas pelo continente.

O meu livro é também uma reflexão sobre os sentimentos e as emoções que marcaram a agenda daqueles anos, dizendo da ventura de ter sido jovem nesse tempo e do desencanto de ver, atualmente,  as utopias desterradas. Falo da trágica herança dos nossos dias, de um mundo sem norte, sem porto e de um tempo marcado pela perplexidade e os pressentimentos. Mas ainda que nesse impasse,  minha alma de poeta não abdica de sonhar, imaginando que a misteriosa dialética do  tempo nos reconduza a um amanhecer, a uma aldeia  de esperança, a um mundo possível e melhor.

Nos anos 70, o que diferenciava o Brasil dos outros países vizinhos?

No plano político não havia grandes diferenças. Eram REGIMES de exceção e não estados de direito. Não falarei da economia, porque essa não é a minha paixão. O único fato que diferenciou o Brasil dos demais foi o regime militar que se instaurou no Peru, em 1968, sob o comando do general Juan Velasco Alvarado, propondo mudanças estruturais, amparo aos oprimidos, reforma agrária e colocando barreiras aos interesses imperialistas. Apesar de militares de tradição conservadora, sonharam com um socialismo nacional e reataram relações diplomáticas com Cuba, com a União Soviética e com a China maoísta.

No entanto, esta bem intencionada revolução dos coronéis não sobreviveu a uma grave doença do seu idealizador, em 1975, e, quando Velasco morreu, em 1977, seu sonho de redenção social do Peru também já estava morto.

Entre as ditaduras militares, a grande diferença foi o golpe e a repressão sanguinária de Pinochet, no Chile, por certo o fato mais marcante dos anos 70, assim como a ditadura argentina, cujas estatísticas da crueldade fizeram seus comparsas parecer santos. Enquanto no Brasil tivemos, segundo os dados da Secretaria Especial dos Direitos Humanos, 475 mortos e desaparecidos, na Argentina estima-se que foram 30.000. Por outro lado, a lamentável diferença que sobreveio com o julgamento da História, é que os nossos vizinhos julgaram e puseram na cadeia os verdugos da repressão e aqui no Brasil eles continuam impunes, ironizando as nossas comissões da verdade.

E qual semelhança havia entre essas nações?

A semelhança é que nos anos 70 todo o sul do continente ostentava também suas ditaduras, coordenadas pelo mesmo imperialismo. Tivemos o Paraguai a partir de 1954, o Brasil em 64, em 71 a Bolívia, o Uruguai e o Chile em 73, e a Argentina em 1976. Em nenhuma havia democracia nem garantias constitucionais. Em todas elas, seus oficiais soletraram o be-a-bá da repressão, nas cartilhas da contrainsurgência da Escola das Américas, mantida pelos norte-americanos no Panamá.

No Brasil, os agentes civis aprenderam muito com as técnicas do suplício ensinadas por Dan Mitrione, o mestre norte-americano da tortura, cuja sinistra carreira foi encerrada pelo Tupamaros em 1970, e cujos ensinamentos foram levados para o Chile pelos torturadores brasileiros. Embora cada ditadura tivesse o seu perfil nacional, a Operação Condor associou a todas no mesmo grau de cumplicidade, nos métodos de crueldade e no planejamento dos assassinatos.  

De lá para cá, o que mudou na América?

Creio que mudou muito. Os EUA já não conseguem violentar nossa liberdade e nem estrangular nossa economia como fez com Cuba. Nossos povos aprenderam a resistir e a decidir nossos destinos. Os movimentos sociais e a consciência política são hoje os agentes da nossa história e isso possibilitou que governos populares ascendessem ao poder no Brasil, Uruguai, Bolívia, Peru, Equador, Venezuela, Nicarágua, El Salvador, Guatemala e, recentemente, no Chile. Já não somos vítimas do FMI.

Creio que fatos como a invasão da República Dominicana pelos Estados Unidos, em 1965, bem como sua intervenção direta no golpe militar que derrubou Allende em 1973, são agora improváveis de acontecer.

Para você, o que é a América Latina?

Para mim, diante dessa crise global, creio que a América Latina é ainda o melhor lugar para se viver. Enquanto a Europa parece desagregar-se, abatida pela própria ganância dos seus mercados especulativos, aqui sentimos que estamos nos integrando. Ainda que, no mundo ocidental, vivamos sob a feroz imposição ideológica do neoliberalismo, ensejando uma cultura de consumismo que atinge a todos, creio que aqui ainda não fomos contaminados pela desesperança.

Na verdade, para mim, que sou um poeta, não é com a linguagem geopolítica que posso definir a América Latina. Creio que posso defini-la melhor com os versos de um poema que escrevi, há alguns meses, descrevendo seus encantos e suas lágrimas:

 

AMÉRICA, AMÉRICA

   Manoel de Andrade

 

Trago ainda na alma o mapa dos caminhos…

Meus versos riscam teu dorso para cantar um tempo único e perfumado.

América, América,

ali, entre os ramos e o penhasco, o abismo florescido,

acolá, o milho semeado e a colheita rumorosa.

Entre serras e quebradas vai o colla dedilhando sua flauta,

é seu hino à pachamama modulando o silêncio do altiplano.

 

Canto meu enredo de viandante,

passo a passo rumo ao norte e à alvorada.

Quantos atalhos, meu Deus, quantas fronteiras!

A travessia ao entardecer no Titicaca,

O Illimani batido pelo sol,

e aquela noite sob as estrelas em Macchu Picchu!

Ah! este aguaceiro vem agora molhar minha saudade,

e tudo me chega como um recanto do passado…

e se hoje digo amigos e digo hermanos,

ouço nossos passos ecoar pelas vielas seculares de Quito e de La Paz.

 

Ai, América, ainda não disse de ti quanto quisera,

abre teu cântaro, ó Poesia, e dá-me o frescor do rocio,

dá-me a magia e o lirismo…,

que canção para mim soará mais bela que tuas sílabas de encanto?

América, América,

Lembro-me do fulgor do teu rosto renascido da utopia,

tuas bandeiras de sonhos

feitas de plumas e veias transparentes.

Os campos todos semeados

e o porvir tatuado em cada gesto.

Tudo era aroma na gleba cultivada,

nos brotos germinava a esperança

e nossas pálpebras se abriam para o amanhã.

 

Canto a América que vivi,

entre alegrias e lágrimas, canto o continente ao sul de Anahuác.

Falo de uma América primeira,

asteca, quiché, chibcha, quéchua, mapuche e guarani,

essa América materna,

botânica e mineral,

sangrada por Cortez, Pizarro e por Valdivia.

Falo de uma só pátria,

a grande pátria de Bolívar,

pilhada e violentada,

submetida pelas garras perversas do Império.

Vi tuas trincheiras abertas

e depois as densas trevas caírem sobre o sul.

Sobreveio o chumbo cruel,

os labirintos da dor e as atrocidades.

Na penumbra gemiam os cravos, gemiam as rosas,

e agonizava a vida ainda em botão.

 

Canto para denunciar a verdade sufocada,

e eis que mancho este verso para nomear Garrastazu, Bordaberry, Videla, Pinochet

e seus rastros genocidas num tempo silenciado.

Canto para dizer das valas clandestinas,

das ossadas do Atacama

e dos “voos da morte” para o mar,

Meu réquiem para trinta mil argentinos,

meu canto para as “crianças da ditadura”,

para os sobreviventes e suas cicatrizes,

para a viuvez e a orfandade

para las Madres de Plaza de Mayo e suas lágrimas perenes.

 

América, América,

quarenta anos se passaram

e tuas feridas ainda emergem da tragédia!

E aqui declino a “operação” perversa dos “condores”

e os seus generais malditos.

Canto por ti, América,

por tuas aldeias de bravos e por teus calvários,

por teu nevado esplendor tantas vezes torturado,

América de tantos massacres e patíbulos,

ouço-te ainda na voz melancólica dos charangos, quenas e zamponhas,

chorando por la matanza de San Juan, em Potosi.

Uma América de martírios,

estrangulada em Cajamarca,

esquartejada em Cusco,

sacrificada em La Higuera.

executada em Trelew e El Frontón,

e nos rituais da morte em VILLA Grimaldi e no Dói-Codi.

 

Por tanta dor nessas memórias

eu vos peço perdão pelo meu canto.

Ele é também assim: um áspero clarim no entardecer.

Distante, tão distante,

no tempo e nos andares,

e hoje, em busca de mim mesmo,

ainda abrigo o mesmo combativo coração.

Não sei o que te espera, América,

os anos correram inquietantes e velozes

restando um mundo com seu som intolerável.

 

Busco meu íntimo silêncio,

e, por um momento, digo basta…,

meu pensamento em prece, e num lampejo, viaja ao sul do Chile.

Lá, muito além do Bio-Bio, há um golfo deslumbrante.

Vou em busca de Arauco,

lá lutaram meus heróis, Caupolicán e Galvarino.

Foi lá onde viveu Lautaro e onde vive Frederico.

Vou para rever o cone nevado do Antuco

rever o vale e a Cordilheira,

o seu dossel verdejante, onde se gesta a vida.

Vou para relembrar uma baía de barcos,

para construir uma paisagem na alma,

uma tenda de luz para um amigo.

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“Não esperava ver uma mudança radical na Igreja” – por Markus Grill

O teólogo Hans Küng, “reformista crítico”, celebra o papado de Francisco, critica a canonização de João Paulo II e fala de Céu, Inferno, eutanásia, amor carnal…

por Markus Grill — publicado 03/09/2014 05:08
 
 
 
Alberto Pizzoli/AFP

Hans küng lutou durante toda a sua vida pelas reformas hoje avaliadas pelo Vaticano. Nesta entrevista, o teólogo suíço fala sobre as probabilidades de o papa Francisco revolucionar a Igreja, por que João Paulo II não deveria ser canonizado e o que ele espera aprender no Céu.

Küng tem sido uma voz a favor da reforma da IgrejaCatólica há décadas: da infalibilidade papal ao celibato dos padres e à eutanásia. Sua atuação custou-lhe a licença para ensinar teologia católica e levou muitos a considerá-lo um herege. Aos 85 anos, afetado por mal de Parkinson e outras doenças, o suíço vê a Igreja sob Francisco contemplar várias das ideias defendidas por ele faz muito tempo.

Markus Grill: Professor Küng, o senhor irá para o Céu?

Hans Küng: Certamente, espero que sim.

MG: Alguns diriam que o senhor irá para o Inferno, por ser um herege aos olhos da Igreja.

HK: Não sou um herege, mas um teólogo reformista crítico. Diferentemente de muitos de meus detratores, uso como parâmetro o Evangelho, em vez da teologia medieval, a liturgia e a lei da Igreja.

MG: O Inferno existe?

HK: A referência ao Inferno é uma advertência ao fato de um ser humano poder negligenciar completamente seupropósito na vida. Não acredito em um Inferno eterno.

MG: Se o Inferno significa perder seu propósito na vida, deve ser uma noção muito secular.

HK: Os indivíduos criam seu próprio inferno, em guerras, assim como no capitalismo desenfreado.

MG: Em seu ensaio “Fragmento sobre o tema da religião”, Thomas Mann admitiu pensar na morte quase todos os dias. E o senhor?

HK: Na verdade, sempre pensei que morreria jovem, pois acreditava que, diante da minha vida louca, não chegaria aos 50 anos. Hoje estou surpreso por ter 85 e continuar vivo.

MG: O senhor é um homem idoso e doente. Tem perda auditiva aguda, osteoartrite e degeneração macular, que destruirá sua capacidade de ler.

HK: Essa seria a pior coisa, não ser mais capaz de ler.

MG: O senhor foi diagnosticado com doença de Parkinson.

HK: Entretanto, ainda trabalho muito duro todos os dias. Mas interpreto todas essas coisas como sinais de advertência sobre minha morte iminente. Minha caligrafia tem ficado pequena e muitas vezes ilegível, quase como se estivesse prestes a desaparecer. Meus dedos falham. É um fato que minha condição geral deteriorou. Mas eu também combato isso. Nado 15 minutos todos os dias onde moro e faço exercícios de fisioterapia, assim como exercícios para a voz e para os dedos, e me dedico a novas tarefas. Além disso, tomo vários remédios por dia.

MG: O senhor escreveu mais de 60 livros e sempre foi um homem muito produtivo, que gostava de entrar em discussões. Em suas memórias, o senhor avalia se em breve não será nada além de uma sombra de si mesmo.

HK: É claro, os diagnósticos e prognósticos dos médicos são imprecisos. Minha visão, por exemplo, deteriora-se mais lentamente do que o previsto. Dois anos atrás, meu médico disse que eu só conseguiria ler por mais dois anos. E hoje ainda consigo ler. Mas vivo em aviso prévio, e estou preparado para me despedir a qualquer momento.

MG: Seu amigo, o escritor e intelectual Walter Jens, caiu em um estado de demência que rapidamente se deteriorou nove anos atrás. Ele morreu faz pouco tempo.

HK: Eu o visitei várias vezes, inclusive pouco antes de sua morte. Até alguns anos atrás, seu rosto ainda se iluminava quando eu o visitava. Mas nos últimos anos ele não se lembrava mais se tinha me visto na véspera ou um mês antes. No final, não me reconhecia mais. Foi deprimente pensar que Jens, um dos intelectuais mais importantes do pós-Guerra, havia recuado para uma espécie de infância.

MG: A demência também foi dura para Jens, ou apenas para seus parentes e amigos?

HK: No início de sua doença, quando você perguntava como se sentia, ele quase sempre dizia “péssimo” ou “mal”. Ao mesmo tempo, ele passou a apreciar pequenas coisas, como crianças, animais e doces. Eu costumava levar-lhe chocolates. No início ele comia sozinho, mas depois eu tinha de colocá-los em sua boca. Não podemos saber o que Jens experimentou no final. Mas não se pode esperar que eu aceite estar em uma condição semelhante.

MG: Em 1995, o senhor e Jens coescreveram o livro Dying With Dignity (Morrendo com Dignidade). Como cristão, o senhor pode pôr fim à sua própria vida?

HK: Sinto que a vida é um dom de Deus. Mas Deus me tornou responsável por esse dom. O mesmo se aplica à última fase da vida, a morte. O Deus da Bíblia é um Deus de compaixão, e não um déspota cruel que quer ver os seres humanospassarem o maior tempo possível em um inferno de sua própria dor. Em outras palavras, o suicídio assistido pode ser a forma definitiva de ajuda na vida.

MG: A Igreja Católica considera a eutanásia um pecado, uma infração à soberania do criador.

HK: Não apreciei quando o porta-voz do bispo de Rotemburgo declarou que o que eu havia escrito representava os ensinamentos de Küng, e não os ensinamentos da Igreja. Uma hierarquia eclesiástica que errou tanto sobre o controle de natalidade, a pílula e a inseminação artificial não deveria cometer os mesmos erros agora sobre questões relativas ao fim da vida. Nossa situação mudou fundamentalmente no século XXI. A expectativa média de vida cem anos atrás era de 45 anos, e a maioria morria cedo. Hoje tenho 85, mas é uma extensão artificial da minha vida, graças às dez pílulas que tomo diariamente, e graças aos progressos na higiene e na medicina.

MG: O senhor tem medo de uma doença prolongada?

HK: Escrevi instruções cuidadosamente formuladas e recentemente entrei para uma organização de suicídio assistido. Isso não significa que desejo cometer suicídio. Mas, caso minha doença piore, quero ter uma garantia de que posso morrer de maneira digna. Em nenhum lugar a Bíblia diz que um ser humano tem de se manter até o fim ordenado. Ninguém nos diz o que “ordenado” significa.

MG: O senhor tem de ir para outro país para ter acesso ao suicídio assistido.

HK: Sou um cidadão suíço.

MG: Como funciona exatamente? O senhor telefona e diz: estou indo?

HK: Ainda não tenho um mapa do caminho. Mas escrevi minha própria liturgia da morte no último volume de minhas memórias.

MG: Um padre não poderá lhe administrar os últimos ritos.

HK: Terei comigo um amigo que é padre, um de meus alunos.

MG: Em Os Sofrimentos do Jovem Werther, de Goethe, o protagonista se mata por amor. O livro termina com a sentença: “Nenhum padre esteve presente”. Essa é a posição da Igreja.

HK: Eu sempre objetei a que minha posição sobre a morte fosse considerada um protesto contra a autoridade da Igreja. Não quero fornecer regras gerais, e só posso decidir por mim mesmo. Seria ridículo encenar a própria morte como um protesto contra a autoridade da Igreja. O que eu quero, entretanto, é que a questão seja discutida de maneira aberta e amigável.

MG: Mas que ser humano com uma doença incurável desejará impor uma carga a seus parentes quando o suicídio assistido se tornar socialmente aceito?

HK: Existe, é claro, o risco que você descreve. Mas hoje o suicídio assistido ocorre em uma zona cinzenta, pois é proibido. Muitos médicos aumentam a dose de morfina quando chega a hora, e ao fazê-lo correm o risco de ser condenados por um crime. Alguns pacientes, quando não conseguem encontrar esses médicos, saltam da janela do hospital. Isso é intolerável. Não podemos deixar essa questão à discrição de cada médico. Precisamos de um regulamento legal, em parte para proteger os médicos.

MG: Não nos agarramos demais à vida no final, de modo que perdemos o momento certo?

HK: Isso é possível, é claro.

MG: O senhor se agarra à vida?

HK: Eu não me agarro à vida terrena, porque acredito na vida eterna. Essa é a grande distinção entre meu ponto de vista e uma posição puramente secular.

MG: O senhor escreve em suas memórias: “Meu coração dói quando penso em todas as coisas que terei de abandonar”.

HK: É verdade. Não me despeço da vida por ser um misantropo ou por desprezá-la, mas porque, por outros motivos, está na hora de seguir em frente. Estou firmemente convencido de que existe vida após a morte, não em um sentido primitivo, mas como a entrada de minha natureza completamente finita no infinito de Deus, como uma transição para outra realidade além da dimensão do espaço e do tempo que a pura razão não pode afirmar nem negar. É uma questão de razoável confiança. Não tenho evidência matemática e científica disso, mas tenho bons motivos para confiar na mensagem da Bíblia, e acredito em ser recebido por um Deus misericordioso.

MG: O senhor tem um conceito de céu?

HK: A maioria das maneiras de falar sobre o céu são imagens puras que não podem ser tomadas literalmente. Estamos muito distantes das noções de céu no período anterior a Copérnico. No céu, espero, porém, conhecer as respostas para os grandes mistérios do mundo, para perguntas como: Por que uma coisa é uma coisa e não nada? De onde vêm o big-bang e as constantes físicas? Em outras palavras,  há perguntas que nem a astrofísica nem a filosofia responderam. De qualquer modo, falo sobre um estado de paz eterna e felicidade eterna.

MG: Hoje a física pode explicar o cosmo escuro, com seus bilhões de estrelas, muito melhor do que no passado. Isso abalou a sua fé?

HK: Quando consideramos como o universo é enorme e escuro, certamente não facilita as coisas para a fé. Quando Beethoven compôs a Nona Sinfonia, ainda podia esperar que “acima da abóbada de estrelas vivesse um pai amoroso”. Nós, entretanto, temos de aceitar que sabemos pouco. Noventa e cinco por cento do universo é desconhecido para nós, e nada sabemos sobre os 27% de matéria escura ou 68% de energia escura. A física se aproxima cada vez mais da origem, no entanto não consegue explicar a origem em si.

MG: O que acontece atualmente no Vaticano é aquilo pelo qual o senhor passou a vida a lutar: uma liberalização e reforma da Igreja. Isso acontece no momento em que o senhor envelhece e se torna frágil. É uma ironia da história?

HK: A ironia aplica-se mais a meu ex-colega Joseph Ratzinger do que a mim. Eu não esperava ver uma mudança radical na Igreja Católica durante minha vida. Sempre acreditei, e passei a aceitar, que Küng partiria e Ratzinger ficaria. Por isso fiquei tão surpreso ao ver Bento XVI sair e o papa Francisco assumir o cargo em 19 de março de 2013, meu aniversário e dia onomástico de Ratzinger.

MG: Como foi possível que um colégio de cardeais formado por homens conservadores e de modo geral retrógrados elegesse um revolucionário para papa?

HK: Em primeiro lugar, eles nem sabiam o quanto ele é revolucionário. Mas, fora o núcleo duro da Cúria, muitos cardeais sabiam que a Igreja está em uma crise profunda, simbolizada pela corrupção no Vaticano, o encobrimento de casos de abuso e o escândalo do VatiLeaks. Os cardeais muitas vezes foram confrontados com duras críticas de suas congregações nativas.

MG: Um indivíduo pode revolucionar uma instituição como a Igreja Católica?

HK: Sim, se ela receber bons conselhos como papa e tiver uma equipe capaz. Do ponto de vista jurídico, o papa tem mais poder que o presidente dos Estados Unidos.

MG: Mas só dentro da igreja, porque suas decisões não são submetidas à aprovação de um órgão legislativo.

HK: Também não há Suprema Corte. Se quisesse, o papa poderia abolir imediatamente a lei do celibato adotada no século XII.

MG: A Primavera Árabe poderia ser seguida por uma Primavera Católica?

HK: Já está aqui, mas existe o mesmo risco de reveses e movimentos contrários, como houve na Primavera Árabe. Existem grupos poderosos no Vaticano e na Igreja em todo o mundo que gostariam de reverter o tempo. Eles estão preocupados com seus privilégios.

MG: O senhor se incomoda por não poder mais se envolver nesses debates?

HK: Aceito isso calmamente. Para mim é mais importante o papa ler o que eu lhe envio do que me convidar para ir a Roma.

MG: Recentemente, ele lhe escreveu e disse ter gostado de ler os dois livros que o senhor lhe enviou, e que permanece “à sua disposição”.

HK: Recebi recentemente duas cartas manuscritas e muito amigáveis dele. O endereço do remetente nos envelopes dizia apenas “F., Domus Sanctae Marthae, Vaticano”, e ele assinou as cartas “com saudações fraternas”. Até isso é um novo estilo. Em 27 anos, João Paulo II não me considerou digno de uma única resposta.

MG: Com quem Francisco pode ser comparado?

HK: Provavelmente, com João XXIII, mas ele não tem uma de suas fraquezas. João XXIII fez reformas apressadas e sem uma agenda. Ele cometeu sérios erros administrativos.

MG: A questão é se Francisco impressiona apenas com gestos, ou há mais por trás disso.

HK: Os trajes mais simples, as mudanças no protocolo e o tom de voz completamente diferente não são coisas superficiais. Ele introduziu uma mudança de paradigmas. Com esse papa, ressurgiu o caráter de serviço do cargo papal. Ele quer que os padres saiam das igrejas e encontrem os fiéis. Recentemente, enviou aos bispos uma pesquisa para obter as opiniões dos laicos sobre assuntos familiares. Sua primeira viagem o levou aos refugiados em Lampedusa. Tudo isso é um distanciamento da maneira como Bento XVI interpretava o cargo. O apelo por uma Igreja pobre leva a uma maneira de pensar diferente. Com Bento, o extravagante bispo de Limburg provavelmente ainda estaria no cargo.

MG: Mas Francisco confirmou o arcebispo linha-dura Gerhard Ludwig Müller como chefe da Congregação para a Doutrina da Fé, o vigilante do Vaticano e policial em questões da doutrina aceita.

HK: Poderia imaginar que Bento fizesse uma forte campanha para manter Müller no cargo. Mas o teste definitivo será se o novo papa continuará a permitir que ele interprete o supervisor da fé e o grande inquisidor.

MG: E a canonização de João Paulo II, que reforçou grupos controversos como o Opus Dei e a Legião de Cristo?

HK: Não posso entender a canonização. Trata-se do papa mais contraditório do século XX. Ele venerava a Virgem Maria, mas negava às mulheres cargos na Igreja. Ele pregava contra a pobreza em massa, no entanto proibia a contracepção. Discuti extensamente 11 dessas enormes contradições no último volume de minhas memórias. Suas palavras divergiam constantemente de seus atos. Ele considerava o padre Marcial Maciel, um dos piores molestadores de meninos e fundador da Legião de Cristo, seu amigo e o defendeu contra todas as críticas.

MG: O senhor perdoa Francisco por essa canonização?

HK: Bento XVI acelerou a canonização de Wojtyla e ignorou todos os períodos de espera requeridos. Deter o processo agora não apenas seria uma afronta a Bento, mas a muitos poloneses. Posso entender que Francisco não queira fazer isso. Ao menos o papa reformista João XXIII também foi canonizado. Devemos pensar se as canonizações, uma invenção medieval, ainda têm sentido hoje.

MG: Há alguma coisa em sua vida que gostaria de desfazer?

HK: Fui muito polêmico às vezes, e gostaria de não ter dito certas coisas. Minha experiência mais drástica foi, porém, a revogação da licença para ensinar como teólogo católico, em 1979. Foi devastador para mim, emocional e fisicamente. Houve um dia em que eu estava deitado neste sofá amarelo e não conseguia ir à reunião de professores marcada para discutir meu caso.

MG: O senhor espera ser reabilitado em vida?

HK: Não. A Conferência Episcopal Alemã poderia iniciar o processo e Roma só teria de concordar. Mas não prevejo ou espero isso. O papa Francisco não deveria pôr em risco outras tarefas importantes ao me reabilitar e aproximar-se demais de mim.

MG: O senhor foi acusado de vaidade durante toda a sua vida. Existe até um capítulo inteiro sobre isso em suas memórias.

HK: Provavelmente, não sou mais vaidoso que a média.

MG: Parte do motivo de sua licenciatura ter sido revogada deveu-se ao fato de o senhor pôr em dúvida a necessidade de celibato dos padres. O senhor acredita que as regras poderão ser modificadas com Francisco?

HK: Não posso realmente imaginar que essa questão continue a ser adiada. A cada dia há menos sacerdotes paroquiais. Não sei como a Igreja poderá oferecer atendimento pastoral na próxima geração. A questão é relevante há algum tempo e os fiéis apoiam amplamente essa reforma.

MG: O senhor vive em celibato?

HK: Não sou casado e não tenho esposa nem filhos.

MG: Há uma mulher em suas memórias a quem o senhor se refere como “minha companheira ideal na vida”.

HK: Sim, no sentido de uma companheira de viagem ideal. Temos propriedades separadas, vivemos em andares separados e temos apartamentos separados. Eu descrevo tudo isso em minhas memórias e o confirmo. Não tenho mais nada a dizer a respeito.

CARTA ABERTA `A PRESIDENTA DILMA ROUSSEFF – MUITO GRAVE

CARTA ABERTA `A PRESIDENTA DILMA ROUSSEFF

À Excelentíssima Senhora Presidenta da República

DILMA ROUSSEFF,

Senhora Presidenta,

O general Enzo Peri, comandante do Exército, acaba de afrontar os poderes da República, aos quais deve obediência. O general encaminhou a todas as unidades do Exército uma ordem ilegal, segundo a qual nenhuma delas deve fornecer informações requisitadas por órgãos como o MinistérioPúblico Federal (MPF) ou outros interessados, cabendo exclusivamente ao gabinete do comandante decidir sobre as respostas.

Portanto, o general Enzo está zombando do ordenamento jurídico, que dá ao MPF a prerrogativa de investigar. Pior ainda, Presidenta Dilma.

O general Enzo está zombando dos brasileiros, incluindo a comandante em chefe das Forças Armadas, a Presidenta da República, que sancionou a lei que criou a Comissão Nacional da Verdade (CNV).

Mas há um agravante nessa história, Presidenta Dilma. É que o general Enzo é reincidente.

Como Vossa Excelência deve recordar, ainda no governo Lula o general foi um dos pivôs de uma grave crise política, em 2009, ao acompanhar o ministro Nelson Jobim, da Defesa, num verdadeiro motim contra o Programa Nacional de Direitos Humanos (PNDH-3). Jobim e os comandantes militares ameaçaram demitir-se caso o presidente não alterasse o PNDH-3, retirando dele modestos avanços democráticos relacionados à revogação da Lei da Anistia e à investigação dos crimes da Ditadura Militar. Infelizmente, o presidente Lula cedeu à chantagem e preferiu mutilar o PNDH-3.

Já no atual governo, mantido no cargo apesar da rebelião antidemocrática que encabeçou, o general Enzo mantém-se na linha da resistência ativa à CNV e às políticas de direitos humanos da Presidência da República. Deu suporte às seguidas negativas e embaraços criados aos pedidos de documentos feitos pela CNV às Forças Armadas.

Mais recentemente, em gesto que chocou a consciência democrática, ademais de humilhar os familiares das vítimas e os ex-presos políticos, o comandante do Exército passou da resistência dissimulada ao escárnio, ao endossar os debochados resultados da “sindicância” realizada a pedido da CNV a respeito das instalações militares que, sabidamente, notoriamente abrigaram aparatos de tortura e execução de presos políticos durante a Ditadura Militar.

Diante desses fatos, Presidenta Dilma Rousseff, só nos resta exortá-la a demitir o general Enzo Peri, para o bem da democracia e da sociedade brasileira.

Não é admissível que alguns generais continuem asfixiando a democracia brasileira. Não é razoável que chefes militares continuem zombando da luta por memória, verdade e justiça sem que sejam punidos. O que está em jogo é a democracia e o futuro do Brasil!

Presidenta Dilma, reafirme a soberania popular: demita o general Enzo.

Em 28 de agosto de 2014 – 35 anos da votação da anistia

Coletivo Catarinense Memória, Verdade, Justiça

Coletivo Contra a Tortura

Coletivo Merlino

Coletivo MVJ João Batista Rita de Criciuma – SC

Coletivo pela Educação, Memória e Justiça – RS

Coletivo Político Quem

Comissão da Verdade de Bauru “Irmãos Petit”

Comissão de Direitos Humanos de Passo Fundo (CDHPF)
Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos

Comitê Catarinense Pró Memória 

Comitê Popular de Santos por Memória Verdade e Justiça

Comitê Verdade, Memória e Justiça de Pelotas e Região

Fórum de Reparação e Memória do RJ

Fórum Direito à Memória, Verdade e Justiça do ES

Grupo Tortura Nunca Mais Rio de Janeiro – GTNM/RJ

Instituto de Estudos da Violência do Estado – IEVE

Movimento Camponês Popular – MCP

Movimento Nacional de Direitos Humanos (MNDH) Nacional

Movimento Nacional de Direitos Humanos no Rio Grande do Sul (MNDH-RS)

Movimento Reforma Já

Núcleo de Preservação da Memória Política

Rede Brasil – Memória, Verdade , Justiça

Rede Social de Justiça e Direitos Humanos

RUMO AO DESCONHECIDO – por André Singer – por andré singer / são paulo.sp

Rumo ao desconhecido, por André Singer

 
 
 
Está na Folha a matéria de André Singer denominada Rumo ao desconhecido. Dê uma olhada.
 
Por André Singer
 
 
Da Folha de S. Paulo
 
Com a ascensão rápida de Marina Silva, confirmada pelo Datafolha e captada pelas pesquisas desta semana, teremos dois meses de alta indeterminação pela frente. As incógnitas que rondam a candidata, neste momento majoritária no segundo turno, tornarão volátil o cenário político e eleitoral até 26 de outubro. Relação com o agronegócio, programa social, base de apoio para governar, há muito em aberto na candidatura pessebista.
 
Ao comprometer-se com a independência do Banco Central (BC), Marina traçou o perfil macroeconômico de um possível governo do PSB. Teremos juros altos, recessão bem mais que técnica, corte de gastos públicos e desemprego. Mas como seria possível encaminhar os problemas da população que tem renda familiar mensal (RFM) entre 2 e 5 salários mínimos e mora em grandes centros urbanos, cujo apoio a ex-senadora precisa consolidar para
vencer?
 
 
 
De acordo com o Ibope, Marina detém 31% das intenções de votos nesse segmento, encontrando-se empatada tecnicamente com Dilma Rousseff (33%). Como a vantagem de Dilma é nítida entre os mais pobres –sobretudo os que recebem até 1 salário mínimo de RFM (46% contra 23% da candidata ambientalista)–, o fiador da possível eleição de Marina será o eleitor de baixa renda que já superou os problemas da sobrevivência imediata, mas continua
às voltas com grandes insatisfações.
 
A lógica eleitoral indica que Marina vai acentuar promessas, como a realizada no debate da Band (26/8), de destinar 10% da receita da União para a saúde. Ocorre que as referidas propostas são incompatíveis com a orientação sinalizada pela independência do BC. É certo que as campanhas adversárias vão apontar a contradição, ainda que isso cause algum problema de definição para elas próprias.
 
Outra via de ataque a Marina diz respeito à “nova política”. A entrevista para o “Jornal Nacional” (27/8) deu o tom do que vem pela frente. A impossibilidade de explicar, ou condenar, o suposto caixa dois envolvido no avião em que Eduardo Campos viajava, deixou Marina com a resposta típica do que ela chama “velha política”: por enquanto nada tenho a declarar e tudo será
investigado. Casos do gênero vão pipocar, pois a candidata está, e estará cada vez mais, aliada a políticos tradicionais.
 
Em que medida o eleitor prestará atenção e perceberá tais incongruências? Concluo, após duas décadas de estudos eleitorais, que, apesar de pouco informado, o cidadão médio capta o “cheiro” do que vem pela frente. O difícil é saber se, na hora H, preferirá correr o risco de decepcionar-se com Marina para tirar o PT do poder, ou se optará pela segurança da situação já conhecida, ainda que não animadora.

O DESTERRO DOS POETAS – por manoel de andrade

O DESTERRO DOS POETAS

 

                                                                                     Manoel de Andrade

 

 

 

 

 

Nada vos quisera dizer que sonegasse o encanto

mas transito num mundo sombrio

e por caminhos degradados.

Já não vejo flores nas campinas

nem lírios à beira das estradas,

já não ouço o cantar dos pássaros

nem o murmúrio das fontes.

Restou-nos a paisagem decepada e nua,

de quando em quando, pequenos bosques solitários

e o sibilar melancólico do vento.

 

Viandantes milenares da estesia e do mistério,

hoje somos seres desgarrados e silentes.

Nossas imagens foram abatidas,

nossos símbolos calcinados,

globalizaram as metáforas,

plastificaram as rosas,

poluíram as estrelas.

 

Restou-nos o espanto e os pressentimentos,

e, nessa patética realidade,

entre rimas e a paixão pelo lirismo,

a poesia mendiga descalça pelo mundo,

trajando seu rosário de versos encolhidos.

Nossas páginas já não são abertas,

já não publicam nossos livros,

declamamos num palco de figurantes,

e ante os versos desse drama,

não há público nem aplausos…

Versejar é uma vocação solitária,

uma chama delirante que se apaga no coração dos homens.

 

Apesar de tanto desencanto,

nada vos direi que sonegue a esperança,

mas digo que os poetas jamais silenciarão seu canto,

porque ninguém poderá desterrar o sonho e a beleza

e porque sempre haverá um poema de amor a ser escrito.

Os poetas cantam desde a aurora dos tempos,

pela glória de Aquiles e pela paixão por Beatriz.

Cantam para gestar uma “Ode Triunfal”,

para compor  “ Uma Canção Desesperada”,

ou para erguer uma bandeira libertária.

 

Cantam para denunciar os calvários de chumbo que sangraram tantas pátrias     

e para que o esquecimento não sepulte a história dos vencidos.

Cantam para acusar os tiranos e consagrar os mártires,

e para reunir na memória os punhos da bravura.

Os poetas sempre haverão de cantar,

enquanto a luz parir a vida, eles cantarão…

cantarão para abrir as janelas do infinito

e para semear novos sonhos nos herdeiros do amanhã.

 

Machucado por tanto desamor,

por esses acordes tolos e nocivos a malhar meus tímpanos,

e perante essa estética do absurdo,

a essa irreverência que empesta os ares

e proscrito por um tempo que confunde os nossos passos,

saio em busca do Eldorado.

Quero um cântaro de luz para beber a vida,

um sol de abril para iluminar meu rumo.

Quero meu veleiro, meu farol, meu porto, minha aldeia,

e ‘onde estiver meu coração, sei que lá  estará o meu tesouro’.

 

“Vou-me embora pra Pasárgada”

levando minhas  ternuras e uma fé inabalável.

Minhas velas vão rasgando o desencanto,

navegando nas lágrimas do mundo

e nesses mares de naufrágios.

Sei que quando o impasse se acabar,

as flores povoarão os campos

uma rosa purpurina se abrirá no teu canteiro

e a estrela da manhã surgirá num novo céu.

E eis que uma aurora de luz há de beijar a Terra,

o amor abraçará os filhos da esperança,

e só então a paz será um eterno banquete festejando a vida.

Vos digo que num só “idioma” se entenderão os povos,

que a música renascerá na melodia,

que uma nova literatura deslumbrará a alma

e que o nosso canto, sedutor e palpitante, reviverá no coração dos homens.

 

 

                                                                                          Curitiba, 20 de agosto de 2014

TERRA PROMETIDA – walmor marcellino / curitiba

TERRA PROMETIDA

 

Walmor Marcellino

 

Sempre fui palestino.
Era palestino
antes de saber meu destino,
e que existiram
Nabucodonosor, Ciro
seu pai Cambises
ou seu neto Artaxerxes,
o que eles sentiram,
ou o que dizes do rito
agora dos reis a quem serves.

Sempre fui palestino,
e tempos depois abissínio,
pele negra, sangue tinto
derramado em 1935.
Fui judeu estrelado em 40
e a cada sequente ano;
depois, moreno cigano,
ditos indigitados estranhos
a qualquer núcleo humano.

Tornei-me vietnamita
numa povoação calcinada;
desde a porta de entrada
procurei defender nossa vida
com fraternidade ativa:
bombas e napalm rasantes
à morte, traçantes,
tentamos
a resistência massiva
ante o terror imperialista.

Hoje é o mesmo inimigo,
pouco distinguimos ao vê-lo,
impondo ao povo castigo
quer arrasar a Palestina.
É um amargo pesadelo.

Novas tábuas do Sinai, a sina
vem na luz starfight do céu, na
estrela de seis pontas no tanque,
vai retornando essa malsina
com todo o poderio ianque.

(Maio 2002)

 

A carta dos soldados israelenses que se recusam a lutar em Gaza

O serviço militar israelense é obrigatório para homens e mulheres. Movimentos de resistência são comuns. O primeiro caso conhecido é de 1954, quando um advogado, Amnon Zichoroni, pediu para ser dispensado por ser pacifista. Em 2004, cinco pessoas foram condenadas a um ano de prisão por não se alistarem.

 

Em março, sessenta jovens entre 16 e 19 anos escreveram um manifesto destinado ao primeiro ministro Binyamin Netanyahu em que diziam  recusar o alistamento pois se opunham à ocupação dos territórios da Palestina.

Agora, são 51 soldados que se levantaram contra as Forças de Defesa, alguns deles na reserva.

Eles escreveram uma carta aberta no Washington Post explicando os motivos. O texto chega no momento em que a violência recrudesce na Faixa de Gaza, com a possibilidade cada vez mais remota de um cessar-fogo nas próximas horas.

Até agora, pelo menos 630 palestinos morreram e 3 mil estão feridos. Mais da metade são civis. Do outro lado, 31 israelenses tombaram, dois deles civis.

A carta é um documento eloquente sobre a tragédia e oferece uma visão da mentalidade das forças armadas israelenses. Para os signatários, o exército usa métodos de regimes opressivos contra a população de Gaza e da Cisjordânia e perpetua as desigualdades na sociedade israelense.

Eis alguns trechos. O original está aqui:

Em Israel, a guerra não é apenas a política por outros meios — ela substitui a política. Israel já não é capaz de pensar em uma solução para um conflito político exceto em termos de força física; não admira que seja propenso a ciclos de violência mortal que nunca terminam. E, quando os canhões disparam, nenhuma crítica pode ser ouvida. 

O exército, uma parte fundamental da vida dos israelenses, também é o poder que governa os palestinos que vivem nos territórios ocupados em 1967. Desde que ele passou a existir em sua estrutura atual, somos controlados por sua linguagem e mentalidade: dividimos o mundo entre o bem e o mal, de acordo com a classificação dos militares.

Os militares têm um papel central em todos os planos de ação e propostas discutidas no debate nacional, o que explica a ausência de qualquer argumento real sobre soluções não-militares para os conflitos de Israel com seus vizinhos. 

Os palestinos da Cisjordânia e da Faixa de Gaza são privados de direitos civis e direitos humanos. Eles vivem sob um sistema legal diferente de seus vizinhos judeus. Isto não é culpa exclusiva dos soldados que operam nesses territórios. Muitos de nós servimos em funções de apoio logístico e burocrático; lá, descobrimos que todo militar ajuda a implementar a opressão aos palestinos. 

Muitos soldados que trabalham longe de posições de combate não resistem porque acham que suas ações, frequentemente rotineiras e banais, não têm relação com os resultados violentos em outros lugares. E as ações que não são banais — por exemplo, decisões sobre a vida ou a morte de palestinos tomadas em escritórios a quilômetros da Faixa de Gaza — são confidenciais, portanto é difícil um debate público sobre elas. Infelizmente, nós nem sempre nos recusamos a cumprir as tarefas que nos foram encarregadas e, desta maneira, contribuímos também para a violência. 

O lugar central do militar na sociedade israelense, e a imagem ideal que ele cria, serve para apagar a cultura e a luta dos mizrachi (judeus cujas famílias são originárias de países árabes), etíopes, palestinos, russos, ultra-ortodoxos, beduínos e mulheres. 

Há muitas razões para as pessoas se recusarem a servir no exército israelense. Mesmo que tenhamos diferenças de formação e motivação, nós escrevemos esta carta. No entanto, contra os ataques a aqueles que resistem ao serviço obrigatório, apoiamos os resistentes: os alunos do ensino médio que escreveram uma declaração de recusa, os ultra ortodoxos que protestam contra a nova lei de conscrição, e todos aqueles cuja consciência, situação pessoal ou econômica não permitem que sirvam. Sob o pretexto de uma conversa sobre a igualdade, essas pessoas são obrigadas a pagar o preço. Não mais.

M E N I N O C O M G O L E I R O S – por jorge lescano / são paulo.sp

M E N I N O   C O M   G O L E I R O S

 

Eu salvei um pênalti que vai ficar na história de Leticia.

Ernesto Che Guevara: Primeiras viagens.

 

São dois garotos chutando uma bola na pracinha deserta. O homem os observa de vez em quando e volta para seus livros. Está sentado no banco verde e consulta os volumes distraidamente, como quem os conhece demais ou se reservando para estudá-los com atenção em local mais apropriado. Fuma e olha em volta.

A tarde de outono está chegando ao fim. As vozes dos garotos chegam de longe, de uma distância maior que a da realidade da praça, dir-se-ia uma distância temporal.

São dois garotos diferentes. Um tem por volta de dez anos, o outro é menor, seis anos talvez. Este é branco, o outro negro e toma os cuidados de um irmão mais velho. Agora amarra os cadarços dos sapatos do pequeno e voltam a chutar a bola. Fazem comentários. O homem fuma e os contempla por trás dos seus grandes óculos.

O pequeno chutou a bola com força desproporcional ao seu tamanho e ela se elevou carregada pela brisa por cima dos braços esticados do outro, deixando vazias as mãos abertas. O homem vê a bola vir em sua direção. Muito alta, impossível detê-la sentado. O garoto maior que corria para alcançá-la estaca esperando que o homem detenha seu percurso.

O homem parece indeciso da atitude a tomar. Seus livros estão sobre as coxas. A bola se aproxima. Com calma o homem põe os livros de lado e no momento oportuno dá um pulo e segura a bola com as duas mãos. O salto foi lento, preciso, elegante, como de alguém que sabe dominar a situação por experiência. Devolve a bola ao garoto maior que o observa com curiosidade.

– Ô, tio! – diz o garoto recebendo a bola.

Presta-se a virar para continuar com a brincadeira, mas algo parece intrigá-lo. Não sabe como expressar o que sente.

– O senhor, hein, tio! – é o seu comentário cheio de admiração esportiva pela defesa espetacular do homem magro que olha o garoto de uma distância imprecisa, difusa na penumbra de fim de tarde que tanto se parece a uma lembrança.

Antes de chutar a bola para seu companheiro de jogo, ainda com ela nas mãos, o garoto contempla com calma o goleiro improvisado.

– Obrigado! – diz, e chuta em direção do garotinho que espera fazendo pose de goleiro na hora do pênalti.

O crepúsculo invade a praça.

A MOLDURA DOS TEMPOS – de manoel de andrade / curitiba.pr

A MOLDURA DOS TEMPOS

 

                                                                                        Manoel de Andrade

 

 

 

 

 

Cada dia é um devir inquietante,

um enredo que anuncia a tempestade

e a bonança…?

ah! a bonança  é um barco num medonho temporal!

 

Uma egrégora maligna comanda o turbilhão,

é a frequência subliminar que domina o mundo,

a combustão da história,

o trágico espasmo da vida,

o tumulto e a fúria linchando as derradeiras utopias.

 

Na moldura dos tempos cada alma revela o seu retrato,

entre a incredulidade dos “sábios”  e a fé de uma criança,

transita a expectativa dos homens…

São dias sem bandeiras,

quando a verdade se envergonha da “justiça”,

as togas e os mandatos acumpliciados na ambição,

os crimes  lavados na corte dos “eleitos”

e os vilões absolvidos nesse palco de trapaças.

Até quando assistiremos a esse fatídico cenário?

Quem apagará as luzes dessa medonha ribalta?

Até quando, Senhor, suportaremos tanta ignomínia?

 

Nessa república de escândalos,

a corrupção gargalha da história.

Nos palanques da ilusão,

máfias partidárias e alianças promíscuas

maquiam seus patéticos contendores.

É um ritual insuportável,

onde o poder trama as suas dinastias,

as ideologias são negociadas

e nas tribunas se mascara a hipocrisia.

Eis o reduto oficial dos futuros saqueadores,

festejando sua agenda eleitoral em sórdidos banquetes,

ante a súplica inconsolável no olhar dos miseráveis.

 

Não quero o esquecimento,

não aceito o silêncio,

sou a acusação e a profecia

vivo num tempo de iniqüidades e presságios,

numa pátria humilhada pela impunidade,

comandada por homens sujos e soturnos

e eis porque hoje meu canto surge assim crispado,

testemunhando o impasse e esperando novos dias.

Sei  que não se engana a posteridade,

que nessa nau dos insensatos toda perfídia será nominada,

todas as máscaras cairão.

 

Sei também que um lento alvorecer anunciará o amanhã,

e que a fé e a decência viverão muito além desse holocausto.

Mas até quando, Senhor, combateremos esse combate?

Há uma “música” sinistra e constante,

martelando, sem limites, em toda parte,

e eu e tantos outros não toleramos essa assuada.

Canto para os homens honrados e para os cultores da beleza

e eis porque vos peço perdão pelo desencanto,

por  vos dar meu verso sombrio e indignado,

e esse febril retrato da esperança.

 

 

Curitiba, 04 de julho de 2014

O sucesso da Copa é a força de nosso povo – POR RICARDO KOTSCHO / são paulo.sp

O sucesso da Copa é a força de nosso povo.

Ricardo Kotscho

Faz duas semanas, deixei um país em guerra, afundado nas mais apocalípticas previsões, e desembarquei agora noutro, na volta, bem diferente, sem ter saído do Brasil. Durante meses, fomos submetidos a um massacre midiático sem precedentes, anunciando o caos na Copa do Fim do Mundo.

Fomos retratados como um povo de vagabundos, incompetentes, imprestáveis, corruptos, incapazes de organizar um evento deste porte. Sim, eu sei, não devemos confundir governo com Nação. Eles também sabem, mas, no afã de desgastar o governo da presidente Dilma Rousseff, acabaram esculhambando a nossa imagem no mundo todo, confundindo Jesus com Genésio, jogando sempre no popular quanto pior, melhor.

Estádios e aeroportos não ficariam prontos ou desabariam, o acesso aos jogos seria inviável, ninguém se sentiria seguro nas cidades-sede ocupadas por vândalos e marginais. Apenas três dias após o início da Copa, o New York Times, aquele jornalão americano que não pode ser chamado de petista chapa-branca, tirou um sarro da nossa mídia ao reproduzir as previsões negativas que ela fazia nas manchetes até a véspera. Certamente, muitos torcedores-turistas que para cá viriam ficaram com medo e desistiram. Quem vai pagar por este prejuízo provocado pelo terrorismo midiático?

Agora, que tudo é festa, e o mundo celebra a mais bela Copa do Mundo das últimos décadas, com tudo funcionando e nenhuma desgraça até o momento em que escrevo, só querem faturar com o sucesso alheio e nos ameaçam com o tal do “legado”. Depois de jogar contra o tempo todo, querem dizer que, após a última partida, nada restará de bom para os brasileiros aproveitarem o investimento feito. Como assim? Vai ser tudo implodido?

A canalhice não tem limites, como se fossemos todos idiotas sem memória e já tenhamos esquecido tudo o que eles falaram e escreveram desde que o Brasil foi escolhido, em 2007, para sediar o Mundial da Fifa. Pois aconteceu tudo ao contrário do que previam e ninguém veio a público até agora para pedir desculpas.

Como vivem em outro mundo, distantes da vida real do dia a dia do brasileiro, jornalistas donos da verdade e do saber não contaram com a incrível capacidade deste povo de superar dificuldades, dar a volta por cima, na raça e no improviso, para cumprir a palavra empenhada.

Para alcançar seus mal disfarçados objetivos políticos e eleitorais, após três derrotas seguidas, os antigos “formadores de opinião” abrigados no Instituto Millenium resolveram partir para o vale tudo, e quebraram a cara.

Qualquer que seja o resultado final dentro do campo, esta gente sombria e triste já perdeu, e a força do povo brasileiro ganhou mais uma vez. Este é maior legado da Copa, a grande confraternização mundial que tomou conta das ruas, resgatando a nossa autoestima, a alegria e a cordialidade, em lugar das “manifestações pacíficas” esperadas pelos black blocs da mídia para alimentar o baixo astral e melar a festa. Pois tem muito gringo por aí que já não quer mais nem voltar para seu país. Poderiam trocar com os nativos que não gostam daqui.

Que tal?

Destruir o Iraque para redesenhar o mapa do Oriente Médio? – por larry chin

Destruir o Iraque para redesenhar o mapa do Oriente Médio?21/6/2014, Larry Chin, Global Research, Canadá – http://goo.gl/fYR3S0  
O Iraque estaria sendo repentinamente invadido por ondas de “terroristas”? Ou o Iraque está sendo sabotado, sacrificado e destruído?

A imprensa-empresa comercial dominante pinta a coisa como “insurgência terrorista” de “extremistas” sunitas que, aparentemente de repente, do dia para a noite, tomaram o país. O governo Obama é criticado por ter sido apanhado “com a guarda baixa”. Se o Iraque for perdido, segundo essa narrativa, todos os “ganhos” dos EUA serão “desperdiçados”.

De fato, o que se vê na região é massiva operação da CIA, um longo plano geoestratégico em construção: fazer naufragar a região numa guerra sectária, um gigantesco banho de sangue, com múltiplas desestabilizações e deliberado show de violência sectária cruzando várias fronteiras, até que todo o mapa do Oriente Médio e da Ásia Central – e para lá disso – seja redesenhado.

IMAGEM: O novo mapa do Projeto Oriente Médio: mapa não oficial da OTAN e da Academia Militar dos EUA (http://www.globalresearch.ca/wp-content/uploads/2014/06/The-Project-for-the-New-Middle-East.jpg) 

O mapa acima foi preparado pelo tenente-coronel Ralph Peters. Foi publicado no Armed Forces Journal em jun.-2006. Peters é coronel aposentado da Academia Militar dos EUA (Copyright do mapa, Lieutenant-Colonel Ralph Peters, 2006).

Os EUA estão jogando dos dois lados desse conflito explosivo, com vistas aos objetivos mais amplos de EUA/OTAN.

A força invasora, ISIS, é criação da CIA-EUA e dos seus aliados ricos em petrodólares Arábia Saudita, Kuwait e Qatar. É uma frente da Al-Qaeda. A Al-Qaeda é braço da inteligência militar da CIA-EUA desde a Guerra Fria. ISIS é o exército da inteligência militar do império em sua guerra contra a Síria.

Há provas que apontam fortemente para uma deliberada retirada das forças de EUA e Iraque, que permitiram que oISIS tomasse Mosul, Tikrit, Fallujah e, sobretudo, tomasse armas e equipamento norte-americano ‘miraculosamente’ esquecido em grandes quantidades, para serem ‘encontrados’. O ISIS controla agora a refinaria de petróleo de Baji ao norte de Bagdá, o que dá ao grupo fonte de combustível e lucrativa fonte de renda. Os sunitas, incluindo seguidores de Saddam Hussein, “voltaram”.

Num processo horrendamente surreal, o espetáculo militar que está em preparação pode pôr forças militares dos EUA a usar drones e aviões bombardeiros a favor do regime xiita de Maliki e contra as próprias forças sunitas doISIS da CIA que usa armas e equipamento dos EUA. Mentiras e fogo cerrado matarão milhões de iraquianos e devastarão o país.

Tudo isso, para quê?

O Iraque está sendo reinvadido e redestruído, para ser transformado em algo bem próximo do plano original de Bush/Cheney, que queriam o país dividido por linhas sectárias, que deixariam a produção crucial e petróleo e gás no sul, em mãos de empresas aliadas do ‘ocidente’. Jamais algum desses cogitou de um Iraque estável. O plano sempre foi obter um Iraque maleável. Simples etapa em direção a coisa maior.

Tendo fracassado na tentativa de golpe para derrubar Damasco com uma insurgência de “combatentes da liberdade”, a CIA redireciona e realoca seus ‘procuradores’ que agem à distância. O ISIS está agora mais forte e mais bem armado. Tem a vantagem estratégica de ter bases tanto na Síria como as recém capturadas em território iraquiano. Está em posição para cercar e pressionar tanto a Síria quanto o Irã.

Desestabilização regional 

O objetivo é desencadear tal escala de violência sectária na região que seja difícil de conter e impossível de ignorar. Encene essas atrocidades horríveis à porta das nações-alvo, e os governos são empurrados para tais agitações e conflitos que não terão como evitar. Assim esses governos são enfraquecidos e ‘caem’. De fato, são derrubados. Mas o modelo é bem conhecido e foi usado sempre em virtualmente todas as ‘conquistas’ imperiais nas décadas recentes, dos Bálcãs ao Oriente Médio e à África. Na Ucrânia. 

O padrão é sempre o mesmo: na sequência, virá a “restauração da ordem” nos novos territórios, seja militarmente seja sob o disfarce de ajuda humanitária. E instalam-se regimes fantoches. Chegam as empresas, para “reconstruir” e para “investir”, assumindo o controle, sempre, para começar, do petróleo e do gás, e da geografia, pelas bases que se constroem – e das quais se lançam as operações militares/de inteligência.

Os eventos no Iraque podem marcar o início de um apocalipse mais amplo. Segundo Michel Chossudovsky, a agenda de longo prazo dos EUA é ‘esculpir’ ambos, Iraque e Síria, em três territórios separados: um Califato Islamista Sunita, uma República Árabe Xiita e uma República do Curdistão. O Iraque deixará de existir completamente. Toda a região está sob ameaça.

Mentiras e ambiguidades 

Dentro das fronteiras dos EUA, reina a morte cerebral mais desinteressada de tudo. A vasta maioria dos norte-americanos de nada sabem, de nada querem saber e não se importam. O cidadão médio reage a questões sociais, como igualdade de direitos para casar ou o racismo em jogos de futebol (que são questões sem importância alguma aos olhos das grandes potências), e absolutamente não dá nenhuma atenção às grandes ameaças que pesam sobre a humanidade – dentre as quais a maior é a guerra que continua a consumir vidas de norte-americanos, que norte-americanos usam como bucha de canhão. 

As massas norte-americanas não acordaram, não importa o quanto tantos fatos tenham sido amplamente expostos. A narrativa de propaganda, falsa, do 11/9, está firmemente implantada, talvez para sempre: os EUA estão em guerra contra “os terroristas que nos atacaram dia 11/9” e “temos de defender a liberdade”.

A esquerda política (em larga medida cooptada por atividades de tipo ‘programas de contrainteligência’) caça o próprio rabo, aceitando as narrativas produzidas em Washington, vez ou outra embarcando tolamente em visões limitadas como “o revide”, sempre disposta a crer na “inocência atrapalhada” de Washington… e engolindo praticamente todas as mentiras que ouça.

Na Washington capital da corrupção, a cena está além de qualquer cenário orwelliano. Reinam a propaganda e todos os tipos de mentiras. O círculo mais interno do poder sabe do que se passa e transpira, mas a arrogância e a disputa do poder entre dois ‘partidos’ persiste. A imprensa-empresa recusa-se a noticiar fatos e vive de repetir a mais desgastada propaganda, como é mandada repetir. A “guerra ao terror” vai muito bem, obrigada.

A senadora Dianne Feinstein está alertando contra “consequências devastadoras” das “forças sunitas em marcha” – e não diz que os EUA estão por trás das tais “consequências” e das tais “forças”. E conclama “os dois lados” (Democratas e Republicanos) a se “unirem”.

Não por coincidência, John McCain, senador que abertamente apoia os terroristas da Al-Qaeda e as atrocidades clandestinas, está outra vez no centro do palco, na primeira linha. Vive a cuspir desaforos contra a “fraqueza” e a “estupidez” do governo, que não reinvade o Iraque: “Todos nessa equipe de segurança nacional, inclusive o Comandante do Estado-maior têm de ser substituídos. É um colossal fracasso.” 

McCain exige que os EUA ataquem militarmente já (e provavelmente apoia cada um dos passos de Obama). É o mesmo McCain sempre diretamente envolvido em fornecer armas aos terroristas da Al-Qaeda na Líbia e na Síria. Não há dúvida possível de que McCain, sempre pronto a apoiar e armar e enriquecer “combatentes da liberdade” da Al-Qaeda da CIA, está ao lado, também, dos terroristas do ISIS.

IMAGEM: McCain com líderes terroristas da Al Qaeda e do exército sírio livre.

O bom amigo de McCain e inventador de guerras como ele, senador Lindsey Graham (R-SC), também ‘exige’ ataques aéreos imediatos e só faz promover a ideia de que “o próximo 11/9 está sendo preparado”. 

Obama está “falhando”?

E Obama? Agora que é presidente ‘pato-manco’, sem ter de preocupar-se com política e imagem falsificadas para a re-eleição, Obama e o seu aparelho de segurança nacional parecem mover-se em duas frentes: uma real; a outra, propaganda. 

O governo Obama está promovendo a agressão contra Ucrânia/Síria/Iraque a novos níveis, em busca desenfreada por alcançar rapidamente objetivos pelos quais anseia há muito tempo (a realpolitik), ao mesmo tempo em que se vai autossacrificando politicamente (na narrativa que a propaganda lhe cobra). 

Politicamente, Obama estará “tombando sobre a espada”? Aparentemente, como todos os presidentes antes dele, Obama está sendo dispensado do cargo como completo fracasso de política externa nos anos finais do mandato – o que abre o caminho para o sucessor, que fará novamente e sempre a mesma coisa. É sempre assim. 

Se, de agora em diante, Obama não conseguir “restaurar a ordem”, sairá como o presidente que “perdeu o Iraque”, “abandonou o Iraque antes da hora”, não conseguiu deter os terroristas, não conseguiu livrar-se de Assad, não pôs fim ao Irã, etc., etc. 

Agora, Obama está sendo culpado pela “paralisia política” do governo Maliki. O governo, e a provável candidata Democrata à presidência, a ex-secretária de Estado Hillary Clinton, já se viram envolvidos em escândalo gigantesco, como “a equipe que perdeu Benghazi” e encobriu tudo.

Somada ao fato de que Obama ampliou muito a geoestratégia assassina dos anglo-norte-americanos iniciada por Bush/Cheney (Obama ampliou exponencialmente as agressões, ao mesmo tempo em que manteve máscara de político democrático), os EUA devem esperar uma forte guinada à direita – outra vez, de volta à linha Bush/Cheney: o mesmo tipo de fascismo de direita “movido a ódio” que está tomando conta da Europa e que se vê claramente exemplificado na Ucrânia neonazista.

Para o próximo estágio da guerra mundial, e para controlar também os seus próprios dissidentes em território nacional, os EUA precisarão de presidente aberta e declaradamente brutal, na Casa Branca. Talvez alguém como Jeb Bush, com gabinete formado dos criminosos de guerra da equipe Republicana de Bush/Cheney, todos arrancados das respectivas tumbas para infernizar outra vez os vivos.

Ameaça ao futuro da humanidade 

O império norte-americano continua a trabalhar a favor da guerra total, usando todos os meios necessários para alcançar o controle do subcontinente eurasiano, diretamente contra Rússia e China. 

Esse holocausto tem escala e objetivos além da compreensão dos homens e mulheres de bem. Eventos no Iraque, Síria e Irã andam lado a lado com eventos na Ucrânia, todos inscritos numa única e desesperada agenda global. Só se busca o controle do que resta de petróleo e gás no planeta, dos oleodutos, dos gasodutos, das rotas de transmissão de energia, enquanto essas fontes de energia vão sendo exauridas e estarão esgotadas em poucas décadas.

Os eventos que se desenrolam no Iraque não são resultados de “fracassos da inteligência”, mas, como o 11/9 e outras atrocidades, são operação planejada pela inteligência; mais uma operação, numa sempre a mesma repetida horrorosa sequência. *****

O fascismo ronda o Brasil em 2014 – por Frei Betto / são paulo.sp

O fascismo ronda o Brasil em 2014 – Por Frei Betto.

 
Ao votar este ano, reflita se por acaso você estará plantando uma semente do fascismo ou colaborando para extirpá-la.
Jean-Marie le Pen, líder da direita francesa, sugeriu deter o surto demográfico na África e estancar o fluxo migratório de africanos rumo à Europa enviando, àquele sofrido continente, “o senhor Ebola”, uma referência diabólica ao vírus mais perigoso que a humanidade conhece. Le Pen fez um convite ao extermínio.
O ex-presidente francês Nicolas Sarkozy propôs a suspensão do Tratado de Schengen, que defende a livre circulação de pessoas entre trinta países europeus. Já a livre circulação do capital não encontra barreiras no mundo… E nas eleições de 25 de maio a extrema-direita europeia aumentou o número de seus representantes no Parlamento Europeu.
A queda do Muro de Berlim soterrou as utopias libertárias. A esquerda europeia foi cooptada pelo neoliberalismo e, hoje, frente a crise que abate o Velho Mundo, não há nenhuma força política significativa capaz de apresentar uma saída ao capitalismo.
Aqui no Brasil nenhum partido considerado progressista aponta, hoje, um futuro alternativo a esse sistema que só aprofunda, neste pequeno planeta onde nos é dado desfrutar do milagre da vida, a desigualdade social e a exclusão.
Caminha-se de novo para o fascismo? Luis Britto García, escritor venezuelano, frisa que uma das características marcantes do fascismo é a estreita cumplicidade entre o grande capital e o Estado. Este só deve intervir na economia, como apregoava Margareth Thatcher, quando se trata de favorecer os mais ricos. Aliás, como fazem Obama e o FMI desde 2008, ao se desencadear a crise financeira que condena ao desemprego, atualmente, 26 milhões de europeus, a maioria jovens.
O fascismo nega a luta de classes, mas atua como braço armado da elite. Prova disso foi o golpe militar de 1964 no Brasil. Sua tática consiste em aterrorizar a classe média e induzi-la a trocar a liberdade pela segurança, ansiosa por um “messias” (um exército, um Hitler, um ditador) capaz de salvá-la da ameaça.
A classe média adora curtir a ilusão de que é candidata a integrar a elite embora, por enquanto, viaje na classe executiva. Porém, acredita que, em breve, passará à primeira classe… E repudia a possibilidade de viajar na classe econômica.
Por isso, ela se sente sumamente incomodada ao ver os aeroportos repletos de pessoas das classes C e D, como ocorre hoje no Brasil, e não suporta esbarrar com o pessoal da periferia nos nobres corredores dos shopping-centers. Enfim, odeia se olhar no espelho…
O fascismo é racista. Hitler odiava judeus, comunistas e homossexuais, e defendia a superioridade da “raça ariana”. Mussolini massacrou líbios e abissínios (etíopes), e planejou sacrificar meio milhão de eslavos “bárbaros e inferiores” em favor de cinquenta mil italianos “superiores”…
O fascismo se apresenta como progressista. Mussolini, que chegou a trabalhar com Gramsci, se dizia socialista, e o partido de Hitler se chamava Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães, mais conhecido como Partido Nazista (de Nationalsozialist).
Os fascistas se apropriam de símbolos libertários, como a cruz gamada que, no Oriente, representa a vida e a boa fortuna. No Brasil, militares e adeptos da quartelada de 1964 a denominavam “Revolução”.
O fascismo é religioso. Mussolini teve suas tropas abençoadas pelo papa quando enviadas à Segunda Guerra. Pio XII nunca denunciou os crimes de Hitler. Franco, na Espanha, e Pinochet, no Chile, mereceram bênçãos especiais da Igreja Católica.
O fascismo é misógino. O líder fascista jamais aparece ao lado de sua mulher. Como dizia Hitler, às mulheres fica reservado a tríade Kirche, Kuche e Kinder (igreja, cozinha e criança).
O fascismo é anti-intelectual. Odeia a cultura. “Quando ouço falar de cultura, saco a pistola”, dizia Goering, braço direito de Hitler. Quase todas as vanguardas culturais do século XX foram progressistas:expressionismo, dadaísmo, surrealismo, construtivismo, cubismo, existencialismo. Os fascistas as consideravam “arte degenerada”.
O fascismo não cria, recicla. Só se fixa no passado, um passado imaginário, idílico, como as “viúvas” da ditadura do Brasil, que se queixam das manifestações e greves, e exalam nostalgia pelo tempo dos militares, quando “havia ordem e progresso”. Sim, havia a paz dos cemitérios… assegurada pela férrea censura, que impedia a opinião pública de saber o que de fato ocorria no país.
O fascismo é necrófilo. Assassinou Vladimir Herzog e frei Tito de Alencar Lima; encarcerou Gramsci e madre Maurina Borges; repudiou Picasso e os teatros Arena e Oficina; fuzilou García Lorca, Victor Jara, Marighella e Lamarca; e fez desaparecer Walter Benjamin e Tenório Júnior.
Ao votar este ano, reflita se por acaso você estará plantando uma semente do fascismo ou colaborando para extirpá-la.

Maria da Conceição Tavares: Resistir para avançar

Em conversa com Carta Maior, Maria da Conceição Tavares adverte para o risco de soluções supostamente redentoras e faz uma exortação: ‘Resistir para avançar.

por: Saul Leblon

Arquivo

Cautelosa, quase reticente em falar  de  economia, ‘numa hora em que tem tanta gente falando bobagem’, Maria da Conceição Tavares, a decana dos economistas brasileiros, voz   sempre ouvida com atenção quando o horizonte se anuvia, como agora, rejeita  as soluções miraculosas oferecidas  na praça para destravar os nós do crescimento brasileiro.A campanha eleitoral antecipada na queda de braço em torno da Copa do Mundo  exacerbou a divisão do país em duas visões de futuro, diz a voz cautelosa.Uma valoriza os avanços obtidos na construção da democracia social  nos últimos  doze anos.

Não considera  o caminho concluído, mas é o que está sendo construído.

A outra, majoritariamente abraçada pelo conservadorismo e seu martelete midiático, equipara o resultado desse  percurso  a uma montanha desordenada de escombros .Um Brasil aos cacos.

Propõe-se a saneá-lo de forma radical.

Em primeiro lugar,  esse ‘começar de novo’ retiraria  o país  das mãos do ‘populismo petista’, em outubro próximo.

Para entregá-lo em seguida a quem entende do ramo: os mercados e suas receitas de ‘contração expansiva’,  que combinam  arrocho salarial e fiscal  com fastígio dos fluxos de capital sem lei.

Na conversa com Carta Maior, Conceição  avança com cuidado, escolhendo as palavras ao transpor o limite que havia se imposto de não mexer nesse ambiente conflagrado.

‘A situação é muito delicada por conta do  encavalamento  de gargalos econômicos e  disputa eleitoral’, admite.

‘Mas o fato é que o projeto em curso é o mais adequado à sociedade brasileira’, afirma  esticando  seu divisor no campo minado.

“Avanços sociais, emprego, salário e crédito para manter a atividade  –não para puxar, me entenda, mas para manter o nível de atividade’, desfia a economista enquanto delimita a sua trincheira de resistência.

“São doze anos de estirão por essa via, agora é manter, enquanto se avança no investimento em infraestrutura, que vai puxar o novo ciclo. É o que tem que ser feito. E está sendo feito’, enfatiza para demonstrar certo desalento  em seguida:

“A maior dificuldade reside justamente nisso. Não há muito mais o que inventar,  essas coisas mirabolantes que se puxa da cabeça, como se a crise fosse uma coisa mental e não uma luta social, não fazem sentido e arriscam por tudo a perder’.

Em outras palavras, os desafios graves  não são endógenos ao modelo, nem superáveis na atual correlação de forças. Daí a dificuldade em se traçar um caminho reto e previsível em direção ao passo seguinte da história.

Quem fala entende de crise.

Conceição nasceu em abril de 1930, seis meses depois da 5º feira negra de outubro de 1929, quando as bolsas reduziram todo um ciclo capitalista de riqueza especulativa a pó e pânico.

‘O que se passa  é distinto de tudo aquilo’, dizia ela em entrevista a Carta Maior no calor dos acontecimentos da desordem neoliberal, em 2011.

Aquele  entendimento pioneiro  é reiterado hoje quase com as mesmas palavras,  agora  endossadas  pelos fatos em curso.

“Essa é uma crise que estreita o campo de manobra , ao invés de ampliá-lo, como em 29. Sim, você tem a comprovação empírica do fracasso neoliberal,  mas  são eles que persistem  e dão as cartas no xadrez  global. Vivemos um colapso do neoliberalismo sob o tacão dos neoliberais:  a pasmaceira política aqui é reflexo desse paradoxo’.

A professora de reconhecida bagagem intelectual,  em geral prefere não  avançar na reflexão política e ideológica. Mas tem feito concessões diante do cenário de areia movediça no qual a bússola política parece  ter perdido a capacidade de mediar o cipoal econômico (leia ao final desta nota trechos de um artigo de Maria da Conceição , ‘A era das distopias’, publicado originalmente na revista  Insight Inteligência).

Preocupa-a  a ansiedade que  a crispação  política injeta no quadro econômico.

‘Os partidos estão desengonçados, os movimentos sociais fracionados, os sindicatos aquém do espaço que  lhes cabe. Essa pulverização incentiva soluções redentoras’,  avisa com um misto de preocupação e revolta.

Conceição metaboliza  o diagnóstico alguns segundos  para alvejar:

‘Uns querem milagre social,  outros arrocho fiscal ’. Repete a disjuntiva, satisfeita com a síntese extraída  à força do denso  nevoeiro.

‘E  ambos estão desastradamente equivocados!’, arremete então escalando as sílabas.

A crítica aberta alveja, de um lado, movimentos avulsos que se comportam às vezes como clientes da sociedade e não corresponsáveis pela arquitetura  de sua emancipação.

De outro,  a pregação ortodoxa, a ecoar a agenda tucana para outubro de 2014.

‘Uns querem milagre, outros arrocho’, reitera. E nesse corredor estreito elege a resistência histórica como  o chão pelo qual vale a pena lutar nesse momento.
‘Lula está certo, em geral ele está certo’, pondera.

‘Lula é uma pessoa sensata, ao contrário de muitos  economistas visionários que estão à procura de um novo modelo; ele sabe que uma conquista histórica  não se pode perder’.

‘Se não há inflação de demanda, e não há,  então por que arrochar o crédito?’, questionou o ex-presidente em evento recente no Rio Grande do Sul, diante de autoridades da área econômica do governo.

Conceição o ampara.

‘A inflação de alimentos  tem origem na seca, não na exacerbação da demanda. O custo da energia, idem. Do lado externo, o dólar baixo  que desestabiliza o setor externo da economia é um reflexo da fraca recuperação mundial. Vamos negociar um novo modelo com o clima ou com o Fed ?’,  detona.

Sem mudar o tom de voz, a economista debulha e esfarela  os grãos das receitas alternativas: ‘Vamos fazer um arrocho fiscal? Arrocho quem faz são eles. Eu não recomendo mexer em modelo algum. O que devemos é sustentar  o nível de atividade  e avançar no investimento em infraestrutura , com forte aporte estatal’, discorre  já inteiramente à vontade e rompida com a decisão de não discutir ‘aquilo que vive um momento delicado’ : a luta pelo desenvolvimento brasileiro.

Conceição  não  acredita que o país  possa recuperar integralmente o espaço perdido pela sua indústria para  a concorrência internacional. Mas preconiza  uma revitalização em novas bases. Injetando nervos e musculatura  à capacidade competitiva com uma dose combinada de  desvalorização cambial e redução do juro –‘ Não agora, no próximo governo, quando a inflação climática perder seu ímpeto’.

A reinvenção do sistema industrial conta, no seu entender, com uma alavanca fortemente apoiada em três pontos de chão firme: mercado de massa,  pré-sal e  grandes projetos de infraestrutura. ‘Não é coisa pouca’, encoraja.

O ceticismo  dos que enxergam uma contradição insolúvel num capitalismo que bordeja a fronteira do pleno emprego não ofusca seu campo de visão.

O emprego, o salário e o crédito  ordenam a ótica histórica dessa economista que modulou  a filiação  keynesiana pela chave da esquerda.

Formam trunfos da luta pelo democracia social, não obstáculos.

Muito diferente da estranha ponte de consenso que se esboça entre segmentos progressistas e concepções ortodoxas acerca do passo seguinte do desenvolvimento brasileiro.

Os pilares dessa construção híbrida  constatam  que o pleno emprego no capitalismo enseja ganhos salariais acima do incremento de produtividade.

Uma dissociação que resultaria em  desequilíbrios  esgotantes circunscrevendo a história em uma espécie de inferno de Sísifu: luta-se para gerar empregos até que, uma vez criados, eles se tornam disfuncionais e devem ser destruídos.

Pelo bem do sistema.

E ai de quem não o fizer.

O ‘populismo petista’ está entre os que resistem. A um custo alto para a economia.

Em miúdos e graúdos a fatura assumiria a forma de uma inflação ascendente, com retração do investimento produtivo em proveito da especulação rentista  –que se beneficia da alta dos juros inerente à tensão inflacionária do conjunto.

É o diagnóstico híbrido que se dissemina.

Mas que Conceição  rejeita.

A ideia de um sistema econômico intrinsecamente avesso ao pleno emprego é estranha a essa economista.

Como assim, se o que tivemos nos trinta anos do pós-guerra foi exatamente pleno emprego, com estabilidade, direitos  e crescimento?’, questiona.

O que existe hoje, no seu entender,  é um pouco mais complexo e enervado de história do que uma fórmula fechada em si.

A desregulação  financeira  –que se explica em parte por erros, rendições e derrotas da esquerda mundial —  catalisou e fortaleceu interesses contrários a um desenho de  desenvolvimento comprometido com a maior convergência da riqueza  e das oportunidades.

‘Aceitá-lo como inexorável explica o funeral  da socialdemocracia europeia’, diz Conceição.

Mas não significa que não se possa  –se deva, retruca–  reinventar o espaço de um desenvolvimento cuja finalidade seja gerar empregos, salários, qualidade de vida e direitos.

Esse espaço morreu na Europa hoje.

“Mas está vivo no Brasil e partes da América Latina’, lembra essa portuguesa que escolheu  a luta pelo desenvolvimento com justiça social  como sua pátria.

De dentro dela,  Conceição encara as adversidades  a sua volta e endossa a intuição de Lula e o destemor de Dilma com uma palavra  tantas vezes pertinente em sua vida: resistir, resistir, resistir.

‘Resistir para avançar. O resto é arrocho’.

Leia, abaixo, trecho de um artigo de Maria da Conceição Tavares, publicado originalmente na revista  Insight Inteligência.

A era das distopias

“As pessoas estão perdidas, não sabem como se guiar do ponto de vista político, econômico. E com isso a história parece que não se move. O futuro fica ilegível, amorfo”

“Na verdade, se o PIB é “pibinho” ou não, qual o problema? vai ser 2%, 3% ou 4%? O problema é ter emprego. Para mim, os critérios clássicos são emprego, salário mínimo e ascensão social das bases”

Desde o século XVIII, os movimentos políticos, sociais e econômicos deixaram de se orientar pela ideia de tradição, substituindo-a pela de um futuro diferente e melhor. Eles acreditavam que a história tinha um sentido, um objetivo, uma utopia: criar uma sociedade mais livre e mais igualitária.

A busca da liberdade pautou o século XIX: liberdade do indivíduo, política e econômica, representada pela Revolução Francesa. Depois, no século XX, veio o marxismo e a promessa do reino da igualdade, representada pela Revolução Russa. Foi também em nome da igualdade que se construiu o Estado do bem-estar, como uma alternativa ao socialismo.

O planejamento era uma ideia inseparável dessa visão de mundo. Democratização, planificação, esse é o século XX. As pessoas acreditavam que o futuro estava destinado a isso. E orientavam-se politicamente em função da reconstrução do mundo. Mas essa orientação histórica rumo à liberdade e à igualdade, elaborada no Iluminismo, acabou no final do século XX.

Acho difícil saber para onde vamos. Não dá para dizer se o resultado do que está ocorrendo será positivo ou negativo, à luz do que se conheceu até aqui. O que ocorre hoje pode ser uma transição ou um apodrecimento. Transição não sei para quê, porque não há uma utopia prévia. Você podia falar em transição para o socialismo no século XVIII ou XIX porque estavam lá as manifestações e as utopias prévias. Mas, agora, a transição para o socialismo quer dizer o quê?

Tudo bem, pode ser que seja um viés reformista da minha geração… Eu sou uma adolescente do século XX e me identifico muito com ele, a favor do que era bom, e contra o que era ruim. Por outro lado, não vejo causas que sirvam para agregar de forma propositiva tantos interesses fracionados. Ninguém sabe como reagir se não há conceito e pensamento, organizados a partir de uma utopia. Acho que esta sensação de impotência, de não se ver ninguém pensando diferente, deriva daí.

Diga-me um autor relevante que não esteja pensando dessa maneira, prostrado pela falta de alternativas? Não há ousadia em nada, pelo menos do ponto de vista do pensar. Ninguém na academia está falando nada muito diferente. Por isso, não gosto de dar entrevista, não quero engrossar o coro de lamentação dos intelectuais. Pode ser que eu já esteja ultrapassada, que esteja velha. Mas é como eu estou vendo. De qualquer forma, esse ciclo vai passar. Torcemos para que ele não seja longo’.

 

A Copa Nacional versus Não Copa golpista – Dom Orvandil

A Copa Nacional versus Não Copa golpista – Dom Orvandil

Vive-se hoje verdadeira tensão desequilibrada entre a maioria que torce e apoia a Copa do Mundo no Brasil e uma minoria mesclada entre fingidos que publicamente dizem não se interessar pela Copa, mas que na intimidade torcem por ela e os que a ligam ao Governo Dilma e pressionam pela derrota da Seleção Brasileira tentando alvejar a candidata à reeleição. Há os que alegam que a Copa não deve se misturar com política, numa falsa dicotomia entre coisas que são políticas e outras que não são.

Torcedores e Seleção Brasileira - selfie

 

Querido Rudá Morcillo

Sou-te imensamente agradecido pelo convite que me fizeste para escrever para teu maravilhoso site (Meu Blog de Política). Este é o primeiro artigo que compartilho prazerosamente contigo, meu amigo. Abordo aqui o problema da luta política em torno da Copa do Mundo no Brasil.

Vive-se hoje verdadeira tensão desequilibrada entre a maioria que torce e apoia a Copa do Mundo no Brasil e uma minoria mesclada entre fingidos que publicamente dizem não se interessar pela Copa, mas que na intimidade torcem por ela e os que a ligam ao Governo Dilma e pressionam pela derrota da Seleção Brasileira tentando alvejar a candidata à reeleição. Há os que alegam que a Copa não deve se misturar com política, numa falsa dicotomia entre coisas que são políticas e outras que não são.

É preciso entender a vinculação política histórica entre os grandes esportes e as lutas dos blocos que defendem interesses contraditórios. A Copa sempre foi política, mesmo que o Felipão, treinador principal da Seleção, não saiba disso. O que é lamentável é que a Seleção do Brasil não receba um direcionamento deliberado como política de Estado na defesa dos interesses nacionais e sociais de nosso povo, como o Presidente Nelson Mandela fez na África do Sul, usando o futebol como fator de unidade nacional e de cura das feridas abertas e sangramentos divisionistas pelo racismo nazista, que separou negros e brancos, pobres e ricos, opressores e oprimidos.

Quando a direita dominou usou abertamente o esporte como fator de propaganda. Assim aconteceu no dia 1º de agosto de 1936 na Alemanha, evento olímpico aberto Adolfo Hitler. Com advento da TV o principal teórico de marketing e comunicação do ditador nazista o “ministro nazi Joseph Goebbels (blog Esquerda.net) como meio de propaganda política, encomendou um filme que retratasse a supremacia dos atletas “arianos” frente aos outros desportistas. Sob a direção de Leni Riefenstahl, foi rodado o filme Götter des Stadions (Deuses do Estádio), que registrou em mais de 300 quilômetros de película os principais resultados daquela Olimpíada para os alemães.” Os Estados Unidos, contudo, sem intervenção de Hitler, que não desejava isolar-se do mundo, enviaram para a competição mundial negros e judeus. Foi aí que a intenção política clara do nazismo de ressaltar a superioridade branca e ariana fracassou. “… a maior revelação das competições foi Jesse Owens, um atleta americano e, ainda por cima, negro.” Jesse Owens, negro, subiu ao centro e no alto do pódio.

Durante a ditadura civil-mediática-militar no Brasil o carniceiro general Garrastazu Médici usou e abusou da Copa e, principalmente da vitória dos Canarinhos em 1970, para fazer propaganda política da ditadura e calar os gritos e gemidos que emergiam das prisões e dos porões sujos de sangue, onde patriotas sofriam sob o tacão opressor do terrorismo adotado pelo Estado, por lutarem contra o fascismo.

Pelo lado do povo os países socialistas contaram com o esporte, notadamente o futebol, para unir seus povos. Assim aconteceu com a extinta União Soviética e acontece com Cuba, com a China e com todos os outros. Os grandes eventos esportivos sempre foram fatores políticos, de um lado ou de outro.

Aqui no Brasil nesse ano grupos de direita e a mídia, igualmente de interesse colonial e fascista, usa o povo e setores inocentes sociais para boicotar o governo Dilma, disso os esclarecidos sabem. A barulheira do “não vai ter copa” (até na frase há ignorância. Porque não dizer com simplicidade “não haverá copa”?) tem a intenção escondida o denuncismo sem provas, que nada fundamenta quanto à corrupção e gastos excessivos com o grande evento mundial. Os ruídos, felizmente cada vez mais abafados pela paixão nacional, intencionam evitar o sucesso dos jogos e, sublinhe-se, o “risco” de a Seleção sair-se campeã e de isso ajudar a campanha da reeleição da Presidente Dilma.

No fundo, essa campanha, ignorante não somente na formulação da frase, é contra o Brasil, é contra a comunhão internacional que se dará aqui nesses dias, é contra os milhares de empregos gerados direta e indiretamente pelas grandes obras que se edificam. É contra a enorme projeção cultural e econômica do Brasil. É uma torcida contra o Brasil e contra o nosso povo.

A TV Globo e os demais bobos da corte da casa grande, numa política perniciosa e antipatriótica, falam mal das obras e do legado que a Copa entregará ao nosso País. Mentem deslavadamente e de modo hipócrita, até para esconder os antros de corrupção de seus negócios, das sonegações e mentiras junto da Receita Federal. Esses órgãos, que são concessões do povo através do Estado, massacram a verdade ao mentir e tentar jogar o povo contra o mundo, que crava seus olhos em nós, impondo uma propaganda criminosa e ainda impetram mandatos judiciais pedindo que o STF libere os tais “protestos” durante os jogos, num verdadeiro arroubo de oportunismo.

Sinceramente, penso que o Ministério dos Esportes e a Presidenta Dilma deveriam ser mais enfáticos na orientação da Seleção Brasileira e exigir que os jogadores e toda a equipe de apoio tivessem aulas de política nacional, de posturas políticas em campo e de gestos que ajudassem nosso povo e lutar por mais dignidade, como nos ensinou o grande jogador Sócrates, que sabia como deveriam se comportar os jogadores conscientes de sua cidadania e dos compromissos com a Pátria, mesmo jogando.

Abraços críticos e fraternos na luta pela justiça e pela paz.

Dom Orvandil: bispo cabano, farrapo e republicano, também na Copa.

Elite de US$ 30 trilhões discute renovação do capitalismo em Londres

Elite de US$ 30 trilhões discute renovação do capitalismo em Londres

Um grupo de pessoas que juntas controlam US$ 30 trilhões (R$ 67 trilhões) em ativos globais – ou cerca de 14 vezes o Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil – estão reunidas em Londres nesta terça-feira para debater os rumos do sistema capitalista.

A reportagem foi publicada no portal da BBC Brasil, 27-05-2014.

Segundo a organização do seminário Conference on Inclusive Capitalism: Building Value, Renewing Trust (A Conferência sobre o Capitalismo Inclusivo: Construindo Valores, Renovando a Confiança, em tradução livre), o objetivo é discutir ideias que ajudem a promover uma sociedade baseada no livre mercado, porém mais igualitária.

O evento inclui entre os palestrantes de peso como o ex-presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton, e a diretora-geral do Fundo Monetário Internacional (FMI)Christine Lagarde. O príncipe Charles, do Reino Unido, abriu os trabalhos.

A conferência ocorre em meio à polêmica recente lançada pelo economista francês Thomas Piketty de que ocapitalismo vem concentrando renda, em vez de distribui-la.

BBC ouviu três participantes do evento sobre quais rumos o capitalismo deve tomar. Leia os relatos.

- Lynn Forester (CEO do conglomerado EL Rothschild, pertencente à família Rothschild, e fundadora da Conference on Inclusive Capitalism: Building Value, Renewing Trust):

O capitalismo tem de provar à sociedade como um todo que é um mundo de oportunidades para a prosperidade geral e para o crescimento dinâmico. Por causa dos escândalos que tivemos nos últimos cinco anos, e por causa do crescimento da desigualdade, penso que os patrões têm a obrigação moral de provar o que é bom para a sociedade e é bom somente para os seus negócios.

O capitalismo inclusivo não é nada diferente do capitalismo consciente ou do capitalismo progressivo. Trata-se de um sistema que permite um desenvolvimento maior de toda a sociedade e não se sustenta por si mesmo. O capitalismo inclusivo é bom capitalismo.

Já o mau capitalismo é amarrar as taxas Libor (taxa preferencial de juros que remunera grandes empréstimos entre os bancos internacionais operantes no mercado londrino), é vender instrumentos financeiros que são prejudiciais ao seu investir, é tirar vantagem dos trabalhadores e não se importar com a sustentabilidade da sua cadeia de fornecedores. Há muitos coisas que formam o que entendo por ser mau capitalismo.

É por causa disso que temos tão pouca confiança do público em geral sobre o capitalismo, porque, por muito tempo, nos permitimos um mau comportamento dentro dos nossos negócios. Temos de reconhecer de uma vez por todas que fizemos coisas erradas.

Um dos meus principais objetivos como fundadora e co-apresentadora da Conferência sobre o Capitalismo Inclusivoera fazer com que investidores do mundo inteiro não se preocupassem apenas com o lucro.

Eu quero que eles perguntem às suas equipes coisas do tipo: O que você está fazendo para garantir a perenidade da sua cadeia de fornecedores? Como é o seu contato com a comunidade à sua volta? Você é admirado? O que estou fazendo para melhorar?

Se os investidores colocarem dinheiro em companhias que têm uma visão de longo prazo sobre a sociedade, então, as corporações vão fazer o mesmo. O nosso horizonte tem de ser de 20 anos, não de 12 semanas. Esse é meu objetivo imediato.

- Madsen Pirie (fundador e presidente do Instituto Adam Smith, que defende o livre mercado):

Quando as pessoas renunciam aos prazeres do cotidiano e só pensam em investir, acreditando com isso que vão ganhar dinheiro ao proporcionar mercadorias e serviços que outras pessoas talvez queiram no futuro. Essa é a minha definição de capitalismo.

O capitalismo gerou a riqueza necessária para tirar grande parcela da humanidade da substência e da fome e nos permitiu financiar a ciência, a educação e as artes, assim como obter conforto material e oportunidades.

Tal como a democracia pode ser corrompida pelo populismo repressivo, o capitalismo também pode ser desvirtuado pela busca de renda, quando as pessoas tentam obter ganhos maiores do que os produtos e serviços que produzem para os outros.

Algumas vezes, essas mesmas pessoas tentam influenciar o cenário político de modo a pressionar pela manutenção de monópolios e evitar a entrada de novos atores no mercado que trazem consigo o potencial criativo. Algumas vezes, eles usam governos para lhes fornecer subsídios por meio dos contribuintes, ou proíbem produtos importados mais baratos.

Outras vezes, elas fazem acordos com governos que recorrem a fundos dos contribuintes para sustentar perdas decorrentes de decisões incompententes ou imprudentes. Essas formas de capitalismo de compadrio exclui os benefícios e as conquistas reais do capitalismo.

O capitalismo deve se libertar-se da urgência do lucro e beneficiar um número maior de pessoas.

Para isso, o capitalismo deve condenar fortemente o uso de práticas anti-competitivas e dar a pessoas o poder da livre escolha entre bens e serviços concorrentes. Mais pessoas também devem ter o direito sobre a propriedade do capital e de investimento ora por meio de contas poupança individuais ora pensões, por exemplo.

O capitalismo também deve reduzir as barreiras à entrada de novos competidores no mercado, de forma que todos possam aspirar a montar um negócio. E, por fim, deve adotar um sistema tributário que premie o sucesso, em vez de puni-lo.

Basicamente, estamos falando de inclusão, de tal modo que o maior número de pessoas possa deixar de consumir irrefreadamente para investir seus recursos e seu tempo no fornecimento de bens e serviços a outras pessoas. Esse é o verdadeiro capitalismo.

- Clive Menzies (economista político e fundador do projeto de pesquisa Critical Thinking na Free University):

Um estudo de 2011 da revista New Scientist revelou que 147 “super entidades” controlam 40% das 43.060 empresas transnacionais e 60% de suas receitas. A pesquisa foi baseada em acionistas e diretores, mas não revela a propriedade nem o controle por trás de empresas “laranja”, fundos ou fundações. Dados sugerem que o poder estaria muito mais concentrado do que realmente o levantamento sugere.

Esse poder, que não é controlado pelo Estado, domina a política, a mídia e a educação. O capitalismo financeiro procura monetizar e controlar tudo, influenciar a legislação e a regulamentação a seu favor.

Tal sistema é, no meu ver, elaborado a partir de três falhas fundamentais no sistema econômico e evoluiu para beneficiar a classe dominante ao longo dos séculos. Essas falhas, entretanto, foram expurgadas do discurso econômico.

Falha 1. A propriedade privada sobre terra, recursos e outros bens comuns (como a água, o espectro de rádio, genes, natureza e conhecimento), recursos naturais (ou Deus), cujo valor é comunitariamente criado. Esse valor deveria ser compartilhado para o bem de todos.

Falha 2. A cobrança de juros não gera riqueza, mas sistemicamente impulsiona a desigualdade, a destruição do meio ambiente, conflito e um crescimento exponencial e insustentável da dívida. A dívida deveria ser inaplicável pela lei e a usura (empréstimo de dinheiro a juros) ilegal. A dívida deveria ser destinada mais à construção da teia social do que facilitar a extração de riqueza, a exploração e a opressão.

Falha 3. O aumento da mecanização e da tecnologia tornou o pleno emprego inatingível, desnecessário e indesejável. Os meios para a vida não podem ser condicionado ao emprego remunerado, mas é um direito de todos e deve ser prestado sob a forma de um dividendo suficiente para uma vida digna aos cidadãos incondicionalmente

A COPA DAS COPAS – por dilma rousseff – Presidente do Brasil / Brasilia.df

Artigo de opinião de Dilma Rousseff: “A Copa das Copas”

08 JUN 2014 – 09:20 

 

"É o momento da grande festa internacional do esporte.  É também o momento de celebrarmos, graças ao futebol, os valores da competição leal e da convivência pacífica entre os povos", diz a presidente Dilma Rousseff, em artigo publicado neste domingo na imprensa internacional; no texto, a presidente caracteriza as manifestações como reflexo de uma democracia pujante; "Somos também um país que, embora tenha passado há poucas décadas por uma ditadura, tem hoje uma democracia vibrante. Desfrutamos da mais absoluta liberdade e convivemos harmonicamente com manifestações populares e reivindicações, as quais nos ajudam a aperfeiçoar cada vez mais nossas instituições democráticas"; leia a íntegra do texto que pede uma "Copa pela paz e contra o racismo".

A Copa das Copas

Dilma Rousseff*

A partir desta quinta-feira, os olhos e os corações do mundo estarão voltados para o Brasil. Trinta e duas seleções, representando o melhor do futebol mundial, estarão disputando a Copa do Mundo, a competição que de quatro em quatro anos transforma a todos nós em torcedores.

É o momento da grande festa internacional do esporte. É também o momento de celebrarmos, graças ao futebol, os valores da competição leal e da convivência pacífica entre os povos. É a oportunidade de revigoramos os valores humanistas de Pierre de Coubertin. Os valores da paz, da concórdia e da tolerância.

A “Copa das Copas”, como carinhosamente a batizamos, será também a Copa pela paz e contra o racismo, a Copa pela inclusão e contra todas as formas de preconceito, a Copa da tolerância, da diversidade, do diálogo, do entendimento e da sustentabilidade.

Organizar a Copa das Copas é motivo de orgulho para os brasileiros. Fora e dentro de campo, estaremos unidos e dedicados a oferecer um grande espetáculo. Durante um mês, os visitantes que estiverem em nosso país poderão constatar que o Brasil vive hoje uma democracia madura e pujante.

O país promoveu, nos últimos doze anos, um dos mais exitosos processos de distribuição de renda, aumento do nível de emprego e inclusão social do mundo. Reduzimos a desigualdade em níveis impressionantes, elevando, em uma década, à classe média 42 milhões de pessoas e retirando da miséria 36 milhões de brasileiros.

Somos também um país que, embora tenha passado há poucas décadas por uma ditadura, tem hoje uma democracia vibrante. Desfrutamos da mais absoluta liberdade e convivemos harmonicamente com manifestações populares e reivindicações, as quais nos ajudam a aperfeiçoar cada vez mais nossas instituições democráticas.

Em todas as 12 cidades-sedes da Copa, os visitantes poderão conviver com um povo alegre, generoso e hospitaleiro. Somos o país da música, das belezas naturais, da diversidade cultural, da harmonia étnica e religiosa, do respeito ao meio ambiente.

De fato, o futebol nasceu na Inglaterra. Nós gostamos de pensar que foi no Brasil que fez sua moradia. Foi aqui que nasceu Pelé, Garrincha, Didi e tantos craques que encantaram milhões de pessoas pelo mundo. Quando a Copa volta ao Brasil depois de 64 anos é como se o futebol estivesse de volta para a sua casa.

Somos o País do Futebol pelo glorioso histórico de cinco campeonatos e pela paixão que cada brasileiro dedica ao seu clube, aos seus ídolos e a sua seleção. O amor do nosso povo por esse esporte já se tornou uma das características de nossa identidade nacional. Para nós o futebol é uma celebração da vida.

Em nome de 201 milhões de brasileiras e brasileiros, estendo as boas-vindas aos torcedores da França e a todos os visitantes que vierem ao Brasil compartilhar conosco a “Copa das Copas”.

*Dilma Rousseff é presidenta da República Federativa do Brasil.

25 de maio, 2014 – por jorge lescano / são paulo.sp

25 de maio, 2014

Do outro lado do vidro, batia de leve o chuvisco de inverno. Ele fazia algumas pausas na leitura para apreciar melhor aquele som miúdo, música de câmara se comparado com as tempestades de verão, ribombantes, texturadas por fachos de luz iridescente, raios e trovões numa sinfonia romântica.

Desfrutava a leitura de modo diverso. Não procurava o final do relato, ao contrário, saboreava cada frase como um fruto isolado numa árvore carregada de frutas suculentas, douradas, aromáticas.

O resfriado obrigava-o a permanecer quase imóvel e bem agasalhado. Cobria as pernas com uma manta felpuda e bebia seu chá com prazer ostensivo, como se alguém estivesse presenciando a cena; melhor, como se ele estivesse representando para alguém invisível.

Contra seu hábito, lia um relato atrás de outro, como se todos eles formassem uma história única. Até a monotonia da tarde de domingo contribuía para saturar o clima de paz. Uma paz que raramente sentia.

Sentia-se na sua mítica Noruega, terra de trolls, criaturas dos bosques sombrios, de Ibsen, de Munch, de Grieg…, e de Peer Gynt!

Contemplou a capa do livro onde uma borboleta temporã adejava sutilmente, lembrando uma paixão do autor. Nabokov, apesar de redondamente russonário, era um grande escritor. Reconhecia que as sensações daquele momento eram em grande parte produto dos seus relatos.

Lembrou-se de uma tarde de cinquenta anos antes. Tinha ido visitar de improviso um amigo croata que morava na estação terminal de uma linha férrea. Depois daquela paragem era o deserto. Chovia molemente, Dentro da casa havia um aconchego de cobre salpicado pela luz de uma lamparina. Ele olhou pela pequena janela da sala enfeitada com uma modesta cortina estampada com pequenas flores e viu a chuva caindo no quintal de terra onde algum matinho balançava quando as gotas pousavam nele. Sentiu o calor do ambiente matizado pelo sotaque da mãe do seu amigo, que se afanava para servir chá e bolinhos e vodka.

Estou numa aldeia russa, pensou, numa isbá da estepe.

Um sentimento de gratidão o invadiu.

Bebeu mais um gole de chá, não queria estragar a sua sensação com qualquer comentário.

AS ELEIÇÕES E AS CARTOMANTES – poe wanderley guilherme dos santos / são paulo.sp

AS ELEIÇÕES E AS CARTOMANTES

Há quem morra acreditando que o fim do mundo está próximo. E há quem viva crente de que será o beneficiário de riquezas inesperadas, conquistas inauditas.

Cartomantes, videntes, intérpretes de pesquisas eleitorais e, muito especialmente, editorialistas e colunistas muito mais especialmente ainda, não são interpelados sobre a inexatidão dos prognósticos e profecias com que assustam ou embriagam seus clientes. Certo, vez por outra recebem leves críticas pelo fiasco das previsões, sem serem acionados por charlatanice ou falsidade ideológica. E a maioria dos viciados volta a procurar todos, e todas, sempre que temem o futuro.

Convenhamos, é coisa de enorme fragilidade emocional acreditar que o que lhe está desde já reservado, caso existisse de fato, se revela na manipulação matreira de valetes de copas, azes de espada e as cobiçadas damas de alcova, quero dizer, damas de outros, ou melhor, damas de ouros. Há modos de entender o fenômeno sem a necessidade de convocar entidades sub metafísicas ou supra psicanalíticas.

Há pouco, boatos de nobre origem alimentaram a expectativa de que os computadores iriam desarranjar-se sem conserto com a passagem do século. De 1999 para 2000 ou deste para 2001, contudo, nada aconteceu. E nessa dúvida cronológica já se encontra metade dos subterfúgios com que fracassados profetas justificam o escandaloso vexame, a saber: a volubilidade do tempo e a pobreza dos calendários. Esse negócio de contar o tempo não é fácil, como se comprova por consulta ao Google ou à Wikipédia. Papas e imperadores sempre desejaram aprisionar em métricas comedidas aquelas anomalias da natureza disfarçadas de micro milionésimos de segundos ou minutos e que, quando menos se espera, viraram algumas horas, dia até, ocasionando “bolos” históricos e rupturas matrimoniais. Calendários ditos Julianos, Gregorianos, lunares, sub-lunares, solares, maias e astecas, é vasta a oferta do modo de contar o tempo. Steven J. Gould, em Questioning the Millenium, faz erudita e bem humorada recensão de todas as tentativas.

Pois é ao caráter fugidio do tempo que os profetas apelam para justificar a decepção de suas apostas. Tratar-se-ia de erro de contagem nas mensagens cifradas das cartas, nuvens, borras de café, vísceras de aves e teclados de computador. Quem sabe o 1 era 2 e o 2, 3, e o dia do Juízo Final dos computadores se dará na passagem do ano de 2 999 para 3 000? Isso, claro, se o mundo não for destruído, antes, por herético conciliábulo entre reis, rainhas, damas e valetes de heterogêneo e pecaminoso conjunto de naipes.

Ao explicar o normal andar dos dias oposto aos reboliços prometidos por mais cuidadosa leitura do tempo, preservam a suposta dádiva da antevisão e a reputação do visionário, culpando os cosmólogos por não traduzirem corretamente os indícios emitidos pelo movimento e duração dos astros (Ponho aqui “indício” de caso pensado, termo tornado célebre por juízes e repórteres ao tomá-lo, tal como as cartomantes, por equivalente a “evidência”. Nos tempos que correm, conforme o calendário Juliano ou Gregoriano, não importa, indício quer dizer evidência, ou não, só quando convém, é evidente). No caso, defendem-se os catastrofistas com a desculpa de que os indícios não apontavam para evidências e, portanto, a data anunciada ficou comprometida. Pena só se ter tomado ciência disso depois de queda nas bolsas, suicídios antecipados e uísques tomados por conta. No próximo fim de mundo, ou de governo, asseguram, não falharão.

A outra muleta de profetas do não acontecer chama-se, petulantemente, dissonância cognitiva. Trocada em miúdos, a dissonância do mal arrumado profeta refere-se ao óbvio descompasso entre o que ele vê e o mundo real dos paralelepípedos e procissões religiosas. Se cismar de perceber nestas últimas a obscenidade de ritos pagãos não há santo que os persuada do contrário.

Cantochões tomados por convites à devassidão, paramentos anunciando a variedade de strip-tease que será apresentada, e por aí vai. Em suma, reinterpreta-se o mundo para fazê-lo conferir com a pretensa cognição. Nas seitas milenaristas, que anunciam o fim dos tempos, quando a desculpa não é o calendário que teria sido mal composto, é a dissonância cognitiva, isto é, os sinais ainda não teriam atingido sua forma derradeira e estaríamos ainda às vésperas dos grandes acontecimentos.

Há quem morra acreditando que o fim do mundo está próximo. E há quem viva crente de que será o beneficiário de riquezas inesperadas, conquistas inauditas e glórias, e poder, prestígio e pesquisas. Andaço muito comum em períodos eleitorais, levando os fiéis a permanente romaria entre a dissonância e o calendário. Nada a fazer além de deixar o tempo passar e só tocar no assunto no ano seguinte. A ressaca é longa.

A FILOSOFIA DO ÓDIO por marco vasques / florianópolis.sc

A FILOSOFIA DO ÓDIO

Por Marco Vasques

Publicada no jornal Notícias do Dia [12/05/2014]

Antes que alguém nos acuse de apocalípticos, já vamos explicando que não. Ao contrário, o mundo está até ordenado em demasia e, de alguma maneira, gostaríamos que ele estivesse mais revoltoso, mais radical. Seríamos capaz de desfilar um rosário de motivos pelos quais a revolta se faz urgente. A fome que assola todos os cantos do mundo. A corrupção generalizada e institucionalizada. As guerras criadas e deflagradas nos gabinetes. A presença de uma elite econômica cada vez mais reacionária. O preconceito – o silencioso e o violento.  A falta de políticas públicas efetivas para a saúde e a educação. Enfim, da calçada esburacada do bairro a uma simples compra no supermercado. Sim. Temos mais motivos para irmos ao protesto do que para ficarmos sentados à frente de uma televisão vendo a Copa do Mundo.

No geral, somos absorvidos pela rotina e acabamos amortecidos com tantos afazeres. Trabalho, escola, academia, oficina do carro, filhos, aluguel, plano de saúde, animais, amigos, família, e assim segue a roda viva de sempre. Os dias, os meses, os anos passam e quando nos damos conta, estivemos praticamente toda a vida correndo atrás da vida. No entanto, dispomos de uma infinita maneira de demonstrar nosso desconforto e, digamos assim, nosso ódio com tudo que está posto. O uso do ódio, fruto da indignação, para que haja um efeito real na vida prática, precisa estar pautado pela inteligência e por algum princípio de razão. Mas como assim? Usar o ódio com inteligência? Se podemos usar o amor com inteligência, e, infelizmente, raramente o fizemos, por que não o ódio? Não há nada mais clichê e chavão que afirmar que o ódio é tão humano quando o amor. E é mesmo.

Aqui poderíamos, ainda, abrir categorias de ódio. Do ódio privado, aquele que é gerado por uma insatisfação íntima, por uma inadequação à vida. Sim. Existem pessoas que são inábeis à vida. Ao ódio coletivo, ao ódio das causas comuns, que são muitas. O fato é que nem tudo é tão binário e compartimentado. Nossas emoções oscilam para um lado e outro, quando não para o acúmulo. Porém, um dado sobre o nosso exercício do ódio a ser observado é que ele quase sempre atinge o alvo errado. Os linchamentos de mendigos em praça pública; os assassinatos e esquartejamentos de nossas meninas; os estupros diários sofridos por crianças, adolescentes, jovens e mulheres. A nossa intolerância com quem opta por orientações religiosas e sexuais distintas das nossas são exemplos de que exercemos o imperativo do ódio como método de opressão, não de libertação. Temos que domar a filosofia do ódio para esmagar o uso da força e da violência contra quem já é, constantemente, violentado.

A SURPRESA QUE VEM DA ÍNDIA por boaventura souza santos – são paulo/sp

A SURPRESA QUE VEM DA ÍNDIA –

Novo partido, que enfrenta sistema político e poder econômico, avança, reage a chantagens, mobiliza quem estava paralisado. Experiência pode ser reproduzida?

Escrevo esta crónica da Índia, onde tenho estado nas últimas três semanas. Na década passada, a Índia foi avassalada pelo mesmo modelo de desenvolvimento neoliberal que a direita europeia e seus agentes locais estão a impor no Sul da Europa. As situações são dificilmente comparáveis mas têm três características comuns: concentração da riqueza, degradação das políticas sociais (saúde e educação), corrupção política sistêmica, alastrando-se para todos os principais partidos envolvidos na governação e sectores da administração pública. A frustração dos cidadãos perante a venalidade da classe política levou um velho ativista neo-gandhiano, Anna Hazare, a organizar em 2011 um movimento de luta contra a corrupção que ganhou grande popularidade e transformou as greves de fome do seu líder num acontecimento nacional e até internacional. Em 2013, um vasto grupo de adeptos decidiu transformar o movimento em partido, a que chamaram o partido do homem comum (Aam Aadmi Party, AAP).
O partido surgiu sem grandes bases programáticas, para além da luta contra a corrupção, mas com uma forte mensagem ética: reduzir os salários dos políticos eleitos, proibir a renovação de mandatos, assentar o trabalho militante em voluntários e não em funcionários, lutar contra as parcerias público-privadas em nome do interesse público, erradicar a praga dos consultores, através dos quais interesses privados se transformam em públicos, promover a democracia participativa como modo de neutralizar a corrupção dos dirigentes políticos. Dada esta base ética, o partido recusou-se a ser classificado como de esquerda ou de direita, dando voz ao sentimento popular de que, uma vez no poder, os dois grandes partidos de governo pouco se distinguem.
Em dezembro passado, o partido concorreu às eleições municipais de Nova Déli e, para surpresa dos próprios militantes, foi o segundo partido mais votado e o único capaz de formar governo. O governo foi uma lufada de ar fresco, e em fevereiro o AAP era o centro de todas as conversas. Consistente com o seu magro programa, o partido propôs duas leis, uma contra a corrupção e outra instituindo o orçamento participativo no governo da cidade, e exigiu a redução do preço da energia eléctrica, considerado um caso paradigmático de corrupção política. Como era um governo minoritário, dependia dos aliados na assembleia municipal. Quando o apoio lhe foi negado, demitiu-se em vez de fazer cedências. Esteve 49 dias no poder e a sua coerência fez com que visse aumentar o número de adeptos depois da demissão.
Perplexo, perguntei a um colega e amigo, que durante 42 anos fora militante do Partido Comunista da Índia e durante 20 anos membro do comitê central, o que o levara a aderir ao AAP: “fomos vítimas do veneno com que liquidamos os nossos melhores, favorecendo uma burocracia cujo objetivo era manter-se no poder a qualquer preço. É tempo de começar de novo e como militante-voluntário de base”. Outro colega e amigo, socialista e votante fiel do Partido do Congresso (o centro-esquerda indiano): “aderi quando vi o AAP enfrentar Mukesh Ambani, o homem mais rico da Ásia, cujo poder de fixar as tarifas de eletricidade é tão grande quanto o de nomear e demitir ministros, incluindo os do meu partido”.
Suspeito que tarde ou cedo vai surgir em Portugal o partido do homem e da mulher comuns. Já tem nome e muitos adeptos. Chamar-se-á Partido do 25 de Abril. Quarenta anos depois da Revolução, será a resposta política aos que, aproveitando um momento de debilidade, destruíram em três anos o que construímos durante quarenta anos. O 25 de Abril é o nome do português e da portuguesa comum cuja dignidade não está à venda no mercado dos mercenários, onde todos os dias se vende o país. Será um partido de tipo novo que estará presente na política portuguesa, quer se constitua ou não. Se se constituir, terá o voto de muitas e muitos; se não se constituir, terá igualmente o voto de muitas e muitos, na forma de voto em branco. Por uma ou por outra via, o Partido do 25 de Abril não esperará pelo próximo livro de Joseph Stiglitz, Prêmio Nobel da Economia, onde ele explicará como o FMI destruiu o Sul da Europa com a conivência da UE.

Sanções contra a Rússia agilizam a formação de novo mercado financeiro

Por Redação, com agências internacionais – de Moscou

A peskov

Peskov falou sobre a formação de um mercado financeiro independente

As sanções anunciadas pela União Europeia e EUA contra a Rússia também voltaram a mexer com o mercado investidor, nesta terça-feira, após uma entrevista com o porta-voz do Kremllin, Dmitry Peskov. A Rússia voltou a cogitar a formação de um mercado financeiro paralelo ao de Wall Street, com negociações realizadas em moedas como o rublo, o yuan e o real, em resposta às pressões do Ocidente contra a anexação do Estado independente da Crimeia.

Segundo Peskov, as sanções contra a Rússia foram “o último gatilho” para a criação de um sistema financeiro independente, baseado na economia real. Segundo afirmou, “o mundo está mudando rapidamente”.

– Quantas civilizações cresceram e se extinguiram no curso da História? Quem está apto a resistir à pressão de um sistema perto da falência e indicar ao seu povo o caminho para o futuro? A possibilidade de um novo sistema financeiro independente do dólar, que segue perto de um colapso após a crise de 2008 será uma consequência das sanções contra a Rússia que, doravante, passará a reforçar seus laços econômicos com o países do BRICS, em particular com a China, que é dona de grande parte da dívida externa norte-americana – afirmou.

O mundo, hoje em dia, segundo análise do porta-voz do governo russo, “deixou de ser bipolar” e países como Brasil, Índia, China e África do Sul, que integram o BRICS, juntos com a Rússia, representam 42% da população mundial e cerca de um quarto da economia, o que coloca este bloco como um importante ator global. As sanções determinadas pelo Ocidente “podem significar uma grande catástrofe para os EUA e os europeus, no futuro”, acrescentou Peskov.

A discussão sobre um novo sistema financeiro, no entanto, não começou agora. Desde a formação do BRICS, há mais de uma década, estuda-se a possibilidade de se formar um novo mercado, que aceite outras moedas, e não apenas o dólar norte-americano, na liquidação dos negócios. Os países que integram este bloco estão todos de acordo com os princípios legais, em nível mundial, e o volume de negócios entre estas nações tem batido novos recordes a cada ano, nas mais diferentes áreas.

Com o objetivo de modernizar o sistema econômico global, que tem no centro dele os EUA e a UE, os líderes do Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul criaram o BRICS Stock Alliance, um embrião deste novo mercado sem o dólar, e têm desenvolvido mecanismos bancários capazes de financiar seus grandes projetos de infraestrutura. Apesar do ceticismo dos mercados formais, “estes países têm mostrado bons resultados em suas balanças comerciais”, concluiu.

 

QUINO, o cartunista argentino, SENSACIONAL!

Tristemente Brilhante…
Quino, o cartunista argentino autor de Mafalda, desiludido com o rumo que está tomando o mundo, quanto a valores e educação, expressou seu sentimento a respeito… Brilhante!!!
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A genialidade deste artista produziu uma das melhores críticas sobre a educação dos filhos nos tempos atuais….

VÍBORAS NO SALÃO – por paulo metri / são paulo/sp

Víboras no salão

(Veiculado pelo Correio da Cidadania a partir de 24/03/14)

 

 

 

Sobre Pasadena, SBM Offshore, cláusulas “put option” e Marlin, e assuntos correlatos, muito tem sido dito e concluído, no sentido da manipulação da informação, para que só versões convenientes, verdadeiras ou fictícias, dos fatos sejam divulgadas. Sendo o predador um veículo da grande mídia, o interesse é repassar o que interessa ao capital, havendo pouco interesse social.

Adicione-se a isto que este ano é eleitoral e muito poder e riqueza futuros irão depender desta eleição. Junte-se, também, que estamos falando de petróleo, um recurso natural com imenso valor estratégico e incomensurável lucratividade. O resultado é este bombardeio de informações que deixa o cidadão comum perdido. Vejamos o que se consegue recuperar de alternativas mais prováveis do ocorrido.

Depois da posse do presidente Lula, em 2003, durante o esquartejamento da administração pública do país para entrega dos cargos a grupos políticos, que nossa cultura obriga, a Diretoria Internacional da Petrobras coube a Nestor Cerveró, que pertencia ao grupo do atual senador Delcídio Amaral, o qual foi, no governo FHC, o Diretor de Gás e Energia da Petrobrás.

Duas observações preliminares se fazem necessárias. Em países politicamente desenvolvidos, quando há alternância de partidos políticos no poder, são nomeados, em princípio, políticos para os cargos mais altos da administração e são reservados os cargos secundários para funcionários de carreira, não filiados a partidos. Algo como os nossos ministros e presidentes de estatais serem escolhidos do universo político e os chefes de órgãos da administração direta e os diretores de estatais serem funcionários de carreira.

A segunda observação preliminar é, na verdade, uma indagação. Como pode um cidadão servir a dois governos teoricamente antagônicos e, também, ser aceito por ambos? Ou o cidadão mudou de posição ou os governos não eram antagônicos. Então, Nestor Cerveró, que está sendo crucificado agora, sem querer inocentá-lo, era um simples testa-de-ferro de um grupo, que não consigo detectar ao certo todos seus componentes.

O planejamento interno da Petrobras recomendou, em 2005, a compra de 50% da refinaria de Pasadena, nos Estados Unidos, por US$ 190 milhões (outros US$ 170 milhões foram pagos para comprar a matéria prima existente na refinaria), apesar da Astra Oil ter comprado 100% da refinaria, sete meses antes, por US$ 42,5 milhões. O preço da transação foi avaliado como correto por consultoria externa, que argumentou que os preços no setor de petróleo estavam aquecidos. Além disso, pelas informações obtidas na mídia, a recomendação do planejamento fazia sentido, porque a Petrobras poderia ter acesso a uma refinaria já pronta, sem ter de esperar pelo período de construção de uma nova, conseguiria entrar no mercado norte-americano de derivados e poderia dar um destino para seu óleo pesado, se alguns investimentos adicionais fossem realizados.

Assim, quem acompanhasse a compra sabia, antes de o negócio ser fechado, que investimentos adicionais seriam necessários e o dono dos outros 50% da refinaria teria que concordar com estes novos investimentos.

Nesta situação, parece-me uma inocência fechar este contrato pela perspectiva de discussão futura. Podia-se ter trazido para dentro do contrato o compromisso da outra parte de realizar os investimentos adicionais futuros. Para piorar a fragilidade da posição assumida ao se assinar o contrato, existia a cláusula “put option” nele, que aumentava a atratividade, para o outro proprietário, de um embate jurídico futuro, alegando simplesmente não concordar em realizar o novo investimento.

Raciocínios permitiam antever tudo isto. Consta que o relator da proposta de compra de 50% da refinaria de Pasadena na reunião do Conselho de Administração da Petrobras, em 2006, foi Nestor Cerveró.

Pois bem, a presidente Dilma ter participado da aprovação desta compra, na condição de presidente do Conselho de Administração, não me parece errado. Em primeiro lugar, os membros do Conselho desta empresa têm que tomar, no mínimo, umas 200 decisões de maior porte por ano e é humanamente impossível ler a íntegra dos 200 processos. Por isso, existem os sumários executivos, que, no caso específico, foi preparado pelo relator já citado e tudo leva a crer que a compra não foi bem relatada.

No final do imbróglio da refinaria de Pasadena, ocorreu o esperado: a Astra Oil não concordou com os novos investimentos, alegou a cláusula “put option” para a Petrobras comprar a sua parte no negócio e ganhou na Justiça, fazendo a Petrobras desembolsar mais US$ 860 milhões pelos restantes 50%. Foi lamentável ouvir do ex-presidente da estatal, José Sergio Gabrielli, que US$ 1 bilhão não era grande quantia para a empresa. Não sei se, para ela, é desprezível, mas para qualquer trabalhador brasileiro é um valor que não se consegue nem imaginar. Espero que a Polícia Federal, o Ministério Público e o Tribunal de Contas da União mergulhem no passado e descubram os verdadeiros responsáveis. E, havendo dolo, que estes sejam exemplarmente punidos.

Entretanto, querer responsabilizar a presidente Dilma, por ela ter votado favoravelmente à compra de Pasadena no Conselho, é puro interesse eleitoral. Acho até que a presidente Dilma não precisava ter dado explicação alguma, como deu, pois bastava dizer: “votei com o relator, uma vez que concordei com seu sumário executivo”. Se o jogo é recriminar a presidente Dilma, acho melhor se dizer que o critério dela e de seu antecessor para escolha de auxiliares é falho.

Chega a ser hilário ver o presidenciável Aécio Neves dizer que quer reestatizar a Petrobras, sentado ao lado de Fernando Henrique, com quem ele sonha dividir a chapa para a eleição e que quis privatizar a Petrobras no seu governo (ver evento Petrobrax). Quanto ao Eduardo Campos, pergunto-me onde ele estava quando a presidente resolveu entregar 60% de Libra para empresas estrangeiras ou quando ela resolveu leiloar blocos para produção de gás de xisto na região do aquífero Guarani. Ele ainda não era candidato e, portanto, não precisava criticar?

Neste momento, as oposições querem criar a CPI da Petrobras no Congresso, para averiguar este caso, Paulo Roberto Costa, SBM Offshore e outros. Obviamente, o objetivo verdadeiro é ver “a presidente Dilma sangrar”, como se diz em política. A mídia do capital tudo fará para as candidaturas de Aécio Neves e Eduardo Campos levantarem voo.

As empresas petrolíferas internacionais devem estar eufóricas, pois querem abocanhar a Petrobras e já aparecem artigos dizendo que “a solução é privatizar a empresa, uma vez que, assim, vai acabar a roubalheira”. Este ponto merece uma análise.

O superlucro advindo do petróleo, quando a concessão é entregue a empresas estrangeiras, vai totalmente para o exterior e este fato não é caracterizado como um roubo, por estar dentro da lei, mas representa uma enorme perda para a sociedade, pois deixa de ativar nossa economia. Não vou me ater à perda da possibilidade de comercializar este petróleo ao adotar a “opção privada” e, assim, deixar de usufruir da importância geopolítica dele.

Além do mais, é preciso acabar com esta irrealidade que, no setor privado, não há corrupção. Primeiramente, todos os corruptores de designados para os cargos públicos e de servidores são integrantes do setor privado. Depois, lembrem-se do exemplo bem didático que, quando explodiu a bolha do mercado imobiliário, em 2008, nos Estados Unidos, muitos bancos pediram concordata, mas seus CEOs continuaram muito ricos. Ou seja, eles roubavam os bancos que os empregavam.

Tudo isto está em jogo neste momento. Gostaria de saber o que pensam os políticos Randolfe Rodrigues, Mauro Iasi e José Maria de Almeida, que também são candidatos a presidente, ou algum outro que esqueci. Porque a presidente Dilma, apesar de a sua preocupação social ser perfeita, infelizmente fez uma opção preferencial pelo mercado que não me agrada. Fugindo à norma rígida da escrita de artigos, aproveito este para mandar um recado para a presidente: “a senhora ouviu tanto o mercado e, agora, este ingrato está mandando a mídia dele insuflar as candidaturas Aécio e Campos!”

 

Paulo Metri – conselheiro do Clube de Engenharia e colunista do Correio da Cidadania

O POETA Manoel de Andrade lança seu livro NOS RASTROS DA UTOPIA e convida:

A CONVITE

DIA INTERNACIONAL DA MULHER (08-03-2014) – por zuleika dos reis / são paulo.sp

                                  DIA INTERNACIONAL DA MULHER

                                                                                                               Zuleika dos Reis

 

                Falar sobre as qualidades excepcionais da mulher é sempre a grande tônica neste dia. Louvações escritas por mulheres, escritas principalmente por homens, e sempre boas de se ler, claro; outros textos falam do que as mulheres conquistaram de direitos até agora, no Brasil e/ou no mundo; terceiros, ainda, em menor número, apontam para questões graves que  nos envergonham a todos, como a prostituição infantil feminina, o tráfico de mulheres, a gravidez precoce, a violência física e psicológica contra as mulheres, o assédio sexual no trabalho, uma menor remuneração a pessoas do sexo feminino, na comparação  com a remuneração de homens em cargos iguais, etecetera. No que me concerne, venho também saudar o Dia Internacional da Mulher com uma pequena palavra, modesta palavra, em tônica ligeiramente diversa das que se costuma empregar neste dia. Após tal introdução, quase do mesmo tamanho do texto propriamente dito, vamos a ele:

 

Homens, procurem, tentem ser, sempre, companheiros efetivos das mulheres; nas intenções, nos atos.

Mulheres, procuremos, tentemos ser, sempre, além de efetivas companheiras dos homens, também pessoas solidárias com as outras mulheres, nos atos, nas intenções.

Isso pode parecer pouco, talvez o seja, mas, não consigo enxergar qualquer possibilidade de um mundo melhor que não passe pela instauração de um tempo novo, realmente pleno, com menos necessidade de esconderijos e de subterfúgios e de jogos de poder nas relações entre homens e mulheres, entre mulheres e mulheres, seja na família, seja no trabalho, seja no território amoroso, seja nas mais áreas das nossas vidas. Chamo a atenção para isso com o objetivo de dizer da nossa responsabilidade individual, pessoal, para tal restauração nos relacionamentos entre os dois sexos. Para que se ultrapasse um tempo ainda de competição em direção a uma sociedade de igualdade de direitos baseada na real partilha, na colaboração e na participação de ambos, homem e mulher, no trabalho no lar, na educação dos filhos, no prazer mútuo dos corpos, em tudo, enfim. Falei de mulheres e de homens; haveria como falar só da mulher mesmo em um dia dedicado à mulher?

Toda árvore, toda planta tem que ser cuidada desde a terra em que está plantada, desde a semente, desde a raiz. Cuidada todo o tempo. Só assim a planta, a árvore, podem dar belas flores e sadios frutos, também.

Feliz dia da mulher a todas as mulheres e a todos os homens desta Terra.

EX JURISTA DO BANCO MUNDIAL REVELA COMO A ELITE DOMINA O MUNDO

Exjurista del Banco Mundial revela cómo la élite domina el mundo

Publicado: 3 mar 2014 | 16:08 GMT Última actualización: 3 mar 2014 | 16:08 GMT

© RT

Karen Hudes, exsoplona del Banco Mundial, despedida por haber revelado información sobre la corrupción en el banco, explicó con detalle los mecanismos bancarios para dominar nuestro planeta.

Karen Hudes es graduada de la escuela de Derecho de Yale y trabajó en el departamento jurídico del Banco Mundial durante 20 años. En calidad de ‘asesora jurídica superior’, tuvo suficiente información para obtener una visión global de cómo la élite domina al mundo. De este modo, lo que cuenta no es una ‘teoría de la conspiración’ más.

De acuerdo con la especialista, citada por el portal Exposing The Realities, la élite usa un núcleo hermético de instituciones financieras y gigantes corporaciones para dominar el planeta.

Citando un explosivo estudio suizo de 2011 publicado en la revista ‘Plos One‘ sobre la “red de control corporativo global”, Hudes señaló que un pequeño grupo de entidades, en su mayoría instituciones financieras y bancos centrales, ejercen una enorme influencia sobre la economía internacional entre bambalinas. “Lo que realmente está sucediendo es que los recursos del mundo están siendo dominados por este grupo”, explicó la experta con 20 años de antigüedad en el Banco Mundial, y agregó que los “capturadores del poder corruptos” han logrado dominar los medios de comunicación también. “Se les está permitido hacerlo”, aseguró.

El estudio suizo que mencionó Hudes fue llevado a cabo por un equipo del Instituto Federal Suizo de Tecnología de Zúrich. Los investigadores estudiaron las relaciones entre 37 millones de empresas e inversores de todo el mundo y descubrieron que existe una “superentidad” de 147 megacorporaciones muy unidas y que controlan el 40% de toda la economía mundial.

Pero las elites globales no solo controlan estas megacorporaciones. Según Hudes, también dominan las organizaciones no elegidas y que no rinden cuentas pero sí controlan las finanzas de casi todas las naciones del planeta. Se trata del Banco Mundial, el FMI y los bancos centrales, como la Reserva Federal estadounidense, que controlan toda la emisión de dinero y su circulación internacional.

El banco central de los bancos centrales

La cúspide de este sistema es el Banco de Pagos Internacionales (BPI): el banco central de los bancos centrales.
“Una organización internacional inmensamente poderosa de la cual la mayoría ni siquiera ha oído hablar controla secretamente la emisión de dinero del mundo entero. Es el llamado el Banco de Pagos Internacionales [Bank for International Settlements], y es el banco central de los bancos centrales. Está ubicado en Basilea, Suiza, pero tiene sucursales en Hong Kong y en Ciudad de México. Es esencialmente un banco central del mundo no electo que tiene completa inmunidad en materia de impuestos y leyes internacionales (…). Hoy, 58 bancos centrales a nivel mundial pertenecen al BPI, y tiene, con mucho, más poder en la economía de los Estados Unidos (o en la economía de cualquier otro país) que cualquier político. Cada dos meses, los banqueros centrales se reúnen en Basilea para otra ‘Cumbre de Economía Mundial’. Durante estas reuniones, se toman decisiones que afectan a todo hombre, mujer y niño del planeta, y ninguno de nosotros tiene voz en lo que se decide. El Banco de Pagos Internacionales es una organización que fue fundada por la élite mundial, que opera en beneficio de la misma, y cuyo fin es ser una de las piedras angulares del venidero sistema financiero global unificado”.

Según Hudes, la herramienta principal de esclavizar naciones y Gobiernos enteros es la deuda.

“Quieren que seamos todos esclavos de la deuda, quieren ver a todos nuestros Gobiernos esclavos de la deuda, y quieren que todos nuestros políticos sean adictos a las gigantes contribuciones financieras que ellos canalizan en sus campañas. Como la élite también es dueña de todos los medios de información principales, esos medios nunca revelarán el secreto de que hay algo fundamentalmente errado en la manera en que funciona nuestro sistema”, aseguró.

Texto completo en: http://actualidad.rt.com/economia/view/121399-jurista-banco-mundial-revela-elite-domina-mundo

AÍ VINDES OUTRA VEZ INQUIETAS SOMBRAS – por paulo timm / torres.rs

AÍ VINDES OUTRA VEZ INQUIETAS SOMBRAS

 

Paulo Timm  Fevereiro 27

 

O ano de eleições gerais no Brasil deveria prometer grandes novidades: Novos líderes, idéias renovadas, processos inovadores. Mas nada disso. Os últimos dias estão testemunhando algo muito estranho na conjuntura política.

Em primeiro lugar, há uma nítida e perigosa ruptura da cultura política. Enquanto as ruas explodem em violência inaudita, PAULO TIMMcomprometendo a velha imagem do “brasileiro cordial”, a política institucional – que comanda as eleições- se arrasta que nem procissão, sem despertar a fé dos eleitores nos supostos candidatos: Dilma, Aécio, Eduardo Campos et caterva. Ao contrário, relevam no horizonte as imagens  antagônicas de Lula, com um incontido grito de “VOLTA LULA”, e de Fernando Henrique Cardoso. Este, obnubilado pelo seu próprio Partido – PSDB – nas eleições de 2002 – 2004 – 2010, volta com impressionante vigor à cena política tentando cavar um espaço para o crescimento da Oposição. É cuidadoso: Defende o candidato Aécio, mas não coloca nele todas as suas fichas. Sabe, no fundo, que ele é um candidato fraco, cuja força está muito mais na hora e na vez de Minas Gerais do que em seus próprios méritos. Também, pudera: Aécio não consegue fazer um discurso emocionante de improviso. Em todas as ocasiões oficiais de confirmação , pré-lançamento  e celebração de sua candidatura, lá puxa do bolso um caprichado discurso feito por um aspone  sem qualquer charme – Ah que saudades de Itamar Franco que, pelo menos, lia os discursos preparados por Mauro Santayana!!- e se põe a ler com artificial entusiasmo.

A verdade verdadeira é muito simples:  O Brasil real mudou muito do Plano Real para cá, isto é, duas décadas, o que só sublinhou as mudanças trazidas pela redemocratização e consagradas pela Constituição de 1988. Os espaços públicos abriram-se à movimentação de idéias e agentes políticos surpreendentes, com amplas garantias individuais e coletivas, sem esquecer da presença maciça do povo nos processos eleitorais,  ao tempo em que o poder aquisitivo das classes trabalhadoras elevou-se consideravelmente, garantindo-lhe acesso e bens e serviços até então confinados à reduzida classe média, inclusive nível superior.  A renda média no Brasil , hoje, situa-se em torno de US$ 800, sendo que tal valor se multiplica até por três quando se fala em renda familiar, porque nos lares mais pobres todos trabalham, desde cedo. O Salário Mínimo, mercê da política de valorização na era petista, corre atrás, deixando num tempo remoto  quando nunca chegava a US$ 100,00. O Brasil continua pobre, enfim  com quase metade de sua população vivendo ameaçadoramente à míngua, fora do mercado. Mas é tão grande que a “metade superior” , aliada à providência  natural lhe impulsiona para o futuro enquanto se debate para superar as agruras do presente. E aí estão as raízes da contraditória

insatisfação popular: Apoiam, em tese,  o Governo, mas vivem à beira de um ataque de nervos aglomerados em grande centros metropolitanos carentes de infra-estrutura física e social, quando acabam se confundindo com os “excluídos”.   Ocasionalmente explodem  e trazem à tona ícones políticos do passado como figuras extraordinárias. Estivesse Brizola vivo e , certamente, seria um poderoso candidato na atual sucessão…Vivemos, aparentemente, reféns da década da redemocratização, nos idos de 70, quando FHC, Lula e Brizola emergiram ao primeiro plano da vida nacional com seus distintos projetos e grande personalidade. Seus herdeiros, honestamente, não lhe fazem jus…Como diria Machado de Assis, se hoje fosse o cronista deste folhetim: – “ Aí vindes outra vez, inquietas sombras…”

Crónicas da Infâmia – por maria josé vieira de souza / lisboa.pt

Crónicas da Infâmia

Portugal no Coracao

2 – Do ( Des)amor
Portugal foi sempre o meu país  e a minha pátria. Todavia, creio que país e pátria já não são coincidentes, nem tão pouco complementares. Não sei se alguém  o afirmou. Digo-o, apenas porque senti.
Um país preenche e  ilustra um mapa.  Uma pátria habita e adorna um coração.
A guerra começa quando se pretende apô-los e se descobre  que essa pátria não veste aquele país e esse país não tem corpo para aquela pátria. Ficar sem pátria é,então, ter um coração apátrida. São os laços que se quebram num coração que passa a sobreviver sem essas amarras.
Assim ficou o meu coração. Apátrida de um país que me dá a nacionalidade. Apátrida de um país que me inclui na população residente. Apátrida de um país que existe ausente de mim. E nessa ausência, tento  descobrir  o que fez deste  Portugal  um país de tantas pátrias expatriado. Confirmo, atónita,  que foi também uma outra ausência. A maior talvez, porque é uma ausência vital – a ausência do amor. Sem ele,  a infâmia vinga.
O amor, sentimento exigente, volatilizou-se adquirindo uma  forma estranha  que  enviesa os dias  e as gentes deste país. Arredou-se,  em degeneração profunda, dando lugar ao (des)amor.
(Des)amor que se implantou sem que fosse regulamentado, exigido, recomendado.
(Des)amor que se infiltrou sem pedir licença, mas entrando , invadindo, espalhando-se , qual erva daninha que brota sem ser semeada.
(Des)amor que reina, que dispõe, que exige, que quebra, que anula, que separa, que mata.
(Des)amor, a nova infâmia  deste  canhestro  e ancestral país.
As loas que, ao longo do tempo, os poetas  foram tecendo ao amor, jazem, agora, nas obras  maiores de Camões, de Shakespeare ,de Neruda ou de  tantos outros grandes poetas.
E se o  (des)amor  grassa e prospera pelo mundo, porquê invocar a infâmia?
Impossível não invocar a infâmia, quando se entra num Hospital apinhado de doentes nos corredores da urgência.
Impossível não invocar a infâmia, quando se não tem pão para matar a fome de um filho.
Impossível não invocar a infâmia,  quando se abandonam  quatrocentos mil desempregados à sorte de uma anunciada penúria extrema.
Impossível não invocar a infâmia, quando se coloca um pai, uma mãe, um avô, uma avó num Lar de idosos. Nesta situação, não se invoca apenas a  infâmia, confirma-se  a dolosa evidência do (des)amor. Basta entrar nesses Lares, áridos ou confortáveis, para verificar que são os  armazéns  dos  idosos. A dor magoa-nos sem reserva e sem defesa. Perante nós, desfia–se, em terrível surpresa, o verdadeiro estiolamento da família. São os pais , os avós,  abandonados, espoliados por filhos e por netos que foram desejados e amados na teia dos laços familiares, no  seio de uma família que todos incluía. E ei-los , empurrados para o último e mais confrangente lugar da degradação do amor: a sepultura dos vivos.
A finitude da vida apresenta-se na sua forma mais vulnerável e mais trágica . Roubar o tecto de uma vida inteira para  um chão que não se ajusta aos pés gastos por outros soalhos é invocar a morte e exercer  uma despudorada violência em nome  de uma solução sem qualquer outra alternativa.
Os lares deste país estão cheios de idosos, esquecidos, rejeitados, prostrados a um destino que não escolheram. O olhar de cada um perde-se na memória de um tempo que já não existe e de outro que se estiola. Feriu-me, logo que entrei num Lar.
No último que visitei, fui ao encontro de uma das mulheres mais notáveis do combate ao antigo regime fascista: Cândida Ventura.
Mulher corajosa, mulher histórica com um passado relevante e de referência na luta pela defesa da Liberdade. Uma das primeiras mulheres comunistas a atingir o topo da hierarquia marxista. Presa , exilada , viveu anos de clandestinidade ao longo da sua militância partidária. Ei-la , aos 95 anos, clandestina, confinada  e esquecida num Lar.
Inteligente, activa , em pleno  uso de todas as suas faculdades mentais, rejeita viver emparedada num Lar. Retirá-la , é- me impossível. Denunciar esta atrocidade é minha obrigação.
Cândida Ventura está viva, mas impossibilitada de viver a sua própria vida. Como ela , vivem milhares de idosos deste país.
País que deixou o meu coração apátrida.
Haverá infâmia maior?
                                                           Praia da Rocha,  4 de Fevereiro de 2014

Existe representação política submetida ao capital privado? – por ladislau dowbor

Existe representação política submetida ao capital privado?

No financiamento privado de campanha é o próprio processo de decisão sobre o uso dos recursos públicos que acaba privatizado.

Ladislau Dowbor

Gilson de Souza

Este artigo foi editado a partir do capítulo 4 do livro “Os Estranhos Caminhos do Nosso Dinheiro”, de autoria do professor Ladislau Dowbor

Podemos começar com um exemplo prático. A Friboi é da JBS, o maior grupo mundial na área de carne. O pesquisador Alceu Castilho constata: “Existe uma bancada da Friboi no Congresso, com 41 deputados federais eleitos e 7 senadores. Desses 41 deputados financiados pela empresa, apenas um, o gaúcho Vieira da Cunha, votou contra as modificações no Código Florestal. O próprio relator do código, Paulo Piau, recebeu R$ 1,25 milhão de empresas agropecuárias, sendo que o total de doações para a sua campanha foi de R$ 2,3 milhões. Então temos algumas questões. Por que a Friboi patrocinou essas campanhas? Para que eles votassem contra os interesses da empresa? É evidente que a Friboi é a favor das mudanças no Código Florestal. A plantação de soja empurra os rebanhos de gado para o Norte, para a Amazônia, e a Friboi tem muito interesse nisso. Será que é mera coincidência que somente um entre 41 deputados financiados pela empresa votou contra o novo código?”(1)

No Brasil este sistema foi legalizado através da lei de 1997 que libera o financiamento das campanhas por interesses privados. (2) Podem contribuir com até 2% do patrimônio, o que representa muito dinheiro. Os professores Wagner Pralon Mancuso e Bruno Speck, respectivamente da USP e da Unicamp, estudaram os impactos. “Os recursos empresariais ocupam o primeiro lugar entre as fontes de financiamento de campanhas eleitorais brasileiras. Em 2010, por exemplo, corresponderam a 74,4%, mais de R$ 2 bilhões, de todo o dinheiro aplicado nas eleições (dados do Tribunal Superior Eleitoral)”(3)

A empresa que financia um candidato – um assento de deputado federal tipicamente custa 2,5 milhões de reais – tem interesses. Estes interesses se manifestam do lado das políticas que serão aprovadas, por exemplo contratos de construção de viadutos e de pistas para mais carros, ainda que se saiba que as cidades estão ficando paralisadas. Ou maior facilidade para o desmatamento, como no exemplo acima. Do lado do candidato, apenas assentado, já lhe aparece a preocupação com a dívida de campanha que ficou pendurada, e a necessidade de pensar na reeleição. Quatro anos passam rápido. Entre representar interesses legítimos do povo – por exemplo, mais transporte de massa e mais saúde preventiva – e assegurar a próxima eleição, o político fica preso na armadilha. É o próprio processo de decisão sobre o uso dos recursos públicos que é de certa maneira privatizado. Neste sentido o resgate da dimensão pública do Estado torna-se essencial.

O Brasil não está sozinho neste processo de deformação da política. O próprio custo das campanhas, quando estas viram uma indústria de marketing político, é cada vez mais descontrolado. Segundo o Economist, no caso dos EUA, os gastos com a eleição de 2004 foram de 2,5 bilhões de dólares, em 2010 foram de 4,5 bilhões, e em 2012 ultrapassaram 5 bilhões. Isto está “baseado na decisão da Corte Suprema em 2010 que permite que empresas e sindicatos gastem somas ilimitadas em marketing eleitoral”. Quanto mais cara a campanha, mais o processo é dominado por grandes contribuintes, e mais a política se vê colonizada. E resultam custos muito mais elevados para todos, já que são repassados para o público através dos preços.


E a deformação é sistêmica: além de amarrar os futuros eleitos, quando uma empresa “contribui” e por tanto prepara o seu acesso privilegiado aos contratos públicos, outras empresas se vêem obrigadas a seguir o mesmo caminho, para não se verem alijadas. E o candidato que não tiver acesso aos recursos, simplesmente não será eleito. E como este dinheiro gira em grande parte na mídia, que veicula as campanhas, não se denuncia o processo. Todos ficam amarrados. Começa a girar a grande roda do dinheiro, partindo do sistema eleitoral. Ficam deformados tanto os sistemas de captação, como de alocação final dos recursos.


O resultado básico, é que no Brasil os impostos indiretos (que todos pagam no mesmo montante, ao comprar um produto) predominam sobre o imposto de renda, que pode ser mais progressivo; que não existe imposto sobre as grandes fortunas; que o imposto territorial rural é simbólico; que os grandes intermediários financeiros pagam pouquíssimo imposto, enquanto o único imposto série a que eram submetidos, a CPMF, foi abolido, em nome, naturalmente, de proteger “os pequenos”. Acrescente-se a isto a evasão fiscal e terminamos tendo um sistema onde os pobres pagam proporcionalmente mais que os ricos, invertendo-se o papel de redistribuição que o Estado deveria ter. No Brasil, o problema não é de impostos elevados, e sim da estrutura profundamente injusta da carga tributária.


Mas custos econômicos maiores ainda resultam do impacto indireto, pela deformação do processo decisório na máquina pública, apropriada por corporações. O resultado, no caso de São Paulo, por exemplo, de eleições municipais apropriadas por empreiteiras e montadoras, são duas horas e quarenta minutos que o cidadão médio perde no trânsito por dia. Só o tempo perdido, multiplicando as horas pelo PIB do cidadão paulistano e pelos 6,5 milhões que vão trabalhar diariamente, são 50 milhões de reais perdidos por dia. Se reduzirmos em uma hora o tempo perdido pelo trabalhador a cada dia, instalando por exemplo corredores de ônibus e mais linhas de metrô. serão 20 milhões economizados por dia, 6 bilhões por ano se contarmos os dias úteis. Sem falar da gasolina, do seguro do carro, das multas, das doenças respiratórias e cardíacas e assim por diante. E estamos falando de São Paulo, mas temos Porto Alegre, Rio de Janeiro e tantos outros centros. É muito dinheiro. Significa perda de produtividade sistêmica, aumento do custo-Brasil, má alocação de recursos públicos.


Uma dimensão importante deste círculo vicioso, e que resulta diretamente do processo, é o sobre-faturamento. Quanto mais se eleva o custo financeiro das campanhas, conforme vimos acima com os exemplos americano e brasileiro, mais a pressão empresarial sobre os políticos se concentra em grandes empresas. Quando são poucas, e poderosas, e com muitos laços políticos, a tendência é a distribuição organizada dos contratos, o que por sua vez reduz a concorrência pública a um simulacro, e permite elevar radicalmente o custo dos grandes contratos. Os lucros assim adquiridos permitirão financiar a campanha seguinte, além de engordarem contas em paraísos fiscais.


Se juntarmos o crescimento do custo das campanhas, os custos do sobre-faturamento das obras, e em particular o custo da deformação do uso dos recursos públicos, estamos falando no vazamento de imensos recursos para onde não deveriam ir. Estes “gatos” que sugam os recursos públicos são muito mais poderosos do que os que encontramos nos postes de iluminação das nossas cidades. Pior: o processo corrói a gestão pública e deforma a democracia ao gerar uma perda de confiança popular nas dinâmicas públicas em geral.


Não que não devam ser veiculados os interesses de diversos agentes econômicos na área pública. Mas para a isto existem as associações de classe e diversas formas de articulação. A FIESP, por exemplo, articula os interesses da classe industrial do Estado de São Paulo, e é poderosa. É a forma correta de exercer a sua função, de canalizar interesses privados. O voto deve representar cidadãos. Quando se deforma o processo eleitoral através de grandes somas de dinheiro, é o processo decisório sobre o uso dos recursos que é deformado.


O absurdo não é inevitável. Na França, a totalidade dos gastos pelo conjunto dos 10 candidatos à presidência em 2012 foi de 74,2 milhões de euros, dez vezes menos do que a eleição municipal no Brasil. (4) Na Polônia, é vedado o financiamento corporativo das campanhas, e a contribuição da pessoa física é limitada a cerca de 4 mil dólares. No Canadá há um teto para quanto se pode gastar com cada nível de candidatura. A proposta de Lessig para os Estados Unidos, é de que apenas a pessoa física possa contribuir, e com um montante muito limitado, por exemplo de algumas centenas de dólares. A contribuição pública seria proporcional ao que o candidato conseguiu junto aos cidadãos. O candidato receberia apoio de recursos públicos proporcionalmente à sua capacidade de convencer cidadãos comuns. A representatividade voltaria a dominar.

As soluções existem. O dilema está no fato que a deformação financeira gera a sua própria legalidade. Já escrevia Rousseau, no seu Contrato Social, em 1762, texto que em 2012 cumpriu 250 anos: “O mais forte nunca é suficientemente forte para ser sempre senhor, se não transformar a sua força em direito e a obediência em dever”. Em 1997, transformou-se o poder financeiro em direito político. O direito de influenciar as leis, às quais seremos todos submetidos. Em resumo, é preciso reformular o sistema, e acompanhar os países que evoluíram para regras do jogo mais inteligentes, e limitaram drasticamente o financiamento corporativo das campanhas. Trata-se aqui de tampar uma das principais frestas de onde se origina o vazamento dos nossos recursos.

Você pode conferir o livro completo do professor Ladislau Dowbor aqui.

HOJE, PACO DE LUCIA entregou as moedas para o barqueiro

FORÇAS ARMADAS DEVEM UM PEDIDO DE PERDÃO À SOCIEDADE BRASILEIRA! – rosa cardoso / rio de janeiro.rj

“Forças Armadas devem um pedido de perdão à sociedade brasileira”

Rosa Cardoso, integrante da Comissão da Verdade, fala sobre os trabalhos da comissão que entrega relatório final em dezembro

 

“Até hoje os militares escondem o que ocorreu; nas escolas militares, segue se estudando uma versão fantasiosa do que aconteceu. Chama a atenção a capacidade que têm de fabricar histórias e de mantê-las ao longo do tempo”, aponta Rosa (Foto: Portal da Comissão Nacional da Verdade)

Dizem que Rosa Cardoso está entre as pessoas a quem Dilma Rousseff escuta com  mais atenção quando necessita de uma opinião sobre Direitos Humanos. A presidenta sabe da lealdade de sua advogada defensora durante a ditadura a quem designou como integrante da Comissão da Verdade que em dezembro apresentará seu informe final. A doutora Cardoso não desperdiça o tempo: trabalha a pleno vapor para concluir o relatório sobre os crimes da ditadura, que chama de “fábrica” de mentiras, instalada há 50 anos com a derrubada do presidente João Goulart.

Apesar de sua agenda saturada de compromissos, Rosa conversou durante uma hora com a Carta Maior, período no qual não evitou nenhum tema, abordando todos de um modo direto, como quando, por exemplo, se referiu à atitude omissa dos comandantes do Exército, da Marinha e da Aeronáutica frente aos delitos perpetrados por seus colegas de armas nos anos de chumbo.

“Primeiro quero dizer que até hoje as Forças Armadas devem um pedido de perdão à sociedade brasileira, com o que estariam assumindo uma posição civilizada e democrática, que é, afinal de contas, o que se espera dos militares no século 21. Lamentavelmente, até agora, não recebemos nenhum sinal, nenhuma mensagem, que nos indique que haja algum desejo, por parte dos militares, de pedir desculpas. Assim como a Rede Globo, respondendo a motivos diversos e oportunistas, inclusive a razões de mercado, fez uma autocrítica (sobre sua cumplicidade com os militares), é preciso que as Forças Armadas façam uma autocrítica política sobre seu comportamento”.

Ela prossegue:

“Até hoje os militares escondem o que ocorreu, nas escolas militares segue se estudando uma versão fantasiosa do que aconteceu. Chama a atenção a capacidade que têm de fabricar histórias e de mantê-las ao longo do tempo. Devem deixar de dizer coisas inverossímeis. Eles continuam com a farsa do suicídio de Vladimir Herzog e a versão absurda de que Rubens Paiva morreu em um enfrentamento. A Constituição de 46 fez com que as Forças Armadas assumissem um papel como poder moderador, uma visão que ainda perdura na corporação. Volta e meia algum general enuncia essa ideia. O general Leônidas Pires ainda repete que as Forças Armadas não deveriam estar submetidas ao poder civil”.

Anistia, Barbosa e STF

Há cerca de um ano, o presidente do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa, disse a correspondentes estrangeiros que era a favor que, em algum momento, fossem revisados os alcances da Lei da Anistia, um assunto sobre o qual houve posições divergentes dentro da própria Comissão da Verdade. Rosa Cardoso avalia:

“A mudança de posição do STF sobre a auto-anistia vai depender muito da mobilização da sociedade. Se a mobilização for importante, isso pode contribuir para que haja uma mudança de posição dos ministros. Há ministros sensíveis à opinião pública. Em minha opinião, essa mobilização poderá ocorrer a partir da apresentação do informe da Comissão que ocorrerá em dezembro. Não sei se o STF vai dar esse passo sobre a auto-anistia em 2014, ano do cinquentenário do golpe. Talvez dê, talvez não dê. Mas não considero adequado que, neste momento, os integrantes da Comissão da Verdade iniciem uma luta contra a auto-anistia no STF. Mas creio que, necessariamente, dentro das considerações finais de nosso relatório, deve se recomendar o cumprimento de uma sentença da Corte Interamericana de Direitos Humanos, a qual somos obrigados a cumprir, que questiona essa auto-anistia”.

A advogada prossegue:

“A Corte Interamericana se pronunciou sobre o Araguaia, dizendo que o Brasil tem que punir os crimes de lesa humanidade que são imprescritíveis, como a tortura, a desaparição e o ocultamento de cadáver. Os trabalhos da Comissão terminam em dezembro. Ia ser até maio. Nosso desafio é enfrentar todas as tarefas e realiza-las, principalmente escutar as vítimas, dar-lhes voz, escutar todas as pessoas interessadas, ver todo o material nos arquivos estaduais e no Arquivo Nacional. É preciso trabalhar na elaboração das recomendações enlaçando o passado e o presente, a revisão dos currículos das escolas públicas, das escolas militares, das escolas de polícia. Temos que fazer audiências exemplares porque não podemos cumprir todos os casos dos torturadores. Temos que aprofundar a investigação sobre a Casa da Morte de Petrópolis, que era um centro de extermínio. Talvez tenha sido o mais importante centro de extermínio. Temos que fazer uma audiência na Casa da Morte, uma audiência no Araguaia, uma audiência sobre o Riocentro, que é o exemplo mais claro das farsas montadas”.

Washington, 1964: converter o Brasil e um Vietnã

Rosa Cardoso falou também sobre o golpe de 1964:

“O golpe foi realizado pela elite militar, não por todos os militares, mas muitos dos que participaram da deposição do presidente Goulart em 64 haviam participado em outras conspirações que serviram como ensaio. Por exemplo, a que se fez contra Getúlio Vargas. É preciso lembrar que Getúlio se suicidou para evitar um golpe. Mais tarde, os militares quiseram impedir que Juscelino assumisse o governo. Houve outra tentativa de golpe quando se quis impedir que Goulart assumisse em 1961”.

“Na Comissão da Verdade, estamos revisitando o golpe. É importante a reconstrução desde uma ótica própria, revisar essa ditadura tão longa que deixou tantas marcas profundas. A recente liberação de documentos e a possibilidade de reconstruir a história oral ouvindo as vítimas permitem que abordemos outros ângulos. Cada vez fica mais evidente a participação no golpe a partir da penetração norte-americana desde o final da Segunda Guerra, compreender a visão estratégica que os Estados Unidos tinham acerca do Brasil e o que queriam do Brasil. Desde os anos 50, os Estados Unidos exigiam posições e pressionavam os governos brasileiros para que se alinhassem a Washington. Os EUA chegaram a planejar uma guerra civil, como a das duas Coreias, ou a do Vietnã, contando com o apoio de alguns membros das forças de segurança. Interessava a eles dividir o país. Isso quebraria a hegemonia do Brasil na América Latina. Chegaram a escolher Minas Gerais como estado independente do resto”.

Obama e Kissinger

Rosa Cardoso nos recebeu em um escritório simples, sem adornos ou móveis suntuosos, pertencente à Presidência da República. Ela desmente a ideia, propalada na imprensa tradicional, de que a ditadura é uma peça do passado e, como exemplo de sua atualidade, conta que o governo de Barack Obama não prestou apoio à Comissão da Verdade, seguramente pressionado por grupos de interesse e ex-líderes como Henry Kissinger, de larga e suspeita amizade com o chanceler Azeredo da Silveira (1974-1979) e, sobretudo, fiador do Plano Condor.

“Nós pedimos formalmente documentos aos Estados Unidos, por meio do Itamaraty, no início de nossa atividade como Comissão da Verdade, e até hoje não recebemos nenhuma resposta. Pensamos que na visita da presidenta Dilma (prevista para outubro do ano passado) seria possível apresentar outra vez o pedido, creio a presidenta estaria de acordo em respaldar essa solicitação, mas a viagem foi suspensa em protesto contra a espionagem dos Estados Unidos. Seja como for, creio que em alguns meses será propício pedir novamente documentos aos EUA e seja possível se chegar a um entendimento para que o próximo governo possa retomar esse requerimento também”.

“Você pergunta por que é tão demorada a liberação de papeis sobre a ditadura brasileira, que é a caixa preta do período do Condor. Essa talvez seja uma manobra protelatória para proteger personagens vivos. É uma suposição, mas é uma suposição racional imaginar que se proteja personagens como Kissinger. É claro que isso é possível. Nós temos documentos que não deixam dúvida sobre isso (a cumplicidade de Kissinger com o Plano Condor). Até agora conhecemos muito poucos documentos sobre a operação Condor, resta muito por conhecer sobre a participação de Kissinger nessa rede terrorista. O Plano Condor é o momento mais revelador do terrorismo de estado, em um plano que revela claramente a índole da ditadura. Seguramente há documentos secretos muito importantes. Tive acesso a alguns papeis publicados por uma professora norte-americana que mostra o quanto Kissinger sabia e estava envolvido”

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Por Dario Pignotti, da Carta Maior

A história do ódio no Brasil

Tiradentes, 1792

A história do ódio no Brasil

Achamos que somos um bando de gente pacífica cercados por pessoas violentas”. A frase que bem define o brasileiro e o ódio no qual estamos imersos é do historiador Leandro Karnal. A ideia de que nós, nossas famílias ou nossa cidade são um poço de civilidade em meio a um país bárbaro é comum no Brasil. O “mito do homem cordial”, costumeiramente mal interpretado, acabou virando o mito do “cidadão de bem amável e simpático”. Pena que isso seja uma mentira. “O homem cordial não pressupõe bondade, mas somente o predomínio dos comportamentos de aparência afetiva”, explica o sociólogo Antônio Cândido. O brasileiro se obriga a ser simpático com os colegas de trabalho, a receber bem a visita indesejada e a oferecer o pedaço do chocolate para o estranho no ônibus. Depois fala mal de todos pelas costas, muito educadamente.

Séc XIX, Bahia

Séc XIX, escravo sendo castigado

Olhemos o dicionário: cordial significa referente ou próprio do coração. Ou seja, significa ser mais sentimental e menos racional. Mas o ódio também é um sentimento, assim como o amor.  (Aliás os neurocientistas têm descoberto que ambos sentimentos ativam as mesmas partes do cérebro.) Nós odiamos e amamos com a mesma facilidade. Dizemos que “gostaríamos de morar num país civilizado como a Alemanha ou os Estados Unidos, mas que aqui no Brasil não dá para ser sério.” Queremos resolver tudo num passe de mágica. Se o político é corrupto devemos tirar ele do poder à força, mas se vamos para rua e “fazemos balbúrdia” devemos ser espancados e se somos espancados indevidamente, o policial deve ser morto e assim seguimos nossa espiral de ódio e de comportamentos irracionais, pedindo que “cortem a cabeça dele, cortem a cabeça dele”, como a rainha louca de Alice no País das Maravilhas. Ninguém para 5 segundos para pensar no que fala ou no que comenta na internet. Grita-se muito alto e depois volta-se para a sala para comer o jantar. Pede-se para matar o menor infrator e depois gargalha-se com o humorístico da televisão. Não gostamos de refletir, não gostamos de lembrar em quem votamos na última eleição e não gostamos de procurar a saída que vai demorar mais tempo, mas será mais eficiente. Com escreveu  Sérgio Buarque de Holanda, o criador do termo “homem cordial” : “No Brasil, pode dizer-se que só excepcionalmente tivemos um sistema administrativo e um corpo de funcionários puramente dedica­dos a interesses objetivos e fundados nesses interesses. Ao contrário, é possível acompanhar, ao longo de nossa história, o predomínio constante das vontades particulares que encontram seu ambiente pró­prio em círculos fechados e pouco acessíveis a uma ordenação im­pessoal” Ou seja, desde o começo do Brasil todo mundo tem pensando apenas no próprio umbigo e leva as coisas públicas como coisa familiar. Somos uma grande família, onde todos se amam. Ou não?

Cabeças do bando de Lampião

1938, bando Lampião

O já citado Leandro Karnal diz que os livros de história brasileiros nunca usam o termo guerra civil em suas páginas. Preferimos dizer que guerras que duraram 10 anos (como a Farroupilha) foram revoltas. Foram “insurreições”. O termo “guerra civil” nos parece muito “exagerado”, muito “violento” para um povo tão “pacífico”. A verdade é que nunca fomos pacíficos. A história do Brasil é marcada sempre por violência, torturas e conflitos. As decapitações que chocam nos presídios eram moda há séculos e foram aplicadas em praça pública para servir de exemplo nos casos de Tiradentes e Zumbi. As cabeças dos bandidos de Lampião ficaram expostas em museu por anos. Por aqui, achamos que todos os problemas podem ser resolvidos com uma piada ou com uma pedrada. Se o papo informal não funciona devemos “matar” o outro. Duvida? Basta lembrar que por aqui a república foi proclamada por um golpe militar. E que golpes e revoluções “parecem ser a única solução possível para consertar esse país”. A força é a única opção para fazer o outro entender que sua ideia é melhor que a dele? O debate saudável e a democracia parecem ideias muito novas e frágeis para nosso país.

Em 30 anos, tivemos um crescimento de cerca de 502% na taxa de homicídios no Brasil. Só em 2012 os homicídios cresceram 8%. A maior parte dos comentários raivosos que se lê e se ouve prega que para resolver esse problema devemos empregar mais violência. Se você não concorda “deve adotar um bandido”. Não existe a possibilidade de ser contra o bandido e contra a violência ao mesmo tempo.  Na minha opinião, primeiro devemos entender a violência e depois vomitar quais seriam suas soluções. Por exemplo, você sabia queocorrem mais estupros do que homicídios no Brasil? E que existem mais mortes  causadas pelo trânsito do Brasil do que por armas de fogo? Sim, nosso trânsito mata mais que um país em guerra. Isso não costuma gerar protestos revoltados na internet. Mas tampouco alivia as mortes por arma de fogo que também tem crescido ano a ano e se equiparam, entre 2004 e 2007, ao número de mortes em TODOS conflitos armados dos últimos anos. E quem está morrendo? 93% dos mortos por armas de fogo no Brasil são homens e 67% são jovens. Aliás, morte por arma de fogo é a principal causa de mortalidade entre os jovens brasileiros. Quanto à questão racial, morrem 133% mais negros do que brancos no Brasil. E mais: o número de brancos mortos entre 2002 e 2010 diminuiu 25%, ao contrário do número de negros que cresceu 35%. É importante entender, no entanto, que essas mortes não são causadas apenas por bandidos em ações cotidianas. Um dado expressivo: no estado de São Paulo ocorreram 344 mortes por latrocínio (roubo seguido de morte) no ano de 2012. No mesmo ano, foram mortos 546 pessoas em confronto com a PM. Esses números são altos, mas temos índices ainda mais altos de mortes por motivos fúteis(brigas de trânsito, conflitos amorosos, desentendimentos entre vizinhos, violências domésticas, brigas de rua,etc). Entre 2011 e 2012, 80% dos homicídios do Estado de São Paulo teriam sido causados por esses motivos que não envolvem ação criminosa. Mortes que poderiam ter sido evitadas com menos ódio. É importante lembrar que vivemos numa sociedade em que “quem não reage, rasteja”, mas geralmente a reação deve ser violenta. Se “mexeram com sua mina” você deve encher o cara de porrada, se xingaram seu filho na escola “ele deve aprender a se defender”, se falaram alto com você na briga de trânsito, você deve colocar “o babaca no seu lugar”. Quem não age violentamente é fraco, frouxo, otário. Legal é  ser ou Zé Pequeno ou Capitão Nascimento.  Nossos heróis são viris e “esculacham”

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1982, trabalhadores sendo revistados

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Se tivesse nascido no Brasil, Gandhi não seria um homem sábio, mas um “bundão” ou um “otário”.

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O discurso de ódio invade todos os lares e todos os segmentos. Agora que o gigante acordou e o Brasil resolveu deixar de ser “alienado” todo mundo odeia tudo. O colunista da Veja odeia o âncora da Record que odeia o policial que odeia o manifestante que odeia o político que odeia o pastor que odeia o “marxista” que odeia o senhor “de bem” que fica em casa odiando o mundo inteiro em seus comentários nos portais da internet. Para onde um debate rasteiro como esse vai nos levar? Gritamos e gritamos alto, mas gritamos por quê?

Política não é torcida de futebol, não adianta você torcer pela derrota do adversário para ficar feliz no domingo. A cada escândalo de corrupção, a cada pedreiro torturado, a cada cinegrafista assassinado, a cada dentista queimada, a cada homossexual espancado; todos perdemos. Perdemos a chance de conseguir dialogar com o outro e ganhamos mais um motivo para odiar quem defende o que não concordamos.

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2014, menor infrator após ser espancado

Eu também me arrependo muitas vezes de entrar no calor das discussões de ódio no Brasil; seja no Facebook, seja numa mesa de bar. Às vezes me pergunto se eu deveria mesmo me pronunciar publicamente sobre coisas que não conheço profundamente, me pergunto por que parece tão urgente exprimir minha opinião. Será essa a versão virtual do “quem não revida não é macho”? Se eu tivesse que escolher apenas um lado para tentar mudar o mundo, escolheria o lado da não-violência. Precisamos parar para respirar e pensar o que queremos e como queremos. Dialogar. Entender as vontades do outro. O Brasil vive um momento de efervescência, vamos usar essa energia para melhorar as coisas ou ficar nos matando com rojões, balas e bombas? Ou ficar prendendo trombadinhas no poste, torturando pedreiros e chacinando pessoas na periferia? Ou ficar pedindo bala na cabeça de políticos? Ficar desejando um novo câncer para o Reinaldo Azevedo ou para o Lula? Exigir a volta da ditadura? Ameaçar de morte quem faz uma piada que não gostamos?

Se a gente escutasse o que temos gritado, escrito e falado, perceberíamos como temos descido em direção às trevas interiores dos brasileiros às quais Nélson Rodrigues avisava que era melhor “não provocá-las. Ninguém sabe o que existe lá dentro.

Será que não precisamos de mais inteligência e informação e menos ódio? Quando vamos sair dessa infantilidade de “papai bate nele porque ele é mau” e vamos começar a agir como adultos? Quando vamos começar a assumir que, sim, somos um povo violento e que estamos cansados da violência? Que queremos sofrer menos violência e provocar menos violência? Somos um povo tão religioso e cristão, mas que ignora intencionalmente diversos ensinamentos de Jesus Cristo. Não amamos ao nosso inimigo, não damos a outra face, não deixamos de apedrejar os pecadores. Esquecemos que a ira é um dos sete pecados capitais. Gostamos de ficar presos na fantasia de que vivemos numa ilha de gente de bem cercada de violência e barbárie e que a única solução para nossos problemas é exterminar todos os outros que nos cercam e nos amedrontam.

Mas quando tudo for só pó e solidão, quem iremos culpar pelo ódio que ainda carregaremos dentro de nós.

A MORTE, O TEMPO E O VELHO – por mia couto / maputo.mb

A MORTE, O TEMPO E O VELHO

O homem se via envelhecer, sem protesto contra o tempo. Ansiava, sim, que a morte chegasse. Que chegasse tão sorrateira e morna como lhe surgiram as mulheres da sua vida. Nessa espera não havia amargura. Ele se perguntava: de que valia ter vivido tão bons momentos se já não se lembrava deles, nem a memória de sua existência lhe pertencia? Em hora de balanço: nunca tivera nada de que fosse dono, nunca houve de quem fosse cativo. Só ele teve o que não tinha posse: saudade, fome, amores.
Como a morte tardasse, decidiu meter-se na estrada e caminhar ao seu encontro. Tomou a direcção do oeste. Na sombra desse ponto cardeal, todos sabemos se encontra a moradia da morte.
Iniciou a sua excursão rumo ao poente sem que de ninguém se despedisse. Os adeuses são assunto dos vivos e ele se queria já na outra vertente do tempo. Caminhava há semanas quando avistou um homem alto, um rosto de enevoados traços. Trazia pela trela um bicho estranho, entre cão e hiena. Animal mal-aparentado, com ar maleitoso.
– Esta é a morte – disse o homem apontando o cão. E acrescentou – Sou eu que a passeio pelo mundo.
– E você quem é?
– Eu sou o Tempo.
E explicou que caminhavam assim, atrelados um ao outro, desde sempre. Ultimamente, porém, a Morte andava esmorecida, quase desqualificada. Razão de que, entre os vivantes, se desfalecia agora a molhos vistos, por dá cá nenhuma palha. Morria-se mesmo sem intervenção dela, da Morte.
O velho, desiludido, explicou ao Tempo a razão da sua viagem. Ele vinha ao encontro da Morte:
– Eu queria que ela me levasse para o sem retorno.
– Vai ser difícil.
– Lhe imploro: fiz todo este caminho para ela me levar.
– Veja como ela anda: desmotivada, focinho pelo chão.
– Mas eu queria tanto terminar-me!
Impossível, insistiu o Tempo. E para comprovar, soltou o animal. O bicho se afastou, arrastado e agónico, para o fundo de uma valeta. Ali se enroscou decadente como um pano gasto. O velho se condoeu e perguntou ao bicho:
– O que posso fazer por si?
– Eu só quero beber.
Não era de água a sua sede. Queria palavras. Não dessas de uso e abuso nas palavras tenras como o capim depois da chuva. Essas de reacender crenças. O velho prometeu garimpar entre todos os seus vocabulários e encontrar lá os materiais de reacender o mais perdido fôlego. Urdia, seu secreto plano: iria ao sonho e de lá retiraria uma paixão de palavras.
Na manhã seguinte, foi de encontro à besta moribunda. O bicho estava agora mais hiena que cão. Uma baba amarela lhe escorria pelo focinho. Apenas revirou os olhos quando sentiu o homem se aproximar.
– Trouxe?
E ele lhe entregou o sonho, as palavras, mais seu inebriamento. O animal sugou tudo aquilo com voracidade. Seus olhos eram os de uma criança sorvendo estória antes do sono.
E assim se seguiram durante umas manhãs. Em cada uma, o velho se anichava e confiava seus elixires. De cada vez, o bicho se animava mais um pouco. No final, a Morte se recompôs com tais pujanças que o velho ganhou coragem e lhe apresentou o pedido, seu anseio de que o mundo se lhe fechasse. A Morte escutou o pedido de olhos fechados.
– Amanhã vou cumprir o meu mandato – anunciou ela.
Nessa noite, o velho nem dormiu, posto perante a sua última noite. Sentindo-se derradeiras, passou em revista a sua vida. Nos últimos anos, ele tinha perdido a inteira memória. Mas agora, naquela noite, lhe revieram os momentos de felicidade, toda a sua existência se lhe desfilou. e sentiu saudade, melancolia por não poder revisitar amigos, terras e mulheres. até lhe assaltou a ideia de escapar dali e reganhar aventuras no caminho da vida. Para não ser atacado por mais recordações – com o risco do arrependimento – ele foi ao rio e caminhou ao sabor da corrente. Andar no sentido da água é o modo melhor para nos lavarmos das lembranças.
No dia seguinte, o velho foi à valeta onde encontrou a Morte. Ela estava cansada, respiração ofegante. E disse:
– Já matei.
– Matou? Matou quem?
– Matei o Tempo!
E apontou o corpo desfalecido do homem alto. A hiena, então, estendeu a trela ao velho e lhe ordenou:
– Agora leva-me tu a passear

CARTA DO SENADOR SUPLICY A GILMAR MENDES

Ofício n.º 00113/2014                                           Teerã, 15 de fevereiro de 2014.

Senhor Ministro Gilmar Mendes,

Tendo em vista a correspondência de V. Exa. datada de 12 de fevereiro de 2014, devo externar que não tenho dúvidas de que, como cidadão, tem todo o direito de se expressar sobre essa ou aquela situação da vida política de nosso país. Porém, como juiz da causa que condenou os acusados, caberia a V. Exa. maior reserva.

Quando V. Exa. questiona, sem qualquer prova material, a regularidade das doações a José Genoino, Delúbio Soares, José Dirceu, e João Paulo Cunha, passa-me o sentimento de que não julgou com base exclusivamente na razão. Isso não é bom para o papel que o Supremo Tribunal Federal (STF) desempenha na Organização dos Poderes da República.

Até onde tenho conhecimento, as famílias dos quatro membros do Partido dos Trabalhadores é que tiveram a iniciativa de fazer a campanha para arrecadar fundos e pagar as multas condenatórias. Não vejo ilegitimidade ou ilegalidade nessa conduta.

E foi isso que me motivou a escrever a V. Exa. – a surpresa de tomar conhecimento de um comentário público, questionando doações sem qualquer fundamento probatório que o amparasse.

E tudo isso, considerando ainda que o julgamento da Ação Penal 470 não está concluído no STF, pois encontra-se em curso a análise dos  embargos infringentes.

Noto que V. Exa.  não se referiu ao que considero da maior importância em minha carta, qual seja, as decisões que nós do PT e de todos os demais Partidos devemos tomar para prevenir e evitar os procedimentos que foram objeto da Ação Penal 470. Eis porque tenho me empenhado para que venhamos todos, nas campanhas eleitorais, assumir o compromisso de não utilizarmos recursos não contabilizados, de proibirmos as contribuições de pessoas jurídicas, de limitarmos a uma soma módica as contribuições de pessoas físicas e, de exigirmos, durante a campanha eleitoral, a transparência em tempo real, ou nas datas de 15 de agosto, 15 de setembro e ultimo sábado que antecede o domingo das eleições, com o registro na página eletrônica de cada partido, coligação e candidato, de todas as contribuições recebidas. Desta forma,  os eleitores terão conhecimento dos doadores e poderão comparar as contribuições feitas com os gastos efetivamente realizados em cada campanha.

V. Exa., que acaba de assumir como ministro efetivo do Tribunal Superior Eleitoral, poderia, pela posição que ocupa, incentivar os formadores de opinião da sociedade no que diz respeito à efetivação desses anseios como normas que têm sido apoiadas pelo Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral, pela OAB e muitas outras entidades da sociedades civil.

Atenciosamente,

Senador EDUARDO MATARAZZO SUPLICY

‘Não há fogo no inferno, Adão e Eva não são reais’, diz o Papa Francisco

‘Não há fogo no inferno, Adão e Eva não são reais’, diz o Papa Francisco

“Todas as religiões são verdadeiras , porque elas são verdadeiras nos corações de todos aqueles que acreditam neles”, disse o Papa

O artigo “Não há fogo no inferno, Adão e Eva não são reais”, diz Papa Francisco foi retirado de um site espanhol na qual a fonte encontra-se no final do texto.

Vatican Pope

Artigo traduzido:

Um homem que está lá para abrir muitos “segredos ” antigos na Igreja Católica é o Papa Francisco. Algumas das crenças que são realizadas na igreja, mas que são contra a natureza amorosa de Deus, estão sendo revistas pelo Papa, que foi recentemente nomeado o ‘ Homem do Ano ‘ pela revista TIME .

Em suas últimas revelações , o Papa Francisco disse :

” Por meio da humildade , da introspecção e contemplação orante ganharam uma nova compreensão de certos dogmas . A igreja já não acredita em um inferno literal , onde as pessoas sofrem . Esta doutrina é incompatível com o amor infinito de Deus. Deus não é um juiz , mas um amigo e um amante da humanidade. Deus nos procura não para condenar, mas para abraçar . Como a história de Adão e Eva , nós vemos o inferno como um artifício literário . O inferno é só uma metáfora da alma exilada (ou isolada), que, como todas as almas em última análise, estão unidos no amor com Deus. “

Em um discurso poderoso que está repercutindo em todo o mundo , o Papa Francisco declarou:

” Todas as religiões são verdadeiras , porque elas são verdadeiras nos corações de todos aqueles que acreditam neles. Que outro tipo existe realmente ? No passado , a igreja a igreja considerava muitas coisas como pecado que hoje já não são julgadas dessa maneira . Como um pai amoroso, nunca condena seus filhos. Nossa igreja é grande o suficiente para heterossexuais e homossexuais , por pró-vida e pró- escolha! Para os conservadores e liberais , até mesmo os comunistas são bem-vindos e se juntaram a nós . Todos nós amando e adorando o mesmo Deus . “Nos últimos seis meses , os cardeais, bispos e teólogos católicos têm debatido na Cidade do Vaticano sobre o futuro da Igreja e da redefinição das doutrinas católicas e seus dogmas.” 

O Terceiro Conselho do Vaticano com o Papa Francisco concluiu anunciando que …

O catolicismo é uma religião agora “moderno e razoável , que passou por mudanças evolutivas. Hora de deixar toda intolerância. Devemos reconhecer que a verdade religiosa evolui e muda . A verdade não é absoluta ou imutável. Mesmo ateus reconhecem o divino. Através de atos de amor e caridade ateu reconhece Deus , bem como, redime a sua alma , tornando-se um participante ativo na redenção da humanidade. “

A declaração sobre o discurso do Papa enviou os tradicionalistas a um ataque de confusão e histeria .

” Deus está mudando e evoluindo como nós somos, porque Deus habita em nós e em nossos corações. Quando espalhar o amor e bondade no mundo , nós reconheceremos nossa divindade . A Bíblia é um livro sagrado bonito, mas como todas as grandes obras antigas , algumas passagens estão desatualizadas. Algumas passagens chamam mesmo para intolerância ou julgamento. É o tempo de ver estes versos como interpolações posteriores , contra a mensagem do amor e da verdade , caso contrário, irradiando através da Escritura chegou. Com base em nossa nova compreensão , vamos começar a ordenar mulheres como cardeais, bispos e sacerdotes. No futuro , é minha esperança de que , um dia , um papa feminino não permita que qualquer porta que está aberta para um homem seja fechada para uma mulher.

Alguns cardeais da Igreja Católica são contra as recentes declarações do Papa Francisco.’

Acredito que se continuar dessa forma logo esse Papa se assumirá Ateu! rs Falando sério, ele já revelou outras opiniões polemicas que a própria igreja logo desmentiu, dizendo não ser essa a verdade. Mas dessa vez será que vamos ter outra retratação ou realmente havará mudanças nos dogmas católicos?

Outro ponto de vista que tenho em relação a declaração dele referente a alguns versos da Biblia não serem literais, causa não só uma mudança de paradigma, mas uma possível descredibilidade da propria história aprensentada ali. Pois quem me garante que Jesus e outros personagens realmente existiram ou não são mais uma alegoria/metáfora como Inferno, Adão e Eva?

Traduzido do site Mundo História

Punhos sem renda – por saul leblon / são paulo.sp

Punhos sem renda

Da perplexidade ao ataque, passaram-se poucos dias até o impoluto Gilmar Mendes puxar a coleira da matilha que passou a farejar sem trégua.

Arquivo
 

O deputado André Vargas (PT-PR) não foi orientado por um script publicitário a erguer o braço e cerrar o punho na presença da toga que se esponja no desfrutável papel midiático de algoz do PT.

Genoíno, que o antecedeu na afirmação simbólica de identidade e protesto, ou Dirceu, que assim também se confraternizou com os militantes solidários que o aguardavam na entrada da Papuda, tampouco  obedeceram aos alertas  de ‘luzes, câmera, ação!’

Milhares de petistas e não-petistas anônimos que fizeram chegar doações a Genoíno e Delúbio – e aqueles que repetirão a solidariedade a Dirceu e João Paulo, por certo não podem ser confundidos com coadjuvantes de uma peça eleitoral.

O significado desses sinais de vitalidade enviados do metabolismo profundo não apenas do PT, da esquerda em geral,  já foram sublinhados pela argúcia de vários analistas da blogosfera.

O que eles evidenciam deixou inconformados colunistas e togas engajados em anos de desqualificação diuturna do partido, de seu legado e  valores.

Depois de tanto sangrar, o esquartejado ainda teima –e respira?

Da perplexidade ao ataque, passaram-se poucos dias até o impoluto doutor duplo habeas corpus, Gilmar Mendes,  puxar a coleira da matilha que passou a farejar operosa e incansavelmente: em algum ponto há de se achar  uma cubana das doações.

O fato é que  eles não contavam com a sobrevida da solidariedade no espinhaço ferido  da esquerda. Tudo isso já foi dito e bem dito.

Faltou dizer  que parte expressiva desta esquerda também se surpreendeu.

Surpreendeu-se  ela com o efeito demolidor de algo esquecido na prática minuciosamente monitorada pela conveniência  do exercício do poder: a espontaneidade de André Vargas.

Sem falar da solidariedade sem hesitação a Genoíno e Delúbio  –que por certo inclui doações expressivas de instituições e personalidades, a exemplo do cheque de R$ 10 mil enviado pelo ex-ministro Nelson Jobim.

Mas nada que diminua a vitalidade do que verdadeiramente incomoda e sacode: milhares de doadores anônimos não esperaram uma peça publicitária para sair em defesa de quem personifica referências inegociáveis de sua visão de vida, de mundo e de Brasil.

A criatividade inexcedível do protesto espontâneo e o efeito demonstração incomparável da prontidão solidária hibernavam na memória algo entorpecida do PT.

Há mais de uma década desafiado a ser partido de massa e governo —  a bordo das sabidas contradições que a dupla jornada encerra, o partido impôs-se, compreensivelmente, o gesso da previsibilidade e as algemas do risco zero.

Ademais dos comedimentos  da responsabilidade  de ser governo, o próprio êxito dessa trajetória  — reiterado nas urnas—instituiu um protocolo de autopreservação: ele delega ao pensamento publicitário a última palavra (não raro a primeira também) sobre o que o partido deve falar, quando e como fazê-lo.

Cabe a pergunta: que publicitário petista orientaria um dirigente a cerrar o punho, de braço erguido, diante da toga colérica, a essa altura do jogo? E quantos bancariam uma campanha massiva de doações aos incômodos condenados do chamado ‘mensalão’?

‘E pur si muove…’

A eficácia do improvável deveria inspirar arguições no pragmatismo que planeja a campanha presidencial deste ano.

Todo cuidado é pouco  –estão aí as togas, o jornalismo isento, os mercados sedentos, os netos oportunistas e os verdes convertidos no altar do tripé.

‘Não vai ter Copa’ é o mínimo que eles ambicionam.

Mas estão aí também a democracia e o desenvolvimento brasileiro perfilados  num horizonte de encruzilhadas imunes à receita de mais do mesmo em nova embalagem e sabores reciclados.

Aquilo que cabe em um script competente, mas exatamente por isso encilhado em baixos teores de ousadia e residual  espaço à mobilização, talvez seja suficiente para vencer o conservadorismo nas urnas de outubro.

Mas o será para liderar a transição do novo pacto de desenvolvimento necessário à construção da democracia social brasileira?

A ver.

Crónicas da Infâmia – por maria josé vieira de souza / portugal

Crónicas da Infâmia
I- O retorno
O tempo em que  escrevi sobre o país e o mundo, sobre a actualidade que se renovava constantemente,  terminou há muito. Esgotou-se na sucessão dos dias como  acto rotineiro. Denunciei-o  por comum acordo.
Escrevi. Fi-lo  com angústia, com  dor, com sobressalto, mas ancorada numa esperança de dias melhores. Era a crise que chegava. Era o início do tempo sem metas, sem rumo, sem certezas. E os começos nunca projectam a extensão da catástrofe que vão inaugurar. Incauta, resiliente, acutilante, caustiquei, vociferei contra quem governava o país, contra o desnorte que nos acometia, contra quem vendia ilusões , contra quem se abastecia no mercado das aparências, contra a incapacidade de assumir a inoperância, contra a falta de rigor, contra as aporias da verdade , da lealdade.
O devir dos dias , implacável,  prosseguiu e o país foi-se apoucando nas mãos de quem nunca soubera gerir a res publica. Eleitos, os fariseus entraram no templo.
Vandalizar foi, de repente, um projecto.
Os verdadeiros negros dias da crise  começaram. Era o tempo iníquo que a raiva não tinha previsto. O tempo da desumanização. O tempo da infâmia. O tempo da ausência de todos os “eus”. O tempo desnudo, sem  gente, sem  pessoas. O tempo do esquecimento do “outro”. O tempo que transforma o ser humano num excedente, num obstáculo à eficácia orçamental.
E as pessoas passaram a ser números. Algarismos disformes e rasurados pela urgência do momento. As estatísticas eliminavam-nas, devoravam-nas conforme  o apetite de quem as exigia. A economia  rejeitava-as, incapaz de prosperar num estado social onde cada um é mais importante do que a contabilidade da sua própria existência.
Os comentadores proliferavam em assertivas análises, documentadas e balizadas por um saber  de experiência feito, quais árbitros em jogo próprio. Tanta verborreia exasperava. Era o melhor convite ao silêncio. Em  casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão, diz o ditado.
Mas a questão apresentava-se. Inquiria-me. Retomar a palavra, exigia. O peso do silêncio não servia a revolta. Escrever, vociferar, alertar, denunciar, insurgir como e para quem? As palavras estavam gastas  numa sucessão arrastada de crónicas. Repetir-me num tema que deixara de ser mote para uma escrita ocasional, era como violentar-me. Entretanto, a realidade já nos tomara. Medonha, cruel, insensível, impiedosa, irredutível. Aí estava ela, a estreitar-nos  num corredor de desespero, nos dias de intempérie continuada.
Os Hospitais a rejeitar doentes, abandonando-os à deriva das  próprias enfermidades. As Escolas sem meios para programar a excelência, convertidas em refeitório dos alunos sem pão. As filas  de gente sofrida,  de olhar ausente ,  a marcar lugar à porta de Centros de Emprego inoperantes. As Fábricas exauridas  a fechar  sem terem precavido o futuro de quem as alimentou. O leilão interminável dos funcionários públicos a ser realizado em hasta pública. Vendê-los pelo menor preço para reduzir a viscosa gordura de um Estado enraivecido. Os pensionistas e os reformados, o novo fardo que se  carrega  sem qualquer utilidade. Abatê-los é urgente. Dizimá-los , uma prioridade. Avançam medidas , compõem-se iniciativas que se transformam em leis,  reduzindo-os à pobreza. Espoliados, menorizados, silenciados por um governo bastardo. Reduzir, eliminar , matar deixando morrer é o caminho.
E as crianças, meu Deus? Onde estão? Na nebulosidade dos sonhos porque nascer deixou de ser relevante. A natalidade empobrece o país.
Nascer . Teimar em nascer, mas nascer onde?
Nas Maternidades que fecharam. Nos lares que não sobrevivem à ira dos dias. Nas casas que não se sustentam.
Nascer, em Portugal,  num país de pobres em expansão é nascer num tempo infame que exclui  a alegria da infância.
Oh, meu pobre Portugal. Que te fizeram? Que nos fizeram? Que fizemos nós?
Calar , segredar , observar já não basta. A raiva pede revolta. E a revolta voa na palavra que se lança de nós , por nós , para todos nós. Invocar para convocar.
Invoquemos a RAIVA. Convoquemos a REVOLTA para que a infâmia não tome conta de todos  nós e  não nos aniquile.
Portimão, 26 de Janeiro de 2014
Maria José Vieira de Sousa

O BARCO DA MEMÓRIA – de manoel de andrade – curitiba.pr

O BARCO DA MEMÓRIA

 

                                                                             Manoel de Andrade

 

A infância sempre volta na hora humana do crepúsculo…

Vem de um tempo silenciado,

é um eco que cresce,

um fantasma que ronda e volta comovido,

surge  remando no barco da memória,

abre na alma um sulco imaginário, tão formoso

e aporta para povoar a aldeia melancólica da saudade.

 

Traz consigo os seus inconfessáveis segredos,

as tardes azuis e açucaradas,

a dizer-nos que só se é criança uma vez na vida

e que tudo que lá ficou é  um mágico clarão,

um enigma que arde imperecível,

um nunca mais.

 

Em cada dia houve um tempo…,

um tempo em que o mar banhou minha inocência.

Herdei essa extensão entre o horizonte e o branco cinturão de areia,

herdei do mar essa salgada lembrança,

o mar, sempre o mar, meu mágico recanto,

aquele mar que tanto amei

e onde o coração navegou o meu encanto.

A praia, o território itinerante nos meus passos,

os botos, em cada dia, nadando para o sul,

o voo preguiçoso das gaivotas,

as velas ligeiras ante a paz invencível da paisagem.

o azul e a luz espelhados sobre as águas da manhã,

as canoas trazendo suas translúcidas escamas,

o mantra suave das ondas,

esse rumor ainda presente no caracol dos meus ouvidos.

 

Eu tinha quatro, cinco, seis e sete anos,

a alma banhada, as retinas submersas

e em cada gesto uma sílaba antecipada do meu canto.

Tinha as mãos cheias de caramujos, de conchas,

e a vigiar  meus olhos,  o espanto.

Tinha meus castelos,

a espuma espessa e flutuante

e três castas amantes para brincar.

Tinha os fulgores da aurora, os mistérios constelados,

uma pequenina lagoa

e um canal estreito por onde as tainhas entravam no inverno.

Eu tinha de minha mãe o seu regaço: mel e ternura repartidos.

 

Lembro meu avô cortando lenha, meu retrato mais antigo.

Eu o chamava Pai Trajano.

Um dia ele levou minha pobreza seminua pela mão,

e lá, além da ponte, na loja do Seu Abrão,

vestiu-me uma camisa colorida.

……………………………………………………………………………………………………

Não, Drummond, não se dissipa nunca a merencória infância.

 

Curitiba, 26 de janeiro de 2014

UMA DÉCADA SEM BRIZOLA – por paulo timm / torres.rs

 

 

No dia 21 de junho de 2004 expirava, para surpresa de tantos quantos o conheciam e se impressionavam com sua performance, o Governador Leonel Brizola (1922-2004). Ontem, data de seu natalício, a memória de Brizola foi lembrada com a inauguração de uma estátua em bronze,  em sua homenagem, na Praça da Matriz, lócus privilegiado  da era positivista no Rio Grande do Sul, ao lado do Palácio Piratini.

Quem foi Leonel Brizola e o que representou ele, politicamente, no Estado e no Brasil?

Brizola foi um dos políticos mais importantes do Brasil na segunda metade do século XX. Iniciou sua carreira política no Partido Trabalhista Brasileiro, elegendo-se deputado estadual (RS) no pós-guerra e desde aí teve uma carreira meteórica: Prefeito de Porto Alegre, Governador do Estado RS, com apenas 37 anos, Líder do Movimento Legalidade que impediu o Golpe Militar contra a posse de João Goulart em agosto de 1961, deputado mais votado pelo Rio de Janeiro em 1962, Governador daquele Estado por duas vezes depois de prolongado exílio, já então pelo seu novo Partido – o PDT – e candidato a Presidente da República em 1989.

Brizola foi um dos líderes mais estigmatizados pela ditadura militar que se prolongou de 1964 até 1985. Era apontado como um dos responsáveis pela intensa movimentação política em defesa das Reformas de Base, no período Goulart. Respondeu, no exílio, primeiro com uma tentativa frustrada de resistência armada, logo com a proclamação de “Voto Nulo”, nas eleições de 1970, igualmente pouco produtiva. Este foi, precisamente, o auge dos denominados “Anos de Chumbo” do regime e que coincidia com a colheita de bons frutos eleitorais graças ao “milagre econômico” , tão festejado pela classe média conservadora. Brizola se recolhe, então, a um longo silêncio do qual emergirá em 1977/8, já em meio ao processo de redemocratização, com a proposta de reorganização do trabalhismo como um caminho brasileiro para a construção do socialismo democrático. Em junho de  1979 realiza, com efeito, seu Encontro dos Trabalhistas em Lisboa, com o apoio de Mário Soares, Líder do Partido Socialista Português, editando a histórica “Carta de Lisboa”. Retorna, em dezembro do mesmo ano ao Brasil, sob o amparo da Lei da Anistia de 1979 e se dedica à formação de seu próprio Partido. Tenta, então, refundar o velho PTB, mas o perde para Ivete Vargas, com a provável conivência do Tribunal Superior Eleitoral. Desolado – o dia em que Brizola chorou ao rasgar a sigla PTB ! – parte, então, do zero e cria, em 1980 o Partido Democrático Trabalhista , de caráter social-democrata. Tratava-se , Brizola, de um líder amadurecido e que pretendia encontrar na esquerda européia o apoio indispensável  ao avanço de reformas sociais no Brasil, especialmente uma pretendida revolução na educação: “ A nossa Revolução, dizia, será com a caneta a serviço da consciência dos brasileiros…!”

Aqueles foram anos de redefinições políticas no Brasil, nos estertores do regime autoritário. Brizola evita participar da grande frente sob comando liberal, conhecida como MDB, revitalizado na reforma partidária de 1980, sob a tutela de Ulisses Guimarães,  no PMDB, e denuncia a tese da denominada UNIDADE DAS OPOSIÇÕES, apoiada pelos comunistas de todas as tendências. Defende que o avanço político dependia da capacidade organização autônoma das forças populares. Mas não  consegue empolgar o forte movimento sindical e popular que, irradiando de São Paulo, sob a liderança de Lula, se espalha por todo o país, realimentado pelas lutas por recomposições salariais no contexto de uma conjuntura fortemente inflacionária. Lula rejeita o PTB e se lança, de sua parte, com apoio da Igreja à criação do PT. Isso  dificulta o projeto político de Brizola em direção ao Palácio do Planalto, vindo, como resultado deste isolamento, a perder sua grande oportunidade nas primeiras eleições presidenciais de 1989,  disputada no segundo turno  por Fernando Collor e Lula.

Brizola não foi apenas um grande líder popular, com grande capital eleitoral, mas uma personalidade com fortes traços republicanos, dentro da tradição castilhista rio-grandense, que renovou, aproximando-a do socialismo evolucionário contemporâneo. Mudou também o estilo da política tradicional afeita aos discursos de escadaria, substituindo-a pelas conversas radiofônicas de longo alcance social, nas quais explicava didaticamente suas inclinações.

Com a partida de Brizola, em 2004, o seu Partido – PDT -perdeu o líder e o rumo. O Rio Grande, um dos grandes herdeiros do castilhismo. E o Brasil , perdeu uma grande esperança de renovação pela educação. Ficou a saudade de seu estilo direto, franco e sincero. E o reconhecimento, mesmo de seus adversários, de que ele foi um político , em todos os sentidos, honesto.

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Paulo Timm – Economista, Professor da Universidade de Brasilia, signatário da Carta de Lisboa e fundador do PDT, partido pelo qual disputou os Governos de Goiás (1982) e Distrito Federal (1994)

Os rolezinhos nos acusam: somos uma sociedade injusta e segregacionista / leonardo boff – são paulo.sp

23/01/2014

O fenômeno dos centenas de rolezinhos que ocuparam shoppings centers no Rio e em  São Paulo suscitou as mais disparatadas interpretações. Algumas, dos acólitos da sociedade neoliberal do consumo que identificam cidadania com capacidade de consumir, geralmente nos jornalões da mídia comercial, nem merecem consideração. São de uma indigência analítica de fazer vergonha.
Mas houve outras análises que foram ao cerne da questão como a do jornalista Mauro Santayana do JB on-line e as de três  especialistas que avaliaram a irrupção dos rolês na visibilidade pública e o elemento explosivo que contém. Refiro-me à Valquíria Padilha, professora de sociologia na USP de Ribeirão Preto:”Shopping Center: a catedral das mercadorias”(Boitempo 2006), ao sociólogo da Universidade Federal de Juiz de Fora, Jessé Souza,”Ralé brasileira: quem é e como vive (UFMG 2009) e  de Rosa Pinheiro Machado, cientista social com um artigo”Etnografia do Rolezinho”no Zero Hora de 18/1/2014. Os três deram entrevistas esclarecedoras.
Eu por minha parte interpreto da seguinte forma tal irrupção:
Em primeiro lugar, são jovens pobres, das grandes periferias,  sem espaços de lazer e de cultura, penalizados por serviços públicos ausentes ou muito ruins como saúde, escola, infra-estrutura sanitária, transporte, lazer e segurança. Veem televisão cujas propagandas os seduzem para um consumo que nunca vão poder realizar. E sabem manejar computadores e entrar nas redes sociais para articular encontros. Seria ridículo exigir deles que teoricamente tematizem sua insatisfação. Mas sentem na pele o quanto nossa sociedade é malvada porque exclui, despreza e mantém os filhos e filhas da pobreza na invisibilidade forçada. O que se esconde por trás de sua irrupção? O fato de não serem incluidos no contrato social. Não adianta termos uma “constituição cidadã” que neste aspecto é apenas retórica, pois  implementou muito pouco do que prometeu em vista da inclusão social. Eles estão fora, não contam, nem sequer servem de carvão  para o consumo de nossa fábrica social (Darcy Ribeiro). Estar incluído no contrato social significa ver garantidos os serviços básicos: saúde, educação, moradia, transporte, cultura, lazer e segurança. Quase nada disso funciona nas periferias. O que eles estão dizendo com suas penetrações nos bunkers do consumo? “Oia nóis na fita”; “nois não tamo parado”;”nóis tamo aqui para zoar”(incomodar). Eles estão com seu comportamento rompendo as barreiras do aparheid social. É uma denúncia de um país altamente injusto (eticamente), dos mais desiguais do mundo (socialmente), organizado sobre um grave pecado social pois contradiz o  projeto de Deus (teologicamente). Nossa sociedade é conservadora e nossas elites altamente insensíveis  à paixão de seus semelhantes e por isso cínicas. Continuamos uma Belíndia: uma Bélgica rica dentro de uma India pobre. Tudo isso os rolezinhos denunciam, por atos e menos por palavras.
Em segundo lugar,  eles denunciam a nossa maior chaga: a desigualdade social cujo verdadeiro nome é injustiça histórica e social. Releva, no entanto, constatar que com as políticas sociais do governo do PT a desigualdade diminiui, pois segundo o IPEA os 10% mais pobres tiveram entre 2001-2011 um crescimento de renda acumulado de 91,2% enquanto a parte mais rica cresceu 16,6%. Mas esta diferença não atingiu a raíz do problema pois o que supera a desigualdade é uma infraestrutura social de saúde, escola, transporte, cultura e lazer que funcione e acessível a todos. Não é suficiente transferir renda; tem que criar oportunidades e oferecer serviços, coisa que não foi o foco principal no Ministério de Desenvolvimento Social. O “Atlas da Exclusão Social” de Márcio Poschmann (Cortez 2004) nos mostra que há cerca de 60 milhões de famílias,  das quais cinco mil famílias extensas detém 45% da riqueza nacional. Democracia sem igualdade, que é seu pressupsto, é farsa e retórica. Os rolezinhos denunciam essa contradição. Eles entram no “paraíso das mercadorias” vistas virtualmente na TV para ve-las realmente e senti-las nas mãos. Eis o sacrilégio insuportável pelos donos do shoppings. Eles não sabem dialogar, chamam logo a polícia para bater e fecham as portas a esses bárbaros. Sim, bem o viu T.Todorov em seu livro “Os novos bárbaros”: os marginalizados do mundo inteiro estão saindo da margem e indo rumo ao centro para suscitar a má consciência dos “consumidores felizes” e lhes dizer: esta ordem é ordem na desordem. Ela os faz frustrados e infelizes, tomados de medo, medo dos próprios semelhantes que somos nós.
Por fim, os rolezinhos não querem apenas consumir. Não são animaizinhos famintos. Eles tem fome sim, mas fome de reconhecimento, de acolhida na sociedade, de lazer, de cultura e de mostrar o que sabem: cantar, dançar, criar poemas críticos, celebrar a convivência humana. E querem trabalhar para ganhar sua vida. Tudo isso lhes é negado, porque, por serem pobres, negros, mestiços sem olhos azuis e cabelos loiros, são desperezados e mantidos longe, na margem.
Esse tipo de sociedade pode ser chamada ainda de humana e civilizada? Ou é uma forma travestida de barbárie? Esta última lhe convem mais. Os rolezinhos mexeram numa pedra que começou a rolar. Só parará se houver mudanças.

2014! O QUE ESPERAR? – por anthony leahy

2014! O QUE ESPERAR?

Já estamos entrando em 2014 e como foi rápido! 2000 era tão distante e misterioso e já estamos em 2014!  E, diferentemente do preconizado pelas obras de ficção científica, em vez de tele-transportes e veículos voadores pessoais; em vez de maquinas do tempo e contatos com outros mundos; em vez da estabilidade gerada em laboratórios no Admirável (?!) Mundo Novo de Huxley; temos a Guerra, a Fome, a Indiferença, a Intolerância … e horrores velhos conhecidos da Humanidade.

Em 2013, acompanhamos, perplexos e passivos, a toda hora e em cada noticiário, o ódio e o seu filho primogênito, o terror! Vimos o orgulho aconselhando-se com a inveja, e esta se associando à perfídia! E as três, juntos, tecendo as rédeas da intriga e gerando mais ódio. Vimos o interesse deformando a verdade, torcendo as consciências e a covardia amordaçando as almas. Vimos o rancor gerando cólera; a cólera gerando violência; e a violência humilhando, escarnecendo e matando.
A Humanidade, paradoxalmente, faz a guerra em nome da paz; mata e persegue em nome de Deuses de amor, perdão, vida e compaixão; cria a tecnologia da comunicação e esquece-se de comunicar-se (“É terrível verificar que nossa tecnologia é maior que nossa humanidade.” já dizia Einstein.). Diminuímos as distâncias e nunca estivemos tão afastados …
E o que esperar de 2014? Temos que tomar consciência de que os tempos vindouros serão esculpidos pela nossa vontade e atitude!  Somos nós que daremos, desde o 1º segundo, a fisionomia do novo ano. Ele é o nosso “ALTER-EGO”, o nosso espelho, a nossa própria personalidade na expressão dos acontecimentos, bons ou maus, que suscitaremos no mundo. Nada podemos esperar dele, visto que é ele que espera e depende de nós…
Lembremo-nos que, ofendendo ao nosso próximo, ofendemos a própria essência humana de que somos participantes. Portanto, todo crime contra um só homem é crime contra toda humanidade. E não existe crime maior e mais covarde do que a indiferença e omissão!  Que nenhum homem se diga digno e justo enquanto existirem pessoas morrendo de fome gritando de dor …
Espero que em 2014 consigamos esculpir a silhueta de um novo futuro, mais humanizado e digno, com menos discursos e mais atitudes. Um futuro plural, onde a palavra-chave seja a tolerância e que consigamos gerar unidade na diversidade.
Que em 2014 possamos, juntos, festejar, entre livros e amigos, a construção desta nova humanidade!

América, América… – de manoel de andrade / curitiba.pr

 

América, América…

Manoel de Andrade

 

 

 

Trago ainda na alma o mapa dos caminhos…

Meus versos riscam teu dorso para cantar um tempo único e perfumado.

América, América,

ali, entre os ramos e o penhasco, o abismo florescido,

acolá, o milho semeado e a colheita rumorosa.

Entre serras e quebradas vai o colla dedilhando sua flauta,

é seu hino à pachamama modulando o silêncio do altiplano.

 

Canto meu enredo de viandante,

passo a passo rumo ao norte e à alvorada.

Quantos atalhos, meu Deus, quantas fronteiras!

A travessia ao entardecer no Titicaca,

o Illimani batido pelo sol,

e aquela noite sob as estrelas em Macchu Picchu!

Ah! este aguaceiro vem agora molhar minha saudade,

e tudo me chega como um recanto do passado…

e se hoje digo amigos e digo hermanos,

ouço nossos passos ecoar pelas vielas seculares de Quito e de La Paz.

 

Ai, América, ainda não disse de ti quanto quisera,

abre teu cântaro, ó Poesia, e dá-me o frescor do rocio,

dá-me a magia e o lirismo…,

que canção para mim soará mais bela que tuas sílabas de encanto?

América, América,

Lembro-me do fulgor do teu rosto renascido da utopia,

tuas bandeiras de sonhos

feitas de plumas e veias transparentes.

Os campos todos semeados

e o porvir tatuado em cada gesto.

Tudo era aroma na gleba cultivada,

nos brotos germinava a esperança

e nossas pálpebras se abriam para o amanhã.

 

Canto a América que vivi,

entre alegrias e lágrimas, canto o continente ao sul de Anahuác.

Falo de uma América primeira,

asteca, quiché, chibcha, quéchua, mapuche e guarani,

essa América materna,

botânica e mineral,

sangrada por Cortez, Pizarro e por Valdivia.

Falo de uma só pátria,

a grande pátria de Bolívar,

pilhada e violentada,

submetida pelas garras perversas do Império.

Vi tuas trincheiras abertas

e depois as densas trevas caírem sobre o sul.

Sobreveio o chumbo cruel,

os labirintos da dor e as atrocidades.

Na penumbra gemiam os cravos, gemiam as rosas,

e agonizava a vida ainda em botão.

 

Canto para denunciar a verdade sufocada,

e eis que mancho este verso para nomear Garrastazu, Bordaberry, Videla, Pinochet

e seus rastros genocidas num tempo silenciado.

Canto para dizer das valas clandestinas,

das ossadas do Atacama

e dos “voos da morte” para o mar,

Meu réquiem para trinta mil argentinos,

meu canto para as “crianças da ditadura”,

para os sobreviventes e suas cicatrizes,

para a viuvez e a orfandade

para las Madres de Plaza de Mayo e suas lágrimas perenes.

 

América, América,

quarenta anos se passaram

e tuas feridas ainda emergem da tragédia!

E aqui declino a “operação” perversa dos “condores”

e os seus generais malditos.

Canto por ti, América,

por tuas aldeias de bravos e por teus calvários,

por teu nevado esplendor tantas vezes torturado,

América de tantos massacres e patíbulos,

ouço-te ainda na voz melancólica dos charangos, quenas e zamponhas,

chorando por la matanza de San Juan, em Potosi.

Uma América de martírios,

estrangulada em Cajamarca,

esquartejada em Cusco,

sacrificada em La Higuera.

executada em Trelew e El Frontón,

e nos rituais da morte em Villa Grimaldi e no Dói-Codi.

 

Por tanta dor nessas memórias

eu  vos peço perdão pelo meu canto.

Ele é também assim: um áspero clarim no entardecer.

Distante, tão distante,

no tempo e nos andares,

e hoje, em busca de mim mesmo,

ainda abrigo o mesmo combativo coração.

Não sei o que te espera, América,

os anos correram inquietantes e velozes

restando um mundo com seu som intolerável.

 

Busco meu íntimo silêncio,

e, por um momento, digo basta…,

meu pensamento em prece, e num lampejo, viaja ao sul do Chile.

Lá, muito além do Bio-Bio, há um golfo deslumbrante.

Vou em busca de Arauco,

lá lutaram meus heróis, Caupolicán e Galvarino.

Foi lá onde viveu Lautaro e onde vive Frederico.

Vou para rever o cone nevado do Antuco

rever o vale e a Cordilheira,

o seu dossel verdejante, onde se gesta a vida.

Vou para relembrar uma baía de barcos,

para construir uma paisagem na alma,

uma tenda de luz para um amigo.

 

 

                                    Curitiba, 22 de dezembro de 2.013

NATAL: SUAVE MILAGRE – de eça de queiroz / portugal

“Nesse tempo Jesus ainda não saíra da Galiléia, das margens do lago de Genesaré; mas a nova dos Seus milagres chegara já a Siquém, cidade rica, entre vinhedos, no país de Samaria.
a jesus-nascimento
“Ora, junto a Siquém, num casebre, vivia uma viúva desgraçada entre todas, que tinha um filho doente com as febres. O chão miserável não estava caiado, nem nele havia enxerga. Na lâmpada de barro vermelho secara o azeite. O grão faltava na arca, o ruído dormente do moinho doméstico cessara, e esta era em Israel a evidência cruel de infinita miséria.

“A pobre mãe, sentada a um canto, chorava. E, estendida sobre os joelhos, embrulhada em farrapos, pálida e tremendo, a criança pedia-lhe, numa voz débil como um suspiro, que lhe fosse chamar esse Rabi da Galiléia, de quem ouvira falar junto ao poço de Jacó, que amava as crianças, que nutria as multidões e curava todos os males humanos com a carícia das Suas mãos. E a mãe dizia, chorando:

“— Como queres tu, meu filho, que eu te deixe e vá procurar o Rabi da Galiléia? Obed é rico e tem servos, eu os vi passar, e embalde buscaram Jesus por arraiais e cidades, desde Corazim até o país de Moab. Septimus é forte, tem soldados, e também os vi passar, e perguntavam por Jesus sem O acharem, desde o Hebron até o mar. Como queres tu que eu te deixe? Jesus está longe, e nossa dor está conosco. E sem dúvida o Rabi, que lê nas Sinagogas novas, não escuta as queixas de uma mãe de Samaria, que só sabe ir orar, como outrora, no alto do monte Garizim.

“A criança, com os olhos cerrados, pálida e como morta, murmurou o nome de Jesus, e a mãe, chorando, continuou:

“— De que servirá, meu filho, partir e ir procurá-Lo? Longas são as estradas da Síria, curta é a piedade dos homens. Vendo-me tão pobre e tão só, os cães viriam ladrar-me à porta dos casais. Decerto Jesus morreu e com Ele morreu, uma vez mais, toda a esperança dos tristes.

“Pálida e desfalecida, a criança murmurou de novo:

“— Mamãe, eu queria ver Jesus da Galiléia!

“E logo, abrindo devagar a porta, Jesus, sorrindo, disse-lhe:

“— Aqui estou!”

A MANIFESTAÇÃO DA CRIANÇA SAGRADA – de zuleika dos reis / são paulo

                              A MANIFESTAÇÃO DA CRIANÇA SAGRADA

                                                                                                             Zuleika dos Reis

O Natal nos liga à origem do Tempo Sagrado, onde está o Ser a Quem pertencemos, o Ser de Quem somos parte, independente do fato de termos clara em nós tal Ciência.

A manifestação da Criança Sagrada nos vem todo ano como Recordação e Presença; vem para nos lembrar  de que a Vida não tem fronteiras, nem de espaço, nem de tempo.

A manifestação da Criança Sagrada nos vem todo ano para nos mostrar que a Vida apenas É, a iluminar-nos desde Sempre, desde o Âmago, desde o Centro.

A manifestação da Criança Sagrada nos vem todo ano para nos incinerar das nossas misérias, por segundos que seja; para nos Iluminar, por segundos que seja; é preciso Coragem Desmedida para nos deixarmos incinerar, por segundos que seja, para nos deixarmos Iluminar, por segundos que seja; é preciso Desmedida Coragem, para que ousemos duvidar do brilho mais do que nunca ofuscante do imediato real, do brilho que, se descuidarmos, nos fará passar totalmente em branco este Tempo de Recordação e de Presença da Criança Sagrada, que vem para nos Lembrar. Que vem para nos lembrar, para nos lembrar de Nós.

 

Por que no meio da dor os negros, dançam, cantam e riem? – por leonardo boff / são paulo.sp

 
 Milhares de pessoa em toda a Africa do Sul misturam choro com dança, festa com lamentos pela morte de Nelson Mandela. É a forma como realizam culturalmente o rito de passagem da vida deste lado para a vida do outro lado, onde estão os anciãos, os sábios e os LEONARDO BOFFguardiães do povo, de seus ritos e das normas éticas. Lá está agora Mandela de forma invisível mas plenamente presente acompanhando o povo que ele tanto ajudou a se libertar. Momentos como estes nos fazem recordar de nossa mais alta ancestralidade humana. Todos temos nossas raízes na Africa, embora a grande maioria o desconheça ou não lhe dê importância. Mas é decisivo que nos reapropriemos de nossas origens, pois elas, de um modo ou de outro, na forma de informação, estão inscritas no nosso código genético e espiritual. Refiro-me aqui tópicos de um texto que há tempos escrevi sob o título:”somos todos africanos” atualizado face à situação atual mudada. De saída importa denunciar a tragédia africana: é o continente mais esquecido e vandalizado das políticas mundiais. Somente suas terras contam. São compradas pelos grandes conglomerados mundiais e pela China para organizar imensas plantações de grãos que devem garantir a alimentação, não da Africa, mas de seus países ou negociadas no mercado especulativo. As famosas “land grabbing” possuem, juntas, a extensão de uma França inteira. Hoje a Africa é uma espécie de espelho retrovisor de como nós humanos pudemos no passado e podemos hoje ainda ser desumanos e terríveis. A atual neo-colonização é mais perversa que a dos séculos passados. Sem olvidar esta tragédia, concentremo-nos na herança africana que se esconde em nós. Hoje é consenso entre os paleontólogos e antropólogos que a aventura da hominização se iniciou na África, cerca de sete milhões de anos atrás. Ela se acelerou passando pelo homo habilis, erectus, neanderthalense até chegar ao homo sapiens cerca de noventa mil anos atrás. Depois de ficar 4,4 milhões de anos em solo africano este se propagou para a Ásia, há sessenta mil anos; para a Europa, há quarenta mil anos; e para as Américas há trinta mil anos. Quer dizer, grande parte da vida humana foi vivida na África, hoje esquecida e desprezada. A África além de ser o lugar geográfico de nossas origens, comparece como o arquétipo primal: o conjunto das marcas, impressas na alma de todo ser humano. Foi na África que este elaborou suas primeiras sensações, onde se articularam as crescentes conexões neurais (cerebralização), brilharam os primeiros pensamentos, irrompeu a criatividade e emergiu a complexidade social que permitiu o surgimento da linguagem e da cultura. O espírito da África, está presente em todos nós. Identifico três eixos principais do espírito da África que podem nos inspirar na superação da crise sistêmica que nos assola. O primeiro é o amor à Mãe Terra, a Mama Africa. Espalhando-se pelos vastos espaços africanos, nossos ancestrais entraram em profunda comunhão com a Terra, sentindo a interconexão que todas as coisas guardam entre si, as águas, as montanhas, os animais, as florestas e as energias cósmicas. Sentiam-se parte desse todo. Precisamos nos reapropriar deste espírito da Terra para salvar Gaia, nossa Mãe e única Casa Comum. O segundo eixo é a matriz relacional (relational matrix no dizer dos antropólogos). Os africanos usam a palavra ubuntu que significa:”eu sou o que sou porque pertenço à comunidade” ou “eu sou o que sou através de você e você é você através de mim”. Todos precisamos uns dos outros; somos interdependentes. O que a física quântica e a nova cosmologia dizem acerca de interconexão de todos com todos é uma evidência para o espírito africano. À essa comunidade pertencem os mortos como Mandela. Eles não vão ao céu, pois o céu não é um lugar geográfico, mas um modo de ser deste nosso mundo. Os mortos continuam no meio do povo como conselheiros e guardiães das tradições sagradas. O terceiro eixo são os rituais e celebrações. Ficamos admirados que se dedique um dia inteiro de orações por Mandela com missas e ritos. Eles sentem Deus na pele, nós ocidentais na cabeça. Por isso dançam e mexem todo o corpo enquanto nós ficamos frios e duros como um cabo de vassoura. Experiências importantes da vida pessoal, social e sazonal são celebrados com ritos, danças, músicas e apresentações de máscaras. Estas representam as energias que podem ser benéficas ou maléficas. É nos rituais que ambas se equilibram e se festeja a primazia do sentido sobre o absurdo. Notoriamente é pelas festas e ritos que a sociedade refaz suas relações e reforça a coesão social. Ademais nem tudo é trabalho e luta. Há a celebração da vida, o resgate das memórias coletivas e a recordação das vitórias sobre ameaças vividas. Apraz-me trazer o testemunho pessoal de um dos nossos mais brilhantes jornalistas, Washington Novaes:”Há alguns anos, na África do Sul, impressionei-me ao ver que bastava se reunirem três ou quatro negros para começarem a cantar e a dançar, com um largo sorriso.Um dia, perguntei a um jovem motorista de táxi:”Seu povo sofreu e ainda sofre muito. Mas basta se juntarem umas poucas pessoas e vocês estão dançando, cantando, rindo. De onde vem tanta força?” E ele: “Com o sofrimento, nós aprendemos que a nossa alegria não pode depender de nada fora de nós. Ela tem de ser só nossa, estar dentro de nós.” Nossa população afrodescendente nos dá a mesma amostra de alegria que nenhum capitalismo e consumismo pode oferecer..
 Leonardo Boff, teólogo, filósofo e escritor.
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Divulgado anteriormente na página de Rodolpho Luiz Dalla Bernardina no facebook.

Contra a imbecilidade do atual anticomunismo – por leonardo boff / são paulo.sp

Contra a imbecilidade do atual anticomunismo

17/12/2013
 LEONARDO BOFF

Mauro Santayana é um dos jornalistas mais eruditos do jornalismo brasileiro. Sempre comprometido com causas humanitárias, contundente e dotado de um estilo de grande elegância. Somos colegas como colunistas do Jornal do Brasil-on line. Recentemente, no dia 17/12/2013, publicou um artigo sob o título HAMEUS PAPAM  com o qual me identifiquei imediantamente. Sofro ataques imbecis de que sou comunista e marxista, como se para um teólogo com 50 anos de atividade, fosse uma banalidade fazer esta acusação. Sou cristão, teólogo e escritor. Marx nunca foi pai nem padrinho da Teologia da Libertação que ajudei a formular. O atual anticomunismo  revela a anemia de espírito e a pobreza de pensamento  que  estão prevalecendo como disfarce para esconder o desastre que significa a economia de mercado, altamente predadora da natureza e agressora de todo tipo de direitos humanos e agora numa crise da qual não sabem como sair. Há tempos o Zürcher Zeitung, o maior jornal suiço e pouco depois o Times diziam que o autor mais lido hoje é Marx. Não só por estudiosos, mas por banqueiros e financistas conscientes que querem saber por que seu sistema foi a falência e por que tem tantas dificuldades em sair dele, se é que encontram uma saída que não signifique mais sacrificio para a natureza (injustiça ecológica) e para a humanidade já sofredora (injustiça social). Hoje mais e mais se percebe que este sistema é anti-vida, anti-democracia e anti-Terra. Se não cuidarmos poderá nos levar a um abismo fatal. É uma reflexão que faço contra meus acusadores gratuitos e faltos de razão. Penso às vezes que Einstein tinha razão quando disse:”Existem dois infinitos:um do universo e outro dos estultos; do primeiro tenho dúvidas, do segundo, absoluta certeza”. Estimo que muitos dos anticomunistas atuais se inscrevem nesse segundo infinito. É fácil serrar árvore caída e convardia chutar cachorro morto. Pensemos, antes, no presente com sentido de responsabilidade, unidos face a um feixe de crises que nos poderá levar a uma tragédia ecológico-social. Como fazer tudo para evitá-la e garantir um futuro comum para todos, inclusive para a nossa civilização e para nossa Casa Comum. Essa é a questão maior a ser pensada e sobre ela inaugurar práticas salvadoras e não distrair-se com discutir um comunismo inexistente, morto e sepultado. LBoff

Bachelet impõe esmagadora vitória sobre a direita latino-americana

Bachelet impõe esmagadora vitória sobre a direita latino-americana

Enviado por  on 16/12/2013 – 9:43 am

Os significados desta vitória certamente irão se refletir no resto do continente. Bachelet representa a esquerda anti-ditadura que hoje governa maior parte da América do Sul.

A socialista terá de reduzir o grande fosso social nas áreas da saúde, educação e participação das mulheres no mercado de trabalho

FRANCISCO PEREGIL, Santiago de Chile 15 DEZ 

 

Venceu a favorita. A socialista Michelle Bachelet, pediatra de 62 anos, separada e com três filhos, presidente do Chile entre 2006 e 2010, voltará novamente a pisar no Palácio de la Moneda como chefe de Estado. E o fará com a honra de ter vencido com a porcentagem de votos mais alta conseguida por um presidente desde o retorno da democracia. A filha do general Alberto Bachelet, morto depois de torturado pelo regime de Augusto Pinochet (1973-1990), candidata da formação de centro-esquerda Nova Maioria, se impôs à economista conservadora Evelyn Matthey, de 60 anos, filha do general pinochetista Fernando Matthey, por 62% a 37,5%, já tendo sido apuradas 96% das urnas.

A vitória perdeu brilho por causa da elevada abstenção registrada nas primeiras eleições presidenciais realizadas sob a lei do voto voluntário. A abstenção ficou em cerca de 60%, 10 pontos acima da constatada no primeiro turno, em 17 de novembro, que já tinha sido elevada.

De acordo com o que determina a Constituição, Bachelet só assumirá o cargo em 11 de março, quando prestará juramento. A partir de então deverá enfrentar o grande desafio da luta contra a desigualdade. Durante os 20 anos em que governou a centro-esquerda e os quatro da direita, nenhum dos presidentes cumpriu a promessa de reformar o sistema educacional, a grande fábrica das desigualdades. Mas em 2011 os estudantes saíram às ruas e depois disso as ruas não pararam de expressar sua indignação. Agora, serão as ruas que examinarão Bachelet.

A imagem que muitos chilenos têm de si mesmos na América Latina é a de melhor aluno, o menino obediente que se esforça para tirar as melhores notas. É só ver o modo como a grande companhia aérea do país, a Lan, organiza as filas nos aeroportos para se dar conta de que durante os últimos anos muitas coisas foram feiras de forma ordenada e meticulosa. Os passageiros das filas 1 a 8 ficam numa ala e os da 8 à 13, em outra. Ninguém fura a fila. E é só ver esse grande monumento ao capitalismo que é o shopping Costanera Center, em Santiago, para perceber que no país o dinheiro está girando. Com seus seis andares e 60 restaurantes, forma parte de um complexo imobiliário que inclui o arranha-céu mais alto da América Latina: 300 metros com 60 andares e 24 elevadores, nos quais se trafega a 6,6 metros por segundo. De algum modo tinha que ser perceptível que o PIB cresceu desde 2010 a um ritmo de 5,5%, 1 ponto acima da média da América Latina, e que o desemprego é só de 5,7%.

Mas os 300 metros da Gran Torre Santiago não podem ocultar o esgotamento de um sistema onde somente os mais ricos conseguem uma educação suficientemente boa para passar nas provas de ingresso nas duas grandes universidades públicas (que também são pagas). O restante dos chilenos se vê obrigado a se endividar para estudar em universidades privadas, na maioria com péssimo nível docente, e seus diplomas de licenciatura não têm prestígio algum. É como se o melhor aluno tivesse passado, ano após ano, sem aprender a dividir. Sem que haja o interesse necessário por conseguir uma melhor divisão da riqueza.

O economista da Fundação Sol Marcos Kremerman apresenta vários dados: ”Os 5% mais ricos da população ganham 257 vezes mais do que os 5% mais pobres. Um estudo feito no início de 2013 pela Universidade do Chile demonstra que o 1% mais rico concentra 31% da renda. Nos Estados Unidos, o 1% fica com 21%, na Alemanha, com 12%. E o lugar onde mais se percebe a desigualdade é na classe trabalhadora: 50% dos trabalhadores ganham menos de 251.000 pesos chilenos (345 euros). A distância entre um diretor geral e um trabalhador com o menor salário supera cem vezes. Isso tem a ver com as instituições existentes no Chile, que foram criadas durante a ditadura.”

A ativista chilena Roxana Miranda, de 46 anos, se candidatou à Presidência no primeiro turno por um partido que se chama precisamente Igualdade. Durante um debate televisionado perguntou aos outros candidatos se sabiam como as mulheres de seu município, a comuna de San Bernardo, na periferia de Santiago, resolviam os problemas dentários. Muitos chilenos ficaram surpresos ao saber que o fazem com uma pasta à base do cravo que se usa como tempero na comida, porque não têm dinheiro para ir ao dentista. Várias entidades de odontologistas confirmaram as palavras de Miranda.

“Na vida cotidiana sempre se tem de pedir fiado, dinheiro não chega para pagar a luz e a água”, disse Miranda. “Temos que decidir entre os filhos qual tem melhor cabeça e, assim, investimos na educação de um deles. As pessoas se endividam com os créditos hipotecários. Os bancos fizeram negócios até com a moradia social. Há apartamentos de 36 metros quadrados que estão sendo pagos em 20 e 30 anos com taxas de juros de 12% e até de 16%.”

E, no entanto, os grandes shoppings como o Costanera Center estão sempre lotados. “Porque as pessoas curam suas depressões no shopping, fazem sua vida endividando-se. Porque todas essas desigualdades se disfarçam com um televisor de plasma. Mas um shopping não pode ser preenchido com um país inteiro. Há milhões de pessoas que só tratam de sobreviver, de chegar ao fim do mês.”

Além de todas as promessas firmadas, a nova presidente terá de ir pagando outra antiga dívida com seu próprio gênero. Apesar de ter no segundo turno duas candidatas presidenciais mulheres, o Chile é um dos países com maios discriminação trabalhista por questão de sexo. AS mulheres recebem 30% menos que os homens. A organização Comunidade Mulher garante que só 3% dos diretores de empresa no Chile São mulheres. Restam quatro anos pela frente. E muito trabalha por fazer.

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- Michelle Bachelet durante a votação. / J. SAENZ (AP)

Ando devagar porque já tive pressa… texto espírita sobre a canção TOCANDO EM FRENTE de almir sater

Ando devagar porque já tive pressa

Ando devagar porque já tive pressa… Pressa de ter tantas coisas, de
chegar a tantos lugares, pressa do ter, do parecer.

Mas hoje ando a passo lento, pois já entendo que a vida é uma busca de
si mesmo, do ser: ser melhor, ser amável, ser amigo, ser sensível, ser
compassivo, ser caridoso…

Hoje compreendo que é preciso paz para poder sorrir, pois o sorriso
verdadeiro, a felicidade autêntica, vem da paz de espírito, a paz de
consciência, de quem segue o caminho do bem a todo custo.

Entendo também que as chuvas são bem-vindas, e que sem elas não há
floradas, pois é preciso chuva para florir.

A dor nos esculpe a alma, quando bem entendida, quando bem absorvida
nos passos diários da lida.

Ando devagar porque já tive pressa… Pressa do sucesso a qualquer
custo, pressa de ser popular, de ser o primeiro, de agradar a todos…

Mas hoje ando tranquilo, percebendo mais as manhas e as manhãs, o
sabor das massas e das maçãs, absorvendo a vida em toda sua plenitude.

O viver pode ser o mesmo, as circunstâncias podem permanecer
inalteradas, mas minhas lentes são outras. Enxergo tudo de outra
forma.

E o mais importante de tudo: descobri que para cumprir a vida, para
cumprir meu papel, minha missão aqui, preciso compreender minha
própria marcha.

Sêneca, antigo sábio, afirmou que nenhum vento é a favor para quem não
sabe para onde ir. Então, compreender a marcha é fundamental.
Precisamos saber para onde estamos indo, precisamos saber o que é
nossa marcha, nossa vida.

Só então posso ir tocando em frente, com simplicidade e devoção, com
alegria e coração.

Pois todos temos talento, todos carregamos o dom de ser capaz e ser feliz.

A felicidade não é para poucos, não, é para todos. E cada um a vai
encontrando no seu tempo, no seu momento, da sua forma.

Ando devagar porque já tive pressa… Pressa de partir, já quis
desistir de tudo, em alguns momentos, mas hoje ando como que em câmera
lenta, com a coragem de quem quer ficar e ver tudo até o fim.

Carrego esse sorriso porque já chorei demais, mas isso não quer dizer
que não voltarei a derramar alguma gota dos olhos. Significa apenas
que os sorrisos serão a regra. A lágrima, exceção.

Ando devagar no passo curto dos meus filhos, pois se resolver andar
acelerado, os deixarei para trás.

Ando devagar para perceber o sabiá cantador, pois se torno minha vida
uma bomba-relógio, passo a não perceber a vida que passa ao largo de
meus passos, e assim, os sabiás passam a não existir mais.

Ando devagar para ainda conseguir olhar onde piso, e não esmagar nada,
nem ninguém com minha desatenção ou deselegância.

Ando devagar para pensar um tanto mais antes de agir, para escolher as
palavras certas, para digerir uma ideia nova, para escolher um
caminho, para silenciar a mim mesmo por alguns instantes.

Ando devagar… Porque já tive pressa.

* * *

A vida é especialmente rica para que se passe por ela, às pressas, sem
atentar para os detalhes.

O mundo é pleno de belezas para que se o percorra aos saltos, sem nos
determos a descobrir as belezas das flores, o segredo das matas, o
encanto das fontes.

Pensemos nisso!

Redação do Momento Espírita, com base na
canção Tocando em frente, de Almir Sater.
Em 28.11.2013.

O general ignorante e o silêncio geral – por luiz claudio cunha / brasilia.df

JANGO E A HISTÓRIA

O general ignorante e o silêncio geral

Por Luiz Cláudio Cunha em 12/12/2013 na edição 776

 

No feérico firmamento da insensatez nacional, a frase mais boçal dos últimos tempos coube a um general de quatro estrelas. No limite da irresponsabilidade, na fronteira da grosseria, no limiar da insubordinação, o general Carlos Bolívar Goellner, 63 anos, atravessou as cerimônias oficiais da semana passada em São Borja (RS) em homenagem ao ex-presidente João Goulart (1919-1976). Supremo comandante do Comando Militar do Sul (CMS), maior guarnição do Exército no país, o general intrometeu-se dando botinadas no enterro com honras militares prestadas a Jango, sepultado pela segunda vez em sua terra natal na mesma data – 6 de dezembro – em que morreu na Argentina, em 1976, ainda no exílio forçado a que o levou o golpe de 1964.

O repórter Carlos Rollsing, do jornal Zero Hora, que cobria a cerimônia, perguntou com argúcia à máxima autoridade que representava o Exército na cerimônia se a sua presença ali representava uma retratação histórica diante do presidente reverenciado. Para surpresa do repórter e de todos à sua volta, o comandante militar do Sul vestiu a esfarrapada farda de combate de meio século atrás e trovejou com inusitada deselegância:

– Nenhuma retratação. Nenhum erro histórico [a reparar]. A história não comete erros. A história é história – espumou o general Goellner.

Mais atento aos petardos da história que o general, o repórter lembrou que o primeiro sepultamento de Jango, em dezembro de 1976, foi realizado às pressas, para atender aos temores do regime militar. A passagem do carro funerário que atravessou a ponte que liga a cidade argentina de Paso de Los Libres à brasileira Uruguaiana, na fronteira, foi duramente negociada entre o coronel da guarnição local e o líder do oposicionista MDB da época, deputado estadual Pedro Simon, hoje senador. Seguindo ordens de Brasília procedentes do Palácio do Planalto de Geisel, o coronel determinara que o esquife de Jango fosse transportado em alta velocidade, para evitar a saudação popular à beira da estrada, e que o cortejo acelerado não parasse nem para reabastecer. Assim foi vencida, em menos de duas horas e meia, a distância de 190 km da rodovia RS-472 que liga Uruguaiana a São Borja, cidade natal e destino derradeiro do ex-presidente.

O repórter de Zero Hora lembrou ao general Goellner que, naquele ritmo acelerado, o primeiro sepultamento de Jango em 1976 não teve, como agora, as honras de chefe de Estado, já que a ditadura não permitiu nem o hasteamento a meio mastro da bandeira nacional. O general não se rendeu:

– Ele não foi enterrado como cidadão comum. Ele nunca deixou de ser presidente. Estamos prestando as honras regulamentares, nada mais do que isso. Não tem nenhuma outra ilação além disso, nem a favor nem contra – esclareceu o militar, com uma frieza glacial que destoava da cálida recepção da cidade ao seu presidente morto.

Rombudo, Goellner descartou a generosa hipótese levantada pelo repórter de que a presença do comandante, ali, poderia representar uma nova era de compreensão histórica para a corporação.

– As instituições não mudam na História. Não há nenhuma modificação em relação ao Exército – resistiu bravamente o general, com os dois coturnos solidamente plantados na intransigência e no imobilismo. O apagão temporal de Goellner impediu que ele recordasse o gesto eloquente de um mês antes, que prova a dramática e inspiradora mudança experimentada pelas Forças Armadas brasileiras, o Exército incluído, com o advento da democracia revogada pelos militares com a deposição de Jango. Em 14 de novembro, Jango voltou a Brasília, de onde fora escorraçado pelas armas em 1964, recebendo as tardias honras militares na presença de três ex-presidentes da República (Lula, Sarney e Collor) e da atual, Dilma Rousseff, uma ex-guerrilheira que pegou em armas contra a ditadura e foi por ela presa e torturada. Na terceira fila de cadeiras reservadas às autoridades no hangar da Base Aérea de Brasília sentaram-se lado a lado os três comandantes militares – o brigadeiro Juniti Saito, o almirante Júlio Soares de Moura Neto e o general Enzo Martins Peri, subordinado de Dilma e chefe de Goellner.

Na segunda fila, na cadeira logo à frente do general, estava sentado o seu colega de ministério, Fernando Pimentel, titular da pasta do Desenvolvimento, Indústria e Comércio. No início da década de 1970, o Exército que Peri hoje comanda prendeu e torturou Pimentel, um jovem de 19 anos que militou sucessivamente nos grupos de ação armada Colina, VPR e VAR-Palmares, onde lutava ao lado da guerrilheira Dilma Rousseff, atual comandante-em-chefe das Forças Armadas. Nessa condição, todos os generais da democracia – incluindo Peri e Goellner – batem agora continência para a atual presidente da República, por dever constitucional e subordinação aos rígidos regimentos militares. Se o obtuso comandante militar do Sul ignora tudo isso como uma saudável modificação do Exército é porque não entende o que é História e não compreende o que é sua própria corporação.

Manda e obedece

Em São Borja, em dezembro, o general Goellner, distribuiu grosserias. Um mês antes, em Brasília, Dilma, sua comandante-em-chefe, colocou flores sobre o caixão de Jango, ao lado da viúva, Maria Teresa, num ato de emoção e elegância que resume as mudanças históricas que os antolhos do comandante do Sul não conseguem perceber, após tanto tempo. Bastaria prestar atenção às três mensagens eloquentes que a antenada Dilma transmitiu pelo Twitter, momentos antes de receber os restos de Jango em Brasília: “Uma democracia que se consolida com este gesto histórico. Essa cerimônia que o Estado brasileiro promove hoje com a memória de João Goulart é uma afirmação da nossa democracia. Este é um gesto do Estado brasileiro para homenagear o ex-presidente João Goulart e sua memória”, lembrou a presidente.

Ainda em São Borja, a fala mal-educada do general foi contestada por quatro políticos civis, procurados imediatamente pelo atento repórter de Zero Hora. Autores da resolução do Congresso que há duas semanas anulou a farsa parlamentar de abril de 1964, declarando vaga a presidência quando Jango ainda estava em Porto Alegre, os senadores Randolfe Rodrigues (PSOL-AP) e Pedro Simon (PMDB-RS) sacaram da ironia. “O que se faz aqui é a correção de um grave erro histórico. A História é um trem alegre que atropela todo aquele que a negue”, disparou Randolfe. “Faz bem o comandante em dizer isso. Ele acerta em citar o regulamento. A presidente manda e ele obedece”, reforçou Simon, falando ao lado do general, que ouviu tudo e não disse nada.

O ex-presidente da Câmara dos Deputados, Ibsen Pinheiro, nascido em São Borja como Jango, foi ainda mais ferino: “Acho muito bom quando os militares falam só sobre regimento. Fez muito bem o comandante, cujo nome eu não sei. Militar é para falar sobre regulamento, regimento, essas coisas. Política é para o povo falar e para os líderes políticos. Do ponto de vista do regimento, é um ato formal. Do ponto de vista do Brasil, é um grande acontecimento, cívico e emotivo”.

A ministra dos Direitos Humanos, Maria do Rosário, que ali representava a Presidência da República, insinuou uma transgressão disciplinar, a ser considerada pelos comandantes do general: “Os militares respondem, pela hierarquia, a seus superiores. Certamente, as declarações dessa pessoa, pelas funções importantes que exerce, deverão ser analisadas pelos seus superiores”.

Foi eloquente a troca de guarda nas homenagens de Brasília e de São Borja. Na capital, pelotões de honra das três Forças Armadas – Exército, Marinha e Aeronáutica – prestaram honras de chefe de Estado a Jango, na presença de seus comandantes e da presidente Dilma Rousseff. Na cidade natal de Jango, cerraram fileiras nas homenagens ao ex-presidente só os soldados da Brigada Militar, a força pública estadual, com uma tropa de 25 mil efetivos, a metade da guarnição militar do Sul comandada por Goellner.

Apesar da presença do general, o Exército manteve-se ostensivamente ausente e distante em São Borja. O silêncio mais eloquente, porém, foi o da imprensa brasileira, que não repercutiu a áspera declaração do general. Nenhum grande veículo de Rio e São Paulo, nenhuma rede de TV, nenhum portal na internet, nenhum editorial, nenhum blog sujinho ou limpinho deu importância ao que disse Goellner, que não é um militar qualquer.

Gaúcho como Jango, mas nascido em Santa Maria, Goellner comanda a maior concentração de tropas do Exército brasileiro, mais de 50 mil homens, um quarto do efetivo total do país. No Comando Militar do Sul, antes conhecido como III Exército, Goellner chefia 18 oficiais-generais, 160 organizações militares, 20 Tiros de Guerra, 100% da artilharia autopropulsada, 75% da artilharia geral e 90% dos 1.645 tanques de guerra de toda a força terrestre brasileira – incluindo os blindados alemães Leopard, os americanos Patton e M-113 e os brasileiros Urutu e Cascavel.

General na gangorra

A silente imprensa brasileira perdeu a chance de contar que o palavroso Goellner é muito mais do que o general com maior poder de fogo do Exército brasileiro. Ele também é, ou era, uma estrela em ascensão no opaco firmamento militar. Até o desastrado bombardeio verbal de São Borja, Goellner era cotado como o provável sucessor de Enzo Peri no Comando do Exército. Os antecedentes até recomendavam o seu nome. Goellner, nome recentíssimo no Alto Comando do Exército, ganhou sua quarta estrela em março de 2011, concedida justamente por Dilma em sua primeira promoção de generais, três meses após assumir a presidência.

Goellner formou-se cadete em Campinas, ingressando no Exército em 1967, três anos após o golpe, e tornou-se aspirante a oficial da Infantaria pela Academia Militar de Agulhas Negras em dezembro de 1972, quando o general Médici cuspia ferro e fogo na fase mais sangrenta da ditadura. Até pela tenra idade, Goellner passou incólume pelos porões da repressão e pelos horrores da ditadura que começou com a deposição de Jango, que o general ainda hoje não considera um “erro histórico”, passível de qualquer retratação.

O surto de amnésia do general impediu que ele lembrasse episódios marcantes que comprovam clamorosos erros da História – que até as O Globo assumiu, em setembro passado, ao expressar um inesperado mea culpa pelo equivocado apoio ao golpe militar de 1964. O distraído Goellner erra ao dizer que a História, como construção coletiva do homem, não comete erros. A humanidade acerta o passo, e o general deveria fazer o mesmo, quando reconhece erros brutais que ainda hoje envergonham o mundo civilizado. Erros que gritam na consciência de todos, como a escravidão (abolida só no final do século 19 no Brasil, o último país escravocrata do mundo), a exploração colonialista, a nada santa Inquisição da igreja católica, o nazifascismo, a morte em escala industrial do Holocausto, os conflitos regionais, as duas guerras mundiais, os horrores dos gulags do stalinismo, a segregação do apartheid na África e nos Estados Unidos, a perseguição do macarthismo, a truculência das ditaduras do Cone Sul, a repressão coordenada da Operação Condor, a tortura e a censura – alguns desses erros, para espanto do general, cometidos com a efetiva participação de militares do Exército brasileiro, para horror de Goellner.

O próprio Exército de Goellner errou e acertou, na gangorra da História. Sustentou a ditadura do Estado Novo getulista, flertou com o III Reich que embevecia o ministro da Guerra (Eurico Gaspar Dutra) e o chefe do Estado-Maior do Exército (Góis Monteiro) de Getúlio Vargas, cerrou fileiras com os Aliados na jornada italiana da FEB na guerra contra o nazifascismo, impediu a quartelada de 1955 que tentava barrar a posse do presidente eleito Juscelino Kubitscheck. Até o III Exército que Goellner hoje comanda, com outro nome, teve seus altos e baixos. Acertou ao apoiar o povo gaúcho e o governador Leonel Brizola, em 1961, na Campanha da Legalidade em defesa do mandato de João Goulart. Errou, três anos depois, ao se engajar na conspiração golpista que derrubou o mesmo Jango cuja posse tinha assegurado. Fica provado, assim, que a História comete erros – e o general Goellner, também.

A fala desastrada no enterro de São Borja pode ter sepultado, de vez, as chances do general de chegar ao topo da carreira como comandante do Exército. Mas isso é pouco para a afronta praticada por Goellner, que passou batida pelo silêncio obsequioso a quem ele deve satisfação e subordinação. Ninguém em Brasília contestou o general – seja pela inoportunidade, seja pela grosseria, seja pelo imperdoável deslize histórico. Nem o comandante do Exército, general Enzo Peri, seu chefe imediato. Nem o ministro da Defesa, Celso Amorim, chefe dos dois. Nem a presidente Dilma Rousseff, chefe suprema dos três. Todos se calaram, talvez pela conveniência de engolir o desaforo para evitar maiores sobressaltos políticos, especialmente num período pré-eleitoral que não recomenda marolas, especialmente em torno dos quartéis.

O Palácio do Planalto pode ter desistido de puxar as orelhas do general, ostensivamente, para puxar discretamente o tapete de Goellner como futuro comandante da força terrestre. O chilique autoritário do general passou ileso, também, pelo crivo de instituições e entidades comprometidas com a defesa da verdade, dos direitos humanos e da democracia, como o Congresso Nacional, a OAB, a ABI, a Fenaj e até a Comissão Nacional da Verdade. Ninguém pareceu se incomodar com os disparates pronunciados em São Borja pelo comandante do sul.

Corações e mentes

O episódio envolvendo o general mais poderoso do Exército brasileiro, contudo, revelou a dificuldade que os militares brasileiros têm, em plena democracia, para digerir o passado e aceitar as circunstâncias ainda constrangedoras de uma ditadura distante que não exerceram, mas que protegem com um insensato sentimento corporativo. Goellner, um general de ficha limpa diante dos abusos do regime que ele viu nascer antes de completar 14 anos e que viu morrer aos 35, é mais um dos chefes militares entrincheirados na defesa incongruente de um regime de força carcomido pelo tempo e emparedado pela democracia. Os generais, antes apenas incomodados, agora se mostram ostensivamente irritados com a cobrança por verdade e justiça, como revela a irada reação do comandante militar do Sul.

Um exemplo gritante dessa hostilidade surgiu no início de dezembro, com um depoimento reservado de 92 minutos prestado em 12 de novembro à Comissão Nacional da Verdade (CNV), no Rio de Janeiro, pelo general de brigada (reserva) Álvaro de Souza Pinheiro, 69 anos, nascido em Cuiabá (MT) e veterano dos combates à Guerrilha do Araguaia, no início da década de 1970. O texto foi recuperado pelo experiente repórter Vasconcelos Quadros, do portal iG. Antes de depor, o general expôs seu compromisso, com uma elegância peculiar, numa mensagem distribuída aos “companheiros leais”, dizendo-se preparado:

“Preparado para dizer a estes comunistas de merda, em alto e bom tom, seguro e muito firme, que orgulho-me profundamente de ter integrando as Forças Especiais do Exército Brasileiro, participado decisivamente do combate contra a subversão e o terrorismo no Brasil. E, afirmar-lhes, olho no olho, que esta Comissão que, pela sua parcialidade, nada tem de Verdade; que ela é, verdadeiramente, da Infâmia, Calúnia e Difamação. Nesse contexto, não lhe reconheço nenhuma legitimidade para questionar-me em qualquer tema, razão pela qual nada mais terei a declarar.”

Embora desdenhando da CNV, o general Pinheiro admitiu que os guerrilheiros mortos na selva foram identificados e enterrados em locais conhecidos, mas se recusou a dar qualquer informação: “Não vou confirmar nada a comissão nenhuma. Nem o papa me obrigaria”, disse o general, escancarando o pacto de silêncio da caserna que está acima das questões de Estado. “ rindo. Não tenho nenhum interesse nisso. O que me interessa é que o Exército resolveu o problema grave de um foco terrorista num ambiente de selva”, respondeu, resumindo a dificuldade da Comissão da Verdade em resgatar o passado de violência da ditadura.

Quando entrou na mata para combater a guerrilha, Pinheiro era primeiro-tenente e lá combateu num total de 247 dias. Levou um tiro na clavícula, disparado pelo guerrilheiro Bergson Gurjão Faria, morto dias depois pela equipe de Pinheiro no Araguaia. Os restos de Bergson foram identificados em 2009.

À Comissão da Verdade, o general Pinheiro explicitou a posição contrária dos militares ao conhecimento da verdade: “Não falta radical tresloucado que queira acertar contas do passado. Mas não é qualquer vagabundo que vai me pegar, nem a investida de policiais do governo”, disse Pinheiro, no tom desafiador que lembra o general do Sul. A diferença é que o general Pinheiro esteve no Araguaia e tem o que esconder. O general Goellner, não.

É ilusão imaginar que Pinheiro seja peça de museu, escondido em casa e camuflado com o pijama e as pantufas confortáveis da reserva. O general está ativo, circulante e muito, muito ouvido. Em abril passado, deu instrução sobre “Operações de Informação” aos oficiais do 2º ano do curso de Comando e Estado-Maior (Ccem) na Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (Eceme), na Praia Vermelha, no Rio de Janeiro. É a escola que prepara os corações e mentes dos capitães e majores que, promovidos a coronéis, vão integrar os grandes comandos do país. Em maio, estava no Sul, na jurisdição do general Goellner, falando aos oficiais, subtenentes e sargentos do 19º Batalhão de Infantaria Motorizado de São Leopoldo, na Grande Porto Alegre, sobre “Operações contra Forças Irregulares e Terrorismo”.

Com o sucesso de público e crítica do general da reserva Pinheiro nos quartéis de um Brasil democrático há 28 anos, é mais fácil entender porque o general da ativa Goellner ainda acredita que a História não comete erros. Na página do batalhão de São Leopoldo, o general Pinheiro é apresentado como “um dos maiores especialistas em operações de combate ao terrorismo”.

Um ex-capitão do 1º Batalhão de Forças Especiais, Dalton Roberto de Melo Franco, contudo, apresenta uma nova faceta de Pinheiro, com quem serviu quando ele ainda era coronel, em 1989. No ano anterior, os metalúrgicos da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) iniciaram uma greve e ocuparam a usina no dia 7 de novembro. Dois dias depois, com autorização do presidente José Sarney, o Exército invadiu o local.

No tiroteio, morreram três operários e 46 ficaram feridos. Em 1989, no 1º de Maio, um memorial projetado por Oscar Niemeyer foi inaugurado na praça em homenagem aos três mortos.

Algumas horas depois, na madrugada do dia 2, uma bomba derrubou o monumento, que ficou tombado para frente, preso apenas pelo ferro da armação. Na ocasião, Niemeyer fez questão de reinaugurar o monumento mantendo as marcas da violência, apenas erguendo o que foi derrubado, na intenção de preservar o atentado para sempre na memória.

Dez anos depois, em março de 1999, o ex-capitão Dalton deu uma bombástica entrevista ao Jornal do Brasil,dizendo ter sido punido e expulso do Exército porque se recusou a participar do atentado contra o memorial. Ele disse ter integrado um grupo de oficiais das Forças Especiais infiltrado na CSN para vigiar os líderes da greve. O ex-capitão disse ao JB ter recebido uma ordem de seu chefe no destacamento, o então coronel Álvaro de Souza Pinheiro, para explodir o monumento. Dalton pediu a ordem por escrito e foi excluído da operação. “A dinamite foi dada pelos bicheiros do Rio e tirada de pedreiras da Baixada Fluminense. Eles ajudaram a montar um paiol com munição que depois seria usada em várias operações irregulares”, disse o capitão Dalton ao Jornal do Brasil.

O ex-coronel Pinheiro, hoje general, agora ri porque o Exército resolveu “o problema grave de um foco terrorista num ambiente de selva”. Sobre os focos urbanos em Volta Redonda, ele nada fala, até porque o silêncio é um dogma quase divino. Pinheiro, acintoso, avisa que não confirmará nada a nenhuma comissão, nem que o papa obrigue. Goellner, presunçoso, continua acreditando que a História não comete erros.

Os dois generais, no Rio de Janeiro e em Porto Alegre, representam as duas faces do mesmo problema. Um não diz o que sabe. O outro não sabe o que diz.

Por omissão ou precipitação, um e outro acabam cometendo um erro continuado que recai sobre o Exército e frustra o país, cada vez menos paciente com a boçalidade, cada vez mais necessitado da verdade.

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