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ATIRE NO MORENINHO ENGRAÇADO – por alceu sperança / cascavel.pr


Como a Europa ficou rica? Pilhando outros povos, inclusive o daqui.

Em 1493, o papa Alexandre VI deu o que não era seu à rainha Isabel e ao rei Fernando de Espanha, com a “Bula da Doação”: todos os territórios “descobertos e ainda por descobrir, cem léguas a Oeste e ao Sul dos Açores em direção à Índia”, ainda não controlados por qualquer rei ou príncipe cristão até o Natal de 1492.

Na corrida entre Espanha e Portugal, este quintal ficou com os portugueses, cujas minas e demais riquezas foram emseguida, depois de negócios ruinosos do trono lusitano, transferidas à Inglaterra. Desde então somos dominados pelo Norte do mundo, seus bancos e suas transnacionais.

Os europeus roubaram à larga as riquezas daqui. Construíram seus palácios e catedrais, sustentaram o luxo de seus soberanos e nobres, industriais e financistas. Por fim, ao fechar o século XIX, exportaram seus pobres para cá.

Hoje, brasileiros obrigados a fazer pousos de escala na Espanha são maltratados e ofendidos. O moreninho é confundido com terrorista ou cão sarnento. Nenhum reconhecimento por todas as maravilhas que construíram com as riquezas pilhadas na América Latina.

Seu rei manda um latino-americano eleito pelo povo calar a boca. Seus compatriotas, assim como também ingleses, franceses etc, humilham os latinos, insultam e barram africanos e asiáticos.

Seu mundo está ameaçado por uma crise que seu sistema criou, mas eles a atribuem aos pobres dos demais continentes. Seus valores desabam, suas falsas noções de espiritualidade, humanismo e democracia despencam ladeira abaixo. Culpa do moreninho que fala engraçado.

A história é pródiga em exemplos de civilizações arruinadas por seus próprios erros e contradições. No auge da acumulação de riquezas, depois de tanto pilhar, matar, oprimir e humilhar, os impérios da antiguidade – gregos, romanos e bizantinos – sucumbiram frente às invasões dos escurinhos de fala engraçada: bárbaros orientais, hunos, mongóis, turcos.

Os novos bárbaros, como dizia Jean-Christophe Rufin, nada querem, a não ser usufruir a “democracia” e a “liberdade” tão festejadas por eles.

Para financiar essa “democracia” e essa “liberdade”, liquidaram as populações da América: os mais de 70 milhões em 1492 se reduziram a cerca de 4 milhões alguns séculos mais tarde.

Depois de impor a globalização, endividar os países sulinos, enfraquecendo-os e lhes impondo ditaduras sangrentas e cúmplices, impõem-lhes barreiras para sustentar uma agricultura fracassada.

Marx já dizia, há mais de 150 anos: “As descobertas de ouro e de prata na América, o extermínio, a escravização das populações indígenas, forçadas a trabalhar no interior das minas, o início da conquista e pilhagem das Índias Orientais e a transformação da África num vasto campo de caçada comercial de negros são os acontecimentos que marcam os albores da era da produção capitalista”.

Então criaram a “fronteira móvel”. Invadem um país e desgraçam seu povo se entendem que os interesses em torno de petróleo, minérios e água valem mais que as falsas noções de democracia e liberdade.

Mas quando os novos bárbaros resolvem movimentar em direção a eles a “fronteira humana”, a resposta é o chauvinismo, o nacionalismo irracional, o desprezo e o rancor aos moreninhos de fala engraçada.

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Obediência ao patrão. Que patrão? – por alceu sperança / cascavel.pr



É ilusão acreditar que as eleições gerais deste ano vão trazer qualquer mudança. O presidente, o governador, os senadores e os deputados serão executores dos mesmos métodos e práticas, que podem ser traduzidos numa palavra: capitalismo.

Espera-se dos eleitos que sejam honestos, mas a honestidade, por si só, não quer dizer competência para inovar outranscender as maldades capitalistas.

Há gente honesta, porém retrógrada. Pode ser bom administrador privado, onde manda, mas administração pública requer habilidades adicionais – obedecer, por exemplo, o clamor dos tempos, que exigem pôr abaixo as estruturas desumanas que mantêm a miséria, a ignorância, as exclusões e as injustiças.

Ainda que mudem os nomes, o sistema eleitoral é o mesmo: campanha financiada pelos ricos e sérias suspeitas de caixa 2. Se um empresário sair, entrará outro empresário, tomara que progressista. Se um médico sair, entrará outro profissional liberal, quiçá crítico e fiscalizador. Se um dos burocratas sair, entrará outro burocrata. Quem sabe uma mulher, mas nem por ser mulher, mesmo caso do honesto retrógrado, estará garantido que será uma revolucionária.

Aqui cabe um parêntese gordinho. Quem já posou de rebelde, ontem, hoje pode ser exatamente o contrário, como ensinou Fausto Wolff, o Faustão que vale a pena, em sua obra-prima, À Mão esquerda (1996). Isto se nota muito bem por Dilma, Serra e Marina, rebeldes ontem e capitalistas de carteirinha hoje:

− Existe uma boa diferença entre espírito rebelde e revolucionário. Enquanto o revolucionário mantém uma permanente posição crítica em relação ao poder, o rebelde só é contra o poder até ser convidado a participar da sua mesa, ocasião em que não só muda de posição, mas escreve verdadeiros tratados filosóficos para explicar a mudança.

Fecha.

Em suma, nas eleições de 2010 continuará o poder da mesma classe, uma repartição de salas e mesas entre ricos e pequeno-burgueses. Nenhum operário fora do “sindicalismo oportunista, costureira, mecânico, catador de papel, diarista. É a “democracia” brasileira americanizando-se a olhos vistos.

Não importa, assim, quem será o presidente ou os parlamentares. Nossa tarefa, na condição de cidadãos, é cuidar para que essa gente que pagamos, mas raramente vemos trabalhando, dance conforme a música que o povo tocará para eles.

Atrás da recessão americana e suas guerras, da farsa luliberal, do desencanto com a política dos ditadores, demófobos e liberais, há que aposentar o toque de recolher e se ouvir um novo clarim: a mobilização do povo-protagonista.

Acabamos de ver isso na rejeição mundial às atrocidades cometidas por Israel, que é a face mais revelada do poliedro capitalista: uma ideologia repulsiva na cabeça e uma arma na mão.

É necessário à sobrevivência humana que essa rejeição se encaminhe para a montagem planetária de uma Frente Anticapitalista, pois o sistema crítico que aí está só promete corporações mais fortes e um poder mundial escravizante.

Sejam quem forem os gerentes da empresa Brasil S/A, eles precisarão saber quem é o patrão. Um tal de povo, já ouviu falar?

Pois bem dizia o Barão do Rio Branco em correspondência a Joaquim Nabuco:

“O nosso povo é muito melhor do que os homens das classes dirigentes”.

“Políticos ocidentais, covardes demais para salvar vidas” – robert fisk, The Independent / ny


Alguma coisa mudou no Oriente Médio, nas últimas 24 horas – e os israelenses, se se considera a resposta política extraordinariamente estúpida, pós-matança, não dão qualquer sinal de terem percebido a mudança. O que mudou é que o mundo, afinal, cansou-se das matanças israelenses. Só os políticos não têm o que dizer, hoje. Só os políticos estão calados. Nossos políticos não têm mais fibra, não tem espinha dorsal, são covardes demais, para tomar as decisões que salvam vidas.


A verdade é que os muitos, gente comum, ativistas, dêem-lhes o nome que quiserem, são os que hoje tomam as decisões que mudam o curso dos acontecimentos. Israel perdeu? A guerra de Gaza de 2008-09 (1.300 mortos) e a guerra do Líbano de 2006 (1.006 mortos) e todas as outras guerras e, agora, a matança da madrugada da segunda-feira significam que o mundo afinal decidiu rejeitar o mando de Israel? Não esperem tanto. Mas, sim, algo aconteceu.

Basta ler a desfibrada declaração da Casa Branca – que o governo Obama estaria “trabalhando para entender as circunstâncias que cercam a tragédia”. Condenação? Nem uma palavra. E pronto. Nove mortos. Mais uma estatística, na matança no Oriente Médio.

De fato, não, não é só mais uma estatística.

Em 1948, nossos políticos – norte-americanos e britânicos – atacaram Berlim. Uma população esfaimada (nossos inimigos, havia apenas três anos) estavam cercados por exército brutal, os russos, que tinham cercado a cidade. O levante do cerco de Berlim foi um dos momentos altos da Guerra Fria. Nossos soldados e aviadores arriscaram e deram a vida por aqueles alemães mortos de fome.

Parece incrível, não é? Naqueles dias, nossos políticos decidiam; muitas vezes decidiram salvar vidas. Os senhores Attlee e Truman sabiam que Berlim importava, tanto em termos morais e humanos quanto em termos políticos.

Hoje? Gente comum – europeus, norte-americanos, sobreviventes do Holocausto – sim, sim, santo Deus! Sobreviventes dos nazistas! –, os que decidiram viajar até Gaza, porque seus políticos e governantes os abandonaram, falharam, fracassaram.

Onde estavam os políticos e governantes na madrugada da segunda-feira? OK, ok, apareceram o ridículo Ban Ki-moon, a declaração patética da Casa Branca e o caríssimo Sr. Blair, com cara de “profunda lástima e choque ante a tragédia de tantas mortes”. Mas… E Cameron? E Clegg?

Em 1948, claro, teriam ignorado os palestinos, não resta dúvida. Há aí, afinal, uma terrível ironia: o levante do cerco de Berlim coincidiu exatamente com a destruição da Palestina árabe.

Mas é fato irrecusável de que os muitos, gente comum, ativistas, dêem-lhes o nome que quiserem, são os que hoje tomam as decisões que mudam o curso dos acontecimentos. Nossos políticos não têm mais fibra, não tem espinha dorsal, são covardes demais, para tomar as decisões que salvam vidas. Por quê? Como chegamos a isso? Por que não se ouviu uma palavra saída da boca de Cameron e Clegg (dentre outros, claro)?

Claro, também, sim, que se fossem outros europeus (ora essa! Os turcos são europeus, não são?) os metralhados naqueles barcos, por outro exército árabe (ora essa! O exército de Israel é exército árabe!), então, sim, haveria ondas e ondas de indignação e ultraje.

E o que tudo isso diz sobre Israel? A Turquia não é aliada muito próxima de Israel? E, de Israel, os turcos recebem o que receberam? Hoje, o único aliado que restava a Israel, no mundo muçulmano, fala de “massacre” – e Israel parece não dar qualquer importância ao que diga a Turquia.

Israel tampouco deu qualquer importância quando Londres e Camberra expulsaram os diplomatas israelenses, depois de Israel forjar passaportes britânicos e australianos, para, com eles, perpetrar o assassinato do comandante Mahmoud al-Mabhouh, do Hamás. Tampouco deu qualquer importância aos EUA e ao mundo, quando anunciaram a construção de novas moradias exclusivas para judeus em terra ocupada em Jerusalém Leste, durante visita de Joe Biden, vice-presidente dos EUA, aliado-supremo, a Israel. Se Israel não deu qualquer importância a esses aliados, por que daria alguma importância a alguém, hoje?

Como chegamos a esse ponto? Talvez porque já nos tenhamos habituado a ver israelenses matando árabes; talvez os próprios israelenses tenham-se viciado em matar árabes, até cansarem. Agora, matam turcos. E europeus.

Alguma coisa mudou no Oriente Médio, nas últimas 24 horas – e os israelenses, se se considera a resposta política extraordinariamente estúpida, pós-matança, não dão qualquer sinal de terem percebido a mudança. O que mudou é que o mundo, afinal, cansou-se das matanças israelenses. Só os políticos não têm o que dizer, hoje. Só os políticos estão calados.

TERRA PROMETIDA por walmor marcellino + / curitiba



“Sempre fui palestino.
Era palestino
antes de saber meu destino,
e que existiram
Nabucodonosor, Ciro
seu pai Cambises
ou seu neto Artaxerxes
o que eles sentiram,
ou o que dizes do rito
agora dos reis a quem serves.

Sempre fui um palestino,
e tempos depois abissínio,
pele negra, sangue tinto
derramado em 1935.
Fui judeu estrelado em 40
e a cada seqüente ano;
depois, moreno cigano,
ditos indigitados estranhos
a qualquer núcleo humano.

Tornei-me vietnamita
numa povoação calcinada;
desde a porta de entrada
procurei defender nossa vida
com fraternidade ativa.
Bombas e napalm rasantes
à morte, traçantes
tentamos
a resistência massiva
ante o terror imperialista.

Hoje, é o mesmo inimigo,
pouco distinguimos ao vê-lo,
impondo ao povo castigo
quer arrasar a Palestina.
É um amargo pesadelo.

Novas tábuas do Sinai, a sina
vêm na luz “starfight” do céu, na
estrela de seis pontas no tanque,
vai retornando essa malsina
com todo o poderio ianque.”

(Curitiba, julho de 2002)

AS RUÍNAS DA CRISE e o SONHO QUE RESSURGE – por alceu sperança / cascavel.pr


Uma espécie de Oscar Niemeyer da Geografia, o professor Milton Santos (1926–2001) foi um dos grandes brasileiros do século XX. Seu pensamento é, ao mesmo tempo, luz e frescor para orientar os patriotas que ainda teimam em sonhar com um País justo e uma humanidade feliz, apesar do luliberalismo aqui dentro e do neoescravismo financeirizado que domina o planeta.

Nos seus últimos dias sobre a Terra, nosso grande geógrafo alegava que mesmo em meio a toda essa bagunça mundial está surgindo um novo mundo. Para ele, ao contrário do que tanto se disse, a história universal não acabou: “Ela apenas começa”.

De onde, diabos, Santos tirou esse novo mundo cuja história só começou?

Antes, o que havia era uma história de lugares, regiões, países, sustentava Santos. As histórias podiam ser, no máximo, continentais, em função dos impérios que se estabeleceram em uma escala mais ampla.

A história universal era só a visão pretensiosa de um país ou continente sobre os outros, considerados bárbaros ou irrelevantes. O mundo era formado de frações separadas ou escassamente relacionadas do planeta.

“Somente agora a humanidade faz sua entrada na cena histórica como um bloco, entradarevolucionária, graças à interdependência das economias, dos governos, dos lugares”.

Diante disso, o movimento do mundo conhece uma só pulsação, ainda que as condições sejam diversas segundo continentes, países, lugares, valorizados pela sua forma de participação na produção dessa nova história.

A mesma materialidade atualmente utilizada para construir um mundo confuso e perverso será uma condição para a construção de um mundo mais humano, bastando que se completem as duas grandes mutações ora em gestação: a mutação tecnológica e a mutação filosófica da espécie humana.

Claro que o avanço da ciência e da técnica está agora apropriado pela máquina injusta do capitalismo, mas, segundo Santos, “quando sua utilização for democratizada, essas técnicas doces estarão a serviço do homem”. De resto, há ainda a mutação do homem biológico, por conta dos progressos e das promessas da engenharia genética.

Temos, assim, que os avanços da ciência e da técnica serão apropriados pela humanidade numa progressão pós-capitalista, apropriação feita por um homem que não será o atual, mas um novo homem, que reconstruirá a si mesmo como uma nova espécie sobre a Terra.

Se ainda ontem não havia CD e hoje ele já está quase obsoleto, nada do que usamos agora, coisa alguma de toda a parafernália que consideramos evoluída terá qualquer utilidade dentro de alguns poucos anos.

As mudanças no mundo material e na vida humana estarão a cavaleiro de transformações agudas na sociedade, na economia, na cultura e na espiritualidade.

A correspondente mutação filosófica do homem será, na visão de Milton Santos, “capaz de atribuir um novo sentido à existência de cada pessoa e também do planeta”, pois “nesse emaranhado de técnicas dentro do qual estamos vivendo, o homem descobre suas novas forças”.

Isso também dá em uma nova política, bem diferente desse mar de egoísmo e safadeza que aí está, com candidatos arrogantes se julgando melhores que os outros, igualmente arrogantes e personalistas, arremedos desumanos encarnando práticas vis e criminosas.

“Ousamos, desse modo, pensar que a história do homem sobre a Terra dispõe afinal das condições objetivas, materiais e intelectuais, para superar o endeusamento do dinheiro e dos objetos técnicos e enfrentar o começo de uma nova trajetória” – esta, a maravilhosa sentença que Milton Santos nos deixou em seus últimos instantes de vida.

A ARTE e a FAVELA por joão batista do lago / são luis

A Favela-arte e o alegre lirismo da Arte-favela    (03/ 2006)

Como categorizar ou classificar o documentário “Falcão…” exibido na noite do último domingo[1], pelo programa “Fantástico, o show da vida”, da Rede Globo de Televisão, do Brasil, sobre as reais condições de vida dos viventes em favelas, no Rio de Janeiro – Cidade Maravilhosa? O que dizer do impacto que causou (o que não deveria, pois, essa é uma realidade comum a todos nós) ao outro lado, – à burguesia deificada pela pós-modernice imanente no imaginário da identidade brasileira -, ao ver-se refletida no espelho surrealista da grotesca sociedade nacional? Que caminhos tomar, a partir deste evento “espetacular e mitológico”, dessa fantasmagoria, desse babelismo favélico[2], que nos faz alegres e nos remetem a pensamentos tais quais: “ainda bem que não sou eu…”, “o que eu tenho a ver com isso se não moro no Rio de Janeiro…”, “isso é problema dos governos…”, “eu faço a minha parte…”, “venha para o meio…”?
Permito-me dizer que o relatório concreto[3] final (ou quase final!) da pesquisa feita em diversos morros favelados da suburbana “Princesinha do Mar”, que resultou neste documentário telemático, é uma obra de arte… Arte do submundo fantástico! Arte da degradação do ser! Arte da história do homem! Arte da história da consciência humana! Arte da teoria da sociedade! Arte da crítica e da razão! Arte do Aufklärung! Mas, também, é preciso dizer: é arte da auto-afirmação da burguesa pós-modernice que canta em verso e prosa toda a alegria da favela-arte que é mercadejada no imaginário coletivo do mercado animista[4]. É, sobretudo, a afirmação de uma arte inclusiva da exclusão… arte da reclusão… arte da guetização… arte da segregação… É, assim, todo o lirismo da arte contido em si.
O documentário desvela, ao mesmo tempo, uma tipologia dialética do Eu louco foucaultiano numa direção rastreadora do mimetismo e da metamorfose kafkiana. Gostaria mesmo de não ter essa representação imagética desse sanatório geral, mas só ela me é possível após as imagens do aqui e agora, do real e do realismo puros, apresentadas em rede nacional de televisão. Pena que três quartos (ou mais até!) dos expectadores foram dormir sem quaisquer ânsias de vomição, pois, senso comum: a pobreza, a fome, a miséria, a desigualdade, a falta de trabalho… tão essenciais para o desenvolvimento e o progresso da burguesa sociedade que dorme em berço esplêndido – e tudo o mais! – regem, como mitos sacralizados, a vida dessas almas seculares que não mais são tocadas pelos dedos dos deuses capazes de lhes proporcionar a felicidade na terra. Mesmo que momentaneamente amarguradas serão embaladas nesta noite pelos sonhos opiáticos da burguesa solidariedade (ou pena!?) cristã. Que pena!
A cavernosidade do documentário é tanta que provoca letargia imanente não deixando eliminar o monstro e toda sua monstruosidade latente imbricada numa filosofia niilista que veda os olhos da esperança por mais otimistas que queiramos ou desejamos ser. E ainda que o fato se dê no aqui e agora, ele revela a pré-história do ser humano incapaz de resolver seus antagonismos, mesmo que à cada dia mais se eleve ao nível das tecnologias esperançosas (nada mais que falsas verdades!) de uma alteridade capaz de resgatá-lo num progresso sei-lá-do-quê.
Não há como não desesperançar quando nos interiorizamos ou retornamos a essa caverna do humano onde somos assassinados após ver toda a beleza da luz, do sol, da lua, do dia, da noite, dos rios, dos pássaros, das árvores, das rosas, das flores!… Não há como não desesperançar quando nos vemos apenas um mercado onde o modo de produção é a miséria… a fome… a desigualdade… a injustiça…
O que esperar, então, desta obra de arte que retrata e reflete o eu-nós-eu-em-si nessa droga de favela-arte da droga da arte-favela em todo o seu lirismo dogmático?
– O burguês prêmio por mostrar a dialética da negação estética da favela-arte que é comercializada no mercado negro da ética acrítica e amoral – “uma pré-história do idealismo, da imanência, do espírito exaltando-se a si mesmo, da subjetividade dominadora, em que é preciso enfatizar as configurações do mito e da pós-modernidade, da natureza e da história, do antigo e do novo, do sempre idêntico e do outro, da decadência e da salvação”.[5]
Mas, “Falcão…” também nos remete para uma verificação da dialética da cultura da miséria imanente no humano que, em si, é o Eros lírico da arte fetichizada. De certa maneira nos mostra a forma e o conteúdo dessa mísera democracia libidinosa presente no aqui e agora que pensamos está além de nós, quando, em verdade, ocorre dentro da infra-estrutura política, social e econômica, no interior de cada elemento individual do sócio-histórico, isto é, da sociedade, numa pulsão prazerosa da catástrofe e do caos.
Por acaso não é a miséria a estética subjetivista de uma sociedade que contém em si diversidade de emoções e sentimentos que a suscita? Que a torna bela? Que a faz atraente? Que a deseja? Que a erotiza? Que a transforma em mito? Que a consome? Que a subjuga? Que a exclui? Que a faveliza? Que a discrimina? Que a domina? Que a naturaliza, enfim, e a desclassifica?
“Com o recuo da luta de classes em pleno dia, a contradição mudou de forma: ela tem agora a aparência de uma despolitização das massas numa cidade que era, ela própria, cada vez mais politizada. À medida que a separação entre Estado e sociedade desaparece, e o poder social se torna político sem mediação, vê-se aumentar objetivamente o antigo desequilíbrio entre a igualdade inserida no direito e a desigualdade efetivada na repartição das oportunidades de agir politicamente. Esse mesmo processo, aliás, tem também por efeito o fato de ele mesmo perder seu caráter permanente e sua acuidade na cabeça dos homens. A sociedade que, embora seja política por natureza, não está mais separada do Estado, continua a ser concebida como uma entidade separada do Estado nas formas do Estado liberal de direito – essa sociedade funcionaliza cada vez mais seus cidadãos para fins oficiais mutantes, mas, para isso, os privatiza em sua consciência”[6]
É, pois, preciso pensar, entender e compreender – de uma vez por todas – que o morro e toda a sua história de miséria imanente e miseráveis imanentes, e não menos mitológicos e fetichizados, não estão além ou aquém do humano, não estão além ou aquém do sagrado, não estão além ou aquém da metafísica, não estão além ou aquém da racionalidade, não estão além ou aquém da sociedade, não estão além ou aquém do capital e do capitalismo, não estão além ou aquém do Estado. Estão em si. Encontram-se tatuados nas suas essências espirituais e delas jamais podem afastar-se ou desgarrar-se ou desintegrar-se.
Seria, então, a lírica arte de M. V. Bill, a pré-configuração latente de um tipo de profecia que se cumpre por si mesma sobre a forma e conteúdo dos moradores em favelas? Ou, seria, ao contrário, a materialidade real da catástrofe e do caos, que sempre estamos jogando para baixo do tapete das subjetividades latentes, como evitação do reconhecimento, compreensão e entendimento da verdade objetiva?

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[1] 19 de março de 2006.
[2] 1 Ora, toda a terra tinha uma só língua e um só idioma.
2 E deslocando-se os homens para o oriente, acharam um vale na terra de Sinar; e ali habitaram.
3 Disseram uns aos outros: Eia pois, façamos tijolos, e queimemo-los bem. Os tijolos lhes serviram de pedras e o betume de argamassa. 4 Disseram mais: Eia, edifiquemos para nós uma cidade e uma torre cujo cume toque no céu, e façamo-nos um nome, para que não sejamos espalhados sobre a face de toda a terra.
5 Então desceu o Senhor para ver a cidade e a torre que os filhos dos homens edificavam;
6 e disse: Eis que o povo é um e todos têm uma só língua; e isto é o que começam a fazer; agora não haverá restrição para tudo o que eles intentarem fazer.
7 Eia, desçamos, e confundamos ali a sua linguagem, para que não entenda um a língua do outro.
8 Assim o Senhor os espalhou dali sobre a face de toda a terra; e cessaram de edificar a cidade.
9 Por isso se chamou o seu nome Babel, porquanto ali confundiu o Senhor a linguagem de toda a terra, e dali o Senhor os espalhou sobre a face de toda a terra. (Gênesis. 11, 1-9.)
[3] Por estudo concreto, entende-se: um relato da sociedade como, totalidade. Porque somente neste relato é que a consciência, que os homens podem ter em cada momento de sua existência, aparece em suas relações essenciais. Por um lado, aparece como algo que, subjetivamente, se justifica, se compreende e se deve compreender a partir da situação social e histórica, como alguma coisa de “justo”; e, ao mesmo tempo, aparece como alguma coisa que, objetivamente, é passageira com relação à essência do desenvolvimento social, que não se conhece nem se expressa adequadamente, e pois como “falsa consciência”. Por outro lado, essa mesma consciência aparece sob essa mesma relação como carente subjetivamente dos alvos que a si mesma assinalou, ao mesmo tempo em que aparece visando e atingindo os alvos objetivos do desenvolvimento social, desconhecidos dela e que ela não desejou. Essa determinação, duplamente dialética, da “falsa consciência” não mais permite tratá-la restringindo-se a descrever o que os homens pensaram, sentiram ou desejaram efetivamente sob determinadas condições históricas, nas determinadas situações de classe etc. O que ai está é apenas o material, e, para dizer a verdade, muito importante, dos estudos históricos propriamente ditos. Estabelecendo-se a relação com a totalidade concreta, donde saem as determinações dialéticas, supera-se a mera descrição e alcança-se a categoria da possibilidade objetiva. E relacionando-se a consciência à totalidade da sociedade, descobrem-se os pensamentos e os sentimentos que os homens teriam tido, em uma situação vital determinada, se tivessem sido capazes de perceber perfeitamente essa situação e os interesses que daí decorrem tanto no que se refere à ação imediata como à estrutura, conforme a esses interesses, de toda a sociedade. Descobrem-se, pois, os pensamentos, etc., que são conformes à sua situação objetiva. Em nenhuma sociedade o número de tais situações é ilimitado. Mesmo se a sua tipologia está elaborada graças às pesquisas minuciosamente aprofundadas, tem-se por resultado alguns tipos fundamentais claramente distintos uns dos outros e cujo caráter essencial está determinado pela tipologia da posição dos homens no processo da produção. Pois a consciência de classe é a reação racional adequada que deve, dessa maneira, ser adjudicada a uma determinada situação típica no processo de produção. Essa consciência não é nem a soma nem a média do que os indivíduos que formam a classe, tomados separadamente, pensam, sentem, etc. Entretanto, a ação historicamente decisiva da classe como totalidade está determinada, em última instância, por essa consciência e não pelo pensamento etc., do indivíduo. E essa ação não pode ser conhecida a não ser a partir dessa consciência. (Consciência de Classe – György Lukács. 1920).
[4] Um bom exemplo disto é o filme Cidade de Deus (Fernando Meirelles), e mais remotamente Pixote (Hector Babenco), que, tal qual o documentário, fala sobre a vida e o comportamento das pessoas que moram nos morros e favelas do Rio de Janeiro, a partir de uma abordagem criminológica. Em Pixote a linguagem utilizada foi a do autor do filme. Cidade de Deus aborda o tema a partir de uma linguagem do sujeito interno, mas contada na terceira pessoa. A “fita” recebeu da burguesia pós-moderna – nacional e internacional – comentários apologéticos muito além do seu real valor estético. Aliás, este, sequer foi analisado do ponto de vista artístico-social. Mataforicamente pode-se afirmar que, neste caso, tem-se produzido um verdadeiro “Salmos” (o que prevejo para este documentário) sobre esta obra que, diga-se de passagem, não foi a primeira e tampouco será a última. O importante é notar que tanto nos filmes anteriores quanto neste caso (do documentário) percebe-se a clarividente profecia que se cumpre por si mesma que é “uma definição falsa da situação que provoca uma nova conduta a qual, por sua vez, converte em verdadeiro o conceito originalmente falso. A validade especiosa da profecia que se cumpre por si mesma perpetua o reinado do erro, pois o ‘profeta’ mencionará o curso real dos acontecimentos como prova de que tinha razão desde o princípio” (Robert K. Merton) mas, que não é sequer pautada para um debate esclarecedor no seio da sociedade (intra e extra) que, mais uma vez, surge no cenário como massa de manobra para as dominações latentes dos tais incluídos ou como mais recentemente apregoa a propagandística católico-cristã: os do meio.
[5] Resumo micrológico dos pensamentos (aleatórios) dos frankfurtianos Max Horkheimer, Theodor Adorno e Walter Benjamim.
[6] A Escola de Frankfurt – Wiggershaus, Rolf, 2002, p. 584.

Sebastião Nery lança memórias: “Espremi a minha vida”


Claudio Leal

Sebastião Nery é memória. Num papo informal, o jornalista político é capaz de escalar ministérios, contar a história do enterro da cadela de Jânio Quadros (sim, chamava-se Muriçoca e foi presenteada pela Rainha Elizabeth II), relatar o encontro com Frei Pio de Pietrelcina, em San Giovanni Rotondo (Itália), e lançar uma farpa específica a cada víbora da política nacional.

Após um gole de vinho, poderá fisgar de cor um trecho do romance “Terra dos Homens”, de Saint-Exupéry – mais especificamente, a página em que o aviador Guillaumet retorna a pé (e na neve) de um desastre nos Andes, entra resfolegante num bar e desabafa aos companheiros de correio aéreo: “O que fiz, palavra que nenhum bicho, só o homem, era capaz de fazer”.

Essa frase talvez pudesse servir de epígrafe para as memórias de Sebastião Nery. Em 9 de novembro, na cidade do Recife, no aniversário do jornal Diário de Pernambuco, Nery lançará “A Nuvem – O que ficou do que passou” (Geração Editorial), o livro que condensa 50 anos de vida profissional e política. A aventura se inicia no internato de seminarista, na Bahia, e se estende até os anos 90. Nesse rastro de evocações, surgem os presidentes Juscelino Kubitschek, Jânio Quadros, os ditadores do regime militar, Tancredo Neves, José Sarney e Fernando Collor.

– Você de repente vai vivendo mais e a vida se torna uma alameda de amores mortos. Fui revirar, mesmo assim é um negócio difícil… Esse livro sou eu. É minha alma, minha vida, meus sofrimentos, minhas angústias e, inclusive, as brigas em que entrei. Não falseei nada.

A briga com o amigo Leonel Brizola, nos anos 80, está contada num capítulo “denso e forte”. Deputado federal pelo Rio de Janeiro (eleito com 111 mil votos) e secretário nacional do PDT, Nery travou uma conversa amarga com o governador carioca. Modos gaúchos, Brizola passou manteiga no pão antes de lhe pedir uma escolha: o jornalismo ou a direção do partido. Depois do encontro, a sentença.

– Desci, e estava o ótimo repórter Henrique José. Tinha me visto entrar, e ficou no botequim do Hotel Othon. “O que houve com você e Brizola? Eu tinha a notícia de que Brizola ia lhe enquadrar. É verdade?”. Falei pra ele: “Tenho que ir pra Brasília…” “Me dê apenas uma frase”, pediu. E eu dei: “Acho que nos enganamos. Fomos a Lisboa buscar Brizola e trouxemos Juan Domingo Perón.”

Nesta entrevista a Terra Magazine, Nery fala das experiências escrevinhadas em “A Nuvem”, mas também opina sobre a política brasileira contemporânea, sem esquecer a polêmica confissão do presidente Lula, de que precisa se aliar a “Judas” para poder governar.

– Lula já se aliou a Judas. Mas o Fernando Henrique se aliou a Satanás. Fernando Henrique se antecipou, se aliou a Satanás, fez uma aliança com o sistema financeiro, internacionalizou a economia – ataca o jornalista.

Para Sebastião Nery, o Congresso Nacional se empobreceu ao servir de esteio para os interesses de grupos financeiros.

– A política passou a ser um braço político do sistema financeiro e dos interesses econômicos. Atrás de cada grande negócio, existe um grande branco. A política brasileira passou a ser monetária e financeira. O Congresso não é mais cultural, político; é capitalista, financeiro.

Colunista político histórico da “Tribuna da Imprensa”, republicado em outros 25 jornais do País, Nery é autor do best-seller “Folclore Político”, que marcou a literatura política nos anos 70, “Socialismo com liberdade” (1974), “16 derrotas que abalaram o Brasil” (1974), “Crime e castigo da divida externa” (1985), “A história da vitória: porque Collor ganhou” (1990), “A eleição da reeleição” (1999) e “Grandes pecados da imprensa” (2000). Em 2002, reuniu 1.950 histórias numa edição definitiva do “Folclore Político”. Agora, nasce “A Nuvem”.

Confira a entrevista-depoimento.

Terra Magazine – O subtítulo de “A nuvem” é inspirado numa definição de Alceu Amoroso Lima sobre o passado?

Sebastião Nery – “O passado não é o que passou. É o que ficou do que passou.” O livro, na verdade, é uma espremida. Você não faz um livro desse se não espremer a alma durante 50 anos. Porque eu tinha que contar uma série de histórias. Umas são fáceis, outras não são fáceis. Mas tinha que contar. Você não pode fazer um livro desse com mentira. Pode fazer deixando de contar alguma coisa. Evidente que deixei de contar uma série de coisas. Ou eram pessoalmente desagradáveis ou politicamente incorretas. Por exemplo, discutir o problema do Brizola com o dinheiro. Eu sei quais eram, mas aí era o problema de como ele via o financiamento da vida pública.

Episódios da campanha eleitoral?

O que é um problema complicado com todo político brasileiro. Quando você tem um processo político financiado não publicamente, mas privadamente… Isso aconteceu com o Jânio, com Brizola, com os outros todos. Isso eu achei que não devia tratar, até porque, embora fosse testemunha de alguns fatos, era um processo de financiamento de políticos.

Mas, em algumas colunas, você chegou a tratar dessas histórias de Brizola, não?

Sim. Já cheguei a tratar. Mas era no aceso da campanha e tal, mas num livro… A não ser que eu fizesse um capítulo específico sobre isso. Não quis. Porque aí eu tinha que fazer sobre o Jânio, quem financiou a campanha do Tancredo, quem financiava as campanhas de Juscelino (Kubitschek), e vai por aí. Outro assunto, no caso concreto do Brizola: o problema da segurança do Rio de Janeiro. Esse eu podia ter tratado. Eu poderia ter me vingado e não quis. Na época, em 1983, eu denunciei: esta visão política de Brizola vai levar o Rio a se transformar numa Colômbia. Por quê? Duas frases dele. Quando eu defendi a tese de que ele precisava começar imediatamente obras públicas nas favelas, para que o correio e o médico chegassem, para que a ambulância subisse, ele dizia assim: “Eu não vou abrir as favelas para o PT entrar”. O negócio dele era político.

E hoje nem o PT sobe.

Nem o PT. Outra coisa, ele dizia assim: “O Chagas (Freitas) viveu nomeando policiais para as favelas. O Negrão (de Lima) nomeava policiais que comandavam as favelas”. Era a verdade, os delegados comandavam. Aí ele dizia: “Temos que substituí-los.” Como? “Vamos transformar as associações de moradores em diretórios do PDT”. E eu dizia pra ele: “Mas as associações de moradores pertencem aos traficantes.” Ele disse: “Isso é um problema dos rapazes com as associações de moradores. Nós não temos nada com isso. As associações de moradores têm que ser do PDT e não do PT e de outros partidos”. Foi um erro grave do Brizola. “Você vai transformar isso aqui numa Colômbia.”

Mas houve também os erros dos outros. Houve os quatro anos do Brizola e depois Moreira Franco, que deixou a mesma coisa. A tese: a polícia não sobe, o crime não desce. (risos) Se a polícia não sobe, o crime sempre desce. Eles não iriam roubar eles mesmos, iriam buscar o dinheiro aqui embaixo no asfalto. É uma expressão curiosa. Você não vê um favelado, sobretudo os traficantes, falar na cidade, no comércio… É no asfalto. Foram essas duas coisas que não tratei no livro, mas as outras todas, políticas, eu tratei.

Memórias são sempre seletivas, não dá pra capturar tudo. Como foi a construção de “A Nuvem”?

É impossível colocar 50 anos em 600 páginas. Isso é um problema. Não é um livro vazio. O livro tem dois seminários, três mandatos disputados e ganhos em três estados diferentes, oito países, onde eu passei mais de 6 meses, e 30 países mais por onde passei trabalhando. O livro tem um fio condutor que é uma história de amor que começa no seminário e acaba 50 anos depois.

Qual é?

O leitor vai pegar o livro e ver. Começa no seminário e é uma história densa, forte, um pouco massacrante às vezes, mas que durou 50 anos.

E, claro, o jornalismo.

Fora isso, trabalhei em dois jornais em Minas, o jornalismo na Bahia (Jornal da Bahia e A Tarde), os jornais do Rio (Correio da Manhã, Última Hora e a Tribuna da Imprensa). Depois tem dez anos na Folha de São Paulo e a TV Bandeirantes. E os dois jornais que eu fundei, o Jornal da Semana, na Bahia, e o Politika, no Rio. Jornais que duraram mais de três anos, numa luta difícil. Se você somar tudo isso, é uma carga enorme de fatos. Por isso eu gosto do livro. Não ficou literário. É um depoimento.

Algo como o formato do livro de Rodrigo Octávio, “Minha memória dos outros”? A vida política a partir de sua experiência de jornalista, como você acompanhou os fatos?

Isso, como eu acompanhei os fatos. Aí, claro, eu conto as histórias dos outros. Mas eu conto a história de Juscelino como poucos. Porque fui testemunha da vida de Juscelino por quatro anos, quase cinco, dia a dia. Depois ele veio a ser presidente da República. É diferente, eu estava na Bahia e ele no Rio. Claro que eu vinha, de vez em quando tinha entrevista com ele. Foi cassado, continuei amigo dele. Outra coisa é ver a virada que ele deu em Minas para ser presidente da República.

No tempo em que atuava como repórter?

Sim, cheguei em 1952. Eu vi Juscelino sem saber como escrever o nome dele (risos). Verdade! Conto o primeiro encontro. Pergunto como se escreve o nome dele… Eu era, digamos, um bobo. Tinha saído do seminário… Outro negócio é o da aventura pessoal. Um menino da roça vai pra cidade e, de repente, por isso ou por aquilo, resolve ir pro seminário e vai. Quem resolveu fui eu. Para não ficar na cidade. Por isso o livro se chama “A nuvem”.

Como se inicia a vida de seminarista?

Termino o quarto ano primário e digo à minha professora: “O que vou fazer agora?”. Eu ganhei um prêmio, ela me deu um presente. Ela disse: “Você não pode ficar aqui. Não pode ir pra trás do balcão como seus irmãos”. Eu já tinha três irmãos trabalhando em lojas de tios. “O que eu posso fazer?”. E ela: “Vá pro seminário”. “Mas como?”. “Fale com o padre Flamarion. Está sendo fundado um seminário…”. A frase dessa mulher mudou minha vida, porque eu poderia ter ficado lá com meus irmãos. Mas eu não teria feito uma vida de jornalista, uma vida na área cultural, se não fosse essa bendita mulher.

Em Belo Horizonte, no seu início no jornalismo, você procura Wilson Figueiredo pra pedir um emprego e ele diz pra você procurar um jornal que pague em dia. Como foi isso?

Saio da Bahia. Na minha cabeça, queria ser professor de filosofia. Adorava o curso. Estimulado por um professor, que dizia que só existia um curso bom de filosofia no Brasil, o do Rio de Janeiro, eu então pego um caminhão. Ele quebra e eu fico um ano no interior de Minas, em Pedra Azul. De lá vou pra Belo Horizonte, fundo um jornal na faculdade, chamado A Onda. Resolvo ser jornalista, porque comecei a escrever no jornal oficial do diretório, e no meu próprio. Um dia vou ao Folha de Minas e encontro Wilson Figueiredo. Levei os dois jornais. E ele então diz assim: “Estou com seis meses de atraso, você tá maluco? Quem tem dinheiro aqui é o Chateaubriand ou o arcebispo. Vá no jornal do arcebispo”. Arranjei um emprego, virei jornalista.

Comecei a exercer o jornalismo com o furor que eu emprestava às coisas que fazia. Eu era um estudante ativíssimo, meio furioso na universidade. E fui me destacando como jornalista, comecei a assinar. Naquela época não era fácil um sujeito assinar matérias, com 19 anos. O José Mendonça, que tá vivo, a quem eu faço todas as homenagens, teve a sensibilidade de dizer: “Esse cara é jornalista”. Um dia eu abri o jornal e estava lá: “S.N.” “Comece a assinar”, ele me disse. “Jornalista assina. Mas, pra assinar, precisa merecer”. De repente, abro o jornal e está: “Sebastião Nery”. Não parei mais.

Você sempre gostou de polêmicas, criou muitas delas. Mas quando situa a primeira?

A primeira foi no primeiro ano, com um padre. Fui a um congresso de estudantes em novembro de 1952. Primeiro ano da faculdade, eu era delegado no congresso, e primeiro ano do jornal. E cheguei lá no congresso, o padre da cidade de Uberaba, que tinha um programa de rádio muito ouvido, seis hora da tarde, esculhambava a nós da oposição e defendia os outros. “Vou o negócio desse padre hoje”. Sentei na porta do hotel e fiquei com um rádio, ouvindo. O padre falava bem, inteligente, dizia assim: “Nós homens, nós cristãos, temos que agradecer a Deus por não termos nascido borboleta, sapo, cavalo, não termos nascido animais, cocos, mas homens à imagem e semelhança de Deus”. (risos)

Então fiz uma crônica: “O coco e o sapo”. Tirei a borboleta e sacaneei. Não nascemos nem sapo nem coco, mas homens à imagem e semelhança de Deus. Tudo bem, mas eu publiquei no Diário do arcebispo, o maior jornal católico da América Latina – e era verdade. Era o mais importante jornal de Minas. Aqueles intelectuais todos: Edgar da Matta Machado, Oscar Mendes, Milton Amado, Carlos Drummond de Andrade, Fernando Sabino, Ettiene Filho, etc. Todos escreviam no jornal, embora o Estado de Minas fosse mais poderoso, vendia mais. Mas aí saiu. Foi aquele escândalo. Os padres de Uberaba exigiram do arcebispo que me demitissem. O Mendonça me disse: “O Dom Cabral quer conversar com você. Ele ficou abismado com sua audácia. Você desmoralizou o padre. O sapo e o coco, no jornal do arcebispo?” Lá vou eu, todo humilde. Dom Cabral: “Meu filho, quantos anos você tem?” “Acabei de fazer 20”. “Você é muito atrevido. Não se faz isso com um sacerdote, que é um enviado de Deus. Os que não gostam dele estão pegando o nosso jornal, meu jornal, e botando assim: O Diário confirma: o padre fulano de tal é uma besta.” (risos)

E seu veio polemista se desdobra com a oposição a Juracy Magalhães?

Vou pra Moscou, saio do jornal do católico…

Pelo Partido Comunista?

Eu tinha entrado na juventude comunista e quando fui pra Moscou já era do Partido Comunista. Quando fui ser editor político do Jornal do Povo, eu respondia ao Partido. Volto pra Bahia e vou para o Jornal da Bahia, evidentemente simpático ao Juracy, que era um administrador competente. Mas aí vem a greve do petróleo. Esse Petrosal me persegue desde então! A principal refinaria do Brasil era a de Mataripe, depois tinha a de Cubatão e a de Duque de Caxias. Os petroleiros da Bahia ganhavam menos que os petroleiros paulistas e cariocas. Mário Lima e os companheiros dele de sindicato lançaram um slogan brilhante: “Ou equipara ou aqui para”. E eu fiz um artigo no jornal contando a história. Só que eles pararam. A direção da Petrobras não quis papo. Fui pro sindicato e lá assisti a porrada, os pontapés, a polícia deu porrada. Os petroleiros também eram agressivos, não estavam brincando. Eu então voltei, fiz uma nota, mais ou menos dizendo que o general voltou a ser tenente. Ele fez a campanha dizendo que era um general de cabelos brancos, não era mais o tenente de 30…

Que usava o terço…

Foi aí que eu disse: “Juracy bate com o terço”. (risos) Criou uma impossibilidade de eu continuar no Jornal da Bahia. Vou para o jornal A Tarde, fico um ano. Um pouco pelas mesmas razões, saio de lá e fundo o Jornal da Semana. Ele produziu minha candidatura para deputado. Nunca pensei, naquela época, em ser deputado. Foi no último ano. Me elegi, fui cassado em 1964.

O “Jornal da Semana” tinha um slogan muito bom: “Tirando o Senhor do Bonfim, a Bahia e Marta Rocha, este jornal não tem compromisso com mais ninguém”.

E eu comecei com: “Conta sábado o que os outros esconderam durante a semana.” Um dia o Jorge Calmon (ex-editor-chefe do jornal A Tarde) me chamou e disse: “Nery, não faça isso. Isso é agressivo contra mim e contra os outros. Nós gostamos tanto de você, mude isso”. Mudei em homenagem ao Jorge: “Conta sábado os segredos da semana”. Ele achou que era “descortês”. Estou dizendo essas coisas, mas quero dizer, então, que meu livro não podia ser leve. Tive uma preocupação enorme em não fazer um livro pesado. Nem um livro choroso, nem um livro falso, dizendo que tudo foi fácil. Contei as coisas, as brigas, as dificuldades todas. Sempre com uma coisa que é uma verdade: por isso ou aquilo, minhas coisas sempre deram mais ou menos certo. Poderia ter falhado, profissionalmente. Eu podia ter morrido.

Onde?

Por exemplo: só ter passado quatro anos entrando naqueles aviões de Minas, atrás do Juscelino, aquilo era uma tentativa de suicídio! (risos) Tinha uma empresa em Minas chamada Omta, Organização Mineira de Transportes Aéreos. Aí cai um avião da Omta, avião em que nós jornalistas voávamos. Ele tinha um aviãozinho dele, viajava com os assessores. Quando nos convidava para ir a alguma cidade do interior, íamos para esse aviãozinho, convidados pelo palácio. Não tinha aquele negócio da TV Globo dizer: nós pagamos, demos dinheiro pro Bolsa Família… Enfiava um ali pra ver se voltava vivo. Cai um avião, cai o segundo, o terceiro… Quando caiu o quarto, fiz uma coluna: “Omta: Organização Mineira de Tombos Aéreos”. Esculhambei. Quando cheguei no outro dia, no Diário, o Mendonça olhou pra mim e disse: “Por que você pediu demissão?”. “Não pedi demissão de nada…”. “Você sabe de quem é essa Omta?” “Não, é do fulano!”. Era o diretor-geral, tesoureiro do jornal. Um cara simpático, elegante, saiu de lá: “Nery, não fique nessa conversa do Mendonça. Eu entendo, você é um jovem, imagina o meu constrangimento. Eu não sou dono sozinho dessa empresa. Somos três sócios. Sou um cristão, sei que você não teve maldade”.

E os aviões russos, na viagem à Sibéria? Outro risco, hein?

O resto do resto. Todos os aviões russos. Quando os aviões não prestavam mais, eles mandavam pra Sibéria. Cai no gelo, não sai nem fogo! Viajei muito naqueles aviões. Deu tudo certo, nunca caí de avião. O Zé Aparecido (de Oliveira, ex-ministro) caiu de avião. Eu nunca caí.

Como era a cobertura jornalística de campanha eleitoral?

Fiz a candidatura de Juscelino, em 1955, quase toda. Viajava, ia atrás nesses aviões vagabundos. Me lembro do Nereu Ramos. Saltei em Santa Catarina, nosso avião chegou antes do Juscelino porque ele ficou em Curitiba, tratando alguma coisa, talvez com Lupion. Atrasou o voo. Na hora que eu desci do avião, tinha um homem feio, mas tão feio, tão feio, com gravata, elegante, bem vestido. Eu disse: “Meu Deus, nunca vi um homem tão feio!” Era Nereu Ramos. Não conhecia.

Nem de caricatura?

Exato! Nereu Ramos tinha sido importante na Constituinte, foi o presidente da Comissão Constitucional. Depois foi presidente do Senado e ministro da Justiça de Juscelino, presidente após o golpe do Café Filho, naquela confusão do Lott.

Invertendo o que Carlos Lacerda disse de Castello Branco, Nereu era “mais feio por fora do que por dentro”?

Ele, o Nereu, era muito feio, mas o aeroporto conseguiu ser mais feio que o Nereu! (risos) Parecia uma quitanda, o aeroporto de Florianópolis. E não era só isso. É você sair de Belo Horizonte, conseguir chegar a João Pessoa e de lá a Campina Grande, ir pro comício de Juscelino em Campina Grande. Como mandar as matérias? Não havia o telex. Você tinha que voltar e fazer a matéria com atraso. Ou então as companhias de aviação, os grandes correios do Brasil: a Panair, a Varig estava só começando, e a Cruzeiro do Sul, a que tinha a melhor malha aérea interna. A gente ia pro aeroporto, escrevia a matéria, enfiava num bloco, se comunicava com o jornal, e mandavam buscar… Um sufoco.

O golpe atrapalhou sua vida profissional? Você foi obrigado a mudar outra vez de Estado?

O golpe foi burro comigo. Primeiro eu tive logo uma posição patriótica. Dois amigos meus eram dos cinco maiores conspiradores na Bahia, Raimundo Schaum e Virgilio de Sá. Esses dois conspiraram o tempo todo lá na Bahia. Me chamaram cinco, dez vezes pra algumas reuniões. Eu não fui. Veio o golpe, falei na rádio Mayrink Veiga, na rádio Nacional, depois voltei pra Bahia. Muda sua vida. Eu era deputado estadual, já candidato a deputado federal, tinha um jornal que me apoiava, tinha uma atuação no Estado, na Assembleia. Acaba tudo de repente, é uma aventura, venho pra São Paulo, onde fico um ano e tanto escondido. E volto pro Rio. Nunca pensei que o golpe ia me promover de um jornalista suburbano, provinciano da Bahia, para um jornalista do Rio de Janeiro. Eu vim, pousei no Diário Carioca por quatro meses e logo fui pra TV Globo. Comecei a escrever na Tribuna (da Imprensa), fui pro Correio da Manhã. Virei um jornalista nacional.

O jornalista Sebastião Nery, 77 anos, publica o livro de memórias “A nuvem” (Geração Editorial), que condensa 50 anos de vida política e profissional

“Lula se aliou a Judas, FHC a Satanás”

Como foi sua experiência com Roberto Marinho na TV Globo?

Sebastião Nery – Foi uma experiência excelente porque, naquela época, Roberto Marinho ia quase todo dia à televisão. Roberto Marinho nunca considerou a televisão, ao menos na cabeça dele, como o pião da organização. O jornal era O Globo. Se você quisesse saber o que ele pensava, que lesse O Globo. Se você tiver dúvida em alguma matéria, dê a matéria segundo O Globo. Ele dizia: “a TV Globo não tem opinião, quem tem opinião é O Globo”. Uma vez por semana ele entrava no departamento de jornalismo, conversava conosco, na maior gentileza, elogiava as coisas, às vezes criticava. Preocupado com a audiência. Cada dia que ele chegava, dizia: “Vim trazer os parabéns porque estamos a tantos pontos da Tupy.” Tantos pontos, tantos pontos, até que um dia ele chegou e comunicou: “Nós passamos a Tupy”. Não discutíamos salários com ele, era tudo com Armando Nogueira ou Walter Clark, o diretor-geral da televisão. Mas ele era um sujeito cordial, gentil, chamava todo mundo de “senhor”, de “deputado”.

Muito formal?

A verdade é que ele tratava todo mundo como profissional, ele não tratava de cima pra baixo, arrogantemente. Era um sujeito simples, conversava e tal. Não conversava muito, não demorava muito, ia embora. Nunca houve constrangimento de nenhum de nós com ele. Mesmo quando eu dei uma notícia de Vitorino Freire, que deu uns murros e uns pontapés num sobrinho dentro do avião, do Maranhão pro Rio de Janeiro. Eu botei numa sexta-feira. E o Armando não ia na sexta-feira de noite. Eu fechava o jornal quando não tinha outro, o Jaime Dantas também não foi. Aí eu era o responsável. Sentei na máquina e contei: “O senador Vitorino Freire teve um incidente no avião, tal, tal… Embora fosse mais velho e menor, nocauteou seu sobrinho, o deputado estadual do Maranhão.” Era sobrinho da mulher dele. A matéria saiu no Jornal da Globo. Um minuto depois toca o telefone.

O próprio?

“O Armando está?”. Eu conheci a voz dele. “Não, doutor Roberto”. “Quem está falando?”. “Sebastião Nery”. “Deputado, preciso urgente de uma explicação. Quem é que pôs no ar essa matéria?”. Eu disse: “Fui eu. O Jaime Dantas não está aqui, Armando não estava, eu pus”. Ele me disse: “Deputado, o senhor sabe a gravidade dessa matéria?”. “Sei”. “O senhor sabe que eu sou um amigo fraterno do senador Vitorino Freire? O senhor sabe que essa empresa deve favores políticos ao senador? O senhor sabe o risco dessa matéria?”. Eu disse: “Doutor Roberto, me faça um favor. Se o senhor é amigo dele, telefone pra ele e me diga como a matéria saiu”. “Não, me conte”. Eu disse: eu ia saindo de casa, encontrei o senador em Copacabana, na porta de um restaurante. Tinha acabado de chegar do avião, me chamou, eu conheço o filho dele. Ele me chamou e disse assim: “Você quer uma notícia pro Jornal da Globo? Acabou de acontecer isso, isso e isso.” “Senador, veja o que o senhor está fazendo, eu só tenho esse emprego, se essa notícia não for precisamente certa, o doutor Roberto Marinho me demite hoje, com razão.” Ele disse: “Dê a notícia que eu garanto. Eu dava as notícias sobre o presidente Dutra e sempre garanti.” Fui pra televisão e botei no ar. Aí Roberto Marinho me disse: “Deputado, o senhor me dá cinco minutos de licença?”. Pois não. Ele retornou. “Deputado, primeiro eu quero lhe dar parabéns. Segundo, quero lhe dizer que o senhor foi absolutamente fiel ao que o senador fez e lhe contou e ainda lhe disse: pode publicar que eu garanto.” O Vitorino foi corretíssimo. Quase que eu sou Vitorino, não sou Sarney. Sarney ia virar de lado, eu ia me ferrar… (risos) O Vitorino, não. Garantiu meu emprego. No outro dia foi um escândalo dos jornais.

“Deus é juscelinista!”

No livro, você relata como nasceu o “Folclore Político”?

O folclore político. Um dia eu estava na Tribuna da Imprensa, era véspera do 12 de setembro, aniversário de Juscelino. Como eu sabia que o Juscelino era um nome meio proibido, fiz um negócio discreto. Então fiz uma coluna contando histórias de Juscelino, procurando sair por esse lado agradável. O homem que não tinha medo de avião e dizia: “Deus é juscelinista”, o título da matéria. Eu dizia: “Governador, tá chovendo, não vou entrar nesse avião, vou deixar pra ir amanhã”. E ele: “Deus é juscelinista, ô baiano! Entra!”. Acabou sendo mesmo. Fiz a matéria. Aí o major Douglas, um sujeito muito simpático, elegante, cordial, inteligente. A gente terminava a matéria, ia pro café e ficava esperando a decisão dele. Ele me chamou e disse: “Nery, venha cá. Esta matéria não pode sair. Eu reconheço que é uma matéria brilhante, você conta umas histórias ótimas aqui. A história dos queijos…”

Juscelino estava no aeroporto de Campina Grande e, antes de descer do avião, perguntou a Abelardo Jurema: “Quem é aquele cara que tá lá?”. “Aquele é o coronel que lhe deu aqueles queijos…”. Na hora que abre a porta do avião, o coronel lá embaixo, Juscelino cá de cima grita: “Coronel, trouxe meus queijos?” (risos) Contei essa história e outras. Foi aí que ele (major Douglas) fez aquela frase: “Infelizmente, Juscelino, Brizola, dom Helder, nem a morte da mãe.” Falei pra ele: “Tudo bem, vou falar pro jornal colocar outra matéria”. Ele: “Não, senhor. O jornal não sai com lugar em branco. Não sai sem sua matéria porque é uma denúncia que sua matéria não saiu. Porque todo dia você faz. Vá ali e escreva outra, por favor.” Fui e fiz assim: “Alckmíadas: sete histórias de um gênio da raça”. Sete histórias do (José Maria) Alckmin. Em duas delas eu citava o Juscelino. Mas o Juscelino entrava…

Marginalmente…

No dia seguinte, entro no Hotel Itajubá, estava o Abelardo Jurema, estava o pai da Maysa Matarazzo, que tomava uísque, tinha outro sujeito que sempre ia lá. Cheguei e Jurema disse: “Você é um gênio, Nery. Você descobriu o folclore político”. “O quê?”. Aí eu atinei rápido. “Você criou o Folclore Político. O Brasil precisa disso. Dia sim, dia não, conte histórias do folclore político. Essa coluna do Alckmin tá genial!”. Na verdade, o Abelardo era a cara do folclore político, não é? Era um sujeito inteligente, preparado e um político alegre, bebedor de uísque, inventava histórias. Eu passei, de três em três dias, a contar histórias, sapecava personagens. Adhemar de Barros…

Logo depois você levou pra Folha?

A coisa repercutiu, as pessoas começaram a ler. Boris Casoy um dia me telefona: “Olha, o Cláudio Abramo quer conversar com você. Pegue um avião e venha aqui.” Ele telefonou para o jornal. “Vai ter uma reunião das seis horas da tarde e você precisa vir pra cá.” Eu disse: “Ô, Boris, eu não tenho nem dinheiro pra ir pro aeroporto pegar uma passagem de avião.” Ele disse: “Deixe de ser imbecil! Tome emprestado”. É o que eu fiz. Saí dali, entrei no Banco Nacional, pedi dinheiro emprestado a Zé Aparecido (de Oliveira). Foi quando conheci Cláudio Abramo.

Ele lhe chamou pra escrever a Contraponto, não?

O Boris disse: “Eu faço sozinho o Painel. Você vem, mas vai fazer umas cinco ou seis notas pra me ajudar.” Ele ia assumir um cargo na direção do jornal. Aí Cláudio Abramo disse: “Deixe o Nery. Ele começa a escrever hoje”. História é o que não me faltava. E eu fazia mais algumas matérias pro Boris. Depois, quando saiu o Abramo, dois, três meses depois, Boris assumiu a diretoria do jornal. Eu sempre colaborava com umas notas. Fiz a coluna por 9 anos e meio. Até mesmo quando fui à Sibéria. Na Sibéria, fiz dez colunas e levei à embaixada brasileira, pra enviar no pacote, sem saber se ia chegar.

Nos anos 70, virou um sucesso editorial nas bancas.

Fiz o Folclore Número 1 (capa ilustrada por Henfil) e foi aquele sucesso. A Record comprou. Deu 14 edições. O Folclore vendia em bancas de jornal, aí é diferente.

Como ocorreu seu rompimento com Brizola?

Primeiro, eu entrei de cabeça no episódio de Brizola. Tinha ido ao Rio Grande do Sul, entrevistei e não foi publicado. Brizola vai pra Buenos Aires, depois vai a Lisboa e comecei a ser uma espécie de porta-voz dele no Rio. Ele me ligava quase todo dia. Ele veio e nós fizemos a campanha (em 1982). Eu tinha dois instrumentos: a TV Bandeirantes e a coluna que já não saía na Tribuna, mas na Última Hora. Conto a dificuldade de fazer campanha política com o Brizola. Pra minha surpresa, li um relato muito bom…

De Fernando Lyra, em “Daquilo que eu sei”?

Do Lyra, sobre as dificuldades da campanha com Brizola (em 1989). Outro que me deu igual depoimento agora, na Alemanha, foi o Moniz Bandeira: o problema do Brizola é que ele era um caudilho, um nacionalista, mas num processo democrático é impossível fazer política com ele. Defendia o fechamento de Congresso… Fui divergindo… Mas houve outro episódio anterior. Eu virei secretário do PDT. O presidente do partido era ele, mas tinha o secretário-geral, o Frejat, e eu era o secretário nacional. Ou seja, o quarto sujeito da executiva nacional. Ele confiava em mim e também nunca teve razão pra deixar de confiar. Virei vice-presidente do diretório do Rio. Era uma responsabilidade enorme. Mas começaram a aparecer o Bocayuva Cunha, o Brandão Monteiro, vetando: “Não dá. Nery é jornalista da Última Hora e dono do partido no Rio”. Foi quando Brizola me chamou pra conversar. Bem gaúcho, o Brizola passava a manteiga no pão e me dava. “Companheiro, você tem que escolher. Você não pode ser mais jornalista e dirigente político”. Argumentei que o jornalismo era minha vida desde 1952. “Agora eu sou dirigente político, mas não sei amanhã. Não posso deixar de ser”. Brizola disse: “Companheiro, tu vais começar analisar as coisas do governo e começar a me fazer críticas”.

E sua resposta?

“Brizola, não vou discutir nem brigar com você. O partido é seu, você que me indicou pro cargo. O lugar é seu, mas eu não vou deixar de jornalista”. Ele ficou assustado: “Tu estás falando de coração?”. Respondi: “Coração, alma, cabeça, tudo. Vou embora”. “Então tu tomaste a decisão. Não vai ser mais dirigente”. Desci, e estava o ótimo repórter Henrique José. Tinha me visto entrar, e ficou no botequim do Hotel Othon. “O que houve com você e Brizola? Eu tinha a notícia de que Brizola ia lhe enquadrar. É verdade?”. Falei pra ele: “Tenho que ir pra Brasília. Quando eu voltar na sexta, eu lhe conto a história toda.” “Me dê apenas uma frase”, pediu. E eu dei: “Acho que nos enganamos. Fomos a Lisboa buscar Brizola e trouxemos Juan Domingo Perón.” No dia seguinte dá no Jornal do Brasil. Aí conto o que Ary de Carvalho me disse: “Não dá, o governador não aceita que você continue fazendo a coluna (na Última Hora)”. Depois fiquei sabendo que o Bocayuva foi ao Banerj e arrumou um empréstimo pra Última Hora, pra ser pago com publicidade. Voltei pra Tribuna da Imprensa, botei a coluna em quatro estados e comecei a analisar o PDT. Pedi demissão da secretaria nacional e da executiva. Defendia Brizola e o governo do Rio na Câmara, mas comecei a fazer críticas. É um dos capítulos mais densos e fortes do livro.

Com sua atuação no lado de lá, no Congresso, como deputado federal, dá pra explicar a transformação do político brasileiro nas últimas décadas? Por que chegamos a um nível de qualificação tão baixo?

O que houve é que o capitalismo chegou ao Brasil. Éramos um País rural, Getúlio montou as bases e Juscelino ampliou a industrialização. O País não era capitalisticamente comandado pelo sistema financeiro. A política passou a ser um braço político do sistema financeiro e dos interesses econômicos. Atrás de cada grande negócio, existe um grande branco. A política brasileira passou a ser monetária e financeira. O Congresso não é mais cultural, político; é capitalista, financeiro. Cria essa dificuldade toda porque na hora que o governo tenta dizer que é de esquerda, não consegue.

Concorda com Lula? No Brasil, Jesus é obrigado a se aliar a Judas?

Ah, sim, evidente, ele já se aliou a Judas. Mas o Fernando Henrique se aliou a Satanás. Fernando Henrique se antecipou, se aliou a Satanás, fez uma aliança com o sistema financeiro, internacionalizou a economia. O Brasil tinha um sistema bancário muito nacional. E o Lula continuou mais ou menos esse processo. E se alia com todos, Lula não é aliado, é sócio do mensalão, o dinheiro que entrava por fora pra comprar votos por dentro do Congresso. Você não vê criticas. O que fez com os movimentos sociais… Os judas de Lula são mais ou menos os satanás do Fernando Henrique, mas são menos agressivos. Quais são os judas dele? Como é que o País tem seis centrais sindicais e todas apoiam o governo? Isso não aconteceu nem com Stalin. Na França, há as centrais contra Sarkozy e a favor de Sarkozy, é uma briga. Na Alemanha também. O mais puro dos movimentos sociais brasileiros, pra usar uma palavra agressiva, foi “estuprado” por Lula: a UNE. Ela era um dos mais puros movimentos sociais do País, mas o Lula realmente estuprou, virou um escritório do governo. Pois bem. Tenho uns depoimentos que só um sujeito da minha idade pode dar. O que era o seminário católico. O que era o Partido Comunista. O Partido Comunista era o mais santo…

Por quê?

Era a favor do povo, de todas as causas nacionais. Era comandado pela União Soviética, inegável, mas como a URSS não tinha invadido o Brasil, não tinha tropas aqui, era uma coisa distante. O PC defendia melhores bandeiras que a imprensa. A imprensa de hoje é uma imprensa capitalista.

A mídia brasileira não ficou muito com a cara de São Paulo?

Porque é uma imprensa empresarial e a base está lá. O Sistema Globo está no Rio, mas na verdade está lá. Destaco determinadas maneiras de atuação no livro. Mostro como era a UNE. Éramos todos soldados do bem. E o Partido Comunista ajudava isso, mas tinha atrás a URSS. A gente tem agradecer ao Dutra, porque rompeu logo com a URSS e purificou o Partido Comunista Brasileiro.

Por que o PCB foi rejeitado pela esquerda brasileira? Até hoje é atacado, condenam sua herança para a esquerda.

Porque quando caiu o muro de Berlim, mudou tudo. Lula chegou mais aliado a Golbery. Era uma “válvula de escape”, como Golbery dizia, do movimento operário, que não era mais controlado pelo PC, mas por Lula e a Igreja Católica e seus aliados. A Igreja substituiu o Partido. Aí veio toda aquela cobertura do dom Evaristo (Arns). A Igreja substituiu porque os membros do PC estavam mortos ou na cadeia.

O livro vai até o governo Collor?

O livro é uma história de 50 anos, de 1944 até 1994, quando eu voltei de Paris. Depois de 94, tem o Fernando Henrique e o Lula, mas guardo pra outro livro.

Na hora do ponto final, o que você sentiu ou pensou?

Eu tive um estresse, doença mesmo. Me deu uma labirintite. Terminei o livro inteiramente perturbado. No resto do livro eu me senti estressado. Ele tem três amores mortos. Você de repente vai vivendo mais e a vida se torna uma alameda de amores mortos. Fui revirar, mesmo assim é um negócio difícil. Agora, foi a melhor coisa que fiz na minha vida, é a coisa mais parecida comigo. Fiz “Folclore Político”, mas minha cabeça não é de folclore político. Fiz o de campanha, mas também não sou eu, 50% dos outros e 50% meu. Eu procurei, acho que fiz bem, esse livro sou eu. É minha alma, minha vida, meus sofrimentos, minhas angústias e, inclusive, as brigas em que entrei. Não falseei nada. Deixei de contar algumas histórias. Mas conto a história da campanha do Collor, do Juscelino, da ditadura.

Atenção: alguém bate palmas no portão – por alceu sperança / cascavel.pr

Mesmo os mais ferrenhos inimigos de Darwin tremeram nas bases quando morreu o macaquinho no Parque Ecológico. A paranóia da febre amarela evidenciou comportamentos contraditórios mas muito humanos, como a corrida aos postos de saúde para vacinação, mesmo que durante meses a fio os agentes de saúde tenham ido de casa em casa avisar e deixarfolheto exortando para a vacinação no posto de saúde mais próximo.

Passado o primeiro terror, veio o departamento das culpas: é do prefeito? É do mosquito? É da falta de vacina no posto? Deve ser do vizinho que deixa o pneu com água, do desafeto, da sogra. Mas essas são, talvez, as pequenas culpas. A grande culpa mora fora do alcance imediato de nossos brados e braços.

O biólogo francês Luc Montagnier, do Instituto Pasteur, de Paris, que em 1983 identificou o vírus causador da Aids, avisou o que virá depois dela: os políticos que tanto criticamos se tornarão apenas joguetes manipulados por oligarquias econômicas crescentemente maiores, com um poder muito superior ao deles. Essas oligarquias tendem a aprofundar o descontrole sobre as modificações ambientais.

Além de sermos um enorme fazendão, lotado de peões de gravata ou pé descalço a serviço de tais interesses, todos tossem e se envenenam com a produção de alimentos industrializados sobre os quais o consumidor não tem o menor controle.

Está aí à vista uma agropecuária que pensa com amor no animal europeu e com ódio e gana assassina no compatriota sem-terra. E todos sofrem uma poluição química avassaladora que, diz Montagnier, “conduz a desastres de saúde por exposição a produtos carcinogênicos, doenças respiratórias e depressão do sistema imunológico”.

Tal poluição se evidencia pelas dioxinas disseminadas por incineradores de lixo e pela indústria pesada, pesticidas com efeitos cancerígenos, a doença da vaca louca, gripes aviária, suína e vai por aí.

Como resolveremos isso xingando o prefeito, o vizinho ou a sogra? Eles devem ter lá suas culpas, debilidades e omissões, mas essa coisa toda vai continuar, a menos que haja uma radical transformação no plano mundial. Terá que ser radical, sim. Primeiro anticapitalista e em seguida pós-capitalista.

As pessoas são bombardeadas a todo instante por mensagens subliminares segundo as quais não podemos nem há sentido em lutar contra os donos do mundo. O máximo que podemos fazer é agredir o vizinho, xingar o prefeito, brigar com a sogra.

O funâmbulo da TV, o bom-samaritano do rádio, o padre, o pastor, as ongs de todos os tipos, os empresários bonzinhos e sua responsabilidade social nos dizem, ano após ano, década após década, que somos impotentes diante de uma realidade que nos esmaga e tudo que podemos fazer é confiar neles. Como nada resolvem, só restam a indiferença, a desistência, a submissão.

Mas fé cega é faca amolada. A combinação de submissão, que é falta de juízo, com indiferença, que é egoísmo, e desistência, falta de patriotismo, é concordar que os donos do mundo continuem sendo os patrões deste enorme fazendão no qual nossa cidade, nosso Estado e nosso País se transformaram, com a conivência de “democratas”, “trabalhistas”, “verdes”, “socialistas”.

O sofrimento dos nossos concidadãos, se não for mitigado, cedo ou tarde baterá palmas no portão, apertará a campainha da porta ou arrombará nossa janela.

Reforma política: aposentar Caciques dos Partidos – Revista “O Cruzeiro” de 3 de outubro de 1964 / rio de janeiro

O PRESIDENTE Castello Branco parece interessado em examinar as sugestões que lhe vêm sendo feitas no sentido de dar maior profundidade à revisão das estruturas políticas, que inicialmente pensou fazer em escala bastante modesta. Os projetos iniciais do Govêrno referiam-se a uma reforma eleitoral e a uma lei orgânica dos partidos, ambas consideradas essenciais a uma melhoria dos instrumentos de apuração da manifestação da vontade popular, mas ambas tidas pelos peritos nos estudos constitucionais do Brasil como insuficientes.

O de que se necessitaria, no momento, seria de alguma coisa semelhante ao que fêz na França, em 1958, o General Charles De Gaulle, embora sem que se pense em adotar necessàriamente a mesma linha de fortalecimento do poder presidencial seguida na Constituição francesa daquele ano.

Abandonada a idéia da mudança do sistema presidencialista para uma nova experiência parlamentarista – idéia condenada pelo malôgro da experiência anterior e recente, muito embora já haja novamente na Câmara uma emenda constitucional parlamentarista com 205 assinaturas, o que demonstra, pelo menos, a persistência das inclinações doutrinárias da maioria dos deputados -, cogita-se de modificar a estrutura do regime presidencialista. Essas modificações poderiam ir até admitir a existência de um conselho de ministros ou de ministros prèviamente aprovados pelo Congresso ou, ao menos, pelo Senado – prática norte-americana – como tentativa de contenção dos excessos presidencialistas e de uma boa distribuição de tarefas. Entende-se que a missão de chefe de Estado cresceu tanto quanto a missão de chefe de govêrno, a tal ponto que se tornaria rigorosamente impossível a um só homem exercer eficientemente as duas.

Ao chefe de Estado, no entanto, seriam asseguradas prerrogativas que manteriam em suas mãos o poder de decisão em tôdas as questões de importância política e administrativa.

Tentar-se-ia, por outro lado, assegurar senão a prevalência pelo menos a liderança legal – no reconhecimento da liderança de fato – do Poder Executivo sôbre o Poder Legislativo, na formulação da política de govêrno. Pensa-se, portanto, em introduzir, em caráter permanente, a tramitação especial dos projetos da iniciativa do Presidente da República, bem como a de consagrar, no texto da Constituição, as restrições à iniciativa legislativa dos deputados, notadamente no que se refere a projetos de lei aumentando a despesa pública.

A proibição de iniciativas de parlamentares com reflexos na despesa pública não só asseguraria a incolumidade da política econômico-financeira do Govêrno, como favoreceria o prestígio do Congresso, afetado exatamente pela liberalidade com que deputados e senadores usam, sob pressão dos seus eleitores, da faculdade de propor projetos de lei ou emendas aos projetos em andamento.

No que se refere ao problema dos partidos políticos, as tendências vêm variando, mas de um modo geral consideram-se carentes de objetividade as tentativas de eliminar os atuais partidos para substituí-los por organizações que estruturassem de modo mais coerente as tendências ideológicas e compusessem de maneira melhor, os interêsses em jôgo. Os partidos que aí estão, sobretudo os grandes partidos, como o PSD, o PTB e a UDN, encontram bases de opinião bastante estáveis e têm seu fundamento de realidade nas rivalidades políticas municipais que seriam ainda a substância do grande jôgo político nacional.

O problema seria o de democratizar êsses partidos, interferindo no seu processo, condicionando-os ao cumprimento de exigências legais que os poriam a salvo do domínio de oligarquias ou de interêsses de grupos que em cada Estado monopolizam a legenda sem qualquer possibilidade de apêlo ou recurso. Os partidos brasileiros não têm existência efetiva a não ser nos períodos eleitorais, e assim mesmo as convenções que ratificam candidaturas são manipuladas pelos donos da legenda, que negam acesso a qualquer influência estranha ao seu exclusivo interêsse político ou mesmo pessoal. Seria necessário permitir o arejamento das reuniões partidárias com o acesso às mesmas das correntes de opinião, desde o município até o âmbito nacional. Isso jamais aconteceria por vontade própria dos caciques partidários e teria de ser uma resultante de imposições legais, que o atual Govêrno poderia promover com rapidez e eficiência.

Os Srs. Gustavo Capanema e Afonso Arinos, juntamente com o falecido San Thiago Dantas, estudavam êsses temas em profundidade e vinham mantendo a respeito exaustivos encontros com o Ministro da Justiça, sensível à necessidade de partir o País para novas experiências em matéria de estrutura política.

Pensaram aquêles próceres em interessar no assunto o Presidente dos grandes partidos para a formação de uma frente ou bloco parlamentar que, na base do estímulo ao Govêrno, apoiasse firmamente a votação das reformas. A idéia está em marcha, e é possível que o Presidente autorize o Ministro Milton Campos a ampliar o terreno em que se estudam, no momento, as reformas políticas que pretende fazer possìvelmente nos primeiros meses de 1965.

As resistências da rotina política e parlamentar serão muito grandes e só mesmo o impulso de uma dinâmica revolucionária poderá permitir a reestruturação de que se cogita no momento.

Caso, no entanto, as dificuldades de ordem doutrinária sejam inconciliáveis, o Govêrno poderá se ver na contingência de restringir seu propósito reformista, na área política, a simples ajustamentos da legislação vigente.

Nesse caso, teríamos apenas algumas providências destinadas a coibir a fraude eleitoral ou a fixar exigências maiores para registro de partidos políticos, a fim de evitar que continuem a proliferar as legendas partidárias destituídas de qualquer significação.

MV.

TUMBAS LUMINOSAS e MÚMIAS DANÇANTES – por alceu sperança / cascavel.pr

Diversas pessoas estão atarefadas com a elaboração de programas administrativos governamentais, tendo em vista as eleições de outubro. Devem ser pessoas com vocação para a ficção. Na atualidade, o governador e o presidente da República têm tanta margem de escolha quanto o coveiro: pode começar a cavar ao comprido do caixão, em diagonal, a partir do poente ou do Leste, mas o fruto do trabalho será sempre uma cova aberta e calos nas mãos.

Sobra muito pouco para a atuação de um governante, na democradura mundial de hoje. O verdadeiro poder se esconde nos conchavos com banqueiros, transnacionais, empreiteiras de obras, concessionários de serviços públicos e máfias financiadoras de campanhas.

Quem participa desse esforço de elaborar programas de administração, concluí que só há duas opções: ou mentir para a população, anunciando um plano fantasioso, ou ser honesto e dizer que a plataforma aprovada pelo eleitor nas urnas não é a verdadeira, aquela que o candidato acertou nos conchavos.

O que, enfim, um governante faz, na atualidade? Nomeia cupinchas do partido e dos partidos aliados para funções sobre as quais eles não têm a menor idéia de como desenvolver. E nem querem saber ou aprender como, em cursos técnicos estafantes, que, aliás, requerem inteligência. Afinal, trata-se de coisa provisória, até o próximo conchavo. O que interessa, mesmo, é a grana do salário, que será rachada com o partido.

Outra coisa que governante faz é nomear parente ou ajeitar esquemas para os parentes, especialmente os mais incapazes, pois os capazes já têm o que fazer e não dependem de tetas provisórias . Os parentes, como os cupinchas, também não têm a menor idéia do que seja serviço público, pois sua cultura é a da iniciativa privada, onde o jogo é outro.

E o que governante mais faz na atualidade, além de morrer de medo de que algum aspone seja apanhado em corruptos mesalões, é a famigerada “revitalização”. Palavra chupada do Inglês, ela não quer dizer nada. Poderia ter o significado de ressuscitação, que seria reanimar alguém. Mas, a rigor, “revitalização” quer dizer “reforma”.

Se fôssemos avaliar o que se reformou até hoje, no País, nos estados e nos municípios, veríamos que só se mexeu na aparência. O carro levou um banho de mangueira, mas o resto continua igual: a pintura descascada, o motor rateando, os pneus furados.

Alguns acham que não é muito publicitário dizer que reformou algo com uma pintura ou um reboco. Funciona mais pôr tudo abaixo e reconstruir, para que não pareça uma reforma e sim uma “revitalização”, um fazer de novo e supostamente melhor.

Imagine se o presidente de seu país fosse governar, digamos, o Egito, onde estão as Pirâmides. Que revitalização, meu! As tumbas recobertas de plástico luminoso e múmias holográficas dançando ao som de um pancadão high-tech.

O SER HUMANO TEM JEITO? – por alceu sperança / cascavel.pr

Desde que a moderna indústria química e farmacêutica floresceu no mundo, os brasileiros jamais puderam comprar em qualquer farmácia um remédio antiinflamatório nacional.

Todos os antiinflamatórios que eu, você, nós, compramos até hoje em farmácias eram baseados em tecnologia e produtos estrangeiros.

O pesquisador catarinense João Batista Calixto, chefe do Departamento de Farmacologia da Universidade Federal de Santa Catarina, está mudando essa história.

Ele criou o primeiro antiinflamatório produzido a partir de uma planta brasileira – a erva baleeira.

O remédio é indicado para o tratamento de tendinite crônica e dores musculares.

Foi também o primeiro medicamento a ser integralmente pesquisado e desenvolvido no País.

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Por que nós, aqui do Sul, precisamos nos preocupar tanto com a proteção da Amazônia?

A Amazônia não está lá, tão longe?

Que importância tem para nós o desmatamento louco de lá? As queimadas irresponsáveis? Os assassinatos de índios?

Além de a resposta ser evidente – da Amazônia e de sua gente depende o futuro do Brasil –, ainda há uma verdade que poucos de nós já perceberam.

A Amazônia também é aqui.

Mas como? De que jeito a Amazônia pode ser e estar aqui?

Pesquisas do Centro de Energia Nuclear na Agricultura, da Universidade de São Paulo (USP), apontam que as nuvens vistas acima de nós estão constituídas por águas em grande parte evaporadas na Amazônia.

Isso quer dizer que sobre nós, em cada nuvem e em cada chuva, é um rio voador da Amazônia sobre nós, a água da Amazônia que nos refresca e dá vida às plantações.

Mais uma razão, portanto, para preservar a Amazônia, pois as águas amazônicas também são as nossas águas.

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O plástico, material que está presente em muitos objetos que usamos no dia a dia, vem do petróleo.

Mas o petróleo vai acabar.

O gênio humano, porém, não esperou que a era do petróleo terminasse e encontrou substitutos perfeitos para o plástico.

Por isso, pode-se dizer que o plástico já dá em árvores e com isso deixa de ser um recurso finito, condenado a acabar, tornando-se permanente.

Já existem plásticos feitos a partir do etanol de cana-de-açúcar, que podem ser reutilizados num processo de reciclagem.

Há também polímeros biodegradáveis produzidos por bactérias alimentadas por açúcares.

As grandes petroquímicas, fabricantes de plásticos feitos a partir do petróleo, estão investindo forte nessa novidade, que vai apressar o fim do ciclo petrolífero.

O curioso é que a tecnologia para esse plástico tirado de plantas já existe desde 1998, mas ninguém se interessava.

Por essa diferença de quase dez anos é possível calcular que neste momento estão sendo descobertas soluções que só dentro mais alguns anos as indústrias perceberão que valem a pena.

Às vezes, evoluímos até sem perceber.

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A humanidade está evoluindo, a cada descoberta, a cada nova invenção.

O ser humano tem jeito, sim!

ELEIÇÕES 2010: TUCANOS FAZEM A SUJEIRA

Guerra suja na internet

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Deputado federal Brizola Neto (PDT-RJ) denuncia em seu blog que Eduardo Graeff, ex-secretário geral do governo FHC, tesoureiro do PSDB e homem forte da campanha de Serra, é o proprietário de domínios de páginas na internet criadas para promover uma guerra suja durante a campanha eleitoral. “Vou hoje à tribuna da Câmara, desafiar o discurso de bom-moço de José Serra. Toda esta sujeira é feita por seus homens de confiança”, afirmou o parlamentar.

CMAIOR.

BRASIL: ELEIÇÕES 2010 !

DEM entra com ação contra Lula e Dilma por festa do Dia do Trabalho

G1.

é só o que lhes resta. para LULA  e DILMA nada de festa.

o candidato zé serra com o zé  arruda, chefe da roubalheira do mensalão do DEM em Brasilia.

são os extertores da agonia nas urnas.

o povo brasileiro não volta atrás.

Sobre o livro: ” O brasiguaio Don Antonio” – por josé alexandre saraiva / curitiba

A leitura dos originais deste belo livro causou-me aprazimento e júbilo. Aprazimento de quem se vê a viajar por distintas e convidativas temáticas literárias, entrelaçadas de prosa histórica – incluindo revivências parlamentares do autor nos ásperos anos da década de 1960 – e incursões poéticas.

O júbilo consiste simplesmente na satisfação incontida de merecer a confiança do confrade Lyrio Bertoli para prefaciar estas perenes páginas.

Abro parêntese já no início para dizer que a tarefa é outorgada menos por minhas qualidades do que pela amizade. Uma amizade que remonta ao verão de 1998, quando fomos apresentados na Banca do Abel, a Boca Maldita de Foz do Iguaçu. Entre outros assuntos, falamos sobre a criação de um centro cultural para a cidade. Pouco tempo depois, no Hotel Rafain Centro, nascia a Academia de Cultura de Foz do Iguaçu (Aculfi), presidida por Lyrio nos primeiros quatro anos. Além da sua revista Cultura Basis Civilitatis, livros, eventos culturais e artísticos, palestras e ciclos de estudos foram chancelados pela Aculfi. Como já era esperado, não tardaria a chegar o valoroso aval da Academia Paranaense de Letras e do Centro de Letras do Paraná, então sob a liderança dos acadêmicos Túlio Vargas e Adélia Maria Woellner, respectivamente.

Ainda hoje está na boca do povo iguaçuense o sensacional encontro “Nordeste e Sul de Repentes”. Por várias horas, o repentista Oliveira de Panelas (pernambucano) e o pajador José  Estivalet (gaúcho) duelaram de improviso na melhor poesia popular, embalados por incessantes aplausos.

Sob a liderança e honorabilidade do ilustre presidente, e a valiosa colaboração de Nancy Rafagnin Andreola, então presidente da Fundação Cultural de Foz do Iguaçu, o governo municipal nos cedeu ampla sala mobiliada e criou rubrica orçamentária para a novel agremiação cultural. A cada dia, a Aculfi consolidava sua importância junto aos diversos segmentos da sociedade. Acolheu membros de notória expressão no mundo artístico e cultural da região, incluindo cidades fronteiriças do Paraguai e da Argentina, e serviu de modelo no exitoso processo de interiorização da Academia Paranaense de Letras, iniciado por Túlio Vargas, de sentida memória.

A partir daí, na convivência diária, passei a conhecer de perto o extraordinário ser humano Lyrio Bertoli. No início, fiquei surpreso com tão denso passado histórico, a começar por sua eleição para a Câmara dos Deputados em 1962, como primeiro deputado federal do Oeste do Paraná. Nessa época, a região, com forte presença de jagunços e posseiros, caminhava lentamente na formação dos primeiros municípios. Era nítida a incipiente infra-estrutura rodoviária e de serviços básicos, a evidenciar agudas carências.

Lyrio trabalhou com afinco e cumpriu as promessas de campanha. O povo reconheceu nas urnas a dedicação de seu primeiro deputado federal e conferiu-lhe o segundo mandato. Após assegurar indelével legado à consolidação socioeconômica do Oeste do Paraná, Lyrio Bertoli despediu-se de seus pares em 1971, não resistindo aos apelos do aconchego familiar. Antes, em antológico discurso registrado nos anais daquela casa de leis, prestou alentada homenagem ao poeta neo-romântico e simbolista Alphonsus Henrique de Guimaraens (1870-1921), pelo transcurso de seu aniversário de cem anos.

Nesse delicado período da História recente do Brasil, Lyrio Bertoli lançou, em seus mais de 370 pronunciamentos da tribuna da Câmara dos Deputados, ideias de grande repercussão, seja pelo conteúdo, seja pela originalidade. Tive acesso a vários desses documentos e constatei expressivo número de proposições que se tornaram realidade. É o caso do projeto embrionário da construção da usina hidrelétrica de Itaipu, conforme comprova a edição de 8 de agosto de 1963 do Diário do Congresso Nacional.

A propósito, em carta datada de 9 de julho de 2004, o atual Diretor Geral Brasileiro da Itaipu Binacional, Jorge Samek, reconheceu o importante e decisivo papel de Lyrio nesse monumental empreendimento da engenharia mundial. Destaca o iguaçuense Samek “o grande exemplo de sua visão e seu desempenho parlamentar voltado a esse aproveitamento hidrelétrico do rio Paraná, hoje fonte de energia e garantia de desenvolvimento para o Brasil e o Paraguai”.

Aqui também merece registro o seu empenho na instalação da primeira cooperativa do Oeste do Paraná, a Consolota, de Cafelândia, hoje Copacol. Fundada por colonos, sob orientação do padre Luiz Luíse, o momento decisivo de criação da tradicional entidade surgiu em uma audiência de Lyrio Bertoli com o presidente João Goulart. Lyrio sensibilizou e convenceu o mandatário supremo do país das insuportáveis espoliações econômicas padecidas pelos pequenos produtores da agroindústria, graças às ações açambarcadoras dos atravessadores – verdadeiros sanguessugas.

Posteriormente, mesmo sem o mandato de deputado, Lyrio evitou que essa cooperativa – principal responsável pelo desenvolvimento e emancipação de Cafelândia, antes uma vila de Cascavel – fosse absorvida pela Coopavel. Ele continuaria ardorosamente engajado na preservação institucional e financeira da Copacol, dando eco, com sua prestigiada presença junto às autoridades de Brasília, aos pleitos legítimos das lideranças locais. Prova cabal disso é a correspondência enviada a Lyrio Bertoli em dezembro de 1971 por Estevão Grudka e Cristiano T. Maltezo, dirigentes daquela cooperativa, rogando-lhe intervenção pessoal e política para salvar a entidade.

Em documento escrito pelo padre Luiz Luíse, transcrito em trabalho da lavra de Alceu A. Sperança, o famoso religioso dá esse importante testemunho para a História:

“Vendo, em Cafelândia, a situação dolorosa dos bons colonos, pensei em ajudá-los, fundando a Associação Agropecuária Cafelândia em julho de 1963, porém não consegui legalizá-la, visto que em Cafelândia existia uma filial da Associação Agropecuária de Cascavel. Não sabendo o que fazer para salvar os colonos, escrevi um relatório ao deputado Lyrio Bertoli. Ele levou ao conhecimento do presidente do Brasil, João Goulart, os problemas dos agricultores. Foi assim que o presidente encarregou o próprio Lyrio Bertoli de chefiar e acompanhar uma missão composta do próprio chefe da Casa Civil da Presidência, um coronel e mais dois técnicos em cooperativismo do Ministério da Agricultura, para vir a Cafelândia e verificar a situação crítica dos colonos. Isto deu-se no mês de agosto de 1963”.

No mesmo sentido, enaltecendo a paixão de Lyrio Bertoli pelo Oeste do Paraná, a Associação Comercial e Industrial de

Cascavel, em correspondência a ele enviada por seu presidente Pedro Luiz Boaretto, ressalta que sua passagem pelo Congresso Nacional revelou “preocupação incessante com relação às causas do oeste paranaense, destacando-se as rodovias, os aeroportos, a política agrícola, a situação agrária, as agências do Banco do Brasil e da então Coletoria Federal, preços mínimos, e até a visão da Usina de Itaipu”.

Fecho o parêntese. Falemos um pouco sobre o livro.

Entre as narrativas reunidas nesta obra, particularmente me prenderam a atenção as tocantes histórias centradas em fatos reais ocorridos em plena colonização do Oeste do Paraná, em que a conquista da terra é elemento nuclear. Em uma delas (“Por um pedaço de terra”), o autor – ao mesmo tempo protagonista em carne e osso, na qualidade de promotor de justiça ad hoc – , mergulha com acurada sutileza no interior de personagens. Valendo-se da lógica dedutiva, técnica investigativa que consagrou Sherlok Holms, expõe com agudeza os ardis da incrível trama arquitetada pelo jovem Ismael, dominado pela cobiça material. Valendo-se da fragilidade feminina, ele seduz a donzela Ana Maria para atingir diabólico plano. Pretendia garantir ao pai uns palmos de terra disputados também pelo pai da moça. Movida por irresistível paixão, Ana Maria sucumbe à tentação e denuncia o próprio pai de falso estupro, levando-o premeditadamente à prisão.

Ampliando o cenário das instigantes histórias, extremamente realistas, o olhar crítico e investigativo de Lyrio Bertoli cruza o rio Paraná e vai às promissoras terras paraguaias de Alto Paraná, para onde são atraídos brasileiros desbravadores em busca do Eldorado. Ali, desenvolve-se praticamente todo o magnífico conto “O brasiguaio don Antonio”, em que se sobressaem vários paralelos narrativos. Nele, o autor tece as aventuras e infortúnios do gaúcho Antonio, homem de sólidas raízes morais, chefe de família, trabalhador e ordeiro. No entanto, traído por ambição desmedida de riqueza, torna-se prisioneiro de suas próprias conquistas, cercadas de experiências idílicas. Mergulhado nas areias movediças da ambição e das paixões proibidas, tem trágico fim em solo guarani. No episódio, o autor ressalta o conflito de consciências entre Antonio, humilde trabalhador, pai e marido, e o agora “don Antonio”, senhorio, próspero, sedutor e amante. O embate sobre o certo e o errado, o bem e o mal, dá um toque de maestria, digno dos melhores contistas, ao drama vivido pelo personagem Antonio, isto é, don Antonio.

Não é demais salientar que o Oeste do Paraná, recentemente agraciado com a obra No tempo dos pioneiros, de Heitor Lothieu Angeli, ganha agora, com o eficiente escritor Lyrio Bertoli, substancioso capítulo na consagração de suas letras. Além da importância histórica, o livro permite-nos visualizar cenários narrativos em cores vivas, com descrição de época, de ambientes, de costumes e de personagens, compreendendo o oportuníssimo resgate de lenda que, inexplicavelmente, ficaram perdidas nas antigas matas e nos abundantes rios da região.

Enfim, com esta obra Lyrio Bertoli lega aos pósteros o exemplo de indeléveis passagens da sua vida pública e, a um só tempo, assegura lugar cativo na galeria da melhor literatura regional paranaense. Em definitivo, passa a figurar ao lado de vultos como o saudoso amigo Ruy Wachowisk, Alceu A. Sperança e o já citado Heitor Lothieu Angeli, entre outros, cuja produção literária tem projetado além-fronteiras a apaixonante região do Oeste do Paraná.

Curitiba, 5 de abril de 2010.


O VAMPIRO e a MELANCIA – por alceu sperança . cascavel.pr

O pessoal de Presidente Prudente (SP) se apavorou com a prisão de um vampiro. Vandeir Máximo da Silva, 27, “papa” da seita Legião de Salvadores do Mundo, bebia sangue, sim senhor.

Os fruticultores chineses introduziram no mercado, com muito sucesso, a melancia quadrada – coisa provisória, pois logo estarão introduzindo o desentortador de banana.

Mas o que o vampiro imprudente de Prudente tem a ver com a melancia quadrada?

As pessoas se surpreendem e se fixam no que é novo, desconhecido, improvável ou lhes estimula paladar ou libido.

Saber que existem mesmo vampiros bebedores de sangue humano, certamente mexeu com duas ou três dessas motivações. E, se não com a libido, ao menos com o paladar a melancia quadrada mexeu.

No entanto, ninguém se mostra especialmente chocado quando o vampiro-governo nos chupa o sangue raivosa e acintosamente, através da carga tributária mais vampiresca do universo.

Alguns até gostavam da CPMF, porque com ela o governo nos chupava o sangue de canudinho, aos pequenos goles. O morcego-vampiro faz o mesmo: ele vai soprando enquanto aspira o plasma. É um truque fenomenal, plenamente acatado pela área tributária.

De outro lado, hoje, valores como amor, solidariedade, afeto, operários de todos os países uni-vos são considerados obsoletos, a exemplo da melancia irregular.

A tecnologia e a ideologia deram um jeito de nos moldar a todos, do mesmo jeito que os fruticultores fazem com suas melancias quadradas.

Moldam-nos para acreditar que um irmão deve atirar em outro. Que um patrão pode explorar um empregado como escravo. Que o governo “manda”, não gerencia. Que a tropa de elite pode matar. Que o traficante gera empregos. Que a informalidade pirata é melhor que as pessoas exigindo emprego em passeata.

Somos vampirizados o tempo todo e nos chocamos com a prisão do vampiro de Prudente. Somos moldados pela ideologia para pensar como eles querem. Estão nos transformando em melancias quadradas, pois nem nos assustamos mais quando alguém resolve dizer que estão cultivando porcaria transgênica muito perto do Parque Nacional do Iguaçu.

É o vampiro sugando a melancia.

CIRO GOMES arrasa com ZE SERRA – sao paulo

Serra ao ser descoberto “que detesta pobre porque e burro” processa Ciro Gomes.

VEJA  AQUI

JUSTIÇA? MAS QUE JUSTIÇA? por vera lúcia kalaari / portugal

É inconcebível quando se diz que se pretende uma justiça moderna, nas decisões muitas vezes importantes que alguns têm que tomar , e que nós tenhamos tantas vezes esta tendência em nos referirmos a castigos bárbaros os infligidos no Terceiro Mundo ,,quer porque nos julgamos bons cristãos ou porque nos cremos bons muçulmanos, quer ainda por supor sermos superiores.

Eis-nos chegados ao extremo das respostas explicativas que não influenciam em nada a nossa tranquilidade, perante as nossas mesas bem abastecidas, fonte do nosso trabalho de defensores, não para ajudar o povo a melhores compreensões, educativas ou outras, mas contribuindo, isso sim, para a sua exterminação. Devemos até, segundo alguns entendidos, espalhar o terror a fim de causar temor, o que fará dos países ditos civilizados os super-poderosos. E, muitas vezes, nas decisões irreflectidas que se tomam por esse mundo fora, ditadas em reuniões regadas  com  deliciosos vinhos tintos, fruto de belas uvas cultivadas em campos modernos, encantados com as honras que nos são atribuídas por sermos civilizados, acabamos por atingir uma certa estatura material traduzida por numerosos ‘’abichanços,’’ causadas, em si mesmas ,pela miséria em que mergulhamos esses mesmos povos. E eis que nos consideramos heróis da justiça/ carrasco e não da justiça educadora, correctora e protectora.

Mas de facto onde está o verdadeiro ladrão? O nosso fim aqui não é defender o larápio mas denunciar tantas condenações severas que podem chegar à amputação de membros, por vezes pelo roubo duma simples galinha, que servirá, quem sabe, para matar a fome a alguém. Porque saciar um estômago faminto, eliminando o criminoso,  apontar com o dedo o pobre vadio aniquilado por mil males da sociedade moderna ,é em si mesmo um problema. Condenar um ladrão profissional a pena de prisão que mais tarde o vai educar e orientar ,é   proteger uma sociedade que temos por missão guardar e não destruir. Mas será isso que se faz? Ponho as minhas dúvidas.

A própria indiferença que temos do que se passa neste mundo onde se praticam tantos excessos, faz-nos esquecer o que  acontece dentro das nossas portas. Condeno sistematicamente e energicamente todos os roubos, mas deploro amargamente que tantos saiam impunes por roubos muito maiores. A sociedade  moderna é falsa em todas as escalas…Desde o pequeno ladrão, ao burguês, senhor do nosso bairro, tão bem assente no respeito quase unânime das massas, mas que não deixa de ter acções pouco louváveis se quiséssemos investigar a fundo a sua vida. É uma verdade que o maior ladrão dos ladrões, é o homem com possibilidades monetárias. Inspira tanta confiança que nem ousamos suspeitar dele. :É o Presidente que esvazia o Cofre Público em benefício das suas gavetas…É o Ministro que faz o mesmo…É o Director que, em pouquíssimo tempo, embora o seu salário não o permita, constrói vivendas em nome da prima ou do irmão…

Ladrão é aquele Perito Contabilista que não se priva de engolir cêntimos de um modo lógico nas suas escritas…Ladrão és tu, Funcionário, que deténs o poder das Caixas do Estado e que vais aí abasteceres-te à tua maneira porque encontraste técnicas de roubo que escapam e escaparão ainda…Ladrão és tu que dás trabalhos do Estado a particulares pagos com lucros de 100 % porque obténs assim um ganho de 50%…

Ladrão és tu, Embaixador, que tendo esvaziado os cofres simulas o roubo destes últimos… Ladrão és tu que aumentas as tuas contas de despesas de representação enquanto não ofereces senão o que mais barato vem no cardápio…Ladrão és tu que vives no meio de facturas certas mas falsas… Ladrão és tu que surripias destramente os menos ágeis…Ladrão és tu que brincas aos Advogados  e que não te privas de tornar mais pesado o dossier dum inocente, em detrimento de fundos que encaixas…Ladrão és tu, Procurador, que faz desaparecer o dossier dum culpado teu amigo, mediante alguns tostões…Ladrão és tu, Presidente do Supremo Tribunal que se serve da autoridade dos seus galões para arrancar a um pobre iletrado os seus terrenos…Ladrão és tu, Director da Alfândega que não hesitas em fazer entrar mercadorias em teu nome, isentas assim de todas as taxas e que metes calmamente no bolso chorudas gorjetas…Ladrão és tu, rico comerciante, que rouba em pequenas despesas as grandes lojas, graças à tua cumplicidade…

Eis aqui uma série de exemplos de ladrões a que podemos chamar ‘’ladrões de ouro’’ porque estão muito bem instalados .Estas citações são verdadeiras. E ainda resta uma grande lista… Nos quatro continentes deste mundo civilizado. Uma vez, de quando em quando, um deles é apanhado… Não pela Lei… Mas antes por ajustes de contas entre descontentes, invejosos e outras causas: desentendimentos, traições…

Está já provado que se chegou ao extremo de, nalguns países, fomentadores de golpes de Estado se aproveitarem  de ladrões para derrubarem os regimes.

Que seria  destas sociedades civilizadas, se acontecesse o mesmo que em países do Terceiro Mundo, onde até se amputa uma orelha a um jovem de 17 anos, por ter roubado…uma borracha?

Não há dúvida: Este nosso mundo, é mesmo um mundo cão.

CARTA MAIOR: EDITORIAL (convenção dos tucanos)

O apelo de uma candidatura que veio para ‘unir o Brasil’, embutido no discurso de José Serra, neste sábado, e embalado como ‘novidade’ nas manchetes dos jornalões, não poderia ser mais artificial. Primeiro, porque pretende tirar de Lula justamente o seu apanágio, um governo de livre transito entre vários setores da sociedade. Algo que até os adversários reconhecem e os empresários –para desgosto da esquerda— festejam. Segundo, porque esse traço de governo não está ancorado apenas na personalidade conciliatória do Presidente, mas decorre de avanços sociais e econômicos reais que, de fato, permitiram uma maior repartição da riqueza criando um sentido de pertencimento raro numa sociedade excludente. De onde os estrategistas do candidato demotucano pensam que vêm os 80% de popularidade de um governante atacado e hostilizado sem trégua pela mídia que os apóia? Terceiro, porque não poderia haver algo mais imiscível do que a idéia de ‘união’ e o prontuário arestoso de José Serra –um tucano rejeitado até por seus pares, famoso pela intolerância e a perseguição implacável a adversários e jornalistas; alguém cujo ferramental político sempre foi a ação soturna regada a dossiês e denúncias plantadas na mídia. Como, enfim, aquele que rachou o próprio partido para impor seu projeto personalista de poder, poderá convencer o Brasil que veio unir o país derrotando Lula?

(Carta Maior; 10-04)

ELEIÇÕES 2010 NA WEB: Começam as práticas deploráveis – por luis sucupira

EM 6 DE ABRIL DE 2010.

Pelo que se desenha, antes mesmo de começar, a campanha eleitoral deste ano irá derrubar velhos conceitos sobre como fazer uma campanha política na Internet. De acordo com matéria do jornalista Luiz Queiroz, do site Convergência Digital (05/04) – “o deputado Brizola Neto (PDT-RJ) postou mensagem no Twitter, informando que uma empresa de informática estaria registrando domínios na Internet com objetivo de criar sites com o intuito específico de atacar a candidatura presidencial da ex-ministra Dilma Rousseff (PT).”
Pelo apurado a empresa é detentora de um domínio criado para realçar as qualidades do candidato do PSDB na Internet (www.amigosdoserra.com.br), o que supostamente a vincula com a candidatura tucana. A empresa também registrou dois outros endereços eletrônicos, deixando clara a intenção de atacar a imagem da candidata do PT à Presidência da República. O mais grave, foi ter supostamente usado CNPJs diferentes nos registros de domínios. Os CNPJs pesquisados no site da Receita Federal aparecem como “inexistentes”. A DDM também atende pelo nome “Duo Database Marketing Serviços e Sistemas Ltda” e seu endereço eletrônico é www.ddm.com.br. O curioso é que tanto os seus CNPJs, quanto os endereços comerciais deixam margem para dúvidas sobre suas existências por serem imprecisos e/ou incorretos. Estão registrados no nome da empresa os seguintes domínios na Internet: – amigosdoserra.com.br– dilmanao.com.br – gentequemente.com.br – joseserraoficial.com.br – jotaserra.com.brjozeserra.com.br – jserra.com.br.

CNPJs e telefones inválidos – por que e para quê?
Na Receita Federal, quando pesquisado o CNPJ da empresa DDM (05/04) usado junto ao Registro.br – do Comitê Gestor da Internet do Brasil – (n° 066.514.423/0001-38) ele foi apontado como inexistente. Hoje à tarde ele aparece como válido. (Aliás, o Comitê Gestor da Internet deveria ter um software que rejeitasse CNPJs falsos – é a máxima da casa de ferreiro espeto de pau). Também com CNPJs inexistentes, a DDM teria registrado os domínios: “www.dilmanao.com.br” – “www.gentequemente.com.br” e “www.amigosdoserra.com.br“; com o CNPJ n°000.660.111/0001-24, inválido até ontem (05/04), hoje à tarde aparece como CNPJ válido. O telefone para contato com a empresa também chama a atenção: (11 – 11111111). Além disso, a empresa informa dois endereços comerciais diferentes.

Mas não é só a empresa DDM que está atrás de confusão. O Instituto Social Democrata (do PSDB), também mantém um domínio na web que, servirá para atacar diretamente aos adversários ao longo da campanha (www.petralhas.com.br). O candidato José Serra conta ainda com o endereço eletrônico www.serra45.com.br, que foi registrado diretamente pelo PSDB. Além disso, o Instituto mantém registrados os seguintes domínios: – blogdojoseserra.com.br – blogdoserra.com.br – eagora.blog.br – jose-sera.com.br – jose-sera45.com.br – josesera.com.br – josesera2010.com.br – josesera45.com.br – joseserra.blog.br – joseserra2010.com.brpetralhas.com.br – serra2010.com.br – sitedojoseserra.com.br – sitedoserra.com.br.

O segredo não é mais secreto…
Outra estratégia adotada por partidos políticos na web é enviar emails com notícias falsas a respeito da vida de candidatos e seus familiares. Tais emails são imediatamente repassados sem nenhuma análise crítica. O fato é que tais sites serviriam para disseminar de forma anônima fatos e ataques em vez de discutir propostas. Este tipo de estratégia funcionou quando a Web era 1.0 e seus usuários meros consumidores de informação sem espírito crítico. Hoje tais estratégias ou abordagens só ajudam a promover o candidato contrário, pois mostra que, longe de discutir propostas, o que pode vir a pegar mesmo serão acusações sem o mínimo de provas.

O fato é que, se isso era uma estratégia para ser mantida em segredo, agora não é mais e ganha notória desconfiança dos propósitos de determinadas candidaturas quando se apresentam na web. É por causa deste tipo de gente – ‘profissionais’ – que aparecem certos senadores querendo amordaçar a Internet. Mas nós estamos de olho e na Web-Livre ninguém mexe. Não sem que a gente faça um barulho muito grande.

Que as eleições deste ano na Internet sejam uma festa democrática da liberdade de expressão e não um festim diabólico onde a libertinagem deixa de ser a exceção. Em política, principalmente, segredo só existe entre duas pessoas quando uma delas morreu. Estamos de olho. A empresa de informática DDM Desenvolvimento de Software S/S Ltda tem, de fato, muitas explicações a dar sobre algumas curiosidades levantadas pelo portal ‘Convergência Digital’.

Convergência Digital
WM – ilustração do site

FLORIANÓPOLIS: “O NOME ESTÁ PRESCRITO” por sérgio da costa ramos – florianópolis

Por achar o assunto pouco relevante, não tinha a intenção de meter a minha colher nessa história de mudar o nome de Florianópolis.

Agora, que o assunto esteve na mídia e na academia universitária – com acadêmicos sugerindo novo batismo de gosto duvidoso, “Açorianópolis” –, há leitores cobrando minha opinião.

Vou dá-la. Quando afirmo que o assunto carece de importância, não me refiro ao ato de bajulaçãoparlamentar que batizou a capital catarinense com o nome do seu algoz. Esse gesto é, sem dúvida, repelente. Decorridos 117 anos, porém, irrelevante se torna a “politização” e a “emocionalização” do episódio. O tempo se encarregou de cimentar, senão a mágoa, o vínculo entre o nome e o homenageado. Poucas pessoas associam automaticamente o toponímico ao marechal alagoano, e, menos ainda, à sanha criminosa de seu capataz Moreira Cézar.

Nem por ser amarga, a história deixa de ser história. Revitalizar a mágoa, agora, é renovar um talho antigo por um corte fresco. A ferida sangrou e cicatrizou – não cabe reabrir o talho.

À época, a “homenagem” significou uma capitulação. Hoje, não teria o menor sentido, assim como Tel-Aviv não aceitaria chamar-se “Hitlerópolis” ou Hiroxima ser batizada de Enola Gay – o nome do avião que despejou a bomba atômica sobre a cidade.

Esquisita, contudo, será uma reação tão tardia e extemporânea, 117 anos depois, como se durante todo esse tempo o povo florianopolitano tivesse apoiado a bajulação “pessoal” dos deputados da então Assembleia Provincial. Pelo antigo “desconforto”, melhor será considerar que a palavra Florianópolis tem o seu radical lastreado em Flor, Floripa – e…, vida que segue, como diria o João Saldanha.

Mudar o nome é tarefa difícil e pouco realista. Na ex-URSS, que se habituou a substituir nomes tradicionais de cidades importantes, homenageando líderes de plantão, tudo o que se produziu foi caos e confusão. Houve época em que nem mesmo o Correio russo sabia dizer ao certo o nome dos lugares. Quando um decreto do governo revisionista de Kruschev pôs fim, em 1961, ao nome Stalingrado, a cidade às margens do Volga permaneceu “pagã” por sete dias. Durante uma semana não se pôde mandar para lá uma carta ou um telegrama. Podia-se telefonar, apenas, para “aquele lugar”.

Stalingrado faria o “percurso” completo. Originalmente, chamava-se Tsarisyn. No curto espaço de 30 anos chamou-se, sucessivamente, Volvogrado e Stalingrado. Como “Cidade de Stalin”, escreveu página heróica da Segunda Guerra Mundial, resistindo aos borzeguins do nazifascismo. Hoje, a cidade voltou a se chamar Tsarisyn. Assim como Leningrado voltou a se chamar São Petersburgo.

Como o nome original de Floripa, Desterro, não é amável, melhor deixar como está. Detestáveis serão delírios do tipo Açorianópolis, Y-Jurerê-Mirim, Meiembipe e outras cogitações aberrantes, como um dia foram “Ondina” e “Exiliópolis”. Mais palatável seria a simplificação total. “Santa Catarina”, como, aliás, Sebastião Caboto batizou a Ilha. Mas se bem, ou mal, a história sedimentou o nome “Florianópolis”, melhor faremos em reverenciar todos os anos os mortos de Anhatomirim, como Hiroxima reverencia os seus, todo mês de agosto.

E, vida que segue, vamos todos trabalhar.

O POETA MANOEL DE ANDRADE comenta:

Comentário:

Parabenizo o autor e o editor.
Uma matéria com todos os pingos nos “is”.

Quando os sobreviventes da ditadura subiram ao poder todos tínhamos, senão a certeza, pelo menos a esperança, de que toda essa lama seria removida dos porões da nossa história. Mas ela ainda está aí, parte inconfessavelmente lacrada na consciência delituosa de muitos generais, temerosos que essa “Caixa de Pandora” , se aberta, possa redesenhar seus “Retratos de Dorian Gray”, com os traços e as cores repugnantes de novos crimes. Outra parte dessa lama está espalhada na sala de visitas da nação, nessa triste exposição de valas escavadas, ossadas anônimas, documentos revelados, acusações irrefutáveis, nos retratos de alguns carrascos e na memória empestada de um tempo cujos anais recendem esse odor intenso e insuportável.

Até quando suportaremos essa imensa vergonha perante o mundo, perante as nações vizinhas que tiveram a coragem e a decência histórica de transformá-la em justiça. Até quando, todos nós brasileiros, sobreviventes ou herdeiros da tragédia, filhos dessa nação maravilhosa, viveremos tatuados com essa nódoa infamante.

Há algum tempo publiquei neste site o longo poema, CÂNTICO PARA OS SOBREVIVENTES, escrito em 2003 e contando todo esse rastro de dor e resistência em nossa história. No ensejo desse corajoso artigo quero partilhar também minhas acusações e meu testemunho poético citando alguns dos seus versos:

(…)E agora que o tempo secou a imensa lama
e os sobreviventes saíram das trincheiras;
agora que exumamos nossas vítimas
e os verdugos a tudo assistem impunemente;
perguntamos se o tempo também secou o rio de lágrimas,
se o coração das mães já despiu o amargo luto
se os órfãos receberam as respostas
se os amantes encontraram outros braços.

Pergutamos se todos os dossiês já foram abertos
se todas as senhas foram decifradas
porque prostituiram a justiça impunemente
e se os pretorianos já cumpriram a penitência.
Perguntamos se todos os nossos mortos já receberam sepultura
se a história já revelou o preço da tragédia
e quem arrancará de nossa carne esse espinho lancinante.

Perguntamos…, até quando durará essa cumplicidade e esse silêncio
quando será revogado esse decreto
e em que tribunal responderão enfim os acusados.(…)

Manoel de Andrade

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leia a matéria comentada AQUI

BOTÃO DE DESLIGAR por alceu sperança / cascavel.pr

Rei não faz campanha.

A não ser na ficção.

Ou na Espanha.

***

Uma antiga história-em-quadrinhos (The Wizard of Id), da dupla Brant & Parker, mostra-nos um rei, talvez concorrente do espanhol, em campanha eleitoral. O cruel reizinho dos quadrinhos vai à sacada do palácio e começa o blablablá: – Votem em mim e eu prometo plano de saúde grátis para todos! (aplausos) Casa de graça! (vivas) Roupa de graça!(hurras) Tíquetes-refeição de graça! (todos de joelhos) E empregos para todos!

Diante da última promessa, a plateia emudece. O rei, surpreso, pergunta se alguém tem algo a dizer. Aí um súdito mais descarado ergue-se e pergunta: “Se nós vamos ter tudo de graça, pra que trabalhar?”

A Dinamarca montou o mais invejável sistema de justiça social possível nos marcos do capitalismo. Algo de muito sadio naquele reino. A perspectiva do sujeito ficar sem trabalhar por conta do desenvolvimento tecnológico não dá tremeliques de medo, porque o Estado-pai acolhe os desempregados sob suas generosas asas e o trabalho já feito garantiu uma bela poupança para o futuro.

O seguro-desemprego e a estrutura de apoio equivalem a felizes férias remuneradas até encontrar o novo trabalho. O emprego que se acha depois dessas férias é compatível com o desenvolvimento da ciência e da técnica. Já tem toda a educação que precisa. Se adoece, é socorrido por bons hospitais.

Numa frase: lá, a flexibilização das relações trabalhistas casa-se harmoniosamente com a segurança do trabalhador.

É a tal da flexi-segurança. O sucesso que a flexi, para os íntimos, vem tendo na Dinamarca, estimulou os demais países a fazer o mesmo. Em todos os lugares, flexibilizam-se as relações de trabalho, destroem-se os sindicatos, apelida-se de “atrasado” qualquer movimento de defesa do ser humano ameaçado pela destruição ambiental e pela maluquice gerada pelo desemprego ou pela superexploração do trabalho.

Todos se julgam Dinamarcas. Se dá certo lá, onde antigamente havia algo de podre, segundo Hamlet, vai dar certo também aqui, onde temos políticos sadios e bem nutridos, pensam os incautos.

Mas aqui o trabalhador expulso do emprego extinto não tem garantia de manutenção de renda, a não ser um seguro-desemprego que míngua rapidamente, bem antes de arranjar a próxima colocação.

O caráter semi-periférico da nossa economia e o limitado desenvolvimento científico mostram que o desempregado de hoje não vai para plantas novas, mas para empregos piores, com remuneração mais baixa. Ou cai na informalidade, que fica na penumbra entre a clandestinidade e o crime. Aqui não se festeja mais gente chegando à riqueza, mas mais gente chegando à pobreza.

E, trabalhando ou não, o cara fica doente e não tem socorro. A estrutura de saúde pública é um espanto de incompetência e falastronice. A conseqüência disso é que temos contratos e leis dignos da Dinamarca e respeito aos trabalhadores digno de Uganda.

É por isso que se diz na Europa, onde a flexi-segurança já é norma, que no Brasil e na América Latina, para onde ela está vindo, acelerada, vai se chamar, naturalmente, flexi-insegurança. É como tem sido chamada nos países que agora está quebrando na Europa, os tais PIIGS (Portugal, Itália, Irlanda, Grécia e Espanha).

Quando a grita do povo ficar ensurdecedora, os luliberais vão perguntar onde é que fica o botão de desligar essa gente mal-agradecida. A imprensa não pode expor uma só das inúmeras contradições do establishment pequeno-burguês social-democrata dominante que é fustigada até pelo Chefe, imagine pelos áulicos.

Como não há botão, só restará reprimir e encarcerar. Explica-se porque já há tropas de elite e cadeias mais amplas.

UMA LUZ EM 2010 por alceu sperança / cascavel.pr

“O dinheiro não é apenas um dos objetos da paixão de enriquecer, mas é o próprio objeto dela. Essa paixão é essencialmente auri sacra fames (a maldita ganância do ouro), faz com que as pessoas vivam em torno de uma medíocre vida, ocasionada por necessidades impostas, gerando uma rotina alienada” “O que caracteriza a economia política burguesa é que ela vê na ordem capitalista não uma fase transitória do progresso histórico, mas a forma absoluta edefinitiva da produção social” “A burguesia não pode existir sem revolucionar constantemente os instrumentos de produção e, portanto, as relações de produção, isto é, todo o conjunto das relações sociais. Esta mudança contínua da produção, esta transformação ininterrupta de todo o sistema social, esta agitação, esta perpétua insegurança distinguem a época burguesa das precedentes. Todas as relações sociais tradicionais e estabelecidas, com seu cortejo de noções e ideias antigas e veneráveis, dissolvem-se; e todas as que as substituem envelhecem antes mesmo de poder ossificar-se” “A classe capitalista rasgou o véu sentimental da família, reduzindo as relações familiares a meras relações monetárias” Em 2010, as pessoas que sonham com uma nova sociedade neste planeta vão desenvolver uma série de atos comemorativos aos 190 anos de nascimento do filósofo Friedrich Engels (1820–1895). Evidentemente, as pessoas que teimam em manter o mundo injusto como ele é atualmente também vão promover uma série de atos, com a finalidade de tentar liquidar a ascendência das ideias marxistas, das quais Engels foi um dos primeiros e mais importantes divulgadores, além de coautor, sobre a juventude e a intelectualidade progressista. Não suportam que alguém nascido há quase 200 anos ainda tenha algo a nos dizer. Talvez seja por isso que tantos odeiam Cristo, Maomé, Buda. Não suportam a pregação que eles fizeram de um mundo em que os homens vivam em harmonia, não uns devorando os outros, na atual supremacia da teoria hobbesiana. Quando pilantras de todos os calibres reprimiam os intelectuais e os trabalhadores com um falso medo do “fantasma do Comunismo” (expressão cunhada por Marx e Engels no Manifesto de 1848), já estava claro que as monumentais ideias de Marx seriam combatidas a ferro e fogo, pois elas não são palavras ao vento: partem do passado para chegar ao presente e insinuam um futuro que evidentemente não agrada aos donos do mundo e sua neoescravidão – uma escravidão em que as pessoas, amarradas pelos grilhões da ideologia, sequer conseguem ver que são controladas pelos criadores da infelicidade. Nós diremos em novembro de 2010, quando se completam os 190 anos de nascimento de Engels, que ele, tal qual Marx, mantém ainda hoje uma lanterna acesa para nos mostrar o caminho da revolução. Já os que adoram o mundo como ele está dirão que nossa lanterna se apagou com a primeira pichação feita por um nazista no túmulo de Marx. Por isso, nos 190 anos de nascimento de Friedrich Engels, nós mais uma vez levantaremos a lanterna e os capitalistas tentarão quebrá-la com suas pedras de ouro. Mas, como diria Marx, isso é da dialética. Vamos ao debate, pois é dele que de fato virá a luz necessária para que possamos construir a nova sociedade ainda neste século.

ESTAMOS EM CACOS por alceu sperança / cascavel.pr

A irresponsabilidade rapineira do sistema tributário nacional machuca todo mundo, mas é pior para os pobres. A regra luliberal é economizar para pagar banqueiro, e assim a União sofre com falta de recursos para a infra-estrutura.

Os Estados não conseguem suprir aquilo que a União abandonou. E os municípios estão quebrados. Ser prefeito, hoje, é fazer menos que o contínuo do gabinete. Limita-se a cumprir convênio com a União e o Estado, zanzar daqui pra lá à toa, mudar a pintura de alguma obra já feita (“revitalização”, dizem). Se sair disso, arrisca-se a ir para a cadeia. Centenas de ex-prefeitos estão sendo processados e os atuais tendem a ser processados em breve.

As prefeituras são os “trabalhadores” da União. Perdem direitos e arcam cada vez com mais responsabilidades e encargos. Sempre que se fala em “reforma da Constituição”, lá está mais um direito sendo garfado dos que trabalham e a União fortalecida.

Uma olhada em nossa periferia mostra gente pobre, sem poder pagar a prestação da casa “do BNH”, como se dizia antigamente, de olho num fundo de vale para levantar o barraco, jogando no bicho o dinheiro do leite da criança.

Mas essa gente pobre é muito rica: paga cerca de 400 milhões de reais por dia por uma dívida que não fez. É a privatização do caraminguá: era dinheiro público, vindo de impostos e taxas, e agora foi para bolsos privados. Simples como bater uma carteira. Aliás, bateram a Vale.

Lula conhece tão pouco o Brasil que, dia desses, cometeu esta barbaridade, ao defender a garfada no nosso bolso: “A verdade é que as pessoas estão pagando mais porque estão ganhando mais. É só ver o lucro dos bancos, ver o lucro das mil maiores empresas brasileiras que vocês vão perceber que as pessoas estão ganhando mais e, portanto, têm que pagar mais”.

Ignora que o peso do tributo para um banco ou uma das mil é apenas um indolor dado contábil, mas para o assalariado quer dizer o couro arrancado. É ele que paga os impostos embutidos na comida que é obrigado a comprar e nos serviços que é forçado a usar.

Não é a empresa de ônibus que paga os impostos: eles são arrancados do usuário do lotação. O banco tira do correntista e assim vai. O cidadão paga tudo, mas suas Prefeituras estão em cacos.

No milagroso PAC lulista, a grana ali reservada para investimento em aeroportos até 2010 (aliás, nenhum centavo para o Aeroporto Regional do Médio-Oeste) equivale ao pagamento de sete dias de juros da dívida que não contraímos.

Não pagar oito dias dava pra tudo aquilo e nosso aeroporto viria de brinde. Há irrefletidos dizendo que o aeroporto é “elitista”. Mas na sociedade justa do futuro, quem é pobre hoje amanhã vai querer viajar de avião, como acontece na China. O china ganha 70 dólares por mês, tem apartamento, plano de saúde, universidade paga para o filho, laptop da hora e viaja de avião, que absurdo! Onde é que este mundo vai parar?! Já tirar dos pobres e dar aos ricos, Robin Hood invertido, não é elitista…

Mas reza a parábola que os últimos serão os primeiros. O biólogo Luc Montagnier, que em 1983 identificou o vírus da Aids, acredita que a multidão de jovens sem trabalho vai derrubar as atuais estruturas sociais e instaurar a total anarquia.

O cara lida com vida o tempo todo e sabe que ela não fica engarrafada sem fermentar. Quem gosta da “ordem” que está aí, trate de arranjar emprego para essa gurizada sem ocupação. Ou tudo vai virar caco.

FRAUDE EM NOME DE DEUS – por dalmo de abreu dallari / são paulo



Um fenômeno social que vem ganhando corpo nos últimos tempos é o aparecimento de grupos autodenominados religiosos, que, geralmente sob a direção de um líder, arrebanham adeptos, atraindo pessoas, quase sempre pouco esclarecidas ou socialmente frágeis, ou, ainda, dissidentes políticos ou religiosos aos quais oferecem um instrumento de oposição, e logo procuram formalizar a existência do grupo como uma nova igreja. E assim procuram obter proveitos materiais de várias espécies, em fraude à lei. Isso explica o aparecimento de novas igrejas em diferentes partes do mundo, inclusive no Brasil.Percebendo a ocorrência desse fenômeno e desejando conhecê-lo melhor, para, entre outras coisas, despertar a opinião pública para os graves prejuízos individuais e sociais que isso pode acarretar, dois jornalistas ligados à Folha de S.Paulo, Cláudio Ângelo, editor de Ciência, e o repórter Rafael Garcia, decidiram criar experimentalmente uma nova igreja, evidentemente fundada numa fantasiosa crença religiosa.

Para tanto, com o objetivo de evidenciar a tranquila possibilidade legal de consumar essa fraude, solicitaram a orientação de um dos mais prestigiosos escritórios de advocacia de São Paulo, respeitadíssimo pelo alto nível de conhecimentos e pelo rigoroso padrão ético de seus integrantes – o escritório Rodrigues Barbosa, Mac Dowell de Figueiredo, Gasparian Associados. E assim adotaram as providências legalmente exigidas para concretizar a criação da igreja de fantasia.

Exploração da ignorância

Verificaram, então, que não existem requisitos teológicos ou doutrinários para a criação de uma igreja, não havendo também a exigência de um número mínimo de fiéis. Redigiram um documento de fundação do que denominaram Igreja Heliocêntrica do Sagrado Evangelho e fizeram a inscrição da entidade no Cadastro Nacional de Pessoas Jurídicas, obtendo assim o número do CNPJ.

Com base nesse documento abriram uma conta bancária, fazendo várias aplicações financeiras, gozando de isenção dos tributos normalmente incidentes sobre operações dessa espécie, pois, segundo a Constituição, no artigo 150, inciso VI, é vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios instituir impostos sobre templos de qualquer culto.

Nessa mesma linha, a nova igreja poderá adquirir e vender imóveis, realizar transações econômicas, cobrar pela prestação de serviços e praticar outros atos que beneficiem pessoalmente os criadores e dirigentes da igreja, sem que sejam obrigados a pagar o IPVA, o IPTU, o ISS e qualquer outro tributo. E como as igrejas são absolutamente livres para definir sua organização e direção e para admitir e manter seus sacerdotes, que, nessa condição, ficam isentos da obrigação de prestar o serviço militar obrigatório, um dos dirigentes designou seus próprios filhos como sacerdotes, garantindo-lhes, desse modo, essa isenção, devendo-se ainda acrescentar que, além desse privilégio legal, os sacerdotes terão direito a prisão especial, se forem envolvidos numa ocorrência policial.

Acrescente-se, ainda, que os dirigentes da igreja poderão indicar os imóveis de sua residência como sendo templos da igreja e assim ficarão isentos dos tributos municipais.

Essa iniciativa dos jornalistas, levada a efeito discretamente e sem procurar provocar escândalo, é merecedora do maior elogio e deve ser amplamente divulgada, para chamar a atenção dos que podem e devem influir para impedir a multiplicação fraudulenta de igrejas. Essa fraude deve merecer especial atenção dos legisladores e dos governos, pois além de acarretar enormes prejuízos a todo o povo, por criar a possibilidade de intensa atividade econômico-financeira sonegando tributos, alimentam-se da exploração da ignorância e da fragilidade de pessoas das camadas mais pobres da população.

Ação educativa

Bem ilustrativo da audácia desses exploradores da ignorância e da ingenuidade de pessoas mais simples é a notícia da criação de uma linha telefônica para falar com Deus, fato divulgado pelo jornal francês Le Monde (4/3/2010, pág.26).

Conforme registra com ironia aquele jornal, foi criado um novo serviço telefônico, “Le Fil du Seigneur”, iniciativa da sociedade Aabas Interactive. Fornecendo os dois números disponíveis para as ligações, informa o jornal que o custo das ligações é de 15 centavos de euro para as ligações comuns e de 34 centavos para as ligações urgentes e diretamente dirigidas a Deus.

Quem ligar para o serviço ouvirá uma gravação dizendo : “Você está em presença de Deus para o recolhimento e a prece a fim de receber sua graça”. Acrescenta o jornal, sempre ironizando, que os promotores desse piedoso serviço não estão autorizados a conceder absolvição por telefone, mas os interessados podem deixar sua confissão. E para acentuar os objetivos de apoio e edificação espiritual, uma gravação diz no início: “Para receber conselhos, digite 1; para confessar, digite 2 ; para escutar confissões de outros, digite 3”.

Parece absurda a criação de um “serviço” dessa natureza, mas o fato de ele continuar existindo é um sinal de que também existem usuários, o que deixa evidente que há ambiente para audácias desse tipo.

Num pronunciamento recente, o presidente da Ordem dos Advogados de Angola chamou a atenção para o surgimento e a multiplicação de práticas ilegais naquele país, ligadas justamente à exploração de crenças religiosas. E observou : “Não me surpreende o surgimento de crimes ligados à exploração religiosa, porque onde há pobreza, ignorância e um nível cultural extremamente baixo há propensão para que essas práticas religiosas duvidosas prevaleçam e tenham espaço”.

E sublinhando que a legislação angolana exige um mínimo de cem mil aderentes para a existência de uma igreja, o que considera bom mas insuficiente para impedir as fraudes, acrescentou que “é responsabilidade do Estado, nos termos da lei, controlar para que o direito de liberdade religiosa não seja utilizado para fins contrários ao que está previsto na Constituição”, considerando necessária uma ação educativa do Estado, mas também uma ação repressiva, para impedir práticas que, sob a máscara de atividades religiosas, prejudiquem os direitos de outros cidadãos e a própria ordem pública.

Necessário e urgente

Observe-se, afinal, que esse fenômeno da exploração religiosa, muito oportunamente posto em evidência pelos jornalistas da Folha de S.Paulo, vem preocupando vários países da Europa. Assim, na França já estão em vigor três leis tratando de questões relativas ao surto de organizações religiosas e suas repercussões legais. A primeira é de 18 de dezembro de 1998 e cuida, sobretudo, do problema do acesso de crianças à escola, que é obrigação dos pais e vinha enfrentando obstáculos sob alegação de motivos religiosos. A segunda, de 15 de junho de 2000, deu legitimidade às associações civis que lutam contra as seitas para propor ou integrar ações judiciais, inclusive na área penal, nesse âmbito. A terceira lei, de 12 de junho de 2001, trata dos movimentos sectários que atentam contra os direitos humanos e as liberdades fundamentais. Esta lei permite a propositura de ação contra fatos que podem ser qualificados como “abusos fraudulentos do estado de ignorância ou de fragilidade”, com agravantes quando praticados contra crianças ou pessoas em situação de fraqueza.

Essas questões já vêm sendo objeto de considerações do Conselho da Europa, que em 1992 fez recomendações relativamente às seitas e aos novos movimentos religiosos e em 1999 reforçou seu pronunciamento considerando as atividades ilegais das seitas. Como fica evidente, há uma situação nova envolvendo as questões religiosas, com efeitos graves sobre os direitos.

Por tudo isso, é muito oportuna a advertência sobre o que vem ocorrendo no Brasil nessa área. A Constituição brasileira declara inviolável a liberdade de consciência e de crença, mas ao mesmo tempo diz, no artigo 5°, inciso XVII, que é plena a liberdade de associação “para fins lícitos”. É evidente que o uso fraudulento da invocação religiosa nada tem a ver com a liberdade de crença e, ainda mais, por suas conseqüências de ordem prática, acarreta graves prejuízos a todo o povo, confere privilégios injustos e cria uma situação de conflito, opondo as organizações desonestas às instituições que se fundamentam, autenticamente, em crenças religiosas.

Assim, pois, é necessário e urgente que o tema seja posto entre as prioridades brasileiras, para que se tenha uma legislação que, mantendo a laicidade do Estado, garanta a liberdade de crença com pluralidade, coibindo a invocação fraudulenta dessa liberdade.

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DALMO DE ABREU DALLARI é jurista brasileiro.

A LONGA DESPEDIDA por leandro fortes /são paulo

Ainda não surgiu, infelizmente, um ministro da Defesa capaz de tomar para si a única e urgente responsabilidade do titular da pasta sobre as forças armadas brasileiras: desconectar uma dúzia de gerações de militares, sobretudo as mais novas, da história da ditadura militar brasileira. A omissão de sucessivos governos civis, de José Sarney a Luiz Inácio Lula da Silva, em relação à formação dos militares brasileiros tem garantido a perpetuação, quase intacta, da doutrina de segurança nacional dentro dos quartéis nacionais, de forma que é possível notar uma triste sintonia de discurso – anticomunista, reacionário e conservador – do tenente ao general, obrigados, sabe-se lá por que, a defender o indefensável. Trata-se de uma lógica histórica perversa que se alimenta de factóides e interpretações de má fé, como essa de que, ao instituir uma Comissão Nacional da Verdade, o governo pretende rever a Lei de Anistia, de 1979.
Essa Lei de Anistia, sobre a qual derramam lágrimas de sangue as viúvas da ditadura em rituais de loucura no Clube Militar do Rio de Janeiro, não serviu para pacificar o país, mas para enquadrá-lo em uma nova ordem política ditada pelos mesmos tutores que criaram a ditadura, os Estados Unidos. A sucessão de desastres sociais e econômicos, o desrespeito sistemático aos Direitos Humanos e a distensão política da Guerra Fria obrigaram os regimes de força da América Latina a ditarem, de forma unilateral, uma saída honrosa de modo a preservar instituições e pessoas envolvidas na selvageria que se seguiu aos golpes das décadas de 1960 e 1970. Não foi diferente no Brasil.

Uma coisa, no entanto, é salvaguardar as Forças Armadas e estabelecer um expediente de perdão mútuo para as forças políticas colocadas em campos antagônicos, outra é proteger torturadores. Essas bestas-feras que trucidaram seres humanos nos porões, alheios, inclusive, às leis da ditadura, não podem ficar impunes. Não podem ser tratados como heróis dentro dos quartéis e escolas militares e, principalmente, não podem servir de exemplo para jovens oficiais e sargentos das Forças Armadas. Comparar esses animais sádicos aos militantes da esquerda armada é uma maneira descabida e sórdida de manipular os fatos em prol de uma camarilha, à beira da senilidade, que ainda acredita ter vencido uma guerra em 1964.

Assim, ao se perfilarem num jogo de cena melancólico em favor dessas pessoas, o ministro Nelson Jobim e os comandantes militares prestam um desserviço à sociedade brasileira. Melhor seria se Jobim determinasse aos mesmos comandantes que pedissem desculpas à nação, em nome das Forças Armadas, pelos crimes da ditadura, como fizeram os militares da Argentina e do Chile, ponto de partida para a depuração de uma época terrível que, no entanto, não pode ser esquecida. Jobim faria um grande favor ao país se, ao invés de dar guarida a meia dúzia de saudosistas dos porões, fizesse uma limpeza ideológica e doutrinária na Escola Superior de Guerra, de onde ainda emanam os ensinamentos adquiridos na antiga Escola das Américas, mantida pelos EUA, onde militares brasileiros iam aprender a torturar e matar civis brasileiros.

A criação do Ministério da Defesa, em 1999, pelo presidente Fernando Henrique Cardoso, deu-se por um misto de necessidade política e operacional. O Brasil era, então, um dos pouquíssimos países a ter um ministro fardado para cada força militar, o que fazia de cada uma delas – Marinha, Exército e Aeronáutica – um feudo administrativo indevassável e obrigava o presidente a negociar no varejo assuntos que diziam respeito ao conjunto de responsabilidades gerais das Forças Armadas. Do ponto de vista de gerenciamento da segurança nacional, aquele modelo herdado da ditadura era, paradoxalmente, um desastre. Ainda assim, apesar de ter havido alguma resistência na caserna, o Ministério da Defesa foi montado, organizado e colocado em prática.

Faltou, no entanto, zelo na indicação de nomes para a pasta. Desde o governo FHC, o Ministério da Defesa serviu para abrigar políticos desempregados ou servidores públicos sem qualquer ligação e conhecimento de políticas de defesa e realidade militar. A começar pelo primeiro deles, o ex-senador Élcio Álvares, do ex-PFL, acusado de colaborar com o crime organizado no Espírito Santo. Defenestrado, foi substituído, sem nenhum critério, pelo então advogado-geral da União, Geraldo Quintão, praticamente obrigado a aceitar o cargo por absoluta falta de outros interessados. No governo Lula, já foram quatros os ministros da Defesa: o diplomata José Viegas Filho, o vice José Alencar e o ex-governador da Bahia Waldir Pires, além do atual, Nelson Jobim.

Todos, em maior ou menor grau, gastaram tempo e energia em cima das mesmíssimas discussões sobre salários e equipamentos, mas ninguém ousou tratar da questão doutrinária e de novos parâmetros para a educação e a formação dos militares brasileiros. Na Estratégia de Defesa Nacional, elaborada por Jobim e pelo ex-ministro de Assuntos Estratégicos Mangabeira Unger, em 2008, o tema é abordado, simplesmente, em um mísero parágrafo. A saber:

“As instituições de ensino das três Forças ampliarão nos seus currículos de formação militar disciplinas relativas a noções de Direito Constitucional e de Direitos Humanos, indispensáveis para consolidar a identificação das Forças Armadas com o povo brasileiro”.

A polêmica sobre a possibilidade ou não de revisão da Lei de Anistia é um reflexo direto do descolamento quase que absoluto dos quartéis da chamada sociedade civil brasileira, que, a partir de 1985, cometeu o erro de relegar os militares a uma quarentena política aparentemente infindável, da qual eles só se arriscam a sair de quando em quando, mesmo assim, de forma envergonhada e, não raras vezes, desastrada. Basta dizer que, para reivindicar melhores salários, recorrem os nossos homens de farda às mulheres, normalmente, esposas de oficiais de baixa patente e de praças subalternos, a se lançarem em panelaços e acampamentos públicos a fim de sensibilizar os generais. Estes mesmos generais que se mostram tão irritados com a possibilidade de instalação, aliás, tardia em relação a toda América Latina, da Comissão Nacional da Verdade, prevista no Plano Nacional de Direitos Humanos.

Mas, afinal, por se irritam os generais e, com eles, o ministro Nelson Jobim? Com a possibilidade de, finalmente, o Estado investigar e nomear um bando de animais que esfolaram, mutilaram, estupraram e assassinaram pessoas às custas do contribuinte? Por que diabos o Ministério da Defesa se coloca ao lado de uma escória com a qual sequer existe, hoje em dia, uma mínima ligação geracional na caserna?

O Brasil precisa se livrar da ditadura militar, mas não antes de dissecá-la e neutralizar-lhe as sementes. Os militares de hoje não podem ser obrigados a defender gente como o coronel Brilhante Ustra, o carniceiro do DOI-CODI de São Paulo, nem o capitão Wilson Machado, vítima mutilada pela própria bomba que pretendia explodir, em 1º de maio de 1981, durante um show de música no Riocentro, onde milhares de pessoas comemoravam o Dia do Trabalho. Um Exército que dá guarida e, pior, se orgulha de gente assim não precisa de mais armamento. Precisa de ar puro.

NEM LEIS, NEM JUSTIÇA por josé saramago / portugal

Em Portugal, na aldeia medieval de Monsaraz, há um fresco alegórico dos finais do século XV que representa o Bom Juiz e o Mau Juiz, o primeiro com uma expressão grave e digna no rosto e segurando na mão a recta vara da justiça, o segundo com duas caras e a vara da justiça quebrada. Por não se sabe que razões, estas pinturas estiveram escondidas por um tabique de tijolos durante séculos e só em 1958 puderam ver a luz do dia e ser apreciadas pelos amantes da arte e da justiça. Da justiça, digo bem, porque a lição cívica que essas antigas figuras nos transmitem é clara e ilustrativa. Há juízes bons e justos a quem se agradece que existam, há outros que, proclamando-se a si mesmos justos, de bons pouco têm, e, finalmente, não são só injustos como, por outras palavras, à luz dos mais simples critérios éticos, não são boa gente. Nunca houve uma idade de ouro para a justiça.

Hoje, nem ouro, nem prata, vivemos no tempo do chumbo. Que o diga o juiz Baltasar Garzón que, vítima do despeito de alguns dos seus pares demasiado complacentes com o fascismo sobrevivo ao mando da Falange Espanhola e dos seus apaniguados, vive sob a ameaça de uma inabilitação de entre doze e dezasseis anos que liquidaria definitivamente a sua carreira de magistrado. O mesmo Baltasar Garzón que, não sendo desportista de elite, não sendo ciclista nem jogador de futebol ou tenista, tornou universalmente conhecido e respeitado o nome de Espanha. O mesmo Baltasar Garzón que fez nascer na consciência dos espanhóis a necessidade de uma Lei da Memória Histórica e que, ao abrigo dela, pretendeu investigar não só os crimes do franquismo como os de outras partes do conflito. O mesmo corajoso e honesto Baltasar Garzón que se atreveu a processar Augusto Pinochet, dando à justiça de países como Argentina e Chile um exemplo de dignidade que logo veio a ser seguido. Invoca-se aqui a Lei da Amnistia para justificar a perseguição a Baltasar Garzón, mas, em minha opinião de cidadão comum, a Lei da Amnistia foi uma maneira hipócrita de tentar virar a página, equiparando as vítimas aos seus verdugos, em nome de um igualmente hipócrita perdão geral. Mas a página, ao contrário do que pensam os inimigos de Baltasar Garzón, não se deixará virar. Faltando Baltasar Garzón, supondo que se chegará a esse ponto, será a consciência da parte mais sã da sociedade espanhola que exigirá a revogação da Lei da Amnistia e o prosseguimento das investigações que permitirão pôr a verdade no lugar onde ela tem faltado. Não com leis que são viciosamente desprezadas e mal interpretadas, não com uma justiça que é ofendida todos os dias. O destino do juiz Baltasar Garzón é nas mãos do povo espanhol que está, não dos maus juízes que um anónimo pintor português retratou no século XV.

13 de Fevereiro, 2010.

CAÇA-BILHÕES por alceu sperança / cascavel.pr

Constantemente a imprensa noticia apreensões de máquinas caça-níqueis. Aves de rapina que se aproveitam de uma doença – a compulsão pelo jogo – tiram até o último centavo de crianças, jovens e adultos seduzidos pelos sons e imagens hipnóticos dessas máquinas enganosas.

São de fato instrumentos odiosos, que devem ser banidos, como, aliás, toda jogatina. Mas há uma outra máquina perversa que arranca o dinheiro dos brasileiros. Ela não só caça níqueis, mas caça bilhões. Atendendo aos interesses pervertidos dos donos do mundo, essa máquina é o que costumamos chamar de “governo”.

Se a farra dos juros em cima de dívidas infladas artificialmente deixasse de ser paga, o dinheiro que se esvai poderia ser usado produtivamente, para suprir o grosso da infraestrutura necessária ao País. Por alguns dias, de suspensão que fosse, corrigiria o grave problema dos hospitais públicos. Se parasse de vez, o País poderia melhorar sua estrutura social e superaria os gargalos logísticos que hoje embaraçam a conquista da taxa de crescimento necessário ao Brasil, que deveria se dar na faixa dos 7% a 8%.

A máquina monstruosa caça-bilhões do governo brasileiro gasta com juros em uma semana o valor dos investimentos previstos para todo o sistema aeroportuário em quatro anos. É de meter medo a conta de quanto o governo Lula vai torrar para o pagamento desses juros criminosos em seu alegre governo de oito anos inteiros enchendo as burras dos espertos donos do mundo.

Uma das variantes da horrenda máquina caça-bilhões é o tal do “superávit primário”, praga inventada pelos espertalhões: é a quantia que somos obrigados a economizar para o pagamento da farra dos juros. Os cerca de seis mil municípios brasileiros estão quase todos quebrados: a maioria nem consegue pagar os professores e os médicos que necessitam para atender as crianças e os enfermos.

O dinheiro que não vai para a educação e a saúde vai para pagar a jogatina pervertida dos donos do mundo. Sabe aquele ladrãozinho do bairro que tivemos vontade de esganar quando roubou uma roupa do varal? Ele levaria um bilhão de anos para roubar de sua família o que a máquina caça-bilhões rouba do povo brasileiro em alguns segundos.

Toda a insegurança que sentimos, o descalabro da saúde, a fragilidade da educação, a sucata das Forças Armadas, a deficiente infraestrutura nacional, a Amazônia entregue às aves de rapina e falta de trabalho para o sem-terra poderiam ser coisas superadas se o dinheiro surrupiado pela máquina caça-bilhões fosse aplicado nas necessidades da população.

É assim que o capitalismo se mantém, é como os ricos ficam mais ricos e explica porque num mundo que gera tanta riqueza há crianças esqueléticas no terceiro e no quarto mundos, jovens mortos-vivos entregues à droga, adultos cujo orçamento mal dá para pagar as contas, famílias atemorizadas diante da perspectiva de perder o provedor no famigerado downsizing, eufemismo inglês para jogar milhões de bons trabalhadores no olho da rua.

Há que se recordar, sempre, o imortal Darcy Ribeiro: “Fomos criados para produzir o açúcar que adoçava a boca do europeu, o ouro que o enriquecia e continuamos produzindo a soja para engordar o porco na Alemanha. Enquanto não fizermos o País existir para si, seremos um país-problema”.

RALÉ DE TOGA por olavo de carvalho / curitiba

Embora não seja estrita verdade o que pretendia Karl Marx, que a condição social dos homens determine a sua consciência, ela o faz às vezes, e no mínimo é imprudente esquecer que ela pode impor severos obstáculos ao conhecimento. É característico dos modernos acadêmicos precaver-se contra esse erro no estudo de todos os assuntos humanos, salvo no deles mesmos. Se há um tema raro nas investigações acadêmicas, é o das relações entre a estrutura do poder universitário e as idéias dominantes entre estudantes e professores.

Mas é claro que a organização social e econômica do trabalho intelectual molda em parte a temática e os pressupostos da investigação e do debate, e não é possível que um tipo qualquer de organização – seja dos letrados chineses, seja a do clero medieval, seja a da moderna burocracia acadêmica – deixe a mente totalmente livre de entraves para enxergar a verdade tal e qual. Por isso é da mais alta conveniência que, numa mesma época, coexistam várias modalidades de esforço intelectual, somando, por exemplo, ao trabalho coletivo das academias as contribuições de free lancers e outsiders. Afastar ou menosprezar estes últimos trará a consagração da organização acadêmica como o único canal permitido de atividade intelectual – e, quanto mais homogênea a classe pensante, mais hão de proliferar nela os erros consagrados em dogmas.

Por isso mesmo jamais me atraiu a profissão universitária, inadequada a uma vocação pessoal demasiado sui generis. O primeiro assunto que me interessou nesta vida foram as religiões comparadas, das quais não havia curso universitário no Brasil e ainda são anêmicos entre nós. Foi a necessidade de esclarecer certos problemas de teologia mística – islâmica, para tornar a coisa ainda mais exótica – que me levou aos estudos filosóficos; e a busca de uma precisa diferenciação entre o discurso da mística, o da poesia, o da filosofia, etc. foi que me pôs na pista da “teoria dos quatro discursos” (Aristóteles em Nova Perspectiva, Rio, Topbooks, 1997), a qual, se tem algum valor filosófico independente, não é para mim senão etapa de um percurso que começa e termina na vida interior. Como poderia eu adequar esse trajeto às exigências de programas e chefetes, é coisa que escapa à minha imaginação.

Tão alheias são essas questões ao nosso mundinho universitário que ninguém, absolutamente ninguém na universidade brasileira, se deu o trabalho de discutir minhas teses, e, se alguém aí quis dizer algo a respeito, foi para dar o show de inépcia daquele parecerista da SBPC que escrevia “inverossímel”, com “e”, e confundia Santo Alberto Magno com São Gregório Magno. Várias vezes observei que todo o nosso primeiro escalão acadêmico reunido não teria força para empreender uma discussão séria do meu livrinho – e ao dizer isso não estava sendo nada hiperbólico, mas fazendo uma descrição precisa de um estado de coisas alarmante.

Para complicar, a teoria dos discursos incluía estudos de argumentação e persuasão, que depois apliquei ao exame de mil e um debates da atualidade, em artigos de imprensa cuja ligação íntima com um trabalho filosófico nem todos os leitores perceberam, ainda que eu a declarasse no prólogo a Como Vencer um Debate Sem Precisar Ter Razão (Topbooks, 1998). E jamais a burrice acadêmica se desmascarou tanto quanto nas suas reações a esses artigos. Quando um posudo acadêmico, apanhado em flagrante delito de vigarice intelectual, reage com insultos ou insinuaçõezinhas, sem sequer se dar conta de que não foi vítima senão da aplicação rigorosa de distinções lógicas que ele teria a obrigação de conhecer e praticar, isso só denuncia, mais enfaticamente ainda, a situação calamitosa de um ensino universitário no qual faltam menos verbas do que quem as mereça.

Nessas condições, a entrada em cena de um trabalhador intelectual autônomo, simpático ou antipático não vem ao caso, mas capaz de renovar uma certa ordem de estudos longamente abandonada neste país, deveria ter sido saudada como uma ajuda providencial, o que não se deu porque a nossa casta universitária não tem, para tanto, nem o necessário amor ao conhecimento, nem suficiente desapego a vaidades corporativas.

Mas não é só com os de fora que o meio acadêmico tem má vontade. Quando se vê, de um lado, a indolência com que esse círculo adiou até agora um exame do pensamento urgente e revigorante do professor Roberto Mangabeira Unger, e, de outro, o entusiasmo indecente com que estudantes açulados por professores da UFRJ se apressam em agredir com gritos e pancadas um reitor que não veio ao seu gosto – então se percebe a miséria de uma casta tão empenhada em fugir do seu dever quanto em mandar no que não é da sua alçada.

É a essa gente arrogante e burra, a essa ralé togada que vamos entregar o futuro da inteligência no Brasil?

O dinossauro de Dakota e a fábrica de pobres brasileira – por alceu sperança / cascavel.pr

Em Dakota do Norte (EUA) os cientistas encontraram um dinossauro morto há 67 milhões de anos, dia mais, dia menos. Pela primeira vez o exemplar (um hadrossauro) estava preservado, não apenas com os ossos, mas também com tecidos e pele. Não é preciso, portanto, imaginar como ele era quando viveu.

No mundo de hoje, autoritários se apresentam ou se deixam confundir com “democratas” (os latifundiários criadores de milícias do PMDB, por exemplo) ou de “esquerda” (os luliberais entreguistas que governam o Brasil).

Como em raríssimas ocasiões no mundo há ou já houve democracia (no Brasil, jamais!) e muito menos algo que se tivesse certeza de que fosse mesmo “esquerda”, a mentira campeia solta. As pessoas são enganadas pela alternância entre neoliberais que se fingem democratas/social-democratas e neoliberais que se travestem de trabalhistas/socialistas.

Com a guinada do presidente Luma ao populismo personalista, a consolidação da aliança governista PT-PMDB, que ao lado do PSDB e com o suicídio do DEM tendem a ser as três correntes burguesas com maiores perspectivas de compartilhar o poder a serviço de bancos, ruralistas e transnacionais, não resta muito a fazer a não ser formar desde logo uma Frente Anticapitalista e pôr as cartas na mesa.

Com um Arruda do Bem, sem o Arruda do DEM, com o dedicado Ivan Pinheiro, com alguém que não tenha tolas ambições eleitoreiras, seria a hora de ter uma candidatura de esquerda, pois esquerda não é conciliação com o capital, mas luta contra ele. A esquerda, não os cúmplices e vassalos dos neoliberais – precisa ter uma candidatura para debater a duríssima realidade brasileira, que é uma fábrica de pobres subordinada à matriz central da dominação planetária.

Detesto a ideia de participar da eleição burguesa, pois ela nunca resolve os problemas do povo. Mas se a gente não apresentar a esquerda com pele e osso, as pessoas vão continuar achando que o dinossauro que aí está – a “democracia” dos peemedebistas criadores de milícia e a “esquerda” luliberal – correspondem à mentira de que são democratas ou de esquerda.

Se for possível uma aliança, de preferência com outros partidos que também se pretendem de esquerda, ótimo. Do contrário, o PCB precisa fazer uma campanha-movimento, apresentando um programa revolucionário para a sociedade.

Se a gente não mostrar o que é a esquerda, ou seja, a corrente mundial que deriva das idéias de Marx, as pessoas vão continuar achando que “democrata” é um ex-pefelista e “esquerda” é um antro de mensaleiros.

Rumo à candidatura anticapitalista, portanto!

“CARTA MAIOR” DIZ QUE:

As placas tectônicas da disputa presidencial moveram-se no Brasil neste final de fevereiro e um abalo sísmico mais forte que o do Chile atingiu a jugular da coalizão demotucana: Serra tornou-se o candidato mais rejeitado entre todos os presidenciáveis; em menos de 60 dias, sua vantagem sobre Dilma despencou de 14 pontos para apenas 4 pontos; entre o Datafolha de dezembro e o deste final de fevereiro, tucano perdeu cinco pontos; Dilma avançou cinco; uma fatia do eleitorado equivalente a 10 pontos mudou de lado na disputa e a reacomodação não favoreceu o conservadorismo nativo; temporada de inundações em SP lavou o verniz midiático que pintava Serra como estadista aos olhos da classe média; enxurrada revelou um político manhoso, tingido com o papel crepon de bom gestor, à frente de uma administração inepta, imprevidente e manipuladora. Quando o cristal se quebra sob o peso da decepção, fica difícil reverter o plano inclinado dos apoios tradicionais. O ‘estado de catástrofe’ está em curso no interior da coalizão demotucana.Difícil será conter as rachaduras…

(Carta Maior com informações Datafolha; 28-02)

IDEOLOGIA e IDIOPATIA por alceu sperança / cascavel.pr

O ex-deputado estadual Edgar Bueno (PDT), hoje novamente prefeito de Cascavel, teve toda a razão em dizer, como disse com vigor na Assembleia Legislativa, que abriu estrada e escola para sem-terra.

Fez muito bem: agiu como agem todos os que cumprem com suas obrigações. Quando ele assumiu, recebeu mais um pedido dentre tantos querendo empregos, cargos, mordomias e as contas pagas: “Pense nos que sofrem”, pedi. Ele, de fato, pensou.

Mas a certa altura do mandato o parlamentar disse acreditar que o pessoal da Via Campesina, em sua luta contra os transgênicos da suíça Syngenta, agia por “ideologia”. Na verdade, é o contrário: são as transnacionais invadindo o Brasil e ameaçando nossas riquezas naturais que agem por ideologia.

A ideologia, hoje, é ardilosa: é um monstro, mas se maquia, mente, seduz. Sua filosofia é o fim da história: “Não adianta você lutar, pois nós já vencemos”. Sua opção preferencial é pela guerra: “Vai lá e atira no teu irmão”. Sua lei é: “Para a estabilidade dos ricos é preciso a instabilidade dos trabalhadores”. Sua religião é o lucro. Seus templos são os bancos. Essa ideologia é o capitalismo em sua etapa superior e atual – o neoliberalismo.

Uma ideologia fracassada, posta de joelhos pela crise das bolhas, mas ainda arrogante e poderosa o suficiente para resistir, mesmo com o mundo se incendiando com protestos na Grécia, em Cuba, na Rússia, na Alemanha. Aliás, onde houver um só ser humano com sangue nas veias, incapaz de suportar mais tanta conversa fiada para sustentar uma formação política, econômica e social amplamente vencida pela própria incompetência em resolver problemas.

Não se trata de uma ideologia idiopática, como dizem os médicos sobre as doenças desconhecidas. É uma doença bem conhecida. São conhecidos seus agentes patogênicos, há um amplo histórico de males, febres, tumores e cancros que ela provoca.

Na face superaquecida do mundo, ela ataca a natureza e os recursos naturais. Aproveita-se da doença para enriquecer as transnacionais do remédio. Financeiriza tudo, gerando a neoescravidão do cartão – o tal “sinal da besta”, o famoso número-senha das tradições religiosas.

Põe a máquina no lugar do homem não para que o homem viva melhor, mas pior. Desemprega na mesma medida em que a tecnologia evolui. Não assiste, antes desespera, aos deslocados de seus postos de trabalho.

Precariza tudo. Instabiliza tudo, a não ser seus ganhos, que disparam, e a exploração, que gera novas modalidades de escravidão. E quando os povos reagem, são acusados de agir “ideologicamente”! Mas a única ideologia que existe é essa aí – o capitalismo.

Por que o PIB do Brasil não pode crescer 7% ao ano, como seria desejável? Porque essa ideologia não deixa. Por que o superávit primário, tentativa de retorno CPMF etc? Para pagar aos banqueiros, sacerdotes máximos dessa ideologia, os juros das dívidas astronômicas, que nós não fizemos.

Por que o Ibama multa e as madeireiras continuam extraindo madeira da Amazônia? Por que as queimadas? Por que a explosão de violência? Por que o trânsito caótico? Pergunte à ideologia. Como não ela não é idiopática, suas origens e malefícios são bem conhecidos.

Claro, idiopatia também quer dizer simpatia por alguma coisa. Só por uma insensata simpatia a essa ideologia pode-se explicar porque ninguém estranha quando fazendeiros matam índios e posseiros, mas é um escarcéu quando um índio resolve pegar num tacape em São Miguel do Iguaçu ou um sem-terra dispara um estilingue no Pará.

Ao contrário de idiopatizar com essa ideologia, é preciso reagir a ela de todas as formas, dizendo que estabilizar o trabalho é mais importante que estabilizar os lucros. Que a função da terra é social. Que o governo é do povo e não das transnacionais e das grandes empresas, dos grandes negociantes locais e estrangeiros. Que sem direitos humanos não há humanidade. Que irmão não deve atirar contra irmão, nem sócio contra sócio, nem trabalhador-segurança em trabalhador-agricultor.

Vida de gado-cidadão – por alceu sperança / cascavel.pr

Já se sabia que há gente encurralando – no sentido de meter em curral –, a população de bairros inteiros. São dirigentes de associações de moradores desavergonhados, que transformam as entidades de bairros e distritos em correias de transmissão de partidos políticos, seitas religiosas ou quadrilhas de bandidos.

O que já se sabia, mas um resto de pudor ainda os continha, é que alguns deles, além de encurralar a população, vendem o gado: afirmam que vão faturar um bom dinheiro entregando o bairro a quem pagar mais.

Não bastando transformar o cidadão em rês para dar leite ou virar bife, levam-no a um leilão de feira onde se bate o martelo em favor de quem, partido ou candidato, der o melhor lance.

A Prefeitura de Cascavel fez a grande bobagem da temporada ao criar um esquisitíssimo “Conselho Comunitário das Associações de Moradores de Cascavel”, aproveitando que as pessoas estavam distraídas com o Natal.

Na prática, é o seguinte: o Município criou para si próprio, e sob seu controle, um substituto da União Cascavelense das Associações de Moradores (Ucam). Uma espécie de “estatização” da Ucam, uma entidade de direito privado.

A Prefeitura, através do Conselhão, monitora até as eleições para as diretorias das associações de bairros que o Município escolher para fazer parte da coisa. Stálin não teria feito pior.

Não se compra mais dirigente de associação de bairro: toma-se algum apaniguado e elege-se o peão para cumprir esse mistér, seu Míster!

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Para o governo, o cidadão é um contribuinte. Para o político, um eleitor. Para a polícia, um suspeito. Para o religioso, um fiel. Para o clube, um torcedor. Para os bandidos, um otário. E para certa casta de dirigentes de bairro, é simplesmente gado marcado, povo feliz.

Nossa colega Ederlize Reis, em admirável comentário no jornal Hoje, de Cascavel, viu que para a estrutura de poder reinante nós não passamos de números – os das estatísticas, das senhas, o valor que temos no banco etc.

Na canção The Prisoner (Iron Maiden), o carcereiro preenche um formulário e atribui números aos presos. Um deles se rebela: “Eu não sou um número. Sou um homem livre!” Em resposta, ouve uma estridente gargalhada.

É certamente essa mesma gargalhada que devem dar aqueles que avaliam o gado-cidadão dos currais-bairros nos leilões da compra e venda de votos.

Ignorando a verdadeira origem de seus problemas – um sistema injusto que a todos oprime –, o cidadão-rês aceita ser gado. Participa do leilão espontaneamente, marchando feliz ao matadouro da urna eletrônica.

Para gado marcado, data do abate marcada no calendário eleitoral.

PENA DE MORTE por hamilton alves / florianópolis

Volta e meia, vem à baila a questão momentosa da aplicação da pena de morte, uma das formas, a mais severa de todas, de aplacar os crimes hediondos que hoje se tornaram rotina em nossa outrora pacata cidade.

Nesta semana, duas pessoas inocentes (uma delas ainda bastante jovem, mãe de uma menina), quando ia para o trabalho, no terminal de ônibus de Canasvieiras, por uma bala disparada por um bandido contra um desafeto, talvez pelo motivo torpe de contrabando de droga, por disputa de ponto ou por um desses motivos futilíssimos, veio a alcançar essa jovem senhora, matando-a ali mesmo.

Em outro ponto da cidade, de novo, uma bala perdida atingiu uma pessoa, pelo mesmo ou motivo semelhante, envolvendo certamente tráfico de droga, disparo de um bandido contra outro traficante ou usuário de droga. Sempre a droga tem sido o fator gerador de tais crimes, com perda de vidas preciosas, de pessoas que ainda vivem a fase da mocidade.

O quadro de criminalidade não se resume a esses dois episódios. Uma médica faz algum tempo sofreu na Trindade assalto de um bandido, reagiu, pelo que o assaltante disparou-lhe um tiro, ferindo-a mortalmente.

Outro caso foi de um crime de morte num local próximo ao centro, na Agronômica, em que o caso envolvido foi também tráfico de droga.

Pergunta-se: a polícia resolveu todos esses casos? Fez o inquérito que lhe cabia, foi levado à consideração do juizado, foi formalizada a autoria, dando à sociedade o sentimento de que tais bandidos serão punidos com todo o rigor da lei?

Fica-se sem saber que rumos tomaram as providências policiais. O máximo de que se fica informado foi do crime. De mais nada.

Todo o dia se tem uma nova notícia na imprensa de homicídio por uma ou outra causa.

Os bandidos contam com a impunidade ou com o despreparo notório da polícia em levantar dados que levem ao culpado.

E o que faz o poder público, a Secretária de Segurança, o governador do Estado, informados desse estado geral de insegurança e da notória e preocupante incidência na prática de crimes violentos e cruéis?

Nada se sabe a tal respeito.

Para o combate a esse tipo de crime, homicídios qualificados ou não, que envolve principalmente a futilidade ou a hediondez do motivo, o deputado Benjamin Farah, há um tempo, no Congresso Nacional, batia-se pela adoção da pena de morte. Era a única voz que se erguia, naquela casa, pela introdução dessa medida em nossa lei penal.

O deputado está morto, mas sua ideia de vez em quando é levantada para combate mais rigoroso a esse tipo de criminalidade, tendo como vítimas na maioria das vezes pessoas inocentes.

Até quando se assistirá à passividade do poder público?

(fev/10)

Inteligência brutal – por alceu sperança / cascavel.pr

Graciliano Ramos (1892–1953) achava que se o capitalista fosse apenas um bruto, ou seja, apenas burro e grosseiro, até seria tolerável. “Aflige-me”, escreveu o Velho Graça, em Memórias do Cárcere, “é perceber nele uma inteligência safada que aluga outras inteligências canalhas”.

Pois o capitalismo, hoje em sua fase superior, neoliberal, está mostrando ser tão bruto, além de violento e malandro, que seguramente nem o grande e generoso escritor brasileiro conseguiria tolerá-lo.

Afora seguir alugando inteligências canalhas, através da ideologia vai impondo suas novas regras de ouro:

1) “Teu irmão é teu inimigo, vai lá e atira nele”;

2) “Para haver a estabilidade econômica dos ricos, é preciso haver a instabilidade dos que trabalham”.

E como irmãos têm atirado em irmãos! E como estão instabilizando a vida de quem trabalha! Todos os dias, nas cidades e nos campos, há tiroteios fratricidas, alimentados pelas inteligências canalhas de que falava Graciliano.

Todos os dias, os parlamentos de vários países, a mando dos patrões que os manipulam desde Londres e Nova Iorque, aprovam “reformas” restringindo direitos humanos. Liquidam o emprego estável. Cassam, limitam ou reduzem aposentadorias que garantiriam a sobrevivência do idoso ou incapacitado para o trabalho.

Parque Nacional

Sonegam, dificultam e corrompem a assistência médica. O ensino se universaliza na mesma medida em que também se precariza. Não creio haver muitas brutalidades e canalhices maiores que essas. Talvez só os espancamentos das mulheres no Zaire, como avisa a professora Rosana Nazzari.

Dezenas de jovens morrem tragicamente em duelos ferozes nas periferias das médias e grandes cidades, sob a indiferença geral. Mas quando morrem dois em um atrito irresponsavelmente provocado para defender uma transnacional, como ocorreu na Syngenta, em Santa Tereza do Oeste, é o fim do mundo.

Não faz a menor diferença nossos jovens se trucidarem, mas ai de nós se a transnacional ficar de mal com a gente! Não importa que o emprego se torne instável e o estresse inunde as famílias, transformadas em neoescravas de bancos, tributos, taxas etc. Mas que ninguém ouse questionar as experimentações duvidosas de uma transnacional na beira do Parque Nacional do Iguaçu.

O Parque é mil vezes fechado ao trânsito dos colonos, tratados a porrete e bordoadas, mas pode ser invadido pela suspeita porcaria transgênica, sobre a qual não se tem a menor idéia de como agirá no ecossistema e no organismo humano.

Felizmente, a própria Syngenta teve mais juízo que os “ruralistas” responsáveis pelos crimes − dois jovens mortos, um sem-terra e um “segurança” de ruralista − e transferiu a área ao desenvolvimento da agricultura orgânica familiar.

A flexi

O cidadão, aqui, nos EUA, na Europa, tem plena liberdade para se deixar escravizar. Suprimem-se os seus direitos, perde o emprego, tenta sobreviver com negócios cada vez mais ilegais e vai para a cadeia. Há gente comemorando que nos EUA cerca de 2% da população já esteja na cadeia e lamentando que menos de 1% estejam presos no Brasil.

Isso também é falso, pois aqui há milhões presos nos grilhões da neoescravidão, condenados à doença física e mental, à insatisfação de uma vida que não pode ser plenamente vivida, à angústia de tudo ser caro e difícil, o rancor e o medo disseminados de propósito na classe média.

“Su” da temporada na Europa, vem aí, em sua plenitude, por entre a guarda aberta do esquema traidor luliberal, a flexiinsegurança. Alvo: arrasar os sindicatos e flexibilizar as relações laborais sem compensação para quem perde emprego e renda.

A consequência é o desespero, a doença, a insegurança. O mundo do trabalho está sob ataque. Um ataque comandado por inteligências brutas e canalhas, a gente finíssima lá do hemisfério Norte que aluga as daqui.

A GRIPE SUÍNA e ZÉ SERRA, o presidenciável

o governador de são paulo, zé serra, que foi ministro da saúde do fhc, o culto, que privatizou as empresas brasileiras, assim se expressou sobre a gripe suína, assunto que domina sobremaneira:

UM clique no centro do vídeo:

O cuco avisou, mas ninguém ligou – por alceu sperança / cascavel.pr

A vitória da extrema-direita nas eleições parlamentares da Suíça, em 2007, deu um murro na cara dos “socialistas” luliberais. Eles tentam fazer crer que suas artimanhas têm algo a ver com socialismo ou sua perspectiva, mas o governo brasileiro, definitivamente, é um anestésico ideológico para o povo. Nessa condição, serve unicamente aos ricos, especialmente os mais ricos – os banqueiros e as grandes corporações.

Por que a extrema-direita venceu as eleições na Suíça, país que, diferentemente do Brasil, não tem graves problemas estruturais, o desemprego é baixo, a economia cresce e as cidades estão seguras? Porque o mundo está submetido a um esquema em que disseminar o medo favorece à ânsia de violência da  direita.

“Estás com medo? Eu vou lá, desço o porrete nos negrinhos, nos muçulmanos, nos diferentes e nos outros pobres e ficarás feliz!” Na Suíça foi assim: houve a vitória da criminalização dos moreninhos, prevalecendo a ideia desumana de que “teu irmão é teu inimigo”.

Tomara o desastre dos fajutos “socialistas” suíços servisse de inspiração para as pessoas sinceras, mas iludidas, que ainda apóiam a traição cutista-lulista.

Só assim poderiam iniciar um processo de revigoramento da luta, a partir de um Enclat, pois a grande maioria recebe salários aviltados, outros sofrem com o desemprego ou sua perspectiva e muitos trabalham em evidente regime de escravidão.

No mundo de hoje, a ideologia impõe a tese de que só há um caminho possível: o de que a estabilidade da economia depende da instabilidade de quem trabalha.

O caminho em que os aplausos do tal “Mercado” ao governo lulo-amantegado afirmam a sustentabilidade da macroeconomia fundada sobre a vulnerabilidade crescente dos cidadãos em caso de acidente, doença ou desemprego. E o medo acompanhando tudo isso.

O mundo do trabalho está sob ataque. Há uma evidente manobra do “sistema” para submeter as pessoas a um novo tipo de escravidão, que é a submissão consentida.

Faz parte dessa nova escravidão liquidar os sindicatos e os partidos políticos, para que se digam diferentes e tenham as mesma práticas. Que diferença real existe entre o PMDB e o DEM? No poder, fazem as mesmas coisas. Quem consegue acreditar que Blairo Maggi e o megaatacadista João Lista-Negra Destro são “socialistas populares”?

Cabe transcrever um depoimento do sindicalista Hilmar Adams, do setor de transportes:

“Urge acabar com o atendimento deficitário no INSS na hora do encaminhamento do pedido da aposentadoria ou da pensão. É necessário alterar a estrutura das juntas de recursos do INSS em todo o Brasil, pois seus representantes são responsáveis por ações contra a cidadania, que envergonham a nacionalidade”.

Seria infantil acreditar que os burocratas da Previdência não estejam agindo de acordo com as ordens recebidas dos governantes locais, manipulados pelo comando neoliberal planetário. Uma diretriz que provoca o desmantelamento das estruturas “socialistas” europeias e a vitória da direita com apoio não em ideias, mas no medo.

Para transformar o mundo inteiro num globo amedrontado, vão lançar mão de todos os mecanismos que o dinheiro pode assegurar, da Internet à compra do dirigente de bairro, passando por igrejas e clubes.

O medo será explorado ao máximo, para que a tese “teu irmão é teu inimigo” prevaleça. Com isso, pretendem instituir um governo ditatorial eleito pelo voto. O sonho irrealizado da velha e suicida Arena.

PODE EXISTIR SOCIALISMO CRISTÃO? – por dom aloísio roque oppermann scj / uberaba.mg

Recebo uma revista católica, que leio religiosamente. Destina-se aos Jovens. É escrita por uma equipe de pessoas de bom nível intelectual e didático. Mas lá no fundo, a linha de pensamento me deixa preocupado. Entre outras coisas, mensalmente sai um artigo que louva certas revoluções, de viés claramente esquerdizantes. É um estímulo aos jovens, para canalizar suas energias, de modo bem suave, para o socialismo. A mesma impressão me causa o Stedile, com seus sequazes nem sempre de origem rural. Novas terras para cultivar, é o que menos interessa. O que se busca é uma nova ordem social, evidentemente socialista. (Ou seria anarquista?) Em todas as latitudes, em qualquer ramo, sempre que se apresenta um corifeu do socialismo, ele se auto-reveste das características simpáticas de moderno, avançado, restaurador da justiça, criador da abundância para todos, enfim, da prosperidade agora ao alcance da mão.

Felizmente, já temos no mundo uma vasta experiência socialista, de duzentos anos, que se instalou em vários países, e deixou rastos de sangue e de atraso. Assim conhecemos sua face. Vejamos as características de tal linha econômico-política. Ela é invencivelmente de alma atéia. E como não consegue convencer a população, via raciocínio, então lança mão do cerceamento da liberdade.  Esvazia tudo o que é de ordem particular, para destinar todos os bens para a administração da sociedade. Como, no seu entender, a livre iniciativa só visa o lucro pessoal e o egoísmo, então o Estado é que deve planejar a produção e a distribuição dos bens. Cabe-lhe ditar regras para a imprensa, selecionar a linha ideológica da escola, e impor a revolução violenta, para implantar o regime dos miseráveis. Para o triunfo do socialismo, a via democrática se mostrou um caminho inviável. Só a coação, para eles, é que resolve. É claro que existem vários tipos de socialismo, mas suas semelhanças são enormes. Com essa descrição também não posso aprovar o capitalismo grosseiro. Mas este admite reformulações, deixa espaço para os partidos de tônica social, e aceita (às vezes constrangido), em aperfeiçoar-se pela Doutrina Social da Igreja. Gente, vamos encurtar caminhos: a via socialista, definitivamente, não é solução. Quem é socialista propõe uma via, comprovadamente retrógrada.

Dom Aloísio Roque Oppermann scj – Arcebispo de Uberaba, MG

O medo da mídia golpista: uma gritaria para manter o monopólio – por mario augusto jakobskind / são paulo

Os leitores possivelmente estão acompanhando a gritaria dos grandes veículos de comunicação relacionada com uma suposta ameaça de censura ou algo do gênero. Na verdade, atrás disso esconde-se uma estratégia destinada a enganar a opinião pública e dessa forma evitar avanços na área da mídia, cuja regulamentação está totalmente defasada e precisa ser atualizada.

Ou seja, no fundo os barões da mídia presentes principalmente em O Estado de S. Paulo, O Globo eFolha de S.Paulo, TV Globo, Record, etc. querem apenas defender privilégios e em nome disso misturam o conceito de liberdade de imprensa com o de liberdade de empresa.

Quando da realização no mês passado da 1ª Conferência Nacional de Comunicação (Confecom), quase diariamente os jornais e televisões se dedicaram ao muro de lamentações midiático de entidades que exatamente se recusaram a debater questões de interesse de toda a população.

Aí a Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert), capitaneada pelas Organizações Globo, juntamente com a Associação Nacional dos Jornais, não pararam de acusar a Confecom infundadamente, ou seja, com mentiras deslavadas sempre tendo como norte a suposta ameaça à liberdade de imprensa e de expressão.

E isso quando ocorria exatamente ao contrário, isto é, os participantes da Confecom — representantes de movimentos sociais, do governo e setores empresariais não vinculados ao esquema Abert/ ANJ — aprovavam 655 propostas a serem encaminhadas ao Congresso para debate e aprovação ou não. A Abert e a ANJ simplesmente recusaram-se a participar da Conferência, exatamente porque se negavam a debater, o que é uma contradição total para quem se diz democrata.

Os jornalões, os mesmos que apoiaram o golpe de 64, como O Globo, Estado de S. Paulo e Folha de S.Paulo, dedicaram editoriais com premissas mentirosas e totalmente distorcidas, para criticar a Confecom e, como se não bastasse, logo em seguida o 3º Programa Nacional de Direitos Humanos. Bóris Casoy, que nos anos 60 militava no Comando de Caça aos Comunistas (CCC), e até Joelmir Beting entraram no jogo da manipulação com mentiras e no mais puro estilo de babar ódio.

Mais uma vez foi colocado em pauta o falso argumento das ameaças à liberdade de imprensa e de expressão. Eis, portanto, uma adjetivação que se repete em vários países das Américas e sob o patrocínio de ideólogos recomendados a consolidar mentiras até que virem absolutas verdades. Na Argentina, os papagaios de pirata não param de inventar histórias, que são repetidas pelos quatro cantos da América Latina.

Um item chamou muito a atenção de quem tenta analisar os fatos: a repetição da alegação de que a imprensa estaria ameaçada pelo projeto de direitos humanos. Uma mentira que não resiste à menor análise. Os barões da mídia vestiram a carapuça.

O projeto do 3º PNDH, na parte referente à mídia, apenas defende a regulamentação de um artigo da Constituição com a indicação no sentido de apontar punições para violações dos direitos humanos. Uma determinação, diga-se de passagem, que consta da Convenção de Direitos Humanos, o Pacto de São José, do qual o Brasil é signatário.

Portanto, nada propriamente de novo no front, apenas medidas preventivas no sentido de evitar que se utilizem as concessões públicas com o objetivo de desrespeitarem os direitos humanos, como ocorre em certos programas de TV que jorram sangue e têm média de grande audiência.

A mídia conservadora ligou todas as baterias para contestar o fato de se questionar a existência do monopólio na área de comunicação. Aí apareceu um parlamentar que se imaginava ter se regenerado pelo que fez no passado, tomando as dores dos big-shots do setor midiático, ao afirmar que “no Brasil não há monopólio”.

O parlamentar mencionado é Miro Teixeira, do PDT, que saiu em campo para negar a existência de monopólio dizendo que no país há concorrência no setor, etc. e tal. Consciente ou inconscientemente, o deputado que no passado ascendeu à política pelas mãos do então governador Chagas Freitas, exemplo concreto de fisiologismo e linha auxiliar da ditadura, fez o jogo favorável a um poderoso grupo midiático. Tem espaço garantido nos telejornais da TV Globo, o que é de grande serventia para os políticos em ano eleitoral.

Teixeira alguns meses atrás ganhou tremendo espaço na mídia conservadora ao defender com unhas e dentes a revogação da Lei da Imprensa, utilizando nesse sentido o argumento do gênero meia verdade, ou seja, que era necessário remover um entulho da ditadura. Certamente que foi importante a remoção, mas só que nada foi colocado no lugar e o direito de resposta ficou prejudicado.

Ou seja, se alguém agora se sentir prejudicado em algum comentário ou matéria e quiser responder vai penar. É o caso então de se perguntar: não seria justo remover de vez o entulho autoritário e deixar uma mínima regulamentação para evitar o hiato atual na questão do direito de resposta? Por que então não se removeu apenas o entulho autoritário e se aprimorou uma lei de imprensa como existe em vários países democráticos?

Na questão do monopólio, na prática, Teixeira simplesmente limpou a barra das Organizações Globo, a mesma empresa que tem propriedade de rádio, televisão e jornal numa mesma área, o que caracteriza o monopólio. O parlamentar desconhece que o poder da Globo é tamanho que consegue marcar hora para o início de partida de futebol, usa o espaço eletrônico, seja no jornalismo ou na teledramaturgia, para defender poderosos interesses econômicos.

E tudo isso acontece na prática em detrimento de uma verdadeira democracia, não aquela defendida pelo patronato midiático conservador, que em tempos passados apoiou o golpe de Estado que derrubou o presidente constitucional João Goulart e lançou o país numa noite escura de desrespeito aos direitos humanos.

É sempre importante lembrar esse fato, porque para se conhecer melhor o presente é preciso também não esquecer fatos relevantes da história nacional. Até porque, nos momentos em que o país se esforça para consolidar a democracia e avançar nas transformações sociais necessárias neste século 21, a mídia conservadora volta ao esquema golpista muito parecido ao de 46 anos passados.

O PREÇO DA DESISTÊNCIA DO AÉCIO NEVES – por laerte braga / são paulo


A MALA DE SERRA, O PÓ DE AÉCIO E O “AVISO” DE ARRUDA




zé serra e o seu sorriso imbecil para seu ídolo o “EXTERMINADOR DO FUTURO”

O governador de São Paulo José Jânio Serra movimentou toda a sua equipe de propaganda, com dinheiro público evidente, convidou a senadora do DEM Kátia Abreu, envolvida em desvio de verbas para o fomento da agricultura em proveito próprio (sua campanha política) e rumou para Copenhague, onde num roteiro previamente traçado posou de autoridade, de especialista no assunto e encontrou-se com o governador da Califórnia Arnold Schwarzenegger .

Serra e o ator, conhecido pelo seu desempenho em O EXTERMINADOR DO FUTURO, afirmaram que a conferência de Copenhague “já é um sucesso”. Contrariam a opinião de milhões de pessoas em todo o mundo que já assinaram petição cobrando atitudes dos governantes das chamadas nações ricas e consideram Copenhague um mero embuste para ganhar tempo.

Serra é candidato a presidente do Brasil, está envolvido em grossa corrupção, chantagem (como autor e vítima), e o californiano administra um estado falido que tenta, desesperadamente, arranjar algum, em meio à crise, com o presidente Barack Obama.

A viagem de José Jânio Serra foi precedida de algumas “providências” para por fim à disputa pela indicação presidencial em seu partido, entre elas a de deixar uma recheada mala de dinheiro para a cobertura de sua presença em Copenhague na edição de terça-feira, dia 15, no JORNAL NACIONAL. O noticiário sobre a conferência deu maior destaque ao governador paulista (lógico, tudo pago) que ao encontro em si e a governantes de países como a China, a Rússia, etc, etc.

Uma das “providências” tomadas pelo governador paulista foi fechar o cerco ao governador de Minas Aécio Pirlimpimpim Neves, seu rival dentro da quadrilha PSDB na disputa pela indicação para 2010. A ofensiva começou com a nota plantada na coluna do jornalista Juca Kfoury (parceiro de Serra nos jogos do Palmeiras), relatando um fato e sugerindo que Aécio usa cocaína (já havia sugerido antes, quando o Mineirão cantou em coro em 2008: “Ô, Maradona, por que parou? Parou por quê? O Aecinho cheira mais do que você”).

O mineiro foi advertido que, se continuasse a peitar o paulista dentro do PSDB, outras notas e alguns escândalos viriam à tona, colocando-o em situação insustentável, motivo pelo qual deveria contentar-se com uma candidatura ao Senado. Aécio, que mora Rio e governa Minas, vai tentar e conseguir, lógico, exceto por um grande acidente de percurso, eleger-se senador.

Quando tudo parecia resolvido, Aécio afastado de cena, eis que surge o governador de Brasília, José Roberto Arruda, corrupto de carteirinha, parceiro de FHC no processo de privatizações, beneficiário de “contribuições” várias, todas devidamente agradecidas em oração, e que, até o fato, era o favorito para ser o vice do tucano paulista.

Arruda mandou um recado curto e grosso. Se a GLOBO e todo o esquema do grupo, VEJA, FOLHA e outros mais continuassem a bater duro iria abrir o bico, e aí não iria sobrar nem pena de tucano e nem terra grilada ou roubada de DEM.

Vai tudo para o espaço.

Sem poder torcer o pescoço de Arruda, até porque o governador de Brasília disse na última visita de Serra à capital que “copia as boas ações de Serra”, e Serra respondeu que “o que é bom é para ser copiado”, engoliu em seco, entrou em contato com o homem do “quem quer bom dia diga eu” e, ao invés de poder escolher a gravata do moço, o telespectador ganha uma banana. O noticiário sobre a roubalheira em Brasília vai para um cantinho qualquer, poucos segundos. Na edição de hoje do jornal O GLOBO, versão brasileira do THE GLOBE, já está nas páginas de dentro, do fundo. A idéia é ganhar tempo, é ganhar tempo e permitir que os “abóboras” que Bonner chama de Homer Simpson se esqueçam de Arruda e enxerguem em Serra um novo Arnold Schwarzenegger.

Mais ou menos como aquele negócio do cara gordo não andar com o cara magro para não parecer tão gordo, ou a feia com a bonita, para não parecer tão feia. No caso de Serra, questão de exterminar qualquer possibilidade de futuro para o Brasil caso venha a ser o próximo presidente.
A ida da senadora Kátia Abreu, com dinheiro público, para discutir proteção ambiental do planeta (imagine ela, ladra, latifundiária, escravagista) tem o objetivo de encontrar uma saída que permita torcer o pescoço de José Roberto Arruda, por fim à chantagem do governador de Brasília e seguir impávido financiado pelas grandes máfias brasileiras e internacionais, rumo ao Planalto.

Se, neste momento, deixou Aécio diante do dilema de enfrentar ou não a sua realidade, por outro lado, foi obrigado a engolir o veneno de José Roberto Arruda, pelo menos até achar uma saída.

Como ali, entre tucanos e DEM, vale tudo, o feio é perder, e a grande mídia está aí é para isso mesmo, ávida para faturar um extra, ainda mais no mês do Natal e para o reveillon, não foi tão difícil assim a Serra encontrar um ponto para atravessar essa ponte complicada nessa hora.

O mais caro dessa operação é mesmo a GLOBO. Na BANDEIRANTES o governador paulista está acostumado a chegar e dar berros com quem o desafia, demitir, colocar os donos de joelho no beija mão. FOLHA, VEJA, etc, não têm tanto problema assim, não são tão caras como a GLOBO e além do mais são paulistas, integram a máfia FIESP/DASLU.

A notícia que Aécio Pirlimpimpim tirou o time de campo começou a circular ontem, embora a assessoria do governador mineiro esteja procurando um jeito de dar o troco e tentar recuperar pelo menos o pé nesse jogo sórdido de tucanos e DEMocratas, tudo pela chave do cofre e o direito de transformar o BRASIL em BRAZIL.

O próximo passo de José Jânio Serra é promover um grande encontro dos chefes mafiosos tucanos e DEMocratas e apelar a Aécio para entender que não é nada pessoal, que tudo “são negócios”, para evitar que o mineiro faça corpo mole no segundo colégio eleitoral do País, Minas Gerais. Isso seria ruim, pode vir a ser desastroso para Serra.

Deve levar um bolo gigante para o encontro, e de dentro do bolo deve sair a miss qualquer coisa, ou o arcebispo de Mariana (que não admite que se fale de Aécio), e presentear o governador de Minas com a cobertura especial do dito bolo, um pó mágico que tanto pode levar a uma viagem para a vice-presidência, ou a promessas de galáxias nunca dantes vistas, nem mesmo pelo Hublle.

Vai depender de Aécio aceitar ficar de quatro ou não, isso depende do quanto, dinheiro e pó mágico; enfim, o Brasil está diante da ameaça de chantagistas travestidos de políticos; e nesse poleiro Serra é especialista. Tem prática nessa história de dossiê (o de Roseana Sarney, custou 250 milhões de dólares do BNDES para a GLOBO a fundo perdido), ou aquele às vésperas das eleições de 2006, quando a GLOBO ignorou o fato jornalístico principal, um acidente aéreo com um avião da companhia GOL e mais de cento e cinquenta mortos, para mostrar um dossiê fajuto contra Lula.

Serra extermina qualquer possibilidade de futuro para o Brasil e os brasileiros. Até pelo próprio nome. Chega a ser tamanho o seu mau caráter e a sua absoluta falta de princípios que não os que signifiquem ganhos, lucros, pior que FHC.

Semana passada morreu Jamil Haddad. Foi ministro da Saúde do governo Itamar Franco, responsável pela lei que criou os medicamentos genéricos e pela implantação do programa no Brasil. Sem qualquer vestígio de respeito pelo que quer que seja, exceto seus interesses, sem nenhuma dignidade, ou laivo de caráter positivo, José Serra apropriou-se da lei, do projeto, tudo com fins eleitorais. Pode existir um canalha igual na política brasileira hoje, existem muitos, mas nenhum maior que ele.

A decisão em 2010 vai ser entre permanecer BRASIL, ou virar BRAZIL. Obama pode até não ajudar o governador da Califórnia, mas vai jogar uma grana pesada para eleger Serra.

Laerte Braga é jornalista.

Mansões, prisões e infidelidades – por alceu sperança /cascavel.pr

“E lado a lado de meu irmão sem sapatos/ quis mudar o reino das moedas sujas./ Fui perseguido, mas a nossa luta continua” (Pablo Neruda)

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Nossas capitais e polos regionais são hoje cidades inchadas e poluídas, com elevado sofrimento psíquico, ínfima taxa de felicidade suave ou bruta, com grandes prisões e grandes mansões. Nota-se claramente o agigantar dos condomínios prisionais e a imponência dos condomínios habitacionais. A julgar por esse dado, são cidades tão boas para fazer negócios quanto para cometer crimes.

A uma enxurrada de negócios e riquezas rolando, corresponde uma catarata de crimes, do colarinho branco ao do pescoço sujo. E, como sempre, o apoio do governo aos ricos para lucrar ainda mais é inversamente proporcional à míngua das políticas sociais, que vão terrivelmente mal, mas são anunciadas como a glória, o paraíso na Terra.

Para fazer um relato ao governo francês a respeito de como as pessoas enriqueciam nos EUA e sobre sua realidade prisional, o francês Alexis de Tocqueville (1805–1859) foi aos EUA, em 1831. Ele próprio teve os pais aristocratas presos pelos revolucionários e o avô materno guilhotinado por essa “turma dos direitos humanos”, como dizem os fascistas. O que Tocqueville viu nos EUA daquela época eram partidos deixando de ser feudos de interesses locais para se tornar agremiações nacionais.

A corrida maluca do troca-troca partidário, antes da atual (e artificial) lei da fidelidade, foi assistida pela população com a pasmaceira de sempre, igualzinha àquela da proclamação da República ou da imposição das ditaduras. Em nome da fidelidade, um show de infidelidade.

Essa corrida revelou um quadro ainda anterior à América de 1831 estudada por Tocqueville. Os partidos são teoricamente nacionais, mas, para obter capilaridade, seus caciques nacionais repartem entre os grupos de interesses do interior cartelas de poder, na forma de comissões provisórias, para representar suas siglas nesses locais.

No entanto, aquele fazendeiro uderréico que comanda o PDT num grotão dá boas gargalhadas quando ouve falar que Brizola sonhava com o socialismo. Há peemedebistas nas frentes desbravadoras que, entre uma briga com um padre ou uma freira e uma expulsão de índios ou posseiros, colocam o programa do PMDB como escora da espingarda.

Vê-se tucano que detesta a social-democracia. Há “socialistas” que arrancam o couro dos empregados em suas empresas e fazendas. Há “democratas” que financiam grupos armados paramilitares para liquidar sem-terras. Usam e abusam das siglas apenas para fazer negócios. Elegem prefeitos, vereadores e deputados para fortalecer seus grupos na concorrência com outros.

Há localidades em que a disputa eleitoral não se dá entre dois partidos, pois nesse caso as siglas não têm a menor importância, mas entre dois ou três grandes negociantes concorrentes.

Não é de estranhar que muitas prefeituras sejam apenas uma extensão da empresa do prefeito, nem que ele considere os vereadores seus assalariados, no máximo jogadores de um time de futebol aos quais dá um “bicho” (ou mensalinho) pelas vitórias conseguidas frente a eventuais adversários.

O troca-troca partidário mostrou apenas “peões” mudando de empresa por melhores salários ou gerentes caídos em desgraça em seus grupos aderindo a antigos adversários. Nada mais que vendilhões de votos mudando de lado entre os grupos que a cada dois anos intercambiam peças: o pefelista vira pedetista, o trabalhista vira tucano, o “socialista” sem a menor idéia do que seja socialismo vira republicano, sem também saber o que é isso, e vai por aí.

Alguém poderia sonhar que em breve o espírito de Tocqueville nos possa visitar e os partidos deixem de ser essas quadrilhas ávidas por mansões e prisões. Quem acredita nessa ilusão que me atire o primeiro programa partidário rasgado e pisoteado.

O POETA MANOEL DE ANDRADE comenta sobre a extradição de militar torturador / curitiba

Publicado por Manoel de Andrade em janeiro 25, 2010 23:30 pm às 23:30 pm r r  edit

Passar a limpo tudo isso é só uma questão de tempo. Na história das lutas políticas e sociais, mais tarde ou mais cedo, sempre são revelados os nomes dos heróis e dos bandidos, das vítimas e dos algozes.
Este Major Cordeiro, acusado de tortura e desaparecimento de militantes de esquerda e do sequestro uma criança de 10 anos, em 1976, teve muita sorte de escapar dos tribunais revolucionários dos Montoneros e do ERP, na Argentina. Não foi esta a sorte de Dan Mitrione julgado e executado pelos Tupamaros em agosto de 1970, Uruguai.
Agente da CIA, o norte-americano Daniel Mitrione, na década de 70, operou na América Latina como “O Mestre da Tortura”. No Brasil deixou muitos discípulos com as “experiências práticas” de tortura usando mendigos e indigentes presos e ensinando nossos agentes da repressão a torturar sem deixar marcas.
Em 1969 foi para o Uruguai disfarçado de funcionário da Embaixada Americana e lá os Tupamaros encerraram a sua carreira “diplomática”

O torturador Juan Manuel Cordeiro teve uma carreira semelhante na ditadura mais sanguinária da América e está para a repressão argentina como Sergio Paranhos Fleury, Carlos Alberto Brilhante Ulstra, José Paulo Burnier e muitos outros, não tão “ilustres”, estão para a ditadura brasileira.

No Chile os torturadores de Pinochet já estão indo pra cadeia. O General Manuel Contreras, chefe da DINA, Policia Secreta da Ditadura Chilena. foi condenado, há um mês atrás, a três anos de prisão pelo sequestro qualificado do poeta Ariel Santibañez em novembro de 1974. Ariel, na época editor da prestigiosa Revista Tebaida, onde pontificam os grandes poetas da geração sessenta , era membro do Movimiento de Izquierda Revolcionaria (MIR) e foi torturado até a morte. Me regozijo com a justiça feita ao seu carrasco porque partilhávamos os mesmos sonhos e tive, com Ariel, belos momentos em Arica, em agosto de 1969 e durante muito tempo trocamos cartas ao longo de minha viagem pela América Latina.

A memória desses crimes no Brasil está sendo revelada, não ainda pelos arquivos oficiais, mas pela publicação em livros, entrevistas, etc., dos depoimento dos sobreviventes e herdeiros da dor dos mortos e desaparecidos.
Acabo de ler o livro “VIRGÍLIO GOMES DA SILVA – DE RETIRANTE A GUERRILHEIRO”, escrito pelos historiadores cariocas Edson Teixeira e Edileuza Pimenta e editado pela Fundação Perseu Abramo. Conta a história de um homem que deixa o sertão do RGN e vem pra SP, se politiza na luta sindical, entra para o Partido Comunista e depois para a Aliança Libertadora Nacional (ALN), comandada por Marighella e com o codinome de “Jonas” comandou, no Rio, em 04 de setembro de 1969, o sequestro do embaixador americano Charles Burke Elbrick, trocado por quinze presos políticos. Aprisionado uma semana depois em São Paulo, e resistindo ao interrogatório sem entregar os quadros da organização Virgílio foi cruelmente torturado até a morte na OBAN (Operação Bandeirantes) pela equipe do capitão Benone de Arruda Albernaz. Em nenhum momento se intimidou e mesmo morrendo cuspia na cara dos torturadores. Acredita-se que seja o caso mais cruel de tortura de um preso político durante a ditadura. A repressão mascarou e escondeu sua morte, dando-o como desaparecido (o primeiro desaparecido da ditadura) e somente em 2004 pela pesquisa datiloscópica é que se pode comprovar a tutela do Estado quando de sua morte.
Há uma parte do livro que diz o seguinte: “Um delegado do DOPS, doutor Orlando Rozande, contou, chorando, para o doutor Décio, o seguinte: ‘ — A cena que eu assisti, nunca assisti em canto nenhum, em todos esses anos de delegado: os olhos do Virgílio tinham saltado como dois ovos de galinha, o pênis dele estava no joelho, de tanto pisarem em cima dele. Eu nunca vi uma coisa tão bárbara como aquela”.

Os leitores interessados, que não tiverem acesso ao livro, poderão encontrar parte da história
de Virgílio, na página 104 do livro “DIREITO Á MEMÓRIA E Á VERDADE – Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos”, editado pela Secretaria Especial de Direitos Humanos.

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A MALDIÇÃO BRANCA – por eduardo galeano / uruguai

No primeiro dia deste ano, a liberdade completou dois séculos de vida no mundo. Ninguém se inteirou disso, ou quase ninguém.
O Haiti foi o primeiro país onde se aboliu a escravidão. Contudo, as enciclopédias mais conhecidas e quase todos os livros de escola atribuem à Inglaterra essa histórica honra. É verdade que certo dia o império que fora campeão mundial do tráfico negreiro mudou de idéia; mas a abolição britânica ocorreu em 1807, três anos depois da revolução haitiana, e resultou tão pouco convincente que em 1832 a Inglaterra teve de voltar a proibir a escravidão.

Nada tem de novo o menosprezo pelo Haiti. Há dois séculos, sofre desprezo e castigo. Thomas Jefferson, prócer da liberdade e dono de escravos, advertia que o Haiti dava o mau exemplo, e dizia que se deveria “confinar a peste nessa ilha”. Seu país o ouviu. Os Estados Unidos demoraram 60 anos para reconhecer diplomaticamente a mais livre das nações. Por outro lado, no Brasil chamava-se de haitianismo a desordem e a violência. Os donos dos braços negros se salvaram do haitianismo até 1888. Nesse ano o Brasil aboliu a escravidão. Foi o último país do mundo a fazê-lo.

O Haiti voltou a ser um país invisível, até a próxima carnificina. Enquanto esteve nas TVs e nas páginas dos jornais, no início deste ano, os meios de comunicação transmitiram confusão e violência e confirmaram que os haitianos nasceram para fazer bem o mal e para fazer mal o bem. Desde a revolução até hoje, o Haiti só foi capaz de oferecer tragédias. Era uma colônia próspera e feliz e agora é a nação mais pobre do hemisfério ocidental. As revoluções, concluíram alguns especialistas, levam ao abismo. E alguns disseram, e outros sugeriram, que a tendência haitiana ao fratricídio provém da selvagem herança da África. O mandato dos ancestrais. A maldição negra, que empurra para o crime e o caos.

Da maldição branca não se falou.

A Revolução Francesa havia eliminado a escravidão, mas Napoleão a ressuscitara:

– Qual foi o regime mais próspero para as colônias?

– O anterior.

– Pois, que seja restabelecido.

E, para substituir a escravidão no Haiti, enviou mais de 50 navios cheios de soldados. Os negros rebelados venceram a França e conquistaram a independência nacional e a libertação dos escravos.

Em 1804, herdaram uma terra arrasada pelas devastadoras plantações de cana-de-açúcar e um país queimado pela guerra feroz. E herdaram “a dívida francesa”. A França cobrou caro a humilhação imposta a Napoleão Bonaparte. Recém-nascido, o Haiti teve de se comprometer a pagar uma indenização gigantesca, pelo prejuízo causado ao se libertar. Essa expiação do pecado da liberdade lhe custou 150 milhões de francos-ouro. O novo país nasceu estrangulado por essa corda presa no pescoço: uma fortuna que atualmente equivaleria a US$ 21,7 bilhões ou a 44 orçamentos totais do Haiti atualmente. Muito mais de um século demorou para pagar a dívida, que os juros multiplicavam. Em 1938, por fim, houve e redenção final.

Nessa época, o Haiti já pertencia aos brancos dos Estados Unidos.

Nem Bolívar

Em troca dessa dinheirama, a França reconheceu oficialmente a nova nação. Nenhum outro país a reconheceu. O Haiti nasceu condenado à solidão. Tampouco Simon Bolívar a reconheceu, embora lhe devesse tudo. Barcos, armas e soldados lhe foram dados pelo Haiti em 1816, quando Bolívar chegou à ilha, derrotado, e pediu apoio e ajuda. O Haiti lhe deu tudo, com a única condição de que libertasse os escravos, uma idéia que até então não lhe havia ocorrido. Depois, o herói venceu sua guerra de independência e expressou sua gratidão enviando a Port-au-Prince uma espada de presente. Sobre reconhecimento, nem uma palavra.

Na realidade, as colônias espanholas que passaram a ser países independentes continuavam tendo escravos, embora algumas também tivessem leis que os proibia. Bolívar decretou a sua em 1821, mas, na realidade, não se deu por inteirada. Trinta anos depois, em 1851, a Colômbia aboliu a escravidão, e a Venezuela em 1854.

Em 1915, os fuzileiros navais desembarcaram no Haiti. Ficaram 19 anos. A primeira coisa que fizeram foi ocupar a alfândega e o escritório de arrecadação de impostos. O exército de ocupação reteve o salário do presidente haitiano até que este assinasse a liquidação do Banco da Nação, que se converteu em sucursal do City Bank de Nova York. O presidente e todos os demais negros tinham a entrada proibida nos hotéis, restaurantes e clubes exclusivos do poder estrangeiro. Os ocupantes não se atreveram a restabelecer a escravidão, mas impuseram o trabalho forçado para as obras públicas.

E mataram muito. Não foi fácil apagar os fogos da resistência. O chefe guerrilheiro Charlemagne Péralte, pregado em cruz contra uma porta, foi exibido, para escárnio, em praça pública.

A missão civilizadora terminou em 1934. Os ocupantes se retiraram deixando no país uma Guarda Nacional, fabricada por eles, para exterminar qualquer possível assomo de democracia. O mesmo fizeram na Nicarágua e na República Dominicana. Algum tempo depois, Duvalier foi o equivalente haitiano de Somoza e Trujillo.

E, assim, de ditadura em ditadura, de promessa em traição, foram somando-se as desventuras e os anos. Aristide, o cura rebelde, chegou à presidência em 1991. Durou poucos meses. O governo dos Estados Unidos ajudou a derrubá-lo, o levou, o submeteu a tratamento e, uma vez reciclado, o devolveu, nos braços dos fuzileiros navais, à Presidência. E novamente ajudou a derrubá-lo, neste ano de 2004, e outra vez houve matança. E de novo os fuzileiros, que sempre regressam, como a gripe.

Entretanto, os especialistas internacionais são muito mais devastadores do que as tropas invasoras. País submisso às ordens do Banco Mundial e do Fundo Monetário, o Haiti havia obedecido suas instruções sem pestanejar. Eles o pagaram negando-lhe o pão e o sal.

Náufragos anônimos

Teve seus créditos congelados, apesar de ter desmantelado o Estado e liquidado todas as tarifas alfandegárias e subsídios que protegiam a produção nacional. Os camponeses plantadores de arroz, que eram a maioria, se converteram em mendigos ou emigrantes em balsas. Muitos foram e continuam indo parar nas profundezas do Mar do Caribe, mas esses náufragos não são cubanos e raras vezes aparecem nos jornais.

Agora, o Haiti importa todo seu arroz dos Estados Unidos, onde os especialistas internacionais, que é um pessoal bastante distraído, se esquecem de proibir as tarifas alfandegárias e os subsídios que protegem a produção nacional.

Na fronteira onde termina a República Dominicana e começa o Haiti, há um cartaz que adverte: o mau passo.

Do outro lado está o inferno negro. Sangue e fome, miséria, pestes…

Nesse inferno tão temido, todos são escultores. Os haitianos têm o costume de recolher latas e ferro velho e, com antiga maestria, recortando e martelando, suas mãos criam maravilhas que são oferecidas nos mercados populares.

O Haiti é um país jogado no lixo, por eterno castigo à sua dignidade. Ali jaz, como se fosse sucata. Espera as mãos de sua gente.

Eduardo Galeano é escritor e jornalista uruguaio, autor de As Veias Abertas da América Latina e Memórias do Fogo.

A estupidez dos ditadores – por alceu sperança / cascavel.pr

O mais genial escritor brasileiro – mais uma briga, agora com os machadistas! – escreveu, dentre outros, um livro obrigatório: O Triste Fim de Policarpo Quaresma.

Conheço um pessoalzinho que odeia o livro por estar na lista de leituras que “caem” no Vestiba. Mas ler, quando não é obrigação, faz muito bem à alma.

Sem ter assistido a nenhum AtleTiba, dizia Lima Barreto, na revista Careta, em 1922:

“O football é uma escola de violência e brutalidade e não merece nenhuma proteção dos poderes públicos, a menos que estes nos queiram ensinar o assassinato”.

Toda vez que uma torcida organizada mata um, essas palavras ocupam minha memória.

Mas o livro por vezes indesejado de Lima Barreto conta a história de Quaresma, que confundia patriotismo com formalismo e acabou resvalando para o nacionalismo, que é de todos os ismos provavelmente o mais traiçoeiro.

Ele pregava a substituição do idioma Português pelo Tupi. Isto sim, seria patriotismo nacionalista!

O pobre Paraguai, quando venceu a ditadura (tem maluco a desejando de volta), humilhou os patriotas nacionalistas brasileiros instituindo o Guarani como seu segundo idioma.

Poderíamos fazer o mesmo e livrar a cara dessa vergonha. Mas já não tem jeito: liquidamos, com nosso patriotismo nacionalista, praticamente todos os índios, sua cultura e idiomas.

Estudar Guarani na escolinha do bairro tem mais a ver que o Francês, que me obrigaram a estudar em Foz do Iguaçu. Belchior: “Um tango argentino me vai bem melhor que o blues”.

O ditador Vargas, cujo desconfiômetro depois o levou a tentar a defesa do Brasil contra o imperialismo de Tio Sam, também tinha rompantes nacionalistas, que por um certo período o aproximaram dos galinhas-verdes integralistas.

Uma das burrices mais flagrantes do período nacional-galinhista de Vargas foi a mania de trocar os nomes dos lugares e transformá-los em indígenas.

Curitiba já nasceu assim, indígena e dedicada a Nossa Senhora da Luz, embora os coxas mais tradicionais preferissem a grafia antiga – Coritiba –, o que evitaria a maldade catarinense de dizer que “Tiba” significa “Do Mundo”.

Se o lugar se chama Cascavel, por exemplo, os esbirros da ditadura procurariam no glossário de padre Anchieta que palavra pode traduzir Cascavel melhor para o Tupi. Digamos, Boicininga.

A Sociedade Rural e seus ganaderos (ganhadores de dinheiro) iriam adorar!

Gaurama (RS), a terra do Rei da Soja, Odílio Balbinoti, e do nosso camarada de Voz do Estudante, Auri Rommel, é um caso digno de Gabriel García Márquez, algo como uns cem anos de maldição.

A história de Gaurama é uma das provas mais categóricas de como a ânsia de puxar o saco do ditador leva seus cupinchas a excessos ridículos.

O nome tradicional do lugar era Barro. Isso mesmo, aquele que se forma quando chove e, quando seca, vira poeira. Mas virou Barro porque o engenheiro que construiu a ferrovia tinha o sobrenome Barros.

Até aí a gente vai descontando. Perder um S, afinal, não é o fim do mundo. Mas aí veio a ditadura Vargas e a ordem para tupizar tudo o que viesse pela frente.

Que diabos fazer para traduzir Barro ao Tupi-Guarani? Dando tratos à bola, encontraram a palavra “Igau”, sendo o “I” a palavra indígena para “rio”.

Ora, mas não tem rio em Barro! Simples, tira o I, fica só o “Gau”. O que acontece quando você tira o rio? Fica a lama. Assim, “Gau” quer dizer lama e “Rama” quer dizer terra. Pronto: “Gaurama”, palavra perfeita para significar Barro. Batize-se!

A forçação de barra contra o Barro foi tão boçal que o padre Benjamin Busatto ridicularizou a besteira pela imprensa, mostrando que além de contrariar a raiz histórica, a “tradução” para o Tupi-Guarani era uma esputidez, como diria Guimarães Rosa, completa.

Mas, fazer o quê? Lá está a pequena Gaurama, com seus filhos ilustres e bons, fingindo que é índia.

O MENINO e a MENINA que causaram transtorno – por alceu sperança / cascavel.pr

Ponho aqui à frente duas notícias tiradas dos jornais com a missão de meditar sobre elas.

Uma encanta: narra o belo transtorno que a garota Mariana (mesmo nome de minha avó materna) aprontou com seus amigos nos transtornados e transtornantes arredores da praça da Bíblia, que deveria se chamar Luiz Picoli, ao exigir respeito ao meio ambiente.

A outra espanta: o menino Alisson, vulgo Pincel, mais ou menos na mesma idade da Mariana, causou um transtorno terrível ao aparecer sangrando, no bairro Aclimação, com quatro balaços no corpo, a tempo de dizer que foi atirado por um traficante cobrador da conta do crack.

Essas duas notícias provocam um transtorno cá na cabeça: o que, juntas, elas querem dizer? Separadas, é fácil.

A primeira diz que Mariana e seus amigos do Rotaract saíram às ruas para mobilizar a comunidade contra a tentativa de emparedar parte do fundo de vale do rio Cascavel com um shopping center.

Essa maravilhosa garota e seus maravilhosos amigos obrigam a um julgamento: apesar de tanta gente dizer que esta geração está perdida, ela é a mais maravilhosa de todos os tempos.

Nasceu num milênio e se realizará plenamente em outro. Viva a nossa bela juventude!

Mas aí tem a outra notícia. Pincel, um polaquinho como tantos desta cidade iniciada por eslavos, é um dos raros garotos assassinados por traficantes que pôde encontrar alguém e balbuciar o nome do atirador.

Mesmo magro e abatido, corroído pelo crack, ele conseguiu se arrastar e dedurar o responsável pelo trágico fim de sua existência. Um jovem matador, um jovem assassinado.

Essa coisa horrível, que nem comove mais ninguém no quadro de tanta violência urbana, uma ruidosa exaltação ao deus Capitalismo, também obriga a um julgamento: essa juventude está perdida, entregue à droga, fumando a vida numa pedra, coisas de final e início de século e milênio, certamente.

Mas como julgar as duas coisas ao mesmo tempo, numa síntese útil das duas notícias?

Bem, já fiz meus dois julgamentos. Agora deixo a batata quente em suas mãos!

O CARA É UM “BANANA” por alceu sperança / cascavel.pr

Ele fica soltando foguetes quando inaugura pela milésima vez a mesma obra e manda tirar fotos para o próprio álbum.

Lembra-se de quando foi feliz: na campanha eleitoral, quando “ganhou”. Orgulha-se de fazer de conta que faz alguma coisa.

Fez, pois não mandou fazer? Não gostou da cor. Claro, quem é o sobrinho da loja de tinta? Mandou pintar. Quem é o sócio da loja de ferragens? Mandou desferrar, e ferre-se quem não gostar.

Vereador? Deve ter algum… Talvez um ou outro. Votos vencidos, e, aliás, muito vencidos e meio quietos.

Ele mandou, ordenou raspar aqui ou ali, pintar o descascado. Está feito, publique-se.

Lança mão de todos os artifícios para dar publicidade não ao que fez, porque nada fez. Não ao que gastou, porque foi você quem gastou.

Ele dá publicidade a si mesmo. Não à obra ou a você, que gastou nela.

Esse é o prefeito, o governador, o presidente. Claro, o prefeito incompetente, o governador relapso, o presidente igualitário – igual aos anteriores.

Gente séria precisaria gastar dinheiro do povo à toa, para prover/promover a si mesmo?

Manter em operação, funcionamento, pagar servidor ou dar uma pinturinha numa obra deveria ser um dever tão óbvio quanto respirar.

Prefeito que inaugura “revitalização” deveria levar um puxão de orelhas dos próprios filhos. Como eles hoje ainda não podem puxar, puxemos nós.

Assim, quando um prefeito “revitalizar” alguma obra e inaugurar a revitalização, ou revitalizar a inauguração, diga aos filhos dele que merece um puxão de orelhas.

Eles puxarão. Um dia puxarão.

Ele que revitalize as orelhas puxadas.

É um banana. Um dia será descascado.

As bananas e os bananas anteriores foram todos descascados, não foram?

O grande sonho de 2010: ser pobre – por alceu sperança / cascavel.pr

O que há de mais sacana na ideologia é como os neoliberais pelo mundo afora (e os luliberais, aqui dentro), falseiam as coisas. Em seu discurso, a vilania é o bem supremo. A CPMF não era um confisco, mas um controle do dinheiro ilegal e uma arma de combate ao mal em benefício dos descamisados. O enriquecimento desmesurado dos banqueiros é “desenvolvimentismo” e vai por aí.

Há iludidos, mesmo entre os que se consideram “esquerda” e não leram uma linha de Marx, que caem nessa conversa esistematicamente apóiam Lula, Requião e outros bons de bico.

O movimento operário e popular está hoje acossado pela direita travestida de social-democrata, trabalhista, “verde”. Essa “esquerda” pornográfica se aproveita da precariedade e da fragilização dos vínculos laborais e das constantes mudanças de profissão a que as pessoas são forçadas.

O trabalhador especializado precisa esquecer tudo que aprendeu e começar uma nova profissão. Sem adquirir consciência de classe, é vítima desse modernismo trabalhista/cidadanista e sua política de conciliação entre capital e trabalho. É a tal da “Conciliação Tiradentes”: a harmonia entre a corda e o pescoço.

Ajudam muito essas manobras da ideologia as informalidades da pirataria e do tráfico. Não se respeita o vizinho, o outro. Importa é tirar vantagem de quem aparecer pela frente. Rompe-se a solidariedade. O respeito ao próximo é tido como fraqueza.

A generosidade é “otarice”. E quem trabalha, repentinamente cai na “flexinsegurança” – a tal da flexibilidade que “reabilita” o trabalho. Ou seja, que facilita demitir. Tudo em nome da modernidade – ou seja, reduzir os custos com gente ao mínimo possível. Gente incomoda. Essa é a nova faceta da ideologia desumana no século XXI.

Sem abrir os olhos para essas malandragens, continuaremos a ver lulistas e antilulistas fazendo piadinhas uns dos outros e trocando insultos, embora sejam rigorosamente iguais quanto às práticas: mensalões, enriquecimento de banqueiros, privatizações (as patifarias do processo da Vale estão mantidas), entrega da Amazônia etc.

O escritor José Saramago fez uma exortação aos cidadãos do mundo para que promovam a reinvenção da democracia. “Tudo se discute neste mundo, menos uma única coisa: a democracia. Ela está aí, como se fosse uma espécie de santa no altar, de quem já não se espera milagres (…) E não se repara que a democracia em que vivemos é uma democracia sequestrada, condicionada, amputada”.

Essa coisa aí não é democracia. Tem eleições, mas elege-se preferencialmente quem compra voto. Há liberdade de pensamento, mas os partidos não seguem princípios. Incham seus quadros com qualquer um. Intercambiam peças – o vereador tal hoje está num partido, amanhã está em seu aparente oposto.

Compram lideranças pobres de bairros com empregos públicos e privados. E custearam em 2008 campanhas locais em troca de apoio aos grupos que já fingiam disputar na época o Palácio Iguaçu. Grupos que, no poder, vão fazer a mesma coisa que Requião, Lerner ou Dias. Irmãos siameses, práticas similares.

Justamente porque há essa “democracia”, mais da metade da humanidade tem o sofrimento como a verdade “espiritual” e “democrática” de seu cotidiano. A única chance que vislumbram é esperar dos donos do mundo migalhas para municípios quebrados e uma bolsa-família para sair da miséria e, enfim, conseguir subir um degrau: virar pobres.

Mulher? Que mulher? – por alceu sperança / cascavel.pr

Morreu em novembro, em Cascavel, uma das mulheres mais interessantes que já conheci. Lydia Maria Postalli Luchesa, esposa de um homem extraordinário – Itasyr Luchesa – e mãe de um filho também brilhante – o líder cooperativista Cláudio Luchesa.

Pouquíssimos conheceram d. Lydia, mesmo vivendo na mesma cidade, porque as crônicas históricas só dão conta dos maridos.  Para figurar na história, a mulher, além de ralar muito, ainda tem que ser algo de extraordinário, como a visionária Joana d’Arc, mártir também como Santa Engrácia e Olga Benário Prestes, entregue aos nazistas grávida de uma brasileirinha.

Saiu disso, e daquelas intragáveis “celebridades” que pouco mais celebram o vazio, a mulher é invisível. Aquela pobre coitada que, diz a hipocrisia masculina prevalente, é a que está “por trás de um grande homem”.

Mas a professora Maria Elena Bernardes, no livro “Laura Brandão: a invisibilidade feminina na política”, liquida a questão por todos os ângulos ao narrar a trajetória da esposa do líder comunista Octávio Brandão.

Não se trata só de indiferença à mulher, mas de ignorância. As ditaduras jamais suportaram a existência de homens que fizessem o mesmo que a desafiadora Engrácia, nobre romana que aderiu à causa dos escravos, Olga ou Laura.

Sobre essa gente “baderneira” não se fala em jornal,m rádio e TV, a não ser para culpá-los de todos os pecados do mundo, como fazem hoje com o MST.

Escritora e jornalista, presa e espancada pela polícia da ditadura Vargas, sem jamais poder retornar ao Brasil, Laura Brandão morreu no exílio, durante a II Guerra. Seu corpo está enterrado no Cemitério dos Heróis, em Moscou.

A invisibilidade que Maria Elena evoca é a mesma que cerca tantas mulheres brasileiras, lutadoras, combativas, generosas, mas esquecidas. Lydia Luchesa foi uma dessas pessoas que sempre se desvelaram em cuidar da família, sem aparecer em manchetes e nas rinhas de galo da política “masculina”, por isso foi sempre o lado escuro da lua em sua comunidade.

Mas por que, afinal, Laura Brandão é a única brasileira sepultada no Cemitério dos Heróis, em Moscou?

Aqui, ela combatia a miséria, a injustiça, a falta de liberdade e pregava um Brasil realmente independente, cujas riquezas fossem utilizadas para redimir o povo da doença, da ignorância e da virtual escravidão em que a população trabalhadora se encontrava.

Quando não estava na porta da fábrica educando os operários para a revolução socialista, ela ensinava crianças, participava do movimento feminista e escrevia suas belas poesias, apreciadas por Olavo Bilac.

Isso era inaceitável para os donos do Brasil. Laura e suas três filhas foram expulsas do Brasil, assim como o marido Octávio Brandão, em 1931. Na Rússia ela teria mais uma filha.

Ela morreu lutando ao lado do povo que a recebeu como irmã, em Ufá, nos Urais, antiga União Soviética, em 28 de janeiro de 1942, em plena II Guerra Mundial, na defesa de Moscou contra o avanço nazista.

Ela jamais voltou ao Brasil, seu maior sonho no exílio. Quando já estava doente, em plena luta para conter os nazistas, afirmou: “Viva ou morta, quero voltar para o Brasil”. Isso jamais aconteceu. Ela não pôde e o Brasil não quis.

Mas os russos, antes de declará-la heroína de seu país haviam lhe permitido continuar a falar aos brasileiros: Laura foi locutora da Rádio Central de Moscou, que fazia transmissões para a América Latina, Portugal e demais países lusófonos.

**

Uma poesia de Laura Brandão:

Última página

Meu coração é um livro de Poesia

Que se vai desfolhando ao palpitar:

Poemas de dor, sonetos de alegria,

Da luz da aurora à luz crepuscular.

.

Da canícula ardente à idade fria,

Versos de rir, estrofes de chorar

Aumenta em dor, as dores alivia,

Ora, depressa, às vezes, devagar.

.

Ide sonhos de amor para onde vão

As ondas fundas que ressurgirão

Nas altas nuvens, num feliz reverso

.

Oh! Vida passageira, passa em verso…

Pensamento, eterniza-te disperso…

Fecha-te livro – pára coração.

Farsantes, apátridas e um filme americano – por alceu sperança / cascavel.pr



O que o neoliberalismo à brasileira – o luliberalismo – tem apresentado à população, tirando as maravilhas da propaganda oficial?

Fabricantes de máquinas e equipamentos passaram a cortar postos de trabalho, afetados pelo salto de importações de bens de capital e pela emigração de fábricas brasileiras para o exterior.

O mesmo fenômeno abala empregos em vários outros setores que têm transferido a produção para países vizinhos como Argentina e Uruguai. Não elaboramos matérias-primas: elas vão a preços baixos e retornam, elaboradas, a preços elevados.

Isso quer dizer que estamos exportando empregos quando poderíamos estar exportando produtos. “Empresários” voejam pra lá e pra cá, desviando investimentos do País para a Argentina, Uruguai, China, Leste Europeu, Índia e México enquanto exibem na lapela bottom com a bandeirinha do Brasil.

Alguns confessam, como o industrial calçadista Paulo Picaddily: “É lamentável ter que produzir lá fora, mas (…) a moeda deles é mais favorável a exportações e o custo de produção do sapato é de 20% a 25% menor”.

PAC dos banqueiros

O governo Lula pagou no primeiro mandato R$ 600 bilhões de juros. Um colossal PAC enfiado no bolso dos banqueiros. O custo dos juros, diga-se, supera bilionariamente o volume de investimentos previstos até 2010 no PAC lulista. Equivale a mais de 50 vezes os gastos com todas as famílias atendidas pelo Bolsa Família.

Como a oposição a Lula é a dupla DEM-Tucanato, não raciocina em cima desses dados objetivos. Eles (tucanos, DEM, PMDB e quejandos) estão na raiz das dívidas, fizeram a mesma coisa antes e querem continuar fazendo no futuro.

Os políticos governistas repartem o País com os DEMs e os tucanos, que fingem ser oposição a seu clone petista-peemedebista. Essa turma feliz, no governo ou encarapitados sobre suas fortunas, não dá a mínima para os semelhantes que sofrem nas ruas, nas prisões, no desemprego, nas vilas distantes e inseguras.

As mães começam a rezar quando o filho sai para a escola, os pais que saem não sabem se voltam ainda empregados.

Vale recordar uma ilustre personalidade que abandonou os brasileiros involuntariamente, não para desviar investimento à Argentina, mas pela imposição da morte: Milton Santos.

“Nosso mundo é complexo e confuso ao mesmo tempo”, disse Milton, “graças à força com a qual a ideologia penetra nos objetos e ações”.

Essa ideologia agora engana os humildes com a ideia infantil de que eleições resolvem tudo por si sós, sem que seja preciso organizar e pressionar desde a base da sociedade.

Hippies bushianos

Desmobilizadora e despolitizante, a ideia é amplamente difundida pela mídia, que torna tudo refém dos palácios ou do “mercado”, onde se aboletam os deuses do Olimpo globalizado.

A mídia PAG (a governista) e o outro lado da mesma moeda – a mídia PIG – se esforçam para deixar tudo ainda mais confuso e fazer crer que é forçoso escolher entre os farsantes de hoje e os farsantes de ontem, quando os dois “lados” estão a serviço da mesma ideologia engabeladora.

A idiotice é tão grande que poucos já perceberam que o Bolsa-Família é originado da política de anestesia popular bolada pelos políticos republicanos nos EUA e posta em prática pelo Partido Democrata, ambos constituindo já um partido único, na prática.

A repartição do poder entre PT e PSDB nos levará a esse mesmo partido único. Aliás, na Alemanha, onde há mais sinceridade, os social-democratas e os conservadores já governaram em conjunto.

Esse laboratório – a origem do Bolsa-Família nos EUA e o governo compartilhado na Alemanha – mostrou que mesmo povos escolarizados são levados facilmente no bico, aceitando como “democracia” um partido único repartido em duas ou mais siglas com os mesmíssimos propósitos.

Com uma cavalar ironia, David Arquette denunciou a situação em seu filme The Tripper (Perseguição Assassina, 2007), com seus hippies que ao mesmo tempo fumam maconha, cheiram cocaína e adoram Bush. Aliás, o melhor do filme está nos créditos finais.

Multidão segue o funeral do cantor chileno Victor Jara

Nem a longa espera e o sol quente foram suficientes para afastar os milhares de chilenos que acompanharam, com um cravo vermelho na mão, a despedida ao cantor Victor Jara, 36 anos após seu assassinato. Jara foi torturado e morto no estádio Nacional, uma pequena instalação esportiva vizinha ao palácio presidencial de La Moneda, pouco depois do golpe militar de 11 de setembro de 1973.

.Claudio Reyes/EFE/05/12/09

Em 12 de setembro daquele ano, mais de 600 estudantes, professores, e funcionários da Universidade Técnica do Estado foram concentrados à força no estádio. Eles tinham permanecido na universidade com a intenção de defender o governo da Unidade Popular do presidente socialista Salvador Allende contra o golpe desencadeado pelo general Augusto Pinochet. Destacado militante comunista, Jará foi golpeado e submetido a varias sessões de tortura durante cinco dias, antes de falecer.

Essa semana, a viúva, Joan e suas filhas Amanda e Manuela, junto com a fundação Victor Jara, decidiram organizar a despedida pública a qual ele não teve direito em 1973, quando seu corpo foi encontrado. Naquela época, Joan sepultou clandestinamente os restos mortais de seu companheiro acompanhada de apenas duas pessoas.

O funeral público acontece após a exumação do corpo, em 4 de junho passado. A família quis aproveitar as novas tecnologias do Instituto Genético de Innsbruck, na Áustria, para saber o que tinha realmente acontecido. Os médicos concluíram que Jara morreu de múltiplas feridas e que tinha recebido mais de 30 tiros.

Jovens em massa

Um velório de três dias foi organizado, desde quinta-feira (3), na Praça Brasil, bairro ainda marcado pela presença da esquerda. Milhares de pessoas suportaram filas de várias horas para poder tocar o caixão do músico e, sobretudo, escrever algumas linhas nos três livros de condolências dispostos na calçada, enquanto grupos folclóricos dançavam e outros declamavam poesia ou cantavam.

.Claudio Santana/AFP/05/12/09

“Você representa o melhor da juventude”, escreveu Nicolas Valencia, 19 anos. O estudante de direito nem tinha nascido quando a democracia foi restabelecida em 1999, com a saída do general Pinochet da presidência, 17 anos após o golpe. Mas para ele, era fundamental acompanhar o funeral. “Victor era um grande lutador, ele soube falar da pobreza do povo em suas canções, é por isso que a ditadura o matou”, afirma, ao lado de vários colegas da universidade.

Nicolas interrompe a conversa para gritar, junto à multidão “Victor Jara vive! Victor Jara presente!”. Emocionado, ele espera sua vez para entrar no velório. “Olha, colocaram o poncho que ele usava sempre!”, diz, antes de acariciar a madeira do caixão com solenidade.

A dois metros de distância, Fedora Demsky Verdugo observa a cena com um sorriso. Ela tem 59 anos e, comunista convencida, lembra de cada minuto do golpe e da repercussão da morte do cantor. “É bom ver tantos jovens”, diz a funcionária do Ministério da Educação. De fato, a metade do público tem menos de 25 anos. “Não sei se os adolescentes sabem toda a história, mas a presença deles aqui é o sinal de que eles rejeitam a injustiça e a desigualdade que estão cada vez maiores no Chile. A mensagem de Victor é mais forte que nunca”, analisa.

Fedora guarda, porém, um motivo de tristeza: “ninguém pagou pela morte de Victor, justiça não foi feita”. Em maio passado, um juiz decidiu processar o ex-oficial Jose Adolfo Paredes Márquez, considerando-o um dos autores do assassinato do cantor. O acusado negou e foi libertado pelo tribunal, que considerou que faltavam provas sólidas.

Candidatos

A uma semana da eleição presidencial, no domingo (13), vários políticos fizeram questão de aparecer no velório, começando pela própria presidente Michelle Bachelet. “Acredito que finalmente, trinta e seis anos após sua morte, Victor pode descansar”, declarou Bachelet, que termina seu mandato com uma popularidade de cerca de 80% – no Chile, a reeleição é proibida pela Constituição.

O esquerdista Jorge Arrate foi o único dos quatro candidatos presidênciais – além dele também Eduardo Frei, Sebastian Piñera e Marco Enríquez-Ominami – a acompanhar o enterro desde o velório até o Memorial dos presos desaparecidos, no cemitério geral de Santiago. “Victor simboliza o triunfo da memória”, declarou o candidato, atualmente na quarta posição das intenções de voto dos eleitores, segundo as pesquisas.

O autor de canções como El cigarrito e Te recuerdo Amanda, que os intérpretes Silvio Rodriguez, Joan Manuel Serra e Joaquim Sabina incorporaram aos seus repertórios, chegou finalmente à porta do memorial, onde sua família e um grupo de amigos se recolheram em uma cerimônia intima. Fora, a festa em sua homenagem continuou, com vários grupos preparando o palanque para cantar até a noite.

Lamia Oualalou

OM.

DA TRAIÇÃO AOS PRINCÍPIOS À FANTASIA ESCRUPULOSA por alceu sperança / cascavel.pr

No que deu o welfare state da “terceira via” pseudo-socialista europeia? Deu no neoliberalismo desempregador.

Os subsídios à agricultura ineficiente da Europa são uma desumanidade para com os países pobres, primários e agrícolas, mas o máximo que as lideranças social-democratas-trabalhistas-verdes europeias admitem é reduzi-lo um bocadinho lá pelas calendas gregas.

Para quem trabalha hoje na Europa, o continente está se transformando num pesadelo. A comprovar esse fato, a diferença entre ricos e pobres na Grã-Bretanha vai se ampliando, como apontam as pesquisas de política social.

É a globalização capitalista. Aqui, como lá. As ações do movimento sindical precisam se inclinar não mais para questões salariais, apenas, mas para forçar um rumo à Europa, à América, ao planeta.

Em Portugal, a “esquerda” fajuta, similar à do Brasil, condenada severamente como “estúpida” pelo escritor José Saramago, demonstra uma completa submissão aos interesses do capital: o governo “socialista” de José Sócrates só faz cumprir com fidelidade as estratégias da Otan e dos EUA.

Aqui, seus equivalentes (PT et alia) marcham canhestramente para a liquidação dos direitos trabalhistas.

Aqui e na Europa, o mesmo quadro. “Socialistas” intensificando a ofensiva contra os interesses dos trabalhadores, levando ao agravamento da situação social da população, piorando as desigualdades.

É sintomático: o Banco do Brasil socorre a Sadia, ameaça pela quebra, com 900 milhões de reais. É tudo o que o governo promete gastar com o crédito-instalação da Reforma Agrária em 2010.

Tudo o que o governo prometeu gastar com o início da Reforma Agrária em 2010 serviu de socorro em 2009 a apenas uma empresa…

Claro, são políticas antipopulares, mas vendidas pela máquina de propaganda da ideologia como o “caminho único” a seguir. Ou suas canalhices, ou nada.

Aqui, já se assiste aos arreganhos da direita, que na luta contra os sem-terras e os povos das florestas, devoram os recursos naturais, arruínam o meio ambiente e começam a montar seu projeto de nova ditadura, ainda que sob a máscara de uma “esquerda” estúpida e irrefletida a serviço de interesses alheios aos do nosso povo.

Como não dá mais certo a cara fascista explícita, voltam sob peles de cordeiro social-democrata, trabalhista ou verde, e vão se alternando no poder sempre com as mesmas práticas.

Quais práticas? Engabelar e oprimir os trabalhadores favorecendo o grande capital econômico e financeiro, que nada arrisca e está triplamente blindado, como se diz por aqui:

1) é protegido pela impunidade, pois financia as campanhas dos governantes e parlamentares e estes, ao não cobrar suas obrigações e responsabilidades, na verdade o apoiam na ação destrutiva;

2) é protegido por uma política fiscal que se recusa a eliminar seus privilégios especiais;

3) e é protegido porque vive e prospera à sombra de um mercado garantido, através do qual suga as energias de um conjunto de trabalhadores cada vez mais debilitados pela exploração, pela doença, pelo vício, a vida inutilizada de quem deveria ter direito a ser feliz.

Isso ocorre por conta das consequências deliberadas do arrocho salarial e do desemprego em contraposição aos amplos reajustes dos preços dos bens, serviços e impostos para que o grande capital econômico e financeiro continue a acumular lucros astronômicos, um testemunho gritante da injustiça que se aprofunda.

Que fazer? Lênin: “É preciso sonhar, mas com a condição de crer em nosso sonho, de observar com atenção a vida real, de confrontar a observação com nosso sonho, de realizar escrupulosamente nossas fantasias”.

AS “ESQUERDAS” ESTÚPIDAS – por alceu sperança / cascavel.pr


 

O escritor José Saramago deu um soco na cara de uma certa casta de malandros que se intitulam “esquerda” e assumem governos pelo mundo afora com discursos melosos sobre cidadania e na verdade cultivam práticas maliciosas capitalistas.

Engabelam estudantes, sindicatos, religiosos decentes, ganham milhões de votos e o que fazem é cuspir na face dopovo, arrotando as “novas” políticas de interesse do capital: o “trabalhismo” conciliador com a exploração e o “verdismo” para desviar a juventude da revolução.

Tudo que fazem é tentar “melhorar” o capitalismo, evidentemente sem sucesso, pois não há como corrigir os males causados aos povos pela canalhice da exploração.

Saramago disse não conhecer nada mais estúpido do que essa esquerda: PT aqui e Inglaterra, os reformistas italianos, PS em Portugal, requentando o fracasso do PS na Alemanha e na França, e vai por aí.

Dizendo-se “esquerda”, chegam ao poder, como Lula por aqui, e vão repetir o repetido. Mandar bater em estudantes e trabalhadores, como ocorreu na França. Dando um péssimo exemplo à juventude dizendo que não lê livros, como Lula.

Sem dúvida, isso é muito mais estúpido que a direita. Porque a direita é aquilo mesmo: é a guerra, violência, droga, corrupção, mutreta. A direita ser criminosa é da sua natureza.

Mas quem se diz esquerda e se comporta como a direita é mais estúpido ainda: além de repetir a má prática, cevar a corrupção, sustentar o capitalismo, tentar reformar o que não tem futuro, agrega à malícia a traição. Por isso é preciso dizer, com todas as letras, como fez Saramago: essa é a coisa mais estúpida que já se viu.

Quem ousou se dizer “esquerda” e faz o mesmo que a direita, merece o quê, além de vaias? Claro, a vaia não constrói nada. É apenas uma expressão de impotência.

Os lulistas responderam às vaias do Maracanã afirmando que elas foram “orquestradas” pela “extrema-esquerda”, que seríamos nós, comunistas do PCB, e nossos eventuais aliados do PSol e do PSTU.

A todos, os lulistas reservam, além da pecha de “extrema-esquerda”, o insulto de que estamos nos igualando à direita, porque, dizem, a direita também vaia Lula – ora, na verdade, ela aplaude.

Veja as contribuições de campanha. É o PT, Lula e seu bando que se uniram à direita para liquidar os direitos dos trabalhadores e levar adiante a traição contra a Reforma Agrária, por exemplo.

Não surpreende que os servidores federais pipoquem greves a todo instante. Nem que os movimentos populares comecem a entender (como já entenderam em Cascavel, na Jornada de Agroecologia) que Lula traiu tudo e todos.

Saramago, com toda a razão, acusa essa gente de ser estúpida também por se tornarem “comissários do poder econômico”. Vide hidrelétricas em Rondônia, encomendadas pelo grande capital. A opção preferencial de Lula pelos banqueiros. As propostas de liquidação de direitos dos trabalhadores públicos e privados.

Socialistas de mentirinha, ávidos por cargos DAS, de confiança, dizem duas ou três palavras sobre cidadania e duas a três mil palavras para justificar seus mensalões e traições.

Corretamente, do alto de seus quase 90 anos, Saramago afirma que os governos hoje representam plutocracias, e chama o povo à rebelião:

“O mundo é dirigido por organismos que não são democráticos, como o FMI, o Banco Mundial e a OMC. É a altura de protestar, porque se nos deixamos levar pelos poderes que nos governam e não fazemos nada por contestá-los, pode dizer-se que merecemos o que temos”.

DISCUTIR O SUPÉRFLUO, EVITAR O IMPORTANTE – por gerardo honty


Um amigo jornalista que acompanhou a última reunião preparatória para a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, semana passada, em Barcelona, deu a seguinte descrição: “É como se você fosse comprar uma casa com sua mulher e discutisse sobre a cor das paredes, o estilo das torneiras nos banheiros e se nas janelas haverá persianas ou folhas, mas evitasse discutir quanto tem para gastar ou até onde está disposto a se endividar”. Acredito que é uma boa imagem dos assuntos nos quais houve avanço na reunião.

No plenário de encerramento de sexta-feira passada, as diferentes avaliações do resultado da reunião deixaram claro que há perspectivas divergentes sobre o que significa “avanço”. Para alguns – a minoria -, o progresso foi notável. O mais otimista foi o chefe da delegação dos Estados Unidos, Jonathan Pershing, que se definiu como “animal raro” por sua visão positiva dos resultados, em contraste com as opiniões que escutava. Para outros, particularmente os países em desenvolvimento, não houve absolutamente nenhum avanço.

Um dos principais temas ainda a resolver é a quantificação dos compromissos de redução de emissões que serão assumidos pelos países industrializados, em conjunto e individualmente (“as cifras”, no jargão das negociações). Também não se sabe qual porcentagem desses compromissos deverá ser cumprida no âmbito doméstico e quanto poderá ser cumprido por meio da aquisição de créditos de carbono por reduções realizadas em outros países. Além disso, quanto das reduções domésticas poderá ser cumprido por meio das absorções dos escoadouros (matas e reflorestamento) nestes países.

O outro grande tema que não avançou foi a quantificação dos recursos que os países industrializados deverão oferecer para o financiamento da adaptação e do desenvolvimento das demais nações. Nas palavras de meu amigo jornalista, quanto eles estão dispostos a gastar para comprar a casa.

O marco legal

O romance com o novo governo dos Estados Unidos durou pouco. Em junho, quando a delegação de Barack Obama chegou a Bonn, houve grandes aplausos e recepções. Quatro meses depois, no entanto, os EUA voltaram a ser o rapaz malvado do filme, como na época de G. W. Bush. Amostra disso são os vários prêmios “Fóssil do Dia” que o país recebeu na semana, uma homenagem que as ONGs prestam todo dia ao pior desempenho nas negociações do ponto de vista dos interesses do clima. Particularmente, causou muita rejeição o anúncio da delegação norte-americana de que o Congresso adiaria a discussão da lei sobre a mudança climática, peça-chave para a política internacional de Washington no tema.

Na reunião em Bangcoc (de 28 de setembro a 9 de outubro), os EUA haviam introduzido um novo enfoque no debate: não deveria haver um protocolo com compromissos só para os países industrializados e outro acordo para os países em desenvolvimento; todos os países deveriam ter compromissos em um mesmo nível, sob um mesmo tratado. Nesta reunião em Barcelona, a novidade foi apresentada pela ministra dinamarquesa Connie Hedegaard, ao anunciar que o objetivo seria alcançar em Copenhague um acordo “politicamente vinculatório”, em vez do compromisso assumido pelas partes de chegar a um acordo “juridicamente vinculatório”, cujo cumprimento fosse obrigatório sob um tratado internacional.

“O que quer dizer ‘politicamente vinculatório’?”, perguntavam-se os delegados nos bastidores. A intenção da ministra podia ser a de reduzir as exigências do acordo, mas a ideia também podia ser interpretada como uma tentativa de diminuir as expectativas em relação à COP 15, algo já feito antes por Ivo de Boer, secretário da Convenção.

De qualquer modo, estas expressões demonstram como os negociadores estão longe de um acordo sobre a arquitetura jurídica e os alcances legais dos resultados esperados da COP 15.

Virar a mesa

Mas a novidade mais impactante deste período de sessões talvez tenha sido a atitude da África quando, no início da reunião, pediu que as discussões dos demais temas não continuassem antes da conclusão do debate sobre “as cifras”, ou seja, os compromissos de redução de emissões dos países industrializados. No dia seguinte, depois de várias horas de conversações, chegou-se a um acordo: 60% do tempo seriam dedicados a “cifras” e 40%, aos demais assuntos. Embora a iniciativa do Grupo Africano não tenha atingido seu objetivo, foi aberto um precedente que deve pôr os negociadores em alerta. A possibilidade de “virar a mesa” é algo sempre latente para muitos delegados, embora não se manifeste com frequência.

A prioridade para todas as delegações continua sendo manter aberto o espaço das negociações, pois este é o único caminho possível para uma solução. No entanto, a atitude africana avisa que tudo tem um limite e que pode ter chegado o momento de jogar a última carta. Em última análise, não se trata de “salvar as negociações”, e sim de “salvar o planeta”, como lembrou um ativista presente em Barcelona. “Até onde vale a pena manter este processo de negociação se não há resultados à vista? Para os países desenvolvidos, o problema são os custos econômicos do futuro acordo, mas, para os países em desenvolvimento, os problemas são mais urgentes. Falando em nome dos países menos desenvolvidos, o delegado de Lesoto deixou claro no plenário de encerramento: “Alguns de nós nunca chegaremos a ser economias emergentes, seremos submergentes”, afirmou, referindo-se às ameaças representadas pela elevação do nível do mar.

A 30 dias

É muito difícil que, no pouco tempo que resta, sejam alcançados acordos em todos esses temas. Parece haver dois cenários possíveis. Um deles, pouco provável, é que, seguindo o caminho indicado pela África, alguns dos grupos de países em desenvolvimento deixem a mesa de negociações e abortem todo o processo. O outo, mais provável, é que haja um avanço modesto em Copenhague, mas o acordo final seja adiado para uma segunda fase da COP 15, a ser realizada em junho de 2010, ou mesmo para a COP 16, no México, em dezembro do mesmo ano. Como disse a delegada chinesa no encerramento da sessão: não temos esperanças, mas sempre se pode esperar um passe de mágica que faça com que o acordo finalmente chegue. Esta discussão começou há dois anos. Faltam apenas duas semanas de reuniões para que se alcance um acordo e ainda discutimos sobre torneiras, cores e janelas.

Gerardo Honty é analista de energia e mudança climática do Centro Latino-Americano de Ecologia Social (Claes). Foi observador na reunião da Convenção de Mudança Climática em Barcelona.

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ONTEM.

 

provavelmente AMANHÃ, se medidas enérgicas não forem tomadas pelos governantes das nações.

 

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ilustrações do site.

JUIZ do MATO GROSSO censura BLOG por emitir OPINIÃO contra DEPUTADO CORRUPTO

Blogueiros vão recorrer contra mordaça em MT

Adriana e Cavalcanti vão ao TJ para tentar derrubar liminar que os impede de ‘emitir opiniões’ sobre deputado alvo de 92 ações por desvios de verba

Daniel Bramatti e Moacir Assunção

SÃO PAULO – Dois blogueiros de Mato Grosso vão recorrer na próxima semana ao Tribunal de Justiça do Estado para tentar derrubar a censura imposta no último dia 10 por decisão do juiz Pedro Sakamoto, da 13ª Vara Cível.

Adriana Vandoni e Enock Cavalcanti, responsáveis pelos blogs Prosa e Política e Página do E, respectivamente, vão apresentar agravo de instrumento ao TJ.

No dia 10, o juiz atendeu a um pedido de liminar do deputado José Geraldo Riva (PP), presidente da Assembleia Legislativa de Mato Grosso, que se disse vítima de dano moral. Os blogueiros foram proibidos de “emitir opiniões pessoais pelas quais atribuam (ao deputado) a prática de crime, sem que haja decisão judicial com trânsito em julgado que confirme a acusação”. O juiz também determinou que dois textos sobre o deputado fossem retirados do blog Página do E.

José Geraldo Riva é alvo de 92 ações civis públicas propostas pelo Ministério Público, nas quais é acusado de desviar cerca de R$ 450 milhões da Assembleia, segundo a ONG Movimento Organizado pela Moralidade Pública (Moral).

Ademar Adams, diretor da Moral e autor de artigos sobre supostos atos de corrupção que envolvem o presidente da Assembleia, também foi proibido de se manifestar pelo juiz Sakamoto, assim como o jornalista Antônio Cavalcanti e o advogado Vilson Neri, integrantes do Movimento Contra a Corrupção Eleitoral (MCCE).

Adams disse que pretende divulgar, na próxima semana, carta aberta ao juiz Sakamoto, na qual afirma que o Estado não pode interferir na opinião de um jornalista. Segundo ele, o deputado Riva o processou para atingir a ONG da qual faz parte – o MCCE é um dos promotores da campanha Ficha Limpa, que pretende impedir políticos processados por corrupção de participar das eleições.

Adriana Vandoni disse que considera a censura “um atentado contra a democracia”. Enock Cavalcanti se declarou surpreso com a censura prévia. O deputado Riva não foi localizado na Assembleia ontem, em virtude do feriado na capital mato-grossense.

 

grifos do site.

VENEZUELA : Chávez propõe criar uma “Quinta Internacional Socialista” – por lamia oualalou / rio de janeiro

O presidente venezuelano Hugo Chávez declarou  ontem (20) que “chegou a hora de criar uma Quinta Internacional, para aglutinar o movimento progressista planetário, e elaborar uma resposta à crise mundial”.

“Eu acho que a Quinta Internacional é uma necessidade, atrevo-me a convocá-la (…), acho que já está decidido”, afirmou Chávez frente a 150 delegados dos 52 partidos de esquerda reunidos em Caracas ao convite do Partido Socialista Unido de Venezuela (PSUV).

“Estou oferecendo algo novo”, porque a “terceira via fracassou”, acrescentou o chefe de Estado, precisando que “esse encontro socialista tem que ser da esquerda verdadeira, disposta a enfrentar o imperialismo e o capitalismo”. “Nós viajamos no mundo intero e podemos dizer que a criação de uma Quinta Internacional é um clamor popular”, disse.

Chávez propôs também que os partidos de esquerda presentes no encontro constituam a base de um comitê preparatório para convocar formalmente a nova internacional. “A constituição deste comitê pode ser umas das conclusões deste primeiro encontro de partidos de esquerda” concluiu o presidente.

No Brasil, o Partido dos Trabalhadores criticou a iniciativa. Segundo o secretário de Relações Internacionais, Valter Pomar, “se o texto ficar desse jeito, o PT não vai assiná-lo”.

o coronel hugo chávez.o coronel hugo chávez.

ilustração do site.

PT discorda da posição VENEZUELANA – por lamia oualalou / rio de janeiro


As duas primeiras versões do “Compromisso de Caracas”, cuja adoção deve encerrar o 1º. Encontro Internacional de Partidos de Esquerda, enfrentam críticas do Partido dos Trabalhadores, expressadas pelo seu secretário de Relações Internacionais, Valter Pomar.

Ele já adiantou  que “se o texto ficar desse jeito, o PT não vai assiná-lo”, sublinhando, porém, a necessidade de esperar a publicação do texto final para se pronunciar oficialmente.

Um dos pontos polêmicos a criação de “uma secretaria política de coordenação que garanta o funcionamento de uma rede de contatos entre os partidos de esquerda, as organizações populares e os governos progressistas”. Para Valter Pomar, a idéia de criar uma secretaria política ou uma Quinta Internacional não é uma boa solução para coordenar a ação dos partidos de esquerda.

“Consideramos que a intenção é nobre, mas não estamos de acordo”, declarou ao Opera Mundi. Ele considera que “a experiência das Internacionais anteriores, a experiência das organizações partidárias atualmente existentes e as atuais condições do movimento socialista, indicam que construir uma Internacional não é a melhor maneira de coordenar os esforços da esquerda mundial”.

“Nós precisamos de unidade de ação e coordenação nas ações práticas. Não precisamos criar novas instituições. As organizações que existem são plenamente capazes de dar conta das tarefas”, afirma o secretário de Relações Internacionais do PT. Ele lembra da existência do Foro de São Paulo, que reune mais de 60 partidos de esquerda da América Latina.

Contra-ofensiva da direita

Valter Pomar também lamentou o tom bélico das primeiras versões do “Compromisso de Caracas”, que giram, em grande parte, em torno da instalação das bases americanas na Colômbia. Para ele, a esquerda cai numa armadilha quando superestima o caráter militar do confronto com os governos e partidos conservadores.

“Existe uma contra-ofensiva da direita latino-americana e dos Estados Unidos. Esta contra-ofensiva é política, não militar”, assegura Pomar. Sublinha que até os elementos militares, como as bases na Colômbia ou a reativação da Quarta Frota da Marinha dos Estados Unidos na América do Sul e Caribe, constituem elementos da contra-ofensiva política.

“Superestimar este aspecto, dar-lhe um caráter central, constitui um erro político”, acrescenta Pomar dizendo que tinha “encaminhado ao PSUV a opinião do PT, pedindo para que alterassem o texto”.

Apesar das discordâncias, o secretário de Relações Internacionais insiste no fato que o PT respeita as decisões do PSUV. “Se eles desejam impulsionar uma organização, é direito deles. O que nos interessa é que continuem participando do Foro de São Paulo”, declara.

O presidente do PT, Ricardo Berzoini(d), e o secretário-geral do PT, José Eduardo Cardozo, na reunião do Diretório Nacional do partido, na sede em Brasília (DF).

ilustração do site.

MAURICE POLITI lança seu livro ” RESISTÊNCIA ATRÁS DAS GRADES” em CURITIBA dias 26 e 27/11

OS DONOS DO BRASIL – por francisco xarão

A divulgação dos resultados preliminares do censo agropecuário 2006 precisa de muito estudo e análise para “tirar” dos números o seu significado político e sociológico na compreensão da dinâmica de desenvolvimento da estrutura agrária e os resultados da política agrícola das últimas duas décadas. Contudo, alguns elementos são de fácil entendimento, embora de difícil aceitação.

Os números divulgados confirmam o que os movimentos sociais, em especial o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, vêm debatendo e apresentando como causa da alta concentração de terras no Brasil: a ausência de uma política agrária que enfrente as oligarquias do campo e um modelo agrícola centrado na grande empresa capitalista em detrimento do modelo da agricultura familiar.

Gestado pelo mercado, com apoio do Estado, nos anos de ouro do neoliberalismo no Brasil, o agronegócio para produção de commodities se orgulha da modernização que promoveu no campo substituindo o jegue, o boi e o jeca pelo trator, colheitadeira e agrotóxicos em larga escala. No entanto, bastou o governo federal acenar com a possibilidade de cumprir a legislação e rever os índices de produtividade das propriedades rurais para que a bancada ruralista, no senado e na câmara dos deputados, saísse em gritaria uníssona de que querem roubar a terra de quem trabalha.

Essa cortina de fumaça que os deputados e senadores, defensores do arcaico modelo agrário e da “improdutiva” política agrícola baseada na grande propriedade e nos agrotóxicos, montaram serviu para esconder o que o censo agropecuário acabou por revelar: a segurança alimentar dos brasileiros é garantida pela pequena propriedade familiar. Se dependesse do agronegócio, de formato capitalista, o povo brasileiro morreria de fome porque só poderia comer os restos da exportação. A lavoura capitalista não produz alimentos, produz mercadorias.

A novidade do censo agropecuário 2006 foi realizar uma radiografia mais completa e em conformidade com a lei que define agricultura familiar. Com isso foi possível fazer comparações com os resultados de 1985 e 1996 e apresentar uma fotografia onde a agricultura familiar aparece com sua cara própria. Os dados apresentam uma realidade da agricultura familiar que devem servir de base para uma reorientação completa da política agrícola e agrária em curso no país. Senão vejamos: apesar de representar 84,4% do total de estabelecimentos rurais ou 4.367.902 propriedades, a agricultura familiar ocupa uma área de apenas 24,3% da área total dos estabelecimentos rurais cadastrados. Ainda assim, nessa pequena lavoura se produz 38% do valor bruto da produção agrícola do país e emprega 74,4% da mão de obra no campo. As propriedades com menos de 10 hectares ocupavam em 2006 apenas 2,7% (7,8 milhões de hectares) da área total dos estabelecimentos rurais, enquanto os estabelecimentos com mais de 1.000 hectares concentravam mais de 43% (146,6 milhões de hectares) da área total. Se tomarmos o número total de estabelecimentos (cerca de 5,2 milhões de propriedades), próximo de “47% tinham menos de 10 hectares, enquanto aqueles com mais de 1.000 hectares representavam em torno de 1% do total, nos censos analisados” resume o informe do IBGE.

Mesmo cultivando uma área menor com lavouras (17,7 milhões de hectares) a agricultura familiar responde por 87% da produção de mandioca, 70% da produção de feijão, 46% da produção de milho e também é responsável por 50% da produção de frangos, 59% da produção de suínos e 30% da produção bovina, apesar de cultivar uma área menor com pastagens. O censo revela ainda que o valor bruto da produção da agricultura familiar e sua participação no valor bruto da produção total obteve crescimento de 38% para 40% em 10 anos (1996-2006). Segundo informativo do Ministério do Desenvolvimento Agrário – MDA: “A agricultura familiar gera um VBP [valor bruto de produção] de R$ 677,00/ha que é 89% superior ao gerado pela agricultura não familiar (R$358,00/ha).”

Entende-se agora a virulência dos ataques dos latifundiários e seus aliados às propostas da sociedade civil para limitar o tamanho das propriedades no Brasil e a proposta do governo federal (MDA) de rever os índices de produtividade, pois qualquer cidadão medianamente informado é capaz de concluir que existe no país uma concentração absurda da terra que é contra o processo de desenvolvimento sustentável. O índice de Gini do uso do solo no Brasil é de 0,872, muito próximo de um, o que indicaria o nível máximo de concentração.

Portanto, não há o que se comemorar. A tentativa do governo, na divulgação do censo, de “dourar a pílula” apresentando os exitosos números da agricultura familiar como uma prova de que a política de crédito e a reforma agrária começam a dar frutos é outra cortina de fumaça para esconder a ineficácia da política agrária e a quase ausência de uma política agrícola específica para a produção de alimentos da cesta básica. Verdade seja dita, os agricultores familiares é que apesar do mercado e apesar do governo viabilizaram suas propriedades como equipamento altamente produtivo. Evidente que o censo 2006 avalia apenas três anos do atual governo, talvez por isso se possa autorizar o discurso: “se não fosse nós seria pior”. Mas querer atribuir a sobrevivência da pequena propriedade familiar à política agrária e agrícola deste ou dos governos passados é, sem sombra de dúvida, um exagero. Analisando a repartição do orçamento público, especialmente no período pesquisado, verifica-se uma distribuição francamente desproporcional em favor do agronegócio.

Antes mesmo da divulgação do censo agropecuário 2006, um estudo, resultado de tese de doutorado do geógrafo Eduardo Girardi, intitulado Atlas da questão agrária brasileira, lançado no primeiro semestre deste ano, mostrava que “Em 2003, os pequenos imóveis, com tamanho médio abaixo de 200 hectares, representavam 92% do total de propriedades, mas ocupavam apenas 28% da área agrária. As propriedades de médio porte, de 200 a 2 mil hectares, respondiam por 6% do total de imóveis e 36% da área. Já aquelas acima de 2 mil hectares, embora não chegassem a 1% do total, ocupavam 35% da área do setor”. Com pequenas variações regionais que não alteram o quadro geral, o censo 2006 confirma os resultados do estudo de Girardi. O que isso implica para o debate da reforma agrária?

A legislação brasileira proíbe desapropriação de área menor que 15 módulos fiscais (que varia de região para região, mas situa-se, na média, em torno de 500 hectares). Sabendo que existem aproximadamente 5,2 milhões de imóveis rurais cadastrados no país e aceitando que todas as médias propriedades (acima de 500 hectares e menor que 2000 hectares) cumprem sua função social, ou seja estão dentro dos índices de produtividade atuais e respeitam a legislação ambiental, restam para desapropriação os imóveis rurais acima de 2000 hectares, que representam menos de 1% do total de imóveis rurais, ou seja, em torno de 50 mil propriedades.

Então toda a gritaria dos deputados, senadores associações de produtores rurais é para defender o “direito de propriedade” de 50 mil privilegiados contra o “direito de propriedade” de mais de 4 milhões de pequenos e médios proprietários e sem terras? Absurdamente é isso. Na democracia dos atuais deputados e senadores 50 mil proprietários são mais donos do Brasil que os outros quase 5 milhões.

A estrutura agrária tem intima ligação com a política agrícola. A concentração de terra – confirmada pelo Censo 2006 deriva da necessidade que tem o agronegócio voltado para exportação — soja, cana-de-açúcar e pecuária — ocupar grandes extensões em planícies que facilitem o uso intensivo de máquinas e agrotóxicos para produção em escala. Para competir lá fora o agronegócio precisa destruir aqui dentro. Essa concentração continua expulsando os trabalhadores do campo. Em dez anos, deixaram de trabalhar nas lavouras 1,363 milhão de pessoas. Permanecem ainda 16,5 milhões ou 18,9% da população ocupada do país em 2006.

O discurso dominante não vê limites para as “conquistas cientificas” que, descobertas hoje no laboratório, amanhã já se transformaram em tecnologias para produção de mercadorias. Clonagem, transgenia, agrotóxicos, tudo é possível. Não há barreira ética e moral capaz de frear “a marcha do progresso”. A agricultura familiar aparece para estes senhores pseudocientistas e “mudernos” como uma ingênua nostalgia bucólica. Paradoxalmente, aqueles que acham tudo possível na ciência e na moral acreditam ser impensável uma outra estrutura agrária e uma outra política agrícola. Sua condição política e cegueira ideológica, sim, é que atravancam o desenvolvimento de um país com soberania alimentar. É o latifúndio pós-moderno onde tudo é possível e relativo menos a contestação da absurda concentração de terras.

Mas, se “ouvirmos” os números do censo 2006 e imaginarmos um país com distribuição de renda, sem fome, com menos agrotóxicos, preservando as florestas é inexorável mudar de rumo. É uma imposição social e política desconcentrar a propriedade da terra. Sem isso não há desenvolvimento social, apenas mais concentração de terra e renda.

O primeiro passo é resolver rapidamente o problema dos acampamentos da reforma agrária. Segundo dados do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terras existem hoje 230 mil famílias acampadas. Como já avaliamos, se adotássemos uma política agrária determinada a desconcentrar a propriedade da terra teríamos de intervir naquelas com mais de 1000ha que representam menos de 1% do total de propriedades no Brasil. Assim, para assentar as 230 mil famílias, considerando um módulo médio de 25ha por família seriam necessários menos de 6 milhões de hectares o que representa menos de 4% do total da área ocupada pelas fazendas com mais de 1000ha. Só para exemplificar: o paranaense Eraí Maggi Scheffer comanda uma empresa que planta em 250 mil hectares dos quais 100 mil são próprios e o restante arrendado de outros agricultores. Se, ceder 4% da sua área para reforma agrária o “rei da soja” ainda terá ao seu dispor 240 mil hectares e nos 10 mil hectares disponíveis à reforma agrária daria para assentar 400 famílias em lotes de 25ha cada. Pergunto: foi agredido o senhor “rei da soja” em seu direito de propriedade e de produzir? Repartir a produção de 10 mil hectares com mais 400 famílias irá dissolver o negócio do senhor “rei da soja” pela concorrência? Ora, não estamos falando de uma revolução no campo, de uma coletivização forçada, mas de multiplicar o número de proprietários com a clara intenção capitalista de ampliar o número de unidades produtivas e diversificar a oferta de alimentos. Trata-se de uma reforma agrária que é realidade em todos os países onde houve uma revolução burguesa (capitalista). É claro que essa é uma exigência mínima, porque o que deveríamos fazer é cumprir a constituição.

Há muito que a legislação brasileira não reconhece mais o direito de propriedade da terra mas a sua função social, que significa que um pedaço de terra é uma unidade produtiva, ou seja, deve produzir alimentos ou seu dono não pode exigir a propriedade sobre a mesma. Ainda assim, a força desta minoria é tão grande que a própria lei não é aplicada. Tribunais crivados de latifundiários ou de amigos deste seleto grupo de ricos que se acham “donos do Brasil” insistem em interpretar a constituição de acordo com suas conveniências e a criminalizar os movimentos que lutam pela terra.

No entanto, como a constituição do país prevê o direito de produzir, de ter um pedaço de terra que cumpra com sua função social, os movimentos sociais não fazem mais que exigir que se cumpra a lei. Isso os legitima sim a ocupar, resistir e produzir. Mas, para além da lei, a legitimidade e necessidade de sua luta se estriba num direito humano fundamental: o direito a vida; deles e de todos os brasileiros. Porque, como revelou o censo 2006, se não fosse a pequena propriedade familiar e a importação de alimentos (um absurdo para um país como o Brasil) os brasileiros passariam fome.

A sociedade brasileira se quer deixar para trás o desonroso título de país com o quadro de segunda maior concentração da propriedade fundiária em todo o planeta (atrás apenas do Paraguai) e caminhar para uma democracia de verdade, precisa dar um basta a estes privilegiados. É urgente que se estabeleça um limite do tamanho máximo da propriedade rural e que se assente, pelo menos, as famílias acampadas.


* Professor de Filosofia da Rede Municipal de Porto Alegre; Mestre em Filosofia política pela UFMG e aluno do PPG em Filosofia da UNISINOS.

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Referências:

ALMEIDA, Cássia, LINS, Letícia, PINTO, Anselmo Carvalho. Brasil: muita terra na mão de poucos. Publicado jornal O Globo 01/10/2009. Disponível on line:

http://www.biodiversidadla.org/content/view/full/52225 acessado em 08/10/2009

BENJAMIN, Cesar. Impactos do latifúndio. Disponível on line:http://www.ecodebate.com.br/2009/10/06/impactos-do-latifundio-artigo-de-cesar-benjamin/ acessado em 08/10/2009.

BRASIL. Censo Agropecuário 2006. IBGE. Disponível on line:http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/economia/agropecuaria/censoagro/2006/agropecuario.pdfacessado em 05/10/2009

BRASIL. Agricultura Familiar no Brasil e o Censo agropecuário 2006. Ministério do Desenvolvimento Agrário. Disponível on line:http://www.mda.gov.br/arquivos/2246422214.pdf acessado em 05/10/2009

GIRARDI, Eduardo Paulon. Atlas da questão agrária brasileira. Disponível on line:http://www4.fct.unesp.br/nera/atlas/ acessado em 05/10/2009.

 

“HONORÁVEIS BANDIDOS” do jornalista palmério dória, JÁ está nas livrarias do país / belém.pa

a saga do senador da república brasileira e presidente do senado federal, JOSÉ SARNEY, contada pelo jornalista PALMÉRIO DÓRIA, já se encontra nas livrarias do país. um trabalho de longa pesquisa que vem confirmar tudo aquilo que sabemos e que nada fazemos. “tudo isso acontecendo e eu aqui dando milho aos pombos” (RAUL SEIXAS).

sarney

O FIO DA MEADA por alceu sperança / cascavel.pr


Neste exato instante milhões de seres humanos estão famintos e doentes, sucumbindo a uma pobreza extrema. OutrosAlceu sperança  - AJC (1) milhões sofrem com o desemprego crescente, que é uma das características mais assustadoras da globalização neoliberal.

Aqui e em boa parte do planeta se acentuam as desigualdades sociais. Arruína-se a natureza através de um processo cruel e injusto chamado “desenvolvimento”. E tudo isso é mantido em nome da “democracia”, veja só!

Os capitalistas neoliberais, aproveitando a seu favor os atentados às torres gêmeas, resvalaram para um novo tipo de autoritarismo, que se dá pela ocupação militar de países “desobedientes” e bases nos obedientes, disseminando uma furiosa paranóia que clama por segurança na exata medida em que a golpeia.

O poder hoje não está ali no Palácio das Araucárias ou em Brasília, mas em instrumentos supranacionais. A guerra e o militarismo surgem, já avisou Lênin em 1916, como resposta de força do imperialismo aos seus limites históricos e às suas próprias contradições.

Os orçamentos militares atingem recordes históricos: o dos EUA sobe na escala do trilhão de dólares. Quanta comida e quanto remédio isso daria? E vem aí a retomada do Projeto Guerra das Estrelas, da era de Reagan, com a instalação do “escudo anti-míssil” na Europa.

Cria-se, em suma, uma “polícia” mundial para manter a situação de pobreza, miséria, fome e doença.

Bush socialista

Não há como ter conhecimento de tudo isso e ficar de braços cruzados. Aqui e em todos os lugares há margem e espaço para a luta de cada um para que o mundo comece de fato a marchar para a democracia, pois o planeta que temos sob os pés não é democrático.

Não há democracia onde falta justiça e pão. Neste mundo de injustiças e opressões, num país governado pelo marketing da engabelação luliberal, das Prefeituras mal administradas ao Palácio do Planalto a serviço de banqueiros e empreiteiras, só indignação não basta, mesmo porque há grandes potencialidades de luta e de avanço progressista.

Um dos truques do domínio neoliberal é criar em laboratório e propagar pela TV líderes políticos locais que falem em socialismo e democracia e pratiquem seu oposto.

No Brasil, e também aqui no Paraná, vemos burguesões liderando partidos “socialistas”. Seguem uma cartilha que até o rei Bush demonstrou ter aprendido: na frustrada viagem à América Latina (e logo Obama fará o mesmo), sua alteza mencionou Simon Bolívar, o libertador, e disse, como nosso Guevara diria, que é preciso “terminar o seu trabalho revolucionário” e garantir “verdadeira justiça social” em toda a região…

Quem diria: Maria Antonieta nos exortando a decapitá-la!

Rejeitar, um começo

O caminho da revolução, no entanto, passa por rejeitar e superar o capitalismo em sua etapa neoliberal.

Passo a passo, os povos latino-americanos vão dizendo não à engabelação da ideologia, como o povo venezuelano fez ao escorraçar do palácio presidencial os vampiros que usurparam o governo, pondo na prisão, ilegal e criminosamente, o presidente Chávez.

É na rejeição às receitas neoliberais que está o fio da meada para a superação das injustiças deste mundo.

Há uma viagem a fazer. O começo dessa viagem está em bloquear a atual ofensiva em curso no País contra as conquistas sociais e os direitos alcançados pelos trabalhadores, através da palavra de ordem “Nenhum Direito a Menos, Só Direitos a Mais!”

OS DONOS DO BRASIL por francisco xarão / porto alegre

A divulgação dos resultados preliminares do censo agropecuário 2006 precisa de muito estudo e análise para “tirar” dos números o seu significado político e sociológico na compreensão da dinâmica de desenvolvimento da estrutura agrária e os resultados da política agrícola das últimas duas décadas. Contudo, alguns elementos são de fácil entendimento, embora de difícil aceitação.

Os números divulgados confirmam o que os movimentos sociais, em especial o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, vêm debatendo e apresentando como causa da alta concentração de terras no Brasil: a ausência de uma política agrária que enfrente as oligarquias do campo e um modelo agrícola centrado na grande empresa capitalista em detrimento do modelo da agricultura familiar.

Gestado pelo mercado, com apoio do Estado, nos anos de ouro do neoliberalismo no Brasil, o agronegócio para produção de commodities se orgulha da modernização que promoveu no campo substituindo o jegue, o boi e o jeca pelo trator, colheitadeira e agrotóxicos em larga escala. No entanto, bastou o governo federal acenar com a possibilidade de cumprir a legislação e rever os índices de produtividade das propriedades rurais para que a bancada ruralista, no senado e na câmara dos deputados, saísse em gritaria uníssona de que querem roubar a terra de quem trabalha.

Essa cortina de fumaça que os deputados e senadores, defensores do arcaico modelo agrário e da “improdutiva” política agrícola baseada na grande propriedade e nos agrotóxicos, montaram serviu para esconder o que o censo agropecuário acabou por revelar: a segurança alimentar dos brasileiros é garantida pela pequena propriedade familiar. Se dependesse do agronegócio, de formato capitalista, o povo brasileiro morreria de fome porque só poderia comer os restos da exportação. A lavoura capitalista não produz alimentos, produz mercadorias.

A novidade do censo agropecuário 2006 foi realizar uma radiografia mais completa e em conformidade com a lei que define agricultura familiar. Com isso foi possível fazer comparações com os resultados de 1985 e 1996 e apresentar uma fotografia onde a agricultura familiar aparece com sua cara própria. Os dados apresentam uma realidade da agricultura familiar que devem servir de base para uma reorientação completa da política agrícola e agrária em curso no país. Senão vejamos: apesar de representar 84,4% do total de estabelecimentos rurais ou 4.367.902 propriedades, a agricultura familiar ocupa uma área de apenas 24,3% da área total dos estabelecimentos rurais cadastrados. Ainda assim, nessa pequena lavoura se produz 38% do valor bruto da produção agrícola do país e emprega 74,4% da mão de obra no campo. As propriedades com menos de 10 hectares ocupavam em 2006 apenas 2,7% (7,8 milhões de hectares) da área total dos estabelecimentos rurais, enquanto os estabelecimentos com mais de 1.000 hectares concentravam mais de 43% (146,6 milhões de hectares) da área total. Se tomarmos o número total de estabelecimentos (cerca de 5,2 milhões de propriedades), próximo de “47% tinham menos de 10 hectares, enquanto aqueles com mais de 1.000 hectares representavam em torno de 1% do total, nos censos analisados” resume o informe do IBGE.

Mesmo cultivando uma área menor com lavouras (17,7 milhões de hectares) a agricultura familiar responde por 87% da produção de mandioca, 70% da produção de feijão, 46% da produção de milho e também é responsável por 50% da produção de frangos, 59% da produção de suínos e 30% da produção bovina, apesar de cultivar uma área menor com pastagens. O censo revela ainda que o valor bruto da produção da agricultura familiar e sua participação no valor bruto da produção total obteve crescimento de 38% para 40% em 10 anos (1996-2006). Segundo informativo do Ministério do Desenvolvimento Agrário – MDA: “A agricultura familiar gera um VBP [valor bruto de produção] de R$ 677,00/ha que é 89% superior ao gerado pela agricultura não familiar (R$358,00/ha).”

Entende-se agora a virulência dos ataques dos latifundiários e seus aliados às propostas da sociedade civil para limitar o tamanho das propriedades no Brasil e a proposta do governo federal (MDA) de rever os índices de produtividade, pois qualquer cidadão medianamente informado é capaz de concluir que existe no país uma concentração absurda da terra que é contra o processo de desenvolvimento sustentável. O índice de Gini do uso do solo no Brasil é de 0,872, muito próximo de um, o que indicaria o nível máximo de concentração.

Portanto, não há o que se comemorar. A tentativa do governo, na divulgação do censo, de “dourar a pílula” apresentando os exitosos números da agricultura familiar como uma prova de que a política de crédito e a reforma agrária começam a dar frutos é outra cortina de fumaça para esconder a ineficácia da política agrária e a quase ausência de uma política agrícola específica para a produção de alimentos da cesta básica. Verdade seja dita, os agricultores familiares é que apesar do mercado e apesar do governo viabilizaram suas propriedades como equipamento altamente produtivo. Evidente que o censo 2006 avalia apenas três anos do atual governo, talvez por isso se possa autorizar o discurso: “se não fosse nós seria pior”. Mas querer atribuir a sobrevivência da pequena propriedade familiar à política agrária e agrícola deste ou dos governos passados é, sem sombra de dúvida, um exagero. Analisando a repartição do orçamento público, especialmente no período pesquisado, verifica-se uma distribuição francamente desproporcional em favor do agronegócio.

Antes mesmo da divulgação do censo agropecuário 2006, um estudo, resultado de tese de doutorado do geógrafo Eduardo Girardi, intitulado Atlas da questão agrária brasileira, lançado no primeiro semestre deste ano, mostrava que “Em 2003, os pequenos imóveis, com tamanho médio abaixo de 200 hectares, representavam 92% do total de propriedades, mas ocupavam apenas 28% da área agrária. As propriedades de médio porte, de 200 a 2 mil hectares, respondiam por 6% do total de imóveis e 36% da área. Já aquelas acima de 2 mil hectares, embora não chegassem a 1% do total, ocupavam 35% da área do setor”. Com pequenas variações regionais que não alteram o quadro geral, o censo 2006 confirma os resultados do estudo de Girardi. O que isso implica para o debate da reforma agrária?

A legislação brasileira proíbe desapropriação de área menor que 15 módulos fiscais (que varia de região para região, mas situa-se, na média, em torno de 500 hectares). Sabendo que existem aproximadamente 5,2 milhões de imóveis rurais cadastrados no país e aceitando que todas as médias propriedades (acima de 500 hectares e menor que 2000 hectares) cumprem sua função social, ou seja estão dentro dos índices de produtividade atuais e respeitam a legislação ambiental, restam para desapropriação os imóveis rurais acima de 2000 hectares, que representam menos de 1% do total de imóveis rurais, ou seja, em torno de 50 mil propriedades.

Então toda a gritaria dos deputados, senadores associações de produtores rurais é para defender o “direito de propriedade” de 50 mil privilegiados contra o “direito de propriedade” de mais de 4 milhões de pequenos e médios proprietários e sem terras? Absurdamente é isso. Na democracia dos atuais deputados e senadores 50 mil proprietários são mais donos do Brasil que os outros quase 5 milhões.

A estrutura agrária tem intima ligação com a política agrícola. A concentração de terra – confirmada pelo Censo 2006 deriva da necessidade que tem o agronegócio voltado para exportação — soja, cana-de-açúcar e pecuária — ocupar grandes extensões em planícies que facilitem o uso intensivo de máquinas e agrotóxicos para produção em escala. Para competir lá fora o agronegócio precisa destruir aqui dentro. Essa concentração continua expulsando os trabalhadores do campo. Em dez anos, deixaram de trabalhar nas lavouras 1,363 milhão de pessoas. Permanecem ainda 16,5 milhões ou 18,9% da população ocupada do país em 2006.

O discurso dominante não vê limites para as “conquistas cientificas” que, descobertas hoje no laboratório, amanhã já se transformaram em tecnologias para produção de mercadorias. Clonagem, transgenia, agrotóxicos, tudo é possível. Não há barreira ética e moral capaz de frear “a marcha do progresso”. A agricultura familiar aparece para estes senhores pseudocientistas e “mudernos” como uma ingênua nostalgia bucólica. Paradoxalmente, aqueles que acham tudo possível na ciência e na moral acreditam ser impensável uma outra estrutura agrária e uma outra política agrícola. Sua condição política e cegueira ideológica, sim, é que atravancam o desenvolvimento de um país com soberania alimentar. É o latifúndio pós-moderno onde tudo é possível e relativo menos a contestação da absurda concentração de terras.

Mas, se “ouvirmos” os números do censo 2006 e imaginarmos um país com distribuição de renda, sem fome, com menos agrotóxicos, preservando as florestas é inexorável mudar de rumo. É uma imposição social e política desconcentrar a propriedade da terra. Sem isso não há desenvolvimento social, apenas mais concentração de terra e renda.

O primeiro passo é resolver rapidamente o problema dos acampamentos da reforma agrária. Segundo dados do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terras existem hoje 230 mil famílias acampadas. Como já avaliamos, se adotássemos uma política agrária determinada a desconcentrar a propriedade da terra teríamos de intervir naquelas com mais de 1000ha que representam menos de 1% do total de propriedades no Brasil. Assim, para assentar as 230 mil famílias, considerando um módulo médio de 25ha por família seriam necessários menos de 6 milhões de hectares o que representa menos de 4% do total da área ocupada pelas fazendas com mais de 1000ha. Só para exemplificar: o paranaense Eraí Maggi Scheffer comanda uma empresa que planta em 250 mil hectares dos quais 100 mil são próprios e o restante arrendado de outros agricultores. Se, ceder 4% da sua área para reforma agrária o “rei da soja” ainda terá ao seu dispor 240 mil hectares e nos 10 mil hectares disponíveis à reforma agrária daria para assentar 400 famílias em lotes de 25ha cada. Pergunto: foi agredido o senhor “rei da soja” em seu direito de propriedade e de produzir? Repartir a produção de 10 mil hectares com mais 400 famílias irá dissolver o negócio do senhor “rei da soja” pela concorrência? Ora, não estamos falando de uma revolução no campo, de uma coletivização forçada, mas de multiplicar o número de proprietários com a clara intenção capitalista de ampliar o número de unidades produtivas e diversificar a oferta de alimentos. Trata-se de uma reforma agrária que é realidade em todos os países onde houve uma revolução burguesa (capitalista). É claro que essa é uma exigência mínima, porque o que deveríamos fazer é cumprir a constituição.

Há muito que a legislação brasileira não reconhece mais o direito de propriedade da terra mas a sua função social, que significa que um pedaço de terra é uma unidade produtiva, ou seja, deve produzir alimentos ou seu dono não pode exigir a propriedade sobre a mesma. Ainda assim, a força desta minoria é tão grande que a própria lei não é aplicada. Tribunais crivados de latifundiários ou de amigos deste seleto grupo de ricos que se acham “donos do Brasil” insistem em interpretar a constituição de acordo com suas conveniências e a criminalizar os movimentos que lutam pela terra.

No entanto, como a constituição do país prevê o direito de produzir, de ter um pedaço de terra que cumpra com sua função social, os movimentos sociais não fazem mais que exigir que se cumpra a lei. Isso os legitima sim a ocupar, resistir e produzir. Mas, para além da lei, a legitimidade e necessidade de sua luta se estriba num direito humano fundamental: o direito a vida; deles e de todos os brasileiros. Porque, como revelou o censo 2006, se não fosse a pequena propriedade familiar e a importação de alimentos (um absurdo para um país como o Brasil) os brasileiros passariam fome.

A sociedade brasileira se quer deixar para trás o desonroso título de país com o quadro de segunda maior concentração da propriedade fundiária em todo o planeta (atrás apenas do Paraguai) e caminhar para uma democracia de verdade, precisa dar um basta a estes privilegiados. É urgente que se estabeleça um limite do tamanho máximo da propriedade rural e que se assente, pelo menos, as famílias acampadas.


* Professor de Filosofia da Rede Municipal de Porto Alegre; Mestre em Filosofia política pela UFMG e aluno do PPG em Filosofia da UNISINOS.

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Referências:

ALMEIDA, Cássia, LINS, Letícia, PINTO, Anselmo Carvalho. Brasil: muita terra na mão de poucos. Publicado jornal O Globo 01/10/2009. Disponível on line:

http://www.biodiversidadla.org/content/view/full/52225 acessado em 08/10/2009

BENJAMIN, Cesar. Impactos do latifúndio. Disponível on line:http://www.ecodebate.com.br/2009/10/06/impactos-do-latifundio-artigo-de-cesar-benjamin/ acessado em 08/10/2009.

BRASIL. Censo Agropecuário 2006. IBGE. Disponível on line:http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/economia/agropecuaria/censoagro/2006/agropecuario.pdfacessado em 05/10/2009

BRASIL. Agricultura Familiar no Brasil e o Censo agropecuário 2006. Ministério do Desenvolvimento Agrário. Disponível on line:http://www.mda.gov.br/arquivos/2246422214.pdf acessado em 05/10/2009

GIRARDI, Eduardo Paulon. Atlas da questão agrária brasileira. Disponível on line:http://www4.fct.unesp.br/nera/atlas/ acessado em 05/10/2009.

DÚVIDAS QUE ASSALTAM por alceu sperança / cascavel.pr

Por vezes, alguma curiosidade sobre coisas estranhas que acontecem neste País nos assalta. Há mesmo ocasiões em que a curiosidade não só te assalta como te manda ficar quieto pra não levar chumbo.Alceu sperança  - AJC (1)

Sempre vemos no jornal notícias de jovens baleados e esfaqueados, mas nunca se diz por que os misteriosos assassinos atiram nas vítimas. Você não fica sabendo a causa dos tiros ou facadas, mesmo quando o assassino é preso ou condenado. Pior ainda quando foge.

Outra curiosidade que nos assalta e ameaça é também social: para onde vão os invasores despejados de fundos de vale e de imóveis urbanos ociosos?

Como não somos informados sobre a causa do jovem se tornar alvo de balas e facas, poderíamos pensar que eles são atirados e esfaqueados apenas porque são jovens.

E aí se especularia: são alvejados para diminuir as filas de desempregados, por que não pagam o “transador” pelo crack ou porque tentam namorar gurias já comprometidas?

Quanto aos abusados que teimam em ter direito a morar em nossas ricas cidades, com tantos imóveis para alugar e vender (quem não compra também não tem dinheiro para alugar), eles são enxotados pela polícia a chamado dos proprietários. Ou da Prefeitura, quando se trata de lote público.

Nesse caso, a gente até vem a saber que eles de fato são expulsos, mas raramente se vê esses descarados invasores de terrenos sendo empurrados para dentro de um dos imóveis já disponíveis e vagos ou de construções em áreas de adensamento – Plano Diretor é pra quê, afinal?

Volta e meia, por falta de onde morar, os sem-tetos se arriscam a erguer casas ou barracos nas áreas de fundo de vale, pois é mais difícil levar corridão de gente da Prefeitura que se diz “socialista” ou “social-democrata” (ninguém mais se assume como fascista ou direita, coisa estranha!) do que de especulador imobiliário.

Há milhares morando onde não morava ninguém, em caráter precário, pois a ocupação é irregular. Como ninguém lhes regula um lugar regular onde ficar, acabam degradando os fundos de vale com aquele “popular” modo de viver: sem torneiras, bicos de luz, sanitários com botão de pressão, ficam atirados nesses fundões.

E é ali que os “bons cidadãos” despejam porcarias oleosas e plásticas de todos os tipos. Somadas às próprias porcarias dos pobres-diabos ali estabelecidos, elas criam um caldo de cultura bem inculto e doentio.

Claro que a Prefeitura não está alheia a isso, pois vai lá e expulsa. O problema é para onde os pés-rapados vão quando são rapidamente expulsos pelas nossas zelosas autoridades.

Será que os excluídos andam combinando algo no breu das tocas? No caso de uma “invasão relâmpago” em Cascavel, num sábado, a combinação ficou clara: uma família, com a ajuda de várias pessoas, começou a erguer uma casinha numa área pertencente à Prefeitura.

O mutirão acelerado pretendia levantar a casa e criar uma situação de fato, mas a Guarda Municipal agiu rapidamente e acabou com a festa.

O argumento para escorraçar a família é que ela não vivia na desgraça absoluta, pois pagava aluguel. Daí concluímos que se estivessem mesmo na M total, a invasão seria autorizada.

Ou então que quem paga aluguel é criatura feliz, sem direito a querer casa própria. E no vai e vem da nossa rica vida metropolitana, continuamos sem saber por quê os jovens são assassinados e para onde vão os sem-tetos depois de enxotados dos fundos de vale.

Cortem a cabeça! – por alceu sperança /cascavel.pr

Alceu sperança  - AJC (1)A Rainha de Copas ordenou que cortassem a cabeça de Alice com base na história do Brasil?

O capitalismo se desenvolveu com o “financiamento” do ouro roubado das terras brasileiras e vizinhas, mas antes disso até as idéias libertárias da Revolução Francesa foram “desapropriadas” pelos europeus, recolhidas dos nossos índios, como amostras de sangue para patentear ou exemplares de nossa biodiversidade.

Afonso Arinos defendia essa tese no livro “O índio brasileiro e a Revolução Francesa” (1937) e Darcy Ribeiro batia na mesma tecla.

Viu potencial para uma drástica mudança nas cabeças de “um bando de europeus malcheirosos vindos de cidades devastadas por peste e fome, encontrar aquela indiada nua, paradisíaca”.

Esse paraíso a olho nu certamente poderia inspirar idéias novas em alguém às voltas com os horrores de sua época. Os livros religiosos sempre se referiram à possibilidade de um mundo novo para os homens, sem injustiça e opressão. Encontrar os índios era aprender que esse paraíso é possível.

A coisa toda pode ser rastreada. A carta Mundus novus, de Américo Vespúcio, nos valeu sermos hoje americanos e o fascínio pelo paraíso na terra:

“Todas as árvores são odoríferas e produzem gomas ou óleos (…) cujas propriedades todas, se fossem conhecidas, não duvido que andaríamos todos sãos. E por certo que se o paraíso terrenal existe em alguma parte da terra, creio que não deve ser longe destes países.”

De onde será que tiraram a idéia de vir roubar nossa biodiversidade?…

Os franceses André Thevet (1558) e Jean de Léry (1578) chegaram a exagerar: tínhamos homens marinhos e bichos que se alimentavam de ar. A Igreja Católica se assustou e mandou investigar. Notícias antecedentes, curiosas e necessárias das cousas do Brasil, obra do padre Simão de Vasconcelos, em 1663, deveria historiar essa investigação, mas o capítulo que tratou do assunto foi censurado.

A coisa praticamente teve início com Thomas Morus e seu livro A utopia (1516), que deriva de Américo e sua fabulosa América. O protagonista é um marinheiro europeu que aprende uma linda lição: “A virtude consiste em se viver segundo a natureza”.

O francês Michel de Montaigne, que está voltando à moda outra vez, não deixou por menos no ensaio Sobre os canibais (1572), louvando a vida selvagem para criticar as instituições européias. “A essa gente chamamos selvagem como denominamos selvagens os frutos que a natureza produz sem a intervenção do homem”.

Esse paraíso, pode-se notar pelo que Montaigne escreve, foi para as cucuias:

“É um país (…) onde não existe hierarquia política, nem domesticidade, nem ricos e pobres; (…) o trabalho dos metais aí se ignora; não usam vinho nem trigo; as próprias palavras que exprimem a mentira, a traição, a dissimulação, a avareza, a inveja, a calúnia, o perdão, só excepcionalmente se ouvem.”

Daí, como dizemos aqui, temos Rousseau e suas considerações idealistas sobre o “bom selvagem”. E logo viria a Revolução Francesa, com base na ideia de que seria uma beleza viver sem propriedade nem a exploração do homem pelo homem, como aqueles índios nus que, quando guerreavam, era por um impulso natural.

Inclusive na hora de cortar cabeças!

Depois Marx transformou o cantar da guilhotina ao cortar cabeças em algo mais cabeça. Mas aí, entre os índios nus encontrados em 1500 e os dias de hoje, já são outras 500 revoluções.

E nossas cabeças já não são mais as mesmas.

MINISTRA DILMA ROUSSEFF livre da doença afirma: “Pronta para o que der e vier”

A ministra Dilma Rousseff (Casa Civil) anunciou ontem que finalizou o tratamento contra o câncer linfático que descobriu há cinco meses e que está pronta “para o que der e vier”, em referência à campanha presidencial de 2010.

Em nota, os médicos do hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, que cuidam da ministra, afirmaram que, “após exaustivos testes, foi constatado que o tratamento atingiu o resultado esperado e que Dilma Rousseff encontra-se livre de qualquer evidência de linfoma, com estado geral de saúde excelente, podendo retornar à sua rotina normal”.

– Me sinto muito feliz porque a sensação que tenho, depois de acabar o tratamento e de ele ter sido feito com grande

DILMA ROUSSEFF em Caruaru. foto livre.

DILMA ROUSSEFF em Caruaru. foto livre.

sucesso, é de muita energia. O que eu fiquei muito feliz é que eles (médicos) disseram para mim: “Você tem condições totais de agora em diante, sem nenhum cuidado diferente do que qualquer pessoa tem que ter consigo mesmo ao exercer qualquer atividade” – afirmou a Dilma.

Questionada se está pronta para a campanha, pela primeira vez a ministra não desconversou:

– Estou pronta para o que der e vier. O que aparecer na minha vida eu acho que vou encarar.

Dilma afirmou que o momento mais difícil que enfrentou foi quando recebeu a notícia de que tinha câncer.

– Cada um de nós lá no fundo acha que nunca vai ter nada. Então, quando você recebe a notícia, ainda está muito despreparado para ela – disse.

A ministra disse que está conversando com o Ministério da Saúde para saber como é feito o tratamento do câncer no Sistema Único de Saúde (SUS) e que quer entender por que o medicamento Mabthera, que utilizou no tratamento, não é distribuído no país inteiro gratuitamente.

BRASÍLIA.

A CANALHA SE ESPOJA – último texto escrito por WALMOR MARCELLINO enviado, hoje, por sua esposa ELBA

O povo é bom, mas é interesseiro e ingênuo, para não ser visto como burro. Este apotegma, a sua vez, é primarista, apofântico e cruel, mas a ele somos conduzidos pela atitude de classe e sua presunção de verdade. Essa “verdade” é o pensamento politicamente correto e conforma a ideologia civilizatória com que nos afagam.

Sem uma rigorosa análise de classe, de dentro das lutas sociais e com a responsabilidade de discerni-las do ponto de vista do trabalho, de sua dinâmica produtiva e de sua força inovadora, o discurso ideológico passou a ser o poder artificioso com que se explicam e garantem a hegemonia de classes e a justiça de sua imposição a todos.

(Walmor Marcellino, em 07/9/2009)

WALMOR MARCELLINO, jornalista, poeta, escritor, filósofo e dramaturgo.

WALMOR MARCELLINO, jornalista, poeta, escritor, filósofo e dramaturgo.

UM ARTIGO DE WALMOR:

REDOBLES A ERNESTO SERNA

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E a política como atitude e conduta; como ética, vivência e recompensa? Saiu do calendário porque não é mais valor ou nunca o foi na sociedade de classes; um farisaísmo de mercado para obrigar exação de negócios? E então, para ganhar credibilidades e confianças, assumimos compromissos senão incorporamos doutrinas sociais para alcançar vantagens?

A epopéia presente é para cada um apenas a busca de sobrevivência, como aventura existencial já não ante a natureza inóspita, não só ante as faltas pessoais e atrasos comunitários, mas sob a esperança que nos impele adiante e exalça por virtudes, e como cultura da dignidade de que dizem somos portadores: tenhamos mercê ou destino.

Remanesce em nossa cultura política a idéia vã de entrega e martírio, e então acreditamos em caudilhismos nas lutas sociais e martírios de uma causa comum; queremos, precisamos crer; seja porque existem exemplos e eles estão sufragados no imaginário coletivo, seja porque se multiplicam as tentativas de salvaguardar nosso compromisso da mutualidade.

O que tem a ver Gilgamesh com (São) Sebastião Arqueiro, martirizado em Roma no Século III, com Sebastião (Dom), o Desejado, XVI rei de Portugal, desaparecido aos 24 anos na batalha de Alcácer ? Talvez o espírito de Masaccio (Tommaso de Ser Giovanni, 1401) em busca das formas puras, quem sabe o Sebastianismo como um tropo (translação historicista do sentido martiriológio); ou, ainda, como quixotismo reinol em sua nobreza montada, ou poderia ser simples quixotada de estultas grandezas, por teimosias e caturrices, de obscurantismos cruzados em paranóias? Quem souber explique a este pobre Sancho Panza (Vida de Don Quixote y Sancho, ensayos, Don Miguel de Unamuno) que com utopias, grandezas e vilezas nos enredamos:

“Advirtas-te, irmão Sancho, que esta aventura e aquelas a esta semelhantes não são aventuras de ilhas (*fortuna), senão de encruzilhadas, nas que não se ganha outra coisa que decepada a cabeça ou uma orelha a menos.” Esse então seria o bom combate, sob regras de cavalaria, ou gigantismo do ego no atropelo a cada um?

Mas sem a altanaria do “Cavaleiro da Figura Triste” nem o despojado sensualismo de Sancho, o que faremos? Apenas advertir à Unamuno: “creio que se pode tentar a santa cruzada de ir resgatar o sepulcro de Don Quijote do poder dos bacharéis, curas, barbeiros e canônicos (vigários e regras) que o ocuparam”…

Alvitrarão: o que tem a ético-política e o socialismo que ver com os sentimentos, aspirações e utopias? Tudo o que pudermos encontrar na encruzilhada quando nos avulta grandioso Don Quijote de La Mancha a olhar para o horizonte.

CASLA – CASA LATINO AMERICANA convida:

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WALMOR MARCELLINO, continua repercutindo a morte do poeta, jornalista, escritor, filósofo e dramaturgo / agência do governo do pr

Morreu nesta sexta-feira (25), aos 79 anos, o poeta, escritor e jornalista Walmor Marcellino. Militante contra a ditadura militar nas décadas de 70 e 80, Marcelino estava internado na Santa Casa de Misericórdia de Curitiba com problemas renais e cardíacos. “Walmor Marcelino foi um militante persistente, que nunca se desviou de seu caminho. Alguns o chamavam de fundamentalista, mas eu sempre entendi suas atitudes como integridade”, afirmou o governador Roberto Requião.

Marcellino será velado a partir das 15h desta sexta-feira (25) na capela 3 do Cemitério Municipal de Curitiba, no bairro São Francisco. Seu corpo será cremado sábado (26), às 9h. Ele foi casado duas vezes e teve quatro filhos, um deles já falecido. Nascido em Araranguá (SC), em 1930, morou em Florianópolis, Porto Alegre e fixou residência em Curitiba. Escritor com forte atuação política, publicou mais de 30 livros, entre poesia, ficção e textos de opinião.

Na década de 70, participou do Centro Popular de Cultura em Curitiba, e de grupos de teatro da UFPR, sempre em oposição à ditadura militar. Preso político, nunca se furtou da crítica ao governo militar e das suas posições políticas. “Era um homem de extrema coragem e todos que lutaram pela democracia sabem o  papel que teve este grande intelectual”, afirmou o advogado Geraldo Serathiuk, que o conheceu na década de 70, na Casa do Estudante.

“Ele foi um dos responsáveis pela reorganização do movimento estudantil e sindical durante a ditadura militar e um grande orientador para minha geração”, contou Serathiuk. Marcellino trabalhou em diversos órgãos de comunicação, entre eles a Gazeta do Povo e o jornal Última Hora, e também na Assembleia Legislativa do Paraná e no Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul (BRDE).

“Ele era um dramaturgo, repórter policial de alto nível e um líder da resistência durante a ditadura militar”, afirmou o jornalista Cícero Cattani, que contou que conviveu com Walmor já no início da década de 60, na redação do jornal Última Hora. “Apenas quem conviveu com ele sabe mensurar esta perda”, disse.

PROFESSOR – Segundo Cattani, uma das grandes qualidades de Walmor era a de transformar a redação em uma sala de aula. “Era um intelectual e um verdadeiro professor de jornalismo. O Paraná perde um dos seus maiores valores.”

O jornalista Luiz Geraldo Mazza, destacou  a militância, tanto política quanto cultural de Walmor. “Ele foi uma pessoa de firmeza e caráter,  guerreiro que participou dos movimentos importantes do nosso Estado, e um dos grandes desencadeadores do desenvolvimento cultural”, contou.

De acordo com o poeta e escritor Ewaldo Schleder, que publicou um livro a quatro mãos com Marcellino, destacou a responsabilidade do colega, mesmo com quem criticava. “Sempre polêmico, mesmo assim nunca fez uma crítica não embasada, por isso, era respeitado mesmo por aqueles que tinham posições contrárias”, afirmou.

O procurador-geral do Estado, Carlos Marés, era presidente do movimento estudantil e Walmor, um intelectual ligado aos estudantes, quando se conheceram. “Era muito respeitado, ele dirigia o Teatro do Estudante Universitário e eu ajudava na contra-regra. Era um grupo chamado de engajado, contra a ditadura e contra o capitalismo. Walmor teve uma vida muito coerente nas suas idéias e no modo de agir, isso só se vê no fim da vida.”

O jornalista Nego Pessoa comentou que as diferenças políticas entre os dois eram enormes. “Mas a nossa amizade era justamente pela ligação com a arte. Walmor era um grande conhecedor de poesia e amante do jazz”, contou. Nego Pessoa destacou os livros de poesia do amigo, segundo ele, a melhor produção de Marcellino.

O advogado Edésio Passos também conheceu Walmor na década de 60. “Era de um caráter sensacional, grande jornalista e um dos mais importantes escritores paranaenses. Autêntico e também um teatrólogo sensacional, atuou contra a ditadura militar de maneira ímpar. Ele é uma pessoa que vai ficar inscrita na nossa história”, disse.

Amadeu Geara, político e advogado, lembrou que  Walmor foi um dos colaboradores na organização do MDB no Paraná. “Nunca dizia uma palavra de agrado que não fosse sincera, muito menos fazia uma crítica que não fosse fundamentada. Foi o pensador que nos auxiliou, na formação dos quadros do partido.”

O LULIBERALISMO por alceu sperança / cascavel.pr

Ao retornar de viagem de trabalho ao Rio de Janeiro, o colega Jairo Eduardo, do jornalzinho Pitoco, deixou no ar uma pergunta irrespondível. Depois de assinalar que há nas plagas fluminenses obras fantásticas, um mundaréu de turistas trazendo dinheiro a toda hora e fabulosos investimentos públicos e privados feitos cotidianamente naquele Estado, ele sapecou:

“Como pode tanto dinheiro gerar tanta miséria?”

Antes de responder ao irrespondível, vamos tentar responder a algumas perguntas mais simples. Por que o Primeiro Mundo é rico e a América Latina não é? É bem simples: o capitalismo se impôs no mundo através de grandes roubos, coisa que, aliás, Marx cansou de dizer.

Roubaram nosso ouro e, assim, ficaram ricos e nós seguimos pobres. Portugal, que iniciou essa roubalheira toda – e como deixou seguidores nas elites brasileiras! – saqueou fortemente o Brasil e deixou uma Independência falsa, soterrada por uma dívida externa que não devemos e até hoje, no luliberalismo, ainda se paga na forma de juros absurdos.

Luliberalismo? Delfim Netto: “O Lula tem virtudes e desvirtudes. Ele mudou o Brasil de forma importante, de forma a salvar o capitalismo” (O Globo, 20 de setembro de 2009)

Entregando o ouro

No entanto, todo o ouro surrupiado não contribuiu para que Portugal continuasse a grande potência da época dos descobrimentos. Esse ouro, cáspite!, acabou foi aprofundando a dependência de Portugal à Inglaterra.

O que Portugal comprava do florescente capitalismo inglês (hoje os endividados EUA compram da florescente China), era cobrado em muito ouro. Fomos nós, portanto, com nosso ouro, que financiamos a Revolução Industrial e o luxo europeu. Esse ouro, ufane-se, criou a grande força do capitalismo mundial.

Entregamos o ouro e sustentamos o florescimento do capitalismo no mundo, Lula entrega o ouro e salva o capitalismo no Brasil…

Foi a glória quando Napoleão enxotou d. João para o Brasil, pois assim partes da Europa, Ásia e África passavam a ser governadas daqui. É, sim: até a globalização fomos nós que iniciamos!

Agora o Brasil não era mais uma coloniazinha remota. Era a sede de uma tradicional monarquia europeia. Mas essa vinda aos trópicos entregou de vez a rapadura portuguesa à Inglaterra, que veio definitivamente a ser a grande beneficiária do ouro brasileiro.

Mais e mais perguntas

Além de devorar nosso ouro e com ele financiar o capitalismo/imperialismo no planeta azul, a Inglaterra nos passou a conversa e repentinamente estávamos lhe devendo os tubos, e cada vez mais.

Além de tomar nosso ouro, tomaram nossos melhores cérebros, colocando a seu favor, pagos com migalhas daquele ouro, os doutores, magistrados, governantes, parlamentares, fazendeiros, industriais, comerciantes.

Vemos aí que a roubalheira, a corrupção e a miséria que entristeceu nosso colega Jairo têm origem justamente numa grande riqueza: nosso ouro.

Ao irrespondível, há que responder com mais perguntas: como pôde toda a riqueza gerada pela madeira que saiu do Oeste paranaense para reconstruir a Europa devastada pela II Guerra Mundial, e depois construir Brasília, gerar a atual criminalidade e a violência na periferia de Cascavel e Foz?

Como pode toda a riqueza gerada pela soja dar nessa gurizada que mata e morre, rouba e assalta a toda hora no centro e nos bairros?

Como pode todo o ouro brasileiro ter produzido a corrupção, a elite mais calhorda e venal do mundo, esses governinhos federal, estaduais e municipais luliberais cheios de lábia e escassa competência, as bolsas-família, bolsa-jagunço, CPMF, mensalão etc?

Porque o espaço acabou, talvez seja a hora de mais gente começar a responder a tantas (e incômodas) perguntas.

AS MEIAS LUTAS por alceu sperança / cascavel.pr

Gosto muito do senador Christovam Buarque, dos ambientalistas e especialmente dos estudantes, aos quais dediquei meu livro Cascavel, A História.

Mas é preciso ter esse radicalismo meio chato, e contudo necessário, de dizer a todos que de pouco resolve lutarAlceu sperança  - AJC (1)pontualmente pela educação, pela proteção ambiental, pelo passe-livre no ônibus.

Há muito canalha educado e de boas maneiras. O problema da destruição ambiental não é do “homem”, mas de um sistema cruel e injusto. E educar as pessoas para se acomodarem a ele não vai liquidá-lo.

Você pode ganhar o passe-livre hoje e não ter ônibus amanhã, porque o sistema é sacana: quem paga o transporte coletivo, de fato, é o trabalhador que aguenta chuva e vento no ponto de ônibus, e não o prefeito aburguesado ou o governador falastrão, diante de cujos palácios as passeatas são feitas.

Se os professores, os ambientalistas e os jovens não perceberem que o problema é o capitalismo, ainda mais agressivo em sua atual etapa neoliberal, continuaremos vítimas da ideologia.

Seguiremos tomando atitudes politicamente corretas, como lutar pela educação integral, pelo ambiente repleto de belas borboletas e pelo estudante sem pagar lotação, mas estaremos cultivando e mantendo as grandes causas das desgraças e das injustiças deste mundo.

Em recente reunião, discutindo a importância da educação no processo de desenvolvimento político, a professora Ana Carla Marques da Silva alertou que a educação, por si mesma, não é nenhum instrumento revolucionário.

Por sua vez, a propósito da pasmaceira do movimento estudantil, hoje engabelado pela guarda pretoriana do lulismo, a professora Francis Mary Nogueira nos deu um recado magnífico:

“Não só o movimento estudantil, como o sindical e de esquerda, precisam entender o que está acontecendo para orientar as organizações”.

São questões incompreensíveis para quem sucumbiu à ideologia, essa coisa manipuladora e quase invisível que sacraliza o pontual e demoniza o geral.

As lutas pontuais são importantes, é claro, pois seria um absurdo estudante não brigar para ter professor em sala, desempregado não lutar por trabalho, favelado não reclamar casa, deserdado do campo se conformar em não ter terra.

É preciso inclusive intensificar todas essas e outras lutas. Mas ainda assim estaremos hipnotizados pelo pêndulo manipulado pela causa de toda essa desgraceira que nos aflige, enluta, entristece e deixa inseguros: a ideologia, que mente, distorce, esconde a verdade, privilegia o secundário, distrai com a irrelevância.

Um pêndulo a serviço do neoliberalismo, com sua economia desempregadora, sua precarização do trabalho, maximização de lucros dos banqueiros e das transnacionais, a adequação dos estados nacionais a seus propósitos desumanizantes.

Assim, as lutas pela educação, pelo meio ambiente e pelo passe-livre são apenas meias lutas, pois não focam as causas ocultas – e malandramente disfarçadas – do descalabro educacional, da destruição ambiental e do elevado custo do transporte urbano (e da vida, em geral).

Só a luz no fim do túnel não basta. É preciso abrir o olho para aproveitá-la e ver de fato o que acontece em nosso mundo: a prevalência do sistema de culto ao vencedor, que implica haver guerras.

Moderno, eficiente e poderoso, ele nos enreda em sua teia de trapaças, ameaçando a sobrevivência da espécie humana com o desastre do clima, por exemplo.

Um desastre que igualará na desgraça ricos e remediados aos famintos. O “socialismo” da infelicidade substituindo aquele que desejamos – o usufruto coletivo das riquezas.

ETERNOS de jb vidal / praia dos ingleses.sc

jb vidal

03/80

meu corpo no teu

acende a dúvida

.

ser ou estar

.

eu!? nós!?

.

gozo cósmico!?

.

prazer em deixar-me ir

onde estás ou sejas

.

sou inteiro em ti

.

estou metade

O VAGO de otto nul / palma sola.sc

Tenho que me entender

Com o vago, o vazio, o nada,

.

Caso contrário não chego

Ao âmago das coisas;

.

Me incapacito para o diálogo

De supinos saberes;

.

Só a linguagem muda,

Hermética, meio louca,

.

Pode ir ao fundo das questões

Ou trazer à luz o indizível;

.

Sem esse aprofundamento

É impossível colher o sumo

.

Supremo de que se compõem

Os mistérios da vida;

.

O vago é meu caminho,

Meu mestre de sutilezas.

SABICAS, O MAESTRO ESPANHOL toca: “FANTASIA”

para atender ao pedido do amigo e poeta MANOEL DE ANDRADE feito no post do PACO DE LUCÍA.

UM clique no centro do vídeo:

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11 DE SETEMBRO DE 2001 – 8 ANOS HOJE / PARA REFLETIR / editoria

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11 de setembro

INRI CRISTO concede entrevista ao TOCANDO.ORG / são paulo

Gostaria de agradecer o Senhor Inri Cristo por essa polêmica entrevista concedida ao Tocando.Org e as suas Discípulas pela prestatividade.

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Tocando.Org: Sei que essa pergunta todo mundo faz: Se Jesus morreu na cruz, ressuscitou, foi pro céu, porque ele voltaria pra esse mundo? Ele é você e você é ele?

INRI CRISTO: “Eu voltei porque eu prometi que voltaria, ninguém é obrigado a crer. Vim para dar continuidade à minha missão aqui na Terra. Voltei com um nome novo, INRI, o nome que paguei com meu sangue na cruz (Apocalipse c.3 v.12). Eu fui em espírito para o PAI, e não de carne e osso. Por isso voltei em espírito e recolhi meu corpo das entranhas de uma mulher. A ressurreição física é um delírio, uma loucura que inculcaram na cabeça do povo cristão. Quando me perguntaram quais seriam os sinais de minha vinda e do fim do mundo, respondi aos discípulos: “Porque ouvireis falar de guerras e de rumores de guerras, e se levantará nação contra nação, e reino contra reino, e haverá fomes, pestilências e terremotos em diversos lugares. Todas essas coisas são apenas o princípio das dores” (Mateus c.24 v.6 a 8). Agora o mundo está nas condições que meu PAI me mostrou já há dois mil anos. Basta ligar a televisão e ver que o mundo está um caos. E como nenhum Jesus voltou lá do céu voando igual a uma ave, mais cedo ou mais tarde terão que assimilar a realidade de que sou o mesmo de ontem, hoje e sempre”.

Tocando.Org: Sua mãe na sua primeira encarnação foi Maria? Se ela era virgem como deu a luz a uma criança? Seria José o maior corno da história?

INRI CRISTO: “A árvore genealógica registrada no Evangelho mostra bem claramente que foi José quem fecundou Maria, pois José era oriundo da linhagem de David (Mateus c.1 v.16). E para cumprir-se o que profetizara Isaías (“Uma virgem conceberá e dará à luz um filho, que se chamará Emanuel. Ele comerá manteiga e mel até que aprenda a separar o mal do bem” – Isaías c.7 v.14), Maria foi fecundada virgem por José, por obra do Espírito Santo, que juntou os dois em estado de sonambulismo antes de coabitarem. A virgindade de Maria não era himenal, pela presença de uma membrana a mais ou a menos; era a virgindade da pureza, uma vez que após o ato sexual praticado com José, ela continuava inconsciente da relação carnal. Diz-se que ela era virgem antes, durante e depois do parto. E conforme tu bem observaste, como ela poderia permanecer virgem depois do parto se a virgindade fosse himenal? É mister separar o mito dos fatos. Essa história de fecundação com espermatozóide vindo do céu é invencionice, fica por conta do imaginário dos idólatras que se comprazem em adorar os mitos e lendas impostos pelos pseudo-religiosos como verdades absolutas”.
(ver Maria Mulher no link http://www.inricristo.net/index.php/pt/enigmas-teologicos/maria-mulher-o-mito-sem-mascara ).

Tocando.Org: O que você acha das igrejas que exploram as pessoas, através dos dízimos e outras formas de extorsão? Sua seita faz isso? Como você sobrevive?

INRI CRISTO: “São os lobos com pele de ovelha que conseguem enganar os incautos, eles estão cumprindo o que eu já previ há dois mil anos: “Orai e vigiai, que ninguém vos engane. Porque falsos cristos e falsos profetas virão em meu nome, farão prodígios e enganarão a muitos, até os eleitos se possível fosse” (Mateus c.24 v.5 e 24). E o maior prodígio está justamente em chantagear o dízimo usando meu nome antigo (Jesus). Eles alegam que o dízimo é bíblico, e deveras é bíblico, mas é o dízimo do lucro, e não do miserável salário do obreiro, e o dízimo é para a Casa do SENHOR, e não para a toca do lobo com pele de ovelha. E justamente para diferenciar-me de todos eles, eu voltei com um nome novo, INRI (Suprema Ordem Universal da Santíssima Trindade), o nome que paguei com meu sangue na cruz (Apocalipse c.3 v.12) e em nome de meu PAI, SENHOR e DEUS. E a SOUST, por ser a formalização do Reino de DEUS sobre a Terra, na formação de um só rebanho e um só pastor (João c.10 v.16), sobrevive sob os auspícios da graça divina. Na SOUST não se pratica a chantagem do dízimo, a exploração da fé, e todos os sacramentos são realizados graciosamente, coerente com o que eu disse há dois mil anos: “Dai de graça o que de graça recebestes” (Mateus c.10 v.8). O SENHOR é o provedor, Ele inspira os filhos dEle a participar da provedoria da SOUST; cada um dá com a mão direita sem que a esquerda saiba quanto (Mateus c.6 v.3). Os filhos de DEUS participam da causa divina por ideal, por consciência, e para sentirem o sagrado vínculo com o SENHOR e seu santo reino de luz”.
(vide Provedoria do Reino de DEUS no link http://www.inricristo.org.br/pdf/provedoria_da_soust.pdf ).

edirmacedo

Tocando.Org: O que você acha do Pastor Edir Macedo?

INRI CRISTO: “Edir Macedo é o inspirado comandante da legião de roedores que têm a missão de roer o casco podre do meu antigo barco (a proscrita igreja romana, meretriz do Apocalipse c.17). Quanto mais eles roem, mais o meu antigo barco naufraga, para que o meu novo barco, a SOUST, possa flutuar suavemente”.
(vide Parábola do Barco Náufrago no link http://www.inricristo.net/index.php/pt/parabolas-de-inri-cristo/182-parabola-barco-naufrago ).

Tocando.Org: Se eu for um verdadeiro “filho-da-puta” (ladrão, safado, corrupto etc.) à vida toda e no final pedir perdão pra Deus, eu irei pro céu?

INRI CRISTO: “A ascensão espiritual ao plano superior dependerá do peso de teus pecados. Se tu cometeres todo esse rosário de crimes e pedires perdão, serás perdoado, mas como no céu, no infinito, não se alberga fugitivos da justiça terrenal, terás que ficar nas redondezas da Terra purgando como uma alma penada, até chegar a hora de conseguires um novo corpo para reencarnar. Mas se antes de desencarnar fizeres boas obras que anulem e sobrepujem os efeitos nefastos de teus pecados, terás a chance de subir e repousar no seio do PAI Celeste no infinito. Por isso não adianta se “converter pra Jesus” na ilusão de que “Jesus salva”, isso é alienação, esquizofrenia, fuga da realidade. Cada ser humano tem que acertar pessoalmente suas contas com a lei divina, que sintetizada em duas palavras é ação e reação, causa e efeito. Há dois mil anos, na condição de redentor, tive que resgatar os pecados que a humanidade cometera até então, porque havia sido eu, Adão, o Primogênito de DEUS, quem iniciara a humanidade no caminho do pecado. Mas inexiste anistia preventiva. Quem pecou depois terá que saudar o débito com a lei”.

Tocando.Org: Suas discípulas estão fazendo muito sucesso na internet com as versões místicas de musicas populares, de onde vem tanta inspiração?

INRI CRISTO: “A inspiração vem do ALTÍSSIMO, meu PAI, SENHOR e DEUS. Ele é quem inspira os seres humanos. Todas as artes que existem a serviço do bem são inspiradas por DEUS.”

assage-discipula-inri-cristodiscípula de inri cristo. foto sem autoria.

Tocando.Org: Elas não praticam sexo? São proibidas?

INRI CRISTO: “Elas não são proibidas, e sim optaram viver em pureza, perceberam o benefício de viver em pureza, porque o Reino de DEUS não é um reino de proibição, e sim um Reino de conscientização. No Reino de DEUS eu ensino os filhos de DEUS a viver em harmonia com a lei divina em estado de pureza, e a paz da Casa do SENHOR está entesourada na observância das leis do SENHOR. Mas do lado de fora dos muros da Casa do SENHOR, nós assimilamos o direito de todos fazerem o que quiserem de seus corpos, afinal a opção sexual de cada ser humano é uma questão de foro íntimo e ninguém tem o direito de interferir”.

Tocando.Org: Você sabe o dia de sua morte? Será enterrado onde?

INRI CRISTO: “Eu não posso saber o dia de minha morte porque a morte não existe, a morte é a renovação, é uma etapa para o recomeço de uma nova vida. Então eu jamais morrerei, meu espírito permanecerá vivo para sempre e um dia meu corpo será novamente recolhido pela mãe terra, que espera pacientemente seus filhos queridos para o reencontro místico da renovação”.

Tocando.Org: Pesquisas demonstram que 86% da internet é pornografia, o que você acha disso? Você costuma visitar esse tipo de site?

INRI CRISTO: “Considero isso um sinal dos tempos, mas não tenho ânimo, não tenho motivo para visitar essas páginas. Tenho consciência de que elas existem, e se eu sentisse atração iria ver, mas não sinto atração. Todas essas misérias da carne eu já conheço, já passei por tudo isso antes do jejum em Santiago do Chile, em 1979. Até então fui levado pelo meu PAI sem livre arbítrio a experimentar os pecados do mundo a fim de que eu pudesse compreender a natureza dos seres humanos. Meu PAI disse que o ápice da evolução humana passa necessariamente pelos estertores da carne. Tenho consciência de que tudo isso existe, faz parte do laboratório de experiências que o ser humano passa até sobrepujar as inquietudes da carne”.

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Tocando.Org: Além de jogar sinuca, você curte uma cervejinha com aperitivo, talvez um churrasquinho?

INRI CRISTO: “Eu não aprecio churrasquinho, posto que não tenho hábito de me alimentar de cadáver, seja cadáver de boi, de galinha, de porco ou qualquer outro. Prefiro os alimentos naturais. Todavia, tomo sim uma cervejinha vez por outra, nada contra”.

Tocando.Org: Em outra entrevista você afirmou já ter experimentado os prazeres da carne, isso aconteceu mesmo? Quando? Lembra quantas mulheres transou? Você transou com homens?

INRI CRISTO: “Há dois mil anos, antes de começar a vida pública como Jesus, com o nome de Emanuel, dos treze aos trinta anos experimentei os pecados do mundo inerentes àquela época (“Eis que o SENHOR vos dará este sinal: uma virgem conceberá e dará à luz um filho, que se chamará Emanuel. Ele comerá manteiga e mel até que aprenda a separar o mal do bem” – Isaías c.7 v.14). “Comer manteiga e mel” significa experimentar o doce e o azedo, as coisas boas e ruins, até obter o discernimento (nas traduções mais antigas da Bíblia se traduz, em lugar de manteiga, leite coalhado, que é azedo). Só passei a me chamar Jesus depois do jejum. Justo por haver me enlameado no pecados do mundo é que exigi ser batizado por João Batista (Mateus c.3 v.14 e 15), e só depois disso pousou sobre mim o Espírito Santo. E assim agora também, dos treze aos trinta anos, vivi os pecados do mundo, até que o SENHOR me levou ao jejum em Santiago do Chile e me deu poder sobre a carne. Desde então já não tenho as inquietudes carnais que são inerentes aos seres humanos. Mas quanto ao número de mulheres que estiveram comigo na alcova, nunca carreguei comigo uma calculadora nem agenda para registrar. Até o jejum eu vivia como profeta de um DEUS desconhecido, peregrinava de cidade em cidade e estava sempre de passagem, cumprindo o que está previsto em Apocalipse c.3 v.3: “Virei a ti como um ladrão e não saberás a que hora virei a ti”. Depois do jejum foi que tudo mudou”.

Tocando.Org: A igreja é contra métodos anticoncepcionais tal qual camisinha, qual sua postura em relação a isso?

INRI CRISTO: “Melhor seria que todos pudessem viver em pureza, como ensino meus discípulos, mas já que o ato sexual faz parte da vida dos habitantes da terra não só para fins procriativos e a explosão demográfica salta aos olhos, então eu recomendo aos meus filhos, principalmente aos jovens, que usem sim a camisinha não só para evitar a gravidez indesejada, mas também como prevenção, já que existem tantas pestilências, como AIDS, sífilis, etc. E eu posso lhes garantir, meus filhos, que usar camisinha não condenará ninguém ao inferno. Melhor saudável encamisado do que doente descamisado”.

Tocando.Org: Rumores apontam um possível fim do mundo em 2012, o que você tem a dizer sobre isso?

INRI CRISTO: “Há dois mil anos já me perguntaram quando seria o fim do mundo, aos que lhes respondi: “Mas quanto àquele dia e àquela hora, ninguém sabe, nem os anjos do céu, nem o Filho, mas só o PAI” (Mateus c.24 v.36). Portanto agora não vou mudar minha postura, continuo coerente com o que eu disse. O que posso vos dizer é que os homens, fazendo mal uso do livre arbítrio, construíram armas destrutivas, violaram as sagradas leis de DEUS e esqueceram-se também dos santos mandamentos. Semearam desta forma, através de atos e pensamentos, catástrofes e terremotos que, acompanhados da hecatombe nuclear, culminará com o fim deste mundo caótico. Menos de um milhão de pessoas restarão vivas na terra, e a maioria será constituída de mutilados que suplicarão a morte, que em princípio não lhes ouvirá. Então, como você bem disse, são rumores, assim como no ano 2000 pensaram que eu voltaria voando lá do céu de carne e osso e se decepcionaram. Tão somente o ano 2000, mais precisamente no dia 24/10/2000, foi quando o Poder Judiciário brasileiro reconheceu oficialmente meu nome como INRI CRISTO”.

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Tocando.Org: Você aceitaria ser penetrado no ato sexual conhecido como sexo anal, se para isso te pagassem 1 milhão de reais?

INRI CRISTO: “Em primeiro lugar, eu não pratico sexo, e em segundo lugar, não tenho ambição pessoal, não possuo nem jamais possuirei bens materiais. Logo, essa tua proposta não combina com minha condição, não condiz com minha realidade, pois vivo uma vida espiritual”.

Tocando.Org: Pra finalizar, poderia deixar sua mensagem para nosso nossos leitores e para todos os internautas brasileiros?

INRI CRISTO: “Rogo ao meu PAI, SENHOR e DEUS que vos inspire e ilumine para que, ao acessar o site www.inricristo.org.br , assimileis os ensinamentos que ministrei da parte d’Ele, facultando-vos viver em harmonia na Terra e sobrepujar as turbulências que estão por vir. Que tenhais todos a minha paz”.

BRDE abre inscrições para EXPOSIÇÕES / curitiba

BANCO REGIONAL DE DESENVOLVIMENTO DO EXTREMO SUL

Abertas as inscrições de propostas para exposições no Espaço Cultural BRDE

Artistas interessados em mostrar o seu trabalho no Espaço Cultural BRDE – Palacete dos Leões – em Curitiba, já podem apresentar projeto para o calendário de 2010-2011.  A coordenação do Espaço vai receber projetos para exposições individuais ou coletivas de artes visuais – pintura, desenho, gravura, fotografia, obras tridimensionais, instalações e outras técnicas. O prazo encerra-se no dia 30 de outubro. As propostas serão analisadas e aprovadas conforme os critérios constantes do regulamento de uso do espaço e de acordo com as vagas disponíveis no calendário de eventos.

Já passaram pelo Espaço Cultural BRDE este ano gravuras de Loizel Guimarães, pinturas de Edilson Viriato, esculturas de Espedito Rocha, pinturas e peças em cerâmica de Rossana Guimarães, desenhos e pinturas de André Mendes, além de outras duas exposições coletivas. Artistas com longa carreira, novos artistas, técnicas variadas e linguagens diversas fazem parte das opções oferecidas no Espaço Cultural BRDE. O pintor Jair Mendes e o fotógrafo alemão Stefan Moses também já tiveram suas obras expostas no prédio histórico.

O já consagrado escultor Alfi Vivern, diretor do Museu de Arte Contemporânea (MAC) em Curitiba, expôs no BRDE em 2008. “Foi ma-ra-vi-lho-so pelo fato de ter obras que faziam referência ao século passado, época em que o palacete foi construído. Uma delas foi uma instalação sem título, que dialogava com o ambiente do palacete antigo. Trata-se de um quarto de hotel ‘com estrelas negativas’ – alusão feita pelo autor às hospedarias que pecam pela qualidade. A instalação remete a um hotel de rodoviária, por onde circulam migrantes. A outra peça foi a escultura ‘Freud no Divã’. Eu tive muita sorte na ambientação. O diálogo entre as obras e a casa transcorreu em perfeita harmonia. Acho importante o artista ter consciência da importância desse diálogo entre o espaço e obra” comenta.

André Mendes, jovem artista plástico, recentemente teve seu trabalho exposto na antiga casa da família Leão. “O espaço é muito interessante, carrega uma longa história e tem uma energia muito boa. A localização também é boa, praticamente central e na rota de outros espaços culturais. Existem várias formas de incentivar o uso de um espaço cultural, assim como assessoria de imprensa, convites e divulgação porque uma exposição exige um investimento inicial com o qual muitas vezes o artista tem que arcar. É muito interessante e atraente para novos artistas a ajuda para material de divulgação, montagem, etc”.

O Palacete dos Leões também abre as portas para outras atividades culturais como oficinas, pequenos concertos, lançamento de livros ou CDs e palestras. Nestes casos, será observada a disponibilidade de data, bem como a capacidade máxima de pessoas no local. As propostas deverão ser apresentadas com no mínimo 30 (trinta) dias de antecedência em relação à data pretendida.

Espaço Cultural BRDE – Mantido e coordenado pelo BRDE – Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul, o Espaço Cultural iniciou suas atividades em junho de 2005, no Palacete dos Leões, construção histórica de Curitiba, e desde então já recebeu mostras das mais variadas técnicas e linguagens. Além das exposições de artes visuais, também possibilitou apresentações de grupos musicais e lançamentos de livros. Considerado pelos artistas como um espaço nobre, o casarão da Rua João Gualberto, no Bairro Alto da Glória, por si só é uma obra de arte. Concluída em 1902, para ser residência da família de Ermelino de Leão Júnior, a construção é tombada pelo patrimônio histórico e é testemunho do ciclo da erva mate, um dos períodos mais prósperos da economia paranaense.

O regulamento para apresentação de propostas encontra-se disponível no site www.brde.com.br, e maiores informações podem ser obtidas no local.

Espaço Cultural BRDE – Palacete dos Leões
(41) 3219-8056

Poliana Dal Bosco
Estagiária / ASCOM
Fone: 41 3219.8035
Fax: 41 3219.8153

www.brde.com.br

CHARLES BUKOWSKI entrevistado pelo ator SEAN PENN / los angeles.ca

quinze anos passados desde a morte do escritor (09/03/1994), reproduzimos uma célebre entrevista feita pelo ator Sean Penn. O encontro ocorreu em 1987, quando o ator estava em Los Angeles para protagonizar Barfly, um filme-biografia sobre a vida de Bukowski, que ultrapassou em muito o território da literatura. Na última hora, porém, Sean perdeu o papel que foi entregue a Mickey Rourke. A entrevista se manteve e tornou-se memorável. Por razões de edição, a intervenção de Sean Penn concentra-se em escolher assuntos, pontos, questões que Charles Bukowski enfrenta como sempre: debochadamente, desbocadamente, cinicamente e… apaixonadamente, como era do feito daquele último beatnik, primeiro punk, amante das mulheres, das corridas e proprietário de frases e pensamentos sem freios.

BARES:
“Eu não vou muito a bares. Tirei isso do meu sistema. Hoje, quando entro num bar, sinto náuseas. Freqüentei muito, enche o saco. Os bares servem para quando somos jovens e queremos brigar, dar uma de macho, arrumar umas mulheres. Na minha idade, eu não preciso mais dessas coisas. Agora só entro nos bares para urinar. Às vezes, entro e já começo a vomitar”.

ÁLCOOL:
“O álcool é provavelmente uma das melhores coisas que chegaram à Terra, além de mim. Nos entendemos bem. É destrutivo para a maioria das pessoas, mas eu sou um caso à parte. Faço todo o meu trabalho criativo quando estoubukowski025intoxicado. O álcool, inclusive, me ajudou muito com as mulheres. Sempre fui reticente durante o sexo, e ele me permitiu ser mais livre na cama. É uma liberação porque basicamente eu sou uma pessoa tímida e introvertida, e ele me permite ser este herói que atravessa o espaço e o tempo, fazendo uma porção de coisas atrevidas… O álcool gosta de mim.”

FUMAR:
“O cigarro e o álcool se equilibram. Certa vez, ao despertar de uma embriaguês, notei que havia fumado tanto que minhas mãos estavam amarelas, quase marrons, como se eu tivesse colocado luvas. E passei a reclamar: ‘Droga! Como estarão os meus pulmões?’”

BRIGAR:
“A melhor sensação é quando você acerta um sujeito que todo mundo acha impossível. Certa ocasião enfrentei um cara que estava me xingando. Falei pra ele: ‘Tudo bem, venha’. Não tive problema – ganhei a briga facilmente. Caído no chão, com o nariz ensangüentado, ele falou: ‘Jesus, você se move tão lentamente que pensei que seria fácil. Mas quando começou a briga, eu não conseguia nem ver as tuas mãos. O que aconteceu?’. Respondi: ‘Não sei, cara. As coisas são assim. Um homem se prepara para o dia que precisa’.”

GATOS:
“É bom ter um monte de gatos em volta. Se você está mal, basta olhar pra eles e fica melhor, porque eles sabem que as coisas são como são. Não tem porque se entusiasmar com a vida, e eles sabem. Por isso, são salvadores. Quantos mais gatos um sujeito tiver, mais tempo viverá. Se você tem cem gatos, viverá dez vezes mais que se tivesse dez. Um dia, isso será descoberto: as pessoas terão mil gatos e viverão para sempre.”

MULHERES, SEXO:
“Eu as chamo de máquinas de queixas. As coisas entre elas e os homens nunca estão bem para elas. E quando vêm com essa histeria… Ah, eu tenho que sair, pegar o carro, ir embora para qualquer lugar. Tomar café em algum canto, fazer qualquer coisa, menos encontrar outra mulher. Acho que elas são feitas de maneira diferente, não? Quando a histeria começa, o cara tem de ir embora e elas não entendem porque. ‘Onde vai?’, gritam. ‘Vou à m…, querida!’. Pensam que sou um misógino, mas não é verdade. É fofoca. Ouvem por aí que Bukowski é ‘um porco chauvinista’, mas não vêm de onde partiu o comentário. Verdade! Às vezes, eu pinto uma má imagem das mulheres nos meus contos, e faço a mesma coisa com os homens. Até eu me ferro nesses escritos. Se realmente não gostar de uma coisa, digo que é ruim, seja homem, mulher, criança ou cachorro. As mulheres são tão encanadas que pensam que são meu alvo especial. Esse é o problema delas.”

PRIMEIRA VEZ:
“Minha primeira vez foi insólita. Não sabia como fazer, e ela me ensinou todas essas coisas de sacanagem. Lembro que ela dizia: ‘Hank, você é um bom escritor, mas não sabe nada sobre as mulheres.’ ‘O que você está dizendo? Eu já estive com uma porção de mulheres.’ ‘Não, não sabe nada. Vou te ensinar algumas coisas.’ Concordei. Depois, e ela disse: ‘Você é bom aluno, entende rápido’. [Bukowski faz cara de envergonhado. Não pelos detalhes, mas pelo sentimento da lembrança.] Mas esse assunto de … Eu gosto de servir a mulher, mas isso tudo tá tão exagerado! O sexo só é bom quando você não o faz.”

ESCREVER:
“Escrevi um conto a partir do ponto de vista de um violentador de uma menininha. E as pessoas passaram a me acusar. Diziam: ‘Você gosta de violentar criancinhas?’. Eu disse: ‘Claro que não. Estou fotografando a vida’. De repente, estava envolvido com uma porrada de problemas. Por outro lado, os problemas vendem livros. Em última instância, eu escrevo para mim. [Bukowski dá uma longa tragada em seu cigarro.] É assim. A tragada é para mim, a cinza é para o cinzeiro. Isto é publicar. Nunca escrevo de dia porque é como ir pelado a um supermercado – todos te podem ver. À noite é quando saem os truques da manga… E vem a magia.”

POESIA:
“Faz séculos que a poesia é quase um lixo total, uma farsa. Tivemos grandes poetas, entenda bem. Existiu um poeta chinês chamado Li Po que tinha a capacidade de colocar mais sentimento, realismo e paixão em quatro ou cinco simples linhas que a maioria dos poetas em suas doce ou treze páginas de m… Li Po bebia vinho também e costumava queimar seus poemas, navegar pelo rio e beber vinho. Os imperadores o amavam porque entendiam o que ele dizia. Lógico que ele só queimou os maus poemas. O que eu quis fazer, desculpem, é incorporar o ponto de vista dos operários sobre a vida… Os gritos de suas esposas que os esperam quando voltam do trabalho. As realidades básicas da existência do homem comum… Algo que poucas vezes se menciona na poesia há muito tempo.”

SHAKESPEARE:
“É ilegível e está demasiadamente valorizado. Só que as pessoas não querem ouvir isso. Ninguém pode atacar templos. Shakespeare foi fixado à mente das pessoas ao longo dos séculos. Você pode dizer que fulano é um péssimo ator, mas não pode dizer que Shakespeare é uma m… Quando alguma coisa dura muito tempo, os esnobes começam a se agarrar a ela como pás de um ventilador. Quando os esnobes sentem que algo é seguro, se apegam. E se você lhes disser a verdade, eles se transformam em bichos. Não suportam a negação. É como atacar o seu próprio processo de pensamento. Esses caras me enchem o saco.”

HUMOR E MORTE:
“Para mim, o último grande humorista foi um cara chamado James Thurber. Seu humor era tão real que as pessoas gritavam de rir, como numa liberação frenética. Eu tenho um ‘fio cômico’ e estou ligado a ele. Quase tudo o queCHARLES BUKOWISKI - FOTOsem títuloacontece é ridículo. Defecamos todos os dias – isso é ridículo, não? Temos que continuar urinando, pondo comida em nossas bocas, sai cera de nossos ouvidos… As tetas, por exemplo, não servem para nada, exceto…”.

NÓS:
“A verdade é que somos umas monstruosidades. Se pudéssemos nos ver de verdade, saberíamos como somos ridículos com nossos intestinos retorcidos pelos quais deslizam lentamente as fezes… enquanto nos olhamos nos olhos e dizemos: ‘Te amo’. Fazemos e produzimos uma porção de porcarias, mas não peidamos perto de uma pessoa. Tudo tem um fio cômico.”

GANHAR:
“E depois de tudo, morremos. Mas a morte não nos ganhou. Ela não mostrou nenhuma credencial; nós é que nos apresentamos com tudo. Com o nascimento, ganhamos a vida? Não, verdadeiramente, mas a f.da p. da morte nos sufoca… A morte me provoca ressentimento, a vida também, e muito mais estar pressionado entre as duas. Você sabe quantas vezes eu tentei o suicídio? Me dá um tempo, tenho só 66 anos. Quando alguém tem tendências suicidas, nada o incomoda, exceto perder nas corridas de cavalos.”

AS CORRIDAS:

“Durante um tempo quis ganhar a vida com as corridas de cavalos. É doloroso, vigoroso. Tudo está no limite, o dinheiro do aluguel, tudo. É preciso ter cuidado. Uma vez, eu estava sentado numa curva, haviam doze cavalos na disputa, todos amontoados. Parecia um grande ataque. Tudo o que eu via era essas grandes traseiras de cavalos subindo e descendo… Pareciam selvagens. Pensei: ‘Isso é uma loucura total’. Mas tem outros dias em que você ganha 400 ou 500 dólares, ganha oito ou nove corridas, e se sente Deus, como se soubesse tudo.”

AS PESSOAS:
“Não olho muito as pessoas. É perturbador. Dizem que se você olha muito para uma outra pessoa acaba ficando parecido com ela. Pobre Linda! Na maioria das vezes eu posso passar sem as pessoas. Elas me esvaziam e eu não respeito ninguém. Tenho problemas nesse sentido. Estou mentindo, mas, creia-me: é verdade.”

A FAMA:
”É uma cadela, é a maior destruidora de todos os tempos. A fama é terrível, é uma medida numa escala do denominador comum que sempre trabalha num nível baixo. Não tem valor nenhum. Uma audiência seleta é muito melhor.”

SOLIDÃO:
”Nunca me senti só. Durante um tempo fiquei numa casa, deprimido, com vontade de me suicidar, mas nunca pensei que uma pessoa podia entrar na casa e curar-me. Nem várias pessoas. A solidão não é coisa que me incomoda porque sempre tive esse terrível desejo de estar só. Sinto solidão quando estou numa festa ou num estádio cheio de gente. Cito uma frase de Ibsen: ‘Os homens mais fortes são os mais solitários’. Viu como pensa a maioria: ‘Pessoal, é noite de sexta, o que vamos fazer? Ficar aqui sentados?’. Eu respondo sim porque não tem nada lá fora. É estupidez. Gente estúpida misturada com gente estúpida. Que se estupidifiquem eles, entre eles. Nunca tive a ansiedade de cair na noite. Me escondia nos bares porque não queria me ocultar em fábricas. Nunca me senti só. Gosto de estar comigo mesmo. Sou a melhor forma de entretenimento que posso encontrar.”

TEMPO LIVRE:
“É muito importante e temos que parar por completo, não fazer nada por longos períodos para não perdê-los inteiramente. Ficar na cama olhando o teto. Quem faz isso nesta sociedade moderna? Pouquíssimas pessoas. Por isso é que a maioria está louca, frustrada, enojada e com ódio. Antes de me casar, ou de conhecer muitas mulheres, eu baixava as cortinas e me punha na cama por três ou quatro dias. Levantava só para ir ao banheiro e comer uma lata de feijão. Depôs me vestia e saía à rua. O sol brilhava e os sons eram maravilhosos. Me sentia poderoso como uma bateria recarregada.”

BELEZA: “A beleza não existe, especialmente num rosto humano – ali está apenas o que chamamos fisionomia. Tudo é um imaginado, matemático, um conjunto de traços. Por exemplo, se o nariz não sobressai muito, se as costas estão bem, se as orelhas não são demasiadamente grandes, se o cabelo não é muito comprido. Esse é um olhar generalizante. A verdadeira beleza vem da personalidade e nada tem a ver com a forma das sobrancelhas. Me falam de mulheres que são lindas… Quando as vejo, é como olhar um prato de sopa.”

FIDELIDADE:
“Não existe. Há algo chamado deformidade, mas a simples fidelidade não existe.”

IMPRENSA:
“Aproveito as coisas más que dizem sobre mim para aumentar a venda de livros e me sentir malvado. Não gosto de me sentir bem porque sou bom. Mas, mau? Sim, me dá outra dimensão. Gosto de ser atacado. ‘Bukowski é desagradável!’ Isso me faz rir, gosto. ‘É um escritor desastroso!’ Rio mais ainda. Mas quando um cara me diz que estão dando um texto meu como material de leitura numa universidade, fico espantado. Não sei, me assusta ser muito aceito. Parece que fiz alguma coisa errada.”

O DEDO:
[Ergue o dedo mínimo de sua mão esquerda] “Você viu alguma vez este dedo? [O dedo parece paralisado em forma de “L”]. Quebrei uma noite, bêbado. Não sei porque, ele nunca voltou ao normal. Mas funciona bem para a letra ‘a’ da máquina de escrever, e – que mistério! – acrescenta coisas aos meus personagens.”

VALENTIA:
“Falta imaginação à maioria das pessoas supostamente valentes. É como se não pudessem conceber o que aconteceria se alguma coisa saísse mal. Os verdadeiros valentes vencem a sua imaginação e fazem o que devem fazer.”

MEDO:
“Não sei nada sobre isso.” [Ri]

VIOLÊNCIA:
“Acho que, na maioria das vezes, a violência é mal interpretada. Faz falta uma certa violência. Existe em nós uma energia que precisa ser liberada. Se ela for contida, ficamos loucos. Às vezes, chamam de violência à expulsão da energia com honra. Existe loucura interessante e loucura desagradável; há boas e más formas de violência. Sei que é um termo vago, mas ela fica bem se não acontecer às custas dos outros.”

DOR FÍSICA:
“Com o tempo, o cara se endurece e agüenta. Quando eu estava no Hospital Geral, um cara entrou e disse: ‘Nunca vi ninguém agüentar a agulha com tanta frieza’. Ora, isso não é valentia. Se o sujeito agüenta, alguém cede. É um processo, um ajuste. Mas não existe maneira de se acostumar com a dor mental. Fico longe dela.”

PSIQUIATRIA:
“O que conseguem os pacientes psiquiátricos? Uma conta. Creio que o problema entre um psiquiatra e seu paciente é que o psiquiatra atua de acordo com o livro, ainda que o paciente chegue pelo que a vida lhe fez. E mesmo que o livro possa ter certa astúcia, as páginas sempre são as mesmas e cada paciente é diferente. Existem muito mais problemas charles-bukowskiindividuais que páginas. Tem muita gente louca para resolvê-los, dizendo: ‘São tantos dólares por hora e quando a campainha tocar a sessão estará terminada’. Isso só pode levar um cara um pouco louco à loucura total. Quando as pessoas começam a se abrir e sentir bem, o psiquiatra diz: ‘Enfermeira, marque a próxima consulta’. O cara tá aí para sugar, não para curar. Quer o teu dinheiro. Quando toca a campainha, que entre o louco seguinte. Aí o louco sensível vai perceber que quando toca a campainha, é sinal que o f… Não existem limites de tempo para curar a loucura. Muitos psiquiatras que vi parecem estar no limite deles mesmos, mas estão bem acomodados. Ah, os psiquiatras são totalmente inúteis. Próxima pergunta…”

FÉ:
“Tudo bem que as pessoas a tenham, mas não me venham enfiar isso na cabeça. Tenho mais fé no encanador que no Ser Eterno.”

CINISMO:
“Me chamaram sempre de cínico. Creio que o cinismo é uma uva amarga, uma debilidade. É dizer: ‘Tudo está uma m… Isso não tá bom, aquilo tá ruim’. O cinismo é a debilidade que evita que nos ajustemos ao que acontece no momento. O otimismo também é uma debilidade: ‘O sol brilha, os pássaros cantam, sorria.’ Isso é uma m… igual. A verdade está em algum ponto entre os dois. O que é, é. Se você não está disposto a suportar a verdade, dane-se!”

MORALIDADE CONVENCIONAL:
“Pode ser que não exista o inferno, mas os que julgam podem perfeitamente criá-lo. As pessoas estão muito domesticadas. O cara tem que ver o que acontece e como vai reagir. Vou usar um termo estranho aqui: o bem. Não sei de onde vem, mas sinto que existe um componente de bondade em cada um de nós. Não acredito em Deus, mas creio nessa ‘bondade’ como um tubo que está dentro de nossos corpos e que pode ser alimentada. Ela é sempre mágica quando, por exemplo, numa estrada sobrecarregada de automóveis, um estranho te oferece lugar para mudar de mão.”

SOBRE SER ENTREVISTADO:
“É vergonhoso e, por isso, nem sempre digo toda a verdade. Gosto de brincar e mentir um pouco. Daí que dou informações falsas só pelo gosto de distrair. Se quiserem saber alguma coisa de mim, não leiam uma entrevista. Ignorem esta, também”.

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jb vidal

COMO SE POLUI UM RIO (PARTE I) por gil portugal / rio de janeiro

Em realidade, despoluir ou não poluir um rio é uma tarefa de múltiplas facetas e exige atuações postas tais quais um feixe de retas paralelas em uma mesma direção.

Em primeiro lugar, para coordenar idéias, compete definir aquilo que é, para um rio, o seu elemento ou elementos vitais, a partir de que ele será um rio “com saúde”.

Desculpem-me se, daqui para frente, passarei a escrever sobre o óbvio mas, se o farei, nada mais é que para ordenar a linha de pensamento.

Na massa d’água corrente de um rio existem um sem número de organismos vivos dos reinos vegetal e animal e em todos os graus de entrosamento. É um ecossistema. E a Natureza nos ensina que todo ecossistema tem que viver harmoniosamente.

Vejamos, para começar, o reino animal que está presente no rio. A grande maioria de seus membros, devido ao rio, sobrevive, porque ali se alimenta e respira (oxigênio) ar e por isso, eles são animais aeróbios. Se não existissem no rio alimento ou ar eles morreriam. Com isso, tira-se a primeira conclusão: o ar, isto é, o oxigênio é peça indispensável para a sobrevivência do ecossistema, da mesma forma que o alimento, como para qualquer animal, e que, neste caso é a matéria orgânica. Acontece que a respiração é a função primordial, visto que, à sua falta o animal perece de imediato, donde se conclui que o oxigênio é a matéria prima fundamental para a sobrevivência do ecossistema rio.

Basicamente, o oxigênio estará presente na massa líquida por dois processos: a diluição em contato com o ar atmosférico e a fotossíntese devida aos vegetais. E aí, podemos chegar à primeira grande conclusão: se não houver diluição de contato e fotossíntese somadas em quantidade suficiente, fornecendo oxigênio para atender a fauna, ela perecerá gradativamente, até a posição de equilíbrio com a demanda.

O animal respira oxigênio e expira CO2 (dióxido de carbono), se alimenta de matéria orgânica e a transforma em minerais; a planta absorve o CO2 e através da fotossíntese, regenera o oxigênio.

Essa teoria é límpida e certa e com ela, podemos analisar um a um os fatos que fazem “adoecer” um rio e, com isso, nominar cada reta do nosso feixe de paralelas citado. Vejamos:

Desmatamentos – A retirada de um vegetal do solo ou mesmo sua morte, enfraquecerá a resistência mecânica desse solo graças a fixação que havia pelas raízes. Ao perder essa resistência, as águas de chuva iniciam um processo de erosão que, invariavelmente, mesmo que longe do curso d’água, irá carregar para os leitos desse curso, quantidades anormais de sólidos, levando ao processo de assoreamento.

O assoreamento conduz a dois acontecimentos, um deles de caráter não ambiental propriamente dito, que é a diminuição da seção fluída e com isso, provocará alagamento extra-caixa do rio e o outro ambiental, que se dá pelo soterramento dos vegetais de fundo e inibição da penetração para eles do oxigênio, passando, aí, a ocorrer outro processo de decomposição do material orgânico soterrado – sem a presença de oxigênio – através de organismos ditos anaeróbios (que não necessitam do oxigênio dissolvido para respirarem) mas que, ao invés de darem como produto o dióxido de carbono e minerais (insumos para a fotossíntese), produzirão gases derivados de carbono e do enxofre como o metano, as mercaptanas e os gases sulfurosos, venenos para a fauna aeróbia.

Agrotóxicos – São substâncias utilizadas em plantações com a finalidade de matar organismos nocivos à saúde dessas plantações; evidentemente que, essas substâncias, mais cedo ou mais tarde, pelas chuvas, serão carreadas para um curso d’água, continuando ali seu efeito tóxico sobre outros organismos que não aqueles a que se destinavam eliminar. Tais organismos, principalmente os microorganismos, são exatamente aqueles que se encarregam de fazer a decomposição das substâncias orgânicas no seio da massa líquida e se eles estão mortos ou doentes, funcionarão como mais alimentos a serem consumidos, ao invés de transformadores de alimentos.

Adubos – São substâncias colocadas em plantações com a finalidade de abastecê-las de seus elementos vitais como o nitrogênio, o potássio e o fósforo, são as “vitaminas” da flora e estimulam seu crescimento. De uma forma ou de outra, parte desses adubos serão carregados para os rios e ali incentivarão o crescimento dos vegetais aquáticos, principalmente os minúsculos como as algas e esse crescimento exagerado fará acontecer o fenômeno de eutrofização (proliferação exagerada de vegetais) que turvará de verde as águas, dificultando a penetração de luz solar, imprescindível à fotossíntese (que é geradora de oxigênio).

Barragens – O turbilhonamento das águas é fator que facilita a dissolução de oxigênio do ar na água. Se as águas ficam tranqüilas, caso das águas barradas, a tendência à oxigenação diminui à montante (antes) da barragem e também, fica facilitada a deposição de poluentes pesados que comprometem o ecossistema; de positivo, nesse caso, há um favorecimento na depuração das águas à jusante (depois).(continua…)

angela – de jorge barbosa filho / curitiba

angela

essa moça

quando canta blues

lembra a leveza

de um zagueiro

do Bangu.

e quando canta

leva a certeza

de um drible de língua

e um beijo

por de baixo das pernas.

essa moça canta

uma partida

de um amor perdido

mas no último minuto

ganha-o no grito.

horas ácidas – de charles silva / florianópolis

seis horas
ela já vem vaidosa
de corpete liga e lingerie
a noite é uma fêmea impecável
sombra e rímel realçam a malícia
as unhas compridas aguardam o descuido das presas
são fantasmas que como eu percorrem os becos em busca de gozo fácil

sete e meia
o amendoim salgado alegra o gosto adocicado da cerveja
mulheres passam tingindo pêlos passos pensamentos
o que há em mim de fantasma não se apressa
o blefe da noite é comprido
os jogos noturnos implicam baralhos sutis
são lances de olhares coringas febris e damas que trocam seus pares

oito e quarenta e sete
um fantasma perambula pelas ruas da cidade
o mistério dessas margens é fazer dos habitantes uma ilha
por não saber nadar fico preso seco e viro pó

dez gramas e meio
agora o copo é de uísque
novos fantasmas sorriem pra mim
desenvolvo argumentos fantásticos que nunca usei
pensá-los assim tão vivos alegres arregalados assusta
da janela uma mulher astuta me deseja
ou deseja apenas o que a língua acusa

um ácido e meio
a ilha inteira flutua
surfistas abotoam o vestido das ondas
por que meus pais não me contaram essa história?
bungee jumpo-me do mundo!

duas torradas com pasta de cogumelo
as cadeiras jantam os garçons
corro e caio e exponho os ossos
ergo-me lobato cobra norato aladim
os ladrões de ali babá já somam dezesseis bentos
alice mata um coelho
bovary papa um convento

cinco ecstasys e meio da madrugada
pouca ilha… muita água
a língua trava

INTI PEREDO – 40 ANOS DA MORTE DE UM BRAVO – por manoel de andrade / curitiba

Após quatro meses no Chile, cheguei em La Paz em 02 de setembro de 1969. Trazia uma referência de Santiago para contato com um membro de Exército de Liberação Nacional da Bolívia (ELNB), onde pretendia ingressar.

Ambientava-me ainda na cidade, quando ao fim daquela primeira semana o país foi sacudido por uma trágica notícia: o guerrilheiro Inti Peredo, comandante do ELNB fora morto por forças combinadas da Polícia e do Exército num bairro central  de La Paz.

Lugar-tenente de Che Guevara na guerrilha boliviana, sobrevivente do trágico combate na Quebrada do Yuro em outubro de 1967, estrategista da audaciosa retirada pela fronteira com o Chile, onde o esperava o senador Salvador Allende e reorganizador da luta armada na Bolívia depois da morte do Che, o guerrilheiro Inti Peredo, morreu assassinado aos 32 anos, no dia 09 de setembro de 1969.

Nascido em 30 de abril de 1937, em Cochabamba, Alvaro Inti Peredo Leigue era  filho do escritor boliviano Rômulo Peredo. Aos 13 anos já militava no Partido Comunista Boliviano, seguindo muito jovem para estudar na escola do Partido no Chile e dali para Moscou em 1962 para um curso político. No ano seguinte, já de volta, desloca-se para o norte da Argentina, dando apoio ao Exército Guerrilheiro do Povo, dirigido pelo jornalista Jorge Ricardo Masetti, na região de Salta. Posteriormente colabora com a guerrilha peruana e em 1966 faz treinamento militar em Cuba. Volta a Bolívia em 1967, rompe com Mario Monje, secretário geral do Partido Comunista Boliviano e adere à guerrilha comandada por Che Guevara.

Sobrevivente de Ñacahuazu, escapa pela fronteira do Chile, volta a Cuba e em maio de 1969 retorna clandestinamente à Bolívia para reorganizar a guerrilha. Dois meses depois, lança sua mensagem “Voltaremos às Montanhas”, que comoveu o opinião pública do país e deu início a sua brutal perseguição por parte do governo. Delatado seu esconderijo em La Paz, a casa  foi cercada  e sozinho resistiu por uma hora ao ataque de 150 policiais e militares, até que uma granada lançada por uma janela o feriu gravemente.  Arrombada a porta, finalmente foi preso, sem jamais ter se rendido.

Inti Peredo foi selvagemente torturado pelo seu heroico silêncio e barbaramente assassinado a cuteladas de fuzil pelo sanguinário coronel Roberto Toto Quintanilla, o mesmo que mandou cortar as mãos do cadáver do Che, em La Higuera.

Diante de sua morte, meus planos foram totalmente frustrados. Convidado, naqueles dias para participar do Segundo Congresso Nacional de Poetas,  a realizar-se em Cochabamba,  entre 22 e 27 de setembro, transformei minha frustração e minha revolta em versos escrevendo  um poema em homenagem a Inti Peredo,  para dizê-lo, correndo todos os riscos, em pleno Congresso.  Foi meu primeiro poema escrito em espanhol e no dia 25, ao encerrar minha apresentação ante o grande auditório do Palácio da Cultura, declamei o poema: “El guerrilleiro”, explicitando meu tributo poético ao grande combatente assassinado há duas semanas em La Paz.

A Bolívia, naqueles dias, respirava uma pesada atmosfera de golpe e em 26 de setembro cai o presidente democrata Luis Adolfo Siles Salinas e toma o poder e general Alfredo Ovando Candia, responsável pelo grande massacre de mineiros, em junho de 1967, conhecido como “La noche de San Juan”. No dia seguinte fui detido, interrogado e posteriormente liberado por intervenção dos organizadores do Congresso, com a condição que deixasse o país em 48 horas.

Neste 09 de setembro de 2009, solidário com a memória das lutas da América Latina e comemorando o aniversário de morte de Inti Peredo, publico aqui  o poema “ O guerrilheiro”,  em espanhol, escrito exatamente há quarenta anos, em Cochabamba, como meu lírico tributo a um dos maiores revolucionários do Continente.

coco_peredo_nato_loyola_guzman_Inti_402x256na foto: coco peredo, nato, loyola guzmán e inti peredo na selva boliviana.

El guerrillero

En memoria de Inti Peredo

El guerrillero, señores

es un sueño armado que marcha

en el suelo injusto de la patria.

Sabe que quien tiene la tierra

no la reparte sin guerra…

y en ese áspero camino

es um pájaro sin nido

migrando para el porvenir.

.

el guerrillero, señores

es una flor clandestina

que se abre en la mata inmensa

cuando los ecos de la montaña

rompen el silencio del tiempo

y revelan el puño escondido

en las manos agrarias de un pueblo.

.

Su cuerpo… es su trinchera,

su vida por una bandera…

por su honor, por su fe

y su destino trazado.

Si cae… sigue erguido en la verdad

cuando la voz de la libertad

sorviendo la taza de hiel

es un grito asesinado.

.

Ay qué dureza en tus puños

hijo querido del pueblo.

Con qué ternura forjaste

tu corazón de granada

Pues abatieron este hombre

es la esperanza sangrada

y vivo está con su fuego

renaciendo en cada niño

ay, niño sin hogar, sin pan

tu heroico padre de estaño

fue minero masacrado

en una noche de San Juan

.

En la memoria del pueblo

en la sangre continental

fue tu estatua de espanto

que yo esculpí con mi canto

con mi dolor de extranjero

ay, hermano boliviano

ay, un sol asesinado

en tu cuerpo de sendero.

.

pero el alba rompe el día

en la patria y en el corazón

y vivo estás compañero

en el rastro azul de tus pasos.

Ay qué destino tan lindo

América como bandera…

Señores, no tengo patria

soy latino y americano

y e1 guerrillero más bravo

no conoció las fronteras.

.

Compañeros, camaradas

ya es la hora de partir…

Camilo Torres, Guevara

Inti Peredo y Sandino

enseñaron que el sueño

es la palanca del destino.

Pues canten siempre en mi canto

los mártires de la libertad

pocos pueden presentir

que detrás del velo del tiempo

los coágulos de su sangre

son el pan del porvenir.

.

Cochabamba, septiembre de 1969

Este poema, en versión bilingüe, consta del libro

POEMAS  PARA A LIBERDADE, editado por Escrituras

BORRA ASSINADA de lilian reinhardt


(líricas de um evangelho insano)

No fundo da xícara
a borra do meu olhar.
Dos olhos borrados de pó,
de orvalho salgado,
no (dó)i do teclado que ouço
e não entendo…
meu olhar geométrico
se perde na mancha abstrata,
onde assino?!

CONSIDERAÇÕES PESSOAIS EM TORNO DE FERNANDO PESSOA, OFÉLIA E ÁLVARO DE CAMPOS – por zuleika dos reis / são paulo


Álvaro de Campos se intrometeu e destruiu o romance entre Fernando Pessoa e Ofélia Queirós.

Amar um homem sabendo que ele nos ama e que também é outro que nos odeia. Perceber, aos poucos, que este outro vai ganhando mais e mais força, vai nos exilando daquele que, nele mesmo, nos ama; saber também que somos uma e apenas uma. Conviver com essa inalienável unidade e, tendo somente dezenove anos, nos sentirmos obrigada a compreender a dualidade essencial do ser amado e a aceitá-la, a esta dualidade que é, de certo modo, a nossa sentença de morte.

Álvaro de Campos venceu. Paladino da literatura, guerreiro da palavra, ganhou definitivamente Pessoa para si e para Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Bernardo Soares e outros mais. Para isso, Ofélia teve que ser sacrificada. Hamlet português, Ofélia portuguesa, que não enlouqueceu, que guardou durante muitos anos, no anonimato e na clausura de um cofre, as cartas de amor de seu poeta. Durante quinze anos, esperou por ele de algum modo, esperou por uma rendição de Álvaro de Campos e dos outros a Fernando Pessoa, na verdade rendição de todos a um outro do Fernando Pessoa ele – mesmo, como o poeta se auto intitulava, e que era apenas mais um heterônimo.

Esperou em vão, a literatura venceu. Ganhamos todos. Algo se perdeu? Quem o perdeu? O que teria sido se, em determinado dia de um distante outubro do começo do século XX, Fernando Pessoa não tivesse dado à luz Álvaro de Campos? E se este, nos dezenove anos de Ofélia, não tivesse manifestado a força e a vontade implacáveis que afastaram Fernando de Ofélia? Existiria a Obra que houve, que há? Afinal, o que teria existido se o grande poeta houvera optado por viver, ao invés de navegar… e navegar… e… navegar?

Só temos o que temos, só existe o que existe e em mim esta repentina dor quando penso naquela musa quase adolescente a tomar parte, meio sem consciência, de tal batalha entre o amor e a palavra poética; de tal luta, no interior do ser, entre o poeta com sua dor existencial feita de indagações, de respostas sempre provisórias, de certezas nenhumas e o homem desejoso do simples amor humano e destinado à perpetuação da espécie: homem abdicado, anestesiado, por vontade própria, da consciência trágica inerente à condição de se existir e de se ser.

Venceu a Poesia. Vencemos nós. Perdeu Ofélia? Perdeu Fernando? Toda e qualquer resposta se esvai sem deixar rastro. Venceu a literatura para a qual os nomes e os destinos pessoais acabam por não ter, no decorrer da História, a menor importância.

ESPERA de otto nul / palma sola.sc

Espero-o

Não vem

Já andei em círculo

Contei carneirinhos no céu

Li um artigo num jornal

Conversei sobre o tempo

Com um desconhecido

Dei uma volta na praça

Tomei cafezinho

Fui até uma esquina e voltei

Vi duas vezes o mesmo ônibus passar

O relógio marcava uma hora a mais

Espero-o

Não virá nunca

MENINA E PAI por jorge lescano / são paulo

In memoriam Luanda Lescano

A menina estica o braço, abre a mão, os delicados dedos improvisam uma coreografia. A mão do pai rasga o pão. A crosta dourada crepita em surdina, libera o morno aroma do miolo tenro. O homem deposita o pedaço de pão na mão da filha. A menina recebe a dádiva com gesto natural. Seus dentes repetem o som ao entrar em atrito com a casca, ela sorri, os olhos fixos no rosto do homem. Ele a observa. Seus olhos parecem procurar algo muito distante no espaço, ou talvez alguma imagem antiga. Sem o saber, ambos vivem um ritual.

Os gestos de dar e receber o pão são dos mais antigos da vida familiar, pois o pão é o primeiro alimento fabricado pelo homem. Até aquele momento fundador, a espécie se alimentava com o que conseguisse colher da natureza. A cozinha limitava-se a cozer verduras, raízes, assar a carne da caça e da pesca.

Houve um momento em que a mulher plantou a semente e a família deu início à cerimônia da espera da maturação. A família colheu a espiga, moeu o grão. A mãe fez massa da farinha e a levou ao forno de onde saiu transformada em pão. Não é improvável que naquele dia este fosse o único alimento consumido, para melhor apreciá-lo. É possível que aquele dia prefigurasse muitos outros em que o pão, tornado símbolo, se multiplicasse nas mãos do pai, do chefe da tribo, do messias. Desde então sua presença, ou ausência, revela a condição dos que se reúnem em torno da mesa.

Talvez o homem pense nisto, sequer de modo obscuro, ao entregar o pão e ver a filha apanhá-lo com seu sorriso de criança e sem hesitar levá-lo à boca. Talvez o pai tente imaginar se aquele instante virá a fazer parte das lembranças da menina quando ele não mais estiver no mundo. Talvez ela guarde para sempre o olhar do pai no momento da oferta. O silêncio e a lentidão com que se deu o ato permitem estas especulações.

O IMBECIL RETÓRICO por walmor marcellino /curitiba

WALMOR MARCELLINO FOTO 1

Estranhos e perigosos

Cultura essencialmente ágrafa ou insinuantemente letrada para os efeitos de exibir-se em público ‑ na verdade, só por ter ouvido falar de questões profundas e participado de aulas e comícios, e de fraternizar num clube ideológico-político de auto-apreciação-e-estima ‑ ele é o controverso perfeito idiota que não perdoa o Lula por ser inteligente demais sem diploma e lamenta que Fernando-Henrique Color Cardoso seja cultura das ciências sociais com verniz internacional de falar cinco idiomas. porém não passando de um gangasterzinho barato nas lides capitalistas. Onde você esteja, qualquer que seja o tema, a besta não se avexa de lhe ocupar a paciência com o que leu no noticiário de O Estado de S. Paulo, na Folha de S. Paulo, em “O Globo” e nas revistas Veja e Isto É,  ou ouviu algum jornalista comentando questão em entrevista momentosa. O imbecil “prêt-a-porter” da política, à direita ou à esquerda, quer ser notado e nomeado, porque se julga “um seu igual” em preocupação, compromisso e estudo.

1 – Ele é um produtor primário que filosofa: “não cresce uma planta ou um ‘pé-de-pau’ sem que Deus queira” (ou alguém que mande mais); “não se muda metal sem competência e ambiência”, e com apoio na sorte vamos buscando resultados”. O que pensa sempre lhe serviu aos usos e assim leva seu farnel de fatuidades. 2 – Ele tem uma profissão conceituada; é “técnico” e reputado sapiente no fazer produtivo para seu circuito de relações sociais interativas; e assim por que o ele ajuíza sobre sociedade e política pode ser tão constrangedor, exceto nele? 3 – Ele tem alguma herança na prática transformadora, da matéria prima em úteis ao mercado; mas desde nunca se sujeitou a aprendiz-técnico nem se entregou à manufatura; para poder manter livre a criatividade, a idéia de produtividade em seu sentido artesanal. Suas opiniões culturais e políticas constituem uma estultice independente e alegre com que se incha de preceitos. 4 – Ele tem uma atividade liberal sacramentada no convencionado “círculo superior” da sociedade civil e na política, porém um universo de interesses inextricados atou-lhe uma presilha ao umbigo com o qual dialoga sua estupidez e vitupera seus dissentimentos. À vista de todos que o invejam de sua prosódia fluente. 5 – Ele é da organização experimentada desse sistema e da produção capitalistas. E não são importantes os fatos que vão sendo vistos e julgados e sim como ele desempenha sua interveniência magistral: como pensa e procede na avaliação do que ocorre para convencer interlocutores, produtores e alvores e propor-lhes práticas produtivas, economicidades alterativas e políticas públicas subsidiárias. Sua palavra impositiva é a articulação dos lugares-comuns com as novas tecnologias virtuais. 6 – Ele é um processador intelectual, um demiúrgo dos acontecimentos que só poderão ir aparecendo necessariamente ressaltados pela significação que lhes empresta sua inteligência. Entrementes, ele reflete sobre a singularidade de sua função social, com o privilégio do seu entendimento e na esplendência de sua iluminação sobre o que lhe toca (sua radiante weltanschaaung!) Sua compreensão é inexcedível e sua valorização soberba.

Qualquer desses filhos das classes em conflito pode ser o cretino que lhe cospe ideologia da “classe privilegiada”, que tem um pensamento “científico-filosófico” peculiar porque “politicamente adequado senão “correto”, na justificação de todos os crimes e iniqüidades. E ele será um dos merdas com que tropeçamos todos os dias nas ruas, casas e repartições; e que lhe dirá algumas “palavras definitivas” sobre qualquer assunto do momento.

A ARTE com CANETA ESFEROGRÁFICA de JUAN FRANCISCO CASAS RUIZ / espanha

A ARTE COM CANETA ESFEROGRÁFICA - JUAN FRANCISCO CASAS fot7gr

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Prêmios – de marilda confortin / curitiba


Tenho na minha sala, uma lareira velha toda enfeitada de troféus e diplomas que ganhei pela vida afora. Modéstia a parte, sou foda.

Aquele troféu bonito ali na frente é de TIRO ao ALVO. A mosca morta no centro, sou eu.

E aquela taça dourada é de quando fui campeã mundial de BOLA FORA. Não dei uma dentro.

O crânio rachado, em gesso, revestido de bronze, ganhei num torneio de CABEÇADAS.

A miniatura de vaso sanitário em cerâmica branca é um troféu de CAGADAS HOMÉRICAS.

Aqueles barcos em latão são vários primeiros lugares que tirei nos campeonatos de CANOA FURADA e por sempre ter entrado de GAIATO NO NAVIO.

O diploma azul, que parece uma passagem aérea para lugar nenhum é de TEMPO DE VÔO. Tenho acumulado milhares de milhagens de horas com a cabeça nas nuvens.

Ao lado do Atestado de Burrice, você pode ver a Certidão de Casamento e a Declaração de Divórcio. Fazem parte do mesmo Festival de Besteiras que participei.

Aquela bola branca, maciça,  no canto esquerdo da lareira, é de torneios de SINUCA. Vivo numa sinuca de bico constante.

Aquelas cédulas emolduradas, são dos MICOS que paguei e os galos de bronze, são das BRIGAS  que comprei.

Aquela dama no porta-retrato sou eu: UMA CARTA FORA DO BARALHO.

Tenho também um punhado de medalhas de desonra, luta inglória, maratonas de trabalho, levantamento de peso inútil,  prêmio iBesta, nadação, danação  e por aí vai.

No momento estou disputando o primeiro lugar no FENAESBO – Festival Nacional de Escrita de Bobagens.  Apesar do imensurável número de concorrentes, minhas chances são enormes.

¿Cuál será el futuro de nuestros nietos? – por leonardo boff / são paulo

Los pronósticos de los especialistas más serios son amenazantes. Hay una fecha fatídica o mágica de la que hablan siempre: el año 2025. Casi todos afirman que si ahora no hacemos nada o no hacemos lo suficiente, la catástrofe ecológico-humanitaria será inevitable.
La lenta recuperación de la actual crisis económico-financiera que se nota en muchos países, todavía no significa una salida de ella. Solamente que terminó la caída libre. Vuelve el desarrollo/crecimiento, pero con otra crisis: la del desempleo. Millones de personas están condenadas a ser desempleados estructurales, es decir, que no volverán a ingresar en el mercado de trabajo, ni siquiera quedarán como ejército de reserva del proceso productivo. Simplemente son prescindibles. ¿Qué significa quedar desempleado permanentemente sino una muerte lenta y una desintegración profunda del sentido de la vida?

Leonardo Boff

Leonardo Boff

Añádase además que hasta esa fecha fatídica están pronosticados de 150 a 200 millones de refugiados climáticos.
El informe hecho por 2.700 científicos «State of the Future 2009» (O Globo de 14.07/09) dice enfáticamente que debido principalmente al calentamiento global, hacia 2025, cerca de tres mil millones de personas no tendrán acceso a agua potable. ¿Qué quiere decir eso? Sencillamente, que esos miles de millones, si no son socorridos, podrán morir de sed, deshidratación y otras enfermedades. El informe dice más: la mitad de la población mundial estará envuelta en convulsiones sociales a causa de la crisis socio-ecológica mundial.
Paul Krugman, premio Nóbel de economía de 2008, siempre ponderado y crítico en cuanto a la insuficiencia de las medidas para enfrentar la crisis socioambiental, escribió recientemente: «Si el consenso de los especialistas económicos es pésimo, el consenso de los especialistas del cambio climático es terrible» (JB 14/07/09). Y comenta: «si actuamos como hemos venido haciéndolo, no el peor escenario, sino el más probable será la elevación de las temperaturas que van a destruir la vida tal como la conocemos».

Si probablemente va a ser así, mi preocupación por los nietos se transforma en angustia: ¿qué mundo heredarán de nosotros? ¿Qué decisiones se verán obligados a tomar que podrán significar para ellos la vida o la muerte?
Nos comportamos como si la Tierra fuese nuestra y de nuestra generación. Olvidamos que ella pertenece principalmente a los que van a venir, nuestros hijos y nietos. Ellos tienen derecho a poder entrar en este mundo mínimamente habitable y con las condiciones necesarias para una vida decente que no sólo les permita sobrevivir sino florecer e irradiar.

Leonardo Boff

2009-08-28

O AMOR ACABA por hamilton alves / florianópolis

Paulo Mendes Campos, que é um cronista que muito admiro, que foi fiel a esse gênero (também fez poesia) até o fim; nunca escreveu, que eu saiba, um conto, uma novela ou coisa semelhante, tem uma crônica, que li estampada no caderno “Mais”, da Folha de S. Paulo, faz uns anos, que refere várias situações em que o amor acaba.

Deu-me vontade de seguir referindo outros casos ou momentos em que o amor acaba, se isso não fosse redundante e até, por que não dizer?, fastidioso.

Sim, o amor acaba, quando menos se espera.

Nada é eterno.

Tudo começa e tudo termina. Tudo tem um início e um fim irremediáveis, nem que seja pelo mais doloroso dos fins.

– Tudo acaba. – disse-me uma vez uma namorada

Estávamos no auge do namoro e ela me disse isso de supetão, me pegando desprevenido para a idéia de um dia, sem mais nem menos, ter fim nosso relacionamento.

E teve.

Não sei o que discutimos certo dia que, sem pensar muito, lhe disse:

– É melhor acabar isso de uma vez; não dá mais certo.

Cobrara uma providência que não tomara referente a um interesse dela.

Laconicamente, respondeu:

– Sim, estou de acordo. Já vai longe essa relação.

Tinha alguma coisa para lhe devolver ou entregar no dia seguinte. Ela mesma, resolutamente, propôs a solução da entrega do objeto:

– Você pode deixar em tal lugar (citou o local  onde deixá-lo); não há necessidade de nos encontrar.

Quer dizer, amor mesmo nunca houve entre nós. Dois seres que se amam verdadeiramente não põem termo a uma relação tão friamente assim.

Paulo, na sua crônica, citou uma infinidade de situações em que o amor acaba. Diz ele: “o amor acaba numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois do teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar”, etc.

O fato é que, quando o amor acaba, cada qual sai com sua dor para seu lado, sem às vezes medir consequências, sem mesmo avaliar o que isso poderá custar. O amor acaba, sim, mas como dói tantas vezes.

(set/09)

JORNAL “A TARDE” (BA) entrevista o poeta MANOEL DE ANDRADE / cássia candra

Autor de uma obra engajada nos ideais revolucionários que incendiaram a América Latina a partir da Revolução Cubana, Manoel de Andrade se tornou alvo do Dops (Departamento de Ordem Política e Social) e teve de deixar o Brasil em 1969. Seu acervo poético dos anos que se seguiram, ainda inédito no País, vem a público 40 anos depois com a publicação de Poemas para a liberdade (Escrituras).

A poesia política, carregada de emoção, remete a uma saga literária original, que cruzou as fronteiras latino-americanas com jovens mochileiros. Editado em espanhol, Poemas para la libertad chegou à Bolívia, levado por contrabandistas equatorianos, ao Peru, Colômbia, e em 1971, na Califórnia, EUA. Seus poemas são algumas das pérolas da literatura brasileira condenadas ao ostracismo pelo AI-5.

Para o poeta, “Não houve na história um ano com tantas barricadas como em 1968”.


A Tarde – O senhor viveu os anos dourados de sua trajetória revolucionária fora do Brasil. É lamentável que tenha sido assim?
Manoel de Andrade | Pelo saldo sangrento que a Ditadura deixou na nossa história, minha saída foi o passaporte para a minha sobrevivência. Caso contrário, quem sabe não estivesse a responder esta entrevista, já que quando deixei o Brasil estava sendo procurado pelos agentes do DOPS (Departamento de Ordem Política e Social). Por outro lado, o importante era estar engajado na luta revolucionária, não importa em que país sua trincheira fosse aberta. O que tenho a lamentar foi o vazio em que caiu minha poesia naquela longa ausência e, posteriormente, pelo meu  próprio manecodesinteresse  ante as dificuldades de expressão ideológica nos anos que antecederam a abertura democrática.  Em 1968 meus versos começavam a ter notoriedade nacional, sobretudo pela sua publicação pela Revista Civilização Brasileira e o amplo destaque que vinha tendo na imprensa do Paraná. A partir da minha saída, em março de 1969,  meus versos vieram à luz em outros berços fraternos, contudo não tiveram a insubstituível carícia da pátria, nem o leite materno da língua portuguesa.

AT – Esta experiência foi capaz de gerar, consciente e gradativamente, um cidadão latino- americano?
MA | Sempre me senti um cidadão do mundo. Sentir-se latino-americano é uma postura  natural quer pelas nossas origens latinas e ibéricas, quer pelo respeito à herança cultural pré-colombiana e a própria da história libertária do Continente. Esta consciência nos coloca, antes de tudo, diante de uma memória colonial de crimes e injustiças inomináveis. Diante de sua memória o ofício do escritor é sempre um compromisso de resgate, de testemunho, de acusação e de esperança e neste sentido minha experiência de caminhante  ampliou minha consciência e, consequentemente, as dimensões dessa cidadania.

AT – No prefácio de seu livro Poemas para a liberdade o senhor diz que em 2008 sua geração “foi colocada no divã da história para fazer a psicanálise de suas ações e omissões”. Como o senhor se sente neste processo?
MA | Sinto-me muito solitário, a exemplo de outros tantos que ousaram preservar seus sonhos. A recente história política do país é um farto repositório de omissões e concessões. Mas depois de tantos escândalos é irrelevante explicitar exemplos. Os encantos do poder reuniram na pátria romanos e cartagineses e,  diante das tantas benesses,  as grandes bandeiras foram arriadas e os ideais emudeceram de vergonha. Foram tantas as sementes lançadas pelos nossos sonhos ao longo do país e do Continente. Muitas delas foram sacrificadas. Outras morreram quando mataram nossa utopia. Algumas, contudo, se preservaram no meio de tanto desencanto, resistiram às ilusões do poder e  sobreviveram com suas cicatrizes, incorruptíveis na dor e ao silêncio. Algumas dessas sementes são hoje flores solitárias num mundo político com cartas marcadas. Sobrevivem porque ainda sonham. Sabem que no mundo não há mais lugar para heróis e muito menos para o homem novo. Estamos mesmificados pela globalização e, nesta ribalta, somente os mitos são iluminados. Penso que todos aqueles que empunharam suas bandeiras naquela década de lutas deveriam honrar ainda essa memória. Nunca tivemos na história do mundo um ano com tantas barricadas como o ano de 1968. Nesse contexto, meus poemas foram apenas uma solitária expressão daquela luta, porque, nos anais dessa memória, todos  sabem que  os verdadeiros poemas da bravura não foram escritos em versos. Contudo esse foi o principal motivo porque resolvi, quarenta anos depois, publicar no Brasil os meus Poemas para a liberdade.

AT – Que Manoel de Andrade nasceu daquele processo revolucionário?
MA | Nasceu um cidadão comprometido com todos os homens.  Que já não acredita na violência revolucionária para mudar o mundo e que para isso todos devem dar as mãos para empunhar as  bandeiras da educação e da paz. Que ainda acredita no sonho de um mundo socialista.
Um homem iluminado pelo sol da liberdade e  cujo coração é uma aldeia da solidariedade. Um homem despojado de interesses pessoais.  Preocupado com a justiça, com o amor ao semelhante e a caridade para os excluídos. Um homem escravo da sua consciência e que busca nunca fazer a ninguém o que não gostaria para si mesmo. Que aprendeu a combater o bom combate, disposto a dar a outra face e perdoar as ofensas. Um homem que respeita o Criador e todas as criaturas, que vê o mundo como poeta e que acredita que a poesia e a música são as mais belas expressões da alma humana.  Um homem preocupado com sua  transformação moral e que luta para transformar seu egoísmo em amor e seu orgulho em humildade.

AT – O senhor transformou política em poesia. Que consciência tinha, naquela época, do poder dos seus versos?
MA | Meus poemas políticos  nasceram pela consciência histórica que tive do meu tempo. Em 1965, um ano depois de golpe militar, participei da Noite da Poesia Paranaense, no Teatro Guaira e ali, entre os quatorze poetas convidados, fui o único a encarar a ditadura  com o poema “A Náusea” que consta deste livro. A partir de então  minha poesia foi se engajando nos ideais revolucionários da época. A revolução Cubana era o nosso farol aceso no Caribe e ao longo da América Latina os movimentos de liberação nacional abriam suas trincheiras. Eu era estudante de Direito e depois de História e declamava meus poemas entre os estudantes e em  passeatas de protesto, panfletava suas cópias mimeografadas nos ambientes da Universidade e os publicava nos boletins acadêmicos. Não sei se naquela época eu tinha consciência do poder dos meus versos, mas embora soubesse que com a poesia não se podia mudar o mundo eu acreditava que no contexto político em que vivíamos no Brasil, o papel do intelectual, e sobretudo do poeta, era comprometer-se politicamente com a época em que vivia, como fizera Castro Alves ante da escravidão,  Maiakovski na Revolução Russa e tantos outros como Byron, Garcia Lorca, Marti, Vallejo, Miguel Hernandez, Nazim Hikmet, Guillén, Neruda, Evtuchenko e depois aqui mesmo no Brasil com Thiago de Mello, Moacyr Felix, Ferreira Gullar, etc. Se meus versos tinham ou não poder que o digam os arquivos da ditadura no Paraná  onde constam cópias mimeografadas de meu poema “Saudação a Che Guevara” — panfletado nos meios estudantis e sindicais de Curitiba em novembro de 1968 –, bem como o registro de minhas atividades e das quatro edições dos meus “Poemas para La Libertad”, na América Latina. Que o digam também os registros da ABIN, em Brasília, relatando minhas atividades como intelectual, e “difamando o nome do Brasil no exterior”. Por certo o poder da minha poesia estava em seus versos libertários, seu poder de denúncia, em sua ânsia de convocação para um sonho que contagiava um continente inteiro e por eram também um lírico manifesto de esperança em um mundo novo.

AT – Como avalia o movimento que vivenciou? Que cidadãos e que sociedade foram gerados naquele processo revolucionário?
MA | Foram muitas sementes lançadas pelas vanguardas revolucionárias em todo o mundo, mas, à semelhança da “Parábola do Semeador”, a maioria delas se perdeu pelos caminhos, ou caiu entre as pedras e no meio dos espinhos. A exemplo da simbologia cristã, muitas daquelas sementes não brotaram porque caíram no terreno árido dos longos anos de ditaduras que reprimiram várias gerações  latino-americanas, deixando a juventude órfão de valores políticos e culturais. Outras brotaram, mas suas raízes não mais encontraram, no tempo, o terreno histórico para fecundar suas flores e seus frutos e outras ainda foram sufocadas pelos espinhos do capitalismo perverso e suas ilusões consumistas. As poucas sementes que caíram na boa terra brotaram e se preservaram imaculadas na seiva do ideal. Contudo os tempos já eram outros, marcados pelos cacos das grandes ideologias e seus sonhos foram marginalizadas pelo oportunismo dos seus próprios pares e pelos interesses e equívocos de uma sociedade dominada pela esperteza, pela corrupção e pelo hedonismo. Escrevi, no ano passado, pela memória dos quarenta anos de 1968, quatro artigos enfocando o problema estudantil no Brasil e no Mundo e sua opção pela luta armada na América Latina. Toda a essência desta pergunta e sua resposta estão avaliadas nas considerações finais do 4º artigo: As barricadas que abalaram o mundo”, à disposição na Internet.

AT – Qual o seu olhar sobre a América Latina hoje?
MA | É historicamente gratificante ver a América Latina representada politicamente por uma grande mobilidade social.  Na Venezuela, na Bolívia e no Equador o apoio popular tem permitido avanços mais profundos nas estruturas sociais, visando abolir seculares desigualdades de classes. É um período de transição, em que os governos mais corajosos começam a desterrar as teses  neoliberais que dominaram a política do Continente no século passado. Creio que finalmente a América Latina começa a despertar para o mundo, política e economicamente. É desejável que a integração do Brasil com a América Latina se torne ainda muito mais fraterna.

NOSSA VINGANÇA por alceu sperança / cascavel.pr

Quando perdemos amigos involuntariamente, por motivos externos, parece que um mecanismo igualmente involuntário é acionado. Pensamos que se estivéssemos mais presentes, solidários ou parceiros poderíamos ter evitado essa perda. E vem aquela ideia, que por vezes acode apenas por alguns poucos e fugazes momentos, de que pelo menos agora deveríamos ser mais presentes, solidários e parceiros dos amigos que ficam.

Agora mesmo sentimos a perda do artista plástico Wanderley Damasceno, como sentimos antes as perdas do Andrezinho Costi e do advogado Aírton Reis, sobre os quais a colega Lara Sfair e o eterno camarada Mário de OliveiraAlceu sperança  - AJC (1) já teceram memoráveis referências.

Sobre o André, tenho a declarar que um dia chegamos a tramar o esboço de um festival de música, um Woodstock cascavelense, a partir de uma idéia fixa do companheiro Chicão Lustosa.

Sobre o dr. Aírton, vale a recordação agradecida de Mário Ferreira de Oliveira. Quando Mário foi preso, na ditadura, acusado de montar um arsenal de armas para uma inexistente “subversão comunista” do PCB, o dr. Aírton Reis foi defendê-lo.

Reis não só foi impedido de verificar as dramáticas condições carcerárias em que Mário estava, sofrendo ofensas e torturas, como também ele próprio foi maltratado. São episódios que não podem ficar esquecidos nem ocultos.

Curiosamente, nosso Wanderley Damasceno, o último a pular daqui pra lá, ao ser recrutado pelo PCB tomou a iniciativa de reunir armas para uma tomada de assalto ao prédio da Prefeitura de Cascavel. Fui o encarregado de dizer a ele que a ação era descabida: a revolução percorre os caminhos da consciência política, não os da aventura irresponsável.

Coisa difícil de dizer a um entusiasmado camarada, pois eu próprio achei a coisa de um romantismo fenomenal e até senti vontade de participar!

Se não pudemos ser mais solidários, presentes ou parceiros de Damasceno, Andrezinho, Aírton, da menininha Emanuele, assassinada no acampamento de sem-terras, da garota executada no Bobódromo, dos idosos e das crianças que sucumbem à violência do trânsito, dos que sofrem as epidemias de gripe suína, dengue e hepatite resultantes da falsa “prioridade” à saúde, dos jovens trucidados na periferia, temos ao menos que estar e ser presentes, solidários e parceiros dos familiares e amigos que sobrevivem e procuram, com amor e emoção, transformar este chamado “vale de lágrimas” num planalto de humanidade, carinho e construção.

Sem deixar de derramar as lágrimas cabíveis, pois continuam chorando em nossa Pátria mãe gentil as Marias e Clarices, devemos ter claro que nenhuma homenagem seria mais necessária, suficiente e eficaz aos nossos mortos que zelar fraternalmente pelos que ficam.

Para que não se desesperem, para que se reanimem, para que reforcem o ímpeto progressista de sua missão nesta vida e neste solo. Para que combatam a chaga triste da exploração do trabalho humano, do enriquecimento com o sofrimento dos homens, do neoliberalismo e seu aquecimento global, do espírito belicoso e ofensivo da indústria de armas, da sanha homicida dos senhores da droga e das finanças, do culto à filosofia hobbesiana de que “o homem é o lobo do homem”.

Que uma dor assim pungente não seja inutilmente a derrota, o entregar dos pontos, a desistência de tornar este mundo melhor para os familiares dos nossos mortos, para seus amigos que ficam e querem extrair dessas dores e lágrimas todas a melhor vingança possível.

E qual seria ela? A transformação do Brasil num país melhor, mesmo sendo hoje oprimido pela conversa mole de Lula e seus parceiros, liquidando direitos, trapaceando com a poupança dos pobres e o dinheiro dos trabalhadores, em seu papel odioso de agentes internos, a quinta-coluna do neoliberalismo.

E a vingança maior de transformar este mundo num lugar melhor para viver, pois isso, apesar das dores pungentes, das lágrimas e das armas quentes, é não só possível como absoluta e inevitavelmente necessário/obrigatório se não queremos abdicar de nossa humanidade e de manter a vida soberana sobre este planeta.

Haverá luz e alegria no fim do túnel. Mas ainda temos que cavá-lo.

PROFECIA de solivan brugnara / quedas do iguaçu.pr

Na minha morte

milhões de pássaros vão cantar

por que milhões de pássaros cantam sempre.

Crianças nascerão,

por que  crianças nascem todos os dias.

e como combinado também

muitos homens morreram na mesma hora

que homens morrem a todo minuto.

Flores se abrirão

por mais que aqui seja inverno,

mas em algum lugar do mundo será primavera

e lá as flores se abrirão

E rosas secarão em jardins e floriculturas

Porque a muito tempo que rosas secam nos jardins

e causam prejuízo nas floriculturas

Neste dia uma pomba fará seu primeiro vôo

e nos cantos escuros e camas de toda a terra

haverá êxtases e fecundações

e terá em algum lugar  chuva, em outro sol

em metade do planeta será claro em outra, escuro

como no ing-iang

E posso profetizar

Que na exata hora da minha morte

alguns copos e pratos  se quebrarão

para sempre

por que é corriqueiro que pratos quebrem

VOAR, SEM GLAMOUR por sérgio da costa ramos / floranópolis

Viajar, ser outro em outros países, como poetou Fernando Pessoa, já não desperta os mesmos prazeres dos tempos dourados.

Os acordes de Fly Me to the Moon, ou Come Fly with Me, como festejava Frank Sinatra, resumindo a alegria de voar, transformaram-se em Missa de Réquiem depois do 11 de setembro de 2001. Os terminais se tornaram sucursais do SÉRGIO DA COSTA RAMOS 1hospício, com passageiros tresnoitados, overbookings e hordas de viajantes indignados, entregues à má sorte. As companhias aéreas e os aeroportos simplesmente não conseguiram crescer com a mesma velocidade do “mercado” e naufragam ao peso da incompatibilidade de custos: terminais malconservados ou inadequados, companhias aéreas falidas.

Voar, a partir de qualquer aeroporto rotulado como busy ou “muito ocupado” transformou-se num pequeno calvário. Se o aeroporto se hospeda nos Estados Unidos, onde voaram os “pilotos” de Bin Laden, então, a experiência é ainda mais desagradável. E acaba revogando todos os direitos individuais já conquistados pelos homens nos dois séculos e meio que se seguiram à Constituição de Filadélfia. Até ministro brasileiro já ficou descalço para as autoridades da alfândega, em Nova York…

Voar perdeu o glamour, depois da grande tragédia das torres gêmeas, na mesma Manhattan antes festiva, durante aqueles anos dourados de muito jazz, paz, fleuma e vida mansa.

Os aeroportos estão travestidos num grande formigueiro de moscas assustadas – os passageiros – submetidas aos “zangões” da imigração ou da segurança. Só no segundo trimestre de 2009, cerca de 900 brasileiros tiveram seu acesso negado pelas autoridades do Aeroporto Internacional Roissy-Charles de Gaulle, em Paris.

Foi de brasileiros a nacionalidade mais barrada na França, depois dos chineses – e isto, em pleno Ano da França no Brasil! Por conta desse minueto cultural, as autoridades francesas concordaram em refrear o seu controle draconiano. Mas os aeroportos estão transbordando de mau humor e de intolerância.

As estatísticas comprovam que ainda é muito seguro voar. Mas nunca tantos estiveram tão à mercê de acidentes fatais, como os passageiros da geração “digitalizada”, seus destinos cruzados com os dados de um supercomputador que voa a 10 mil metros de altitude. Quando um desastre aéreo acontece, a tragédia desaba sobre homens e mulheres emboscados no meio da noite – o breu gélido e assustador invadindo os charutos metálicos e os desintegrando ares abaixo, rumo ao cume das montanhas ou ao inóspito assoalho dos oceanos.

Nem por isso o verbo “viajar” deixará de ser conjugado pela humanidade – pois, a despeito dos terroristas ou do mau funcionamento de algum computador, o homem só foge do tédio se o passar dos dias lhe trouxer novos horizontes.

Pena que o preço seja cada vez mais alto. Se não em dinheiro, em dignidade e cidadania. Glamour, nos aeroportos de hoje, só se o passageiro brincar de ser um astro hollywoodiano e desempenhar o papel do “hóspede forçado”, como o Tom Hanks de O Terminal.

PRIMAVERA de philomena gebran / curitiba

TULIPAS ROJAStulipas.  foto livre.

urgente preparar-me

acordar, ficar atenta

prestar muita atenção

.

para quando a primavera vier

.

quero lavar-me no fraescor

do orvalho da manhã

mesmo antes de o sol chegar

.

para quando a primavera vier

.

quero despir-me da noite

do frio, da bruma da névoa

das nuvens, do chumbo

.

para quando a primavera vier

.

quero lavar meu rosto pálido

minhas mãos vazias e frias

meus olhos cinza e triste

.

para quando a primavera vier

.

quero soltar meu coração

quero correr livre e nua

beber o ar da manhã,

.

para quando a primavera vier

.

quero deitar-me na grama,

cobrir-me de flores

vestir-me de todas as cores

.

para quando a primavera vier

.

quero abrir meu corpo, minha alma

libertar-me de tudo, de todos

entregar-me nua e pura

.

quando a primavera chegar

FLORIANÓPOLIS, ilha dos nomes flutuantes – por charles silva / florianópolis

Quando o poeta Zininho escreveu o verso “um pedacinho de terra perdido no mar”, não fazia referência a nenhuma ilha flutuante. Ele cantava uma ilha de cinquenta e quatro quilômetros de comprimento, cujas cristas montanhosas permanecem petrificadas até hoje. Ele cantava a figueira centenária e profundamente enraizada, a lagoa de águas azuis e sonolentas, a natureza exuberante de uma paisagem que se renova constantemente sem sair do lugar. E foi assim, reunidas e paradas, que as belezas deslumbrantes e eternizadas pelo tempo encheram os olhos e o coração do poeta: “Jamais a natureza reuniu tanta beleza! Jamais algum poeta teve tanto pra cantar!”

O mesmo não se deu com o nome. Os índios carijós, muito antes dos portugueses, chamavam a ilha de “Meiembipe”, palavra que traz a ideia de “montanha ao longo do rio”. O italiano Sebastião Caboto, a serviço da Espanha, numa de suas expedições, por volta de 1526, desembarcou na ilha e assinalou em seus mapas o nome de “Porto dos Patos”. Decerto que o topônimo está ligado a uma grande quantidade dessas aves, que imitando a flecha certeira dos legítimos donos da ilha, espetavam os pequenos peixes, pingentes prateados sob a lâmina azul daqueles dias.

Pouco mais de três anos da chegada de Caboto, tanto ele como um outro navegante, Diego Ribeiro, passaram a anotar em seus mapas o nome de “Ilha de Santa Catarina”. Não se sabe se tal nomenclatura foi uma homenagem de Sebastião Caboto à sua esposa, Catarina Medrano, ou a Santa Catarina de Alexandria, venerada pela Igreja Católica até 1969, quando foi banida do Calendário Litúrgico por falta de provas históricas de sua existência.

Devido a sua localização, era comum a visita de portugueses e espanhóis à ilha. Praticamente todas as embarcações que partiam do Rio de Janeiro em direção ao Rio da Prata, entre Argentina e Uruguai, necessitavam de reparos, água e víveres de toda sorte. Assim, no ano de 1623, aportou na ilha o bandeirante Francisco Dias Velho, provavelmente por sugestão do Governador do Rio de Janeiro, Salvador Correa de Sá e Benevides, e deu início ao povoado de “Nossa Senhora do Desterro”. O nome do novo povoado foi motivado por ser a ilha, à época, habitada por vários desterrados. A estes, juntavam-se náufragos, marinheiros desertores e alguns frades franciscanos.

Quase três séculos se passaram até a eclosão da Revolução Federalista em 1893, no Rio Grande do Sul. À frente dos acontecimentos estava “o primeiro vice-presidente a se tornar presidente”, o marechal Floriano Peixoto, que se revelou um ditador implacável, crudelíssimo, inimigo de toda e qualquer liberdade. Os federalistas gaúchos exigiam que Floriano se pautasse pela Constituição. Como o marechal não fosse homem de acordos, em pouco tempo os três estados do Sul se revoltaram. A ilha assistiu ao conflito sangrento entre “federalistas” e “legalistas”, até que, no ano seguinte, em 1894, Desterro foi ocupada pelas tropas de Floriano Peixoto. O Coronel Antônio Moreira César assumiu a chefia estadual. Seguiu-se uma ferrenha perseguição aos revoltosos, que em poucos dias foram fuzilados impiedosamente, sem direito algum de defesa.

A julgar pelos acontecimentos históricos, o nome atual da ilha recai como uma ironia ácida às famílias que viram muitos de seus membros serem assassinados friamente. Em homenagem lúgubre à carnificina imposta pelos vencedores do conflito, a ilha passou a se chamar “Florianópolis”, a “cidade de Floriano”, o terrível marechal.

É claro que hoje o nome soa antipático apenas aos que conhecem a outra parte da história do “pedacinho de terra perdido no mar”. Várias sugestões já foram dadas para que a ilha mudasse mais uma vez de nome. Já se falou em “Ondina”, que segundo a mitologia germânico-escandinava eram ninfas aquáticas de beleza extraordinária. Essas ninfas estariam ligadas à eternidade e efemeridade do amor. O nome é bem apropriado, posto a ilha como um símbolo do amor do Oceano Atlântico, que embora seja conhecedor de todo o corpo de sua amada, não pode adivinhar-lhe o nome exato.

Conquanto as empresas de turismo tenham explorado bastante a expressão “Ilha da Magia”, atualmente os moradores da cidade a chamam carinhosamente de “Floripa”. As ruas do centro ostentam dois nomes em cada placa, o atual e o antigo. Através dos antigos nomes, “Rua do Príncipe”, “Rua da Paz”, “Rua da Saudade”, pode-se flanar também pela atmosfera poética que continua adoçando toda ilha. É quando o caminhante mais sensível observa, na penumbra do palimpsesto urbano, o verdadeiro tesouro da ilha dos nomes flutuantes… Mais do que uma descoberta, um momento de puro amor.

(Charles Silva é poeta da ilha, graduado em História e mestre em Educação)

A VIDA COM TEMPO de osvaldo wronski / curitiba


O satélite fotografa a alma da chuva

Que por acima se aproxima

Fazendo-nos ficar a sós

.

Nada podemos contra o seu avanço

Que medonho e cativante nos enfrenta

estremecendo todas as estruturas

.

Vamos dar um tempo ao tempo

Este pode ser um bom momento

Para acompanhar os seus estágios

.

Por momentos nos contemos

Cercados por água saciante

Benvinda de todos os lados

.

Lá fora  a água retinge a cor da tinta

Invadindo lugares, privando a cidade de pessoas

Que andam em círculos sobre o metro quadrado

.

Nuvens obscuras encobrem o céu

O raio aponta para o chão

estarrecendo o cenário

.

Indo até aonde nós nos temos

Debaixo de algum abrigo metereológico

O clima se modifica e tudo se reedita

.

Chuva que cai como uma luva

quem me dera ficar ao deus dará

e ver o tempo que não para de cessar

QUERO SER FADA de ana carolina cons bacila /curitiba


Fada das quatro estações,
me traz emoções,
me traz meu sonhar.

Crio coragem pra te falar,
quero asas para voar,
sonho do coração.

Asas negras para o inverno.
Asas vermelhas para o verão.

Asas marrons para o outono,
Asas rosadas para a primavera.

Asas de anjo
para confortar um coração.

.

ana carolina (16) faz parte do grupo jovens poetas do site.

IMPACIÊNCIA de josé dagostim / criciúma

Impaciência

O tempo corta-me num cerco implacável. Percorro perdido entre os limites da rota e o balanço, num ritual que tenta agradar os deuses da lentidão. Minha dança é sem compasso, presa no entroncamento do destino. Avanço o sinal num gesto previsível que acusa o agastamento do logradouro…


ÁFRICA de nelson padrella / curitiba

Os rios eram azuis na folha de cartolina. Tão azuis quanto os olhos de Margot. Ela ficou de vir estudar aqui em casa, ela e seus olhos muito azuis.

Os garotos vieram me procurar para a gente ir brincar. Bem que eu estava com vontade de descer a rua no carrinho de rolimã, mas a menina era muito mais importante.

Quando a campaínha tocou meu coração mudou de lugar. Margot entrou sobraçando cadernos. Nem um beijo à porta.

Sentados na sala grande como crianças comportadas. a África era nossa, onde sonhávamos safáris. Os faraós nos aguaravam, deitados pacientemenmte em seu sono de pó. O pó dos séculos deve ser como a areia do Sahara. O Nilo foi criado no papel, sem ameaça de crocodilos. Só o azul das águas ameaçava.

– Quando desenhei o rio pensei nos teus olhos.

Ela, concentrada na leitura de um texto.

Falo de maneira diferente:

– Teus olhos me lembram o Nilo.

Ela deixou o interesse pela leitura.

– Meus olhos estão cheios d’água?

– Não – eu disse.

– Cheios de faraós?

Abaixei a cabeça não envergonhado, abaixei para sorrir melhor.

A menina continuava me provocando:

– Então, meus olhos…(fez uma grande pausa, inventado o que dizer)…eles são os maiores do mundo?

– Sim – respondi.

Ela se admirou. Olhou séria para mim:

– Tenho olhos tão grandes assim?

– Não, Margot. Os olhos de você são os maiores do mundo em beleza.

Ela continuou seria. Retomou o texto, como se o que eu tivesse dito não importasse. Depois, apanhou a ecoline e ia pincelando savanas na África inventada. Parou nas margens do Nilo.

– Por que você disse aquilo?

O cheiro de Margot me inebriou. Flores da África ofereciam perfume. O siroco me sufocava com seu ar quente.

– Disse porque é verdade.

Agora, era ela quem se perdia. Retomou o desenho, mas a caneta parada na mão era como a caravana indecisa nas areias, que não sabe o rumo a ser tomado. Ela olhava para fora, o jardim onde verdes se insurgiam.

– E se fossem verdes?

– O quê?

– Meus olhos. Se fossem verdes?

Pensei um pouco, mas ela respondeu antes que eu falasse.

– Iam lembrar o lodo do fundo do Nilo?

Ela estava contrariada e eu não atinava o motivo. Era quase agressiva quando olhava daquele modo para mim.

– Não, Margot. Se fossem verdes me lembravam das florestas da África.

Paramos de falar. Da rua, gritos alegres de crianças. Um perfume vindo não sei de onde. A vontade de tocar na menina.

– Um dia queria ir pra África – eu disse.

Ela não respondeu. Talvez não tivesse o que dizer. Eu me enchi de coragem.

– Queria navegar no rio Nilo.

Ela ergueu o rosto e estava sereno. Era um sorriso nascendo no canto dos lábios?

– Queria navegar nos teus olhos – eu disse.

Ela abaixou a cabeça e fez que sim. Eu toquei com a mão em seu ombro e ela suspirou. O segredo da esfinge desvendado. Trouxe a cabeça da menina até perto da minha.