Antonio Cândido indica 10 livros para conhecer o Brasil – por antonio candido.*
Antonio Cândido indica 10 livros para conhecer o Brasil
Quando nos pedem para indicar um número muito limitado de livros importantes para conhecer o Brasil, oscilamos entre dois extremos possíveis: de um lado, tentar uma lista dos melhores, os que no consenso geral se situam acima dos demais; de outro lado, indicar os que nos agradam e, por isso, dependem sobretudo do nosso arbítrio e das nossas limitações. Ficarei mais perto da segunda hipótese.
Como sabemos, o efeito de um livro sobre nós, mesmo no que se refere à simples informação, depende de muita coisa além do valor que ele possa ter. Depende do momento da vida em que o lemos, do grau do nosso conhecimento, da finalidade que temos pela frente. Para quem pouco leu e pouco sabe, um compêndio de ginásio pode ser a fonte reveladora. Para quem sabe muito, um livro importante não passa de chuva no molhado. Além disso, há as afinidades profundas, que nos fazem afinar com certo autor (e portanto aproveitá-lo ao máximo) e não com outro, independente da valia de ambos.
Por isso, é sempre complicado propor listas reduzidas de leituras fundamentais. Na elaboração da que vou sugerir (a pedido) adotei um critério simples: já que é impossível enumerar todos os livros importantes no caso, e já que as avaliações variam muito, indicarei alguns que abordam pontos a meu ver fundamentais, segundo o meu limitado ângulo de visão. Imagino que esses pontos fundamentais correspondem à curiosidade de um jovem que pretende adquirir boa informação a fim de poder fazer reflexões pertinentes, mas sabendo que se trata de amostra e que, portanto, muita coisa boa fica de fora.
São fundamentais tópicos como os seguintes: os europeus que fundaram o Brasil; os povos que encontraram aqui; os escravos importados sobre os quais recaiu o peso maior do trabalho; o tipo de sociedade que se organizou nos séculos de formação; a natureza da independência que nos separou da metrópole; o funcionamento do regime estabelecido pela independência; o isolamento de muitas populações, geralmente mestiças; o funcionamento da oligarquia republicana; a natureza da burguesia que domina o país. É claro que estes tópicos não esgotam a matéria, e basta enunciar um deles para ver surgirem ao seu lado muitos outros. Mas penso que, tomados no conjunto, servem para dar uma ideia básica.
Entre parênteses: desobedeço o limite de dez obras que me foi proposto para incluir de contrabando mais uma, porque acho indispensável uma introdução geral, que não se concentre em nenhum dos tópicos enumerados acima, mas abranja em síntese todos eles, ou quase. E como introdução geral não vejo nenhum melhor do que O povo brasileiro (1995), de Darcy Ribeiro, livro trepidante, cheio de ideias originais, que esclarece num estilo movimentado e atraente o objetivo expresso no subtítulo: “A formação e o sentido do Brasil”.
Quanto à caracterização do português, parece-me adequado o clássico Raízes do Brasil (1936), de Sérgio Buarque de Holanda, análise inspirada e profunda do que se poderia chamar a natureza do brasileiro e da sociedade brasileira a partir da herança portuguesa, indo desde o traçado das cidades e a atitude em face do trabalho até a organização política e o modo de ser. Nele, temos um estudo de transfusão social e cultural, mostrando como o colonizador esteve presente em nosso destino e não esquecendo a transformação que fez do Brasil contemporâneo uma realidade não mais luso-brasileira, mas, como diz ele, “americana”.
Em relação às populações autóctones, ponho de lado qualquer clássico para indicar uma obra recente que me parece exemplar como concepção e execução:História dos índios do Brasil (1992), organizada por Manuela Carneiro da Cunha e redigida por numerosos especialistas, que nos iniciam no passado remoto por meio da arqueologia, discriminam os grupos linguísticos, mostram o índio ao longo da sua história e em nossos dias, resultando uma introdução sólida e abrangente.
Seria bom se houvesse obra semelhante sobre o negro, e espero que ela apareça quanto antes. Os estudos específicos sobre ele começaram pela etnografia e o folclore, o que é importante, mas limitado. Surgiram depois estudos de valor sobre a escravidão e seus vários aspectos, e só mais recentemente se vem destacando algo essencial: o estudo do negro como agente ativo do processo histórico, inclusive do ângulo da resistência e da rebeldia, ignorado quase sempre pela historiografia tradicional. Nesse tópico resisto à tentação de indicar o clássico O abolicionismo (1883), de Joaquim Nabuco, e deixo de lado alguns estudos contemporâneos, para ficar com a síntese penetrante e clara de Kátia de Queirós Mattoso, Ser escravo no Brasil (1982), publicado originariamente em francês. Feito para público estrangeiro, é uma excelente visão geral desprovida de aparato erudito, que começa pela raiz africana, passa à escravização e ao tráfico para terminar pelas reações do escravo, desde as tentativas de alforria até a fuga e a rebelião. Naturalmente valeria a pena acrescentar estudos mais especializados, como A escravidão africana no Brasil (1949), de Maurício Goulart ou A integração do negro na sociedade de classes (1964), de Florestan Fernandes, que estuda em profundidade a exclusão social e econômica do antigo escravo depois da Abolição, o que constitui um dos maiores dramas da história brasileira e um fator permanente de desequilíbrio em nossa sociedade.
Esses três elementos formadores (português, índio, negro) aparecem inter-relacionados em obras que abordam o tópico seguinte, isto é, quais foram as características da sociedade que eles constituíram no Brasil, sob a liderança absoluta do português. A primeira que indicarei é Casa grande e senzala (1933), de Gilberto Freyre. O tempo passou (quase setenta anos), as críticas se acumularam, as pesquisas se renovaram e este livro continua vivíssimo, com os seus golpes de gênio e a sua escrita admirável – livre, sem vínculos acadêmicos, inspirada como a de um romance de alto voo. Verdadeiro acontecimento na história da cultura brasileira, ele veio revolucionar a visão predominante, completando a noção de raça (que vinha norteando até então os estudos sobre a nossa sociedade) pela de cultura; mostrando o papel do negro no tecido mais íntimo da vida familiar e do caráter do brasileiro; dissecando o relacionamento das três raças e dando ao fato da mestiçagem uma significação inédita. Cheio de pontos de vista originais, sugeriu entre outras coisas que o Brasil é uma espécie de prefiguração do mundo futuro, que será marcado pela fusão inevitável de raças e culturas.
Sobre o mesmo tópico (a sociedade colonial fundadora) é preciso ler tambémFormação do Brasil contemporâneo, Colônia (1942), de Caio Prado Júnior, que focaliza a realidade de um ângulo mais econômico do que cultural. É admirável, neste outro clássico, o estudo da expansão demográfica que foi configurando o perfil do território – estudo feito com percepção de geógrafo, que serve de base física para a análise das atividades econômicas (regidas pelo fornecimento de gêneros requeridos pela Europa), sobre as quais Caio Prado Júnior engasta a organização política e social, com articulação muito coerente, que privilegia a dimensão material.
Caracterizada a sociedade colonial, o tema imediato é a independência política, que leva a pensar em dois livros de Oliveira Lima: D. João VI no Brasil (1909) eO movimento da Independência (1922), sendo que o primeiro é das maiores obras da nossa historiografia. No entanto, prefiro indicar um outro, aparentemente fora do assunto: A América Latina, Males de origem (1905), de Manuel Bonfim. Nele a independência é de fato o eixo, porque, depois de analisar a brutalidade das classes dominantes, parasitas do trabalho escravo, mostra como elas promoveram a separação política para conservar as coisas como eram e prolongar o seu domínio. Daí (é a maior contribuição do livro) decorre o conservadorismo, marca da política e do pensamento brasileiro, que se multiplica insidiosamente de várias formas e impede a marcha da justiça social. Manuel Bonfim não tinha a envergadura de Oliveira Lima, monarquista e conservador, mas tinha pendores socialistas que lhe permitiram desmascarar o panorama da desigualdade e da opressão no Brasil (e em toda a América Latina).
Instalada a monarquia pelos conservadores, desdobra-se o período imperial, que faz pensar no grande clássico de Joaquim Nabuco: Um estadista do Império(1897). No entanto, este livro gira demais em torno de um só personagem, o pai do autor, de maneira que prefiro indicar outro que tem inclusive a vantagem de traçar o caminho que levou à mudança de regime: Do Império à República(1972), de Sérgio Buarque de Holanda, volume que faz parte da História geral da civilização brasileira, dirigida por ele. Abrangendo a fase 1868-1889, expõe o funcionamento da administração e da vida política, com os dilemas do poder e a natureza peculiar do parlamentarismo brasileiro, regido pela figura-chave de Pedro II.
A seguir, abre-se ante o leitor o período republicano, que tem sido estudado sob diversos aspectos, tornando mais difícil a escolha restrita. Mas penso que três livros são importantes no caso, inclusive como ponto de partida para alargar as leituras.
Um tópico de grande relevo é o isolamento geográfico e cultural que segregava boa parte das populações sertanejas, separando-as da civilização urbana ao ponto de se poder falar em “dois Brasis”, quase alheios um ao outro. As consequências podiam ser dramáticas, traduzindo-se em exclusão econômico-social, com agravamento da miséria, podendo gerar a violência e o conflito. O estudo dessa situação lamentável foi feito a propósito do extermínio do arraial de Canudos por Euclides da Cunha n’Os sertões (1902), livro que se impôs desde a publicação e revelou ao homem das cidades um Brasil desconhecido, que Euclides tornou presente à consciência do leitor graças à ênfase do seu estilo e à imaginação ardente com que acentuou os traços da realidade, lendo-a, por assim dizer, na craveira da tragédia. Misturando observação e indignação social, ele deu um exemplo duradouro de estudo que não evita as avaliações morais e abre caminho para as reivindicações políticas.
Da Proclamação da República até 1930 nas zonas adiantadas, e praticamente até hoje em algumas mais distantes, reinou a oligarquia dos proprietários rurais, assentada sobre a manipulação da política municipal de acordo com as diretrizes de um governo feito para atender aos seus interesses. A velha hipertrofia da ordem privada, de origem colonial, pesava sobre a esfera do interesse coletivo, definindo uma sociedade de privilégio e favor que tinha expressão nítida na atuação dos chefes políticos locais, os “coronéis”. Um livro que se recomenda por estudar esse estado de coisas (inclusive analisando o lado positivo da atuação dos líderes municipais, à luz do que era possível no estado do país) éCoronelismo, enxada e voto (1949), de Vitor Nunes Leal, análise e interpretação muito segura dos mecanismos políticos da chamada República Velha (1889-1930).
O último tópico é decisivo para nós, hoje em dia, porque se refere à modernização do Brasil, mediante a transferência de liderança da oligarquia de base rural para a burguesia de base industrial, o que corresponde à industrialização e tem como eixo a Revolução de 1930. A partir desta viu-se o operariado assumir a iniciativa política em ritmo cada vez mais intenso (embora tutelado em grande parte pelo governo) e o empresário vir a primeiro plano, mas de modo especial, porque a sua ação se misturou à mentalidade e às práticas da oligarquia. A bibliografia a respeito é vasta e engloba o problema do populismo como mecanismo de ajustamento entre arcaísmo e modernidade. Mas já que é preciso fazer uma escolha, opto pelo livro fundamental de Florestan Fernandes,A revolução burguesa no Brasil (1974). É uma obra de escrita densa e raciocínio cerrado, construída sobre o cruzamento da dimensão histórica com os tipos sociais, para caracterizar uma nova modalidade de liderança econômica e política.
Chegando aqui, verifico que essas sugestões sofrem a limitação das minhas limitações. E verifico, sobretudo, a ausência grave de um tópico: o imigrante. De fato, dei atenção aos três elementos formadores (português, índio, negro), mas não mencionei esse grande elemento transformador, responsável em grande parte pela inflexão que Sérgio Buarque de Holanda denominou “americana” da nossa história contemporânea. Mas não conheço obra geral sobre o assunto, se é que existe, e não as há sobre todos os contingentes. Seria possível mencionar, quanto a dois deles, A aculturação dos alemães no Brasil (1946), de Emílio Willems; Italianos no Brasil (1959), de Franco Cenni, ou Do outro lado do Atlântico (1989), de Ângelo Trento – mas isso ultrapassaria o limite que me foi dado.
No fim de tudo, fica o remorso, não apenas por ter excluído entre os autores do passado Oliveira Viana, Alcântara Machado, Fernando de Azevedo, Nestor Duarte e outros, mas também por não ter podido mencionar gente mais nova, como Raimundo Faoro, Celso Furtado, Fernando Novais, José Murilo de Carvalho, Evaldo Cabral de Melo etc. etc. etc. etc.
* Artigo publicado na edição 41 da revista Teoria e Debate – em 30/09/2000
ECONOMIA BRASILEIRA: PARA ONDE VAMOS? – por paulo timm / torres.rs
A economia brasileira esteve, durante os últimos anos, na berlinda. Dois sucessivos Governos, o de FHC ( 2005/2002) e Lula ( 2003/2010) , não só retiraram o país do índex , pouco recomendado a investidores internacionais, como o transformaram no
fruto cobiçado destes investidores. Mais do que isto: O Brasil virou moda. A tal ponto que brasileiros e brasileiras começaram a ser crescentemente escolhidos para “par perfeito”. Um romance, levado às telas, coroou o sucesso: “Comer, Rezar, Amar”. Um brasileiro madurão confirma as recomendações, fazendo a felicidade conjugal da bela peregrina….Uma propaganda do Governo não deixava por menos, mostrando um montanhoso gigante levantando-se com determinação e peso: “O presente chegou!”
Mas a vida vem em ondas como o mar. E há tempo para tudo. Para a economia brasileira os tempos, agora, são outros: O PIB está muito baixo, a Inflação preocupa, os déficits de comércio exterior e do setor público disparam. Pior: o país se prostra, novamente, ao modelo primário-exportador, no qual somos inequivocamente mais produtivos do que os outros, malgré a precariedade da infraestrutura de escoamento da produção. O alento fica por conta dos baixos níveis de desemprego. E o alívio, por conta dos altos índices – jamais vistos – de aceitação do Governo Dilma. Os petistas, seu principal suporte político, exultam, jogando as tensões para debaixo do tapete: “Todo mundo apóia Dilma!”
A inteligência do país, porém, que não se confunde nem com o Povão, nem com a Situação, se inquieta. Não falo dos tradicionais e pouco recomendáveis comentaristas da Grande Mídia, escrita e televisiva, convertidos, há muito, a militantes conservadores. Falo da “inteligência” que não outro compromisso senão com as próprias dúvidas.
As duas ou três últimas semanas estão assistindo a um intenso debate entre economistas ortoxos, conservadores, favoráveis à maior abertura do país como condição indispensável à sua sobrevivência num mundo crescentemente competitivo e economistas mais progressistas, ainda partidários de um modelo desenvolvimentista com forte presença nacional e apoio no mercado interno.
Edmar Bacha é um dos mais conceituados economistas neo-liberais do país. Sólida formação acadêmica nos Estados Unidos, carreira acadêmica irretocável, honesto. Devo a ele o convite para ingressar na Universidade de Brasília, em 1973. Quando estranhei que convidasse alguém com formação marxista, ele foi incisivo: – “Uma boa Universidade tem que gente com todo o tipo de formação. Os alunos que se decidam. Mas tem que ser bommm! “ Ele foi um dos Pais do Real( só não pode ser chamado de Pai porque se esqueceram de fazer exame de DNA…) e defensor de uma integração competitiva do Brasil no processo de globalização. Acaba de divulgar um livro , seguido de inúmeras entrevistas na televisão. Para ele a globalização é inelutável. É um marco da organização econômica ao qual os países devem procurar um espaço. Se não o fizerem, anquilosar-se-ão em perfis industriais cada vez menos competitivos e inviáveis. Bacha defende, então, um Novo Plano Real, agora para a reorganização industrial do país: Definir setores com potencialidade competitiva internacional, reorganizar as finanças públicas e abrir definitivamente a economia brasileira, tradicionalmente fechada em si mesmo, com baixíssimos coeficientes de abertura externa. Para tanto, diz ele, o câmbio tem que voltar a flutuar com mais desenvoltura, o que exigirá, claro! , gente confiável ao mercado. Bacha sintetiza o que deveria ser um Programa de Oposição à Política Econômica do PT.
Do ponto de vista do Governo, tem faltado fôlego não só para rebater as críticas de Bacha e outros economista liberais, como para reanimar uma econo mia virtualmente desfalida. Diz os provérbio que TODOS OS CRIMES TÊM CRIMES, ASSIM COMO OS HOMENS TÊM PECADOS, mas parece ser uma regra mundial também, que TODOS OS GOVERNOS EMBURRECEM, AFASTAM A INTELIGÊNCIA. O próprio PT era um Partido que tinha na sua formação um segmento expressivo da vida acadêmica do país. Mas, lentamente, esses quadros foram se retirando. Primeiro do Governo, depois até mesmo do Partido. Hoje estão voltados `a reprodução de suas idéias dentro das Universidades. Na área econômica Governamental, tirando a Dilma, grassa uma verdadeira mediocridade, começando pelo Ministro da Fazenda. Não há argumentos e contra-argumentos, apenas a repetição incansável de slogans e publicidade. O cavalo de batalha é o que o PT fez: incorporação ao mercado de cerca de 30 milhões de pessoas, num resultado combinado - elogiável -de elevação do salário mínimo, transferências de renda e acesso ao crédito ao consumidor. Neste último item, o papagaio dos consignados já se transformou até em ave de rapina, tal a desenvoltura dos bancos no abuso deste instrumento. Eu mesmo tive que recorrer à Justiça que cancelar uma fraude que acarretou, sem meu consentimento na “renovação automática”de empréstimos anteriores. Indescritível…! Mas, à falta de grandes nomes na defesa do Governo, entram em campo, J.M. Belluzzo , do PMDB, mais sombriamente, Delfim Neto, dois dos melhores economistas do País. Ambos rebatem o argumento da imperiosidade da integração competitiva no mercado global , mas insistem na necessidade de uma Política Industrial mais sólida. Todo os governistas estão de acordo que a tentativa de criar “empresas campeãs”, via BNDES, foi insuficiente. Luciano Coutinho, Presidente do BNDES também concorda.
Assim, pois, arma-se o cenário que deverá ilustrar as próximas eleições presidenciais. De um lado, ao qual Aécio tenderá a se incorporar, associado ou não à Marina, apesar de nem entender o que está em jogo, haverá um claro discurso de retorno à Era FHC, com maior rigor fiscal, privatizações e abertura industrial. De outro, pontualizará Dilma, em defesa do que o PT já fez , num recurso ao que se denomina argumento de autoridade. Vai insistir: – Podemos fazer mais!”, mas não dirá exatamente como. Eduardo Campos, ainda vacilante, com pouca assessoria na área econômica, vai ziguezaguear, tentando conseguir apoio com descontentes de uma e outra corrente. Contará, entretanto, mais com seu carisma pessoal e juventude, do que com um sólido programa. Nisso Marina, hoje centrada em S.Paulo, com Pedro depois da crucificação, lhe é superior: Tentará erigir sua Igreja com gente de mais peso.
Deus , enfim, não joga dados. Nem os candidatos à Presidência em 2014. Todos estão de olho na economia. Com exceção da Dilma, torcem para que a economia piore um pouco até o fim do ano, de forma a erodir a popularidade da Presidenta e com isso, abrir uma janela de oportunidades para novos tempos.
No Ceará, dona de cabaré processa igreja evangélica – por diógenes dantas / fortaleza.ce

A história é saborosa e chegou a mim por intermédio de um amigo internauta: “No Ceará, dona de cabaré processa igreja evangélica”.
Em Aquiraz, no Ceará, Dona Tarcília Bezerra construiu uma expansão de seu cabaré, cujas atividades estavam em constante crescimento após a criação de seguro desemprego para pescadores e vários outros tipos de bolsas.
Em resposta, uma igreja evangélica local iniciou uma forte campanha para bloquear a expansão, com sessões de oração de manhã, à tarde e à noite.
O trabalho de ampliação e reforma progredia célere até uma semana antes da reinauguração, quando um raio atingiu o cabaré queimando as instalações elétricas e provocando um incêndio que destruiu o telhado e grande parte da construção.
Após a destruição do cabaré, o pastor e os crentes da igreja passaram a se gabar “do grande poder da oração”.
Então, Dona Tarcília processou a igreja, o pastor e toda congregação sob o argumento que eles “foram os responsáveis pelo fim de seu prédio e de seu negócio, utilizando-se da intervenção divina, direta ou indireta e das ações ou meios.”
Na contestação à ação judicial, a igreja, veementemente, negou toda e qualquer responsabilidade ou qualquer ligação com o fim do edifício.
O juiz, a quem o processo foi submetido, leu a reclamação da autora e a resposta dos réus e, na audiência de conciliação, comentou:
- Eu não sei como vou decidir este caso, mas uma coisa está patente nos autos: Temos aqui uma proprietária de cabaré que firmemente acredita no poder das orações e uma igreja inteira declarando que as orações não valem nada!
Marilena Chauí: Classe média é facista, violenta e ignorante / depoimento
“A classe média é uma abominação política, porque é fascista, é uma abominação ética porque é violenta, e é uma abominação cognitiva porque é ignorante. Fim”, afirmou a filósofa, durante lançamento do livro “10 anos de governos pós-neoliberais no Brasil: Lula e Dilma”; em seu discurso, ela também grita: “Eu odeio a classe média”; assista
O ineditismo de medidas governamentais e seus resultados surpreendentes estão sendo analisados durante o lançamento do livro 10 anos de governos pós-neoliberais no Brasil: Lula e Dilma. O primeiro deles ocorreu no último dia 13, em São Paulo, e contou com presença de Lula, Emir Sader, Márcio Pochmann e Marilena Chauí.
Sem as sutilezas filosóficas das aulas emocionantes que costuma dar em eventos desse tipo, ela foi direto ao assunto. Chauí falou sobre o Bolsa Família para exemplificar a “revolução feminista” que vem ocorrendo no país, ao direcionar o recurso para a mulher, e depois o exemplo do ProUni, para explicitar o racismo que emergiu com força na sociedade, ao encher as salas de aula do ensino superior de pobres e negros.
Por fim, fez duras críticas à classe média: “a classe média é uma abominação política, porque é fascista, é uma abominação ética porque é violenta, e é uma abominação cognitiva porque é ignorante. Fim”, concluiu ovacionada.
MARX, FREUD e o MAIO DE 1968 por paulo timm / torres.rs
Maio de 68 como a porta para a Sacralização do indivíduo
Quando eu era menino, maio era o Mês das Noivas. Naquele tempo, meados do século passado ( uma remota antiguidade, próxima a Ramsés, para os jovens de hoje ou, com melhor vontade, ao tempo em que os cristãos eram devorados por leões famintos no Coliseu) , o Correio do Povo publicava visíveis anúncios sobre o “Enlace”. Com tal recurso, os noivos passavam a ter um pouco mais de intimidade.
Nada que ultrapassasse um beijo mais ardente com direito à algumas “pegadinhas”. Na verdade, começavam a ser tratados como… indivíduos. Com direito ao prazer…Lembro-me bem de tudo isso porque, “naquele tempo”, minha mãe recortava esses naúncios e me punha a campo para oferecer às famílias da noiva, o sonhado “enxoval”, que ela preparava artesanalmente. Era ela uma das famosos “Pereiras”, de Santa Maria, célebres pelos bordados. Graças a isto, que eu obrava meio constrangido, no duplo sentido da palavra, conheci todos os bairros de Porto Alegre. De bonde. Era o melhor do “trabalho”.
Mas há algum tempo a referência às Noivas, em maio, cedeu lugar às reflexões sobre a Revolta de Paris. Esta começou no dia 2 de maio de 1968 e já produzia embates furiosos no dia 05, com centenas de presos. Daí se espalharia com rapidez inusitada naquela primavera européia por todas estações do Globo. O Brasil de 1968 assistiu o mais “enragé” de todos os enfrentamentos massivos contra a ditadura. O curioso é que aquela Revolta, tanto lá, como cá, não clamava por Pão e Terra, mas, principalmente por Liberdade, puxada por estudantes irados mas de feições tão tenras como suas mãos. Eles estavam cansados da cultura do “Mês das Noivas” e queriam livre trânsito nos dormitórios, nas suas casas, nas aulas, no vestir, no andar, no próprio ser, onde quer que fosse. “Havia um ar estranho: a revolução inesperada arrastara o adversário, tudo era permitido, a felicidade coletiva era desenfreada.”, segundo um observador, Antonio Negri. O grande filósofo, J.P. Sartre, também tomado de surpresa, dizia , meses depois, não ter compreendido tudo aquilo. Mas associou-se com entusiasmo juvenil à revolta.”É proibido proibir” reverberava em cartazes as aulas de Herbert Marcuse, nos quatro cantos do mundo.
O maio de 68 em Paris durou pouco. Foi políticamente contido. A 30 de maio, o então Presidente De Gaulle convocou eleições para junho, paralelo à promessas de aumentos salarias salariais, desmobilizando os estudantes e docilizando o movimento operário, que a eles se associara. A crise foi controlada. E abriu lugar para a remodelação do “sistema”.
Na verdade, o Maio de 68 foi o vórtice do “Sonho”, que teve antecedentes e conseqüentes. “I have a dream, clamava o Pastor Luther King, à frente da gigantesca manifestação pelos Direitos Civis em Washington, pouco antes. John Lennon foi, entretanto, um dos melhores intérpretes daquela fase. Durou pouco. Ele – a fase e o sonho. Já em 1971, ele sentenciava: “O sonho acabou”. Lennon morreria, vítima de atentado, no fatídico 08 de dezembro de 1980. A ressaca veio com os Governos Tatcher, o Reagonomics e o Consenso de Washington que inaugurariam a Era da Globalização, sob hegemonia exclusiva dos Estados Unidos, e uma verdadeira obsessão pelo indivíduo e seu corpo desejante. A dura realidade comprovaria que a porta do Inferno estava mais próxima da entrada do Paraíso do que se poderia imaginar. Pior, sem tabuletas indicativas…
Uma das questões suscitadas pelo Movimento se refere à atualidade de Karl Marx, como principal analista crítico de um Modo de Produção estruturado sob a égide do “Capital”e sobre os caminhos do individualismo que viriam a ocupar não só a práxis do mundo contemporâneo, mas as bases teóricas das Ciências Humanas e da Filosofia que lhe correspondem.
Há muitos caminhos para discutir tais questões que desembocaram, depois das contorções das epistemologias do processo, da estrutura e da descontrução, na Teoria da Pós Modernidade. Mas um deles é o da melhor compreensão do indivíduo , já não mais como abstração iluminista de um sujeito eticamente constituído e capaz de legislar racionalmente sobre um destino possível , mas como sujeito de prazer. Sacralizado. Trocando em miúdos, a utopia do melhor dos mundos para todos, um projeto coletivo, dado pela razão iluminista, que esteve na base da formulação marxista que empolgou os movimentos populares por décadas, vai cedendo lugar à construção diuturna de um mundo melhor na vida de cada um, a tal ponto de fundá-lo como Projeto. No fundo, um pessimismo quanto às grandes narrativas de salvação da humanidade, trocado no varejo pelo direito à história de cada um : identidade – de gênero, de cor, de etnia, de sexo , de cultura – , base do multiculturalismo atual, realização profissional , cultura do patrimônio corporal e acesso à sociedade dos objetos.
O individuo nunca teve tanta importância nas sociedades como nos dias de hoje.Entre os povos antigos, pouco valor se dava a pessoa única, a importância do indivíduo estava inserida no grupo que pertencia, apesar das diferenças naturais entre os indivíduos, não havia sequer hipótese de pensar em alguém desvinculado do seu grupo.
http://sociologiajoaogoulart.blogspot.com.br/2013/03/o-individuo-sua-historia-e-sociedade.html
Historicamente, a idéia do indivíduo, como tal, em carne , osso e alma vinha sendo construída há tempos, desde os gregos, mas acabou se consubstanciando depois do Maio de 68.
A invenção da alma imortal
Na Grécia, a idéia de alma só apareceu nas festas dionisíacas e celebrações órficas que davam aos participantes momentos de convivência divina no mundo sobrenatural. Platão aproveita-se desta idéia e cria, sob os olhares críticos de Aristóteles, um conceito de alma como viríamos a conhecer, pela via do cristianismo, que dela se apoderou. Com este conceito o Homem abandona o mundo da natureza e se erige como uma substancia transcendental.
A descoberta do corpo
A passagem da alma etérea identificadora do humano ao corpo desejante , no sendeiro da individuação foi percebido muito recentemente. Um pioneiro foi Picco della Mirandola no seu “Discurso Elegantíssimo” no Renascimento italiano. A Revolução Francesa, em 1789, o consagrou na consigna inscrita na Declaração dos Direitos do Homem que proclamou: Liberdade, Igualdade e Fraternidade. Mas foi Karl Marx, no Manifesto Comunista, em 1848, abriu os olhos da humanidade para o direito aos corpos mutilados pela exploração capitalista a um mundo alternativo. Mas pensou-os coletivamente, como trabalhadores. Depois dele, Freud foi em busca de fatores orgânicos da alma, reconciliando-a com o corpo. Foi, junto com Marx, como diz um dos grandes filósofos do Século XX, Louis Althusser, os filhos bastardos do iluminismo, porque capazes de levar a destruição criadora, que lhe é própria, mais a fundo. Ao ponto de ruptura. Outros autores, mais modestos, foram, entretanto, mais adiante na descoberta do Humano e descobriram, por trás dos trabalhadores, consumidores, cidadãos, ou subjetividades mergulhadas na escuridão psíquica, todos social ou organicamente instituídos, uma unidade indissolúvel em processos: o indivíduo. Muitos têm sido os analistas, mas relevam dois autores no Século XX: Norbert Elias (1897/1990), em A Sociedade dos Indivíduos, de 1939 e Luc Ferry (1951/), filsófo francês.
Mas se a Filosofia e a Teoria Social revelam a importância da Sociedade de Indivíduos na Terra dos Homens , os poetas sempre souberam que esse homem desconhecido existia,. Sigmund Freud, cujo natalício se celebra nestes dias, como também o de Marx, o percebeu. Costumava dizer que em suas peregrinações pela alma humana, sempre encontrava as pegadas de um poeta que por lá já havia passado. Mas Freud teve o mérito de encontrar nesta alma, não a substância metafísica que, primordialmente, havia distinguido o humano do natural, recolocando-a , “naturalmente”, no centro mesmo da condição humana. Com isso , procurou instituir, na Psicanálise, uma Ciência do Homem, capaz de revelar as razões últimas de sua consciência, que esta própria razão desconhece. Talvez até, pela formação médica, tenha exagerado na identificação dos fatores orgânicos condicionantes desta alma- psiquê, em prejuízo da educação e da cultura, fatores que serão corrigidos por Piaget , Lacan e Habermas oportunamente.
A emergência do indivíduo, portanto, não é apenas um elemento conjuntural da globalização. Ela tanto está embutida , como possível, numa sociedade de consumo massas, no Estado Moderno, como está inserida na histórica trajetória do projeto de autonomia humana numa conjuntura em que uma parte significativa, senão maioria da Sociedade, alcançou um nível de instrução, renda e consumo compatíveis com a partilha da sacralização do corpo. Isto, portanto, nada tem a ver com alienação ou condição de homo sacer, muito embora se possa discutir criticamente o papel da ideologia , no sentido marxista, da industria cultural, no sentido da Escola de Frankfurt, e da cultura, no sentido antropológico na constituição de suas idéias e opiniões. Mas no atual estado do processo de comunicação galáctica, isto não tem nenhum caráter de fatalidade. Mas de uma avenida de possibilidades.
Paradoxalmente, o Maio de 68, com seu forte libelo destruidor de velhas barreiras à afirmação do individualismo, revelou-se , com o tempo, numa faca de dois gumes. Revolucionário no método de luta, acabou contribuindo para a entronização de um estilo de vida no mundo ocidental extremamente conservador. Resta saber, se a liberdade exalada de um corpo agora liberto será capaz de salvar a humanidade.E aí nada nos apóia, a não ser uma grande esperança, dando uma reviravolta no espiralado Iluminismo que fundou a Modernidade. Já não é mais a razão a nos amparar no projeto de um mundo mais Justo, mas a própria idéia de Justiça que se converte num leitmotiv da mudança.Voltamos a ser utópicos, utópicos socialistas.
Brava gente, a brasileira – por elio gaspari / são paulo.sp
Brava gente, a brasileira
Atribui-se ao professor San Tiago Dantas (1911-1964) uma frase segundo a qual “a Índia tem uma grande elite e um povo de bosta, o Brasil tem um grande povo e uma elite de bosta”. Nas últimas semanas divulgaram-se duas estatísticas que ilustram o qualificativo que ele deu ao seu povo.
A primeira, revelada pelo repórter Demétrio Weber: Em uma década, o programa Bolsa
Família beneficiou 50 milhões de brasileiros que vivem em 13,8 milhões de domicílios com renda inferior a R$ 140 mensais por pessoa. Nesse período, 1,69 milhão de famílias dispensaram espontaneamente o benefício de pelo menos R$ 31 mensais. Isso aconteceu porque passaram a ganhar mais, porque diminuiu o número da familiares, ou sabe-se lá por qual motivo. O fato é que de cada 100 famílias amparadas, 12 foram à prefeitura e informaram que não precisavam mais do dinheiro.
A ideia segundo a qual pobre quer moleza deriva de uma má opinião que se tem dele. É a demofobia. Quando o andar de cima vai ao BNDES pegar dinheiro a juros camaradas, estimulará o progresso. Quando o de baixo vai ao varejão comprar forno de micro-ondas a juros de mercado, estimulará a inadimplência.
Há fraudes no Bolsa Família? Sem dúvida, mas 12% de devoluções voluntárias de cheques da Viúva é um índice capaz de lustrar qualquer sociedade. Isso numa terra onde estima-se que a sonegação de impostos chegue a R$ 261 bilhões, ou 9% do PIB. O Bolsa Família custa R$ 21 bilhões, ou 0,49% do produto interno.
A segunda estatística foi revelada pela repórter Érica Fraga: Um estudo dos pesquisadores Fábio Waltenberg e Márcia de Carvalho, da Universidade Federal Fluminense, mostrou que num universo de 168 mil alunos que concluíram treze cursos em 2008, as notas dos jovens beneficiados pela política de cotas ficaram, na média, 10% abaixo daquelas obtidas pelos não cotistas. Ou seja, o não cotista terminou o curso com 6 e o outro, com 5,4. Atire a primeira pedra quem acha que seu filho fracassou porque foi aprovado com uma nota 10% inferior à da média da turma. Olhando-se para o desempenho de 2008 de todos os alunos de quatro cursos de engenharia de grandes universidades públicas, encontra-se uma variação de 8% entre a primeira e a quarta.
Para uma política demonizada como um fator de diluição do mérito no ensino universitário, esse resultado comprova seu êxito. Sobretudo porque dava-se de barato que muitos cotistas sequer conseguiriam se diplomar. Pior: abandonariam os cursos. Outra pesquisa apurou que a evasão dos cotistas é inferior à dos não cotistas. Segundo o MEC, nos números do desempenho de 2011, não existe diferença estatística na evasão e a distância do desempenho caiu para 3%. Nesse caso, um jovem diplomou-se com 6 e o outro, com 5,7, mas deixa pra lá.
As cotas estimulariam o ódio racial. Dez anos depois, ele continua onde sempre esteve. Assim como a abolição da escravatura levaria os negros ao ócio e ao vício, o Bolsa Família levaria os pobres à vadiagem e à dependência. Não aconteceu nem uma coisa nem outra.
Admita-se que a frase atribuída a San Tiago Diante é apócrifa. Em 1985, Tancredo Neves morreu sem fazer seu memorável discurso de posse. Vale lembrá-lo: “Nosso progresso político deveu-se mais à força reivindicadora dos homens do povo do que à consciência das elites. Elas, quase sempre, foram empurradas”.
Maus ventos
O comissariado petista conformou-se com a possibilidade de atravessar a campanha eleitoral de 2014 com mais um pibinho.
Nosso Guia
Em março passado, a doutora Dilma tomou um chá de cadeira de mais de uma hora em Durban, quando o presidente da África do Sul, Jacob Zuma, deixou-a esperando porque continuava reunido com o presidente russo Vladimir Putin. Com toda a razão, Dilma deixou a sala onde estava, no andar de cima, e voltou ao seu hotel.
Na quinta-feira, em Brasília, o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, deu-lhe outro chá de cadeira. Ela esperou por 1h40min pelo visitante, que estava reunido com Lula na embaixada da Venezuela.
Desta vez, a doutora esperou. Novamente, fez bem, pois era a dona da casa.
Nosso Guia não deveria submeter os outros a esse tipo de demonstração de poder.
A mão do Papa
O papa Francisco nomeou o monsenhor José Aparecido Gonçalves da Almeida, de 52 anos, bispo auxiliar de Brasília. O padre Cido, que saiu da periferia de São Paulo para a central jurídica da Cúria Romana, retorna com a bola cheia.
Ainda vai se ouvir falar dele.
Sucessão
Talvez não dê em nada, mas Eduardo Campos poderá beber na fonte que em 2002 produziu uma agenda para Ciro Gomes. Posteriormente ela foi apadrinhada por Antonio Palocci e acabou orientando os primeiros anos do governo de Lula.
Se isso acontecer, o comissariado petista ficará aprisionado na sua arrogante exaustão intelectual em áreas como saúde e educação.
Alckmin, a guilhotina e os ratos
“O povo não sabe de um décimo do que se passa contra ele. (…) Senão, ia faltar guilhotina para a Bastilha, para cortar a cabeça de tanta gente que explora esse sofrido povo brasileiro.”
Quem disse isso foi o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin. Noves fora o fato de a prisão da Bastilha ter sido derrubada em 1789, antes da instalação da guilhotina numa praça de Paris (1792), sua afirmação engrandece-o, até porque tem dez anos de sabedoria acumulada no cargo. Ele sabe. Deveria contar mais, mas pelo menos estimulou o debate.
Alckmin levantou o fantasma da guilhotina três dias depois de o professor João Sayad, ex-ministro do Planejamento, ex-diretor do Banco Interamericano do Desenvolvimento e atual presidente da TV Cultura, uma emissora do governo paulista, ter publicado o artigo intitulado “Taxonomia dos ratos”. Nele, Sayad propõe uma classificação dos larápios. Num grupo ficariam os roedores do “rouba mas faz” No outro, aqueles que mordem aos poucos, o tempo todo. É a turma da “corrupção pequena”. Ela “contrata parentes, compra papel higiênico superfaturado, orienta a criação de empresas de fachada para prestarem serviços, cria cooperativas para pagar funcionários terceirizados, faz acordo de ‘kick back’ com os fornecedores e, principalmente, avacalha, paralisa, lasseia e termina por matar a organização que administra.”
Alckmin poderia perguntar se ele falou em tese ou se, como presidente da TV Cultura, sabe de algo que o governador de São Paulo deveria saber. Como disse Sayad, para os ratos, “o segredo e a confidencialidade passam a ser as regras da organização”.
Por que os médicos cubanos assustam – por pedro porfirio
Por que os médicos cubanos assustam
Elite corporativista teme que mudança do foco no atendimento abale o nosso sistema mercantil de saúde
A virulenta reação do Conselho Federal de Medicina contra a vinda de 6 mil médicos cubanos para trabalhar em áreas absolutamente carentes do país é muito mais do que uma atitude corporativista: expõe o pavor que uma certa elite da classe médica tem diante dos êxitos inevitáveis do modelo adotado na ilha, que prioriza a prevenção e a educação para a saúde, reduzindo não apenas os índices de enfermidades, mas sobretudo a necessidade de atendimento e os custos com a saúde.
Essa não é a primeira investida radical do CFM e da Associação Médica Brasileira contra a prática vitoriosa dos médicos cubanos entre nós. Em 2005, quando o governador de Tocantins não conseguia médicos para a maioria dos seus pequenos e afastados municípios, recorreu a um convênio com Cuba e viu o quadro de saúde mudar rapidamente com a presença de apenas uma centena de profissionais daquele país.
A reação das entidades médicas de Tocantins, comprometidas com a baixa qualidade da medicina pública que favorece o atendimento privado, foi quase de desespero. Elas só descansaram quando obtiveram uma liminar de um juiz de primeira instância determinando em 2007 a imediata “expulsão” dos médicos cubanos.
No Brasil, o apego às grandes cidades
Dos 371.788 médicos brasileiros, 260.251 estão nas regiões Sul e Sudeste
Neste momento, o governo da presidenta Dilma Rousseff só está cogitando de trazer os médicos cubanos, responsáveis pelos melhores índices de saúde do Continente, diante da impossibilidade de assegurar a presença de profissionais brasileiros em mais de um milhar de municípios, mesmo com a oferta de vencimentos bem superiores aos pagos nos grandes centros urbanos.
E isso não acontece por acaso. O próprio modelo de formação de profissionais de saúde, com quase 58% de escolas privadas, é voltado para um tipo de atendimento vinculado à indústria de equipamentos de alta tecnologia, aos laboratórios e às vantagens do regime híbrido, em que é possível conciliar plantões de 24 horas no sistema público com seus consultórios e clínicas particulares, alimentados pelos planos de saúde.
Mesmo com consultas e procedimentos pagos segundo a tabela da AMB, o volume de clientes é programado para que possam atender no mínimo dez por turnos de cinco horas. O sistema é tão direcionado que na maioria das especialidades o segurado pode ter de esperar mais de dois meses por uma consulta.
Além disso, dependendo da especialidade e do caráter de cada médico, é possível auferir faturamentos paralelos em comissões pelo direcionamento dos exames pedidos como rotinas em cada consulta.
Sem compromisso em retribuir os cursos públicos
Há no Brasil uma grande “injustiça orçamentária”: a formação de médicos nas faculdades públicas, que custa muito dinheiro a todos os brasileiros, não presume nenhuma retribuição social, pelo menos enquanto não se aprova o projeto do senador Cristóvam Buarque, que obriga os médicos recém-formados que tiveram seus cursos custeados com recursos públicos a exercerem a profissão, por dois anos, em municípios com menos de 30 mil habitantes ou em comunidades carentes de regiões metropolitanas.
Cruzando informações, podemos chegar a um custo de R$ 792.000,00 reais para o curso de um aluno de faculdades públicas de Medicina, sem incluir a residência. E se considerarmos o perfil de quem consegue passar em vestibulares que chegam a ter 185 candidatos por vaga (UNESP), vamos nos deparar com estudantes de classe média alta, isso onde não há cotas sociais.
Um levantamento do Ministério da Educação detectou que na medicina os estudantes que vieram de escolas particulares respondem por 88% das matrículas nas universidades bancadas pelo Estado. Na odontologia, eles são 80%.
Em faculdades públicas ou privadas, os quase 13 mil médicos formados anualmente no Brasil não estão nem preparados, nem motivados para atender às populações dos grotões. E não estão por que não se habituaram à rotina da medicina preventiva e não aprenderam como atender sem as parafernálias tecnológicas de que se tornaram dependentes.
Concentrados no Sudeste, Sul e grandes cidades
Números oficiais do próprio CFM indicam que 70% dos médicos brasileiros concentram-se nas regiões Sudeste e Sul do país. E em geral trabalham nas grandes cidades. Boa parte da clientela dos hospitais municipais do Rio de Janeiro, por exemplo, é formada por pacientes de municípios do interior.
Segundo pesquisa encomendada pelo Conselho, se a média nacional é de 1,95 médicos para cada mil habitantes, no Distrito Federal esse número chega a 4,02 médicos por mil habitantes, seguido pelos estados do Rio de Janeiro (3,57), São Paulo (2,58) e Rio Grande do Sul (2,31). No extremo oposto, porém, estados como Amapá, Pará e Maranhão registram menos de um médico para mil habitantes.
A pesquisa “Demografia Médica no Brasil” revela que há uma forte tendência de o médico fixar moradia na cidade onde fez graduação ou residência. As que abrigam escolas médicas também concentram maior número de serviços de saúde, públicos ou privados, o que significa mais oportunidade de trabalho. Isso explica, em parte, a concentração de médicos em capitais com mais faculdades de medicina. A cidade de São Paulo, por exemplo, contava, em 2011, com oito escolas médicas, 876 vagas – uma vaga para cada 12.836 habitantes – e uma taxa de 4,33 médicos por mil habitantes na capital.
Mesmo nas áreas de concentração de profissionais, no setor público, o paciente dispõe de quatro vezes menos médicos que no privado. Segundo dados da Agência Nacional de Saúde Suplementar, o número de usuários de planos de saúde hoje no Brasil é de 46.634.678 e o de postos de trabalho em estabelecimentos privados e consultórios particulares, 354.536.Já o número de habitantes que dependem exclusivamente do Sistema Único de Saúde (SUS) é de 144.098.016 pessoas, e o de postos ocupados por médicos nos estabelecimentos públicos, 281.481.
A falta de atendimento de saúde nos grotões é uma dos fatores de migração. Muitos camponeses preferem ir morar em condições mais precárias nas cidades, pois sabem que, bem ou mal, poderão recorrer a um atendimento em casos de emergência.
A solução dos médicos cubanos é mais transcendental pelas características do seu atendimento, que mudam o seu foco no sentido de evitar o aparecimento da doença. Na Venezuela, os Centros de Diagnósticos Integrais espalhados nas periferias e grotões, que contam com 20 mil médicos cubanos, são responsáveis por uma melhoria radical nos seus índices de saúde.
Cuba é reconhecida por seus êxitos na medicina e na biotecnologia
Em sua nota ameaçadora, o CFM afirma claramente que confiar populações periféricas aos cuidados de médicos cubanos é submetê-las a profissionais não qualificados. E esbanja hipocrisia na defesa dos direitos daquelas pessoas.
Não é isso que consta dos números da Organização Mundial de Saúde. Cuba, país submetido a um asfixiante bloqueio econômico, mostra que nesse quesito é um exemplo para o mundo e tem resultados melhores do que os do Brasil.
Quando esteve em Cuba, em 2003, a deputada Lilian Sá
foi conhecer com outros parlamentares o médico de família,
uma equipe residente no próprio conjunto habitacional
Graças à sua medicina preventiva, a ilha do Caribe tem a taxa de mortalidade infantil mais baixa da América e do Terceiro Mundo – 4,9 por mil (contra 60 por mil em 1959, quando do triunfo da revolução) – inferior à do Canadá e dos Estados Unidos. Da mesma forma, a expectativa de vida dos cubanos – 78,8 anos (contra 60 anos em 1959) – é comparável a das nações mais desenvolvidas.
Com um médico para cada 148 habitantes (78.622 no total) distribuídos por todos os seus rincões que registram 100% de cobertura, Cuba é, segundo a Organização Mundial de Saúde, a nação melhor dotada do mundo neste setor.
Segundo a New England Journal of Medicine, “o sistema de saúde cubano parece irreal. Há muitos médicos. Todo mundo tem um médico de família. Tudo é gratuito, totalmente gratuito. Apesar do fato de que Cuba dispõe de recursos limitados, seu sistema de saúde resolveu problemas que o nosso [dos EUA] não conseguiu resolver ainda. Cuba dispõe agora do dobro de médicos por habitante do que os EUA”.
O Brasil forma 13 mil médicos por ano em 200 faculdades: 116 privadas, 48 federais, 29 estaduais e 7 municipais. De 2000 a 2013, foram criadas 94 escolas médicas: 26 públicas e 68 particulares.
Formando médicos de 69 países
Estudantes estrangeiros na Escola Latino-Americana de Medicina
Em 2012, Cuba, com cerca de 13 milhões de habitantes, formou em suas 25 faculdades, inclusive uma voltada para estrangeiros, mais de 11 mil novos médicos: 5.315 cubanos e 5.694 de 69 países da América Latina, África, Ásia e inclusive dos Estados Unidos.
Atualmente, 24 mil estudantes de 116 países da América Latina, África, Ásia, Oceania e Estados Unidos (500 por turma) cursam uma faculdade de medicina gratuita em Cuba.
Entre a primeira turma de 2005 e 2010, 8.594 jovens doutores saíram da Escola Latino-Americana de Medicina. As formaturas de 2011 e 2012 foram excepcionais com cerca de oito mil graduados. No total, cerca de 15 mil médicos se formaram na Elam em 25 especialidades distintas.
Isso se reflete nos avanços em vários tipos de tratamento, inclusive em altos desafios, como vacinas para câncer do pulmão, hepatite B, cura do mal de Parkinson e da dengue. Hoje, a indústria biotecnológica cubana tem registradas 1.200 patentes e comercializa produtos farmacêuticos e vacinas em mais de 50 países.
Presença de médicos cubanos no exterior
Desde 1963, com o envio da primeira missão médica humanitária à Argélia, Cuba trabalha no atendimento de populações pobres no planeta. Nenhuma outra nação do mundo, nem mesmo as mais desenvolvidas, teceu semelhante rede de cooperação humanitária internacional. Desde o seu lançamento, cerca de 132 mil médicos e outros profissionais da saúde trabalharam voluntariamente em 102 países.
No total, os médicos cubanos trataram de 85 milhões de pessoas e salvaram 615 mil vidas. Atualmente, 31 mil colaboradores médicos oferecem seus serviços em 69 nações do Terceiro Mundo.
No âmbito da Alba (Aliança Bolivariana para os Povos da Nossa América), Cuba e Venezuela decidiram lançar em julho de 2004 uma ampla campanha humanitária continental com o nome de Operação Milagre, que consiste em operar gratuitamente latino-americanos pobres, vítimas de cataratas e outras doenças oftalmológicas, que não tenham possibilidade de pagar por uma operação que custa entre cinco e dez mil dólares. Esta missão humanitária se disseminou por outras regiões (África e Ásia). A Operação Milagre dispõe de 49 centros oftalmológicos em 15 países da América Central e do Caribe. Em 2011, mais de dois milhões de pessoas de 35 países recuperaram a plena visão.
Quando se insurge contra a vinda de médicos cubanos, com argumentos pueris, o CFM adota também uma atitude política suspeita: não quer que se desmascare a propaganda contra o regime de Havana, segundo a qual o sonho de todo cubano é fugir para o exterior. Os mais de 30 mil médicos espalhados pelo mundo permanecem fiéis aos compromissos sociais de quem teve todo o ensino pago pelo Estado, desde a pré-escola e de que, mais do que enriquecer, cumpre ao médico salvar vidas e prestar serviços humanitários.
Feira da bala: lobby pró-armas nos EUA junta Sarah Palin e pistola para crianças – por federico mastrogiovanni / Houston.usa
este é o absurdo máximo que se possa imaginar em se tratando de educação. é claro que é lá no campeão de invasões e terror nuclear. a ideia é acostumar as crianças a manipularem armas verdadeiras para estarem preparados, psicologicamente quando forem convocados para mais uma invasão, ainda que isto custe milhares de jovens matando nas escolas, universidade, teatros e shoppings. é lamentável.
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Feira da bala: lobby pró-armas nos EUA junta Sarah Palin e pistola para crianças
Uma jovem de cabelos claros segura um fuzil Beretta como se fosse uma guitarra. Está excitadíssima. Ela o aponta em direção a uma parede, que traz uma foto gigante de uma selva. Talvez imagine que ali estejam escondidos leões selvagens, tigres ou até mesmo perigosos terroristas. Nas mãos, uma Ruger 1022 roxa, “fun gun”, presente da mãe. Rose, que só tem 15 anos, posa para uma foto, enquanto finge que vai disparar. Um homem observa, rindo e orgulhoso, para em seguida dedicar o olhar ao próprio filho adolescente, que segura uma Uzi. Ele fala para o menino: “eu tinha prometido, ela agora é sua.”

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Um sujeito explica como posicionar os pés para disparar contra um criminoso. “Sou um ex-militar”, diz, firme, empunhando sua Glock em frente a um pequeno e atento público. “E posso dizer que é fundamental manter a posição exata dos pés, pernas e costas”. A maioria, formada por jovens, o escuta fascinada. De fato, o ambiente na convenção da NRA é familiar, com pais e filhos – quase todos brancos – passeando pelos corredores do evento como se estivessem em um passeio de domingo.
Perto dali, Sandy segura um pequeno fuzil Rascal. Aponta para o teto, concentrada. Fecha um olho. Respira. Dispara. Recarrega. O trabuco é rosa, pequeno, parece um brinquedo. Tem a coronha de plástico, mas o cano é de metal preto. Sandy sorri. Aos quatro anos, ela e o pai, Eric, estão escolhendo seu primeiro fuzil. Faltam poucos meses para o aniversário e, consequentemente, para poder levar o “presente” para casa.
Eric conta que se sente contente por poder dar à filha um fuzil de tão boa qualidade, pagando apenas 180 dólares. Mas a menina não é um pouco pequena para ter uma arma? “Claro que não. Eu vou ensiná-la a usar. Estarei sempre presente. E, além disso, esses fuzis são feitos sob medida. Foram pensados para crianças. Parecem brinquedos, mas têm balas calibre 22”, explica Eric, em detalhes.
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Um fuzil exatamente como o de Sandy provocou uma tragédia em 30 de abril, no condado de Cumberland, Estado de Kentucky. No dia, um menino de cinco anos disparou por acidente na irmãzinha de dois, matando-a. A arma tinha sido dada de presente um ano antes. Eric continua: “É importante que seja eu quem a ensine a disparar. O que os estrangeiros não entendem é que não é através da proibição que se evitam as tragédias, e sim pela educação. É necessário ensinar as crianças a disparar com segurança e transmitir valores justos”.
No terceiro andar acontecem conferências e seminários. Em uma enorme sala, todos se preparam para ver o grande evento do dia, com as “estrelas” Rick Perry, governador do Texas, Rick Santorum, ex-candidato republicano e Sarah Palin, ex-governadora ultraconservadora do Alaska e destaque da campanha presidencial de 2008, quando saiu como vice de John McCain. Ela é aplaudida de pé. Após o frenesi, aos gritos, incentiva os donos de armas a seguir “lutando para defender os valores da América”.
Propaganda de armas para crianças:
“Nós também nos sensibilizamos com as tragédias. Quem de nós não sentiu tristeza ou raiva pelo que acontece na Chicago de Obama, ou em Nova York, ambas cidades nas mãos de criminosos, onde o controle de armas é mais rigoroso”, questiona a plateia. De acordo com a ex-governadora “de aço”, Obama “faz campanha eleitoral em cima dos sentimentos do povo, utiliza a dor para que as pessoas se comovam”, enquanto os portadores de armas são os verdadeiros heróis nacionais, defensores mais valentes da democracia, e, obviamente, da liberdade. Aplausos. Lágrimas.
Em telões gigantes, começa a ser transmitido um vídeo comovente sobre a vida heroica de Chris Kyle, famoso por ser o franco-atirador mais letal da história militar dos Estados Unidos, com 160 mortes nas costas. Em fevereiro do ano passado, um amigo que sofria de estresse pós-traumático o matou em um polígono de tiro no Texas. Chorando, a viúva de Chris, que segura fotos do falecido marido, exalta o papel da NRA, do exército norte-americano, das armas em sua vida e na do marido.
De volta à área da exposição, uma senhora testa uma pistola. Christine se diz indecisa. A Ruger LC380 automática, uma indicação da amiga, Brenda, é difícil de ser carregada. As mãos ossudas da já avó não permitem deslizar o slide. Christine afirma que se sente insegura em sua casa em Woodlands, no norte de Houston. O vendedor a aconselha a usar uma point and shoot, de tambor. Mais rápida, fácil de empunhar e de usar, ressalta. Ele conta que deu uma de presente à esposa porque ela tem mãos fortes. Christine é convencida a levar o produto. “Não vivemos em uma zona perigosa, pelo contrário. É muito tranquila”, responde Brenda. “Por isso é melhor estarmos protegidas”, continua. Chega ao fim o primeiro dia de convenção em Houston, que já dorme armada até os dentes. Assim como o resto dos EUA.
Como os bancos lucram com a fome do mundo – por mauro santayana / são paulo.sp
Como os bancos lucram com a fome do mundo
A insuspeita Fundação Gates divulgou interessante estudo sobre o controle dos preços dos alimentos pelos bancos, por intermédio dos fundos especulativos (hedge). Da mesma forma que os bancos atuam no mercado derivativo com asprimes do mercado imobiliário, fazem-
no com os estoques de alimentos, o que aumenta espantosamente os preços da comida, sem que os produtores se beneficiem. Um exemplo, citado pelo estudo, que tem o título sugestivo dePeople die from hunger while banks make a killing on food — as pessoas morrem de fome, enquanto os bancos se enriquecem de repente, especulando com os alimentos.
Como exemplo, o estudo cita o Fundo Armajaro, da Grã-Bretanha, que comprou 240 mil toneladas de cacau (7% da produção mundial) e as reteve até obter o maior preço da mercadoria nos últimos 33 anos. “Os preços do trigo, do milho e do arroz têm subido significativamente, mas isso nada tem a ver com os níveis de estoque ou das colheitas e, sim, com os traders, que controlam as informações e especulam no mercado” — conforme Olivier de Schutter, relator das Nações Unidas sobre o Direito à Alimentação. Os neoliberais sempre usam o argumento canalha de que o único caminho rumo ao enriquecimento geral e à igualdade é a do mercado sem nenhum controle do Estado, dentro da fórmula de Mme. Thatcher: o pobre que quiser viver melhor, que se vire. A senhora Francine Mestrum, em seu estudo, contradiz a falácia: “Em primeiro lugar, a transferência direta de recursos, que Lula iniciou no Brasil, provou ser efetiva ajuda direta aos extremamente pobres para irem adiante, em busca de empregos; ou para criarem seu próprio emprego; para melhorarem os padrões de saúde e reduzir o trabalho infantil. Este é o principal argumento para o desenvolvimento desses sistemas, e o próprio Banco Mundial os endossa”.
Como sabemos, são vários os países em desenvolvimento que adotaram iniciativas semelhantes. Enquanto a Alemanha obriga os países europeus a cortarem até o osso seus orçamentos sociais — deixando como saldo o aumento espantoso do número de suicídios ou das pessoas mortas por falta de assistência médica do Estado e, a cada dia, mais trabalhadores obrigados a buscar, na lata de lixo, o que comer — os bancos continuam acumulando, e de forma criminosa, dinheiro e poder como nunca. O HSBC mundial, que ganhou do governo FHC o Banco Bamerindus, e que tem no Brasil o seu terceiro mercado mais lucrativo do mundo, teve que pagar quase 2 bilhões de dólares de multa, em acordo feito com o governo norte-americano, por ter, comprovadamente, lavado dinheiro do tráfico de drogas. Como se sabe, mesmo depois de ter pedido desculpas públicas pelo crime, o HSBC foi acusado, em março deste ano, de lavagem de dinheiro, evasão fiscal e remessa ilegal de recursos ao exterior pelas autoridades do governo argentino. Enquanto menos de um por cento dos seres humanos controlar, mediante sua riqueza, toda a população do mundo, a igualdade irá sendo empurrada cada vez mais para o futuro, e serão considerados nutridos os que ganharem cinco reais ao dia.
Em 1973, quando o Muro de Berlim ainda dividia o mundo em dois blocos econômicos e políticos, o então presidente do Banco Mundial, Robert McNamara, disse que todas as nações deviam esforçar-se para acabar com a pobreza absoluta — que só existia nos países subdesenvolvidos — antes do novo milênio. Naquele momento os países ocidentais ainda davam alguma importância à política de bem-estar social, não só como um alento à esperança de paz dos povos mas, também, como uma espécie de dique de contenção contra o avanço do socialismo nos países do Terceiro Mundo. A Guerra do Vietnã, com seu resultado desastroso para os Estados Unidos, levou Washington a simular sua boa vontade para com os povos pobres. Daí o pronunciamento de McNamara.
O novo milênio não trouxe o fim da miséria absoluta, embora tivesse havido sensível redução — mais em consequência do desenvolvimento tecnológico, com o aumento da produtividade de alimentos e bens de consumo primário, do que pela vontade política dos governos.
Na passagem do século, marcada pelo desabamento das Torres Gêmeas, o FMI, o Banco Mundial — e a própria ONU — reduziram suas expectativas, prevendo, para 2015, a redução da pobreza absoluta à metade dos índices registrados em 1990. Em termos gerais, essa meta foi atingida cinco anos antes, em 2010. A extrema pobreza, que atingia 41,7% da população mundial em 90, caiu para 22% em 2008 — graças à fantástica contribuição da China e da Índia, conforme adverte Francine Mestrum, socióloga belga, em recente estudo sobre o tema.
Por outro lado, o número absoluto de pobres na África Negra dobrou no mesmo período. A China que, pelo número dos beneficiados, puxou o trem contra a desigualdade, já chegou a um ponto de saturação. Com o seu crescimento reduzido, como se espera, a China levará muitos decênios para baixar o número de seus pobres absolutos à metade.
Considera-se alguém absolutamente pobre quando tem a renda per capita inferior a US$ 1,25 por dia: mais ou menos R$ 2,50, ou seja, 75 reais ao mês. Esse critério é, no mínimo, cínico. É possível viver com esse dinheiro? Há quem possa: os trabalhadores das multinacionais nas tecelagens e confecções de Bangladesh e de outros países da Ásia do Sul não chegam a ganhar cinco reais ao dia.
O governo de Bangladesh, em seu portal, declara ser o país “de portas abertas“ (open door), com todas as garantias e vantagens legais aos investidores, principalmente nas zonas especiais de produção para exportação (Export processing zones). Em Bangladesh a privatização de empresas públicas chegou à perfeição, e a miséria dos trabalhadores, também — conforme a meta do neoliberalismo.
Só há uma saída para o impasse: a mobilização política dos cidadãos de cada país do mundo, em uma organização partidária e ideológica nítida em seus princípios e objetivos e em sua ação coerente, a fim de colocar coleiras nos banqueiros. E será sempre salutar ver um banqueiro na cadeia, como está ocorrendo, menos do que é necessário, nos Estados Unidos.
O ROUBO e a CORRUPÇÃO GLOBALIZADOS: “Após megavazamento, paraísos fiscais sofrem mais pressão” – por piero locatelli
Após megavazamento, paraísos fiscais sofrem mais pressão
A rede de café norte-americana Starbucks possuía 735 unidades no Reino Unido em 2012. Nos três anos anteriores, lucrou 1,2 bilhão de libras (o equivalente a 3,75 bilhões de reais), mas não pagou impostos no país naquele período, de acordo com reportagem da agência Reuters. Evitar pagar impostos, sem ferir nenhuma legislação, é uma prática possível graças à existência de países com legislação fiscal frouxa e sem transparência, os chamados paraísos fiscais. Além de ocultar beneficiários de práticas ilícitas, eles servem como base de complicadas manobras fiscais. Gigantes como Google, Amazon e Apple, por exemplo, usam deste subterfúgio para evitar o pagamentos de impostos onde suas atividades ocorrem, ainda que de forma legal.
Há um mês, os paraísos fiscais ganharam uma atenção sem precedentes graças a um grande vazamento de dados sobre este tipo de operação. A ICIJ, uma organização internacional de jornalistas, obteve mais de 2,5 milhões de documentos sobre mais de 120 mil empresas e produziu reportagem em parcerias com jornais como o britânico Guardian e o norte-americano The Washington Post. Entre outras descobertas, mostrou-se como autoridades de países como Rússia, Canada, Azerbaijão e Mongólia usavam os paraísos para esconder a posse de empresas que atuavam em seus próprios países. Os documentos também escancararam uma indústria na qual bancos e outros intermediários ofereciam pacotes de serviços tanto para práticas legais (como evitar o pagamento de impostos) quanto ilegais (como a lavagem de dinheiro).
Allison Christians, professora de tributação na McGill University, no Canadá, acredita que o vazamento fez o antigo problema ganhar uma atenção sem precedentes. “Há muitos anos, vários grupos de ativistas e ONGs vêm tentando chamar a atenção para essas questões. Eles têm mostrado como a evasão fiscal tem causado uma quebra nas receitas, que os governos estão apontando como razão para fazer cortes no estado de bem-estar social,” afirma Christians. Para a analista, o debate a respeito dos paraísos fiscais deve servir para as pessoas comuns, que têm dificuldade de pagar seus impostos, perceberem que as pessoas mais ricas da sociedade “não fazem isso de forma responsável”. “(O debate deve) fazer os cidadãos questionarem o que está acontecendo a sua volta e os políticos serem pressionados a agir.”
Novos esforços devem ser vistos com ceticismo
Com a exposição maior do problema, novos esforços começaram a surgir para solucioná-lo nos últimos 30 dias. O mais contundente deles foi um comunicado dos ministros da Fazenda e diretores do Banco Central do G20, no qual pediram a adoção de um sistema único e global de troca automática de informações bancárias. Atualmente, este tipo de informação só é compartilhada mediante pedidos dos países que conduzem investigações. Além disso, o investigador tem de saber qual informação está buscando exatamente para solicitá-la a outro país.
Com a proposta do G20, as transações de uma empresa que atua fora do seu país de origem seriam todas informadas ao país onde a empresa é sediada sem a necessidade de nenhum pedido, facilitando o trabalho de investigação e também centralizando informações que podem servir para diagnosticar melhor o problema. Os líderes dos países do G20 irão se reunir em junho, quando uma decisão mais clara pode ser tomada.
A Tax Justice Network, principal ONG ligada ao assunto, tem defendido a medida, mas pede que ela seja observada com cautela. “Todos os passos dados até agora são só isso: passos num longo caminho. Não podemos ser tão otimistas porque a troca de informações é uma atitude muito forte. Mas o comprometimento feito pelos ministros é uma grande mudança de filosofia. Eles basicamente disseram: o país que está escondendo o dinheiro de uma companhia não tem mais este direito,” disse o jornalista inglês Richard Dawkins, em depoimento a ONG.
Outras atitudes foram tomadas por países de forma isolada. François Hollande, presidente da França, ordenou que todos os bancos devem declarar as subsidiárias que possuem. Em Luxemburgo, um paraíso fiscal no meio da Europa, o governo anunciou que deve dar publicidade aos donos de companhias no país. Em novembro a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) também deve divulgar um índice do comprometimento de cada país no mundo com a transparência, para que eles possam sofrer mais pressão e possíveis sanções neste sentido.
Christians vê com bons olhos as reações da OCDE e do G-20, mas lamenta que as decisões estejam muito concentradas em países ricos. “Os países mais pobres foram ignorados até hoje na elaboração de políticas fiscais internacionalmente. Como resultado, eles não elaboram regras, mas só seguem regras que normalmente não funcionam em seu favor. Isso precisa mudar de alguma forma,” diz a especialista.
Documentário ‘Carne, osso’ relata o assustador trabalho nos frigoríficos
FILME PRODUZIDO PELA ONG REPÓRTER BRASIL PODE SER VISTO NO FESTIVAL É TUDO VERDADE, ABERTO EM SÃO PAULO E NO RIO DE JANEIRO
Documentário ‘Carne, osso’ relata o assustador trabalho nos frigoríficos
Linha de produção exige movimentos repetitivos que tem consequências drásticas para os trabalhadores (Foto: Divulgação)
São Paulo – Seis segundos para desossar uma peça de frango. Mais de três mil peças por hora em cada esteira. 18 movimentos a cada 15 segundos. Uma carga de trabalho três vezes superior à recomendada como limite. Três vezes mais chances de desenvolver transtornos mentais. O documentário Carne, osso revela que a cadeia produtiva da carne no Brasil é repleta de desrespeitos à legislação trabalhista e um cotidiano de sofrimento, depressão e riscos.
As primeiras imagens da produção da ONG Repórter Brasilsugerem que trabalhar em um frigorífico não é “apenas” chato e massante. A trilha sonora escolhida para demonstrá-lo, por sinal, cumpre perfeitamente o papel ao usar sons repetitivos em uma longa sequência.
Os primeiros depoimentos colhidos, por outro lado, mostram que ficar em uma esteira cortando pedaços de frango, boi ou porco é muito mais arriscado do que imagina quem recebe um bife no prato em um grande centro urbano. Jovens trabalhadores de baixa escolaridade das regiões Sul e Centro-Oeste do Brasil ficam expostos a condições de trabalho que são, no mínimo, assustadoras. Cortes profundos provocados pela lâmina afiada não são incomuns.
“Bota a faca no meio dos dedos dela para trabalhar”, disse um gerente de uma indústria do setor aos colegas de Valdirene, a uma funcionária de uma empresa de Forquilinha (SC), a 210 quilômetros da capital, já não conseguia mexer a mão. Ela relata que foram onze anos até chegar a esse ponto. Como não poderia correr o risco de perder o emprego, Valdirene aguentava a dor e precisava da ajuda diária do marido para esticar os dedos. Músculos e tendões atrofiaram-se pelos esforços repetitivos do trabalho de cortar frangos durante dez, doze, ou até catorze horas diárias.
Hoje sem o movimento das mãos, com menos de 40 anos de idade, ela se arrepende de ter “dado o sangue pela empresa” e lamenta ter se oposto à ação de um sindicato local que pedia melhores condições de trabalho. A vida profissional no setor é curta, revela o documentário. No geral, menos de dez anos de movimentos repetitivos diários são suficientes para acabar com a possibilidade de seguir atuando – nesta ou em qualquer área.
Carne, osso soa como um Tempos modernos da realidade dos frigoríficos que chega com boas credenciais ao festival de documentários É Tudo Verdade deste ano, aberto em São Paulo e no Rio de Janeiro. O filme de Charles Chaplin, de 1936, lançava mão de ironia e sarcasmo para denunciar as más condições do trabalho fabril no início do século XX. O documentário de Caio Cavechini e Carlos Juliano Barros é farto em tristes histórias sobre as condições do trabalho fabril no século XXI.
Os funcionários do setor conhecem o médico local pelo nome de “Doutor Diclofenaco”, uma referência ao remédio receitado invariavelmente a quem se queixa de dor. “Precisava dormir com a mão amarrada na cama de tanta dor que sentia”, relata uma outra ex-trabalhadora do setor, igualmente impossibilitada de trabalhar.
O retrato apresentado no longa-metragem é de empresas que parecem não se importar com o cenário. Donas de uma fatia superior a US$ 10 bilhões na balança de exportações brasileira, são indicadas por diversos entrevistados como as grandes responsáveis pela maior parte das ações trabalhistas nas varas das regiões em que atuam – são 750 mil trabalhadores em toda a cadeia produtiva.
Um analista do mundo trabalhista lembra que a contribuição que, por mais impostos que paguem, essas corporações ficam devendo ao Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). Boa parte dos trabalhadores ingressa, cedo ou tarde, na lista de brasileiros obrigados a se afastar do trabalho, temporária ou permanentemente, dependentes da assistência previdenciária. “Qual o verdadeiro déficit da Previdência?”, indaga.
O documentário é rico em explicações sobre o porquê de um trabalho tão esgotante. “Quanto mais tu dava conta, mais queriam”, pontua uma ex-funcionária sobre as metas impostas pelos empregadores. “Tomar show” é o jargão do meio que explica que um trabalhador não deu conta dessa meta. Quando isso ocorre, ele recebe uma cota extra de atividades e muitas vezes vara a madrugada na esteira de corte.
Ir ao banheiro tampouco é uma tarefa simples: é necessário pedir autorização do encarregado de controlar a produção e, segundo os relatos, urinar mais de duas vezes ao dia resulta em uma séria advertência. Por tudo isso,Carne, osso não é fácil de digerir, mas se faz fundamental.
O TAC. De novo?! – por amilcar neves / ilha de santa catarina.sc
Os abris não têm sido benevolentes com o Teatro Álvaro de Carvalho, o nosso TAC. Nosso porque é um bem público, um patrimônio da
sociedade – e uma bela edificação tombada, um dos poucos resquícios arquitetônicos do século XIX que sobraram na Ilha de Santa Catarina. O resto foi abaixo.
Em abril de 2007 o TAC estava na linha de tiro para ser privatizado. Não só o Teatro como a Biblioteca Pública do Estado e dois museus, todos administrados pelo governo estadual, que tem a obrigação legal de mantê-los e fazê-los funcionar. Dispunha de pessoal e orçamento para isso, mas o governador achava que a iniciativa privada tudo resolve melhor e mais eficientemente do que a administração pública. Na verdade, desejava fazer caixa com a venda do terreno da Biblioteca e com o repasse do prédio do Teatro.
Notável humorista e exímio nomenclador, Luiz Henrique da Silveira iniciava seu segundo mandato em 2007. Quatro anos antes, para o órgão estadual que “cuidaria” da Cultura deu o nome de Secretaria de Organização do Lazer (o lazer, então, andava que era uma esculhambação só), para a qual forjou a criativa sigla SOL, e propôs a extinção da Fundação Catarinense de Cultura. Não conseguiu matar a FCC e, em 2005, mudou o nome da pasta para Secretaria de Cultura, Turismo e Esporte, à qual atribuiu o mesmo SOL como sigla. Tudo a ver. Quando teve a brilhante ideia de suprimir das obrigações estaduais a Biblioteca, o Teatro e os museus (também não conseguiu matá-los, apesar de lutar bravamente cortando-lhes os repasses de verbas e não repondo o pessoal que saía), renomeou o órgão como Secretaria de Turismo, Cultura e Esporte, uma mudança fundamental refletida já na sigla que lhe conferiu: SOL.
A maior piada de LHS foi criar 36 secretarias regionais, idealizadas para abafar ou cooptar lideranças que surgissem em qualquer ponto do Estado, chamando-as “de desenvolvimento”. Outra, recente, foi publicar sexta-feira neste DC o artigo A Capela Sistina, a Torre Eiffel e a Ponta do Coral, onde afirma que a Ilha perderá seu “novo ícone” se continuar opondo-se à construção de um hotel privado, ao estilo Dubai, na Ponta do Coral; esqueceu que o ícone já existe, chama-se Ponte Hercílio Luz e, durante suas duas gestões, ele não a recuperou nem como ponte, nem como monumento. A Ponte só não caiu porque não quis.
Agora, neste novo abril, o TAC volta a ser ameaçado. Vazou, e a imprensa local tem publicado, que há um acerto costurado com o SESC para repassar-lhe o Teatro. Gente da SOL e gente da Fecomércio, a federação dos sindicatos patronais dos comerciantes, que administra o SESC, desconversa dizendo que ainda não se chegou aos detalhes operacionais do acordo. Apesar disso, confirma-se que a assinatura do repasse se dará no próximo dia 8 de maio. Onde? No próprio TAC, é claro, de carona em solenidade de lançamento de editais para a Cultura. Era para ser surpresa.
Fala-se desde um comodato de 45 anos até algum compartilhamento de pauta durante 100 ou 200 semanas. Pelo uso do bem público, a entidade do Comércio faria reformas necessárias no prédio. Como de hábito, aqui fora ninguém sabe de nada: nem o respeitável público, nem os nobres artistas.
Além de se alinhavar essas coisas a portas fechadas, o que é muito feio, o pior é que se ignora a existência de um Plano Estadual de Cultura em gestação (a despeito do governo atual), que deveria orientar esse tipo de iniciativa. Mas seria no mínimo ingenuidade acreditar, aqui, em planos e em Cultura.
NATUREZAS MORTAS – por jorge lescano / são paulo.sp
N A T U R E Z A S M O R T A S
© Lescano
Com dezessete anos descobri a pintura surrealista e acreditei que o mundo tinha me dado todas as respostas de uma vez; o surrealismo era o fim de todas as incógnitas surgidas com o aparecimento do homem no planeta. Tal ilusão é perfeitamente compreensível num rapaz tão novo, sem experiência de vida e de artista.
Uma das soluções fáceis era apelar para o aspecto literário da obra visual, e isto se conseguia dando títulos paradoxais ou simplesmente obscuros.
Vem-me à mente o Nu esotérico, quadro nunca pintado pelo meu amigo, o artista colombiano Rodrigo Barrientos, que não era surrealista, mas gostava de brincar com as palavras associadas aleatoriamente às imagens virtuais.
Naquela época longínqua pintei uma mulher sentada numa cadeira em atitude de abandono, como se estivesse muito cansada e/ou angustiada, pois o rosto não era visível e as mãos descansavam lassas sobre as coxas. O resto do quadro – em tons de cinza, como correspondia ao tema – era um ambiente indefinido, sem móveis ou utensílios que permitissem identificá-lo. Poderia ser um quarto de hospital ou uma paisagem desolada, sem linha do horizonte. O título: Natureza morta.
Isto intrigou alguns amigos. Para eles a natureza morta era um gênero tradicional que apresentava a reunião de objetos inanimados. A minha obra era do gênero nu, alegavam. Tive então a oportunidade de exibir o meu recente conhecimento das teorias expostas por André Breton e companhia. Atividade cansativa, porém satisfatória para a vaidade do projeto de artista.
Anos mais tarde, curado da soberba do neófito, conheci a pintura expressionista e a obra de Edward Hopper.
Identifiquei no norte-americano algo do sentimento de minha obra juvenil. Suas mulheres solitárias enclausuradas em ambientes domésticos, em roupas de dormir ou nuas, sentadas, reclinadas, de pé, de frente ou de costas a janelas de luz crua, fazem-me pensar em naturezas mortas: seres de vida suspensa pelo pincel do artista. Algumas parecem esperar algo que as transforme, outras já nada esperam. Estas mulheres são a crônica de vidas frustradas em algo que nunca saberemos, mas que retorna toda vez que contemplamos o quadro. Este fascínio paradoxal se repete nas suas pinturas de casarões solitários em paisagens desoladas. Seus quadros param no limiar da revelação, como todas as grandes obras; exatamente o sentimento procurado pelo surrealismo. Sem a parafernália espalhafatosa de um Salvador Dali, estas obras não pretendem desvelar os mistérios da vida, mas os trazem a tona.
Stiglitz: a austeridade leva a Europa ao suicídio
Stiglitz: a austeridade leva a Europa ao suicídio
Em entrevista à Bloomberg, o prémio Nobel da Economia afirma que nunca houve um programa de austeridade que tivesse sucesso num grande país, e que a austeridade acrescentada às restrições do euro são uma combinação letal, que está a destruir o capital humano.
O economista Joseph Stiglitz disse à agência de informação económica Bloomberg que a Europa está a caminhar para o suicídio devido às políticas de austeridade. “Nunca houve um programa de austeridade que tivesse sucesso num grande país”, afirmou.
Para o prémio Nobel da Economia, se a Grécia fosse a única parte da Europa a aplicar a austeridade, as autoridades poderiam ignorá-la. Mas se essa política abrange França, Reino Unido, e todos os países que estão a aplicar políticas de austeridade, as consequências económicas são terríveis.
Stiglitz é da opinião que a austeridade acrescentada às restrições do euro são uma combinação letal, que levará a altos níveis de desemprego politicamente inaceitáveis e que farão crescer os défices.
O exemplo da Espanha, com 50% de desemprego jovem, é uma demonstração que “o que se está a fazer é destruir o capital humano, criando uma juventude alienada”.
O economista defende a reorientação para o investimento público, utilizando plenamente instituições como o Banco de Investimento Europeu.
Lula no NYT desperta onda de inveja e preconceito – Brasil 247
Rancor, ressentimento e o velho ódio de classes contra o retirante que se tornou operário, líder sindical, presidente e um dos estadistas mais reconhecidos no mundo voltaram a aflorar desde que Luiz Inácio Lula da Silva foi convidado a publicar uma coluna mensal no The New York Times. Augusto Nunes, em Veja, já havia dito que Lula não sabe redigir um “tanquiú”. Guilherme Fiúza, emÉpoca, agora afirma que os Estados Unidos decidiram “levar a sério o projeto de decadência do império”. Reconhecido pelo mundo inteiro e candidato seriíssimo ao Nobel da Paz, Lula deveria dizer apenas “sorry, periferia”.
Via Brasil 247
A trajetória de Luiz Inácio Lula da Silva é conhecida. Ex-retirante, tornou-se operário, líder sindical, presidente e, depois disso, aprovado pela grande maioria de seu povo, passou a ser também reconhecido internacionalmente. À esquerda, pelo historiador Eric Hobsbawn, que afirmou que Lula “ajudou a mudar o equilíbrio do mundo, ao trazer os países em desenvolvimento para o centro das coisas”. No mercado financeiro, por Jim O’Neill, da Goldman Sachs, que criou a palavra Brics (Brasil, Rússia, Índia e China) e o definiu como o maior estadista do mundo nas últimas décadas.
Lula, portanto, é um ativo valioso, que interessa a qualquer publicação no mundo. Além disso, com sua agenda internacional focada, sobretudo, na África, ele é hoje seriíssimo candidato ao Prêmio Nobel da Paz. Por isso mesmo, recebeu um convite para publicar uma coluna mensal no The New York Times, maior jornal do mundo, onde poderá defender suas causas e bandeiras. A história de superação de Lula, desprezada por analistas rancorosos e invejosos no Brasil, mas reconhecida até por seus adversários políticos, hoje inspira líderes do mundo inteiro.
Isso não significa, no entanto, que Lula está obrigado a redigir de próprio punho seus artigos. Como colunista, Lula, naturalmente, delegará a tarefa de produzir textos a algum escriba. É assim, sempre foi e sempre será no mundo inteiro. Políticos são homens de ação. Quando transplantam suas ideias para o papel, em geral, contam com auxílio profissional. Afinal, é para isso que existem jornalistas e ghost-writers. Tancredo Neves, por exemplo, que pronunciou alguns dos mais memoráveis discursos da história brasileira, delegava a tarefa ao jornalista Mauro Santayana. Bill Clinton e Barack Obama também têm ghost-writers.
No entanto, de Lula, cobra-se o que jamais foi cobrado de qualquer outro político brasileiro. Em Veja.com, Augusto Nunes classifica o ex-presidente como uma espécie de analfabeto, incapaz de pronunciar um “tanquiú”. Escriba de luxo de seus patrões, Nunes já se prestou a todo tipo de tarefa – entre elas, a de exaltar o “caçador de marajás” Fernando Collor, como está bem detalhado no livro Notícias do Planalto, de Mário Sérgio Conti, ex-diretor deVeja.
Estávamos, no 247, decididos a não comentar o texto de Nunes, uma das peças mais insignificantes já publicadas por algum de veículo de comunicação no Brasil. Mas não se trata, infelizmente, de um movimento isolado. No domingo, dia 28, em Época, Guilherme Fiúza, que se notabilizou por biografias de personagens como Bussunda e Reynaldo Giannechini, além do livro Meu nome não é Johnny, consegue descer ainda mais baixo do que seu concorrente em Veja.
Segundo ele, a coluna concedida a Lula é a prova de que “os norte-americanos estão levando a sério o projeto de decadência do império norte-americano”. Diz ele ainda que Lula se tornou para oNew York Times “um suvenir da pobreza, desses que a esquerda norte-americana ama”. Fiúza sugere que Lula escreva Rose’s storye diz que ele poderá “narrar as peripécias de Waldomiro, Valdebran, Gedimar, Vedoin, Bargas, Valério, Delúbio, Silvinho, Erenice, Rosemary e grande elenco”. Por último, pede a Dilma que proíba a Polícia Federal de ler sua coluna.
O que dizer de personagens como Augusto Nunes e Guilherme Fiúza? Nada, a não ser “sorry, periferia”.
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COMENTÁRIO no FACEBOOK:
Hélio Aroeira ”À esquerda, pelo historiador Eric Hobsbawn, que afirmou que Lula “ajudou a mudar o equilíbrio do mundo, ao trazer os países em desenvolvimento para o centro das coisas”. No mercado financeiro, por Jim O’Neill, da Goldman Sachs, que criou a palavra Brics (Brasil, Rússia, Índia e China) e o definiu como o maior estadista do mundo nas últimas décadas.”
O Mundo vai mal, a Europa pior – por mário soares / lisboa.pt
A crise não é só financeira, é também económica, política, social, ética e ambiental. E se não for atalhada dará origem a um novo conflito |
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Para qualquer lado que nos voltemos, o Mundo vai mal. A ONU, que nos orientou na segunda metade do século XX, tem hoje uma participação menor. Não intervém em defesa dos Direitos Humanos – o caso da Síria é exemplar – e quase ninguém fala de ecologia. Poucos Estados se dão ao trabalho de pensar no Universo, apesar dos desastres que ocorrem serem cada vez mais graves e preocupantes. As grandes potências só se ocupam dos seus interesses imediatos e, cada vez, querem menos saber do aquecimento da Terra ou das preocupantes mudanças do clima e dos desastres ditos naturais que ocorrem por toda a parte. Recentemente tocou mais uma vez à China. A ONU, ao que parece, desinteressou-se da ecologia. Os poucos grupos ecológicos que ainda existem, têm pouco apoio dos jornais internacionais, das televisões e das rádios. Parece ser uma temática que deixou de interessar aos atuais dirigentes políticos e que nada lhes interessa o que terão de sofrer os seus filhos e netos. Só o dinheiro – e não as pessoas – preocupa os dirigentes políticos na Europa, na América (dos republicanos) e nos outros continentes, com as honrosas exceções de duas figuras únicas, extraordinárias: Barack Obama e o Papa Francisco, que deixou a inquisição e adotou, ao que parece, o franciscanismo. Olha para os pobres com respeito, quer ajudá-los, visita-os e fala com os católicos mas também com os agnósticos, com os ateus e com os membros de outras religiões. Mas se o Mundo vai mal, é seguro que a União Europeia (UE) vai pior. Porquê? Porque as duas famílias políticas que construíram a CEE e depois a UE – os socialistas, trabalhistas ou social-democratas e, por outro lado, os democratas-cristãos, partidários ambos de Estados sociais e da solidariedade e igualdade entre os Estados da União – foram substituídos por partidos cuja ideologia política é neoliberalismo e, por isso, são ultraconservadores, só pensam no dinheiro – e na sua importância – e ignoram as pessoas. Daí o empobrecimento dos Estados europeus, o crescimento em muitos deles do desemprego, da emigração, do suicídio e da criminalidade. Na UE estamos a viver o que se chama uma nova ordem internacional, criada pelo neoliberalismo e pela globalização sem valores – dada a incapacidade dos dirigentes atuais, que só pensam no dinheiro que ganham – que estão a destruir os Estados Sociais e a pôr em causa a Democracia, tal como a pensámos e vivemos antes da crise. Tudo começou pela importância que a chanceler Merkel tomou, luterana, vinda do totalitarismo comunista depois da queda do muro de Berlim e que a pouco e pouco se tornou a figura dominante da União. O primeiro país atingido foi a Grécia, berço da nossa civilização, graças à importância que os bancos alemães aí tinham. Depois foi a Irlanda, mais por razões financeiras que economicistas e sociais; depois foi Portugal, com um Governo, que dura quase há dois anos e é, em absoluto, subserviente a uma troika, que ninguém sabe bem donde veio e é comandada pelos mercados usurários. A seguir a Espanha que, até agora recusou uma troika, mas cujo regime económico e político está a ficar paralisado. E a Itália, um dos Estados fundadores, apesar de ter um Presidente excecional, o notável Giorgio Napolitano, que está a atingir o fim da carreira (mas foi eleito para novo mandato); e alguns outros Estados, como a Holanda, e mesmo – quem tal diria? – a própria França. A crise europeia não está só a ser uma nova forma de totalitarismo, mais ou menos fascista. Vai a caminho de destruir a Democracia Europeia e a pôr em causa a existência do Estado Social, da União e do euro. Se não muda de paradigma – como ensina Barack Obama -, vai autodestruir-se e liquidar o euro, como a nossa moeda única (e ainda forte). A crise não é só financeira. É também económica, política, social, ética e ambiental. E se não for atalhada rapidamente – como espero – dará origem a um novo conflito internacional. Haja bom senso e evite-se uma tragédia |
Ler mais: http://visao.sapo.pt/o-mundo-vai-mal-a-europa-pior=f725719#ixzz2S5Sn5PKD
AMIGO – de gilda e. kluppel / curitiba.pr
Amigo
A vida nos apresenta vários amigos
ou que chamamos de amigos
ou pensamos serem amigos
os meio amigos ou amigos da onça
alguns dedicados, outros fingidos
tantos incompreendidos, mal resolvidos
os amigos do coração e os amigos do alheio
os amigos da alma e os amigos da matéria
os amigos de si mesmos, fechados em seus egos inchados
os que dizem serem nossos amigos por mais de mil vezes
e junto deles não precisamos sequer de um inimigo.
Entre tantos, existe um sentimento sagrado
de irmão, próximo e semelhante
daquele que respeita as diferenças
sabe compreender e rir das nossas bobagens
sem nos acusar de ridículo, sem cobrar atos perfeitos
não necessitamos pedir licença para a nossa existência
diante das falhas e fraquezas recebemos a delicadeza
de quem nos acompanha em coisas importantes
ou sem nenhuma relevância ou até em extravagâncias.
O amigo não está nas relações efêmeras
vencedor e vencido, ilusor e iludido
porque não é para o consumo,
mero material descartável
para se depositar cargas pesadas
e abandonar o fardo em seus ombros.
Amigo não é plataforma para se lançar
é porto para se ancorar
não é consumido pelo tempo
para mais adiante ser esquecido
amigo não tem muita explicação
mas, pode ajudar a explicar muitas coisas.
Cabe num poema, vale uma oração
não precisa ser encantado
apenas proporcionar muitos sorrisos.
Quando saímos da presença de alguém
sentindo a alma mais leve
este é o nosso amigo, simplesmente o abrigo
esteja sempre comigo.
GAROTINHO DENUNCIA FILHO DE ROBERTO MARINHO E ALI KAMEL
GAROTINHO DENUNCIA FILHO
DE ROBERTO MARINHO E ALI KAMEL
Garotinho à Globo: pode vir quente que eu estou fervendo !
O deputado e ex-governador Anthony Garotinho fez veemente discurso da tribuna da Câmara para responder a reportagem da Globo.
Garotinho reafirma denúncia de que Roberto Marinho comprou a TV Globo de São Paulo com uma ata falsa e a Justiça tem medo de decidir sobre a fraude.
Garotinho exige que a Comissão da ½ Verdade chame os filhos do Roberto Marinho para depor, como também sugere Mauricio Dias.
E acusa João Roberto Marinho e o Gilberto Freire com “i” (*) de envolvimento com paraísos fiscais e sonegação de impostos.
Garotinho quer aprovar logo o “direito de resposta sumário”, proposta do senador Requião.
E diz que não é Sergio Cabral, Eduardo Paes ou os “frouxos” do PMDB do Rio, que morrem de medo de uma notinha do Ancelmo Gois no Globo.
Garotinho conclui: a Globo pode vir quente que ele está fervendo !
GUIMARÃES ROSA – por paulo timm / torres.rs
“Quando escrevo, repito o que já vivi antes.
E para estas duas vidas, um léxico só não é suficiente.
Em outras palavras, gostaria de ser um crocodilo
vivendo no rio São Francisco. Gostaria de ser
um crocodilo porque amo os grandes rios,
pois são profundos como a alma de um homem.
Na superfície são muito vivazes e claros,
mas nas profundezas são tranquilos e escuros
como o sofrimento dos homens.”
Então, Guimarães é notícia em destaque?
Por quê…?
Aconteceu alguma coisa? Ganhou o Nobel de Literatura Post Mortem? A patrulha descobriu que ele era racista, homofóbico, ou vice-versa?
Nada disso, apenas Guimarães — eterno — e uma resenha ao léu no Blog do Milton Ribeiro, que não resisti a comentar. Daí a cobrança dele por esta aventura que se segue: falar sobre o maior autor moderno do país. Aquele que ultrapassou o modernismo e o regionalismo para entronizá-los na literatura mundial, com a mesma envergadura de “Cem Anos de Solidão”. Talvez mais original, mais ousada. Advirto o editor: – Não sei nada de literatura, a não ser como leitor. Penso comigo: – Devorei a “Biblioteca Lar Feliz” que minha mãe, professora primária em Santa Maria, guardou com tanto zelo, até morrer. E havia outra coleção: “Terremarear”… Como esquecer esses nomes todos? Mas, curiosamente, lá não havia muitos clássicos. Até hoje não li sequer um livro de Shakespeare. Conheço-o, como diria Machado, de vista e de chapéu. Ainda assim, pra mó de me compreenderem saibam que “ Soletrei, anos e meio, meante cartilha, memória e palmatória.” No Cícero Barreto e Colégio São Luiz, em Santa Maria, anos 1950/53. E o fiz até cansar, porque era muito fraquinho, não dava pra esportes coletivos, mal brincava na rua. Sempre escutando minha mãe: ” Acho que esse menino não dura, já está no blimbilim”.
Mas Milton me anima: — Trata-se de depoimentos, fã clube!
Levo medo. “Abriu em mim um susto. Mal haja-me!” Afinal respondo: :“Do demo? Não gloso. Senhor pergunte aos moradores. Em falso receio, desfalam no nome dele – dizem só : o Que-Diga.”
“Parece até que ficou o feliz, que antes não era…”
Pois assim funciona o Guimarães, pra mim: Como um desencontro de palavras que escorre em melodia, como a fala de todo mineiro. Outra lógica.
Decididamente, me retombo como água caindo em cachoeira. E me vou, retórico, vaidoso e despido de vergonhas a caminho da crônica, embebido de diadorices .
Grande Sertáo, Veredas foi o melhor romance que li: Lhe digo, à puridade.- Pois não sim…?”
A primeira vez na juventude e não consegui entender nada. Nem o título. Sertão, pra mim, ficava no Nordeste do país: “Vidas Secas”, “O Cangaceiro”, “O Pagador de Promessa”. Glauber, “Os Retirantes”. Guimarães não é minero?, perguntei ao Fabinho, um de meus gurus, comunista visceral, com quem repartia o verdadeiro “aparelho” na Demétrio Ribeiro, 1094. Meados da década de 60. Aliás, outro cadáver da ditadura. Homenagem. Ele me disse que sim, mas não explicou mais. “Tudo é e não é…” Passei décadas sem voltar ao livro. Mas, perto dos 60 anos, fui morar num ermo de Goiás: Olhos d‘Água. Afinal, um homem nessa idade “ carece de aragem de descanso. Solito e Deus. Cuidando de plantar mandioca, cuidar das galinhas e fazer poesia. Cansado de guerra!
“Sofro pena de contar não….Melhor se arrepare: pois, num chão, e com igual formato de ramos e folhas, não dá a mandioca mansa, que se come comum, e a mandio-brava, que mata?
Lá convivi com muitas gentes oriundas das Gerais, pessoas simples, rudes e sábias. E também com um mineiro, meu senhorio, Betão, de Cordisburgo, cidade de Guimarães, cujo pai havia sido dele colega. Eu lhe ensinei a tomar chimarrão nas madrugadas, ele me devolvia com mineirices. “E susseguinte… sem remediável, ”percebendo a maneira curiosa de toda aquela gente pensar e falar, ocorreu-me voltar ao “Grande Sertáo”. Pois “ponho primazia é na leitura — eu gosto muito de moral — ajudo com meu querer acreditar. De sorte que carece de se escolher. Que no causo, é reler com o jeito, agora, de poder entender. Porque aprendi com aquela gente do Planalto Central, que o excesso de argumentos e a falta de jeito falecem a razão. Que redescoberta! Comecei a entender tudo. Há sertão nas Gerais, um sertão misterioso e encharcado durante as águas, que são abundantes; há uma filosofia popular profunda entre mineiros e goianos (estes, dizem, mineiros fugidos depois de matar alguém…) Hoje, Grande Sertão, é um dos meus livros de cabeceira. Vez por outra roubo-lhe uma expressão. Ou um parágrafo inteiro – aí cito…-. E coisa incrível: Oferecendo-me para ler em grupo com algumas pessoas o livro, aqui em Torres, descobri duas mulheres devotas da obra, uma psicóloga, Angela, a outra professora, Vera. Nem precisou reler o livro com elas. Elas o sabiam melhor do que eu… Coisas deste mundo que ninguém, nem o mais o desinquieto, desentende… “Só um e outro, um em si juntos. O viver em ponto sem parar (consegue). Coração-mente. Pensamento. Avançam parados dentro da luz.”
Parece que aqui, mesmo com o mar a tiracolo, com a Serra Geral subindo ao longe, também tem sertão…Pois ele está é dentro da alma de cada um de nós.
Publicado em Escritores, Literatura, Os 50 maiores livros (uma antologia pessoal), Resenhas | Marcado com Grande Sertão: Veredas, João Guimarães Rosa, Literatura, Os 50 maiores livros (uma antologia pessoal), Paulo Timm, Resenha | Comentar
BIENAL DE ARTE, UMA DISCUSSÃO NO AR – por almandrade /salvador.ba
BIENAL DE ARTE, UMA DISCUSSÃO NO AR
O diretor do Museu de Arte Moderna da Bahia fez bem, mostrou que sabe agir com bom senso abrindo o auditório do museu econvidando artistas, críticos e o público para sessões livres sobre uma possível mostra bianual de artes visuais. Um fantasma que ronda o inconsciente dos artistas,
principalmente os mais jovens e se manifesta em reivindicações, que algumas vezes, chegam a ignorar a função sócio cultural da instituição. As falas são muitas, faltam os analistas. Uma mostra de arte de repercussão nacional é o objeto da ansiedade de artistas e uma promessa do Estado que merece uma atenção mais depurada. Nos últimos vinte ou trinta anos, não avançamos no pensamento, nem construímos, ainda, uma política cultural mais efetiva, apesar do investimento na mobilização de comunidades e operários da arte em torno do tema.
A discussão é oportuna coloca sobre a mesa questões pertinentes que ultrapassam as dúvidas da mostra, como: as próprias ações, não só do MAM, como também dos outros museus de arte, o estágio em que se encontra a formação dos artistas e a arte nos dias hoje. Entre a burocracia dos editais, as leis de incentivo e a superioridade do mercado, os museus se encontram numa corda bamba, sem recursos para realizar seus projetos e manter uma programação livre de pressões externas alheias aos compromissos culturais da instituição.
Se o MAM deve, ou não, promover uma mostra nacional de arte, primeiro é necessário que ele disponha de um projeto curatorial e a referida mostra esteja integrada nesse projeto, para não vir a ser uma grande festa isolada, que acaba com a ressaca do dia seguinte. Afinal, museu não é instituição de caridade para adotar “pobres artistas” e muito menos casa de eventos à disposição de proponentes. Embora muitas salas de exposição se encontrem atualmente à espera de propostas premiadas nas loterias dos editais, algumas até nem precisariam apelar pra sorte, para ter visibilidade: são necessárias ao circuito cultural.
Depois que a cultura foi dominada pela barbárie, numa sociedade que privilegia a produção de mercadorias culturais, o pensamento foi derrotado pela indústria do entretenimento e o poder do mercado. Quem acaba decidindo o que é arte, é o mercado, com o apelo publicitário, ele impõe o valor de legitimação. As feiras mobilizam os investidores, superaram em termos de expectativa as bienais de arte, que foram transformadas em supermercado de periferia, com produtos mais em conta para o consumidor de classe média. Não se acredita mais na linguagem, mas no valor de troca. O pensamento é o líquido derramado que brilha na superfície da obra, com prazo de validade limitado. Se, objeto de arte, for um falso brilhante, não importa, satisfaz à chamada economia criativa.
O público de formação estranha à história da arte procura um investimento seguro. Uma bienal de arte, como uma feira de automóveis, se não for um banco de informações confiável, trás para o mercado novidades para estimular ou chamar a atenção do consumidor. Mas com um mínimo de inteligência, pode trazer discussões para uma avaliação, informação e transformação do meio de arte, neste caso o auditório do MAM, sem querer, faz a provocação: Se o Estado, em nome de uma democracia cultural, investe na formação de proponentes, em cursos de preenchimento de formulários e de formatação de projetos, em detrimento da crítica, da informação de artista, formação de público, capacitação de recursos humanos e da qualificação dos espaços culturais, onde e como tornar a promessa da bienal viável?
O relato de quem vivenciou e de quem acompanhou os acontecimentos, mesmo distante no tempo, do final da década de 1960, das Bienais da Bahia, coloca em cena um contexto diferente do momento que estamos vivendo, esquecido no fundo da memória, importante para se retomar uma experiência, com as referências históricas. O cenário das artes em 1966 e 68 era de uma Bahia centro da descentralização da arte brasileira. A crescente industrialização do nordeste, a Sudene, o Centro Industrial de Aratu, o Banco do Estado da Bahia inauguravam uma nova consciência no Brasil e acreditava-se numa mudança na cultura do Nordeste, contexto favorável para a Bienal da Bahia, a mais importante exposição de arte do País, depois da Bienal de São Paulo.
Fechada a segunda Bienal, logo após a inauguração, em decorrência do momento político crítico que passava o País, não teve continuidade. A mudança cultural esperada com a industrialização, não passou de um sonho. A realidade cultural e política hoje é outra, mas é preciso conhecer o passado para dar um passo adiante. Se a promessa de mostra não for adiante, a discussão do MAM já vale a pena, a reconstrução da história é favorável ao pensamento, a cultura é quem lucra. Nem tudo é absurdo e bizarro.
Almandrade
(artista plástico, poeta e arquiteto)
PRESTE ATENÇÃO: O STF está promovendo agitação política
LUIS NASSIF
Hoje em dia, tornou-se tão disseminada a manipulação política do noticiário que, na coluna de ontem, acabei embarcando na suposta retaliação do Congresso ao STF (Supremo Tribunal Federal), com a tramitação da PEC 33 – que define o poder recursal do Congresso a leis declaradas inconstitucionais pelo STF.
Fábio Rodrigues Pozzebom/ABr
Fui alertado pela analista política Maria Inês Nassif, em artigo no Jornal GGN (www.jornalggn.com.br) no qual apresentou um quadro perturbador do papel de alguns ministros do STF, para gerar crises políticas e contribuir para a desestabilização institucional do país.
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Vendeu-se a ideia de que a tramitação da PEC era fruto de represália do Congresso. Vários Ministros manifestaram indignação – entre eles, Gilmar Mendes, Marco Aurélio de Mello e o presidente do STF Joaquim Barbosa.
Maria Inês é taxativa: “Com toda certeza, os ministros que estão reagindo desproporcionalmente a uma tramitação absolutamente trivial de uma emenda constitucional no Congresso (…) estão fazendo uso político desses fatos”.
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A emenda tramita desde 2011. Foi proposta pelo deputado Nazareno Fontelenes (PT-PI) em 25 de maio do ano passado e encaminhada à Comissão de Constituição e Justiça em 06 de junho. O relator da matéria é o deputado João Campos (PSDB-GO) – um parlamentar da oposição. E estava na agenda da CCJ desde fevereiro deste ano.
O fato de terem incluído José Genoíno (PT-SP) e João Paulo Cunha (PT-SP) no episódio comprovaria seu uso político, diz Inês. “No ano passado, quando a emenda foi apresentada, Genoino sequer tinha mandato parlamentar. Ele e Cunha não pediram a palavra, não defenderam a aprovação, nada. Apenas votaram a favor de um parecer de um parlamentar da oposição”.
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Não compete à CCJ apreciar o mérito de qualquer proposta. Seu papel é apenas analisar se a proposta cumpre os requisitos de constitucionalidade. Se cumprir, segue a tramitação até chegar ao plenário da Câmara. Aí sim, explica ela, a proposta será analisada em dois turnos, para depois cumprir dois turnos no Senado. “O primeiro passo da tramitação da PEC 33 foi dado na quarta-feira. Daí, dizer que o Congresso estava prestes a aprovar a proposta para retaliar o STF só pode ser piada, ou manipulação da informação”.
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A proposta tem respaldo na Constituição. O artigo 52 fala da competência exclusiva do Senado Federal, diz, em seu inciso X, que o Senado pode “suspender a execução, no todo ou em parte, de lei declarada inconstitucional por decisão definitiva do Supremo Tribunal Federal”. No artigo 49, determina que é da competência do Congresso Nacional “zelar pela preservação de sua competência legislativa em face da atribuição normativa dos outros Poderes”.
Conclui ela: “Diante dessas evidências constitucionais e da história da tramitação da PEC na Câmara, fica a pergunta: quem está ameaçando quem? É o Congresso que investiu contra o STF, ou o contrário?”
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Na mesma quinta-feira, o ministro Gilmar Mendes concedeu uma liminar trancando a tramitação da lei que inibe a constituição de novos partidos. Nos jornais de sexta, o ex-ministro do STF Carlos Velloso declarava-se espantando com a decisão de Gilmar.
MINISTRA MARIA DO ROSÁRIO: “Há um pacto perverso para a verdade não vir a público”
Rosário: “Há um pacto perverso para a verdade não vir a público”
A ministra-chefe da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência, Maria do Rosário foi entrevistada pelo jornal Zero Hora e afirmou conviver com a dificuldade em desvendar mistérios do regime militar. Leia trechos da entrevista abaixo:
Ministra diz que ditadura gerou estrutura para dissimular seus crimes Foto: Daniel Conzi / Agencia RBS
Zero Hora — Por que permanece a dificuldade em desvendar crimes cometidos pelo regime militar?
Maria do Rosário — A ditadura não teve apenas uma atuação de violação dos direitos promovendo tortura. Ela também teve agentes profissionais em criar versões errôneas para disfarçar seus crimes. No fundo, havia a consciência de que o futuro não seria conivente com os crimes cometidos. Daí, a preocupação de tudo esconder, de tudo disfarçar.
Os arquivos nacionais foram de fato abertos? Há documentos que sumiram?
No governo federal, todos os documentos que dizem respeito ao período da ditadura militar, que versam sobre direitos humanos, devem ser enviados ao programa Memórias Reveladas, do Arquivo Nacional. É uma decisão da presidente Dilma, reforçada na própria na Lei de Acesso à Informação.
Mas a determinação vem sendo cumprida?
É uma determinação para todo o governo. Documentos oficiais que estão de posse formal do Brasil foram disponibilizados. Se existem outros documentos, que foram subtraídos, fica difícil dizer.
A Comissão Nacional da Verdade tem poder de confiscar acervos de documentos que estão com civis ou militares?
A comissão tem o poder de fazer a busca a qualquer momento, mas parece ainda ter um movimento de perversa disciplina, de cumprir primeiro a responsabilidade com a sua corporação, deixando de lado a história do país e a democracia.
A comissão vai completar o primeiro ano em maio. Qual a sua avaliação até o momento?
Talvez a comissão sofra as mesmas dificuldades que todos os que trabalham pela verdade sofrem até hoje: as informações são fragmentadas e contraditórias sobre os mortos e desaparecidos. Os verdadeiros agentes do período não falaram e não tiveram até o momento a dignidade de falar a verdade.
A senhora é favor de ampliar o prazo de trabalho da comissão, que expira em 2014?
Não tenho posição firmada sobre prorrogar ou não. É uma decisão da presidente, mas certamente a comissão terá bons resultados.
Dos casos sem solução, a Guerrilha do Araguaia é emblemática. Quais as dificuldades para localizar os corpos?
Nossa obrigação é seguir buscando, mas enfrentamos barreiras em uma região úmida, com rios e de floresta. No entanto, a principal dificuldade é a ausência de informações efetivas e até as ameaças feitas a pessoas da região que tentam colaborar com nossas buscas. É uma situação absurda. Há um pacto perverso para a verdade não vir a público.
Existe a possibilidade do Brasil reconhecer por escrito que não encontrou os corpos por ter destruído os cadáveres?
Claro que existe, mas antes de chegarmos a essa medida precisamos fazer o máximo.
Tensão entre poderes é crise fabricada, garantem líderes do Legislativo
Tensão entre poderes é crise fabricada, garantem líderes do Legislativo
26/4/2013 12:35
Por Redação – de Brasília
Décio Lima (PT/SC) disse que todos os ritos necessários foram cumpridos
Presidente da Comissão de Constituição e Justiça da Câmara (CCJ), o deputado Décio Lima (PT-SC) confirmou, nesta sexta-feira, o que já vem dizendo desde que foi instalada a polêmica em torno da aprovação da admissibilidade da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 33, que submete as decisões do Supremo Tribunal Federal (STF) ao Congresso. A crise seria fabricada e “não passa de tempestade em copo d’água”. Em nota, ele ponderou que a admissibilidade não significa concordância com o mérito.
“Admissibilidade não é concordância com o mérito, é preciso que fique claro. Essa incompreensão tornou-se o busílis da polêmica e orienta o debate pelo lado que interessa mais à política. A polêmica que se estabeleceu não passa de tempestade em um copo d’água. O debate entre os Três Poderes é normal. Nenhum assunto é proibido de se discutir na democracia e o Legislativo é o Poder da República legitimamente constituído para o debate e a formulação da legislação brasileira”, afirmou.
O presidente da CCJ também lembra que o tema foi amplamente debatido no colegiado, desde dezembro do ano passado, e que a votação ocorrida na quarta-feira se deu de acordo com as regras regimentais e constitucionais.
“Não houve absolutamente nenhum erro no que tange às prerrogativas da zelosa Comissão de Constituição e Justiça. Não há, portanto, nenhuma possibilidade de se ter arranhado sequer uma vírgula da nossa Carta Magna. O entendimento da comissão foi de que a matéria não feriu as cláusulas pétreas da Constituição, sobretudo aquelas que formularam os poderes da República brasileira”, diz um trecho da nota que o parlamentar veiculou, nesta manhã.
Também em nota à imprensa, divulgada no início da noite passada, as associações dos Magistrados Brasileiros (AMB), dos Juízes Federais do Brasil (Ajufe) e dos Magistrados da Justiça do Trabalho (Anamatra) disseram que a PEC 33 representa um estímulo à impunidade.
“As associações e entidades de classe de âmbito nacional da magistratura, considerando a aprovação da PEC 33/2011, vêm a público expressar preocupação quanto ao encaminhamento de propostas que tenham o intuito de enfraquecer o Poder Judiciário, resultando, no fundo, em impunidade e negação de Justiça”, diz trecho da nota.
No documento, as entidades frisam que a proposta, ao condicionar efeitos de decisões do Poder Judiciário a um juízo do Poder Legislativo, de natureza eminentemente política, “significa um retrocesso institucional extremamente perigoso, o que não é bom para o Brasil”.
Presidente da Câmara, o deputado Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN) também adiantou que não pretende instalar a comissão especial para analisar o mérito da PEC enquanto não ficar claro se a proposta fere o princípio constitucional da separação dos poderes. Cabe ao presidente da Câmara a instalação de comissões especiais para análise do mérito de PECs. Aprovada pela CCJ, a PEC 33 condiciona o efeito vinculante de súmulas aprovadas pelo STF ao aval do Poder Legislativo e submete ao Congresso Nacional a decisão sobre a inconstitucionalidade de leis.
Para o ministro Marco Aurélio Mello, a decisão de analisar a proposta com mais cautela foi acertada.
– A postura de Vossa Excelência confirma as minhas palavras de ontem, a confiança absoluta na Câmara dos Deputados e no Senado da República como dois grandes colegiados – disse ele, ao deixar o STF, na noite passada.
Para o ministro Gilmar Mendes, no entanto, a situação não é bem assim. Ele voltou a criticar a proposta de emenda à Constituição que vincula decisões da Corte ao Congresso Nacional. Em conversa com jornalistas, nesta sexta-feira, o ministro destacou o fato de o texto ser aprovado na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara sem uma análise mais detalhada e disse que é “melhor que se feche o Supremo Tribunal Federal” se a proposta for aprovada pelo Legislativo.
– Não há nenhuma dúvida, (a proposta) é inconstitucional do começo ao fim, de Deus ao último constituinte que assinou a Constituição. É evidente que é isso. Eles (Legislativo) rasgaram a Constituição. Se um dia essa emenda vier a ser aprovada, é melhor que se feche o Supremo Tribunal Federal – disse Mendes.
Já o ministro Ricardo Lewandowski minimizou o arremedo de crise entre Legislativo e Judiciário.
– Os poderes estão funcionando. Cada qual toma as atitudes que entendem dentro de sua esfera de competência e assim é que funciona a democracia. Quando os poderes agem dentro de sua esfera de competência, a meu ver, não há o que se falar em retaliação. E muito menos crise. Pelo contrário, os poderes estão ativos, funcionando e não há crise nenhuma – garantiu.
De autoria do deputado Nazareno Fonteles (PT-PI), a proposta estabelece que o STF só poderá propor súmulas vinculantes “após reiteradas decisões sobre matéria constitucional”, resultante de decisão de quatro quintos dos ministros. De acordo com a proposta, as súmulas, no entanto, só passarão a ter efeito vinculante após aprovação do Congresso Nacional. A PEC estabelece também que somente pelo voto de quatro quintos dos ministros ou dos membros do respectivo órgão especial poderão os tribunais declarar a inconstitucionalidade de lei ou do ato normativo do Poder Público.
Novo desgaste
Outro ponto de atrito entre o Legislativo e o Judicário ganhou, nesta manhã, um novo episódio. Protocolado na véspera pelo Senado, desembarcou nesta sexta-feira, na Suprema Corte, o recurso que visa liberar a tramitação do Projeto de Lei da Câmara (PLC) 14/2013. O agravo regimental sustenta que a liminar concedida pelo ministro Gilmar Mendes representa ingerência nas competências do Poder Legislativo.
– O papel do Legislativo é zelar pela suas competências. Da mesma forma que nós nunca influenciamos decisões do Judiciário, nós não aceitamos que o Judiciário influa nas decisões legislativas, consideramos isso uma invasão – afirmou o presidente do Senado, Renan Calheiros, a jornalistas, logo após reunião com o presidente da Câmara dos Deputados, Henrique Eduardo Alves.
A decisão de Gilmar Mendes suspendeu a tramitação do projeto, que restringe o acesso de novos partidos ao Fundo Partidário e ao tempo de TV. De acordo com o ministro, houve “extrema velocidade” no exame da matéria, aparente casuísmo em prejuízo das minorias políticas e contradições entre o projeto e normas constitucionais. A decisão foi provocada por mandado de segurança impetrado pelo senador Rodrigo Rollemberg (PSB-DF).
O agravo regimental é um recurso judicial que pede o reexame de uma decisão monocrática (de um único juiz) pela composição completa da Corte. Renan acrescentou que o agravo será uma oportunidade de o STF fazer uma “revisão” sobre a decisão tomada. O presidente do Senado também negou que haja uma crise entre Legislativo e Judiciário, mas disse ser inconcebível uma tentativa de influência externa no andamento do processo legislativo.
Para Henrique Alves, a provocação ao STF foi equivocada. Ele reforçou o discurso de Renan, ao dizer que não aceita intromissão de outro poder no Congresso. Alves disse que o Congresso não interfere na forma de votar dos ministros do STF e também não pode aceitar qualquer interferência na forma constitucional e regimental de decisão do Legislativo.
– Esperamos que o Supremo possa rever essa posição, fazendo justiça ao papel constitucional do Congresso – disse o presidente da Câmara.
CARTA DE VESPASIANO AO FILHO TITO / 69 DC – ou a origem dos discursos e práticas dos políticos atuais.
Roma, 22 de junho de 79 d.C.
Tito, meu filho, estou morrendo.
Logo eu serei pó e tu, imperador.
Espero que os deuses te ajudem nesta árdua tarefa,
afastando as tempestades e os inimigos, acalmando os vulcões. De minha parte, só o que posso fazer é dar-te um
conselho: não pare a construção do Colosseum. Em menos de um ano ele ficará pronto, dando-te muitas alegrias e infinita memória. Alguns senadores o criticarão, dizendo que deveríamos investir em esgotos e escolas. Não dê ouvidos a esses poucos. Pensa: onde o povo prefere pousar seu clunis: numa privada, num banco de escola ou num estádio?
Num estádio, é claro.
Será uma imensa propaganda para ti. Ele ficará no coração de Roma por omnia saecula saeculorum, e sempre que o olharem dirão: “Estás vendo este colosso? Foi Vespasiano quem o começou e Tito quem o inaugurou”.
Outra vantagem do Colosseum: ao erguê-lo, teremos repassado dinheiro público aos nossos amigos construtores, que tanto nos ajudam nos momentos de precisão. Moralistas e loucos dirão, que mais certo seria reformar as velhas arenas. Mas todos sabem que é melhor usar roupas novas que remendadas. Vel caeco appareat (Até um cego vê isso).
Portanto, deves construir esse estádio em Roma.
Enfim, meu filho, desejo-te sorte e deixo-te uma frase: Ad captandum vulgus, panem et circenses (Para seduzir o povo, pão e circo).
Esperarei por ti ao lado de Júpiter.

A REPÚBLICA SANGRA – por paulo timm / torres.rs
“Queremos livros que nos afetem como um desastre. Um livro deve ser como um machado diante de um mar congelado em nós.” Franz Kafka
Tomo o título de um comentário de M.Aurélio Nogueira, num comentário sobre a atual
conjuntura , feito no FaceBook.
A tensão entre os Poderes Judiciário e Legislativo não chegou ontem, com a aprovação, pela Comissão de Constituição e Justiça da Câmara, de Emenda – PEC – introduzindo restrições do Legislativo sobre o Supremo Tribunal Federal. Ela percorreu todo o processo dito “Mensalão”, chegou à gravidade no final do ano passado, quando o então Presidente da Câmara ofereceu apoio e “refúgio” a deputados eventualmente condenados naquele processo e, agora, chega ao paroxismo com exaltações de todos os lados. Tomara que não chegue às vias de fato, com sopapos e bofetões visíveis no ar, nos noticiários da noite. Isto seria fatal para nossa ainda jovem democracia. Afinal, ela nasceu mesmo com a Constituição de 88. Não chegou sequer `a beleza dos 35, hoje cantada pelo escritor gaúcho F. Carpinejar em bela crônica inspirada na bela Carla Bruni DEPOIS DOS 35 ANOS ”A cantora e ex-primeira dama da França, Carla Bruni, falou em entrevista para a revista Veja algo que acredito muito. Que depois dos 35 anos, a beleza é resultado da simpatia, da elegância, do pensamento, não mais do corpo e dos traços físicos. A beleza se torna um estado de espírito, um brilho nos olhos, o temperamento. A sensualidade vai decorrer mais da sensibilidade do que da aparência. Uma mulher chata pode ser bonita antes dos 35 anos. Uma mulher burra pode ser bonita antes dos 35 anos. Uma mulher egoísta pode ser bonita antes dos 35 anos.
Uma mulher deprimida pode ser bonita antes dos 35 anos. Uma mulher desagradável pode ser bonita antes dos 35 anos. Uma mulher oportunista pode ser bonita antes dos 35 anos. Uma mulher covarde pode ser bonita antes dos 35. Depois, não mais, depois acabou a facilidade. Depois o que ilumina a pele é se ela é amada ou não, se ela ama ou não, se ela é educada ou não, se ela sabe falar ou não. Depois dos 35 anos, a beleza vem do caráter. Do jeito como os problemas são enfrentados, da alegria de acordar e da leveza ao dormir. Depois dos 35 anos, o sexo é o botox que funciona, a amizade é o creme que tira as rugas, o afeto é o protetor solar que protege o rosto. A beleza passa a ser linguagem, bom humor. A beleza passa a ser inteligência, gentileza. Depois dos 35 anos, só a felicidade rejuvenesce.”
Nossa democracia, enfim, é pouco mais do que uma adolescente e já enfrentou desafios dignos de mulher madura: O impeachment de Collor, em 92, a República de Juiz de Fora, sob o comando de Itamar Franco, a vaidade de FHC, que contrariando muitos entendidos, não chegou a salvar seu Governo, apesar do grande feito do Plano Real, que na verdade, lhe foi anterior, a eleição, posse e governo (como dizia Carlos Lacerda, duvidando de JK, nos idos de 55) de um operário do PT, e a eleição, posse e …difícil governo de uma mulher guerrilheira, e uma problematica Comissão da Verdade. Êta mulher…!!! É verdade que todo o processo de construção da democracia no Brasil foi “devidamente” calculado. Jamais saiu dos eixos. Começou com a “ Lenta, Segura e Gradual distensão do Presidente General Ernesto Geisel , sob o crivo do bruxo Golbery do Couto e Silva. Culminou aquela fase, depois de cinco longos anos, nos quais não faltaram mortos sob tortura, com a Anistia controlada de 1979 e uma rigorosa reorganização partidária que acabou ferindo mortalmente Leonel Brizola. Tiraram-lhe o PTB e obrigaram-nos a começar quase do zero. Pagou caro. Talvez com a Presidência, cargo para o qual, até o final de 80 era o mais viável, dentre os quadros da esquerda. Depois de Geisel, para consolidar a obra, sobreveio um velho e cansado General de Informações, mais afeito às estrebarias do que às praças públicas. Ficou longos seis anos. Nem ele agüentava mais: “Me esqueçam”, foram suas palavras ao sair do Palácio do Planalto. Como isso durou tanto? Onze anos…? Nem eu sei. Só sei que ele – Figueiredo, entrou em 79 , arrastou-se em meio à segunda Crise do Petróleo durante aquele ano e mais os anos 80, 81 e 82 e acabou enfrentando galhardamente a posse de Governadores de Oposição pelo país inteiro. Aí “encarou” os comícios das Diretas Já e, com certo enfado, tratou de sepultar a Emenda Dante de Oliveira que as consagrariam ao final de seu mandato, no dia 25 de abril de 1984. Com direito a colocar o General Newton Cruz, do SNI nas ruas de Brasília dando porrada a torto e a direito nos manifestantes. Então sobreveio, o fator alfa: Maluf que viria complicar um pouco os cálculos do “ancien regime”. Ele comprou o colégio eleitoral da ARENA (Partido do Sim, Senhor General) que deveria manter o esquema por mais vinte anos e abortou a eleição indireta pelo PMDB de Tancredo Neves , cuja posse deveria ocorrer em 1985.
Aí o fatídico : Morre Tancredo e assume Sarney, dissidente do regime militar, sob cujo comando terá continuidade a transição, que deveria culminar na eleição direta para Presidente imediatamente, mas que acabou se arrastando até 1989. Cinco anos de Sarney ( 85-86-87 – 88 -89 ) graças à bondade da Constituinte em lhe dar um ano a mais do que o inicialmente previsto. Bom… Nem vou continuar recontando datas. O que desejo, apenas, é mostrar que nosso processo de transição não foi apenas longo. Foi penoso. E extremamente excludente. Ele conseguiu liquidar ao longo desse tempo as grandes lideranças do passado, consolidando um dos objetivos do Golpe de 64: Romper com o passado. Só não conseguiu romper, logicamente, com as conquistas daquele passado, que se incorporaram como feitos civilizatórios na Sociedade e no Estado brasileiros: a regulação do trabalho e do capital, as grandes estatais que operaram como suporte da industrialização, a vontade do Brasil em se modernizar.
Digo isto para reiterar uma coisa óbvia: Não houve uma ruptura no processo de redemocratização do Brasil. Saímos de uma institucionalidade precária, da Constituição militar de 1967 e ingressa no regime Constituinte de 88 sem muitos traumas. Até a Constituinte de 46 havia sido conseqüência de uma ruptura, com a derrubada de Vargas em 1945, além do grande impacto da vitória aliada na II Guerra. A Constituinte de 87/88 teve imensa participação de movimentos sociais, muitos debates internos e grande efervescência política, mas não foi fruto de uma grande vitória popular anterior. Essa, aliás, a nossa diferença com outros processos de abertura no Continente. E nossa crucial diferença, por exemplo, com a Revolução dos Cravos, em Portugal, que soterrou a ditadura salazarista. Aqui, vivenciamos um processo peculiar quase insólito, tipo das Coréias, em 1953: Chegou-se a um armistício de paz não formal, em que os antigos dirigentes recuaram do Poder, sem admitir qualquer culpa, e os “novos” foram ocupando o terreno, meio sem-cerimônia, açodados até pela perspectiva de ocupada da “máquina governamental”. Rigorosamente, até hoje não existe uma análise clara sobre como acabou a ditadura no Brasil. Ela sumiu, enquanto proscênio. Mas seus gerentes continuaram onde sempre estiveram: No Poder…Eles estão no Estado. Na Grande Imprensa. Nos órgãos de classe patronal. Nas Forças Armadas. E sempre que existe uma possibilidade de ruptura maior, a esquerda, seja ela qual for, recua, porque sabe que não tem como enfrentar as adversidades. A esquerda, no Brasil, ficou “hábil”. Hábil em contornar o “Mercado”, como fez Lula na famosa Proclamação que resultaria na manutenção de Henrique Meirelles no Banco Central. Hábil em recuar diante da questão da democratização da Mídia. Hábil em lidar com Chavez e Cristina Kirchner. Hábil até em promover o Brasil como um oásis de prosperidade num mundo em crise. A esquerda brasileira, entretanto, só não foi hábil em manter sua unidade interna. Preferiu, no Poder, ceder à tentação da governabilidade através do “caro”, aqui no seu pior sentido, conceito de Base Aliada. Com isso, vem despedaçando-se aos poucos, não sem proclamar, sempre, o seu direito à verdade como representante de uma Política Econômica e Social avançada em benefício dos mais pobres. Brizola nunca embarcou de bom grado nesta canoa. Engoliu, indigestamente, o “Sapo Barbudo” no segundo turno de 89 e em 94. Desconfiado, afastou-se, até vir a falecer em 2004. O que sobrou do PDT, nas mãos dos dirigentes atuais, nada tem a ver com Brizola, como o PTB de Jefferson nada tem a ver com Vargas e Goulart. Roberto Freire, herdeiro do PCB, perdeu-se no meio do caminho. Heloísa Helena e Marina caíram fora, junto
com outros grandes nomes do PT. Agora chegou a vez da turma do Arraes, com a defecção do seu neto, Governador de Pernambuco, virtual candidato do PSB à Presidência. Só falta, mesmo, agora, uma grande ruptura, de maior vulto , dentro do próprio PT, tal como já se cogita entre dentes, no sul do país… Todo este processo político de consolidação da democracia no Brasil está em jogo na crise atual entre Legislativo e Judiciário. Tanto um como outro destes Poderes são estruturantes do Estado brasileiro. E reforçam sua natureza. O Judiciário, certamente, é mais conservador e republicano, no sentido da valorização da coisa pública. O Legislativo, mais progressistas e democrático, no sentido de atender à demandas populares. O Judiciário, porém, é mais estável e, consequentemente, mais estabilizador do que o Legislativo. A irritação entre esses dois Poderes, aos quais o Executivo olha de camarote, é , portanto, extremamente perigosa à democracia e deve ser cuidadosamente analisada, pois pode acarretar uma grave crise institucional. Lembro, aqui, a propósito , o famoso discurso de Márcio Moreira Alves, na Câmara, em 1968, preâmbulo do AI-5. Mais além de interesses Partidários em jogo na atual crise – e muito menos pessoais -, creio que se deve sopesar melhor as forças reais que atual sobre a conjuntura de forma a evitar atropelos. O medo não deve jamais ser conselheiro nestas horas, mas a prudência, se sabe, é o olho das virtudes e que, se não garante o melhor, evita também o pior. A quem interessa na verdade, colocar lenha na fogueira da crise entre o Judiciário e o Legislativo? Será à democracia brasileira, mesmo!? Leio, por acaso esta passagem, que me parece singular, de Josias Teófico, sobre arte, Publicado na Revista Continente e noSul21 em 20 de outubro de 2012, para ilustrar o que é o Judiciário , como ícone, e o Legislativo como ídolo: No livro O ícone – Uma escola do olhar, Jean-Yves Leloup faz uma distinção entre ídolo e ícone. O primeiro seria qualquer forma de representação religiosa que prende o olhar em si mesmo, pelas formas, cores ou movimentos que chamam a atenção, provocando emoções. O ícone, ao contrário, não tem movimento nem profundidade, as cores e formas obedecem a padrões tradicionais. Nele, a transcendência é o fator essencial, a intenção é mostrar o “Invisível no visível, Presença na aparência”
Recorro à anotação sobre Arte porque a Política tem mais a ver com ela como praxis do que com as ditas Ciências, embora guiada remotamente pelo logos. A esquerda, entretanto, não raramente inverte esta equação. Para os velhos comunistas, a razão histórica da proclamação do socialismo como etapa superior do capitalismo estará , sempre, na vanguarda de sua práxis. O imperativo democrático, no sentido das aspirações populares, é sempre mais importante do que as instituições. Daí seu desprezo, embora sempre oportunamente aproveitados, pelas instituições republicanas, dentre as quais o Judiciário é das mais sólidas.
Todo cuidado, nesta hora, é, portanto pouco… As simplificações abundam na ordem do senso comum com ares de senso crítico, atropelando o bom senso…
Paulo Timm é economista da UNB.
Visita íntima aos anos 70 – por bruno ghetti
Visita íntima aos anos 70
Nada foi como antes depois de maio de 1968. Ou talvez seja o contrário: tudo continuou quase igual. Ainda é difícil, 45 anos depois, estabelecer com precisão o saldo dos eventos que levaram às ruas uma juventude que, embalada pela luta por melhoras no sistema educacional francês, acabou achando que poderia mudar o mundo.
Talvez por isso, a ideia de recompor um retrato daquele tempo (e os anos imediatamente seguintes) tem sido tão sedutora à arte. Especialmente ao cinema, que em geral tem abordado o tema em tom saudosista – como “Os Sonhadores”, de Bernardo Bertolucci -, às vezes beirando a idealização – como “Amantes Constantes”, de Philippe Garrel. O mais recente filme sobre a época, “Depois de Maio”, que estreia neste fim de semana no Brasil, parece, no entanto, feito com a preocupação de evitar cair em uma coisa ou na outra.
Dirigido pelo francês Olivier Assayas (da celebrada série “Carlos”), o filme se passa já no início dos anos 1970. Na ressaca pós-68, quando a juventude francesa começava a se dar conta de que a “revolução” talvez não tivesse tido os resultados esperados, o jovem desenhista Gilles se vê pressionado a decidir entre o engajamento político, diante de patrulhas ideológicas de todos os lados, e as realizações pessoais – dilema, aliás, comum entre a juventude da época. Inclusive o próprio Assayas, que tem no seu protagonista uma espécie de alter ego.
“Não é exatamente um filme autobiográfico. Mas é um filme de geração, que mostra que um indivíduo, por mais particular que seja, não pode se tornar ele mesmo se não passar pelo movimento coletivo da história, que não é apenas a sua”, diz Assayas, em entrevista ao Valor.
Assayas tinha só 13 anos em 1968, mas viveu com intensidade os anos que se seguiram. Já havia sentido por duas vezes necessidade de abordar essa época em suas obras. A primeira foi em 1994, quando dirigiu o ótimo “Água Fria” (primo não muito distante de “Depois de Maio”), sobre dois adolescentes em crise. A outra foi sob forma de ensaio (publicado como livro em 2005), “Une Adolescence dans l’Après-Mai”, que foi como uma matriz do longa.
“O ensaio deu forma às minhas ideias sobre aquela época. Foi escrevendo que rememorei a fundo o modo como eu vivenciei aquele tempo, em parte pelo engajamento político, que era compartilhado por todos, de outra parte pela contracultura. Havia uma certa tensão entre essas duas correntes, e minha geração ficou no fogo cruzado entre ambas. Escrevendo, essas coisas voltaram à minha cabeça, e eu pensei que, no cinema, a época nunca tinha sido tratada da forma que eu achava apropriada”, diz o diretor.
“Depois de Maio” mostra uma geração movida por ideais elevados, que discutia temas profundos nos intervalos entre filmes, livros e canções de uma época singularmente fértil no terreno da cultura. Os jovens do filme são fotogênicos e os figurinos e cortes de cabelo setentistas são valorizados por uma direção de fotografia solar. Ainda assim, o tom do filme nunca é de glamourização.
“Não tenho nostalgia daquela época. O peso ideológico que restringia a liberdade de pensamento era enorme. Havia um dogmatismo político que estava muito longe da realidade que vivíamos. Não lastimei quando os anos 70 acabaram, principalmente por essa questão ideológica”, diz Assayas.
“A cultura era mais viva. Mas também havia coisas insuportáveis, como aqueles solos de guitarra que duravam 15 minutos”
Mas ele também via muita coisa bela, como a rejeição ao materialismo e uma grande fé no futuro, coisas que hoje em dia, para ele, parecem ingênuas, mas que na época eram muito valorosas. “A cultura era mais viva. Mas também havia coisas insuportáveis, como aqueles solos de guitarra que duravam 15 minutos, ou os de bateria, que não acabavam nunca [risos]… Fora algumas músicas new age, que eram muito chatas!”
Assayas tem uma obra eclética, com notável habilidade para manejar uma câmera de forma naturalmente fluida. É hoje um dos cineastas franceses mais respeitados fora de seu país, sobretudo no mundo anglo-saxônico, onde passou a ser cultuado após “Irma Vep” (1996), sobre os bastidores da produção de um filme B.
Assim como Léos Carax (“Holy Motors”) e Claire Denis (“Trouble Every Day”), o diretor fez seu primeiro longa (“Désordre”) nos anos 1980, pertencendo à primeira geração do que alguns críticos chamam de “jeune cinéma français” (jovem cinema francês), movimento que se desenharia com mais nitidez na década seguinte (com o surgimento de nomes como Arnaud Desplechin, Xavier Beauvois e Bruno Dumont). São todos donos de obras muito pessoais, netos da nouvelle vague dos anos 1960, mas que foram influenciados sobretudo por nomes como Maurice Pialat, Jean Eustache e Philippe Garrel, da geração posterior à de Jean-Luc Godard e François Truffaut. “Na década de 1980, éramos isolados, tentando fazer um cinema moderno em um contexto que era, antes de mais nada, o fim de uma coisa pós-nouvelle vague. Tínhamos os mesmos valores, mas quando comecei a fazer filmes, tinha a impressão de estar só”, relembra.
Como seu alter ego do filme, Assayas queria ser artista plástico, mas o amor pelo cinema o fez mudar de rumo. Dirigiu seu primeiro curta, “Copyright”, em 1978, chamando a atenção de críticos da prestigiosa revista “Cahiers du Cinéma”, que o convidaram a integrar o expediente da publicação. “Escrevi sobre filmes entre 1980 e 1985, para mim foi uma escola de cinema. Antes, tinha vontade de filmar, mas me sentia meio ignorante sobre o assunto. Na revista, conversei com cineastas, vi filmes de difícil acesso e tive contato com as pessoas que entendiam muito sobre cinema, como [os então editores] Serge Daney e Serge Toubiana.”
Afiado ao analisar os filmes dos outros, Assayas reconhece ser incapaz de julgar os seus: “É impossível. Quando termino um filme, revejo inúmeras vezes para resolver questões técnicas, a ponto de chegar um instante em que não consigo mais vê-lo. Sempre esperei que, com o passar do tempo, pudesse rever meus filmes como se tivessem sido dirigidos por outra pessoa. Mas não consigo: ao ver as cenas, o que me vem à mente são os bastidores de cada cena. Não há distanciamento”.
Por meio de seu cinema, Assayas sempre externou seu interesse pela diversidade de culturas, sobretudo no mundo globalizado pós-internet – em seus filmes, viaja-se bastante e fala-se em várias línguas. O diretor tem particular fascínio pela Ásia (foi inclusive casado com a chinesa Maggie Cheung, sua musa em alguns filmes), mas talvez seu olhar se desloque para outra região do planeta em breve.
“Sempre me interessei pelo presente da história, me chama a atenção que a Europa não seja mais o lugar onde ela ocorre. Por isso filmei na Ásia, onde o mundo se transforma. Mas sempre me interessei pelo Brasil, que tem essa força, é hoje uma potência. Isso pode ser inspirador a um cineasta. Espero realmente poder fazer um filme aí algum dia, digo isso com total sinceridade.”
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Por Bruno Ghetti | Para o Valor, de São Paulo
LULA, O GRANDE VENCEDOR – por juremir machado da silva /porto alegre.rs
CORREIO DO POVO -ARTIGO – (LULA), O GRANDE VENCEDOR – por Juremir Machado da Silva
ANALFABETO É QUEM NÃO TEM O QUE DIZER
No jornal Correio do Povo do dia 25 de abril, o jornalista e escritor Juremir Machado da Silva, arrebenta com os preconceituosos que não engoliram o fato de Lula ter se tornado colunista do jornal mais influente do mundo, o The New Yor Times. Para Juremir “SABER ESCREVER É MUITO MAIS DO QUE DOMINAR REGRAS GRAMATICAIS. SABER ESCREVER É TER O QUE DIZER E TER UM JEITO PRÓPRIO DE FAZER ISSO…” Lula sabe. Leia, abaixo, a íntegra do texto de Juremir:
O GRANDE VENCEDOR
Minha admiração por vencedores não tem tamanho. Em todas as áreas. Admiro principalmente os que vencem pelas próprias forças contra tudo e todos. Minha admiração por Dunga é incomensurável. Por Felipão também. Já critiquei o atual treinador da Seleção, mas sem perder a admiração. Dunga e Felipão parecem sempre mal-humorados. No caso deles, é qualidade. Vem da sinceridade à flor da pele. Admirei um vencedor até as últimas consequências: o escritor argentino Jorge Luís Borges, que ficou cego. Admiro o mulato Machado de Assis, que se tornou nosso maior escritor. Enfim, admiro os que arrombam a festa. Admiro Roberto Carlos, Caetano Veloso e Chico Buarque.
Aprendi a admirar o maior vencedor do Brasil contemporâneo: Lula.
Que trajetória espantosa! O menino retirante de Pernambuco superou todas as expectativas e continua a nos embasbacar. Lula é um gênio da comunicação e da política. Um Pelé da esfera pública. A minha admiração por Lula acaba de dar mais um salto. Ele será colunista do jornal mais prestigioso do mundo: o americano The New York Times. Nem o sofisticado doutor Fernando Henrique Cardoso, que eu saiba, conseguiu tal façanha. Lula terá como colegas gente do quilate de Paul Krugman, prêmio Nobel da economia. É conto de fadas dos bons. O menino pobre, não pela bola, mas pela inteligência política, galga todos os degraus, torna-se presidente do Brasil, fascina boa parte do mundo e torna-se colunista do jornal mais influente da galáxia. Uau!
É para matar de raiva os preconceituosos que o chamam de analfabeto e para fazer explodir de inveja os elitistas. Tenho minhas decepções com Lula e com muitos daqueles que admiro, mas isso não anula o essencial: as razões para continuar admirando. Jamais gostei das alianças de Lula e acho que em alguns momentos ele foi Lulla. Mas que fera política, que inteligência superior, capaz de, independentemente de educação formal, colocá-lo acima dos seus concorrentes num “mercado” altamente competitivo.
Saber escrever é muito mais do que dominar regras de gramática. Saber escrever é ter o que dizer e ter um jeito próprio de fazer isso. Lula é possivelmente o maior comunicador da história do Brasil. Um monstro. Este Brasil teve na sua história três grandes políticos: Getúlio Vargas, João Goulart e Lula. O primeiro, por mudar o Brasil, saiu morto do palácio. O segundo, por colocar o país em risco de uma melhora substancial, especialmente no campo, foi derrubado, enxovalhado e transformado em homem fraco. O terceiro veio do nada e nada temeu: impôs-se como um revolucionário reformista, aceitou jogar o jogo até quando as cartas se embaralham, não morreu, não caiu, fez sua sucessora e agora vai mostrar suas ideias ao mundo nas páginas do The New York Times. É mole? É simulação? É coisa para quem tem bala na agulha, farinha no saco e fala outra linguagem, não a dos bacharéis, mas a dos transformadores do mundo.
Estou tendo um acesso de lulismo? É uma confissão de petismo? Nada disso. Apenas uma maneira de mostrar o quanto admiro os que vencem pelo talento. Poderia dizer o mesmo do conservador Charles de Gaulle. Ou até da recém-falecida Margaret Thatcher. O talento de uns melhora o mundo, o de outros piora.
Revelada Imagens de toda a web mostrando a verdade da bomba em Boston.

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Lula recebe prêmio em Nova York por “transformar o significado de paz e prevenção de conflitos”
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Lula recebe prêmio em Nova York por “transformar o significado de paz e prevenção de conflitos”
“Combater a fome e a miséria em escala global é o passo mais importante que podemos dar no caminho para a paz”, disse Lula em seu discurso
Foto: Ricardo Stuckert/Instituto Lula
- Foto: Ricardo Stuckert/Instituto Lula

- Foto: Ricardo Stuckert/Instituto Lula

- Foto: Ricardo Stuckert/Instituto Lula
O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva recebeu na noite desta segunda-feira (22) em Nova York o prêmio “Em Busca da Paz”, conferido pelo International Crisis Group. Lula foi homenageado por ter “impulsionado seu país a uma nova era econômica e política”.
Para baixar fotos em alta resolução, visite o Picasa do Instituto Lula.
O prêmio reconhece o trabalho de Lula em tirar milhões de pessoas da pobreza e construir uma política de parceria com vizinhos e países africanos, o que transformou o Brasil em um “ator mundial crucial”.
Em seu discurso, Lula propôs o combate à fome e à miséria como caminho para transformar o século 21 em uma era de paz. “Combater a fome e a miséria em escala global é o passo mais importante que podemos dar no caminho para a paz. E depois do que conquistamos no Brasil, eu me recuso a duvidar da nossa capacidade de fazer um mundo melhor. Combatendo a fome e a miséria, promovendo o diálogo e o respeito entre os povos, podemos fazer do Século 21 a era da paz”.
O Crisis Gorup trabalha em mais de 60 países na prevenção e solução de conflitos. Seus relatórios e análises são respeitados globalmente por atores que vão de governos à imprensa como documentos de referência sobre crises locais. “Nós acreditamos que para acabar com os conflitos é preciso entendê-los a fundo”, explica Louise Arbour. Entre os convidados do jantar desta segunda em Nova York estavam o megainvestidor e filantropo George Soros, o prêmio Nobel de Economia Joseph Stiglitz e Mo Ibrahim, empreendedor sudanês que foi o pioneiro da “revolução dos celulares” na África.
Javier Ciurlizza, diretor de programa para América Latina e Caribe do Crisis Group, diz que sem esperança não há paz, e que Lula colocou isso em prática. “Ele defendeu a Unasul, que criou um espaço para as nações conversarem, no lugar de lutar. Ele trabalhou no coração da resolução de conflitos. Ele entende de uma maneira profunda que só erradicando a fome e a exclusão social, dando nova esperança às pessoas, a paz e a segurança são sustentáveis”.
Discurso
O ex-presidente falou durante pouco menos de 25 minutos (ouça o discurso na íntegra acima) e destacou que o compromisso dos governantes com a democracia e em melhorar a vida das pessoas é um passo fundamental para a paz. E voltou a defender que a crise deve ser combatida com desenvolvimento e distribuição de renda.
Thein Sein
Na noite desta segunda-feira, o presidente de Mianmar, Thein Sein, também foi homenageado. O general Thein Sein iniciou um processo de democratização de uma ditadura militar que já dura meio século. Ele convocou eleições, libertou presos políticos e permitiu que a imprensa privada sem censura prévia voltasse a atuar no país. “Mianmar iniciou um conjunto de reformas notáveis e sem precedentes desde que o governo do presidente Thein Sein assumiu em março de 2011″, disse a presidenta do Crisis Group, Louise Arbour. No entanto, na avaliação do próprio Crisis Group, o país asiático ainda precisa dar seguimento ao processo de liberalização política ocorrido até agora”.
Esta é a oitava edição do prêmio. Entre personalidades que já receberam a homenagem estão os presidentes dos EUA Bill Clinton e George W. Bush; os prêmios Nobel da Paz Martti Ahtisaari e Ellen Johnson Sirleaf, e o financista e filantropo George Soros.
O Crisis Group - www.crisisgroup.org/en/about.aspx (em inglês)
Focado na prevenção de conflitos internacionais, o International Crisis Group foi fundado em 1995, com o objetivo de ser uma organização independente de governos e com uma equipe profissional especializada para “atuar como olhos e ouvidos no mundo para impedir conflitos e com um Conselho altamente influente, capaz de mobilizar formuladores de políticas públicas ao redor do planeta”.
Atualmente, a organização emprega mais de 150 pessoas em 10 escritórios regionais, que cobrem cerca de 60 países em situação de risco ou de conflito ativo. O Crisis Group combina a publicação de relatórios e análises técnicas respeitadas internacionalmente, com um Conselho de Administração capaz de mobilizar outros formuladores de políticas públicas ao redor do globo. No conselho estão 10 ex-presidentes (dois deles americanos), um ex-primeiro ministro europeu e um Nobel da Paz, entre outros líderes nos campos da política, diplomacia, negócios e mídia.
Justiça anula punição a réus do escândalo do Banestado
Justiça anula punição a réus do escândalo do Banestado
FREDERICO VASCONCELOS
DE SÃO PAULO

O Superior Tribunal de Justiça extinguiu completamente a punição de sete dos 14 ex-diretores e gerentes do Banestado –banco paranaense privatizado em 2000– condenados pela remessa fraudulenta de R$ 2,4 bilhões ao exterior, nos anos 90.
Em 2003, uma força-tarefa investigou o esquema que transferia para paraísos fiscais dinheiro da corrupção e do tráfico de drogas através de depósitos de doleiros em contas de laranjas e nas chamadas contas CC5 (criadas para permitir transferências legais para o exterior).
Dez anos depois, em 19 de março último, o STJ reconheceu a prescrição. Ou seja, a perda do prazo para que sete réus cumprissem penas por evasão de divisas e gestão fraudulenta. Outros três se livraram parcialmente: ainda respondem por gestão fraudulenta.
O processo foi julgado em doze meses pelo juiz Sergio Fernando Moro, da 2ª Vara Federal Criminal de Curitiba.
Em 2004, os 14 acusados foram condenados a penas de até doze anos e oito meses.
A ação permaneceu durante cinco anos no Tribunal Regional Federal da 4ª Região, em Porto Alegre, para julgamento de apelações. O TRF-4 absolveu os acusados do crime de quadrilha e reduziu significativamente as penas. O processo está há mais de três anos no STJ.

A Procuradoria-Geral da República levou um ano e três meses para emitir parecer.
“É realmente lamentável que a prescrição tenha ocorrido”, diz o procurador da República Vladimir Aras, que participou das investigações.
Doleiros do país inteiro abriam contas em nome de laranjas no Banestado. Um desempregado, por exemplo, depositou R$ 15 milhões.
A abertura dessas contas tinha a concordância dos gerentes das agências.
O dinheiro era transferido para contas CC5, principalmente no Paraguai, de onde era remetido para outros países, sem que o Banco Central soubesse quem era o titular.
A ação penal contra ex-gestores do Banestado é resultado de um dos milhares de inquéritos policiais instaurados em todo o país. Foram denunciadas 631 pessoas.
“Boa parte do dinheiro desviado dos cofres públicos pelo ex-prefeito Paulo Maluf foi enviado ao exterior mediante contas do Banestado em Nova York”, diz o promotor de Justiça Sílvio Marques. Maluf sempre afirmou não ter contas no exterior.
Alguns doleiros foram condenados pela Justiça em decisões que não admitem mais recursos. É o caso de Antônio Oliveira Claramunt (o “Toninho da Barcelona”), Alberto Youssef e Helio Laniado.
“A prescrição retroativa, ao fim das intermináveis quatro instâncias, é invenção brasileira sem paralelo no mundo”, diz o procurador da República Celso Três.
A força-tarefa formada em 2003 conseguiu bloquear R$ 333,5 milhões no Brasil e cerca de R$ 34,6 milhões no exterior. Segundo o procurador Vladimir Aras, “apesar da prescrição, a força-tarefa foi exitosa, pois conseguimos repatriar US$ 3,6 milhões”.
PRECISA DE ATENÇÃO A POLITICA DOS ESTADOS UNIDOS PARA COM A A AMÉRICA DO SUL. MUITA ATENÇÃO. – por marc weisbrot / ny.usa
Acontecimentos recentes indicam que a administração Obama intensificou sua estratégia de “mudança de regime” contra os governos latino-americanos à esquerda do centro, promovendo conflito de maneiras que não eram vistas desde o golpe militar apoiado pelos EUA na Venezuela em 2002.
O exemplo mais destacado é o da própria Venezuela na última semana. No momento em que este artigo está sendo impresso, Washington está mais e mais isolada em seus esforços para desestabilizar o governo recém-eleito de Nicolás Maduro.
Mas a Venezuela não é o único país vitimado pelos esforços de Washington para reverter os resultados eleitorais dos últimos 15 anos na América Latina.
Está claro agora que o afastamento do presidente paraguaio Fernando Lugo, no ano passado, também teve a aprovação e o apoio do governo dos Estados Unidos.
Num trabalho investigativo brilhante para a agência Pública, a jornalista Natalia Viana mostrou que a administração Obama financiou os principais atores do chamado “golpe parlamentar” contra Lugo. Em seguida, Washington ajudou a organizar apoio internacional ao golpe.
O papel exercido pelos EUA no Paraguai é semelhante a seu papel na derrubada militar, em 2009, do presidente democraticamente eleito de Honduras, Manuel Zelaya, caso no qual Washington dominou a Organização de Estados Americanos e a utilizou para combater os esforços de governos sul-americanos que visavam restaurar a democracia.
Na Venezuela, na semana passada, Washington não pôde dominar a OEA, mas apenas seu secretário-geral, José Miguel Insulza, que reiterou a reivindicação da Casa Branca (e da oposição venezuelana) de uma recontagem de 100% dos votos.
Mas Insulza teve de recuar, como teve de fazer a Espanha, única aliada importante dos EUA nessa empreitada nefanda, por falta de apoio.
A exigência de uma recontagem na Venezuela é absurda, já que foi feita uma recontagem das cédulas de papel de uma amostra aleatória de
54% do sistema eletrônico. O total obtido nas máquinas foi comparado à contagem manual das cédulas de papel na presença de testemunhas de todos os lados.
Estatisticamente falando, não existe diferença prática entre essa auditoria enorme já realizada e a recontagem.
Jimmy Carter descreveu o sistema eleitoral da Venezuela como “o melhor do mundo”, e não há dúvida quanto à exatidão da contagem.
É bom ver Lula denunciando os EUA por sua ingerência, e Dilma juntando sua voz ao resto da América do Sul para defender o direito da Venezuela a eleições livres.
Mas não apenas a Venezuela e as democracias mais fracas que estão ameaçadas pelos EUA.
Conforme relatado nas páginas deste jornal, em 2005 os EUA financiaram e organizaram esforços para mudar a legislação brasileira com vistas a enfraquecer o PT. Essa informação foi descoberta em documentos do governo americano obtidos graças à lei americana de liberdade de informação. É provável que Washington tenha feito no Brasil muito mais e siga em segredo.
Está claro que os EUA não viram o levemente reformista Fernando Lugo como um elemento ameaçador ou radical. O problema era apenas sua proximidade excessiva com os outros governos de esquerda.
Como a administração Bush, a administração Obama não aceita que a região mudou. Seu objetivo é afastar os governos de esquerda, em parte porque tendem a ser mais independentes de Washington. Também o Brasil precisa se manter vigilante diante dessa ameaça à região.
MARK WEISBROT, 58, é codiretor do Centro de Pesquisas Econômicas e Políticas, em Washington, e presidente da Just Foreign Policy.
Folha de S. Paulo
Tradução de CLARA ALLAIN
MARATONA DE BOSTON: MAIS SUSPEITAS DE FRAUDE
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Natural News acabou de confirmar que ao menos 5 militares terceirizados (mercenarios) estavam operando na cena do crime na maratona de Boston, todos carregavam mochilas pretas semelhantes às usadas para carregar as panelas de pressão com bombas (veja a foto abaixo)
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A mídia tradicional está censurando completamente qualquer menção a esses mercenários da Craft (empre)sa de ‘segurança’ militar semelhante a Black Water), fazendo de conta que não existem. Só a mídia alternativa está conduzindo uma investigação verdadeiramente jornalistica desses ataques. A mídia tradicional não está interessada na verdade, só querem torcer o ataque até virar uma forma de culpar os suspeitos de sempre (arabes e americanos extremestas) por algo em que eles não participaram.
Graças a ajuda de pesquisadores postando no 4Chan, mais algusn de nosssos analistas, conseguimos trazer a nova pesquisa à luz, como se pode ver nas fotos abaixo
Quem é esse cara e o que é isso em suas mãos???A foto seguinte foi tirada poucos momentos depois da detonação da primeira bomba. Muitas pessas estão se perguntando. “Quem é esse cara?” e por que ele está em botas e calças de combate. Mais importante, o que ele leva em suas mãos?
fomos capazes de dar um close em suas mãos
com um pouco de pesquisa fomos capazes de descobrir que esse aparelho é um “detector de alerta de radiação” aparelho usado para situações de bomba suja, ou ataque nuclear.
Isso imediatamente suscita questões do tipo: Quem contratou esse cara? De que lado ele está? Por que ele teria adivinhado a necessidade de um detector de radioatividade? Que tipo de mercenários carrega rotineiramente um equipamento desses, tão caro? Mais quatro mercenários com o mesmo uniformeQuando investigavamos as fotos, localizamos mais quatro mercenários com os mesmos uniformes: botas de combate caqui, calças de combate caqui, jaquetas pretas, mochilas pretas e equipamento de comunicação tática. Aqui uma foto de 3 desses mercenários, o do meio é o mesmo da foto acima:
Várias coisas a reparar nessas fotos: 1) Todos os três parecem surpresos, mesmo chocados pelos eventos. Isso pode parecer significar que eles não esperavam o evento. 2) O objeto na mão do homem do meio pode parecer uma arma de mão, mnas tenho certeza que não é. Por que? Por que nenhum mercenário bem treinado iria carregar uma arma com dedos em pinça. A maneira correta de carregar uma arma enquanto se corre é firmemente na palma da mão. Esse objeto é provavelmente um detector de radioatividade como o da foto acima. 3) O homem à esquerda parece carregar um aparelho que aciona com o polegar, um rádio???. 4) O homem da direita revela em sua camiseta o logo da “The Craft” na camiseta, vispivel por que sua jaqueta se abriu para essa foto (veja abaixo) Aqui a foto comparativa do logo da Craft
Mais dois mercenarios na cena do crime com o mesmo uniforme
no boné desse acima o logo d:
O fuzileiro Naval e franco atirador Chris Kyle também era um membro da Craftt. Ele foi assassinado por um de seus mais próxiumos amigos alguns meses atrás. A aparência dos mercenários da Craft na Maratona de Boston levanta questões a respeito da morte de Chirs Kyle :
Eis Chris Kyle na TV nacional usando o boné da Craftt:
Aqui o slogan da Craft que diz ” A violência resolve, sim, alguns problemas.”
Se vc ainda tem dúvidas a respeito dos mercenários da Craft, cheque esse site The Craft website onde esses logos, uniformes e equipamentos são visíveis. As mochilas bomba são similares às mochilas usadas pelos mercenários CraftAqui é que a coisa fica realmente assustadora: As mochilas que levavam as panelas de pressão parecem incrivelmente semelhantes às usadas pelos mercenários da Craft:
Outra vista do logo da caveira da Craft tiradas do seu próprio website:
Essa foto mostra funcionários da Craft num feira de negócios. Todos usam as mesmas botas e calças de combate:
O que tudo isso significa?Primeiro nos livremos da baboseira dos trolls de que isso é teoria de conspiração.” Como podem, fotos de pessoas reais serem evidencia de teoria de conspiração? Elas não são. Em trabalho policial de verdade se chamam de evidências e as pessoas nas fotos deveriam ser encaradas como pessoas de interesse (gente passível de investigfação). Mas elas não são!! toda a mídia e o aparato policial estão fazendo de conta que eles não existem. (Agora essa é a teoria de conspiração DELES) Sabemos, entretanto, que os funcionários da Craft não trabalham de graça. Eles não são um bando de voluntários. isso significa que alguém os pagou para estar ali. Quem pagou a Craft para ir à maratona? E qual era sua missão? Por que sua presença na Maratona de Boston está sendo ignorada? Por que essas pessoas de interesse não estão sob investigação? Por que eles carregam detectores de radiação? O que há em suas mochilas? Sanduiches de presunto? O fato de que a midia se recusa mesmo a reconhecer a existência de tais mercenários é auto evidente. |
Secretário de Estado americano, John Kerry, considera América Latina como “quintal” dos EUA
O secretário de Estado estadunidense, John Kerry, qualificou nesta quinta-feira (18) que a América Latina é o “quintal dos Estados
Unidos” e não como uma região vizinha, soberana e independente onde convergem numerosas nações, com diferentes ideias ou tendências sociais, econômicas ou culturais.
Em discurso realizado diante o Comitê de Assuntos Exteriores da Câmara de Representantes, Kerry quis destacar a importância de uma maior aproximação com a América Latina, porque trata-se do “quintal” de seu país.
Neste sentido, adiantou que tem planos de viajar, em breve, para a Colômbia e Brasil, e confirmou visitas do presidente Barack Obama para o México e Costa Rica, em maio. “A América Latina é nosso quintal (…) temos que aproximarmos de maneira vigorosa”, disse o chefe da diplomacia estadunidense, exortando para a administração Obama fazer um esforço especial com os países latinos.
Com suas declarações, Kerry revive a velha Doutrina Monroe, que desde 1823, serviu de guia para as relações dos Estados Unidos com a América Latina. Sua visão única é impor a vontade e influência política e econômica norteamericana aos vizinhos do sul, eliminando qualquer indicio de resistência.
A Doutrina Monroe estabelece que se um país americano ameaça ou coloca em perigo os direitos ou propriedades de cidadãos ou empresas estadunidenses, então Washington está obrigado a intervir nos assuntos deste país para “reordená-lo” e restabelecer os direitos e o patrimônio de sua cidadania e suas empresas.
Eleições na Venezuela
Na ocasião, Kerry foi consultado sobre os resultados das eleições venezuelanas e respondeu “deve haver uma recontagem [dos votos]”. Os Estados Unidos ainda não reconhecem Nicolás Maduro como presidente eleito na Venezuela. Desta maneira, Kerry contradiz a posição assumida por todos os organismos regionais que reconheceram a vitória de Maduro e a transparência do processo e o resultado como a Organização dos Estados Americanos (OEA), a União das nações Sul-americanas (Unasul), o Mercado Comum do Sul (Mercosul), entre outros.
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Fonte: TeleSur
Antônio Carlos Jobim (Tom Jobim) – entrevistado por Clarice Lispector
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| Clarice Lispector e Tom Jobim, no lançamento de “A maçã no escuro” (Foto: Arquivo Nacional) |
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| Tom Jobim (Foto: Antônio Andrade) |
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| Tom Jobim (Foto: Instituto Antônio Carlos Jobim) |
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| Tom Jobim (Foto: Otto Stupakoff) |
Jovem rico erra. “Menor” pobre comete crime – por leonardo sakamoto / são paulo.sp
Os repetidos casos de violência gerados por jovens da classe média alta brasileira e a forma aviltante com a qual têm sido tratados adolescentes pobres no processo de ocupação policial de comunidades no Rio de Janeiro me deixam duplamente incomodado. Primeiro, é claro, pelo fato em si. Segundo, pela forma como a sociedade se comporta diante disso.
Sabemos que é mais fácil uma pessoa que roubou um xampu, um litro de leite ou meia dúzia de coxinhas ir amargar uma temporada no xilindró – como mostram diversos casos que já trouxe aqui – do que um empresário que corrompeu ou um político que foi corrompido passarem uma temporada fora de circulação.
Não que o princípio da insignificância (que pode ser aplicado quando o caso não representa riscos à sociedade e não tenha causado lesão ou ofensa grave) não seja conhecido pelo Judiciário. Insignificante mesmo é quem não tem um bom advogado, muito menos sangue azul ou imunidade política.
Tempos atrás, a seguinte notícia veio a público:
“A empregada doméstica Sirley Dias de Carvalho Pinto, de 32 anos, teve a bolsa roubada e foi espancada por cinco jovens moradores de condomínios de classe média da Barra da Tijuca, na madrugada de sábado. Os golpes foram todos direcionados à sua cabeça. Presos por policiais da 16ª DP (Barra), três dos rapazes (…) confessaram o crime e serão levados para a Polinter. Como justificativa para o que fizeram alegaram ter confundido a vítima com uma prostituta.”
Os rapazes não eram da ralé. Se fossem de classe social mais baixa, certamente o texto seria sutilmente diferente:
“A empregada doméstica Sirley Dias de Carvalho Pinto, de 32 anos, teve a bolsa roubada e foi espancada por cinco moradores da favela da Rocinha, na madrugada de sábado. Os golpes foram todos direcionados à sua cabeça. Presos por policiais da 16ª DP (Barra), três dos bandidos (…) confessaram o crime e estão presos. Como justificativa para o que fizeram alegaram ter confundido a vítima com uma prostituta.”
Rico é jovem, pobre é bandido. Um é criança que fez coisa errada, o outro um monstro que deve ser encarcerado. Lembro que o pai de um deles, num momento de desespero, justificou a atitude do filho como sendo perdoável. Da mesma forma, o pai de um dos jovens que agrediram homossexuais com lâmpadas fluorescentes na avenida Paulista, em São Paulo, pediu condescendência. Afinal, isso não condiz com a criação que tiveram. Bem, são pais, é direito deles. O incrível é como a sociedade encara o tema, com uma diferenciação claramente causada pela origem social.
Tenho minhas dúvidas se a notícia sairia se fosse o segundo caso. Provavelmente, na hora em que o estagiário que faz a checagem das delegacias chegasse com a informação, ouviria algo assim na redação: “Pobre batendo em pobre? Ah, acontece todo dia, não é notícia. Além disso, é coisa deles com eles. Então, deixem que resolvam”.
Amigos que trabalharam em uma rádio grande de São Paulo, pertencente a um grupo de comunicação, já ouviram algo muito parecido, mas mais cruel… É triste verificar mais uma vez que o conceito de notícia depende de qual classe social pertencem os protagonistas. Somos lenientes com os nossos semelhantes, com aqueles que poderiam ser nossos primos e irmãos, e duros com os outros.
A justificativa dos espancadores também é bastante esclarecedora. Ou seja, “puta” e “bicha” pode. Assim como índio e “mendigo”. Lembram-se do Galdino, que morreu queimado por jovens da classe média brasiliense enquanto dormia em um ponto de ônibus? Ou a população de rua do Centro de São Paulo, que vira e mexe, é morta a pauladas enquanto descansa? Até onde sabemos, apesar dos incendiários brasilienses terem sido presos, eles possuíam regalias, como sair da cadeia para passear. E na capital paulista, crimes contra populacão de rua tendem a ser punidos com a mesma celeridade que agressões contra indígenas no Mato Grosso do Sul.
Na prática, as pessoas envolvidas nesses casos apenas colocaram em prática o que devem ter ouvido a vida inteira: putas, bichas, índios e mendigos são a corja da sociedade e agem para corromper os nossos valores morais e tornar a vida dos cidadãos de bem um inferno. Seres descartáveis, que vivem na penumbra e nos ameaçam com sua existência, que não se encaixa nos padrões estabelecidos. E por que não incluir nesse caldo as empregadas domésticas, que existem para servir? Se eles soubessem a profissão de Sirley, teria feito diferença?
A sociedade tem uma parcela grande de culpa em atos como esse e os dos jovens que se tornam soldados do tráfico por falta de opções e na busca por dignidade, fugindo da violência do Estado e do nosso desprezo. A culpa não é só deles.
A diferença é que, para os da classe média e alta, passamos a mão na cabeça. Afinal, são “jovens”. Para os pobres, os “menores”, passamos bala.
Festa de aniversário, de Fux, seria um evento patético, uma data para ser esquecida
Carlos Newton
Não se fala em outra coisa nos meios jurídicos. No próximo dia 26, o ministro Luiz Fux ia celebrar seu aniversário de 60 anos e programou uma megafesta, a se realizar na casa do advogado milionário Sérgio Bermudes, no Rio, com centenas de convidados, demonstrando que Fux pouco se importou sobre as críticas do presidente do Supremo, Joaquim Barbosa, às relações perigosas entre magistrados e advogados. Mas a repercussão foi tão negativa que ele teve de cancelar a comemoração.
Feliz aniversário…
E todos os que se julgam importantes na Justiça queriam receber convites para a festa. De acordo com o jornal “Folha de S. Paulo”, entre os convidados estavam todos os 180 desembargadores do Tribunal de Justiça fluminense, o governador Sérgio Cabral e o prefeito do Rio, Eduardo Paes (PMDB), além de todos os ministros do Supremo Tribunal Federal.
Mas o goverrnador do Rio, Sérgio Cabral (PMDB), se apressou em desmentir ter sido convidado. E o prefeito Eduardo Paes (PMDB) fez o mesmo. De uma hora para outra, depois da denúncia de José Dirceu sobre um acordo com Fux, a proximidade com o ministro do Supremo passou a ser vista como negativa.
SEM IMAGEM
No caso de Sérgio Cabral, ao negar o convite, diga-se que o governador tenta preservar sua imagem, embora isso seja impossível. Corrupto, preguiçoso e incompetente, Cabral já não tem imagem alguma. Ele se tornou um vampiro do povo, que diante do espelho não consegue se ver.
Mas a verdade é que a filha do ministro, Mariana Fux, trabalha como advogada do escritório de Sérgio Bermudes e disputa uma indicação para o Tribunal de Justiça do Rio pelo chamado quinto constitucional, na vaga reservada à Ordem dos Advogados do Brasil, e Fux está fazendo lobby por ela.
A seleção começa com uma lista de seis advogados, enviada para a apreciação dos desembargadores em atividade. Eles selecionam três dos candidatos, dentre os quais o governador Cabral escolherá o vencedor. Mais do que depressa, Cabral negou ter conhecimento sobre uma possível articulação visando à nomeação da filha do ministro para desembargadora.
“Eu nunca ouvi falar disso. A mim, nunca chegou esse assunto”, disse o governador. “Agora, que ela é uma advogada brilhante e respeitada, ela é. Conheço ela do escritório do Sérgio Bermudes. Conheço ela como advogada”, tentou justificar Cabral, que, como Paes, agora nega ter sido convidado para a festa.
Tudo isso demonstra o grau de apodrecimento da Justiça brasileira, que não é diferente do Executivo e do Legislativo. São três Podres Poderes, na expressão genial de Caetano Veloso. E como dizia Erasmo carlos, vejam só que festa de arromba.
1964 – “O ano que nunca acaba…” – por paulo timm / torres.rs
11 de abril
1964 – “O ano que nunca acaba…”
O título não é meu. É do meu amigo escritor A. Brandão Brandão, que diz que não agüenta mais tanta falação sobre o fatídico 1964. Mas não resisto. Volto ao assunto. Sorry Brandão…
A verdade é que o 1964 não vai acabar nunca. Sempre haverá o que dizer. Contra ou favor, estes em número cada vez menor. Já foram os
mais, outrora. Hoje se resumem a alguns saudosistas da caserna e um ou outro radical de direita. E por que volto ao tema? Porque há uma tendência em se concentrar a crítica ao Golpe apenas nos militares e, com isso, safam-se todos as suas “vivandeiras” e defensores oblíquos.
Nesta data, 11 de abril, por exemplo, em meio à prisões, ameaças, algumas mortes e pressões de todo tipo, no ano de 1964, o Congresso Nacional referendava, através do voto, o nome do General Castelo Branco , chefe do golpe, como Presidente da República, cargo declarado vago com o exílio de João Goulart. Insólito. Inacreditável. Ele deveria “completar”o mandato da Presidência, declara vaga. O golpe se institucionalizava, já naquela época, de forma semelhante ao que aconteceu no ano passado com o Presidente Lugo, no Paraguai. Mas como…?
Muito simples: Primeiro, porque o país estava dividido, não entre comunistas, aliados de Jango, como pretendiam os golpistas, e não comunistas, eles próprios, mas entre uma parte significativa da sociedade brasileira, que apoiava o Programa de Reformas de Base, em curso no país, sob o comando do Presidente da República, e uma parte que reagia às mudanças democraticamente encaminhadas, os “reacionários”. O Congresso Nacional refletia esta divisão. Uma parte, liderada pelo antigo PARTIDO TRABALHISTA BRASILEIRO – PTB – , ao qual pertencia o Presidente, o apoiava; outra, com epicentro na UNIÁO DEMOCRÁTICA NACIONAL o combatia ferozmente. Era um tempo de grandes mudanças na sociedade brasileira e de intensos debates e mobilizações populares, envolvendo sindicatos de trabalhadores, camponeses, estudantes, intelectuais e até militares. O país se urbanizava rapidamente, a população crescia, as demandas explodiam. No fundo, tratava-se do coroamento de um processo de incorporação de massas populares à economia e à política que vinha se intensificando desde o final da II Grande Guerra, em 1945, ao qual um Governo de esquerda moderada, de corto social-democrata, liderado por Jango, procurava responder positivamente, olhando para o futuro. No dia 13 de março, o Presidente, à frente da Central do Brasil, no Rio de Janeiro, havia anunciado uma ampla reforma agrária. Foi a gota d ‘água para os setores conservadores. Já articulados aos interesses estratégicos dos Estados Unidos, lançaram-se ao golpe, com amplo apoio da Igreja Católica, da grande mídia, dos líderes de direita, como Carlos Lacerda, Governador do Rio, Magalhães Pinto, Governador de Minas, ambos da UDN, de Ildo Meneghetti, no Rio Grande do Sul e Ademar de Barros, do PSP, ideologicamente ambíguo , grandes empresários e setores expressivos da classe média. Não fora, aliás, o apoio nestes Governadores de Estados grandes e fortes, o golpe dificilmente teria tido sucesso. Quando o Governo caiu sob o Golpe, líderes do então PSD , um Partido que iria dar a base e os contornos do futuro MDB/PMDB , como Juscelino, Tancredo , Ulysses Guimarães e muitos outros, mesmo aninhados na “Base Aliada” do Governo, o abandonaram imediatamente. Aderiram ao golpe. E , com ampla base parlamentar no Congresso, deram seus valiosos votos em apoio à sufragação do General Presidente. Isto foi trágico, porque “legitimou”pelo Congresso a violência das armas. E permitiu aos militares , mediante artifícios legais, permancerem no poder por 21 anos.
Têm razão, pois, os militares, quando dizem que não atuaram sozinho.
Realmente, eles foram a ponta de lança de um complô conservador que tinha seu epicentro nos interesses americanos no continente e que se armara no Brasil com o apoio financeiro e político a diversas entidades que operavam livremente no país angariando adeptos e apoios.
Tampouco foram todos os militares , os que se envolveram no golpe. Pelo contrário, havia no Exército Brasileiro uma ampla tradição de debates e de presença da instituição em torno de grande projetos como a siderurgia, petróleo e até mesmo a construção de Brasilia no Planalto Central. E foi precisamente por causa da divisão interna das forças armadas quanto à conjuntura nacional que a repressão se deu primeiro dentro delas, levando ao afastamento , às vezes à liquidação, dos oficiais democratas. Dessa forma, seria possível engolfar o conjunto delas numa ideologia de segurança nacional que acabaria levando aos anos de chumbo, depois do 13 de dezembro de 1968, quando os órgãos da inteligência passaram a controlar a vida nacional. Lamentavelmente, esta lavagem cerebral , apesar de quase três décadas da redemocratização, ainda persiste nos quartéis. E o centro dos ataques da esquerda às forças armadas, como responsáveis exclusivas pelo Golpe, sem a explicitação dos grandes interesses que lhe sustentavam, só faz acirrar a animosidade. Tempo, pois, de pensar esta data de 11 de abril, como tão ou mais importante do que a do 31 de março, pois ela reflete , com mais nitidez, o que ocorreu realmente no país naquele ano de 1964.
Slavoj Zizek: “Estou cansado das análises culturais e políticas”
O cansaço do filósofo esloveno
Em conversa com o Jornal do Commercio, o filósofo esloveno diz que procura mostrar agora seu trabalho mais teórico e que o momento é de pensar a crise.
“Eu acho que mais do que nunca a ideologia é hoje parte da nossa vida cotidiana”, diz Zizek
Conhecido como polemista e figura midiática, Slavoj Zizek está cansado de falar da cultura pop. Cada vez se vê mais como um filósofo –
ainda que um filósofo pouco convencional, de ideias ousadas e quase contraditórias. Em viagem ao Brasil para lançar seu novo livro, Menos que nada: Hegel e a sombra do materialismo dialético (Boitempo, 656 páginas, R$ 79), trabalho densamente reflexivo, o esloveno falou ao JC por telefone. Zizek faz nesta sexta (15/3) palestra no Recife, às 19h30, no Teatro da UFPE, dentro da estreia do projeto ArtFliporto Apresenta, com ingressos a R$ 20 e R$ 10 (meia).
JC – Seu trabalho passa por diversos campos teóricos, da teoria cultural ao multiculturalismo. O que, para você, o faz tão lido em diversos círculos acadêmicos?
SLAVOJ ZIZEK – Bem, eu conecto algumas semiteorias, como as de Hegel, as de Jacques Lacan e a crítica de Marx da ideologia com elementos da cultura popular, referências ao cinema, entre outros. Eu dei a psicanálise, junto com alguns amigos, uma orientação diferente. Lacan, quando eu e meus amigos começamos a trabalhar, era visto em geral como um psicanalista crítico, um pouco ligado à teoria da cultura, mas não como alguém cujo trabalho cria referências para o campo político. Existe talvez outro aspecto: eu – e é por isso que eu tenho vários opositores – provoco, quebro posições estabelecidas. Por exemplo, você mencionou o multiculturalismo. Eu sou completamente contra o tema do multiculturalismo, do establishment cultural. Eu resisto em absoluto a ser parte do multiculturalismo. Eu disse em um ensaio meu de dez anos atrás: o multiculturalismo é a principal ideologia do capitalismo tardio global. Eu não vejo nada de subversivo no multiculturalismo. Também não sou, definitivamente, parte do que é chamado de análise do discurso ou do desconstrucionismo francês de Michel Foucault e outros. Não! Eu defendo, se você quiser chamar assim, um retorno à grande metafísica. Mas, em algum momento, eu devo desapontá-lo: eu estou ficando um pouco cansado das análises culturais e políticas. Nos últimos anos, eu tenho retornado para o campo da pura filosofia. Estou ficando velho e acho que devo focar no que eu realmente tenho a dizer.
JC – Você se tornou uma figura midiática e já chegaram até a inventar uma amizade entre você e Lady Gaga. Isso atrapalha seu trabalho?
ZIZEK – Aquilo foi uma loucura! Eu simplesmente vivo no meu próprio mundo, sem ser afetado por toda essa estupidez. Eu ignoro isso. Eu sou uma pessoa extremamente solitária. Eu não vou a festas, eu não circulo por lugares. Para lhe dar uma ideia, nessa minha turnê pelo Brasil, sabia que eu não estive com outras pessoas? Não estive em nenhum almoço, jantar, ou evento social. Eu insisti nisto: eu faria palestras, daria, talvez, um número limitado de entrevistas, mas o restante do tempo eu iria ter todo para mim mesmo. Então, isso é absurdo, eu tenho uma vida muito privada.
JC – Você é um pensador que gosta de ir aonde o público está, de dialogar. Qual é o papel de um intelectual hoje?
ZIZEK – Tem algo que gosto de repetir: o grande papel dos intelectuais não é dar respostas. As pessoas me perguntam, por exemplo, sobre a crise ecológica: “O que devemos fazer?”. Eu não sei! A principal tarefa do intelectual público hoje, eu acho, é permitir, ou melhor, possibilitar que as pessoas pensem, fazer com que elas façam as perguntas certas. Eu acho que os problemas que nós temos hoje existem porque nós estamos fazendo as perguntas erradas. Nós entendemos qual é o problema real, mas a forma de formular o problema é falsa. Por exemplo, é só tomar o racismo, o sexismo, todos esses “ismos” populares de hoje. Ao menos no Ocidente, eles são traduzidos como um problema de tolerância, de que nós devemos ser mais tolerantes. Eu sou totalmente contra isso. Acho que isso é uma mistificação. Até escrevi um livro curto, lançado na Europa, com o título Elogio da intolerância. Outro exemplo é a ecologia. Todos nós sabemos que há um problema. Mas eu acho que o modo de formularmos o problema costuma ser errado. Por exemplo, todas essas coisas de que eu não gosto, mesmo em Evo Morales, as celebrações de alguma “Mãe Natureza”, com uma abordagem holística, e a visão de como o capitalismo a destrói e como nós a exploramos em excesso – eu não aceito de forma alguma essa visão. Qualquer celebração da natureza que leve em conta alguma ideia de “sabedoria” é, para mim, totalmente errada. Então, não é que eu ofereça respostas fáceis. Eu só quero que as pessoas vejam os problemas econômicos de hoje. Acho crucial convencer as pessoas de que o problema não são a falta de regulações do mercado, os banqueiros gananciosos ou seja lá o que for. O problema está no sistema. Estamos começando a perceber lentamente que existe algum antagonismo desequilibrado, uma falha de construção, por assim dizer, no nosso capitalismo global.
JC – Como se pode continuar a interpretar o mundo de hoje a partir do marxismo?
ZIZEK – Ok, essa é uma questão bastante complicada, mas a primeira coisa que eu diria é que nós, para continuarmos o trabalho de Marx, devemos realmente começar de novo e voltar nossas ferramentas críticas para o próprio marxismo. Claro que não se pode culpar Marx por Stalin ou coisas do tipo. Contudo, o fato é que a experiência comunista marxista global, a experiência de projetos políticos que foram inspirados pelo marxismo no século 20, é, basicamente, uma experiência catastrófica. E eu acho que nós devemos nos perguntar a seguinte questão: será que Marx foi pouco radical? O meu segundo movimento é, em dado ponto, retornar de Marx a Hegel. Eu acho que Hegel não foi um louco racionalista que pensava que na sua mente e na sua lógica ele podia deduzir tudo. Ele era bastante aberto à contingência da história. Nós precisamos disso. Nós precisamos quebrar essa visão marxista de que a história se move do capitalismo para uma ordem superior, o socialismo ou algo do tipo. A história é aberta, na minha opinião. De forma espontânea, ela provavelmente se move em direção a alguma catástrofe.
JC – E por que Hegel é tão importante para entender o mundo de hoje?
ZIZEK – Eu sou bem mais um pessimista histórico, por assim dizer. Eu penso a alienação não no sentido marxista, mas no sentido da não transparência da história. Você faz algo e o resultado é totalmente diferente do que você esperava; você planeja a libertação e o resultado é o terror e o horror. Eu acho que nós devemos ficar mais conscientes disso, dessa impenetrabilidade da história, de como tudo termina de forma diferente do que esperávamos. Hegel estava profundamente ciente disso. Novamente, toda a história da esquerda radical no século 20 demonstra isso. Olhe para a Revolução Chinesa. A maior revolução comunista terminou fazendo do Partido Comunista Chinês o mais implacável e eficiente regulador do novo sistema capitalista. Nós devemos nos preparar para essas surpresas.
JC – E qual é o papel de Lacan para ajudar a entender Hegel?
ZIZEK – Lacan é para mim especialmente importante. Por um lado, ele me dá conceitos para poder ler Hegel e também para compreender como a ideologia funciona hoje. É fascinante dizer hoje que, com exceção de algum louco fundamentalista religioso, nós não temos mais ideologia, somos todos cínicos pragmáticos. Mas não, eu acho que mais do que nunca a ideologia é hoje parte da nossa vida cotidiana. Na verdade, é uma parte até invisível.
JC – Em tempos pós-modernos, você procura trabalhar com a noção de totalidade, de uma teoria que dá conta de toda a sociedade, não é?
ZIZEK – Sim, eu recuso totalmente essa ideia pós-moderna de que não existem mais grandes narrativas, que tudo são só moléculas dispersas. Em todos os níveis, das teorias e da política, eu acho que nós devemos retornar completamente à ideia da totalidade. Eu rejeito totalmente essa ideia de que, como diz Emmanuel Levinas, a noção filosófica da totalidade prepara o caminho para o totalitarismo político.
JC – Esse é o problema que você vê em movimentos como o Occupy Wall Street e a Primavera Árabe?
ZIZEK – Eu não simplesmente os critico. Por exemplo, eu esperava o que aconteceu no Egito. Contudo, o resultado disso não é simplesmente zero. Ainda que agora nós tenhamos um pacto entre os militares corruptos pró-Estados Unidos e os fundamentalistas muçulmanos, não vamos esquecer que alguma coisa sobrevive dos protestos de dois anos atrás. O que ficou foi principalmente uma mobilização incrível da sociedade civil: mulheres, estudantes, sindicatos, etc. Isso é agora um fator bastante forte na vida política do Egito. E a luta não está terminada. Eu não sou simplesmente um pessimista, mas, se você me perguntar se eu vejo algum lugar a se chegar hoje, um movimento político com que eu me identificaria completamente, não há nada muito grande. O movimento de que mais me aproximo é o da Grécia, o Syrila, coalização radical de esquerda que quase ganhou a última eleição.
JC – E o que você vê de positivo no Syrila?
ZIZEK - É difícil entrar em detalhes, mas é esse o motivo: a esquerda até agora sempre foi cooptada pela divisão entre um realismo comprometido – das reformas, das pequenas mudanças feitas dentro do sistema, da busca por fazer o capitalismo mais socialmente sensível, etc -, e um dogmatismo de princípios, mas que é de fato impotente. Eles de certa forma superam essa cisão. Eles têm atitudes baseadas em princípios, contudo, ao mesmo tempo, são impiedosamente pragmáticos.
JC – Parte da sua notoriedade vem de suas palestras e discursos. Qual pensa que é a função dessas conferências?
ZIZEK - Para mim, conferências e palestras são puramente instrumentais. Eu quero levar as pessoas a lerem meus livros. É isso que é importante. Eu acho que eu não sou sequer muito bom. Nas conferências e, principalmente, nas minha entrevistas, eu apenas digo, de forma simplificada mas ainda confusa, o que está dito de forma bem melhor nos meus livros. Eu olho para isso de uma forma totalmente instrumental. Tudo que eu realmente tenho a dizer está nos meus livros.
JC – A teoria pode ajudar a mudar o mundo?
ZIZEK - Faço minhas obras pelo puro amor à filosofia, não para contribuir para a solução da crise da humanidade ou coisa do tipo. Eu sou, por assim dizer, um autor metafísico bastante tradicional. Eu acredito na teoria que serve unicamente a si mesma; você a faz porque ela é uma bela teoria. Mas penso também que esse tipo de teoria, a longo prazo, fornece os melhores resultados práticos. Quando você quer fazer uma teoria que vai servir imediatamente a um propósito social, ela vira uma teoria ruim que não tem efeito nenhum a longo prazo.
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Do Jornal do Commercio
Diogo Guedes
Chão de Estrelas – silvio caldas / rio de janeiro.rj
Chão de Estrelas
Silvio Caldas
Minha vida era um palco iluminado
Eu vivia vestido de dourado
Palhaço das perdidas ilusões
Cheio dos guizos falsos da alegria
Andei cantando a minha fantasia
Entre as palmas febris dos corações
Meu barracão no morro do Salgueiro
Tinha o cantar alegre de um viveiro
Foste a sonoridade que acabou
E hoje, quando do sol, a claridade
Forra o meu barracão, sinto saudade
Da mulher pomba-rola que voou
Nossas roupas comuns dependuradas
Na corda, qual bandeiras agitadas
Pareciam estranho festival!
Festa dos nossos trapos coloridos
A mostrar que nos morros mal vestidos
É sempre feriado nacional
A porta do barraco era sem trinco
Mas a lua, furando o nosso zinco
Salpicava de estrelas nosso chão
Tu pisavas os astros, distraída,
Sem saber que a ventura desta vida
É a cabrocha, o luar e o violão
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http://www.youtube.com/watch?v=wvSsOpA7jm4
Aos que não creem: para procurar inverdades – por amilcar neves / ilha de santa catarina.sc
Trata-se de um documentário. Um documentário repleto de despachos,
telegramas, cartas, informes, relatórios, avaliações e sugestões. E mais: pleno de gravações, fotografias e filmagens. São conversas, encontros, reuniões, confabulações e conspirações expostas às claras.
E se, de repente, uma potência estrangeira decidisse invadir o Brasil e tomar militarmente o País, de que lado ficaríamos?
E, para piorar, se essa decisão de invadir o Brasil, de nos submeter pelas armas, não tivesse nenhuma motivação nobre, como a defesa da democracia, das liberdades, dos direitos humanos ou de princípios filosóficos, mas apenas a proteção dos interesses comerciais e econômicos do invasor, como nos veríamos e nos portaríamos frente a isso?
E se nem ao menos fossem levantadas vagas e difusas questões religiosas (a religião tantas vezes usada como pretexto para as guerras levadas a cabo sempre de olho nos negócios e nos lucros) para tentar justificar a invasão do Brasil por uma potência estrangeira, invasão que só visasse os objetivos do comércio exterior do invasor, o que faríamos então e, especialmente, o que diríamos, na hora e depois, aos nossos amigos, aos nossos filhos e aos nossos netos?
E se, para atingir a meta planejada – a invasão militar do Brasil por uma grande potência com fins escusos e rasteiros, ou seja, por dinheiro -, fosse empregada uma quantidade enorme desse mesmo dinheiro para mentir, subornar, forjar, enganar, iludir e tapear a opinião pública, qual seria o nosso grau de revolta com uma situação dessas?
E, além disso tudo, qual seria a nossa taxa de indignação e de repúdio com relação aos brasileiros que apoiassem essa invasão militar do Brasil para atender aos interesses econômicos da potência invasora, tenha esse apoio sido dado por ingenuidade ou, conhecendo os bastidores da ação, por interesses políticos, financeiros e de assalto ao poder?
Alguns daqueles poucos que chegaram até aqui podem estar se dizendo que só acreditam em evidências não contaminadas por ideologias. Com isso, estarão a dizer que só creem naquilo que provier dos Estados Unidos, única nação insuspeita do mundo. Que ótimo.
E se tal documentário estiver recheado de papéis, fotos, gravações e imagens, até há pouco classificados como top secret, liberados pelos Estados Unidos, e for conduzido por três pesquisadores, a saber, Peter Kornbluh, Coordenador dos Arquivos da Segurança Nacional dos EUA, James Green, Historiador da Brown University, dos EUA, e Carlos Fico, Professor de Teoria e Metodologia da História na UFRJ?
O plano dessa invasão existiu e, em março de 1964, uma formação da Marinha de Guerra estadunidense deslocou-se para fundear em frente ao porto de Santos. Só não deu um único tiro porque, cá dentro, não se deu um único tiro para reagir ao golpe de Estado planejado pelos EUA, com surpreendente participação do embaixador Lincoln Gordon na defesa dos interesses comerciais das empresas do seu país. Só se começou a dar tiros contra o golpe muito tarde, depois do AI-5, de 1968, quando os tiranos se fizeram ainda mais sanguinários.
O documentário, de título O Dia que Durou 21 Anos (está hoje num cinema e não pode ser perdido!), é uma vigorosa aula de História que deveria ser levada a todas as escolas do Brasil. Só poderá falar de 1964 e de ditadura (ditabranda, no deboche de alguns) quem assistir a esse filme que, pela origem insuspeita da sua matéria-prima, está isento de conotações ideológicas.
MENSALÃO: “Não houve desvio de dinheiro público” – por janio de freitas / são paulo.sp
A matéria divulgada hoje, dia 09 de Abril, pelo jornalista Janio de Freitas, no jornal Folha de S.Paulo, é definitiva:
Os 73.850 milhões não eram do Banco do Brasil;
A VISANET dona do dinheiro é uma empresa multinacional;
O dinheiro foi utilizado em serviços executados pela agencia de publicidade;
A “bonificação por volume – BV” em transações de publicidade e marketing, figurou com distorção acusatória no quesito BB/Visanet/DNA do julgamento, e os meios de comunicação sabem muito bem disso e como funciona o BV.
O Blog Megacidadania parabeniza o jornalista Janio de Freitas por divulgar A VERDADE. Que os juizes do STF tenham a grandeza de reconsiderar seus votos para poderem assim resgatar a condição de Magistrados isentos e guardiães da justiça (= que respeitam os documentos constantes do processo).
A seguir a íntegra da coluna de Jano de Freitas:
Questões para os juízes
Elementos novos incidem sobre pontos decisivos no teor da acusação do Mensalão.
Os ministros do Supremo Tribunal Federal vão deparar com grandes novidades em documentos e dados, quando apreciem os recursos à sentença formal, esperada para os próximos dias, da ação penal 470 ou caso mensalão. Muitos desses elementos
novos provêm de fontes oficiais e oficiosas, como Banco do Brasil, Tribunal de Contas da União e auditorias. E incidem sobre pontos decisivos no teor da acusação e em grande número dos votos orais no STF.
A complexidade e a dimensão das investigações e, depois, da ação penal deram-lhes muitos pontos cruciais, para a definição dos rumos desses trabalhos. Dificuldades a que se acrescentaram problemas como a exiguidade de prazo certa vez mencionada pelo encarregado do inquérito na Polícia Federal, delegado Luiz Flávio Zampronha. Inquérito do qual se originou, por exemplo, um ponto fundamental na acusação apresentada ao STF pela Procuradoria Geral da República e abrigada pelo tribunal.
Trata-se, aí, do apontado repasse de quase R$ 74 milhões à DNA Propaganda, dinheiro do Banco do Brasil via fundo Visanet, sem a correspondente prestação de quaisquer serviços, segundo a perícia criminal da PF. Estariam assim caracterizados peculato do dirigente do BB responsável pelo repasse e, fator decisivo em muitas condenações proferidas, desvio de dinheiro público.
Por sua vez, perícia de especialistas do Banco do Brasil concluiu pela existência das comprovações necessárias de que os serviços foram prestados pela DNA. E de que foi adequado o pagamento dos R$ 73,850 milhões, feito com recursos da sociedade Visanet e não do BB, como constou. Perícia e documentos que os ministros vão encontrar em breve.
No mesmo ponto da ação, outra incidência decisiva está revista: nem Henrique Pizzolato era o representante do Banco do Brasil junto à Visanet nem assinou sozinho contrato, pagamento ou aporte financeiro. Documento do BB vai mostrar esses atos sempre assinados pelo conjunto de dirigentes setoriais (vários nomeados ainda por Fernando Henrique e então mantidos por Lula). A propósito: os ministros talvez não, mas os meios de comunicação sabem muito bem o que é e como funciona a “bonificação por volume”, em transações de publicidade e marketing, que figurou com distorção acusatória no quesito BB/Visanet/DNA do julgamento.
A indagação que os novos documentos e dados trazem não é, porém, apenas sobre elementos de acusação encaminhados pela Procuradoria-Geral –aparentemente nem sempre testada a afirmação policial– e utilizados em julgamento do Supremo. Um aspecto importante diz respeito ao próprio Supremo. Quantos dos seus ministros serão capazes de debruçar-se com neutralidade devida pelos juízes, sem predisposição alguma, sobre os recursos que as defesas apresentem? E, se for o caso, reconsiderar conceitos ou decisões –o que, afinal de contas, é uma eventualidade a que o juiz se tornou sujeito ao se tornar juiz, ou julga sem ser magistrado.
Pode haver pressentimento, sugerido por ocasiões passadas, mas não há resposta segura para as interrogações. Talvez nem de alguns dos próprios juízes para si mesmos.
Santayana: Qualquer agressão desatinada a Lula desatará crise nacional

O processo contra Lula e a força do simbolismo
Como Getúlio e Juscelino, cada um deles em seu tempo, Lula é símbolo do povo brasileiro. Acusam-no hoje de ajudar os empresários brasileiros em seus negócios no Exterior. O grave seria se ele estivesse ajudando os empresários estrangeiros em seus negócios no Brasil.
O Ministério Público do Distrito Federal – por iniciativa do Procurador Geral da República – decidiu promover investigação contra Lula, denunciado, por Marcos Valério, por ter intermediado suposta “ajuda” ao PT, junto à Portugal Telecom, no valor de 7 milhões de reais.
O publicitário Marcos Valério perdeu tudo, até mesmo o senso da conveniência. É
normal que se sinta injustiçado. A sentença que o condenou a 40 anos de prisão foi exagerada: os responsáveis pelo seqüestro, assassinato e esquartejamento de Eliza Salmúdio foram condenados à metade de sua pena.
Assim se explica a denúncia que fez contra o ex-presidente, junto ao Procurador Geral da República, ainda durante o processo contra dirigentes do PT.
O Ministério Público se valeu dessas circunstâncias, para solicitar as investigações da Polícia Federal – mas o aproveitamento político do episódio reclama reflexões mais atentas.
Lula é mais do que um líder comum. Ele, com sua biografia de lutas, e sua personalidade dotada de carisma, passou a ser um símbolo da nação brasileira, queiramos ou não. Faz lembrar o excelente estudo de Giorg Plekhanov sobre o papel do indivíduo na História. São homens como Getúlio, Juscelino e Lula que percebem o rumo do processo, com sua ação movem os fatos e, com eles, adiantam o destino das nações e do mundo.
Há outro ponto de identificação entre Lula e Plekhanov, que Lula provavelmente desconheça, como é quase certo de que desconheça até mesmo a existência desse pensador, um dos maiores filósofos russos. Como menchevique, e parceiro teórico dos socialistas alemães, Plekhanov defendia, como passo indispensável ao socialismo, uma revolução burguesa na Rússia, que libertasse os trabalhadores do campo e industrializasse o país. Sem passar por essa etapa, ele estava convencido, seria impossível uma revolução proletária no país.
É mais ou menos o que fez Lula, em sua aliança circunstancial com o empresariado brasileiro. Graças a essa visão instintiva do processo histórico, Lula pôde realizar uma política, ainda que tímida, de distribuição de renda, com estímulo à economia. Mediante a retomada do desenvolvimento econômico, com a expansão do mercado interno, podemos prever a formação de uma classe operária numerosa e consciente, capaz de conduzir o processo de libertação.
Não importa se o grande homem público brasileiro vê assim a sua ação política. O importante é que esse é, conforme alguns lúcidos marxistas, começando pelo próprio Marx, o único caminho a seguir.
Como Getúlio e Juscelino, cada um deles em seu tempo, Lula é símbolo do povo brasileiro. Acusam-no hoje de ajudar os empresários brasileiros em seus negócios no Exterior. O grave seria se ele estivesse ajudando os empresários estrangeiros em seus negócios no Brasil.
Lula não é uma figura sagrada, sem erros e sem pecados. É apenas um homem que soube aproveitar as circunstâncias e cavalgá-las, sempre atento à origem de classe e fiel às suas próprias idéias sobre o povo, o Brasil e o mundo.
Mas deixou de ser apenas um cidadão como os outros: ao ocupar o seu momento histórico com obstinação e luta, passou a ser um emblema da nacionalidade. Qualquer agressão desatinada a esse símbolo desatará uma crise nacional de desfecho imprevisível.
Mauro Santayana é colunista político do Jornal do Brasil, diário de que foi correspondente na Europa (1968 a 1973). Foi redator-secretário da Ultima Hora (1959), e trabalhou nos principais jornais brasileiros, entre eles, a Folha de S. Paulo (1976-82), de que foi colunista político e correspondente na Península Ibérica e na África do Norte.
Energia nuclear e maledicências – por heitor s. costa / recife.pe
Heitor Scalambrini Costa
Professor da Universidade Federal de Pernambuco
Existem maledicências evidentes quando se defende a expansão de usinas nucleares no país, justificando-as com o que está ocorrendo em diversas partes do mundo, com a necessidade da núcleoeletricidade para garantir o crescimento econômico, e de relacionar a construção dessas usinas no Nordeste com o desenvolvimento regional.
No debate verifica-se uma intransigência de origem daqueles que comandam o setor. E um jogo de interesses de grupos que se beneficiariam caso estes projetos se concretizem, em detrimento dos interesses nacionais. Nem tudo é dito claramente, explicitado a sociedade, quando o assunto é energia nuclear. Há pouca informação manipulada que circula na grande mídia, desnudando o caráter antidemocrático e “fechado” que domina o setor energético, controlado por interesses políticos, econômicos e militares.
Se propagandeia falsamente que a indústria nuclear está em plena efervescência e florescente no mundo. Com mais, e mais paises adotando esta tecnologia como solução para atender suas necessidades energéticas. Toma-se como exemplo, os Estados Unidos da América, país que menos respeita a natureza e o mais poluidor do mundo, juntamente com a China. O EUA declinou de assinar o protocolo de Kyoto, não se comprometendo a reduzir suas emissões de CO2(o principal gás de efeito estufa – GEE), além de dificultar nos fóruns internacionais, propostas para combater o aquecimento global. Mais recentemente, optou pela produção de gás obtido a partir do betume, combustível fóssil e com grande capacidade de emissão de GEEs,. Com certeza, este país não é exemplo para ninguém no que concerne suas escolhas energéticas e a defesa do meio ambiente.
Por outro lado, tenta-se desqualificar a decisão da Alemanha de abdicar da instalação de novos reatores nucleares e de desativar os já existentes em seu território. Chega-se a especular que tal decisão poderá se revista no futuro próximo. Não são citados outros paises que também abandonaram a construção de novos reatores, como a Itália, cuja decisão foi referendada em um plebiscito, onde mais de 95% dos votos foram contrários à construção de novas usinas nucleares. Também a Bélgica, Áustria dentre tantos outros que abandonaram a tecnologia nuclear.
A França, símbolo mundial no uso da eletricidade nuclear, com seu governo socialista, prometeu aos seus eleitores na última campanha presidencial, diminuir ao longo dos próximos anos o uso da energia nuclear em seu território, substituindo-a por fontes renováveis de energia. Portanto, os indecisos sobre a questão nuclear devem procurar as informações em diferentes fontes sobre o que ocorre no mundo pós Fukushima.
No Japão, hoje ocorre uma verdadeira queda de braço entre o primeiro ministro, que insiste na reativação dos 50 reatores que permanecem desligados depois da tragédia de 11 de março, e a população. Recente pesquisa de opinião mostra que mais de 70% da população japonesa é contrária ao uso da energia nuclear, e está disposta a impedir que o plano do primeiro ministro de religar as centrais aconteça.
A falácia de que a energia nuclear é essencial para atender as necessidades energéticas é um argumento que vem sendo utilizado desde a ditadura militar. Na época, para justificar o acordo Brasil-Alemanha em 1975, se previa a instalação de 8 reatores nucleares e se afirmava peremptoriamente, ser imprescindível esta fonte para ofertar mais energia para o crescimento do “gigante adormecido”. Somente uma foi construída, Angra II, iniciando sua operação em setembro de 1981. Quanto as 7 usinas restantes, realmente elas não fizeram falta, e o Brasil não entrou em colapso, conforme se apregoava.
Hoje, a ladainha volta à tona, com uma propaganda enganosa relacionando os “apagões” e desabastecimento com a urgência de se expandir o parque nuclear. Uma mentira sem tamanho, suportada por um planejamento energético equivocado, onde predomina as decisões políticas de um grupo encastelado há anos no Ministério de Minas e Energia, que apóia esta ou aquela tecnologia energética, em função de seus interesses imediatos e não da maioria da população.
Por outro lado, afirmar que a instalação de uma usina nuclear no sertão brasileiro é “uma oportunidade única que poderá ser o ponto de partida de um grande processo de desenvolvimento regional”, trata de uma promessa vaga, destituída de fundamento. E só quem acredita, em papai Noel, mula sem cabeça, saci pererê, coelhinho da páscoa, e tantos outros personagens do imaginário popular, crê nesta afirmativa.
A instalação de uma usina nuclear, do modelo previsto, orçada em mais de 10 bilhões de reais, produz menos empregos que as industrias da tecnologia eólica, solar, conforme o relatório sobre empregabilidade das indústrias energéticas da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). Portanto, é um desrespeito ao já sofrido sertanejo alimentar o sonho de que investimentos de bilhões de reais na construção de uma usina nuclear, contribuirá para a melhoria de sua vida.
O povo nordestino já foi enganado, ludibriado, inúmeras vezes com propostas deste naipe, superlativas, megalomaníacas, e não vai se deixar iludir mais uma vez.
Holandês de 19 anos cria projeto que pode acabar com plástico no oceano
The Ocean Cleanup pode remover 7,5 bilhões de kg de lixo dos mares em cinco anos. Veja fotos!

Atualmente, o projeto procura especialistas em diversas áreas e parceiros para viabilizar os custos. Imagem: Erwin Zwart / Fabrique Computer Graphics
“Será muito difícil convencer a todos no mundo a lidar com o plástico de maneira responsável, mas o que nós, seres humanos, somos muito bons em fazer, é inventar soluções técnicas para os nossos problemas. E é isso que estamos fazendo”, Boyan Slat, 19 anos, fundador do projeto The Ocean Cleanup.
O The Ocean Cleanup Foundation começou como um projeto de conclusão de curso de ensino médio do holandês Boyan Slat, na época com 17 anos, e seu amigo Tan Nguyen. Gastando mais de 500 horas no trabalho em vez das 80 requeridas, a dupla criou um sistema de remoção de plástico dos oceanos baseado no movimento rotativo das correntes oceânicas.
O projeto rendeu à dupla diversos prêmios, entre eles o de Melhor Design Técnico de 2012 da Delft University of Technology, na Holanda. Boyan Slat continuou a desenvolver o conceito durante o verão de 2012, apresentando-o meses depois no TEDxDelft 2012 (assista ao vídeo abaixo). O novo projeto rendeu mais prêmios ao jovem holandês que, em janeiro deste ano oficializou-o e transformou-o em uma organização sem fins lucrativos.
*No ótimo vídeo abaixo, Boyan Slat explica seu projeto no TEDxDelft 2012:
Conceito
Existem cinco áreas nos oceanos do mundo onde correntes rotativas criam um enorme acúmulo de plástico. Movimentar-se pelos mares para remover este lixo seria custoso, poluente e ineficiente. Então, por que não deixar as próprias correntes transportarem os detritos até você? Essa é a ideia central do The Ocean Cleanup Foundation.
A remoção seria feita por uma estrutura batizada de Ocean Cleanup Array (traduzindo para o português, seria algo como “Matriz de Limpeza do Oceano”). Ancorado, o sistema seria composto por plataformas de processamento e, ligadas à elas, compridas barras flutuantes que abrangeriam o raio de uma corrente rotativa.
Estas barras atuariam como funis gigantes que, com o ângulo delas em relação à estrutura, forçariam uma corrente em direção à plataforma. Com os detritos adentrando o sistema, eles seriam filtrados para fora da água e eventualmente armazenados em containers até que fossem coletados para reciclagem em terra.
Uma das grandes vantagens de usar barras flutuantes em vez de redes é que a vida marinha não é afetada ou presa ao sistema, já que as boias ficam apenas na superfície da água e se movimentam lentamente, junto com as correntes.
Na teoria, o zooplâncton não se acumularia significativamente nas barras, mas de qualquer jeito, foi criado um sistema alternativo de separação de plânctons e plásticos pequenos usando a força centrífuga e baseado nas diferenças de densidade.
Existe também a preocupação com a interferência com rotas de navios e barcos e existe um planejamento quanto a isso no projeto.
Possibilidades
De acordo com o site oficial do projeto, um terço de todo o plástico superficial dos oceanos globais pode ser removido usando o método. Numericamente, seriam 7.250.000.000 kg (7,25 bilhões) de poluição retirada. O tempo estimado para limpar cada uma das cinco áreas principais seria cinco anos.
Apesar do The Ocean Cleanup ser uma possível estratégia para reduzir o acúmulo de plástico nos oceanos, o projeto não é a solução perfeita. Para a remoção total da poluição seria fundamental a prevenção e educação quanto à diminuição na produção de plástico e à reciclagem.
Viabilidade
A viabilidade do projeto é algo que ainda está em fase de estudo, entretanto, até então o método parece promissor também neste sentido. O que poderia ajudar a custear os gastos é a reciclagem do próprio plástico colhido – algo que pode até tornar o projeto financeiramente lucrativo.
Atualmente, uma equipe de 50 engenheiros, projetistas, especialistas externos e estudantes trabalham no projeto. Mesmo assim, o The Ocean Cleanup Foundation está recrutando profissionais de áreas específicas como engenharia de estruturas marítimas e biologia de plâncton.
O projeto também procura parceiros para custear orçamentos de pesquisa. Já foi divulgado que será utilizado “crowd funding”, método de financiamento público voluntário que vem sendo utilizado por instituições sem fins lucrativos, ONG’s, projetos sociais e afins.
“A história humana é basicamente uma lista de coisas que não poderiam ser feitas, e então foram feitas”, Boyan Slat.
Além de ser fundador e diretor do The Ocean Cleanup, Boyan estuda engenharia aeroespacial na Delft University of Technology e é um ávido fotógrafo e mergulhador.
Prefeitura de Florianópolis recusa alvará para hotel na Ponta do Coral – por joão meassi / ilha de santa catarina.sc
Empreendimento de nível internacional seria construído na Beira-mar Norte

A prefeitura de Florianópolis deu parecer contrário ao empreendimento da Hantei Engenharia na Beira-mar Norte, o Hotel Marina Ponta do Coral, principalmente no tocante ao aterro. O parecer assinado pelo procurador-geral do município, Julio Cesar Marcellino Junior, concluiu que o aterro de 35 mil metros quadrados é desprovido de interesse público e de legalidade.
A posição do município encontra respaldo em igual entendimento da Delegacia do Patrimônio da União. O assunto voltou à tona quando a administração passada entrou no Patrimônio da União pedindo licença para fazer o aterro, só que com o mesmo projeto já apresentado pela Hantei. “Não vamos aceitar um projeto de aterro em área da União de empresa privada. Na época, a prefeitura misturou o público e o privado”, disse a superintendente da SPU, Isolde Espíndola. Segundo ela, se o município quiser fazer o aterro tem que fazer um projeto justificando o interesse público.
A prefeitura não confirmou a decisão, mas também não negou a informação. A secretaria municipal de Comunicação, no entanto, fez questão de dizer que o prefeito Cesar Souza Junior (PSD) não é contra o empreendimento.
DALLA NORVEGIA UNO STUDIO SU TARANTO: ‘DISASTRO’ – di gabriele caforio / itália

//DOSSIER. Bergen. La scienziata italiana Bruna De Marchi pubblica uno studio che analizza l’inquinamento a Taranto: “Un disastro strisciante per decenni”
di Gabriele Caforio
Ad ottobre e dicembre scorso, il Ministero della Salute prima e l’Arpa Pugliapoi, hanno reso noto quello che accade negli ultimi anni alla salute dei cittadini tarantini e pugliesi. Infatti, sono stati pubblicati i dati che mostrano ilgrave aumento delle incidenze, alcune delle quali ricollegabili direttamente all’inquinamento industriale, e delle morti per neoplasie di vario tipo tra gli abitanti delle province di Taranto, Brindisi e Lecce. (Una scheda che fotografa questa triste realtà si può leggere qui).
Bruna De Marchi, del Centro delle scienze e discipline umanistiche dell’Università di Bergen (in Norvegia), ha recentemente pubblicato sulla rivista “Epidemiologia & Prevenzione” uno studio che si interroga criticamente sulle necessità di ricerca e prevenzione epidemiologica che dovrebbero partire da subito a Taranto e che, viste le cifre che riportiamo puntualmente nella scheda, potrebbero essere utili anche nel leccese e nel brindisino. Dato che il ritardo nell’uso di questi strumenti si è ormai consolidato, è ora cruciale capire come farli partire.
Se il termine più appropriato per definire le vicende dell’Ilva è la parola “disastro”, allora secondo la De Marchi i danni che oggi si vedono non sono il vero disastro ma “la manifestazione conclamata che un disastro strisciante si è perpetuato (e perpetrato) per decenni”. Si tratta di danni che non risultano da un evento o da una causa singola, bensì dalla concreta “conseguenza di una mancata volontà di affrontare le questioni della produzione e del lavoro nel loro contesto e con una visione temporale di lungo periodo”.
Proprio a proposito della visione e del contesto, lo studio sottolinea che la particolare “vulnerabilità sociale” di un determinato territorio condiziona la risposta che quel territorio fornirà alle minacce ed agli eventi esterni. Che cos’è questa vulnerabilità? Un esempio: così come un edificio risponde ad un terremoto non solo in base all’intensità della scossa ma anche in base alle caratteristiche della sua struttura, così un “sistema umano” risponde agli eventi a seconda delle sue dotazioni iniziali sia materiali che immateriali. Tra quelle immateriali ci sono: 1) la conoscenza delle fonti di pericolo, 2) la fiducia su chi è istituzionalmente preposto ad occuparsi dell’emergenza, 3) la coesione interna della comunità e la sua capacità di attrarre attenzione e risorse esterne.
Per non ripetere sempre gli stessi errori ed accumulare disastri su disastri la studiosa dell’Università norvegese si sofferma su un efficace paragone con il caso del terremoto de L’Aquila del 2009 dove le popolazioni colpite sono “rimaste estranee alle decisioni calate dall’alto” dai vari decisori. Le case provvisorie, le cosiddette new town, “dove la gente abita, ma non vive” rappresentano così il secondo disastro, di matrice umana, oltre al danno naturale del terremoto.
La sfida di Taranto, ora, è proprio quella di non cadere in queste risposte preconfezionate nel cercare una soluzione alla crisi ambientale che sta attraversando.
Alle indagini fatte finora, quindi, ne vanno aggiunte di nuove che puntino a difendere ambiente e persone esposte. Le misure più efficaci “possono e devono essere identificate anche sulla base di una conoscenza approfondita dei modi di vita locali, non si deve solo chiedere ai cittadini di accettare le misure degli esperti, bensì di contribuire a costruirle”, bisogna coinvolgere e guardare anche alle aspettative e ai bisogni che gli abitanti hanno. Non solo conoscenze scientifiche quindi, ma anche un sano coinvolgimento della comunità locale in un “processo di ricerca e prevenzione integrato”, civico, non “prefabbricato”, una risorsa comune che porti le popolazioni locali nei processi decisionali.
Taranto non è un caso isolato né in Italia né tanto meno in Puglia; a Cerano(Br), infatti, c’è un’altra bomba ad orologeria. Ci sono i danni su persone e territorio causati dall’inquinamento prodotto dalla centrale elettrica a carbone Federico II, per la quale il processo si è aperto lo scorso 7 gennaio.
L’altra bomba già innescata è nel leccese. Il Rapporto del Registro Tumori 2012 ha evidenziato infatti dei dati ancora più preoccupanti. Questa terra, oltre all’inquinamento che produce in loco sconta pure il suo essere “sole, mare e vento”. Nel vento infatti si nascondono tanti inquinanti che arrivano sia dal polo industriale di Taranto, che da quello di Brindisi. E i dati degli eccessi tumorali per la provincia di Lecce parlano chiaro, dicono che si muore di più.
Evidenze scientifiche come quelle dello studio “Sentieri” e del Registro Tumori dovrebbero far entrare a pieno titolo l’epidemiologia e la ricerca all’interno dei processi decisionali. La Puglia, invece, da questo punto di vista sconta ancora tanti ritardi. Gli studi e le mappature, infatti, stanno solo confermando, senza prevenire, una realtà che i cittadini ormai da anni toccano con mano, nelle proprie case e nei propri affetti. È per questo che una qualunque garanzia di futuro e di sviluppo non può che passare per un investimento ed una nuova programmazione in materia di ricerca e prevenzione sanitaria e ambientale.
Choro Bandido – de chico buarque / salvador.ba
Choro Bandido
Chico Buarque
Mesmo que os cantores sejam falsos como eu
Serão bonitas, não importa
São bonitas as canções
Mesmo miseráveis os poetas
Os seus versos serão bons
Mesmo porque as notas eram surdas
Quando um deus sonso e ladrão
Fez das tripas a primeira lira
Que animou todos os sons
E daí nasceram as baladas
E os arroubos de bandidos como eu
Cantando assim:
Você nasceu para mim
Você nasceu para mim
Mesmo que você feche os ouvidos
E as janelas do vestido
Minha musa vai cair em tentação
Mesmo porque estou falando grego
Com sua imaginação
Mesmo que você fuja de mim
Por labirintos e alçapões
Saiba que os poetas como os cegos
Podem ver na escuridão
E eis que, menos sábios do que antes
Os seus lábios ofegantes
Hão de se entregar assim:
Me leve até o fim
Me leve até o fim
Mesmo que os romances sejam falsos como o nosso
São bonitas, não importa
São bonitas as canções
Mesmo sendo errados os amantes
Seus amores serão bons
Como a classe média alta brasileira é escrava do “alto padrão” dos supérfluos – por adriana setti / barcelona.es
Adriana Setti
No ano passado, meus pais (profissionais ultra-bem-sucedidos que decidiram reduzir o ritmo em tempo de aproveitar a vida com alegria e saúde) tomaram uma decisão surpreendente para um casal – muito enxuto, diga-se – de mais de 60 anos: alugaram o apartamento em um bairro nobre de São Paulo a um parente, enfiaram algumas peças de roupa na mala e embarcaram para Barcelona, onde meu irmão e eu moramos, para uma espécie de ano sabático.
Aqui na capital catalã, os dois alugaram um apartamento agradabilíssimo no bairro modernista do Eixample (mas com um terço do tamanho e um vigésimo do conforto do de São Paulo), com direito a limpeza de apenas algumas horas, uma vez por semana. Como nunca cozinharam para si mesmos, saíam todos os dias para almoçar e/ou jantar. Com tempo de sobra, devoraram o calendário cultural da cidade: shows, peças de teatro, cinema e ópera quase diariamente. Também viajaram um pouco pela Espanha e a Europa. E tudo isso, muitas vezes, na companhia de filhos, genro, nora e amigos, a quem proporcionaram incontáveis jantares regados a vinhos.
Com o passar de alguns meses, meus pais fizeram uma constatação que beirava o inacreditável: estavam gastando muito menos mensalmente para viver aqui do que gastavam no Brasil. Sendo que em São Paulo saíam para comer fora ou para algum programa cultural só de vez em quando (por causa do trânsito, dos problemas de segurança, etc), moravam em apartamento próprio e quase nunca viajavam.
Milagre? Não. O que acontece é que, ao contrário do que fazem a maioria dos pais, eles resolveram experimentar o modelo de vida dos filhos em benefício próprio. “Quero uma vida mais simples como a sua”, me disse um dia a minha mãe. Isso, nesse caso, significou deixar de lado o altíssimo padrão de vida de classe média alta paulistana para adotar, como “estagiários”, o padrão de vida – mais austero e justo – da classe média europeia, da qual eu e meu irmão fazemos parte hoje em dia (eu há dez anos e ele, quatro). O dinheiro que “sobrou” aplicaram em coisas prazerosas e gratificantes.
Do outro lado do Atlântico, a coisa é bem diferente. A classe média europeia não está acostumada com a moleza. Toda pessoa normal que se preze esfria a barriga no tanque e a esquenta no fogão, caminha até a padaria para comprar o seu próprio pão e enche o tanque de gasolina com as próprias mãos. É o preço que se paga por conviver com algo totalmente desconhecido no nosso país: a ausência do absurdo abismo social e, portanto, da mão de obra barata e disponível para qualquer necessidade do dia a dia.
Traduzindo essa teoria na experiência vivida por meus pais, eles reaprenderam (uma vez que nenhum deles vem de família rica, muito pelo contrário) a dar uma limpada na casa nos intervalos do dia da faxina, a usar o transporte público e as próprias pernas, a lavar a própria roupa, a não ter carro (e manobrista, e garagem, e seguro), enfim, a levar uma vida mais “sustentável”. Não doeu nada.
Uma vez de volta ao Brasil, eles simplificaram a estrutura que os cercava, cortaram uma lista enorme de itens supérfluos, reduziram assim os custos fixos e, mais leves, tornaram-se mais portáteis (este ano, por exemplo, passaram mais três meses por aqui, num apê ainda mais simples).
Por que estou contando isso a vocês? Porque o resultado desse experimento quase científico feito pelos pais é a prova concreta de uma teoria que defendo em muitas conversas com amigos brasileiros: o nababesco padrão de vida almejado por parte da classe média alta brasileira (que um europeu relutaria em adotar até por uma questão de princípios) acaba gerando stress, amarras e muita complicação como efeitos colaterais. E isso sem falar na questão moral e social da coisa.
Babás, empregadas, carro extra em São Paulo para o dia do rodízio (essa é de lascar!), casa na praia, móveis caríssimos e roupas de marca podem ser o sonho de qualquer um, claro (não é o meu, mas quem sou eu para discutir?). Só que, mesmo em quem se delicia com essas coisas, a obrigação auto-imposta de manter tudo isso – e administrar essa estrutura que acaba se tornando cada vez maior e complexa – acaba fazendo com que o conforto se transforme em escravidão sem que a “vítima” se dê conta disso. E tem muita gente que aceita qualquer contingência num emprego malfadado, apenas para não perder as mordomias da vida.
Alguns amigos paulistanos não se conformam com a quantidade de viagens que faço por ano (no último ano foram quatro meses – graças também, é claro, à minha vida de freelancer). “Você está milionária?”, me perguntam eles, que têm sofás (em L, óbvio) comprados na Alameda Gabriel Monteiro da Silva, TV LED último modelo e o carro do ano (enquanto mal têm tempo de usufruir tudo isso, de tanto que ralam para manter o padrão).
É muito mais simples do que parece. Limpo o meu próprio banheiro, não estou nem aí para roupas de marca e tenho algumas manchas no meu sofá baratex. Antes isso do que a escravidão de um padrão de vida que não traz felicidade. Ou, pelo menos, não a minha. Essa foi a maior lição que aprendi com os europeus — que viajam mais do que ninguém, são mestres na arte dosavoir vivre e sabem muito bem como pilotar um fogão e uma vassoura.
PS: Não estou pregando a morte das empregadas domésticas – que precisam do emprego no Brasil –, a queima dos sofás em L e nem achando que o “modelo frugal europeu” funciona para todo mundo como receita de felicidade. Antes que alguém me acuse de tomar o comportamento de uma parcela da classe média alta paulistana como uma generalização sobre a sociedade brasileira, digo logo que, sim, esse texto se aplica ao pé da letra para um público bem específico. Também entendo perfeitamente que a vida não é tão “boa” para todos no Brasil, e que o “problema” que levanto aqui pode até soar ridículo para alguns – por ser menor. Minha intenção, com esse texto, é apenas tentar mostrar que a vida sempre pode ser menos complicada e mais racional do que imaginam as elites mal-acostumadas no Brasil.






























































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